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Idealização e Realização Arícia Lamano, Fernando Laruccia e Rafael Amambahy. Ilustração e Diagramação Fernando Laruccia Fotografia Arícia Lamano e Rafael Amambahy Orientação Christiane Wagner, Elcio Sartori e Marina Chaccur EditoraTrama Rua Maria Antônia, 234 - Higienópolis. CEP: 02121-080 - São Paulo - SP. (11) 3245-8798 atendimento@trama.com.br www.editoratrama.com.br Centro Universitário Belas Artes de São Paulo AN7DG

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esde sua origem medieval, em que a adoração e a iconolatria eram recorrências, até suas releituras e reinterpretações populares e pós-modernas, os relicários sempre foram carregados de múltiplos significados culturais, religiosos, saudosísticos, sociais e espirituiais. Também pudera, o relicário nada mais é que um aglomerado de significantes físicos, colecionados e mantidos em estado de preservação, exposição e adoração. Contudo, não há dúvidas que esta idéia está intrínseca à própria cultura brasileira, do ponto de vista visual-imagético, cultural e ideológioco. Partindo para uma interpretação de cunho mais filosófico, é possível considerar um relicário como um símbolo de uma vida. Ao traçar uma linha cronológica, pode-se identificar diferentes fases: o nascimento, a infância, a juventude, a madureza, a velhice e o fim. É elementar, é a ordem linear da existência do servivo e do ser social. E, como seres viventes em sociedade consumista, capitalista, de produção, consumo e cultivo de signos, tais etapas podem ser representadas por objetos. Se cada um tomar a si próprio como exemplo, poderá constatar que os artefatos sempre estão presentes na existência e exercem grande importância emocional. Nossas vidas resultam um relicário. Por isso, “Relicarivm”, baseado nesta concepção, traz a história da vida de uma personagem típica da sociedade brasileira. Os arquétipos sociais de família, de infância, de adolescência e outros mais dão forma aos contos da obra, cheios de irreverência e sempre resgatando os costumes e trejeitos brasileiros. Lucas Mariano, um típico vivente de uma cidade interiorana, vive acontecimentos que delineam sua existência, desde seu nascimento até sua morte. Se a ordem convencional do livro - ou seja, do começo ao fim - traça uma vida, quando o leitor chega ao fim, em que é necessário que vire o livro de “ponta-cabeça”, a trama que então se apresenta, dá sentido aos subtítulos: “Vida & Morte” e “Morte & Vida”. A ordem contrária trata da existência confusa da personagem que, como espírito penado, sem memórias, lembranças ou sequer compreensão de sua própria condição, encontra, a cada conto, os objetos que, outrora, traçaram sua vida. Para permitir diferentes entendimentos, dando asas à imaginação do leitor, os contos deste livro podem ser lidos sequencialmente ou aleatoriamente.Tal não-linearidade alude à própria composição de um relicário, em que cada objeto pode ser observado à parte, em diferentes agrupamentos ou em sua totalidade, possibilitando também múltiplas compreensões. Mergulhemos, portanto, no universo místico, diverso, complexo e atraente de “Relicarivm”. Sinta-se livre para descontruir e reconstruir este relicário à sua maneira!

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““Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu...” (Isaias. 9:6)

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“E eis que em teu ventre conceberás, e darás à luz um filho...” (Lucas, 1:31)


MENINO odeados pelas mulheres da família, eram revelados apelos e preces entre as baforadas e aspirações intensas de Fátima. Quando já coroava, as tias, avós e primas agarravam-se em seus rosários e clamavam pelo bom sucesso do parto. A parteira Benedita orientava Fátima a respirar freneticamente e empurrar o menino. Fátima empenhava suas forças até onde podia aguentar e, quando já beirava o desmaio, ouviu os berros do nascido e a alegria das mulheres. Benedita procedeu como mandava a tradição, banhou o rebento na água da bacia e o repousou no colo da parturiente. Junto ao menino, a parteira entregou a Fátima uma medalha de São Lucas, uma vez que era dezoito de outubro, o dia do evangelista. Quase desacordada, mas comovida com o que acontecera, Fátima amarrou a corrente com a medalha no pequeno pulso e traçou o sinal da cruz no busto ainda em pranto. A lágrima prestes a rolar pelo rostinho recuou e o choro estancou, dando lugar para um respirar contente e de ternura. Lucas, tal como o santo artista, chamará meu filho abençoado. Desde então, a medalhinha tornou-se um símbolo do vínculo entre mamãe e eu. Sempre carreguei no mesmo pulso em que foi amarrada em meu nascimento e, quando peço a benção de mamãe, ela segura a mão com o amuleto e diz: “Deus te abençoe meu filho querido”.

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A Segunda

a torre da matriz soava cinco badaladas, anunciando a missa do galo. As velhas viúvas se reuniam à frente do posto policial, para evitar apuros com salientes. Os perfumes adocicados das velhotas se misturavam, formando um enjoativo aroma como de bromélias e mel. Os casais seguravam as mãos dos filhos em trajes engomados. Lucas seguia a multidão quase que em procissão. Entrou desatento na matriz e deparou-se com uma caldeira: as luzes das velas, o calor da gentarada, os cheiros dos diversos perfumes e do incenso do turíbulo sacudido pelo coroinha, o falatório e a cantoria, o estrondo do órgão tocado com esto pela senhora magricela e de cabelos em falripas. Tudo era alheio e, ao mesmo tempo, trazia memórias avulsas e lembranças doces. Após a homilia, pairou um ligeiro silêncio. Pelo corredor central da igreja, entrou uma moça de túnica branca e, com um sorriso acanhado, dançava leve, carregava um menino, representando Jesus. O vigário recebeu o rebento e o exibiu ao povo que aclamou com palmas ardidas e calorosas. Lucas se impressionou com a criança, depois ficou atordoado com o barulho ensurdecedor das palmas e caiu ao chão, desfalecido. Com a vista turva, via as pessoas sacudindo os braços no alto, ainda saudando a santa imagem e, sobre seu corpo, sentia cair pétalas de flores e cera derretida das velas. Tudo se fez escuro. Ouvia sussurros dizendo: “Deus te abençoe meu filho querido”. Sentiu o repouso gelado e rígido de algo em sua testa. Era uma medalha de São Lucas Evangelista que, de tanto sacudir e aplaudir, despencara da pulseira da mulher alta e curvada, com pernas franzinas e com véu sobre a cabeça. Acabara. O espírito encontrara a saciedade ao deparar-se com o símbolo do mais forte vínculo em vida – a medalha dada pela mãe de Lucas era idêntica àquela- e, de vez, desencarnara; deixara de impedir o alívio. Enfim, morte.


“Deixai os pequeninos e não os estorveis de vir a mim; porque dos tais é o reino dos céus.”

(Mateus. 19:14)

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“ Até a criança se dará a conhecer pela suas ações...”

(Provérbios, 20:11)


BONECO NOVO empre achei uma tortura visitar a casa de Titia Noca. Lá não tem crianças, cachorro, papagaio, nada divertido. Mas parecia pirraça, pois íamos a sua casa todos os domingos, após a missa, eu, Efigênia, minha irmã mais velha, Inácio, meu irmão mais novo e mamãe. Tornou-se costume. Papai sempre volta pra casa, pois não gosta do tio Jeremias. Uma vez os dois tiveram um briga terrível: titio havia pedido emprestado o canivete de papai e o vendera, sem sua autorização, a um desconhecido que visitara nossa cidade. Quando soube, papai saiu na mão com tio Jeremias. Depois desse dia, os dois nunca mais se falaram e quando se vêem ocasionalmente, fingem não se conhecer. Certo dia, cansado de brincar com meu irmão Inácio que, na verdade, já nem ligava mais pra mim, decidi ir ao quartinho nos fundos da casa, à procura de algo pra me distrair. Lá, encontrei um baú velho e abri-o. Havia muita qunquilharia: lençóis, roupas velhas, louças, enfeites de natal e outros cacarecos que nem sabia dizer para que serviam. Inesperadamente, avistei um boneco de borracha no meio da bagunça. Mais tarde descobri que este fora de um filho de meus tios, falecido ainda novo. Pedi e eles o brinquedo. Brinquei com o bonequinho até o fim da visita. Quando fomos nos despedir de Titia, deixei o boneco junto com os suvenirs do aparador da sala. Fiquei contente pois, de agora em diante, sempre que eu fosse à casa da Titia Noca, teria uma nova companhia.

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A boneca O circo esta há uma semana na cidade. A noite límpida estava repleta de estrelas, que brilhavam alegres no céu claro. Lucas vagueia por entre as barracas, pensativo. “Como? Ninguém?”. As crianças pareciam não acreditar no que viam; queriam aproveitar tudo ao mesmo tempo. Os casais enamoravam-se, os mais jovens convidavam suas mulheres para um passeio no carrossel. “Vai começar! As atrações mais incríveis!”, anunciava um anão vestindo um terno, carregado por um rapaz muito alto e magro de olhos esbugalhados. A tenda enorme estava lotada. As luzes se apagaram e o holofote dirigiu uma luz focada ao palco. Uma voz rouca anuncia: “Queridos amigos, temos tudo que vocês sempre sonharam, mas nunca viram de perto! Os monstros mais terríveis, animais enormes, e muitas, mas muitas outras coisas i-nima-gi-ná-veis! Agora, nossa primeira grande atração: o Abominável Homem das Neves!”. Um rapaz alto, vestindo pelúcia, todo pintado de branco, apareceu na luz. Andava pelo palco, seguido do holofote; uivando com os braços levantados. Todos gritavam e esperneavam de medo. O locutor anuncia a segunda atração: a Boneca sem Ossos! Dois homens fortes entraram e colocaram um baú grande no centro do palco. A tampa se abriu. Uma mão saia dali de dentro. Depois um braço, outro e uma cabeça. E, após alguns instantes, uma moça vestida de boneca saia de dentro do baú, iniciando sua performance fantástica. Lucas havia entrado em transe. Vira numa corrente fulminante, em sua mente, uma criança brincando com um boneco de borracha, acompanhada de seus pais. O pai pegou o brinquedo com candura, jogou para cima e quando este ia cair, Lucas voltou a si. A atração agora era outra. Macacos faziam malabarismos em cima de tambores. Lucas não conseguia se concentrar. Saiu da tenda, olhou para o céu, muito claro e a vertigem voltou. O boneco agora caia, o rapaz o pegou e deu a criança, que agora dava pequenos gritos de alegria. Lucas sente os lábios tremerem e volta a si. Ninguém parecia notar suas presença. - como era possível isto? Ele estava ali! Olha mais uma vez para o céu. As estrelas estão lindas!


“Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração.”

(Eclesiastes. 11:9)

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“ Quem enche a tua boca de bens, de sorte que a tua mocidade se renova como a águia.”

(Salmos. 103:5)


EPIRITO SANTO ra o tempo das festas juninas. Em pleno ginásio, queriam que nós, “pré-praticamente-adolescentes”, dançássemos a tradicional quadrilha caipira. Tradicional para crianças que não tem senso do ridículo ou para adultos frustrados e nostálgicos. Para mim, era o vexame mais promissor do ano. Mas era obrigação ditatorial: ou dança ou repete de ano. Quando contei para meus pais, com certa indignação e desdém, parecia que acabara de nascer o menino Jesus! Saltitaram de alegria e contentamento. Mamãe estava até chorosa, dizia jamais esquecer a quadrilha que dançara com papai, em mil oitocentos e guaraná com rolha, quando se apaixonaram e iniciaram sua “saga amorosa”. Não sabia que este evento tinha tamanha importância para meus pais, mas pude constatar quando meu pai chamou-me para um dedinho de prosa. Papai disse: “Meu filho, no dia em que iria dançar a quadrilha com sua mãe, seu avô teve esta mesma prosa comigo e me presenteou com este relógio, dizendo representar o bom senso e o discernimento, e que traria sorte na vida e no amor. Agora, faço minhas tais palavras. Dou-lhe esse relógio, espero que tenha a mesma estima que tive e que lhe traga o que me trouxe”. Agradeci papai e guardei o relógio no bolso. E parece que o encanto do relógio se repetiu. Meu par na quadrilha foi uma formosura de moça pela qual dedicarei meus sonhos. O sorriso de Lourdes ficou gravado em minha memória.

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Marca tempo e traz em pressa, sem pressa mamãe, dizia a menina esquálida ao sair de um velho casarão. A senhora que vinha atrás, bastante corpulenta, em trajes quase elegantes, respondeu com sua voz esgarçada: “Mas menina, a hora não para! Temos que chegar à missa antes que o vigário dê início”. A menina impaciente continuava a berrar com sua mãe. Toda esbaforida e vermelha de raiva, a velha tirava de um dos bolsos de seu bisaco, um velho relógio, para mostrar à menina que já não podiam andar vagarosamente. Neste ínterim, Lucas perambulava desatento pela ladeira que as mulheres desciam; o banzé chamou sua atenção e, súbito, dirigiu seu olhar às madamas. No entanto, como o sol fazia-se astro, não conseguiu ver com definição as feições, ainda mais que, justo no momento que olhou, um raio de sol refletiu sob a superfície metálica do relógio que a velha ostentava, cegando-lhe por alguns instantes. Quando sua vista voltou, as mulheres já haviam ido embora, mas, no mesmo lugar que elas discutiam, reluzia, com menor intensidade, o relógio caído ao chão. Lucas se aproximou e recolheu o antigo “marcador do tempo” que, pela queda, teve seu visor rachado. Segurando-o pela corrente, Lucas exibia um olhar estático e profundo, como se o pequenino objeto lhe falasse algo. Em sua mente, pulavam fleches e lembranças vagas; em seu corpo, dores e sensações desconhecidas lutavam contra a dormência. O que acontece? A reles figura do relógio em pedaços despertara sentidos, vibrações e estímulos. Repentinamente, tudo tomava forma mais definida e encorpada. A fala engasgada na goela parecia jorrar e os pensamentos inconclusos tornaram-se frenéticos. Como se morre duas vezes? Como se vive duas vezes? A indefinida e incompreendida existência de Lucas começara a penetrar em seu turvo raciocínio. “Graças a Deus chegamos”, dizia a velha apertando a mão de sua filha, entrando na igreja matriz de Pinhalzinho.


“Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele.” (Gênesis. 2:18)

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“Vós, maridos, amai vossa mulher...”

(Efésisos. 5-25)


INESPERADA cerimônia do casamento sucedera maravilhosamente bem; fora muito mais intensa e bela do que imaginava. A igreja estava decorada com toda pompa; os padrinhos vestidos com os devidos trajes; e Lourdes atrasara-se apenas alguns poucos minutos (afinal, se a noiva chega à hora marcada, o casamento perde sua graça). O tradicional arremesso de arroz acontecera como manda a tradição, até adentrarmos o veículo em direção ao salão de festas. Durante o trajeto, recebi uma ligação de meu irmão Inácio, dizendo que o boneco do bolo não tinha sido comprado e que não teríamos tempo hábil para conseguir outro. Nenhuma solução me veio à mente no momento, assim, deixei em suas mãos a saída para o problema. Todos esperavam nossa chegada dentro do salão. Lourdes havia trocado seu vestido de noiva branco, por um mais confortável, momentos antes. Meus olhos dirigiram-se em direção ao bolo, à procura do “recurso” arranjado por meu irmão. Mas as luzes ofuscantes da festa estavam todas direcionadas a nós dois e me impediam de enxergar ao redor. À medida que nos aproximávamos, pude perceber que algo estava em cima do bolo - meu irmão conseguira o boneco? Como foi alegre minha surpresa no momento em que avistei o casal em forma de boneco no topo do bolo. Por sorte, os donos do salão tinham consigo bonecos de outros casamentos guardados; e cederamnos um, que, apesar de simples, fora nossa salvação.

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Perua entado em um toco, Lucas vasculhava a mente sempre confusa. Sem querer, escutara um velhote, dono de uma sorveteria, indicando a um freguês, que o inquirira sobre um lugar para distrair a mente, uma velha casa da luz vermelha. Crédulo no velho, Lucas foi à zona. O lugar era bem escuro; com umas poucas luzes incandescentes; a música ambiente - seria Bossa Nova? - dançava pelo ar, aparentemente ignorada pelos presentes, na sua maioria velhos, aos grupos. Foi a um sofá largo, de couro falso e se sentou. O clima era levemente onírico, entre as luzes azuis do neon. Eis que uma velha, montada de trajes majestosos, mas já muito usados, rompeu a porta de entrada. Os velhos se excitaram e quase todos se levantaram para apreciar melhor a perua que parecia desfilar entre as mesas. O salto alto dava-lhe um ar cômico e vulgar. Retirou um cigarro comprido da bolsa incrustada de lantejoulas. Foi a um jovem esbelto, dobrou um pouco os joelhos duros e pediu fogo. O rapaz; trêmulo, arrancou um isqueiro do paletó e acendeu o cigarro da perua. A velha deulhe um beijo nos lábios, fez meia volta e foi até o balcão. Pediu Gin com abacaxi. Tomou num gole só. Pediu mais uma dose. Bebeu. Levantou-se meio zonza, deu três passos e tropeçou entre as pernas secas. A bolsa voou longe; todos correram para ajudar. Ela começou a rir intensamente. Não fez o menor esforço para ficar de pé. Com muito empenho, colocaram-na no sofá. Lucas deu com a vista num casalzinho de bisqui que havia caído da bolsa da velha, foi até ele e o pegou. Olhou com mais atenção e uma luz fortíssima veio em sua direção. Uma moça muito bonita era empurrada num balanço por um rapaz. Subitamente, ela tirou um boneco do bolso do vestido e mostrou ao rapaz. Lucas volta a si. Os velhos continuam a conversar. Quem era aquela moça do balanço, quem era aquela perua?


“Os teus filhos serão como plantas de Oliveira, à roda da tua mesa”. (Salmos. 128:3)

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“Eis que os filhos são herança do Senhor...”

(Salmos. 127:3)


SEMPRE omo todas as manhãs de sábado, Lourdes preparava a polenta e o pandeló. Ruth corria pelo quintal aos berros, reclamando que Isaac não parava de atormentála. “Papai, papai, “Zaque” está puxando minhas trancinhas, mande-o parar”. Eu sempre dizia: Meu filho, pare de amolar sua irmã, ela ainda é pequena”. Logo ele achava outra diversão e deixava Ruth em paz. Quando era a hora do almoço, Lourdes surgia na sala e convidava a todos para sentarem-se à mesa. A cabeçeira era sempre de meu sogro, o patriarca. Dona Teresinha sentava-se ao lado dele e já começava a serví-lo. Lourdes servia os meninos, a mim e depois sentava-se conosco. A comida era divina. Os sogros sempre elogiavam e depois faziam o mesmo inquérito com Lourdes, sobre meu tratamento, meus modos e minhas origens, com cautela e delicadeza, mas sempre com intuito de dar alguns pitacos e conselhos. De tardezinha, quando a comida baixava, os sogros iam embora, abençoavam os meninos e se despediam de Lourdes com remorso e saudade. Quando chegava a hora de dormir, os meninos já sabiam: Sábado é dia de “naninha”. Assim chamavam o mimo que Lourdes e eu fazíamos sagradamente às noites de sábado. Os meninos se deitavam, nós apagávamos as luzes, beijávamos as testas, dávamos corda na velha caixinha de música que tocava uma melodia sacra e cantávamos a cantiga que mamãe sempre me ninava: “Com Deus eu me deito, com Deus eu me levanto, me cubra Nossa Senhora, com seu santo manto. Amém”

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Doce Melodia do onolento, Lucas seguia em sua caminhada rumo ao nada. Passava por entre os jovens que cantarolavam marchinhas de carnaval. A moçinha parda, com ancas largas e flores de crochê no tufo de cabelo chacoteava as cantigas, com leve malícia e sarcasmo. O rapaz moreno que apertava sua mão ria desatinado e, com a outra mão, sacudia uma matraca estrondosa. Os demais faziam coro com a mulatinha, tocando pandeiro, reco-reco e meia-lua. Lucas até tentava acompanhar a zoada, mas os jovens o ignoravam sem decoro. Será que é porque estou velho? Vagos questionamentos fervilhavam na mente de Lucas mas, sem propósito, continuava a andar pelas vielas. Quando passava por um sobrado carcomido, uma melodia suave e serena ecoava nas saletas. Lucas aproximou-se do batente, chamou por alguém e, sem resposta, abriu a porta e entrou. O ranger da velha porta e a fresta do sol gerada espantou alguns ratos que passeavam por ali. A casa estava abandonada. Como pode tão doce melodia ecoar neste mausoléu? Subiu a grande escadaria e, no último quarto do corredor, encontrou uma menina moreninha de cócoras, dando corda numa velha caixinha de música. A presença de Lucas não afetara a menina que parecia hipnotizada pela música. Lucas desacordou. Desvarios tomaram sua consciência. Crianças contentes, cantando doces canções, junto aos pais sorridentes. Numa inexplicável sinestesia, Lucas sentiu a música como luz e voltou a si. Cadê a menininha?


“O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa.” (Salmos. 144:4)

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“Coroa dos velhos são os filhos dos filhos; e a glória dos filhos são seus pais.” (Provérbios. 17:6)


REPENTINAS olo na cama. Bocejo. Mudo de posição. Nada! A insônia insiste em me atormentar. Lourdes se vira; oho-a, mas ela continua dormindo. O cuco bate duas horas, e eu ainda acordado - o jeito é fumar. Pego o cigarro de palha e a caixa de fósforos no bolso da calsa de brim, sobre o cabideiro. Louders vira-se mais uma vez, mas não dá conta da minha ausência - sempre invejei seu sono profundo. Está frio lá fora - melhor pegar um casaco. No espelho do nosso armário, em meio às sombras da noite, apenas iluminado pela luz tênue da lua, deparo-me com meu rosto velho e cansado que denuncia a idade. Mudo o olhar de direção e a vista cai no antigo porta-retratos com a foto de meus pais. As lembranças de minha vida atravessam minha mente num fleche vertiginoso; a saudade aperta meu coração cansado. Desisto do cigarro - minha avó tivera muita estima por esse porta-retratos. Certo domingo - constava eu 20 anos - estavam todos arrumando-se para a festa mais importante e esperada de Pinhalzinho, a de Nossa Senhora Aparecida: mamãe empastelando a face com maquiagem; papai louco à procura de seus sapatos, fazendo promessas a São Longuinho para achá-los; meus irmãos discutindo para ver quem dirijiria nossa velha Brasília. Em meio a toda essa confusão, vovó me entregou um embrulho com suas mãos trementes, depois deu um sorriso doce. Abri-o! Era o porta-retratos que ela mantinha na sua sala de jantar com todo zelo.Vovó disse: “Filho, dou-te agora este portaretrato para que tenhas sempre algo para lembrar de mim, já que nossa vida aqui na terra é passageira. Guarde-o o contigo. Àquele tempo eu ainda não havia adquirido o hábito de fumar. Acho que vou largar o cigarro, quem sabe meu sono melhora.

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Quebradeira e o cão do céu turbulento e pesado anuncia chuva das que há muito não se vê. O vento começa a soprar intensamente, levando consigo as folhas secas dos pinheiros de Pinhalzinho. Quase toda a cidade está em casa, é domingo. Lucas vaga sem rumo pelas ruelas. Tudo à sua volta é tão familiar e ao mesmo tempo, distante e impreciso. Chega a reconhecer casas, praças, rachaduras nas paredes, portões, e, logo, não sabe de onde vem essas memórias; tão pouco quem são os donos das casas – será que já estivera naquele lugar antes? A chuva esperada despenca. Águas rolam pelo asfalto, limpando os restos de poeira. Lucas busca abrigo e, após alguns poucos minutos de procura, encontra um botequim. No lugar, um casal jovem conversa muito baixo, há um cachorro dormindo sobre um tapete de pano rasgado, em frente ao balcão. A chuva aumenta lá fora. O dono do bar, um senhor de meia idade, robusto, peludo e de bigode, lava a louça; alheio. Lucas decide se sentar. Tira os sapatos ensopados, as meias; estica as pernas, posicionando-se da maneira mais confortável que o assento lhe permite. Força a mente em busca de vestígios, mas só consegue uma dor de cabeça. Sobre o balcão há um porta retrato velho. Lucas, sem saber por quê, dirige-se a ele, mesmo descalço. O dono do bar, 15 anos mais novo, com uma barba comprida, está ao lado de uma moça não muito bela, mas que demonstra muita doçura. Lucas passa a mão pelo vidro empoeirado, e um arrepio corta-lhe o corpo, juntamente com uma lembrança, que invade sua mente. Vê dois garotos, uma menina e um menino, correndo contentes por um jardim muito verde, junto aos meninos pula um cachorro alegre. Ali entre eles, avista um menino – parece ser ele mesmo? – que entra na roda da bagunça. Lucas, sem saber por quê, solta: “Quebradeira!”. A lembrança desaparece. Nem o casal, tampouco o senhor gorducho dão conta do ato. Somente o cachorro, que antes dormia, encara-o sonolento. A chuva parece não ter fim.


“Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte.”

(Provérbios. 14:12)

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“Pois todos os nossos dias vão passando na tua indignação; acabam-se os nossos anos como um canto ligeiro.”

(Salmos. 90:9)


DERRADEIRA cortina dançava com o vento que soprava peja janela entreaberta. O cheiro de éter que impregnara toda a Santa Casa já era despercebido, afinal, era a sétima semana de internação. A sonda espetada em meu braço já não era mais estorvo, assim como o compassado apito do monitoramento cardíaco. Lourdes já estava exaurida, mas jamais transparecia, mantinha-se firme ao meu lado. Às madrugadas, quando o sono tardava, perdia-me observando todos os relevos e reentrâncias do teto, das paredes, da mobília e dos aparelhos que compunham o leito. Era como se o olhar pudesse caminhar pelo quarto, visto que minhas pernas, já imprecisas e atrofiadas, falhavam nesta função. Mesmo assim, me levantava e aproximava do espelho pendurado na parede à frente. A vista passava então à passear pelas sinuâncias de meu rosto: as rugas e sulcos, as têmporas, os pêlos grisalhos e todas as imperfeições geradas pela passagem da vida. Na noite derradeira, quando o olhar percorria os próprios olhos - a única situação em que o remetente e o destinatário se encontram em comunhão, como se a gota de orvalho, ao tocar a folha, alcançasse a nuvem -, senti o frio da morte. A partir de então, meu corpo mergulhou numa profunda dormência. Sentia o vazio, a interrupção das irrigações sanguíneas, o rompimento das vibrações. A imagem refletida de minha velha face foi se turvando e se aproximando, até que, de forma repentina, tudo se fez iluminado e indefinido. Era o fim da vida. Mas, estranhamente, não me pareceu o fim da existência.

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As metáforas à Luz

luz cegava-lhe e iluminava o vazio. Nada era nítido ou sabido. A letargia da morte embebedara o corpo desgastado de Lucas e, onde outrora a vida provocou estímulos, vibrações e emoções, a morte envolvera com seu torpor e frigidez. Tudo que seu velho corpo sempre experimentou fora extinto e agora, tudo era alheio: o vento que o tocava era como cacos de vidro e a luz incandescente queimava os olhos. Em meio ao nada, uma imagem o interceptava, meio opaca e embaçada: um rosto encanecido e inerte, com aspecto doente. Sob a superfície fria e lisa do espelho que se apresentara a sua frente, revelava-se a imagem da face. Mas não era reflexo, era registro, pois mesmo que Lucas se movesse, o rosto mantinha-se inalterado. Subitamente, o rosto se desfizera e o vazio novamente foi iluminado. Lucas sentiu um forte abalo. O espelho que antes mostrava um rosto estava em estilhaços no chão; alguns cacos do espelho encravaram-se nas pernas e nos pés descalços de Lucas, no entanto, não houve nenhuma reação. A metáfora então se invertera: os cacos do vidro eram como vento, nada causavam. No vazio, começavam a surgir vultos, sombras e feixes de luzes que divergiam e movimentavam-se aleatoriamente. Lucas continuava com o olhar perdido e com semblante obscuro, assemelhando-se incrivelmente à imagem que o espelho exibia antes de se partir. Sem rumo, sem consciência e sem lembranças, Lucas caminhava na direção contrária, à deriva.


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Relicarium