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JUNHO — AGOSTO · 2011 ASSOCIAÇÃO RENOVAR A MOURARIA WWW.RENOVARAMOURARIA.PT DISTRIBUIÇÃO GRATUITA

João “Pilas” 38 anos português nasceu e vive na Mouraria auxiliar de topógrafo desempregado há 3 meses


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Rosa Maria

Junho — Agosto, 2011

destaque texto

António Henriques, Carla Maurício e Marie-Line Darcy Infografia

Paulo Oliveira

Mouraria moderniza o seu labirinto Estão previstas obras no espaço público e um percurso turístico que atravessa parte do bairro, habitado por 30 etnias diferentes A Mouraria vista de fora é um casario maciço e impenetrável: “uma frente muito consolidada”, nas palavras de Teresa Duarte, da equipa de coordenação do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) para o bairro. Está rodeada de zonas muito amplas e de vistas largas, como a Baixa, o Martim Moniz e o próprio Castelo, que contrastam com a falta de amplidão das zonas da Mouraria – o que faz a sua especificidade e cria os mitos da insegurança permanente, cena popular e marginal ao mesmo tempo. Vista de fora, parece impossível vê-la por dentro: ruas apertadas, becos, cotovelos, nós, curvas, geografia do desejo e da possibilidade da perdição. Este traçado retorcido, ontem considerado perigoso e fútil, é a excitação da Mouraria hoje. Outra excitação, as etnias que aqui vivem (29 ao todo, além dos portugueses, de acordo com um estudo do Centro de Estudos Geográficos da Faculdade de Letras de Lisboa). “A forte implantação de comunidades estrangeiras ligadas ao comércio de bens de consumo e a reestruturação operada no Martim Moniz contribuíram para estabelecer um processo de mudança que deve ser conduzido” de modo a preservar as “características do ambiente e património”, lê-se num documento de 2010 sobre a reabilitação da colina do Castelo. Estas comunidades são referidas nos textos oficiais como um valor ímpar, do lado dos ‘pontos fortes’, a par do muito pequeno comércio e da existência de edifícios e outras construções ‘notáveis’, como a Muralha Fernandina (século XIV) que atravessa o bairro, habitado por cerca de 5600 habitantes. Mas é para começar a atacar as suas fraquezas (degradação e abandono dos edifícios, população envelhecida e com poucos recursos, “prática de comércios ilícitos”, segundo a expressão do plano de intervenção no bairro; e uma ideia de ‘estigma’, que constrói tanto a ideia do encanto da Mouraria quanto a do perigo que todo o encanto transporta) que estão previstas várias obras no âmbito do QREN. A candidatura da requalificação da Mouraria através do QREN foi aprovada em 2009 e anunciados sete milhões de euros para investimentos ao longo de três anos. “A valorização do património histórico degradado e do espaço público deverá atrair o investimento dos particulares nos imóveis abandonados”, diz Teresa Duarte. O

melhoramento de um ‘corredor’ que atravessa o bairro, entre os largos Adelino Amaro da Costa e do Intendente, é a obra de maior visibilidade: vai criar um percurso turístico no coração da Mouraria. É neste eixo que se desenvolvem ou irão desenvolver actividades culturais (Casa da Achada, Sítio do Fado na Casa da Severa e, nas proximidades, o Quarteirão dos Lagares) e estão sedeadas as áreas de maior vitalidade económica do bairro, principalmente na Rua do Benformoso. É também a zona onde há muito comércio, sobretudo grossista, e restaurantes com a gastronomia de vários continentes. Tão importante, do ponto de vista simbólico, como a intervenção no corredor referido, é a do Quarteirão dos Lagares – onde vai aparecer um novo equipamento, o Centro de Inovação da Mouraria, pólo para sede de empresas de inovação.

Largo dos Trig ueiros Extensão das instalações das juntas de freguesia de Sã o Cristóvão e Sã o Lourenço (t endo em conta o ac tual mapa de freguesias de Lisboa). Com uma área de 290 m etros quadrado do se is pi so o espa s prev 14 anos. Ambo ço está pensado para crianç istos (ver ao lado), as e jovens do s os pisos têm s6 acesso para pe reduzida. Os arqu ssoas com mob aos ilidade claras tanto no itectos propõem o uso de cores interior como no exterior pa ao conjunto da ra assegurar ‘le construção. veza’

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Palácio da Rosa Esteve prevista a sua recuperação e a construção de um hotel, numa proposta que pretendia eliminar os acrescentos que descaracterizaram o imóvel como residência ‘nobre’. Hotel e palácio seriam ligados pelo vistoso pátio de entrada.

Museu da Casa da Severa , num exemplar de A ser instalado na Rua do Capelão pisos, onde terá vivido arquitectura de habitação com três ponto de encontro um Será . raria Mou a famosa fadista da um café. Será criada terá e para actividades ligadas ao fado públicos que ços espa dos um o, uma esplanada no larg será requalificado.

Piso inferior inclui duas salas de actividades para grupos, cada uma com capacidade para 30 pessoas.

Piso superior: sala multiusos, incluindo refeitório; terraço que se prolonga por um jardim.


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Recuperação e consolidação do muro existente. Auditório para espectáculos. Conjunto edificado, com espaço de recepção no Beco dos Lagares.

Criação de espaços de trabalho para pequenas empresas, consultórios e actividades sociais e culturais.

Quarteirão do s Lagares Conjunto re side de cinco edif ncial ício característica s, com s se século XV, um nhoriais do dos exemplos significativo s em Lisboa de uma organiz ação do espa dez anos, num em diferentes níveis e ço pátios. Há m a ais de foram descob acção de limpeza do lo gradouro ali ertos numa ex cave vestígio por fragmen s de uma fon istente, tos de porcel te decorada ana oriental, da expansão do princípio portuguesa do tempo no mundo.

Sala de conferências e concertos com capacidade para 50 pessoas.

Fontes dos séculos XIV, com azulejos, e do século XV, com porcelanas orientais.

Percurso turístico Atravessa o bairro entre os largos Adelino Amaro da Costa e do Intendente e é a obra de maior visibilidade. Neste corredor situam-se os edifícios de maior valor patrimonial: igreja de S. Cristóvão, Recolhimento do Amparo, edifício com arcos góticos no Largo da Achada, Palácio da Rosa, igreja de S. Lourenço, Colégio de Santo Antão-o-Velho.

Rua Joã o Repavim do Outeiro de jard entação, colo im c além d , mesas e no ação de banc e plant o v ação d as zonas de e s cara no e árvor star, va a es e s vão d ta zona ar uma .

ão a

Apoio rado,

o Amar ia ourar

Largo da Achada i ser substituído O pavimento va estacionamento o e reorganizado automóvel.

Sobre o QREN

Financiamento de intervenções prioritárias até 2013, tendo em conta a qualificação do território, o valor do conhecimento, a ciência, a tecnologia e a eficiência do serviço público.

Requalificação do espaço público Percurso turístico-cultural Imóveis classificados pela autarquia Património cedido à EPUL para reabilitação Áreas ou imóveis que vão sofrer intervenção

Largo de São Cristóvão O QREN centra-se no melhoramento do espaço público, com criação de zonas de estar, regularização de pavimentos, novo mobiliário urbano e informação (sinaléctica) junto dos edifícios mais relevantes.

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Rosa Maria

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crónica

notícias CAMILLA WATSON

LADRÕES DE BICICLETAS Tiago Santos músico

“Essa também é para vender? Quanto custa?” A pergunta no beco, como uma osga na parede numa tarde de sol, e a tensão subiu. Não tanto como a Calçada é verdade, mas subiu. Era a primeira vez que passava ali de bicicleta, entre dealers e agarrados, velhotes e putos de ranho no nariz. A pergunta era inevitável. Afinal aquele era o ponto de paragem para tantos ladrões de bicicletas que ali as vendem por 20 euros para calar o vício numa esquina qualquer duas ruas acima. Eu é que não era para estar ali àquela hora em que o fado escorre paredes abaixo para regressar a casa e ser dono da Mouraria. Mas era tarde demais, havia que enfrentar o destino como se enfrentam os carris do eléctrico na calçada de basalto. Olhei-o e a sua figura de Crusoé de bairro, cabelos desgrenhados e peito aber­ to numa camisa aos quadrados, esperava a resposta na ponta dos seus olhos rodeados de barbas e cabelos, enquanto as mãos negras distraidamente desapertavam um saco de plástico. “Esta não!” - respondi como quem acaba de vencer outro carril de Lisboa e guinei a bina lançando-me em mais uma subida. “Espera!” - gritou ele e a osga na parede parecia estar a olhar para mim. Parei a bicicleta e vi-o aproximar-se. “Já que vais por aí tenho uma história para te contar”. Sentámo-nos no muro e ele começou.“Nessa estrada vive um homem. Ele não podia imaginar como a desesperança que sentia se podia dissipar só por ter encontrado um dia uma rapariga. No momento em que a viu, de coração acelerado a saltar-lhe do peito e de olhos atónitos ainda nela esquecidos, voltou a descobrir aquela vontade distante de acreditar, de se ver em alguém, de se deixar levar. Desde então a sua vida ganhou outras cores. O vermelho da raiva que o gastava passou a ser apenas a cor dos lábios dela. O negro dos seus dias sombrios era agora a beleza da cor dos cabelos dela, que imaginava entrelaçar nos dedos enquanto lhe lia os olhos. Encantado por tanta beleza, atirouse a adivinhar o que faria se a voltasse a ver. Como lhe falar e disfarçar o medo? Como lhe segurar a mão? O tempo passou. Pousou os olhos nas estrelas e abandonou-se à noite. Esperou, esperou e esperou ainda mais. O tempo deixou de contar. Os dias, como um rio, corriam todos para ela, agora esse seu mar aberto num peito fechado pelas tempestades do passado. Só via o dia em que a encontraria de novo. Agora, com medo de a perder, todos os dias ele acorda, come e se penteia, se veste e apruma como num domingo na igreja, sempre à janela à espera para a ver passar. Todos os dias, entre todas as sombras da sua completa ilusão. Toda a sua vida à janela à espera… à espera… à espreita…à espera…”. Voltei a subir para a bicicleta sem saber se tinha percebido a história. Comecei a pedalar e para trás ia deixando um dos cantos da cidade que por ventura os guias turísticos dirão que convém nunca lá passar. Pois passem. Venham e sintam. Hoje passo lá todos dias, sem nunca levantar as mãos do guiador, não vá ser traído por aqueles buracos gigantes que ali se escondem, só para nos engolir.

O doce amargo do Chão do Loureiro

EPUL Martim Moniz em Marcha

Era para ter sido um museu ou um centro cultural. Encerrado durante anos, o Mercado Chão do Loureiro, no Largo do Caldas, alberga agora um silo para cerca de 200 automóveis (inaugurado no início de Junho), um restaurante, uma esplanada e um supermercado. É um doce para uns, mas um amargo de boca para outros. O parque tem 192 lugares distribuídos por seis pisos, com 32 lugares destinados a veículos eléctricos que podem ser carregados enquanto estão estacionados. Foram construídas várias clarabóias, que permitem a entrada de luz natural, e as paredes foram decoradas com graffiti de cinco artistas. O edifício foi requalificado e dispõe de dois elevadores panorâmicos que sobem do Largo do Caldas até à Costa do Castelo. O acesso aos elevadores será gratuito para os residentes naquela zona, com cartão de acesso aos bairros históricos. Os restantes utilizadores terão de pagar um euro para subir, mas a descida é gratuita. O equipamento vai ter um restaurante e cafetaria no terraço - com esplanada e vista para o Tejo -, que vai servir comida tradicional portuguesa e africana. Segundo o jornal Público, a requalificação do edifício, a cargo da Empresa Municipal de Mobilidade de Lisboa (EMEL), custou 3,6 milhões de euros, mais um milhão de euros do que inicialmente previsto.  O projecto não é pacífico. Muitos habitantes do bairro questionam a construção de um elevador no exterior do edifício e a consequente destruição das vistas no topo das Escadinhas do Chão do Loureiro. Um dos aspectos que os moradores não compreendem - apurou o Rosa Maria - é a razão pela qual não se utilizou a antiga caixa do monta-cargas que já existia no interior do edifício e que, asseguram, era suficientemente larga. O acesso a esse elevador poderia ser feito através de uma passagem construída ao nível da rua e podia ter-se evitado a construção da caixa de elevador que destruiu a vista deste miradouro da cidade. NF

As obras iniciadas em Novembro passado no empreendimento “Residências do Martim Moniz” deverão estar concluídas no primeiro trimestre de 2012. Será o ponto final numa longa batalha pela conclusão de um projecto que teve início no mandato de João Soares na Câmara Municipal de Lisboa (CML) e que estava parado desde 2008. A Empresa Pública de Urbanismo de Lisboa (EPUL) avançou agora com a construção de 130 fogos habitacionais e 14 espaços comerciais depois de a empreitada ter sido consignada à empresa Habitâmega. Das 130 fracções existentes, 48 estão vendidas. As “Residências do Martim Moniz”, destinadas a habitação jovem, começaram a ser construídas durante a presidência de João Soares na CML, mas o projecto já passou pela secretária de mais três presidentes. Inicialmente, a construção foi travada por pesquisas arqueológicas, depois, durante a presidência de Pedro Santana Lopes, o projecto foi reformulado, e, mais recentemente, com António Costa, a obra mudou de empreiteiro. Os avanços e recuos do projecto ao longo dos últimos 11 anos têm arrastado a conclusão da obra. O primeiro contrato de promessa de compra e venda data de 2001. Alguns dos oitenta e seis jovens que sinalizaram a compra de casas no empreendimento já desistiram de viver ali, outros mantêm-se no projecto e continuam à espera de habitação e há quem esteja a pagar dois empréstimos à banca. Novo Centro de Saúde A EPUL vai ceder, no empreendimento, um espaço para a instalação do Centro de Saúde no Martim Moniz, que irá servir cerca de 18 mil habitantes dos bairros limítrofes. Segundo noticiou a Agência Lusa, citando uma fonte da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, esta intenção resulta de um protocolo assinado em 2009, que definia um “pacote de instalações de saúde em Lisboa”, algumas “construídas de raiz em terrenos cedidos pela Câmara


de Lisboa” e outros instalados em empreendimentos da autarquia. É o caso deste novo centro de saúde, a construir numa fracção de um empreendimento que pertence à EPUL, e que vai “corresponder à passagem de instalações de outros locais de saúde das redondezas, como por exemplo, parte dos centros de saúde das Mónicas e de São Nicolau”, adiantou a mesma fonte. Está também reservado um lote com uma área de 1950 metros quadrados para a construção do futuro quartel de bombeiros do Martim Moniz. As obras incluirão também os arranjos exteriores da Torre da Pela e da Muralha Fernandina (propriedades do Ministério da Cultura), planos que não estavam contemplados na empreitada anterior. NF

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vice-presidentes, Khaled Hossain, para secretario-geral, Salahudddi, para vice-secretario, Taher Chowdhury ficou como secretário cordenador, Mohin Hassan Saker é o vice-secretário coordenador e Faruk Akbak é o secretário financeiro. Esta nova comissão pretende desenvolver iniciativas com vista a reorganizar as condições de vida e dinamizar as actividades culturais e espirituais da comunidade do Bangladesh em Portugal.

Eleições na comunidade Bangladesh No passado dia 10 de Abril de 2011 realizaram-se as eleições para a comissão dirigente da Associação do Bangladesh em Portugal. Do acto eleitoral, no qual participaram quase 1500 pessoas, resultou a vitória da lista Verde, liderada por Rabbir Hassam e Khaled, contra a lista Azul, liderada por Taslin Rana e Forhad, por uma diferença significativa. Da lista verde foram eleitos o presidente, os vice-presidentes, o secretário-geral e os restantes 14 secretários e três membros honorários. Da lista Azul apenas foi eleito o ú ltimo vogal da lista. Os eleitos da lista Verde foram Rabir Hassan, para presidente, Motiur Rahman e Safikul Islam lavlu, para

de S. Cristóvão e S. Lourenço

গর্ ১০ই এমিল ২০১১ র্াাং এ পর্তু গাদল অবমহহর্ ১৫০০ বাাংলাদেশীদের অাংশ গ্রহদির মাধ্যদম বাাংলাদেশী কমমউমিটি এর মিবুাচি অিতমির্ হয়। মিবুাচদি সবতজ পযাদিদলর রামির-খাদলে পমরষে িীল পযাদিদলর রািা-ফরহাে পমরষে কক মবপতল কভাদে পরামজর্ কদর।সবতজ পযাদিদল সভাপমর্, সহ সভাপমর্, কসদেোরী এবাং ১৪ো সম্পােদকর পে সহ ৩টি সেসয পদে জয়লাভ কদর।িীল পযাদিল কেদক ১টি সেসয পদে জয়লাভ কদর, জিাব রামির হাসাি সভাপমর্,মমর্উর রহমাি ও

সমফকুল ইসলাম লাভলত সহ সভাপমর্,খাদলে হুদসি সাধ্ারি সম্পােক, সালাউমিি

সহ সাধ্ারি সম্পােক, র্াদহর কচৌধ্তরী সাাংগঠমিক

সম্পােক,কমদহেী হাসাি সহ সাাংগঠমিক সম্পােক , ফারুক আকবর ককাষােক্ষ ও কহোদয়র্ উল্লাহ বাচ্চত িচার সম্পােক মিবুামচর্ হয়। ির্ত ি মিবুামচর্ কমমটি পরর্ত গাদলর বাাংলাদেশী কমমউমিটি কক সতসাংগটির্ কদর এর সামবুক উন্নয়দির জিয েৃঢ় িত র্যয় বযাক্ত কদরদে ।

LUÍS PAVÃO

Já arrancou o Plano de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria, que envolve um total de 18 entidades, entre autarquias, colectividades e instituições de solidariedade social. A Associação Renovar a Mouraria (ARM) faz parte deste grupo e já participou em várias reuniões com vista ao estabelecimento de objectivos e métodos de trabalho. O plano estabelece metas de intervenção a vários níveis na Mouraria, prevendo-se o desenvolvimento de actividades de atendimento à população e organização de eventos. O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, António Costa, já disse que o Plano de Desenvolvimento Social pretende fazer com que a intervenção no bairro não se limite à reabilitação de imóveis (como os edifícios onde estão instalados o Alto Comissariado para a Imigração e o gabinete do presidente camarário) ou a outras medidas de carácter físico, como a instalação de videovigilância, ainda rejeitada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados. NF

Ermelinda Brito presidente da junta

বাাংলাদেশ কমমউমিটি অফ পর্তু গাল

কমমউমিটির মিবুাচদি

Arrancou o Plano de Desenvolvimento Comunitário da Mouraria

INEXPLICÁVEL

Todos à tenda O Festival Todos só acontece em Setembro, mas a Mouraria já começa a viver o espírito daquele que já é considerado um dos mais importantes eventos culturais da cidade. De 27 de Junho a 9 de Julho estará instalada no Largo do Intendente uma tenda que funcionará como um estúdio fotográfico. A iniciativa insere-se no âmbito da programação do Todos e abre as cortinas a quem goste de ser fotografado, sozinho ou em grupo. O convite estende-se a toda a população e a única coisa que é necessário fazer é ir até à tenda e sorrir (ou não) para os fotógrafos. No momento do retrato, é oferecida uma cópia da fotografia ao retratado, e o resultado desta recolha fotográfica irá ser objecto de uma exposição integrada na programação do festival, em Setembro. A Tenda estará a funcionar entre 27 de Junho e 9 de Julho, nos seguintes horários: Dias 27 e 28 de Junho, 1, 4, 5 e 8 de Julho, das 14h às 18h; 2 e 9 de Julho, das 11h às 13h e das 15h às 17h.

Este ano, ao contrário de anos anteriores, não se realizou o arraial popular organizado pelo Grupo Desportivo da Mouraria junto à Capela da Nossa Senhora da Saúde. Não se realizou porque não foi autorizado. Na verdade, não é explicável a resposta que a empresa municipal EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos de Animação Cultural) enviou ao Grupo Desportivo da Mouraria face à sua candidatura para a realização do arraial no mês de Junho. Informava que os serviços competentes da Câmara (o Departamento de Gestão de Espaço Público Municipal de Lisboa) emitiram o seguinte parecer: “[…] o local pretendido não se adequa nem se enquadra no espírito da realização dos Arraiais Populares de Lisboa, permanece uma preocupação com a protecção patrimonial do pavimento (em calçada portuguesa existente no local), que se julga de qualidade e de preservar, assim como preservar a perspectiva visual do espaço envolvente, a fluidez penal e viária nomeadamente da Rua da Mouraria, por forma a evitar a obstrução do espaço.” Não queria acreditar, e quando terminei a leitura pensei: Este ano Lisboa vai ter metade dos arraiais. A chamada zona velha da cidade é quase toda de calçada portuguesa! Tenho mais de 30 anos de autarca e sempre vi realizarem-se ali os arraiais sem que o espaço público tivesse sido danificado, quem quer que fosse que os organizasse ou promovesse. Uma curiosidade: até já fui contactada por quem nada tinha que ver com a organização ou promoção do arraial, para que, enquanto autarca, a Junta de Freguesia desse um parecer positivo para a ocupação do seu espaço geográfico… Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Também não entendi o que queriam dizer com a fluidez penal (será?) e viária. Então os carros podem circular e estacionar nessa mesma calçada portuguesa sem que a prejudiquem? Só me apetece mesmo dizer: Valha-nos Santo António!

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Rosa Maria

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reportagem

texto Sónia Ramalho ilustração Rabiscos Vieira

Esquadra da Mouraria: WC precisa-se

Vista de fora, a esquadra da Mouraria deixa adivinhar precisar de obras de remodelação. O que muitos desconhecem é que não dispõe de uma simples casa de banho. Os policiais ou os cidadãos que se dirijam a este local são obrigados a procurar o café mais próximo em caso de necessidade.

O que começou por ser mais um passeio no eléctrico 12 acabou numa visita à Esquadra da Mouraria. Bastou um momento de desatenção para Rogério Carvalho ser vítima de assalto por um dos amigos do alheio que costumam marcar presença neste transporte público à espreita de turistas desprevenidos. Assim que deu pela falta da máquina fotográfica, Rogério Carvalho dirigiu-se à Esquadra da Mouraria para apresentar queixa e preencher os formulários da praxe. “Quando estava a prestar queixa na Esquadra da Mouraria, por acaso pedi ao agente de serviço para utilizar a casa de banho”. A resposta deixou-o surpreendido. “Para meu espanto fui informado que a dita esquadra não dispõe de instalações sanitárias e que, em caso de necessidade, tanto os agentes policiais, como os cidadãos que se dirijam à esquadra são obrigados a procurar o café mais próximo”. Contactado pelo Rosa Maria, o comissário Fábio Castro, chefe do Núcleo de Protocolo da Polícia de Segurança Pública limitou-se a referir que “a Esquadra da Mouraria exige cuidados especiais e recursos avultados para a recuperação do

seu estado geral”. A promessa de novas instalações continua a pairar no ar. “Uma vez que o concurso para a construção do Comando da 1ª Divisão da PSP Lisboa (da qual depende directamente esta esquadra) está em fase adiantada, estamos a considerar a possibilidade desta esquadra vir a integrar as novas instalações da Divisão”. O Comando da 1ª Divisão da PSP situar-se-á na Rua da Palma, mais concretamente no antigo Palácio Folgosa, onde há vários meses se pode ver uma faixa a anunciar a nova esquadra. Segundo informações da PSP, prevê-se a conclusão das obras no decorrer de 2011. A obra foi já adjudicada, como se pode ver numa placa pendurada recentemente na fachada. Quando questionado sobre quais os cuidados especiais que exige a Esquadra da Mouraria e se até lá os agentes policiais que ali trabalham vão continuar nas actuais instalações sem condições básicas como uma simples casa-de-banho, o comissário Fábio Castro respondeu: “relativamente ao assunto em epígrafe, a PSP não irá prestar mais qualquer esclarecimento”.

sabia que… O alto-relevo da Rua das Farinhas com a legenda “Sam Vecête” evoca o mito do santo padroeiro de Lisboa, São Vicente? Como descreveu o escritor José Cardoso Pires, na obra “Lisboa, Livro de Bordo”, São Vicente tornou-se padroeiro de Lisboa à conta de uma lenda antiga, que rezava assim: vários séculos após a sua trágica e sacrificial morte, o corpo do santo terá chegado à capital portuguesa no século XII a bordo de uma pequena embarcação escoltada por dois corvos. O cadáver seguiu para a Sé, os corvos foram descobrir a cidade. E se havia corvos em Lisboa, nesta altura! “Vicente” e “Corvo” tornaram-se então sinónimos. O nome tornou-se imagem. As ruas da cidade sublinham o mito – Pátio do Corvo, Rua dos Corvos às Escadinhas de Santo Estevão, Terreiro do Corvo – mas os corvos propriamente ditos nunca mais foram vistos em Lisboa. “Terão ido por esses mares à procura de cadáveres navegantes?”, questiona-se Cardoso Pires. Maria João Amorim


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O Combate

Nem um palavrão. O recinto do Grupo Desportivo da Mouraria (GDM) está apinhado de gente, fauna residente, forasteiros da casa, forasteiros de fora, fardas da polícia e dos bombeiros, socadores na reforma, velhos fadistas e crianças rabinas. Mas nem um palavrão se ouve. Celebram-se os 75 anos da história do clube e é com o boxe que aqui se apagam as velas. Ao primeiro sopro bateram-se palmas e ofereceram-se dicas gritadas a todo o pulmão: “Isso bem fechado!”, “mãozinhas acima!”, “vai lá, vai lá! Dobra!” Ainda a procissão vai no adro, ou melhor, ainda se joga o primeiro assalto do primeiro combate e já os fiéis recitam a antífona. Cúmulo maior da devoção, um velho pugilista sacode palmas que se parecem querer ouvir acima das outras palmas e grita “1, 2, chavalo! Sai com a direita! Com a direita!” E o chavalo, cinquenta e tal quilos, peso galo, ao terceiro assalto e ainda meio assustado, levanta os braços na sagração de vencedor. O público aplaude e pede mais. Passam de rajada pelo ringue seis combates até ao momento mais aguardado: Alex, o campeão do bairro, vai enfrentar um gabiru do Arena Superstar. Até ao momento tínhamos assistido a pesos ligeiros, os graúdos chegaram e agora pia-se fininho. Mal o árbitro solta a palavra iniciática “Boxe!” ouve-se “Pum!” e o Arena estremece. Estremecemos todos. “Tem calma, Alex!”, “Arreia agora!” O primeiro assalto nem chegou ao fim, o adversário atirou a toalha e Alex honra o nome que dá título ao torneio: Belarmino Fragoso.

O Mestre

“Vamos a esquivar, vamos a evitar!”, “rodar de um lado para o outro, sem tocar... agora bateu, um, dois, descansar, respirar...”, “pés bem agarrados ao chão, manter a distância...”, “não se pode olhar e baixar as mãos, não mostrar medo!” Não tinha passado uma semana do torneio e já mestre João Rebelo fazia os treinos, no recinto do GDM, agora com o ringue desmontado. “Mas que coisa é essa? [sobre movimentos giratórios exagerados da parte de um pupilo]. Isto não é natação!” Sem desprimor para com a natação, João Rebelo, ex-pugilista, campeão amador nos tempos de emigrante na Suíça, ex-segurança na ONU, aponta as vantagens da nobre arte: “Há países onde já se ensina o boxe nas aulas, as suas vantagens como alternativa aos malefícios do tabaco, ao álcool, aos exageros da noite”, e “o futebol é bem mais violento que o boxe. Então no boxe amador temos hoje protecções para tudo, é obrigatório o capacete, o protector de boca...”. E despacha a conversa com esta frase a jeito de soco no estômago: “O boxe não é para andar a injectar porrada na rua”.

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O Belarmino

Belarmino Fragoso, “o leão de pedra”, foi um filho da Mouraria, nascido na rua João do Outeiro. O cinema imortalizou a figura deste grande pugilista no documentário de Fernando Lopes (Belarmino, 1964), mas o bairro lembra-se é do engraxador de 18 anos que tentou a sorte no GDM. Albano Martins calçou-lhe as luvas e ao fim de um ano já era campeão de Portugal. A carreira durou pouco. Enganado pelos “sacadores de dinheiro”, atirado aos clubes nocturnos e com medo da derrota, Belarmino depressa regressa à sua condição de pobre. Para enganar o que chamava de “períodos de estado de fraqueza”, trabalhou como segurança, porteiro de boîte e, pasme-se, como colorista de fotografias. Por dentro daquele corpo musculado escondia-se uma alma de artista. Baptista Bastos resumiu: “Podia ter sido um grande pugilista, dos melhores da Europa, talvez até campeão dos meios leves e agora é quase um punching ball [saco de pancada]”.

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O Torneio Belarmino Fragoso ocorreu a 14 de Maio no Grupo Desportivo da Mouraria com a presença do Ginásio Arena Superstar, Cyber Gym, União Desportiva e Recreativa do Casal do Privilégio, Cruz Vermelha, Casa do Benfica de Cacém, Clube Desportivo de Arroios e Sporting Clube de Portugal.

Com a maior calma do mundo, mestre João regressa à aula no exacto minuto em que chega o campeão Alex, retemperado do ferro das barras do ginásio. Vem bem disposto, a lembrar ainda as emoções do sábado passado, trocando bitates com um amigo. “O gajo sentiu bem a pedrada!”, e o amigo: “Ele já nem queria olhar para ti! Quando o gajo se encostou ao canto dele até gritei: Arreia agora!”. “Ai eras tu?”, agradecia Alex. “Quando entro só vejo uma coisa: o gajo que está na minha frente. Depois disso seja o que Deus quiser.” Alex, 32 anos, é um filho do bairro, embora tenha nascido na periferia, na Rua da Escola do Exército, aos Anjos. Dita o acaso que o exército o acompanha, na vida e na pele tatuada. É aqui que tem o seu baptismo de fogo no ringue. Fora da tropa, ingressa no GDM levando com ele a fé em Deus e em Roy Jones, que considera o “Lutador da Década” dos 90. Alex revê-se nele. “Ganhou títulos atrás de títulos.” Tal como ele, Alex experimentou vários pesos e aventurou-se na luta greco-romana (modalidade mais resistente no GDM), onde até chegou a vice-campeão nacional. Mas apesar de viver tempos de glória, sonha mais alto: está de partida para o Arroios onde afirma ter mais condições, leva às galas o boxe amador e está a um passo da profissionalização tão ambicionada, pois a federação só analisa atletas com um percurso mais prestigiante. Sobre as palavras do seu mestre treinador - o boxe “não é para andar a injectar porrada na rua” - confirma a subtileza da mensagem: “O boxe do GDM já tirou muitos putos da droga.”


Rosa Maria

Junho — Agosto, 2011

editorial oferecido

está bem! MG de Saint Venant

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PARA UM TEMPO NOVO QUE AÍ VEM

Há ecologia na Mouraria. Na Horta do Monte usa-se lixo orgânico para adubar a terra. está mal! CARLOS MORGANHO

Novos tempos se avizinham e os mais optimistas já dizem que a Mouraria nunca mais será a mesma. O bairro vê-se agora rodeado pelos poderes políticos: se no Largo do Intendente temos o governo da cidade, com a presença do gabinete do presidente da Câmara de Lisboa, no Largo do Caldas temos o assento de algumas figuras do novo governo do país. Mas virá a grande mudança dos extremos do bairro ou veremos a grande explosão a partir das gentes do seu interior? Os planos para o futuro próximo fazem-nos sonhar. Nunca tantos projectos de reabilitação e de âmbito social foram aprovados para o bairro, nunca tantas sinergias se conjugaram. Na Mouraria vão nascer casas e cozinhas comunitárias, ruas e largos renovados e vão crescer árvores e vasos nas janelas das nossas Rosas Marias. A Mouraria poderá finalmente mostrar-se orgulhosa aos seus moradores e visitantes, e as suas gentes, tão únicas e diversas como cada rua, sentirão orgulho em pertencer a este bairro tão antigo de Lisboa. Ainda assim há interrogações e, sobretudo, tanto para fazer. Os projectos aprovados revelam que se quer ir além das fachadas e do “cartão-postal”. Mas há questões que devemos sempre todos ter em mente. De que forma as mudanças do bairro contribuirão para mudar as condições de vida dos moradores? E os problemas sociais? E a insegurança? E o isolamento dos mais velhos? E a limpeza das ruas? E a falta de espaços para as crianças? E o mais importante talvez: qual o contributo que cada um de nós está disponível para dar neste tempo novo que aí vem?

O muro do Salão Lisboa está a cair. Já crescem arbustos nas frestas. Para quando recuperá-lo? cartas dos leitores O ambiente que se vive no Largo da Rosa nunca foi tão perigoso e hostil, por força do aumento exponencial do tráfico de droga e da insegurança a ele inerente, acarretando, inclusive, problemas de segurança para os transeuntes. Esta é uma zona com um potencial histórico e turístico muito elevado, pois tem o famoso Palácio da Rosa, e é utilizado como acesso ao Castelo de S. Jorge por centenas de turistas que diariamente por ali passeiam. O Largo da Rosa é também uma zona muito frequentada por transeuntes, que moram ou trabalham na zona.

Com o aumento exponencial do tráfico de droga e a falta de segurança, vêem-se seringas por todo o lado, especialmente junto ao tanque, há assaltos, ameaças, roubo de viaturas, sensação de insegurança, medo, etc. Estas situações têm aumentado, especialmente com turistas e pessoas que não são da zona. A polícia praticamente não se vê no local, o que faz aumentar a presença de toxicodependentes junto ao tanque, utilizado como dormitório e como local de chuto. Lisboa não merece isto! Márcio Silva

FICHA TÉCNICA Direcção: Associação Renovar a Mouraria Direcção gráfica: Armanda Vilar Edição: Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Maria João Amorim e Oriana Alves Revisão de texto: Ana Castro Redacção: Adriana Freire, Ana Castro, Ana Filipa Fernandes, Ana Luísa Rodrigues, António Henriques, Carla Maurício, Inês Andrade, João Madeira, Marie-Line Darcy, Maria João Amorim, Mourad Ghanem, Nuno Franco, Nuno Saraiva, Oriana Alves, Pedro Adega, Pedro Santa Rita, Sara Ludovico e Sónia Ramalho Colaboraram neste número: Ana Isabel Queiroz, Ana Jara, Appio Sottomayor, Fernando Baguinho, José Narciso, Lucinda Correia, Tiago Santos e Tiago Torres da Silva Fotografia: Adriana Freire, Ana Catarina Caldeira, Camilla Watson, Carlos Morganho, Luís Pó, MG de Saint Venant Ilustração: Antònia Tinture, Hugo Henriques, Nuno Saraiva e Pedro Vieira Infografia: Paulo Oliveira Agradecimentos: Arquivo Municipal de Lisboa / Arquivo Fotográfico e IELT - Instituto dos Estudos de Literatura Tradicional Propriedade: Associação Renovar a Mouraria Redacção, Administração e Publicidade: Beco do Rosendo, nº 8, 1100-460 Lisboa, Telf: 218 885 203, Telm: 922191892, rosamaria@renovaramouraria.pt Impressão: MIRANDELA - ARTES GRÁFICAS Distribuição: VASP/Associação Renovar a Mouraria Versão digital: www.renovaramouraria.pt Direcção comercial: Associação Renovar a Mouraria Fonte: Leitura gentilmente cedida por DSTYPE Depósito legal: 310085/10 Periodicidade: Trimestral Tiragem: 10000 exemplares Número dois, Junho de 2011 CAPA: MG de Saint Venant


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notícias arm

texto e fotografia Artéria

Um manifesto em forma de edifício

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m manifesto em forma de edifício, por uma reabilitação efectiva e sustentável da Mouraria e dos bairros históricos de Lisboa, foi o repto lançado pela Artéria à Associação Renovar a Mouraria (ARM), consumado num projecto que une as duas associações lisboetas. Sob a égide deste Edifício-Manifesto, pretende-se reabilitar o novo espaço da ARM, no Beco de Rosendo, número 8, e abrir as suas portas ao bairro, como espaço de cultura e de encontro. Basta um passeio pelos bairros históricos de Lisboa para sermos facilmente confrontados com um elevado número de casas vazias e de edifícios devolutos, uma evidência por demais gritante da urgência de medidas efectivas de reabilitação urbana. Por um lado, aumentam os edifícios em ruína, abandonados ao desinteresse e inércia dos seus proprietários. Por outro, vão proliferando, em pleno centro histórico, projectos de edifícios transformados em condomínios fechados, com grande investimento de capital, pouco investimento afectivo e fraco impacte social no contexto urbano onde estão inseridos. O projecto Edifício-Manifesto reflecte sobre as possibilidades reais de reabilitação de edifícios no centro histórico de Lisboa, centrando o seu olhar em construções que, pela sua localização, área e tipologia, são alvos menos apetecíveis dos promotores imobiliários. Intervir nestes edifícios é uma urgência! Não só pelo seu valor histórico e patrimonial, mas também pela sua singularidade. O projecto Edifício-Manifesto reclama um olhar técnico e criativo, num contexto onde quase sempre a solução mais adequada é uma intervenção contida - uma espécie de acupunctura urbana - estrato sobre estrato, consolidando a memória, reconstruindo os lugares de sempre para o futuro. O projecto Edifício-Manifesto pretende, mais uma vez, provar que reabilitar não é mais caro do que construir de novo. E é certamente muito mais barato do que fazer obras de demolição com manutenção das

fachadas - fachadismo -, um tipo de intervenção que, erroneamente, tem vingado como uma categoria da reabilitação. O Manifesto é a Obra! Um projecto e uma obra de cariz exemplar, que obedecerá a uma lógica de contenção e de aproveitamento dos recursos existentes. Estes são os pontos de partida para o projecto de reabilitação sustentável que defendemos. Conceptualmente, a intervenção será pontual, apenas nos pontos nevrálgicos, mantendo o existente sempre que possível e desejável. Formalmente, será o programa que desenhará as alterações a implementar - espaço de convívio, cafetaria, sala estúdio multifuncional e escritório para a ARM. Serão também avaliados os potenciais danos ambientais associados ao edifício, através da identificação e quantificação da energia, materiais utilizados, resíduos e emissões libertados para o ambiente. Este estudo irá traduzir o compromisso mais vantajoso - quer em termos ambientais, quer económicos - ao longo de todo o ciclo de vida do Edifício-Manifesto e será desenvolvido através de uma parceria com a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT/UNL), que quantificará os impactes ambientais e económicos associados à obra, preconizando uma vertente inovadora de quantificação da sustentabilidade nos seus dois eixos: o ambiental e o económico. Um terceiro eixo, o social, será estudado pela ARM. O Manifesto é o Processo! Defendemos uma intervenção urbana que seja simultaneamente uma intervenção social, cultural e económica no bairro. Assim, ao longo das 36 semanas de obra, estará em funcionamento o Serviço Edifício-Manifesto Educativo - SEME - constituído por uma equipa transdisciplinar, que levará a população local a participar activamente no processo de reabilitação que acontecerá no seu bairro. E, para memória futura, faremos o registo visual do andamento desta obra, que resultará num documentário realizado em parceria com a AR.CO. Será um trabalho indissociável dos laços e dos afectos construídos em torno do Edifício-Manifesto. Em nome da Mouraria, em nome de Lisboa.

Um manifesto que se constrói com os recursos existentes, que defende a intervenção pontual e que intervém apenas nos pontos nevrálgicos, mantendo o existente sempre que possível e desejável.

Mais informações em: http://edificiomanifesto.wordpress.com www.arteria.pt


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Rosa Maria

reportagem

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Impossível não evocar a “Grande Noite do Fado”, “noites em claro, nas quais o povo de Lisboa, levando crianças de colo, farnel, garrafão e cobertor, se empolgava aplaudindo ou vaiando os artistas a concurso”. Foi assim que Cucha Carvalheiro, directora do Teatro da Trindade, abriu a noite que foi para muitos dos 15 candidatos ao Troféu Maria Severa uma estreia em palco. É verdade que não houve crianças a cantar, como acontecia nas galas do Coliseu – o concurso promovido pela Associação Renovar a Mouraria (ARM) dirigiase a fadistas amadores maiores de 16 anos. Nem se decidiu o vencedor pelo tempo de aplausos a cada concorrente. Apesar de todos terem a sua claque (vieram de Lisboa, Cacém, Porto, Amadora, Ramada, Lourinhã, Alverca, Cantanhede, Elvas, Alter do Chão), a votação do júri foi soberana. Foram sete os juízes convidados: José Manuel Osório (fadista, investigador de fado e consultor do concurso), Luís Penedo (presidente da Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado), Sara Pereira (directora do Museu do Fado), José Pracana (músico e investigador de fado), Hélder Moutinho (músico e produtor), Rui Vieira Nery (musicólogo, historiador e investigador de fado) e João Madeira (músico e membro da ARM). Também não se ouviram temas célebres, porque era requisito concorrer com poemas inéditos, criando assim “novos fados, futuros clássicos do fado”, conforme apregoava o slogan do concurso. Para ajudar os concorrentes, a organização criou e disponibilizou um Banco de Letras Inéditas (BLI) que ao longo de meses acolheu poemas para todos os gostos, 116 no total, de 14 autores, entre eles letristas consagrados como Maria de Lurdes Brás, José Luís Gordo, Daniel Gouveia ou Tiago Torres da Silva. E, com mais ou menos nervos, foi vê-los brilhar, aos 15 finalistas, acompanhados por Ricardo Parreira na guitar-

texto Oriana Alves e Nuno Saraiva fotografia Camilla Watson

Fado renovado A primeira edição do concurso Há Fado na

Mouraria encheu o Teatro da Trindade. 15 finalistas cantaram 15 fados inéditos. Foi a grande festa do fado tradicional, com sangue novo ra portuguesa, Pedro Soares na viola de Fado e João Penedo na viola baixo. Começou, segura, Alice Franco, com o poema “Noites de Fado”, de José d’Almansor (BLI) no Fado Mouraria. Seguiu-se Carmo Moniz Pereira, numa interpretação exímia de “A sombra dos meus desejos”, letra de Maria Manuela Cid no Fado Alvito. Cátia Sofia Tuna, no seu timbre singular, trouxe um poema de autoria própria, “Não me lembro se chovia”, cantado no Fado Menor. Cristina Andrade animou a sala com “O lado bom do pecado», letra de Tiago Torres da Silva (BLI) no Fado Velho. Fernanda Paulo interpretou “É Fado à noite”, leAs 5 Marias Severas —

Foi logo à primeira. Alguma ansiedade travou o gesto na pontaria, mas assim que o viril instrumento traça a primeira curva, é fatal como o destino tal como o destino é o fado. Concebida sobre uma mesa da leitaria Moderna, na rua de São Cristóvão, Maria Severa  é ainda um esboço dobrado em quatro e metido no bolso da camisa do pai, o ilustrador Nuno Saraiva, voluntário 22 da Associação Renovar a Mouraria. Como era de prever, o trabalho de parto foi longo e delicado. Destinada a ser bela e sedutora, percorre a melhor das assistências: sob o olhar atento do Mestre José

tra de Diogo Tomás na música do Fado Franklin. O veterano José Álvaro estilou em “Diz adeus ao sol poente”, letra própria no Fado Perseguição. Justino Coelho emocionou-se com “Só as saudades ficaram”, poema seu no Frankin Sextilhas. Liliana Santos evocou uma “Nova Mouraria”, poema de José Araújo no Fado Santa Luzia. Marisa Pinto deu cor ao poema “Teus olhos”, de José d’Almansor (BLI), no Fado Vianinha. Seguiu-se Marta Rosa, intensa e delicada na sua versão de “Metro”, quadras de autoria própria no Fado Menor do Porto. Mónica Fonseca recriou o Fado Cravo com o poema “Fado das sombras”, de Aldina Cortes Pena, o artífice Carlos Ferreira escolhe mogno para o corpo, peça bem torneada pelo marceneiro Carlos Seiça. Depois ganha vida na talha de José Durão, brilho com o polidor Pedro Santos. A seguir é moldada, desmoldada e depois fundida pelo Eugénio Fusco. E depois engalanada na serralharia pelo António Santos e maquilhada pelos pintores Carlos Cardoso e Paulo Ribeiro. E de tal forma foi fecundo o tratamento, que nasceram não uma nem duas, mas cinco Marias Severas. Uma está com a família, três casaram e outra vive agora vaidosa no Museu do Fado. E até sonha vir a ser património cultural da humanidade, a convencida! NS

Gaspar (BLI). Nádia Leirião trouxe-nos versos de José Luís Gordo (BLI) com o poema “Aqui me gasto”, no Fado Alberto. Nuno Manuel acelerou o ritmo no Fado Margarida com “Ser Poeta”, letra de António Silvestre. Nuno Sérgio regressou ao Fado Menor com “Lábios de Cera”, letra da sua autoria. Sónia Santos fechou em grande com “Fado Oração”, poema seu no Mouraria Estilizado. Terminadas as actuações retirou-se o júri para deliberação, enquanto Nuno Saraiva, autor do curvilíneo troféu (ver caixa) chamou os artífices da Fundação Ricardo Espírito Santo que lhe deram forma e que ali receberam a devida ovação de uma plateia generosa em palmas ao longo de duas horas de espectáculo. Antes da entrega dos troféus, houve tempo para a actuação dos fadistas convidados: o mestre Artur Batalha, Ruca Fernandes, membro da organização do concurso, e Diamantina Rodrigues, fadista e apresentadora de televisão, que foi a graciosa condutora da noite. A ela coube também o papel de chamar ao palco as vencedoras: Carmo Moniz Pereira, 22 anos, finalista do curso de Economia, Marta Rosa, 20 anos, estudante de Ciências Musicais, e Nádia Leirião, 23 anos, gerente de restauração. Os prémios foram atribuídos respectivamente pelo IELT – Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (1000€), pela Academia da Guitarra Portuguesa e do Fado (500€) e pela Fundação Montepio (250€). Tiago Torres da Silva venceu a Menção Honrosa “Gabriel de Oliveira” para a melhor letra inédita, com o prémio de um fimde-semana ofereci­do pela Quinta dos Quatro Lagares. A festa terminou em desgarrada, cada concorrente improvisando uma quadra do Banco de Letras no Fado Mouraria. E a vontade de editar em audiolivro as canções e os poemas que fizeram desta 1ª edição do Há Fado na Mouraria uma noite inesquecível. Venham de lá patrocínios.


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fotoreportagem

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5 fotografia Camilla Watson texto Pedro Soares Neves, designer urbano

O tipo de manifestações gráficas, espontâneas e efémeras (graffiti, street art, arte urbana), que existem em toda a cidade, não produzem na relação entre elas e com o espaço envolvente, os mesmos resultados. No caso da Mouraria, o que salta à vista é o facto de existirem várias camadas de intervenção que foram ficando ao longo dos tempos. Vale a pena deter-se nos detalhes, convidando - porque não?- um morador. E até aproveitar a oportunidade para deixar uma marca!

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1, 3 e 7 — Escadinhas de S. Cristovão 2 — Rua das Farinhas 4 — Rua das Fontaínhas 5 — Largo dos Trigueiros 6 — Rua dos Cavaleiros 8 — Beco dos Trigueiros

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Este canto (na rua de S. Lourenço) é também muito engraçado. Passo por aqui sempre que vou ao Martim

Cantinho das flores

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A Junta de Freguesia propôs pintar este mural aqui, depois de

Mural do Largo dos Trigueiros

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Tenho que vir aqui às vezes falar com as pessoas por causa dos projectos desenvolvidos pela Casa da Achada, como a “Leitura Furiosa”. Há na Casa da Achada uma biblioteca pública de características populares e ainda não houve apetência de quase ninguém para a usar, apesar de ter sido divulgada. Talvez a partir dos grupos de leitores que se estão a fazer no Centro de S. Cristóvão e S. Lourenço, na Escola nº10, na Escola nº 75, as pessoas criem alguma vontade de ler e depois frequentem a biblioteca da Casa da Achada.

Centro de Idosos de S. Cristovão e S. Lourenço

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É onde passo 48 horas sobre 24 da minha vida. Não havia ligação ao bairro. Mas a gente ao ver o que era o bairro também se entusiasmou. Além da preservação do espólio, pensámos que estar numa zona popular, com poucos equipamentos, poderia desenvolver a nossa ideia de pôr as coisas ao alcance de todos. As pessoas estão contentes com o projecto, mas a frequência é pequena para o que poderia ser, pois tudo é gratuito. Passar a porta, por exemplo, para assistir a cinema cá dentro é complicado. Aquilo que as pessoas mais frequentam é, nos meses de verão, o cinema ao ar livre e as crianças os ateliês ao domingo.

As pessoas que vão à casa da Achada acham muita graça ao bairro, normalmente é sempre uma descoberta. Mas acho que a grande maioria seria incapaz de cá morar. Eu acho que é possível viver aqui, de uma forma muito mais actual e simples do que noutros sítios - dá menos trabalho, porque está tudo à mão. As pessoas ainda se perdem bastante aqui no bairro. Eu já não me perco, sobretudo porque vou sempre pelos mesmos caminhos.

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Casa da Achada – Centro Mário Dionísio

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À descoberta do bairro

passeando com eduarda dionísio

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Quase todos os dias almoço aqui. Como tenho muito que fazer, acabo por ir comer a dois ou três

Restaurante Eurico

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Nunca tinha estado no Largo da Achada. Conhecia a zona dos Socorros Mútuos e julgava, como muita gente, que não havia mais nada. É um sítio onde não se vai de passagem. Apesar de cheio de carros, é um oásis numa capital. É silencioso, às vezes até faz medo de tanto silêncio ao fim da tarde. A gente só tem isto no campo. O Coro da Casa da Achada já tem cantado neste anfiteatro ao pé da fonte, que é uma delícia. Espero que as obras do QREN não acabem com estas escadinhas que é o que dá graça ao largo.

Largo da Achada

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depoimento recolhido por Ana Luísa Rodrigues

fotografia Camilla Watson


Descobriu o Largo da Achada em 2008 e meses depois mudou-se de armas e bagagens, colocando este “bocadinho” de Mouraria no mapa cultural de Lisboa. Eduarda Dionísio é o principal rosto da Casa da Achada Centro Mário Dionísio. Traçou-nos um roteiro feito de rituais quotidianos. Que começa, como não podia deixar de ser, na sua casa.

A casa achada por acaso

Moniz, onde vou muitas vezes, e este cantinho cheio de flores é muito giro.

terem destruído um outro que se pintou frente à Casa da Achada. E acho piada entretanto ter havido tantos tags e pinturas à volta mas não terem mexido no mural. É feito a partir de um desenho original de Mário Dionísio para um café em frente à Estação do Rossio. Chamava-se café La Gare, é o actual Beira Gare - por isso é que tem os comboios. Mas nunca foi feito em lado nenhum.

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Eduarda Dionísio nasceu em Lisboa em 1946. É nesta cidade que vive e trabalha, sempre desenvolvendo uma intensa actividade cívica e cultural. Tal como o seu pai, Mário Dionísio, Eduarda Dionísio tem uma intervenção diversificada: no ensino (foi professora do ensino secundário), na escrita (publicou romance, manuais escolares, ensaio), no teatro (participou em grupos como a Cornucópia e O Bando e fundou o grupo Contra-Regra). Durante anos foi dinamizadora da Associação Cultural “Abril em Maio”. A sua mais recente “batalha” tem sido a Casa da Achada – Centro Mário Dionísio. Chegou à Achada através de um anúncio de jornal a vender uma casa - que compraram com dinheiro da família. “Este sítio é uma ideia de luta contra o desperdício. Estes quadros, livros, todos enfiados na casa dos meus pais era um desperdício.” Este princípio ditou o princípio da Casa da Achada. Uma casa que é uma forma de homenagear a memória e o legado de Mário Dionísio (1916-1993), escritor, professor, pintor, entre muitas outras actividades.

Na Calçada do Marquês de Tancos morou muitos anos e teve ateliê um grande pintor, Carlos Botelho. Era casado com uma professora primária que dava aulas na escola que ali existiu. E pintou um quadro que representa exactamente as traseiras da Igreja de S. Cristóvão. Uma vez fui a uma exposição ao Museu do Chiado, vi a tela e pensei: “eu conheço isto…” Quando fui ver, era a igreja vista de lá de cima. O Bartolomeu Cid teve ateliê no Largo da Rosa. O Nikias Skapinakis também pintou por aqui. Uma ideia que temos é fazer uma exposição dos pintores que pintaram esta zona.

Os Pintores “da Mouraria”

restaurantes muito próximos e com quem se tem relações já pessoais com os donos. Também tenho muito hábito de tomar café e assim vou ouvindo coisas que se passam por aqui, tomo o pulso dos problemas e do que interessa às pessoas.

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texto Pedro Santa Rita fotografia Camilla Watson

Vila Almeida

O “pequeno Punjab” Rua Marquês de Ponte de Lima, nº 13 – este é o endereço da Vila Almeida, um peculiar pátio da Mouraria. Aqui vivem mais de 40 pessoas, entre indianos, romenos, portugueses e angolanos. Um verdadeiro cadinho de nacionalidades e religiões.

A

s letras brancas em ferro anunciam a Vila Almeida, paredes meias com o seiscentista Coleginho. Logo à entrada um curioso estendal comunitário, paleta colorida, onde sobressaem os amarelos, verdes e castanhos dos saris, a túnica das mulheres indianas. No pátio central, a algazarra das crianças a brincar e as mulheres a conversar à porta. Escutamos nomes como Harpiya, Nikita, Shifali ou Corina e sentimos o cheiro a especiarias - bem-vindos, estamos numa vila da Mouraria. Em torno do pátio central, alinham-se as casas, separadas por menos de três metros. Procuramos a nº 7 - aqui mora a família de Shifali, uma hindu de 13 anos. A porta está aberta e entramos directamente para uma cozinha muito estreita. Ao ver-nos, Shifali dá uma última mexida no perfumado guisado vegetariano, cumprimenta-nos com um grande sorriso e acompanha-nos à única assoalhada da casa - um quartinho contíguo à cozinha, onde está Neelam Rani (a mãe) com Abhishek Kumar ao colo. Shifali apresenta orgulhosa: “tem 13 meses e é o mais novo do pátio, já nasceu em Portugal!”. “Somos do Punjab, que fica no norte da Índia. De Nova Deli partimos de avião até Istambul e daqui viemos para a Europa. Moramos na vila desde 2009 e gostamos de aqui estar”, conta Shifali. A mãe, que não fala português, conversa em punjabi com a filha, que de imediato sai, voltando depois prazenteira com uns bolinhos: bessene di barfi. Quando se pergunta de que são feitos, Shifali responde: “Bessene leva farinha de grão preto, cajú e Pure Ghee, uma manteiga importada, comprada num supermercado indiano do Intendente. Comam à vontade, a minha mãe fez muitos”, apontando para uma grande caixa cheia de bessene di

barfi. Parte destes bolinhos são para o pai que está na Suíça: Rakesh Kumar, emigrou (de Portugal) para Genebra, onde é cozinheiro num restaurante indiano. A “tia” Carla, amiga da família, vai por acaso a Genebra e não se importa de levar esta saudosa encomenda da “terra”. Enquanto saboreio os deliciosos bessene, os meus olhos passeam pelo pequeno quarto - é impressionante como em

Escutamos nomes como Harpiya, Nikita, Shifali ou Corina e sentimos o cheiro a especiarias - bem-vindos, estamos numa vila da Mouraria. pouco mais de 20 metros quadrados se arrumam todos os haveres da família, que paga uma renda de quase 250 euros. Numa prateleira suspensa vê-se um pequeno nicho (“Mander” em hindi). A ornamentá-lo, representações de divindades em moldurinhas prateadas, incenso já em cinza, livrinhos de orações, uma fotografia do guru da família e, num pratinho, quatro bessene di barfi. Shifali esclarece: “oferecemos os bessene aos deuses para que estes protejam o meu pai”. Trata-se do ritual da “Prasâda” ou alimento sagrado - os alimentos são oferecidos à divindade e quando ingeridos regressam aos humanos dotados com a sua graça. Depois a jovem enumera, apontando: “aqui Siva, depois Parvati,

sua mulher, e Ganech, o fiho deles. Temos ainda Lakshmimatâ e Sheravalimatâ. A mãe ensinou-me a respeitar e amar todos os Deuses por igual”. E continua, pegando nos livros sagrados gastos pelo uso: “este aqui é para as orações diárias da noite o outro é o livro das quintas-feiras - só a mãe o pode ler”.

Os sete pratos do Dîvali

A conversa é interrompida pela visita do “tio” Sukhjinder Singh que regressa do trabalho. Em Portugal há onze anos, já tem nacionalidade portuguesa e fala impecavelmente português. Foi um dos primeiros indianos no pátio: “ainda ensino português e conhecimentos práticos a todos os que aqui chegam.” O domínio do português é precioso para o quotidiano, mas só alguns o possuem. Shifali, aluna do 7º ano da Escola Gil Vicente, relembra: “ainda nas últimas férias da Páscoa, juntei mães e filhos e fomos todos levantar as notas ao Liceu.” Sukhjinder Singh fala com entusiasmo sobre o sentimento religioso dos hindus do pátio: “aqui todos os anos festejamos o Dîvali entre Outubro e Novembro. Chego a ter em casa sete pratos diferentes, depois vamos orar ao Templo do Lumiar (Krisna) ou de Odivelas”. No Dîvali, ou em português ‘Grinalda das Luzes’, cada uma das sete famílias cozinha um prato diferente que partilha com as outras e espalham-se velas pela casa. “Nesse dia entra Râna, Deus da prosperidade e do dinheiro, por isso acendo duas velas à entrada”, explica Shifali. No pátio brincam e correm quatro crianças romenas. “Vivem em cima da minha casa, sobem aqui, por esta escada”, aponta Shifali, que pede a uma delas para chamar a mãe. Chega Medianca, uma jovem morena de cabelos compridos e argolas prateadas. Quase não fala

português, é o filho mais velho que faz a tradução com dificuldade. Chegaram em 2007 e têm quatro filhos: o mais novo, o loirinho Korina Ioano, já nasceu em Portugal. Todos frequentam a escola primária da Madalena. O casal está desempregado, mas Medianca faz questão de explicar no seu português rudimentar que estão inscritos na “segurança social”. A conversa não se prolonga muito - aproximam-se os afazeres do fim do dia e Medianca sobe pelas escadas estreitas e entra em casa. As luzes acendem-se na vila Almeida. Das janelas os pais chamam as crianças o pátio fica vazio e o cheiro a especiarias nunca foi tão intenso. São horas de jantar.

Dos pini de hoje…

Também Harpriya, amiga de Shifali, oferece a sua hospitalidade. Entra-se na porta nº 4 e logo se vê o quarto da jovem, que serve também de sala. Há calendários com divindades hindus e o espaço mal dá para uma cama e uma pequena


secretária. Harpriya tem 12 anos e frequenta o 4º ano na Escola da Sé. A mãe entra no quarto, envergando um bonito sari e ostentando um bindu vermelho na testa. Traz a pequena Preet Rani ao colo cumprimenta-nos com o damaste (a característica saudação hindu) e sai discretamente. Pouco depois regressa com um aromático chá com leite e pinis, um doce indiano em forma de almôndega. “Há tantos pinis como farinhas, têm é que ser redondos. Este é de cajú”, explica Harpriya. Entende-se agora o comentário de Shifali: “Pini a minha mãe não faz, só se for na casa da Harpriya”. É como se cada família se especializasse numa iguaria. Harpriya gosta deste “pequeno Punjab”. Faladora, diz que a festa que mais gosta de comemorar é o Holi ou “Festa primaveril”. E usando um curioso paralelismo cultural tenta esclarecer: “é uma mistura do pão de deus com Janeiras - cantamos às janelas e portas e em troca recebemos doces e dinheiro”. Com esta família

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“O português é muito diferente do hindi! Todos temos dificuldades com esta disciplina na escola.” Harpriya, 12 anos

a conversa não é como as cerejas, mas como os calóricos pini… Cada vez que a mãe entra, traz um pratinho de doces. Aparecem curiosos a Twinble Navpreet, de 14 anos, e o irmão mais novo com um pequeno turbante branco na cabeça (pojdi). “São os meus amigos sikhs”, explica Harpriya. “Twinble anda no Gil Vicente e não compreende muito bem o português. O português é muito diferente do hindi!

Todos temos dificuldades com esta disciplina na escola e para além disso é importante para percebermos as outras.”

… aos papo-secos de antes

Na vila Almeida de hoje vivem apenas dois casais portugueses. D. Rosa, 65 anos, é a moradora mais antiga. Seguindo pelo labirinto de corredores, chega-se ao rés-do-chão, nº 2. Abre a porta o Sr. Diogo, companheiro de D. Rosa, que cordialmente informa: “a Rosinha deve estar no Clube Monte Pedral, na Graça”. A casa é um pouco maior do que as outras, mas as divisões são mínimas e escuras: existem duas janelas, uma delas para o saguão. 200 euros é o que este casal paga de renda. Na parede, entre fotografias da D. Rosa em xaile minhoto, um prato com o clássico: “Deus Abençoe o Nosso Lar”. Também não falta um crucifixo e uma N. Sra. de Fátima – verdadeira “bênção” cristã, depois de tantos deuses hindus. D. Rosa estava de facto na Graça. Vem

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à varanda do Clube Pedral de espanejador na mão. Nasceu em Braga e veio para Lisboa ainda jovem - bem conservada e de ar festivo é uma mulher dos sete ofícios: “sou conhecida por todos como a Rosinha de Braga, a Rosinha do Clube, a Rosinha do Lar da Santa Casa e ainda Rosinha, mulher fadista”, apresenta-se entre risos. Quando há 30 anos chegou à Vila Almeida “só havia portugueses. Agora parece que estamos no estrangeiro”. E conta com os dedos os nomes das vizinhas de outrora: “D. Capitulina, D. Leonor e D. Elisa… Foram todas para a terra quando os maridos morreram”. Lembra um pátio onde todos se falavam: “os homens jogavam às cartas e nos santos populares fazíamos sardinhadas. Agora é só ‘bom dia’ e ‘boa tarde’.” Mas aquilo de que sente mais falta é do leite e do pão frescos: “o padeiro e o leiteiro moravam na vila e logo de manhã cedo chegavam com as bilhas de leite e os papo-secos fresquinhos. Nunca mais ouvi falar deles”.


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mouraria, ontem e hoje

CARLOS MORGANHO

“E não sobrou pedra sobre pedra”, diz o velho adágio, que aqui assenta como uma luva. Porque dos edifícios retratados na gravura, nenhum sobreviveu para testemunhar o passar do tempo. Apenas um vestígio permanece 150 anos depois – e esse é justamente de pedra. Observe bem as duas imagens. Já descobriu? Pois bem, é a placa que hoje se encontra no prédio amarelo – a mesma que em 1862 estava embutida no muro alto. É a lápide comemorativa da cerca fernandina, construída entre 1373 e 1375. Em letras monacais alemãs, descreve como “O muj nobre e muj alto Rej Don Fernando” mandou construir uma muralha para proteger a sua nobre “Lixboa” das invasões castelhanas. Na gravura, a lápide estava afixada na própria muralha. Foi retirada no início do século XX, quando este troço da cerca foi demolido para rasgar as Escadinhas da Saúde. Também já demolido foi o Passo da Mouraria (à esquerda), que fazia parte do percurso da procissão do Senhor dos Passos.

1862/ /2011

Outro dos elementos em destaque nesta gravura (feita por Coelho Júnior sobre um desenho de Barbosa Lima) é o Arco do Marquês de Alegrete, que muitos habitantes da Mouraria ainda hoje recordam. Foi construído no lugar da Porta de São Vicente ou da Mouraria, considerada uma das mais fortes da cerca fernandina. Em 1674, para facilitar a circulação dos coches, a porta é transformada em arco, que depois se viria a chamar Arco do Marquês de Alegrete, pois era contíguo ao palácio com o mesmo nome. Com dois andares habitados, o arco foi demolido em 1961, precisamente há 50 anos. Uma destruição que causou grande polémica na cidade, pois era a última porta sobrevivente da cerca medieval. Mas o brado não chegou para manter o arco de pé. E passar as portas da muralha é hoje um exercício de pura imaginação. ALR

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Esta rubrica é feita em colaboração com o Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico. A sua colecção de 600 mil imagens mostra a evolução da cidade desde 1850. As fotografias podem ser consultadas gratuitamente na sede do Arquivo (Rua da Palma nº246) ou na internet, através do endereço: http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt

texto Mourad Ghanem | desenho Hugo Henriques


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retratos do quotidiano texto e fotografia Adriana Freire

Família Costa Pinto

S

ão quatro as gerações desta família que ainda vivem na Mouraria, na mesma casa. Todos “doentes” pelo Benfica. Filipa é a única que torce pelo Sporting, é a mais nova, tem 17 anos. A mãe, Xana, confessa que passou uma infância muito feliz no bairro, “quando todos eram amigos”. Recorda a alegria que era no verão quando, em grupo, atravessavam o Tejo de barco para irem à Cova do Vapor, a praia que ainda hoje frequenta. Já foi eleita Miss Chita de Lisboa e continua a desfilar entusiasticamente na Marcha da Mouraria. É uma das mulheres mais vistosas do bairro ao qual está profundamente ligada. A chegada desta família à Mouraria começou há mais de 100 anos, quando Virgínia, a trisavó de Xana, veio de Arganil para o prédio nº 6 da Rua

da Guia. Alugava pequenos quartos aos seus conterrâneos quando estes vinham a Lisboa. Teve uma filha, Laura, que era florista na Praça da Figueira e casou aos 14 anos. Um dos seis filhos de Laura, José Martins da Costa, viveu sempre naquela casa, mesmo depois de se casar com Fernanda. Alice, filha do casal, ainda mora ali com o marido, João Pinto, nascido nas Escadinhas do Marquês de Ponte de Lima. Alice é a mãe de Xana e avó de Filipa. Fernanda é avó de Xana e ainda hoje habita neste mesmo prédio. Parece confuso, mas não é. É que as casas da Mouraria estão cheias de memórias importantes que ainda podem ser contadas. Pequenas histórias que tornam grande uma cidade quando se pode viver assim, em família.

ensaio

Appio Sottomayor

CAMILLA WATSON

O Teatro Apolo

A maior e mais emblemática das casas de espectáculos situadas na zona da Mouraria foi certamente o Teatro Apolo, desaparecido há praticamente meio século. Situava-se no ângulo então formado pelas ruas da Palma e Fernandes da Fonseca. Não deixou quaisquer vestígios e hoje mal se pode adivinhar que naquele terreno se ergueu, durante cerca de cem anos, um dos melhores e mais concorridos teatros de Lisboa. Ora há locais que parecem predestinados para a realização de festas e espectáculos. E a verdade é que naquele espaço existiu, no século XIX – antes de 1864 – um tal Salão Wauxhall, destinado a funções diversas onde até o

teatro tinha lugar às vezes. O objectivo principal era, porém, a realização de bailes de máscaras. Como é de uso acontecer nas salas lisboetas, registou-se a dada altura uma mudança de nome e o Salão passou a chamar-se Meyerbeer. No entanto, um dos empresários, Francisco Viana Ruas, tinha outros projectos para o sítio. Decidiu assim transformar o recinto dançante em teatro. E pode dizer-se que, ao contrário do que é costume na nossa terra, onde tudo demora muitos anos a pôr de pé, o sonho passou aqui a realidade bem depressa: em 1865, era inaugurado o novo teatro. Teve o nome de “Príncipe Real”, numa homenagem ao então herdeiro do trono, aquele que viria a ser o rei D. Carlos. Com tal designação se manteve a casa durante 45 anos. Proclamada a República em 1910, é óbvio que o novo regime não gostava do nome. Mudou assim para “Apolo” – e dessa forma ficou conhecido até ao seu encerramento. A sala de espectáculos não era de grandes proporções, mas primava por uma certa elegância e exibia um tecto pintado por José Maria Pereira. Mas valia sobretudo pela qualidade do que apresentava. Na verdade, pelo teatro da Mouraria passaram os mais diversos géneros: o drama, a comédia, a revista, o espectáculo de mágica… Logo em 1865 lá actuou a companhia italiana de Celestina Paladini e, tempos depois, um actor da mesma nacionalidade, Rossi de seu apelido, conquistava multidões. Entre os portugueses, poucos terão sido, de quantos actuaram entre a fundação do teatro e os anos 50 do século XX, aqueles que não pisaram as tábuas

daquele palco. Distinga-se, pelas muitas temporadas que ali passou e pela série de peças interpretadas, Adelina Abranches, que levou as plateias quase ao delírio. Carlos Leal foi quase o “compère” de serviço durante décadas, em muitas revistas que tiveram êxito no Príncipe Real/Apolo. Outro Carlos, Alves de apelido, embora falecido há muito, ainda é conhecido do público por ser o intérprete do “Engenhocas”, do filme “O Pátio das Cantigas”, sendo ele quem pronuncia, através dos microfones, a célebre frase “Atenção, senhora Rosa! Chegou a sua filha!” Integrada numa companhia de revistas, a então muito jovem Hermínia Silva lançou no Apolo alguns dos seus fados que resistiram ao tempo, como o “Fado do Gonçalo Velho” ou “A Velha Tendinha”. Amália Rodrigues não se estreou no teatro nesta sala, mas lá marcou presença, por exemplo em 1946, numa revista chamada “Estás na Lua”, contracenando com Laura Alves, Costinha, Luísa Durão e outros. Nos anos 50 do século XX, a revista ainda andou pelo velho Apolo: “Aguenta-te Zé” e “Agora é que ela vai boa” foram dois exemplos, com actores daqueles que enchiam as salas – António Silva, Ribeirinho, Laura Alves, Irene Isidro, Barroso Lopes, Costinha… Depois, uma companhia brasileira, à qual dava nome a actriz Maria Della Costa, fez ali temporadas, com teatro dito “sério” e ousado. A título de curiosidade, diga-se que uma das peças tinha por título “A p… respeitosa”; mas a censura não gostou do “p” ali isolado e a peça passou a chamar-se “A respeitosa”, sem mais nada.

Mas um dia apareceu ali a bandeira vermelha do leilão. Tudo foi vendido e despachado e o Apolo desapareceu da lista dos teatros lisboetas. Surgiu lá a estação do Martim Moniz. E, atrás desta, um centro comercial, cujo aspecto estético deu azo a largas polémicas. Do Apolo ficou para alguns a saudade. Com o passar dos tempos, até essa desaparecerá.

Appio Sottomayor nasceu em 1937, na freguesia do Socorro. Jornalista e olisipógrafo, dedicou grande parte da sua vida a escrever sobre Lisboa, nomeadamente no extinto jornal A Capital, onde publicou crónicas diárias com o nome “O poço da cidade”. Na introdução do livro que reúne esses textos (Editorial Notícias, 1993) diz-se que as crónicas, escritas para ler e deitar fora, apesar da pesquisa a que obrigavam, falam “das broas castelar, do amigo do alheio, do íntimo de Lisboa, dos anjos e pobres diabos, das corridas e trajos, do drama dos acessos, dos aproveitadinhos, dos ‘jaquinzinhos’ com arroz de tomate e tudo o mais, numa saudável anarquia do sempre a-propósito.” A Câmara de Lisboa atribuiu-lhe em 1987 a medalha de mérito municipal. É membro da direcção do Grupo Os Amigos de Lisboa.


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Rosa Maria

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reportagem

texto Ana Luisa Rodrigues fotografia Carlos Morganho

Corte aFatosdireito de tribunais

e universidades são feitos há quase 80 anos na Rua da Palma O que é que o treinador do Real Madrid e os juízes do Tribunal Constitucional têm em comum? Uma beca feita na Academia de Corte Maguidal. Quando José Mourinho recebeu o

doutoramento honoris causa pela Faculdade de Motricidade Humana vestiu uma beca cortada e cosida na Rua da Palma. Desde há décadas, é a Maguidal que faz os trajes académicos e de ritual das universidades de Lisboa, Trás-os-Montes, Beira Interior, Évora e Açores. Juízes e advogados também têm a alfaiataria como referência. Uma toga de advogado demora três dias e meio a fazer. Uma beca de juiz, uma semana. Fernando Almeida, 86 anos, continua a ir todos os dias à empresa fundada pelo pai. Formado na Escola de Belas-Artes, foi professor durante 54 anos, até tomar em mãos o ofício paterno. Continua a seguir os moldes e a riscar cuidadosamente com giz branco o tecido negro. Outros modelos fazem a história da Maguidal – fardas da GNR, da Marinha, trajes de caça. Ainda hoje podemos ver as suas miniaturas no “museu”.

A Academia Maguidal, fundada em 1934, foi a primeira escola de alfaiates portuguesa. O nome é a abreviatura de MAnuel GUIlherme D’ALmeida, mestre alfaiate e inventor de um método de corte ainda hoje em uso. Da alfaiataria saíram fatos para a rainha Sofia de Espanha ou para os políticos Gorbatchov, Marcelo Rebelo de Sousa e Lucas Pires.

mouraria nas artes texto Ana Isabel Queiroz Capa da edição original, 1960

O 5 de Outubro de 1910, no Largo do Intendente

Pela mão de José Rodrigues Miguéis, o 5 de Outubro de 1910 chega-nos através de um quadro familiar, afectivo e comovente, vivido no seu romance A Escola do Paraíso (publicado em 1960). O livro traça um retrato de Lisboa nos tempos agitados entre a monarquia e a República, através dos olhos de uma criança, Gabriel. A narrativa mostra-nos também alguns elementos da paisagem urbana que desapareceram ou foram alterados. Augusto e os três filhos saíram de casa cedo, ainda “na sombra do bairro adormecido”. Iam a banhos, em Paço de Arcos. Os meninos, atordoados de sono, seguiam o pai, que trotava ligeiro: “Em poucos minutos, pela travessa do Mal-

donado, estavam no Intendente. (…) O largo afunilado desdobrava-se para baixo, com prédios e palácios velhos à esquerda, novos e altos do lado oposto, e o chafariz monumental. Adiante, entre a fenda do Benformoso e a rua da Palma (lá estava a massa cinzenta e vermelha do antigo Coliseu de Lisboa) havia um prediozinho de cenário, cor-de-rosa, com lojas e tabernas minúsculas, tudo fechado. Debaixo das árvores em folha, a água sussurrava na taça do bebedouro dos cavalos”. Na rua da Palma, a família esperaria o eléctrico para o Cais do Sodré; depois seguiriam de comboio. Mas, o programa foi interrompido subitamente. Em pleno


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mouraria, rua a rua texto Pedro Santa Rita fotografia Carlos Morganho

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Encontrar o descanso na planície da Achada Quem quiser chegar ao Largo da Achada a partir da baixa de Lisboa tem de subir a íngreme colina do castelo. Mais ou menos a meia encosta o agreste terreno suaviza, num serenar orográfico que convida ao descanso e à contemplação. Achada é justamente um nome que tem origem numa forma de relevo: Joaquim de Viterbo, no seu Elucidário das palavras, termos e frases que em Portugal antigamente se usaram, define-a como uma planície, descampado ou terra plana. Harmonia possível entre a inclinada colina e as necessidades de habitação do homem, a Chronica do conde D. Pedro, diz-nos que na achada da serra

Largo do Intendente, foi-lhes anunciada a mudança: “Nisto, de longe, uma surda explosão abalou o ar tranquilo da manhã. Os pequenos pararam, voltaram-se a olhar o pai, que ficou sério, à escuta, um quase nada pálido. (…) Dois, três estampidos cavos sacudiram de longe a cidade mal desperta. Depois houve um estranho rumor que parecia de pranchas a desabar confusamente, ou de portas de ferro ondulado a fechar-se a toda a pressa, um eco imenso... -É a fuzilaria! -disse o pai, e apertou os filhos ao corpo. (…) Da rua do Benformoso desembocou um homem em cabelo, calças de ganga desbotada e casaco remendado, com um embrulho debaixo

“poderiam morar até cem pessoas em três povoações”. O largo localiza-se nas traseiras da Igreja paroquial de São Cristóvão (fundada no século XIV), de onde parte a Rua da Achada, uma das mais antigas denominações da via pública lisbonense (1551). O largo, que já foi arrabalde da cidade, transmite uma atmosfera que atravessa o tempo: uma casa do século XVI, com o primeiro piso de ressalto, janela e porta ogivais, é o registo mais antigo; há também o velho marco fontanário no centro e as mouriscas “mãos de Fátima” para bater às portas. O ambiente medieval é reforçado pelo labirinto de ruas, becos e escadinhas - todas baptizadas “da Achada”. Nas Escadinhas da Achada, encontramos o que resta do velho Recolhimento do Amparo, um lar do século XVI, que albergava viúvas e meninas órfãs da nobreza e é hoje pertença da Segurança Social. Se o poeta Ary dos Santos na sua Lisboa, menina e moça, pousasse o cotovelo, não no Castelo mas nas “Escadinhas da Achada”, descansaria o olhar, não em Alfama, mas na colina do Carmo e na curva das escadinhas veria S. Pedro de Alcântara alcandorado. A poética deste lugar fez-se maior quando “achou” e “foi achada” pelo Cen­­tro Mário Dionísio.

do braço. Pálido como um defunto, desgrenhado, passou por eles a correr, gritou: -A revolução está na rua! Viva a República! e desapareceu para o lado da avenida Dona Amélia. O largo recaiu na quietação, como se visse crescer a luz doirada da manhã de Outubro e de insurreição. De longe continuava a rolar pelo céu a voz cava da artilharia, passavam rajadas intermitentes de fuzilaria. (…) Muito branco, o pai abotoou o paletó: -Voltem para casa, filhos. (…) Direitinhos a casa! Vá, tenham juízo, adeus... (…) Juntou-lhes as cabeças numa carícia comum e murmurou: -Viva a República, filhos... Adeus!”.

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Lira da Mouraria Poemas, provérbios, anedotas, frases soltas

O Lado Bom do Pecado Não me ensines a pecar Como eu te tenho ensinado Ensina-me a aceitar O lado bom do pecado Há quem peque por amor Mas eu cá não sou assim Tenho um corpo pecador Que vai pecando por mim Não penses por um minuto Que me vou arrepender Eu peco sempre que escuto Uma guitarra gemer E se encontro a minha sina Nas palavras que há no Fado É só ele que me ensina O lado bom do pecado TIAGO TORRES DA SILVA

Histórias Que Não se Contam I Há histórias que não se contam A vida segreda-as Aflições e traições Criadas pelos seres

Jornais, folhas volantes, edições de cordel fizeram circular pelo país a verve dos poetas populares, em composições poéticas muitas vezes destinadas ao canto, como no Jornal de Modinhas, de finais do século XVIII ou nos periódicos de Fado da primeira metade do século XX. Inspirado por esses almanaques de poesia popular, o Rosa Maria oferece aos versejadores as suas páginas. Iniciamos a rubrica com poemas de José Narciso, que nos traz Histórias que não se contam, e com Tiago Torres da Silva, que prega O lado bom do pecado, letra vencedora do concurso Há Fado na Mouraria (interpretada por Cristina Andrade, na música do Fado Velho) e Agora é que são elas, oferecido ao fadista Ruca Fernandes (VER PÁG. 10). Vivos duma loucura Sentimentos caídos No fundo das almas Penadas criaturas Dos mal-olhados Verdades cruéis Inventam sinais Que o coração adormece Um dia acende-se a luz Rejuvenesce a vida Cresce o olhar Salta a dança do desejo Num corpo endiabrado Aventura despida Incendiada às lágrimas A vigília permanece Nesta inventada vida… Que ilumina os rostos

tão forte quanto brasa ardentemente Loucura despejada… raiva de prazer e dor Contigo à la tête…deslizo... Adormecido

JOSÉ NARCISO

Agora é Que São Elas

Não sei como pedir à Mouraria que escute a minha voz com atenção eu canto mas não sei se cantaria se o meu bairro não fosse uma canção

Histórias Que Não se Contam II

Até posso cantar pelo estrangeiro os fados de que é feito o meu país, levando a Mouraria ao mundo inteiro eu tenho a sensação de ser feliz Mas é pisando o pó destas vielas que o fado se transforma em tradição ouço a guitarra - agora é que são elas! alguém pede que eu cante... eu digo não   Depois... vem a saudade e por magia as noites têm medo de estar sós então vão segredar à Mouraria que o fado quer morar na minha voz

História a sós a cobertura de linho textura romântica e cheirosa Voo imaginário numa verdade encantada levado pelas asas do sexo às voltas com a lua fumegante Lábios mordidos pela doce nudez do fruto procurado romã dos desejos Sonho almofadado Deslizo ao sabor da pele macia ternamente em viagem pulsação animal nesta mente sexuada

JOSÉ NARCISO

TIAGO TORRES DA SILVA

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Sopa de letras

As duas imagens parecem iguais, mas na verdade contêm 7 diferenças entre si. Descubra-as.

Descubra 10 elementos associados às Festas dos Santos Populares de Lisboa. As palavras podem encontrar-se na horizontal, diagonal ou vertical e em ambos os sentidos.

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(Santo) António

Arraial Bairros Bailarico Casamento

Fadista Manjerico Marchas Quadra Sardinha

Morcegos+vampiro: 1-Falta um morcego no ar 2-Falta um tufo de folhas na copa da árvore de trás 3-Cor do número por cima da porta 4-Cor dos sapatos do carteiro 5-Falta uma pedra no chão do lado esquerdo 6-Pedra da parede do lado direito das pernas do carteiro 7-Falta uma divisória dos vidros da janela SOLUÇÕES


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No Bairro

Associação Renovar a Mouraria

Beco do Rosendo nº 8 T. 922 191 892 geral@ renovaramouraria.pt — 23 e 30 Jul (reserva até 2 dias antes) Curso de Chinês para espertinhos Duração: 4h Máx 8 pessoas Reserva: 218 885 203/ 922 191 892 20 € — Visitas Guiadas À Mouraria Ponto de encontro: Martim Moniz, junto à Igreja da Sra. da Saúde

6 Ago 14h00 China Lisboeta: viagem aos locais da comunidade chinesa.

31 Jul e 28 Ago 10h00 Mouraria: Da sua origem à actualidade multicultural e bairrista.

INATEL

Rua da Mouraria nº 60 — 28 — 31 Jul, 21h45 “Há Cinema na Mouraria” Ciclo de cinema e guitarradas no Edifício do Amparo

Casa da Achada

Largo da Achada nº11 T. 218 877 090 — Horários Seg, qui. e sex 15h — 20h Sábado e Domingo 11h — 18h Entrada gratuita Até 25 Set Exposição: Mário Dionísio – Vida e Obra: fotografias, documentos, livros, pinturas. — Todas as Seg, 21h30 Cinema ao Ar Livre 13 pessoas escolheram 13 filmes. Apresentação e debate com os espectadores. — 4 Jul Casablanca, de Michael Curtiz. Sebastião Lima Rego escolheu e apresenta. — 11 Jul Orfeu Negro, de Marcel Camus. Vítor Silva Tavares escolheu e apresenta. — 18 Jul Quem tramou Roger Rabit, de Robert Zemeckis. Pedro Rodrigues escolheu e apresenta. — 25 Jul Mikis Theodorakis – - A Cor Da Liberdade 2ª Parte.

Curso de Chinês para Espertinhos — O Mandarim é a língua mais falada do mundo e muitos já lhe chamam o inglês do futuro. Dentro de poucos anos, a língua chinesa será necessária em todas as áreas do saber e um importante instrumento de comunicação. No entanto, o conhecimento deste idioma é praticamente nulo no Ocidente. A Associação Renovar a Mouraria, em colaboração com a formadora Joana Dias, promove um curso para despertar a curiosidade para a língua chinesa e compreender o seu funcionamento básico. O que significa falar chinês, o código fonético pinyin e os quatro tons, a história e principais traços dos caracteres chineses e aprendizagem de 20 palavras básicas. Tudo isto em apenas quatro horas e regado com muito chá verde.

Luz Moita escolheu e apresenta. — 29 Jul, 18h Homenagem a Theodorakis no dia do seu 90º aniversário. Inclui a projecção da 1ª parte do documentário Mikis Theodorakis – A Cor Da Liberdade — Agosto Escolhas e apresentações por Regina Guimarães, Jorge Silva Melo, Filomena Beja, Eduarda Dionísio, João Pedro Bénard. — 16 Jul, 10h ao fim da tarde Feira de livros, discos e objectos. Coro da Achada, comes e bebes.

Galeria Colorida

Rua Costa do Castelo nº 63 T. 351 218 853 347 www.colorida.pt — 18 Jun — 1 Jul Robert McCune Fotografia EUA — 2 Jul – 15 Jul Farhad Jafari Pintura Irão — 16 Jul – 29 Jul Maria Soledad Leiva Pintura Chile — 30 Jul – 12 Ago Carlos Rios Pintura Cuba — 13 Ago – 26 Ago Loes de Haan Pintura Holanda

Arquivo Municipal de Lisboa

Núcleo Fotográfico Rua da Palma nº 246 T. 218 844 060 — Horários Ter—Sex – 10h — 19h00 (última entrada às 18h) Aberto 1º e 3º Sáb/mês 10h — 17h — Até 16 Jul

ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA/ARQUIVO FOTOGRÁFICO

agenda cultural Lisboa, da Avenida Rainha D. Amélia à Almirante Reis Fotografias - Séculos XIX a XXI — 25 Jul — 9 Set Avenida de Roma 1950 – 2011

Festas de Lisboa’11 Micro Bailes

— 1 julho 19h30 — 21h30 Beco do Jasmim, às Escadinhas da Saúde 9 julho 22h — 24h Rua da Mouraria

Bar Anos 60

Largo do Terreirinho, 21 T. 218 873 444 — Todas as primeiras quintas-feiras mês Noite de fados

Crianças e Jovens

Teatro Bocage

Rua Manuel Soares Guedes nº 13A (à Rua Damasceno Monteiro) T. 214 788 120/912 449 909 — 27 Jun — 16 Set 9h — 18h Férias no Teatro ATL de Verão Actividades semanais 5 aos 15 anos 140€ (5 dias) Desconto 10% para irmãos — 18 Set A Ilha do Paraíso M/ 4 anos

Lisboa, da Avenida Rainha D. Amélia à Almirante Reis - Fotografias - Séculos XIX a XXI — Uma viagem por uma das principais avenidas da cidade. Inaugurada com nome de rainha, ostenta hoje o nome de um dos principais heróis republicanos. O Arquivo Fotográfico pegou no mote “antes e depois”, foi ao espólio buscar as imagens mais emblemáticas da avenida e confrontou-as com imagens actuais. Cem fotografias que dão a conhecer a evolução arquitectónica, urbanística, social e política da Avenida Rainha Dona Amélia/ Almirante Reis. A exposição abrange um período cronológico de finais do século XIX à actualidade. Para ver até 16 Julho. Depois da Almirante Reis, segue-se a Avenida de Roma.

Teatro Taborda

Rua Costa do Castelo nº 75 Tel: 218 854 190 www.teatrodagaragem.com

— Serviço Educativo Sáb: 16h — 18h Até final de Junho Clubes de Teatro Júnior (4 – 12 anos) e Jovem (12 – 18 anos) jbelo@teatrodagaragem.com

25 €

Aqui perto

Antiga Cadeia do Aljube Rua Augusto Rosa nº 42 — Até 5 Out Ter — Dom : 10h — 18h “A Voz das Vítimas” Visitas guiadas: Ter 15h Marcação no local ou e-mail: info@aljube.net Entrada livre

Aljube - A Voz das Vítimas

Castelo de S. Jorge

— 2 Jul, 6 Ago e 3 set 18h — 21h Milongas no Castelo Terraços M/6 5€ — 6, 7, 8 e 9 Jul, 22 h A Flauta Mágica, de Mozart 2ª Edição das Noites de Ópera do Castelo de S. Jorge Castelejo M/4 € 7,50 (adulto) e € 5,00 (até 10 anos) — Todos os Dom, 11h Domingos em Família Dança, música e visitas para descobrir hábitos de outros tempos Inscrição: 218 800 620 | servicoeducativo@ castelodesaojorge.pt M/5 3€

— A antiga cadeia do Aljube é um lugar pouco conhecido dos lisboetas. Mas milhares de portugueses não a esquecem: entre 1928 e 1965 serviu de prisão para os opositores do Estado Novo. A exposição dá voz às vítimas da ditadura, mostrando o quotidiano vivido nesta cadeia, sem esquecer os curros, celas minúsculas onde os presos políticos eram forçados ao isolamento. O visitante pode também conhecer a história do edifício e os vestígios arqueológicos nele encontrados. “A Voz das Vítimas” é organizada pelo Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!, Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e Fundação Mário Soares, em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa. Além da exposição, outras iniciativas preservam a memória desta época: debates, projecção de filmes e visitas guiadas. A entrada é gratuita. Até 5 de Outubro. A dois passos da Mouraria.


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Rosa Maria

Junho — Agosto, 2011

salmoura

Molho à espanhola

Arroz malandro de grêlos

1 cebola 2 dentes de alho 1 ramo de salsa 1 colher de sobremesa de colorau 2 dl de azeite, 1 dl de vinagre sal a gosto

1 cebola 1 dente de alho 3 colheres de sopa de azeite 1/2 molho de grelos 2 chávenas de arroz 5 chávenas de água

Pique a cebola, o alho e a salsa e misture com os restantes ingredientes. Sirva com peixe grelhado e batata cozida.

Pique a cebola e o alho e leve a refogar no azeite. Quando a cebola ficar mole, acrescente a água. Assim que levantar fervura, junte os grelos, previamente lavados e arranjados. Quando estes estiverem quase cozidos, adicione o arroz, tape a panela e deixe cozer em lume brando.

os da esplanada, e vice-versa, mandam bocas do género: “Vê lá se estás calado, ó marcha atrás!” Todos participam: “Ó Cristina, diga-lhe a ele porque é que eu como peixe, eu vou ao mais barato!”

texto e fotografia Adriana Freire

Cá fora na esplanada, envolta numa névoa com aroma a peixe que vem do grelhador, espero pelo meu almoço. Os clientes habituais deste pequeno restaurante que mais parece uma casa de família, e que nesse dia são mimados com umas enguias fritas, com arroz de grelos, são os primeiros a serem servidos. Vendo a minha impaciência, lá de dentro, da sua cozinha que deve ter pouco mais de um metro de largura, a Cristina informa: “Ó Adriana, tu vais a seguir àquele entrecosto”. Enquanto espero, assisto ao movimento. Os da sala metem-se com

A Parreirinha da Mouraria Colabora comigo! ANUNCIE AQUI!

Todos os dias pelas 8h30, excepto ao domingo, a Cristina abre as portas da Parreirinha. Os primeiros clientes aparecem para tomar café, ler o jornal e dar dois dedos de conversa. Por volta das dez horas, a Cristina vai às compras no bairro e só então é que decide o que vai ser o almoço. A ementa depende do que ela vai encontrar no momento, tendo em mente aquilo que os clientes mais   gostam: peixe frito, petinga, sardinha assada, carapaus grelhados com molho à espanhola, entrecosto, febras, piano. No Inverno há arroz de cabidela de galinha caseira, dobrada com feijão, mãozinhas de borrego com grão, cozido à portuguesa. Durante o mês de Junho a Parreirinha serve almoços e jantares, nos restantes meses do ano, jantares só por encomenda.

Envia-me notícias, histórias do bairro, contos, fotografias novas e antigas, desenhos, receitas de culinária, anúncios e publicidade. Diz-me o que está mal, o assim-assim e o que vai bem. rosamaria@renovaramouraria.pt Telm: 922 191 892

Parreirinha da Mouraria Rua da Guia nº 4A Tel.: 964 697 118


Junho — Agosto, 2011

vox mourisco

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na dobra das palavras texto Ana Castro e Sara Ludovico ilustração Antònia Tinture Uma língua é uma espécie de rio: move-se, troca de águas, flui, estende-se em grandes lagos ou demora-se em vastas zonas pantanosas. Estes movimentos podem ser testemunhados pelas palavras que uma língua recebe e oferece. Depois de, nos números anteriores, termos viajado com as palavras pelas paisagens árabes e pelo Oriente, visitamos hoje o continente africano.

fotografia Luís Pó entrevistas Carla Maurício

Qual é o seu desejo para a Mouraria? Desejava que novas famílias viessem morar para a Mouraria e que mais turistas visitassem o bairro, para que eu tivesse mais clientes. Há 7 anos que estou aqui a trabalhar, tenho uma clientela fiel e estável, mas sinto muito a crise. E como o comércio aqui está a tornar-se só de retalho, ainda é pior.

Queria mais segurança, mais respeito pelas pessoas. Quando eu era pequena brincava na Rua do Capelão e não havia perigo. Mas agora tenho receio pelos meus filhos, que têm 4 e 9 anos. Prefiro que estudem e tenham os amigos no Campo Santana, onde eu moro. Ana Sofia Ramos, empregada no Hotel Mundial

José Monteiro, 54 anos, proprietário de café

Desej ava que houvesse mais segurança e menos lixo nas ruas. E, acima de tudo, queria que os direitos e deveres dos comerciantes fossem os mesmos para todos, independentemente da nacionalidade que têm. Antigamente era difícil importar, havia quotas de importação. Agora? É só ver chegar os camiões TIR cheios de artigos importados e que depois são vendidos ao preço da chuva. Damásio Capelo, comerciante na Mouraria há 40 anos

Queria ver mais coisas boas, mais limpeza, menos droga, menos drogados. E gostava que houvesse mais respeito uns pelos outros. Pela minha parte, dou-me bem com os indianos, com os do Bangladesh, e até com os chineses que são mais fechados. Mas gostava que todos se dessem bem. Maria José Luís, 71 anos, costureira

Desejava que o bairro tivesse um bom parque infantil. E também seria bom que a Câmara Municipal de Lisboa ajudasse o Grupo Desportivo da Mouraria a colocar um piso novo no campo de futebol. Gostava de ver uma reabilitação dos edifícios degradados e que se criasse um ambiente mais saudável para o desenvolvimento das crianças.

achimbo é um bom exemplo de como, no reverso de cada palavra, pode quase sempre encontrar-se uma visão do mundo, uma filosofia, uma religião, toda uma cultura entendida como conjunto de saberes, de crenças, de hábitos e de outras capacidades adquiridas pelo homem enquanto membro de uma sociedade. O linguista Eduardo Paiva Raposo dizia que «A realidade da noção de língua portuguesa [...] pertence, mais do que ao domínio linguístico, ao domínio da história, da cultura e, em última instância, da política.» A língua reflecte gostos comuns, ideias partilhadas e histórias que se perdem no tempo, como a viagem da palavra “nicotina”, cujo nome foi imortalizado por Jean Nicot, embaixador francês em Lisboa que, em 1560, levou o tabaco originário da América a Catarina de Medici, rainha de França. Apesar do mistério da etimologia, a verdade é que a palavra “cachimbo” espelha a originalidade do português, pela sua permeabilidade às línguas estrangeiras e pela forma como por vezes se distancia das demais línguas-irmãs. Afastando-se das outras formas das línguas europeias, cuja designação tem na raiz a mesma palavra que deu depois origem ao verbo “piar”, indiciando um sugestivo contágio entre som, sentido e objecto, a solução do mistério do cachimbo torna-se mais difícil. Há três hipóteses para a origem desta estranha palavra: americana, turca e, a mais provável, africana (quimbunda). E se portugueses, alemães e espanhóis fumam “o cachimbo da paz”, como certos povos indígenas norte-americanos, os italianos fumam como “turcos” (os portugueses como “chaminés”, os franceses como “bombeiros” e os espanhóis como “cocheiros”). Mas nesta vertigem de contaminação é bom não perder de vista o legado africano do quimbundo, que nos enriqueceu em vários momentos da nossa história, ao dar-nos novas palavras para designar as coisas boas e más do mundo e da civilização: carimbo, dengoso, cacimba, senzala, etc.

pipe (inglês) pipa (italiano) (árabe) (romeno)

João Costa, 38 anos,

(mandarim)

auxiliar de topografia

(russo) Queria que arranjassem estas calçadas com remendos de alcatrão e que as ruas não tivessem este excesso de trânsito. Desejava que a população estivesse mais sensibilizada para a reciclagem, para não acumular tanto lixo nas ruas. Queria que se investisse mais na Mouraria, até porque parece que somos um parente pobre de Alfama, que está toda arranjadinha. Gostava de aqui ver um ambiente mais sorridente. Paula Pinto, 39 anos, gerente de loja

(ucraniano)

cachimba (galego) B.I.

Quimbundo: (ou dongo, kindongo, loanda mbundu, loande, luanda, lunda, mbundu n’bundo, nbundu, ndongo, mbundu do norte) Número de falantes no mundo: 3 milhões Variedades: 4 variedades conhecidas njinga (ou ginga ou jinga), mbamba (kimbamba ou bambeiro), mbaka (ou ambaquista) e ngola Família*: Nígero-congolesa, Bantu; o quimbundo é “primo” do umbundo (a língua nacional mais falada em Angola) Geografia: Língua nacional de Angola, falada no noroeste do país, na região de Luanda, e também por comunidades emigrantes no resto do mundo Sistema de escrita: sem tradição escrita, há registos, iniciados por missionários católicos, usando o alfabeto latino Ranking: 171ª língua mais falada no mundo, 3ª língua mais falada em Angola (depois do português e do umbundo) *As línguas, como as pessoas e as espécies de animais e plantas, têm família (e apelidos!): pais, irmãos, tios, primos mais próximos e mais afastados, avós, bisavós e tetravós... todos descendendo de um antepassado comum e com diversos ramos (sub-famílias). Fontes: www.ethnologue.com e Wikipedia


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Rosa Maria

Junho — Agosto, 2011

banda desenhada de Nuno Saraiva

entrevista Ana Luísa Rodrigues fotografia Ana Catarina Caldeira

“Preocupa-nos o consumo do álcool” O contexto da crise é “um caldo extremamente favorável” ao uso de substâncias ilícitas. Mas é o abuso de bebidas alcoólicas em relação ao qual “há uma enorme complacência social” - que mais alarma o IDT, explica o presidente e médico João Goulão.

Portugal tem sido elogiado internacionalmente pelas políticas de combate à toxicodependência e apontado como modelo a seguir. Porquê? Tivemos uma situação dramática, uma verdadeira epidemia: em 1995 as estimativas diziam que cerca de 1% da população portuguesa estava agarrada à heroína, uma brutalidade. Mas sobre o “modelo português” dizemos que a evolução positiva resultou não apenas da descriminalização do consumo, mas de todo o pacote de medidas: tratamento, redução de danos, prevenção. Qual o efeito da descriminalização? Fomos pioneiros na descriminalização do consumo de todas as substâncias. Na sequência disso criaram-se as Comissões para a Dissuasão da Toxicodependência, que administram penalidades. Que fique claro que consumir drogas em Portugal continua a ser proibido. Estas comissões têm uma postura – e é isso que é inovador no modelo português - de intervenção preventiva. É mostrado um cartão amarelo: “Pensa lá na tua vida”. A descriminalização teve outra coisa importante: havia toxicodependentes que não se aproximavam dos serviços de saúde com receio

de serem referidos à polícia. Hoje temos em tratamento cerca de 40 mil pessoas. Acha que os cidadãos entendem esta abordagem? De uma forma geral acho que sim. E isso resultou também do facto de o fenómeno ser transversal. As pessoas sabem que “o Manel”, “o meu filho”, “o meu sobrinho” não é um bandido, é uma pessoa que precisa de ajuda. Apesar de tudo, há compreensão para a necessidade de intervir ajudando, mais do que perseguindo ou metendo na cadeia. E que políticas especificas há para as “ilhas” de toxicodependência? Há um Plano Operacional de Respostas Integradas (PORI) cujo fundamento principal é o diagnóstico. Foi um trabalho exaustivo a nível nacional de identificação das zonas problemáticas. Temos um diagnóstico territorial que, em alguns casos, é tão detalhado que às vezes é dificil ser publicitado, isto porque identifica lugares especificos. O que está a dizer é que, nomeadamente em relação à zona do Socorro/Anjos/ São Cristóvão, há um mapa do tráfico e do consumo? É isso. O diagnóstico está feito. Temos, por exemplo, a capacidade de dizer assim: há ali 30 ou 40 jovens com comportamentos de risco, que beneficiariam da intervenção no âmbito da prevenção ou redução de danos. Ou seja, a troca de se-

ringas, o trabalho continuado junto das pessoas e convidá-las insistentemente para que aceitem tratamento. Os cortes no orçamento do Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) colocam em risco esse PORI para a zona da Mouraria? Não conseguimos ter a expansão do PORI que teríamos noutras circunstâncias, por isso temos de definir prioridades. Mas está definido que o projecto da Mouraria irá para a frente. É um programa que durará cerca de dois anos. Actualmente, no território da Mouraria temos a actuar a equipa de rua no âmbito da Associação Crescer na Maior. Com todo este contexto social de crise é de prever um aumento do consumo? Não temos evidência científica. Mas a experiência aponta para isso, é um caldo extremamente favorável. Pode passar pelo aumento do consumo de substâncias ilícitas, mas preocupa-nos sobretudo o álcool: acessível, barato e com enorme complacência social. Como é que as famílias podem contrariar isso? É tentar ter em mente que estes “refúgios”, em vez de ajudarem a resolver os problemas, só agravam. O indivíduo está desempregado, tem enormes dificuldades, e “bebe para esquecer”… esquecer o quê? As coisas não se resolvem, pelo contrário.

Rosa Maria, Jornal da Mouraria, nº 2  

A project by Associação Renovar a Mouraria Design by Armanda Vilar

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