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O que eu sei de mim Vanessa de Cássia

EDIÇÃO DIGITAL 2017


Copyright © 2017 Vanessa de Cássia Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é mera coincidência.

Todos os direitos reservados. São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra de quaisquer meios – tangível ou intangível – sem o consentimento escrito da autora.

A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na lei nº. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal.


Dedico esse livro aos anjos inspiradores que sempre estĂŁo ao meu lado...


“Ele o cobrirá com as suas asas, e debaixo delas você estará seguro...” Salmo 91:4


Gabriel Nós apenas nos despedimos com palavras Eu morri centena de vezes Você volta para ela E eu volto ao luto ~Amy Winehouse – Back to Black~

~2007~ A primeira vez que me deparei com aqueles intensos olhos castanhos, me encantei. Senti um misto de afinidade e excitação pelo novo. Dentro do peito retumbou uma porção de sentimentos misturados, incompreensíveis, mas, no entanto, capazes de proporcionar sensações muito bemvindas. Jaqueline sorriu de volta ao captar o meu olhar curioso. Ela era a moça mais linda que eu já tinha encontrado em toda minha vida. Seu corpo pequeno, porém recheado de curvas, era um espetáculo. Os cabelos encaracolados e volumosos deixavam o seu rosto delicado. Mas o que chamava minha atenção era a forma que ela vestia o belo sorriso no rosto. Tão aberto e expressivo. Gargalhava ao lado de sua amiga, e me fitava vez ou outra, encostado no balcão ao seu lado. Fiquei tão fascinado por ela que, pela primeira vez, eu não sabia o que dizer ao me aproximar de alguém. E olha que eu era o rei das palavras! Mas não existia sequer uma frase genial para expor a minha vontade de conhecê-la melhor ou qualquer razão quando cheguei à sua frente. Dentre todas as garotas que tentei notar a noite toda naquele bar, foi ela quem chegou e tomou para si a minha atenção. Então me deixei levar, e me dispus a fazer contato quando, finalmente, sua amiga a deixou sozinha. Nossos olhares permaneceram ligados, a respiração frenética. E aquele sorriso dela deixava nas entrelinhas um doce convite, o qual acatei sem hesitar. Sem ter dito qualquer frase, nos beijamos. O gosto de vodca misturado a tabaco foi uma boa dose de excitação. Fez com que nossos corpos recebessem o impacto ligeiro e ébrio. Com esse entusiasmo, sequer percebi quando fomos para o meu carro, entre amassos intensos e lábios que não se desgrudavam. Ficamos por quase meia hora nessa esfregação gostosa, numa troca justa e sensual, precisávamos conversar qualquer coisa, mas a situação empurrava para mais intensidade e até que sua primeira e única frase foi: você tem camisinha? Opa, claro que tinha! Rolaram mais beijos deliciosos e mãos deslizando, despindo desesperadamente cada peça de roupa. O toque dela mais ligeiro e cheio de conhecimento, enquanto o meu, cauteloso, por respeito à ela. Admirava o jeito feminino, etéreo e doce, mas essa moça mostrava um lado mais leoa, vigorosa e febril. Essa espontaneidade me deixou enérgico e viril.


Estar dentro dela foi mágico e intenso. Lembro-me de tudo, a cada mínimo detalhe: o ar abafado, a saliva trocada, o vidro embaçado do carro com a balada de fundo. Começamos ali uma noite de sexo incrível porque, fala sério, não poderia chamar aquele encontro de fazer amor. Depois de seu profundo gemido, o gozo. Em seguida novamente e novamente. Não nos cansávamos e varamos a noite cometendo loucuras! Fomos tomados por dias empolgantes e noites prolongadas a sussurros e arrepios. Permanecemos assim por meses. Ela acabou tornando-se a minha namorada. E éramos tão bons juntos. Os melhores! Numa viagem para Ilha Bela, observando o seu corpo nu ao lado do meu foi que descobri que estava apaixonado. Era a primeira vez que o amor batia a minha porta. E eu abri, sem um pingo de medo, aceitando de vez aquela onda vibrante que me inundava. Encantado ao ver seu sorriso banhado pelo mais belo pôr do sol e os cabelos caramelos, esvoaçantes pela brisa da tarde. Quando ela me retribuía, sorrindo, era inesquecível. Deus, ela tinha as covinhas mais sexies da face da terra! E outra, pequenina, no queixo. Da qual eu dizia sem vergonha alguma: sabe o por que ela é tão sexy? Ela gargalhava, pois já sabia a resposta: Foi a reboladinha que sua mãe deu! Ela adorava aquela piadinha cretina. E eu amava arrancar-lhe sorrisos frouxos. Naquela mesma tarde tomamos um último banho no mar tão claro e agitado, em que nossos corpos permaneciam no mesmo balançar, ritmado. O céu ganhava a noite e as pequenas estrelas brindavam nossa cumplicidade. E Jaqueline alcançava meu coração com as mais simples atitudes. Eu precisava me declarar, mostrar o quanto estar junto dela me deixava apaixonado, com as esperanças em coisas melhores. As estrelas poderiam ser nossos confidentes ou fadas madrinhas, como ela acreditava fielmente. Não importava, eu só precisava dizer que a amava em alto e bom som! Comemos num quiosque de peixes fritos antes de subir a serra, de enfrentar o mundão que nos aguardava. A estrada era nossa e de mais ninguém. Seus dedinhos fuçaram no rádio e a playlist tocou alto de fundo. Sorri ao vê-la cantar aos berros a música que tanto adorava. – Vamos fugir, deste lugar, baby! Vamos fuuuugiiiiir! – colocou os braços livres para fora da janela, curtindo o vento bater no rosto bonito. Fitei por um instante esse momento, vendo como ela era maravilhosa. Como dizia a letra, eu estava cansado de esperar, deveria dizer os meus mais sinceros sentimentos. Apesar de pouco tempo juntos, ela tinha me ensinado tanto! Seus pés estavam no assoalho do carro, juntinhos. As miúdas unhas coloridas, uma de cada cor. Jaque fazia sempre o que lhe dava na telha. E eu me surpreendia todas as vezes. Seus cabelos cacheados caíam sob o rosto, emoldurando os olhos que me encontraram... A magia acontecia agora. Por alguns segundos, ficamos nos olhando. Eu estava, finalmente, pronto para dizer o que desejava... Mas era tarde demais. Fomos atingidos. Um estrondo colidiu contra nós. O barulho intenso de freio e rodas rasgando o asfalto. Tudo rodopiou, apagou-se. Os sonhos sumiram. O céu azul acima era testemunha mais


uma vez... da perda. Foi de uma curva traiçoeira que surgiu o caminhão desgovernado. Por mais que eu tentasse, não poderia evitar. O destino ali mudara o seu ritmo, roubando de mim a felicidade. E ela... Vamos fugir... E não tinha outro lugar onde eu quisesse estar. Vi seu último brilho. Acalmei seu último instante. Decidi que aquele momento seria eterno. Ajudei Jaqueline a encontrar a luz. A doce paz que ela deveria ter em vida, mas um único instante cruel tirou todo o seu futuro muito bem planejado. O amor que eu daria a ela. O sorriso mais gentil e arteiro. As promessas que fizemos em silêncio foram rompidos por um freio que falhou. Uma única oportunidade e nos perdemos no caminho um do outro. – Jaque, eu te amo... compreende isso? Você ficará bem... – questionei mesmo sabendo que não receberia resposta. Era um conforto ao seu coração. Ela não estava consciente, não respirava com tanto sangue saindo de sua boca miúda. Eu sei que não ficaríamos bem, pois estávamos entre ferragens! Ela estava presa, com os olhos arregalados em dor. Mas o brilho, por Deus! Ainda havia luz de esperança no fundo daqueles olhos inocentes. O sangue brotava de partes que eu não queria verificar. Ela sentiu tudo e eu preso, entre o volante e o banco, não podia fazer nada, além de gritar. Não conseguia aliviar sua dor. Era uma cena que eu jamais esqueceria. A violência do impacto, afundando os joelhos dela contra seu peito, rasgando a pele. O terror ganhou espaço dentro de mim, então eu chorei, desesperado por não ser útil a uma pessoa que me pertencia. Impotente nas reações. Impossibilitado de ajudar. Incapaz de protegê-la dessa fatalidade. Quebrado de dentro para fora. Um último suspiro agoniado escapou de seus lábios e ela se entregou ao desconhecido. O final da dor dela foi a minha pior tortura. O caminhão desgovernado atingiu todo o lado dela, deixando-me seguro. E ela, morta. Jaqueline adormeceu, esquecendo a dor. Repousando numa imensidão que me sentiria apenas de longe, tornando-a um pedacinho do céu azul que ficaria para sempre marcado em meu coração... Aquilo me destruiu de todas as formas possíveis, pois foi exatamente nesse dia que disse eu te amo pela primeira e última vez à mulher que me apaixonei. Será que mais dores viriam me assombrar por conta desse dia fatídico? Eu não sei, mas não queria testar ou brincar com a realidade. Quando mais achei que a vida tinha muito para me oferecer, a rasteira foi ligeira e dolorosa. Passei dias no inferno, querendo voltar aos maravilhosos segundos onde Jaqueline me fazia sorrir facilmente, de forma leve. Foi muito mais difícil aceitar a perda, mas eu precisava seguir, tentando ou não acreditar que ainda havia paz dentro de mim.

~ 4 anos depois ~ Gabriel, foi muito bom enquanto durou... mas, me desculpa, não dá mais...


Isso é sério? – fitei aquele pedaço de papel amassado por entre os meus dedos nervosos. Ela tinha mesmo terminado uma porra de namoro através de um maldito bilhete? O mesmo que encontrei embaixo da porta ao chegar em casa, e por pouco não o joguei no lixo achando que era algum informativo. E sua maior justificativa no final do texto foi: Você adora cartas, ama ler, achei que seria no mínimo o certo a fazer. Obrigada por tudo. Eu te amei... Fique bem. Com amor, Carla.

Amou mesmo? Então por que simplesmente me deixou para ficar com um primo de sei lá qual grau? Que loucura era aquela? Nossa, eu queria tanto virar umas doses e chutar tudo para longe... Mas sabe o por que não posso fazer isso? Estava num hospital. Com os sentimentos confusos e o coração partido. Não pela minha atual ex-namorada, mas por tentar manter as esperanças quando já não havia muitas. O lugar frio, branco e silencioso mostrava o que havia dentro do meu interior. Queria um pouco de paz e uma notícia boa. Entretanto, em meu íntimo, sabia que não teria nada disso. A cara de exaustão do médico ao se aproximar dizia muitas coisas, menos que teria boas notícias. – Eu sinto muito, ela não resistiu... – murmurou, de cabeça baixa. Preparei-me tanto para ouvir isso, mas quando as palavras finalmente foram pronunciadas, não foram tão confortáveis quanto pensei. Levantei-me e corri, sem ao menos esperar pela autorização do doutor. Eu só precisava de um adeus. Uma despedida. Um último pesar. O toque inesquecível. Abri a porta de seu quarto por dias, e agora o faria pela última vez. O cheirinho dela ainda rodeava o ambiente, trazendo lembranças da infância. Ah, como estava finalmente amena, rendida, sem dor... Ali estava ela, já sem o seu doce sorriso, sem o imenso coração bondoso batendo, sem nada. Fria e sozinha. Deus, como eu queria abraçá-la mais um tanto, ter os seus confortáveis braços a minha volta. Sentir o cheiro de alfazema e massagear seus dedos cansados e doloridos com o melhor creme com cheiro de baunilha, o seu favorito. Queria que ela enxugasse todas essas lágrimas sentidas que escorriam por meu rosto. Todas eram por ela, por sua ausência, e não pelo ocorrido que estava ainda em minhas mãos. Aquela garota não era nada para mim. O mais importante, o meu tudo, era o que eu havia acabado de perder. A minha mãe para o temível câncer. Sei que não era o que ela gostaria de ter feito. Como ela lutara! Mas apesar de sua ausência ser infinita, ela estaria finalmente bem. Livre das dores, livre do câncer, livre para respirar novamente. Apenas livre... Amassei com força o papel rabiscado com letras firmes e sentimentos mentirosos. Aquelas pequenas coisas boas de amor não tinham mais importância na minha vida, depois do que tristemente perdi. Sufocado pelo esmagador pesar, o temeroso vazio, a incapacidade de sentir algo que não fosse apenas dor, perda ou os sentimentos arruinados que se arrastavam pelas horas frias do que ainda restava naquele dia. O dia de destruição emocional.


O enterro foi simples. Com um caixão lustroso carregado por mim, pelo meu pai e por primos que há anos não encontrava. Só chorei ao deixá-la, em meio ao solo, ao estar perto dela pela última vez. Engoli o orgulho e derramei meu singelo amor por aquela mulher que amei minha vida toda, desde que coloquei o primeiro sorriso no rosto dela, quando eu ainda nem tinha consciência e ela descobria que finalmente estava grávida de seu único filho. Ela não pôde ter outros. Sua saúde sempre foi frágil e eu o seu pequeno milagre, era como sempre contava, com fervor. Cuidava de mim como se a sua vida dependesse disso. E era. Eu era sua fonte de alegria, a razão de sua vida. E ela a minha. Cresci embaixo da saia dela, sempre mimado. Aprendi os melhores conselhos. Fiz dos nossos dias os mais divertidos. Dei orgulho a ela. E mamãe foi a rainha perfeita. Até os seus últimos dias, dona Virgínia queria estar sempre presente, mesmo sabendo que sua doença a levaria. Ficou com medo de eu ficar sozinho, perdido nesse mundão injusto. Fiquei cabisbaixo com a tristeza e saudade diante da lembrança. Já morava sozinho desde os dezoito anos, depois que perdi alguém que amei muito, me sentindo obrigado a viver sozinho com essa culpa. Foi também quando mamãe descobriu a doença e passou quase a morar no hospital para cuidar melhor de cada tumor que abria em seu corpo. Não sei ao certo qual deles a matou, já que seu corpo todo estava doente, sendo destruído por todos os lados. Só sei que ficarei na lembrança com o seu último sorriso triste e apagado, dizendo o quanto me amava e que um dia nos veríamos novamente. Mas que, enquanto isso, eu deveria amar e respeitar a todos. Levar os meus textos para os corações necessitados, espalhar as minhas palavras aos ventos do mundo. Eu lia para ela sempre que podia, e dona Virgínia era a minha maior incentivadora. Meu pai não acreditava que eu poderia seguir com isso. Que deveria entrar numa faculdade de Engenharia-De-Qualquer-Coisa ou Fazer-O-Respeitoso-Direito. E eu só pensava em rabiscar nos cadernos as mais sinceras e singelas frases, deixando o mundo das letras explodir de dentro para fora e, consequentemente, ganhar dinheiro na internet com isso. Eu sou muito bom com as palavras, e acreditava nisso. Pois uma alma maior disse que tudo era possível. Então tudo será. Joguei um girassol enorme por cima da terra fresca que agora cobria o pequeno corpo da minha mãe. Ela amava o amarelo intenso da flor. Por ter nascido na primavera e seu nome ter o mesmo significado, uma de suas flores preferidas era o girassol e sua incrível beleza robusta. Enquanto todos depositavam rosas vermelhas e as coroas gigantes em seu novo lar, eu deixei o meu singelo presente. E pude escutar seu agradecimento aquecendo meu peito. Então fiz o mesmo ao levar a mão esquerda ao peito e dedicar a mais sinceras palavras: – Obrigado por ter me ensinado a ser um bom homem, mamãe. Mesmo que a vida tenha me tirado as mulheres que amei, sei que ainda serei suficiente para alguém. Para isso, teria de estar inteiro novamente.


Charlotte Essas feridas não vão cicatrizar Essa dor é muito real Há muita coisa que o tempo Não pode apagar ~Evanescence – My Immortal~ [Londres – Castelo de Balvenie Connor]

~Ano de 2005 a 2010~ Puft! – foi o ligeiro som da bola de neve ao atingir as minhas costas. Eu revidei, atingindo-a mais uma vez. Já tinha acertado milhares em Catherine e ela só tinha conseguido esse feito porque fui bondosa e facilitei. – Quem chegar por último fará o discurso de Marie Jessie! – gritei, correndo entre os galhos secos que respingavam neve em meu rosto. Marie Jessie é uma garota extremamente arrogante, presunçosa e intocável. Andava com tanta pompa que parecia a Princesa da Inglaterra! Grande coisa. Mas a nossa avó a adorava e vivia falando que deveríamos segui-la como exemplo. Só que naquele ano, ela debutaria no valioso evento “Queen Charlotte’s Ball”. E para se mostrar generosa, nossa avó aceitou que nós duas fizéssemos um discurso no evento, falando sobre as qualidades da nossa “querida amiga” – por favor, insira aqui uma revirada de olhos. Tinha certeza de que ela só fizera isso porque os pais de Marie Jessie são amigos íntimos do Primeiro Ministro. Mas fazer um discurso à ela, era algo temível, que nunca pensaria em fazer na vida, há não ser que fosse obrigada. Em um evento daquele, qualquer erro seria notado. – Não faria isso, que crueldade! – tentou correr atrás de mim, toda desengonçada, enquanto eu ria alto. Nenhuma das duas queria fazer esse discurso, ainda mais quando a Rainha Elizabeth estaria presente no famoso e mais cobiçado Baile de Debutantes do país! Quem quer passar vergonha na frente da Rainha? Eu que não queria! – Ah, Cat, pode apostar que eu faria – deixei o desafio no ar. Catherine estava muito longe e a neve a impedia de correr mais rápido do que eu. Nossas botas afundavam e as gargalhadas ecoavam ao nosso redor, na pequena floresta. – Vem logo, sua molenga! – mencionei alegre e mostrei-lhe a língua. Seu rosto estava com as bochechas coradas, e o nariz de rena me fez gargalhar novamente. – Calma lá, sua papa-léguas de pernas finas! – pirraçou-me com esse apelido tão antigo. Desde bem pequeninas, eu sempre fui a mais ligeira.


– Sabe que isso é um elogio, né? Você é muito lerda, Cat! – empurrei seus ombros assim que se aproximou. Nos abraçamos apertado e sorrimos, cúmplices uma a outra. Era tão intensa essa nossa ligação, a consideração e amizade que tínhamos uma pela outra, acima de qualquer coisa. Juntas, éramos divertidas e brincalhonas. Soltávamos risadas por uma mera besteira. Adorávamos os animais e acreditávamos que poderíamos salvar o meio-ambiente. Duas garotas com os corações puros, nascidas no mesmo dia, unidas por minutos de diferença. Uma era mais sentimental, claro que era a Catherine. Eu sempre fui dura na queda, mas até que guardo uma fofurice dentro do peito, para os momentos certos. Apertei os meus braços finos ao redor dela. Trazendo-a para mais perto de mim. Seu cheiro de baunilha me dava um conforto familiar. Catherine adorava filmes de terror, jogos de tabuleiro e montar infindáveis quebra-cabeças. Ela era a mais inteligente, espontânea e divertida. Eu adorava ler Jane Austen, correr ao ar livre e dançar despreocupada. Era mais intelectual, introspectiva e sem freios na língua. Consequentemente, era considerada a rebelde. Entretanto, juntas, éramos um elo completo, genial e harmonioso. – Catherine e Charlotte, venham tomar café da manhã, borboletinhas – começamos a correr quando ouvimos a senhora Chanely nos chamando para o tomar seu delicioso chá. Encontramos a governanta logo na entrada, que permanecia de braços cruzados como um soldado da guarda real. Mas apesar da pose durona, a senhora Chanely tinha a suavidade de uma fada no rosto. – Senhora Chanely, a vovó está de bom humor? – Cat brincou.

– Presumo que não. E por favor, docinho, não crie problemas – anunciou em seu sotaque um pouco mais arrastado e carregado do que o nosso. – Que pergunta, Cat! Por nossa sorte já passou o Halloween – comentei e acabamos rindo uma da outra. – Porque a bruxa vive solta! Entramos e deixamos o sorriso morrer aos poucos, já que do outro lado da sala, nossa avó nos observava, sem nenhuma alegria no rosto. A senhora de cabelos brancos como um gigante cupcake de chantilly endurecido de laquê, o olhar gélido impenetrável, sobrancelhas altas como se uma linha invisível as puxasse discretamente para cima e lábios tão finos e duros que pareciam uma flecha em disparada. – Tenham bons modos, senhoritas. Rir como duas gralhas não lhe trarão maridos sérios – resmungou seriamente com a sua voz autoritária, mais cortante do que uma afiada lâmina de guilhotina, e tão fria quanto o Polo Norte. Revirei os olhos. Odiava aqueles seus comentários e formalidades. – Bom dia, Lady Shelly – fiz uma reverência fingida, os olhos voltados para o chão, e Cat me seguiu. – Bom dia, vovó – Cat sempre gostou de agradá-la, quase bufei.

Treze anos é uma idade de mostrar o quanto são ladies e estão dispostas a respeitar seus


títulos. Deveriam começar a pensar melhor em seus comportamentos. E por falar nisso – ela disse, os olhos fixos em mim. – Já treinaram o discurso para a festa de Marie Jessie na semana que vem? Vocês são o futuro da Inglaterra e devem ser exemplares! Céus, esse discurso repetitivo de novo? Assim que mencionou o tal discurso, sorri de canto dos lábios. Cat engoliu em seco, desta vez, era ela quem faria. E não teria desculpas, ela havia perdido na corrida. Sentamos quietas enquanto uma enxurrada de reclamações, chatices e meros conselhos eram disparados para encher as nossas cabeças inteligentes e mentes entediadas. Mamãe juntou-se a nós e não abria sequer a boca para nos defender, ou dizer que tínhamos apenas treze anos e que era para nos deixar em paz. Mas por outro lado, Cat adorava esses discursos retrógrados. Por isso ela era a princesinha primorosa e eu a ovelha desgarrada. Depois de milhares de revirada de olhos, da aula de piano e francês, decidimos ir para o quintal novamente. Era Dezembro, nevava constantemente, deixando o rio que passava na propriedade congelado. Era incrível. Começamos a correr novamente, disparando bolas e bolas de neve. Minhas mãos, apesar das luvas de couro estavam congelando, e Cat, com seu constante nariz vermelho, se divertia. Nem pensávamos na ideia de voltar ao conforto do castelo, já que vovó continuaria com seus infindáveis conselhos irritantes. – Charlotte, eu aposto com você que consigo chegar até aquele pedaço de galho – apontou para o centro do rio congelado. – Não é para fazer isso – ordenei, nem pensando em incentivá-la.

– Aposta ou não? – ela continuou a perguntar, desafiadora. – Não! E deixe de ser teimosa – briguei com mais firmeza.

Apesar de sermos gêmeas, eu

parecia muitas vezes a mais velha. Deve ser porque nasci primeiro. – Você ganha em tudo! É a melhor em todas as coisas. Por isso eu vou – deu dois pulinhos antes de entrar na margem do rio. – Catherine, volta aqui! Deixa de ser idiota, menina. O papai já nos disse para nunca chegar próximo a esse rio congelado. Venha, vamos entrar e jogar algum tabuleiro. Quero ver sua vitória lá – falei séria, enquanto o seu primeiro passo já havia se transformado cinco no rio adentro. – Para com isso, por favor. – Não acontecerá nada, sua bobinha. É toda corajosa, o que foi agora? Está com medinho? – seu olhar azul-petróleo mostrava confiança, enquanto os meus azuis-piscina mostravam insegurança. Cruzei os braços e rezei internamente para aquela maluca voltar. Ela dançava uma valsa, entre pulinhos, em direção ao meio do rio. Que agonia. Meu estômago deu um nó de escoteiro pela aflição que me acometeu. Senti uma sensação estranha na garganta, como se estivesse engasgada. Meu coração pesou, um sentimento ruim fez minha cabeça girar. Minha vontade era ir até lá e puxá-la pelos longos cabelos negros e vir arrastando seu miúdo corpo por ser tão desobediente! Sempre tive muito medo desse rio, mesmo quando não estava congelado. Então me senti


impotente por não fazer nada, só assisti-la se divertir. – Deus, Cat! – exasperei-me, as lágrimas de tensão prestes a rolar pela face. – Já está bom, provou que é corajosa! Eu não sou como você. – Eu ganhei então?! Uau, pelo menos nisso. E claro, em filmes de terror! – deu vários pulinhos e balançou o bumbum em minha direção. Sorri ao ver que ela estava tão bem. Catherine chegou até o galho. E voltou com os mesmos passinhos tranquilos. Meu coração foi voltando ao ritmo normal. Tudo ficaria bem e quando ela estivesse ao meu alcance ia dar uns bons petelecos nela. – Te prometo uma sessão começando com Psicose só por ter tido coragem, garota!

– Tan-tan-tan-tan-tan – brincou com o galho na mão, como se fosse uma faca assassina. – Engraçadinha. E foi entre uma piscada e outra que ouvimos algo se partindo, seguido de um grito seco e único. E o meu desespero transbordou. O gelo aos pés de Catherine começou a se partir. – Merda! Cat, respira e tenta seguir em frente! Fica tranquila, dará tudo certo... – olhei para trás e pensei em sair correndo para chamar alguém. Mas não queria deixá-la ali sozinha. – Que merda, Char! – outro grito dela, e mais gelos se despedaçavam. Numa lentidão enorme, como se os segundos estivessem se arrastando, coloquei meu pé na beirada do rio, mas voltei para trás, já que outra rachadura surgiu sob os meus pés. Droga! Droga! DROGA! – Pai! Mãe! Senhora Chanely! Joseph! Deus! – gritei desesperada ao voltar para o mato baixo e congelado. Ninguém parecia me ouvir. – Char... sinto muito – ela começou a afundar, suas pernas pequeninas e tão frágeis sumindo entre o gelo, que parecia engoli-la. Aquela água congelante e escura. NÃO! – Cat! – gritei, o rosto tomado pelo medo. Aquilo não podia ser real. – Não, não, não, isso não está acontecendo! Papai! Mamãe! Joseph! Alguém! Deussssss! – gritei com todas as minhas forças quando a minha irmã gêmea afundou no rio escuro. O gelo a engoliu como se ela deixasse de existir, como se estivesse sendo tomada de mim. Não podia acreditar, não podia ser verdade. – ALGUÉM ME AJUDA! Foi então que apareceu algumas pessoas. Os funcionários do castelo me ouviram gritar e tentaram ajudar de alguma forma. O braço dela apareceu, erguido, uma última vez. E depois não mais. Mais nada. Desabei no colo de alguém. Fui arrastada para longe. Não podia, não queria me ver sem ela. Eu queria a minha irmã de volta! Meu coração congelou com as águas frias do rio e despedaçou lá dentro, como o gelo que a levou embora. Uma luz muito intensa estava sendo apagada. E nunca


mais brilharia. Eu havia perdido a minha metade...

Detesto inverno. Detesto neve. Detesto acreditar que perdi minha irmã. O rio, agora descongelado, brilhava com o sol. Não havia beleza nele. Ainda era o lugar que tinha levado a alma inocente de uma menina incrível. Estava sentada num banco na varanda detrás do castelo, de onde conseguia enxergar o rio. O mesmo que levou um pedaço da minha alma. Há dois anos foi a última vez que vi o meigo e ingênuo sorriso de Cat. Que a abracei bem apertado. Dois anos eram pouco tempo, e tempo demais. Não tinha ideia de quando eu deixaria de me odiar por não tê-la segurado e proibido sua ida até esse maldito rio! Acho que essa dor nunca mais passaria... Hoje completaríamos quinze anos. E as flores que caíam das árvores, colorindo as pedras do imenso castelo, só comprovam a beleza e tristeza do outono, dando adeus à beleza, prevendo tempos mais frios. Pois, em mim, só resta o inverno. Ela permaneceu com treze, e eu estou sendo obrigada a seguir com uma festa de aniversário ridícula para provar que a vida continua, que as pessoas podem fingir serem felizes. – Charlotte, preciso que entre, borboletinha. Já está na hora de se arrumar – meus pensamentos nostálgicos foram interrompidos. Não queria que nada disso estivesse acontecendo sem Cat. Tudo parecia errado! Subi a contragosto, emburrada e com os sentimentos bagunçados. Tanto quanto a sala e a cozinha, imersas no vaivém de gente para a festividade. Ao chegar no meu quarto, tudo estava preparado em cima da cama. Maquiagens coloridas, joias caras e o vestido da noite. O único vestido. Não dois. Um aperto profundo atingiu meu coração. Que saco estar tão sozinha... – Quero apenas o básico, por gentileza – anunciei firme. As senhoras me olhavam com dó e medo. Elas tinham que fazer o trabalho delas, sempre o melhor. – Sabe que não podemos deixá-la básica. Apenas sente-se que faremos o melhor pela senhorita. Fazer o quê? Eu tive que concordar. Permaneci num silêncio cruel e doloroso enquanto era preenchida com as mais diversas tolices e os cheiros de frescuras. Não havia sorrisos brincalhões. Não havia músicas alegres para nos manter elétricas. Os doces para lambuzar os lábios ansiosos. E muito menos a troca de abraços. O nosso sonho era fazer quinze anos, juntas. Cheias de purpurinas e amores. Bolos e velinhas de foguetinho. Traquinices e troca de segredos. Eu já não tinha mais nada. Restava apenas o que eu via de frente ao espelho. O vestido de um rosa tão pálido me deixava ainda mais branca e medonha. Já meus cabelos, num preto-azulado, destacavam ainda mais os meus olhos tristes. Será que eles não viam essa tristeza tão nítida que explodia em mim? Na verdade, ninguém estava nem aí. Sei que vovó, no fundo, se lamentava por ter sido Cat, e


não eu, que se afogara. O sonho dela seria realizado pela minha irmã. A sua passividade e elegância não está em minhas veias. Eu não queria essa vida. Não queria ser lady ou possuir qualquer título ridículo que me fariam alguém importante para a sociedade britânica. Eu só queria ter minhas próprias vontades, seguir o meu próprio caminho. – Podemos descer? A senhorita já tem o primeiro convidado – ouvi atrás do meu corpo, enquanto olhava pela janela a noite azulada. – Estou indo – fui breve, sem interromper a minha concentração. Meus olhos se perdiam em algum ponto, sem enxergar de verdade. Apenas uma distração triste antes de servir de entretenimento para todos na festa. – Ele lhe aguarda junto a Lady Shelly na sala de chá. Para piorar minha situação desconfortável, a primeira visita anunciada naquele dia era alguém que eu simplesmente desprezava com todas as minhas forças. Príncipe Phillip James Lewis De Chester Terceiro. Que nomezinho, hein filho! Puxei sem pressa a barra estúpida do vestido, caminhei a passos de tartaruga, sem a mínima vontade de toda aquela festividade idiota. Ao adentrar na sala, bufei sem destreza ao vê-lo todo impertinente ao lado da vovó, com seu sorriso espertalhão e indecente. – Sir. Phillip – o cumprimentei debochada, fazendo levemente uma reverência.

– Senhorita Charlotte, que prazer em revê-la. Está encantadora! – sua voz fina e ridícula deixava o momento ainda mais enfadonho. Minha vontade foi de dizer: não posso dizer o mesmo, seu bobalhão! – Agradecida – não consegui nem sorrir.

Charlotte, vocês deveriam conversar, verem o que mais tem em comum. Assim vão se acostumando com a presença um do outro. Daqui a três anos vocês serão noivos, e aos vinte e um estarão casados – comecei a ficar vermelha com aquela lembrança desagradável. Queria esbravejar na cara dela que apenas eu mandava no meu futuro, ou até mesmo passar mal e vomitar na barra de seu vestido caríssimo, na tentativa de acabar com aquela conversa idiota. Meu corpo entrou em choque e a mente ficou em conflito ao receber mais uma vez aquela notícia temível. – Nem a pau! – a pequena frase malcriada saiu de forma automática. Oh, oh, acabei de fazer merda. – Peço que não fale dessa forma, Charlotte – o sussurro ríspido da minha avó me inflamou de raiva. – Isso não é linguajar para uma dama – resmungou corada. – Lady Shelly, posso me retirar? Estou exausta e prefiro descansar em meus aposentos – indaguei, tão educada quanto a etiqueta pedia. Ela me fuzilou com seus olhos de raio laser, ou uma águia muito bem treinada. Não sei ao certo qual se caberia melhor. Talvez os dois juntos. – Não deveria se ausentar agora. Temos muito o que conversar – replicou o príncipe, com seu autoritarismo ferrenho e machista. Não falei com você! – tive vontade de retrucar, mas me contive. Engomadinho entediante e prepotente aquele! – Não tenho nada para falar com o senhor. Com sua licença – disse, começando a me retirar do


salão. – Tem a quem puxar. Rebel... – vovó grunhiu discretamente, segurando com força o meu braço. Toda vez que ela mencionava essa palavra, “rebelde”, com desprezo, se referia ao meu pai. Um homem corajoso que estava longe de ser um lorde ou príncipe como ela sempre sonhou para mamãe. Mas ela só permitiu porque quando descobriu já era tarde demais. Antes casar-se com um homem sem linhagem do que ter o seu nome jogado à lama. – Estou me indagando fervorosamente se deveria aceitar me casar com uma rebelde. Não quero uma dama branquela de boca suja, desobediente e malcriada! – Como ousa?! – retruquei, toda imponente à sua frente, estufando os peitos (diga-se de passagem, inexistentes), as mãos na cintura, desafiando-o. Vovó ficou entre a gente, tentando me impedir de bater nele. Ela conhecia a neta que tinha. Encarei aqueles olhos verdes petrificados por minha irritação. – Muito menos eu quero me casar com um Garibaldo amarelo! – mostrei-lhe a língua, sorrindo cheia de travessura. – O que é um Garibaldo, sua bruxa? – grunhiu irritadíssimo. Arregalei os olhos brincalhões, fingindo estar ofendida. – Essas manias impertinentes que adquiriu de seu pai brasileiro! – bufou vovó, quase enojada. Fechei os olhos brevemente, engolindo a forte correnteza de palavras descortês que deslizariam por minha boca. Eu tentei me controlar, não daria a eles o gostinho de me verem aborrecida. – Pesquise Vila Sésamo que saberá! – dei de ombros e os deixei lá. Fervendo de ódio. – Quem é amarelo? Quem é bicudo e engraçado? E quem balança! – cantei, em português, enquanto remexia a bunda pra lá e pra cá no vestido bufante. Na hora me lembrei que Cat fazia aquilo, e meus olhos se encheram de saudade, e o coração apertou contra o peito. Quase gritei de dor, então me abracei ao subir a escadaria até o meu quarto. Deixei todos para trás. Minha satisfação em dizer umas verdades ao noivo de encomenda da minha avó era única. Mesmo com toda a dor. Mesmo com o péssimo dia de aniversário. Parabéns para mim – sussurrei antes de fechar a porta do quarto.

Era o baile de máscaras. Fevereiro. E já estava com meus dezoito anos. Ao ver por trás da máscara cinza os mesmos cabelos amarelos daquele que me irritava há anos, uma náusea me atingiu. Engoli o ponche e quase saí correndo. Entretanto, mãos firmes me seguraram antes que conseguisse escapar. – Dança comigo? – sussurrou, atrás de mim.

– Vá achando... Contra a minha vontade – e com certeza a favor dele –, infelizmente estávamos noivos.


– Bruxinha, eu nunca quis estar nessa situação – grunhiu em meu ouvido. Próximo demais. Seu tom estava controlado, e isso me fez sorrir. Talvez, pensando melhor, ele adorasse aquela situação. Cretino. – Estou achando que isso é só uma desculpinha. Pode me soltar e sair de cima de mim? – puxei firmemente meu braço de seu aperto e sorri, com os lábios vermelhos em sua direção. Vi seus olhos verdes pegarem fogo. Fiquei sabendo por uma amiga em comum que esse infeliz, apesar de ficar com outras garotas escondido, estava obcecado por mim. Por isso, resolvi por muitos dias atiçá-lo, para manter o controle. Mas o joguinho já estava me enjoando. – Você se faz de difícil... Mas quando eu domar essa fera, um sorriso não sairá desses lábios carnudos por dias – sua voz rouca não me atingia em nada. – Nossa, Garibaldo, tente outra vez! – revirei os olhos por trás da máscara vermelha.

– Bruxinha indomável, cansei de seus joguinhos. Cansei de verdade, e tomei uma decisão! Só queria te deixar caidinha, mas é tão fria que nem disso fui capaz – sorri vitoriosa. – Por isso, tomei uma excelente decisão e já avisei a sua família. Eu não vou mais me casar com você – será que aquilo era verdade? – Arrumei uma princesa conceituada, uma que me mereça! Muito melhor que você – sua boca ficou muito próxima da minha. – Jura? – cheguei de propósito muito mais perto, e ele engoliu em seco.

– Juro, e você não terá ninguém. Nunca se casará por conta dessa sua língua afiada, bruxa – a boca dele tremia. Passei a língua nos meus lábios vermelhos e ele estremeceu. – Língua muito afiada... que você nunca sentirá – disse, insidiosa e triunfante.

– Ainda bem, senão morreria envenenado! – ele bufou nervoso, agitou-se a minha frente. Seu corpo mostrava o quanto era vulnerável perto de mim. – Envenenado não... De prazer, talvez... – fitei minhas unhas ordinariamente. – Mas quer saber, estou muito feliz por isso, Garibaldo! Pois bem – lhe dei as costas antes do último comentário –, que você e sua princesa vão se foder, bem longe do meu castelo. Levantei o rosto para ir embora. Foi só então que percebi que a festa inteira assistia ao espetáculo. Inclusive Lady Shelly, minha venerável avó. Puta merda! – O que disse, sua bruxa? – ele levantou a voz. Infeliz.

– Vai tomar no meio do seu cu! – apontei o dedo em riste em sua cara, toda a brasileirice do meu pai vindo à tona. Ele só queria me desmoralizar e estava conseguindo. Segura a tua língua, Char! – Charlotte Sophie! Ai, ai, Lady Shelly, menos, muuuuuito menos. – Por favor, vovó! Ele está me importunando!

– Ele cancelou o noivado – ótimo, agora parecia para todos os presentes que eu tinha sido abandonada. Ele sorriu vitorioso diante da minha vergonha.


– Que ótimo! A melhor notícia que eu poderia ter hoje – mostrei a todos que nem tudo ao lado daquele cretino eram flores, e que sim, eu estava feliz de verdade. Os convidados, curiosos, se aproximavam querendo saber daquela novidade. Meu sangue ferveu ao ouvir os burburinhos à minha volta. O pior era vovó, que ainda dizia algo para consolá-lo, como se eu, a sua neta, fosse culpada de toda a situação. Mas quer saber? Vou acabar com todo esse circo. Se querem falar de mim, darei motivos para fazerem por todo o sempre. – Com sua permissão, vovó, tenho algo a dizer – perguntei, toda dócil. Ele aquiesceu, achando que eu por fim recuperara o bom senso. Coitado... – Vão todos tomarem em vossos referidos cus! Tchau! E com uma profunda reverência saí do salão, empurrando todos os corpos inertes por minha verdade. Bem, aquilo não era nada perto do que tinha descoberto nas paredes sujas daquele castelo. O mundinho imundo do qual vivia estava prestes a desmoronar. E eu não queria ficar ali para assistir. Eu mudaria meu destino. Merecia respirar ares novos e viver intensamente. Com amor e verdades. Eu iria recomeçar... Em outro lugar!


Gabriel Por toda a minha vida Onde você esteve Fico pensando se vou te ver de novo E se esse dia chegar Eu sei que nós podemos vencer ~Lenny Kravitz – Again~

~2016~ São seis horas

da manhã e ainda estou vendo o cursor do computador piscando para mim. Encostado no travesseiro, estou tão satisfeito, como se tivesse feito amor com a mulher mais desejada do mundo. Essa é a sensação que as palavras, quando saem dos lábios e correm pelos meus dedos, através do teclado, me proporcionam. O contentamento escondido, solitário, mas realmente sentido, satisfatório. Eu nunca me cansaria de escrever. Nunca. Em nenhum momento deixaria de me expressar, de botar para fora todo o desejo criativo que tenho acumulado dentro do peito. As vozes que gritam alegrias imensas ou dores intensas em minha cabeça. A fome das linhas que meus dedos percorrem ao preenchê-las. A plena satisfação de ver algo feito por minha própria inspiração... Nossa, isso realmente é tão bom quanto sexo. Queria poder acender um cigarro nesse momento para tragar e soltar meus anseios, mas não posso. Estou cansado demais. Relaxei, por fim, deixando o notebook ligado, esperando um pouco mais de mim. Mas precisava fechar os olhos e descansar, nem se fosse por um pequeno instante. Ultimamente escrevo todos os dias. Apesar de ser estimulante ter tantas ideias e inspirações, mas o ato em si é muito desgastante. Ter esse dom é doar um pouco de nós e do nosso tempo. É desprender-se de todo o nosso emocional em favor da obra. Libertar-se de toda realidade que acontece ao redor, só para a realização final da história. Quando nos empolgamos, não existe o tempo, não dormimos, não comemos, ou temos vida! A existência é feita, simplesmente, das palavras e sentimentos que transbordam dentro da gente, ganhando vida através dos dedos. A emoção é sentir cada inspiração correr por nossas veias. É sentir-se nu quando a explosão de entusiasmo tornar-se tangível. E concretizamos a mais pura verdade, impulsionados por aquilo que criamos. Com esse pensamento, consegui finalizar o texto que estava digitando: “Quando você não se dá o direito de conhecer o inexplorado, morre dentro de si a expectativa prazerosa, a sutil experiência e as vastas aprendizagens que poderia ter vivido...” E é exatamente isso que acontece, quando depois de tanto doar-se ao outro através de sua escrita, ele não se dispõe a vivenciar aquilo que você criou, o seu mundo. Morre um pouco dentro de você, e dentro daquele que não se deu ao direito de ler.


Isso, principalmente, serve para a vida... – refleti. Estou exausto psicologicamente. Preciso dormir nem que for um tempinho, depois de quase vinte e duas horas trabalhando. Eu preciso... Olhei para o canto do quarto, e Madruguinha, o meu cachorro, estava no vigésimo sono. Ele roncava, tranquilão. Apesar do nome estar no diminutivo, nele não havia nada pequeno. Era um labrador preguiçoso, desengonçado, grandão, meninão de tudo. Meu melhor amigo peludo. Estiquei o corpo moído na cama, salvei o arquivo e fechei a tampa do notebook. Precisava descansar, já que mais tarde teria um longo dia...

– Ei amigão, vamos dar uma esticada de perna? Madruguinha se remexeu entre as minhas pernas. Sua boca enorme parecia sorrir. – Eu sei que você adora isso, amigão. Bora! Coloquei sua coleira e ele mesmo começou a me puxar para fora do quintal. Apesar de ter ido dormir as seis da manhã, eram apenas onze horas e eu já estava de pé, todo disposto. Não costumava ficar deitado e muito menos deixar o meu corpo ficar letárgico. Sempre estou correndo e me movimentando, apesar de parar de vez a academia há alguns meses. Lá estava me desgastando demais ao invés de renovar energias. Descemos os três degraus correndo e se ele tivesse como abrir o portão de ferro, o teria feito, devido ao quanto está impaciente. Moro num bairro pitoresco e confortável em São Paulo. Pertíssimo do Museu do Ipiranga. Na verdade, uma quadra de lá. É nos parques que ficam ao redor do museu que mais vou para escrever ao ar livre e ter ideias poderosas. Pago um aluguel baratíssimo para dona Clô, uma senhora que mora no sobrado ao lado, e que necessita de alguém conhecido por perto. Ela é toda radical com seus cabelos tingidos de roxo e a disposição de uma garotinha de dezoito. Coisa da qual, eu com vinte e sete anos, não tenho. A família dela não mora no Brasil. Estão todos em Portugal, e por ela ter sido muito amiga da minha mãe e ter me visto crescer, já éramos quase uma família. Então quando eu vi que seu sobrado geminado estava disponível para aluguel por preço de banana, não pensei duas vezes. Sei que ela cuida muito da minha vida, mas eu adoro essa senhorinha. Ao sair, a encontrei lavando a calçada. Olha a economia de água, senhora! – pensei em dizer, mas me contive. – Bom dia, dona Clô – cumprimentei-a, animado. Ela me fitou cheia de amor, com o seu sorriso carente. – Bom dia, Gabriel. Acordou tarde hoje – não disse que ela cuida de mim até demais?

– Vou passear com Madruguinha antes do almoço – ele deu uma suave latida para confirmar. Acariciei os seus pelos e cocei-lhe a orelha. Ele ganiu, agradecido. – Você sabe que só tem esse cachorro porque ele finge que gosta de mim, certo? – fitou a bola de pelo à minha frente.


– Ele a ama, dona Clô! Não é, amigão? – disse, fazendo festa na cabeça do cão. – Sei! – bufou, sorrindo. No fundo ela também o amava. – E meu filho, tira essa barba! Tá sem dinheiro para comprar barbeador? – gargalhei. – Não, dona Clô. Eu gosto dela assim – alisei os longos fios que iria aparar mais tarde.

– Como pode comer bolo assim? – ela fez uma cara de nojo. – Sem deixar os farelos caírem e criar raízes nesse matagal de pelos?! – comecei a rir imaginando a cena. Ela é uma figura. – Dá tudo certo. Pode deixar, que eu sou bem cuidadoso.

– Toda vez que eu te olho, imagino os farelos aí dentro... – seus olhos de águia estavam ali, fixos no meu queixo. – Juro que ela é limpinha e cheirosa!

– Se você diz... Deve ser limpinha que nem o seu pulguento – como dessa vez ela o ofendeu, Madruguinha rosnou baixo, todo sentido. – É mentira, Madruguinha. Ela não sabe o que está falando – e como se resolvesse ignorar o comentário dela, ele se esticou nas patas e começou a caminhar todo pomposo, como nada daquilo o atingisse. Sorrimos juntos diante da reação do meu cachorro, mas aí o danado estragou tudo. Parou em frente ao portão que dona Clô tinha acabado de jogar água, ergueu a pata e fez xixi em tudo, feliz da vida. Assim que vi a cara dela, levei a mão na testa, sem saber o que fazer. Ele também abusa, viu! – Ora, pois! – ela gritou e começou a reclamar, quase jogando água na gente. Saímos em disparada. Só quando estávamos fora de perigo, olhei para ele, muito bravo. – Você também, hein? Cachorro pirracento! – ele me olhou, como se ficasse admirado por estar levando uma bronca. – Mas eu gostei... – comentei, e ele latiu, todo satisfeito, em resposta.

Adorava caminhar com Madruguinha. Afinal, o meu cachorro fazia o maior sucesso com a mulherada. Não que eu o levasse para passear com o propósito de me aproximar de alguém. Não, jamais! Mas toda vez era a mesma coisa: o que ele tem de tamanho, tem de meiguice. E gosta de chamar atenção por onde passa com o seu charme irresistível. Assim que as pessoas param para olhá-lo, Madruguinha faz algo com a boca que realmente parece um sorriso arreganhado. Aí, é batata. Paixão à primeira vista pelo cão! Elas passam as mãos em seus pelos macios, o elogiam e ele se derrete todo na frente delas. Com isso, elas sempre param e falam comigo, mas eu nunca utilizei isso em meu favor. Lógico que já troquei telefones, mas os contatos nunca deram em nada. Estávamos perto do mercadinho quando vi alguém que me gelou o estômago, alguém que não queria que me visse de jeito algum. Até tentei me esconder, mas foi meio impossível com um cachorro enorme como o meu andando todo pomposo pelas ruas. – Ei, Gab, tudo bem? Quanto tempo... – sua voz soou meio nervosa quando se aproximou. Não entendi o porquê... Tá, eu entendia sim, só não conseguia acreditar na hipótese.


– Carla! Nossa, quanto tempo mesmo – a fitei, de mãos dadas com alguém. – Perdida por aqui? – ela morava do outro lado da cidade. O que fazia exatamente ali? – Não! Bem, essa é... Hmm... É Nick! Estamos ficando por aqui... – beeeem, começando a entender! O nome era Nick, ok... Mas era homem ou mulher? Fitei por um momento tentando decifrar, até que os olhos bateram em um detalhe revelador. Hmm, olha o peitinho escondido ali, meu irmão! Que coisa, não?! Peraí, ela disse ficando por aqui? Será que isso queria dizer morando juntas por aqui? Acho que fiquei muito tempo em silêncio, mas vi as mãos finas dela a minha frente, me cumprimentando. – Prazer, Gabriel – disse, enquanto chacoalhávamos as mãos.

– Nick. Ela, com toda certeza, não era o primo rico que Carla tinha me trocado, através de uma carta. Mas era uma mulher! Rapaz, a Carla estava com uma menina! Bom, deixa eu me explicar. Isso, para mim, não era nada estranho. Cada um tem direito a fazer o que o corpo e o coração pedem. O que estava me intrigando é que Carla sempre teve muito preconceito com esse tipo de relação. Já escutei resmungando coisas feias sobre o mundo gay! E agora, de repente, ela se assume... Estou começando a achar que todo aquele circo era só despeito por essas pessoas terem coragem de fazer o que bem quisesse. Mas, no fundo, fico feliz por ela ter se assumido. É triste vivermos mentiras. – Como está, Chavinho? Que saudade eu tinha dele – Carla cutucou o cachorro, que foi se afastando. Ele nunca gostou dela. – É Madruguinha – corrigi com um sorriso, enquanto ele me fitava com tédio. Esse cachorro é o melhor. Sinceridade em forma animal. – Ah, é mesmo. Desculpa, amigão – ela abaixou e mexeu nos pelos dele. Madruguinha permaneceu neutro, sem fazer graça alguma. Bicho malandro. Se ele tivesse o poder de falar, diria: humano, por favor, vamos embora? Não se misture com essa gentalha! Eu ri alto diante do meu pensamento, enquanto elas me fitavam, sem entender nada. Sei que essa frase não caberia ao personagem que me inspirou a colocar o nome nele, mas que ficaria engraçado, isso sim. – Achei que não gostasse de pulguento, Carla – e de mulheres, quase falei, mas me contive. Relembrei com descaso o tanto que ela o xingava por ficar dentro de casa. – O tempo só te fez bem. Qualquer dia nos encontramos por aí – ela comentou, como se não tivesse ouvido nada do que disse. Aham, vá achando. – Ok, precisamos ir, né amigão? Tchau! Ele saiu novamente sem fazer cerimônia. Parecia que dava graças a Deus por sair dali, o que me fez rir muito.


Voltamos para casa e, quando abri o portão, senti um murro no braço. Pensei em xingar, mas sabia exatamente quem era: o trouxa do meu melhor amigo. – Porra! – retribuí o soco, que ele não conseguiu se esquivar. Soltei Madruguinha, que correu para o quintal todo feliz. – E aí, poeteiro? – zombou de mim com mais um soco.

– Tá indo para onde? – perguntei, já que estava todo elegante e perfumado. – Indo almoçar com a Marcinha... Para mais tarde, rá, dar um trato bem feito. – Náh, duvido! Ela finalmente liberou? – tirei um sarro. Porra, esse menino enche o saco dessa moça desde os dezoito anos! Tem noção do tanto de tempo que ele é louco por ela? – Deixa de ser babaca, cara! Sabe que ali é caso antigo. Ela vai, mas sempre volta – sua voz continha um pouco de tristeza e eu ficava péssimo por ele. Ela abusava de seu poder e o fazia de trouxa. – Isso é saudável, Rafa? – encarei os seus olhos e busquei a verdade. Rafael era um louro alto e boa pinta. Tinha os olhos mais intensos e diferentes que já vi na vida. Um era azul-turquesa e o outro metade azul rajado de caramelo. Inacreditável em como eram estranhos e bonitos os olhos dele, na mesma intensidade. Ele sorriu baixinho, disfarçando. Podia sentir seu coração bater, doloroso. – Cara, sai dessa! Olha o mundão de possibilidades que tem ao seu lado. Ela só abusa de você.

– Sei que um dia nos acertaremos. Agora, eu só preciso fazê-la rir e dar uns beijos gostosos. Só isso... – Se é o que quer, tudo bem – desisti de falar. – Ficará por mais quantos anos assim?

– Só deixa acontecer, Barba – comentou, puxando o monte de pelos abaixo do meu queixo. Ele sabe o quanto detesto que mexa nela. – Você é quem sabe. Não sou a sua babá – abri mais o portão e entrei. – Quer entrar? Tomar uma antes de ir? – ofereci, tentando fazê-lo mudar de ideia. Não que eu não gostasse da Márcia, mas acontece que ela fazia o meu amigo sofrer. Então, eu sofria junto, e ficava irritado com ela. Não era o certo, e qualquer dia irei encurralar essa garota e dar uma coça nela. Ou vai ou fica, porra! Esse efeito pingue-pongue não rola, não. – Combinei para daqui uns quinze minutos. Portanto, preciso ir. Passo por aqui mais tarde, ou amanhã – assenti e acenei em despedida. – Bom almoço – cumprimentei e vi o brilho de malícia nos seus olhos coloridos. Será que algum dia eu ficaria assim novamente? Acho que não! – E uma boa foda também? Amém! – ele brincou, rindo. Entrei para preparar algo decente para comer. Era hora de matar a fome, antes que ela me matasse.


Passei o restante da tarde depois do almoço, escrevendo, finalizando o livro que estava há meses revisando e editando. Nunca nenhum livro estaria bom o suficiente para mim. Era por isso que nunca havia publicado algo impresso. Apesar de adorar minhas histórias e me envolver emocionalmente com cada linha, personagem e cenários por mim criados, eu não via nenhum potencial de se tornar um sucesso. É triste, eu sei. Minha mãe, antes de morrer, enxergava além e dizia que eu seria um sucesso, mas eu não conseguia me desvincular daquele livro. Enquanto isso, lancei alguns textos variados pela internet e até ganhei um bom dinheiro com outros livros, menores, que resolvi enfim liberar em plataformas digitais, mas mandá-los para uma editora e tê-los na livraria já era outra coisa, muito maior. Muito mesmo. E que não cabia em meus sonhos. Não ainda. Gosto de rabiscar pequenas frases de momento. Linhas que me pertencem até a alma. Palavras que escapam sozinhas num pensamento bobo e livre. Vivo com uma caderneta para anotar qualquer que seja a inspiração. Tenho uma página no Facebook na qual acumulo milhares de seguidores. É um mundo virtual que me divirto demais, ainda mais quando surgem as ideias mais quentes e perversas. O Ponto G é exatamente o que eu precisava para seguir com meus textos recheados de experiências, momentos doces, gostosos... E insinuantes. A maioria que me segue são mulheres, já que meus textos tocam o íntimo. Lá eu deixo a sinceridade sexual aflorar. Elas entram em contato dizendo o quanto se libertam ao lerem os meus textos, e admiram ainda mais por serem eróticos escritos por um homem, já que possuem tanta delicadeza, gentileza e fragilidade. A verdade é que só consigo escrever com tamanho cuidado porque amo as mulheres. Sou um admirador nato. Gosto de olhá-las, admirá-las e tê-las. Estar ao lado de uma mulher é o que me faz sorrir sem pressa, conversar horas a fio, experimentar a adrenalina começando, sem fim, até gozar de suas presenças. Literalmente. Mas acontece que estou sem uma mulher ao meu lado já tem três longos meses. E não entendo bem essa razão. Mentira de novo, claro que sei... Acontece que estou tão afundado nesse projeto, neste livro, que apenas ele me consome. Tira o meu sono, minha fome e até os meus desejos. Apesar de cada linha gritar paixões ardentes, vivo apenas de fantasias. Tudo começou com um sonho, o mesmo todas as noites. As cenas se variavam, mas a pessoa era sempre a mesma. Olhos imensos, de azuis tão intensos, como se tivesse uma vastidão para explorar. Boca delicada e o nariz fino, arrebitado. E o pescoço... Ah, como me encantava aquela pequena e singela curva... Nas minhas visões com ela, eu me perdia. Havia algo que queria enxergar, mas não conseguia. Era perturbador. E para deixar tudo ainda pior, existia uma única peça, fundamental nisso tudo: um guarda-chuva vermelho. Era a lembrança mais vívida que tinha ao acordar. O sonho sempre parece nublado. Como se ela estivesse sempre disposta a abri-lo, o maldito guarda-chuva. De vez em quando ela o faz. Abre, o rodopia entre os dedos, e o leva para os ombros. Olhando por fim para trás, diretamente para mim. E eu me perco, sumindo e morrendo de amores. E era com esse sonho que eu me inspirava para escrever. Pensando naquele sorriso que me sufocava sem conhecer.


Parei para fazer um café bem forte, sem açúcar, e subi para o meu paraíso particular. A escada em caracol, no canto da pequena sala, me levava para ver estrelas. Apesar de ser fim de tarde, ali era meu lugar. Onde havia uma espécie de laje, montei o meu agraciado santuário, com flores, cheiros e sabores. Sou ótimo com plantas e cozinho que é uma maravilha. Por isso, escolhi perfeitamente o que faria parte dali, da minha estufa. Os mais diversos temperos plantados por mim, os perfeitos girassóis que alegravam minha vida ao lembrar-me da minha mãe, e a cadeira confortável para esticar o meu corpo e ver a imensidão acima de mim. Aquilo tudo era a minha cara. Tudo gritava: o Paraíso de Gabriel. E poucos conheciam de verdade aquele espaço. Sentei-me na espreguiçadeira, dando diversos goles lentos no café fumegante. Inspirei os diversos cheiros fortes, e sorri agradecido. Pensei em sair naquela noite. Era sábado, e não tinha planos para aquela noite. Deveria ver gente nova, beber algo colorido, conversar futilidades, sorrir das besteiras contadas, soltar uma ou duas frases minhas, despertar a curiosidade, ganhar beijos ardentes perto do banheiro, ou mesmo no balcão, e depois pagar um motel para finalmente foder. Porque fazer amor estava longe de mim, completamente fora de cogitação. Mesmo com saudades de tudo isso, senti uma leve vertigem. Deixei o café de lado e me encostei na cadeira, me esticando. Isso andava acontecendo com frequência... Essa vontade insana seguida do chato despertar para a realidade. Bufei, puxando o ar quente e ainda abafado do final da tarde. Pensando bem, acho que não faria nada... Adormeci.

Ainda encostado na cadeira reclinável, me encontrava em um ambiente desconhecido. Parecia que tinha sido transportado para outro país. E era muito frio, cinza, silencioso. Olhei ao redor e nada foi reconhecido. Não havia muitas pessoas, somente algumas indo de um lado ao outro com pressa. Ah, isso lembrava São Paulo. Mas não era. Tenho certeza. Um barulho de sino chamou a minha atenção. Contei doze badaladas. E em nenhum momento me levantei da cadeira, que dava de frente para um castelo. Que sensação sinistra me cercava! Tentei me manter calmo, achando que estava tudo bem. Permaneci ali, sentindo a brisa gelada e assistindo o tempo mudar acima de mim. Senti que despencaria uma chuva, mas como eu sairia dali? Não fazia a menor ideia. Então foi que avistei, ao longe, uma ponte. Nela havia uma moça, atravessando despreocupada. Não parecida perdida, longe disso. Era como se conhecesse o lugar como a palma de sua mão. Havia um objeto em suas mãos que me deu uma sensação estranha no peito, como se me despertasse. Um guarda-chuva vermelho. Decidi me levantar e conversar com ela. E para minha surpresa, não me sentia mais preso... Aproximei-me dela, que sorriu para mim. E me destruiu. Tentei correr, para mais perto, mas as pernas fincadas no chão não me permitiram fazer nada. Ela parou à distância de um toque, mas parecia que estava longe demais. – Você, por aqui? – perguntou, baixinho, contendo um soluço.

– Quem é você? Por que você está no meu sonho? – respondi com outra pergunta.


– Ainda não sabe? Ah, você descobrirá... Ela foi embora novamente. E minha frustação por nunca ter a resposta me corroía. – Ei, volte, por favor! – gritei. Ela não voltou, mas senti, em meu peito, que iríamos nos ver em breve. Nem que fosse somente em algum outro sonho...

No outro dia acordei cedo, arrumei o caderno, a caneta preta e um lápis. Saí de casa com apenas isso. Objetivo: ir escrever no Ipiranga. Hoje era o dia. O parque estava cheio, como sempre. O pessoal do skate já descia a ladeira. A criançada já corria entre patins, bicicletas, patinetes e com as próprias pernas, gerando vida por todos os lados. Pipas, bonecas e bolas. Grito aqui, choro ali, risada acolá. Aquilo era uma mistura incrível, a dose certa para me inspirar. Perto da escadaria, ao lado esquerdo, tinha muitas árvores e sombra, era o meu lugar de sempre. Ali não tinha muito movimento, mas conseguia enxergar a todos que passavam pela ladeira. Fitei o céu que aparecia entre as folhas e galhos acima de mim. Respirei o ar tão seco, mas agradável. O dia típico que fazia muito calor de manhã e chovia a tarde. Era ainda nove e meia da manhã. Eu já havia tomado café, e feito muitas coisas em casa. Sentei-me pegando o caderno. Estava na hora de botar algumas palavras para fora. Mesmo que eu não soubesse sobre o que escrever, quando não tinha inspiração rabiscava uma frase qualquer. Não importava o quê e para quê, o importante era escrever algo. Passei horas que nem deduzi no começo quantas foram, mas quando notei tinha escrito mais de dez folhas. E me deliciei ao passar os dedos nas letras firmes que marcavam o papel. Um orgulho me tomou, deixando o coração aliviado por ter escrito tantas coisas boas. Nisso, o celular despertou, avisando que era meio-dia. Aquele era o meu limite para ficar ali. Ia me arrumar para ir embora, mas algo me chamou a atenção: foi alguém que surgiu no meu campo de visão. Exatamente alguns metros, não tão longe. Ela usava uma saia vermelha que ia até os calcanhares. Solta, estilosa e muito perfeita naquele corpo. Sapatinhos brancos, tipo aqueles antigos keds. Blusinha com listras pretas e brancas. O olhar, perdido em algo à sua frente. Cabelos pretos num chanel muito bem aparado. Havia uma franjinha que, de vez em quando, ajeitava com a ponta dos dedos. Estava encostada, perto do muro. Olhava para frente sem preocupação, como se não procurasse por algo específico. Simplesmente permaneceu ali, e eu me perdi em sua miragem. Não sei por quanto tempo. Até que decidi levantar e dar a volta. Eu queria vê-la de perto. Não sei porque, mas precisava... Assim que ousei passar por trás dela, caminhando despretensiosamente, ela virou o rosto ligeiramente. E vi algo encantador. Em seu pescoço, bem, abaixo da orelha, em seu lado esquerdo, uma pequena e singela tatuagem de um delicado girassol. Sua pele era muito branca e o amarelo parecia que havia ganhado vida, agradecido por estar ali, nascido em leves pinceladas. Um girassol no estilo aquarela. Perfeita.


Sentei-me no degrau e de vez em quando tentava olhá-la. Abri meu caderno e tentei escrever algo racional, mas nada saia. Droga! Fingi que fazia algo interessante só para não olhar para o lado a cada cinco segundos. Se continuasse daquele jeito, ela acabaria por notar o meu desconforto, pois estávamos na mesma direção. Apenas alguns passos... Queria enxergar seu rosto, mas ela permanecia como uma estátua. Um anjo caído. E olha que quem tinha nome de anjo era eu! E como num passe de mágica, uma obra de Deus, começou a chover, me despertando dos meus devaneios. Estúpido, como eu não havia notado a mudança do tempo?! Fechei correndo o caderno, e uma tristeza me acometeu por ter que ir me esconder e não ver mais aquela moça encantadora... Acontece que, quando olhei na direção dela, me despedindo em pensamentos, as mãos dela correram para o lado, buscando uma peça atrás do muro. E meu coração descompassou quando eu vi o guarda-chuva vermelho. Era um sinal. Só podia ser um sinal divino. Não pude resistir, não deveria. Então sem pensar na besteira que poderia cometer, eu corri. E fui para perto dela. Não, eu fui para debaixo do guarda-chuva dela. Puta merda! Era a menina do sonho! E eu não tinha a menor ideia do que fazer para não perdê-la de vista.


Charlotte Porque tudo o que eu sei é que nós dissemos, "oi" Então se livre das suas maiores esperanças Tudo o que lembro é a chuva caindo E tudo mudou ~Taylor Swift (feat Ed Sheeran – Everything has changed~

Hoje completa seis anos que eu moro no Brasil. Há muito me libertei das convenções que só me faziam mal. Hoje eu sou outra pessoa, uma mulher que aprecia cada instante da vida. Até sou capaz de agradecer por tudo que me aconteceu! Hoje vivo sozinha, por minha conta, longe das asas protetoras dos outros. Claro que eu ainda carrego o pomposo nome da minha prestigiada família, junto com todo seu belo dinheirinho que caía na minha conta todo santo mês, com pontualidade britânica. Mas podia viver longe de todos, o poder de comandar os meus passos cabia somente a mim. Minha avó, Lady Shelly, por mais que estivesse há quilômetros de distância, ainda tentava a seu modo me persuadir, mas jamais conseguiu. Me lembro da primeira vez que decidiu sair de seu pedestal e veio para cá, conhecer o meu humilde lar... Ela quase enfartou. Quando se recuperou, tentou sem sucesso me fazer mudar de ideia e voltar a Londres. Falhou, é lógico. E por sorte, ela não voltou a insistir pessoalmente – só por longos e chatos telefonemas. Quando cheguei ao Brasil, logo me dediquei a aprender mais sobre a língua. Apesar do meu pai ser brasileiro e ter nos ensinado, não era nada perto do que quando cheguei aqui. Foi incrivelmente mais difícil do que imaginei. Me esforcei o quanto pude, e mesmo depois de seis anos, eu ainda tropeçava em diversos momentos. Mas o povo brasileiro me recebeu de braços abertos, prestativos e prontos para me ajudar no que eu precisasse. Fiz um pequeno curso com a vizinha da casa que comprei. Por sorte ela era fluente em Inglês e me ajudaria no Português. Marcela foi incrível e até hoje somos amigas. Ela acabou ganhando ainda mais experiência ao conversarmos na minha língua natal, e sempre se derretia ao me ouvir com o tão sonhado sotaque britânico. Claro que eu ficava toda boba com os seus elogios. Em troca, tentava saber tudo para que eu pudesse me comunicar no Brasil, inclusive as gírias, para que não ficasse parecendo uma gringa metida. Mas quem disse que eu consegui perder o sotaque? No fundo, ainda tenho minha nacionalidade estampada na cara. Depois de um longo ano de estudo, indo todos os dias na biblioteca perto de casa, consegui um trabalho por lá. Dona Vitinha não sabia que eu tinha dinheiro, que não necessitava de trabalho, mas me via tanto por lá que decidiu me oferecer a vaga. Eu aceitei, com o coração preenchido de amor. Seria um prazer ficar onde mais frequentava. Não seria um trabalho, e sim um privilégio. Dona Vitinha trabalhava ali há trinta anos. Todos os dias que contava sua vasta experiência,


enchia meu peito de alegria e honra por ouvir as histórias de uma senhora que viveu tão bem sua vida. Mesmo por ter trabalhado tanto tempo ali, seu amor pelos livros, pela arte das palavras deixavam um orgulho cravado em seus olhos afetados por amor e respeito. Todos os dias ela me apresentava um livro novo, contava algo interessante, histórias e curiosidades que iam além daquelas páginas. Eu me fascinava todas as vezes por receber tamanho carinho e conhecimento, como se ela fosse a avó que eu tinha escolhido para mim. Não me arrependia de ter saído tão cedo de casa, deixado uma vida confortável e com tudo a minha disposição. E principalmente, por ter abandonado uma vida na qual seria forçada a viver ao lado de algum pretendente que não conhecia e muito menos era apaixonada. Isso se arrumasse algum após ser recusada pelo Garibaldo... Às vezes a vida é muito justa. Ela me trouxe para cá, onde vivia meus dias perfeitamente bem. Uma das coisas que mais gosto de fazer é isso. Curtir a natureza, o ar ao meu redor, arrastando a saia que brinca em meus tornozelos. O cheiro de chuva que aprendi a adorar, o sol que preguiçosamente logo seria substituído por violentas gotas de primavera sob o céu cinzento. Fitava ao longe o balançar das folhas e as árvores agitadas, como se dançassem um ritmo que somente elas escutassem. O digníssimo som do vento. Fechei os olhos por alguns segundos e senti como se o meu corpo estivesse sendo puxado pela natureza para um redemoinho de sensações doces e agitadas. Dentro de mim algo retumbou. Não sabia o que era, mas sentia essa energia viva me domar, amarrar-se ao meu corpo, pedindo para libertar-me. Meu coração disparou novamente com a alegria ao redor. Os risos, a correria, as movimentações de lá pra cá. Encostei-me ao pequeno muro, recebendo o impacto das pessoas, da vida. Conectava-me com o mundo em rotação. Os sorrisos receptivos, os olhares complacentes. Uma mistura incrivelmente boa. Era domingo, e eu estava mais uma vez no encantador Museu do Ipiranga, um lugar que sempre me deixava nostálgica. Talvez seja pela beleza do lugar em si, que me fazia lembrar da infância, quando corria livremente ao redor de jardins tão bem cuidados do nosso castelo, arquitetados com autêntico primor. Era assim, imerso em lembranças, que meu coração acelerava ao passar pelos arbustos do Museu. Hoje os meus momentos são marcados por gestos simples, como me deslumbrar diante do belíssimo palácio logo em frente, que infelizmente, estava fechado para reforma. Ou sentir a onda positiva que parece impregnada nos mínimos detalhes. Aquela áurea majestosa faz com que eu me sinta em contato com um pedacinho do meu passado, como se ele materializasse bem ali, à minha frente. Observava com os olhos radiantes as pessoas felizes, curtindo o seu domingo em família. Eu não tinha uma família por aqui. Foi escolha minha, não estava triste por isso, e não me lamentava. Só que eu sentia falta de alguns deles. Principalmente de Cat... Quando assistia irmãos brigando, meus olhos sempre lacrimejavam. Eu queria estar brigando nesse momento com Cat por ser tão teimosa. Queria estar pirraçando-a por ter aprendido tão bem o português que ela admirava o papai falar. Queria ensinar-lhe tudo. Ah, Cat... você me faz uma tremenda falta! Meu peito sufocou, então apertei as mãos suavemente na altura do coração, onde perto da clavícula tinha escrito com letras finíssimas a palavra que mais sentia por Cat, uma palavra tão


linda que só tinha significado em português. Saudade. Tatuei para que nunca me esquecesse dela, só para que, futuramente, essa saudade desse trégua, mesmo sabendo que não aconteceria. Mas era uma marca. A nossa redenção pelo fatídico dia em que a perdi para sempre. Enquanto tentava fortemente evitar chorar mais uma vez ao que não aconteceria com a gente, senti um pingo d’água no rosto e dessa vez não era as lágrimas que insistiam em sair toda vez que pensava nela, era apenas chuva. Como se o céu chorasse a minha perda, a dor que rasgava ainda dentro do peito sofrido. A alma devastada que nunca se curaria... Fitei o céu quase agradecida pela distração. Como sempre estava preparada ao sair de casa, por ter me acostumado com São Paulo ser uma cidade bipolar no tempo. Peguei o meu guarda-chuva que deixei encostado no muro, e o abri para me cobrir da chuva. Na mesma hora senti algo vibrar perto de mim e, logo em seguida, tomei um susto tremendo quando alguém entrou debaixo do vermelho do meu guarda-chuva. Me virei para ver quem era o desaforado, mas fiquei muda diante daqueles olhos sensíveis, a boca aberta em um O de espanto, me fazendo acreditar que eu era uma assombração. Pensei até em tirá-lo dali, sair de perto daquele desconhecido, mas seus olhos tinham algo que me fez acreditar que ele era do bem. Mesmo sem saber ao certo o que deveríamos dizer um ao outro, confiei na energia que me unia à ele, como se não existisse os centímetros que nos separavam. Segurei com mais firmeza o cabo do guarda-chuva, tentando em vão dar um passo para trás, porém era como se ele me proibisse de ir para longe. O que era aquilo, meu Deus?! Pensei mil coisas por segundo antes de dizer algo, mas ele se adiantou. – Oi, moça! Desculpa invadir o seu espaço, mas é que não posso molhar isso! – disse de uma vez, assustado. Contive um sorriso e resolvi brincar com ele, deixando-o em uma situação constrangedora. – Hi – assim que o cumprimentei na minha língua de origem, ele empalideceu. Tentei fazê-lo acreditar que eu não brincava, deixando ainda mais carregado o sotaque. – Oh, logo vi que não era daqui... – desculpou-se, encolhendo os ombros. Fingi não entender.

– Sorry – disse, acanhado, dando de ombros todo desconcertado. – May I help you? – indaguei, botando ainda mais fogo nessa confusão. Seus encantadores olhos cor de mel brilharam ainda mais, sem graça. Sorri, afetada. – Ah, caralho! – tentei não arregalar os olhos com seu palavrão, mas ele sim o fez. – Droga, você entendeu isso? – continuei sem expressão, mas por dentro estava gargalhando. Coitado do moço! Enquanto a chuva banhava sem dó os nossos pés e pernas, a água molhando até a metade da minha saia, observei ligeiramente que não havia mais ninguém no jardim do museu. Apenas nós dois, ainda ali, embaixo do guarda-chuva vermelho. – É... Hmm... Bem... I don’t speak English – falou cheio de esforço, dando de ombros, o seu olhar tão perdido quanto o meu. – Sorry... – agora deixei um sorriso escapar, e ele parou de respirar por um momento, forçando em seguida o ar a entrar.


– Oh, really?! – ergui uma sobrancelha em sua direção, e ele apertou um pouco mais o seu corpo contra o meu porque a chuva castigava. E apesar de pequena a distância entre nós, eu gostei dele e de toda a malandragem que exalava. – No compreendes... Aff, isso é espanhol, droga – revirou os olhos agitados, e só então comecei a observá-lo. Sua boca carnuda se escondia na imensa barba que cobria metade do rosto. Era meio ruiva e parecia macia. Desejei tocar... Entretanto, não movi um músculo sequer, até apertei meus dedos no cabo que segurava para evitar que fizesse uma burrice. Mantendo-me longe dele. E apesar do meu desconforto constante, acabei gostando da forma que ficou nervoso perto de mim, como um menino diante do primeiro encontro. – Ah, quer saber? Desculpa, princesa, não imaginei que fosse gringa e ainda mais que eu não fosse calar a maldita boca na sua frente. Sendo que nem entende uma palavra da minha boca desenfreada – respirou fundo. – Então tá, desculpa ter invadido seu espaço, não tive intenção de assustá-la ou qualquer coisa, é que te vi... foi impulso que me trouxe para debaixo do seu guardachuva! – confessou, olhando diretamente em meus olhos. Mesmo que eu não entendesse uma palavra, teria admirado sua coragem. Aqueles olhos intensos me prendiam a ele. – E já que não me entende e mesmo assim está me encarando como se entendesse tudo, vou ser sincero, ok? Bem, isso não é dar em cima, porque não sou disso, mas acontece que você é uma mulher tão... tão incrível! Você é linda, uma inspiração divina! Seus olhos são intensos e quentes. Isso é insano, eu sei. Mas não sou um louco, portanto não tenha medo. Sou apenas um escritor, um sonhador... Um montão de loucura me cerca! Julgue-me se quiser – gargalhou e eu estava petrificada com a torrente de palavras que saia daquela boca desconhecida. – Bem, eu adoraria te chamar para tomar um café, mas porra, eu nem sei fazer isso. E outra, eu não pararia de falar merda, e você nem me entende... Não saberá responder cada questão idiota que falei. Bom, desculpa mais uma vez e bye bye – ele falou, afobado, mas não saiu do guarda-chuva porque a chuva não dera trégua. Olhei para o seu caderno, e se era importante para ele, como disse instantes atrás quando fez meu coração descompassar por ter dito que era escritor, eu cedi ao seu encanto. Ele disse muitas coisas intrigantes que me fizeram bambear, mas ser escritor... Ah, esse era meu fraco. Ele mal sabia. Minha nossa, eu estava diante de um escritor, crê nisso?! Senti meu corpo todo tremer de emoção. Sorri carinhosamente em sua direção, meu coração esquentando com as suas palavras. E antes que ele pudesse realmente me dar as costas e ir embora, encostei em seus braços. Ainda toda trêmula, um arrepio tomou conta da gente, amarrando nossos destinos para sempre. Foi essa a sensação. E tudo que senti mais cedo, como se tivesse uma energia me puxando, não era nada perto do que tinha me invadido ao tocá-lo. Como se ele tivesse que aparecer na minha vida no momento certo. E aquele momento era agora. Tudo havia mudado. – Sim – ele travou. Arregalou os olhos e perdeu o fôlego.

– Oi?! – disse, engasgando. – Oi, tudo bem? – mencionei, brincalhona.


– Eita, porra! – pude vê-lo se tremer todo. – Já desmereceu o café – fiz cara de decepcionada. Ele se endireitou perto de mim. E só aí que notei que a chuva diminuía. – Desculpa, estou confuso. Você fala minha língua perfeitamente, é isso? Ou estou delirando porque tomei uma boa dose de chuva? – recitou com sua voz rouca. – Parece que eu sei falar a sua língua – dei suavemente de ombros.

– Então, por que me deixou falar tanta asneira? – questionou, decepcionado consigo mesmo. – Apenas o deixei se expressar. Cada doido com sua mania! – gargalhei, e novamente o senti me atravessar a alma. Engoli em seco a risada. – Você é mesmo real? – senti levemente a ponta de seus dedos tocarem os meus, que seguravam com firmeza o cabo. – Tô pasmo...

– E eu aceito o café, senhor. – Será um prazer, senhorita...? – brincou, querendo saber meu nome. – Isso eu posso te contar depois. Agora, anote o meu número para marcamos o café. Ele parecia incrédulo, trêmulo e abismado com a realidade que estava em nossa frente. Já sem a chuva, dei um passo para trás com o guarda-chuva ainda aberto, os pingos insistiam em cair, um aqui e outro lá. O rapaz abriu ligeiramente o caderno e aguardou enquanto eu passava o meu número. – Anotou? – questionei, saindo de seu campo de visão. Ele permanecia enraizado ali, sem saber o que fazer. – Sim, mas espero o seu nome para que possa colocar na agenda – seu olhar era persuasivo e eu adorava brincar. – Coloque o que lhe convir. Ficarei no aguardo, senhor Guarda-Chuva – retruquei. Ele entendeu a brincadeira e começou a rir antes de comentar. – Pode apostar que sim, Miss Girassol! Meu coração disparou. Ele então havia notado o tão singelo símbolo que eu tinha tatuado no pescoço. A partir de agora, ele teria minha total atenção. Fui saltitante para casa, cheia de expectativas. As coisas estavam prestes a mudar.


Gabriel Um novo dia, uma nova era, Um novo rosto, um novo pôr Um novo amor, uma nova droga, Um novo eu, um novo você ~30 second to Mars – Bright lights~

Mal podia acreditar que o destino finalmente havia deixado a moça do sonho ao meu alcance! Ela era a coisa mais singela que já tinha visto em toda a minha vida. Aqueles olhos, aquele sorriso... Tudo nela era intensidade, vida e inspiração. Inspirado pelo encontro, ao chegar em casa escrevi mais de dez mil palavras. Dez mil, dá para acreditar?! Nunca tinha despertado em mim, diante da tela do computador, tantos sentimentos, tanta paixão ao escrever. Era ela! A garota do guarda-chuva vermelho. Sei que isso pode soar ridículo, ou até mesmo clichê, mas não era possível criar outro nome para ela. Querendo ou não, ela vem me desestruturando por completo, mesmo antes de conhecêla! E sabe o pior? Nem tenho ao menos coragem de enviar uma mensagem para ela! Como vou abordá-la? Dizer que fui o intruso dessa tarde chuvosa que entrou embaixo de seu guarda-chuva, que a olhou cheio de curiosidade e lhe disse os piores absurdos? Eu não podia fazer aquilo. Se um dia, alguém me contasse que isso havia lhe acontecido, eu diria: você está louco! Não é possível você sonhar com alguém por tanto tempo e ela surgir do nada em sua frente, como se fosse mágica! Esse elo que criei entre os meus sonhos constantes e essa realidade da qual escrevia, não deveria sair além das páginas que me aventurava. Mas eis que ela estava ali. Estremecendo meu mundo, sacudindo meu ser, inquietando meu emocional, e o pior, aquecendo um coração que há tempos não batia. Até aquele momento era simples apenas estimular a escrita. Dando-me oportunidade de viver com a máxima intensidade todas aquelas inspirações. Mas por outro lado, tê-la perto, pela mínima chance, era além da conta. Entretanto, sabe o que mais me motiva a continuar e buscar essa realidade? Eu estava me conectando novamente. A tudo. Depois das costas começarem a reclamar por ficar tanto tempo sentado, eu me levantei e estiquei a coluna. Tudo começou a ranger e estalar! Parecia que o meu corpo estava fora do lugar, a cabeça ardia, o peito arfava e meus dedos tremiam, querendo digitar mais um pouco. Minha cabeça estava uma loucura! Eu precisava me acalmar e processar as informações de tudo que me acontecera. Sendo assim, abri uma garrafa de vinho e me servi de uma taça, fitando a maravilhosa cor do tinto encorpado, o cheiro tão familiar. Recordei-me da época em que os meus


textos eram carregados de emoção à base de tão saboroso líquido, o álcool me transportando para o meu mundo mágico e único. Engoli o primeiro gole. Saboreei o doce sabor. Fechei os olhos, e ela me veio novamente à mente. Ela parecia ser tudo o que eu precisava, mas não conseguia imaginar me envolvendo com ela, correndo o risco de magoá-la, de fazê-la sofrer, de perdê-la... Mas ela não deveria deixar-se evolver... Não comigo, porra. – Madruguinha! – chamei o meu fiel companheiro e ele se aconchegou aos meus pés. – Amigão, você precisa conhecê-la... É tão doce, tão incrivelmente linda – ele me fitou com os olhos brilhando. O que foi estranho, porque ele sempre rosnava contrariado quando eu falava de alguma mulher. Coitado, sei que teve uma péssima experiência com Carla. – Ela iria amá-lo, menino. Parece ter um coração gigante e o sorriso... – continuei contando e ele se sacudiu, apoiando o focinho no meu colo. Fiz carinho entre suas orelhas, como ele gostava. Minha cabeça fervia, pensando se deveria enviar uma mensagem combinando algo ou se ligava para ela. Não acho que inventaria desculpas ou não me atenderia, senão não teria me dado seu número de telefone. Mas e se o telefone for falso e ela só quis zoar com minha cara de paspalho? Segurei o número dela entre os dedos. Iria fazer uma brincadeira: se fosse para ser, o destino a colocaria em meu caminho; senão, esqueceria essa história e me concentraria em terminar o meu livro. Dobrei o pedaço de papel, levei as mãos atrás das costas e troquei diversas vezes o pedaço do meu destino entre os dedos. Trouxe para frente e cruzei as mãos, enquanto o meu cachorro fitava essa loucura, como se me perguntasse aonde eu queria chegar. – Amigão, escolhe uma mão. Qualquer uma, vamos lá! – balancei as duas na frente dele, como se estivéssemos brincando. Madruguinha se levantou e ficou balançando a cabeça entre minhas mãos. Seus olhos diziam que adoraria me ajudar. Então cruzei as mãos mais uma vez e pedi para ele escolher. Meu coração batia forte, de ansiedade. Devo estar louco mesmo para deixar um cão decidir as coisas para mim... Assim que Madruguinha mordeu o meu dedo da mão esquerda, todo brincalhão, querendo ver o que tinha ali dentro, meu coração parou. – Tem certeza? – ele respondeu com um latido, parecendo que estava se divertido. Então abri e nós dois sorrimos, alegres. – Seu bobão! – mas seu olhar, que me conhecia como poucos seres no mundo, dizia que o bobão da história toda era eu. Decidi então enviar a mensagem, vendo o papel com o número dela ali, na mão aberta. Adicionei o número na agenda. Aguardei alguns instantes para confirmar se apareceria alguma foto no Whats, e para a minha surpresa, surgiu um girassol. Agora tinha certeza de que era ela. Bom, vamos lá! Boa noite, Miss Girassol. Achou que eu não te chamaria?! Bem, quase acertou! Fiquei o resto do dia tentando tomar coragem para isso. Apesar de falar descontroladamente na frente de uma desconhecida de guarda-chuva vermelho – que confesso, é linda. Espero que ainda se lembre desse estranho que procurou se proteger da chuva ao seu lado. Um barbudo que não falava coisa com coisa! Bom, decidi que seria muito mal educado se não enviasse um oi para você. Senhor Intruso do Guarda-chuva.


Reli rapidamente e enviei, antes de perder a coragem. Saí do aplicativo e fui fazer outras coisas, só para o nervosismo não me corroer. Não sabia se ela iria me responder, então não criei expectativas. Mas qual foi a minha surpresa que mal tinha deixado o celular de lado quando a resposta chegou. Tentei me conter, mas quase pulei encima do aparelho. Boa noite, senhor Intruso do Guarda-chuva. Fico imensamente grata pela sua mensagem. É claro que me lembro de um barbudo que invadiu o meu pequeno mundo! Estava tão distraída no momento, mas você chegou e roubou algo de mim... A atenção... E eu gostei.

Caralho! Ela tinha gostado... eu tinha roubado sua atenção... Quantas vezes já reli o texto? Não sei, mas precisava responder. Digitei livremente, agora sem a porra do medo e da ansiedade a me cercarem. Eu queria saber tudo sobre ela. Dane-se o medo! Eu também gostei de saber disso. E agora, ganharei a honra de conhecê-la melhor numa conversa regada a café?

Enviei. E ela já digitava algo. Enquanto isso, eu ficava feito louco roendo as unhas e relendo o que tínhamos escrito. A honra será minha em ter uma conversa adequada contigo, em algum café. Mas acontece, meu caro senhor, é que minhas preferências variam em sabores de chá...

Ri alto. Como ela era formal. Você é britânica, então?! Oh, céus, eu devia ter percebido antes, já que você é a educação e formalidade em pessoa. Marcamos então um chá, Miss Girassol. Quero muito saber tudo sobre você! Pode ser amanhã?

Tentei apagar a frase “saber tudo sobre você”, mas já era tarde. Isso poderia soar maníaco, mas fazer o quê. Eu não estava mentindo, era exatamente aquilo que eu queria, conhecê-la muito, mas muito melhor. Muito curioso... E sim, de acordo com a data proposta.

Com toda certeza ela me deixava pra lá de curioso. Deveria me conter para não assustá-la, mas acho que isso não estava acontecendo. Ela estava curtindo, senão já teria me deixado falando sozinho. Como disse anteriormente, a senhorita é toda formal. E isso só confirma sua origem britânica, já que não respondeu ;)

Cutuquei um pouco mais, provocador. Imaginando qual seria sua reação. Minha mente desenhou várias delas, mas o sorriso, ah, esse ficou me convidando! Sim, sou britânica, se te faz feliz saber disso. E com toda certeza, poderemos nos encontrar amanhã. Será muito agradável ter sua companhia =)


Ela nem imaginava como fazia surgir um sorriso leve em meus lábios. Você está me fazendo parecer um idiota, que não sabe transmitir os meus bons modos ao escrever! Será encantador poder ouvir seu sotaque carregado. Não vejo a hora.

E não via mesmo. Você deve ser ótimo...

Por Deus, ela não deve brincar assim. Não agora... É, isso eu sou...

Bem, eu sei que a conversa estava tomando um rumo diferente, então decidi não ser tão malicioso em nosso primeiro contato. Não queria que ela achasse que eu estava dando em cima dela de forma tão descarada, mesmo que estivesse. Skina Café às 15h?

Já mudei logo de assunto, sem querer entrar em detalhes demais. Apesar da pontualidade britânica, teríamos que ter um chá das cinco! Mas com você, chá das três será perfeito. Combinadíssimo.

Foi sucinta também, apesar de haver alegria em seu comentário. Posso apenas saber ao menos o seu nome?

Arrisquei em perguntar, mas precisava saber um pouquinho mais. Saberá no momento certo, senhor Super Curioso.

Meu coração disparou sem motivo. Então deixarei o amanhã vir e acontecer. Ok, de acordo. Até amanhã, Miss Girassol... =)

E para minha surpresa, ela enviou um áudio. See you tomorrow... Senhor Intruso do Guarda-chuva.

Ah, cacete, meu peito se abriu diante das possibilidades. Luzes brilhantes explodiam dentro do meu coração agitado... Que venham as novas sensações e que eu pare de me ver como algo ruim. Eu iria conhecer a gringa de verdade... E estava louco por isso.


Charlotte Você é tudo que eu preciso e mais Isso está escrito em todo o teu rosto Querido, eu posso sentir a sua aura Rezo para que ela não desapareça ~Beyonce – Halo~

Ele era uma doce

novidade ao meu coração, que vivera por tanto tempo trancado. E para melhorar, naquela semana seria o meu aniversário. Será que conhecer aquele rapaz incrivelmente bonito e barbudo era um dos presentes que a vida me reservou? Ainda sentada na varanda, olhando a movimentação da rua, vi de relance a hora, estava tão perto de encontrá-lo... Meu estômago revirou de ansiedade. Eu mal tinha conseguido almoçar! A salada ficou brincando de um lado ao outro no garfo, enquanto meus pensamentos variavam dos sorrisos dele e nas falas tão bonitas. Não sabia ao certo se seríamos grandes amigos ou bons amantes. Gabriel passava tanta confiança e respeito, que tenho certeza que sua primeira atitude é conquistar-me completamente, para só depois investir em algo. Mas o meu coração diz tantas coisas tolas, românticas... Coisas que pretendo não ouvir agora. Ou pelo menos, por enquanto. Por sorte, eu havia informado dona Vitinha que não iria aquela tarde pois teria que finalizar um dos trabalhos que peguei para traduzir, de um extra que Marcela me ajudou a conseguir. Por isso, juntei toda a papelada para a última revisão e deixei organizada numa pasta. Fitei o guarda-roupa aberto, tentando esquecer o nervosismo. Deixei os pensamentos leves e puxei a longa saia com uma blusinha rosa. Coloquei as peças em cima da cama, analisando se estaria bem vestida. Me perguntei o que Gabriel acharia, mas resolvi esquecer. Então calcei o keds e já estava pronta. Simples da forma que sempre amei estar, mas muito confortável. E foi com essa incrível disposição que saí confiante de casa, levando junto o meu livro favorito, já que duvido que conseguiria trabalhar enquanto ele não chegasse. Então eu me distrairia nas doces palavras daquele romance. Jurei que estava tranquila, mas foi colocar os pés para fora de casa que tudo aflorou. Meu corpo e pensamentos agitados me levaram rapidamente ao Skina Café, que era pertíssimo de casa. Cheguei mais cedo para não parecer uma louca ansiosa quando ele aparecesse. Sentei-me no canto que sempre ficava quando ia para lá. O Skina era um dos meus lugares favoritos para trabalhar – e saber que ele pediu para combinar exatamente ali, em um dos lugares que eu mais me sentia à vontade naquela cidade, foi estranhamente bom. Quando tinha que revisar algo que havia traduzido, era para lá que eu ia. Pedia um chá de frutas vermelhas, comia algum docinho e me deliciava nas linhas escritas, aquelas que ganhavam vida em minha língua. Eu me sentia orgulhosa


em fazer algo tão incrível. Secretamente eu tinha um sonho, que era escrever, mas ainda não encontrara a minha história. Eu ajudava a dar vida aos livros em outras línguas, mas algo meu... Ah, seria tão indescritivelmente perfeito se eu o fizesse um dia. – Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente. Coisa que talvez surpreenda muito a você, pois os seus sentimentos são tão guardados que parecem não existir realmente... – ouvi alguém dizer ao meu lado. E meu coração disparou tanto que achei que teria de pegá-lo aos meus pés, numa poça cheia de romantismo cor de rosa. Não era difícil arrancar um sorriso arteiro do meu rosto quando citava Jane Austen. – Razão e Sensibilidade, eterna Jane sonhadora e maravilhosa Austen! – mais uma vez ele me surpreendeu. – Posso? – apontou a cadeira a minha frente. A única coisa que consegui fazer foi apontar a mesma com um leve movimento de cabeça. Estava em choque e em êxtase por ele ter citado uma das minhas passagens favoritas. – Não posso acreditar que recitou Austen para mim! – falei encantada, sem conseguir me conter. – Sou um leitor assíduo antes de tudo, e Jane é fantástica. Quando vi o livro em sua frente, decidi fazer um charme, só isso. Gosto de poesia, tenho amor pelas palavras, então os textos apenas fluíram fáceis. – Você deve conquistar muitas mulheres assim... – isso não era da minha conta, mas as palavras fugiram de meus lábios teimosos. Entretanto, espero que nenhuma outra tenha escutado essa citação. – Não sou assim. Para conquistar, utilizo de outros métodos. E aí, já fez algum pedido? – folheou o cardápio, encerrando o assunto e passando aqueles olhos enigmáticos pelo papel. Eu queria aquela atenção toda para mim. – Não, esperei por você – falei apenas, ainda fitando seu rosto que admirava o cardápio. Olhe para mim... – pedi, em pensamento, e de repente fui satisfeita. Ele me fitou tão profundamente que até corei. – Ótimo. Você gosta de qual dos chás, senhorita britânica? Eu vou de cappuccino de Alpino e croissant – lambeu discretamente o lábio inferior. Seria assim que ele conquistava as mulheres? Devia ser, porque tudo ficou tão quente por aqui... – Charlotte Sophie, muito prazer – acho que meu nome escapou, mas decidi que deveria dizêlo. Minha mão passou por cima da mesa, se aproximando da dele. Assim que nos tocamos, um choque me percorreu. E nossos olhos tornaram-se um só. Mel e azul. Um brilho nos uniu, mostrando que tínhamos mais do que apenas um intenso contato. Eu jamais tinha sentido aquilo com qualquer pessoa antes. – Lindo nome, Charlotte Sophie – sua voz tornou-se muito baixa e rouca, provocando-me. – Encantado – ele não havia me dito seu nome ainda, e não havia soltado minha mão. – Obrigada, Encantado! – brinquei, e nós dois gargalhamos.

– Você é cheia de graça, gostei disso.


– Eu costumava ser mais engraçada, mas o tempo me amadureceu – ele assentiu, como se me compreendesse. – Mesmo assim, me esforço bastante para manter um sorriso no rosto. – Que é muito belo, por sinal – minhas bochechas coraram levemente. Ele tinha um dom incrível de me fazer perder o controle das próprias pernas! Não sabia se conseguiria andar novamente se ele continuasse a falar comigo daquele jeito. – Obrigada pelo elogio – murmurei, vermelha. Ele assentiu feliz.

– Há quanto tempo está no Brasil? – questionou, muito curioso por toda novidade que estava por vir. Éramos uma deliciosa novidade para ambos. – Já estou aqui no Brasil há seis anos. Muitas coisas aconteceram desde então, e aprender sua língua foi uma delas. – Você fala muito bem, mesmo tendo me enganado – sorriu. Será que era agora que eu morreria? Porque se ele sorrisse mais uma vez daquele jeito, meu coração pararia, com certeza. – Desculpa pela brincadeira ontem. Eu me assustei com a sua chegada e, para me vingar, resolvi te assustar um pouquinho, mas foi engraçado, sim? Ele observou atentamente – até demais – o meu sorriso. Emudeci. – Foi a melhor parte do meu dia – ele afirmou, todo sedutor. Ele era incrivelmente galanteador e apaixonadamente provocador. – Não costumo ser assim, eu juro – dei levemente de ombros, envergonhada.

– Relaxa, foi incrível. Pensa bem: se não tivesse feito aquilo e puxado conversa, talvez eu não teria dito nada... Talvez nem estaríamos conversando aqui, agora. – Isso é verdade – nossos olhares se grudaram novamente por longos segundos. Tentando reconhecer mais segredos e revelar desejos até então estavam bem escondidos. Disfarçamos e até que finalmente fizemos o pedido para Raquel, que veio nos atender. Esperamos mais um tempo, enquanto eu falava sem parar do meu amor eterno por Jane Austen. Até que uma questão surgiu, de repente, em minha cabeça. Eu tinha vontade de saber tudo sobre ele. – Qual é o seu hobby? – dei um golinho no chá e quase queimei a língua ao vê-lo morder cheio de classe o pãozinho crocante. – Rosa com bolinhas amarelas, não conte a ninguém! – ele fingiu me sussurrar e não contive o riso. Gargalhei alto, mesmo com aquela piada que já ouvira fazerem tantas vezes. – Mentira?! Andou me espiando? – retruquei, arregalando os olhos. Ele fez o mesmo, fingindo estar espantado. – Não me diga que você tem um igual? – tomou um gole, ainda se divertindo.

– Sim, exatamente assim. Igualzinho! – Uau, que coincidência! – ele piscou, parecendo um menino arteiro.


– Muita! Mas, fala sério, o que mais gosta de fazer? – fitei-o enquanto limpava o pão dos lábios. Não havia nenhuma migalha em sua barba. Penso até que ele tinha a aparado um pouco, parecia menor e mais ajeitada do que ontem. Será que teria sido só para me ver? – Escrever – falou simplesmente, tirando-me dos devaneios.

– Não, isso é sua profissão. Digo algo que adore fazer, sem compromisso, sabe?

– um brilho

intenso saiu de seus olhos, como se quisesse me dizer algo. – Uma boa teoria. Infelizmente, eu levo a escrita como hobby, ninguém bota fé nesse tipo de ocupação. Sempre me perguntam se eu trabalho, quando respondo que sou escritor. Dizem: você trabalha ou só escreve?! Isso é entediante e muito desrespeitoso. – Imagino que sim. Mas, a meu ver, essa é uma das profissões que mais admiro e tenho respeito. Minha consideração ao que faz não cabe em palavras. E ao dizer entre as suas primeiras palavras, que era escritor, foi o que me deixou mais extasiada! Estou numa mesa tomando chá da tarde com um escritor, tem noção disso? – minha empolgação deveria ser sentida há quilômetros de distância e desejei com força de que ele visse que era sincera. – Sua sinceridade e empolgação me deixam tímido, senhorita Charlotte.

– Não é você quem deveria se sentir tímido, e sim eu. Estou realizando um sonho – não queria demonstrar tanta afobação, entretanto era quase impossível. – Agradeço seu imenso carinho – ele realmente parecia tímido. Um encantamento diante daquilo tomou conta do meu coração, o que era muito estranho, já que nunca tínhamos nos vistos antes. Em pouco tempo, conversávamos como se fossemos melhores amigos. Eu sentia uma confiança irremediável ao seu lado, como se o seu olhar me transmitisse que tudo ficaria bem, e que não faria nada de ruim comigo. Eu jamais senti isso perto de algum outro homem. E olha que eu tenho os meus motivos, que não são nada comuns. – Desculpa a indiscrição, mas você ganha dinheiro escrevendo? – senti-me muito evasiva, mas precisava mostrá-lo o quanto era importante. – Sim – disse, fitando seriamente meus olhos. Estremeci.

– Então é um job, e não um hobby! – brinquei, para me afastar de seu olhar poderoso. – Você não existe! – ele gargalhou, fazendo meu pequeno mundo interior se agitar na mesma proporção. – Ah, é uma pena... – pisquei afetuosa. Ele parou na hora.

– Mas devo confessar uma coisa, Charlotte: é uma honra estar aqui, com você, admirando seu olhar de azul tão intenso, ouvir seu riso doce, observar os pequenos gestos que mostram o quanto é delicada. Desculpa dizer essas coisas, sei que elas podem deixá-la sem graça, mas eu precisava falar. – É sério? Acha tudo isso? – questionei, meio confusa.

– Sim, e faria uma lista enumerada com tantas outras coisas...


Eu sinto como se já tivéssemos nos conhecidos antes. Sente o mesmo? – meus olhos se arregalaram ao ver um brilho tão familiar nele. Meu peito arfou rapidamente. E era tão estranha essa sensação... Senti os meus olhos lacrimejarem. – Talvez eu deva saber o porquê, ou não, sei lá. Deve existir muitas possibilidades para essa conexão, não acha? – encostou o corpo mais na mesa, tornando-se uma tentação ainda mais próxima. – Diga-me a sua teoria, talvez eu deva acreditar – o desafiei. Ele limpou a garganta e sorriu.

– Há três meses eu sonho com você, todos os dias. Seus olhos, seu sorriso, sua timidez. Você foi minha inspiração durante todo esse período, e quando eu te vi, ontem, de carne e osso, à minha frente, nem acreditei. Eu vi o seu guarda-chuva vermelho, a vi em meus sonhos... Eu travei. Ai, meu Deus, o que ele dizia? Como poderia sonhar comigo? Como eu poderia senti-lo antes mesmo de aparecer em minha frente, e mesmo assim, sentir como se já o conhecesse? O que era aquilo? Assim que ousei em pegar a xícara para molhar a garganta seca, esbarrei os dedos nela, fazendoa derramar todo o restante do líquido na mesa, inclusive nele. Droga! Ele se levantou de um salto, enquanto eu me desculpava. – Oh, holy shit! – tapei a boca ao me tocar no que disse. – Desculpa, mil desculpas por isso! – levantei ligeira e peguei o guardanapo de tecido que estava sobre a mesa. Ele havia se afastado para não se molhar mais, porém, foi inútil, ele já estava ensopado. – Não foi nada. E acho que alguém falou palavrão! – brincou, fitando os meus olhos desesperados. Quando dei por mim, estava com as mãos em suas pernas, tentando secá-lo! – Caramba, eu sou um desastre – me afastei levemente, deixando o guardanapo em suas coxas, ele mesmo o segurou. Como não notei que estava mexendo ali? – pensei, vermelha. Fui instintiva em ajudar, mas nem me toquei onde estava ajudando. – Deus, me desculpa, não vi o que estava fazendo.

– Percebi! Mas tudo bem, não foi nada. Sente-se e se quiser posso pedir outro chá – ele era tão educado. – Você é tão diferente de alguns homens – mencionei isso porque vi em seus olhos que não queria me deixar desconfortável. – Vou receber isso como um elogio – apertou o sorriso, tornando uma linha fina, porém sedutora. – E deve, foi muito cavalheiro de sua parte não mencionar tal disparate meu. Não foi intencional, eu só quis ajudar. – Entendo, e é por isso que não entrei no assunto. Vi que não foi com má intenção, nem com malícia. Não quis deixá-la desconfortável. – Obrigada, senhor...? – deixei nas entrelinhas o quanto eu queria saber seu nome.


– Gabriel Novaes. O sorriso dele foi ainda mais angelical. Era como se não existisse pecado entre nós, não importasse onde nos levaria aquele encontro. Éramos a própria divindade, prontos para receber o que quer que estivesse destinado a nós dois. Estaríamos prontos. Um ao outro. Para ajudar, curar e caminhar. Sempre juntos.


Gabriel Abra meus olhos e me diga quem eu sou Me deixe entrar em todos seus segredos Sem inibição, sem pecado ~Calvin Harris (feat Disciples) – How deep is your love~

Eu jamais senti algum tipo de conexão com alguém assim antes. É estranho dizer que me sinto tão confortável ao lado dela depois de poucas horas. A conversa fluía afetuosamente. Era como se a conhecesse há tempos... Como se fôssemos melhores amigos. Tê-la ao meu lado era como mergulhar em um furacão de emoções, que me dominavam de forma que eu não conseguia pegar o controle de volta. Tentei por muitas vezes não me entregar de cara, mas quando ela dizia as palavras com certa dificuldade, com seu sotaque carregado, meu coração deslizava, sambava alvoroçado no peito. Tentava me segurar, não deixar o sorriso tão frouxo – mesmo parecendo impossível ao ouvi-la dizer o meu nome. O que estava acontecendo comigo? Já havia passado por coisas muito ruins no passado... Já havia perdido alguém... Havia prometido a mim mesmo abrir o coração quando estivesse pronto. Será que já estava? Não me imaginava sentindo esse entusiasmo, a chama e a conquista novamente tão cedo... Mas o encanto, a doçura e delicadeza dela... Ah, isso me fazia suspirar. Quando Jaqueline morreu, tranquei-me por longos dias sombrios. Não conseguia seguir adiante. Mal conseguia pensar, só era capaz de abraçar a minha dor, vivenciar a perda. Passei infindáveis dias questionando o motivo de tudo, resistindo e combatendo o mal que a morte me causara... Fiquei com diversas mulheres aleatórias, matando os desejos e despertando as curiosidades, mas foi só depois de três anos, onde somente escrevi e vivi as minhas histórias, que encontrei Carla. Que não foi nada perto do que tinha sentido por Jaque, e muito menos do que imagino que irei viver com Charlotte. E é essa ilusão que dá mais medo. Prova disso, é que o seu nome, tão delicado, era como ela. Charlotte Sophie: elegante, sonoro, quase um doce raro ao ser pronunciado pelos lábios. Podia ter me enchido de artifícios ou defesas, mas vê-la ali, a minha frente, dizendo as mais inocentes travessuras e me mostrando uma confiança inabalável em mim, fazia minha alma se expor, fazendo com que eu me apresentasse vulnerável aos seus encantos. Nossa sintonia era impressionante, analisando pelas horas em que nos conhecíamos. Meu pensamento ia além, já que não conseguiria, nem se quisesse, fazer algo que a decepcionasse ou a magoasse. Sinto que aconteceu algo mágico e enigmático com a gente. Nem nos livros a minha imaginação havia criado algo tão fantástico. Depois de escrever, ou mesmo ouvir tantas histórias sobre relacionamentos fracassados, eu me


deixei levar. Não me sabotando, mas também não criando expectativas. Ocasionalmente eu vivia sem pressa, não querendo um afeto forçado, que não poderia ter um futuro. Esqueci essa parte de viver apegando-me as pessoas e decidi apenas sentir a ternura no escrever. Seria muito mais fácil não iludir alguém com as mentiras contadas nas histórias que eu construía. Acreditei ser bom e honesto do meu jeito, fazendo por merecer e dando o melhor de mim. Só que o destino é traiçoeiro... e me enganou direitinho ao dar-me uma rasteira... Olhando para essa moça em minha frente, eu mergulho em expectativas, poderia até fantasiar um futuro extraordinário e tão certo ao lado dela, que parece até mentira, de tão bom. Eu quero ser o amigo dela, seu confidente, parte da sua história. – Você não tem parentes aqui? – resolvi quebrar um instante de silêncio que ficou entre nós e nossos pensamentos. – Não, ficaram todos em Londres – seus olhos foram além de mim, como se pensasse no que me responder. – Então, por que o Brasil?

– Meu pai é brasileiro – disse, sorrindo, com os olhos brilhando de orgulho. – Nossa, que interessante. Foi o que te motivou a vir para cá? – Não aguentava a vida regrada e perfeitinha que me era imposta. Eu preciso de mais e estou constantemente em busca disso, do novo, de me sentir viva. – Para algumas pessoas, ter a vida perfeita seria o ideal. Que bom que você decidiu buscar coisas novas, vindo para cá. – Convido essas pessoas a irem viver na monarquia em meu lugar, cercada por futuros reis, rainhas, príncipes e princesas e outros títulos que não servem para mais nada a não ser enfeitar o seu nome. Eu cansei de toda aquela pompa. Não queria ser forçada a me casar com algum pavão, proibida de amar. Decidi fazer as minhas próprias escolhas. – Não vai me dizer que é uma princesa de Cambridge?! – arregalei tantos os olhos que ela sorriu, de modo engraçado. – Não, mas terei um título, herdado da minha vó, passado de geração a geração. Meu avô foi um fiel Ministro, com um título oferecido pela própria rainha Elizabeth. Então... – Uau!

– Pois é, por isso o fato de eu viver aqui é uma eterna briga com a minha família, já que não exerço a minha função diante do governo britânico... Mas chega de pensar nisso agora. – Conhecer Londres era o meu sonho – confessei, ainda impressionado pela naturalidade com que ela falava sobre sua linhagem. – Por que era? Quem sabe um dia não vamos juntos? Seria incrível te apresentar a minha cidade – ela se empolgou, de uma forma especial. Meu coração sambou com aquela reação. – É complicado, mas quem sabe... – meu peito chegou a doer com esse impedimento.

– É um lugar maravilhoso! – acho que ela tentava me convencer.


– Não duvido nem por um segundo de que seja inspirador... Assim como você... – engoli a seco essas três palavras. – Um dia, se quiser, posso te contar as minhas aventuras no castelo e tudo mais.

– Adoraria ouvir cada uma delas. – Ótimo – ela bebericou sua água com gás e limão, que pediu depois de derrubar o chá. Resolvi nesse instante mudar de assunto, como ela mesmo sugeriu. – O que significa esse girassol? – perguntei, encarando-a. Ela levou delicadamente a mão esquerda na tatuagem em seu pescoço, em um gesto sutil. – Eu só gosto da flor – um brilho intenso iluminou seus olhos. Senti que tinha mais coisa ali. Entretanto, ela preferiu não dizer, dando mais sabor a curiosidade. – Eu gostei de você – confessei, sem desgrudar meus olhos dos dela. E por muitos segundos permanecemos assim, conectados e sorrindo um ao outro. – Posso dizer o mesmo...

– Ótimo – e ficamos na troca de olhares, enquanto ela deslizava a mão na pequena tatuagem, como se ao tocar nela recordasse de um momento feliz. – O que tem nessa correntinha? – apontei para o acessório dourado em seu pescoço. – É o anjo Gabriel – sua voz saiu muito baixa e emocionada.

– Jura? – eu também fiquei espantado. – Sério. Eu ganhei do meu pai, para minha proteção. – Lembre-se que eu sou Gabriel. Além de muito

protetor, eu também tenho asas – falei sorrindo, mas com a seriedade nos olhos. Aquilo era muito sério. – Sei... – ela gargalhou, e eu quase me apaixonei.

– Juro para você! Qualquer hora eu te deixo vê-las – pisquei, convicto. – Minha abençoada mãe também confiava no poder dos anjos e acreditava que eu tinha vindo para algo maior. Que fui sua benção. Eu era o seu protetor, por isso o meu nome, Gabriel. – Que emocionante. Ela deve estar certíssima.

– Ela não está mais entre a gente, mas nos deixou ainda acreditando nisso. Sou muito fiel aos meus princípios, na crença que carrego dentro do coração. Viver acreditando em algo superior é o que me motiva a seguir, apesar de tudo, aceitando os dias e a vida que me foi dada. Eu sou uma pessoa de muita fé em Deus, e minha mãe deixou isso cravado em meu coração. – Sinto muito pela sua perda, sei como é... – ela disse, perdendo-se em pensamentos por um momento. – Tudo bem, ainda dói sua perda, mas ela está muito melhor agora.

– Eu gostaria de ver suas asas, Gabriel – ela mudou de assunto e me encarou, com uma nova disposição nos olhos. Seu tom de voz saiu tão sensual quanto angelical. Estremeci com todas as


possibilidades. – Você aceitaria?

– Por que não? – Não sei, oras. Mas eu juro que sou do bem – juntei as mãos como se fizesse uma oração, prometendo-lhe uma fidelidade inabalável. Ela sorriu com os olhos. – Sei que é. Nenhum momento você deu em cima de mim, e acabou se tornando especial por isso. Confio em seu coração bondoso. – Obrigado pela boa fé. Eu realmente não sou um cara que fica perturbando mulheres.

– Está tentando me impressionar agora? – levantou uma sobrancelha em desafio. – Não. Você só está acostumada com homens ogros que acham que tem o direito de dar em cima de qualquer coisa que se mova, eu não sou assim – respondi, sincero. – Por que é diferente? – ela realmente parecia impressionada.

Já quebrei muito a minha cara. Acontece que eu admiro o sexo feminino e o respeito na mesma proporção. – Isso é muito sensível de sua parte – o sorriso que ela abriu mostrava que era a curva mais bela e delicada de seu corpo. Eu me vi perdido naquela raridade... – Adoro esse seu sorriso. E fico contente em saber que minhas palavras, que são honestas, causam esse efeito em você. Seus lábios se abriram ainda mais. Ela parecia feliz. Arfei, admirado com tamanha beleza! Novamente a sensação de bem-estar me invadiu, e só conseguia pensar numa coisa: era ela. Aquela mulher iria salvar, ou destruir, o meu coração.


Charlotte Estou tão a fim de você Que eu mal posso respirar E tudo que eu quero fazer É me jogar com tudo. ~Ariana Grande – Into you~

Eu não conseguia parar de sorrir, desde o momento em que nos despedimos do café. Sentia-me tranquila em relação a ele. Confiante de uma forma que jamais senti com outro homem. Poderia soar como clichê barato, mas essa realidade somente eu convivia dia após dia em meu coração receoso. Depois daquele encontro, não deixamos de conversar sequer uma noite. Trocávamos mensagens até cairmos no sono. Gabriel me mostrava um novo lado da vida que eu desconhecia. Parece que com ele a minha vida seguiria normalmente, calma e livre como deveria ser. Era um lindo começo de amizade, mas não podia negar, o desejo estava aflorando, a química entre nós parecia prestes a explodir em qualquer momento. E eu não sabia como reagir àquilo... Entendo perfeitamente o que ele vem fazendo ao me conquistar devagar, mostrando-se cavalheiro. Mas sempre, antes de nos despedirmos, as mensagens ficavam carregadas de desejos, onde não conseguíamos disfarçar a sensualidade implícita nas palavras. Mesmo assim, talvez por medo de nos precipitarmos, deixávamos as vontades de lado, adormecidas. E no quarto, sozinha, só me restava dormir e suspirar por mais um dia.

Acordei assustada. O barulho do celular na mesinha ao lado me fez sobressaltar. Sentei na cama meio desnorteada, e o barulho ainda permanecia. Levei os dedos trêmulos até o aparelho. E ao focar os olhos na tela, vi quem era. Droga! – Alô? – falei sem emoção alguma.

Feliz aniversário, Charlotte Sophie – vovó disse, com sua voz nada animadamente formal de sempre. Se é para fazer dessa forma, por que simplesmente não deixa de ligar? Deveria poupar o seu tempo, e o meu, é claro. – Olá, Lady Shelly. Obrigada – tombei meu corpo de volta na cama de qualquer jeito, já que essa ligação iria demorar mais que o previsto. Fitei o relógio na parede e desacreditei. – Sabe, sinto tanta falta de Cat aqui... A sua também, óbvio. Acho que deveria voltar. Mentalmente eu


preparei o baile de vocês há anos... Na verdade, o de todos os anos. Aos vinte, debutando, para se casar no ano seguinte. Esta é uma data que me deixa emotiva – diante do meu silêncio, ela comentou: – Você está bem? – oh, que bom que ela se lembrou que não é um monólogo! – Sim, estou ótima. Obrigada – resmunguei. – Vovó, a senhora me acordou. São seis horas da manhã! – falei mais ríspida, mesmo não querendo. Mas acordar com tudo aquilo não me deixava bem. – Oh, desculpa, por conta dos horários não me lembrei – falou, fingida. – A Christine debutou o mês passado e mandou lembranças à você... – quase vomitei. – O casamento dela está marcado, você deveria vir! – senti uma ordem nessa frase. Ignorei. – Não mesmo. É ainda com o Garibaldo? – sorri no final. Ela odiava que eu o chamasse daquela forma. Ouvi ela fazer um muxoxo antes de me acusar. – Sua irmã nunca seria tão maldosa... Meu coração disparou por um momento. Eu odiava que ainda ela pudesse fazer isso, me controlar dessa forma, através das lembranças mais dolorosas. Ela não deveria fazer isso, mas é da natureza dela deixar as feridas sempre expostas. Lady Shelly carrega um ódio intenso escondido dentro de seu coração negro. Talvez seja por nunca conseguir ultrapassar os meus limites, pela minha recusa à sua submissão. Eu nunca faria sua vontade. – Preciso desligar – falei, já desperta.

– Estou doente – jogou a frase para tentar quebrar qualquer resistência de minha parte. – Vai passar – limpei a garganta. – Você é uma mulher forte, superará isso. Adeus, lady Shelly – desliguei antes que ela começasse um novo ataque.

Depois do banho, fiquei de toalha na frente do imenso espelho do quarto. Mapeei o meu rosto, verificando se já havia alguma ruga e sorri; tudo ainda estava em perfeito estado. O rosto como uma porcelana. Como será que Cat estaria? Meu peito se apertou, mas contive a dor e me sentei na cama. A frase da minha avó ribombava em minha cabeça. Ela nunca se importaria comigo, com a minha dor. E só para lembrar disso, ela fazia questão de estragar o meu único dia especial. Foi sempre assim. Algumas vezes eu tinha esperanças de que ela não faria alguma maldade... Mas sempre me enganava com sua voz mansa e perigosa. Ela estava doente. Não me importei com seu último comentário e decidi esquecê-la. Iria passar meu dia sozinha, da forma que sempre passei nos últimos seis anos. Apesar de agora ter pessoas importantes em minha vida. Não avisei nada ao Gabriel ontem ao me despedir. Talvez ele sentisse como uma espécie de


cobrança, sei lá. Ele tem a vida dele... Ainda mais que é um final de semana. Minha vizinha e amiga, a Marcela, não estava em casa. Tinha viajado para ver o namorado que morava em Campinas. Em todos esses anos ela sempre aparecia logo cedo, deixando algum doce e livros de presente. Mas dessa vez havia feito no dia anterior. Para não passar em branco, decidi fazer um jantar caprichado, com algumas coisas que adorava. Depois comeria os cupcakes, preparados carinhosamente por Marcela. Estava um sábado tão lindo, nada de muito calor ou frio. Apenas ameno. E eu teria o final de semana para botar muitas leituras em dia e voltar a mexer em duas preciosidades que trouxe comigo na viagem que fiz há dois anos quando voltei a visitar minha família em Londres. Eram dois diários preciosos, escrito pela prima do meu avô, da qual ele nem chegou a conhecer! Seus antepassados diziam que ela era uma pessoa extremamente apaixonante, caridosa e especial. Adorava ajudar as pessoas e compartilhar suas sabedorias. Pena que não tive o prazer de conhecêla, já que faleceu há muitos, muitos anos atrás, e é essa parte da história que eu quero estudar um pouco mais. Agora era apenas curtir e ler muito, e tentar decifrar os mistérios que carregavam as páginas escritas pelas letras singelas da duquesa Izobel Scarlett Balvenie Connor. Como todos os dias, me levantei cedo e preparei uma boa xícara de chá. Ao mesmo tempo em que amava estar sozinha, deixando as coisas acontecerem de acordo com os meus desejos, eu me sentia vazia. Ainda mais hoje, quando a dor da saudade atacava meu coração. A rotina tornava-se necessária para eu esquecer e seguir adiante. Quando estava em Londres, não me permitia mostrar a fragilidade para que não ousassem abusar de mim. Era uma menina forte e decidida. Mas quando me vi sozinha, aqui, em um lugar desconhecido, tudo desabou. Mostrando como sou frágil e humana. Talvez seja por isso que não me importo em ter comemorações, não gosto de estar vulnerável, demonstrar felicidade, mesmo que ínfima. Parece que, se eu comemorar, lady Shelly aparecerá a qualquer instante para me atacar, me acusar de, se fosse a minha irmã que estivesse ali, viva, não estaria fazendo isso, ou aquilo... Ela daria algum jeito de me despedaçar, para que tivesse o controle sobre mim. Eu jamais poderia desmoronar na frente dela... Voltei para o meu pequeno mundo florido, fitando a natureza em meu jardim, trazendo conforto ao coração que nessa data ficava instável. Puxei para a varanda a cadeira confortável de vime e arrastei a pequena mesinha de madeira escura. Depositei o pote com bolachinhas, que Marcela deixara junto com os cupcakes, e minha xícara gigante rosa. Antes de me sentar, apertei um pouco mais o robe rosa com bolinhas amarelas – isso arrancou um sorriso imenso dos meus lábios pela lembrança de Gabriel dizer que tinha um desse. Como ele poderia ter chutado tão perfeitamente bem sobre esse fato? Ele é demais. Para me distrair e parar de pensar nele, peguei o livro que começaria a ler. Foi um presente da dona Vitinha, que fez questão de comprar a versão em inglês, apesar de ela não ler muita coisa dessa modernidade – palavras dela – me disse que iria adorar esse livro, já que foi adaptado para filme. Eu tinha visto algo sobre isso, mas ainda não assisti. Preferi conferir o livro antes para depois me aventurar nas cenas vistas pelos olhos de outras pessoas. Gosto de criar meu próprio universo com os livros, entrar em conexão com os personagens, para depois, se houver


adaptações não, me decepcionar. Eu sempre preferiria os livros. Sempre. Em todos os meus aniversários, desde de pequenina, eu escolhia ter um dia inteiro para ler. Me aventurar nas palavras e deixar esse mundo tão perfeito me engolir. Quando estava no castelo, vivendo com minha família, minha avó era mais rigorosa. Mesmo assim, eu conseguia minhas horas enfiadas em bons livros. Mas aqui a leitura é livre! E cada livro que li nesta data tornou-se inesquecível... Nesse exato momento eu adoraria ler algo do Gabriel, por exemplo... Balancei a cabeça, enquanto tomava um bom gole de chá de baunilha. Já estava pensando nele novamente. Deixei o sabor invadir meus sentidos e esquentar a garganta. Encolhi as pernas na cadeira e alisei a capa do livro, com a foto de um casal maravilhoso. Pelo pouco que li da sinopse, acho que terei de ler com uma caixa de lencinhos. Ah, mais o romance em si, é tudo que mais apreciava. Entretanto, pelo que pude perceber, iria encontrar ali não apenas um romance, mas um drama, e dos bons. Me before you que todos conhecem: Como eu era antes de você. Um ótimo título e tenho certeza de que o conteúdo será ainda melhor. Depois de duas horas e meia, sentindo a minha barriga gritando por comida, me levantei a contragosto já que a história havia me fisgado. Precisava comer alguma coisa para me manter bem e ler até o final do dia. Iria aproveitar que tinha de ir ao Mercadão para comprar as coisas do jantar e comer alguma coisa bem gostosa por lá mesmo. Depois iria atrás da lista de compras.

Já passava do meio-dia quando cheguei no Mercadão. O lugar estava abarrotado de turistas passeando, curiosos com o lugar, as frutas exóticas e as deliciosas comidas que o lugar oferecia. Confesso que aqui foi um dos primeiros lugares que vim também, claro, com exceção da biblioteca. Como morava perto, cheguei de carro rapidinho. Ia para lá pelo menos uma vez por semana, para as compras semanais. Como moro sozinha, adorava comprar coisas fresquinhas, na quantidade certa para não estragar. Então nunca enchia a geladeira e armários com diversas coisas que só jogaria fora mais para frente. Era sempre o essencial. Hoje não tinha um cardápio especial. Já tinha uma base do que fazer, mas adorava arriscar coisas novas e me permitiria isso. Peguei no banco de trás a bolsa grande para colocar as compras. Coloquei os óculos e saí, ajeitando a saia longa. Passei por trás dos carros até chegar a porta dos fundos do Mercadão. Andei mais um tanto e o cheiro das frutas e legumes invadiram o meu olfato. Fechei brevemente os olhos, curtindo o cheiro já tão conhecido. Aquilo já fazia parte de mim. Era tão natural, como se tivesse crescido ali. Parei na primeira banca e peguei uma bandejinha de uvas verdes. Mais para frente, pesquei uma caixinha de lichia. O que eu adorava com a chegada de final do ano era como as melhores frutas davam as caras. Para a sobremesa estava bom, não queria abusar muito, talvez um sorvete e nada mais. Agora vamos para os legumes e... – Estou achando esses nossos encontros sem combinar uma delícia – ouvi alguém falar atrás de


mim, assim que parei para escolher o meu almoço. – Minha nossa! – eu tinha reconhecido o timbre daquela voz, mesmo que fosse há metros de distância. – Que coincidência.

– Pensei que diria que eu estava te seguindo, mas juro que não! Só vim comprar coisas para um cara solteiro, que mora sozinho e precisa se alimentar de coisas saudáveis – seu riso me fez ficar corada, o porque eu não entendi. – Ah, eu posso dizer o mesmo! – tirei os óculos, e o fitei melhor. Aquele olhar único e devastador. Deixou-me com um pouco de falta de ar, confesso. – Precisa de ajuda com a sacola? – acho que viu minha cara desesperada... Mal sabia que não era pelo peso, mas sim pela proximidade dele. – Está tranquilo, por enquanto. E aí, o que vai comprar? Posso ajudar?

– Hmm, acho que vou adorar saber o seu gosto. E claro, pode me ajudar sem dúvida. Ele queria saber o meu gosto... Ai, Char, não leve isso para o outro lado! – Por enquanto só peguei fruta, mas estava prestes a escolher os legumes. É que hoje farei... Bem, ainda não sei o que farei, mas pretendo... Por que eu gaguejava tanto ao falar com ele? Que ódio! Gabriel me fitava com tanta profundidade e diversão que fiquei sem jeito. – É meu aniversário hoje... – confessei, por fim. – E não sei o que fazer, eu acho, talvez.

Ai, meu Deus! Jura? Feliz aniversário, lady Charlotte Sophie! – falou todo prestativo e brincalhão. Corei mais uma vez. Porém, não foi nada comparado ao que senti quando ele me abraçou do nada. Enlaçando seus braços confortáveis ao meu redor. E descobri que ali era o melhor lugar do mundo. Gabriel tinha cheiro de homem, apimentado e quase vulgar de tão gostoso. Sua pele confortável me transportava a outros patamares, passando do calor aos arrepios. Ah, e aquela barba roçou em meus ombros, depois pescoço, fazendo um festival em meu estômago. Era aniversário das borboletinhas e elas ganhavam presentes! – Obrigada... – eu não tinha voz, foi apenas um derretimento em palavras.

De nada! Por que não avisou antes? Teríamos feito algo bem bacana e não apenas nos encontrado do nada no Mercadão. Você mencionou que tem um jantar... Desculpa a intromissão, mas será sozinha ou já tem planos? – um vermelho me atingiu a face. Ele viu como engoli a saliva, nervosa. – Não... eu não tenho planos. Iria jantar sozinha... pode soar triste, mas estou acostumada, sério – disse, apenas para que não ficasse com dó de mim. – Ah, que pena, pensei que fôssemos amigos e que estávamos nos dando superbem. Acho que me enganei – falou, com a mão esquerda no queixo. – Não está enganado. Somos bons amigos, só não queria comentar. Sei lá, você tem suas coisas. Não quero atrapalhar seu dia.


– Ok, posso começar por pagar um lanche bem ali, que tal? Daí mais tarde podemos ver o que faremos? Eu cozinho muito bem, modéstia parte, e tenho um paraíso particular. Ou podemos ir em algum restaurante. O que você quiser. Hoje eu posso ser seu! – assim que ele disse essas palavras, talvez, só talvez tenha tido alguma segunda intenção. Eu sorri. Adorava essa empolgação dele. – Adorei a ideia, de tudo na verdade – ele sorriu afetuoso. – Só não podemos ali... – apontei para onde ele havia convidado. – Por que não? Como pode vir ao Mercadão e não comer o melhor lanche de mortadela? – ele realmente parecia chocado. – Sou vegetariana – falei simplesmente e parecia que eu o tinha xingado. Gabriel ficou pasmo. E eu comecei a rir muito alto. Seus olhos gentis capturaram essa façanha e meu coração bateu ligeiro. Confortável em ter a presença dele mais uma vez quando eu mais precisava. Hoje eu precisava de Gabriel, mas será que era abusar demais? Não queria usá-lo para tirar minhas dores. Entretanto, me entregar a esse dia diferente parecia tão certo. – Ok, lady. Fiquei sabendo que ali atrás serve uns matinhos deliciosos. Topa? – brincou, roubando mais uma vez o meu riso, fazendo as dúvidas crescerem dentro do peito. Eu merecia a companhia dele? – Você é tão bobo! – soquei seu imenso ombro. Ele segurou a única mão livre, e levou aos lábios. Depositou um beijo carinhoso, ainda fitando profundamente os meus olhos. Uma força mágica nos atraia intensamente. Eu queria tudo com ele. Estar ao lado dele, sorrir das suas besteiras, ouvir coisas interessantes, me perder em seus olhos hipnotizantes... Me entregar aos beijos... Contar-lhe as minhas dores... Mas será que devo? Ele assistiu essa dúvida em meus olhos, chamando a minha atenção de volta. – Eu não havia dito isso ainda?! – mordeu, provocador, a pontinha da boca. E aquele sorriso... nossa! – Não... – ronronei, com suas mãos ainda segurando a minha. Tão perto... Deu medo de ele sentir meu coração batendo muito rápido. – Peço desculpas, lady... – aquele tom de voz enlouquecedor. Ele sabe provocar. – Agora, se me der a honra, tenho um aniversário para programar, aceitaria meus palpites? – Faça o seu melhor – aceitaria qualquer coisa que viesse dele. Segurei mais uma vez a respiração, já que ele se aproximou. – Eu sempre faço. Eu não tinha dúvidas. Entreguei-me ali mesmo, à sua vontade. E que ela fosse feita.


Gabriel Eu fico na vontade, na vontade Você não sabe, mas é verdade Não consigo fazer minha boca dizer as palavras Que quero dizer a você ~Shawn Mendes – Imagination~

– Parabéns para você! – gritei mais uma vez com o peito preenchido de carinho. Tínhamos feito um passeio e tanto. Depois da deliciosa tarde regada à diversão e risadas, fomos para a minha casa e, para estender um pouco mais os momentos maravilhosos que estava tendo ao lado dela, me dispus a preparar algo para comermos. Charlotte conheceria o meu lar, o meu lugar secreto. Se eu pudesse, a levaria ao paraíso... Juro que eu não estava com intenção alguma com ela, só queria ser o cavalheiro e o bom moço que ela enxergou em mim desde o início. Assumo que estar ao seu lado mexia comigo, com o corpo entusiasmado e mente inquieta. Mas, apesar de fantasiar mil loucuras que poderíamos cometer juntos, sentia que deveria manter-me longe. Alimentando apenas ao meu lado sentimental. Tinha receio de que trocar beijos saborosos ou mesmo sexo poderia acabar com algo bacana que estávamos construindo. E eu não podia me dar esse luxo. Assim que entramos, lhe apresentei Madruguinha. O danado veio pulando, todo animado, logo se aconchegando perto dela, tomando a sua atenção. A conexão dos dois foi tão bonita que nem parecia a primeira vez que se viam. Fitei-os e me encantei com ela se derretendo diante dele. Puxei assunto assim que seus olhos brincalhões me fitaram, rendida. – Você sabia que hoje é o dia do Livro Nacional? Muita coincidência, não acha? – falei indo para a cozinha, enquanto ela ficou na sala mimando o Madruguinha. – Sim, eu sabia. Dona Vitinha me contou assim que comecei na biblioteca. Achei o máximo – ela respondeu e gargalhou em seguida. Provavelmente, com alguma traquinice do meu cachorro manhoso. Fui até o batente que dividia a sala e a cozinha e vi os dois praticamente no chão. Charlotte, de joelhos, estava agarrada ao imenso corpo do meu cachorro, que já estava apaixonado por ela. Se fosse só ele... – Não acredito que é praticamente meu vizinho e que tem um cachorro enorme com o nome de Madruguinha?! – ela debochou, rindo. – Pois é, as coisas um dia se encontram. O destino às vezes não é filho da puta e faz essas loucuras – pisquei, encostado no batente, enquanto ela concordava. – E esse malandro tinha cara de Madruguinha quando o ganhei. Sempre quis ter um cachorro, e quando o ganhei não pensei em


outro nome, até ele crescer e ficar esse bobão incrível que eu amo. – É encantador o seu lar – ela comentou, com os olhos brilhantes. Eu estava muito nervoso com a presença dela ali. Ela não era mais um sonho. Havia se tornado algo real. – Desculpa, eu estou um pouco nervoso com você aqui e... – ela não me deixou completar.

– Gabriel, fica tranquilo. Eu confio em você. Senão nem estaria aqui, certo? Portanto, relaxa e vamos aproveitar este momento. – Sim, certo... – dei um suspiro involuntário. – Isso é bom de ouvir. Agora, se quiser ligar a televisão, ou me esperar aqui mesmo, só vou preparar uns petiscos para a gente subir... – Subir? – ela me perguntou, com um brilho no olhar. Rapidamente fiquei vermelho.

Tenho um lugar para te mostrar. Com as melhores intenções, é claro – dei uma risada nervosa, antes de ficarmos em silêncio. – Se não se importa, posso ficar com você? – ela me perguntou, mordendo os lábios. Essa questão poderia significar tantas coisas que minha cabeça deu um giro ligeiro de 360 graus. Precisava me acalmar. Ela só queria estar ao meu lado, na cozinha, era isso. E eu deveria dizer algo. – Sempre, vem – estendi as mãos, e ela as tocou. Caminhamos assim até chegar a pequena cozinha organizadíssima. Característica de um virginiano de carteirinha. – Nem minha cozinha é tão organizada assim. E nem tão limpa! – ela confidenciou ao entrar.

É o mínimo que posso fazer. Bem, vou preparar alguma coisa leve, já que comemos um caprichado hot dog vegano. Que tal rodelas de berinjela grelhada com molho e bastante salsinha? Tenho também cerveja, se você beber. – Muito atencioso de sua parte. Adoro ver as pessoas cozinhando, sabia? Vou te acompanhar numa cerveja se é assim que deseja. – Eu me encanto quando fala, sabia? Sempre tão formal. Não te ensinaram gírias? – perguntei, brincalhão, enquanto pegava tudo na geladeira e depositava na pia. – Mano do céu, me ensinaram sim! – ela respondeu, tentando não cair na risada. – Mas tá ligado, cara, não acho que ficaria tão minha praia dizer isso, meu! – brincou, toda espalhafatosa. Comecei a gargalhar alto. – Realmente não parece com você. Por favor, volte e esqueça todas as malditas gírias!

– Feito. Seu desejo é uma ordem! – lambeu discretamente os lábios. Aquilo me fez perder a linha. Pisquei, tentando esquecer, me controlando no mesmo lugar. Tentando manter o psicológico livre de pensamentos insanos. Como, por exemplo, agarrar aquela cintura e beijar aquela boca que a sua língua havia acabado de lamber. Saí do surto e voltei aos afazeres. Preparei um prato de legumes, leve e saboroso. Enquanto isso, Charlotte apenas ria de como eu era todo cuidadoso ao cortar e temperar tudo. Em troca, tirei sarro dela, que nem ao menos conhecia direito os nomes dos temperos, mesmo mencionando diversas vezes que tinha uma melhor amiga que cozinhava.


– Acho que Madruguinha adorou você – mencionei, assim que vi o danado se deitar aos pés dela, na maior intimidade. – Eu também o adorei. Ele é tão fofo! – ela se agachou e enroscou os dedos pequeninos nos pelos dele. Como se quisesse me provocar ciúmes, ele me olhava de lado, todo convencido. – Madruguinha é um sem-vergonha, isso sim – ao me ouvir se queixar dele, fez um silvo baixo, reclamando. – É isso mesmo! – se ele pudesse dar de ombros, tenho certeza de que teria feito.

– Você é apaixonante, né amigão? – ela comentou, coçando a barriga dele. – Não dá trela, Charlotte. Assim ele não te largará nunca mais! – Assim espero. Ao ouvir aquilo, algo pareceu me tirar o chão. Madruguinha notou e levantou rapidamente, vindo em minha direção, roçando seu focinho em minha coxa. Como se quisesse me perguntar se eu estava bem. – Estou bem – acariciei a sua cabeça. – Faça seu charme, garanhão.

– Vocês são uma bela dupla. Vejo a cumplicidade nos olhos dos dois. – Ele me conhece há muito tempo. Sabe das coisas... – pisquei. Tentando conter a voz trêmula, peguei o prato recheado com fatias de berinjela. O cheiro estava ótimo. – Vamos a um lugar para ver as estrelas? – convidei-a. Ela, meio insegura, mesmo não querendo mostrar, aceitou. Apontei para a escada em caracol. Ela apertou as mãos uma na outra, o receio ainda a dominando. Entendi perfeitamente a sua posição e tentei acalmá-la. – É só uma laje decorada, já adianto para ficar mais calma – pisquei e fui na frente. Ela me seguiu sem dizer nada. Cheguei primeiro ao espaço. Puxei uma cadeira mais para o lado, justamente para não ficar muito próximo. Coloquei a minha mais atrás, puxando também a mesinha para colocar os pratos e as bebidas. – Uau! – ela disse, extasiada. – Que lugar inacreditável! – ouvir aquilo fez o meu coração saltar, alegre. – Obrigado. É simples, mas é o meu espaço, sabe. O meu lugar favorito no mundo.

– Queria ter um lugar assim. É de dar inveja, desculpa! – falou, de forma sincera. – Depositei todo meu amor aqui. Deve ser por isso que sentiu tanta energia boa. – As estrelas... – Charlotte fitou o céu aberto, acima de nós, com os olhos emocionados. – A lua minguante! Que delicadeza em vê-la... – seus olhos brilharam tanto, era como se o mar e o céu estivessem juntos, em um baile mágico. – Obrigada por esse presente, meu caro. Eu sinto o seu amor em cada parte desse lugar, em tudo. Parabéns! – assenti, emocionado ao vê-la completamente fascinada por algo que muitas pessoas julgavam como trivial. Charlotte enxergava o meu mundo recheado de cores, encantada pelos mínimos detalhes. Como uma criança que descobre o mundo e é cativada pela simples emoção do novo.


Ela completa tão incrivelmente bem esse lugar... Esse pensamento tomou o meu coração. Depositei as coisas que ela gentilmente me ajudou a trazer. Apontei o banco estofado para se sentar. Fiz o mesmo no meu. – Quantos anos está fazendo? – ela fez uma leve careta diante daquela indagação. – Sou intruso em todos os sentidos, não é? – desculpei-me e ela sorriu, destruindo a minha estabilidade. – Claro que não! – riu alto e bebericou a cerveja. – Vinte e cinco. Não ligo para idade. Se eu tivesse em Londres, isso importaria e muito. Nessa idade já estaria casada – revirou os olhos. Eu quase engasguei. – Jura? Sua vida era tão regrada assim? Ainda existe casamento arranjado? – questionei curioso, enquanto começávamos a comer, ela saboreando tudo com vontade. – Isso está delicioso – lambeu até os dedinhos antes de continuar o assunto. – Ah, pode ter certeza. Fui prometida quando tinha quinze anos, fiquei noiva aos dezoito e iria me casar aos vinte e um – falou, relembrando daquele fato com desgosto. – E o que aconteceu?

– Fui dispensada por um príncipe num baile de máscaras no castelo – resmungou com desdém. – Príncipe? Castelo? Não diga? – brinquei, arregalando os olhos. – Pois é! – concordou, revirando os seus olhos azuis. – Eu não o queria, e adorei quando enfim terminou o noivado. Pena que foi na frente de todo mundo, o que acabou me desonrando. Não que tenha de fato feito isso, mas pareceu aos olhos de todos que sim. Por isso eu mandei todo mundo ir tomar no cu e vim para o Brasil. – Ai, cacete, daria tudo para ver isso! – engasguei antes de falar, gargalhando. Imaginando a cena... – Foi quase assim – ela se levantou e ficou de frente, se curvou um pouco, como se cumprimentasse uma plateia invisível e disse, alegre. cus! – nós dois não nos contemos e rimos muito. – Meu, você é muito louca!

– Vão todos tomarem nos vossos referidos

– Rebelde, dizia a vovó. Sabe, eu chamava aquele meu noivo amarelado de Garibaldo! E ainda cantava a musiquinha que meu pai tinha ensinado. Fui muito insana ao sair assim, mas valeu muito a pena. Não me arrependo de nada. – Imagino que sim. Concordamos e um silêncio genuíno se instalou. Fitamos o céu estrelado mais uma vez enquanto comíamos. Ela mexeu na pequena bolsa tiracolo e puxou o seu celular. – Gosto do silêncio para manter os pensamentos em ordens, mas o momento pede música. Posso? – assenti, sem dizer nada. Juntei todas as coisas e deixei-as no canto. Ela fuçava no aparelho e foi aí que vi meu caderno de anotações, ali, jogado. Queria poder sentar ao seu lado, sem dizer nada e escrever milhares de palavras. Meu peito ardia por essa emoção, minha cabeça fervilhava de ideias, e minha boca... ah, ela queria dizer tanta insensatez...


– Aprendi a gostar de músicas brasileiras depois que comecei a compreendê-las. Minha amiga tem gostos diferentes. Uma hora ela escuta coisas românticas, outras ela ouve, como ela mesma contou, músicas de sofrência. Bem, resumidamente, eu acho que deve ser música que nos faz sofrer, ou letras sofridas, não sei bem o que se encaixa, mas é engraçado como aprendemos rápido a cantar esse tipo de música. Ela gosta de sertanejo, você gosta? – sua cara foi engraçada, pois deduziu que não, já que também na minha face surgiu uma leve careta. – Hmm, na verdade não escuto esse tipo de música. Mas se quiser colocar, mostre o que está ouvindo, sem problemas. Depois posso te dar umas dicas minhas. – De acordo. Ela foi visitar o namorado, então quando voltar escutará só coisas sobre saudade. E quando brigam pela distância, ela decide pelas “sofrências”. – Coitada! – brinquei pelo péssimo gosto. – Pois é, mas ela me apresentou essa moça logo que cheguei. Gosto de algumas canções dela. Conhece a Sandy? – fiz que sim. – Adorei as letras e a voz dela é sensacional.

– Você que é sensacional! – elogiei sem pensar e ela ficou em silêncio depois do que eu disse. Não me arrependi, e se precisasse falar todas as vezes para que ela não esquecesse, eu falaria. Não poderia negar que algo crescia entre a gente. E não era desconforto, de forma alguma. – Posso tirar uma foto sua? – saiu da minha boca, sem filtro algum.

– Quer mesmo? – seu olhar sincero era uma liberação, mas decidi acatar suas dúvidas. – Sim, para registrar esse primeiro encontro e o dia do seu aniversário. O primeiro com um estranho. – Um estranho misteriosamente familiar. Tem momentos que pareço conhecê-lo. Isso é inexplicável – seus olhos estavam carregados de verdades. – Eu sinto o mesmo. Preciso me lembrar, mas sei que já habitava meus sonhos... Ainda não entendo o motivo, o destino é quem resolve. – Pode registrar esse momento. Sem pensar muito, puxei o celular e tirei apenas uma foto. Uma única foto que ficaria para sempre em meu coração. Os olhos dela estavam arregalados e ela fazia um biquinho charmoso. A franja tão certinha cobrindo suas sobrancelhas. Parecia um anjo. Meu coração disparou e uma ideia me atingiu. – Deixa eu ver! Nem me esperou fazer pose – pediu o celular, apenas mostrei de longe. – Ai, que horrorosa! Apaga e tira outra assim – fez uma pose engraçada, tipo Monalisa. – Não quero um quadro, quero você naturalmente... Novamente aqueles imensos olhos azuis se arregalaram em reação ao que disse despretensiosamente. Ah, merda, eu a queria mesmo! – Eu e meus imensos olhos. Tenho que parar de fazer isso! Que horror. Você foi muito maldoso – disfarçou muito bem a questão do meu querer. – Te compenso com outro presente – ofertei, carinhoso.


– Que gentileza. O que seria? – Um poema – ela levou as mãos ao peito, realmente surpreendida. – Recite-o para mim... Sem pensar, fechei os olhos, respirei fundo. Virei o corpo, para que quando voltasse a abri-los, desse de frente para ela. E foi o que aconteceu. Nossos olhos se uniram, e era como se nossa alma fizesse o mesmo. A conexão estava ativada. E a inspiração me acometeu. O deleite de sua companhia afável Que neste momento diria ser excessivamente imensurável Aceitei uma coragem genuína de me entregar Porque somente encontrei a alegria no teu olhar. Dos teus lábios saem as mais sinceras verdades Do teu coração a efetividade Moça angelical, teu poderoso brilho me hipnotiza Desta rara ebriedade misteriosa, me magnetiza. Dos meus sonhos preciosos para uma tênue realidade Assistir você sorrir com a mais pura sinceridade Digo mais, sobre tudo que queiras ouvir Serei seu livro aberto para me sentir. Desculpa se estou te assustando É porque eu acho que estou... adorando O fato de compartilhar algo pessoal Para você nessa data especial...

– Feliz aniversário, Charlotte Sophie – finalizei e a contemplei. Acho que nosso segundo levou milhares de anos, mas eu vi as estrelas em seus olhos fulgurarem, em imenso agradecimento. Ela se levantou e veio até onde eu estava. E me abraçou. Senti o meu coração pulverizar dentro do peito. Estourando e espalhando um pó mágico, para logo em seguida, bater ligeiro, como se ela tivesse me curado. E ali, mais uma vez era o lugar certo de estar. O meu lar, nos braços dela. Eu finalmente o achei.


Charlotte Não consigo não encostar Eu quero isso tudo, não, nada mais que isso Não consigo não encostar Eu quero você todo, nada mais ~Selena Gomes – Hands to myself~

Eu não posso me apaixonar. Pelo simples fato de que tudo que amei até agora, eu perdi. Tento lutar contra o meu coração, com todas as minhas forças, mas sinto cada vez mais que estou me envolvendo... Sim, me apaixonando. Como deixei isso acontecer tão rápido? Sou obrigada a confessar que esse foi o melhor aniversário de todos os tempos. Nem mesmo o tempo em que Cat estava ao meu lado para soprar todas as velinhas me fez conter tamanha felicidade dentro de mim. Aquilo só podia ser amor... Ou estava muito perto disso. O amor não dá medo, é a possibilidade de perdê-lo que nos faz encher de inquietação e temor. A ternura e o afeto de um relacionamento nos ensina como viver de forma completa, preenchida com sua magnitude. Estar ao lado dele seria viver plenamente, realizada. A quem estou querendo enganar? Eu quero Gabriel ao meu lado, ouvir as suas histórias, viver as suas alegrias e ser o motivo da sua felicidade! Quero tudo dele. E mais... Eu quero, muito, deixar me apaixonar! Pensar ao contrário daquilo parecia uma piada de quinta, sem graça ou sentido. Ele fez um lindo poema para mim, perfeito. Mencionou coisas discretas e sentimentos nas entrelinhas capazes de deixar o meu peito aberto e a cabeça confusa. Naquele dia em especial em que o encontrei no Parque do Ipiranga, eu tive um pressentimento. Uma força intensa batia ligeiramente em meu peito. Antes dele, algum tempo havia um vazio dentro de mim e, mesmo sentindo-me segura e confortável em meus dias enfadonhos, nada me completava. A monotonia já tinha ganhado espaço. Os dias eram os mesmos, as vontades não mudavam de endereço. Eu acordava, tomava meu sagrado chá, ia trabalhar, na hora do almoço lia alguns capítulos, depois voltava ao silêncio da sala, a tarde era servido outro chá com alguns complementos deliciosos, e logo mais já estava voltando para casa. Tomava um bom banho quente, deitava no sofá e a televisão já estava programada no Netflix. Assistia alguns episódios ou mesmo um filme antes de ir para cama dormir. Assim eram os meus dias. Todos. Só surgia alguma novidade quando Marcela me visitava e eu me divertia com as histórias dela, e nunca com as minhas. Nestes seis anos no Brasil, minha vida não foi nada intensa. Saí para algumas baladinhas e fiz alguns passeios com a maluca da minha amiga, que só nos metia em confusão. Entretanto foi divertida a adaptação.


Tive apenas dois namorados no Brasil. Um extremamente frio, que gostava apenas de mostrar aos outros que estava com uma gringa. Já o outro, bem, tinha sangue quente. Além de ser ciumento e esquentadinho – como dizia a Marcela –, era um cara impaciente e em alguns momentos se mostrou agressivo, com frases machistas. Terminamos porque ele queria ir além dos limites que eu tinha colocado. Rápido demais, quando eu só queria conhecê-lo melhor. O que ele não compreendeu naqueles dias que passamos juntos era que eu tinha alguns pesadelos e medos que me prendiam, que não me incitavam a fazer o que me desse na telha. Aí veio Gabriel... E sabe o que me deixa intrigada? É que a aproximação dele, naquele dia, foi algo raro. Eu jamais me permitiria um contato daquela forma. É loucura. Era como se eu esperasse por ele, sem saber, durante esse tempo todo. As trocas de olhares, os sorrisos discretos e quentes, os vários toques um no outro, deixando a eletricidade correr a pele... Não conseguia me conter, a todo momento eu queria sentir a quentura de suas mãos, o corpo que me chamava para perto, a boca que ele molhava com leves passadas de língua. Tudo me enfraquecia e fazia meu corpo delirar, sob o julgo dos olhos dele, em chamas. Ainda observando a lua, em nosso último abraço, senti o meu coração juntar os cacos quebrados, mas ainda não era uma recuperação total, e penso que o mesmo acontecia com ele. Por isso, ambos aceitamos a calmaria e o ímpeto de nossas vontades. Assim encerramos a noite. Não bebemos muito e conversamos demais. Contamos com a alegria um do outro para abastecer os nossos corações. Saí da casa dele preenchida de paixão. E muito mais rendida. As nossas dores ainda não haviam sido expostas, isso era certo. Mas tudo teria a sua hora... Depois que ele parou na porta de casa, me abraçou novamente e depositou um beijo carinhoso em minha testa. Ele me trata de forma tão cortês, como se visse na minha aparente fragilidade um empecilho... Será que ele não vê a verdade? Não quero que ele tenha dó ou aceite minha amizade por achar que não tenho ninguém. Só quero que deseja estar perto de mim, como eu dele. Fitei seus olhos e todas as vontades e desejos despertavam. Tentei me conter, pois ainda não sei como lidar com isso. Por um lado é cedo para dizer qualquer coisa. Mas se eu deixá-lo escapar? Devo arriscar e tentar a felicidade, ou dispensá-la para não se envolver e acabar machucada? Como ele mesmo disse... o destino saberá o que fazer.

Enquanto meus olhos ainda descansavam do dia anterior, eu, deitada na cama, deixava os meus pensamentos flutuarem para cada momento que Gabriel havia me proporcionado. Passeamos pela Avenida Paulista inteira. Tomamos sorvete e comemos um lanche vegano saboroso, que ele fez questão de provar. Remexemos os esqueletos feito malucos junto a um grupo que se apresentava na frente do MASP. Tudo isso em poucas horas, que ficarão registradas para sempre. Estava exausta, mas satisfeita... Com os olhos fechados, deixando a imaginação ir além... até que algo chamou a minha atenção. Vi Cat. Ela sorria.


Estava feliz por mim. Fazia uma “joinha” com o polegar, como se aprovasse aquilo que eu tinha passado horas antes. Começou a rodopiar, enquanto os seus longos cabelos negros flutuavam entre os flocos de neves que começaram a cair do céu. Neve? Onde eu estava? A olhei, com saudades e tristeza. Para ela, seria para sempre do inverno. As estações não mudariam. Sua casa seria eternamente de frio e gelo. De um branco pacífico. Ela me contou, por fim, o quanto ali era tranquilo e cheio de paz. Que estaria bem, independentemente de qualquer coisa. Disse que faria de tudo para as coisas ao meu redor acontecerem. Era tudo tão bonito. Sorrimos uma a outra, em mútua cumplicidade. Sem me conter, eu comecei a chorar baixinho. De onde estava, ela me pediu: “Não fique assim, estou muito bem...” – disso eu não tinha dúvidas. “Não desperdice seu choro comigo, irmã, sorria para ele... Vai precisar mais disso do que pensa... Sorria, ame e no final, apenas agradeça... Vai por mim.” Então ela sumiu, quando eu aceitei a minha felicidade... Acordei com o coração apertado, a garganta sufocada de saudade. Todas as vezes que eu sonhava com ela, acordava chorando, sentindo falta da minha metade. Era como se, de tempos em tempos, eu conseguisse me encontrar com ela. De senti-la em meus sonhos. De vivenciar os momentos que lembrávamos com amor. Eu trocaria de lugar com ela se pudesse. Para que ela tivesse a chance de ver o que já vi. Experimentar o que já provei. Mas não podia voltar no tempo. A voz dela parecia ressoar dentro de mim, como um resquício do sonho que se esvaía. Pois bem, irmãzinha, irei fazer o que pediu. Vou sorrir e fazê-lo sorrir, e deixar meu coração finalmente amar...

Já era finalzinho de domingo quando Marcela apareceu na minha porta. Abri o portão e seus braços miúdos deram a volta em meu corpo. – Amiga, é tão ruim deixá-lo... – choramingou assim que entrou. – É uma injustiça ele querer fazer faculdade e estágio num lugar tão longe daqui. – Não é uma hora e meia de carro? – questionei confusa e ela me fitou com cara de tédio.

– E o cansaço? O gasto? Pelo amor de Deus, tudo isso para chegar lá e ouvi-lo dizer que está cansado, que precisa dormir pelo menos 7 horas por noite. E o sexo, porra?! Acredita que só transamos UMA vez nesses três dias? A PORRA DE UMA VEZ! – caiu sobre o sofá fofo, muito emburrada, o drama em pessoa. – E esse caralho de homem nem me chupou! – bufou, fazendome corar inteira. Ela é tão descarada! – Me poupe dos detalhes, por favor – sorri ao ir até a cozinha e buscar uma garrafa de vinho. Ela resmungava, se remexendo no sofá. – Não vou te poupar de nada! Preciso extravasar e contar tudo – voltei e ela estava de braços cruzados fortemente contra o peito. Entreguei a taça dela e enchi com vinho. Achei que ela entornaria, mas não, apenas brindou e bebericou gentilmente.


– Ok, estou ouvindo. – Char, parece que não nos damos tão bem como no começo. Sei que é difícil pra caralho ficar do outro lado da porra desta cidade, fazer a droga do curso que inventou, manter o maldito estágio e ainda ter forças para foder a namorada chata... – falou de uma só vez, sem vírgulas, pontos ou noção. – Você não é chata – apoiei.

Obrigada, mas sei que sou exigente. Aliás, muito. Sou ambiciosa e tenho minhas metas a seguir, e não dependo de jeito nenhum dele. Até porque sou eu quem vai atrás dele. Senão, nem isso teríamos. Isso cansa! – ela bufou ainda mais alto. – Ah, vá a merda! Sei que sou difícil, meu gênio é forte, mas não me faça de idiota, né? – pude senti-la quase aliviada... Quase. – Você só disse os defeitos – tentei ponderar. – Eu te vejo muito diferente do que se pronuncia. É determinada, adora desafios, e não se submete por pequenas coisas. Sei que deve ser especial, por isso faz tudo por ele, mas pensa um pouco sobre você, sabe... – Você sempre foi maravilhosa comigo. Obrigada! É só estresse por uma foda mal dada – tive de gargalhar. – É o vinho fazendo efeito, desculpa.

– Não se desculpe, você é intensa e é lindo de ver, mas agora está na hora de melhorar isso. Não está satisfeita? Vá para outro! Encontre o que te completa. Não fique com meias verdades ou pela metade. – Nossa, que incrível, adorei. Anota aí, vou tatuar! – brincou e eu empurrei as pernas dela em zombaria. – Deixa de ser boba. – De verdade, eu curti – fez o sinalzinho igual ao “like” das redes sociais. Revirei os olhos – E você, alguma novidade? – corei, e ela estranhou. – Ei, ei... está me escondendo algo? – engoli em seco o vinho, que desceu rasgando a garganta. Era agora. – Não estou escondendo, só tentando achar um jeito de falar.

– Você transou? – ela arregalou tantos os olhos castanhos que me deu medo. – Não! – gritei agitada. – Foi chupada? – em cada questão ela se contorcia de ansiedade. – Para, sua maluca, não é isso! Aliás... – Você chupou? Quem? Me fala logo, cacete! – deu um golão no vinho e largou a taça na mesa, soltou os cabelões e os agitou, o cheiro de morango invadindo o lugar. – Marcela, para de ser mente suja! Não fiz nada disso, eu só conheci alguém... – falei simplesmente, e minhas bochechas pegaram fogo. O foco sempre foi ela, nunca acontecia comigo. Era estranho ser o centro das atenções. – Conta agora como ele é! É lindo ou feioso? Loiro ou moreno? Forte ou gordo? Delícia ou fofinho? Você pegou nele? É grande ou fino? – ai, meu Deus! Calem essa menina, por favor!


– Marcela Duarte, só cala a boquinha, please! – agitei nervosa os braços para cima e ela estava em pé, andando de um lado ao outro. – Que mané calar a boca, tá louca?! Eu quero os detalhes, vamos, desembucha! – agitou as mãos na minha frente, como se quisesse me apressar. – Ele é... intenso. E escritor.

– É só isso que vai descrever? Jura?! Boring... – revirou os olhos e voltou a cair no sofá, fazendo as almofadas caírem no chão. Peguei algumas e joguei nela. – Deixa de ser cricri. Ele é bem bonito, tem olhos cor de mel, e uma barba meio ruiva...

– Eca, é tipo esses hipsters? – eu ri da cara enojada dela. – Não, não tem o coque samurai, só a barba muito bem cuidada. Para de criar caso sem ao menos conhecê-lo – joguei a verdade. – Interessante, conte-me mais – seus imensos olhos estavam arregalados como ela sempre fazia ao se agitar. – E vem cá, dona Char, já está defendendo o Sr. Lenhador Barba Ruiva? – cutucou o queixo, ainda brincalhona. – Não é isso, Sherlock! – soltei um riso nervoso. Ela gargalhou, mas prestou total atenção ao que, dessa vez, eu tinha para contar. Contei sobre tudo, desde o primeiro esbarrão no Parque Ipiranga até ele me trazer em casa. Ela estava boquiaberta. – E vocês não transaram ainda? – falou horrorizada, como se fosse um absurdo.

– Não demos nem um beijo na boca. Como pode pensar isso? – questionei, chocada. – Minha filha, eu que tô em choque cor de rosa! Ele é tipo um santo? Ah, sim, lembrei, um anjo Gabriel! – riu alto. – Meu, ele é da igreja ou algo assim? Daqueles que ficam se resguardando? – Sei que é religioso, mas não creio que seja isso, Má. O que temos é íntimo de uma forma amigável ou angelical. Sabe, não estou pensando em sexo... ou beijá-lo. Era uma mentirinha que decidi contar ao meu coração. – Uma porra que não quer! Acabou de gemer contando que ele te deu um beijo na testa. Char, na maldita testa! Se ainda fosse na de baixo... – permaneceu tocando a testa, totalmente inconformada. E novamente aqueles olhos estavam arregalados. Bem, analisando Marcela, acho que aprendi a arregalar os olhos com ela. – Gabriel está tentando me passar confiança, Má. Nos conhecemos há uma semana. Eu acho incrível que ele esteja me cortejando, conquistando a minha confiança. – Eu acho que você está gostando dele. Seus olhos mudam de cor, sei lá, está esquisito esse papo todo aí – bebericou o último gole e encheu mais sua taça. – Tem uma foto dele? – questionou arteira. – Não, nem lembrei, mas ele tirou uma minha. Com os olhos arregalados que nem você faz! – a


imitei, antes de continuar. – Sabe, eu gosto de ouvi-lo contar suas histórias, o timbre de voz dele me acalma. O sorriso é natural, os olhos é como uma ponte que posso atravessar... – assim que me dei conta do que estava dizendo, fiquei sem graça. Marcela me fitava com afeto. – Amiga, você está apaixonada. O amor finalmente bateu à sua porta. Entregue-se a ele de corpo e alma. Deixa Gabriel te conduzir – foram as palavras mais belas e gentis que ela já tinha me dito. – Não estou... – olha eu de novo tentando me enganar. – É cedo demais.

Se ficar com frescuras, pode ser tarde demais – encolhi os ombros e tomei o vinho.

Engolindo o líquido e as palavras que insistiam em sair. Agora não era o momento. – Se calou, é porque consentiu. – Eu não sei, estou com medo.

– Ah, Char, o amor de verdade dá medo, ansiedade, o famoso frio na barriga. As deliciosas borboletas, mas também dá paz, alegria e prazer. E é o que você precisa. – Que mudança – pisquei, brincando.

Quando é para falar putaria, sou eu mesmo. Mas dentro dessa carcaça, eu escondo puro

amor. Sou fofa, tá? – disse singela, parecendo outra pessoa. – Agora, posso te contar a última posição que eu dei? – soltou, zombeteira. – Ai, meu Deus! Ei, garota, está achando que eu quero saber como você foi deflorada pelo seu namorado? – fiz cara de indignação e ela caiu certinho. – O quê? Deflorada?! – gritou, divertida.

– Bom, deixa para lá. Conte logo, eu quero saber de tudo – sorri debochada. E com ela, eu voltava aos poucos a ser eu mesma. – Primeiramente, mano do céu, eu preciso te ensinar a falar uns palavrões, como foda, por exemplo! Caímos as duas na risada. Ainda bem que somos melhores amigas, porque só assim para aguentar tanta loucura! Mas quer saber, de vez em quando é muito bom largar a castidade e mergulhar nas profundezas dos prazeres fantasiosos...


Gabriel Sempre acontece, o tempo para quando eu tô do seu lado A noite chega, eu fecho os olhos, é você que eu vejo Como eu queria estar contigo, eu paro e faço um desejo Pense em mim, que eu tô pensando em você... ~Darwin – Pensa em mim~

Até quando esconderei a

verdade, que estou me apaixonando por ela? Vou tentar ficar quieto e deixar acontecer, mas sei que não é isso que o meu teimoso coração quer. Minha poderosa mente sonhadora, desta vez, nos projetou em meu lugar favorito. O espaço que amava... Estar com ela, ali, fazia daquele o meu melhor sonho. Observei, cauteloso, que uma tristeza sem razão pairava sobre os seus olhos. Ela me observava com cuidado, e sua respiração agitada dizia o quanto estava tensa. Ela roía as unhas. Aquelas mesmas que eu queria beijar, já que eram de um rosa chiclete. Os dedinhos tão miúdos e branquinhos. Unhas curtas, mas delicadas. Eu queria poder tocá-la ao menos uma vez. Beijar sua boca e sentir seu gosto. Afundar meu nariz naquela curva do pescoço e degustar o néctar direto de sua pele, onde repousava o girassol. Como se lesse os meus pensamentos, Charlotte agora sorria. Corada. Analisando de perto, eu sei que ela queria o mesmo. Queria me beijar, queria me abraçar e sentir-se mais uma vez protegida. Só que ela se esquivava, despercebida, em defesa. Talvez de um passado que gostaria de esquecer. O clima entre nós estava carregado de emoções, sensações e intimidade. Mesmo que parecêssemos distantes, cautelosos e reais. Como se não fosse um sonho. Ela estava vestida com um moletom grande, cinza e rosa. Talvez um ou dois números maiores do que o dela. Entre os dedos, um livro amassado e uma xícara enorme de chá. No pé, uma pantufa de gatinho. Os cabelos com os fios certinhos, lisos e impecáveis. E a franja que quase cobria os imensos olhos indiscretos, que já me olhavam de volta, exigindo atenção. Meu peito batia, querendo demais o seu precioso toque. O olhar exigiu também... Vem? Ela parecia pedir, mas não moveu sequer um centímetro. – Char, eu quero, mas não posso te segurar aqui... Você precisa ir, mesmo meu corpo gritando para ficar. Tudo em mim dói, estou frágil, não sou para você... – pensei por um momento antes de confessar. Sim, eu estava apaixonado. Sim, eu a queria, e muito. Mas não queria destruí-la e aos seus sonhos. Tudo que eu toco quebra. Amar – se isso for mesmo amar, também é libertar. Por isso dizia tudo aquilo. A fitei com os olhos magoados e disse: – Entende, princesa? Um barulho rasgou o céu, e a chuva veio sem trégua. Ela decididamente deixou suas coisas sobre a minha


mesinha, abriu o imenso guarda-chuva vermelho e ficou ali, paradinha, fingindo que não estava molhando, enquanto me aguardava. – Por favor, não posso fazer isso. Não com você... – choraminguei, todo molhado. Dessa vez não corri para debaixo do guarda-chuva. – Não vou a lugar algum. Vem, eu estou te esperando – ela estendeu as mãos. Eu me afastei, deixando que meu coração rasgasse mais um pouco. – Não posso te prometer nada, pois não posso cumprir.

– Eu ainda continuarei aqui, Gabriel. Sempre... Com essa frase, ela sumiu. Deixou de brinde um último olhar sereno, um sorriso frágil ao meio daquele clima que antes era etéreo, agora, nebuloso... exatamente como nossa alma.

Acordei tão suado que parecia que eu havia acabado de sair daquela chuva. Refleti como eu poderia me sentir tão inseguro e, ao mesmo tempo, tão cheio de esperanças? Nesse exato momento me odeio por ser tão bipolar. Estava indisposto, sentindo-me vulnerável. Minha mente cansada não parava de relembrar o sonho. Uma forte náusea atingiu o meu estômago. Corri até o banheiro e Madruguinha veio atrás. Ficou ali, me fitando como se pudesse me dar apoio, mas nada saía. Sentei-me, por fim, sobre o vaso sanitário, com a cabeça baixa. Ao encostar a mão na minha nuca, senti algo doer em meu pescoço. Estava com um leve inchaço. Isso não era bom. Levei as mãos à testa, me sentindo febril. Droga! Péssimo momento para acontecer isso. Levantei-me com certo esforço, pois tudo ficou pesado, a visão meio turva... Era como se, ao ver que algo não estava bem em mim, todos os sintomas acontecessem ao mesmo tempo. Abri a pequena gaveta do balcão e cacei qualquer remédio que tirasse a dor que ameaçava vir. Cocei a cabeça e, apesar do nervosismo me atacar, tentei respirar – mesmo com dificuldade – só para levar ar para dentro dos pulmões, na tentativa de me acalmar. Algo estava acontecendo comigo... E isso não estava me cheirando muito bem.

Após a visita ao hospital, com a breve inspeção do médico, acho que conseguiria permanecer bem durante um tempo. Ele me fez tomar alguns remédios, e tantos outros foram receitados. Creio que em breve tudo voltaria ao normal, já que os enjoos e a tontura haviam passado. Ao sair da consulta, almocei uma salada leve, na rua mesmo. Rafael, todo preocupado, me ligou mais de dez vezes enquanto eu estava aguardando ser atendido no hospital. Por mais que insistisse para ele ficar calmo, comentou que logo estaria em casa. Melhor dizendo, na minha casa. Estacionei na frente do portão da dona Clô que havia viajado para Portugal passar uma semana,


já que o carrão espaçoso do menino mimado estava estacionado na frente da minha garagem. – Querida, cheguei! – anunciei-me. Rafael botou a cabeça para fora da cozinha, mastigando algo nervosamente. – Tá bem? – resmungou, enquanto engolia. Levantou-se da cadeira e veio até a sala, sentandose ao meu lado. Batemos juntos os ombros em sinal de parceria. Rafa era, sem dúvida, o irmão que não tive. – Tudo normal, foi só um mal-estar – seus olhos coloridos diziam que não acreditava sequer numa palavra da minha frase. – Sei... – não o deixei continuar, e troquei de assunto.

– E você, comendo bem? – fitei o prato que já estava no fim. Ele havia comido o resto da berinjela que fiz para Charlotte. – Isso aqui é sua especialidade, cara! Pena que acabou – falou de boca cheia. Eu acompanhei a sua risada. – Sobrou só um pouco de ontem. Por pouco não joguei fora.

– Hmm... Fez só para você? – Sabe que não, seu idiota. Por acaso já me viu cozinhar algo só para mim e sobrar uma tigela desse tamanho? – Para mim que não foi! Anda, fala quem é a garota da vez – limpou a boca com o guardanapo, fincando os olhos de águia em mim. Querendo saber a verdade. – Minha nossa, calma... Parece uma daquelas fofoqueiras do bairro – gargalhei, disfarçando.

– Sou mesmo! Agora quero saber quem é a mulher que meu amigo está escondendo! Vai fazer isso mesmo ou terei que dar uma de CSI? – disse, erguendo as sobrancelhas. – Não conseguiria nem descobrir o nome dela com esse seu faro de bosta. Até o Madruguinha seria melhor que você! – dei um leve peteleco em sua orelha. – Ah, não fode, meu. Eu conheço a gatinha? – questionou curioso.

– Claro que não. E Rafa, te juro, essa é diferente... – tentei não suspirar, mas ele viu em meus olhos o quanto era especial. – Uau, é tão fantástica assim? – arregalou os olhos. Ele fazia essa expressão sempre, e eu ri mais uma vez. – Lembra uma vez, uns três meses, mais ou menos, que te contei que estava tendo uns sonhos estranhos, com guarda-chuva vermelho e uma moça de olhos azuis, e que isso se tornou uma inspiração? – o lembrei, e o sorriso idiota dele foi além. – Lembro. Não, ah, que foda, jura? – fiz que sim. – É a garota do seu sonho, ou uma muito igual, ou você tá iludido vendo coisa? – É exatamente ela. Contei tudo que nos aconteceu desde o encontro no Parque do Ipiranga. Rafael mal acreditava


nessa coincidência maluca, mas seu olhar dizia mil coisas diferentes. – Quero que fique bem, sabe disso, não é? – bateu novamente em meu ombro, todo parceiro.

– Claro que sei – respondi de forma automática, mas sincera. – É sério, cara, você precisa e merece isso. Vi que ele ficou triste. Estava mergulhado na lembrança do seu amor platônico, com certeza. – Você deveria esquecê-la também e conhecer alguém legal... Do seu estilo, Rafa – ele odiava que eu não acreditasse na história deles, mas não iria iludi-lo, dando esperança de que um dia ela ficaria só com ele. – Aquele dia, acredita que ela não liberou? Nem ao menos me deu um beijo! Cara, eu tinha tantos planos... E chupá-la era um dos meus favoritos! Mas sabe, tá ficando mesmo cansativo... – confessou baixinho, apesar de eu ter revirado os olhos pela sua indiscrição ao mencionar o que faria com Marcinha. – Isso ainda não melhorou? – ele fez que não.

– Nada. O pior é o sentimento, que me impede de seguir adiante. Claro, o sexo quando rola é bacana, mas o meu coração pira é nela. Não sei o que fazer, sinceramente. – Claro que sabe! Rafael Montenegro dizendo isso, querendo entregar os pontos? Cara, você é o maior garanhão que conheço! Não pode viver assim. – Sabe que eu te odeio por me dizer a verdade, não sabe? – socou de leve o meu ombro.

– Claro que sei, senão não seríamos melhores amigos. – E eu odiaria isso. Sorrimos, cumplices, e conversamos mais um pouco a tarde toda. Logo ele foi embora. Precisava voltar ao escritório e finalizar os compromissos do dia. O melhor de trabalhar com família é ter o escritório na própria casa. A Família Montenegro era toda constituída por advogados. Bons profissionais e justos. E eu amava essa família como se fosse minha. E de certa forma, eles eram.

Meu pai mudou-se para Fortaleza há três anos. Foi a trabalho e acabou ficando por lá. Sei que ele resolveu aceitar a oferta de trabalho para não ter lembranças da minha mãe, na casa onde moraram juntos por quase trinta anos. Deixei-o ir sem criar casos. Ele precisava de espaço, e eu de viver. Sempre que dava, ele me ligava para saber se estava tudo bem. Dizia que estava muito bem, morando na beira de uma praia paradisíaca. Ele sempre me chamava para ir ao seu encontro, mas eu nunca o visitei. Não por falta de oportunidade, mas por não saber o que dizer quando chegasse lá e fitasse os seus olhos, trazendo todo o luto que nos unia à tona. O mais estranho é que deveríamos ser mais próximos, mas nunca aconteceu. Mesmo no momento da morte, eu sempre fui mais apegado à minha mãe. Ele sempre trabalhou muito, sendo apenas uma sombra, o mantenedor, uma participação especial na minha vida. Então, o nosso


contato era apenas superficial. Lembro que ele queria, e muito, que eu seguisse a carreira militar. E uma das nossas piores brigas foi quando, aos dezoito anos, eu disse que faria Sociologia. Ele quase me socou e só não o fez porque mamãe interviu. Acho que para causar ainda mais descontentamento, eu trabalhei em diversas coisas, mas nunca uma profissão fixa e estável como meu pai tanto desejava. Sempre que podia, ele me chamava de vagabundo quando tinha oportunidade. Sorte que a escrita, e a herança deixada pela minha mãe, me faziam não depender dele. Foi aos vinte anos, depois de passar poucas e boas, que comecei a escrever para valer. Criei blogs e tudo que podia, desde que envolvesse escrita. Todos os cursos on-line que podia, eu estava lá, fazendo, aprendendo, tornando-me cada vez mais profissional. Não por causa do meu pai, mas para a minha própria realização. Desde então nunca mais parei. Mesmo que me falte inspiração, estou lá. Um texto pode não encaixar no momento em que é escrito, mas em algum lugar fará sentido. Trabalhei por três anos em um jornal pequeno de São Paulo e dois numa revista feminina. Escrevendo texto dinâmicos e poderosos. Sempre voltado ao público feminino e seu empoderamento. Era tão maravilhoso criar e fazer da minha arte um meio de sobrevivência. Mas há dois anos que decidi parar. Não de escrever, de trabalhar mesmo. A revista encerrou, e o jornal me consumia demais, então tirei esse peso. O dinheiro que tinha e já ganhava com a internet daria para sobreviver. E é o que faço. Não tenho riquezas escondidas. Sempre gastei meu dinheiro com sabedoria, mas ultimamente gasto com o que gosto. Para quê guardar? Vamos viver intensamente... No final do dia, senti falta das mensagens de uma certa garota que agora tinha a foto no papel de parede do celular. Aquela gracinha que me inspirava a sorrir e a escrever, fazia meu coração dilatar-se em alegria. Ela teria um papel fundamental em minha vida. Outra tontura me atingiu, repentinamente. Resolvi tomar mais um remédio e voltar a dormir. Antes de capotar, deixei o celular ligado, fitando a cor dos olhos dela. Imensidão azul, uma vastidão do mar aberto, revolto. Ou a calmaria do céu do meio-dia... Adormeci, mas sabia que ela de algum lugar, também pensava em mim.


Charlotte Romeu, salve-me, Eles estão tentando me dizer como me sentir Esse amor é difícil, mas é real Não tenha medo, nós vamos sair dessa bagunça É uma história de amor, baby, apenas diga sim ~Taylor Swift – Love story~

Oi, desculpa não ter enviado nada antes, é que me aconteceram algumas coisas... Bem, eu queria te ver... é possível? Preciso conversar com alguém. Estou me sentindo nostálgica... Venha na minha casa hoje! Estarei livre às 17h. Se não puder, não tem problema, eu te entenderei. Abraços, Char.

Enviei antes que pudesse reler e desistir. Na verdade, estávamos sem nos falar há três dias, e parecia tanto tempo... Confesso que tive medo de manter contato e Gabriel achar que eu o estava sufocando. Esperava que ele também tivesse sentido a minha falta. Foi uma tortura não conversar com ele por esses dias, mas eu precisava ver o nosso relacionamento de fora, deixar bem claro para mim mesma que aquilo que tínhamos não era uma tentativa de romance. E como ele não me interpelou nesses dias, sabia que na hora certa falaria com ele. Ás vezes precisamos apenas respirar, para ver as coisas sob o ângulo certo. Enquanto Gabriel me tratava bem para mostrar a sua amizade, minha mente fantasiava um relacionamento lindo e duradouro. Coisa que eu queria muito, mas me iludir não está nos planos. Se bem que ele demonstra uma vontade incessante naqueles olhos intensos. Ah, e eu sei que ele quer tanto quanto eu... Não deu nem tempo de fechar o aplicativo, recebi a resposta dele. Estarei aí as 17h10. Te dou esse tempo para pentear os cabelos e ficar me aguardando com uma xícara quentinha de chá.

Gargalhei sem querer. Estava dentro da biblioteca! Alguns alunos me fitaram de cara feia. Isso porque nem imaginavam que eu estava digitando no celular, já que era proibido o uso do aparelho ali. Enfiei o bendito no meio de um novo livro do qual estava me aventurando e amando conhecer; Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas. Pentear os cabelos?! Por acaso ando desmantelada? Foi isso que quis dizer?

Enviei a mensagem toda animada, olhando por cima do livro. Esperava que ninguém notasse o


que eu estava fazendo. NÃOOOO... nem se quisesse estaria desajeitada! NUNCA. Só mencionei pq vc é toda sistemática com seus cabelos. Vive mexendo na franja, que já é tão bela. Bem, eu só gosto de um cabelo bagunçado... Pode deixar do jeito que quiser que eu vou apreciar.

Meu coração disparou. Se ele quisesse mesmo bagunçar os meus cabelos, eu juro, não me importaria. Dependendo do bagunçado é bom. Estarei te esperando e vou decidir o destino dos meus rebeldes fios... ;)

Ai, meu Deus, eu tinha enviado isso mesmo? Soltei um risinho que chamou novamente a atenção dos alunos à minha frente. Oras, quem manda aqui sou eu, teenagers! Não vejo à hora, Charlotte Sophie... =)

Toda vez que mencionava meu nome, ele deixava as borboletinhas do meu estômago agitadas. Naquele momento, eu desejei que fosse cinco horas em ponto. Enquanto eu ficava no emotion de piscadinha assanhada ele, todo respeitoso, ainda mandava de carinha sorrindo. Ai, Gabriel, não brinca com meu pobre coração...

Passei o restante das horas escondendo o celular e fugindo das teclas, para evitar ficar trocando mensagens com ele. Desta vez, iríamos nos encontrar na minha casa, então ficaria mais confortável em meu próprio ambiente. Apesar de que, quando fui até a casa de Gabriel, em nenhum momento ele deu em cima de mim. Ele me respeita e deixa as coisas fluírem, e é o melhor que eu poderia esperar de um homem. Dona Vitinha me liberou as quatro, já que o movimento tinha acalmado por ali. Respirei agitada, pois chegaria em casa a tempo de arrumar algumas coisas para um perfeito chá das cinco! Ai, tão britânico isso... – pensei, sorrindo com esse pequeno detalhe fútil de minha parte. Corri o quanto pude. Em quinze minutos, fiz todo o trajeto que levaria em pelo menos vinte e cinco. Isso tem um nome e se chama ansiedade. Entrei trancando tudo. Tomaria um banho demorado, passaria meu perfume favorito e tão em breve meu mais novo amigo estaria entrando por essa porta. Após me refrescar, fiquei sem saber qual dos vestidos colocaria. Foi então que, para minha surpresa, ouvi a campainha. Fitei o relógio grande do quarto e vi que estava muito cedo para ele chegar. Meu corpo todo estremeceu. Meu Deus, eu estava de roupão ainda! Peguei o celular em cima da cama, e vi que não tinha nenhuma mensagem dele. Então coloquei o primeiro vestido que vi e desci correndo para atendê-lo. Antes de abrir a porta, me ajeitei novamente, mas ao virar a chave e puxar a porta, meu mundo


ficou mais aliviado. Era só a Marcela. – Que demora foi essa? Eu hein...

– Estava me trocando. E você, o que faz cedo por aqui? – questionei, ainda olhando para fora, no quintal, para ver se alguém estava chegando. – Está esperando alguém? – ela parece que sente o cheiro da minha inquietude.

– É... bem, sim. É o meu amigo, ele virá para um chá da tarde – disse apenas, mexendo na cintura do vestido. – Chá da tarde, Char? Que tédio! Vocês parecem dois velhos de setenta anos. Deveriam fazer algo mais agitado... ou quente. Pelo que me contou dele parecia mais animado, um homem viril com toda aquela barba ruiva e tal... Tá certo que imaginei um hipster mendigo, mas tudo bem! Você quem decide, mas essa cautela toda está me cheirando outra coisa: ele não é gay, é? – meus olhos se arregalaram. – Claro que não! Para todas as suas opções. Que coisa feia, a gente está se conhecendo.

– Sei, já que está dizendo, mas Char, ele deve ter as intenções dele, e te comer, futuramente é uma delas. Os homens não investem tanto para não ter nada. É a natureza deles. Desculpa falar tão abertamente, mas estou te alertando, uma hora terá que transar com o cara. Acha mesmo que um homem quer só ouvir a gente falar? Claro que não! – ela me dizia aquilo de forma tão intensa, e o que eu fazia era só ficar corada, feito um pimentão. – A cabeça de baixo está sempre no comando. Sempre! Lembre-se disso. – Gabriel é diferente, eu sinto isso. Nunca me desrespeitaria, ele gosta da minha presença, sei disso – e eu não estava mentindo ou acobertando ele, era só uma verdade. – Char, nós mulheres acreditamos que eles são especiais e únicos, até que nos traiam a confiança. Espero que ele seja tudo isso mesmo, que você não esteja se iludindo com um babaca mentiroso. Mas tenha em mente que, caso ele force você a algo, precisa me contar. – Eu sei. Fique tranquila, por enquanto só quero conhecê-lo. A presença dele é muito importante, está me fazendo bem. – Deve estar mesmo. Jamais se abriu com alguém, até mesmo comigo. Não estou te cobrando nada, só estou feliz por você, de verdade. – Obrigada, é importante saber disso. E agradeço seus conselhos.

– Vai agradecer mesmo, porque você não vai vestir isso! – ela diz ao me ver com o vestido mais velho que tinha dentro do guarda-roupa. Nossa, como não notei isso? Graças a Deus que era ela, e não ele que me via parecendo um saco de estopa! – Não, está tudo errado. Parece que tá de camisola, Char, credo! Vem, vamos trocar isso. Que horas ele vem? – olhei no relógio no canto da sala. – Daqui a vinte minutos. – Ótimo, eu te ajeito em dez!


Subimos novamente para o quarto. Na minha cama estavam espalhadas algumas peças e no chão alguns pares de sapatilhas. Ela separou um vestido amarelo sol que era recatado, mas deixava as curvas do corpo acentuadas. Pegou o keds branco e já o deixou perto. O resto, ela embolou e jogou no guarda-roupa. – Precisa deixar esse espaço livre – revirei os olhos enquanto ela apontava para cama.

– Não chegará a tanto – foi a vez dela arquear as sobrancelhas. – Ok, mesmo assim, é bom estar preparada! – sorriu, arteira. –

Sempre tenha as cartas nas

mangas, Char. – Marcela, você é uma mulher sem limites! – bati levemente em seu bumbum. Vesti as peças que separamos, e ela me sentou na cadeira ao lado da escrivaninha, com o espelho. Ajeitou o cabelo e começou a penteá-lo por igual. A franja ela tentou deixar mais para o lado, conseguindo um efeito bonito. Passou um delineador estilo gatinho e batom gloss laranja. Tudo em mim estava muito sensual, de uma forma simples e elegante. – Agora sim, dou valor – brincou, me levantando.

– Obrigada, eu adorei – olhei-me no espelho, e não sei se era minha felicidade ou se realmente estava radiante. – Conte sempre comigo – olhamos juntas no relógio, já estava na hora de ele chegar, e foi aí que ouvi um assovio. Estranhei, e ela fitou a janela, já que estava próxima. – Ai, meu Deus! É aquele barbudo? – meu coração disparou. Fui até a janela e constatei que era realmente ele. Abri a porta da varanda, e fui até o parapeito para vê-lo melhor. – Oi! Você é muito pontual – fitei seu maravilhoso sorriso. Ele estava quase no meio da rua, olhando aqui para cima. – Não posso deixar uma britânica esperando, é falta de educação – sorriu mais abertamente com as mãos no bolso traseiro. Ele estava incrivelmente lindo. – Estou descendo... – mencionei, mas ao virar, ouvi sua voz vibrante.

– Calma!, que luz é aquela na janela? É o leste e traz Julieta como um sol. Sobe, formoso sol e mata a lua, que sofre da anemia do ciúme, pois tu, sua devota, és mais formosa. Não ‘stejas ao serviço da ciumenta. Seu hábito vestal é doença verde, que só os tolos usam, tira-o já... Eu não podia acreditar que ele recitava Shakespeare na porta da minha casa! Bom, o jeito era entrar no papel e me divertir. – Ai, de mim! – continuei, brincalhona, a frase seguinte. Isso fez seus olhos brilharem ainda mais por eu também saber de cor. E atrás de mim, Marcela ria alto, sem acreditar no que acontecia em minha janela. Aproximei-me um pouco mais e, mesmo envergonhada debrucei no parapeito, para ouvi-lo melhor e continuarmos a nossa pequena façanha divertida. – Oh! fala uma outra vez, anjo brilhante, pois nesta noite tu és gloriosa como é no céu o alado mensageiro, p’ra os olhos revirados em espanto, dos mortais que se inclinam para o ver quando ele monta nuvens indolentes, e voga


em pleno âmago do ar... – Por que razão, Romeu, és tu Romeu? – fiz uns gestos com as mãos, ele repetiu o movimento. – Ouço ainda ou respondo já a isto? – uma leve reverência surgiu dele. – Responderás aqui dentro, estou descendo! – concordamos sorrindo lindamente a essa loucura. Mas ao virar dei de cara com minha amiga. – Ai, caramba, vocês são um do outro! Não pode ser, ele é intensidade pura, e que voz é essa? – ela estava agitada na mesma proporção. – Eu deveria te jogar daqui de cima, então, por favor, se comporte e saia sem fazer gracinha, ok? – Vocês recitaram Shakespeare! Nem em meu cursinho intensivo de inglês consegui decorar alguma coisa – ela parecia anestesiada. Descemos juntas, enquanto ela dizia alguma coisa engraçada que não consegui compreender, tomada pela ansiedade em vê-lo de pertinho. – Obrigada mais uma vez – beijei seu rosto alegre, e abri a porta. Gabriel estava na frente do portão. Saímos as duas sorrindo. – Olá, Romeu – ela soltou. Ele ficou super sem jeito, e eu mais ainda.

– Marcela! – esbravejei. – Olá, meninas! Cheguei muito cedo? – olhou para minha amiga, todo recatado. – No horário! Ela já estava de partida – anunciei, abrindo o portão. – Estava mesmo – seu olhar era brincalhão. – Prazer, sou a amiga dela, Marcela. – Muito prazer Marcela, eu sou um amigo dela também. Me chamo Gabriel – educadamente, ele estendeu a mão, que ela aceitou. – Tô sabendo, Gabriel – piscou descaradamente para mim, isso porque pedi para não fazer graça. Imagine se não tivesse?! – E puta merda, Char, por que não falou que ele era lindo?! Amigo, ela falou que você era feioso – me constrangeu assim na cara dura. Fiquei petrificada e acho que sem respiração. O ar me faltou! – Mentira! Marcela, para com isso – falei entredentes. Ela gargalhou junto dele.

– Você falou que ele tinha barba! – apontou para o rosto perfeito do meu amigo que estava com um sorriso sufocante. Deus, que situação. – E daí? Não falei que era feia – justifiquei-me.

– Imaginei um cara tão feioso. Mas nem de longe algo como ele... Bem, estou indo. Boa tarde! Crianças, juízo. – Foi um prazer, Marcela – falou, educado. Ela retribuiu, piscando.

– Foi nada! Ela é demente, não liga – resmunguei brincalhona. Saí do portão para que ele entrasse. Gabriel passou rindo ainda de nosso pequeno show na porta de casa. Fitei Marcela indo, mas virou e ficou de boca aberta tentando me dizer o quanto ele


era lindo, pois é, eu sei amiga, era o meu olhar para ela. A danada fez uns movimentos com as mãos, dizendo... bem, sobre o tamanho dele, fingi não ver e fiz de tudo para que ele não visse essa nossa loucura. Disparei ligeira e não via a hora de entrar e ficar a sós com ele. – Fique à vontade, Romeu – mencionei, ansiosa, mesmo brincando.

– Já estou, Julieta – sua piscadinha foi quase mortal, acertou bem no centro do coração! Será que isso pode melhorar? Creio que sim.


Gabriel A mão ampara a calma Encosta lá na alma E o corpo vai sem medo Descasca teu segredo ~Tiago Iorc – Amei te ver~

Recitar Shakespeare me

fez ganhar alguns pontinhos. Adorei o brilho incessante que ela carregava nos olhos ao me encarar. Um fogo inspirador que jamais espero findar. Entramos juntos, e o lugar parecia uma casinha de boneca. Era muito a cara dela! Por fora era de um tom amarelo intenso, feito o sol, junto ao jardim todo enfeitado, com miúdas plantas coloridas, que deveriam ser muito bem cuidadas por ela, por aquelas mãos tão pequeninas. Atravessamos a porta de madeira branca, fui invadido pela visão da sala: o sofá bege e as paredes creme em contraste com os quadros coloridos e a estante gigante, pegando a parede toda, recheada de livros, muitos livros. Havia também uma poltrona no canto, junto a luminária moderna e um tapete marrom claro, bem grosso, daqueles que afunda os pés. Ela era caprichosa. – Seu espaço é muito bacana, e já sabe o que mais chamou a atenção, não é? – brinquei.

– Ah sim, minha estante é a melhor parte da casa – disse singela, e não pretensiosa. – Bem, duvido, mas já que está dizendo... – pisquei. Ela captou isso e corou. E a forma que ficou envergonhada só me fez admirá-la ainda mais, era tão linda e pura! – Ali é a cozinha – apontou para o espaço agradável e natural. Tinha uma janela bem grande e arejada. A cozinha era simples, mas muito harmoniosa. Poucos armários, e algumas panelas penduradas, organizadas por tamanhos e cores. Tinha um estilo rústico. – Tem um quintal espaçoso no fundo e a lavanderia ao lado... – apenas apontou, não fomos até lá. – Meu quarto e o escritório são lá em cima, e... – ela corou quando não continuou, eu não queria deixá-la sem jeito. – Não precisa falar mais nada, ficaremos por aqui. Vim apenas para um chá! Não foi isso que combinamos? – respondi, sincero, e ela relaxou um pouco. Eu gostava de passar tranquilidade para ela. – Você é tão bom, Gabriel. Às vezes acho que não é real, que é apenas fruto da minha imaginação – sentou-se no pequeno sofá e apontou o outro para que eu fizesse o mesmo. – Mas eu acabei de recitar Shakespeare para você na beira da sua janela! Como posso ser uma ilusão? Olha aqui, me toque... eu sou muito real – estendi minha mão à ela, que tocou carinhosamente.


– Eu sei, só acho que talvez eu não mereça tanta atenção. – Por que não? – Gabriel, não sou uma mulher normal... tenho algumas dores, alguns problemas... – Que não precisa me contar agora se não quiser... Mas todos nós as temos –

meu peito

palpitou forte. Eu também tinha tanta coisa para contar-lhe, mas não estava preparado. – Uma hora essa história terá que vir à tona. Não posso te deixar no escuro, te envolver nisso tudo. Você merece o melhor. Ao ouvir essas palavras, fazia com que tudo mudasse numa proporção imensa. Eu não sabia o que falar. Fiquei com medo de dizer qualquer besteira e ela fugir, me mandar embora antes da hora. Eu também tinha as minhas dores. Isso poderia nos tornar muito parecidos, mas não iguais. Nossas dores não estavam nem perto de serem iguais. Bem, é o que penso, já que ela não mencionou nada do que a fazia temer um futuro ao meu lado. Eu não podia contar nada, ainda. Queria mais do que tudo conquistar a amizade dela, mesmo querendo muito mais do que isso. Não era apenas físico, era intensidade, era palpável, era nosso. E não gostaria de que ela me olhasse com piedade. – Charlotte, só vamos deixar acontecer, tudo bem? – tentei deixá-la confortável novamente, e ela concordou. Levantou-se e foi até a cozinha. – Vou buscar algo para comermos – ela só queria se distrair, e eu deixei. Permaneci sentado e fitando seu corpo ir de um lado ao outro, buscando as coisas. Sorri, encantado. – Sua amiga parece tão espontânea e divertida – puxei assunto. Levantei e me aproximei da cozinha. Ela sorriu ao me ver ali. – Precisa de ajuda? – ofertei. Ela parou do nada, assustada.

– Não precisa, obrigada, é o meu convidado – ela parecia tão nervosa. – E Marcela é maluca... Não acredita em tudo que ela diz, sério, ela tem problema! – rimos juntos. – Ah que pena, achei que ela tinha dito que sou bonito – brinquei.

– Isso não é mentira, você é lindo. – Obrigado, você é igualmente linda – ficamos nos olhando, até que eu resolvi quebrar o clima com uma brincadeira. – Uma pergunta, você não gosta de barba? – mexi no queixo e ela gargalhou. – Ah, ela é doida, desculpa. Eu mencionei que tinha barba, mas ela logo imaginou um mendigo hipster, sinto muito – eu tive que gargalhar muito. Dona Clô iria amar essa menina. Assim como eu... – flagrei meu coração dizendo. – Hipster, essa é ótima. Preciso conversar mais com a Marcela! – mencionei alegre. Charlotte pegou as coisas e foi caminhando de volta para a sala. Ajudei a puxar uma mesinha de canto, onde ela depositou a bandeja com um monte de coisas. – Você iria adorá-la mesmo. Marcela é muito divertida, e foi quem me ensinou Português. Eu já sabia algo, por causa do meu pai, mas estava bem desatualizada. Ela lecionava Inglês na época,


então foi fácil aprender com ela. Hoje trabalha numa agência de viagens, mas quando cheguei, ela amou fazer parte dessa adaptação. – Ela não te ensinou os nossos palavrões?

– Os que eu não tinha aprendido sem querer com o meu pai ao ouvi-lo disparar pela casa? Pode apostar que sim – sorriu levemente corada. – Viu a intensidade dela? Quero vê-la feliz. Marcela precisa de alguém no mesmo modo, feliz e brincalhão. Alguém que queira viver a vida intensamente ao seu lado. Ela é elétrica e cheia de objetivos. Torço muito para que encontre um amor incendiário – falou sorrindo, enquanto colocava água quente em duas xícaras. E não é que, na mesma hora em que vi essa Marcela, pensei em alguém que ficaria louco em conhecê-la? Agora com Charlotte dizendo essas coisas, talvez fosse o destino mostrando que tudo pode se encaixar. – Acho que tenho alguém em mente para apresentar à ela. Claro, se você não se importar. É meu amigo, Rafael. Acho que esses dois iriam dar muito certo juntos. Seria uma colisão e tanto – aceitei a xícara e pisquei, animado. – Que interessante – falou, antes de dar um golinho no chá de baunilha. Olhei para a caixinha de Twinings e sorri para ela. Nem longe de sua terra ela deixava de tomar o chá favorito de sua rainha. – Ela está namorando atualmente, mas vive triste e reclamando de tudo. Acredita que ela foi esses dias para lá e ele nem deu a atenção devida... – ela parou do nada, como se tivesse falado muito. Seu rosto tomou uma cor avermelhada. – Entende, não é? – fiz que sim, e não aprofundei o assunto. – Rafael tem uma menina de que é afim desde o colegial. Acredita? Ela vive brincando com o coitado, fingindo que está tudo bem. Eu me irrito por ela fazê-lo de bobo. Queria algo decente para ele, que o fizesse feliz. – Poderíamos combinar algo e fazê-los se conhecer, que tal? – ver o seu interesse me deixou entusiasmado. – Com certeza. Vou pensar em algo. – Certo. Não paramos um segundo de falar, enquanto comíamos algumas bolachinhas e sequilhos que ela contou, orgulhosa, que havia feito. Eu admirei ainda mais a sua criatividade. Confessou que era vegetariana desde nova. Sendo assim, sempre teve de arrumar formas criativas e gostosas de se alimentar. Lembrou das fartas refeições com a família, e como não comia quase nada. Lembrar deles deixou sua voz triste. – Você não se sente feliz ao falar de sua família, não é? – perguntei, cuidadosamente.

– Desculpa. É que me lembrei da minha vó. Ela me ligou no dia do meu aniversário, quer que eu volte para lá... – essa notícia me fez ficar apreensivo. Não era tempo de deixá-la partir, não sem antes nos conhecermos melhor. – Sério? Mas ela pediu ou exigiu? – questionei com a voz baixa.


– Não faz muita diferença para ela. Lady Shelly sempre tem o que quer... Mas não a mim – falou convicta e meu coração ficou aliviado. Ela não partiria do nada. – Mas você está pensando em voltar? – minha voz saiu sufocada, mas tinha de perguntar, para não deixar dúvidas. – Não! – adiantou-se. – Eu te avisaria, pode ter certeza. Mas acontece que minha vó está doente, velha, e quer que eu assuma o seu posto. Mas não farei isso. Ela até tem a minha mãe por lá, que é uma marionete em suas mãos. Deve ser por esse motivo que lady Shelly quer a mim, porque não sou como os outros. A vida inteira me chamou de rebelde... – bufou nervosa, e pude sentir na mudança de seu tom de voz. – E se eu for para o Reino Unido, terei de me casar com alguém que não amo e ter herdeiros... Não quero isso, não posso! – agitou-se. Levantei e fui até o sofá que ela estava. – Não precisa de nada disso. Você é feliz aqui, Charlotte Sophie? – meu rosto estava centímetros do dela, ela não se afastou. Podia sentir sua respiração agitada e ela a minha. – Estou sendo... – fechou brevemente os olhos. E quando abriu, aquela imensidão azul me engoliu. – Quero ser mais do que isso... Aqui eu achei o meu lugar – seu suspiro atingiu minha boca, e desejei com todas as minhas forças beijá-la. Tomá-la em meus braços, somente ser o lugar que ela mencionara. Eu queria muito, mas me contive. – Que bom, então não precisa ir aonde não quer. Você não é obrigada a nada, Char! Tenha sempre isso em mente. Se aqui você se sente completa, feliz e segura, não vá, deixe sua mãe assumir o que quer que seja. Você deve ficar onde seu coração mandar – sei que poderia soar egoísta, e era. Eu não queria que ela fosse para lugar algum, não agora. Isso que eu sentia estava se transformando em outra coisa... Muito forte e intensa. Charlotte continuou, interrompendo os meus pensamentos. – Lady Shelly é uma mulher ambiciosa, ardilosa e abusa de seu poder em cima de todos. Ela esconde muita sujeira embaixo dos tapetes. Descobri, há anos, um de seus segredos sujos... Mas não posso falar nada pois envolve a família, incluindo os meus pais. Este foi um dos motivos que me incentivaram a sair das paredes daquele castelo – ela ameaçou chorar, mas eu não deixei. Abracei o seu corpo, trazendo-a para mais perto. Seu cheiro adocicado me atingiu, e ela arfou junto comigo. Estávamos arrepiados por esse contato mais intenso. Soltei-a devagar, nossas bocas estavam perto demais. – Ela nunca soube que eu descobri... E nem sei se conseguiria confrontála. – Foi tão grave assim? Ela apenas assentiu com a cabeça. – Não precisa pensar nisso agora. Podemos falar de qualquer outra coisa, o que acha? Tem algo que queira compartilhar? – Já cheguei a pensar que eu não fosse normal... – aquela frase me atingiu. Havia tanta dor em sua voz, que me peguei a pensar o quanto ela havia sofrido, sozinha.


– Durante muito tempo, eu não conseguia me relacionar com ninguém. Nada me atraía. Até me indaguei se era gay, mas as outras meninas nunca mexeram comigo – ela parecia desconfortável, mas queria me contar, e eu me dispus a escutá-la. – Eu tenho esse medo dentro de mim, algo que me impede, sabe... Minha cabeça deu um giro, não podia ser. Será que era aquilo que ela estava tentando me dizer? – Posso te perguntar algo íntimo? – ela corou. Não me olhou, mas fez que sim. – Charlotte, somos amigos, eu creio... – foi aí que ela me olhou e concordou. – Não precisa ficar com vergonha de me dizer certas coisas. Quero que sinta o meu imenso respeito por você e jamais ultrapassaria qualquer limite. Sabe disso, não é? – Desculpa, é que nem mesmo com a Marcela eu já me abri tanto, mas a verdade é que eu sinto uma confiança ao seu lado, e seria capaz de contar-lhe tudo, sem medo. – Ótimo saber disso, pois só tenho boas intenções com você. Espero que sinta verdadeiramente o meu carinho. – Eu sinto, e pode perguntar... – apertou as mãos, ansiosa.

– Não precisa responder se não quiser, ok? Se tiver desconfortável, podemos mudar de assunto e falar o que você quiser. – Nunca tive relação sexual com um homem... E bem, nem com mulher, já que mencionei o assunto anteriormente! – ela desabafou antes que eu perguntasse. Sorriu brevemente, sem graça, os sentimentos em turbulência dentro de mim. Agora entendia tudo. – Certo, mas existe algo que a incomoda ou foi opção sua não ter ido para a cama até o momento com alguém? – Veja bem – fitou meus olhos –, eu sei o que tenho, e não tem nada a ver com orientações sexuais. É algo comigo, com o meu corpo, nada a ver com as outras pessoas. Sou eu. Deixei esse sentimento, essa coisa se agigantar dentro de mim, tornar-se incômoda além do que posso suportar... Mas, desculpa, outro dia prometo te contar exatamente tudo que passo... Mas não hoje. Já falei demais, já senti demais... – Tudo bem, quero que se sinta à vontade para dizer o que e quando quiser – ela concordou, silenciosa. – Mas você já namorou, lembro que disse que chegou a ficar noiva. E aqui no Brasil? – não desejaria muito saber disso, mas era bom o conhecimento nessa área, já que uma pontinha ordinária de ciúmes me atingiu. – Sim, fiquei noiva, mas evitava ao máximo beijar aquele Amarelo! Nossa, ele vivia tentando roubar malditos beijos de mim. Vez ou outra conseguia, mas as cotoveladas que eu dava eram a minha melhor forma de agradecimento – falou, voltando a ficar descontraída. – Que menina rebelde! – brinquei e ela gargalhou.

– Eu fazia jus ao meu apelido! – piscou, sedutora. – Vou tomar muito cuidado – falei, me afastando um pouco de seus braços.


Não faria isso com você... – vi seus lábios tremerem levemente. Engoli em seco a saliva, morrendo de vontade de colar meus lábios aos dela. Droga. – É bom saber disso... – pisquei, o clima esquentando mais uma vez. Ela lambeu discretamente os lábios, me levando a loucura. Se controla, merda. – E aqui no Brasil, eu só tive dois namorados. O primeiro foi passageiro, ele adorava contar vantagem porque estava com uma gringa. E o tempo todo queria testar o inglês dele. Acho que estava comigo somente por isso – falou pensativa, mas depois sorriu. – O segundo, bem, esse quis abusar de outras coisas... – fez uma leve careta. – Ele era rude e machista, sabe? Não merecia minha atenção. Nem sei como aguentei tantos dias. Depois dos dois fracassos, não me concentrei em namorar, e Marcela sempre me cobrava alguém para me fazer sorrir mais e ser feliz. Entretanto, relacionamentos nunca me fizeram falta. Acho que namoro é mais que isso, entende? – seus olhos brilhavam com tanta intensidade que me perdi neles. – São complicados – lembrei-me dos poucos que tive.

– E você, quanto tempo está solteiro? Tinha me dito que fazia um tempo. Foi por opção sua? – questionou risonha, e me concentrei em seus lábios. – Há dois anos – aliás, longos e dolorosos anos, mas não mencionei isso.

Tive poucas

namoradas, mas saí bastante – ela mordeu os lábios e meus olhos não conseguiam desviar dali. – Tive alguns problemas dolorosos com o amor, então hoje apenas escrevo sobre ele. – Poderia me contar algum? Chega de falar só de mim – espremeu seu corpo um pouco mais no meu. – Quer que eu vá para o outro sofá? – ela fez que não, sorrindo. – Bom, aos meus dezoito anos, eu perdi tragicamente alguém... – ela tinha uma forma de arregalar os olhos que sempre me lembrava o meu amigo Rafa. – Sinto muito – seu olhar foi tão complacente que minha mão foi involuntária até seu rosto, tocando-lhe as bochechas em carinho. – Eu também, foi algo que me aterrorizou, sabe? Eu estava apaixonado por ela, e a vi morrer... – minha garganta travou, eu não curtia muito falar sobre isso. Era doloroso. – Meu Deus, você deve ter sofrido tanto... – sua reação foi sincera.

– Confesso que sim, sofri muito. Acredito que estávamos no lugar certo, mas no momento errado. Foi um acidente de carro... uma fatalidade. – Como conseguiu superar? – questionou, sentida.

– Minha mãe. Ela era uma mulher forte, crente numa fé inabalável. Ajudou-me a levantar e não desistir do amor – me emocionei ao lembrá-la. – Ela me fazia rezar junto à ela todos os dias, lia a bíblia para mim e contava feliz algumas histórias de amores e superações. Claro, inventava tudo, mas deixava meu coração um pouco mais leve... E algum tempo depois, foi ela que faleceu.


– Oh, Gabriel... – seu abraço foi confortável. O recebi com muito amor. – Sinto tanto... – Obrigado. Eu sinto muito a falta dela ainda. Foi muito triste. Ela morreu de câncer. Foi muito sofrimento, desgastante para todos nós da família. – Que triste, mas tenha certeza de que hoje ela está ótima e com muito orgulho de seu filho – falou, sendo muito gentil. Toquei suas mãos. – Bom saber que ela não deixou você desistir do amor. – Foi difícil, passei quase quatro anos fechado para qualquer possibilidade. Quando finalmente consegui um pouco de paz, até cheguei a namorar. Pensei que estivesse me apegando novamente, mas ela me deixou no dia em que minha mãe morreu, acredita? – ao lembrar disso dava até vontade de rir. Parecia até loucura. – Mentira?!

– Ela terminou através de uma carta, acredita? Sentiu-se no direito já que eu escrevia – bufei, arrogante. – Disse que ficaria com um primo, na época nem fui atrás. Mas outro dia a encontrei e ela está namorando uma mulher! Vai entender. – Ai, meu Deus! Que mundo louco – soltou um gritinho encantador.

– Muito louco! Só que na época em que fui deixado, me concentrei na escrita, e foi quando criei uma fanpage, a Ponto G. – sorri, arteiro. – Hmm, bom nome! Vou procurar para ler.

– Cuidado, hein! Tem coisas perigosas ali que pode descobrir sobre mim – falei baixinho, perto de seu ouvido, e ela vibrou, agitada. – Gostaria de ler algo seu. Estou curiosa desde que nos encontramos pela primeira vez e me disse que era escritor. – Qualquer dia eu te empresto algum manuscrito, porque na internet encontrará apenas pequenos trechos, poemas ou inspirações do momento. Os meus livros parecem nunca estar prontos para os leitores, então os escondo em meu baú! – Vai ser maravilhoso saber o que pensa, e ler o que escreve. A curiosidade não me deixa.

– Será maravilhoso saber sua opinião. Qualquer dia posso ler para você, se me permitir. – É claro que aceito. Já estava tarde quando saí da casa dela. Era quase meia-noite! Conversamos tanto, rimos e combinamos em tantas coisas que nem acreditava. O melhor foi ouvir o que ela me disse ao nos despedirmos: – Eu amei te ver, Gabriel... – anunciou, muito emocionada.

– Quanto mais eu te conheço, Char, mais te admiro – e te quero... Não rolou nada. Nenhum beijinho na boca sequer, mas a cumplicidade que tínhamos um ao outro era divina. Muito melhor do que qualquer coisa que pudesse estragar o momento. Sem dúvidas, um beijo seria muito bem-vindo, mas acho que se tivermos que fazer isso,


acontecerá naturalmente. Sua boca pedia isso o tempo todo, mas jamais invadiria o seu espaço. Estava na casa dela, e fazer algo grosseiro não estava em meus planos. Eu queria conquistá-la, e acho que estava fazendo exatamente isso. Ela pensaria a noite toda em mim, e eu nela. Abri a porta de casa e Madruguinha pulou em meu colo, quase me fazendo cair no chão. Uma vertigem repentina me atingiu, e precisei me apoiar no beiral da porta para não cair. Ele, preocupado, lambeu o meu rosto assim que despenquei no sofá. – Calma, amigão, tô bem. Foi só uma tontura... Você é agressivo demais, vá com calma – brinquei com sua orelha, e ele somente me fitava com um leve sorriso no rosto, como se pedisse desculpas. – Eu estava na casa dela, ah, amigão, ela é maravilhosa... Relaxei melhor o corpo e uma preguiça me acometeu. Talvez dormiria ali. Quer dizer que ela era virgem. Toda pura. Somente aguardando o momento certo... Seria comigo? Não consegui pensar muito mais, pois uma dor de cabeça, intensa e agonizante, invadiu os meus pensamentos, fazendo-me perder o foco e a atenção de tudo ao meu redor. Tentei escutar qualquer ruído, mas o mundo se calou... Dentro de mim veio um barulho oco de tudo ruindo, se quebrando... Droga! Somente fechei com força os olhos, porque foi inevitável, e senti tudo girar... Então tudo escureceu.

Acordei no sofá. A dor que me atingiu ainda persistia. Não sabia quanto tempo tinha passado. Estava ainda pior, como se tivesse uma tonelada nos ombros. Levantei e fui me arrastando e até o banheiro. Apanhei algumas cápsulas de remédio e enfiei na boca. Abri a torneira e fiz uma concha com as mãos. Engoli um por um. Logo estaria bem. Fiz um café da manhã bem caprichado, quase um almoço, porque vi, assustado, no relógio, que já eram onze horas da manhã. Peguei meu caderno e me sentei perto da janela. O tempo havia mudado, um vento frio junto a um sol ardido, que insistia em aparecer de vez em quando. Fitei a movimentação lá embaixo e comecei vagarosamente a escrever. Rabisquei os momentos que tive com ela, só para não esquecê-los. Eu precisava contar tudo que sentia ao lado dela. A magia que acontecia no nosso corpo ao estarmos juntos. Depois de escrever bastante, voltei a me deitar no sofá, para ver se a dor cessava. Mais tarde iria revisar alguns textos e passá-los para o computador. Era quase perto das sete quando voltei a levantar, e ouvi o portão abrindo. A campainha avisou somente para que eu me preparasse, mas sabia que Rafael entraria em segundos. Aguardei sentado no sofá, com a cara amarrotada. A porta abriu e Madruguinha correu para pular nele. – E aí, dogão! – Rafa agarrou o cachorro e começou a dançar com aquela bola de pelo gigante.

– Dois pra lá, dois pra cá! Isso mesmo, amigão. – E aí – ele não tinha me visto, já que as luzes estavam apagadas. Ele se assustou um pouco, deu para notar em seu rosto. – Você está legal? – fiz que sim.

– Tem certeza? – acendeu a luz da sala, então cobri meus


olhos. A claridade era ruim quando a cabeça ainda explodia. – É só enxaqueca, não esquenta. O que manda? – confortei-o, mesmo ele não acreditando.

– Nada, só fechei o escritório e queria saber se meu amigão quer beber... Mas pelo visto não! Ressaca de ontem? – essa era só mais uma tentativa dele de tirar algo de mim. – Só bebi chá – dei de ombros, sorridente.

– Cara, que coisa de velho! – brincou. – Puta merda, estava com ela? – sentou-se no sofá e Madruguinha tentava chamar a atenção dele para brincar com o seu osso de pelúcia. – Pega lá, dogão! – ele acertou o osso em algum lugar e o cachorro saiu quicando como uma bolinha. Ele não tem noção alguma do tamanho, pensei quando ouvi alguma coisa caindo na cozinha. – Madruguinha! Sem quebrar nada, porra! – gritei rindo, e o bicho veio com o rabo entre as pernas, mas com o osso pendurado na boca, entregando-o novamente ao Rafa. alguma coisa, você vai pagar! – ameacei, mas nenhum dos dois me deu atenção. – Sem quebrar nada, dogão! – jogou de novo. – Conta tudo, porra.

– Se ele quebrar

– Passei o dia com ela, conversamos quase sobre tudo. Mas foi só isso. – Só isso? Como dois velhos de noventa anos? – disse, inconformado. – Rafa, ela é diferente. Não posso ultrapassar limites. Aliás, nem deveria estar fazendo tudo isso, para começo de conversa – dei de ombros e o ouvi bufar. – Não se cobra demais – falou muito sério. – Está fazendo exatamente o que merece. Eu quero ver você feliz, entendeu? – Sim, mas ela é demais para mim. Sério, nos damos tão bem que me assusta.

– Vocês precisam de alguma coisa divertida. Que tal irmos para o casarão? – ofereceu, e uma ideia me chegou... A ver com ele e com Marcela. – Sério, sua mãe não se incomodaria?

– Eles vão viajar, cara. E ela pediu para eu tomar conta, então já sabe... tá liberado! – concluiu animado. – Pensei que poderíamos fazer um churras por lá, que tal? – Ela é vegetariana, tinha comentado isso, não? – ele revirou os olhos brincalhões. – Tá, pode ser churrasco para gente e folhas para ela! – gargalhou. – Ela te socará quando ouvir isso! Posso preparar algumas coisas boas à ela, farei o convite, vamos ver o que ela acha. – Ótimo, só me avisa certinho, porque a casa já está liberada – achei estranho de não ter comentado em levar a Marcinha. Ainda bem, porque tinha outros planos para ele. – E a Marcinha...? – questionei com medo.

Verei alguém para levar, não estou afim de tomar toco na frente dos outros. Ela está impenetrável, cara! Como o meu coração aguenta tanto desprezo? – sua voz diminuiu. E o meu coração apertou.


– Já falei para você cair fora. Qual é a parte que não entende? – resmunguei, nervoso. – Não aguento! Ela só me desgasta emocionalmente. Só que cansei, Gab, cansei de verdade. Quero alguém que esteja comigo. Que sinta prazer de ter minha presença. Alguém alegre, divertida, que possa rir de minhas besteiras. Tenho quase trinta, mas sou um menino de treze que adora rir! Sou uma porra de um cara responsável demais durante a semana, então mereço rir e querer uma mulher que faça o mesmo. É pedir demais? – resmungou, exausto. Fitei seus olhos coloridos, cansados de querer alguém que não o queria. Aliás, não o merecia. Ele era bom demais e eu acho que encontrei alguém tão boa quanto ele. Ver a alegria sincera da Marcela ao conversar com Charlotte fez com que enxergasse além. Já podia imaginá-los juntos. E faria o possível para uni-los. – Seus dias de felicidade estão chegando, meu irmão! Pode ter certeza.

O que você está dizendo? – ficou com o corpo ereto e com aqueles olhos vibrantes e curiosos. – Que eu tenho a solução para os seus problemas. Confia em mim? – questionei rindo, e indo em sua direção. Meus planos teriam que dar certo. – Cegamente! – agitou-se. E meu coração voltou a ficar feliz por ele.

– Ok, pois abra os olhos e o coração, você irá se surpreender.


Charlotte Terra dos Sonhos Se meu corpo tivesse voz, eu não negaria Tocar, fazer amor, te provar Se meu corpo dissesse a verdade, amor, Eu faria exatamente o que eu quisesse ~Demi Lovato- Body say~

Minha curiosidade não cessou até que eu fosse as redes sociais e visse o tanto que ele conseguia ser perfeito em seus textos. Decidi aproveitar a noite e conhecer tudo sobre Gabriel. Desbravar aquele mundo que emocionalmente ele dividia com a gente, com palavras profundas e sentimentos exposto de uma forma limpa e sincera. Assumo que nunca havia sentido tanto as palavras, a força que exercia ao escrever cada frase, a explosão poética e erótica numa mesma linha. E a única coisa que consigo expressar que é estou completamente apaixonada pela escrita dele – na verdade, por ele inteirinho. Gabriel tem uma sensibilidade incrível ao escrever, e por mais que eu me convença de que nunca tínhamos nos vistos antes, era como se eu o reconhecesse de alguma forma. Era como se estivéssemos vivendo um reencontro, com novas oportunidades. Comecei a ler os seus textos assim que ele foi embora, e não consegui dormir até ler toda a fanpage. Agora sabia os seus gostos, o seu sabor, as suas vontades... E como ele tinha muitas vontades. “A melhor recordação será seu cheiro apimentado Aquela doce brisa do inverno inusitado Sentirei nos detalhes o perfume almiscarado Deixando-me a todo instante com o corpo excitado...”

Esse era apenas um dos trechos dos poemas carregados de verdades, os textos com um nível incrível de erotismo, meu corpo estava tão inflamado de vontade que não cabia em mim. Era como se ele tivesse sussurrado tudo aquilo no meu ouvido... “Toquei cada músculo de seu corpo vibrante Apalpei cada vale delirante Estremeci ao mero contato provocante Subindo aos céus num rompante...”

Deitei me contorcendo, ao pensar em todas as coisas sensuais que um homem como ele era capaz de dizer a uma mulher somente para lhe satisfazer, sem penetrá-la. Minha mente fantasiou por um breve instante, querendo colocá-lo em minha frente e mostrar os mais diversos momentos


que imaginei com ele. “Sua provocação me enfraquece Seus olhos me aquece Sua chama me transborda E seu desejo me acorda...”

Dormi inquieta, cheia de desejos espalhados pela mente fantasiosa e pelo corpo vulcânico. Sinceramente, Gabriel era o primeiro homem que eu me via despida, rendida. Meus ex-namorados até tentaram, sem sucesso. Um deles, o Vinícius, inclusive até tentou forçar a situação, sendo rude e insistente enquanto eu só dizia não, mas felizmente nada aconteceu. E hoje agradeço por isso. Talvez só agora tenha encontrado o homem certo. Mexi no celular para ver as horas, e ao abri-lo, ainda estava na página Ponto G. E Gabriel havia acabado de postar algo. Fui ler, curiosa. “Essa sua boca me convida, no mais perfeito mel, eu viajaria... Quero provar mais do que o seu doce sabor, quero te lambuzar com o meu viciante ardor... E quero mais, quero te satisfazer com o mais pecaminoso prazer...” Meu corpo se contorcia ao ler aquilo. Era uma mistura de arrepios, desejo e tesão a me enlouquecer. Eu só queria desfrutá-lo. Não conseguiria me concentrar. Outra frase surgiu, fazendo-me ficar em brasa ao imaginá-lo digitando e fantasiando seus mais obscuros desejos. “O desejo enlouquece O segredo desvanece O sabor aquece O suor acontece O beijo prazeroso O toque deleitoso O sussurro melodioso O gozo gostoso...”

Tinha de fazer algo. Eu era uma virgem, é um fato, mas sabia me dar prazer. Nunca me neguei relaxar diante das exigências do meu corpo. Fui até a cômoda, abri a gaveta e peguei o embrulho rosa que estava junto com as calcinhas. Puxei o fitilho e sorri, alegre. Fitei a peça pequenina, brilhante, que operava milagres em mim. O formato de borboletinha me fez rir por um momento, já que uma peça tão delicada poderia exercer tanta potência com o meu âmago. Fechei a janela, acendi três pequenas velas coloridas e perfumadas que estavam espalhadas pelo quarto. Apaguei a luz e o liguei, apenas o leve zumbido a vibrar pelo ambiente. E foi assim que o meu mundo se desfez. Ao senti-lo me tocar, gemi, contendo um grito. Era muito tempo desejando de longe, era muita


pressão para aturar... Eu precisava beijá-lo. Ah, como eu queria a boca dele nesse momento em mim. Eu precisava dos lábios dele para me salvar do mundo escuro em que vivia, sozinha. Ahhh... Atingi o orgasmo tão rápido que nem acreditei, falando o nome dele. Gabriel.

O dia seguinte passou muito rápido. Tinha reservado à tarde para mexer nos diários. Tinha trazido eles comigo há dois anos já, mas não tive o prazer de mergulhar nas linhas tão antigas e sentimentais de minha antepassada. Não que eu tenha deixado de folheá-lo por falta de curiosidade, mas sim por falta de tempo. Sentia que deveria fazer aquilo no momento que estivesse pronta, pois sabia que mergulharia naquelas páginas de forma inexorável. Imaginava que aquelas páginas poderiam conter algo incrível, parte do passado da minha família que eu ansiava por descobrir. Na capa marrom desgastada ainda estavam gravadas as iniciais de Izobel e abaixo a data do diário (I.S.B.C – 1912). Depois de alguns anos que eu os achei em um baú no porão do castelo, Lady Shelly me disse que ela havia escrito um para cada ano, depois que completou quinze anos. Era seu meio de se distrair, contar suas aventuras e verdades. Foram seis diários completos, mas, infelizmente, quatro deles estavam perdidos. Abri uma página do único diário que estava aberto e me arrepiei com a frase que dava início ao texto: A fantástica e apavorante viagem no Titanic. Assim, me dei conta de quanto amor e desastre cercou a vida dela. Ela viveu uma fatalidade que entrou para a história, e seu ponto de vista, tão pessoal e particular, estava ali, entre as minhas mãos. Além da vovó, eu seria a única a ter acesso. Em uma das conversas com a Lady Shelly, ela fez questão de salientar era que eu sou uma cópia de Izobel. Dizia até com uma certa arrogância que eu tinha o mesmo gênio, rebelde. Sinto que, como eu, ela tinha amor para transbordar, força para acreditar na liberdade feminina e amava todos à sua volta. Vovó só conseguia enxergar aquilo como rebeldia. Ninguém tinha culpa se ela não permitia o calor do amor em seu coração frio. Foi por isso que ela se tornou o que era, uma pessoa amargurada e intragável. Finalmente abri as primeiras páginas amareladas, com medo até de rasgá-las sem querer, de tão frágil que aparentavam estar. Poxa, aquilo ali tinha mais de cem anos! E como todo diário, ela começava com o clássico “querido diário.” Izobel começou com banalidades, dizendo o quanto o dia estava ameno e agradável. Que naquele dia, os criados estavam alegres e o seu pai amoroso, que tudo aquilo que gostaria de fazer estava se realizando. Ela estava feliz por ter conseguido uma passagem e emprego para um tal de Ethan Novac Kite no navio. Ele era um dos criados do castelo e, ao falar sobre ele, Izobel parecia ansiosa, a letra corrida, como se estivesse escrevendo com pressa, talvez com receio de ser surpreendida. Era 25 de março, menos de 20 dias da primeira e única viagem do Titanic. Izobel continuava a falar de Ethan. O rapaz ficaria na parte econômica, e trabalharia no bar, servindo as pessoas, inclusive ela mesma. É notável, conforme as palavras vão enchendo as


páginas o quanto ela imaginou estar perto dele ali, naquela viagem, longe dos olhos da sociedade que poderia julgá-la. Quanto mais eu lia, mais conseguia entendê-la. Aquele havia sido realmente o seu grande amor. Uma paixão proibida de certa forma, já que era um criado e ela uma Duquesa. Entretanto, ela não havia desistido de seu amor e ainda fez de modo que pudessem estar lado a lado em uma viagem incrível. Bem, como sabemos, não tão incrível assim. Na mesma hora decidi que assistiria o filme novamente e choraria demais. Eu adorava tanto assisti-lo e nem imaginava que havia uma antepassada minha ali, naquele navio que afundou... Mas por um lado positivo, ela sobreviveu. Havia sido uma das jovens que entrou num daqueles botes porque tinha recursos, porque era uma Duquesa. Caso contrário, estaria no fundo do mar com todas aquelas almas tristes e despedaçadas. Entretanto, lembro-me de lady Shelly ter mencionado que ela morrera logo depois, doente. Diziam que ela tinha ficado tão triste, tão traumatizada que morreu de tristeza e a doença só agravou seu estado, deixando-a sem saída. No meu íntimo, depois de ler suas sutis revelações de sentimentos por Ethan, penso que ela morreu de amor. Logo em seguida ela escreveu, com toda a dor do mundo, que aquele que fazia os seus olhos brilharem havia perecido. Tinha ficado preso em um dos cômodos da classe econômica e ela não o encontrou... E mesmo que tivesse feito aquilo, eram somente as mulheres, entre os de classe mais baixa, que conseguiram entrar nos botes salva-vidas. Ela não teve chance sequer de se despedir. Pelo menos lhe restaram as lembranças. Izobel e Ethan, assim como Jack e Rose, tiveram o seu último momento... Onde puderam expressar o seu sentimento um pelo outro. Parecia até mesmo ficção, eu pensei ao ler aquilo, mas meu peito se apertou ao pensar em quantas histórias de amor foram destruídas naquele dia fatídico? Quantas histórias foram perdidas, deixadas de serem contadas? Fiquei mais de quatro horas relendo e folheando cada página cuidadosamente. Chorando com pequenas e sinceras declarações. Quando terminei, voltei a atenção ao outro diário, que estava fechado com um pequeno cadeado. Nunca havia reparado como o pequeno objeto parecia novo, em contraste com o caderno. Quem será que havia feito aquilo, me perguntei, analisando a peça cercada de mistério. Levantei atrás de algo que pudesse abri-lo. Achei até algumas minis chaves, mas não consegui encaixá-las. Portanto, peguei uma lixa fina de ferro que estava numa caixa improvisada de ferramentas. Eu era péssima com isso, e foi Marcela que me ajudou a comprar tudo. Subi novamente animada, ansiosa para ver o que estava escrito ali. Fiquei mais de meia hora, suando e com os dedos trêmulos de tanto deslizar a lixa para abrir o pequeno cadeado. Mas finalmente consegui. As folhas amareladas ganharam vida novamente diante de mim, e deslizei delicadamente os dedos tímidos e receosos por aquelas letras firmes e apaixonantes. Esse diário era de 1911, o ano que Ethan e ela se viram apaixonados. Dizia livremente e com coragem quanto o amava e o admirava. Seus passeios ao jardim para vê-lo cuidar das rosas e girassóis. Quando Ethan a levava até o centro para visitar um boticário, o quanto Izobel se perfumava para que ele se inebriasse com o cheiro dela até chegarem ao castelo. Eram simples


gestos que a faziam feliz, junto ao olhar do moço apaixonado preenchendo o seu coração. A cada página que devorava, minha paixão por eles aumentava. Queria tê-la conhecido. Amaria ouvir seus segredos, ser sua confidente... Fazer parte daquela época tão pura, mas também cheia de regras. Assim que levei ao peito o diário, suspirando com os olhos inundados de amor, algo caiu de dentro. Procurei no chão, mas não encontrei. Levantei e puxei a cadeira, e nada. Que estranho... Fitei abaixo da escrivaninha e nada. Olhei para o pequeno sofá no canto, só podia ter caído embaixo. Me abaixei, e ali estava. Eram dois papéis rígidos, mas bem antigos, amarelados como as páginas do diário. Era uma espécie de mini envelope, e havia algo dentro. Puxei com cuidado. Os meus dedos tremiam ansiosos. O que estaria ali dentro? Algo revelador ou secreto? Sentia o coração bater na garganta. Sentei-me na poltrona e deixei o pesado diário no colo. Abri o envelope e puxei o papel. Eram fotos. Na parte de trás, a que vi primeiro ao puxá-la, estava somente as iniciais e o ano, os mesmos do outro diário. Foi por isso que deduzi que eram fotos. Meu peito se apertou: eu iria conhecer finalmente Izobel e Ethan, dar rosto àqueles que só conhecia através das palavras! Que demais, mal podia acreditar que estaria com a foto deles, que daria uma identidade ao amor que afundou no Titanic! Que toda aquela paixão ardente ficaria para sempre dentro do meu coração. Demorei alguns minutos para tomar coragem e ver o que era. Poderiam ser eles, ou poderia ser apenas um cartão, para minha total decepção. Deixei toda surpresa tomar conta de mim, e virei com cuidado a primeira foto. A que, pelo que foi escrita atrás, era de Izobel. Quando finalmente a fitei, meus lábios se arreganharam de espanto. Não era possível o que estava acontecendo em minha frente. Não podia ser verdade! Lady Shelly havia afirmado várias e várias vezes o quanto éramos parecidas, mas aquilo ali era demais, irreal. Toquei com mais cuidado a imagem da fotografia, o rosto idêntico ao meu. Suas feições suaves e o penteado da época. Imaginei o quanto seriam coloridas suas roupas, já que a foto era em preto e branco. Sorri, com as lágrimas escorrendo no rosto. Levei mais uma vez a foto ao peito, sentindo o coração bater e se rasgar com a verdade. Éramos tão parecidas por ser da mesma família, e meu coração encheu-se de orgulho, por saber o quanto ela foi maravilhosa. Eu me espelharia nela. Sempre. Toquei finalmente a que estava em cima do diário, embrulhada junto a um papel que parecia uma carta. Deveria ser mais uma dela, mas ao desdobrar, vi num canto... com uma letra muito pequena e fina, estava escrito E.N.K 1912. Era tão fino e delicado que quase não dava para notar. Desvirei a pequena foto e tudo embaçou. Já havia chorado o suficiente, mas conhecer o amor de Izobel fez meu coração falhar. Um moço de porte atlético e viril. Olhos firmes e sorriso sincero. E... Ai, meu Deus, não! Será que aquilo era verídico? Ver aquela foto doía meu coração, mas também me alegrava de uma forma completa. Eu o conhecia. O coração sambava dentro do peito, era muita coisa para eu lidar sozinha. Gabriel tinha de vir para cá, o mais rápido possível. Eu precisava contar tudo que estava lendo, sabendo e vendo. Era uma loucura, mas ele precisava acreditar naquilo junto comigo. Não poderia surtar sozinha,


quando ele estava no mesmo barco que eu... Literalmente! Ei, espero que veja essa mensagem o quanto antes. Preciso que venha na minha casa agora, se possível. Estarei te aguardando. Abs, Char.

Agora tinha de esperá-lo responder. Tentei não me ater nisso, então devorei as páginas seguintes atrás de mais informações. Ela contava sem medo o seu amor, as declarações que jamais imaginei existir. Era um amor puro, um sentimento que não deveria ser contido, mas foi. Naquela época o amor não era um privilégio. Aconteceu algo? Fiquei preocupado. Não estou fazendo nada, posso ir agora, se precisar mesmo.

Corei sem saber ao certo. Por favor, venha. Quero te mostrar algo urgente.

Cada nova folha que se movia na minha frente era transformada pelo amor. Fazendo-me ver com tanta clareza que chegava a me assustar. Estou assustado. Vc tá bem? Está machucada? Char, estarei em 10 min aí. Bjs.

Gabriel sempre foi muito gentil, amável e carinhoso comigo. Não precisa correr. Estou bem, é só uma coisa legal que descobri. Fique calmo.

Ele apenas me enviou um ok, e mesmo sendo uma curta mensagem, pude sentir seu alívio. E meu peito se encheu de amor. Quando somente foquei em aguardá-lo, ouvi meu celular vibrando novamente, meu coração acelerou ansioso por ter mais esse momento com Gabriel. Destravei o aparelho, mas quem travou literalmente foi com o que estava escrito na mensagem... Agora tá toda solta? Quem é seu mais novo amiguinho? Tá te comendo, Char? Eu estou te observando... cuidado!

Meu corpo todo entrou em pânico! Um medo de verdade se apossou em meu coração. Vinícius sempre se mostrou possessivo e rude, mas ter a capacidade para fazer isso ia além do racional. Que cretino! Pensei em escrever um monte e xingá-lo de todos os nomes, mas não dei esse gostinho. Apenas o bloqueei, mas torcendo para que nada disso fosse verdade. Mas a única coisa de que não deveria duvidar, é de que ele fosse um doido, e isso só mostrava seu atrevimento. Nem sei se posso contar para Gabriel, não quero pirar antes de qualquer coisa. Ainda trêmula por tudo que estava acontecendo, voltei a pegar o diário de 1912. Fui até o fim e percorri com os olhos as últimas folhas amareladas, escritas com uma letra hesitante, talvez escrita as vésperas da morte.


Notei que a última página estava arrancada, então me lembrei que a foto de Ethan estava embrulhada num papel parecido. Peguei a folha dobrada e ao ler as palavras finais de Izobel, meu mundo desabou e o coração estilhaçou-se em mil pedaços. Meus olhos não queriam mais ler, apenas se desfazerem em lágrimas. Estava querendo um abraço, mas estava sozinha, sem alguém para me confortar dessa terrível realidade... “Meu querido e último diário... Estou morrendo. Eu sei disso, pois é uma opção minha, já que mais nada me prende aqui. Perdi meu amor, e não pude sequer tê-lo de verdade ao meu lado, como meu companheiro. Ethan era um homem bondoso, sincero e gentil. Não havia sequer um espaço de maldade em seu maravilhoso coração. Meu amor, onde estiver, me perdoe por tê-lo levado para a morte. Não imaginei que aquela coisa afundaria e te deixaria para sempre no fundo do mar... Eu queria estar mergulhada em puro amor contigo. Ah, meu eterno Kite, consigo me lembrar de seu doce e arteiro sorriso de moleque. A sua singela tatuagem de pipa (que o tornou meu famoso fora-da-lei) que fez antes de viajarmos com a minha cor favorita: vermelho. Dizia sem medir esforços que eu era seu mundo, que fazia você flutuar como uma pipa no mais lindo e limpo dos céus. Você foi maravilhoso e eu já não sou... Tornei-me impura por conta de um monstro. Meu primo veio nos visitar... Era um casamento arranjado, tenho certeza. Papai não perderia tempo, já que as más línguas mencionavam que eu havia me deitado com um homem. E eu nunca quis manchar sua índole. Você para sempre será puro, eu não. O infeliz do meu primo soube dessa nossa relação, e numa tarde que estávamos sozinhos, ele me prensou numa sala escura... Disse coisas nojentas em meu ouvido... Falando que queria o meu sabor de mundana... Que quando casássemos eu seria a sua meretriz na cama. Meu doce Kite, não consegui evitar, não pude sequer gritar. Ele levantou a barra do meu vestido e investiu pesado contra meu corpo... Me senti tão suja, tão usada, que eu preferia morrer a me tornar dele. E por toda reza, Deus me ouviu. Durante alguns dias frios, fiquei na janela, tomando a friagem contra meu corpo desnudo. Tentando de alguma forma me limpar. E então, fiquei doente. Disseram que era tuberculose, mas meu coração sabia, era tristeza e desamor pela vida. Eu não teria um mundo sem você, e eles não me teriam para fazer seus joguinhos nojentos. Sinto muito não ter sido a mulher perfeita, mas também eu não seria a imperfeita de alguém. Não mesmo. Não depois de ser abusada, violada, desacreditada. Eu só preciso de descanso, eu só preciso vê-lo... Que assim seja, amém.”

Ao terminar de ler, já não havia lágrimas. Estava derrotada e violada, assim como ela foi. Tudo em mim gritava para alguém me salvar, e foi quando a campainha tocou. A salvação estava ali, só para me tirar da escuridão. Corri até lá embaixo, quase sem força, mas sentir sua presença me renovou um pouco. Ao abrir a porta e correr pelo quintal, ele mesmo quase desmoronou ao me ver. Destranquei o portão e ele puxou o ferro pesado, enlaçando logo em seguida as mãos quentes e necessárias em volta do meu corpo. Senti seu cheiro, e tudo estava em paz. Ele se tornou o meu lar. – O que está acontecendo? Por que está chorando, Char? – aquela era uma das poucas vezes que me chamou pelo apelido. Ainda estava enroscada a ele em um abraço confortável e infinito. Sua camiseta vermelha já encharcada com minhas lágrimas. – Vamos entrar, preciso te mostrar algo para contar o que está acontecendo – num movimento delicado, Gabriel puxou meu rosto choroso, fitando meus olhos carregados de verdades, em comparação aos dele, gentis. Ele colheu com os lábios algumas lágrimas, saboreando o gosto que saia de dentro do meu coração. Sua boca estava tão próxima, que quase nos entregamos. Ele desenhou um caminho das bochechas até meus olhos. E depois permaneceu na testa, transmitindo


total confiança. – Quero saber de tudo, Char. Subimos sem dizer qualquer palavra, mas Gabriel não havia separado sua mão da minha, o que me deu um conforto maior. – Estava mexendo nesses diários, é de uma prima do meu avô. Ela morreu no ano de 1912... – funguei ao dizer as primeiras palavras. – Interessante, prossiga.

Ela teve um grande amor em sua vida, mas por ser Duquesa e ele o seu criado, já pode imaginar que não deram certo – dei levemente de ombros, e fitava seu rosto bonito ao prestar total atenção. – Época e doutrina idiotas – cuspiu, meio furioso.

– Pois é, mas não é só isso. Eles embarcaram no Titanic – mencionei emocionada. – Uau... – falou surpreso. – Nossa, morreram lá? – questionou tristonho, segundos depois ao se tocar do que tratava. – Só ele. Ela morreu poucos meses depois, de tuberculose. Bem, é o que falaram na época, mas ela conta detalhadamente que não foi. Depois quero ler para você, já que está em inglês – ele assentiu. – O que, em toda essa história, te deixou tão abalada?

– Esse é o ponto que queria chegar, mas precisava te contar alguns pequenos detalhes para se ambientar com a história. Contei mais algumas coisas, e Gabriel achou tudo incrivelmente fascinante. Acho que com sua cabeça de escritor, tudo fervilhava de emoções e inspirações. – Minha nossa, isso é fascinante. Toda essa declaração. Que amor intenso e eterno!

É nisso que quero chegar. Achei as fotos dos dois em um dos diários. E quero que você analise com muito cuidado, porque o que você verá é chocante. Está preparado? – Isso agora está me assustando!

– Então olhe isso, e a palavra assustado terá um novo significado... Gabriel tomou em mãos as fotos que estavam nas minhas, trêmulas. Observei sua feição, e ao virá-las para ele. Ansiedade e curiosidade duelavam dentro da gente. Era assustadoramente encantador. – Charlotte, isso é impossível... – olhou com mais cuidado cada foto, virando e aproximando do rosto. – Eu acho que não, olhe atrás delas, a data e as letras. São de 1912 mesmo. Não tem como ser impossível, é real. – Como pode existir algo assim? – cheguei mais perto dele e toquei suas mãos, cheia de sentimentos.


– Não sei bem o que dizer sobre tudo isso, Gabriel, de verdade, mas sentir essa emoção ao vêlos parece tão certo... não é? – falei baixinho, fitando a foto junto dele. – Somos a cara deles! É nossa foto só que de cento e poucos anos atrás! Sou eu e você aqui, tem noção? – ele resmungou baixinho, quase sem acreditar. – Esses são o Ethan e a Izobel. E não entendo como somos tão parecidos com eles. Assumo que, quando a gente se conheceu, me senti estranhamente confortável ao seu lado. Talvez venha daí essa confiança que tenho por você, e todo seu respeito por mim – disse, apontando para as fotos. – Gabriel, isso pode ser real. Podemos ter vivido outras vidas e ter nos reencontrado, infinitas e infinitas vezes. – Só que não deu certo com eles – falou muito bravo, e se levantou. Fiquei sem entender, mas não quis ser intrusa. – Mas podemos tornar isso diferente – acho que eu tentava me convencer. – Há tanto que devemos conversar, não é mesmo? – tentei ser breve e suave, para não assustá-lo. – Eu não teria tanta certeza disso. O destino por muitas vezes é cruel.

– Não pense assim. Estamos aqui, sim? – ousei em dizer com a voz suave. Estava com medo, tudo aquilo era uma loucura, mas meu coração, minha alma dizia que era o certo. – Podemos tentar entender ou simplesmente esquecer tudo. Eu só não sei se consigo te esquecer... – fitei seus olhos curiosos, repletos de vontade, e desejei que ele me beijasse nesse momento para marcar um novo reinício. Mas pelo contrário, Gabriel se afastou. Meu coração se contorceu, sem entender essa recusa. – Desculpa, é muito para raciocinar, mas podemos pensar em tudo e conversar. Só que não agora. Preciso ir... E ele foi, sem nem olhar para trás. Não impedi, mas o meu mundo foi com ele.


Rafael Um anjo do céu Que me escolheu Serei o seu porto Guardião da pureza ~Maskavo – Um anjo do céu~

Fiquei por mais de cinco minutos quieto. Sem entender ao certo o que fazia ali ainda. Ela tinha me dado o maior toco da história, falado que eu deveria deixá-la em paz porque era romântico demais e que ela era do mundo! Porra?! E pior, agora eu permanecia como um cachorro infeliz, olhando com cara de dó para ela. Eu sou tão otário que não compreendo o porquê não fui embora ainda. Se o meu amigo souber disso, vai primeiro me socar e depois irá me ajudar a achar a minha dignidade que perdi por conta de um amor desse, de tantos anos jogados fora. – Márcia, sério, eu cansei! Sabe isso aqui? – apontei em ziguezague nós dois. – Não acontecerá mais – ela se sobressaltou com o meu comentário. – De verdade, agradeço por me mostrar quem é de verdade – concluí meu desabafo acumulado, e quando finalmente consegui dar as costas, ela segurou o meu braço. – Espere, eu não quis dizer aquelas coisas. Rafa, você é um cara bacana, mas não somos almas gêmeas, sabe? – seu sorriso continha algo de ordinário. – Nosso sexo é perfeito, mas não posso me amarrar, entende? – mordeu os lábios vermelhos, toda insinuante. Aquilo era humilhante demais para mim. – Agradeço demais a sua atenção, mas estou em outra... – e poderia ficar para sempre, se dependesse de mim. – Gato, eu gosto de praticar coisas que você jamais toparia aceitar. Acredite em mim, será melhor. – Ah, nessa parte eu concordo plenamente com você, será muito melhor agora minha vida sem você. Adeus – dei as costas, sentindo-me liberto. – Quando quiser voltar, só para se alegrar, estarei por aqui... – deixou um beijo no meu queixo. E minha vontade era de mandá-la ir se foder. Como eu pude ser tão incrivelmente enganado?! Será a insistente bondade que não me faz enxergar o pior lado das pessoas? Ah, mas eu merecia mais do que isso. Cheguei em casa irritado. Ainda bem que os meus pais não estavam, senão logo minha mãe me questionaria por causa do meu mau humor. Ela me conhece bem demais para saber quando estou furioso. Coloquei uma dose de conhaque no copo com gelo e liguei o som bem alto. Joguei-me no sofá, ouvindo a rouquidão e o som pesado de Rammstein. O conhaque banhava a garganta amarrada,


tentando desfazer o grande nó da decepção. Já a música acalmava o meu coração e orgulho feridos. Depois de alguns goles, mudei o status de puto de raiva para aliviado. E era a melhor das sensações. Tirei a camiseta e joguei num canto, pensei em até bolar um cigarro, mas mudei de ideia. Iria ficar apenas brisado com o álcool, seria suficiente para a comemoração. Estava livre, porra. Libertado das malditas amarras do falso amor! – Saúde! – falei para o nada, sozinho. Sorrindo, entornei o gole, e ouvi o celular apitando assim que a música acabou. – Que caralho! – puxei o celular sem vontade alguma de ver o que era, mas meus olhos arregalaram ao ver que continha cinco áudios do Gabriel. Meu coração tremeu, e corri com os dedos para ouvir o que ele tinha a dizer. Cliquei no primeiro, e sua voz trêmula anunciava coisas estranhas e sem sentido. Falava do Titanic, de um tal de Ethan que não tinha a mesma barba que ele tinha agora, e que eles tinham voltado dos mortos. Porra, será que ele bebeu? Os próximos áudios eram ainda mais perturbadores. E ao ouvir o último, tive que correr. Ele não estava nada bem. De novo. Quando nos encontramos, já era tarde da noite. Assim que cheguei em sua casa, vi como seus olhos estavam amedrontados e sua feição exausta. Não consegui entender muito bem o que ele pronunciava desesperadamente a cada cinco segundos. Dizia uma loucura atrás da outra, e eu achei que estivesse delirando por causa da febre que estava tomando conta do seu corpo. Falei que ia levá-lo para o hospital e, no trajeto, ele contou-me tudo que passou nas últimas horas com a Charlotte. Logo depois ficou desacordado por alguns segundos, ao meu lado, no carro, o que só me fez acelerar para o hospital. Agora, diante dele no quarto, acompanhei sua respiração controlada e repeti a mim mesmo que estava tudo bem, que eu ainda tinha o meu amigo, que ainda poderia abraçá-lo, que falaria merda e ele seria forçado a me ouvir. E meu coração aos poucos se acalmava. Sentei ao seu lado, e ele abriu os olhos para mim. Seu sorriso já demonstrava que estava melhor, mas nada dizia. Era como se tivesse esperando por algo. A febre ainda não havia cedido e as únicas palavras que dissera era para reclamar de fortes dores de cabeça. O médico conversou seriamente com Gab, fazendo-o prometer que iria procurar um especialista o quanto antes. Não era natural ficar com tantos sintomas e achar normal. Sabíamos que nada daquilo era comum, mas ele fingia que tudo ficaria bem novamente. Era muito ruim ver o meu amigo passar por tudo aquilo. Só o que eu podia fazer era ficar ao seu lado. Gab não me permitiria fazer mais do que isso. Não mais. Assim que tudo estava resolvido, e ele devidamente medicado, fomos embora em silêncio. E era difícil pra cacete manter a porra da conversa longe da gente, mas ele queria espaço para pensar, e eu o deixei que ficasse quieto, apenas apreciando a vida que passava pela janela. Estacionei o carro em sua porta e ele, mesmo sem força, abriu e acenou um obrigado sem voz. Senti o peso do tanto que o meu mundo ficou silencioso... E eu percebi mais uma vez o quanto o futuro seria difícil. Gabriel era mais do que um amigo, éramos irmãos. E vê-lo triste acabava comigo. Forcei um sorriso gigante, o mesmo de sempre, mas no fundo, eu tremia todo. – Qualquer coisa me liga, é sério – falei baixinho. Ele, tentando abrir o portão, assentiu. Não


aguentei e saí do carro. Tomei as chaves de suas mãos e fiz todo o processo. Seus olhos estavam banhados de lágrimas, e isso cortou de vez a minha alma. – Ah, Gabriel, porra! – o abracei. Não podia assisti-lo chorar. Não agora. Agarrei com força seu

– Cara, vai dar tudo certo, não tenha medo – eu estava com um medo da porra, mas não podia falar. – Ela não se chateará por você ter saído de lá corpo, sentindo o coração disparar, assustado.

sem se explicar, Gab! Vai por mim, meu. – Rafa, ela não me merece – sua voz falhou e seus olhos não controlaram o que ele quis soltar a noite toda. – Pelo que me contou, vocês foram feitos um para o outro. Dará certo, tenha um pouco de fé, meu amigo – tentei animá-lo, mas ele se afastou. – Rafa, fé é o que não me falta, quanto a isso, estou claramente tranquilo, mas em relação a ela, você sabe que isso não é verdade... – Tudo bem, mas lembra do nosso lema? – tentei ao máximo não me emocionar. Mas estar tão perto dele, e vê-lo vulnerável me deixava acabado. – Viver um dia de cada vez.

– Isso! Exatamente isso, cara, um dia de cada vez. E ainda mais por ela! – bati as mãos em seus ombros e ele cambaleou levemente. Sorrimos e nos abraçamos de novo para despedirmos. – Me ligue se precisar de algo. – Obrigado, por tudo. Você é o melhor – fizemos nosso toque com as mãos.

É, eu sou sim! – falei presunçoso e ele caçoou de mim. – Náh, você é o melhor! – finalizamos o toque e eu resolvi ir embora. – Sabe aquilo que conversamos mais cedo? Pode ser esse final de semana. Quero levá-la para conversarmos melhor e nos divertir, o que acha? – mencionou assim que abri a porta do carro para entrar. – Demorou, amigão! Combine com ela, e pode deixar que tomo conta de tudo – sorri, e lembrei de algo importante que até havia me esquecido de contar, o maior feito dessa noite. – A Marcinha já era, bola pra frente, cara! Tô livre dessa maldita – gargalhei aliviado, era tão bom dizer isso em voz alta. – Por isso quando chegou, o forte cheiro de conhaque veio junto. Ótima opção, para ambos os casos – ele disse sincero, e eu concordei. – Com certeza! – pisquei, animado. – E claro, quero saber mais da misteriosa que está arranjando para mim! Se você me enganar, Gab, eu juro que atrapalho seus dias ao lado de sua princesa. Pode apostar que eu durmo entre vocês dois, de cueca! – ameacei, alegre. Ele nem se importou, sinal de que pretendia ter os seus dias com a Charlotte e eu conheceria a moça que jurou ser perfeita para mim. Vamos ver. – Você irá me agradecer, é sério. Bem, vou entrar, estou cansado. Obrigado.


Dessa vez o vi entrar com passos lentos. Parecendo que tinha setenta anos nas costas. Pedi em silêncio que tudo continuasse bem. Vi Gabriel fechar a porta de forma silenciosa, mas sei que sua cabeça fervia com mil coisas. E até entendo o seu medo, e temo por isso, já que mencionou tristemente que havia dado as costas para a moça que está apaixonado. Gabriel estava com o coração partido por ter feito isso, mas acontece que só fugiu porque está doente e tem medo de se mostrar fraco. Ele quer, desesperadamente, fugir dessa realidade, quer espantar esse medo, mas não consegue. Ter feito isso com ela deixou-o acabado, arrasado e sem chão. Ele quer estar junto, mas enxerga como a realidade é ruim, cruel. Ao mesmo tempo que ele a quer para seu bem, para fazer dos seus dias melhores, ele sabe que só trará ruinas, tristezas e solidão. Por um lado, eu me encontrava muito feliz por ele ter achado alguém para lhe trazer luz quando só se afundava na escuridão, mas também a preocupação por ele me assombrava.

Assim que Gabriel me contou pela primeira vez sobre a moça dos seus sonhos, eu me interessei pelo fato de ele estar se conectando novamente com uma realidade. Fazia dois anos que eu não o via esboçar reação alguma. Por todo esse período ele viveu em silêncio profundo, sem expectativas, sem se agarrar a algo concreto. Enquanto contava alegremente o que lhe acontecia, eu sonhava junto com ele. Gab sempre foi magnífico com as palavras, e ler o que vivia em sonho era o máximo que conseguiria tirá-lo de uma realidade penosa. Viver de seus sonhos era benéfico e o tirava da tristeza profunda que se escondia. Gabriel estava depressivo, mas não enxergava e não queria que alguém lhe dissesse isso. As muitas pessoas que entravam em contato mediante a internet através de sua página, diziam coisas lindas, mas safadas. Não era disso que ele precisava, apesar de ajudar a preencher, de alguma forma, o seu ego. Ele dizia para mim o tempo todo “tá tudo bem” quando só queria esconder que estava tudo uma bosta. A escrita lhe salvava da escuridão, mas não atingia seu coração. Por mais que suas palavras vinham de lá, ele permanecia vazio, sem motivação, e só quando esses sonhos lhe foram oferecidos foi que tudo começou a funcionar. Essa moça, mesmo sem saber o que fez, já era considerada por mim uma heroína. E eu faria de tudo por eles. Para que tivessem nem que fosse algum tempo juntos, para aproveitar e se amarem. Ambos precisavam de uma cura, e de um do outro. E se dependesse de mim, faria esses dois darem certo, porque acredito acima de tudo, no amor. Para Gabriel, o passado não importava. Ele só lhe trazia lembranças dolorosas. Nem o futuro, pois não sabemos quando o destino dará a cartada final. O que importa realmente é o presente, onde eles deveriam vivenciar a companhia um do outro ao máximo. Eu os faria enxergar isso. O meu papel era exatamente aquele: fazer os dois darem certo. Ah, porra, eu me tornei um maldito de um cupido!


Desviei o caminho de casa para ir até a padaria, comprar uma pizza gigante. Minha barriga implorava por algo saboroso, e a pizza do Portuga iria matar quem me matava. Virei a próxima esquina da padoca, e de uma casa amarela, saiu um casal. Bem, na verdade o rapaz arrastava a moça rua afora. Um sentido de alarme disparou dentro de mim. Parecia que ela estava sendo obrigada a ir com ele para algum lugar. Não gostei muito da cena não, então fiz o retorno e segui-os, meio de longe, para ver onde estavam indo. Constatei algo que me empertigou, o cara arrastava mesmo a garota. Já que ela tentava se soltar de seu aperto, pedindo ajuda, mas ninguém parecia escutá-la. As mãos dele, de vez em quando, a puxavam com mais força, querendo que ela andasse mais rápido. Havia um beco mais à frente. Uma viela na verdade, que saía na rua seguinte. Eles entraram ali. Mais uma vez vi que ela ameaçou a gritar, mas ele levou as mãos à boca dela. Meu peito sufocou de raiva. Não era possível que um covarde fazia isso com uma mulher e ninguém fazia nada! Não pensei duas vezes, acelerei parando o carro um pouco mais para frente do beco. Eles estavam parados, ele a esmagando contra a parede. Antes de descer, rezei para que não fizesse merda e que ele não estivesse armado, porque porra, eu queria socá-lo, mas não queria morrer. Levei a mão ao peito, tocando as mãos unidas à um terço que tinha tatuado bem ali. Eu era muito religioso e acreditava numa força maior. E que o meu bom Deus nos ajudasse. Que esse monstro não fizesse nada nem comigo e muito menos com ela. E se eu estava ali, era por um propósito... Nada acontece se não for a vontade d’Ele. Terminei minha oração, andei a passos firmes e como se as asas tatuadas que tinha atrás das minhas costas ganhasse vida, eu apareci no beco. Me sentindo abençoado e com uma força gigante. – Larga a moça! – berrei, e os dois se assustaram.

– Cai fora, seu porra! – vociferou o rapaz e escondeu a moça atrás do seu corpo. Antes de fazer isso, pude ver que ele havia rasgado o vestido dela. E só de imaginar o que ele pretendia fazer com a moça, meu sistema nervoso entrou em choque. – Solte-a agora – ordenei mais firme ao me aproximar.

– Tá comendo ela também? – riu com escárnio. E pude notar que não estava armado, mas sim, bêbado. Meu ódio aumentou ainda mais. – Pedi para largá-la! Agora – tentei me aproximar, mas ele dava passos para trás e a levava junto. – Vem, moça, não tenha medo, ele não fará nada – estendi as mãos. Não conseguia ver o seu rosto, mas ouvi um gemido de alívio e uma mão trêmula se estender em minha direção. Ele deu uma cotovelada nela. Rangi os dentes. – Ela não vai para lugar algum, é minha namorada! Não se intromete no que não é chamado! – sua mão direita puxou a mulher detrás dele, que ficou de cabeça baixa, toda frágil. Completamente refém nas mãos daquele inútil. – Me diga com verdade se o conhece. Eu não a deixarei aqui – pedi com a voz baixa, para ela


confiar em mim. – Esse monstro é meu ex. Ele quer... quer abusar de mim... Por favor, me tira daqui – sua voz cortou o ar, e junto o meu coração. Não pensei duas vezes. Numa aproximação ligeira, dei só uma porrada em sua cara, tendo certeza de que quebrei seu nariz. Ele cambaleou, mas não caiu. Empurrei-o até a parede, fazendoo perder o equilíbrio. O sangue escorreu em seu rosto ordinário. – É assim, seu covarde, que trata as mulheres?! É assim, cretino! – não me contive e dei mais dois socos na cara nojenta dele. Tudo tremia em meu corpo, e pedi forças para que me arrancasse dali sem matá-lo. Foi quando senti uma mão em minhas costas, arrepiando a minha alma, acalmando as minhas asas. – Não se estrague, ele não merece tanto. Venha, respire... – olhei para atrás. Era a moça, com os olhos mais cheios de paz e amor que vi na vida. Um azul tão intenso que era o céu me recebendo. Quase me ajoelhei a seus pés. – Obrigado – estremeci. – Obrigado por ter me tirado de cima dele – agradeci, e ela se afastou, ajeitando o vestido rasgado no peito. Seu rosto triste escorria lágrimas silenciosas, e um pequeno corte ao lado dos lábios dizia o quanto ele tinha tentado machucá-la. – Eu que agradeço, você foi o anjo que pedi – isso me desestruturou. Eu realmente caí de joelhos. Ela me fitou, e eu chorei. Não consegui parar. Minha mente estava sendo invadida por imagens do que teria acontecido se eu não tivesse a salvado. Limpei nas calças a sujeira das mãos, antes de tocá-la. – Você está bem? – puxei suas mãos, e eram tão carinhosas ao me tocar. Ela confiou plenamente em mim, e quando nos olhamos, foi ela quem desabou. – Ele iria fazer coisas horríveis comigo. Se não fosse você... – ela chorou como criança em meu colo, os dois sentados na rua suja, como crianças perdidas. O rapaz estava caído, mas não desacordado. Ele resmungava algumas coisas. Antes que tivesse de fazer algo mais, liguei para polícia e avisei o que tinha acontecido. Levantei com ela no colo e a levei até o meu carro. Depois, voltei até o infeliz. – Você não vai escapar, seu estrume. Se não for preso, conseguirei que fique longe dela! – não resisti e dei-lhe mais um chute, que tenho certeza que quebrou algo. Não era o correto, mas era o mínimo que poderia fazer pelo susto. A polícia veio rápido, por incrível que pareça. Deixei um interrogando o monstro e o outro seguiu comigo até o carro. – Oi, você tem condições de conversar com a polícia, só para explicar algumas coisas? – fitei os olhos mágicos da moça, ela concordou. – Eu estava em minha casa, que é aqui na rua detrás. Ele foi até lá, e eu o recebi no portão. Ele me acusou de estar saindo com alguém, de estar o traindo... – Ele é seu namorado? – perguntou o policial.

– Ex, não estamos juntos há muito tempo. Não sei porque ele fez isso... Aliás, ele achou que eu


estivesse dormindo com o meu amigo... – ela corou e se abraçou envergonhada. – Não estou fazendo nada. Algumas horas antes me enviou mensagens me ameaçando, mas achei que era tudo em vão... não pensei que ele fosse ser um monstro comigo... – soluçou. – Por que ele pensaria isso? E ficaria tão irritado em fazer algo com você? – ela se encolheu.

– Foda-se o que ele pensaria, não manda na vida dela. O senhor não está vendo que ela é a vítima! – rosnei impaciente. – Moça, se não quiser responder, tá tudo bem, sou advogado. Fala só o que achar necessário – instruí. – Nunca dormi com ele. Talvez achou que tivesse o direito de tomar algo que eu nunca tenha oferecido. Foi com essa ideia deturpada que me arrancou a força de casa, e me trouxe até aqui, dizendo que o que eu merecia... ser estuprada... Que ele me violentaria para nunca esquecer... E mais um monte de nojeiras que não quero mencionar ou pensar – levou as mãos no rosto, chorando muito. – E foi nesse momento que eu o flagrei. Impedindo que fizesse algo com ela – concluí.

– Você quer abrir um B.O? – o policial perguntou para ela, mas eu me interferi. – É claro que abriremos, e já vou fazer o requerimento de uma ordem de proteção, o mais rápido possível. Ela não passará por isso novamente enquanto ele estiver solto. Foi um flagrante, mas nós sabemos como tudo funciona aqui, não é mesmo? – ousei em dizer. – Iremos levar o sujeito, e o interrogaremos.

– É claro que vão! – nos entreolhamos por alguns segundos, e até que o outro veio com o infeliz algemado e o enfiou no carro. – Nos encontraremos na delegacia – avisou.

– Iremos o quanto antes, senhor. Assentimos e assim que os três saíram de perto, ela desabou no banco. – Sei que não está bem, mas precisamos ir. Desculpa me intrometer nesse assunto, mas sou advogado, posso e devo ajudá-la. Quer ligar para alguém? – ofereci minha ajuda sincera. Seus olhos não paravam de me observar, ela via que eu fazia de coração. – Sim, obrigada por sua imensa ajuda. Poderia ligar para o meu amigo? – pediu com a voz quebrada. Era tão frágil, Deus! – Claro, me fala o número que ligo agora. Observei seus lábios tremendo ao passar cada número, e meu peito começou a se agitar ao ver para quem ela estava ligando. – Ei, você é a Charlotte? – minha voz saiu num fio distorcido, e quase perdi as pernas novamente, fazendo tudo rodar em minha cabeça. Ela se sobressaltou com esse susto. – Sim, como sabe? – mirou os olhos, já recheados de medo.

– Não tema, sou uma pessoa do bem – ela aliviou as costas que ficaram eretas. – Eu sou o Rafael, amigo dele. Do Gabriel.


– Ai, graças a Deus, vocês são os meus anjos! Ela era realmente maravilhosa. Graças a Deus que eu a salvei.


Charlotte Tudo bem não estar bem às vezes, É difícil de seguir seu coração Lágrimas não significam que você está perdendo Qualquer um se machuca Só seja verdadeiro com quem você é ~Jessie J – Who you are~

Eu me encontrava

anestesiada. Abalada, com meus sentimentos feridos. A alma chorava, clamava por ser limpa com o mais puro amor. As batidas fracas do meu coração traumatizado tinham uma sequência sofrida, amuada... O corpo temia pela aproximação. As sensações de fragilidade deixavam-me a beira do precipício. As pernas bambas não conseguiam sustentar minha vergonha. A boca seca não soltava as dores. Nem meu silêncio pesado me distraía da cruel verdade. Como eu rezei para sobreviver! E quase falhei... Eu só queria ficar livre daquelas mãos... Mas eu as sentia em volta do pulso, como amarras. Na cintura... Apertando, agarrando... Despindo... E em meu coração, o pior dos sentimentos: o ódio. Enquanto ele me esmagava, matava cada sonho que eu tinha para o meu futuro... Fechei bem os olhos, apertando os braços em minha volta, tentando trazer um conforto para a minha alma. Só depois de raciocinar tudo que havia me acontecido, me dei conta do quanto estive perto de ser destruída por Vinícius. Nosso relacionamento sempre havia sido conturbado. Só não imaginava que ele chegaria àquele ponto. Lembrava claramente o tanto que ele foi rude durante nosso namoro, mesmo com seu jeito machista e durão, mas jamais imaginei de que ele fosse capaz de fazer ato tão vil comigo. Jamais dei motivos, nunca dei liberdade. Sei que é por conta disso que ele tentou me violentar, mas isso não justifica essa maldade. O meu corpo seria de quem eu quisesse, não de quem tentasse impor a sua vontade. Naquela viela escura, eu fitei os olhos vazios dele em minha direção e sabia que não hesitaria em me matar, caso precisasse. Se não fosse por Rafael, eu estaria morta. E não estou dizendo no sentido figurado. Se o Vinícius me deixasse viva, minha alma estaria quebrada de tal forma que eu não suportaria viver. Foi nesse instante que algo me correu pela mente. Ai, meu Deus, será que nossas vidas vivem em uma rotação sem fim, voltando ao início? Afinal, Izobel sofreu um abuso, e morreu por conta disso... Eu quase fui abusada, e morreria caso isso acontecesse! Ao me recordar daquelas intensas palavras da minha antepassada, não podia esquecer como a história dela refletia na minha. Antes de irmos para a delegacia, passamos na casa de Gabriel. Sua aparência não era a melhor. Parecia que estava dormindo e a gente acabou acordando-o. Mas ao saber o que tinha acontecido, ele não pensou duas vezes e tentamos a todo custo fazê-lo entender que eu estava bem. Que


graças ao Rafael, eu me encontrava inteira. Demorou, mas ele finalmente se convenceu. Ainda estava tremendo, aterrorizada e muito dolorida, mas observava com alento a amizade entre eles, dando-me total segurança e conforto. Os dois me olhavam com compaixão, demostrando respeito e cuidado. Era o que eu precisava, mas sabia que paz era algo que estava longe de eu sentir. Eu sofreria aquilo por dias, reviveria esse inferno por anos... – Você deveria tê-lo matado! – Gabriel falou, me tirando dos pensamentos. Era também o que eu desejava, mas estava grata por Rafael não ter feito nada, além de socá-lo. – Não deveria, não. Como ele poderia sujar as mãos cometendo um crime? – queria passar tranquilidade aos dois, mas ao invés disso, Rafael começou a caçoar dele. – Tá vendo, Gab, eu sou o mocinho da história! – ria enquanto dirigia, e seu olhar carinhoso e colorido depositava em mim. Rafa só queria nos distrair, e ele era realmente bom nesse quesito. Rafael parecia um anjo. Não só pela gentileza em me salvar – fisicamente, era como os anjos das pinturas barrocas. Ele tinha os olhos mais incríveis que já vi. Um azul, e o outro numa mistura mística de azul com uma mancha mel, incrivelmente lindo. Seus cabelos loiros raspados na parte de baixo com o topo quase cacheado. Além disso, era o melhor amigo de Gabriel, o meu anjo. O destino é tão engraçado às vezes, mesmo nas piores situações. – Não se gabe, seu trouxa, é uma situação do inferno – Gabriel socou o ombro dele. Sorri de leve no banco de trás. A amizade deles era linda, e era possível sentir a total confiança e lealdade entre eles. – Nem me fale, quase perdi a cabeça, cara.

– Vocês são incríveis – os interrompi. – Obrigada por estarem aqui quando mais preciso de força. Vocês, juntos, me dão o necessário. – Conte com a gente. Depois de tudo resolvido na delegacia, me levaram embora. Rafael deixou tudo acertado e me passou o que precisava. Ele acabou sendo a minha voz, quando essa me faltou. – Pode ficar um pouco comigo, por favor – pedi gentilmente ao Gabriel. Ele aceitou sem titubear, disparando o meu coração. Era muito tarde, ou já tão cedo, mas eu não queria ficar sozinha. Se ficasse, a solidão iria me engolir e sei que choraria pelo resto da noite ao me lembrar do que quase me aconteceu. – Você está melhor? Vou preparar algo para você comer, ok? – perguntou preocupado, levantando do sofá. Aceitei sua proposta. – Seria ótimo. Ficar a noite acordada, falando de coisas ruins, deixaram meu estômago ferido – toquei a barriga vazia. Um pouco antes de Vinícius aparecer estava indo preparar um lanche. Tanto que tudo estava sobre a mesa. – Pão integral com geleia e queijo branco? Ou prefere uma salada? – questionou os dois que estavam espalhados. – Eu ia preparar tudo, mas... – dei de ombros e fui mexer na geladeira. Disfarçando o olhar dele sobre mim. Eu ainda estava com o vestido rasgado, mas por cima uma blusa de moletom


dele, que fez questão de colocar em mim antes de irmos para a delegacia. Virei-me, mas captei nos seus olhos um brilho acolhedor. Ele parecia frágil, cuidadoso nas palavras que dirigia a mim. Mas, ao mesmo tempo, sua força interior crescia e se expandia até a minha alma, acalmando-me. – Srta. Gulosa, eu posso ficar à vontade aqui, agora. Por favor, pode subir, tomar um bom banho e voltar um pouco renovada. Eu tomo conta de tudo – seus olhos haviam uma ordem singela, que acatei sem retrucar. O que mais precisava, ele me oferecia: um banho, comida e companhia. – Obrigada, de verdade. Você não precisava fazer nada disso – ele segurou minha boca com o dedo indicador. Meu corpo entrou em choque. Ele chegou muito perto. Colando sua boca quente ao meu ouvido. Sussurrou calmo, quase silencioso. – Eu quero estar aqui, e não há outro lugar para mim. Então, por favor, vá... Quando voltar, estarei aqui te esperando. – Jura?

– De fato. Sorri, singela. Nossos olhares permaneceram ligados por muito tempo, e faltou um segundo de coragem para eu agarrar aquele corpo, segurar seu belo rosto e colar minha boca na dele. Gabriel não se afastou, pelo contrário, levou suas mãos à minha cintura, um apertão de leve que fez meu estômago se contrair. Estávamos tão perto de tudo... De eu me entregar e acabar com a deliciosa espera. Sua boca não estava escondida pela barba, que parecia ainda mais aparada. E pude ver seu sorriso desenhar-se naquela faixa de carne perfeita, que deveria ser o paraíso de tão macia. Mas aguardei. Mordi o lábio risonho, dando um passo sem querer para trás, e subi as escadas com as pernas bambas. Ele me aguardaria... De fato. Foi custoso me afastar de seu corpo, mas quando tirei o resto do vestido, e o joguei no lixo, me senti maravilhosa. A água começou a escorrer, levando as minhas vontades. Enquanto comecei a tocar meu corpo para tirar a sujeira invisível, as dores psicológicas me atacaram, trazendo à tona novamente tudo que tinha acontecido. Quase gritei, pois queria apenas espantar aquela imagem, fugir da voz de Vinícius, gemendo ao me tocar... Agarrei o meu corpo frágil, encostando na parede fria do banheiro. Permaneci por alguns instantes, com medo, com fobia, em agonia. E não queria que voltasse nenhum segundo à minha memória... mas as lembranças sempre vem... “Vou me enfiar entre suas pernas molhadas... É assim que ele faz?” “Por que sua boceta é mais importante para ele do que para mim?” “Sempre foi a santa comigo, agora é a putinha do mundo? Também quero!” “Estou tão duro que posso te dar uma surra com ele... te arrebentar toda...” “Sei que quer, Char, sei que me quer aqui...” Ah, não quero pensar! Não quero lembrar que por muito pouco ele quase... “Char, eu vou te estuprar, e você vai gostar, porque todo mundo te fode agora!” Ele rasgou o meu vestido, querendo me devorar. E foi então que Rafael apareceu, no exato segundo em que ele faria algo. Graças a Deus!


Rezei cada segundo, desde a hora que fui arrastada na porta de casa, até a hora de vê-lo sangrando, sentado no chão. Eu queria chutar a cara dele, socá-lo até não respirar mais... Que ele perdesse o ar, assim como estou agora. As paredes do meu coração dilataram, fazendo as lágrimas escorrem como lâminas, cortando por onde passava. Não as contive enquanto estava sozinha, deixei tudo explodir... Então gritei. Senhor, tira toda essa lembrança de mim. E de repente, ouvi alguém no meu quarto, perguntando algo. Lembrei-me do som familiar, e ele me trouxe de volta. Engoli ligeiramente o choro, porque essa pequena bolha era só minha. As dores eram minhas. – Charlotte, você está bem? Me diz, senão eu entro! – seu desespero juntou os cacos do meu coração. Ele conseguia me tirar do meu mundo barulhento e quebradiço. – Gabriel... – toquei o ar denso do banheiro, sentindo que eu realmente tinha voltado da imersão nas profundezas do meu ser golpeado. – Sim! Sou eu, Charlotte, o Gabriel – a voz me acalmou. Levantei do chão, onde estava ajoelhada, toda encolhida, em defesa. – Já vou sair – prometi abalada.

– Ok, estou lá embaixo, fique à vontade. Mas grite se precisar de algo. EU PRECISO DE VOCÊ! – Queria tanto ter coragem de gritar isso. Ele era tão forte por aguentar essa barra, eu sou tão frágil por me deixar render a essa dor... Mas não tinha como evitar, tinha? – Ok, obrigada. Ouvi seus passos descendo a escada, então saí. Olhei ao redor, ainda com a toalha enrolada no corpo. Queria ter coragem de descer e pedir para ele me secar e tirar toda sujeira que o outro deixou sobre o meu corpo. Apesar de me limpar no banho, sentia-me usada, impura. Olhei para a mesinha de canto e avistei o diário. O mesmo que constava o tão triste abuso de Izobel... Engoli o nó que se formava na garganta. Foi difícil. É difícil ainda. Parecia que a todo momento eu iria desmoronar, e gritar era a forma que mais traria alívio. Expulsaria os fantasmas que estavam constantemente querendo me assombrar. Sei que Gabriel iria me consertar. De uma forma ou outra, acreditava que era ele o real motivo para eu conseguir seguir minha vida. Mas não agora... Naquele momento não era hora de tentar. Eu precisava estar inteira para ele, me entregar com a alma limpa. Vesti um moletom grosso, e desci. Estava um pouco calor, abafado, mas não queria mostrar minha vulnerabilidade. – Bom, está tudo prontinho, venha comer. Estendi a mão, recebendo a dele. Assim que nos tocamos, a sensação familiar nos uniu. Ele me levou até a cadeira que preparou em frente ao lanche bem caprichado. Enquanto comia, de vez em quando ele puxava assunto. Eu respondia educadamente, e limpava os lábios do seu sabor. Gabriel comeu um lanche e me fitava com curiosidade.


Pensei que fosse morrer hoje... – consegui falar e a salada formou um bolo na garganta. Gabriel viu os meus olhos se encherem de lágrimas e veio para o meu lado. – Ei, não, não pense nisso. Você está aqui comigo. Estou te protegendo.

– Gabriel, eu pedi para morrer antes que ele pudesse abusar de mim. Eu não suportaria – chorei quietinha, enquanto ele segurava minhas mãos. – Come e tenta não pensar mais nisso. Passou.

– Não passou... Mas por você, deixarei de pensar – sua luz invadia minha alma, acalmando-a. Trazendo novamente esperança de que tudo seria esquecido. – Não faça por mim. Faça por você, Charlotte. Não merece ficar remoendo isso. Você é forte e eu estou do seu lado. – Gabriel... – cutuquei a salada enquanto pensava no que responder. Distraída, peguei a mostarda, e quando a apertei, um jato forte esguichou sobre a camiseta branca dele. Deus! – levei as mãos à boca, vendo o estado em que o deixei. – Vixi – ele gargalhou e tentou tirar com a colher o grosso fio amarelão.

– Ai, meu

– Sobe, vamos lavar antes que estrague – apontei para a escada e fui correndo na frente. Gabriel me seguiu. – Ali é um banheiro, pode ficar à vontade. Virei em direção a cômoda para pegar algo. Bem, eu não teria nada que servisse nele, mas disfarcei, para que ao me virar fosse o momento exato em que ele tirava a camiseta. E meu mundo ficou muito mais colorido... Como Gabriel era lindo! Estava de costas para mim, e pude ver suas asas sobre as costas largas. Como ele dissera certa vez, ele realmente tinha asas. Gabriel era musculoso, mas não muito, como se já tivesse feito academia. As asas das suas costas eram tatuadas como se estivessem brotando da pele, tão reais que dava vontade de tocar. Ele se remexeu e pude notar o movimento dos ombros fortes. Dei dois passos, hipnotizada pela perfeição de anjo à minha frente. Aquele ser parecia irreal, mas a vontade de tocá-lo e senti-lo me fez ir adiante. Tanto que nem sequer havia notado que deixei a porta de cima do guarda-roupa aberta. Só percebi quando senti a pancada na cabeça. – Ai, senhor! – ofeguei alto com o impacto. Com isso, ele se virou, e eu já não sabia se estava tonta pela pancada ou pela visão do corpo magnífico dele. Que visão do pecado, senhor! – Ei, o que aconteceu?

Oi?! – fitei aquele corpo firme que se aproximava de mim. O tórax carregado com uma camada fina de pelos, fazendo os desenhos de seus músculos parecerem comestíveis. Senti vontade de morder ou lambê-lo até lá embaixo. – Charlotte, você se feriu – não era uma pergunta, mas eu não sabia responder. Meus olhos não saíam de seu corpo. O primeiro toque que ele me deu descarregou toda energia que estava em mim e transportou para ele. Mordi minha boca porque comecei a formigar por todos os lados. Gabriel colocou os meus cabelos atrás da orelha e outra carga enérgica disparou entre nós. Um


calor dos infernos invadia minhas pernas. Senti uma fraqueza maior quando seu polegar esfregou algum lugar da minha cabeça que ardeu. – Você está sangrando – comentou, e senti seu hálito chegar em meu rosto. Proximidade perigosa. – Estou? Eu não tinha pernas. – Está doendo? Sua preocupação era racional, a minha imprópria. – Não sei... er... Você quer se limpar? Tipo, em mim?! – Charlotte, eu quero saber se está bem! Sua camiseta estava limpando o risco de sangue na minha testa. Aquilo não era nada, mas o que eu sentia pelo corpo inteiro era tudo. – Muuuito... Ofeguei pedindo. Vem. – Muito o quê? Ele notou. Ele queria. Ele se segurava. Ele sorria. – Não sei... Quero mordê-lo. Pode ser? – Você está ofegante. Sua voz baixa. Rouca. Sedutora. Predadora. Tentadora. – Estou... Toque ardente. Necessário. Me beija! Nos beija. Que calor! – Quer algo? Você. Você. Você. – É demais... Toquei seu peito, descendo sem querer, ou querendo muito. Não sei bem, mas ele se arrepiou abaixo de mim, exigindo, querendo mais. – O que é demais, Char? Seu sussurro estava em minha boca. Na. Minha. Boca! – Tudo. Você. Eu. Sua pele. Sua boca. Seu peitoral. Até sua barba... Quero lambê-lo. Hmm, começar por onde? – Sei... Char, você bateu com muita força a cabeça? Ele mordeu a boca. Aquela boca que eu queria por todos os lados. Fechei os olhos. Imaginando o quanto ela seria capaz de viajar e me levar para as estrelas. – Hmmm... Meus dedos desceram. Esquadrinhando. Ele travou ali. Antes do merecido.


– Char, não podemos hoje... – soltou sua rouquidão sensual. – Você não está bem ainda. – Eu quero... Abri os olhos. A sinceridade dele me fez ver que não seria hoje, mesmo que estivesse morrendo. Eu só queria abusar dele para tirar a dor que estava em meu coração, de forma insistente. Queria tirar qualquer vestígio e preencher o meu corpo com o cheiro dele. Gabriel... – Eu quero mais do que tudo beijar sua boca numa lentidão profunda, sentir suas curvas e arrancar sua roupa vagarosamente. Te fazer a mulher mais feliz, pois sei que serei o homem mais feliz, mas não hoje. – Desculpa, tudo bem – adiantei, mas ele não queria desculpas.

– Sem desculpas, charmosa – assenti com o rosto e o resto do corpo pegando fogo. Recebi seu abraço. Era tão confortável que gemi. Fechei os olhos e lembrei dos meus dedos, do prazer escondido que tive por ele. – Eu já fiz, Gab... Por você... – sussurrei, confessando com o rosto encaixado em seu pescoço cheiroso. Quase disparei minha língua naquele ponto abaixo da barba bem aparada. Ele estremeceu, pude sentir. – Eu também, Char, eu também. Gemeu de volta, e ao me abraçar mais apertado senti sua rigidez. Ronronei apaixonada. Ele fez o mesmo, mas me soltou e foi até o banheiro limpar a zona que fiz. Fiquei ali paradinha. Era ele quem eu queria...

Todo aquele calor não desgrudou do meu corpo, e a cada segundo que ele me fitava, eu fervia. Sorríamos um ao outro, cúmplices. Gabriel fez um curativo em minha testa e colocou um band-aid do Bob Esponja. Ele ria a cada segundo que via o boneco amarelo sorridente em minha testa. – Você combina com amarelo, é sempre um sol brilhante – nesse instante, meu coração aceitou o seu sorriso, a sua dedicação. Eu seria dele. Conversamos até quase o dia começar a clarear. E quando do nada despencou um trovão e logo em seguida uma pesada chuva, olhamos juntos para a janela. – Eu tinha que ir – falou enquanto segurava meu pé, fazendo massagem.

– Não precisa mais... – um olhar amoroso despertou de seus olhos. – Ia pedir seu guarda-chuva vermelho – falou muito baixinho, segurando um riso charmoso e incrível naquela boca maravilhosa. Arfei. – Eu não empresto ele para ninguém. É só meu, sou egoísta nesse ponto. Não divido nada que é meu – ele gargalhou. – Coisa feia, escorpiana – piscou.

– Você fica – deixei a ordem. Ele sorriu mais tortinho, levantando uma sobrancelha. – Mandona e obsessiva. Faz jus – sua expressão dizia que amava aquelas ordens. Eu também.


– Muuuito... – Ok, então posso ficar? – Deve. Foi a última ordem que disse a ele. Gabriel me pegou carinhosamente no colo e subiu. Não dissemos nada para não quebrar esse momento especial. – Já está de pijama? – questionou antes de me colocar na cama.

– Não. – Troque-se então. Posso descer se quiser – ele dizia sério, todo respeitador. – Só vire de costas – sugeri. Foi o que ele imediatamente fez. Meus olhos

se encheram de

lágrimas. Ele era um achado e tanto. Meu coração não aguentava tanta gentileza. Peguei meu pijama e vesti. Por cima, coloquei algo que o faria rir. – Pode se virar – minha voz soou brincalhona. Ele ainda demorou, mas quando o fez, gargalhou. – Não creio que era de verdade. Você tem mesmo um robe rosa com bolinhas amarelas! É sensacional. – Se quiser te empresto, não tenho nada para você vestir – mencionei, sincera.

– É uma pena não ter um shortinho de seda rosa para me emprestar, isso é inaceitável, Char! – foi a minha vez de rir alto. – Ah, Gabriel, não brinca! Eu arrumo um para você – corri para fuçar na gaveta, mas fui bruscamente interrompida no ar. Ele me pegou no colo e jogou na cama. Ofeguei. – Nada disso, senhorita! Hora de dormir. Quer que eu leia algo para você? – outra surpresa incrível surgiu em meu rosto. Ele sorriu amável por ter me surpreendido. – Adoraria.

– Pedido concedido. Mas, falando sério, você não tem nada grande? Uma bermuda? Você tem que ter, Char, não conseguirei dormir de jeans! Seria maldade – piscou, arteiro. – Posso dar uma conferida, ok? – ele me ajudou a levantar novamente, fiquei quase colada ao seu corpo ao me puxar. – Perfeito! – piscou, roubando meu juízo. – Ei, onde vou dormir? – questionou, sério novamente. – Aqui, comigo – ele sobressaltou. – Vou buscar algo. Fique aqui. Abaixei e fui até o fundo da gaveta. E peguei uma samba-canção que eu havia ganhado há muito tempo. Era enorme para mim, então acho que ficaria boa nele. Era azul marinho com muitas estrelas brancas. A Marcela que havia me dado, falando que era para usar um dia que eu gostaria de ver o céu com algum namorado. Hmm, vendo bem por esse lado, essa espertinha não deu o presente para mim, exatamente, mas sim, para um futuro homem presente em minha vida... ah, um que me iluminaria... Fiquei encantada sorrindo sozinha. Até porque, quando apagava a luz,


as estrelas brilhavam no tecido. Peguei a peça no fundo da gaveta, até cheirei para ver se não estava com cheiro de guardado, mas estava em perfeitas condições de uso. – Isso serve? – falei com receio.

– Ei, tem algum espertinho escondido por aqui? Embaixo da cama? – cruzou os braços no tórax, ficando ainda mais irresistível. Estremeci com sua brincadeira, e por ele ser tão... delicioso. – Engraçadinho! – fingi não notar o quanto seu corpo era comestível. Oh, droga, já mencionei isso? – Tô falando supersério, viu! – deu uma bufada sedutora, mas acabou cedendo e pegando a peça. – Isso aqui é grande para você... – não era uma pergunta, ele afirmava e seu semblante tinha uma pitada de... oh! – Foi presente, e nunca usei! – falei sincera.

– Estava guardando para alguém especial? – aqueles olhos sinceros e brilhantes e ciumentos... eram a minha salvação. Gab me olhou sorrindo. Destruindo-me, esfacelando-me inteira. – Sim... – mordi o canto dos lábios. – E você chegou...

– Boa menina... – beijou o canto dos meus lábios, onde eu havia mordido. Amoleci, rendida. – Vou ao banheiro vesti-la. – Não, eu me viro – tá certo que minha própria voz me traiu, mas iria me virar e não trapacearia, mesmo querendo. Não demorou muito, e tão logo ele estava atrás de mim. – Vire e não dê risada, não ficou tão ruim – sua voz soou brincalhona, mas ao virar, não havia nada de brincadeira. E sim, um pequeno terremoto começava no quarto, vindo de mim. – Deus, com certeza não há nada de errado, em nenhuma partezinha... Sério! – ele sorriu sem jeito. Como pode um homem lindo desse ficar com vergonha ao receber um elogio? Não pode ser. – Já falei o quanto é exagerada?

– Nem se quisesse, eu seria! – Já volto – ele não fugiu, apenas foi ao banheiro. Sentei na beira da cama, aguardando aquela raridade voltar. Nisso, seu celular tocou. – Atende por favor, estou com as mãos cheias de sabão – gritou de lá. Então fui até sua calça e peguei o aparelho. Estava escrito na tela: Bixa Furta-cor. Sorri. – Alô? – falei completamente sem jeito.

– Oi Gabriel, você está com uma voz linda! – a voz que conheci a pouco disse, todo risonho. Talvez pensando besteira por saber que ele estava aqui ainda. – Desculpa, ele está ocupado! – falei rindo, baixinho.

– Vocês sabem que horas são? – alfinetou. – Hora de criança estar na cama? – brinquei.


Exatamente, e adultos indo trabalhar! Meu Deus, o que fez com meu amigo? – deu uma pausa, e

quando pensei em responder, ele esbravejou, rindo. – Ah, juro, eu não quero saber, não! Tô de brinks. Bem, só pede para ele me ligar, quando der! – Tudo bem, obrigada por se importar. Tchau.

– Sempre. Tchau, gatinha. Até breve! – desliguei rindo. Nisso, flagrei Gabriel no batente da porta, me fitando todo risonho. Vi, em um relance, a minha vida ao seu lado, curando de alguma solidão. E ele a minha. Vi-me forte, quando achei que não tinha mais forças. E exatamente essa força que renasceu dentro de mim, era a que ajudaria sua fragilidade escondida. – O que ele queria? – um belo vinco apareceu em sua testa. Desejei tocar. Achei tão sexy. Ele foi se aproximando, sem camiseta, com apenas o short azul brilhando estrelas. A constelação estava presente aqui, minha gente! – Só preocupação. Ele é um bom amigo. Gosto dele – disfarcei olhando para o resto do quarto, e não para todos aqueles músculos à mostra. – Ele te adorou também. E quer combinar algo – ofertou.

– O quê? – Depois

te conto melhor, mas é uma ideia incrível, e bem, era ele quem eu gostaria de apresentar a Marcela, se lembra? – meus olhos se arregalaram, alegres. – Seria perfeito! Quando? Onde? – falei empolgada.

– Mais tarde podemos combinar isso – subiu na cama chamando-me para perto. E tudo aquilo parecia tão certo. – Agora, princesa, deixa-me te conduzir... se aconchegue, eu vou ler para você dormir... – É o que me faria feliz. Deitamos, e Gabriel pegou meu livro de cabeceira. E começou a ler de onde eu tinha parado. Jurei que havia me entregado aos braços de Morfeu, mas não, o melhor era saber que eram os braços de Gabriel... o meu anjo protetor e o meu... amor.


Gabriel Estou apaixonado pelos seus contornos Nos atraímos e nos repelimos como um ímã Embora meu coração esteja se apaixonando também Estou apaixonado pelo seu corpo. ~Ed Sheeran – Shape of you~

Existem momentos que são passageiros. Outros que ficam marcados por algum tempo, depois só resta uma vaga lembrança. Por algumas vezes acabamos guardando bem no fundo da memória só para recordar num instante precioso. Mas também existe o momento certo. Aquele que você sabe que irá durar para sempre. Que mesmo quando a mais temível dor lhe acometer, esse pequeno e singelo momento estará lá para te fazer lembrar... E esse era um dos poucos e raríssimos instantes que levaria para sempre, registrado no coração. Charlotte estava dormindo ao lado, ressonando na mais profunda tranquilidade. Tão relaxada que podia sentir seu alívio. Tão confiante que meu peito estourava de felicidade. Eu estava perdidamente apaixonado por essa mulher. Completa e irremediavelmente. Não conseguia sequer negar: ela era a mulher que esperei minha vida toda. E sei lá por mais quantas. Entretanto, eu a esperaria até tê-la de verdade. Não me importava se seria nessa ou em outras vidas, ela era minha alma gêmea. Sem dúvidas. A curva de seu delicado pescoço estava à mercê dos meus lábios. Os cabelos certinhos já um pouco maiores do que quando a conheci, escorriam para a nuca, revelando singelamente a pequena tatuagem. Era irresistível. Sua pele, num tom de porcelana, parecia que deixava-a ainda mais frágil ao toque. Char era uma mulher pequena, mas enquanto estávamos deitados, ela era o tamanho perfeito para se encaixar em mim. Seu corpo era muito bem preenchido, e tinha certeza de que poderia proporcionar os mais secretos prazeres. Ela se escondia, isso é certo, mas ali eu sentia um bumbum firme e poderoso. Como eu queria conhecê-la nua, sobre os meus dedos, ver como seus seios se encaixariam nas minhas mãos... Diante de tal pensamento, eu tentava manter meu controle, mas quem disse que eu conseguia? Não existia nada erótico naquela situação, mas minha vontade de beijá-la, de lambê-la, de fazê-la se arrepiar com cada toque macio que minha mente projetava, deixava tudo extremamente sensual. E nada mais preenchia minha mente a não ser ela. Eu queria abraçá-la nesse exato segundo só para que sentisse o enorme desejo que se formava entre minhas pernas. Como eu a queria! Para não assustá-la, tentei não fazer movimentos bruscos, descolei meu corpo do dela antes que sentisse a falta de vergonha entre as minhas pernas. Droga, sei que era de manhã e quase inevitável, mas não era vontade de mijar que se instalava em mim, mas sim uma intensa


necessidade de fazer amor com ela. Acontece que Char só permitiu que eu dormisse na mesma cama porque confiava em mim, e tinha que me manter assim. Mas lá estava eu, de pau duro em plena manhã, na cama dela. Que cretino! – Resmunguei assim que consegui me livrar do edredom e estava fora da cama. Fui a passos ligeiros para o banheiro, antes mesmo que ela acordasse e desse de cara com a malcriada ereção. Bem, era difícil até de respirar quando se tinha a mulher dos sonhos em seus braços, dormindo virada de conchinha, respirando aliviada por tê-lo ao lado, e aquele pescoço... ombros... costas... curvas! Deus, ela tinha as melhores curvas que poderia apreciar numa mulher. Era incrivelmente linda, de uma inteligência extravagante, definitivamente engraçada e pra lá de desastrada! E eu estava perdido por ela... Joguei água no rosto para acordar e fiquei ali, até tomar coragem de sair e fazer algo decente. Vesti minha roupa antes de ela acordar e me flagrar, olhando-a perversamente. Uma das últimas coisas que eu queria é que ela não se sentisse bem ao meu lado. Eu devia desculpas. Por ter saído ontem daqui, do nada, quando mostrou fotos de um homem do século passado que tinha a minha cara, e a mulher que ele amou que tinha a cara dela. Pensando bem, era muito para minha cabeça, mas fui covarde em deixá-la sozinha e confusa. Só que na hora fiquei muito desnorteado. Eu ia falar com ela, juro, mas então aconteceu o ataque do ex, me enchendo de culpa. Se eu não a tivesse deixado sozinha, não teria acontecido nada daquilo. Charlotte não me merece. Desci e fiquei no sofá, aguardando-a descer. Pedir desculpas era o mínimo que podia fazer. Tinha de ser sincero e não iludi-la. – Bom dia, pensei que minha cama estava pegando fogo – Char disse, descendo as escadas. Meus olhos examinaram o corpo dela todinho. Parecia provocante demais para as onze da manhã.

– Mas estava... – deixei escapar, droga! Ela se virou, ligeira e captou sem querer o fogo dos meus olhos, em algumas partes onde o jeans que estava vestindo apertava. Ela ficava sensacional de calça jeans. Só a tinha visto de saias e vestidinhos, mas dessa vez... Deus, respira, Gabriel! – Não tenho dúvidas! – aquele sorriso arteiro foi como um tiro. Acertou bem no meio do meu peito, cara! – Pensei em tomarmos um brunch na padaria do Portuga, que tal? Eu pago – desviei o assunto e passei as mãos no tórax para conferir se estava tudo bem. É, mais ou menos... Eu estava fodido com ela assim, toda cheia de provocação. Char vestia uma regatinha branca que mostrava sutilmente os seios, e pela minha rápida análise estava sem sutiã! Respira... O jeans escuro era desfiado em muitas partes, mas o que era aquela bunda?! Ai, Gabriel, se concentra, porra! – Estou faminta – piscou, lambendo os lábios com cor de pêssego. Eu queria mordê-los, depois chupá-los. Ela estalou a língua num sorriso dengoso, despertando-me da cena que criava sozinha em minha mente sacana. Qual é? Acordei de pau duro e agora estava fantasiando? – Então vamos logo, gulosa! – levantei e estiquei as pernas, na verdade verificando física e


mentalmente se ainda estava duro. Bem, quase. – Vou ligar no meu serviço para avisar que não vou, ok? Só um instante, daí podemos matar a nossa fome... – sua voz soou tão grave e perigosa que dessa vez eu endureci, e não foi gradativamente não, porra, foi assim: tum! Um piscar de olhos e já estava durão. Virei de costas para ela, e ajeitei o menino teimoso dentro da calça. Merda, é sempre assim. Homem nunca consegue disfarçar o tesão, é muito complicado esconder a porra da barraca armada! Em momentos que a situação surge, o desejo estourando por todos os lados, ficar excitado deixa tudo inconveniente, já que não tem como esconder. Disfarcei, fingindo que observava o seu jardim muito bem cuidado, enquanto ela ligava para uma tal de dona Vitinha da biblioteca. Disse que estava indisposta aquele dia, que breve lhe explicaria melhor tudo que havia acontecido. – Vamos? – puxou uma bolsa marrom pequena e abriu a porta da frente.

– Posso só pedir uma coisa? – ela fez que sim, assim que trancou tudo e estávamos na varanda. – Podemos passar em casa para pegar o Madruguinha? Coitado, odeio deixá-lo sozinho, mesmo sabendo que o Rafa passou lá e alimentou o bichinho. Sei que sair de manhã, comigo, é o que faz o danado feliz. – Isso seria bem legal. Vamos lá! – disse ela, animada.

– Jura? – meu sorriso bobo deixou a minha cara ainda mais idiota. – De fato. Ajeitei uma mecha que o vento bagunçou dos seus cabelos perfeitos. Senti seu corpo se aquecer mais e eu me perdi nela. Aquele era mais um momento que ficaria para sempre. Pois não havia olhos mais profundos que os dela. Ela era a minha loucura e, ao mesmo tempo, minha salvação.

Já mencionei o quanto Madruguinha é fã da Charlotte?! Já! Então vou repetir: ele só tem olhos para ela, e quase não conseguia ficar ao meu lado. Sempre se enroscando perdidamente nas pernas dela e exigindo carinho durante todo o percurso. Enquanto conversávamos sobre tudo que tinha acontecido, as desculpas e as verdades, tomamos café no lado de fora do Portuga, nas mesinhas confortáveis e arejadas, já que estava com o meu cachorro. Depois seguimos pela calçada e entramos no Museu do Ipiranga. Era o lugar que tínhamos nos conhecido. Parecia que tinha sido há tanto tempo. Havia ali uma energia positiva, tornando as pessoas felizes. Paramos perto das escadas, já que Madruguinha quis correr um pouco no mato ao lado. Ela o fitava com os olhos amorosos, e eu fazia o mesmo por ela. – Esse cachorro é um barato! Ele gosta de fazer umas coisas malucas. Como pode ficar fascinado por aquela borboleta? – apontou, rindo do cão. – Grandes coisas se fascinam por pequenas... – mencionei, ainda fitando sua beleza.


– Ah Gabriel, eu não vejo a hora de termos o nosso final de semana juntos... – mordeu a ponta da boca, toda dengosa. – Eu mal consigo me controlar, Char, mal consigo! – falei, quase sem fôlego. Ela conseguia me hipnotizar. – É o que eu mais quero... Não me controlar – piscou ao comentar.

– Não se prenda, por favor. Será muito divertido, Char – animei-a, ela sorriu. E para deixá-la mais confortável, eu disse. – Você convida a sua amiga para ir? Será que ela aceitaria? – questionei, ainda encantado por ela. Charlotte virou o rosto em minha direção. O sorriso roubando tudo. – Claro que sim, com Marcela não tem tempo ruim.

– Será um final de semana incrível. Esquecermos tudo de ruim e vivermos apenas o momento – comentei num riso, realmente feliz. – Você tem um sorriso incrível. Por que o esconde atrás da barba?

– É porque tenho um rosto feio – brinquei, rindo mais alto. – É o que Rafa diz, pelo menos. – Rafa tá com ciúmes por você ser um anjo mais bonito que ele – ela estava me agradando, era isso. Dei de brinde uma piscadinha, que a fez corar. – Vou dizer isso a ele! Tenho certeza de que não falará mais com você.

– Ah, então não diga – gargalhou. Fechei por um segundo os olhos, registrando esse timbre tão singelo. – Sua risada vibra aqui dentro – toquei o meu coração. Ela levou as mãos carinhosas até lá. Ficou ouvindo o quanto estava acelerado. – E sua luz reflete o mesmo em mim. Ficamos por longos segundos, um olhando dentro da alma do outro, sentindo o coração bater muito forte. E foi então que ouvi o latido de Madruguinha por perto. Olhei para trás e vi o que ele tanto nos avisava. Perigo. – Olá, Gab! – não sei o que ela fazia ali, e não entendi sua cara emburrada. Apesar de estar com a aparência estranha, até parecia bêbada. Eu nunca tinha visto Carla daquele jeito. Naquela situação. – Oi, Carla. Perdida novamente por essas bandas? – fingi até certa cortesia, mas meu cachorro latiu forte, me recriminando por estar dando atenção à Cruela. Notei que ela estava descontrolada, seu rosto distorcido como se tivesse usado algo. Suas roupas estavam largas e sua aparência apática. Seu corpo aparentava estar bem mais magro. O que havia acontecido com aquela moça? – Não, eu estou morando por aqui. Já havia dito, esqueceu? – disse meio furiosa.

– Está tudo bem, Carla? – perguntei, preocupado. Ela olhou para um lado, depois para outro, retorcendo os dedos. Depois por fim disse, ignorando completamente a minha pergunta. – Quem é essa? – disse, apontando para Charlotte. Não gostei de seu tom, e Char menos ainda.


Mas quem odiou essa aproximação foi o meu cachorro, que não parava de latir. – Oi, bola de pelo! – disse com desdém. Tive vontade de questioná-la o por que de estar daquela forma, daquele jeito. E, principalmente, o por que estava nos interrogando? – Sou a Charlotte, uma amiga – ela respondeu, encarando a rudes de Carla.

– Ele apresenta todo mundo como amiga – ela piscou, ordinariamente. – Foi bom rever você, Carla, mas por favor, nos dê licença – como se Madruguinha tivesse nos entendido, ele voltou a latir. – Calma, amigão, ela já vai. – Só falei a verdade! Machuca, não é? – grunhiu, venenosa. – Não, não machuca, porque somos amigos de verdade – eu não devia satisfação alguma para ela, e Charlotte ao meu lado, infelizmente presenciava aquela ceninha ridícula. – Não tente me enganar, Gab! – Carla cruzou os braços, toda nervosinha. Qual era a dela, porra? – Está doida, Carla? O que está pensando? Cadê sua namorada, o Nick ou a Nick, sei lá – tentei deixar para lá, mas a minha irritação estava ganhando espaço. – Ela me deixou... Todo mundo me deixa no final – aquele devia ser o motivo por estar tão mal. – Não seja dramática. Cada um colhe o que planta – desabafei. Eu tinha de abrir a boca... Porque foi nesse instante que sua fúria se voltou novamente em minha direção. – Tá dizendo isso porque eu te deixei no dia em que sua mãe morreu?

Não se sinta importante. Nem por um segundo, por favor – bufei, irritado por fazer

Charlotte ouvir toda essa merda. – Que diabos está realmente fazendo aqui? – grunhi, irritado.

– Estou na merda... – isso eu podia ver claramente. – E o que eu tenho a ver com isso? – eu nem queria saber, mas ela iria dizer mesmo assim. – Preciso de sua ajuda... – Char me encarou, e eu não sabia o que fazer. – Aconteceu de novo... Lembra, te contei... – pude ver que ela queria usar de qualquer forma algo para me atingir, só porque me viu ali, feliz. O sorriso de canto denunciava o quanto estava sendo ordinária. – Sua aparência não nega o que está usando, Carla. Desculpa, mas isso não é problema meu – sei que estava sendo duro, mas ela deveria procurar tratamento, não perturbar a minha vida. – E daí que sou uma viciada, não é? – irritada, desabafou, deixando Charlotte em choque. – É por isso que as pessoas não suportam ficar ao meu lado. Nem você suportou! – ela estava alterada, completamente fora de si. – Procure um lugar que possa te ajudar, sério – falei firme, ela viu em meus olhos. E abaixou um pouco a guarda. Quando namoramos, ela havia mencionado como mergulhou profundamente no submundo das drogas. Tinha chegado até a viver na famosa Cracolândia. Só que uma luz a trouxe de volta, e viveu bons dias ao meu lado quando se recuperou. Vê-la nessa situação me deixava


desconfortável. Eu jamais iria querer seu mal, mas também não queria que ela usasse isso para se aproximar de alguma forma. E acabar com uma parte dos meus sonhos que, finalmente, se realizava. – Vocês estão transando, posso sentir a ligação – gritou, voltando a se alterar, já que não obteve a minha atenção. – Isso não é da sua conta pelo que eu saiba – Char replicou.

– Fica na sua! – apontou o dedo para Char. Eu me enfureci. Nisso, Madruguinha veio para perto, nos defendendo. – Fica você na sua! Não pode vir até aqui e insultar uma pessoa importante para mim. Nem todo mundo é como você, destrutiva! – apontei igualmente o dedo incisivo. – É melhor você ir. Trate-se, antes que algo te aconteça. Não pode andar assim, nesse estado, por aí. – Sabe moça, vou te contar um segredinho... – ela tentou se aproximar, mas Charlotte recuou.

– Um dia, eu mexi na gaveta dele, aquela que guarda a maconha, sabe? Vi algo lá que me deixou confusa... Algo que ele se recusou a comentar. Já contou a ela, Gabriel? – meus olhos se arregalaram e o peito quase explodiu de tanto nervoso. Como ela se atrevia a dizer aquilo? Eu estava tentando ajudá-la, e maldita só me fodendo. – Já que mencionou com tanta fervura que ela era sua amiga, achei que já soubesse. Dói ver o jeito que me olha, Gabriel. Eu te amei, sabia? – sua voz tornou-se muito baixa, mas não abafava o que ela havia dito segundos atrás. Meu corpo tremia. – Não posso dizer o mesmo. Éramos muito diferentes.

– Não foi o que pareceu quando teve uma recaída por mim, na vez que nos esbarramos numa balada dois anos atrás... eu fui até a sua casa... te fiz feliz... você gostou, certo? – meu sangue ferveu. E que puta merda cometi sem saber, porra? – Caralho, cala essa porra de boca! – rugi, numa tentativa de calá-la.

– Não se envergonhe por ter curtido uma noite desvairada comigo... mas eu vi o que esconde... e não gostei! – provocou mais uma vez. – Por favor, nos poupe de detalhes sórdidos! – Char bufou, eu estava quase explodindo de raiva ao ver Carla sorrir ordinariamente por tentar destruir a minha felicidade. – E contou o quê para mim, Gabriel? – Char tocou em meus ombros eretos, fazendo-me estremecer. – Pode, por favor, nos deixar, agora? – comentei, fitando Carla com fúria.

– Ah, desculpa, achei que ela soubesse – sorriu friamente. – Não esconda por muito tempo, ela parece frágil demais. Pode ser que a destrua... Maldita. Ela se virou, sentindo-se vitoriosa mas, ao fazer isso, deixou que Madruguinha entrasse na frente. Isso a fez cair, rolando ladeira abaixo, gritando feito uma maluca. No começo ficamos chocados, mas ao vê-la escorregando e tentando se agarrar a algo, começamos a rir muito alto. Nós e todo mundo ao redor. Até que Carla parou perto de uma árvore. E para piorar a situação,


outro cachorro apareceu e montou nela, querendo cruzar com sua perna! Aí a risada rolou ainda mais alta. Fitei o semblante preocupada da moça linda ao meu lado. Aquele não era o momento para dizer-lhe tudo, mas eu contaria. Em breve. – Eu vou querer saber o que ela disse? – a voz soou muito baixinho atrás de mim, quase ferida. Não era possível que estaria vivendo isso, dessa forma. – Eu vou te contar tudo, Char. Meus sentimentos se misturaram intensamente dentro de mim. Eu já estava planejando há tempos uma forma sutil para contar-lhe tudo. Daí vem uma maluca do passado e destrói o nosso momento precioso. Sei que eu não deveria adiar por muito mais tempo. A hora de mostrar a verdade estava mais próxima do que eu pensava... – Espero que sim, Gabriel.

Sei que na cabeça de Charlotte, ela deveria estar pensando sobre Carla e tudo que tinha acabado de acontecer. Até pensei em puxar assunto e resolver isso de uma vez por todas, mas fala sério, quem quer conversar sobre ex? Nós ainda estávamos construindo algo, como abordar assuntos tão desnecessários? Mas acontece que não foi apenas o fato de ela vir e tentar nos irritar. O maior acontecimento era a situação em que Carla estava. Eu não queria deixar de lado, não podia, e muito menos Charlotte me impediria de ajudar. Como consequência, voltamos num silêncio confortável. Ela não me cobrou nada, e nem eu quis questionar o que poderia ser de tão importante que Carla havia comentado. Ao chegar em sua porta, combinamos sobre o que iríamos comprar para levar no churrasco. Ela ficou de ir com a Marcela, enquanto eu iria com Rafa. Comentei mais sobre ele e a casa em que passaríamos o final de semana. A família do Rafa tinha uma grana preta, e pedi gentilmente que não se assustasse com nada. Ela sorriu singela, pois eu havia me esquecido de onde ela tinha vindo. Porra, a garota havia morado num castelo, tinha muita grana, era britânica com títulos importantes. O que éramos perto dela? Nadinha! O bom é que ela não enxergava nada disso, e não ostentava também. – Assim que falar com sua amiga, me envia uma mensagem dizendo se deu certo. O Rafa está muito inquieto, fazendo de tudo para conhecê-la. Estou ansioso por amanhã – falei antes de me despedir. – Ficará bem sozinha? – toquei levemente em sua mão, e ela não se afastou como eu pensei. – Sim, obrigada por sua preocupação. E falarei o quanto antes com Marcela, mas já adianto, ela adora festas. Então, estamos dentro. – Ótimo. Só me avise o horário que passaremos aqui para que possam nos seguir – estava tão agoniado, nervoso e muito alvoroçado pelo dia seguinte. – Combinado – ainda estávamos tocando as mãos. Sua respiração quase se misturou com a minha. Char deu um beijo, delicado e cauteloso, no canto da minha boca. Minha vontade foi de


agarrá-la e devorar com calma os seus lábios. Me deliciar nela era o que mais desejava na vida. Madruguinha estava entre a gente e se roçou nela, querendo atenção. Sorri ao vê-lo tão exigente. – Também adorei te ver, Madruguinha. Venha mais vezes, por favor – ela esfregou as mãos nas costas dele. – Não diga isso. Ele é abusado, não está vendo? – apontei a cara de pau do meu cachorro.

– Ele é perfeito. Vocês dois são – tocou nele com uma mão e a outra, levantou e passou em meu rosto. Um amor nascia lentamente em nosso peito. Unindo-nos. Queria gritar o quanto estava apaixonado por ela. – Char, eu acho que... – gemi, ela me cortou.

– Eu também, Gab – não havia olhos mais lindos do que os turquesa a minha frente. Não podia existir algo mais incrivelmente espetacular. E só dela dizer isso, concordando com meus sentimentos, me sentia tentado a fazer algo. Por isso o fiz... Primeiramente, fitei seus olhos, admirando a imensidão que inundava o meu mundo com amor. Logo depois toquei o seu rosto, sentindo o calor de suas bochechas coradas. Somente toquei meus lábios nos dela. Sem fome, sem pressa, sem possessão. Foi apenas um selinho para dizer: iremos mudar isso. Aquele era o nosso primeiro contato. Algo que unia a nossa alma, libertava o amor de uma forma digna e maravilhosa. Tinha sido algo rápido, e ao mesmo tempo, tão lento e explosivo. Senti meus lábios pegarem fogo, consumindo minha vida tão frágil. Me senti tão grande e protetor... O homem da vida dela, já que ela era a mulher dos meus sonhos. – Obrigada – ela esperava por isso quase o mesmo tempo que eu, mas não era somente isso... Era mais, éramos mais. Uma lágrima saiu de seus olhos. Colhi-a com o indicador e levei-a até os lábios. – É minha – fechei os olhos e a abracei. – Char, sei que deve estar com a cabeça fervilhando por Carla ter sido tão cretina, mas... – ela travou os dedos em meus lábios. – Agora não, Gab. Em qualquer outro momento gostaria de saber o que te incomodou, mas não agora. Por que nesse momento, somos apenas um do outro... – toquei o seu rosto, apaixonado, querendo mais daquilo. Ela fechou os olhos, rendida. Deslizei a boca pelo seu queixo, que tremia levemente. E parei no pescoço, roçando os dedos na delicada tatuagem. – Jura? – sussurrei. Minha voz estava tão trêmula, que não me reconhecia.

– De fato! – riu gostosamente. – Isso está virando um bordão nosso. – Espero que sim – e quando pensei em dar-lhe mais um beijo de despedida, um pouco mais ousado do que o primeiro, ouvi um gritinho agudo atrás de mim. – Ai, Deus! Não queria atrapalhar, mas já era! – virei o rosto e vi o sorriso alegre de Marcela.

– Estava de saída – avisei, me afastando. Madruguinha novamente ficou altivo. Oh, cachorro esperto. – Já que está aqui, temos um convite. Aliás, o Gabriel tem. Um amigo dele fará uma festinha a


partir de amanhã, e nos convidou. Topa ficarmos todos juntos o final de semana? – Claro! Onde e que horas, estaremos lá! – ela era tão animada. Rafa iria adorar isso.

– Alphaville. Iremos amanhã cedo, se quiserem aproveitar o sol e pegar uma piscina. – Tá combinado! Estou de folga e preciso beber para esquecer algumas coisas. E bem, terá algum gatinho? – virou o rosto alegre para mim. – Fora você, é claro – agora fiquei meio sem jeito, e Char ainda mais vermelha. – Marcela, controla a língua! – ela cutucou a cintura da amiga.

Bem, o Rafa é um bom partido, mas deixarei isso para você decidir – pisquei, e ela me

retribuiu. Charlotte balançava a cabeça, envergonhada. – Então está tudo certo. Podemos passar aqui umas oito e meia da manhã? – Está ótimo. Então temos de ir agora mesmo ao mercado e comprar o que for preciso. Como sabe, somos vegetarianas. Então levaremos as nossas coisas, não se preocupem – Char garantiu. – Ok, passaremos aqui amanhã. Até mais, meninas. Bons sonhos. Saí, doido para dar mais um beijinho em Charlotte, e seu sorriso de ponta a ponta dizia que queria o mesmo. Amanhã, Char. Amanhã eu te encherei de beijos muito, muito bons. – Quer que eu entre para vocês se despedirem? – Marcela disse, mas nem escutamos.

– Até... – Char sorriu, alegre. Mordi a minha boca controlando todas as vontades. E finalmente fui embora, ainda olhando para trás.

– Você não vai mesmo me contar como é a Marcela? – falou Rafael, todo birrento no corredor de bebidas. Era tarde da noite, mas como ele passou em casa, não tive escolha a não ser me render e vir com ele para comprar as coisas para o final de semana. – Rafa, é sério, não vou contar. Você vai conhecê-la amanhã – coloquei uma caixinha de cerveja no carrinho, preparando para pegar mais. – Leva só cerveja, vodca e algumas frutas para fazer uns drinques, nada além – indiquei, ele logo deixou a garrafa de Absinto no lugar. Rafa é todo brincalhão, estava apenas de zoeira. – Será que ela vai gostar de mim? – era estranho ver essa insegurança toda nele.

– O que disse? – zombei. Rafa me olhou mais sério. – Sabe, já quebrei a cara por muito tempo com a Márcia. Não quero ficar me iludindo. Às vezes eu queria ser um safado sem-vergonha que sai pegando todas, mas não sou. Isso que acaba me destruindo. Por que não sou assim, Gab? – Você é safado e sem-vergonha quando quer, Rafa. Mas ainda bem que é não um galinha, que sai por aí iludindo mulheres. Você é a pessoa mais honesta e gentil que conheço. Não queira ser como esses homens aí fora, cara. Você é diferente, e isso é ótimo. Acredite.


– Obrigado – assentiu. Continuei a colocar as coisas no carrinho. – Mas amanhã é dia de curtir e não se iludir, certo? – ele me fitou de lado. Querendo saber em quantas estava eu e Char. – Certo, mas cuidará do seu e me deixará à vontade, não é? – pisquei arteiro a ele.

– Claaaaaro! Está mais do que na hora. Sua barba deve estar criando raízes nessa boca virgem! – deu um soco em meu ombro, fazendo-me resmungar. – E lá, então? Nem se fala! – gargalhou, e foi minha vez de socá-lo. – Idiota.

– Vamos pegar as carnes, porque quero só filé! Elas merecem o nosso melhor – sorriu, sem um pingo de vergonha. – Qual parte da frase “elas são vegetarianas” você não entendeu? Quer que eu desenhe? – revirei os olhos, e fui empurrando o carrinho cheio. Esse folgado ficava como patrão, exigindo e enchendo cada vez mais o carrinho. – Bem, é um desperdício, não acha? – não respondi a sua provocação barata. – Mas e se a gente mostrar nosso corpinho amanhã, será que elas mudam de ideia? – ele não prestava. – Rafael, você é o cara mais idiota do mundo!

– E o que você mais ama, seu lindo! – cutucou minha cintura, e umas meninas estavam nos olhando conversar, e ouviram a última parte. – Sai daqui! – empurrei já que ele se encostou ainda mais. As meninas saíram rindo, achando que éramos um casal. Ele adorava fazer isso e me irritar por tabela. – Você com essa barba malvada sempre fica com cara do machão, e eu com meus olhos coloridos acham que sou a mocinha! – fez graça com a voz e saiu rebolando. – Exatamente!

Nem ligo – fitou meus olhos risonhos, logo saiu rebolando e batendo o cabelo que nem

tinha. Éramos dois idiotas. – Mentira. Sai de perto de mim, nos encontramos no caixa. A conta é sua! – voltou com a voz de machão. – Um caralho, bixa furta-cor! – respondi bem alto, ele me fuzilou.

– Olha a boca, barbudo malcriado! – bufou teatralmente. – Que você ama! – Que porra! Eu te amo mesmo, cara! Mas amarei mais amanhã, já que me arrumou uma garota legal – quase gritou, animado. – E que você aprovará! Se prepare, Rafa.

– Eu só quero ver. Estou numa ansiedade da porra! Eu também, meu amigo, eu também. E finalmente eu teria o momento perfeito ao lado da pessoa que estava me fazendo ter esperanças em um mundo incrível e feliz. Agora, que venha o final de semana fantástico!


Charlotte Me apaixonei por você rápido Algo como um sonho Eu quero você, Isso é tão ruim que é difícil até mesmo respirar Então me abrace agora. ~Lady Antebellum – Falling for you~

Depois que voltamos do mercado, Marcela ficou em casa comigo, ajeitando as coisas para o dia seguinte. Ela correu até a sua casa e já fez uma pequena mala, sem contar várias peças de roupa nos braços, para que pudéssemos escolher juntas. Eu também necessitava conversar com ela, botar alguns assuntos em dia. Muitas coisas tinham acontecido nas últimas 24 horas. – Você está melhor, Char? – questionou, me olhando meio receosa ao mexer nas roupas espalhadas na cama. – Ainda bem que ele ficou com você durante toda a noite. Tudo bem que eu fiquei muito brava por você ter me contado tudo por mensagem, somente essa tarde. Assim que li, te liguei de volta, mas cadê que você atendia o celular? Saí do serviço e corri até aqui... Mas como te vi sorrindo e bem, muito bem acompanhada quando cheguei, fiquei mais relaxada – veio até meu corpo e me abraçou, apertado, tentando fingir-se de brava. – Vou ficar bem... Mas confesso, Má, foi um momento da minha vida que achei que morreria... Vinícius foi um monstro... Bom, não quero pensar mais nisso. Gabriel esteve aqui para mostrar o quanto posso confiar em estar com ele – minha voz saiu engasgada. Marcela me sentou na cama, segurando minhas mãos. – Se eu tivesse perto, teria matado esse filho da puta por ousar em fazer qualquer maldade com

– Teria arrancado as bolas dele com as unhas e enfiado nos olhos dele! – bufou, mas riu, sarcástica. – Desculpa, mas não consegui pensar em algo pior – você! – ela grunhiu, realmente nervosa.

deu de ombros. – Eu te entendo. Rafael o socou bastante, pode ficar tranquila. Ele teria feito algo pior se eu não o travasse. – Deveria ter deixado o rapaz arrancar um pedaço dele, pelo menos. Puto sem-vergonha!

– Acho que conseguiu, no mínimo, quebrar o nariz, isso sim! – ri baixinho, mas nada daquilo era engraçado. O meu riso era nervoso, e ela notou. – Sinto muito mesmo, mas nada de ruim te acontecerá, Char. Fica tranquila – levantou e foi


mexer na bolsa. – Eu tenho faro para esses canalhas. Ainda bem que na época te alertei, mas não podemos prever que um cretino desse poderia ter uma obsessão maluca por você e fazer todas essas merdas. Se eu quiser ver barbaridades, assisto o programa do Datena, pô! – falou e eu assenti, meio sem jeito. Ela me fitou por um momento antes de perguntar: – Não entendeu nada, né britânica? – colocou as mãos na cintura, parecendo uma heroína de quadrinhos. E de certa forma, ela era a minha. – Só não entendi o final, mas creio que está certíssima! – confessei e rimos, cúmplices.

Char, no Brasil existe algo que se chama TV aberta. Larga a Netflix, por favor! – bufou

teatralmente, e me fazendo sentir-se muito melhor. – E continuando o assunto... O que me diz desse Rafael? – O que tem ele? – brinquei, mordendo a unha do dedão.

– Quero saber mais... – ela dava de ombros só para fingir que estava nem aí, para eu falar. Conheço bem demais essa mulher. – Amanhã o conhecerá, e espero que se perca de paixão... – suspirei, brincalhona.

Rá, eu me render?! Logo eu, a capricorniana sem coração! – disse, em tom de desprezo. Explodi numa risada. – Aham, só quero ver! Depois vou tirar sarro de sua cara!

– Agora vamos voltar ao que realmente interessa, finalizar as coisas e dormir, porque amanhã é dia de farra! – falou, fingindo indiferença. – E de conhecer o amor... – Marcela mostrou o dedo do meio, enquanto eu lhe mostrava a língua, mas eu apostava todas as fichas que ela iria sim cair... de amores!

O dia amanheceu perfeito. Não sei se era por minha vontade de vê-lo e saber que teríamos um momento a sós, ou se estava realmente tudo muito bem. As duas opções eram ótimas. Levantei, e por mais inacreditável que parecesse, Marcela já estava de pé, conferindo mais uma vez a pequena mala com as roupas para o final de semana. Sorri ao me aproximar e vê-la perdidinha no meio de tantos biquínis. – O que está acontecendo aqui? – cruzei os braços e me encostei no batente. Ela estava muito agitada. – Levo esse? – ela já tinha arrumado a mala na noite anterior, mas acordou muito antes da hora e voltara a mexer. – Não! Muito vulgar para o meu gosto – falei de forma sincera. Ela se ofendeu.

– Ah, para! Tá lindo, e outra, eu vou conhecer alguém. É importante – apontou para o corpo cheio de remelexo, tentando arrumar uma justificativa para levar quase um fio dental. Revirei os olhos.


– Marcela, você é linda! Não precisa disso para chamar a atenção. Pelo que conheço dele, é uma pessoa gentil e irá apreciar sua companhia, não um micro biquíni. Por favor, vamos ser discretas – falei carinhosamente para não aborrecê-la. – Ok, e esse? – apontou para um vermelho de bolinhas brancas, estilo retrô.

– Sim! Esse é perfeito. Vou levar o meu amarelo. – Ótimo! Melhor do que não colocar nada. Até o seu maiô superfofo cairia bem – falou, toda alegre. – Acho que vou ficar com o Gabriel – mencionei muito baixinho, com medo do que ela ia falar. – Vocês ainda não ficaram?! – parecia um absurdo essa questão para ela. Meu rosto pegou fogo na hora. – Não – fui sincera. Um selinho não queria dizer que ficamos, certo?

– Nossa, ou ele é respeitoso mesmo ou deve tá com as bolas roxas! – nós duas caímos na cama e rimos muito alto. – Sua idiota! – cutuquei sua cintura. Ela se levantou e finalizou enfim, a arrumação da pequena bolsa. – Obrigada por me convidar, eu precisava mesmo conhecer alguém depois das infinitas brigas e do término desgastante... – senti sua voz mudar ao falar. Ela era toda espalhafatosa, mas existia um medo enorme dentro de seu coração. Espero que ela fique bem e que se dê com o Rafael. – Foi ideia do Gabriel. Acho que ele adorou sua maluquice, deve combinar com a do amigo – falei, empolgada. Ela vibrou lindamente, tentando adivinhar como ele era. – Só me fala uma coisa, ok? – assenti. – Ele é gato mesmo? Ou um feioso? – ela e sua mania de controle. – Isso fará diferença se gostar dele? – joguei.

– Não, mas quero estar preparada para o que vier. Não gosto de surpresas. – Você gosta de estar no controle, isso sim – ela empinou o nariz autoritária, nem liguei. – Fica tranquila, acho que irá se surpreender. Só se deixa levar, Má, uma vez ao menos – aconselhei. Ela ficou pensativa, mas não perguntou mais. Então descemos para receber os nossos novos amigos. Ouvi um barulho de carro estacionando em frente de casa e vi pela janela que eram eles. Aguardei, enquanto Marcela pegava algo na cozinha. A campainha tocou. Eu saí sozinha para atendê-los. E ver Gabriel foi como ser atingida por um raio. Uma nuvem carregada de emoções, com meu coração pulsando diversas sensações boas. Observei em Gabriel um jeito diferente de me conquistar. O amor nascia nos pequenos detalhes, e arrancava suspiros. Eu só queria olhá-lo o dia inteiro, beijar a boca dele, e sentir o seu cheiro tão bom. – Oi – suspirei ao vê-lo.


Oi, tudo certo? Estão prontas? – Gabriel estava encostado no carro, de camiseta branca, bermuda jeans caramelo e óculos escuros, uma visão perfeita do paraíso. Seu sorriso transbordava no meio daquela barba ruiva iluminada pelo efeito do sol. – Sim, estamos prontas. Já vamos? – torci as mãos uma na outra, pois não tinha aonde colocálas. Gabriel veio para perto. Muito perto. Um abraço nasceu e eu achei onde colocar minhas mãos. Em suas costas tão bem-vindas. Inspirei seu cheiro da manhã, e não precisava de mais nada, eu respirava. – Adoro o seu cheiro – sussurrou em meu pescoço. Estremeci, perdendo a força nas pernas, mas ele me manteve em pé. Ele sempre manteria. – Pensei o mesmo – gemi, pois não havia palavras firmes para saírem dos meus lábios. Ele me apertou mais em seu abraço. Minhas mãos deslizaram pelas costas, como se pudesse sentir suas asas. Queria tanto dizer o quanto estava apaixonada por cada momento que ele me presenteava. – Quero passar esse final de semana assim, enroscado em você. Aceita? – dessa vez não sussurrou em meu pescoço, foi quase na boca. De frente, olhos nos olhos. Derreti. – Não precisa pedir de novo. É aonde eu mais quero estar – confessei com o rosto em chamas e o corpo em pedaços. Mas ele juntaria cada pedacinho, tinha certeza. – Bem – ouvimos um pigarro atrás dele –, tem pessoas que ainda precisam ser apresentadas. Então, se puderem acabar com o showzinho particular, eu adoraria conhecer aquele anjo – a suave voz do Rafa parecia emocionada, e não brincalhona como eu o conheci. E quando notei, seus olhos radiantes estavam além da gente. Lá na escada, descendo com a pequena mala de rodinhas. Marcela não havia visto ele ainda, mas sua aura já brilhava. E não tive dúvidas que seria amor à primeira vista. Meu peito se encheu de amor, e me senti um cupido. Ele faria tão bem a ela... Esperei Marcela descer, e quando levantou seus olhos do chão, ela travou. E foi tocante quando os olhos dela encontraram o rapaz loiro e alto que estava ao nosso lado. O sorriso dela nasceu tímido, mas eu pude ver a sua postura mudar. Ela se... rendia. Nesse exato momento acreditei no amor. Porque foi como se eles tivessem sido atingidos por esse sentimento. De tal forma que os travou, fazendo os dois sorrirem, e quase correrem um para o outro. Jamais imaginei que isso fosse capaz de existir. Mas eu assistia e sentia meu coração aquecer com aquilo. Meu corpo todo formigou assim que Gabriel tocou minha cintura e Rafael meus ombros. Aquilo foi uma explosão de amor. Algo forte nos unia, aos quatro. Comecei a tremer até Marcela chegar, as mãos dos dois em mim como uma benção dos céus. Gabriel me segurava, e eu segurava Rafael para não cair de joelhos, pois aquela era a sua vontade. – Meu bom Deus... o que é isso? – ele sussurrou, muito perto de mim, e não compreendi o seu desespero. Mas ao olhar para ele vi a íris de seus olhos tão intensas que me emocionei. O azul era o mar, e aquela mancha marrom estava cor de mel, tão clara e brilhante que pareciam a cor dos olhos dela... Achei incrível, pois era idêntica! – Rafa, essa é a minha amiga, Marcela. E Má, esse é o Rafael – fiz a apresentação, mas senti que nem deveria.


Ela curou meus anseios. Não tenho mais chão – ouvi Rafa dizendo muito baixinho para Gabriel, que segurou o amigo. – Muito prazer, Rafael – eu nunca vi minha amiga conhecer alguém sem dizer uma gracinha, e para piorar, ela estava corada. Ei, peraí, a Marcela corada? – Vocês estão bem? – tive que dizer, os dois tocaram as mãos e travaram. Pareciam congelados.

Muito bem – disseram os dois juntos. E Rafael se aproximou um pouco mais dela. Ela permitiu um abraço. Foi então que uma onda saiu do corpo deles, e sentida por nós. Gabriel e eu nos olhamos, perplexos. – Onde você esteve esse tempo todo? – ele questionou a ela. Fiquei confusa.

– Vocês já se conhecem? – encostei a mão nas costas dele. – Não, mas é como se esperasse por isso. Foi assim que aconteceu com vocês? – olhou de relance ao amigo, e a Marcela estava enfeitiçada. Eu nunca vi isso. – Acho que sim, Rafa – aquele homem lindo ao meu lado respondeu, me pegando pela mão. Éramos uma ligação divina, o nosso amor e o de Deus presente em nossas vidas. – Estão sentindo? – Rafa questionou, emocionado, tocando em seu tórax.

Era para ser – Gabriel respondeu e despertou o amigo. – Querem ir junto no carro, ou preferem ir com o de vocês? – ofereceu. – Vamos com vocês! – Marcela empolgou-se e a corrente divina ainda permanecia em sua essência, mas estava agora com o ânimo habitual. – Perfeito! Posso colocar no carro? – pegou as coisas da mão dela e a levou junto. Os dois saíram falando sem parar. Fiquei muito feliz. – Você pode subir um minuto comigo? – pedi ao Gabriel. Ele sorriu e tocou minha bochecha. Onde seus dedos deslizavam, senti arder. – Claro – assentiu e fui na frente, mas ouvi um grito na rua.

– Ei, deixa para fazer tudo lá, pare de querer antes – minha amiga brincou. – Cala a boca, Má! É rapidinho – pisquei animada, os três riram de mim. Subimos rápido mesmo, até chegarmos no meu quarto. Não dissemos nada, mas também não iríamos fazer nada. Era só para buscar uma coisinha. E se ele concordasse... – Esse final de semana é para curtir, se livrar de tudo, certo? – questionei perto dele.

– De certa forma, sim. Por quê? – sua voz mudou completamente. E não soube se era medo ou paixão. – Tenho uma coisinha. Ouvi aquela bruaca de sua ex falar de algo parecido, então acho que não se importará – ele me puxou de frente, me impedido de abrir a gaveta. – Olha, a Carla é uma louca, não precisamos... – tapei sua boca com a mão, gostaria de que fosse a minha calando a dele.


– Shh, não é sobre ela. Pode apostar – virei e comecei a fuçar na gaveta de calcinhas atrás de uma surpresinha. Gabriel estava ao meu lado, e ficou super sem jeito ao me ver mexendo ali. Assim que captei o que queria, apontei sem nenhuma vergonha na cara o conteúdo. Ele ficou pálido, mas depois gargalhou. – Isso é o que estou pensando, Char? – ele parecia inconformado. Qual é?

– Espero que sim, Gab! – ele se aproximou e tomou nas mãos o que estava entre meus dedos. – Você é maluca, menina! – beijou meu queixo e desejei que ele subisse um pouco mais. Subi mais o rosto para que acertasse na boca. Ele sorriu e mordeu um pontinho ainda no queixo. Ofeguei, rendida. – Você ainda não viu nada – engoli forçadamente a saliva, ele se afastou um pouco.

– Mas verei, Char, ah, como eu verei – fitou profundamente meus olhos. – Agora vamos, eles estão nos esperando – apressou em pegar minha bolsa para ajudar. – Podemos levar? – perguntei agitada.

É claro! Não posso acreditar que está com um cigarrinho! Você é muito surpreendente, menina! – tocou minha cintura, fazendo-me sair do lugar. – É, de vez em quando é bom fugir da realidade, antes que ela nos engula – dei de ombros e descemos. – Isso é compreensível. Não estou julgando-a, Char – assenti. – Só não acredito numa coisa, que você guarda nas calcinhas! – fiquei feito um morango, mas gargalhei. – Claro! Quem poderia mexer além de mim nessas peças tão particularmente singulares?! – ele riu alto, enquanto eu trancava a porta. – Bem, se eu tivesse oportunidade, adoraria explorar cada uma delas... – aquela voz rouca roubou minha atenção, e não sabia qual chave trancava o portão. – Está bem, Char? – foi Marcela quem questionou do carro.

– Sim, só estou – não formulei a frase, já que Gabriel me olhava fogoso. – Eu quero. – O que você quer, Char?! – ela brincou, e meus olhos não saíram dele. – Eu também. Muito – ele ronronou. – Vocês me dão medo, venham logo! – e voltou sua atenção ao loiro de olhos coloridos, e pude ouvir sua risada tão alta que alegrei ainda mais o meu coração. – É por isso que você vive com fome, não é? – Gabriel depositou minha bolsa no porta-malas e saiu rindo. Cutuquei suas costas, ainda rindo alto. – Vivo com fome porque sou vegetariana, oras! – brinquei, e entramos no carro.

– Aham, sei! Vou fingir que acredito – piscou e finalmente iríamos começar a nossa farra. Dias perfeitos nos aguardavam.


A mansão era um espetáculo à parte. Sempre me impressionava com casas grandes. Apesar de ter morado num castelo e nada deveria me surpreender nesse sentido, essa tinha uma energia muito bem-vinda. Rafa mostrou a sala de jantar e de jogos, apresentou os banheiros e onde ficaríamos. Os quartos meu e de Marcela eram bem opostos um do outro, entretanto era ao lado de nossos “pretendentes”. Decidi que depois iria investigar com Marcela se estava tudo bem para ela. Entendi perfeitamente que eles queriam nos deixar muito bem, mas que também adorariam ser nossos convidados... Fitei-a meio que de longe, sondando seu sorriso frouxo e como estava à vontade naquele ambiente. Ela parecia confortável com a escolha e por estar se permitindo viver incrivelmente bem esse final de semana. – Aqui é incrível, seus pais devem amar viver aqui – falei, depois do tour pela mansão.

– Isso é fantástico mesmo, tudo é de muito bom gosto – Marcela completou. O sorriso sincero de Rafael diante da aprovação da minha amiga irradiou pela cozinha. A imensa cozinha, devo acrescentar. – Obrigado, meninas. Eles precisam desse espaço, trabalharam duro a vida toda. Eles não vivem aqui, mas vem todos os finais de semana relaxar. É um espaço bacana. – Gosto da forma que fala, não é ostensivo... – Marcela o elogiou.

– Sou muito simples, você verá isso. – Tenho certeza. A cumplicidade nos dois já era sentida. Gabriel e eu adoramos saber disso. Fizemos um bem danado em apresentá-los. – Já estão com fome? Tomaram café? – Rafa era todo preocupado e adorei esse cuidado.

– Eu não estou, mas se quiser posso ajudar em alguma coisa – ofereci. – Estamos ótimas. O que tem para fazer? – Marcela jogou, toda dengosa. – Bem, pretendo cair na piscina e aproveitar esse sol maravilhoso logo cedo, que tal? – Rafael mencionou animado. Todos se olharam, alegres. – Posso preparar uns sucos bem saborosos. Trouxe muita fruta – Gabriel tomou a frente. Vão se trocar enquanto eu preparo, pode ser? – Quer ajuda? – ofereci, solicita.

– Adoraria, mas pode ir se trocar e ficar à vontade, eu cuido daqui – assenti e saí antes de ficar entre ele e a pia. Aquele espaço parecia mágico. Marcela e Rafael foram para o lado oposto, já que os quartos dos dois era para lá, e eu segui sozinha até o meu. Queria conversar com ela, saber o que estava sentindo, mas faria isso numa oportunidade melhor. Depois na piscina poderíamos fofocar. Ou não, pois assim que entrei no quarto, meu celular apitou. Ele é tão maravilhoso... como escondeu isso de mim, Char?!


Sorri ao ver sua mensagem. Sabia que não ficaria calada. Vá com calma, Mah, está apenas conhecendo, mas ele é sim muito gentil e maravilhoso. Estou feliz por vocês.

Enviei e recebi uma resposta sua em seguida. Quero beijá-lo a noite toda... ele é para mim, Char! Nunca diria isso tão rápido, vc me conhece, mas quero o Rafael. Quero só para mim... <3

Meu sorriso era todo bobo. Como eu pude não ver o quanto eles eram parecidos? Assim que pensei em responder, ouvi uma música bem alta, lá fora. A festa estava começando cedo. Fiquei com o corpo agitado, para lá de feliz. Olhei pela janela que dava de frente a piscina, e lá estavam Rafa e Gabriel. De bermudas e sem camisetas! A visão era de tirar o fôlego. Espiei entre a cortina, sem abri-la, e fiquei sem ar! Mah, sua janela dá para a piscina?! Olha lá...

Enviei com os olhos vidrados no que observava, e ela retornou. Puta que o pariu! Eles são um pecado, miga! Não conseguirei me comportar com algo tão gostoso assim em minha frente. Char, não posso evitar! ^-^

Gargalhei bem alto, e achei melhor sairmos logo, senão eles iriam estranhar. Vamos sair, já está pronta?

Troquei-me rapidamente, sem espiar mais. Miga, vamos arrasar com o coração deles... E mais tarde, com o corpinho... 3:)

Essa safada me enviou um emoji de diabinho. Eu não contive a risada, mas saí em busca da minha amiga maluquinha. Coloquei um short de tactel branco, bem curtinho. Gabriel nunca havia me visto dessa forma. Completei o look com uma regatinha também branca, com um desenho de girassol no centro. Eu adorava essa camiseta. E o biquíni amarelo por baixo, é claro. Não chegaria já com a peça, pois seria muito estranho. No corredor dei de cara com minha amiga que estava com o sorriso rasgado. Pisquei, enquanto a vi se agachando e fingido que pegava algo para vestir de volta nas pernas. Fiquei confusa ao olhar a cena. – O que foi isso? – apontei para seu corpo, que parecia tenso. Ela soltou a respiração agitada e disse rindo:


– Ê laiá! Tô buscando a calcinha que ficou no chão, né amiga! – gargalhei com sua expressão brincalhona. – Mano do céu, viu aquilo? Como vou disfarçar? Ainda bem que trouxe meus óculos, posso pelo menos fitar cada centímetro daqueles músculos sem precisar esconder! – abanou-se ligeiramente. – Pois é, amiga, que pecado! Mas vamos ser discretas ao menos, viu – aconselhei, mas senti como se tivesse soando como um papo furado. Quem queríamos enganar? – E aí, fiquei bem assim? – perguntei insegura.

– Pare com isso, você tá ótima. Como eu disse, vamos descer e arrasar com os corações desses lindos.

O som estava alto, mas não incomodava. Tocava Beyonce, e até cheguei a sorrir, talvez eles tenham criado de última hora uma playlist para nós, as meninas. Who run the world tocava alto, e fez meu corpo sentir que éramos realmente nós que mandávamos ali. E que eles seriam os nossos soldadinhos se precisassem. Caminhei com o par de chinelos pela estradinha de grama baixa, o sol ardente apesar de ser quase dez da manhã. Os dias estavam confusos, numa mesma semana tinha sol, chuva, e esfriava gradativamente. Era uma loucura, mas era isso que me agradava em São Paulo. A mudança de clima numa mesma estação. Ouvi um gritinho de alegria vindo de dentro da casa. Era Marcela que ria alto com alguma gracinha de Rafael. Então soube que Gabriel estava sozinho. O que era bom. Atravessei uma pequena ponte enfeitada com flores até onde pude ver os pés dele. Gabriel estava deitado numa cadeira que inclinava. E assim que toquei os pés na grama perto dele, pude vê-lo por completo. E faltou-me ar novamente! Puta que o pariu... Ele estava só de sunga. E imaginei se o sol havia descido do céu e estava exatamente ali, no corpo dele. Fiquei travada, observando. Ele estava de óculos escuros e não percebeu que estava ali. Admirava algum ponto acima, talvez a dança das nuvens, mas o que eu via era o paraíso, e não tinha como contestar! – Espero que não entre de roupa na piscina, a tia não gosta muito – ouvi sua rouquidão ganhar espaço entre a gente, e quando dei por mim, estava tão perto, de frente ao seu imenso corpo firme, gostoso, quente e sarado e ai, meu Deus! Ele me flagrou olhando-o. Pensei em desviar, mas ao fazer isso, meu chinelo enroscou no dele que estava ao lado da cadeira, e fez meu corpo voar para cima dele. Na cadeira! Senti uma dor nos joelhos, já que despenquei do nada, mas quando eu notei onde estava, já era tarde demais. Eu estava entre suas coxas! – Ai, caramba! – solucei, e ele não se mexeu, já que meu rosto permanecia bem perto do seu... Bem, era um generoso pacote, não pude deixar de notar, já que estava praticamente na minha cara


que ficava da cor de um morango. – Está tudo bem? – ele se inclinou um pouco nos cotovelos, me fitando. Nunca imaginei passar por uma situação daquela... Mas tudo podia piorar, não é? E foi o que aconteceu. – Char! Que é isso, mulher?! – atrás de mim surgiram Marcela e Rafael, que riam loucamente. Gabriel se ajeitou e segurou o meu corpo. Ainda estava meio tonta – não por ter caído, mas pelo volume que encantou meus olhos e salivou minha boca. – Desculpa, eu tropecei, não foi de propósito.

– Sei que não. Peço desculpas pelo constrangimento – ele se desculpava por meu rosto estar pegando fogo ou pelo que presenciei enquanto estava de cara com o seu pacote? Olhei para Marcela, que já estava com seu biquíni incrível e Rafael, com uma sunga azul. A do Gabriel era colorida como uma galáxia. – Fique à vontade, Char! – minha amiga incentivou. Fiquei tão envergonhada que não sabia se tirava a roupa na frente deles ou ia para o banheiro ao lado. – Bora curtir! – Rafa a puxou e os dois pularam de uma vez como uma bomba na piscina.

– Não está gelada?! – ela gritou, mas era tarde demais. – É aquecida, não se preocupe. Ele só queria brincar com ela – Gabriel tocou em minhas costas e relaxei com o seu toque. – Desculpa – abaixei o rosto e ele segurou meu queixo.

– Não fale isso de novo enquanto estivermos aqui, combinado? – seus olhos eram calmantes para mim. Fiz que sim com a cabeça, sem responder. Não sei se era uma promessa, tive medo. – Não quer ficar à vontade? – perguntou educado. – Sim – e comecei o processo de tirar a minha roupa. Senti seus olhos me devorarem calmamente. Os dois na piscina nem ligavam para gente que estava ali, inertes ao momento. Tirei a blusinha primeiro, e deixei encostada na cadeira. Levantei e puxei sem charme algum o short. E voltei a me sentar rapidamente. – Você está confortável? – puxou minha mão e beijou a palma. Fiquei melhor.

– Agora sim. Obrigada. – Quero que se sinta bem. Caso precise de algo, não hesite em dizer, ok? – Pode deixar. Depois de muito relutar, acabei entrando com eles na água, e ficamos jogando vôlei. Meninos contra meninas. E claro, a gente ganhou! Eles não sabiam desses nossos talentos, e adorei acabar com a cara de chorão do Rafa. Que ameaçou a ganhar da gente na sinuca. Aí era pedir demais da gente! Mas quer saber, hoje era dia de libertação, de tentar coisas novas. Portanto, vamos lá!

No almoço brindamos ao encontro e o final de semana perfeito. Marcela foi para algum canto


que Rafa iria explorar (acho que dela, sei lá), enquanto fiquei ajudando Gabriel a ajeitar as coisas na cozinha. Fizemos um delicioso almoço, os quatro juntos. Foi a sensação mais inesquecível que poderia passar com meus novos amigos. Gabriel acabou me levando para uma sala de cinema. Contou que os pais do Rafa fizeram aquela área para manterem o filho na linha, mas acrescentou que se o Rafa assistiu algum filme ali foi só para convencer alguma menina a ficar com ele. Coisa que achei absurdo, já que ele era irresistível, duvido muito que precisasse de qualquer recurso para conquistar alguém além de sua beleza e lábia. Rafa tem sangue quente, e além de tudo, é muito cavalheiro. – Será que ele curtiu conhecer a Marcela? – perguntei, na defensiva. Talvez homem não goste de comentar, assim como nós, mulheres. – Ele a adorou! Está tão relaxado e curtindo que estou feliz por ele. Fazia tempos que não via essa felicidade nele. Obrigado por tê-la convidado. – Ela está da mesma forma. Tive medo de não dar certo, e acabar iludindo os dois, mas eles são ótimos juntos, não acha? – Acho! Mas também acho que somos melhores – ronronou todo sensual, apaixonante demais ao meus olhos. Um gemido escapou dos meus lábios. – De fato – ele sorriu tortinho, acabando com o meu psicológico.

– Agora que te apresentei aqui, vamos voltar para a piscina? Mais tarde podemos vir para cá novamente. Eu queria dizer mil coisas, mas não conseguia. Começando que necessitava dos lábios dele, mas respirei descontrolada e aceitei ir para onde ele quisesse. Não ouvimos mais os dois. Acho que eles estavam dentro de algum quarto se conhecendo melhor. Decidi não pensar muito sobre isso. Até que senti uma mão me puxando e meu corpo afundando na piscina, e logo em seguida uma boca... Uma boca recebia a minha. Carinhosamente desenhava a língua no contorno inferior, e tão logo subimos, não desgrudamos os nossos lábios necessitados. Até que enfim... – Não aguentava mais esperar por isso, Char. Eu quero muito beijar a sua boca – Gabriel me invadiu novamente, agarrando o meu corpo, me levando para mais perto do seu. Eram doces e saborosos os beijos, quentes e carentes. Uma loucura. – Não espere, eu quero muito... Esperei por tanto tempo ouvir isso de você, não me deixe mais, Gab. – Não vou. O beijo foi se intensificando, ganhando forças até o nosso corpo quase se fundir. Senti sua rigidez fazendo o meu corpo se acender. Havia eletricidade em cada canto da gente, e não queríamos parar, a água quente banhando esse momento. Então, enrosquei sem medo minhas pernas em seu quadril, recebendo de bom agrado o seu calor. Que invadiu mais do que eu pensei ser possível. – Eu te quero... muito, Char.


– Eu te quero igualmente. Podemos sair daqui? – ofeguei. Ali não era um lugar para o que queríamos fazer, então decidi quebrar o instante, antes de me partir sozinha. – Claro! Só estava meio impossível resistir a você.

– Não resista. E foi então que caiu sobre mim a realidade: não teria volta. Ele me queria. Eu o queria... mas não conseguiria assim. Chegou o momento de contar algumas verdades. Palavras que poderiam nos salvar ou nos destruir de uma vez por todas!


Gabriel Estou vendo a dor, estou vendo o prazer Ninguém além de você, além de mim, além de nós Corpos juntos Adoraria te abraçar perto de mim, esta noite e sempre ~Zayn – Pillowtalk~

Meu corpo tremia como se fosse receber algo que não conseguiria suportar. Juro que adoraria passar toda tranquilidade do mundo para ela, mas eu necessitava também me tranquilizar. Segurei firme em sua mão enquanto a levava para o vestiário, perto da piscina. Estávamos ensopados e não poderíamos entrar na casa daquele jeito. Então, o melhor que fiz foi levá-la ao banheiro para ajeitarmos as coisas. Eu sei que em algum momento algumas verdades entrariam no meio da gente, eu mesmo tinha um monte de coisas para lhe contar, mas o meu medo de estragar tudo antes da hora me corroía. Sabia que Charlotte era virgem. Isso de alguma forma era maravilhoso, pois esse momento seria concretizado comigo. Mas também eu não me importaria se não fosse, talvez estivesse menos nervoso. Ser o primeiro de alguém é marcante, e sei que temos um sentimento em comum, então torna tudo ainda mais especial. – Gabriel, não fique tenso, estou bem – ela tocou o meu pulso assim que chegamos ao banheiro. Minha cabeça estava uma bagunça, não sabia direito como agir. – Não estou – ela viu que era mentira, então sorriu. – Bem, estou apenas ansioso.

– Preciso te contar mais uma coisa... Mas não aqui. Vou me secar e podemos subir, que tal? – Combinado. Notei que Charlotte queria demonstrar calma, mas sei que não estava. Sua cabeça fervia como a minha. Ela só desejava me deixar tranquilo. Aceitei esse instante para não pilhar à toa, para não deixá-la desconfortável. Essa coisa dela, de me contar algo, deixava-me ainda mais preocupado. Era alguma coisa séria, sentia isso. Entrei no banheiro, puxei a toalha verde e comecei a me secar. Coloquei a bermuda e a esperei sair. Dois minutos ela saiu, ainda de biquíni. Sorriu para mim, os cabelos um pouco úmidos, a pele clara banhada pelo luar. Aquela visão me fez perder a racionalidade. Fui até o seu corpo, abracei-a de forma possessiva e a prensei contra a parede. As coisas sérias deveriam esperar, ao menos um pouco. Mas isso não me impedia de começar. Em seu olhar não havia mais preocupações. Estavam dominados por um fogo prazenteiro. Ela não se afastou como achei que faria. Pelo contrário, se agarrou a mim. Aquele clima de receio e


dúvidas estava se esvaindo, dando espaço para que o desejo tomasse conta. – Char... você é tão maravilhosa – gemi contra seus lábios, que me recebiam abertamente.

– Gabriel... aqui não, vamos subir, por favor. Não hesitei, peguei-a no colo e a levei para cima. No começo ela riu, mas quando abri a porta do quarto em que estava, ela já devorava os meus lábios. Gulosa e esfomeada. – Vai passar a noite toda comigo? Enroscada como prometeu? Ficaremos o tempo todo na cama, se quiser... Eu te quero tanto, Charlotte Sophie – a depositei na cama. Char se remexeu toda dengosa, fazendo um charme do cacete. – Eu te quero, Gabriel... – mesmo que sua voz continha paixão, permanecia carregada de receio, hesitante. – Você é tão perfeita... – sussurrei antes de subir na cama de encontro a ela. – Quero você todinha, Charlotte Sophie. – Gab... – sua voz soou com emergência. Olhei para cima, em seu rosto assustado. – Preciso te contar algo... e tem que ser agora! – o nervosismo voltou assombrar o quarto. Ela se afastou de mim, parando de me encarar. Sentei-me na ponta da cama. Ela se encostou na cabeceira, fragilizada e assustada, o meu coração acelerou. – Claro, diga o que quiser, Char. Estou aqui te ouvindo – falei muito baixinho, passando toda confiança de que ela precisava, apesar do pânico que consumia os olhos dela e meu coração. Eu não poderia causar tamanho medo nela. O que acontecia ali? Não sabia dizer ao certo. Tudo dentro de mim se contorcia. Será que eu fui apressado demais? Meu corpo começou a tremer de expectativa e receio diante do que viria. Droga, contenha-se. – Estou com medo... – sua voz falhou, então ela agarrou um travesseiro, abraçando-o como se ele fosse sua proteção. Seus olhos se encheram de lágrimas e meu coração explodiu. Não podia sequer entrar em pânico. Precisava lhe dizer, naquele exato momento, as mais sinceras palavras, mostrar o quanto era especial. – Não, Char! Não precisa ficar com medo, não farei nada que não queira – minha voz se quebrou. – Se não quiser, entenderei, meu amor. Sei que nos conhecemos há pouco tempo e não quero apressar as coisas contigo, minha linda. Podemos ficar a noite toda, aqui, nos beijando e nos conhecendo melhor. Não pense que estou aqui somente... Por sexo... – vi que minha sinceridade lhe atingiu e meu coração sossegou um pouco mais. – Não, Gab, não é isso! Não é com você... é comigo. Quero estar com você... só não...

– Está tudo bem, Char. Eu sei que deve ter medo, mas sou eu quem está aqui com você, e não te farei mal algum – ela soluçou e eu me desfiz em mil pedaços, sem compreender o que quer que dominasse seu momento frágil. Quis abraçá-la e mostrar o quanto podia confiar em mim, que esse tremor iria passar. Só bastava se entregar a verdade. – Gabriel, estive perdida por tanto tempo, e agora que encontrei você, tenho medo... – fiquei mais perto dela. Ela aceitou, soltou o travesseiro e tocou minha mão, enquanto a outra limpava


suas lágrimas. – Quero você, quero tudo de você, pois acho que estou... Gabriel, eu estou apaixonada por você... e preciso do seu amor, para que tudo fique bem. Meu corpo parecia uma galáxia com mil estrelas explodindo. Tudo estava em câmera lenta enquanto ela dizia com cuidado as palavras mais sinceras e belas do fundo de seu puro coração. Eu a amava. Além de mim, além dos tempos. – Eu amo você, Charlotte. Desde o momento em que coloquei meus olhos em você. No primeiro instante em que vi os seus olhos em meus sonhos... Eu amo você, muito mais do que deveria, mas eu amo... e está tudo bem, Char. Abraçamo-nos com sentimento, deixando as estrelas colidirem em nós. Era amor do mais puro, desenvolvendo todas as nossas emoções. A paz interior reinou lentamente. – Eu te achei além de todos os tempos, e iria achá-lo de alguma forma... pois eu te amo! – disse com os lábios trêmulos nos meus. E nossa alma se alegrava em sentir o mais intenso desejo. Entretanto, meu mundo foi se apagando com as verdades que eram somente minhas. Eu quis chorar, quis gritar, só não podia. Precisava ouvi-la, senti-la e viver esse instante. Porra, eu merecia amor também. Mas a droga da minha verdade esfregava em meu coração o que eu não teria. Cada ponto de emoção dentro de mim foi se apagando. Mostrando a premissa de como seria quando eu contasse a verdade que escondia. Então me calei. Engoli toda aquela falsa ilusão de que tudo ficaria bem. Nesse momento eu poderia correr o risco de afastá-la de vez e perdê-la para sempre. Por isso, decidi viver a realidade dela. Desfiz a briga interna entre o bem e o mal que duelavam bravamente, e sorri ao assistir o amor naqueles olhos que para sempre seriam a minha fortaleza. Eu a amava. – Gabriel, eu preciso te contar que tenho um problema... – não desgrudei os olhos do dela, e nossos corações estavam agitados na mesma proporção. – Se quiser dividir, estou aqui – mencionei, sincero. Queria saber o que seu coração carregava de dor. Queria ser o seu alívio, remédio, cura. Ela respirou fundo, tentou conter as lágrimas e se explicou. – No começo da minha adolescência, onde comecei a entender um pouco sobre o sexo, nas conversas em grupinhos, notei que não me sentia atraída com a ideia do sexo... – ela fechou brevemente os olhos. – Sentia um nervoso sem controle, meu corpo não aceitava. Não queria nem pensar sobre como, um dia, me deitaria com um homem... – sua voz estremeceu. – A repulsa ardia sobre a pele, o medo e o pânico tiravam o meu sono por muitos dias, ao pensar na possibilidade de ser penetrada... Eu não sei como desenvolvi essas sensações sobre o sexo. Entretanto, descobri algum tempo atrás a razão disso tudo acontecer – assistir aqueles olhos carregados de dor, deixava tudo muito vulnerável. – Lembra quando te contei que não me sentia normal? – fiz que sim. – Bem, pois nunca tinha me deitado com um homem antes... e não foi por não gostar, ou não me sentir excitada, foi porque tenho vaginismo – essa palavra não era estranha, mas não sabia ao certo sua definição. – Sabe o que significa? – Não, já ouvi dizer, mas não sei ao certo o que é. Se quiser explicar, seria legal.


É um distúrbio psicológico. Sinto-me incapacitada a fazer sexo. Eu não consigo ser penetrada, não consigo sequer imaginar isso... – não achei que ouviria aquilo dela, mas sentir a dor que isso lhe causava me preocupou. – Gab, meu corpo entra num frenesi intenso, eu me prendo, eu sofro, contraio tanto meu corpo que sinto a dor tocar minha alma... rasgando toda feminilidade que carrego dentro de mim... Sinto vergonha por isso... mas não suportaria viver uma vida fingindo que está tudo bem, quando isso só me causa mais dor... Charlotte estava de cabeça baixa, não querendo me encarar. Puxei o seu queixo. – Quero entender melhor sua dor para te ajudar, Char. Já tentou alguma vez? Existe tratamento? – questionei mais, querendo que ela se abrisse, que o medo fugisse de seus olhos. – Já tentei fazer terapia quando descobri que era um distúrbio psicológico. Passei com diversos sexólogos, e conheci muitas mulheres que sofriam da mesma causa. Vaginismo é algo que merece atenção, já ouvi que em muitos casos foi tratado pelo parceiro ou parceira como frescura – mencionou sentida –, mas no meu caso, não consegui seguir adiante no tratamento. A penetração era ainda algo inviável para mim. Não conseguiria nunca atingir esse ápice... – choramingou, e beijei suas mãos unidas. – Nunca consegui sequer tirar a roupa para um homem, pois sabia que talvez ele não compreenderia o quanto eu sofria. Para você ter uma ideia, não consigo ver um homem desfivelar os cintos que me causa dor. Jamais suportei imaginar algo dentro de mim... – meu peito sufocou, pela dor que vislumbrava em seus momentos de silêncio. – No dia que o Vinícius me arrastou e disse coisas terríveis, eu preferi estar morta, porque... Gabriel, eu não aguentaria passar por isso – meus dentes rangeram por lembrar o que aquele infeliz quase fez. – Estou com medo agora, mas não é de você, pois confio plenamente em todo seu cuidado e amor, mas é da situação toda que me implica. Gabriel, quero que saiba que eu adoraria tentar com você, juro. Contudo, não sei se sou capaz de suportar, não sei se você entenderá... – Você me conhece. Eu jamais faria você tentar algo que não suportasse, Char. Você é completa, não precisa que alguém te diga o que fazer. Se consegue prazer assim, por que eu deveria querer invadir sua privacidade, uma coisa que não aguentaria, que te faria mal? Eu só quero seu prazer, Char, nada além disso – mencionei com toda minha sinceridade e vi o brilho renascer em seus lindos olhos. Meu coração voltou a bater, apaixonado. – Você entenderia isso? – sua voz falhou, e eu abracei seu corpo, trazendo para cima do meu.

– Ficaria sem o seu prazer? – resmungou por último. – Quem disse isso? Você é o meu prazer – murmurei, junto aos seus lábios, buscando sua boca. Mergulhando minha língua na mais profunda onda. – Não precisaria de mais nada. Estar dentro de você seria bom, mas estar dentro do seu coração é melhor ainda – ela soluçou algo ininteligível. – Isso foi lindo – beijou com paixão os meus lábios. – Mas como acontecerá? – seu medo foi perdendo espaço para o esplêndido prazer que nascia. – Conte-me algo que você goste, ou faz... – mencionei, mais abusado. Ela sorriu arteira.


Charlotte estava em meu colo, e o corpo ditava as novas regras. Seus dedos curiosos foram descendo o tórax, sentindo o peito agitado. Meu coração explodindo. E o desejo ganhando forma. Ela chegou rasteira em meu ouvido, sugando a carne para dentro de seus lábios molhados, me arrepiando todo. – Tenho um brinquedinho... – piscou de frente. – Que arranca os meus anseios... que me leva ao paraíso quando achei que não o teria... mas pelo que vejo em seus olhos, tem muito mais para me oferecer, certo? – ela era muito provocadora. – Ah, Char, eu sou tão criativo, e sua falta de confiança me chateia – mordi seus lábios, e ela esquentou feito uma brasa. Senti o meio de suas coxas o úmido. – Posso perguntar algo muito, mas muito ousado? – estava atiçado, e esse momento era permitido. – Diga... – ela lambeu meu pescoço, roçando um pouco mais seu centro na minha barriga, deslizando até o short que estava volumoso. Enlouqueci, sabendo o quanto a deixaria corada. – É somente nela que não suporta a penetração...? Ou... você sabe...? – questionei com a voz rouca de desejos. Claro, isso era uma novidade, gostaria de saber meus limites. – Oh... – assustou-se lindamente corada quando entendeu. – Hmm, nunca pensei em sexo anal, mas acho que não rolaria também... – mordeu os lábios, eu concordei em silêncio. – Entretanto, existe algo que quero muito fazer... muito... de verdade – lambeu os lábios, enlouquecedores. Eu já tinha entendido, mas a deixei dizer. – Sexo oral... eu quero muito fazer isso – que beleza era ter essa sensualidade em meu colo e dizer que era somente minha. A sua primeira vez. – Opa, da minha parte isso já estava garantido. Em primeiro lugar! – brinquei, ela corou toda. – Charlotte, não há nada mais que eu queira nesse momento do que você... – voltei a beijar sua boca com calma, numa lentidão prazerosa e quente. Ela cedeu. Eu me rendi. – Desculpa, é que achei que seria um empecilho isso tudo, e não queria te chatear com meus problemas... – murmurou em meu ombro. E tudo voltou... Ah, se ela soubesse que isso não era nada que iríamos enfrentar... Decidi ficar calado ao morder a língua e não estragar um momento que nascia entre a gente. Eu a queria nesse momento, porra, nós merecíamos. E se qualquer porra de assunto doloroso se intrometesse entre a gente, não suportaria vê-la quebrada. Aliás, agora, ela não aguentaria esse baque. Então só preciso mostrar meu amor e lhe dar prazer... depois, somente depois iria lhe contar tudo. – Jamais faria algo para te machucar. Agora que já sei, pode deixar, eu te farei ainda sim a mulher mais feliz. Por esse momento, só se deixa levar, Char... posso? Apontei para seu biquíni. Ela sorriu abertamente concordando. Levei os dedos frios e ansiosos até sua nuca, puxei com cuidado o nó que se desfez, apresentando aquelas belezinhas. Minha boca salivou. Era inacreditável. – Não existem palavras para te descrever, Charlotte, você é tão especial que não consigo achar coisas lindas para te falar, apenas sentir... – mordi seus lábios, ela gemeu. Deitando sobre a cama, foi a deixa. Levantei e puxei o zíper da bermuda, deixando-a cair no chão. Charlotte não conseguia desviar os olhos do meu corpo, e me senti irresistível. Assim como


ela era para mim. Deliciosamente irresistível. Engatinhei até onde estava, ela voltou para meu colo. Estava muito excitado, e sei que ela também estava. Sua rendição no beijo mostrava o quanto vulnerável permanecia, mas eu saberia aproveitar da melhor forma, de um jeito que a levasse à loucura. – Achou que escaparia dos meus desejos... não mesmo, Char – gemi e a virei na cama, ficando por cima. Seus seios tão redondos sorriam para mim, e os mamilos tão turgidos imploravam por lambidas lentas e mordidas safadas. Não perdi tempo, realizei meu desejo por eles. E Char somente gemia e abria seu mundo recheados de possibilidades. Comecei a lamber lentamente do pescoço, e fui descendo com mordidas intensas. Era vontade demais. Não sabia como poderia suportar ficar sem seu gosto daqui para frente, mas precisaria arrumar um jeito. Eu ficaria enroscado nesse sabor tão bom por horas, dias, meses ou anos... se tivesse tempo. – Você é muito sensual... estou adorando ver seu desejo, mas me deixa ver seu corpo, tocar sua alma – grunhiu exigindo, sua mão já vasculhava minha sunga. – Deixa eu te levar para ver estrelas primeiro – desci animadamente em direção ao seu umbigo e cuidadosamente tirei sua calcinha. Logo a preciosidade mais bela e divina do mundo estava em minha boca. O sabor delicado do néctar não se comparava ao que eu saboreava. Era a maior riqueza do mundo. Dar prazer para ela seria fácil, ah rapaz, fácil demais. – Char, entrega-se... – ela curvou suas costas ao receber mais meus lábios, e deixei a barba roçar entre suas coxas, e assisti ao delírio tomar conta de seu corpo. – Gabriel... – ela pulou, gritando ao universo o que mais tinha de maravilhoso.

– Posso fazer isso o dia todo... e não seria nada ruim – pisquei para ela assim que se recuperou. Charlotte se sentou, puxando meu queixo junto a barba molhada. – Ah, claro que poderia, mas eu não aguentaria vê-lo tão saboroso e não fazer nada. Então, por favor, eu quero ficar de joelhos para você, meu Anjo! Eu não iria aguentar, não iria, mas deixei...

Sua boca maravilhosa me invadiu mais algumas vezes, assim como a minha no corpo dela! Estávamos exaustos e rindo de cada segundo intenso e maravilhoso. Meia hora atrás, Charlotte tirou de sua mala um vibrador bem pequeno. Disse que se não tivéssemos feito nada, ela faria. Ah, isso encheu meus olhos de um prazer pervertido. Brinquei até dar-lhe câimbras, e ela pedir para sair! Coisa que levou quase duas horas. Mesmo assim, eu vi o quanto era poderosa e completa. Não precisaríamos de nada mais. Tudo estava perfeito... bem, quase. – Podemos fumar aquele cigarrinho? – ela sugeriu.

Sério? Agora? – ri de sua feição angelical. Quem diria que essa mulher linda estava me dizendo isso, depois de sei lá quantos orgasmos.


– Ah, sem drama, Gab! É só um baseadinho para relaxar – sorriu arteira. – Não está relaxada? Nossa, você acabou com minhas expectativas de ter feito o melhor! – falei, fingindo estar decepcionado. – Você é o melhor! Com toda certeza, eu mal tenho pernas! – resmungou molenga. – Isso é só um plus – mordeu minha orelha, sendo o mais sensual possível. – Você é uma menina pervertida, Charlotte. Como pode me enganar todo esse tempo? – brinquei mordendo-a por todo canto, ela se arrebitou toda. – Abusada!

– Tenho certeza de que esse é o apelido de sua língua nervosa... – gemeu, sedenta. – Deliciosa! – acertei um tapa gostoso em sua bunda empinada. E levantei para pegar o seu cigarrinho. Ela sorriu agitada assim que acendi. Dei uma tragada e levei até a cama. – Ela me tira uma realidade ruim. Quando eu pensava que não teria ninguém e que passaria meus dias infeliz, sem conhecer o amor. Nunca se sentiu assim? – tragou e retornou para mim. – Várias vezes. Nos entreolhamos. Estávamos ainda nus, e fumando um baseado. Existia muitas coisas românticas que deveríamos estar fazendo, mas esse momento era inesquecível. – Agora podemos aproveitar esses dias de solidão e compensá-los. Encarando nossos dias como dias sensacionais. O que você acha disso? – soltou lentamente a fumaça. Dei só mais uma tragada e o apaguei. Era só para dar um barato. – Eu acho que você é sensacional, a mulher que sempre quis para minha vida vazia. Os meus dias eram sem graça quando não te conhecia. Agora eu tenho esperança. Charlotte, escrevi textos, linhas, palavras pensando em você. Já te falei, você é minha inspiração. – Você é o amor que sempre sonhei. Eu quero estar com você para sempre – essa última palavra me fez levantar ligeiramente. Como se tivesse me dado um choque e eu estava disfarçando que o havia levado. Fui até a janela e encarei a noite estrelada que fazia lá fora. Rafael e Marcela riam alto enquanto cantavam na beira da piscina. Eles sim teriam um futuro incrivelmente perfeito. Eu não. Não seria capaz de fazer isso por ela. Por nós. – Que isso? – sua voz me tirou da prisão que eu entrava.

– O quê? – virei assustado, não tinha visto que ela estava ao meu lado. – Isso! – apontou para uma mancha que nasci com ela. Era na costela. – É de nascença, por quê? – fitei seus olhos radiantes. – Você se desculpou aquele dia por ter saído depois que te mostrei os diários e as fotos, mas sinceramente, você acredita, Gabriel, em amores de vidas passadas? – seus olhos haviam esperanças, mas o que vi foi real. Não era inventado, e nem tinha como não acreditar. – Eu acredito. Vi aquelas fotos, me deu medo e um sentimento que até agora não consigo


compreender, mas acredito – falei com sinceridade. – Eu também acredito, e só agora comecei a compreender algumas coisas, Gab.

– O quê, por exemplo? – Izobel não morreu de tuberculose – fiz cara de confuso e ela retornou a explicação. – Ela foi abusada por um primo. Estavam prometidos para casamento, mas como ele sabia que ela já havia se deitado com Ethan, abusou dela dizendo coisas horríveis... – Char soluçou, me aproximei devagar e a abracei. – Li nos diários esse infeliz caso. Ela se retratou antes de morrer, deixando esse repugnante fato... – Nossa, que terrível. Ela deve ter sofrido muito.

– E a sua morte foi quase programada. Ela ficava durante dias na chuva, tentando se livrar do que ele fez, da sujeira em seu corpo. E por isso, acabou ficando doente. Acho que deveria ser pneumonia, mas como na época tudo era tratado como tuberculose, ficou por isso mesmo, mas ela praticamente se matou. Só para não casar com um monstro e tentar reencontrar o seu amor. – Que situação pavorosa – meu coração feriu em saber disso.

– Gabriel, eu nunca achei uma explicação cabível para meu caso com vaginismo. Lembro de diversas pesquisas, de conversas com outras mulheres que sofriam o mesmo. Eu nunca fui abusada, mas ao saber dessa história... sinto uma ligação! Seria essa dor carregada de outras vidas? Seria possível a gente se lembrar e ter certas interferências? Sou a cara dela, seria eu sua reencarnação? – parecia loucura ouvir tudo isso, e ela ao dizer também sentia, mas era tão lógico. – Creio que sim, Charlotte. Parecia uma loucura pensarmos nisso, mas só Deus sabe de todas as coisas. Entretanto, essa ligação mostra o quanto pode ser real. Você viver e me encontrar, e eu ser a cara do Ethan e você a cara da Izobel. É tão louco, que nem mesmo a brisa que estamos sentindo cobriria essa verdade. – Questionei essa marca porque ela é um losango. Preste atenção – apontou, puxei a pele e observei, que realmente era um losango. – Com o que se parece? – fitei mais atenciosamente o que ela estava vendo e eu não. – Bem, não sei, é apenas um losango, não sei o que poderia ser – falei sincero.

– O sobrenome do Ethan é Kite, e era seu apelido também. Lembra que mencionei que ele tinha uma tatuagem? – meu coração acelerou, e veio até a boca, mas não consegui responder, só afirmar. – Então, Kite em inglês é pipa. E ele fez uma pipa com a cor favorita de Izobel, que era vermelho, e essa mancha é levemente avermelhada. Foi por isso que questionei, Gab... A sua marca lembra uma pipa... – Meu Deus! – abri a boca. Meus olhos estavam emocionados. Charlotte me abraçou, recebendo o meu corpo assustado. – Incrível, não é? – sua voz estava igualmente emocionada.

Muito – abracei de volta seu corpo frágil. Beijei o pescoço dela, e me lembrei de sua


tatuagem. – Por que fez um girassol? – deixei leves beijinhos ali.

– Faz cinco anos que fiz – disse, tocando a pele quente depois dos meus beijos. – Um pouco depois que cheguei no Brasil. – Tem um motivo? – perguntei curioso, já que seus olhos brilharam.

– Sim, tive um sonho com uma mulher incrível. Ela parecia um anjo – sorri, pois ela acreditava demais nestes seres celestiais. – Conversamos muito enquanto andávamos numa plantação de miúdas flores. Ela foi atenciosa, e me disse que tudo ficaria bem, que o meu anjo um dia viria – tocou delicadamente a correntinha em seu pescoço. O anjo Gabriel. – Ela sabia o quanto eu acreditava, e ao apontar para a minha correntinha, seu sorriso foi como receber uma benção, como se o sol irradiasse de seu coração. Depois de muito me aconselhar, ela me entregou um girassol muito bonito. Disse que através dele o meu amor me acharia. Que isso nos aproximaria de alguma forma. Acreditei, e foi então que acabei fazendo essa tatuagem, no dia seguinte em que acordei. Senti uma paz tão fascinante que acreditei no que ela me disse... demorou, mas acabei te achando. – Que história incrível. Os meus sonhos também sempre pareceram reais. Como quando eu sonhava com você. Minha mãe dizia o mesmo, que eu estava perdido, mas iria me encontrar em algum momento. Antes era com mais frequência, depois a deixei descansar. Também a encontrava num jardim... – Sinto muito por sua dor, ela deveria ter sido uma mãe maravilhosa.

– Sim, foi. – Como era o nome dela? – voltamos para cama e nos abraçamos. – Virgínia – assim que mencionei o nome dela, Charlotte sobressaltou. – Jura? – fiz que sim sem entender. – Ai, meu Deus, não é possível! – ela parecia em choque, e eu acabei entrando junto. Seria o efeito do baseado? – Por que, o que foi? – quis saber.

– Gabriel, a mulher que me entregou o girassol no sonho se chamava Virgínia – meus olhos se arregalaram, confusos. – Ela me disse porque questionei onde estávamos. E ela falou que era o jardim dela. Onde ela permaneceria para sempre. – Minha mãe sempre amou girassóis... e quando morreu, eu coloquei um em seu túmulo. E sempre que posso, levo para ela. Isso é impossível, Char, já basta de coincidências. – Será, Gabriel? Acho que éramos para nos encontrar e o destino só fez o seu trabalho.

– O destino não vai muito com a minha cara – falei emburrado. – Quando falou que fez? – Fiz no dia 5 de maio de 2011, nunca me esqueço – ao ouvir aquilo o meu mundo se abriu, e pensei que tivesse sido engolido por ele. – Foi um dia depois que minha mãe morreu, Char – choraminguei, emocionado. Não era possível que minha mãe tinha feito isso. E por que demorei tanto tempo para achá-la? Fazia


apenas uns quatro ou cinco meses que vinha sonhando com ela. E isso deveria ter acontecido há cinco anos, droga. Não agora que não tenho tempo, porra! – Era para ser, só devemos aceitar e continuar. Eu te amo, por tudo. Depois de ouvir todas as juras e essas coincidências, não pude escapar. Uma necessidade me empurrava a lhe contar tudo. Meu coração começou a questionar todos os porquês, em como um amor tão lindo, puro, apaixonante e predestinado não poderia viver simplesmente bem, sem ter as malditas dores nos assombrando... Quando teríamos a nossa chance? Quando, porra?! Era o momento de dizer a verdade que pairava sobre mim, mas um nó ficou entre minha garganta, impedindo-me de contar qualquer coisa. Eu só queria chorar baixinho, sentir essa dor e não passar para ela, mas seria um egoísmo maior não fazer isso. Então decidi que seria essa a oportunidade. – Vamos falar mais sobre a gente! – Char rodopiou lindamente, caindo na cama. Senti um nó no corpo, amarrando para sempre nosso amor num redemoinho que se transformaria a qualquer momento. Empolgou-se no momento errado, minha linda. – Gab, me conte o que o seu coração sabe sobre você – sua voz maravilhosa poderia me tirar desse inferno que estava afundando, mas sei que não sairia tão cedo, pois precisava dividir esse cargo. Essa maldita dor que me consumiria em breve e que me levaria para longe. – O que eu sei de mim? – ela concordou e soltou um beijo em meu ombro assim que me sentei ao seu lado. Subiu pelo pescoço, chegando ao queixo. Fechei bem os olhos e me entreguei a verdade. – Eu vivi bem durante alguns anos, fui amargo por outros, revivi uma dor, conheci o desespero... – ela me fitou mais séria, e não havia mais a alegria de antes, só um medo irreconhecível. Minha voz estava sombria também. – Arrebentei todas as minhas forças, desacreditei no futuro, fui amarrado e furado... Sarei. Achei que teria sucesso, então escrevi, mergulhei nas palavras e deixei o sofrimento para outro episódio. Foi então que te encontrei. Achei o amor e ele transbordou. Meu peito não cabia as palavras, meus dedos não eram suficientes para escrever o que meu desejo queria. Fui feliz ao lado de alguém que me apaixonei... tive sonhos realizados, mesmo querendo e merecendo mais. Eu vi que ela não me merecia justamente por um dos motivos que me destruiu... – não reconheci a pessoa que dizia essas coisas num passado tão próximo. Era a minha versão acabada. – Gabriel, o quê... – não a deixei terminar, ou questionar. Precisava dizer, ou senão surtaria.

– Charlotte, é isso o que eu sei de mim... Eu vivi, sofri e estou morrendo – minha voz quase não existia, mas consegui com que ela entendesse pelo menos. – É um dos seus poemas, Gabriel? – seus olhos estavam carregados de ansiedade.

– Não. Queria muito, mas é isso – falei sincero. – Gabriel, todo mundo vai morrer – deu de ombros e se levantou agitada. Acompanhei-a com os olhos. Ela tentou fugir, pois sentia a verdade entre nós.


Mas eu estou... doente, Char. Estou morrendo de verdade, e não há mais o que fazer – gostaria que cada maldita palavra fosse uma mentira. Não conseguiria viver uma falsa felicidade, não conseguiria esconder por muito mais tempo. Estava acabado por dentro, as dores brotariam muito em breve. Estava morrendo, estava deixando-a sozinha... para sempre. Uma dor rasgava o meu peito por assistir em como ela caia na real. Poderíamos ser jovens apaixonados que viveriam um lindo amor, um romance incrível, mas meu corpo não deixaria. Minhas dores eram feridas incuráveis. – Gabriel, para... isso é não certo, não pode me dizer essas loucuras! O que está acontecendo? – ela conseguia enxergar a verdade. Só tinha medo, eu tive também por muitos anos. E sim, era uma loucura dolorosa, uma loucura devastadora. – Desculpa te contar assim, minha linda, não queria fazer depois do que nos aconteceu, do que acabamos de fazer... Não queria achar que estava me aproveitando de você. Nunca seria isso – minha voz falhou. E assisti indefeso ela chorar desesperadamente, e gritar. Gritar algo que eu não podia ouvir. Um pedaço da minha alma se foi naquele instante. Eu sabia que a quebraria, e não teria conserto, mas eu estava partindo... teríamos que aceitar essa realidade. Queria dizer-lhe: não se preocupe, querida, ficaremos bem, que seríamos para sempre jovens apaixonados... Mas era mentira. – O que é? O que é tudo isso? Para! – eu não poderia parar, não agora.

– Você precisa acreditar, Char. Precisa aceitar essa cruel verdade. Sei que é uma loucura isso estar ocorrendo com a gente, quando acabamos de nos conhecer, mas acontece que eu já havia aceitado. Era minha realidade. Já sabia que isso aconteceria, só estava esperando a hora de... – engoli a dura palavra. – Foi aí que te encontrei... Mas venho sentindo mais dores ultimamente, escondendo como tudo dentro de mim vem se autodestruindo... sou uma bomba prestes a explodir, mas venho mentindo para mim mesmo, só para ter você ao meu lado... Venho cada dia escrevendo sobre você para me manter vivo... Só não partir antes, Char, porque acreditei em você nos meus sonhos... você foi mais do que inspiração, foi uma luz que encontrei para me manter acordado... acreditando na possibilidade de melhorar... achei que jamais amaria dessa forma, que nunca teria recordações maravilhosas de alguém que amei, e fui amado... A grande missão de nossas vidas é amar e ser amado, e eu estou conseguindo cumprir – ela chorava despedaçada, minha voz estava da mesma forma. – Não posso aceitar que não te darei um futuro, mas quero ser sua melhor recordação. Então só aceite, e diz que passará esses últimos dias ao meu lado. Só preciso ouvir isso para me manter forte. Por favor, diz que me aceita, mesmo você não merecendo sentir tamanha dor... mesmo sabendo que algum momento não estarei mais em seus dias, mas estarei em pensamentos, em lembranças que quero ser a partir de agora – as palavras transbordavam da minha boca. Meu coração não aceitava acreditar que eu havia estragado tudo, tudo por uma maldita doença incurável. – Não diga nada, Gabriel, você não vai morrer! – seu corpo miúdo se afastou ligeiramente. Nós dois chorávamos essa dor. – Não aceito! Você não vai morrer agora, porque nos encontramos e é


assim para ser! Eu e você, juntos. Até ficarmos velhinhos e mesmo assim, você jamais me esqueceria, porque eu cuidaria de você... agora, só não me diga que vai morrer, porque não vai! Não vou deixar... – gritou, acabada. Ouvir isso me dava conforto, porque sei o quanto é difícil acreditar e aceitar. Eu fiz muito pior. Quase me destruí antes que a própria doença fizesse. Essa negação é necessária para vir a aceitação. – Tá tudo bem, amor, eu aceitei. Vem aqui, me abraça... só preciso disso. De você para ficar em paz e seguir meus dias lutando. Seja minha força, Char, por favor... – tentei puxá-la para perto, mas senti sua recusa, e isso me doeu, mesmo sabendo que era normal. – Não ouse! – gritou, fugindo para longe de mim, e tudo ficou escuro. Uma solidão invadia a escuridão dentro de mim. – Não ouse dizer que está morrendo quando eu me apaixonei por você! Não ouse... – ela caiu de joelhos, arruinada. Fui atrás dela. Agachei trêmulo, tomando forças e buscando confortá-la. Ficamos abraçados, sentindo a dor dilacerar nosso peito. Não queria que fosse essa a realidade ao encontrá-la. Mas infelizmente era. – Eu tenho câncer, e não consigo mais me curar. Tenho só alguns meses, nem sei se chega a um ano. Preciso aproveitar esses dias ao seu lado, você aceita? – sussurrei em seu ouvido, ainda abraçado a realidade. Ela gritou, e sua dor rasgou meu peito. Era um pedido sincero, apesar de a vida ser tão ordinária comigo. Eu poderia estar pedindo-a em namoro, sei lá, mas estava pedindo além dos limites humanos! Estava morrendo, e não queria deixar o egoísmo de lado. Queria tê-la comigo, sendo minha fortaleza. Charlotte mais uma vez gritou sentida, eu a soltei, deixando-a correr. Ela precisava respirar. E eu entendia perfeitamente, pois precisava também. Vi que ela colocou qualquer vestido e saiu correndo daquele quarto carregado de dor. Desceu chorando, não pude ir atrás. A deixaria sentir a realidade, depois voltaríamos a conversar. Pensei em me trancar, mas vi Rafael subindo as escadas. Não tranquei a porta, precisava da força dele. – Contou para ela? – Rafa entrou e eu estava olhando além da janela. Buscando um apoio.

– Sim, contei – minhas lágrimas não se contiveram, caíram em cachoeiras. – Sinto muito, Gab, muito mesmo – veio até o meu corpo e me abraçou.

Éramos muito

amigos, e ele sabia o quanto seria difícil. Desde o começo. – Também sinto, Rafa, mas às vezes, coisas terríveis acontece com pessoas maravilhosas.


Charlotte Você sabe me puxar de volta Quando estou fugindo, fugindo Tentando escapar de amar você Você sabe como me amar com força ~Rihanna – You da one...~

Nada disso fazia sentido. Não conseguia entender o motivo de a vida nos oferecer tudo e, no instante seguinte, nos tirar um da vida do outro, numa rasteira sem volta. Como acreditar no destino depois desse tiro?! Por que seria arrancado de mim esse amor? O que foi que nós fizemos para merecer tamanha crueldade? Gabriel é uma pessoa tão apaixonante, gentil e inteligente. E era o amor da minha vida! Em menos de vinte e quatro horas vivemos uma montanha russa desgraçada que nos levou do riso apaixonante ao choro dilacerado! Corri até chegar a um lugar escuro, no meio do mato, nos fundos da casa. Olhei para a casa e a luz do quarto de Gabriel estava acesa. Rafael deveria estar com ele, conversando. Eu não podia aceitar essa morte. Não conseguia! Eu só precisava chorar, tirar essa dor de uma só vez para seguir em frente. Foi quando Marcela apareceu e me abraçou. Chorei em seu colo e deixei que minha tristeza se despejasse sobre ela. – Char... – ouvi sua voz muito baixa, querendo chegar até a minha mente.

– Preciso de você – chorei com mais intensidade, sem me conter. – O que está acontecendo? Ele fez algo que você não quis? Quer

ir embora? – questionou ligeira, assim que se aproximou e viu meu estado deplorável. Deitei em seu colo e derramei as lágrimas em silêncio. Juro que gostaria de berrar, arrancar toda aquela dor que me consumia devagar, mas apenas deixei as lágrimas virem, sofridas. Precisava tomar coragem para deixar aquelas palavras tristes ocuparem a minha boca, se tornarem reais. Marcela me segurou por não sei quanto tempo, até que senti meu rosto dar câimbras. – Ele está morrendo – solucei, dolorida. Era difícil demais contar isso.

– O quê? – tentou ser discreta, mas sua recusa foi igual a minha. – Gabriel tem câncer e está morrendo. E por isso estou assim:

eu me recuso a aceitar sua morte! Eu o amo, eu o amo muito, Marcela, ele não pode me deixar... – desliguei-me de todo o mundo. Queria estar em outro lugar em que a gente pudesse se amar normalmente, sem câncer, sem dores internas, sem interrupções do destino. – Que situação, Char, sinto muito! – resmungou, sentida.


– Estou quebrada com essa notícia, partida em mil pedaços que não consigo juntar. Não quero uma vida sem ele, não vou suportar. Esperei durante anos, Marcela, você não tem ideia... Eu esperava por Gabriel, mas agora... isso! – gritei, agitada. Tocando o coração, que havia um buraco incapaz de se fechar. – Me apaixonar por ele foi como tocar o céu, ter ganhado asas, sentir todas as maravilhas que o mundo possui, ter a vida perfeita... E aí acontece que cada coisinha sensacional foi tirada de mim. Quando cheguei nas nuvens, fui derrubada! Quando senti a sensação de flutuar, me cortaram as asas! Despenquei num abismo escuro e sombrio! Não existe o mundo perfeito sem ele, não existe, Má... – a dor consumiu o restinho de esperança que poderia brotar no meu peito. – Foi uma queda e tanto, eu sei... Mas você precisa estar ao lado dele, se o ama da forma que acabou e contar. Precisa ficar com ele, ser a força que necessita. Não pode abandoná-lo! – disse, com a voz trêmula. – É claro que estarei ao lado dele, mas é difícil aceitar. Eu vou ficar todos os momentos com Gabriel, mas só quero pensar em tudo... eu vou precisar dele e logo não irei tê-lo mais. – E nem ele terá você. Havia sido atingida por uma onda, carregada de destruição. Não achei que teria que lidar com isso novamente, pois já perdi tanto. Só que quando perdi minha metade o vazio permaneceu, lembrando-me vagamente todos os dias, como era não ser completa. Finalmente, eu tinha achado o lado que faltava em meu coração, e mais uma vez fui enganada... Era o meu destino permanecer fragmentada. Entretanto, tinha fé que uma força maior, abastecida pelo amor que sentia por ele, mostraria uma luz, a salvação. Buscaríamos a plenitude juntos. O silêncio que conforta surgiu ali, entre a gente. Eu iria fazer de tudo para salvá-lo, e ela sabia o quanto de amor compartilhávamos, então me deixou apenas sentir a esperança... Sentir... e tentar respirar novamente.

Não podia ser egoísta. Não era somente eu que estava sofrendo. Ele, mais do que tudo, já sofria. Me contar suas verdades deve tê-lo dilacerado. Ao receber o abraço de minha amiga, ganhei forças. Seu sorriso e conselhos deram esperanças ao meu coração ferido. Sem pensar, me levantei e corri de volta para o meu amor. Iríamos juntos enfrentar os nossos demônios. Em poucas passadas cheguei no andar de cima e invadi o quarto. Gabriel estava sozinho. – Eu aceito – cheguei dizendo, em uma quase euforia histérica. – Quero ficar com você, porque eu te amo! Não posso aceitar o que o destino nos fez novamente, Gabriel. Ele nos tirou do caminho, mas acontece que não aceito te deixar. Estarei com você todos os dias. Viveremos dia após dia para lutar! Eu amo você e quero que sinta cada instante esse amor. Não aceito menos que isso. Eu quero você, quero estar com você quando precisar de mim. Prometo que serei forte, serei o que quiser, mas só não me deixe fora disso. Não dá mais, só quero viver um dia de cada


vez ao seu lado. Até você partir... – chorei todas as palavras, gritadas, que saíram em borbotões feito cachoeira. Ele estava encostado no parapeito da janela. Antes, olhando para algo no horizonte; agora, diretamente nos meus olhos. – Eu te amo, Charlotte Sophie – sua voz fraca disse as palavras mais fortes do meu mundo. Gabriel abriu os braços, rendido ao nosso amor, aceitando-me. Atirei-me naquele conforto. – Obrigada, obrigada por me deixar ficar. E desculpa se saí correndo, é que tudo foi muito difícil – confessei baixinho, sentindo meu coração a mil. – E será ainda mais. É o que você quer, Charlotte Sophie? – chegando perto de mim, segurou meu rosto entre os seus dedos trêmulos, esfregando lentamente onde as lágrimas escorriam. – É o que eu quero. Eu quero você, escolho enfrentarmos juntos, Gabriel.

– Jura? – sussurrou, ansioso. Sorri ainda chorando. – De fato – me aproximei um pouco e ele estremeceu. – Então assim será – chegou muito perto. – Um dia de cada vez, não é? – assenti silenciosa, pois ele deixou sua boca invadir a minha, antes de qualquer resposta. Num beijo esfomeado e apaixonado. Toquei sua barba bem aparada e até desconfiei que ele já estava tirando por conta das futuras sessões de quimioterapia. Solucei dentro de sua boca com um gemido intenso, sentindo meu peito arder, mas ele roubou essa dor e a transformou em prazer. Beijei seu rosto, e ainda havia resquício de lágrimas, assim como meu. Senti suas mãos puxando-me ainda mais para perto, como se quisesse fundir em mim. Meu vestido subiu sozinho uma parte, já que nos roçávamos intensamente. Gabriel soltou o nó da nuca e fez cair o vestido até a cintura. Seu toque chegou possessivo nas costas, deslizando por toda a curva, deixando um pecaminoso caminho arrepiado. Soltei de seus lábios e sussurrei seu doce nome, enquanto ele mordia meu pescoço, e depois voltava invadindo meu mundo. Gabriel... Suas mãos saíram do meu corpo e seguraram com cuidado meu pescoço e rosto, engolindo mais meus beijos, deixando-me rendida a esse precioso instante. Gabriel aprendeu rapidamente o caminho que me levava ao absoluto desejo. O meio de minhas coxas invadia com um calor incontrolável. Ele conseguia me deixar excitada sem dizer uma palavra. Me amava em silêncio. Somente o toque dos seus lábios me fazia explodir. Seus dedos ansiosos começaram a fazer uma dança pelo meu corpo. Chegando aos seios, que imploravam atenção. Gabriel... Minha respiração acelerou quando ele desceu e provou meus mamilos antes de começar a sugálos lentamente, mordicando-os, massageando-os. Entreguei-me completamente ao nosso prazer. Gabriel me levou de volta para cama, deixando-me na ponta. Fechei os olhos, deixando-o fazer todo o trabalho. Enquanto sua língua invadia cada canto, ele puxava os tecidos que sobraram em meu corpo. Gemi quando seus dedos finalmente acharam meu sexo. Por breves instantes desejei que ele


entrasse em mim, que me penetrasse e mostrasse como era delicioso estar dentro de mim, mas ao mesmo tempo, minha mente me fazia travar. E meu corpo enrijeceu. Gabriel notou como retraí, mesmo assim levou os lábios onde antes estavam os dedos. – Continua... – pedi que aquele carinho permanecesse, já que era onde o prazer se escondia. Ele não continuou, mas eu sim. E a sensação de mostrar para ele como eu queria, e sentir a sua língua junto a mim era poderosa demais. Nesse momento esquecemos as dores e o passado. Éramos somente nós dois. – Você é deliciosa – gemeu. – Posso arriscar algo? – fiz que sim sem nem pensar. Comecei a suar pelo esforço, e foi quando Gabriel tirou sua bermuda, junto a sunga. Sussurrei o seu nome, para mostrar o quanto a gente pertencia um ao outro. Ele fez o mesmo. – Char... É só ficar calma, não farei nada para te assustar, ok? Confia em mim? – eu confiava plenamente nele. – É só prazer, Char... Ele me puxou um pouco mais para a beira da cama, e fez com que eu erguesse meu quadril para dar um pouco mais de acesso. Toquei os meus seios e ele se encaixou em mim. Deixando a ereção encostada sobre meu sexo. Fazendo um movimento de vaivém preguiçoso. Era como se estivesse dentro de mim, mas apenas em um delicioso atrito. Permaneceu nessa posição lenta e depois o fez de forma mais rápida. – Char... Dizia enquanto descia os seus lábios sobre os meus seios, que ansiavam por sua atenção. Minha boca exigia o mesmo, mas seus movimentos não paravam, nunca cessavam, fazendo-me gemer junto a ele, cada vez mais alto. Gabriel me beijava o corpo e deixava o seu quadril trabalhar de forma gentil, carinhosa, intensa e quase insana. Gabriel... Quando atingimos a beira do abismo, gemi intensamente. Gabriel acelerou ainda mais, deixando seu sexo encaixado da forma certa. Desmanchei ao mínimo toque, enquanto sua ereção ainda derramava todo seu prazer sobre mim, meu corpo revivendo toda a mágica do êxtase, que tomou o meu corpo por completo. Foi só então que nos olhamos, completamente saciados. – Isso foi incrivelmente maravilhoso – finalmente caí e por pouco não dormi, mas senti suas mãos erguendo o meu corpo, para ajeitá-lo melhor na cama. – Eu te amo, Charlotte Sophie. Obrigado pela confiança, e por estar ao meu lado. Acabamos capotando logo depois de todas as juras de amor.

Meu corpo ao acordar gritava de alívio. Sorri sem que ele pudesse ver, mas meu coração saiu do compasso no exato momento em que sorri ao vê-lo dormir. Pena que a tristeza da realidade insistia em ocupar espaço. Ele estava doente... e iria morrer. Eu ficaria sem o Gabriel. – Bom dia, meu amor – ele abriu os olhos e sussurrou, me tirando do inferno dos meus pensamentos.


– Bom dia, meu lindo – Gab puxou o meu corpo. – Está tudo bem? – seus olhos brilhantes me recebiam, alegres. – Ótima, e você? – estiquei o meu corpo e recebi um sorrisão. – Quebrado – seu sorriso ficou preso no canto da boca. – Mas tão satisfeito – gemeu, puxando o lóbulo da minha orelha com os lábios molhados. Aquilo me esquentou ainda mais. – Um dia conseguiremos sair desse quarto? Agora que conheço seus truques, malandrinho, quero cada vez mais – ronronei atiçada. – Já está molhada, Char? – rosnou, todo cheio de desejos, no meu ouvido. – Ah, Gab, venha descobrir... – senti os seus dedos agitados descendo pelos meus seios, passando pela barriga e chegando na fonte do prazer. Ao senti-lo brincar com o meu sexo, me entreguei... Mas a porta do quarto abriu com tudo! – Ai, porra! – gritou Rafael, ao nos pegar no ato.

– Meu Deus! – gritei. – Aí sim! – gritou Marcela. – Mas que caralho é esse, Rafael! – gritou Gabriel. Ficamos ali os quatros, muito constrangidos. Cobri meu corpo com o lençol, e Gabriel fez o mesmo. Os dois ficaram rindo, virados para a porta. – O que quer aqui essa hora, Rafael? – Gabriel questionou, procurando sua sunga no meio da bagunça dos lençóis. Tentei ajudá-lo. – Estava só preocupado, mas vi que não deveria – deu de ombros, mas não parecia tão constrangido, e sim, risonho. Aquele sorriso de gato arteiro. – Não deveria! – Gab grunhiu, mas não estava bravo.

– Não precisa tanto, vocês só estavam com a mão naquilo e aquilo na mão! Isso aí, Char! Te ensinei certinho – nem preciso falar que fiquei vermelha. Não era hora da Marcela ficar com brincadeiras. – Deixa de ser boba, e por favor... – apontei a porta para os dois.

– Acho que vão demorar para sair dessa cama... Então poderíamos fazer o mesmo, o que acha? – Rafael ofereceu, e vi os olhos da minha amiga safada brilharem. – Só se for agora! Bye, bye, crianças! – os dois saíram cantando algo que não compreendi muito bem. Mas ao virar, o rosto de Gabriel estava em paz, em harmonia. Montei em seu colo, beijandolhe a boca e roubando o dia todo para mim...

Meu corpo flutuava numa onda poderosa. Nunca mais pensei em sair dela, mas teria. O lençol frio começou deslizando por meu corpo nu e senti aquela vibração gelada em meus mamilos, que arrepiaram na hora. Gabriel, na ponta da cama, lambeu os lábios – como Lobo Mau prestes a


devorar sua Chapeuzinho –, mostrando com os olhos que desejava ser o lençol que puxava tão descaradamente. – Eles disseram que daqui a pouco vão dar uma saída – anunciou. – E mais tarde já vão embora. Temos a opção de ficar, se quiser. Você aceita ficar até amanhã? Só nós dois – convidou, com um pouco de medo. – Podemos fazer isso, não é?

– O que você quiser. Meu corpo se arrepiou ainda mais, e Gabriel não tirava os olhos do meio de minhas coxas. Ele poderia me olhar por várias horas e eu ainda o desejaria entre elas, lambendo e me sugando. Nunca pensei que seria tão divertido querer fazer isso sem se preocupar com o amanhã. Antes que não conseguíssemos sair da cama, eu me troquei e descemos abraçados. No final da escada, Gabriel me prensou sobre o batente e me beijou com cuidado. Não precisava de ar, ele me dava o dele. – Amo dar beijos na sua boca – falou lambendo meus lábios. – Por que diabos demoramos tanto, Char? – o vinco brincalhão no meio de sua testa foi charmoso demais. – Ai, queria saber também... – pisquei, dengosa. – Adorei sentir você roçar essa barba por todo os lados do meu corpo... e sua boca é uma perdição – o lambi descaradamente. Ele fez o mesmo processo torturante no lábio inferior, depois me devorou. – E a língua? – perguntou, todo sacana.

– Ah, essa é destruidora – ofeguei, assim que os seus dedos acharam sem querer minha calcinha – Gab... – Só me diga uma coisa, ok? – fiz que sim, encarando a maravilha dos seus olhos. – Você só veio com essas sainhas para me provocar, não é? – sorri, mordendo o lábio. – Porque desde que te conheço, você só usa saia comprida ou vestidos. – Isso é ruim? – perguntei, levando as mãos teimosas para dentro de sua camiseta.

– Claro que não! Você fica maravilhosa – mordeu o meu pescoço, e estremeceu quando minha mão desceu até o cós da bermuda. – E quando coloca jeans, então? Eu fico assim, ó... – apertou sua ereção entre minha barriga e foi descendo, até atingir o sexo. Ofeguei agitada, enlouquecida. – Estamos saindo! – ouvimos um grito já no quintal, onde os dois assistiam nosso descaramento pela janela. Tirei a mão, ligeiramente, que já estava na ereção dele. Ai, Deus, que vergonha! – Eu pensei que eles já tivessem saído! – falei, com pressa. Os dois acenaram e saíram abraçados, rindo. – Garanto que estão felizes por nós. E olha só para os dois, a energia correndo solta entre eles – Gabriel me puxou até a cozinha, onde iria preparar algo para nós dois. – Fico muito feliz por eles. Merecem ter esse momento de felicidade. Que dure muito – falei,


quando ele me sentou no balcão. Balancei os pés, e me senti uma criança de cinco anos que ele mimava. – Ontem, quando você desceu, conversei rapidamente com o Rafa. Vou te dizer uma coisa: nunca, jamais o vi tão alegre. Ele parece muito encantado pela Marcela. Não sei se isso é bom, já que ele se apaixona rápido demais e se entrega intensamente – ficou mexendo na geladeira, enquanto pegava as coisas. – Rafael ficou anos apaixonado por uma mesma garota, que não o merecia. Ainda bem que se livrou dela, mas tenho receio de não ser correspondido e se ferir, sabe.

– Entendo, a Marcela pode parecer desgarrada, falando todas as loucuras dela, mas não tive tempo ainda de falar sobre o que aconteceu esse final de semana. E dessa vez ela teve que cuidar dos meus dramas. Mas fica tranquilo com eles, já são adultos, sabem se cuidar, não é mesmo? – Com certeza – ele estava batendo alguns ovos, pelo visto ia fazer uma omelete. – Você come ovos, certo? – apontou, depois que me viu observando. Somente confirmei sorrindo. Era delicioso ter essa dedicação comigo. – De quem é a saudade? – comentou apontando meu peito. Onde havia a tatuagem. – Minha irmã gêmea – ao mencionar, senti o meu coração disparar. – Ela faleceu há alguns anos já... – Nossa, sinto muito.

– Foi aos treze anos. Ela atravessou o rio congelado, mas ao voltar, o gelo trincou e ela não teve escapatória... Acabou afundando no rio, e eu vi tudo... Nunca irei me esquecer de como me senti impotente naquele dia. – Que tristeza, amor – ele veio para perto e me abraçou, tentando apaziguar minha dor antes que eu caísse no choro. – Ela era uma criança muito especial. Adorava sorrir e era muito brincalhona. Éramos bem próximas, e uma protegia a outra, mas não pude fazer nada... – Isso foi uma tragédia – confortou-me.

– Até tentei salvá-la, sabe? Mas se eu fosse até lá, iríamos afundar as duas – ele concordou, como se me entendesse. – Sinto-me incompleta sem ela – agarrei mais seu corpo e senti o coração dele acelerado junto ao meu. – Devo imaginar... tantas perdas – apertou os lábios, sentido.

– E você, mora sozinho, não tem irmãos e seu pai? – vi o seu semblante mudar ligeiramente quando mudei de assunto. Achei que, na tentativa de tirar o foco sobre mim, acabei entrando em áreas delicadas da vida dele. – Minha mãe era muito doente. Sempre foi frágil. Ela dizia que eu era o seu milagre. Infelizmente, ela não pôde ter outros filhos. E meu pai, ele está morando em Fortaleza. Não nos vemos tem alguns anos, mas vez ou outra ele me liga.


Entendi, então você só tem o Rafa por perto? – ele fez que sim. – Quando descobriu a doença? – precisávamos falar sobre isso, cedo ou tarde. Que fosse o quanto antes. – Há dois anos – arregalei os olhos. – É Linfoma de Hodgkin.

– Já ouvi dizer – afirmei. – Mas... como é? – engasguei, mas quis saber o que acontecia dentro de seu corpo. Aquilo tudo era tão triste... – É um câncer que se origina nos linfonodos, gânglios do sistema linfático. É na verdade um conjunto formado por órgãos e tecidos que produzem as células responsáveis pela imunidade e por vasos que conduzem essas células pelo corpo. Foi doloroso quando descobrimos, porque minha mãe morreu de câncer. Uma metástase espalhou-o pelo corpo. Os médicos não sabiam onde começava e terminava... – ficou alguns minutos em silêncio, então o deixei retornar. – Fiz tratamento durante um ano todo. Corri para hospitais e fui furado por todos os lados. Quase cheguei a me entregar, mas Rafael estava ali comigo, segurando minha mão. Dia após dia... até que veio uma melhora. Eu sabia que não estava curado cem por cento, que qualquer hora ele poderia voltar... e voltou. Ainda está no início, como se tivesse voltado ao estágio I, mas são os mesmos sintomas da outra vez, um pouco mais intenso. Calafrios e febres altas, dores pelo corpo, fora os suores noturnos. Depois que melhorei, não consegui mais engordar, mas também não emagreci, como fiquei no hospital com quase cinquenta quilos. – Meu Deus, você deve ter sofrido tanto...

– A quimio é um inferno. Ela alivia, mas o processo todo é doloroso e exaustivo. – Você está vivendo normalmente. Foi por causa de alguns sintomas que percebeu que estava voltando? – quis saber, com o coração ferido. – Ele nunca foi embora, Char. Não estava curado, só estagnei a doença. Não há cura para isso. Desde aquela época estou vivendo com ela, mas dessa vez... – ele fechou os olhos e escolheu as palavras. – O médico disse que pode vir mais intensa, e que não posso resistir. Vou voltar a fazer quimioterapia e todo o tratamento de suporte. Serão dias sombrios novamente. – E eu estarei ao seu lado.

– É um alívio grande saber disso, que posso contar com vocês – olhei para trás e vi o sorriso sincero do amigo dele. Já haviam voltado, mas tinham permanecido ali, somente observando em silêncio. Os dois entraram na cozinha, e Rafa o abraçou. Marcela veio para perto e sentou ao meu lado. – Sinto muito, Gabriel. Você é uma ótima pessoa, é uma pena tudo isso – ela disse, realmente sentida. Acho que deram uma saída para que o Rafa pudesse contar tudo à ela. – É uma merda! – Rafael esmurrou o armário. E seus olhos coloridos ficaram muito apagados. Senti sua dor, e Marcela me abraçou. – Não vamos deixar o ambiente fúnebre! Estávamos aqui para curtir, não é mesmo? Pegue uma breja e pare de tentar quebrar as coisas da tia. Sua mãe vai nos matar – ele tentou soar brincalhão, mas o olhar do Rafa estava sério demais.


– Você pode beber álcool? – depois de termos bebido a noite toda que me lembrei. – Ah, poder eu não posso, mas já que vou... – um murro veio de encontro ao

seu ombro.

Tomei um baita susto. E Rafael grunhiu. – Se falar essa porra de novo, eu vou embora! – Gabriel o agarrou num abraço muito apertado, e vi lágrimas sinceras dos dois lados. Me deu uma imensa vontade de chorar. – Desculpa – Gab pronunciou, ainda abraçado a ele. – Tomo alguns remédios para acalmar as dores, mas ainda não estou tomando os fortes que derrubam leão! – tentou brincar para amenizar o clima. – Então posso abusar um pouquinho, certo? – deu dois tapinhas no amigo, que retribuiu. Era linda essa amizade. – Entendi – falei, ainda encarando a beleza dos dois.

– Enquanto você prepara alguma coisa, acho que vou cair na piscina, tá muito calor! – Rafa avisou, já arrancando a camiseta. Corei, pois ele tinha um corpo de arrancar o fôlego. E Marcela ao meu lado babava. – Hoje é por minha conta – anunciou Gabriel, e também tirou a camiseta. Ai, eles queriam nos matar de desejos! – Vocês dois tem asas! Awn, que lindos, Anjo Gabriel e Rafael! – Marcela comentou. E os dois viraram as costas para gente e movimentaram os braços para mostrar como era realmente lindo o desenho. E gostoso. – Que pecado... – ela sussurrou só para mim. Eu concordei.

– Quando fizeram? – perguntei. – Fizemos com dezenove anos.

Quando Gabriel passou por muitas coisas pesadas, então decidimos que seríamos anjos um do outro. O nome não deixava a desejar, então escolhemos juntos. Foi uma ideia bacana, não é? – falou para a Marcela que mordia os lábios, sedenta por aquele loiro tão incrível. – Que tipo de coisas pesadas? – observei, e vi a expressão do rosto dele mudar.

Mencionei algum tempo atrás para você. Eu sofri um acidente e a menina que estava namorando, acabou falecendo – sua voz falhou, e senti sua dor. Éramos tão quebrados e mesmo assim, nos mantínhamos em pé. – Um acidente horrível na estrada. E não foi sua culpa – acho que ele ainda se culpava. Sei que deveria ter mais sentimentos nessa história do que ele seria capaz de me contar. Claro, não sabia ao certo se era na mesma intensidade que a nossa, mas do jeito trágico que acabou acontecendo. Isso foi marcante de certa forma em sua vida. A tatuagem por si só já dizia muito sobre tudo. – Eu sei, já aceitei – disse sincero. Olhei para Marcela, que estava de cabeça baixa.

Meu pai também sofreu um acidente, faleceu de uma forma igualmente bruta – soluçou

baixinho, tentando assim encaixar na conversa. – Tem quase dez anos, e também fiz essa pequena tatuagem – ela apontou para o pulso, e os dois vieram ver. Gabriel se afastou um pouco, com uma


expressão sinistra no rosto. – Eu já vi esse desenho... – concluiu, inerte.

– Eles tinham um clube de caminhões que era muito conhecido. Chamava Trilha dos Lobos. Por isso fiz, ele era apaixonado por caminhão. E confiava tanto, até que um dia, perdeu os freios na serra e sua vida escapou de seu controle – ela já havia me contado isso, mas toda vez ficava bem arrasada. – Ele era uma boa pessoa, um ótimo pai, foi uma perda e tanto.

– Foi na serra de Ilha Bela? – Gabriel perguntou, agitado. Não entendi. – Sim, por quê? Ficou sabendo pelos noticiários? – ela também parecia

confusa. – Foi um acidente feio, já que atingiu outro carro, uma moça faleceu e um rapaz sobreviveu já que foi atingido só o lado dela. Mamãe tentou esconder a história para que eu não me chocasse, mas tinha quinze anos, eu vi nos jornais. Gabriel se encostou na pia e estava pálido. Rafa foi até ele e todos estávamos sem entender. Seus olhos vidrados na história da minha amiga. – O que foi, Gab? – Rafa tocou em seus ombros eretos.

– Éramos nós. Eu e Jaqueline... – sua voz falhou. – Onde? – Marcela desceu do balcão e o fitou ansiosa. – O acidente foi comigo. O caminhão veio de frente ao meu carro. Atingiu todo o lado da Jaque... Ela morreu na hora. Eu lembro de ter visto esse adesivo no vidro da frente do caminhão – respirou agitado ao terminar de contar. – Gente, meu Deus, jamais imaginaria que isso poderia acontecer, em nos conhecermos – ela estava em choque. – Sinto muito pela garota – falou sincera.

– Tudo bem, e eu sinto pelo seu pai. Foi uma fatalidade, não podíamos prever – ela concordou. Um silêncio reinou por alguns instantes. Até que o meu celular me despertou. Desci do balcão e o peguei na mesa. Ao ver o número, meu estômago deu um nó. Era de casa. – Vocês me dão licença, eu já volto. Todo mundo ficou curioso me olhando, e outro assunto começou assim que saí. – Alô? – atendi com a voz trêmula, sem imaginar quem seria do outro lado.

– Oi filha! – inacreditavelmente era minha mãe. – Mãe? – Sim, sou eu – sua voz parecia tão distante. – Aconteceu algo? – Na verdade está prestes a acontecer. Sua vó está muito doente, e quer te ver, Char. Você precisa voltar para se despedir. Por favor menina, não deixe isso acontecer. O peso desse segredo pode te corroer para o resto da vida... – quanto drama! Quem diria... – Pensei que perguntaria antes se eu estava bem – resmunguei, meio malcriada.


– É que não temos muito tempo para formalidades. Por gentileza, pegue um avião o quanto antes e venha vê-la. Ela precisa de seu perdão. – Ela conseguiu o seu?

– Char, não seja tão cruel em suas palavras! – Só me responde, mãe? Agora você vai viver? E por favor, seja muito sincera. – Sim, eu a perdoei, e agora vou viver em paz – sua voz soou baixa demais. Só que o melhor é que ouvi a verdade. – Ótimo, vou ver o que consigo fazer. Obrigada por avisar.

– Posso avisar que você vem? – Sim. Nos despedimos sem dizer mais nada. Quando eu chegasse lá, tudo seria esclarecido. Voltei para a cozinha e os três estavam rindo alto de alguma gracinha que Marcela contava. Ela falava sobre sua época que morou em Fortaleza para fazer seu curso e viver como uma Hare Krishna. Contou a parte que vendia os livros no farol para se manter, e de como abusava por ser tão bonita e vender mais do que as outras. – Não posso fazer nada, sou irresistível, baby – soltou um beijinho no ombro. Eu ri dela. Toda vez ela se divertia em contar suas alegres aventuras. – Tudo isso num calor de 45 graus!

– Ah, isso eu não posso negar – Rafa piscou a ela. Os dois se beijaram cheio de desejos em nossa frente. – Ei, por favor, vão para o quarto! – Gabriel acertou o pano de prato neles.

– Ótima ideia! – ela montou nas costas de Rafael, toda risonha. – Quem era? – Gab questionou baixinho enquanto os dois

brincavam de cavalinho pela

cozinha. Quase esbarrando na gente. – Minha mãe – sua expressão mudou levemente. E Marcela prestou atenção.

– O que ela queria? – foi ela quem perguntou. Rafa parou de frente comigo. – Minha vó está muito doente... – Gabriel me deu as costas, fingindo que mexia em alguma panela. Ele já sabia. – Minha mãe também virá essa semana, está com algumas dores estranhas, virá fazer exames. O noivo dela vem junto – ela tentou quebrar o clima que ficou. – Pois é, essa é a semana das visitas – e eu teria que arrumar um jeito rápido de ir e voltar o quanto antes. Não poderia deixá-lo sozinho. Não mesmo. – Ela vem para cá? – assim que Rafael saiu pulando com a Marcela, Gabriel me prensou na mesa, beijando minha boca de leve. Querendo saber a verdade. – Não, eu vou até lá.

– Ah, sim – ele murchou na hora.


Não fique triste, será muito, muito rápido. Vou só me despedir dela. Lady Shelly está morrendo – sua feição mostrou que com ele acontecia o mesmo, mas não queria me atrapalhar. Senti um nó no peito. – Vai sim, e estarei aqui te esperando.

– Com certeza – puxei o seu pescoço e beijei apaixonadamente sua boca. – Preciso aproveitar para ganhar mais desses, já que vou ficar alguns dias solitário. – Pode contar comigo, que deixarei um estoque bem cheio! E não terá tempo de sentir minha falta. – Jura? – lambeu cuidadosamente meu lábio inferior, me fazendo derreter em seu charme.

– Ah, Gabriel, de fato... – Que menininha mais dengosa que eu tenho. Vamos começar agora esse estoque? – sorri e corri dele, e aposto que essa comida não sairia tão cedo, pois era risadinha para todos os lados. Embora os nossos sentimentos a cada minuto recebiam uma novidade, era incrível como nos dávamos bem. Gabriel era o único em minha vida, o toque mais doce e gentil. Era o que fazia meu comportamento mudar do alegre para sensual em segundos. O que me mantinha viva e sem medo. Fazia-me sonhar acordada e suspirar em cada beijo. Pode parecer loucura, em querer gritar a mais intensa paixão, ou gritar a mais sofrida dor, mas seria assim os nossos dias daqui para frente. Uma dedicação mútua. Compartilhávamos os mesmos gostos, as mesmas canções, os mesmos risos, mas também sabíamos de nossas fraquezas que estavam ali, sempre nos cutucando. Entretanto, o que é isso quando se tem o melhor para aproveitar? Ah, o amor...


Gabriel E eu vejo suas cores reais Brilhando por dentro Eu vejo suas cores reais E é por isso que eu te amo ~Cyndi Lauper – True colors~

– O que vai ser, Char? Tio Nick, para se derramar em lágrimas, ou alguma comédia romântica? – questionei, fazendo-a rir muito. Depois do almoço caprichado que preparamos juntos, levei Char para a sala de cinema num dos cômodos do casarão. Era um lugar amplo e confortável. Haviam alguns pufes gigantes e a tela imensa, que pegava toda a parede. Apesar de todos os canais pagos serem abertos e ter o queridinho da nação Netflix, havia a incrível estante recheada de filmes. Aquele era o espaço tranquilo que necessitávamos para ficar a sós. – Ah, que covardia, eu adoro o tio Nick! Sou apaixonada pelas histórias dele – seus olhos eram os mais sinceros. Beijei um por vez. – Prefiro sempre os livros, mas até que os filmes são bons – dei abusadamente de ombros.

Eu também, mas já que estamos aqui – apontou para a sala de cinema. Iríamos assistir somente nós dois. – Perfeito, agora escolhe algo bem legal, que vou buscar pipoca – depositei outro beijão em sua boca maravilhosa e fui até a cozinha. Ao chegar lá, dei de cara com uma cena chocante, uma coisa que dava para ser evitada, mas tenho certeza absoluta de que não queriam evitar nada daquilo. Sério, eu não precisava ter visto! Tentei inutilmente virar o rosto, para que pudesse voltar depois, mas o meu melhor amigo gosta de me deixar em situações para lá de constrangedoras. – Pode entrar, já acabamos! – ele disse, abaixando a saia dela. Marcela, que estava sob a mesa, tapou o rosto e riu alto. Tentei não olhar na direção deles, para não constrangê-la ainda mais. Ouvi Rafael erguer sua bermuda e descer a garota de cima da mesa. Ouvi também um longo beijo e ela se despedir, indo para o quarto. – Desculpa Gabriel, foi impossível – falou toda espoleta.

– Eu que peço desculpa – não me virei em sua direção, mas sei que ela estava corada apesar de parecer divertida, antes de nos deixar a sós. – Estamos quites – ele disse, me dando um soco no ombro, em tom de brincadeira. Virei-me, quase irritado.


– Fez de propósito? – questionei. – Não, claro que não! – a cara de pau dele é a maior de todas. E seu sorriso cafajeste dizia que sim, tudo aquilo havia sido proposital. – Você é muito sacana para o meu gosto, putão – revidei o soco e ele foi até a pia, encheu um copão com água e engoliu devagar. – Olha a mão na boca, malcriado – sorriu, amigável. – Veio pegar pipoca? – ele já estava avisado que ficaria na sala de cinema, por isso questionou. – Aham, onde tem? – apontou o indicador para o armário da frente. Fui até lá e peguei o saquinho. – Vai levá-la ao sótão hoje? – seu tom de voz foi suave. Ele sabia o quanto significava para mim. E antes de virmos, ele ajudou com algumas coisas. – Pretendo. Ela merece esse instante comigo, sabe. Eu preciso mostrar a ela um novo lado – ele assentiu. – Enquanto ela tomava banho, fui ajeitá-lo.

– Ótimo, fico feliz, e se precisar de qualquer coisa, me envia uma mensagem. Vamos embora mais tarde, mas fiquem à vontade. Eu volto se precisar – tocou o meu ombro e fitou-me nos olhos. Aqueles olhos coloridos e tão familiares estavam radiantes, mesmo vendo a preocupação bem no fundo deles. – Vou ficar bem... Aliás, vamos.

– Creio que sim – deu dois tapinhas em minhas costas e ligou o fogo para mim. Depositei a pipoca e esperamos estourar. – Vocês estão bem? – questionei. Ele me olhou de lado, segurando o sorriso. Parecia que a parte caramelo de seus olhos aumentara, e quase roubou o mar que restava, acompanhei de perto sua felicidade. Já a parte toda azul parecia um mar revolto de paixão. Sempre adorei ver essa transformação no olhar de Rafael. – Meu, ela é maravilhosa. Estou muito bem, obrigado por perguntar – cruzou os braços no peito desnudo, fazendo a sua tatuagem se contrair e parecer ainda mais real. – Marcela é divertida, inteligente, espontânea, de bem com a vida e muito, muito boa... – mordeu a ponta dos lábios bem vermelhos. Deveria estar inchada de tanto que beijou na boca. Meu coração pulou de alegria por ele estar tão bem. Eu sabia que o meu amigo estaria feliz, sem que pudesse sentir minha falta, quando chegasse a hora. Ela preencheria todo esse espaço que a minha ausência deixaria no peito dele. Só queria que Rafael fosse feliz e ficasse bem sem mim. Mas não iria dizer nada, e para não entrar nesse assunto, foquei no barulho da pipoca que estourava na panela. – Bem, não quero os detalhes sórdidos.... Não sou obrigado – brinquei, remexendo a panela.

– Eu não daria mesmo, bichão! Ela é o meu pote de ouro, sabe? Um tesouro que cacei a vida toda.


– Fico feliz de verdade, Rafa. Você merece um amor verdadeiro, alguém que te apoie e te ame além dos limites. – É, estamos indo devagar. Tem apenas dois dias que nos conhecemos, mas é como se fossem anos. Não quero compreender essa ligação, quero apenas viver um dia de cada vez. – Sim, um dia de cada vez – era o que sempre me dizia quando estava muito ruim. Meu coração apertou, talvez estivesse chegando o momento de repetir mais vezes essa frase. – Charlotte também veio para clarear os seus dias, abençoá-los como deve. Não perca nenhuma chance, Gab. Ela é valiosa, dá para sentir – tirei a panela do fogo, assentindo. – Sinto na alma a sua bondade. Penso que ela veio para me confortar no final... – me faltou voz, e ele também emudeceu. Rafael assistia a luta que acontecia dentro de mim diariamente, através dos meus olhos. Nos conhecíamos há tempo demais para esconder algo um do outro. Ele sabia que, ao mesmo tempo que eu estava vivendo meus melhores dias, também vivia um inferno pessoal. Eu encontrei o amor, e a dor me encontrou. – Ela vai viajar? – trocou de assunto. Ele sentiu como fiquei mal por isso quando ela mencionou. Eu assenti. Não queria comentar nada sobre aquilo. Afinal, Charlotte precisava de sua família, apesar não querer ir. Mas ela precisava daquele instante, sua despedida com a avó. E não seria eu que roubaria esse momento dela. – Acho que sim – confirmei.

– Você está bem com isso? – ele viu todas as questões em meu rosto. – Vou ficar. – Conte comigo, sempre – nos abraçamos e fui atrás do sal para colocar na pipoca. – Outra coisa, a Marcela me contou que a mãe dela vem de Fortaleza com o noivo essa semana, e ela quer me apresentar num jantar. Acha que ficaria sério demais? – ele só estava ansioso e com medo dessa novidade. – Não acha apressado demais conhecê-los? – arrisquei, mas mesmo assim estava disposto a apoiá-lo. Era o que ele precisava. – Mas devo acrescentar, se é o que você quer, e está seguro com isso, não há mal algum. – Eu quero, mas tô numa pilha e espero que ela não tenha notado – coçou a cabeça, espalhando os fios loiros. Dei risada. – Quero saber tudo sobre ela. O que gosta de fazer e o que não gosta. Se é parecida com a mãe ou se é mais divertida! Gab, ela é a garota que eu esperei para acalmar e alegrar os meus dias na mesma proporção, entende cara? – sua sinceridade me atingiu. Ele jamais falou assim da Marcinha, claro, ele tinha uma possessão maluca, achava que era amor, mas pelo que vejo, isso aí é amor. E dos mais puros. – Tem certeza?

– Sim, talvez eu acredite muito no amor à primeira vista, sei lá, mas temos uma ligação incrível. Quero provar mais disso.


– Iria te pedir para ir mais devagar, mas acho que não devo – toquei em seus ombros, e o sorriso dele se esticou. – Não quero vê-lo sofrer, entende? – ele fez que sim. – Você é uma pessoa maravilhosa, Rafael. É dedicado, esforçado, merecedor de todo amor possível. Não quero nada menos que isso a você – seus olhos se emocionaram. – De verdade, não posso permitir que sofra, mas sinto que dessa vez, de todo o meu coração, é certo. Você está confiante, e quer demais conhecê-la melhor. Só não se entrega de vez, ok? Deixa acontecer – aconselhei. – Vou devagar. Já conversamos sobre isso. O duro é que quando estamos juntos não há nada devagar! Tudo explode, cara! É maravilhoso sentir isso, mas estou ainda com medo. Por isso a calma. – Exatamente.

– Mas é como a gente sempre viveu, um dia de cada vez – confirmei, num abraço apertado e saí com o pote de pipoca, antes que esfriasse. Também não queria deixar muito tempo Charlotte esperando.

Depois que cheguei, ela estava com o filme escolhido já no aparelho, faltava apenas dar play. Era um daqueles filmes com final triste. Até já tinha escutado falar do livro, mas não o tinha lido, nem assistido ao filme. Mas como ela queria assistir, tudo bem. Só não imaginei que terminaríamos o filme comigo sem ação e Charlotte chorando, inconsolável. – Sabe, eu não aceito! No livro foi ainda mais difícil de aceitar. Ele tinha a opção de viver... Por que quis morrer? – disse, toda brava, com os olhos inchados. Certeza de que ela reconhecia, de algum modo, a nossa história ali. – Char, ele ainda tinha uma opção. Na minha situação é bem diferente... Eu não quero morrer, gostaria de ficar velhinho ao seu lado, mas me faltam opções. A dele era bem diferente. Mesmo que o amor veio para libertá-lo de alguma forma, não foi suficiente para sustentá-lo a esse mundo que vivia, parecido com uma prisão. Eu entendo a situação deles. – Gab, eu também entendo, mas não aceito...

– Você chegou em minha vida agora, num momento que mais vou precisar de sua força. Será muito importante para mim ter seu apoio e sua aceitação, Char. Ser assim como a Lou para me transformar, para me confortar no momento do adeus – era muito difícil dizer-lhe tudo isso, mas era preciso que ela soubesse. – Não precisa me lembrar de que está morrendo! Você está bem agora, então não me diga essas coisas, não agora... Não depois de assistir Como eu era antes de você – eu sabia que ela negaria até o último instante, e que eu precisava chegar com calma. – Não estou bem como você pensa, Char. Estou ficando fraco, mas sinto que em alguns momentos a sua força é o que me mantém em pé. Estou sobrevivendo para ter momentos como esse ao seu lado. – Você sente dor? – sua voz falhou. Meu coração partiu.


– Alguns dias sim, outros estou apenas levando. – Está com dor agora? – tocou o meu peito, sentindo meu coração batendo, rápido. – Só de vê-la com essa carinha. Não sofra antecipadamente, charmosa – beijei os seus lábios. – Quero que me ame... – intensificou seus lábios num beijo esfomeado. – Agora. – Eu peço que jamais me esqueça – solucei em seus lábios quentes. Ela segurou o meu rosto entre suas mãos. Fitou-me, cheia de coragem. – Nunca me esquecerei de você, Gabriel. Sua promessa me fez levantar e levá-la junto comigo. – Posso te levar para um lugar?

– Pode me levar para onde você quiser. Sempre, sem hesitar. Recebi mais um beijo e peguei em suas mãos. E a levei para um lugar muito especial. Assim que chegamos perto da escada que nos levava para o topo do casarão, tapei seus olhos com as minhas mãos. Ela soltou um riso encantador. – Eu vou te guiar. Só segura em meus braços. Sua confiança em mim era demais. Deixava o meu bobo coração aos pedaços. Subimos lentamente as escadas, um degrau por vez, enquanto ela pedia para ver onde estávamos indo. – Deixa de ser curiosa, logo mais verá, charmosa – mordi com força seu delicado pescoço, e ao invés dela gritar, Charlotte gemeu, me deixando atiçado. – Charmosa... Gostei desse novo apelido. E você dizendo fica mais sensual ainda – ronronou, fazendo meu peito arfar. – Você é a minha charmosa.

– E você é o meu anjo Gabriel. Assim que destapei seus olhos, ela ficou boquiaberta ao ver o sótão iluminado. Pequenas velas espalhadas por toda a parte, clareando o nosso ninho de amor, fazendo com que ficasse perfeito. O sótão estava quase vazio. Ainda havia um armário em mogno de canto, uma mesa pequena com duas cadeiras, e um frigobar que ligamos hoje mais cedo, para deixar as coisas que preparei a ela. O chão era lustroso, em madeira bem escura. Tinha também uma parte do teto em vidro, perto de onde deixei nosso colchão, para durante a noite assistirmos as estrelas. O melhor é que ali tinha ar-condicionado, pois a mãe do Rafa se preocupava quando ele passava horas e horas enfurnado por ali. Ela nem imaginava que ali era o seu ninho de safadeza, já que o lugar tinha revestimento acústico, abafando os – gemidos –, ops, quero dizer os ruídos. – As velas são como pequenas estrelas aos nossos pés... – brincou, com a voz dengosa.

– Ao seu alcance – beijei sua boca. – Eu te amo, anjo Gabriel. – Eu te amo mais, Charlotte Charmosa.


Nos abraçamos apertado, sentindo o coração fundir e arrastar qualquer dor para fora dali. Éramos apenas nós dois em busca de nos amar mais um tempo. Sem nada de dor e passado. – Char, eu quero que saiba que dessa vez será diferente. Quero que se sinta à vontade, que se livre de todo pensamento ruim. Que fique leve e se entregue totalmente para mim... – Já estou. Fui até seu corpo e abracei-a lentamente, sentindo todas as curvas e cheiros. A noite chegou rasteira lá fora, enquanto eu tomava todo o cuidado para que ela não se sentisse desconfortável, e que apenas sentisse meu amor por ela através do seu corpo. Abraçados, dançamos o nosso ritmo, ditados pelos movimentos de nosso desejo. O cheiro dela me tomava por completo. Fechei os meus olhos, desejando que eu fosse essa mesma força para ela, como é para mim. – Posso te despir? – sussurrei em seus lábios. Indo de encontro ao pescoço, deslizando a ponta da língua com cuidado. Deixando-a arrepiada, rendida. – Deve. Seu sussurro era doce e sensual. A levei até onde havia o colchão grande e macio no meio do sótão. Ali estava também a cesta com as taças de vinho branco e morango. – Gosta? – apontei para tudo, orgulhoso ao assistir sua paixão por mim explodir.

– Sim, está tudo perfeito – seu desejo tomou forma e ela permaneceu sedenta. Comecei a despi-la com lentidão. Beijando cada canto para não haver espaço sem explorar. Eu queria conhecer cada linha, cada canto de sua singela pele arrepiada. – Obrigada.

– Pelo o quê? – Por isso... Por existir, por acreditar na gente, por me permitir te amar e ser o seu conforto. – Eu te amo e quero mostrar como pode ser completa. Você é tudo que quiser, Char. – Hoje sou completa, mas um dia, faltará uma parte de mim – sua voz falhou, por um instante apenas. Beijei suavemente a sua face, até atingir o queixo. Ela gemeu. – Iremos nos juntar novamente um dia – prometi.

– Sei que iremos, acredito em você. A despi totalmente e passei a admirar a beleza tão natural que tinha à minha frente. A vontade era beijá-la até o amanhecer e recitar as mais diversas palavras de amor. Charlotte merecia tudo de mim, pelo menos a parte que eu ainda conseguia doar. Eu sabia que não viveríamos uma vida juntos, mas esses instantes eu podia proporcionar. Desejei estar ali com ela, num espaço que seria nosso, sem fazer o tempo passar, sem deixar os problemas nos atingirem, sem os passados dolorosos. Aqui, éramos apenas nós. Dois amantes apaixonados. Dois amores se conhecendo. Duas almas se encontrando. Coloquei seu pequeno corpo no centro da cama. Ela se esticou toda. Pegou um morango suculento e levou aos lábios. Ao mordê-lo, o sumo escorreu por seu pescoço. Quando ela pensou


em limpar, minha língua chegou antes. Lambi o fio doce, recebendo o seu sabor misturado. – Tão deliciosa...

– Você é mais, me deixa te ver – exigiu com a voz rouca de prazer, tentando me despir. – Daqui a pouco. Agora, deixa eu te dar tudo! Vimos estrelas. Confidenciamos segredos. Exploramos nossas fantasias. Exaltamos os nossos desejos. Assistimos nossas cores se fundirem, gritando ao mundo como fogos. Recitamos as mais sinceras juras de amor. Eu a amei como merecia. E fui amado com a alma mais pura e delicada. Um sentimento para a vida toda. Eu não estaria por muito mais tempo por ela, e me desculpei por deixá-la sozinha. Ela chorou baixinho, enquanto eu ainda beijava sua boca. Chorei por dentro, por não ter a chance de mudar o futuro. Meu coração se partia e reconstruía ao assistir o nosso momento belo. O mais delicado orgasmo era sentido, chorado, festejado. Explorando da melhor forma para que ela se sentisse confortável, sem que eu invadisse seu mundo tomando sua dor. Ali tornou-se um misto de beleza e tristeza, mas que aprenderíamos a conviver. A vida pode nos maltratar muito, mas não mais do que poderemos suportar. Ela sobreviveria sem a minha presença, mas o amor e a saudade ficariam para lembrar o quanto foi real. Além de todos os nossos limites...

– Obrigada por compartilhar seus segredos, vontades, conquistas e dores. Eu te amo e amarei para o resto da minha vida – ela soluçou, ainda abraçada a mim. Adormecemos juntos sem perceber, entrelaçados, sentindo a respiração tranquila e o coração ritmado. Só que, no meio da noite, despertei assustado. Um suor frio junto a arrepios me fez soltar o corpo dela. Achei que era por estarmos grudados, mas notei que não era quando uma dor na cabeça me fisgou. Já sabia que Rafa tinha ido embora. Meu corpo começou a tremer descontrolado, uma dor agonizante me atacou repentinamente, e precisei levantar rápido para que ela não notasse. Não podia preocupar Charlotte. Na verdade, eu mal conseguia pensar nas consequências. Se ela me visse assim, na pior delas, não iria visitar sua família. Eu não queria ser esse empecilho. Então vesti a bermuda e a camiseta, tremendo, suando, enfraquecendo. Peguei o celular no bolso, e a passos largos e silenciosos, consegui descer a escada e ficar na parte que dava para o salão de jogos. Assim que cheguei perto da janela, já suando em picas, consegui ligar o celular. Meus dedos se contorceram com mais uma dor desconhecida. Isso nunca tinha me acontecido, e olha que passei por coisas ruins. Essa era péssima. Cliquei o número na discagem direta. Dois toques foram suficientes. Ele atendeu. – Tem algo errado acontecendo comigo – avisei trêmulo, engasgado, tudo estava me sufocando. – Gabriel, o que você tá sentindo? – meu amigo gritou, agitado do outro lado.

– Tudo. Tô sentindo tudo... – tirei o aparelho de perto do rosto, tossi sem parar e algo subiu na garganta. Não pude dar mais explicações, apenas vomitei. No escuro eu não queria ver a cor


daquilo, mas sabia que era viscoso. E muito perigoso. – Gab, merda, aguente firme, já deixei a Marcela na casa dela, e estava indo... porra! Estou indo te buscar, agora! – gritou, agoniado por essa situação dos infernos estar acontecendo justamente agora. Queria confortá-lo, mas a voz sumiu em meio a baba grossa em minha boca. Não era um líquido, era espesso e de uma cor escura. Aquilo era... ai, caralho! Minha cabeça se agitou, pois eu queria informá-lo. – N-não... co-conte... nada... a ni-ninguém... e-ela... não po-pode sa-saber! – gemi entre uma respiração e outra. Estava me engasgando com todo aquele possível sangue. – De-deixa e-ela ir ver a fa-família... – tentei ser claro, mesmo quando me faltou voz. – Uma porra, Gab! Tô indo te buscar – gritou mais uma vez, toda dor que estava dentro de mim destruindo o meu amigo. E não seria somente a ele. Todos nós sentiríamos essa onda destrutiva em nossas vidas. Esse maldito câncer não acabava somente comigo, ele levaria meus amigos e minha paixão junto. – Pro-promete... por favor... – aguardei qualquer coisa dele. Então Rafael se rendeu.

– Prometo – sua voz era cortante, chorosa. – Só aguente firme, estou indo agora. E então, antes de respondê-lo, eu apaguei.


Charlotte Posso aguentar muito Até ter tido o suficiente Porque eu sou só humana E eu sangro quando caio ~Christina Perri – Human~

Acordei ainda meio sonolenta, nem imaginava que horas eram. Mas pelo sol que entrava pela janela, eu diria que já passava das 10h. Ao virar para o lado, me surpreendi ao constatar que estava sozinha. Talvez Gabriel tenha descido para pegar algo ou ir ao banheiro. Estiquei-me toda no colchão mega confortável e puxei o lençol para me levantar. Apesar de estar tão bom ficar por ali, eu precisava ir ajeitar as coisas para irmos embora. Sentia uma leveza em meu corpo, como se ele tivesse ativado um novo sistema, onde as energias agora irradiavam de mim. Era muito reconfortante ser amada, e amar além dos limites. Minha alma sentia essa purificação. Eu estava renovada. Caminhei até onde estavam as peças de roupas. Coloquei a saia e a blusinha e sorri, distraída, ao ver a pequena bagunça que fizemos entre os lençóis. Fitei mais uma vez o teto, onde assistimos estrelas brilhantes sendo cúmplices de nosso amor, testemunhas de algo grandioso. Segurando os chinelos entre os dedos, caminhei até a porta. Iria voltar para a casa, descer para verificar o que Gabriel aprontava. Assim que cheguei na escada, uma surpresa me tomou ao ver que era Rafael quem estava sentado, aguardando-me. Fiquei confusa ao vê-lo, ali, já que tinha ido embora ontem à noite. Dei dois passos e ele sentiu, enfim, minha presença, virando os olhos em minha direção. – Bom dia – olhou para mim por cima de seus ombros.

– Bom dia – fitei sua expressão, que não era muito amigável. – Tá tudo bem? – meu coração acelerou. – Sim, vamos? – falou simplesmente ao se levantar. Parecia tão frio, e tão indefeso.

– Cadê o Gabriel? – um frio começou rapidamente a correr por todo o meu corpo inquieto. Faltou pouco para entrar em pânico. – Char, ele já foi – contou, com a voz cortada. E seus olhos estavam arregalados. Ele escondia algo de mim, eu tinha certeza. Mil ideias começavam a assolar minha mente. Ideias tão tristes que queria que fossem embora, sugestões que mostravam um homem diferente daquele que passara a noite comigo. Meu coração estava tão acelerado que mal conseguia me concentrar. Tentei raciocinar.


– Como assim, ele já foi? Para onde, Rafael? – acho que quase gritei esse absurdo. – Ele não se despediu de mim, e iríamos embora juntos. Por que foi sozinho? Está tudo bem com o Gabriel? – agora gritei, e sei que Rafael não tinha nada a ver com aquilo. Aliás, pensando bem, ele tinha tudo a ver, já que sabia onde o seu amigo estava, e eu não. Uma raiva estranha subiu pela minha garganta... Como Gabriel podia ter ido embora, fugido de mim daquela maneira? Minha vontade era de encostá-lo contra a parede e confrontá-lo, gritar até que me revelasse o que diabos estava acontecendo. Eles estavam me tratando como uma boba. Que merda! – É melhor irmos, ok? Ainda vou trabalhar e ele me pediu que levasse você em segurança para sua casa quando acordasse. Já ajeitou as coisas? – ele desviou os olhos coloridos de mim, tentando esconder a verdade para evitar a minha dor. Será que não percebia que falhava miseravelmente? Eu só queria ouvir a verdade. – Por que está tão indiferente comigo? Tem alguma coisa estranha aqui que não quer me contar – bufei, passando por ele, já que não me respondeu. Rafael me acompanhou até o quarto, me deixando que arrumasse as coisas. Vi que as coisas do Gabriel estavam todas ali. Mas ele não tinha ido embora? Meu corpo entrou num ritmo louco, comecei a socar as coisas dentro da pequena mala, as lágrimas querendo pular dos olhos. Aquilo tudo que fez seria uma despedida? Primeiro me levara aos céus e depois se recusava a me ver? Deixandome no mais profundo e vazio inferno. – Não me diga que ele fez tudo aquilo para se despedir?! – fechei o zíper da mala, e o fitei, me segurando para não desmoronar. Rafael apenas abaixou a cabeça, sem graça. Era a confirmação que eu precisava. – Porque então ele não teve coragem de falar uma palavra sequer na minha cara. Ao contrário, ele me tratou ontem como se eu fosse a mais amada das mulheres! Como o Gabriel pode ser tão insensível! Onde ele está? – cacei o meu celular para ligar, mas estava sem bateria. Xinguei-me mentalmente, pois eu tinha me esquecido de trazer o carregador. – É melhor vocês conversarem depois, Char, ele está confuso e... – ele desviou os olhos de mim, novamente, aumentando ainda mais a minha raiva diante daquela situação. – Você está mentindo, Rafael! Eu te conheço a pouco tempo, mas sei que está mentindo. Deveria fazer esse papel de “amigo passando o pano para limpar a merda” muito melhor. Pode ensaiar um pouco mais que está feio – estalei os dedos em sua frente, e puxei a mala de cima da cama. – Eu levo – Rafael ofereceu, mas o meu olhar em sua direção foi como um tiro de doze, fazendo-o estremecer. – Não preciso de sua ajuda. Ele deixou muito claro que eu não precisava de ninguém... E pelo visto, nem dele. Que eu não era obrigada a nada. Então me deixa! – grunhi, irritada. Não era possível Gabriel me deixar. Não daquele jeito tão cruel. Teria que ter uma explicação. – Você não vai me falar, não é, o que diabos está acontecendo?! – apontei o dedo em riste para ele assim que


joguei a mala no porta-malas. Ele desviou os olhos. – Ótimo, homem é tudo farinha do mesmo saco. Só me leva embora daqui, por favor. E não quero ouvir sua voz durante o caminho. Não podia acreditar que o Gabriel estava bem com isso, me abandonando e não se permitindo viver o pouco tempo que lhe restava amando. Como ele poderia deixar a nossa história, depois de me contar e fazer todas aquelas coisas, de me fazer acreditar? Droga, Char, como pôde cair nesta?! Precisava sair dali. Eu não questionaria Rafael, pois não adiantaria em nada. Ele não contaria. Chegamos na porta da minha casa em quarenta minutos. – Só avisa a ele para ter a decência de me ligar, explicar o que acabou de acontecer – tentei esconder como o meu coração sangrava. – Charlotte, nem por um momento você achou que seria difícil para ele? Complicado? – Rafael respondeu, muito baixo. – Está dizendo que não foi confuso para mim também? Eu quero apoiá-lo! Aceitei ficar ao lado dele, pois precisamos um do outro. Minha nossa, do que adianta falar se ele está cheio de consideração por mim! – não estava raciocinando direito porque queria estar ao lado dele. Eu só funcionava com ele. – Não foi isso que falei. Bem, Char, preciso ir, estou muito cansado. Espero que logo vocês se falem. De verdade. Rafael saiu cabisbaixo e realmente sentido. Eu sei que ele me escondia algo e eu estava disposta a descobrir.

Depois de muitas chamadas perdidas para Gabriel, não insisti mais. Talvez ele não quisesse mesmo falar comigo. Dormi e acordei chorando as minhas mágoas. Era triste não ter contato, não saber como ele estava, ou como ficaríamos... Não sabia o que fazer. Foi então que recebi um e-mail. Era da casa que um dia eu considerara parte de mim. Nele, minha mãe passava as coordenadas para ir visitar aquela que chamara de vó há tanto tempo atrás, aquela que estava quase morrendo. Eles haviam comprado as passagens para que eu pudesse visitá-los. Não que precisasse do dinheiro deles, pois tinha o meu e poderia comprar, mas já que enviaram, era o mínimo que poderia fazer. Vê-la. Pela última vez. A viagem era para aquele mesmo dia. Será que tinha forças para ir? Estava com a cabeça a mil, por saber que Gabriel estava sozinho... E que tinha me deixado sozinha. Só que eu não estava doente como ele, mas estava quebrada, abatida, assustada. Totalmente desorganizada. Talvez aquela jornada para destruir os meus próprios fantasmas fosse boa, para me fazer esquecer de toda aquela tristeza que ameaçava me consumir se eu ficasse ali, abandonada. Deixei várias mensagens no WhatsApp, mesmo sem ter noção se ele as escutaria. De qualquer forma, achei sensato avisá-lo que iria para Londres. Sentia que, com o tempo nos acertaríamos, que ele veria que não precisava passar por tudo sozinho, que eu estaria ao seu lado e era mais forte do que pensava... Só esperava que Gabriel não percebesse isso tarde demais. Arrumei minhas coisas mais uma vez e fui para o aeroporto, sem ter seu olhar confiante


dizendo para eu voltar.

Acho que a saudade e dor me fizeram desligar na viagem. Não notei a passagem do tempo, apenas tomei um remédio para relaxar e acordei com a comissária me cutucando, dizendo que havíamos pousado. Desci meio desnorteada, com a cabeça a mil por hora, numa bagunça completa, querendo entender o que tinha acontecido. Onde foi que eu errei? Quando foi que ele pensou em me deixar e não percebi? Ontem, enquanto me dava prazer, não parecia um fim, uma despedida. Durante todos os segundos que recebi os seus beijos, aquilo não era um término. Olhávamos as estrelas brilhando acima de nós e fizemos promessas! Gabriel me fitou nos olhos, mostrando todo seu amor... E agora? Não tínhamos nada! Ele me deixou sem nada. Era muita decepção por um abandono tão imaturo, sofrido e inconsequente. Peguei a pequena bolsa que havia despachado. Assim que saí, o motorista do castelo Connor já me aguardava, segurando uma plaquinha com o meu nome escrito. Só acenei com a cabeça e fomos embora, sem trocar uma palavra. O ar frio e congelante já tinha dominado aquela região. Havia levado um casaco mas, mesmo assim, já estava morrendo de frio. Encostei na janela, vendo a minha respiração condensar no vidro. Meu peito sufocou, pois queria muito que Gabriel estivesse aqui para conhecer essa maravilhosa cidade. Eu lhe mostraria todos os melhores lugares, tentaríamos andar grudados por toda Notting Hill atrás de pequenos presentes, ouvindo canções amorosas com um único fone. Daríamos beijos marcantes, sorriríamos para fotos inesquecíveis. E eu precisava tirar muitas fotos com ele... Mas Gab não estava... e nem queria falar comigo. Fechei os olhos cheios de dor, pois meu coração começava a sangrar com essa distância. Não entendia o porquê ele me queria longe... fora de seu alcance. Eu nunca seria capaz de aceitar, ainda mais porque não tínhamos muito tempo. Quis gritar, me fechar em copas, mas não podia. Não naquele momento, que parávamos em frente ao castelo. Vi papai na janela, sorrindo, cheio de felicidade. Meu peito aqueceu, mas não removeu a dor que permanentemente crescia ao me encontrar naquele lugar. Parece que sempre existiu duas Charlottes. A britânica rebelde e cruel em suas palavras, já que descobriu logo cedo alguns sentimentos ruins como a raiva, o desgosto e a impertinência. E existe a brasileira, que é educada, doce e gentil. A que amava sorrir por coisas bobas e sentir todas as emoções simples. Mamãe apareceu na janela oposta, onde era o quarto da vovó. Ela deveria estar deitada, descansando, e torcendo para que seus dias não fossem um tormento. Quase revirei os olhos. Afinal, ela era o tormento e desastre em pessoa, para os outros. Desci e saudei os dois. Ambos acenaram as mãos com harmonia. E isso me fez pensar se agora eles viveriam de verdade. Caminhei pela estrada de pedra enquanto o rapaz carregava a minha mala. O barulho da rodinha me distraiu, junto ao salto da bota esmagando a suave neve. Não olhei para meu lado esquerdo,


pois era onde o rio se encontrava. Não era uma boa época, as lembranças machucam quando são tristes. E existia um buraco incurável que sangrava ao estar ali, onde a perdi. Enfiei as mãos enluvadas no casaco preto. Estava toda de preto, já em luto. Por meu amor, por minha vida a seguir. Por todos que estava destinada a perder. Será que um dia eu me recuperaria? Viveria inteira novamente? Às vezes penso que não... Não depois que conheci Gabriel, sabendo que o perderia. – Seja bem-vinda, borboletinha – dona Chanely me cumprimentou. Ela ainda era a governanta daquela ilha de pedra. – Obrigada, Chanely – abracei carinhosamente seu corpo rechonchudo. Não tínhamos muito essa de dar abraços, sermos carinhosos ao toque, mas aprendi no Brasil a fazer isso, e por respeito em me conhecer desde bebê, decidi ter com ela esse contato. Na verdade, acho que eu só precisava de um abraço. O melhor lugar do mundo é dentro do abraço de Gabriel. Ah, como eu o queria agora. Chanely viu a minha emoção e retribuiu, ainda mais apertado. Permanecemos em silêncio e adentramos para o castelo. Meus pais, Daisy e Benício desceram juntos para me receber. – Como está, minha menina?! – papai perguntou em português. Depois que fui para o Brasil, ele só falava em português comigo. Encarei seus olhos acinzentados, bonitos e brilhantes. Há tempos não via meu pai ou não sentia seu reconfortante abraço. Observei-o de canto. Meu pai sempre foi elegante, com seu porte de príncipe, com os cabelos já grisalhos que o deixava com cara de coroa boa pinta. Aproximou-se com os braços abertos, e pude sentir como estava aliviado com o final daquele martírio. Apesar de encará-lo, e ver a alegria mesclada a vergonha em seus olhos, entendia os motivos dele. – Ficarei bem. E vocês? – recebi mais amor ao abraçá-lo, mas não seria suficiente para apagar a dor da saudade. Toquei a minha tatuagem, e a sentir queimar nos meus dedos. Saudade... queima... enlouquece... desnorteia. Eu estava perdida. – Oi mãe, como estão as coisas por aqui? – voltei-me em sua direção e ela me abraçou, friamente. Uma atitude típica dela. Mamãe estava séria, o olhar hesitante e sua boca numa linha fina. Ela sempre estava assim, com a feição infeliz, cabisbaixa. Não parecia muito emotiva ao meu ver, como senti no papai. Claro, sua mãe estava morrendo. Entretanto, o meu amor também estava no Brasil, e eu estava aqui, fazendo o papel de boa filha. Mesmo quando Lady Shelly nem merecia minha atenção. – Tudo muito cansativo. Estou exausta, e ela conseguiu sorrir quando mencionei que chegou. Quer vê-la agora, ou tomar um banho antes? Peço para preparar – disparou todas as questões. Senti que foi totalmente automática, como se tivesse até treinado suas falas. Ela não me perguntou se eu estava bem, mas foi um alívio, porque na verdade, se ela fizesse isso, eu iria desmoronar. Não aguentaria mentir. Eu não estava nada bem. Sou uma humana cheia de defeitos e dores. Quis gritar pela milésima vez só naquele dia. Gabriel estava sem falar comigo. Ele foi embora sem falar tchau.


Ele estava morrendo... E eu perdida. Que merda! – Não precisa, eu me viro. Depois eu a verei, mamãe. Obrigada – respondi de forma instintiva. Meu pai viu que eu não estava bem, quis vir atrás, mas o proibi com os olhos. Mais tarde até poderia conversar com ele, mas agora, só precisava chorar isolada. Subi as escadas intermináveis, observei todas as portas fechadas. Em uma delas minha vó perecia. Parei no meu antigo quarto. Encostei na porta, mas sequer tinha forças para abri-la. Estava sufocada, meu peito ardia. Um buraco se abria. Porque tinha achado que estava pronta para voltar? Será que desejava que o sofrimento me matasse? Ainda angustiada, sem ar para respirar, empurrei a porta e corri para o banheiro. Tirei desesperadamente as roupas, como se elas estivessem me queimando. Era a saudade que queimava, era o medo de não vê-lo mais que me partia. Gabriel... Caí de joelhos perto da banheira. Precisava levantar, senão morreria de frio ali, sozinha. Tapei meus olhos e chorei baixinho, sufocada com o nó que insistia em subir por minha garganta. Meu coração batia ali, querendo me matar aos poucos. Gabriel... Estava com tanto medo. Não podia perdê-lo agora, preciso dizer mais um milhão de vezes que o amo, e que nunca vou esquecê-lo. Ele será para sempre meu amor. Que seríamos jovens para sempre... Gabriel... Uma força tomou meu corpo, fazendo-me levantar. Uma ajuda sobrenatural, já que não estava em mim. Consegui abrir a torneira e entrei na banheira. Deixando a água esquentar em minhas costas. Faltou ar, coragem, faltou ele aqui... Dê-me seu amor, Gabriel. Receba o meu. Não quero mais brincar de distância, de saudade... ela dói muito. Chorei mais um tanto. Sozinha, perdida, isolada do meu amor. Onde ele estava agora que eu precisava dele? Sozinho, perdido, isolado para sofrer? Que egoísmo... meu e dele. Eu queria ficar ali por horas, até não sentir mais nada, e assim o fiz. Adormeci e senti uma mão me tirando da banheira quase vazia. Meu corpo tremia e recebia o choque da realidade. Tinha sonhado que ele sorria, e me aceitava de volta quando Chanely me despertou. – Menina, você ficará doente dessa forma, coloque isso! – jogou em meu colo um felpudo robe, e não era o meu rosa de bolinhas amarelas. Resmunguei, amuada. Só queria ouvir a voz dele. O sussurro dengoso dizendo que me amava. Só queria que ele dissesse qualquer coisa. Saudade... Gabriel... – O que disse, menina? – ela estalou os dedos em minha frente.


– Pode me deixar, estou bem. Descerei o quanto antes, obrigada. – Está com fome? – ofereceu, acanhada. – Não... Está tarde, só quero descansar. O voo foi longo – ela assentiu e saiu. E naquela noite eu não desci. Não falei com mais ninguém. E não fui visitar a vovó.

Com o tempo a dor não diminui, só fica de cantinho, esperando a hora certa para acabar comigo. Não consegui dormir como pensei que faria, apenas cochilei em alguns momentos, chorei em vários outros, e recordei dele. Gabriel era tudo para mim. Era fácil amá-lo. Pensar em seu sorriso. Naquela boca, nos beijos bem dados, em seu amor por mim. Sabia que existia algo muito errado nessa história. Ele jamais iria querer me decepcionar. Me deixar para trás. E eu sentia muito por tudo. Cada parte de mim amava todas dele. – Bom dia! Quer ir visitá-la? – fui recebida com sorrisos pela minha mãe, o que era bem sinistro. Aos dezoito anos, quando saí daqui, passei a entender melhor o que minha mãe sentia. Ela sempre foi fria, amuada e melancólica. Nunca fomos melhores amigas, já que ela sempre ficava cabisbaixa e silenciosa. Meu pai era quem brincava conosco e nos ensinava todas as lições. Era sorridente e nos fazia gargalhar! Aquele castelo só tinha vida por conta dele. Desde muito pequenina assisti minha mãe vivendo nas sombras e ficava triste com sua aparente infelicidade. Até que descobri a verdade... e fugi. Foi errado, eu deveria tê-la levado junto comigo, ensinado ela a viver. Talvez, se tivesse ido junto comigo ao Brasil, teria sido bem mais feliz com meu pai. – Preciso de um scotch antes – não era brincadeira, mas meu pai riu baixinho, sentado no sofá, lendo jornal. Ela fechou o sorriso por alguns segundos. Mamãe era muito bonita. Seus cabelos sempre presos num coque apertado, pretos como os meus. E os olhos profundos, carregados de dor, mas de um tom claro... era como o céu num dia melancólico de inverno. – Sabe que não são nem nove horas da manhã. E é a sua vó, Char! – revirei os olhos para sua voz mansa que ainda defendia o monstro, essa submissão da minha mãe me irritava. E a falta de senso para brincadeira também. – Quero um café forte, sem açúcar. Pelo menos mereço isso, não? – bufei, sentando-me ao seu lado. Acho que eu era o monstro ali. Aliás, eu me tornava um enquanto estava dentro daquelas paredes contaminadas. – Não gostaria de um chá, senhorita? – a governanta estranhou. Nunca fui de café.

– Falei em português para ninguém me entender nessa casa? – resmunguei birrenta e vi Chanely corando. Porra, alguém não estava me compreendendo.


– Charlotte Sophie! – mamãe tentou me repreender, e cheguei a rir. Ela iria substituir lady Shelly muito bem. Quase bati palmas. Sua mudança estava sendo melhor que encomenda. Ela aprendeu direitinho o que deixei escapar sabiamente. – Ela só está cansada, Daisy – papai me defendeu. – Chanely, traga um café bem forte e sem açúcar, do jeito que a Char deseja – a senhora saiu rapidinho da sala, deixando-nos a sós. – O que há de errado com você? Pensei que depois de se tornar uma mulher, estaria com um palavreado melhor. Ficar naquele lugar só te fez mal – ela pensava muito sobre isso, e por sua coragem em mencionar tal ato meu, sorri. – Fala para ela parar de tagarelar em minha orelha – resmunguei em português para meu pai. Mamãe bufou exageradamente. Ela não tinha aprendido quase nada em português, e odiava quando falávamos na língua natal do meu pai. – Já chega! Cansei de seus joguinhos – bateu as mãos nas pernas e se levantou.

– Olha que nem comecei – aticei. Ela bufou, muito irritada. – Sua avó te aguarda, Charlotte Sophie – anunciou ao sair. Levantei muito pirracenta, e mesmo sabendo que aquilo não levaria a nada, eu só queria ser por um momento aquela garotinha mimada e chata pedindo atenção. Então, fiz uma profunda reverência cheia de sarcasmo. Minha avó nunca se importou comigo e muito menos com a felicidade da sua filha e, por isso, ficava louca por vê-la se render aos pedidos falsos de perdão de lady Shelly. No decorrer dos anos, aquela que morria em um dos quartos lá de cima transformou a mulher que me gerou em algo fraco, abusado, partido, incapaz de lutar pelo que queria. Uma mulher que agora me vem com essa, de perdoar a vovó! Ela merece menos. Muito menos. Talvez o Brasil fosse o lugar certo para mim. Lá, eu era apenas a Charlotte, a bibliotecária feliz que amava ler, e que agora tinha um amor. Era doce e se encantava facilmente com coisas bobas. Esse castelo despertava o pior de mim. – Está sofrendo? – meu pai chegou mais perto, tocou com cuidado as minhas mãos, e olhou no fundo dos meus olhos, que se encheram de lágrimas desesperadoras. – Estou apaixonada... – revelei, baixinho.

– Mas isso é maravilhoso! – falou empolgado, mas de repente se tocou de algo. – Vem cá, ele está te fazendo sofrer? – questionou preocupado. – Não, pai... – fechei os olhos, contendo as lágrimas teimosas. – Acontece que ele... bem, Gabriel está doente. Tem câncer e está muito ruim. Está morrendo... – era cruel dizer essas coisas em voz alta, pois tornava tudo um tormento violento e incontrolável. Verdadeiro. – E o que está fazendo aqui? – disse firme, sem pensar.

– Vovó também está... – ele resmungou algo ao ouvir o meu comentário. – Como você está com relação a isso? – quis saber. Eu havia lhe contado que descobrira toda a verdade. Fiz antes de deixar aquele lugar. E nunca compreendi o motivo de ele ter ficado tanto tempo nessa prisão eterna de solidão e desgosto.


– Aliviado. E talvez livre... – Foi um castigo esse tempo todo? – minha voz cortou, juntando um bolo de ferro na garganta cheio de agonia. – Pior, foi um inferno. Sem pensar eu o abracei. E senti que ele também poderia desmoronar. Seu corpo tremia junto ao meu. – Você é livre, pode ir aonde quiser agora. Se quiser sumir daqui, e ir morar no Brasil, sabe que pode voltar agora. – Ainda não – coitado, que tormento.

– Arrumarei isso – prometi. – Não, não cause mais problemas para essa família. Falta pouco, Char. Muito pouco. Assenti, enquanto Chanely trazia uma generosa xícara de café. Tomei junto ao meu pai, abraçada e me sentindo confortada. – Esse rapaz é legal? – quis saber, curioso com seu lindo sorriso.

– O mais gentil que conheci durante toda minha vida – meu coração disparou. – É uma pena... sinto muito, filha – beijou minha testa e apertou-me num abraço. – Eu também, papai, eu também. Ganhei outro beijo carinhoso, preenchendo um tiquinho do meu peito. Eu precisava estar controlada quando fosse falar com lady Shelly, e seria agora. – Boa sorte.

– Vou precisar. Havia um cara da segurança na porta. Revirei os olhos, e ele gentilmente abriu a porta para mim. Lá dentro tudo estava muito claro. Tudo muito branco. Em paz. Diferente de como ela era. Uma megera. É, a chegada da morte transforma as pessoas. – Olá querida – uma rouquidão foi escutada, e não me senti muito confortável.

– Lady Shelly – era o máximo de afeto que eu poderia dar. – Não pode vir até aqui e me tratar assim. Não é o que sente de verdade – ela não tinha direito algum de dizer qualquer asneira sobre minha indiferença, ela não sabia nada sobre mim, nem o que eu sabia e pensava. Meu coração disparou ansioso. – Como está? – desviei o assunto e me aproximei. Ela estava muito mais magra, com a feição apática e cansada, os olhos fundos, os cabelos rasos ainda mais brancos, sem todo aquele laquê. Não lembrava nem um pouco a autoritária mulher que deixei para trás. – Sente-se querida. Será que ela me contaria a história de sua vida? Não, senhora. Eu contaria primeiro.


– Sabe o por que estou aqui? – enfrentei-a, cruzando os braços e me sentando do outro lado, não onde ela havia indicado. – Devo imaginar.

– Deve imaginar – ironizei. – Ok, por qual motivo quer se desculpar primeiro? – Char, você não é assim – sua voz falhou e ela começou a tossir. Levou um pano muito branco a boca, e uma enfermeira veio de prontidão. – Estou bem, querida – disse dispensando a mulher de branco. – Sobre o que quer falar? – Nossa, que amor me deixar escolher – ela tossiu mais ainda. Acho que era o veneno. – Nunca fiz nada sem pensar. Só que me arrependo de algumas. – Só algumas? – ironizei. – Não seja cruel, estou no leito de morte – dramática como sempre. Será que era o seu prêmio final por tudo que fez durante a vida? Quis saber. – Onde escondeu os outros diários? – fui direto ao assunto. – Botou fogo neles? Rasgou-os? Você sabia de toda a história? – minha voz soou baixa e rude, e vi seus olhos se arregalarem. – Você levou dois, pelo que sei... Você os leu? Gostou do que aprendeu com eles? Aquela mulher era uma maldição! – meu coração acelerou ao ouvir o desprezo na voz dela. Não entendi o tamanho de sua raiva por uma pessoa que nem conheceu! – Por que diz isso? – algo palpitou dentro de mim.

– Izobel era rebelde como você. Queria liberdade, fazer o que bem entendesse. Li todos os seus diários. Era uma revolucionária rebelde e feminista! – quase cuspiu ao dizer cada coisa. Sorri animada. – E você é a cara dela... Isso se não for a reencarnação daquele monstrinho! – agora senti o ódio pulsar em sua voz. – Obrigada! – falei com um sorriso sincero no rosto, seu semblante fechou.

– Pelo o quê? – questionou sem compreender. – Pelo elogio! – acho que desapontei a vovó. Que pena, quase sorri. – Ela foi o que você queria ser, mas não conseguiu? Isso no Brasil se chama “recalque”. – Ela teve o que mereceu! – falou amarga.

– Não, vovó, você está tento o que merece. Uma morte sozinha e triste, sem nunca ser amada. O que te deixou assim? – cruzei os braços, desafiadora. – Amor? Você é como Izobel, acredita nessas fantasias tolas... Se existe esse sentimento, nunca o conheci. Meu casamento foi arranjado, e tive de dividir seu amor com várias mulheres. Nunca tive um homem que se dedicasse a mim. Era isso que queria ouvir? – grunhiu. – Isso eu já sabia, apesar de ser triste.

Seu avô era apaixonado por mulheres como Izobel. Fortes e independentes. Verdadeiras


putas! – falou azeda. – Não seja assim, você deveria ter a minha força! Acredite, seria muito melhor se tivesse seguido meus passos, mas não! – grunhiu. – Acredite, não teria sido nada melhor! – bufei. – Quanta amargura ainda resta na mulher que dedicou sua vida a impedir a filha de amar – foi aí que toquei em sua ferida, sem piedade. Era hora de jogar às claras. – O que disse, menina? – ela não conseguiu gritar, entretanto seu olhar foi um grito, arregalado de espanto. – Lady Shelly, não li apenas os diários de Izobel. Eu li também os seus diários. O que você não tinha do meu avô, você tentou roubar de sua própria filha. Só permitiu que ela ficasse com meu pai porque se apaixonou por ele desde a primeira vez que o viu – senti-me enojada em dizer essas palavras em voz alta. Só a possibilidade me deixava engasgada. Eles não mereciam ter passado por isso. – De onde tirou isso? – tentou se sentar, mas uma onda de tosse lhe atingiu. Pude ver seu corpo todo estremecer nervoso. Aproximei-me, encarando seus olhos febris. – Das suas palavras! Está delirando? – fitei-a. – Um pouco antes de eu ir embora, quando estava numa caça incessante pelo restante dos diários de Izobel, achei o seu em sua penteadeira... Pensei que escondera o restante dos cadernos dela em seu quarto e aproveitei um dia que estaria fora. Tenho nojo de pensar no que fez com meus pais. O jeito que descrevera sua paixão pelo meu pai, e como permitiu que eles se casassem só para tê-lo por perto. Li sobre a forma que meu pai te rejeitou e como você prometeu a si mesma infernizar a vida deles até o fim de seus dias – pela primeira vez, lady Shelly estava sem palavras. – Sabe, minha mãe poderia ter sido feliz, mas vive sob a sua sombra há quase três décadas. Não sei como ela consegue viver assim, aprisionada por você. E ele só continua aqui para proteger ela de você! – levantei agitada, a raiva oscilando dentro de mim, ansiosa por devorar tudo. – Você os ameaçou de morte se tentassem fugir de suas garras. Como pode viver dessa forma sem se odiar? Como pode ser tão cruel... tão abusiva... – respirei o quanto pude. Tudo me sufocava. – Queria dizer isso há muito tempo, Shelly, gritar na sua cara o quanto era errado o que fazia. Mas você iria me castigar, como fez com ele. Então fugi desse mundo nojento, dessas paredes falsas, de você! – gritei em alto e bom som. A enfermeira apareceu, mas eu a expulsei. – Eu não consigo imaginar tamanha dor que há dentro do coração da mamãe! Durante todos esses anos ela foi arruinada por suas maldades. Você é má... uma pessoa muito má. Um monstro! – suspirei agitada, querendo gritar um pouco mais para expurgar tudo que se acumulou por anos. Eu jamais pensei que ela teria sido capaz de cometer tal ato, mas via em seus olhos que dizia a verdade. Eu nunca tive coragem de interrogar meu pai, de questionar o que aconteceu de verdade, mas quando li nos diários dela, não queria perdoar nenhum deles. Só que o tempo e a distância foram um ótimo remédio. Um bálsamo ao meu coração. Eu estava livre deles, e logo mais eles estariam livres dela. – Você não sabe o que aconteceu. Benício me amava e aceitou tudo isso! Não diga o que não


sabe, sua pirralha mimada. Fugiu daqui porque sempre foi rebelde – falou engasgada. – Amava? Tá de brincadeira? Ele te odeia, e não vê a hora de sua morte, porque essa é a sentença de liberdade dele. Antes de seu corpo esfriar ele poderá fazer o que bem entender! – Ele não viverá em paz. Eu o atormentarei até o último dia dele na terra – amaldiçoou.

– Ele será feliz sem você por perto, poderá respirar novamente. – Não deixarei isso acontecer! Nem que seja minha última promessa – sua fala saiu trêmula, mas com toda sua raiva depositada. Estremeci. – Você me dá asco. Pensei que conseguiria ficar aqui e te perdoar. Minha mãe foi louca em aceitar suas falsas desculpas. Você é um monstro. – Que assombrará a todos – esbravejou pomposa, imponente, arrogante.

– Você iria me controlar se me casasse com aquele loiro aguado, não é? – falei com um fio de voz. Como podia ser tão amargurada? – Você nunca seria feliz. Eu sabia disso, já que li os diários. Queria te punir novamente. E por falar nisso, já encontrou a sua metade? – disse, risonha. Aquilo me assustou. – Não fale nada sobre o que não sabe! – gritei. Ela começou a rir e então engasgou. Sua tosse foi se juntando a gargalhada. E ela não parava. Fiquei assustada e gritei. A enfermeira correu, tentou ajudá-la, mas ela não deixava. Seus olhos me fitavam com muito ódio. – O que eu te fiz? – choraminguei sentida. – Uma avó deveria amar os seus netos, não ser tão maldosa, cruel e tão desumana – não queria mostrar fraqueza a essa mulher cruel, mas ela estava me derrotando de todas as formas. Deixei meu mundo desabar em sua frente, enquanto ela assistia e aprovava meu ato frágil. – Você foi a favorita deles. Todo mundo gostava de você, Izobel... Ele nunca te esqueceu... – começou a alucinar. Seus olhos estavam apavorantes, tentei cortá-la, mas ela voltou a resmungar convicta, como se estivesse mais ciente do que nunca. – Chegue mais perto, menina. Sua voz ficou firme de repente, com apenas um olhar frio, ela expulsou a enfermeira. – Eu não quis nada disso. Não tenho culpa do que possa ter acontecido. Perdoe-se por não suportar a felicidade dos outros, assim encontrará um pouco de paz – vê-la se engasgar e quase morrendo foi horrível, entretanto sua recuperação foi ainda mais medonha. Era como se tudo isso fosse um fingimento. Ele tinha noventa e seis anos. E de repente pareceu muito mais ciente. – Eu prefiro a escuridão do que pedir perdão a vocês por uma mísera luz que for. Vocês são fracos. É mais confortável ficar longe de vocês – resmungou, ríspida. – Não diga isso, se perdoe, nos perdoe... – não sabia o que me tocava, mas sentia meu peito arder com uma frase, que saiu do coração e brotou dos lábios. – Eu te perdoo.

Não quero a droga do seu perdão, sua ingrata. Não aceito nada de ninguém. Sou muito

melhor sozinha – seus olhos eram desafiantes. – O que fiz para vocês não é nada perto das vezes


que sujei as minhas mãos no passado... As coisas que fiz por ódio ao que só me usou... – Como assim? – indaguei com o peito apertado. Sabia que as próximas palavras mudariam a minha vida para sempre. – Quer saber mesmo, minha querida neta? – disse, com escárnio. – Pois bem, confessarei uma coisa que lhe assombrará pelo resto dos dias – respirou com dificuldade antes de continuar. – Eu matei alguém... Vi a vida de um homem se esvair diante de mim e só o que pude sentir foi júbilo – aquelas palavras tiraram o meu chão. – Eu tinha dezesseis anos quando o encontrei pela primeira vez, estava na flor da idade. Conheci-o em um dos bailes organizados pela Condessa de Watson, uma viúva que vivia apenas dos bons relacionamentos. Foi bem antes do seu avô. Ele foi diferente de todos os jovens que tentaram me seduzir antes. Chegou todo manso e educado, um homem mais velho capaz de se mostrar um verdadeiro cavalheiro, diferente dos molecotes que viviam à minha volta – sua voz tornou-se mansa e perigosa. – Lógico que eu me apaixonei. E ele tornou a minha vida um inferno. Fui amante daquele homem... e não era certo, mas quem poderia saber? Era bom comigo, me dava presentes, afetuoso nos menores gestos... Menos quando íamos para a cama. Toda vez que nos deitávamos, ele se tornava dominador, seco, agressivo. Sempre me chamava por um maldito nome, como se eu fosse uma puta substituta... A raiva me cegava por muitas vezes, mas não podia fazer nada, só aceitar. Não desejava perdê-lo. Até que, uma vez, ele me estuprou, machucando-me por inteira, deixando-me ferida, destruindo a esperança, o amor, a pureza e toda minha alma! Sim, sei o que está pensando: assim como aconteceu com ela... Eu estava confusa, incrédula. Como poderia ser verdade? Eram coincidências demais para uma só vida. – O que a senhora fez, vovó? – indaguei, já imaginando a resposta.

– Um dia eu lhe servi o chá das cinco... com estricnina. Coloquei uma generosa porção para ele – comecei a tremer e ela assistiu o meu medo de camarote, com um sorriso nos lábios. – Não se assuste, criança, não tenho mais forças para fazer algo, você não corre risco algum... Bom, deve estar se perguntando como eu escapei. Eu era uma amante, nada mais, de um nobre velho e decadente. Nunca éramos vistos juntos. Foi preciso apenas que um amigo me ajudasse a jogar o corpo dele em um poço de ácido clorídrico que havia em uma indústria perto de casa. Fizemos isso na calada da noite, nunca acharam seus restos. Eu fiz o que era correto, aquele porco destruiu toda bondade que havia dentro de mim, roubando minha alma para ele! – levei as mãos à boca, chocada. Ela dizia tais coisas tão friamente, que senti meu coração titubear. – Vovó... – mencionei, sentindo o seu sofrimento, as lágrimas escorrendo pela face. Ela simplesmente me ignorou. – Então descobri que minha família havia arranjado alguém decente para que eu me casasse, que eu poderia esquecer esse passado tão recente e desconhecido pelos outros. Só a minha alma ferida e o corpo sujo sabiam o que tinham acontecido. Ao destruir a boa moça, ele tornou-me a alma gélida que sou hoje – sorriu, confiante. – Quando conheci o seu avô, na tarde em que fomos convidados pela família Connor a entrar nessa casa pela primeira vez, passei as mãos por essas


paredes, tentando me adaptar, conectar a minha nova vida, criar alguma ligação que meu coração havia perdido, mas não havia nada dentro de mim. A única vez que senti algo foi quando, meses depois, já casada, achei os diários no porão, dentro de um baú. Foi ali, sentada no chão recoberto de poeira, que conheci pela primeira vez a escrita dela, seus sentimentos e a decisão sofrida que ela tomou, tão diferente da minha, ao passar pelas mãos do mesmo homem. Conheci todo o seu abuso e desespero. Talvez até tenha me reconhecido em sua dor, mas quando li o nome dela... O nome que ele me chamava na calada da noite, despedaçando o meu coração – ela simplesmente bufou, enojada. – Izobel era sua musa, um vício que jamais eu poderia sanar... Mas, acima de tudo, ela também era a minha maldição, sabe o porquê? – fiz que não, petrificada. – Eu o matei porque viver ao lado dele estava me destruindo, sua obsessão por mim acabaria me matando... Pelo menos era isso o que eu pensava até ler os diários. Pois depois que eu os fiz, descobri que eu não era nada para ele, apenas uma forma de manter viva a lembrança dela, da mulher que o desafiou, a que ele nunca esqueceu... Através de meu corpo, ele quebrava as vontades de Izobel, que preferiu morrer à permanecer do seu lado. De sua forma deturpada, ele cultivava o seu amor por ela me fragmentando em infinitos pedaços. Foi ali que comecei a odiá-la, já que ela havia se libertado, e eu não. Carregaria para sempre a dores e o peso da morte daquele homem em meus braços. Mas quando o seu avô descobriu um dos diários de Izobel, ela ganhou um espaço imensurável dentro do seu coração, me enchi do mais pleno ódio ao destruir três deles. Dia após dia ele a idolatrava, a admirava como uma mulher forte, senhora de si. E eu perdia assim o segundo homem da minha vida para ela. O que diabos essa mulher tem que todo mundo a ama, que todo mundo é viciado nas histórias dela, eu me perguntava, a fúria por sua figura se fortalecendo através do tempo... – ela parou de falar e fechou os olhos. Eu não sabia o que dizer, o que fazer. Que porra mais louca é essa? Meu Deus! É por isso todo seu ódio, toda sua loucura e obsessão por uma mulher. E seu ódio por mim é por eu ser a cara dela. – Você é o meu castigo – silenciou-se depois dessa frase destruidora. Ficando imóvel como se não tivesse dito nada daquela loucura. – Ela está bem? – questionei, assustada, quando a enfermeira se aproximou de novo.

– Está. Por favor, a deixe descansar, a senhorita a cansou demais. Saí cabisbaixa e não acreditava em tudo que passei ali dentro com aquela senhora que se dizia minha vó. Tudo estava perdido. A fé era o fio que ainda me agarrava.

Assim que saí do quarto, pensei em correr. Mas trombei com minha mãe antes de isso acontecer de fato. Ela deveria ter escutado toda loucura e veio verificar se estávamos bem. – Por favor, mãe, fuja! – dei vazão aos meus sentimentos. – Vá viver, sorria enquanto pode e ame o papai da forma que nunca conseguiu... – abracei demoradamente o seu corpo, que recebeu o meu gesto inesperado.


– Char... querida... eu vou! – ela estava tão quebrada, que até sua voz saiu trêmula. – Como pode viver dessa forma, sabendo... Ela foi um monstro – solucei ainda

abraçada,

enquanto ela passava as mãos em minhas costas. – Eu não sabia até pouco tempo – revelou baixinho. – Na verdade, desconfiava que ela tinha algo de estranho. Mas só desconfiei de algo quando você foi embora. Foi quando o seu pai me contou finalmente o que o prendia. Perdoei seu pai porque sempre o amei, mas ela... – Esqueça o passado, mamãe. Só dê e receba amor. Esqueça o que aconteceu mesmo que seja muito, muito difícil. Ele precisará de você para se manter vivo, e você precisará dele para se manter em pé. Façam isso por vocês – aconselhei. – E você? Está bem? – meu coração disparou, e desmoronei em um choro sofrido.

– Mamãe... – eu sabia que meu pai contaria o porquê eu estava tão distante. – Sinto muito. De verdade, Char, espero que supere isso e que aproveite todos os dias ao lado dele. Volte para ele, não precisa ficar aqui – ouvir isso acalmou meu coração. Olhamo-nos por alguns momentos, e vi o perdão de tudo que não vivemos. Eu amava minha mãe, e sabia que ela tinha sofrido muito mais tempo do que eu andava sofrendo. Estivemos perdidas uma da outra, mas encontramos conforto ali, naquele abraço. – Obrigada, eu te amo.

– Eu também, borboletinha. ~ Minha passagem de volta estava marcada para segunda-feira que vem, mas consegui adiantar para depois de amanhã. Não aguentava de saudade do Gabriel, e ele não me deu notícias. Tentei até mesmo o celular da Marcela e o do Rafa, mas nada de respostas. Tudo estava muito obscuro, e minha vó só piorou nos dias posteriores. Eu não queria estar ali. Não queria assistir sua morte, talvez, merecida. Por mais que isso não me doesse da forma que o luto exigia, ela foi muito cruel em dizer tudo aquilo, mas a enfermeira me chamou de canto e disse que aquilo era efeito dos remédios. Eu só confirmei dizendo que aquelas drogas deveriam despertar a verdade das pessoas. Ela era cruel, e morreria com isso. Não voltei mais no quarto. Saí para dar umas voltas e até fui visitar o túmulo de Cat. O da minha vó já estava quase preparado ao lado. Pedi perdão por não ter vindo antes, contei sobre Gabriel e sua doença. Exigi que ela conversasse com ele e o recebesse quando chegasse a hora. Pude imaginá-la sorrindo e querendo mais informação. Então desandei a falar o quanto ele era maravilhoso, como me aceitou e fez-me aceitar o que eu tinha. Era uma dor que não passava e eu precisava de notícias. Não tive paciência de esperar uma resposta. Eu só necessitava saber dele. Vê-lo, beijá-lo e amálo até o fim. Era disso que precisava, de vida a minha vida. Eu perdoaria qualquer rejeição ou medo vindos dele. Ia enfrentá-lo com unhas e dentes se fosse preciso para ficar ao seu lado. Quero você, Gab, preciso de você... – mandei uma última mensagem, encostada a Tower Bridge. Mesmo com o dia frio, havia muita beleza ao redor, mas não quando o coração permanecia na


tristeza. Caminhei sem destino, sem querer chegar onde diziam que era minha casa. Meu coração já tinha seu lar. E estava horas longe. Depois de muito caminhar, sentei num banco qualquer. Recebendo o ar frio contra o rosto, apertei o grosso casaco contra o corpo frio. Até que ouvi meu celular apitando uma mensagem. Destravei o aparelho com as mãos trêmulas, e não soube dizer se aquilo era bom ou ruim. “Volte Char. Gab precisa de vc. Se quer vê-lo, o momento é esse...”

A mensagem era do Rafael. O meu mundo ruiu, de vez. E não pensei em mais nada. “Estou indo. O mais rápido que conseguir. Me espera, por favor. Diga a ele que eu o amo. De todo meu coração e alma. Pede para me esperar...”

Corri, amedrontada com o que poderia presenciar. Espera por mim, amor... rezei para que pudesse chegar a tempo. Para ele.


Rafael O que está acontecendo nessa mente linda? Estou em sua jornada mágica e misteriosa E eu estou tão tonto, não sei o que me atingiu, Mas eu ficarei bem ~John Legend – All of me~

Depois de desligar o telefone, acelerei em direção ao casarão. Tentava não me desesperar, mas na verdade eu me sentia consumido, devastado pela possibilidade de perder o meu amigo. Rezei durante todo o percurso, pedindo a Deus que nada desse errado, que tivéssemos mais tempo, que o meu sexto sentido estivesse falhado pela primeira vez. Após deixar Marcela, senti um aperto no peito, incomodando o sossego. Por isso já havia resolvido ir até lá, ficaria de boa num quarto até o dia seguinte e depois os levaria embora. Assim não passaria a noite toda acordado, cheio de preocupação. Foi quando o Gab me ligou, avisando que estava passando mal. Não queria assumir, mas estava em pânico. Sentia minhas pernas quase falharem na hora de frear ou mudar a embreagem, mas eu não podia parar sequer para me recompor. Não podia falhar com Gabriel. O meu maior erro foi apenas prometer não envolver a Char. Ela era a força dele, merecia estar perto. Não era justo... Mas agora não podia mais voltar atrás. Acelerei o quanto pude, desci correndo do carro e fui até a parte de trás que dava acesso ao sótão. Antes de subir as escadas, vi, pelo vidro, as pernas dele esparramadas no salão de jogos. Perdi o compasso, fiquei congelado por um momento, mas precisava manter-me firme. O desespero não me ajudaria naquele instante. Puxei uma parte da porta e quando vi seu corpo estirado, coberto de sangue, achei que o tivesse perdido para sempre. A dor me invadiu sem controle. Não sabia como lidaria com aquilo sozinho. Encarei seu corpo mole e frágil. Pensei em gritar para a Char descer e me ajudar, mas me detive em seu peito, por um momento. Vi que ele respirava... E pude, enfim, respirar junto. Tão forte, mas tão frágil... – engoli o choro diante do pensamento. Gabriel, mesmo sofrendo, não queria que ninguém sofresse. Ele havia me pedido para não contar a ninguém sobre aquele instante, muito menos a moça que estava deitada sobre os lençóis naquele instante, recoberta pelo cheiro de amor, sonhando com dias melhores, desejando ter uma vida normal com ele. Não seria eu quem estragaria isso. Infelizmente, o tempo resolveu ficar mais curto e, em breve, o perderíamos. Gabriel não sentiria mais dor, não se esconderia mais para não importunar alguém. Ele só queria paz. Na verdade, ele a merecia.


Liguei para emergência pedindo uma ambulância. Não conseguiria levá-lo sozinho. Apenas fiquei observando-o, se a respiração estava normalizada. A única coisa que consegui fazer foi deitar o seu corpo no pequeno sofá. Permanecemos ali por mais de vinte minutos, eu o vigiando, observando para ver se nada mais acontecia, esperando que Charlotte não acordasse e nos visse ali. Para a minha sorte, a luz do sótão ainda estava apagada, e assim permaneceu. Até mesmo quando a ambulância chegou. O sótão tinha revestimento acústico, não permitindo que ela ouvisse nada o que acontecesse ali fora. Ele havia calculado tudo, caso algo desse errado. Parecia que o Gabriel estava sentindo, e eu não iria contra as suas vontades. Iria fazer o que ele pediu, deixar que ela fosse para a casa dos seus pais, sem que se preocupasse com ele... Mas se ele piorasse, Charlotte seria avisada. Ela tinha de ter uma oportunidade de se despedir. – Amigão, seja forte, vou te levar para algum hospital aqui perto. Siga a minha voz, Gab... – arrisquei dizer em seu ouvido, tentando mantê-lo esperançoso, enquanto a ambulância seguia. De alguma forma, eu só queira que ele acreditasse em minhas palavras, para que se mantivesse vivo, agarrar-se na esperança até o último minuto.

A ambulância, com as sirenes de emergência, chegou logo ao hospital. Os enfermeiros fizeram um pré-atendimento, mas somente lá que poderiam informar melhor o que estava acontecendo. Informei o que pude, mas mesmo assim esperariam os resultados dos exames para definir o quadro geral e um tratamento mais eficaz. Ao me ver na sala de espera, sozinho, o peito titubeou. Sentia-me tão incapaz por não conseguir fazer mais nada por ele. A vida não mostra misericórdia. Ela, por muitas vezes despedaça a nossa alma, fazendo com que nos percamos, enlouquecendo num mar de emoções e derrota. Eu estava acabado, meu mundo estava desabando, uma escuridão permeava minha mente, invadindo e mergulhando os pensamentos na mais profunda tortura... Eu me sentia perdido... Chorei, como nunca havia feito antes. Sentei no chão do hospital e me quebrei. Eu não seria nada sem ele, o meu melhor amigo, o irmão de alma. Apertei as mãos contra o peito, sufocado com um grito doloroso que lutava em não sair da garganta, sem perceber que a médica aproximou-se de mim. – Não fique assim, ele é forte – disse, estendendo as mãos em minha direção. Limpei as lágrimas e fitei seu rosto amigável, levantando-me do chão frio e impessoal. – Ele está bem? – só tentei ver em seus olhos se Gabriel ainda estava vivo.

– Sim, estável – ela desviou levemente os olhos. Vi que tinha algo sério por trás daquilo. – O que está acontecendo? – questionei muito baixo, e rezei para que ela me contasse tudo. – Por favor, não me esconda nada, doutora. Gabriel não tem ninguém aqui, e sou o melhor amigo dele – fora a Char, claro. Mas nela, eu pensaria depois. – Gabriel entrou numa espécie de coma. Não o induzimos a isso, mas ele chegou aqui assim. Pelos exames está bem, tudo seguindo em ordem, mas é como se o corpo dele optasse em entrar num coma natural, para aliviar a dor e maiores transtornos. Como se ele estivesse esperando algo,


em pausa, antes de desligar completamente. – Isso é possível?

Nunca presenciei tal acontecimento. O paciente parece estar dormindo, descansando, não está sofrendo. Só está relaxado, se é que posso usar esse termo. – Vocês viram que ele tem câncer, certo? – ela fez que sim. – E como está a doença?

A proliferação da metástase linfática ocorre pelo sangue ou através dos organismos patológicos da lesão inicial, por isso espalhou-se rapidamente pelo corpo todo. Mas não foi ela a causa da convulsão. Vamos ter de esperar as próximas horas para mais novidades. – Nada disso parece real – desabafei.

Para mim, que sou médica, também não... Mas quem pode explicar? – concluiu. – Bem, estarei de plantão por essa semana e cuidarei de Gabriel. Qualquer dúvida, pode me procurar. – Obrigado, doutora...

– Janine – disse, sucinta, fazendo-me assentir. Ela sorriu docilmente. – Fique bem. – Vou tentar. Depois disso ainda tive de voltar ao casarão e buscar a Charlotte, fingindo que Gabriel queria apenas sair da vida dela sem se despedir. Me senti muito pior tendo que mentir para a mulher que ama o meu melhor amigo. Pensei em contar muitas vezes, mas nesses instantes eu me lembrava da promessa que havia feito a ele. E mesmo com a alma se despedaçando, segui em frente. Fitando os olhos azuis dela, perdidos em uma imensidão de tristeza, entendi o porquê dele ter se apaixonado por ela. Charlotte era incrível, tinha uma luz dentro de si que iluminava as nossas vidas. Pena que naquele instante tudo estava apagado. E o pior é que não sei por quanto tempo ela permaneceria dessa forma. Eu queria muito ajudá-la a superar tudo e voltar a sorrir. Mas como?

Os dias se arrastaram devagar e insuportáveis. E nada dele acordar. Nem sequer se mexia. Apenas respirava. Esperando... esperando... esperando algo chegar que não sabíamos o que era. Cada dia que passava era uma angústia. Charlotte ainda estava em Londres com sua família. Foi Marcela quem me contou que a avó dela estava à beira da morte. Ao descobrir o verdadeiro motivo dela ir que entendi o motivo do Gab fazer o que fez: não envolvê-la para que pudesse ter sua vida, para que ela fosse até a sua família. Ele não tiraria isso dela. Marcela sabia de tudo que havia acontecido. Resolvi que não esconderia nada dela. Ela me prometeu que não contaria nada a Char. Até relutou no começo, mas acabou aceitando quando visitou Gab a primeira vez. Vi em seus olhos a dor que estava sentindo por meu amigo e pela perda que sua amiga teria. Ela xingou e chorou baixinho, dizendo que só queria que sua amiga vivesse um amor lindo, mas o destino estava lhe tirando o direito. Ela conseguiu pôr para fora aquilo que eu mais desejava fazer. Tê-la ao meu lado trouxe muito conforto nesses dias sombrios. Ela foi forte e me deu apoio incondicional, sendo o que mais precisava: uma companheira, capaz de depositar todo o seu carinho, para a minha total atenção. Isso ajudou a me deixar inteiro novamente.


Charlotte ligou algumas vezes e enviou milhares de mensagens no celular de Gab e nos nossos. Entretanto, mantivemos o grande segredo.

Eis que, em meio a tantas tristezas, chega uma boa notícia, o dia da grande revelação: era hora de conhecer a mãe de Marcela, que morava no Nordeste. Ela viria nos encontrar para um jantar. Assumo que fiquei tenso pra caralho com a ideia, mas iria por ela. Estávamos nos dando superbem, e a cada dia eu me encantava mais e mais. Marcela era perfeita para mim. Doce e vulcânica ao mesmo tempo, intensa e sorridente. Ela é o que os meus dias precisavam. Fiquei muito feliz pela dádiva que Gabriel me presenteou. Lembro como me disse que, na primeira vez em que a viu, sentiu que Marcela seria ideal para mim. E não é mentira. Não mesmo. Quando quero chorar por todas essas dores que estão me consumindo, estou nos braços dela. E sorrir de pequenas felicidades, é ao lado de Marcela. Foram tão poucos dias, mas com tanto carinho... Desde muito novo desconfiei de que eu me apegava rápido as pessoas, mas, com ela é diferente. Marcela quer fazer parte da minha vida, saber dos meus problemas. Ela se preocupa comigo, coisa que nenhuma já fez. E isso deixa o meu pobre coração frágil batendo ligeiramente em descompasso. Um medo de vez em quando me atacava, dizendo para ir com calma, não se entregar tanto, mas eu quero mergulhar em suas verdades, viajar pelo seu corpo maravilhoso, rir das besteiras que a fazem sorrir. Eu a quero e não tem mais como negar. Fiquei de me encontrar com ela, em sua casa, às sete da noite. A mãe dela com o noivo chegaria às oito. Tomei um banho demorado, tentando deixar todas as preocupações para depois. Havia visitado Gab naquele dia e nada havia mudado. Conversei muito com ele, contei as novidades e disse que daria um tempo para ele se recuperar, e caso isso não acontecesse, eu ligaria para Char e a traria de volta, a qualquer custo. Fiquei pronto e decidi ir mais cedo para a casa da Marcela. Sabia que ela estaria tensa com o encontro. Assim que cheguei na porta, meu coração disparou, em um misto de ansiedade e tristeza, pois ali ao lado ficava a morada de Charlotte Sophie. Ver as luzes apagadas me bateu uma angústia. Tranquei o carro, e Marcela já estava linda, me aguardando na porta. Com um vestidinho todo agarrado, era demais para minha cabeça. Meu desejo esquentou, mas tive de disfarçar todas as vontades e loucuras que eu desejaria fazer com ela naquele instante. – Pensei que estaria ansiosa, então resolvi vir mais cedo – formulei rapidamente esse pedido de desculpas. – Você chegou numa hora perfeita, entre. – sorriu, acanhada. Meu coração disparou com o tanto que estava gostando dela. – Você é tão linda – depositei um beijo em sua testa, abraçando-a até sentir seu coração bater junto ao meu. Um acalento muito bem-vindo ao meu peito que só visitou tristezas nesses últimos dias. E estar com ela, me deixava vulnerável no sentido mais intenso.


– Adoro seu sorriso, Rafael – tocou-me os lábios com as pontas dos dedos. Sorri um pouco mais, quase tímido. – Faz com o que meu coração fique mais alegre. Gosto disso. – Eu gosto é de você, Marcela. Gosto muito... – revelei, com a voz estrangulada de verdade. Estávamos na sala, e ela me conduziu para o pequeno sofá marrom de dois lugares. Sentamos, um fitando o olhar ardente do outro. Seríamos muitas coisas juntas num futuro muito próximo, e eu desejei mais do que tudo que isso se tornasse real. Palpável nesses dias tão temerosos. Ela era a minha paz, algo que estava preenchendo o meu coração vazio. Seus dedos voltaram a explorar o meu rosto, disparando muitas emoções por toda a pele. – Era para ser você... – ela murmurou, e concordei em silêncio. – É tão bom estar ao seu lado, me sentir viva de uma forma que jamais pensei. Quero estar com você... quero ser parte dos seus dias... quero te acalentar quando chorar sua perda... quero ser sua, Rafael... – sua voz saiu trêmula. Tenho certeza de que ela nunca havia dito tais palavras, parecia engasgada por essa verdade que acatei para mim. Eu queria o mesmo. Puxei o seu corpo para mais perto. Tinha vontade de mapear os mais singelos desejos de seu corpo. Estremeci quando a beleza tomou conta do lugar, o seu sorriso ganhando minha atenção e finalmente os seus lábios roubando o silêncio. Permanecemos emocionados pelo momento, envolvidos em nosso mundinho. Enquanto a beijava com destreza, ela se rendia. Abria o seu mundo para me receber. Estávamos quase enroscados. Nossas bocas unidas era o doce mais poderoso do mundo. – Marcela, eu quero muito você – deixei escapar quando desgrudei do seu doce sabor. – Você quer ficar para sempre comigo? – a pergunta escapou assim que nos encarávamos. – O que disse? – questionou tensa, mesmo deixando sua alegria escapar em forma de sorriso.

– Quer namorar comigo? – formulei certo a questão. Talvez ela tenha ficado com medo de duas palavras na frase anterior. Para sempre. Às vezes o para sempre é assustador. – Quero. Quero muito, Rafael! – seus olhos brilharam. – Bem, achei que não pediria nunca, já estava montando um esquema para lhe pedir – abraçamo-nos carinhosamente, e recebi os seus lábios trêmulos. – Seria uma honra aceitar! Se quiser tentar – brinquei, completamente apaixonado por esse instante tão inacreditável. – Então quer dizer que agora estamos namorando? – mordeu a pontinha da boca toda brincalhona. Eu ri alto. – Ah sim, você é minha namorada agora! Terá que suportar minha chatice e o mal humor diário! – sorri levantando as sobrancelhas. – E tenho certeza que suportarei os seus... – beijei sua bochecha e ela me empurrou, brincando. – Aham! Prepare-se: eu sou terrível. Pergunte para a Char. Ela vivia dizendo que eu não tinha um coração... Mas olha aqui, tá batendo muito rápido, estou com medo de sair boca afora! – disse,


sem pensar. E eu só conseguia rir e me apaixonar. – Você é maravilhosa e tem se mostrado a mulher perfeita. Creio que teremos dias difíceis pela frente, e posso contar contigo... – minha voz saiu baixinha, e vi seus olhos emocionados. – Pode contar comigo para sempre, Rafa... – senti o nó em sua garganta. Antes que entrássemos mais uma vez em assuntos tristes, dei-lhe mais um beijo quente, puxando-a para o meu colo. Tudo mudaria a partir daquele instante. Foi quando ouvimos a campainha. – Chegaram mais cedo – ela disse, se ajeitando em meu corpo, sorrindo arteira. – Que pena... – observei seus olhos ligeiros e a frase ousada. – Teremos muito tempo... – beijei mais uma vez os seus lábios sensuais. Ela concordou. – Agora vá receber sua família, enquanto eu vou me ajeitar no banheiro – pisquei, e ela observou o meu corpo enquanto se levantava. – Você é um pecado, anjinho! – ronronou, enquanto ia atender o portão. Fui direto para o banheiro, rindo daquela mulher que estava roubando o meu juízo, alegrando-me os dias impiedosos e esquentando sem modéstia cada instante gélido que insistia em me tomar. Sem sombra de dúvidas, ela era a luz que eu necessitava, procurava e almejava. Assim que saí, já pude ouvi-la dando desculpas por ter demorado para abrir a porta, dizendo que estava finalizando as coisas na cozinha. Ao meu lado a luz estava apagada. Disfarçadamente a acendi e fucei em alguns pratos. Só para afirmar sua desculpa. – Rafael, vem cá! – ouvi sua voz cheia de alegria e meu peito esquentou. Era agora. Dei a volta na mesa e fui andando calmamente. A primeira que avistei foi sua mãe, que abriu um sorriso imenso como o da filha. Sorri de volta, abaixando a cabeça, envergonhado. Marcela conversava animadamente com ela, até que virou o rosto e me viu. – Rafa, essa é a minha mãe, Cintia – apresentou lindamente. – Mamãe, esse é o meu namorado – um orgulho cravou-se em meu peito. – Hmm, tinha dito que era um amigo... – brincou, estendendo a delicada mão em minha direção. Aceitei e toquei-a com carinho. – Fui pedida há cinco minutos – respondeu, com uma alegria infantil.

– Muito bem, rapaz – ela me olhou com muito carinho. Sabia que eu faria o bem para sua filha. Apesar dos meus olhos coloridos serem assustadores para alguns, eles transmitiam a verdade do meu coração. Eu sou do bem, graças à Deus. – Por isso demoraram, hein... – piscou cúmplice para a filha, que ficou toda envergonha. – Mãe! – elas se abraçaram.

– Pensei que não conseguiria desligar esse alarme – ouvi uma voz rouca e forte na porta. – Querida, esse é um presente para você! – e assim que o avistei, meu corpo entrou em choque. Travei e acho que fiquei pálido, petrificado no lugar. – Tio Miguel?! – questionei, sem entender. As duas me fitavam, igualmente perdidas.


– Vocês se conhecem? – Marcela falou logo. Sua mãe não havia dito nada. – Rafael?! Olá, menino, como você cresceu! Tá um homem, vem cá! – ele estendeu os braços, e eu estava enraizando ali na sala. – Rafa, o que tá pegando? – Marcela se aproximou calmamente e tocou em meus braços. Logo suas mãos estavam no meu rosto. – Benzinho, você já conhece o Rafael? Eles estão namorando, não é romântico que hoje em dia as pessoas dizem que estão namorando e não apenas se pegando! – dona Cintia falou, toda risonha. Ela tinha o mesmo espírito brincalhão e alegre da filha. – Rafael é um menino de ouro! – tio Miguel falou todo orgulhoso ao me ver. Meu coração havia parado por um tempo, mas voltou cheio de saudade. Quanto tempo. – Tive muita sorte de tê-lo junto ao meu menino – seu olhar ficou sério, muito tristonho. Meu peito voltou a palpitar ansioso. Será que ele sabia da situação do Gab? Creio que não. – Você é o pai do Gabriel? – Marcela deduziu, corretamente.

– Sim, conhece o meu menino também? – sua voz ficou emotiva. – Ah, Rafa, como ele está? Há tempos não tenho notícia dele... – sua voz falhou, e engoli o meu choro. – Sabe, por mais que nossa relação parecesse distante, eu admiro demais a força desse menino. Gostaria que tivesse tido a chance de vivenciar dias perfeitos ao lado dele, quando mais precisou de mim... Mas estava afastado, sentindo-me impotente por não fazer nada além de esperar... Qualquer ligação era sinônimo de desespero. Passei dias enfiado em casa aguardando qualquer novidade... E veio: graças a Deus ele se curou! – aquela esperança que o tio demonstrava em seu olhar era o que o manteria vivo, tenho certeza. – Gostaria tanto de dizer-lhe muitas coisas bonitas, de contar como vivi, de saber como ele passou cada instante, superando ao seu lado, Rafa. Eu preciso conversar com ele, pedir desculpa, ouvir-lhe a voz e sentir o abraço dele. Eu só preciso vê-lo para me lembrar de tudo que deixei para trás... E para isso dar certo, preciso de sua ajuda. Eu quero visitálo, apresentar minha noiva... Poderia falar com ele sobre isso? – quase chorei, e vi Marcela agoniada. – Não sabe o que está acontecendo...? – um fio de voz saiu da boca da Marcela.

– Não! O que está acontecendo, Rafael? – quando pensei em responder que ele havia partido e deixado o filho à mercê de sua doença, meu celular interrompeu essa malcriação. Então engoli as palavras e deixei o coração se acalmar, porque era exatamente do hospital, e tudo que eu precisava era de tranquilidade. – Alô?

– Boa noite, é o senhor Rafael Montenegro? – Sim, quem está falando? – É do hospital Albert Einstein. O senhor está responsável pelo Gabriel Novaes, certo? – respondi com apenas um “aham”. Não conseguiria mais do que isso, pois o meu coração batia na garganta,


impedindo de sair mais palavras. – Poderia vir até aqui?

– Sim, estou indo agora! Não havia mais palavras ou qualquer coisa. Eu só precisava ir ver como Gabriel estava, pois ele precisava demais de mim. – Quer saber como seu filho está? – ele fez que sim com os olhos arregalados e cheios de lágrimas. – Por favor, nos acompanhe, pois ele está no hospital, e pelo visto não está nada bem. Dessa vez eu não pensei duas vezes. Enviei uma mensagem para a Charlotte, pedindo para voltar. Eu não sabia nada sobre o estado dele naquele momento, mas ela não merecia ficar de fora. No mesmo segundo, ela me retornou dizendo que viria o quanto antes. Sei que Charlotte era, de alguma forma, a salvação dele. Um acalento para nossos dias ainda mais sombrios que enfrentaríamos. Apesar de todos estarmos ali, era ela para quem o coração dele ainda batia, ansiava. Tinha que haver uma esperança, já que essa ligação era do tipo que dizia que os momentos finais estavam por vir, e que aguardava o espetáculo acabar para que as cortinas se fechassem... Lágrimas, tristeza, derrota, dor e aflição tentavam constantemente preencher meu peito, mas ter fé era o que abastecia os pensamentos de puro amor, dedicação, amizade e esperança. Meu coração dizia com toda verdade que Char era quem acordaria Gabriel, que o traria de volta nem que fosse para termos a nossa despedida. Não podia acabar assim. Por Deus, não podia!


Charlotte Quando você chorou, baby, eu chorei também Mas quando o sol nasceu, eu estava olhando para você Lembre-se quando não podíamos tomar o calor Eu saí andando e disse: Estou te libertando ~Taylor Swift – Out of the woods~

Meus dedos estavam em carne viva do tanto que roí as unhas durante as doze horas de viagem. Não conseguia sentir as minhas pernas, e o coração não batia, batucava num ritmo louco e intenso. Era ansiedade, medo, misturado ao remorso por tê-lo deixado sozinho. Todos os meus sentimentos estavam bagunçados e em frangalhos. Não tinha mais lágrimas e fiz todas as rezas possíveis para chegar a tempo de vê-lo sorrir para mim. Em meu coração e na fé fervorosa que tinha, assim que eu chegasse iria descobrir que tudo se tratava de um mal entendido. Eu iria ouvi-lo até adormecermos, beijá-lo demoradamente, assistir um sorriso desenhar através de sua face bonita, abraçá-lo mais um tanto... Eu não queria que ele partisse, mesmo sendo inevitável. Assim que deixei o castelo, meus pais me apoiaram cem por cento. Dizendo que tudo daria certo. Não entrei mais no quarto de minha vó, apenas pedi para a enfermeira dizer-lhe que eu a amava apesar de tudo que nos aconteceu. Dentro do meu peito há um buraco ferido, pois eu creio que ela nem se importou com minha declaração. O que é mais triste quando estou vivendo esse inferno. Deixei tudo para trás sem ao menos revelar tudo que ela contou, já que estava sentindo na pele o grande efeito de seu carma! Aqui se faz aqui se paga. Então, deixei toda essa destruição numa página virada e corri para o meu amor. Não despachei a mala para não ter que esperar, então assim que pousamos, disparei, arranjando pernas e muita força para superar cada obstáculo que a vida me imporia. Assim que liguei o celular, Marcela me enviou o endereço do hospital, e quando li essa palavra, chorei. Não, eu quase morri! Derramei todos os meus sentimentos sobre o telefone. Ele estava num hospital, sem ter meu apoio! Ah, Gab, por que não permitiu estar ao seu lado... Eu te quero tanto, eu te amo tanto... Chorei antes, chorei durante e choro agora. Enquanto o taxista ficou apenas me observando, se dirigindo ao hospital. Paguei a corrida, me esquecendo de pegar o troco. Ele colocou a pequena bolsa no hall e eu só queria correr, para alcançar Gabriel. Quando cheguei à recepção, derrubando e esbarrando em tudo que via pela frente, uma mulher me olhou de cara feia, mas nem me importei. O lugar se encontrava lotado, mas eu só precisava chegar até o quarto em que ele estava.


Como? – olhei desesperada para os lados, e foi então que vi Marcela, encostada na parede. Ao seu lado havia uma mulher muito parecida com ela, e um senhor alto. Corri naquela direção. – Cadê ele? – disparei, desesperada, sem cumprimentar ninguém. Marcela sobressaltou-se ao me ver. Despejei a bolsa no chão, pois assim que notei sua feição, faltou-me as pernas. E toda força que vinha carregando dentro de mim sumiu. Eu não conseguia pensar em mais nada, só queria fitar o rosto dele, estar em seus braços, ouvi-lo dizer que estava tudo bem. Senti lágrimas escorrendo por meu rosto já tão cansado, que tentava a todo custo sentir uma esperança e paz que as pessoas à minha volta não compartilhavam. Eu estava perdendo o único homem que amei, que era minha alma, uma parte do meu coração. Essa fagulha de esperança deveria manter-se viva aqui dentro, pois sei que conseguirei vê-lo em algum instante. – Graças a Deus, Char! – os braços de Marcela grudaram em meu pescoço. Pude sentir seu coração tão acelerado quando o meu. – Você está bem? – fiz que sim, sem me importar comigo.

– Vou pedir para o Rafa te levar para vê-lo... – O que está acontecendo? Por que ele está aqui? Desde quando? – Char, é melhor você se sentar, está ficando pálida – Marcela me puxou em sua direção, mas eu não queria que se preocupasse comigo. – Não estou nada bem, eu preciso vê-lo! Por que estamos aqui ainda? Me leva até ele, Marcela... – levei as mãos no rosto e despenquei. Não consegui mais controlar o medo, a ansiedade, o nervosismo por estar num hospital. Gab estava morrendo, era um fato... – Vamos te levar, mas precisa ficar calma – isso era algo que não ficaria tão cedo. No estado que me encontrava, calma estava bem longe de mim. – Ontem ele teve uma recaída, mas Gabriel está aqui desde que você viajou. Aliás, desculpa não tê-la avisado antes, mas o Rafa me pediu. O Gabriel não queria te preocupar, já que sua vó estava morrendo. Tente entender o lado dele – sua voz tranquila quase me cegou. Algo vermelho dominou minhas vistas. Como puderam tentar me enganar? – Eu jamais teria ido viajar se soubesse que ele estava ruim! – gritei e ela concordou, silenciosa.

– Não acredito que não fiquei ao lado dele quando mais precisava, meu Deus! Por que deixaram isso acontecer?! – gritei agitada até que uma médica chegou perto da gente. – Posso ajudar em algo? – minha vista embaçada quase não enxergava o rosto apaziguador.

– Preciso ver o Gabriel, por favor, doutora. Me leve até ele... – o choro saiu natural. Ela ficou tocada com a minha dor. Levantei e toquei sua mão que estava estendida. – Por aqui – comecei a tremer ao ver que ela poderia dar más notícias. Não dissemos mais nada. Eu só precisava vê-lo. – Não sei o que te contaram, mas acho que é a Charlotte, certo? – ela mencionou já perto de uma porta. Fiz que sim. – Bem, o Gabriel está numa espécie de coma natural. Ele chegou aqui assim e não acordou até agora. Não está sofrendo dor alguma, pode ficar despreocupada. Só


ontem que os batimentos mudaram um pouco e sua pressão caiu, mas fora isso, está tudo normal. O câncer, infelizmente, ainda está se espalhando... Isso não conseguiremos mudar. – Se ele acordar sentirá dor? – funguei enquanto as lágrimas escorriam sem parar.

– Não podemos afirmar, mas ele terá que fazer todos os exames e voltar para a quimioterapia – sua voz doce distorcia a realidade cruel que desfilava para dentro do meu coração em fiapos. – Então voltará a sentir muita dor... – tapei minha boca para não gritar. Uma dor lancinante atacou-me sem aviso, e gritei exasperada. Marcela segurou o meu corpo que tremia sem controle. Não podia perdê-lo, mas não podia deixá-lo sofrer, não podíamos ficar sem se despedir. Eu não o amei o tanto que a gente poderia ter se amado. Eu queria tudo dele, ser a sua cura... Cada um dos que estavam ali reunidos tinham na sua espera um motivo. Lutávamos por dias mais felizes, em que tivéssemos a oportunidade de viver mais um tanto... Mas será que o corpo dele já estava cansado o suficiente e queria evitar mais dores? Estando ali conosco, isso o feria ainda mais? O que poderíamos fazer por ele? Nesse momento, eu só quero senti-lo, vê-lo e demonstrar todos esses sentimentos juntos num abraço confortável e esperançoso. – Sinto muito. Vou deixá-la vê-lo rapidamente. Não pode ficar muito tempo, ok? Irei liberar a sua entrada e esperarei aqui fora. Qualquer coisa estranha, pode me chamar. Sou a doutora Janine. Antes de entrar na sala em que ele estava, cheio de aparelhos, o vi através de um vidro grosso. Sua barba estava maior, sem fazer. E seu rosto numa expressão tão serena... Acompanhei uma enfermeira que me deu um roupão azul claro e uma máscara. Lavei as mãos numa pia de aço e coloquei as luvas que me foram dadas. Tudo isso era doloroso. Um processo que imaginei passar daqui há muitos anos, não agora. Não tão rápido. Não estava pronta para lhe dizer adeus. Não quando desejávamos prometer coisas, e cumprir outras. Conhecer um pouco mais o outro, e ganhar beijos doces. Chorar vendo algum filme romântico e comer algodão-doce na praça. Não teríamos tempo de fazer coisas de namorados. Não poderíamos planejar nada. Não envelheceríamos para cuidar um do outro... Caminhei com cuidado até a enfermeira abrir a porta de onde ele estava. Meu coração disparou, depois partiu-se ao me deparar com o Rafa sentado, chorando na beira da cama. Gabriel não se movia, mas o bipe dentro do quarto dizia que ele estava ainda entre a gente. Quase caí de joelhos, enfraquecida por não poder fazer nada. – Oi – deixei um sussurro sair da minha boca. Rafa levantou o rosto da mão do amigo que segurava, a que estava sem o aparelho. – Que bom que você chegou, Char – ele se levantou e veio cabisbaixo em minha direção na porta. Eu só poderia entrar quando ele saísse. Aquele homem enorme e maravilhoso estava quebrado, com o coração despedaçado por estar perdendo uma parte dele. Assim como eu. – Por quê...? – seu abraço apagou toda a frase que iria dizer. Não deveria haver porquês, mas


sim, o silêncio cheio de desejos, ao ficar do lado dele. – Ele precisa de você. Sei que está assim porque não estão juntos. Fique com ele, o tempo que precisar, por favor, e o traga de volta. Sei que é você – disse, segurando meu rosto, deixando transparecer todo o seu medo por não ter mais o amigo. Meu coração despedaçou mais uma vez, e seria mais mil até vê-lo novamente consciente. – Farei isso. Rafa apenas concordou e me deixou sozinha. Cheguei mais perto dele. O cheiro do hospital e limpeza predominavam, mas eu precisava sentir apenas o meu amor. Abaixei para aquele homem indefeso. Sem poder viver como gostaria. Era triste, mas pelo menos agora estava com ele. – Gabriel, meu amor... sou eu, a sua Char. Por favor, Gab, volte para mim... – meu choro não cabia mais no peito, precisava transbordar. – Eu te amei em tão pouco tempo, mas quero que fique. Sei que é egoísmo, não quero que sofra, mas quero você aqui. Comigo, lutando em pé, ganhando forças todos os dias. Eu quero estar ao seu lado. Vou estar quando precisar e não vou sair. Gab, por favor, abra esses olhos lindos, me mostre seu sorriso mais doce, fala o quanto me ama e me quer bem. Gab, eu quero cuidar de você... quero que fique bem. Por favor, acorde... Beijei seu rosto, sua testa, os olhos quietinhos. Quando eu menos esperava, um barulho começou. Primeiro baixo, depois apitando ligeiro, ganhando vida. Ouvi seus batimentos aumentarem, então olhei para a tela. E realmente algo acontecia. Senti um aperto leve nas mãos. Era a mão dele que eu segurava. Era ele. Estava acordando! – Charlotte Sophie... – meu nome saiu espremido por seus lábios rachados.

– Ai, meu Deus! Está me sentindo? Me ouvindo? – tirei a máscara da boca e falei mais alto. A enfermeira notou minha agitação e entrou. – Ele apertou minha mão e disse meu nome! – gritei e ela correu para chamar a médica. – O que aconteceu? – assim que a doutora Janine entrou e questionou, um barulho mais alto apitou na máquina que estava ligada nele. Gabriel abriu os olhos arregalados, deu um longo suspiro desesperado, como se precisasse de ar e agarrou minha mão. – Chamem os enfermeiros! Preciso de uma atenção aqui, agora – a médica ordenou para a sua companheira de trabalho. A senhora saiu correndo, enquanto eu estava agitada e chorando, alegre. Agarrando ainda mais firme suas mãos, beijando-as entre as lágrimas. Gabriel com os olhos arregalados não conseguia formar uma frase direito, mas estava ali, acordado. Segurando-me resoluto. – Ele vai ficar bem? Ele acordou de vez? – e mais uma vez o barulho aumentou. Ela fuçou em diversos botões, e a sala foi invadida por muita gente. – Tirem ela daqui, agora! – a médica me notou ali, mas eu precisava saber de tudo.

Char... – outro sussurro doloroso dele, e mais barulho apitando e deixando todo mundo apavorado. Inclusive eu. A médica puxou o pulso dele, mas eu não podia soltá-lo, queria estar ali, trazê-lo de volta à vida. – Não, me deixem ficar, eu quero ficar junto dele. Gabriel precisa de mim! – uma mulher baixinha tentou puxar meu corpo, meus dedos deslizaram pelos dele uma última vez. Estremeci,


não podia ter apenas essa despedida. Não assim, dessa forma. – Gabriel, acorda para nós! – gritei e vi seus olhos se fecharem sozinhos, adormecendo numa escuridão triste. Seus dedos caíram ao lado, sem vida, mas o barulho dizia irritantemente que ainda tínhamos um fio de esperança. Me agarrei àquele momento, gritando, me debatendo enquanto era arrastada para fora, vendo o meu amor sumir em meio às pessoas. – Gab... – murmurei sem voz, sentida e derrotada.

– Não pode ficar, senhorita, é procedimento hospitalar. Daremos qualquer notícia, só aguarde aqui, por favor. Meu corpo agitado ainda recebia a notícia, o baque de vê-lo acordar e um monte de gente ao seu redor, mexendo e fuçando em seu corpo inerte. Até que assisti de camarote a correria, aparelhos vibrando e apitando, seu corpo recebendo massagem e logo depois ele sobressaltar na cama. Nesse exato instante que vi o seu sofrimento, como eu gostaria de me transformar num anjo para lutar contra todas as suas dores, arrancar a escuridão que nos ameaçava, dispersar todos os medos com um só grito, ser o porto seguro quando ele desmoronasse. Queria entregar o meu melhor sorriso para que ele me sorrisse de volta. Queria apenas salvar sua vida... curar sua alma solitária... Fechei meus olhos, tentando ouvir suas batidas tão intensas, fazendo com que as minhas tornasse uma só com as dele. Tremi e gritei sozinha, batendo no vidro, querendo saber mais o que acontecia com o meu Gabriel. Foi então que senti um puxão... e minha vista apagou. Recebi um abraço, mas era tarde demais...

O que aconteceu? – abri os olhos e vi um clarão. Estava ainda no hospital. – Gabriel! – gritei assim que lembrei o que fazia ali. – Por favor, cadê ele?

– Oi, está melhor? – Marcela questionou e estendeu um copo de café. Fiz que não. – É chá. Não tinha outro copo – sua careta foi engraçada, mesmo assim não aceitei. – Estou zonza, não quero comer nada, obrigada. Quero saber dele, o que aconteceu?

– Você desmaiou e se não fosse pelo pai do Gabriel, você teria caído dura no chão – essa frase estava estranha, alguma coisa ali não se encaixava. – Pai do Gabriel? – esfreguei o rosto e a nuca. Logo vi um homem alto se aproximar, junto dele uma mulher que era a cara da Marcela mais velha. – Sim, ele veio visitá-lo. Na verdade, é uma história louca: ele está noivo da minha mãe – tentei não fazer cara de espanto, mas acho que fiz, pois todo mundo riu, descontraindo o clima pesado que estávamos tendo até aquele momento. – Tem certeza de que eu não bati a cabeça? – Rafa sentou-se ao meu lado também.

Ele está melhor, Charlotte! – essa frase me fez esquecer de tudo.

Ele acordou e logo

poderemos vê-lo – recebi o seu abraço quente. – Obrigado, sabia que ele precisava do seu toque, de ouvir sua voz – comentou, emocionado. – Eu agradeço por ter me ligado. Faria tudo por ele – era tão bom sentir aquele alívio.


– Obrigado. Ah, esse é o tio Miguel, pai do Gab – Rafael me apresentou ao senhor que estava conosco. O Gabriel pelo visto era muito parecido com a mãe. – Ele se parece mais com a mãe – o homem brincou e eu sorri, educada, sem entender como ele tinha adivinhado o meu pensamento. Ou será que... – Eu falei isso alto?! – mais uma vez todos riram. Vermelha, estendi a mão: – Sou a Charlotte Sophie. Muito prazer, senhor Miguel, e parabéns pelo noivado. – Char, essa é a minha mãe, Cintia – a senhora muito bem apanhada chegou perto e me cumprimentou. – Prazer, Charlotte. Ouvi tanto de você que é como se já te conhecesse – recebi o seu abraço.

– Espero que tenha sido coisas boas – resmunguei, empurrando os ombros da minha amiga. – Maravilhosas! – Sua filha também é maravilhosa – beijei a mão carinhosa de Marcela e notei algo. Um anel. Fitei os olhos de Rafa, toda brincalhona. – Ah, ela é mesmo! – ele respondeu, ligeiro.

– Quer dizer que estão namorando? – questionei, feliz. – Não acredito! – Ah, qual é? Por que não? Ela é maravilhosa, como acabou de dizer! Como eu posso deixar uma maravilhosa dessas escapar? – cutucou-me, todo feliz e radiante. Completamente diferente do Rafael que vi minutos atrás, arrasado e destruído. – Não pode! – brinquei. E Marcela estava resplandecente. – Fico feliz, vocês merecem.

– Merecemos muito – disse, com os olhos brilhando. Quando estávamos nos abraçando, a médica se aproximou. Meu coração disparou e todos nos levantamos para ouvi-la. – Boa notícia – todo mundo respirou aliviado. – Ele acordou e está ótimo. Como se não tivesse nunca entrado em coma! É incrível. Só vamos aguardar para alguns exames e logo o liberaremos. – Já terá alta? – o pai perguntou.

– Talvez amanhã. Essa noite faremos mais alguns exames e ele estará pronto para começar a quimio e voltar a sua rotina. – Podemos vê-lo ainda hoje? – perguntei, agoniada.

– Sim, vou pedir que aguarde mais um pouquinho. Ele também quer ver você, Charlotte. Do momento que recuperou o fôlego, ele só sabia te chamar. Aguardem aqui que logo os liberarei. – Tudo bem, obrigada – meu coração estava feliz. Ele havia voltado para mim.

– Isso foi muito emocionante! – a mãe da Marcela estava mesmo comovida. – É amor, gente. É muito amor – Rafa concluiu.


Por conta de diversos exames não pudemos entrar para vê-lo por algumas horas e a agonia ficou ainda maior. Entretanto, ficamos aguardando a liberação. O pai do Gabriel, Cintia e a Marcela tinham ido embora para descansar. Já que passava das duas da manhã. Ficamos ali Rafa e eu para resolver o que precisasse. E logo fomos liberados para ver o Gabriel. Ele me deixou ir na frente, mas pedi para que deixassem irmos juntos, e nos permitiram. – Amigão? – Rafa mencionou, baixinho. Gabriel abriu os olhos cansados.

– Meu anjo? – sorri ao dizer, e escutei seu gemido acalentado. – Oi, gente. Entra – ele tentou se ajeitar na cama, mas não deixamos. Corremos até ele. – Não, não se mexa, você deve estar todo dolorido – cheguei muito perto e fui recebida por aqueles olhos intensos e brilhantes. Era como se ele não sofresse nada. Sua vida estava de volta. Mas eu sabia o quanto estava sendo dolorosa aquela situação. – Que saudade de você, amor – estendeu os braços para me receber. Caí dentro dele, afundando o rosto em seu pescoço, sentindo o meu cheirinho favorito. O meu lar, o melhor lugar do mundo. – A saudade quase me matou, não faça isso de novo – choraminguei em sua pele. Gabriel me abraçou com toda sua força. – Ei, bixa furta-cor! Vem cá me dar um abração, senti sua falta – dei espaço para o Rafa e eles se abraçaram forte. – Nem me fala, tô nem acreditando. Se não fosse por ela... – segurou o choro.

– Eu te ouvi em todos os momentos! Você também me manteve vivo, meu amigo. Só não pude responder, mas te ouvia contando histórias e chorando. Agora tô aqui, fique em paz – ele abriu um sorrisão, fazendo o meu peito explodir de amor. – É bom saber disso. É muito bom.

– Pensei que não conseguiria... – não consegui terminar. – Ei, fica tranquila, eu voltei porque ouvi sua voz. Você me despertou. É a razão pela qual estou respirando – disse todo apaixonado, disparando o meu coração. – Quero estar ao seu lado, mas não me deixe mais longe – chorei e ele me puxou para beijar minhas lágrimas. – Não deixarei, charmosa. Já disse, você é a razão para eu estar sentindo que finalmente é seguro ficar... – murmurou docemente. – Promete? – questionei engasgada.

– De fato! Sorrimos, e nisso a médica nos deu a melhor notícia: Gabriel estava de alta.


Milagres acontecem. Basta apenas ter um pouco de fé para mover o simples desejo de conseguir aquilo que almejamos. Ontem os médicos não tinham nem noção de qual próximo passo dar. Hoje ele está aqui, sorrindo lindamente para mim. Parecia sereno deitado em sua cama, como se o tal do câncer não estivesse consumindo todo o seu corpo. Era fácil acreditar numa vida que poderíamos ter juntos. Era simplesmente fácil. Mas a vida é dura e por vezes não colabora. Ele sofria ainda em silêncio, como se não quisesse perturbar ninguém. E não iria de qualquer forma. A cada movimento suave, parecia que todos os seus ossos rangiam, eu queria chorar – e definitivamente, eu chorava por dentro –, mas Gabriel sorria, dizendo que tudo estava bem, quando não estava. Seu corpo perdia a forma, ganhando apenas fraqueza. Seus olhos ganhavam de brinde uma profunda olheira, e seus lábios rachavam por conta de tantos remédios. Mas o sorriso... por Deus, era como ter o sol a cada instante ao meu lado. Chegamos em sua casa, e o recebemos da melhor maneira possível. Acomodando-o na mais perfeita harmonia. Enquanto ele permanecia deitado, fui ajeitar as coisas. E Rafa trouxe Madruguinha, que estava em sua casa sendo cuidado por sua empregada, já que os pais estavam ainda viajando. Assim que me viu, o cachorro pulou em meu colo, quase me derrubando. – Garoto, vai com calma! – afaguei suas orelhas macias. – Rafa, obrigada por tudo.

– O que precisar é só me ligar que venho na hora. Sabe que meu escritório é em casa, certo? E que moro na rua seguinte? – mencionou, todo preocupado. – Sei sim, obrigada. Ele está descansando agora. Só vou terminar de ajeitar aqui e vou preparar algo para ele comer – Rafa assentiu e sentou-se no sofá, puxando o cachorro junto. – Vou sentir sua falta, amigão! Cuida dele, tá bom, ele precisa mais de você – o cachorro se roçou todo no amigo, e começou a lamber as mãos dele. – Vou ficar uns dias por aqui. Na verdade, vou verificar com Gabriel. Só até ele melhorar – mencionei, meio sem jeito. – Faça isso, será muito importante – concordei em silêncio.

– E o pai dele? Gabriel já sabe que ele está aqui? – depois de um montão de tempo, questionei. Não sabia ao certo se deveria abordar esse assunto, mas resolvi saber antes de dar uma bola fora. – Vou falar com o tio Miguel hoje, pedi para vir visitá-lo. Mas a noite eu converso com o Gabriel para dar a notícia. Pode deixar comigo. – Tudo bem.

E sua família? – ele ficou de cabeça baixa ao questionar, mesmo assim fiquei feliz pelo interesse. – Estão sofrendo com a doença da minha vó, mas ficarão todos bem depois da partida dela. Lady Shelly foi uma pessoa muito egoísta, autoritária e odiada a vida toda. É um alívio para ela e


para todos quando ela partir – sei que isso soou frio e insensível, mas era a verdade. – Nossa, pensei que ela fosse aquela vó amada, doce e carinhosa. Por isso não avisei antes sobre a saúde do Gabriel. Acho que ele queria deixá-la com a família. Mas sentiu no momento certo que você deveria voltar. Por isso enviei a mensagem – desculpou-se. – Naquele dia eu saí de casa para esfriar a cabeça. Mesmo no leito de morte, ela conseguiu me magoar, dizendo coisas horríveis, revelando segredos sujos que levará consigo para o caixão. Sério, eu já não me importo mais. Vou viver aqui os meus dias. – Sinto muito, por tudo.

– Eu também sinto. E mais alguns momentos se passaram, e Rafa me consolava de alguma forma natural. Ele é uma pessoa extremamente abençoada e querida. Me ajudou a levar comida para o amigo. Conversaram mais um tanto até Gabriel pegar no sono. Sentei-me ao seu lado da cama, e fiquei lendo algumas folhas que estavam no criado-mudo. Eram textos dele, e incrivelmente tocantes. Chorei baixinho em alguns momentos e em outros o meu sorriso era de dar medo de tão arreganhado. Em todas suas linhas, ele falava de mim. Com cuidado, paixão, emoção e inspiração. Eu era a sua musa. Quase uma deusa como me descrevia. E suas palavras eram suaves, mesmo quando dizia as mais sensuais frases. Corei em diversas delas, só por lembrar de seus toques cheios de cuidado e respeito ao meu corpo. Ele seria sempre assim: mesmo com os olhos nublados de prazer, saberia onde me encontrar e, assim, colidir os nossos mundos. Era maravilhoso tê-lo em minha vida. – Amo o sorriso e o brilho de seus olhos quando lê algo meu – corei mais um pouco ao ouvir o timbre tão familiar. Fitei seu rosto mais animado, como se realmente não tivesse sentindo dor. Gabriel parecia estar tão melhor. Era inacreditável. – Hmm, isso aqui é muito bom. Estou muito orgulhosa – fui até a cama e me sentei ao seu lado, e ele se ajeitou melhor no travesseiro. – E vejo que está corada e quase... quente – ele nunca perderia o seu charme. Nunca.

– Muito... – não resisti e beijei a sua boca. Apesar de áspera por estar seca, era doce e dele. Um sabor ardente surgiu quando ele envolveu a minha língua, umedecendo-a. – Que saudade, Char! Tanta saudade de você – sua rouquidão foi bem-vinda.

– Sim, de fato. Estou morrendo de saudades de você – gemi em seu ouvido. Beijando toda a extensão de seu queixo junto a barba fofa, subi cuidadosamente pela bochecha. – Mas... – ele me interrompeu com um beijo fogoso. Minha vontade foi de montar em seu colo e beijá-lo até a noite acabar e chegar um novo dia. Entretanto, não deveríamos. Ele sentiu minha resistência ao desgrudar de seus lábios e acabar com aquele contato mais intenso. – Só me beija, preciso senti-la novamente. Só me beije, Char – seu pedido urgente mostrava o tamanho de nossa saudade. Então não resisti. Montei em seu colo, puxando todo o lençol de cima dele, e deixei meu corpo deslizar em seu corpo. Tirei sua camiseta e a minha, deixando a proximidade ganhar espaço.


Nossas bocas não desgrudaram sequer um segundo. E meu corpo pegava fogo. Minha mente embaralhava as imagens sensuais do que tivemos, forçando um momento mais intenso. Desgrudei de seus lábios, mas eles percorreram o meu pescoço, chegando rapidamente nos seios presos pelo sutiã. O sorriso arteiro em sua boca me fez derreter. – Não podemos, ainda. Descanse – ele precisava de tempo, e eu precisava sair de cima dele.

– Meu corpo te quer, não tá sentindo? – levantou o quadril gentilmente. Nem precisava, eu sentia loucuras entre as minhas coxas. – Eu te quero também, Gab, muito. Mas precisa se recuperar, assim ficaremos mais tranquilos. Tenho que pegar os seus remédios – ele fechou brevemente a cara, mas depois concordou e sorriu, ao me soltar finalmente de sua pegada. Com um único movimento rápido, soltou o meu sutiã. – Seu arteiro! – mordi a sua boca. E ele gargalhou.

– Assim, livre, é muito melhor! – piscou, fazendo-me sentir a brasa de seu prazer. Concordei em silêncio, mostrando o brilho que havia dentro de mim, que ardia junto a ele. – Char, preciso fazer a barba, depois me ajuda? – assim que saí de seu colo, meus olhos não desgrudavam de seu corpo, e sua voz estava distante das maravilhas que eu analisava. – Ei, tá me escutando? – brincou. – Claro! – mordi a ponta da boca, ofegante por vê-lo ali, tão gostoso.

– O que eu falei, Char...? – sua voz perturbadora me fez esquecer. Droga. – Para eu tomar juízo e ir pegar seus remédios? Ou que viu unicórnios coloridos em seu coma? – nós dois caímos na risada. – Eu te amo, princesa charmosa. Sorri docilmente. – Eu te amo, meu anjo!

Na hora do jantar, Gabriel conseguiu descer e comer comigo. Fiz um jantar à luz de velas, do qual ele admirou, apaixonado. – Ficarei uns dias aqui. Para te ajudar e cuidar do que precisar – anunciei ao dar um gole no suco. Ele me fitou com olhos alegres. – E seu serviço? Não quero atrapalhar sua vida, Charlotte. Precisa entender a situação.

Já resolvi a minha situação. Pedi para dona Vitinha me liberar. Eu fazia uma espécie de serviço social, Gabriel, e quero estar presente em sua vida. Você precisa de mim no momento. Não uma biblioteca. – Você é maravilhosa – puxou carinhosamente minhas mãos, beijando-as com destreza, quando era ele quem, na verdade, precisava de todo cuidado. – Tenho algo para te dar – deu-me de brinde um maravilhoso e sufocante sorriso. Seus olhos brilhavam junto a essa revelação que me pegou


desprevenida. Ele sempre seria o meu presente. – Jura? – fiquei feito uma menina boba, apaixonada. Eu queria tudo dele, e só de aceitar que eu ficasse aqui, meu coração batia aliviado. – De fato, princesa.

– Gosto disso – beijei sua boca com gosto de suco de maracujá. – Eu gosto mais disso... – mordeu a pontinha da minha boca. Gemi. – Ah, e com certeza disso... – outra mordidinha. Ele estava todo ousado. – Vamos subir, o que vou te dar está lá em cima – se afastou lentamente da cadeira. Ajudei-o a subir os degraus, já que estava ainda meio lento para fazer as coisas. Seu corpo permanecia fraco, apesar de todo seu esforço mostrar que estava realmente melhorando. Algumas vezes o remédio o derrubava literalmente. Em outras, parecia ter a força de um cavalo. Nesse momento, era um misto das duas coisas. Assim que chegamos ao seu quarto, ele apontou um baú marrom no canto. Já tinha notado aquela singela peça, então fiquei sem entender e ele sorriu lindamente confiante. – É todo seu – apontou, todo animado. Fitei-o curiosa e fui até lá.

– Que lindo! – assim que me aproximei da peça, vi que era toda trabalhada em madeira. – Abra – fiz o que pediu, e ao ver o que tinha dentro, meu peito saltitou. – São seus manuscritos? – questionei ansiosa e ele concordou. – Não posso! São seus, e você deveria tentar publicar algum. Tudo que escreve é maravilhoso – minha voz falhou. – São seus agora. Quero que fique com isso, Charlotte. Leia e entenda os meus verdadeiros sentimentos – seu doce timbre ecoou pelo quarto recheado de esperanças e palavras que deveriam ser lidas por todos. Ali dentro continha suas mais sinceras palavras, mas também os seus sonhos. Eram sonhos que deveriam ser nossos, mas que o destino iria interromper a qualquer custo. Parei diante daquela peça, recheada de promessas que não cumpriríamos, de vontades que não realizaríamos. Cada letra rabiscada trazia um novo motivo para seguirmos. Entretanto, como nos agarrar ao que nos faltaria, o tempo? Não conseguíamos medir o que tínhamos. Quando seria? Como seria? A cada despertar ficaríamos ansiando o próximo. Cada toque, beijo, olhar era aproveitado ao máximo, pois não sabíamos quanto tempo teríamos pela frente. Seria um eterno lembrete cada segundo que passávamos juntos. Vivíamos o momento e marcávamos os instantes no coração como a melhor recordação, porque na verdade, não tínhamos o limite de tempo. Era baseada em tudo isso... o tempo que passaria, deixando nossas memórias recheadas de emoções, nossos corações com as mais breves sensações, apreciando o eletrizante contato de nossos corpos... Nada disso teria sentido se tivéssemos o precioso tempo, aquele que nos corria entre os dedos. Meus pensamentos variavam a todo instante. Quando ele sorria, eu pensava: isso é só passageiro, ele vai ficar bem. Olha só, ele está ótimo. No instante seguinte, que ele suspirava, tossia ou travava o corpo, eu pensava: meu Deus, ele está sofrendo, delirando... morrendo... Tudo perde o sentido. Não sei quanto


tempo terei ao seu lado. O quanto ainda aproveitaríamos dessa vida. Quantos sorrisos daríamos um ao outro? Quantos beijos? Quantos abraços? Quantos amanheceres? Quantas fases da lua? Quantos choros...? Quantas dores...? Quanto tempo? Acho que eu nunca conseguiria dizer adeus a ele... No máximo, um até logo... – fechei os olhos, evitando de ele ver o quanto eu sofria antecipadamente. – Eu te amo tanto, Char... aceite – concordei, silenciosa. Vendo o quanto Gabriel foi tão sincero, então notei que meu coração se agarrou a essa nova realidade. Um dia, eu não o teria mais.

Gabriel Pai Pode crer eu tô bem, eu vou indo Tô tentando vivendo e pedindo Com loucura pra você renascer ~Fábio Junior – Pai~

Meus verdadeiros sentimentos

estavam todos refletidos em cada palavra que deixei registrado naqueles manuscritos, na forma intensa que minha letra rabiscava e reproduzia meus sonhos. Tudo o que não poderia realizar. – Ela era o mais belo dos presentes. Seus imensos olhos azuis, em uma mistura de mar com um suave toque da lua... Banhando-se na mais perfeita combinação. Era amor misturado a magia. Era tentação misturada a ilusão. Eu me perdia toda vez que tentava tocá-la... Então passei a observá-la... E era bela, simples, doce e minha... O seu cheiro por vezes invadia meus sonhos, deixando tudo muito nostálgico. Nunca entendi essa fascinação, a ligação que nos conectava. Só que ainda podia acompanhar seu riso, por vezes seu choro. E meu coração queimava, sabendo que um dia, nossa lenda seria contada. Seria sentida. Vivenciada... – naquele instante eu sabia que levaria para sempre o seu timbre, sua vontade por mim, sua voz trêmula por ler minhas histórias. Charlotte Sophie deixaria registrada sua doçura em meu coração ao recitar para mim os mais diversos sentimentos. – Eu te sentia, Charlotte Sophie – revelei baixinho, sem deixar as lágrimas me invadirem o rosto. Seu sorriso iluminou a escuridão do meu mundo. – Suas palavras dão um novo sentido ao amor que sinto por você, Gabriel. Durante vinte e sete anos nunca tive tanta certeza de que fiz o meu melhor. Olhando-a agora, sei que vivi esperando Charlotte Sophie para que eu me visse de uma forma diferente. Passei por todos esses dias de tormenta só para ouvi-la contar as minhas histórias. Dando sentindo a minha vida. Me mostrando o quanto meu coração era capaz de criar mundos plenos de sentimentos e sentidos. Faltava cores em minha vida, até ganhar os olhos dela. Faltava som, até ouvi-la rir. É esta a chance de me redimir, de ver que apesar de tudo, eu fui feliz. E ainda estou sendo...


Diga que vai se lembrar de mim... – sussurrei. Pude vê-la pigarrear, tentando esconder o sentido daquela frase sobre ela. – Eu vou me lembrar de você, Gabriel, sempre. Você está em toda parte de mim... – murmurou, a voz tornando-se dolorosa, apesar de toda esperança que seus olhos transmitiam. Só que ela se esquecia de algo. Nada dura para sempre. – Seremos apenas lembranças, Char. Todos nós...

– Mas ainda seremos nós. Ela voltou a ler, como se esse pequeno instante não tivesse machucado o nosso coração. Então passamos a noite rindo e degustando do sabor em cada estrofe pronunciada. Ela sorria lindamente, apaixonada pela simplicidade do meu frágil coração. E eu, bem, segui encantado por seu sorriso, por sua fala ao ler as minhas palavras. Eu estava completamente apaixonado por ela, e por mais que sofresse, o meu coração se conformava em tê-la pelo menos ao meu lado pelo tempo que fosse permitido. Adormeci enquanto ela ainda lia carinhosamente para mim, deitado em seu colo. E nunca dormi tão bem...

Sei que fiquei por longos dias longe de Charlotte, longe de todos. Perdido dentro de mim... numa escuridão que não deixava a dor me atacar. Era confortável estar no escuro sem sentir nada, mas também era triste e solitário. Não imagino como tudo aconteceu. Só sei que depois de horas incontáveis sem ouvir sua voz, houve uma luz intensa que me puxou de volta para a realidade. Era ela de volta para mim. Ouvi-la foi como um choque no coração para me ressuscitar. Agora Charlotte não sairia mais do meu lado. Estava aqui porque queria. Jamais a forcei a ficar e nunca a mandaria embora. Poderia parecer um pouco egoísta de minha parte, mas eu não queria morrer sozinho. Despertei com a dor que resolveu mais uma vez me atacar. Uma ânsia forte, uma pontada na cabeça, e minhas juntas rangiam, ardiam, me matavam... Levantei-me sem fazer barulho. Sozinho, com os dedos trêmulos, peguei o comprimido na mesinha e o engoli sem esforço. Logo aquilo passaria. Fui até a janela e observei o dia clarear, com seu fundo esplendido e intenso. Azul e tranquilo. Que belo espetáculo eu perderia... Será que era aquilo mesmo? Estaria chegando o momento de me despedir? Eu tentara enganarme, por um momento, com a ilusão de que duraria para sempre. Mas tudo estava ficando pior. Naquele dia eu poderia acalmar o meu pobre coração, junto ao corpo agitado e doente. Vê-la ainda, simplesmente. Memorizar cada detalhe dela, como fazia com aquele amanhecer. A minha bela, deitada lindamente nua na minha cama. Espalhando amor, derramando paixões. Um espetáculo inesquecível. Voltei-me para ela. Depositei um beijo em sua boca, depois nos ombros e desci até a curva da sua cintura. A deixei por um instante e subi, devagar, até o meu paraíso florescido. Sentei-me na


cadeira, respirando lentamente o ar puro, o dia digno de uma pintura, pura inspiração. Muito azul. Meio quente. Belo sol. Nesse pequeno instante pensei em como a vida é efêmera, tranquila e deleitosa. Não somos nada, mas podemos deixar tudo... Fechei os olhos, e mentalizei o quanto eu ainda amaria tudo isso. Será que ir seria tão fácil quanto sentir? Rezaria para que sim.

Quando o sol já havia me esquentado, Char apareceu. Seu doce sorriso me ganhou, meu coração se apertou por tê-la tão perto. Nosso momento se concretizou. – Bom dia, moço bonito.

– Bom dia, charmosa. – Chá ou café? – questionou, apontando para a bandeja em sua frente, e sentando-se ao meu lado. – Remédio – sorri, pois adoraria que fosse brincadeira.

– Hmm, eu trouxe também – ela mordeu a pontinha dos lábios. – Perfeita – toquei suas mãos delicadas. Quando ela foi se levantar, a segurei. – Eu te amo. – Eu sei – brincou, fazendo-me rir alto. Ah, como era bom rir de coisas tão poderosas quanto o amor. – Eu te amo mais, sabe disso – piscou e veio em minha direção. Sentou no meu colo, fazendo carinho na barba que logo mais sumiria dali. E no cabelo na parte de cima que estava maior, que também sumiria. – Antes do remédio, um beijinho e um cheirinho...

– Conhece essa expressão? – ganhei um beijo bem gostoso antes da resposta, provando que sim. Seus lábios passaram pela bochecha e a pontinha gelada de seu nariz chegou no pescoço, e permaneceu ali por tempo suficiente para nos deixar atiçados. Apertei-a contra mim e Char gemeu em meu ouvido. – Já li num livro nacional – sorriu lindamente. – Dar um cheiro é bom, não é? – fez novamente, esfregando o seu pequeno e charmoso nariz em meu pescoço. – Ah, sim. Eu adoro – falei com a voz carregada de malícias.

– Eu sei! Vive fazendo isso em mim. E por Deus, Gab, como eu derreto – ela virou geleia quando agarrei mais firme o seu corpo, virando-a de frente para mim. – Vem cá... – não havia voz, só um gemido rouco. Segurei em seu delicado pescoço, e Char se rendeu lindamente. Comecei com os lábios. Logo a língua ganhou um ritmo, e seu cheio roubava o meu mundo. Permaneci por vários minutos ali, naquela região. Ela gemia e recebia o meu amor e paixão, obtendo o melhor de mim. – Ah... Gabriel... – suspirou, rendida. Não queria mais voltar. Deixaria que ela ficasse ali para sempre, se eu pudesse...


Tinha ido ao hospital há três dias e havia conversado com a doutora Janine. Ficou acertado que começaríamos a quimioterapia daqui duas semanas, depois das festas de final de ano. Claro, tive algumas recaídas e passei alguns dias no hospital. Tomava remédios fortes e alternados. Fingia que estava tudo bem, quando na verdade, cada junta minha gritava dor e meu corpo clamava por alívio. Vomitava escondido. Chorava sozinho. E a vontade de viver ficava cada vez mais distante. Mas ela ainda estava ali. Charlotte permaneceu ao meu lado para mostrar o porquê eu deveria sobreviver. – Gab, eu e o Rafa tínhamos que falar com você há alguns dias, mas deixamos você descansar bem antes disso – Char chegou do nada, e ouvi também a porta se abrindo. Era o meu melhor amigo. – E aí, bixa! Tudo em cima? – Rafa chegou perto da poltrona que eu estava. Minha fraqueza, junto a magreza conquistada era nítida. Ele me abraçou e apertou com cuidado meus ombros, sentindo o osso que despontava. Rafa sorriu tímido e se sentou ao lado da Char no sofá da frente. – O que manda? Porra, é coisa ruim, não é? – o que será que os médicos não me contaram? Eu sempre estive um pé na frente durante toda minha doença. Eu sabia, depois os outros. – Na boa, não sei como vai encarar isso – Rafa foi sincero. Char olhava para ele.

Eu não conheço bem a história, mas acho que deveria ficar feliz – ela falou baixinho, querendo passar tranquilidade. Como assim? – Vocês estão me assustando – soltei um riso nervoso e cocei o cabelo que já não tinha na parte de cima, pois havia cortado. Foi automático. – Seu pai está aqui – Rafa foi direto e meu corpo deu um leve sobressalto. O coração titubeou.

– Aqui em São Paulo? – minha voz soou firme e assustada. – Sim, para ser mais exato, aqui na sua porta. Ele quer te ver. Na verdade, está aqui desde que estava no hospital – arregalei os olhos. Inacreditável. – E como ninguém me contou isso? – falei rude. Não era para ser assim, mas não era com eles, era por ele. Rafa me encarou bravo por estar fazendo esse papel ridículo. – Desculpa, mas por que não me contaram? – abaixei o tom de voz e eles acataram.

– Você estava péssimo, não sabíamos como reagiria! – mencionou sincero. – Gabriel, terá que melhorar essa cara de bunda. Vocês precisam muito conversar e se acertarem. Porra, ele é seu pai e merece respeito por isso. Ele veio te ver e sofreu cada instante por saber de sua situação. Tem outras coisas envolvidas... Se quiser saber, nós te contamos para que não grite com ele – meu amigo comentou, apertando as mãos. Fiquei preocupado com o que ainda viria, mas relaxei os ombros. Era o meu pai, independentemente de qualquer coisa, eu o amava. Havia cansado de tentar afastar as pessoas de mim. E me coloquei no lugar dele, vendo como para ele tudo aquilo deveria ser difícil pra caralho também.


Ok, fala aí – ajeitei o corpo na poltrona, e por pouco não gritei com a dor que isso me causou. Cada movimento era precioso e dolorosamente calculado. – Seu pai seguiu com a vida dele... E veio com alguém – Charlotte mencionou com cuidado. Mas ao contrário do que pensavam, eu fiquei feliz por ele. Ninguém merece ficar sozinho. – É só isso? – comentei enquanto eles me olhavam com espanto. – Fico feliz por ele, isso sim. Jamais encrencaria por conta disso. – vi que, aos poucos, eles aprovaram a minha reação. – Ele quer te apresentar a noiva. Mas uma coisa eu adianto, você ficará chocado com o que a vida reservou. – Rafa já voltava a sorrir com o comentário. – Por que essa cara? Conheceu a pessoa que ele tá? – questionei calmo, fitando o sorriso que estava na face dos dois. A pessoa deveria ser realmente muito boa para o meu velho. – Conhecemos...

– E quem é? Eu conheço? – Ela morava em Fortaleza também... É a mãe da Marcela – por fim ele desembuchou. – Sério? Nossa, inacreditável em como o destino tem lá os seus truques! Que mundo pequeno – comentei. Rafa e Char se levantaram para chamar o meu pai. Chegou a hora de revê-lo. – Podemos deixar vocês dois, sozinhos? Ele quer muito falar com você. Assenti. Por mais que meu pai nunca tenha acreditado em mim, eu o amava e respeitava. Agora, era a hora de ambos pedirmos desculpas.

Por mais que as recordações das diversas brigas, caras feias, e o jeito bruto com que meu pai me tratou por diversos anos pipocavam em minha mente naquele exato momento, eu queria vê-lo. Gostaria muito de estar nos braços dele, fitar os olhos do meu pai e me desculpar por estar morrendo, por estar deixando-o. Lembro quando mamãe estava nas últimas e seus olhos pediam tantas desculpas por nos deixar... Mas ela não tinha culpa. Hoje, eu não tenho culpa. A vida é o que é, e por muitas vezes não conseguimos mudar. Tê-lo ali em minha porta era nossa chance de se despedir sem arrependimentos. Assim que os dois saíram, ouvi a pesada voz do meu pai vir lá do quintal. Conversando com o meu melhor amigo. – Muito obrigado, menino – o ouvi dizer. Meu pai o sempre chamou assim, desde moleque.

– Entre pai, fique à vontade – tomei coragem para dizer ao vê-lo parado na porta. Pensei em me levantar, mas ele veio em minha direção e sem dizer nada, me agarrou. Puxou o meu frágil corpo para perto do seu, tão imenso. O conforto voltou ao coração e as lágrimas nos sufocaram. Choramos em silêncio. Nada precisava ser dito, já que nosso perdão era sentido de longe. Ele não tinha feito nada demais, nem eu. Apenas segui os meus sonhos e ele os dele. Não deveríamos nos aborrecer por conta disso.


Eu o tinha de volta, pelo menos até fechar os olhos para sempre. Como aquilo deve ser insuportável para ele. Primeiro perder o grande amor, depois o filho. Ainda bem que ele tinha alguém para lhe dar conforto depois de que tudo passasse. Não dizem que depois da tempestade, sempre vem a bonança? Ela seria a dele, e teriam o tesouro mais precioso guardado, o amor um pelo outro. – Meu pequeno menino... – soluçou em meu pescoço. Éramos bem altos, quase do mesmo tamanho, então não foi difícil encará-lo. Ver o brilho intenso de seu rosto, pleno de amor e perdão. Ele me pedia sem deixar as palavras saírem. E estava tudo bem. Tudo mesmo. – Que saudade, pai. Fico muito feliz que esteja aqui. De verdade.

– Eu também – sua voz estava sufocada pela emoção. Ele me analisou por inteiro. Segurando os meus braços, viu o quanto já estava magro. Por fim, puxou um punhado da barba que já começava a ficar rala. – Barbudo, hein? – brincou nos fazendo gargalhar juntos. Ele tinha me ensinado a ter barba. Era barbudo na época da mamãe. E agora o senhor que estava em minha frente era muito diferente. Cabelos grisalhos, pele bem queimada pelo intenso sol do Nordeste, mais forte e viril do que nunca. É, o amor lhe caiu bem. Os olhos intensos como jabuticaba, tinha tantas verdades ali. – Você está melhor? – ele me ajudou a se sentar e ficou de frente. Segurando as mãos uma na outra. E seus olhos amáveis me encaravam. – Não muito para falar a verdade, mas preciso seguir, certo? – falei, sincero. Meu pai odiava quando eu mentia sobre como me sentia. – Desculpa por tantos anos longe. Achei que tivesse se curado, ou que pelo menos estava melhor. – Tá tudo bem, eu também não imaginei que voltaria. Mas nunca acreditei que estava curado. Sabia que a doença me habitava e que qualquer momento surgiria com mais força. Foi assim com a mamãe – ele assentiu. – Gabriel, você sabe o quanto torci por você, rezei cada dia e tenho você aqui dentro do peito. Isso tudo me destrói, mas não quero que pense nesse velho, não estarei sozinho. E meu coração se alegra por saber que também não está. O momento mais precioso. – Charlotte é o que preciso para descansar.

– Ela é um presente dos céus, filho. – É sim, e fico feliz que tenha encontrado alguém, pai. – Ficou sabendo que é a mãe da amiga de sua namorada? Que mundo pequeno, não? – foi o que eu tinha pensado. Éramos tão iguais, e nem lembrava disso. – Pai, tem outra coisa, lembra do acidente comigo há dez anos? – relembrei com tristeza, pronto para revelar a última e tenebrosa coincidência.


– Sim, claro. Foi um acidente terrível. – Pois é, e foi o marido da sua noiva que se acidentou. Era ele o dono do caminhão que bateu em meu carro. Ela o perdeu ali. Fiquei sabendo pela Marcela, e foi um choque e tanto saber disso.

– Meu bom Deus! – seu choque também foi grande. – Quando nos conhecemos, ela disse que era viúva, mas nunca questionei sobre o assunto, porque queríamos buscar apoio verdadeiro, e não ficar lembrando de um passado doloroso para ambos. – Entendo, é seguir a vida. Vocês não estão errados. Merecem o amor.

– Fico feliz por pensar assim. Confesso que tive medo, mas seu coração sempre foi maior. Igual da sua mãe – ele sempre mencionava o quanto eu era igual a mamãe. – Tão logo estaremos juntos – solucei, apertando o peito que se agitou. Os olhos do meu pai escureceram de dor. Resolvi não pensar mais naquilo. – Há tanto que quero te contar sobre Charlotte, e espero que fique mais alguns dias. – Adoraria saber, filho – sorrimos, esquecendo o comentário anterior. – Tenho algo para você, Gabriel – ele tirou um monte de papel do bolso detrás da calça, trazendo para frente e entregando para mim. – O que é? – desdobrei o grosso papel e, ao ver o desenho na frente, me emocionei.

Sua primeira história – meus olhos correram o nome e por muito pouco não desabei. – Guardo desde aquela época. Sinto muito se parecia que eu não te apoiava no que gostaria de fazer. Mas para mim, você sempre foi o meu escritor favorito. Guardei isso como se minha vida dependesse disso. Gab, eu li todos os dias. Todos. Como se fosse uma oração. Você é tão bom no que faz, e seus textos... Puxa vida, eu tive que aprender a mexer na internet e fazer um Facebook! Eu te sigo, filho. E não há orgulho maior sobre o que faz. Você é meu sucesso – aquelas eram as palavras que eu esperei a vida toda para ouvir. – Pai... – abaixei a cabeça e chorei. Chorei com verdade. Chorei com amor. Chorei por ver minha primeira história e seu título. A menina do guarda-chuva vermelho. Que isso, Sr. Destino? Eu mal me lembrava que tinha escrito aquilo. Na verdade, não me lembrava de nenhuma palavra. Tinha feito uma capa com uma menina de costas, segurando um guarda-chuva vermelho aberto. Exatamente como encontrei a Char. No canto da página havia um girassol. E meu coração palpitou emocionado. Tudo estava no caminho certo. Exatamente tudo. – Obrigado por isso. É muito importante – apontei o livro. Minhas mãos tremiam, e queria sair correndo para mostrar a Charlotte o que tínhamos. Queria ler com ela, para ela. A minha menina de sempre. Meu pai permaneceu ali, ao meu lado. Relembramos muitas coisas da infância e de como era sua vida em Fortaleza. Éramos novamente um elo, que jamais se quebraria. Deixamos claro em todas as conversas que, independentemente de qualquer falta, lembraríamos


com amor cada fase que vivemos. A vida finalmente seguiria seu curso. Eu teria Char em meus dias frios e dolorosos. Meu pai teria a Cintia, uma mulher decidida e incrivelmente radiante. Jantamos todos juntos, rindo, dividindo experiências e preenchendo o vazio. Fechando mais esse ciclo de minha vida.

Comecei a me esconder da dor atrás do sorriso e beijos. Sentia o ar faltar, meu coração parar e as pernas tremerem, mas mesmo assim, eu sempre pedia para Charlotte Sophie me beijar intensamente... E ela o fazia, mas dentro de mim, parecia ser sempre a última vez... Os dias passavam devagar, arrastando minhas ilusões de melhoras para longe do coração fraco. Eu queimava. Estava em chamas. Por todos os lugares. E ela podia assistir gratuitamente em meus olhos como eu verdadeiramente estava. – Acho que vou sentir sua falta para sempre... – ela sussurrava todos os instantes. Eu sorria. Mas por dentro, eu sangrava. Como poderia deixá-la sozinha?! Como seria sem ela? Vazio, escuro e doloroso. Em cada instante, minha mente trabalhava para não me entregar... Fantasiava uma cura, brincava com os sentimentos bobos e esperançosos. Alguns dias depois, fiz a minha primeira sessão de quimioterapia. Era para ser depois das festas, mas eu não aguentava mais. Fui sozinho para o hospital, sem ninguém saber. Quebrado e sofrido, fingindo que tudo estava bem. Sorri e aguentei as agulhadas. Minha cabeça girava e meu corpo tremia, e eu só pensava nela... As sessões são um saco. É sempre a mesma coisa: queda, dor, desgaste, aflição, vômito e cansaço. E quando achei que tivesse mais uma chance, meu corpo dizia que não. Tudo era inevitável a partir de agora. Eu contaria as horas, viveria para tê-la mais alguns segundos ao meu lado, beijaria mais sua boca até dormir, realizaria suas vontades, abraçaria seu corpo enquanto ela se distraia em ler para mim... Eu sentiria falta de Charlotte Sophie como as estrelas sentem falta do sol em pleno céu da manhã, isso era certo...


Charlotte Mas ora Você partiu antes de mim Nem me deixou barco frágil Pr'eu me salvar do naufrágio ~Anavitória – Barquinho de papel~

Os fogos explodiam no céu, anunciando boas novas que para mim ainda não haviam chegado. Ontem a minha vó faleceu. Lady Shelly deu o seu último suspiro, sozinha. Ninguém além dos empregados esteve ao seu lado. Minha mãe estava longe com o papai, aproveitando a oportunidade de retomar a sua vida, enquanto aquela que a gerou perdia-se no frio de seu coração. Será que no último instante se arrependera do que fizera ou xingou minha mãe, por viver tudo aquilo que ela desejava? Eu nunca saberia. Aquele era o fim de uma era que já deveria ter se renovado. Mamãe assumiria o seu posto e ficaria bem até o fim de sua existência, ao lado do homem que amava. – Feliz natal, charmosa – ganhei um beijinho na ponta do nariz. Estávamos no paraíso dele, vendo os fogos que pipocavam intensamente. Lambi as pontas dos meus dedos com a canela e açúcar da deliciosa rabanada que preparei. – Feliz natal, moço bonito. Estávamos sozinhos, apesar de Rafael e Marcela terem nos convidado para passar o feriado na casa dos pais do Rafa. Mas preferimos ficar ali para apreciar o momento. Colocamos pijamas com temas de natal, já que era assim que eu costumava passar os outros anos sozinha aqui no Brasil. Comprei arcos de rena e rabisquei nele um nariz vermelho. Gab adorou a inovação já que, na visão dele de mundo, há tempos o natal era apenas para fins comerciais. – Eu te amo – sussurrei, beijando sua mão. A que tinha os furos da agulha de quimioterapia. Gabriel desculpou-se com a feição extremamente apaixonante, já que havia nos escondidos suas idas sozinho no hospital. – Jura? – ele brincou, com os olhos apertadinhos de emoção.

– De fato – nos beijamos demoradamente. – Posso te pedir algo para o ano novo? – fiz que sim. – Você me ajudaria a fazer a barba? Eu já enrolei tempo demais e, infelizmente, ela terá que sair desse rosto feio – meu coração disparou com a realidade que nos atacava sem dó. – Claro que ajudo. Você ficará incrivelmente lindo – falei, sufocada, tentando desfazer o nó da garganta, mas não conseguia.


– Obrigado, por isso que te amo tanto – beijou as minhas mãos entrelaçadas as dele. – Jura? – encostei a cabeça em seu peito e Gab beijou minha testa. – De fato, princesa. Consegui finalmente tirá-lo de casa. Caminhamos vagarosamente até o Ipiranga e Madruguinha nos acompanhou, todo pomposo ao lado do dono. O sorriso de Gabriel permanecia quente, por mais sofrimento que sentisse. Ele era hábil em esconder a dor. Gabriel ficou meio desconfortável quando uma mulher, meio andrógina, nos encarou ao passar. – Gabriel? – falou a pessoa a nossa frente, cruzando os braços. – Sou a Nick, se lembra?

– Sim – cumprimentou a moça com um toque de mãos. – Essa é a Charlotte, minha namorada. – Prazer, posso falar com você um minuto? – questionou. Eu fiquei empertigada e não larguei das mãos dele, sem saber ao certo o que era aquilo. – Claro, aconteceu algo? – sua feição estava tensa.

Carla foi internada – falou de vez. Esse nome não era estranho, pensei só um instante e

lembrei da maluca que nos abordou aqui. – Não sei se você sabe, mas ela se afundou novamente nas drogas. Não entendo... – sua voz falhou e fiquei com dó. Era realmente aquela moça, que situação difícil. – Carla nos abordou outro dia aqui, vi suas condições. Precisa de algo?

– Ela só queria saber se estava bem. Por mais que vocês tenham terminado, ela te admira muito e pediu-me para te enviar um recado – falou muito baixinho, sentida. Meu coração disparou. – Diga – Gab disse, sensato.

– Ela disse que te enviou essa carta, escrita num dos seus piores momentos, a última crise antes de se internar. Não dá para entender muito, mas ela diz o quanto te amou, o quanto foi bom e que Deus estava sendo injusto em tirá-lo de sua vida. Ela fez promessas loucas, dizendo que faria até pacto para que não tirassem a sua vida! – um nó sufocou nossas gargantas. – Ela te amou, e agradeceu muito o que fez por ela, trazendo-a para a luz. Agradeço também, porque ela só sobrevive na clínica porque leio seus textos à ela. Carla sabe que todos são para Charlotte – apontou para mim, e meus olhos escorriam lágrimas sentidas. – Mas ela gosta de fantasiar, de imaginar que seriam para ela. E quando eu leio, ela pensa em mim também... – Fale para ela seguir a vida dela ao seu lado. Diga que sinto muito por tudo que nos aconteceu, que não foi em vão, que também gostei de estar ao lado dela, que a amei nos momentos certos. Que todas as palavras são confortos ao coração ferido. Apenas sinta e viva, por ela, por mim e por você, ok? – ele estava sereno ao dizer tudo isso, já eu e a Nick chorávamos. Talvez a proximidade do fim traga uma serenidade às pessoas e uma capacidade de perdoar que nós, aqueles que se agarram a cada sentimento, não consigamos possuir.


– Obrigada – ela soluçou uma última vez. – Vem cá... – abri os braços, e ela aceitou. – Diga a ela para imaginar uma nova história onde vocês fazem parte de um futuro incrível, com mudanças boas. Acredite positivamente, tudo é possível quando almejamos com muita força... – era o que eu desejava também. – Ela precisa seguir em frente. Fiquem bem – falei baixinho no ouvido dela. Nick saiu sem dizer nada, apenas absorveu toda energia boa que tentamos transmitir. Olhamonos por longos minutos e não comentamos o ocorrido. Não precisaríamos ficar remoendo dores, estávamos apenas agradecidos por ter um ao outro. Soltamos Madruguinha, que permaneceu ali por perto da gente apesar de querer correr até o ofegar. O incentivei, mas seus olhos eram firmes em seu dono. Acho que ele sentia o quando Gab disfarçava a dor. Fomos para o nosso cantinho favorito, depois da escadaria do Museu, descemos a ladeira e sentamos ao lado esquerdo na grama verde e confortável. Encostei em seu corpo, que ficou apoiado na árvore. – Quer se deitar? – ofereci. Ele apenas sorriu, com os olhos animados.

– Aqui é público! Você sabe disso, não é, charmosa? – brincou, fingindo estar em choque. – Por Deus, eu queria que não fosse – mordi a pontinha da boca. Gabriel se afastou da árvore e tombou para trás, me levando junto até a grama. – Beija a minha boca faminta – ele exigiu. Fui até ele e degustei com paciência o seu sabor. – Não estou com gosto de remédio, né? – arregalei os olhos, brincalhona. – Seu bobo, claro que não! – ele gargalhou. Movi os dedos entre os fios de sua barba ruiva que tanto me conquistou. Em breve ela não estaria mais ali, sentiria saudade. De tudo. Disfarcei a dor que fortemente me atingiu. Gab pareceu sentir quando isso aconteceu e me puxou para mais perto. Olhamos para o céu muito azul, com nuvens dançando pra lá e pra cá. No fundo, bem distante, o Sol quase se pondo entre elas. Pensei que o astro-rei era como o Gabriel. Intenso, brilhante e quente, mas se escondia entre as nuvens nos momentos mais sombrios. Ele vinha fazendo isso constantemente. – Você é meu Sol – apontei o horizonte.

– Você é minha luz – beijou a minha testa. – Nunca estarei sozinho. – Não mesmo. Estará sempre aqui – apontei o meu coração descompassado. – Obrigado por fazer parte dos meus dias. Não te esquecerei, Char. Toda vez que mencionávamos esse fato, parecia uma última vez. A despedida. E quando ela chegasse de verdade? Eu seria forte? Ou desmontaria completamente? – Sabe, Gabriel, quando eu era criança, observava os raios saindo das nuvens e achava que eram anjos descendo na Terra para nos fazer companhia. Sempre tive esse pensamento ao ver esse efeito – apontei para o céu, o risco dos raios solares saindo pela nuvem. Ele sorriu e beijou a ponta do meu nariz.


– Sabe esses raios do sol saindo pela nuvem que mencionou? – apontou para o céu, fiz que sim. – Eu achava que eram pessoas que morriam e que estavam subindo ao céu. É mórbido, eu sei, mas desde pequeno imaginava isso – sorriu brevemente. – Não deixam de serem anjos, certo? – pisquei.

– Sim, não deixam. Ficamos por longos minutos assistindo os efeitos de luz, que variavam diante de nós. O barulho leve do vento passava por nossos corpos, parecendo uma canção vinda dos anjos que acreditávamos. Eu estava abraçada com o meu: o anjo Gabriel. – Acha que nos encontraremos em outra vida para continuar esse amor? – soltei sem filtro. Ele me apertou em seu abraço. – Espero que sim. Na verdade, desejo demais – ficou em silêncio um instante. – Se eu tivesse o direito de fazer um pedido antes de morrer, seria isso. Para que nos encontrássemos em outra vida. – Como seria? – fantasiei.

– Você seria a menina mais charmosa. Eu me apaixonaria de primeira. Sem contestação. – E você o rapaz mais bonito e galanteador que eu poderia encontrar e me apaixonar. – Podemos fazer um trato – ofertou. – De que tipo? – questionei ansiosa. – Bem, se daqui alguns muitos anos a gente se encontrar novamente, vamos ser muito amigos. Muito mesmo, com toda nossa verdade. O nosso amor reconhecerá na hora – acreditei em suas palavras. – Entretanto, precisamos de algo para ativar esse amor, Char! – brincou, animado. A nossa fantasia era a melhor. – Poderíamos dizer algo impactante, sei lá – brinquei. – Eu poderia dizer que você é louco por se apaixonar por mim de novo... de novo... e de novo! – beijei os seus lábios. Ele aceitou em silêncio. – Eu me apaixonaria por você em todas as vidas, de novo e de novo. Todas às vezes.

– Pena que a gente não se lembraria, ou será que existirá um monte de coincidências como nessa? – Faremos acontecer.

– Espero que a vida não seja tão malvada, e que dessa vez, tudo comece bem cedo... – cedi ao momento, tentando ver uma verdade tão longe da realidade. – Ah, não seja pessimista, eu consigo imaginar tudo. O desejo pode ser maior do que só vontade, e a realização maior do que apenas sonho. Vamos lá, Char. A gente vai se reencontrar e viver um amor louco e intenso. – Sabe o que a gente pode dizer quando notarmos que nos apaixonamos? – mencionei convicta de que isso aconteceria de verdade.


– Hmm, me diga, charmosa – ele me fitou profundamente. E ali nasceu a nossa promessa. – Eu vou dizer logo que te amo – seu olhar brilhou. – E você não vai acreditar, e dirá todo apavorado: jura? Então direi com a mais pura paixão: de fato! E aí, que tal? – meu sorriso era intenso. Nem acredito que fazíamos planos para uma vida futura que nem imaginávamos existir. Ah, mas a gente acreditava. E nada é mais mágico do que a fé e acreditar no amor. – Eu aprovo a ideia. Tá aqui registrado – ele apontou para o coração. – Mas acho que falarei primeiro que te amo... Vou te caçar por todas as vidas, Char. Eu vou te procurar sempre. – E eu vou te encontrar... Era a nossa promessa para que seguíssemos com essa vida. Observei Gabriel puxar do bolso um papel em branco que estava dobrado. Pensei seriamente que ele começaria a escrever algo, mas pelo contrário, seus dedos trêmulos trabalhavam em montar alguma coisa. O sorriso de menino despontou daqueles lábios saborosos e desejei ficar beijando sua boca até o anoitecer... Eu não conseguia desviar os olhos de seu rosto tão inocente. Era ainda mais doloroso saber o quanto sofria sem poder fazer nada. – Dizem que o amor é fácil de se afogar... – começou num tom muito sedutor, mergulhei em seu olhar, deixando meu coração numa poça apaixonada. – É? – ele fez que sim.

– Mas se você tem um bom barco, mais chance tem de se salvar... – Gabriel abriu a palma da mão direita e mostrou o pequeno barco de papel feito por ele. – Isso daria uma bela canção... – brinquei, pois ele já havia me apresentado.

– Agora pode ser uma das nossas, e acredite, você nunca estará perdida, Char, não vou deixar... – eu acreditava muito. E levaria aquele singelo presente por toda minha vida. – Vou remar até encontrar você, Gabriel – confessei, com a garganta presa num nó.

Eu sei que vai, Charlotte Sophie – ganhei um beijo na testa, depois seus lábios colheram minhas lágrimas, para logo depois meu pescoço receber atenção num longo cheirinho apaixonante. Ainda recebendo seu carinho, fitei mais a frente um casal de velhinhos. Abraçados, andavam bem devagar pelo parque. Gabriel seguiu os meus olhos e os viu. – Queria poder viver isso ao seu lado. Contar cada ruga com os lábios e recitar a nossa vida juntos – ele soluçou, sentido. Puxei o seu rosto em minha direção. – Eu queria envelhecer ao seu lado, mas está maravilhoso viver esses dias e aproveitar os instantes. Nada me faz mais feliz. – Queria te dar tudo. Filhos, risos, alegrias, a velhice ao seu lado – imaginei o quanto seria difícil ter uma vida sem ele, e esperar que a morte decidisse quando nos veríamos novamente. Ah, o tempo é malvado, mas também tão precioso... – Eu tenho você agora. E quero você agora – beijei sua boca com intensidade. Recebendo o amor dentro de mim.

– Eu tenho tudo com você. O presente é tão importante e é o que temos


juntos. Então só vamos vivê-lo. O futuro será recheado apenas de lembranças. Então aproveite, me ame como se não houvesse amanhã. – Assim será feito, charmosa.

Estava feliz, perdida nos braços dele, quando um cachorro enorme com o sorriso mais engraçado do mundo e a cara mais lavada da história, apareceu na nossa frente. Quando o fitei, gargalhei tanto que me faltou ar. Gabriel estava em choque, mas assim que ouviu a explosão da minha risada, ele fez o mesmo. – Madruguinha, o que é isso, cara? – Gab se levantou para ver de perto o que seu cachorro tinha feito. – Ai, meu Deus! Você está verde, Madruguinha! – gargalhei mais alto. E um monte de gente ao redor ria com a gente. O cachorro sem vergonha alguma ainda se remexia todo, atiçado e brincalhão. – Você rolou na grama recém cortada, não foi? – Gabriel olhou de onde ele tinha vindo, e o senhor que aparava a grama deu de ombros, quase se desculpando. Madruguinha exibia um sorriso cretino naquela boca enorme. – Cara, você está horrível! Mano do céu, você tá verde, amigão! – brincou, alisando o bicho que se remexia para o dono. – Você é muito levado! Enquanto a gente se distraia aqui, ele ficou rolando feito maluco na grama. Jesus, como vamos tirar isso dele? – cocei as orelhas do cão, rindo de sua performance. – Temos que levá-lo ao pet, mas isso aqui não sairá fácil – deu dois tapinhas na bunda enorme do cachorro. – Não foi a primeira vez dele. Da outra vez foi pior e ficou quase um mês verde – Gabriel colocou a coleira e fomos andando de volta para casa. – Madruguinha, você está verde, cara, você é o Incrível Hulk! – brincou, falando alto como se quisesse envergonhá-lo, mas o cachorro nem ligava e ainda se remexia todo quando alguém ria dele. – Exibido! – resmungou alegre. – Essa foi boa! Pude ver o quanto Gabriel tinha melhorado ao sair de casa, mas algo me dizia que tudo ali era uma perfeita ilusão... Como eu queria não estar certa.


Gabriel Eu ainda estou aqui Perdido em mil versões Irreais de mim Estou aqui por trás de todo o caos ~Sandy (part. Tiago Iorc) – Me espera~

Minha mente estava aprisionada em uma nuvem espessa, carregada de dores... Tudo parecia se estilhaçar dentro de mim. Eu tinha a ilusão de que no silêncio que seria invadido pela noite, eu esvaziaria minha alma agitada. Fitei o entardecer a minha frente, sozinho, enquanto Char se arrumava dentro do banheiro para mais uma noite. A última do ano. Naquele instante, eu parecia sentir toda a solidão do mundo em mim, a certeza de que em pouco tempo tudo aquilo ali me seria negado. Me deu uma imensa vontade de chorar. Não queria ser fraco, só gostaria de recomeçar... Penso mil por hora. Ajo um por segundo. Deixo a dor ir embora, na dureza desse mundo. Mergulhando ao redor, captei cada detalhe do meu paraíso particular. As flores, os cheiros, o lugar em si que era maravilhoso. Fechei brevemente os olhos e me permiti sonhar. Imaginei-me numa floresta, rodeado de árvores com as copas gigantes, o ar puro entrando por minha boca e me limpando, levando o câncer que havia dentro de mim para sempre... Charlotte apareceria então, coberta pela luz que combinava tanto com ela, pisando entre os cascalhos, fazendo um leve barulho. Ela de branco, linda e perfeita. A luz da minha vida. E eu a fitaria, hipnotizado por ela, enquanto caminhava para perto de mim, dizendo que eu estava curado... Era só o que eu precisava ouvir. O seu riso, a sua verdade, a nossa mentira inventada... Por que aquela não poderia ser a nossa verdade? Por que a vida quis assim? Teríamos uma chance, talvez, num futuro distante? Ah, creio que sim. Um dia nossos olhares se cruzariam novamente. E nos reconheceríamos. Casaríamos, teríamos filhos lindos e saudáveis. Teríamos uma longa história pela frente. Apertei mais os olhos, enquanto meu peito fantasiava e ansiava por aquela história que eu não vivera. Foi quando Char chegou, me mostrando o que eu poderia vivenciar ainda. Vi que estava com um vestido longo e branco, que para mim era mais do que um simbolismo para o ano novo. Era a nossa união, a nossa entrega. A libertação de nossas almas. A minha roupa não dizia muito. Eu estava de xadrez em tons fortes e diversos de marrons. E ri alto passando a mão por sobre a barba que voltou a ficar cheia e bonita. Ruiva e altiva. Charlotte veio para perto, ainda mais apaixonada, e tocou no tufo ruivo. – Meu lenhador – brincou enquanto beijava os meus lábios. Me deixei levar na fantasia.


– Minha deusa celta encantadora. Parecia que vivíamos em outro tempo. Uma nova era. – Eu aceito – ouvi de seus lábios muito vermelhos.

– Inacreditável. É real – agarrei seu corpo pequeno e leve. A parte de baixo de seu vestido flutuante parecia uma nuvem. Ela se enroscou ao meu corpo. – Você está curado – não era uma pergunta. Era uma afirmação. Aquela era a nossa mentira inventada, que levaríamos nos lábios até quando eu pudesse escutá-las. – Por você.

– Não, por nós. E de repente ela tocou as mãos espalmadas sobre a sua barriga. E ao entender o que ela gostaria de dizer, o meu mundo se coloriu. As árvores se agitaram com o vento que cantava nosso amor. O cântico mais antigo e bonito. Era o ano novo. A vida nova. – Somos muitos. Somos alma. Somos tudo – ela cantarolou, girando a minha volta. Agarrei mais uma vez o seu corpo e a amei ali, cheio de paixão. Enquanto ela girava acompanhando o sol, eu era sua força, a terra que a mantinha em pé. Deitamos sobre a natureza para sentir o coração do planeta bater, enquanto o nosso amor renascia... com verdade e.... – Gabriel, você está bem? – senti uma mão buscando a minha, me trazendo à realidade. Abri os olhos, que desejavam voltar para aquela cena ilusória, e as lágrimas escorreram sozinhas. Senti a brisa consumir meu rosto liso. – Sim, eu só estava sonhando.

– Sobre o quê? – Sobre nós. – Pode me contar? – Você está linda! – parei para fitá-la e mudei de assunto, pois estava sem ar. – Uau, charmosa, você está muito, mas muito incrível! Que presente de ano novo. – ela estava parecida com meu sonho. O vestido branco era sensacional em seu corpo magro e pequeno. Um decote rasgava em seu peito, descendo até quase o umbigo. – Quer acabar comigo antes da hora? – brinquei e ela me fitou, envergonhada. Eu amava isso nela. Depois de tudo, ela ainda corava. O tecido fino de seda se balançava de acordo com o vento que dançava ao redor de seu corpo. Mostrando mais as curvas, delineando mais a minha vontade. – Você não é mais o lenhador, mas amo ver o seu rosto. Você é muito, muito lindo, Gabriel.

– O que disse? – meu corpo se agitou. – Que é lindo. Você é incrivelmente lindo – recebi seus doces lábios carentes. – Não, sobre o lenhador – que sinistro. Será que eu disse algo em voz alta? – Ah, por causa da barba que usava. Ainda mais de xadrez como está, iria

parecer o meu


lenhador. Agora que está sem, parece um galã! – piscou, brincalhona. – Pensei nisso enquanto estava de olhos fechados... – e mais coincidências em nossa vida.

– Hmm, sério? No que mais pensava? – não queria contar que estávamos nos casando, que teríamos filhos... Vai que ela se sinta pressionada, sei lá. – Nada demais, só que estava linda e me chamava de lenhador.

– Meu lenhador! – abraçou meu corpo magro cada dia mais frágil. – Minha deusa charmosa. O abraço não parou por ali. Apesar do meu rosto se banhar com as mais sinceras dores da alma eterna, eu dei total atenção para a mulher maravilhosa que estava sempre ao meu lado. Durante poucos dias, meses inesquecíveis, mas que fariam a diferença na hora de deixar esse plano. Ela seguiria com o dela, e eu com o meu. Até nos encontramos novamente. Ah, espero que não demore... – Char, os seus olhos são as portas da minha salvação – beijei com cuidado seus olhos rendidos de amor, carregados de ternuras, vívidos o suficiente para recordar de mim. – Você é minha libertação total. Sem você, eu não teria sido nada. Essas seriam as nossas promessas para um ano que daqui a pouco se iniciaria. E não tinha certeza o quanto eu viveria dele. Pensei que fosse só ansiedade, aquele aperto incômodo. Mas são só pensamentos, flutuando e atrapalhando... Peguei o pequeno livro que o meu pai havia me deixado. Com a minha primeira história de verdade, e todos os sentimentos ali reconhecidos. Eu teria a minha menina do guarda-chuva vermelho sempre por perto. Sempre me mostrando o caminho certo. Comecei a ler para ela, e assistia de perto a fantástica magia que acontecia em seu coração puro. Charlotte é sincera em suas feições e eu as levaria comigo. – “Ela não poderia ficar para sempre na chuva de ilusões. Ela viveria sozinha, mas realizada. Seu amor próprio sempre preencheria o que lhe foi deixado. Ela precisava se amar para que conseguisse conviver com uma sociedade que exigia demais. Seus olhos eram um mar de emoções, mas ninguém enxergava as verdades secretas escondidas em sua fúria. A chuva mostrava mais do que ela mesma conseguia ver. Era o seu reflexo, sua dor eterna. Ela não estaria sozinha, mesmo sentindo-se. Ele prometeu...” – assim que terminei a leitura, nossos olhos estavam grudados. Eu tinha escrito isso há tanto tempo. E ainda assim, era carregado com verdades que durariam o resto de nossas vidas. Rimo para esquecer. Choro para lembrar. Sorrio para manter a doçura no olhar... – Você é maravilhoso. Eu te amo por me conhecer tão bem, desde sempre.

– Acho que sempre a senti de alguma forma. – Eu vou te esperar, Gabriel. Eu vou. – Eu vou te encontrar, Charlotte Sophie. Eu vou. Preciso de um abraço, daqueles que tocam a alma. Preciso de um sorriso, daqueles que acalmam... Os minutos seguintes foram de amor. A contagem regressiva mais esperada. Um ano que não


saberíamos o que esperar, mas que era bem-vindo. Assim que estourou o primeiro e brilhante fogo de artifício, riscando o céu com uma faísca encantadora, sorrimos um para o outro. – Feliz novo dia ao meu lado – sussurrei. Ela chorou.

– Feliz com mais um dia novo ao seu lado. Contaríamos assim, um dia de cada vez. Minhas lágrimas escorreram sem que eu pedisse. Era tristeza misturada a felicidade. Demos as mãos e fechamos os olhos. Rememorando o que vivemos em tão pouco tempo. Não foram trezentos e sessenta e cinco dias juntos. Não chegou nem metade disso, tão pouco um terço. Mas cada dia foi importante. Vivemos intensamente cada um deles. Eu aprendi e ensinei. Vivi esses dias ao seu lado. Sorri pelas besteiras e agora choro as perdas. Apesar de tudo isso, sobrevivi mais um ano. Era ótimo ter mais essa oportunidade para ver o dia clarear e tê-la por perto. A noite eu esqueço. No dia me iludo. No sol eu sorrio. Nas estrelas eu subo... – Gab, chore o quanto for necessário – suspirou em minha frente. – Sente a presença de Deus entre a gente? – estremeceu, passando uma energia intensa e maravilhosa. – Quero sentir isso ao ir... Char, agradeço por cada minuto que tive o prazer ao seu lado. Cada sorriso que disparou a mim. Senhor, obrigado por tê-la colocado em meu caminho, por ter me feito amá-la... essa felicidade sem fim estará na luz que verei. Nossas mãos unidas mostrava o amor e a benção que éramos juntos. – Cada dor não foi em vão, eu aprendi com cada uma delas. Agradeço, senhor, pela força divina que esteve presente em minha vida. Você me fez forte... – beijei sua testa, respirando seu amor. Char estava trêmula, emocionada. – A sua dor é a minha dor. Obrigada, senhor, por me fazer suportar esse caminho tão árduo, tão perfeito, tão nosso... – sua voz estremecia o meu mundo. Esquentava meu coração. – Agradeço esse ano que passou e pela oportunidade de cada dia que continuarei tendo ao seu lado. A dor continuará a me seguir, Char, mas quero e peço que siga a sua vida quando eu não estiver mais nela. Promete isso, agora, nesse momento? – A vida não será mais a mesma sem você, mas prometo que seguirei. Sendo eu mesma e me amando por nós dois. A partir desse instante a estrada é comigo, e eu serei feliz, por nós. – Eu encontrarei sua luz, charmosa.

– E eu o seu amor, anjo Gabriel. E foi com essas juras que os fogos explodiram no céu, assim como dentro de nós. O amor divino de Deus nos preenchia, e fazia valer a pena cada promessa. Seguiríamos e cumpríamos o nosso destino. Amém.


Cada dia que passava eu não conseguia deixá-la. O amor era a raiz mais forte a me prender, o remédio mais poderoso. Sei que não apenas me curava, mas a sarava da mesma forma. Seguindome, fortalecendo-me sempre que podia. Eu passava dias ruins. Muito, muito ruins. Mas também dias bons. Estava careca, magro e cheio de hematomas, mas amando passar dias incontáveis ao lado dela. Uns no hospital com uma agulha intravenosa atravessada no corpo. Outros em casa, vomitando entre um filme ou a releitura de algum clássico. A fraqueza dominava dia após dia. A morte se aproximava, ou então ia embora de vez, dando esperanças. Renovando os meus dias. Estava já em casa, depois de muitas sessões de quimioterapia. Fraco e sem sentido. A vontade de viver por ela me mantinha em pé e acordado muitas vezes. Ela cuidava de mim, me dava abraços e beijos apaixonados em minha boca seca e rachada. Eu não tinha nada de sensual. Me vi no espelho. Mas o seu amor nunca morreu, nem mesmo quando me segurava para botar o que não tinha dentro da barriga para fora. Eu renascia com o seu amor. Aqueles olhos eram a minha salvação. Rafael estava consumido por minha doença. Tão magro quanto eu. Só que eu não tinha forças nem para brigar com aquele ser humano teimoso! – Tá parecendo uma caveira – fechei a cara assim que consegui sentar no sofá.

– Tô trabalhando direto. – Sei. – É sério, pode perguntar para a Marcela. – Vocês mentem muito bem, os dois juntos. – Você tá sentindo alguma dor? – suas mãos unidas diziam o quanto estava preocupado, já que os nós de seus dedos estavam esbranquiçados. – Sempre, né Rafa.

– Cara... – ele desabou. E eu não tive forças para consertá-lo. – Não faça isso com você, por favor. Já estou machucado o bastante por deixá-los. Sabe que não é escolha minha, eu te amo e estarei para sempre ao seu lado. – Vai ser difícil pra caralho, Gab. Não consigo... – tentei respirar, mas não conseguia. Meu peito arfava e doía mais. – Terá que ser forte, irmão. Por você, por mim e por elas – ele não levantou a cabeça que estava entre os dedos fechados. Ele chorava sentido, dolorido, quebrado pra porra. – Não é a primeira vez... Sabíamos disso, cedo ou tarde. – Essa porra toda é tão injusta! – gritou e levantou-se, agitado. Seu corpo tremia por completo, e sei que ele despencaria no chão a qualquer instante. – Vem aqui, Rafa, por favor. Aqui – ordenei com a voz tranquila. Rafael veio se rastejando até se ajoelhar em minha frente e colocar a cabeça em meu colo. – Sabe o tamanho do meu amor por


você, não é? – toquei trêmulo em seus cabelos loiros e lisos, e recebi aqueles olhos coloridos de volta. Não queria deixar meu melhor amigo, não queria mesmo, seria muito mais difícil para ele. Eu já tinha aceitado a minha morte. – Rezei durante toda minha vida, mas agora... – o cortei antes de dizer qualquer coisa que se arrependesse quando caísse na real que tudo valeu a pena. Que eu iria embora, mas ficaria toda a nossa vida juntos como um presente, a lembrança viva dentro dele. – Shhiii... Deus ainda é maravilhoso. E sempre será. Lembra? – toquei seu peito. Ele ofegou se tremendo. E a mesma energia que senti com a Char, era mais forte com ele. Era a nossa ligação. Acreditávamos ser anjos bons na terra. – Ele estará vivo dentro de você. Sabíamos disso. Você é bom, mas Deus precisa de pessoas boas também ao seu lado. E estarei lá de cima vigiando e cuidando de você aqui na terra. Enquanto você cuida do meu anjo. – Gab, obrigado, irmão, por tudo. Você estará vivo dentro de mim... Nunca me abandone, por favor. Faça esse fervor, essa glória que carregamos dentro da gente nunca se apagar. – Jamais se apagará. Essa é a nossa ligação, nossa fé, Rafa. Você acredita em Deus, porque Ele está vivo dentro de nós! – abaixei e beijei sua testa. Ele chorava tanto, desesperado e despedaçado por essa dor de que não viveríamos mais no mesmo plano. – Me sentirá aqui, todos os dias, durante todo o tempo. – Eu creio – abraçou fortemente minhas pernas finas.

– Claro que crê. Você é luz, e eu seguirei essa luz, Rafa. Vou atrás de satisfazer a vontade d’Ele. Estarei ao seu lado, regendo a sua fé. Nada foi em vão. Tive muito aprendizado em minha curta vida, mas farei com que cada segundo compense. Sei que levei muita coisa boa, deixei muito de mim espalhado por aí. Alguém um dia me lerá, saberá o que meu coração cantou e viveu. O que eu sei de mim todos saberão... eu vivi, sofri e morri... mas estive aqui. Fiz meu melhor, deixei amor e plantei fé. Isso é mais do que suficiente para viver uma vida plena e feliz. Viva por mim, viva por sua felicidade. É só o que te peço... Viva por nós, amigo. Meu anjo Rafael. – Obrigado por ter feito parte da minha vida, e a tornado melhor. Por ter me feito fiel. Por ter sido meu amigo nas horas mais difíceis e por ter rido da minha cara de bobão nas partes alegres. Você foi essencial e jamais esquecerei esse calor de irmão. Esteja comigo, sempre. – Eu estarei, amigo. Eu estarei. E estive, por mais alguns dias... Longos dias recheados com mais dor e agonia. Mas também o alívio. Apreciando a benção de cada amanhecer. Foi em um deles, que jurei meu amor eterno. Que deixei as mais sinceras palavras de minha alma, pois foi na mais profunda e sombria aflição que encontrei a luz. E que minha escuridão vire um milhão de poemas iluminados... Nada está perdido Por mais que queiras achar o motivo


de cada hora parecer aturdido lembra-se que os dias são adaptativos. Busco cada vez renovar Em cada linha desenhar Os meus mais puros desejos De estar contigo sem anseios. O fruto que é o teu beijo A cobiça que exijo Dos meus sonhos a tentação Você é inspiração. Levarei tua marca, teu cheiro de jasmim O que eu sei de mim? Eu vivi. Senti. Morri.


Charlotte Não sei Por que você disse adeus Guardei O beijo que você me deu ~Eu sei – Papas da língua~

Acabei voltando para casa quando notei que Gabriel havia melhorado, e trouxe Madruguinha comigo. Precisávamos deixar algumas coisas em ordem, tanto eu quanto ele. Rafael queria passar uns dias com o seu amigo e nada mais justo que eles compartilhassem o máximo de tempo possível, juntos. Gabriel parecia bem, recuperado de alguma forma ao lado do amigo. Ontem passamos um dia lindo, nós quatro. Marcela e eu fizemos um jantar incrível e delicioso. Eles comeram feijoada vegetariana e quase surtaram por terem amado tanto. Conversamos até tarde e ficamos relembrando algumas coisas que vivemos juntos em tão pouco tempo. Por que o destino não nos uniu tempos atrás, para que pudéssemos ter a mínima chance de viver melhor essa felicidade? Essa era a pergunta que pairava entre nós. Cada vez que mencionávamos os preciosos detalhes, eu via o brilho se apagar em Gabriel quando contávamos alguns planos futuros. Ele dizia que se sentia bem, gostaria que fizéssemos isso, e nos apoiava a pensar em um futuro sem ele. Era terrível imaginar, mas aquilo era a cruel realidade que teríamos daqui para frente. E precisávamos aceitar. Em nossa história de amor curta e proveitosa sabíamos que não havia um vilão pessoal. Não tivemos os famosos altos e baixos da vida. Ela quem nos deu a própria rasteira, o destino foi o nosso vilão! Eu tinha minhas dores e segredos, Gabriel a sua doença. Ele lutou durante anos, mesmo quando eu não estava presente. Foi firme na vida e fiel ao melhor amigo. Doou seu tempo e doces histórias. Espalhou suas palavras e transbordou alegria e amor por onde passou. E quando o encontrei, ele me libertou. Dizendo-me o quanto poderia ser completa. Sem que tivesse a pressão da sociedade dizendo o que deveria fazer com meu corpo. Eu não era obrigada a nada. E o meu imenso prazer estava dentro de mim mesma. Em aceitar e acreditar que poderia conviver com meus grilos e minhas ansiedades. Que não deveria me entregar caso não quisesse. E eu fui dele, só dele. Gabriel esteve mais presente em minha vida, dentro do meu coração, sem precisar estar literalmente dentro de mim. Ele me libertou. Eu o amei. Eu o salvei. E ele descansaria. Ele me encontraria. E eu o esperaria.


Era isso que aconteceria em nossa vida. Era nossa única certeza.

Marcela havia reservado um tempo para nós já que era o seu aniversário. Tinha saído mais cedo da agência e me telefonado. Eu não tinha voltado a trabalhar na biblioteca. Enquanto isso, entre uma garfada e outra no cupcake, eu sorria sincera a minha amiga que contava alegremente como passava seus dias ao lado do namorado. – Ah, Char, Rafael é tão maravilhoso... – suspirou pela milésima vez.

– E seu ex, voltou a ligar? – mencionei, já que ela estava meio assustada com o cara que não parava de ligar, e foi um dos motivos que veio me procurar para conversar. – Sim, aquele cara tá me deixando acuada com suas atitudes. Quando me tinha não fazia nada, agora que perdeu, fica me perturbando – bufou agitada. – Toma cuidado, Má, fica em alerta e avisa ao Rafa qualquer estranheza. Não sabemos como esse tipo de surto pode nos atingir – pensei brevemente em Vinícius e no que faria comigo. Cheguei a ofegar. – Já deixei avisado sim, e faremos o que for possível para mantê-lo longe de nós – seus olhos estavam radiantes, realmente Marcela havia se apaixonado. – Rafael me protegerá de tudo, ele cuida de mim. – Lembra que me disse que era sem coração, você estava errada – pirracei, ela mostrou a língua.

– Não sabia que seria dessa forma! – mencionou alegre. – Vocês foram maravilhosos em juntar nossas vidas... – tomou um gole de seu suco, enquanto eu bebericava meu chá. – Acho que era inevitável, foram feitos um para o outro. O destino cuidaria disso... – refleti agradecida que pelo menos ela estaria em seu destino. Eu não tive a mesma chance nessa vida. Marcela me fitou cheia de amor ao ver meus olhos lacrimejarem. Antes de dizermos qualquer coisa, ouvimos risadas altas na mesa ao lado. Duas mulheres compartilhavam seus segredos e se divertiam com isso. Rimos ao ver a cena, já que elas gargalhavam animadas. Uma era ruiva, que estava de costas para mim, e a morena chegou a me encarar, seu sorriso era encantador, quase acolhedor. Tinha os cabelos cumpridos e franja longa, quase tapando seus imensos olhos azuis como uma bela turquesa. Suas bochechas estavam coradas, deveria ser pelo assunto. Sorri de volta e me concentrei quando Marcela tocou minhas mãos. – Eu rezei tanto para que você fosse feliz, Char – sua voz falhou.

– Eu fui – a minha falhou também, por toda minha sinceridade. – Notou como ele está bem? – fiz que sim, ainda olhando de relance para a mulher na mesa ao lado, me distraí em seu sorriso alegre e nos olhos afáveis. – Gabriel é forte demais, não podemos perder a fé, Char, ele está melhorando... – Está sim, eu acredito em mais dias ao seu lado.


– E terá, amiga. Assim que a mulher voltou a me olhar, senti algo me puxando. Uma dor no peito preencheu o medo de perder Gabriel. Quis gritar! Então me levantei, empurrei a cadeira e quis correr para longe de tudo. Só queria estar com ele... Corri pro banheiro, mas assim que cheguei à porta, ouvi a voz de Marcela, não entendi muito bem, mas algo em minha frente chamou mais a minha atenção, porque meu mundo escureceu... Havia um homem. Meu corpo estremeceu, enfraqueceu. Ainda mais pela situação, já que estava fechando suas calças, prendendo firme o cinto... quase minhas pernas falharam, então mais uma vez quis gritar, porque tudo dentro de mim, desmoronou. As lembranças, recordação do que não suportava, ver aquele cara fazendo aquele simples gesto de fechar as calças fez com que meu corpo entrasse em pânico. – Ora, ora... se não é ela – ouvi de seus lábios. Fechei meus olhos, não querendo ver a situação da qual me envolvi. – Saia da minha frente, seu monstro! – grunhi. Ele sorriu. Aquele sorriso cheio de escárnio.

– Foi você quem entrou num banheiro masculino, princesa! Agora tá fácil assim? – ele tocou em meu queixo, e num instinto feroz empurrei suas mãos e quis fugir dali. E foi quando Vinícius agarrou meu pulso, lutei, mas não precisei de tanto ao ver duas mulheres em minha frente, com o rosto ainda mais assustado, entretanto, quase familiar. – Larga ela agora! – a ruiva mencionou com a voz alta, e assim que consegui me soltar, vi Marcela me puxando. – Seu cretino! Fique longe dela! – escutei minha amiga gritar, mas tudo ao meu redor estava uma bagunça. – Suas malucas, ela quem entrou aqui! – o vi saindo pela porta da frente, e não consegui sentar quando as três tentavam fazer isso. – Charlotte, está tudo bem! Olhe para mim, respire!

– Respira, por favor! – Você está segura, apenas respire... – senti um toque confortável, então notei os olhos azuis de frente comigo. – Ele já foi embora, está entre amigas. – Eu não quero viver para sempre sem ele... – resmunguei chorosa. Então caí num choro descontrolado. As três me fitavam sem entender a minha questão. – Eu não posso viver sem ele... eu prometi, mas não consigo, não posso... – senti abraços ao meu redor, e todo meu corpo ainda tremia. – Meu pior medo estava aqui... ele estava... aquele sorriso... o cinto... meu medo... meu corpo... não posso! Não posso viver sem Gab para me salvar... – as palavras saíram sem controle. – Só respire, Char...

– Não dá! – gritei, agitada. – Ficará tudo bem, eu prometo! – o que aquela mulher de olhos turquesa poderia me prometer?


Ninguém podia fazer nada. – Será? – encarei as três de frente comigo.

– Você é mais forte do que seu medo. Acredite, as coisas sempre mudam, mas o que é para ser nosso, sempre volta! – a ruiva mencionou convicta. Eu acreditei. Fui embora com Marcela, mas sabia de apenas uma coisa: um dia, as coisas estariam no eixo. Eu teria o amor de Gabriel gravado para sempre. Tristeza não é perder, é nem tentar. E eu viveria tentando por ele. Esquecendo minhas dores, afastando meus medos, e vivendo dias ao seu lado enquanto ele respirasse e me permitisse que fizesse o mesmo... Eu respirei.

Um mês havia se passado, depois do ocorrido na cafeteria que nem ao menos contei ao Gab, não era preciso ter mais preocupações. Eu não conseguia esquecer o sorriso nojento de Vinícius, mas tentei me concentrar na melhora que Gabriel vinha enfrentando vagarosamente. Sentei em minha janela, vendo a chuva ganhar o dia e receber a noite. Fiquei a tarde toda ali, lendo e pensando em Gabriel. Hoje Rafael o levou ao médico para receber mais uma sessão de quimioterapia e tomar mais remédios para o seu corpo fraco. O vi rapidamente quando passaram por aqui, mas beijei-lhe a boca e o abracei sem demora, sentindo-me confortável naquele espaço que era o meu lar, provando o tanto de amor que tínhamos um pelo outro. Seus olhos estavam preenchidos de amor e seu sorriso, apesar de curto, era atraente e acolhedor. Quando eu fechava os olhos, eu podia senti-lo todinho. Como se ele preenchesse cada partícula do meu corpo. Meu coração batia num ritmo dele. Com os olhos radiantes e um pouco atrevidos, o convidei para entrar, mas infelizmente, Gab quis ficar sozinho em sua casa, ele tinha o dom de esconder suas dores num sorriso alegre, não insisti. Enquanto fui dar uma volta com Madruguinha, que estava mais cabisbaixo do que nunca. Acho que ele já sentia a falta que seu dono faria. Meu coração apertou de forma mais intensa no peito. Gabriel era insubstituível. Peguei a xícara de chá na cozinha e esquentei o que estava no fogão. Preenchi a xícara com o líquido doce e voltei para a janela, que estava sendo castigada pela forte tempestade. Escutei um farfalhar na sala. Era o cachorro. Ele odiava chuva, sem contar os raios e trovões que faziam barulho de vez em quando, riscando o céu. Desci de mansinho para não assustá-lo. Eu tinha comprado uma caminha supercara a ele, para que ficasse confortável, mas o bicho é tão preguiçoso que só colocava a cabeça apoiada. Sorri ao vê-lo da mesma forma que sempre ficava, até que ele se levantou, altivo, como se tivesse ouvido alguma coisa, já que suas orelhas se ergueram. Então ele olhou para mim, depois para porta. Meu peito sufocou. – Eu sei, amigão, a chuva é feia! Vai passar. Só tente dormir um pouco, ok? – alisei seus pelos, e perto de sua orelha estavam atiçados. – Fique calminho, já vai passar.


Meu coração não parava de disparar alarmes. E meu estômago estava num nó encrencado. Eu sentia que algo estava acontecendo, só não queria ver a verdade. Queria me consolar no cachorro, fazendo-o também ficar calmo. Ou talvez fosse a agitação dele que me deixasse assim. Ou não... Ele correu até a porta. Madruguinha começou a latir intensamente para a porta, de uma forma chorosa e arrebatadora. Meu corpo entrou num estado de alerta já que suas patas imensas começaram a arranhar a porta de forma obsessiva. – Ei, fica calmo, amigão! – tentei puxá-lo, mas sua força era maior. Ele estava obstinado a arrancar a porta se eu não abrisse. – Quer sair a essa hora? Tá chovendo! – tentei convencê-lo, mas nada adiantou. Amarrei seu corpanzil à coleira e abri a porta no segundo seguinte. Peguei o guarda-chuva perto da escada e fui arrastada por ele para fora. Madruguinha não tinha freio! A chuva intensa nos castigava, mas ele nem notava qualquer pingo. Já encharcado, andando de um lado ao outro, desesperado, caçando algo, querendo mais do que tudo alguma coisa. E foi quando eu mesma notei o que era ao chegarmos na casa de Gab. Um pequeno facho de luz brilhava na janela. Uma vela tremeluzia dentro do quarto. E o cachorro passou a uivar alto, chorando para entrar. Já sem querer sentir qualquer coisa, me ajoelhei e abracei o enorme cachorro, sem conter as lágrimas. Madruguinha sentiu a perda de seu dono e companheiro. Não quis entrar de momento, estava sem forças. Apenas abri o portão e deixei ele entrar. Rafael saiu lá de dentro e abriu a porta para o cachorro. Sua feição acabada dizia que ainda havia um último suspiro. – Ele sentiu alguma coisa... – choraminguei sem força de continuar. Rafael desceu correndo para me amparar. – Ele tá lutando, Char. Eu não sabia, mas senti algo ruim e fui vê-lo. Sobe e se despeça. Ele precisa de você. Queria os melhores ao seu lado. Vamos, tenha fé e força. Vamos deixá-lo ir, Char... – Rafael chorava tanto que ao me apertar em seu abraço, sufoquei. – Eu não consigo, Rafa – queria gritar. Eu queria dar o meu ar para que ele sobrevivesse. Estava sendo egoísta, mas não queria que fosse essa hora, ou nenhuma. – Droga, ele estava tão bem hoje mais cedo, por quê? – agora gritei, e Rafa me segurou. Ao receber os braços de Rafael como da primeira vez que o vi, era como sentir as suas asas ganharem vida e me encherem de coragem. Me senti protegida e abençoada por tê-lo ainda por perto. Gabriel estava nos deixando, era horrível pensar nisso, mas a energia que estava ao meu redor me deu forças para ir até ele. Subi as escadas correndo, mesmo ensopada, com o moletom grudado no corpo. Eu o vi deitado, Madruguinha com a cabeça enorme enfiada nos braços dele, o seu melhor amigo. O cão gemia de forma baixa e dolorida. Ele sentiu que Gabriel nos deixava, e merecia sua despedida. – Ei, meu amigão... – um suspiro de voz soou de seus lábios finos. – Eu disse que iria morrer


nos braços de um amigo e você nunca esqueceu... – tossiu tão fraco, que era só um suspiro longo. – Obrigado por trazê-la aqui. Por estarem aqui... Madruguinha chorou. Uivou e lambeu todo o rosto do amigo. Depois se sentou na frente da cama. Minhas pernas enfraqueceram, mas Rafael de forma delicada me levou até lá. – Estou aqui, moço bonito – minha voz quebrada não saiu alto, mas cheguei bem perto e senti como estava frio. – Eu sei, charmosa... – sorri, deixando as lágrimas me invadirem.

– Obrigada por tudo. Eu te amarei para todo o sempre. Até você me encontrar novamente – abracei seu miúdo corpo frio na cama. Rafael estava com as mãos em cima dele, cuidando e confortando na hora que mais precisava. – Não chora, amor, ficarei bem, pois você me deu tudo de mais precioso nessa vida, os seus maravilhosos beijos, seu tempo, seu sorriso, até sua dor, Char, você lutou por mim, deu-me o seu amor... – consegui, mesmo em meio às lágrimas ver o seu sorriso fraco. Meu Deus, como ele era forte, como lutava! – Não dá... eu não posso... não quero... – beijei sua boca. Ele suspirou na minha, deixando o que eu mais precisava, e tudo o que eu queria era o que os seus lábios me permitiam naquele momento. A saudade que ficaria... lágrimas de dor escorreram... – Precisa me deixar ir, Char... – meu pequeno mundo se abalou. Estava quebrada, partida em mil pedacinhos de dor. O tempo havia me enganado, mostrado como estava bem, mas agora, nesse minuto o está tirando de mim. Não posso... – Vamos, Char, deixa-o ir... – Rafael tocou na cabeça do amigo, tão frágil.

– Não posso! – uma gritaria dolorosa duelava dentro de minha dor mais profunda. – Vá, meu amigo, descanse e se cuide... – Rafael recitou, e eu queria gritar, mas estava sem força. – Eu te amo, charmosa. Eu te amo, amigão. Eu te amo, Rafa... valeu por tudo.

Por favor, fique comigo... – sussurrei em seu ouvido, sentindo seu coração tão fraco, sumindo... resistindo... indo embora. – Só... diga.

– Tudo bem... – meu coração aceitou. Mesmo destruído. – Eu vou te achar, Charlotte Sophie. – Pode ir... vou te esperar, Gabriel. Tudo que eu precisava era acreditar. – Adeus... E no mesmo instante, a vela se apagou. A luz dos seus olhos ficou cinza. A sua respiração sumiu. O seu imenso coração bondoso, parou... Gabriel Novaes partiu.


E eu morri um pouquinho tambĂŠm. Somos feitos de dores. Uma pitada de sabores. Transbordamos humores. Mas no final, quem sabe, nĂŁo passamos de meros amadores...


Charlotte Eu sou pequena Estou carente Me aqueça E me respire ~Sia – Breathe me~

A dor me consome como fogo. Queima a paredes do coração, arde nas veias, explode no peito, querendo reacender alguma esperança. Mergulhada na escuridão, não conseguia discernir as lágrimas que me escorriam pelo rosto. Eu queria estar sóbria, mas era impossível. Deixaria apenas acontecer aquele sombrio dia em que ele estava diante de mim, sem vida, esticado em uma caixa marrom, coberto por pequenas flores amarelas. Depois da confusa correria do luto esperado, mas nunca desejado, desejei berrar meu desespero, clamar por sua vida, expor tudo que bagunçava a minha mente e o coração. Eu só precisava de ajuda para respirar... Meus suspiros trêmulos mostravam o quanto eu estava desnorteada, já que não podia trazê-lo de volta para mim. Mesmo que dentro de mim houvesse uma gritaria, onde tudo desmoronava, no corredor em que aguardava o senhor Miguel vesti-lo, junto ao Rafael, permeava o silêncio. A única melodia audível era a minha respiração perdida. Ali estava tão frio, tão pequeno, eu estava tão carente, tão desordenada... Abracei-me por defesa, por perceber que não conseguiria viver sem ele... Nós não tivemos escolhas, e durante todos os segundos desde que ele partiu, silenciosamente, eu repetia que tínhamos sido felizes, que nos amamos da melhor maneira possível... Foram tão poucos dias, meu Deus! Agachei, encolhida e chorosa. Quebrada e incapaz de respirar novamente. Permaneci por não sei quanto tempo, até que alguém me carregou. Depois me levou embora. Só então alguém me vestiu. E lá estava eu, de frente ao meu amor indefeso, inerte, longe, etéreo. Nesse momento, eu não sabia em mais quantos pedacinhos seria quebrada, destruída, partida... Ao me aproximar, assisti seu semblante confortável. Gabriel descansava. Não teria mais dor. Gostei de pensar que sentiria alívio a partir de agora. Fizemos de tudo por ele. O deixamos seguir adiante, buscar o conforto de Deus. Ainda sentíamos o seu olhar e amor ao nosso redor. Sabia que ele renasceria em algum lugar bom, pois merecia. Passei o dia tocando suas mãos frias, beijando-lhe a face pálida, memorizando o doce sorriso no canto dos lábios finos e rachados. Mas o importante era que ele estava livre, abençoado e cheio de luz à sua volta. Recebi as flores em seu nome, junto aos sentimentos mais puros e confusos, a dor no peito que


rasgava e sangrava. Cada momento foi precioso, sentido e marcado à fogo na minha memória. Dona Clô, sua vizinha querida, estava em pedaços. Chorou em meus braços e recitou coisas lindas sobre ele, que ficariam para sempre no humilde coração dela. – Menina, pensei que eu iria primeiro. Ah, esse barbudo era tão bondoso. O nosso senhor bom Deus o quis ao seu lado para ajudá-lo a reinar... Concordei, limpando automaticamente as lágrimas que escorriam no rosto acostumado pelo sal que deslizava. Observei antes de colocar os óculos escuros que Rafael abraçava Marcela, a mulher que naquela hora e todas as outras seria o seu apoio. – Ele está tão sereno, sem dor, Char... – ele comentou vindo para perto, enlaçando seu braço a minha volta. Senti sua proteção eterna. Encostei minha cabeça em seu peito, ouvindo suas fortes batidas ritmadas ao nosso pesar. – Quer comer algo? Ir ao banheiro? Logo mais teremos que deixá-lo de vez... – ouvir isso doía, sangrava dentro do meu peito. Marcela tentava ser gentil mesmo depois de dez horas sem colocar nem água dentro de mim, mas eu não me movi. Não tinha disposição. – Eu sei, estarei pronta na hora – resmunguei sem sentido. Até que senti uma mão tocar no meu ombro. Quase não tive forças para tirar os olhos de Gabriel e ver quem estava ao meu lado, prestando suas condolências. Não fitei a pessoa, mas ouvi a voz na mais profunda compaixão. – Eu sinto tanto. Ele foi maravilhoso a vida toda. Sinto muito por sua perda, pela dor que ele viveu. Vi nos olhos dele o quanto te amava e sempre amará. Você fez dos dias dele os mais sinceros e felizes que alguém poderia ter feito. Obrigada. Não precisava olhar, mas o fiz. E reconheci a moça acabada, a dor exposta em sentimentos afetuosos. Não tinha porquê não receber as palavras de Carla, pois eram sinceras e verdadeiras. – Obrigada – deixei que o meu silencioso sofrimento dissesse mais do que esse simples gesto. Ela entenderia a minha situação, pois um dia, ela também o amou. Permaneci quieta, ouvindo os choros baixos e sussurros. Madruguinha estava aos meus pés, cabisbaixo, miúdo como uma bola de pelo indefesa. Uns me abraçavam sem dizer nada, outros tocavam meus ombros, os olhos dizendo o quanto sentiam muito. A morte era sempre assim. Por toda a vida remoeríamos o porquê e nos lembraríamos o quanto a pessoa foi boa. E isso ele tinha sido, muito. O meu anjo. – Charlotte, precisamos levá-lo. Está na hora. Depois de algumas horas, o senhor Miguel me tirou do torpor e agora a dor seria sentida com um pouco mais de afinco. Eu o deixaria para sempre, e não poderia mudar isso. A caminhada foi longa, o choro alto. A terra aberta, o sol escondido, tímido entre as nuvens. Fitei o céu através dos óculos escuros, os raios solares entre as árvores. Paramos de frente a lápide de sua mãe, onde ele permaneceria junto ao seu eterno amor. Antes de descermos o corpo dele, fizemos uma linda oração junto ao padre da comunidade, que disse lindas palavras, transbordando o meu coração. Acreditando de vez que ele estaria com Deus, e que Ele não tinha sido malvado em levá-lo.


Gabriel era parte de seu exército. Um anjo forte. Então, tinha chegado a minha vez. De me despedir. – Quando você se foi, sabia que a minha vida se transformaria. Perder o seu sorriso foi como criar a minha volta uma sombra profunda e escura, que começou a se espalhar por nossos corações. Gabriel, você foi maravilhoso em nossa vida. Deu-nos motivação e escreveu linhas profundas, ditada por seu amor e bondade. O amor transbordava, mostrando o que havia de mais intenso em seu coração. Nossa história não acaba aqui. Ela começa... O destino mostrou a que estamos unidos não só pelo passado, mas também pelo futuro. Então, com toda paixão imposta para nós, vivemos o presente. E como foi maravilhoso... – engasguei. Meu coração batia na garganta. Precisava que alguém me envolvesse num abraço para que meu coração não se sentisse tão nu. Tão vazio, quebrado. Meus ossos viraram pó. Respirei fundo antes de continuar. – Gabriel, você viveu cada segundo dessa batalha sendo um ótimo guerreiro. Um homem fiel a seus princípios e crenças, que acreditava no amor de Deus e em como Ele estava vivo dentro de você. Às vezes, na calada da noite, você sonhava e repetia com fervor... Se Deus não está morto, eu também não estarei... Eu amava ouvir isso. No final de tudo, a morte chegou como um anjo recebendo em seus braços a alma mais pura e gentil. Você se despediu de nós feliz, ao lado de quem o amava. Você adormeceu, como toda pessoa um dia terá o direito. Deus o acolheu em Seu paraíso, em Seu manto sagrado. Agora, devo deixá-lo descansar sereno e amado. Devo olhar para o futuro, aguardando ansiosamente dias melhores, até reencontrá-lo... Palmas leves e carregadas de emoções ressoaram. Enquanto isso, depositei em suas mãos envolvidas por um terço azul, um pequeno barquinho de papel, igual ao que ele havia me entregado, para que ele sempre tivesse a chance de se salvar e me encontrar... e com essa despedida, o caixão se fechou. E pela última vez vi o seu rosto, senti a sua pele. Não o teria mais, viveria para sempre perdida num mar de ondas frenéticas... – Obrigada por tudo, meu anjo, meu amor Gabriel. Depois de fecharem o túmulo, Rafa ajudou a colocar as coroas de flores, e o momento mais bonito chegou quando Madruguinha colocou com sua boca, o enorme girassol que estava em minhas mãos sobre sua lápide... Agachei abraçando-o, confortando-o mais uma vez. Toquei as flores e o girassol e, naquele instante, um delicado raio de sol atingiu minhas mãos, e senti o amor dele em mim. Era Gabriel mostrando o quanto estaria perto de mim, de nós. Que ele descanse em paz, até nos encontrarmos... Amém.

No final de tudo, eu vivi intensamente, cumprindo cada meta que impus para seguir os meus dias, tendo fé de que um dia iríamos nos reencontrar. E hoje, só tenho uma única e delicada certeza: eu tive muitos amores, mas nenhum dentro de mim como Gabriel...


Rafael Para a nossa tristeza, Charlotte Sophie nos deixou. Não foi muito tempo depois do Gabriel. Foi o bastante para que ela lançasse os livros dele, uma coleção inteira, que vem fazendo um sucesso danado. Aquela menina com os olhos gentis e uma imensidão do mar nos deixou nova demais. Morreu de saudade. Nos deixou por amor, por não aguentar passar uma vida inteira esperando por ele. O corpo entrou em abstinência desse sentimento forte e verdadeiro. Os médicos nunca imaginaram que uma mulher jovem e forte como ela morreria do coração. Sem ao menos ter motivos para isso. Bem, é que não conheciam o amor deles. Ela ficou em paz. Seu sorriso foi doce. Sua perda irreparável. Charlotte morreu no dia em que completou dois anos da morte de Gabriel. No mesmo dia... Agora eu cuidaria da minha vida. Marcela não ficaria sozinha, por mais que sua amizade fizesse falta dia após dia, eu cuidaria de seu coração. Preenchendo com muito amor e dando a ela razão para me amar, já que me fazia se apaixonar por ela todos os dias. Eu a pediria em casamento, faria com que nossa vida fosse completa, porque ela já era o que faltava em mim...


Epílogo Não sei porque estou assustada Pois já estive aqui antes Cada sentimento, cada palavra Já imaginei tudo ~Adele – One and only~ ~Janeiro/1999~

Era uma manhã como outra

qualquer no parque Villa-Lobos. Os risos e as brincadeiras ecoavam pelo vento, carregando uma magia inocente pelo ar. Uma menininha de cinco anos que estava balançando alto, enchendo o ar com seus sorrisos infantis, acabou caindo no chão com um estrondo. Seu choramingo cheio de dor começou a chamar a atenção de quem estava por perto. – Ei, você se machucou? – uma garotinha com mais ou menos a mesma idade se aproximou, solícita. – Sim, tá doendo! – olhou para os joelhos ralados que sangravam. A garotinha, atraída pelo choro, sentou-se próxima a menina chorosa, analisando meticulosamente o que havia acontecido no joelho da outra. – Ah, não chora! Vai passar logo – a menininha tímida disse docemente, depois de sua profunda análise. – É que doeu bastante... – deu de ombros, limpando as poucas lágrimas que escorriam.

– Sua mamãe vai passar um remédio e tudo ficará bem – tentou consolar sua mais nova colega. Abrindo um sorriso carente, recebeu um de volta. – Ela vai passar aquele negócio que arde mais ainda, né? – bufou com medo.

Não seja medrosa! É melhor arder do que tomar injeção! – as duas se entreolharam e sorriram, assim que notaram que havia surgido algo diferente entre elas. Mas desde quando crianças sabem definir em palavras uma verdadeira amizade? – Você tem olhos tão azuis, e seus cabelos são tão pretos! – a pequena fitou com atenção cada detalhe daquele olhar que parecia feito de mar. – E você tem os cabelos laranjinha e tem estrelas no rosto! – apontou em direção às delicadas sardas, fazendo-a rir, com o peito preenchido de alegria. – Sou a Sol – a pequena ruiva disse de forma calorosa, apontando a mãozinha humilde na


direção aquela menininha dos cabelos negros e sorriso fácil, que a ajudou superar seu momento de dor. – Sou a Luna – a outra respondeu, dando o seu melhor sorriso infantil. – Ainda está doendo? – questionou, sorrindo. – Não, vai passar – piscou, levantando-se. – Ei, Luna, você quer tomar um suco comigo? Minha mãe está ali. Cadê a sua? – disse tudo de uma vez e com uma intimidade imediata, como só as crianças fazem. Estendeu a mão para que sua nova colega a segurasse. – Está bem ali. Vou pedir para ela e levo um pacote de Ana Maria que eu trouxe – sugeriu, animada. – Oba, vamos fazer o nosso piquenique! E ali, despretensiosamente, nasceu uma amizade para a vida toda.

~Julho/2018~

“Seremos melhores amigas para sempre e sempre! E vamos fazer tudo juntas!” Essa era a promessa das meninas desde que se conheceram, naquele dia no parque, ainda pequenas. Descobriram que moravam perto, e dia após dia a amizade tornou-se um elo poderoso, ligando até mesmo a família de ambas. Durante vinte anos as duas não se distanciaram para nada. Tudo era feito em conjunto, e até quando uma estava doente a outra ficava. Foram para a mesma escola, amavam as mesmas bandas, compartilhavam os mesmos gostos por comida. Fizeram inúmeras listas dos meninos mais gatos. Foram consideradas as mais nerds e não as populares. Vivenciaram o primeiro amor e tiveram a primeira decepção... Luna se formou em Letras, Sol em Pedagogia. Acreditavam que para tudo havia uma justificativa, que suas vidas foram unidas para que num futuro, entendessem os motivos do destino. – Preciso te contar uma coisa! – Luna procurou sua melhor amiga Sol, assim que a mesma havia chegado de sua lua-de-mel. Os corações estavam agitados. – Conta! Também tenho uma novidade – assim que disse tais palavras, Sol viu a tristeza ganhar o rostinho da amiga, e sentiu que não era alegre a sua novidade. – Você está triste? O que aconteceu, Luna? – Sei que você está radiante, com os olhos ainda mais apaixonantes e quer me contar cada segundo que teve com o melhor marido do mundo, mas Sol... – segurou o nó na garganta, até mesmo envergonhada por tudo que iria confessar naquele instante. – Lulu, você está me assustando! Vamos, desembucha, amiga. Tô agoniada aqui e não quero roer as unhas – Sol começou a balançar as pernas de forma maluca, uma mania que tinha desde adolescente. – O Henrique me deixou! – falou de vez, como se tivesse arrancado um band-aid da ferida. –


Merda, como ele pode fazer isso uma semana antes do casamento... – suspirou profundamente, evitando engasgar com o choro desesperado. Entretanto, tinha mais nessa história, e Sol ficaria ainda mais vermelha de ódio. – Que cretino! – rugiu, levantando-se. Andou de um lado ao outro. – Por quê?

– Disse que não está preparado para enfrentar um casamento, foi muita pressão... – falou com a voz fraca, muito envergonhada. – Porra, ele é louco? Foi ele quem te pediu em casamento, Lulu. Que otário! – esperneou mais uma vez. Enquanto Luna achava um jeito para contar o que era realmente a novidade. – Isso não é nada, Sol... Eu estou grávida... – choramingou um pouco mais desesperada, mas a amiga pareceu encarar aquilo como uma boa notícia. – O quê? – gritou, engasgada de emoção.

– Ele não sabe... E não sei se quero contar! Henrique não está merecendo uma notícia boa. Além disso, posso fazer isso sozinha, não posso? – tentou se convencer. – Você é capaz de tudo, mas sabe que não conseguirá esconder isso dele, certo? Se você quer assumir essa criança sem ele, tudo bem, mas nunca estará sozinha – ficaram uma de frente a outra, até que... – Lulu, na verdade, isso é um milagre! – gritou eufórica.

– Não! Não é... – Luna queria sumir, e não mais existir. – Mas acontece que eu também vou ser mãe! E vamos cuidar uma da outra – essa novidade reascendeu a vontade de viver em Luna, e uma força maior atingiu seu ventre. Ela não precisava ficar com medo de cuidar de seu pequeno milagre. Ela seria o suficiente.

~Fevereiro/2019~ Sol estava entrando em trabalho de parto. Mas ignorava a dor, sem entender o porquê iria dar à luz antes de sua amiga. O desespero acometia as duas, que não queriam se distanciar naquele momento tão importante. – Eu vou com você! – insistiu Luna, ajeitando as coisas da amiga.

– Não, você já está prestes a ganhar sua menininha, tem de ficar aqui, sem passar nervoso! Diz para ela, amor... – Sol tentou convencê-la, mesmo sabendo que seria derrotada. – O meu garanhão está com pressa! – gritou o romântico marido, apavorado. – Luna, você não pode sair, precisa ficar. Já está sendo uma ótima amiga, nos ajudando em tudo. Eu vou com ela e te mantenho informada de tudo, passo a passo. – Não vou ficar sozinha aqui. E se algo acontecer comigo? Por motivo de segurança maior, para as duas, eu preciso ir! – ela continuou e bateu o pé. Resultado: saíram os três para o hospital. As duas e suas grandes barrigas iam no banco de trás


do carro, uma ajudando a outra a fazer respiração cachorrinho, enquanto André, o marido, corria feito louco para chegar antes que seu filho nascesse no carro mesmo. – Aguenta aí, Renato! Papai tá acelerando! Assim que chegaram na porta do hospital, trouxeram uma cadeira de rodas para Sol, que sentou-se com dificuldade. Foi nessa hora que Luna deu um gemido alto, chamando a atenção de todos. Não foi preciso ela dizer nada, já que um líquido viscoso escorria entre as pernas dela. – A minha bolsa também estourou! Um filme passou pela mente dela naquele momento. Não tinha arrumado sequer as roupas para receber a sua menina, mas se era o momento certo, ela se entregaria. Uma onda de adrenalina lhe atingiu o coração. Ficou assistindo o casal de amigos a sua frente, um cuidando do outro. Ela olhou para lado, mas não tinha ninguém... O pai de sua menininha, que por muitos anos disse que a amava não se importou, não correu atrás de consertar as coisas. Ela estaria sozinha naquele instante precioso. Só que, assim que tocou sua barriga, com as dores da primeira contração, sentiu alguém ampará-la. Seus melhores amigos voltaram, ignorando a dor e a pressa de vivenciarem tão mágico momento, e a ampararam com destreza. André estaria ali por ela também. – Cacete! Essas duas crianças vão mesmo chegar juntas? – o marido de Sol se desesperou, segurando Luna enquanto os enfermeiros corriam para acomodá-la. – Não sei porque me surpreendo... Por favor, doutor, leve as duas juntas. Deixem que fiquem por perto uma da outra, garanto que não terão problemas – gritou enquanto os médicos e enfermeiros se afastavam com as duas. E assim como ele predisse, os dois bebês lindos, grandes e fortes nasceram na mesma hora. Deram boas-vindas ao mundo juntos, como estavam destinados a ser. Um menino lindo e garanhão, e uma linda menininha charmosa. Renato e Rayane. ~Aos 5 anos~

– Vamos casar! – Ray disse, autoritária. – Mas eu sou seu amigo – disse o pequeno Renato, confuso. – Você vai casar comigo! – ela repetiu, batendo os pezinhos em desafio. – Tá bom... – Renato revirou os olhos de um profundo mel, fazendo a mãe e a tia Luna rirem alto.

– Agora pode beijar a noiva! – disse a menininha de cabelos negros e olhos feito o mar. Fez um biquinho e puxou a gola da camiseta dele. Ela estava de batom pink, que pedira para a mãe passar, e colocara um dos vestidos da sua boneca na cabeça. Segurava um pequeno arranjo de girassóis artificiais nas miúdas mãozinhas, que tirara do vaso da mãe. – Eu posso, mamãe? – Renato questionou, antes que os lábios recheados de rosa chegassem até


ele.

– Ele é tão gentil... – sussurrou Luna, emocionada, vendo as duas crianças felizes. – Pode, meu anjo, é de amizade – disse Sol, orgulhosa, para o filho. – Não é, não! Ele é o meu amor! – resmungou Rayane, dando um ponto final

nessa doce

história que apenas começava.

~Aos 11 anos~

– Ei, por que está fazendo a barba se nem tem? – Ray pirraçou o melhor amigo, encostada na porta do banheiro. – Por que tá pegando no meu pé, hein? – Renato retrucou de volta, olhando-a no espelho em sua frente. – Porque, seu tonto, minhas amigas só falam de você! E se tiver barba primeiro que os outros meninos, elas vão falar mais ainda. Aí meus ouvidos não vão dar conta! – resmungou, birrenta. Ele sorriu descaradamente para ela. – Estão falando mal? – questionou, com as sobrancelhas erguidas.

– Não, elas falam bem demais – bufou, entregando de bandeja o seu ciúme. – Mas meu pai me ensinou a fazer a barba, e disse que quanto antes, melhor – deu de ombros e voltou a espalhar espuma branca pela face pelada. – Fala a verdade! É só para elas ficarem de olho em você, né moleque? – fuzilou o amigo contra o espelho, e viu os olhos dele cor de mel brilharem. Ele procurou disfarçar. – Ah, charmosa, mas não vê que eu só tenho olhos para você? Naquele segundo o coração dela se derreteu, fazendo aquela palpitação gostosa expandir por todo seu corpo. Eles eram vizinhos, melhores amigos desde que nasceram, poderiam até se considerar irmãos, mas ambos tinham algo no coração que era maior, um sentimento poderoso que não conseguiam nomear. Ela sabia com toda certeza de que ele seria só dela. – Não diz merda, menino bonito! – acertou um peteleco na cabeça dele.

– Não fique enciumada, charmosa! – os dois mostraram juntos a língua, se divertindo. ~Aos 16 anos~

– Por que está me encarando? – Rayane questionou o amigo, na porta do seu quarto. – O que está fazendo? – por mais que ele soubesse, queria ouvir da boca dela. – Nada! – ela entortou o beicinho do jeito que ele gostava.


– Deixa de ser malcriada, você precisa é de uns beijos bem dados – resmungou, fitando os lábios rosados da amiga. Ela se sobressaltou, envergonhada. Ambos estremeceram. – Engraçadinho. Estou quieta aqui, você que veio me perturbar.

– Aham, sei. E o que são essas folhas? – foi se aproximando, então ela juntou todas e escondeu. – Me deixa ver, charmosa! – pulou na cama dela, tentando pegar os rascunhos. – Deixa de ser curioso! Que coisa feia, Rê – jogou tudo para debaixo da cama, mas Renato foi teimoso e pegou um deles. Quando seus olhos brilhantes captaram o desenho, ele sorriu todo orgulhoso. – Nossa, Ray, esse desenho parece a gente quando mais velho – analisou com cuidado, e ela corou. – Então quer dizer que você gosta de barba, né? – ela se encolheu mais na cama e sentiu seu coração derreter com a declaração dele. – Deixa de ser convencido e bobo! Eles são os meus personagens – grunhiu, tentando tirar o foco da conversa. – Entendi, agora decidiu de vez colocar em prática o seu talento? – o coração dela palpitou.

– É, acho que sim – falou, tímida. – Você gosta? – Muito! – piscou, fazendo o rosto dela corar ainda mais. – Você é talentosa. E aí, como será o nome do seu livro? – sentou-se ao lado de sua melhor amiga e fitou a imensidão azul de seus olhos que banhavam a sua alma. – Não sei – ela deu de ombros, envergonhada.

– Pensei que fosse mais criativa, hein, Rayane – brincou. – Não Sei é um nome muito ruim... – gargalhou. Ela lhe deu um safanão. – Trouxa! – explodiu rindo, e jogou um travesseiro no amigo. – Que tal “Além do tempo”?

– Muito bom esse nome, charmosa. – Rê, andei pesquisando sobre significados de nomes, e sabe o que o nosso significa? – ele fez que não, encarando-a profundamente, admirando toda aquela beleza. – Renascidos... Achei tão bonito os nossos nomes terem o mesmo significado. – Que coincidência, será que nossas mães sabiam disso? – ela deu de ombros, pensativa, e ele fitou novamente o desenho. – E eles, quem são? – apontou o desenho.

– Char e Gab – disse, com os olhos apaixonados. Seu desenho era impecável nos detalhes. Tão apaixonantes quanto seus olhos. – São os nomes de seus bonecos de infância, não são?

– É, eu gosto muito de Charlotte e Gabriel. Soa tão natural – suspirou, imaginando todas as cenas que criara para eles. O amor além dos tempos. – Eu também gosto – disse encantado, enquanto se encaravam.


– Gosta? – segurou a ponta dos lábios. O menino quase fez o mesmo, mas com os próprios lábios ali. Não entendia o porquê pensava assim, mas queria, muito. – Sim, muito – travou, mas resolveu dizer as palavras que o coração gritava. – E eu acho que gosto de você também... – muito mais do que ele achava possível gostar. Na verdade, era amor. Do mais puro. – É que você é meu melhor amigo, oras. Deveria me amar! – Ray falou, deixando o coração falar mais alto. – Eu te amo – disse sem medo algum, e os olhos dos dois se uniram, deixando a alma sorrir.

– Como amiga? – questionou com a voz frágil. Com medo do novo. A descoberta do amor real, único e valioso. – “Não tenho medo de mostrar meus sentimentos e de fazer coisas imprudentes, pois acredito que o que não se mostra, não se sente... Coisa que talvez surpreenda muito a você, pois os seus sentimentos são tão guardados que parecem não existir realmente...” – ele citou uma das passagens favoritas dela. Arrancando de vez o tampão de suas vistas, e mostrando a cor real do amor. – Mas existem... – ela tocou o coração agitado.

– Eu quero ser mais do que isso... – soluçou de frente a menina que fazia seu coração disparar e seu corpo tremer. – Jura? – Ray disparou sem querer.

– De fato! E nesse momento, sem muito o que pensar, ambos seguiram com os lábios, tocando delicadamente um ao outro pela primeira vez, fazendo estrelas colidirem dentro de si. Foi então que os corações se reconheceram naquilo que o tempo não apagou. Além do tempo, além de todas as vidas. Eles teriam de verdade a oportunidade de concretizar o amor verdadeiro. As coincidências são peças que o destino nos faz encaixar para encontrar o amor...

Fim


Agradecimentos

Primeiramente eu agradeço a Deus por me ceder esse dom. E ao meu coração por sempre estar aberto, por sentir necessidade de contar essa história. Foram momentos mágicos, recheados de sentimentos, contados com verdade. Ao meu marido, Itamar, por sempre deixar meus momentos de inspiração acontecer, e estar presente em cada um deles. Você é minha luz, a inspiração diária da minha vida. Agradeço pelo amor e paciência que Rosemeire Molan teve ao ler cada história, mas essa em especial, pois foi a que mais nos tocou. Obrigada por suas dicas valiosas, você é especial em meu coração. E por ser tão especial, acabou ligando essa amizade a Cristina Valori, que leu numa noite! Eu surtei com tantos áudios incríveis e divertidos. Você me ajudou em muitas coisas, só acrescentou ainda mais minha admiração por você. Obrigada, sua linda. #CadêCristina #VemBarba. As leitoras betas que moram no meu coração: Giseli Bernardes, Daya da Silva e Sheila Pereira Ribeiro. Obrigada por chorarem e sentirem com o coração essa verdadeira história de amor. E não podia faltar o homem mais maravilhoso, Danilo Barbosa! Com seus conselhos e dicas mais valiosos da face da terra! Sem você, esse livro não seria tão completo. Obrigada por amar tanto essa história como eu amei escrever. Vamos levar essa história para todos! Amo vocês.

O que eu sei de mim - Vanessa de Cassia  
O que eu sei de mim - Vanessa de Cassia  
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