Page 140

C A P Í T U L O V I N T E

Lilah

10 de março Chegou a hora. Adiei isso por cinco anos. Eu nunca costumava protelar nada. Preciso fazer isso agora. Está se esvaindo – eu estou me esvaindo – e ninguém sabe a verdade. Depois que eu for embora, ela morre comigo e isso não parece certo. Eu escrevia um diário como este para poder garantir que não perderia as partes de mim que mais importavam. Depois de apresentar os primeiros sintomas, passei a escrever para poder acompanhá-los e anotá-los quando eu tomava a medicação. Ele evoluiu para uma maneira de refletir minha personalidade e minhas decisões, uma maneira de assegurar que eu ainda conseguia me conectar comigo mesma. Eu sabia que a doença levaria minha memória embora. Apenas queria garantir que tinha um jeito de me lembrar de quem eu fui um dia. Encontrei Haruto na minha primeira visita à clínica de Huntington em Newcastle. A consulta dele era logo antes da minha, mas Lynn estava atrasada, como – agora eu sei – quase sempre está. Ele estava lendo a revista New Scientist e, assim como quase todo mundo na sala de espera, com exceção de mim mesma, tinha convulsões incontroláveis dos membros em intervalos irregulares. De alguma forma, acabei sentada do lado dele e, enquanto os minutos passavam, cada espasmo de cada paciente parecia aumentar com a pressão em meu peito até que um oi meio estrangulado escapou dos meus lábios na direção dele e ele me deu um sorriso simpático. Acho que talvez as primeiras palavras dele podem ter sido: “Você é nova nisso, né?” Haruto nunca conheceu os pais biológicos. Ele foi abandonado ainda bebê, pulou de orfanato em orfanato até ter mais idade e, então, de alguma forma, acabou na casa de Janice e Ryan Abel, que passaram imediatamente a organizar suas vidas em função dele. O recomeço em uma família adotiva deu a Haruto todas as oportunidades que ele, sob outras circunstâncias, não teria tido, mas uma coisa que sua família não poderia fazer era recuperar o gene defeituoso que jazia adormecido em seu DNA. Ao contrário de mim, Haruto não fazia ideia de que podia ter a doença de Huntington e não teve tempo para, ao mesmo tempo, se apavorar e se preparar para o início de sua manifestação. Ele tinha uns 30 anos quando começou a ficar doente e os primeiros sintomas foram psiquiátricos. Estava no auge da vida na época – um ambientalista de alto nível com uma série de vitórias públicas no currículo, ele estava conquistando tudo que sempre havia sonhado. Mergulhou lentamente em uma depressão profunda e começou a se isolar dos amigos e colegas até que um psicólogo sugeriu que ele talvez ficasse em paz com seu passado se fizesse uma análise de seu DNA para entender um pouco de sua história. E, então, ele comprou um kit on-line e mandou fazer uma análise não muito aprofundada, um mapeamento de heranças genéticas e uma revisão rotineira para a busca de prováveis problemas. A análise do DNA confirmou o que ele já suspeitava – tanto o pai quanto a mãe de Haruto eram japoneses. Também apontou que ele tinha o gene de Huntington e o jogo mudou da noite para o dia.

Profile for Ariana Santos

Eu Sem Voce - Kelly Rimmer  

Eu Sem Voce - Kelly Rimmer  

Advertisement