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ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#076

SENGAYA

SENGAYA


Três camadas de proteção. Calcanhar e bico reforçados. Sidestripe. Pequenas partes de um gigante na tradição Vans. Sk8-Hi: indo, vindo ou voando por cima de um show, skatepark, atelier ou barraca de lanche, sempre perto de você.


VocĂŞ encontra Vans nas lojas Artwalk www.artwalk.com.br


HEPTA Animais mortos, músicos mortos, pensadores mortos, bolo e guaraná, muito doce pra você... É nosso aniversário!

NESSA EDIÇÃO SUBIU NO TELHADO

G MENOR

IMUNIZAÇÃO

Eles são companheiros, fiéis e incondicionalmente amorosos, muito mais do que a maioria dos seres humanos. O problema é que duram pouco.

Sabrina Duran é exigente na hora de fazer um picnic. O vinho pode ser barato, o pão amanhecido, o queijo vagabundo, mas o presunto tem que ser de primeira.

Vini de La Rocha foi almoçar no centro de SP e trombou com uma história que, para muita gente (nós, inclusive), já estava morta e enterrada.

CAPA(S)

VOID # 060 NADAAVER

VOID # 061 NÓIS QUE VOA

VOID # 062 MOCADO

VOID # 063 EM PELO

VOID # 069 MEIA NOVE

VOID # 070 POIS FOI

VOID # 071 SEMPRE

VOID # 072 OLHO DE GATO

VOID # 059 BABY BOOM VOID # 068 NA LINHA

VOID # 058 EU ACREDITO VOID # 067 FOTOS

VOID # 057 MAU SUJEITO VOID # 066 FEZES VOID # 075 TCHAN!

VOID # 056 FOTOS VOID # 065 BAZINGA! VOID # 074 NÃO COMPRE

www.avoid.com.br

VOID # 055 AGORA VAI

Rua Felipe Neri, 148/303 Porto Alegre - RS - 90440-150 Fone: (51) 3023-7662 Email: void@avoid.com.br

VOID # 073 AFIADA

VOID # 064 CORPO SINTÉTICO

FOTO DA CAPA: MAURÍCIO CAPELLARI

A VOID não se responsabiliza por opiniões emitidas em artigos assinados que não refletem, necessariamente, a opinião da revista. Os trabalhos identificados pelo ícone da licença Creative Commons têm sua publicação permitida nas seguintes condições: Distribuição e adaptação livre sem fins comerciais mediante o crédito do autor. Info: http://creativecommons.org/international/br


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www.evoke.com.br/zegon


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo Planejamento: João Francisco Hein Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

DISTRBUIção A VOID É DISTRIBUÍDA GRATUITAMENTE NAS CIDADES DE PORTO ALEGRE, CURITIBA, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO E BELO HORIZONTE.

COLABORADORES Leandro Vignoli é radialista da

Oi FM e nosso expert em música e adjacências. Ele é residente nas seções “Na Caixa” e “1001 Discos”. Lise Bing NÃO É uma garota quietinha. Gadgets e bizarrices internéticas são o recheio da sua coluna Bing Bang! lisebing.tumblr.com

Fabrizio Baron vive em um mundo envolvente onde tudo é possível. Nas horas vagas, trabalha com carteira assinada. É dele a coluna I Shot Macunaíma.

COLABORARAM TAMBÉM NESSA EDIÇÃO...

Lucas Pexão é dono da Galeria

Sabrina Duran é jornalista

Fita Tape e representa artistas via noz.art. Na Void ele escreve sobre arte e faz a curadoria da seção Magma. www.noz.art.br/pexao

e gosta de coisas cruas reportagem, bicho ou gente. Ideias mal passadas aqui: www.sabrinaduran.com

Ana Ferraz faz um monte de

coisas ligadas a projetos de arte e divide com Pexão a responsa na Galeria Fita Tape, e na seção Magma da Void.

Vini De La Rocha é jornalista, noiado e morador de São Paulo... Ainda quer ser roteirista, também noiado, e morar um tempo na Espanha. vinidelarocha@gmail.com

Mr Lexuz é um cara

Lita Almeida adora uma mesa

que vai no intestino grosso da televisão mundial transmitida a baixo custo, sempre a bordo do seu inseparável controle remoto.

de bar e tem preguiça de gente chata. Todo o ano espera pelo Oscar, pelo carnaval e por um show do Gogol Bordello.

Denise Rosa não canta mais as bolinhas do bingo, mas ajuda a organizar o galeto da paróquia. denise@avoid.com.br Lairton Rezende, também conhecido como Jacaré do Mar, é artista visual e pai do HomemBanana, o herói da dúvida. lairtonrezende@gmail.com

CORROBORE! VOCÊ TAMBÉM TEM ALGO A DIZER, MOSTRAR, SOCAR NA FERIDA OU ARREMESSAR NO VENTILADOR? MANDE UM EMAIL PARA VOID@AVOID.COM.BR E CORRA O RISCO DE ENTRAR PARA ESSA LISTA DE NOBRES IMORTAIS PENSADORES. A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 20 MIL EXEMPLARES


POR FELIPE DE SOUZA, GABRIELA MO E PIERO BARCELLOS

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Se sua família, namorada(o) e todos aqueles que lhe rodeiam vivem dizendo que você não sai da farra e que isso faz mal a sua saúde, é bom sempre responder tendo argumentos científicos. Pois o Royal College of Physicians (RCP) publicou estudo afirmando que o consumo excessivo de álcool realmente é prejudicial (dãh), mas os malefícios do trago podem ser diluídos se você der pelo menos 72 horas de folga para o seu fígado. Os mesmos estudiosos declararam que a quantidade limite por cada semana é de 21 unidades, sendo que uma long neck representaria 1,7 unidades. Faça as contas: 21 / 1,7 = 12,35 garrafas (Quando falamos garrafas nos referimos às long necks, ok?). Se você vai para a balada de quinta a domingo, é preciso fazer outro cálculo: 12,35 / 4 (número de noites que você sai) = 3,087 garrafas. Então é isso, se você segura sua onda consumindo pouco mais de três ampolas de 330 ml de breja por noite, continue curtindo em seu club predileto, desde que segundas, terças e quartas sejam dedicadas ao recesso etílico. Ah, e guarde dinheiro para o táxi.

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DE QUINTA A DOMINGO

REPRODUÇÃO

na privada

AMOR BURRO

ADORÁVEL STALKER

O que fazer se os meganhas o pegarem em um ato de bestialismo com um burro? Simples: diga que horas atrás o animal era uma bela mulher que você contratou para lhe prestar serviços sexuais. É improvável que cole, mas foi isso que o zimbabuano Sunday Moyo disse a um tribunal do seu país depois de ser pego no flagra com o quadrúpede.

Para os que tem o estranho desejo de serem stalkeados por um maníaco, o site Take This Lollipop resolve o problema. Você entra na página, permite que ela acesse suas informações no Facebook e dentro de alguns minutos será postado no seu mural um vídeo de um maluco navegando pelos seus álbuns. Ao final do filme, o demente age como se estivesse indo até sua casa lhe ver pessoalmente. Pânico.

Segundo o jovem de 28 anos, a garota de programa com quem ele passava agradáveis momentos teria se transformado, da noite para o dia, no animal em questão. “Acho que também sou um burro. Não sei o que aconteceu quando eu deixei o bar, mas estou seriamente apaixonado pelo burro”, disse Moyo. As autoridades locais ordenaram que o cara passe por exames psicológicos. Como se precisasse.

O autor da piada é Jason Zada, que tem em sue portfólio trabalhos como a animação Elf Yourself e alguns comerciais para a Ray Ban. O cara garante que o vídeo não é nenhum viral de alguma marca famosa e que todo o trabalho foi feito por pura diversão. Info: takethislollipop.com


A MORTA

REPRODUÇÃO

4CHAN.ORG

REPRODUÇÃO

STAND-UP TRAGEDY

A CAUDA LONGA DA DEMÊNCIA

UM ANO BÍBLICO

Aqui na Void nós trabalhamos com a ideia do inusitado. Vamos atrás daquilo que foge ao comum na esfera do comportamento humano. E aí nós temos duas hipóteses: focar naquele tipo de coisa que está ao nosso lado mas ninguém vê, ou ir para a cauda longa e buscar aquela demência que só meia-dúzia de gatos pingados fazem. No entanto, o que a modelo americana Jasha Lottin fez ultrapassou um pouco o limite da “loucurinha saudável”. A moça comprou um cavalo e deu um tiro nas fuças do bicho. Depois o abriu, tirou suas vísceras e posou para uma seção de fotos digna de um “curtir” do Zé do Caixão no Facebook. Por fim, pegou as partes aproveitáveis do cadáver, deu uma refogada com cebola e comeu. Apesar de o ato ser no mínimo medonho, a moça não infringiu nenhuma lei. A cereja do bolo foi a justificativa para as fotos tiradas dentro do cadáver: uma homenagem a Star Wars.

Difícil de acreditar, mas se a humanidade chegou até aqui, boa parte do crédito é dado à religião. Tá certo que determinadas crenças impediram o avanço da ciência, porém foi a religião a grande responsável por inserir valores morais nas pessoas. Mesmo assim, com o conhecimento contemporâneo desmistificando o mundo, tem gente que leva a religião muito a sério. Foi pensando nisso que o jornalista americano A.J. Jacobs fez uma lista com cerca de 700 regras de conduta listadas na Bíblia, e decidiu segui-las durante doze meses, tornando-se um fundamentalista extremo. Neste período, ele deixou a barba crescer, passou a usar túnicas brancas, evitou encostar em mulheres que estivessem “naqueles dias” e chegou a manter um escravo (“era um estágio não-remunerado, o pior tipo de escravidão existente”). Essa experiência mística virou livro: The Year of Living Biblically, que pode ser comprado por US$ 11 na Amazon. Vale!

ATENÇÃO: TEXTO COM ALTA DOSE DE IRONIA * Existem muitas profissões no mundo que oferecem risco ao trabalhador. Segundo o censo do Ministério do Trabalho, o setor madeireiro é o que mata mais pessoas (é aquela coisa: nego tá lá serrando um Jequitibá e de repente a árvore tomba pro lado errado...). No entanto, a ocupação de humorista (isso existe?) está quase encostando nos lenhadores com o número de óbitos – infelizmente não dos profissionais da comédia, e sim das piadas que eles julgam ser engraçadas. Pensando nisso é que vamos dar aqui algumas dicas para você, moleque criado jogando bola de gude no carpete do apartamento e que se acha o engraçadão, sobre como fazer sucesso com seu número de comédia em pé.

MINORIAS SABEM RIR DE SI MESMAS Não caia no lugar-comum de dizer que japonês tem pinto pequeno, que toda loira é burra e que Joaquim e Manuel são estúpidos do além-mar. Homossexuais, por exemplo, são todos alegres e festeiros e não vão se ofender com uma piadinha marota, já que eles tem mais com o que se preocupar, como a legalização do casamento. Judeus também formam outro case: estão em vários postos da indústria do entretenimento, então fazer uma graça usando um fato histórico como o que aconteceu na II Guerra Mundial pode ser um tiro no pé.

MELHOR RIR DO QUE CHORAR O ditado popular acima é verdadeiro. Todo comediante stand-up que se preze começa rindo das suas próprias merdas. Fala de como é gordo, como a mãe é puta, essas coisas. No ethos do humor, se auto-avacalhar lhe dá o direito de também fazer o mesmo com os outros. Até mesmo com aquela moça desprovida de beleza genética, que de tão feia não tem que se lamentar em ser mais uma entre 15 mil mulheres atacadas por tarados no Brasil, e sim agradecer o bandido por lhe fazer um favor e lhe tirar o atraso. Viu como é engraçado?

COM BEBÊ E TUDO Lembre-se: o humorista é como uma divindade e está acima do bem e do mal. Logo, se uma pessoa não acha graça das suas piadas, lamente por este ente sem luz não ser intelectualmente desenvolvido e se mostrar incapaz de perceber a nuance do seu humor. E reclame muito quando lhe processarem por injúria por conta de um improviso mal feito. Afinal, os políticos corruptos estão aí fazendo o que querem do país e você, um palhaço orgulhoso de seu chiste, é criminalizado sem dó. Mas não desista! Um dia esta nação há de ser mais tolerante e compreender o gênio do humor que você é. Te cuida, Chico Anysio!

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Magma LIN YI-HSUAN

POR ANA FERRAZ E PEXÃO

MACUMBA COM LEITE

EM NOME DOS ARTISTAS

Não, não erramos o português, o título acima está certo. A nova exposição da galeria LOGO tem como nome, em castelhano, PREGUNTAME COMO! (pergunte-me como!), uma afirmação que provavelmente você já viu estampada em adesivos e bottons, acompanhada de promessas duvidosas como “emagreça agora” e “pare de fumar”. É a face mais visível das estratégias de marketing piramidais empregadas por empresas que, apesar de titânicas, se valem do fator humano para criar micro-sistemas e gerar macro-negócios. Uma exposição coletiva internacional que une pela primeira vez alguns dos mais relevantes protagonistas estrangeiros e locais da arte contemporânea de Buenos Aires. O curador Tristan Rault propõe uma conexão antes humana do que pictórica para apresentar artistas de diferentes formações e gerações, mais ou menos como a Herbalife faz, mandando suas cobaias chamarem os amigos. Os nomes da exposição são Nicolás Sobrero, Martín Legón, Gustavo Eandi, Andrés Bruck, América Sanchez, Lin Yi-Hsuan e Paul Loubet (nosso convidado do Magma, que você confere mais para frente nessa edição).

Em Nome dos Artistas é uma grande exposição, atualmente em cartaz, que apresenta uma visão selecionada da arte contemporânea norte-americana dos últimos 30 anos. É um projeto da Fundação Bienal de São Paulo, buscando ocupar o grande prédio nos anos que sobram entre suas exposições. Ela está dividida em três sessões: a primeira é uma coleção de obras de artistas célebres norte-americanos, como Jeff Koons, Cindy Sherman, Richard Prince e Tom Sachs, organizadas mais ou menos como pequenas individuais. A segunda trata de artistas contemporâneos norte-americanos emergentes, como Nate Lowman, Dan Colen e Lizzi Bougatsos (essa também conhecida pela banda Gang Gang Dance). Já a última apresenta o britânico Damien Hirst (conhecido aqui no Magma de outras edições) e que, na visão dos curadores, mantêm laços conceituais com os artistas americanos da mostra. Um dos destaques são as obras de Tom Sachs, que são remontagens (da maneira que o artista consegue) de coisas, como um banheiro de avião ou um quiosque do McDonalds, todo de madeira tosquinha, mas que funciona como um de verdade. Outras referencias de Sachs passeiam por Hello Kitty, skate e The Clash, entre outros que a gente conhece e curte.

Info: galerialogo.com

Info: emnomedosartistas.org.br

PREGUNTAME COMO!

14 / na PRIVADA

Imagine o seguinte: você está passeando tranquilamente com seu bólido popular na estrada, quando avista ao longe uma mina jeitosinha com o carango estragado. Prontamente seus hormônios irão lhe orientar a ser um gentleman e parar para ajudar a moça, com o intuito inocente de, quiçá, conseguir o telefone dela para marcar algo mais tarde, depois de deixar o carro da donzela na oficina. Só que quando você está ali, olhando a água do radiador, outras duas minas brotam da terra, lhe dopam, o levam para o meio do mato e começam a fornicar loucamente até seu pinto dizer chega. Parece enredo de filme pornô, não? Na verdade, esta é apenas mais uma das inúmeras denúncias recebidas pelas delegacias do Zimbábue, feitas por homens que são violentados por grupos de mulheres (e você aí achando que putas virando burros eram a maior preocupação deles...) Tudo tem uma explicação: o Zimbábue, antes de ser alçado ao posto de colônia de férias masculina, era conhecido como o país de inflação mais alta do mundo – daquele tipo que o cara sai de manhã com dinheiro pra comprar um carro, mas volta pra casa com um Hot Wheels. Toda essa merda financeira faz a população buscar alternativas para alcançar a bonança, e uma delas está nos ritos tribais. Entre os tais ritos, há uma poção feita com sêmen de homens, capaz de atrair a prosperidade econômica, o que justifica os ataques aos detentores do cromossomo Y. Mas nem tudo é alegria e alguns rapazes foram obrigados a trepar com arma na cara, enquanto outros foram ameaçados com cobras (no sentido literal da palavra, por favor).


CC_ANDYMITCHELL

BOA

Tirou uma? void@avoid.com.br

MANDEM-ME DE VOLTA PARA CASA Houve um tempo em que brasileiros torravam suas últimas economias em passagens aéreas para tentar a sorte na Europa. Lá trabalhavam naqueles ofícios que formam a base da pirâmide de qualquer sociedade: lavavam pratos, limpavam banheiros, pintavam paredes... Enfim, toda a sorte de ocupações braçais. Era uma época em que a maioria dos cidadãos do primeiro mundo preferia ficar desempregado e mamar na teta da previdência a suar sangue em um canteiro de obras. No entanto, a globalização mostrou que nem o velho continente está imune às crises e atualmente até os nobres europeus se acotovelam por esses trampos que antes eram rejeitados. Resultado: a brasileirada que mora lá fora está perdendo espaço.

“DESCE NA MIÚDA, MALANDRO!”

Gabriela MO

Foi o que aconteceu com um brazuca que deixou o seguinte recado na página da ONG América, Espanha, Solidariedade e Cooperação (AESCO): “Olá, sou brasileiro ilegal desde 2005, estava trabalhando sem documentos, mas agora estou sem trabalho e tenho que comer e pagar o aluguel e não sei como. Poderia conseguir a passagem de volta para o Brasil o mais rapidamente possível?” A crise econômica que assola a Europa está provocando o fechamento de bares e quitandas voltados ao público latino-americano. Dá para ver que a coisa está feia, não? Então se você tiver milhas sobrando, entre em contato com a AESCO e ajude o pobre homem.

FISGAMOS

Fisgou alguma? void@avoid.com.br

“TÁ FODA ATÉ PRA COMER MULHER DE PLÁSTICO”

“CARA, NÃO POSSO SORRIR MUITO PORQUE NÃO TENHO UM DOS MOLARES”

“QUERIA PEDIR DESCULPAS POR NÃO TER IDO À INAUGURAÇÃO (SIC) DA TUA REVISTA, A NOIZE”

De uma menina ao descobrir o preço de uma boneca inflável que queria dar de presente para seu chefe. Fisgado por Felipe de Souza.

De um dos componentes da redação da Void, ao ser fotografado por Mauricio Capellari. Fisgado por nosso querido retratista.

De uma figurinha carimbada na noite da cidade, se dirigindo ao editor da revista que você tem em mãos (Void, ok?).

“A PRINCÍPIO NÃO VAI DAR ÓBITO” Diagnóstico preciso dado pelo veterinário de plantão que atendeu a beagle Dorothy, filha da fotógrafa Gabriela MO e mascote oficial da redação.

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CU NA Mテグ POR DIMITRI SAVOIA | FOTOS: MAURICIO CAPELLARI

16 / na PRIVADA


SUPORTEI A SOLIDÃO FRIA DO INVERNO RIGOROSO EM UM CELIBATO DE FAZER INVEJA A QUALQUER MONGE CAPUCHINHO. NO INÍCIO FOI DIFÍCIL, MAS DEPOIS ME DEI CONTA DE QUE ESTAVA SENDO LEGAL FAZER SEXO COM AQUELA PESSOA QUE MAIS AMO: EU MESMO. POR ISSO APROVEITO O ESPAÇO QUE ME FOI DADO AQUI PARA PASSAR PARA OS ONANISTAS DE PLANTÃO UM POUCO DA MINHA EXPERIÊNCIA NO MUNDO DA PUNHETA.

SIMULADOR DE CUZINHO

Foi-se o tempo em que bater uma era sinônimo de atividade proibida. Ainda mais com a chegada ao mercado de vários produtos que podem lhe ajudar a gozar gostoso sem ter que ficar abraçadinho depois do coito, nem ser obrigado a chamar (e pagar) um táxi. Tomei a liberdade de publicar um pequeno test-drive dos produtos que me fizeram companhia na estação mais fria do ano. O verão chegou, mas eles continuam dando plantão em minha gaveta secreta. Livre-se de seus freios morais e embarque comigo em uma jornada de orgasmos solitários, mas não menos esfuziantes.

TOQUE DE SEDA

PAPAI E MAMÃE DE ELASTÔMERO

Já chega daquele método arcaico de sentar sobre a própria mão até adormecê-la. O grande lance agora é o Toque de Seda, líquido que deixa sua destra (ou canhota) com uma textura incrível, simulando a pele de uma princesa nórdica. O contato de sua mão com o pau vai ganhar um upgrade foda e a sensação é de estar sendo masturbado por uma anja. Por R$30,80 você compra uma embalagem com 35ml (acredite, rende bastante). Sensacional!

Mesmo estando sozinho no mundo é possível dar muito realismo à transa simulada. Descobri isso depois de experimentar a vagina de elastômero que caiu na minha caixa de correspondência. Pode ser estranho em um primeiro momento, toda aquela situação meio jocosa de ficar enfiando o bilau dentro de um tubo com um buraco de buceta na ponta. Mas esqueça tudo o que lhe ensinaram na escola católica e se entregue de corpo e alma. Depois da terceira vez você não vai querer outra coisa. Preço: R$48

Uma vez ouvi uma menina dizer para uma amiga: “Se você não faz sexo anal com seu namorado, ele vai fazer com outra”. Essa declaração bateu forte em mim e passei a observar como a porta dos fundos feminina é envolta em tabus. Para minha sorte, estou solteiro em tempos de desenvolvimento pleno do mercado dos apetrechos sexuais. E outro brinquedinho que pintou por aqui foi o Ânus Natural, também fabricado em elastômero. Mais apertadinho que a vagina (óbvio), ele cumpre o papel. A entrada do brioco vem até com aquelas rugosidades que só quem teve colhões de olhar para o olho de um cu sabe do que estou falando. Está valendo muito a pena. Preço: R$48 Junto com esses aparatos maravilhosos, a bendita caixa dos prazeres também me ofertava creminhos para passar na pica na hora de receber um oral bacana da parceira. Mandaram-me nos sabores uva, morango e até caipirinha. Mas isso é para quando eu enjoar dos outros brinquedos – o que vai demorar um pouco - e ir atrás de uma namorada de verdade. Agradecimento (do fundo do meu coraçãozinho): cheiademalicia.com.br

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PARA SE CAGAR EM CASA

A HORA DO PESADELO

A BOLHA ASSASSINA

(A Nightmare on Elm Street, 1984)

(The Blob, 1988)

Freddy Krueger era um assassino torturador de crianças conhecido como “o retalhador da rua Elm”. Foi queimado vivo dentro da sua casa pelos próprios vizinhos, que descobriram seus crimes. Jurando vingança, Freddy voltaria anos depois nos pesadelos dos adolescentes, se alimentando de seus piores medos.

Eis um clássico do Cinema em Casa. O filme original é de 1958, um trash dos bons. No entanto, sua versão feita nos anos 80 carrega na peculiar estética grotesca e violenta da época. História simples: um meteoro cai na terra com uma geléia alienígena, que passa a atacar humanos para se alimentar.

POR QUE É BOM: Freddy é o personagem mais “carismático” dos clássicos do terror. Em algumas partes dá até pra rir com o sarcasmo que usa para matar suas vitimas. Em um dos filmes da série, ele “joga videogame” com uma de suas presas. Com outra ele explode a cabeça arranhando um quadro negro. Tem como não amar?

POR QUE É BOM: Sabe aquela máxima de que uma coisa, de tão ruim, acaba se tornando boa? É por aí. E nada pode ser tão ruim quanto um melecão do espaço que come gente. Se bem que taí o Ron Jeremy pra provar o contrário...

POR PIERO BARCELLOS

O TERROR É UM DOS GÊNEROS MAIS FANTÁSTICOS DO CINEMA. PENSE BEM: PESSOAS SE EMOCIONAM COM DOCUMENTÁRIOS E DRAMAS QUE RELATAM SENSAÇÕES QUE SÃO REAIS E CORRIQUEIRAS DE NOSSAS VIDAS, COMO AMORES QUE SE REENCONTRAM, VIAGENS TRANSFORMADORAS, E POR AÍ VAI. AGORA, QUAL É A CHANCE DE VOCÊ SER ATACADO POR UM MANÍACO USANDO MÁSCARA DE HOCKEY EMPUNHANDO UMA MOTOSSERRA NO MEIO DE UM ACAMPAMENTO? NENHUMA. E DE UM SER ALIENÍGENA TOMAR OS CORPOS DOS SEUS AMIGOS E PARENTES? POR MAIS QUE A SUA VIZINHA TENHA CARA DE QUE SOFREU UMA ENDOSCOPIA MARCIANA, A CHANCE AINDA É ZERO. MESMO SABENDO QUE É TUDO FICÇÃO, AS PESSOAS SE BORRAM DE MEDO. HOMENS: ESCOLHAM UM DESTES FILMES E CHAMEM AQUELA GOSTOSINHA QUE VAI PULAR NO SEU COLO NO PRIMEIRO SUSTO. MULHERES: SE OS SEUS NAMORADOS COMEÇAREM A GRITAR COMO MENININHAS HISTÉRICAS, PREOCUPEM-SE.

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VAI SE CAGAR DE MEDO: Toda vez que aparecer uma menina loirinha pulando corda e cantando “One, two, Freddy is coming for you / Three, four, better lock your door / Five, six, grab your crucifix / Seven, eight, gonna stay up late / Nine, ten, never sleep again”. Crianças são do demônio!

VAI SE CAGAR DE MEDO: Toda vez que você abrir a geladeira, vai olhar com desconfiança para aquele iogurte que está lá há dias...


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O MONSTRO DE UM OLHO SÓ

CEMITÉRIO MALDITO

IT

A MOSCA

(Pet Sematery, 1989)

(It, 1990)

(The Fly, 1986)

Baseado no livro de Stephen King, Cemitério Maldito mostra a mudança da família Creed para uma nova casa, em uma região que era habitada por índios americanos. No entanto, havia dois problemas: a avenida na frente da residência era trajeto constante de caminhões e nos fundos existia uma passagem que levava a um antigo cemitério de animais. Quando o gato da família foi atropelado por um caminhoneiro, alguém teve a ideia de enterrar o bichano adivinha onde?

Há 30 anos, uma cidade chamada Derry foi aterrorizada por um ser batizado pelos habitantes de “a coisa”. Este ser usava a forma de um palhaço conhecido como Pennywise para atrair crianças e comê-las (não no sentido pedófilo da palavra). Um grupo de jovens foi o único que conhecia a verdadeira forma da “coisa” e jurou combate-la se um dia a mesma retornasse. E três décadas depois, ela voltou mais forte do que nunca.

Pouca gente sabe que o filme lançado nos anos 80 é um remake do primeiro, criado em 1958. Em ambos, a história é a mesma: um cientista cria um sistema de teletransporte de matéria. Depois de testar com plantas e com animais, resolve ele mesmo ser a cobaia humana. O problema acontece quando entra uma mosca junto na máquina, que mistura os DNAs de homem e inseto.

(The One-Eyed Monster, 2008) O gordo que come mais gente nesse mundo é Ron Jeremy, sem dúvida. Nesta história, o astro da indústria cinematográfica adulta vai com uma equipe filmar mais um mete-mete em uma cabana na montanha. Durante uma pausa das gravações, Jeremy sai para dar um mijão ao relento, quando é atingido em seu mastro por um meteoro, o que faz com que seu bilau se torne um ser extraterrestre com vontade própria, buscando reprodução e se metendo em buracos onde não é chamado. POR QUE É BOM: Muitas mulheres desnudas (apesar de, na prática, não ser um filme pornô), além dos diálogos e cenas fantásticas. Ou alguém aí já pensou em conter uma hemorragia com um OB? VAI SE CAGAR DE MEDO: É uma pica com vida própria e que rasga pessoas ao meio. Assisti-lo é fazer repensar aquela possibilidade remota de sexo anal.

POR QUE É BOM: Trilha sonora dos Ramones. Sem falar que é uma obra de Stephen King, mestre do suspense que sabe construir bem uma história. VAI SE CAGAR DE MEDO: O gato maldito que voltou do inferno é um bom motivo para ter pesadelos. Isso se você não se lembrar que o Lulu, cachorrinho da família, está enterrado no quintal. Daí para começar a ouvir uivos agonizantes de noite é um pulo.

POR QUE É BOM: Novamente uma obra do Stephen King, que mexe com algumas das fobias do homem (como a courlofobia – medo de palhaços). Sem falar que ele cria o arquétipo perfeito da turminha de amigos dos anos 80, onde todo mundo pode se identificar com um personagem. VAI SE CAGAR DE MEDO: Cara, Pennywise é um Bozo from hell! Nada pode ser mais medonho e assustador do que um palhaço que vira um monstrengo cheio de dentes afiados!

POR QUE É BOM: Um terror psicológico daqueles que faz você pensar quais são os limites da ciência hoje em dia. Fora que a mutação gradual do ator Jeff Goldblum em homem mosca é uma das mais fantásticas e grotescas da história do cinema. VAI SE CAGAR DE MEDO: Exatamente nas cenas de transformação. Não é muito recomendável ver esse filme depois do almoço ou da janta. E se você já odiava aquelas moscas de padaria que infernizam o sono, vai odiar ainda mais!

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REPRODUÇÃO

ÂMBITO JURÍDICO

ENTRE TIROS E BEIJOS POR GABRIELA MO

PIOR DO QUE MARIA-CHUTEIRA, MARIA-GASOLINA E MARIA-VAI-COM-AS OUTRAS, SÃO AS GROUPIES DE PRESIDIÁRIO. ISSO MESMO. AQUELAS QUE NÃO PODEM VER UM DETENTO, UM MANÍACO OU UM PSICOPATA, QUE JÁ CORREM PARA O OUTRO LADO DAS GRADES PARA REZAR JURAS DE AMOR COM HORA MARCADA PELO CARCEREIRO. TARA POR BANDIDO OU FALTA DE LAÇO? NADA QUE NÃO POSSA SER RESOLVIDO EM UM RELACIONAMENTO COM UM CARA QUE GOSTA DE BATER. CONHEÇA ALGUNS FORA-DA-LEI QUE, MESMO NA CADEIA, ROUBARAM CORAÇÕES A MIL PELO BRASIL.

20 / na PRIVADA

FRANCISCO DE ASSIS PEREIRA & MARISA MENDES LEVY O Maníaco do Parque é mais um entre os quatrocentos e noventa e seis mil e duzentos e cinquenta e um, opa, duzentos e cinquenta e dois presos no Brasil. A diferença, é que ele ficou mundialmente conhecido por seduzir, atacar, estuprar, torturar, matar e estuprar de novo mais de dez mulheres em São Paulo. É um dos mais famosos assassinos em série do país. Sua foto foi impressa em colunas policiais, capas de revistas e até mostrada em matéria especial do Fantástico. Essa fama toda atraiu meninas loucas (bem loucas) por ele. “Sei de seu comportamento doentio, por isso quero que fique calmo... Te desejo todas as noites. Te acho gostoso, meu fogoso” – era o que dizia uma das milhares de cartas que Francisco de Assis Pereira recebeu em suas primeiras semanas de cárcere. Mas quem “levou a melhor” (?) foi Marisa Mendes Levy, formada e pós-graduada em História, de família de classe média alta. Marisa se apaixonou, escreveu insistentemente e foi correspondida. Conheceu Francisco e casou com ele. Infelizmente, hoje em dia não há matrimônio que dure. O casal se separou depois que ele surpreendentemente manifestou comportamento violento e atitudes estranhas durante as visitas íntimas.


REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

SE IDENTIFICOU?

JOÃO ACÁCIO PEREIRA DA COSTA & CONCEIÇÃO COSTA

OSMANE RAMOS & MARISA RAJA GABAGLIA

CRISTIAN DE SOUZA AUGUSTO & SIMONY BENELLI GALASSO

Você pode não saber quem foi João Acácio Pereira da Costa, mas com certeza já ouviu falar muito do Bandido da Luz Vermelha, cuja história virou letra de música e até roteiro de filme. Órfão desde sempre, João Acácio era um mentiroso, dizia que era bom moço e de boa família, mas na calada da noite tapava o rosto com um lenço e, armado de uma lanterna com lâmpada cor de sangue, roubava as mansões alheias. Ele foi preso em meados dos anos 60 acusado de quatro assassinatos, sete tentativas de homicídio e 77 assaltos. Reza a lenda que também cometia estupros mas, mesmo assim, recebia muitas visitas de mulheres desconhecidas que choravam sua ausência. Cumpriu 30 anos de detenção e, nos primeiros meses de liberdade, foi assassinado com um tiro de espingarda depois de discutir com um pacato tratador de animais que o havia acolhido em casa.

Que mulher não gostaria de um cirurgião plástico rico e bem sucedido para sustentá-la, amá-la e ainda por cima realizar cirurgias estéticas de graça e quando bem entendesse? Todas nós, néam, amiga? Mas é bom dar uma olhadinha na ficha criminal desses doutores antes de analisar seus extratos bancários. Mais conhecido como “Hosmany Ramos”, o médico que era assistente de Ivo Pitanguy ganhou notoriedade da polícia nos anos 70 quando começou a traficar drogas internacionalmente usando seu jatinho particular. No início da década seguinte foi preso por roubo de aviões, contrabando de automóveis e pelo assassinato de seu piloto pessoal, Joel Avon. Não por isso perdeu o status de homem perfeito.

Ex Afro-X, hoje Rapper de Cristo. Esse não precisou matar ninguém e ainda conquistou uma celebridade televisiva. Detido por assalto a mão armada, foi no Carandiru que conheceu a ex-criança prodígio Simony. Ainda bem que ela já era adulta, caso contrário, as coisas poderiam se complicar. O que ela estava fazendo lá, não sabemos. Talvez procurando mesmo por um par. Parece que essa imagem do anti-herói causa palpitações em gente famosa. O casal teve dois filhos e manteve um affair entre as grades. Hoje, livres e separados, tocam uma “convivência tranquila, saudável, na amizade”, como diz o próprio Afro-X, digo, Rapper de Cristo na maior malandragem, em sua autobiografia super interessante.

Mesmo a sete palmos do chão, ele ainda encanta. Conceição Costa escreve cartas para ele até hoje e cuida de seu túmulo fazendo visitas semanais. Apesar do mesmo sobrenome, eles nunca casaram ou sequer se envolveram. Ela apenas alimenta de forma saudável uma paixão platônica pelo criminoso desde que ambos eram jovens, em Joinville, Santa Catarina.

A jornalista Marisa Raja Gabaglia, polêmica por suas opiniões fortes, não resistiu ao charme financeiro de Hosmany e iniciou um namoro entre as grades que durou um ano. Ela morreu de leucemia em 2003 enquanto ele tentava escapar da cadeia. Hosmany obteve sucesso três vezes, até ser transferido para a Penitenciária de Junqueirópolis onde vive até hoje. E sim, Junqueirópolis existe.

Você também tem esse fascínio pelo bandido? Os casos famosos são apenas para exemplificar: “Também tenho esse fetiche. Sou uma dessas mulheres que tem essa fantasia sexual. O fato do ataque e da dominação fascina muito mais mulheres do que se possa imaginar. Claro que meu fetiche não chega a ponto de mandar uma carta a um detento, mas tenho que admitir: quando vejo um cara todo tatuado, de touca e com cara de mau, me dá muito tesão. E eu não sou louca!” afirma Débora Marcia de Paula, de São João Del Rei, Minas Gerais, em seu blog. Já publicamos a dica na revista: O site de relacionamento Prison Pen Pals ajuda você, mulher moderna e independente que gosta de estar no controle da relação, a conhecer homens tatuados e de touca que vivem enclausurados. Mas se as garotas estiverem querendo um rapaz livre, basta enviar um e-mail para a redação da Void que a gente compartilha. Não ceda seu coração solitário a um canibal.

PARA LER MAIS

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PEDRADA CERTEIRA

NO INÍCIO DO ANO NOS EMBRENHAMOS NA JAMBOREE, UMA DAS BALADAS QUE TOCA O MAIS PURO SKINHEAD REGGAE. APROVEITAMOS A OCASIÃO E ESTUDAMOS UM POUCO DAS ORIGENS DESTA SUBCULTURA QUE NASCEU NA JAMAICA. O RESULTADO FOI A MATÉRIA TODO SKINHEAD JÁ FOI NEGÃO, PUBLICADA NA EDIÇÃO #068. DE LÁ PARA CÁ, NOSSOS TOCADORES DE MP3 FORAM SALPICADOS POR ROCKSTEADY, SKA E EARLY REGGAE. DIA DESSES TROCAMOS IDEIA COM FELIX BARREIRA, UM DOS INTEGRANTES DO COLETIVO REGGAY 420 E DA CREW MOONSTOMPERS. BARREIRA, JUNTO COM OS CHEGADOS GABRIEL BIGODE E LEANDRO PORCO, TOCA EM FESTAS COMO A JAMBOREE, EM SAMPA, E A MS FEST, EM SANTOS, TERRA NATAL DO CARA. A CONVERSA FOI SOBRE O REAL SENTIDO DO SKINHEAD, PEDRADAS CERTEIRAS PARA INCENDIAR A PISTA E UMA LOUCA AVENTURA POR KINGSTON. ‘NUFF RESPECT TO MOONSTOMPERS CREW, IS THE BOSS CREW’

FELIPE APEZZATTI

DIÓ VIEIRA

FELIPE APEZZATTI

POR FELIPE DE SOUZA

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Void_ Como foi seu primeiro contato com a cultura do skinhead reggae? Felix_ Foi no início de 2001. Eu já conhecia o Gabriel (Bigode) que era skinhead. Eu já curtia hardcore, punk e ska há um tempo e comecei a andar com ele. Começamos a nos interessar por subcultura. Éramos pivete pra caralho. Foi aí que surgiu a nossa crew: MS (Moonstompers), que organiza diversos eventos ligados às subculturas desde essa época. Era maior treta descolar umas box da Trojan (1) copiadas. Isso em 2003, 2004. Não tinha o conhecimento que se tem hoje, não tinha blog pra baixar disco, skinhead era careca ou nazi, festa mensal de skinhead reggae naquela época era impossível imaginar... Começamos a fazer as festas em Santos porque não existia balada desse tipo e éramos skinheads e punks. Nessa época os carecas e nazis ainda eram muito mais folgados, skinhead pra eles era o que eles eram, não tinha o This is England (2) ainda pra eles verem que estavam equivocados. Void_ Em Santos, onde vocês vivem, há lugares para discotecar esse tipo de som? Felix_ Tem o Centro dos Estudantes de Santos, que frequentemente organiza eventos culturais. Também tem a festa Futuráfrica, que toca de música jamaicana a afrobeat e gêneros brasileiros. Tocamos duas vezes lá e foi êxito total. A molecada da cidade está começando a conhecer o nosso trabalho e está curtindo. Void_ Tudo que leva o nome skinhead é visto com reserva pelo público em geral. Vocês já tiveram que lidar com o julgamento prévio ou o preconceito de pessoas que não conhecem as origens da cultura? Felix_ Quando a gente era pivete sim, toda hora. Rolava muita porrada, era uma merda. Mas conseguimos mudar essa mentalidade e hoje em dia até os surfistas e os funkeiros em Santos sabem que skinhead não é racista, que é uma parada do reggae. Void_ Os boneheads ou os skinheads fascistas e violentos já colaram em alguma balada em que vocês estavam discotecando? Há algum tipo de tensão entre vocês, que defendem a raiz da cultura, e eles? Felix_ Em festa nossa nunca colaram, mas já tentaram entrar uma vez na Jamboree e deu briga. Outra vez aconteceu a mesma coisa no Lady Hell (3) e também deu merda. Em outra ocasião eles apareceram em uma festa que a gente não estava e arrumaram briga com outros. Aí o Alex (4) pediu pra eles não colarem mais e voltamos a ir na Jamboree. Isso foi bom, porque tem cara que nessa época era careca e hoje em dia viu que isso não tem nada a ver e curte reggae, cola e fica tranquilão. Uma

subcultura não pode ser modificada. Se surgiu com o reggae e com o soul, como um cara que defende a supremacia branca pode se denominar skinhead? Não tem sentido algum! Void_ A maioria dos artistas do skinhead reggae é formada por pessoas idosas, caras da antiga mesmo. Você vê algum nome da cena atual que possa tocar o barco dessa cultura? Que bandas ou artistas você destacaria? Felix_ Mano, ainda existem várias lendas vivas, e não tem como eu te falar de alguém atual que conduza o barco melhor que os fundadores do skinhead reggae. Eu queria muito ver o Derrick Morgan (5) ao vivo, pra mim ele é o cara, um dos maiores, desde o ska, rocksteady e principalmente skinhead reggae. Queria ver o Prince Buster também, mas acho que infelizmente vai ser difícil... O Toots (And The Maytals) é foda, também gostaria muito de ver. Músicos como o Vin Gordon e o Rico Rodriguez ainda fazem tour, o Cimarons ainda está na ativa. Esses são os que melhor podem conduzir algo, os originais. Mas de som atual eu gosto das bandas sul-americanas Tempranos, do Paraguai, dos Aggrotones de Buenos Aires, do Rocksteady City Firm, de Curitiba... Void_ Além da festa Jamboree, que rola na capital, quais outras baladas que vocês tocam? Felix_ A gente organiza uma das primeiras festas de ska, skinhead reggae e rocksteady do Brasil, que é a MS Fest em Santos, antes dela só a Bomboclaat, que era organizada pelo Porco e por outro parceiro nosso, o Gordo Rui, também em Santos. Também temos uma festa itinerante na capital que se chama Tea House, só com música jamaicana instrumental. Além das nossas festas e das baladas dos moleques da Jurassic, também procuramos aparecer nas festas dos Secilians, Copasetic e na Spliff. Tem uma molecada que está começando a comprar disco e tocar oldies aqui em São Paulo, estão rolando shows de grandes artistas ou seletores a cada dois meses e o cenário de música jamaicana antiga está grande como nunca esteve. Uma festa de outro estilo, mas que vale a pena ser citada é a Die Hards, que rola em Santos e é uma das maiores baladas de hardcore e punk do Brasil, sempre com grandes bandas, vários amigos e uma energia fodida! Void_Conta um pouco da experiência de ir para a Jamaica. Como foi garimpar a história e os discos por lá? Foram bem recebidos? Dizem que Kingston é uma cidade meio barra pesada. Felix_ Fomos eu e Bigode da Reggay420, os nossos parceiros da Jurassic e da Roodboss(8), e mais dois aliados que curtem o som mas não tocam... Pô, a gente já chegou com o contato do

(produtor) Chester que o Alex tinha descolado com o Stranjah (integrante do coletivo Reggaematic Sound), então desde que chegamos lá já estávamos com os locais. O Chester era produtor e trabalhava na (loja de discos) Randy’s, na 17th North Parade, um dos lugares que a gente mais pegou discos por lá. O Bigode voltou com duas cópias do 30 60 90 do Jackie Mittoo (7) que foi produzido lá, naquele lugar que a gente estava e me deu uma de presente. Tirando isso, quando souberam que tinha dez moleques brasileiros comprando discos, os jamaicanos deram um jeito e descobriram o hotel que a gente estava. Tinha dias que os caras batiam na porta do quarto às 9h, nos acordavam gritando “records”... Conhecemos várias referências na música como Derrick Harriott, Ken Boothe, Dennis Alcapone, Stranger Cole, King Stitt e Max Romeo. Gravamos com dois deles... Surreal, essa viagem foi foda demais. E eu sei que tem esse estigma de que Kingston é violenta, mas na real fomos muito bem recebidos. O povo é simples. E outra: jamaicanos gostam de futebol, gostam do Brasil. Quando falávamos que éramos brasileiros a rapaziada abria o sorriso. Void_ Na hora de encher a pista, qual é a pedrada certeira? Felix_ Tea house From Emperor Rosko, do Dice the boss, Rock Away, do Tommy MCcook e Top Secret do Winston Wright. Tem as clássicas Liquidator, Moonhop... São várias, mas sem dúvida a maior é o dubplate que a gente gravou em cima da base de Tea House com o King Stitt, lá na Jamaica... Ouvir um cara que a gente curte há 10 anos falando ‘nuff respect to Moonstompers Crew, is the boss crew’ foi lindo!

(1) Gravadora jamaicana fundada em 1968 e especializada em dub, rocksteady e early reggae. (2) This is England é um filme dirigido por Shane Meadows que conta a história de jovens skinheads da Inglaterra em meados dos anos 80. A obra mostra como a subcultura vinda da Jamaica acabou se tornando bandeira de grupos nacionalistas brancos como o partido político de extrema-direita British National Front. (3) Casa noturna que ficava na Rua Bela Cintra, região central de São Paulo. (4) Alex Jurássico, um dos integrantes da crew Jurassic Sound System. (5) Músico jamaicano dos anos 60 que trabalhou com figuras como Desmond Dekker, Bob Marley e Jimmy Cliff (6) Jurassic Sound System (7) Tecladista, compositor e produtor musical jamaicano. Foi um dos membros fundadores da banda The Skatalites

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Magma

CURADORIA POR ANA FERRAZ E PEXテグ

CONVIDADO: Paul Loubet INFO: www.gregoletpoluar.com (poluar)

Merece essa pテ。gina? void@avoid.com.br

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MR. LEXUZ Caros amigos e leitores, depois de ter pago os meus pecados e zerado a minha conta com o regente maior deste universo, estou aqui de volta para comentar um pouco sobre a programação de TV fechada, aberta daquele jeito, bem na manha. Eu e meu cachorro Lúcifer acabamos por sintonizar no canal Animal Planet para ver se a primeira das 24 horas que resultam em um dia poderia ser de risadas, por assim dizer, animais! O programa All New Planet’s Funniest Animals, traduzido para algo como Os Vídeos Engraçados de Animais é, sem meias palavras, uma bosta. Um rapaz moreno, bem vestido e muito animado faz uma piada sem graça atrás da outra. Eu nunca consegui rir muito das tiradas americanas, mas o carinha exagera e não vou nem repetir aqui para poupar sua paciência, não quero fazer você perder o embalinho daquele fino tostado 15 minutos atrás. Bom, mas como sou um cara profissional, vi até o fim esse progamete que, além das piadas do alegre apresentador, empilha vídeo cassetadas protagonizadas por animais. No pior estilo Faustão, o cara narra uma atrás da outra e, com toda sinceridade, só 15% dos filmezinhos presta. E olhe lá. Eu estava com pressa para terminar de assistir o bagulho, mas resistia bem até que olho para o lado e vejo o tamanho do cagalhão que o Lúcifer me deixou de presente. Aquela massa fedorenta, produzida à base de muito Bonzo, é a certeza de que se o Lúcifer falasse, ele me diria com todas as letras: Pô Edmilson, se é pra ver essa merda aí, deixa que eu faço melhor. E fez.

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I SHOT MACUNAíMA

POR FABRIZIO BARON

ar. No começo lembra pequenos deslizes universais, como furar fila e trapacear na escola. Mas na vida adulta vai ficando onipresente, essencial pra se driblar as várias legislações, todas (mal)criadas justamente pra serem burladas pelo jeitinho. E muitas vezes usar ou não o jeitinho deixa de ser uma escolha moral. Como pra fugir do assalto oficial dos impostos. Só que praticando o jeitinho da sonegação, a pessoa honesta acaba sacaneando a cadeia produtiva.

GERINGONÇA E o tal do jeitinho, que é celebrado como um “traço do brasileiro”? Quando Rui Barbosa disse no milênio passado que “há tantos burros mandando em homens de inteligência que, às vezes, penso que a burrice é uma ciência”, já se referia ao capenga’s way of life. Homem público e idealista, aos 19 anos já discursava contra a escravatura. Quando virou governista, mandou destruir os documentos sobre compra e venda de escravos, sob o ingênuo pretexto de “apagar” da memória nacional o passado vergonhoso. Por ignorância talvez, tirou da cartola uma solução simplista e equivocada. Nem mesmo alguém elevado como ele escapou do tal jeitinho brasileiro. Xodó de muito antropólogo suja sunga, o jeitinho é como o Sarney. De longe parece inofensivo e bonachão. Mas faz mais estrago do que se imagina. É festejado nas novelas, na literatura, na mpb e principalmente em filmes e documentários. É como um feitiço, que começa a funcionar na primeira respirada de

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Um dos exemplos de jeitinho do momento são os novos valores das fianças penais. Antes, o playboy que enchesse a cara e patrolasse a parada de bus matando todo mundo, saía cantarolando da delegacia. Podia recusar o bafômetro, chamar o advogado, lanchar, fugir do repórter e voltar pra casa pagando uma fiança simbólica. Respondia em liberdade, num processo humilhante, longo e doloroso pras famílias das vítimas. Agora, o playboyzão pode continuar a fazer exatamente a mesma coisa. A única diferença é que pra fugir da mudança na lei de prisão preventiva, cabe agora aos juízes estipular o valor a ser pago. Reparem no surrealismo macabro da coisa: o nobrezinho bebe, acelera, atropela, mata, foge, se esconde. E depois de combinar o esqueminha com o advogado amigão, se entrega. Se for rico, paga o que for necessário e ainda pega o churras do domingo. Se for chinelo, vai pra cadeia lotada apodrecer uns meses. Lembram do Charles Darwin? Sim, o cara da evolução. Pois o que pouca gente sabe é que até ele teve contato com o jeitinho desgraçado. Em breve temporada passada no Brasil no século 19, foi indagado sobre o que tinha achado do país. Elogiou a cordialidade da galera mas atacou a existência de escravos (um jeitinho que os nobres davam por não saberem fazer absolutamente nada) e destacou os privilégios dos homens de posse e o quanto a justiça era atrelada ao bolso do réu. Notou também a burocracia e aquele estranho modo de fazer festa, o carnaval. Como se vê, o jeitinho brasileiro foi e é o retrato da involução. É um jeito burro de fazer algo que não se sabe. E tirar soluções esdrúxulas da cartola, em plena era da informação, não dá mais.

BATTLEFIELD 3 VS. MODERN WARFARE 3 Duas datas definem os próximos anos em online warfare e vida social (ou o que sobrar disso): 25/10 e 8/11. É quando os dois maiores simuladores de guerra ganham suas esperadíssimas continuações. Pra quem sabe o que as séries Battlefield e Call of Duty significam em termos de gameplay e inovação gráfica, pode parar aqui e ir pra algum servidor formar um pelotão. Pros que cagam e andam pra videogame, um aviso: é melhor se acostumar, pois isso é cada vez mais parte da vida de um adulto ocidental carnívoro. Qualquer esposa, namorada ou algo parecido que tentar arruinar a jogatina, corre o risco de ficar na despensa vendo novela. Ambos os games disponíveis pra consoles e PC (a melhor opção em controles, performance e visual). Na dúvida, compra os dois.

SIMULADOR DE GARI Street Cleaning Simulator recebeu um score abismal de 1.5. Uma boa ideia mal resolvida e que se rendesse uma versão brasileira poderia virar um GTA insano. Info: www.gamespot.com/pc/sim/ streetcleaningsim/review.html


TCHAU, AMIGテグ! 30


POR FELIPE DE SOUZA FOTOS MAURICIO CAPELLARI GABRIELA MO

Depois de um dia estafante no trampo ou na faculdade, você chega em casa e lá está ele latindo, abanando o rabo, pulando feito um louco. Ou miando, ronronando e se entrelaçando nas suas pernas, indicando o caminho do quarto e mostrando que passou as últimas horas defendendo a sua residência. Pois é, assim são os animais de estimação. Nunca cães e gatos tiveram tanta importância dentro das famílias. Também nunca foi tão importante cuidar bem e mostrar o zelo que se tem pelos peludos. O mercado acusa isso e as pet shops se multiplicam como carrapatos pelas ruas dos bairros de classe média. Mas tão relevante quanto cuidá-los e retribuí-los do amor incondicional que eles devotam a nós, seres humanos, é estar preparado para a hora do último e derradeiro adeus. Sim, apesar de todo o carinho que você dispensa para com ele, um dia seu amigão irá bater as botas, não tem jeito. A roda de Samsara gira como o peão da Casa Própria do Seu Sílvio. Ah, e essa não é apenas mais uma matéria engraçadinha. Seguindo a tradição do mês dos finados, as histórias que você lerá a seguir retratam a dor da perda, as indeléveis cicatrizes deixadas por um luto permanente e os diferentes tipos de ritual que cercam o último adeus aos pets. Cremações, enterros, memoriais e um oceano chamado saudade. Segure-se.

MEGUIE DESCANSA NO VASO Imagina ser acompanhado e escoltado durante 13 anos por uma fiel e inseparável escudeira. Do dia para a noite essa companhia deixa de existir e se torna um punhado de cinzas em uma urna. Complicado, não? Pois foi isso que rolou com a aposentada Marlene, 61 anos. Depois de perder Meguie, uma adorável cachorrinha que levava em seu DNA as raças Yorkshire e Pincher, sua vida nunca mais foi a mesma. A mascote foi vencida por um câncer e chegou a fazer duas transfusões de sangue. Nada que evitasse o óbito. “Foi tudo muito rápido, o processo todo levou mais ou menos uns 15 dias. Mas foram dias muito doloridos. Ela foi para a clínica duas vezes. Na terceira vez, naquele dia às 18h, quando tocou o sino da igreja, comecei a chorar e senti que ela iria morrer mesmo. O pessoal da clínica veio aqui trazer o corpo dela e providenciou a cremação. Não tive condição de ir à cerimônia”. Sim, você leu corretamente: cremação. Hoje em dia já há lugares onde você pode incinerar o corpo do seu bichinho e ainda sair de lá com as cinzas dele em uma caixa. Dona Marlene foi uma das que optou pelo processo. Apesar de não querer ter assistido à cerimônia, recebeu as cinzas em casa e as depositou em um vaso que adorna seu jardim. “Tive muitos bichos de estimação na minha vida, mas a Meguie foi a que mais ficou próxima a mim. Ela adorava balinha de goma, sempre que eu saía, trazia umas para ela. Sei que não pode, mas ela era tão amada que eu dava e depois ainda limpava os dentes dela com um palito. A diferença entre ela e uma criança é que a Meguie não falava. Cheguei a entrar em depressão.” Deu para sentir o drama? Hoje em dia, quem conforta Dona Marlene é Belinha, uma agradabilíssima poodle que foi acolhida através de um sistema de adoção. “Quando eu a vi na adoção, ela ficou louca por mim. Nos apaixonamos uma pela outra. A Meguie morreu no dia 16 de julho de 2007, mas acho que a Belinha já é a reencarnação dela”, confidencia a aposentada. Chico Xavier deve ter aberto um sorriso ao saber que sua doutrina já chegou ao reino animal.

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EM FOGO ALTO Para que pais e irmãos possam dar o tchau definitivo para seus familiares de pelo e patas, é preciso seguir uma pá de normas técnicas. É por isso que existem lugares como o Zôobraz, um dos únicos crematórios pet do Brasil. O business começou em 1997, quando o sociólogo João Carlos de Almeida, 48 anos, foi informado por um amigo que os veterinários da região nunca sabiam o que fazer quando a família não queria levar de volta para casa os cadáveres de seus animais.

Todos da família dela chegaram muito mal. Eles vieram cremar um cãozinho de 14 anos”. Repousando na sala destinada aos visitantes, estava a proprietária do cachorro. Rosto inchado pelo choro, corpo curvado fatigado de sofrimento. Decidimos respeitar o luto alheio e não nos aproximamos para conversar. Pelo olhar fulminante que ela dispensava para nós da reportagem, acreditamos que foi a decisão mais correta naquela jornada.

A empresa é tão precursora que, quando iniciou, os equipamentos utilizados no processo nem sequer existiam no Brasil. “Descobrimos a primeira máquina (de cremação) no Rio de Janeiro, em virtude de uma lei burra que eles tinham por lá. Cada prédio de apartamentos era obrigado a ter um incinerador para queimar lixo, sem se dar conta do prejuízo ambiental que isso ia causar”. Quando os governantes se deram conta da cagada que tinham feito, reformularam a legislação e a demanda pelos aparelhos incineradores de lixo residencial acabou. “A fábrica parou de produzir o maquinário, mas tinha um em estoque, que era do show room. Adquirimos o equipamento e começamos no peito e na raça, praticamente um trabalho artesanal”, recorda João.

Para os que querem os serviços da Zôobraz é bom saber que a cremação simples, em que a família não acompanha os processos e tampouco recebe as cinzas do animal, custa entre R$50 e R$200. Quem optar por um pouco mais de exclusividade terá o serviço de Cremação Individual Simples. Esse pacote sai por R$400 e inclui a coleta do corpo do animal.

A atividade é regulada por um sem número de regras e Almeida gosta de frisar que o serviço está dentro de todas elas. “O resíduo que sai daqui passa por laboratórios que fazem exames para provar que a cinza desse animal é inócua. Depois de passar de quatro a cinco horas submetido a uma temperatura de 1000°C, o que sobra da massa corpórea é um pó composto por um conjunto de metais como zinco, magnésio e cálcio”, afirma. Mas deixemos de lado todo esse papo técnico e sanitário e entremos de corpo e alma na seara dos verbos amar e sentir. Seu João não é cuidadoso apenas com a emissão de resíduos no ar e no solo, ele também proporciona, dentro de suas instalações, um canto aconchegante para que a família possa acompanhar o processo de cremação de seu “ente querido” com um pouco mais de conforto. Em uma salinha logo na entrada do prédio, foram colocados sofás, garrafas com água, café e chá. Em uma bandeja há bolachas e na estante está uma televisão para fazer companhia nesse momento duro. Segundo o próprio Almeida, geralmente as pessoas chegam ali muito abaladas. “Essa senhora que está aqui (apontando para dentro do prédio) é um exemplo. Chegou muito mal.

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O plano top é a Cremação Individual Assistida, que consiste em buscar o cadáver, combinar o dia e dar o aparato técnico à família. Enquanto a máquina começa o pré-aquecimento, o staff do local vai explicando os processos aos parentes presentes. Quando o equipamento chega à temperatura correta, o corpo vem da câmara em um carrinho, a família vai vê-lo, tocá-lo e testemunhar ele entrando no forno. Tudo isso pela bagatela de R$800. O zelo e o respeito que Almeida tem com seus clientes são de alto grau. “Se a pessoa pagou mais pelo nosso serviço, se deslocou até aqui e tem essa preocupação é porque valoriza o animal como se ele fosse uma extensão da família. Então não empurramos nenhum serviço goela abaixo. Não oferecemos nem as urnas que guardam as cinzas. Só as fornecemos quando o cliente solicita, para ninguém ficar com a imagem que estamos lucrando com a perda alheia”, explica o empresário. É ele quem dá o veredito final na questão do amor e carinho construídos na relação gente/bicho: “Irmão mata irmão, filho mata pai e pai mata filho. Na relação com os animais, isso não existe! Ao mesmo tempo em que ele é acolhido, ele também acolhe a família. Em muitos momentos durante a vida um animal salva a família várias vezes e essas pessoas nem se dão conta disso. Outras vezes ele será indicado pelo psicólogo para ajudar tratamento de crianças com algum problema emocional. Além do fato de que quando a pessoa tem um bicho, ela chega em casa e é recebida com festa”, resume.


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UM JARDIM FLORIDO PARA OLAVO Outra que não coloca nenhum de seus finados pets na vala comum é a vendedora e dona de casa Elisabete Osch Diefenthaler. Ela é apaixonada por gatos e já chegou a ter 13 bichanos em seu apartamento no centro da cidade. Atualmente só restaram dois dessa enorme família felina. No entanto, todos os outros ganharam uma eterna morada cheia de pompa, circunstância e flores. Ela preferiu não cremá-los e, no jardim da casa de uma amiga, depositou os corpos de seus “filhos”. Em um quintal floreado, cheio de paz e margaridas, descansam Cissa Regina, André Augusto Júnior, Laura Beatriz, Gabriela Cristina, Patrícia Fernanda, Luis Felipe, Olavo Rogério (este tem até comunidade no Orkut), Suzi Renata, Milena Sueli e Bruna Letícia. Sim, Elisabete lembra o nome de cada um deles e escala o grupo sem nenhum lapso de memória. “Eu e meu marido não somos pessoas religiosas, mas procuramos colocar junto ao corpo o cobertorzinho deles, um bichinho de pelúcia, o brinquedo que eles mais gostavam, fotos nossas, fotos dos irmãos deles... Meu esposo fez o caixãozinho de cada um”, conta Elisabete. A prática no enterro e o já costumeiro ato de dizer adeus não minimizam a dor da perda. Segundo ela, o baque e o luto tiveram a mesma intensidade em cada uma das despedidas. “Cada um tem uma personalidade diferente, cada um tem uma importância e é único como se fosse uma pessoa. Não sei lhe dizer se, como casal, substituímos os filhos pelos animais, mas eles têm uma importância muito grande na vida da gente”, garante Elisabete. Ah, e como verdadeiros irmãos, os gatos que seguem na vida terrena sentem a falta da companhia dos brothers que já se foram. Andréia Verônica, uma das gatas componentes deste imenso clã, anda tristonha e deprê com a morte de seus manos. “Ela está tendo que tomar até fluoxetina”, completa Elisabete. Ah, e falando em personalidade felina, não dá para deixar passar o fato de que Suzeney Ricardo, outro remanescente dessa penca de filhos, mostra aos donos da casa quem manda no recinto e, sem medo de abreviar sua existência na Terra, mija na toalha do marido de Elisabete toda vez que esse se dirige até o banho. Robert Crumb se encheria de orgulho de Suzeney e com certeza o adotaria para acompanhar outro filho seu, o famoso Fritz .

ELA TRATA E CURA, MAS TAMBÉM DÁ A NOTÍCIA A morte não é traumatizante apenas para as famílias que perdem seus bichinhos. A pessoa que precisa dar a fatídica notícia também sofre por tabela. A médica veterinária Rochana Fett, da Clínica Chatterie, tem essa desagradável incumbência. “Eu escolhi ser veterinária sem saber que eu teria, como profissional, que dar essa notícia aos donos. Nós aqui mandamos um cartão de condolência, junto com uma flor, um dia depois do óbito. É uma maneira de dizermos para a pessoa que estamos solidários com a perda dela. Depois de sete anos, eu ainda choro quando tenho que dar a notícia”, confessa Dra. Rochana. Para ela, a situação é análoga à morte de um parente ou familiar próximo e é sempre mais difícil dar a informação para os proprietários de animais que não tinham quadro de doença terminal, aqueles que se foram do dia para a noite, sem dar sinais prévios. Nessa lista estão os atropelados, os que sofreram queda (muitas vezes a queda acontece nas janelas dos grandes edifícios) ou foram acometidos por males que os levaram a morrer rapidamente. “Para os donos do paciente terminal, é a mesma coisa que dar a notícia da morte para a família daquele ser humano que está com câncer. As pessoas tem aquela imagem de sofrimento e acabam aceitando melhor”, declara a veterinária. Para ela, no momento do impacto é preciso respeitar todos os rituais. Rochana conta que já teve cliente sua que quis enterrar o animal de estimação em um vaso de flores dentro do apartamento. Para o bem geral, mudou de ideia e optou pela cremação. Em outra ocasião, testemunhou a dona de um de seus pacientes que veio a óbito ficar pedindo durante quatro horas que o bichano voltasse à vida. “Eu acho muito difícil quando, nesse processo todo, existem crianças ou pessoas de idade envolvidas. A primeira perda na vida de uma criança geralmente é o bicho de estimação”, diz ela. A Dra. Rochana, que é especialista em saúde de gatos, diz que as principais causas de Kaput desses animais são a insuficiência renal, os tumores neoplásicos, hipertireoidismo e leucemia felina. Então, você que tem aquele siamês lindo andando pela casa, fique de olho. É impossível evitar a morte, mas tomando os devidos cuidados, será muito mais prazeroso compartilhar os momentos felizes com seu amigão ao lado.

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CLEO REPOUSA NA ESTANTE DA SALA Essa jornada recolhendo depoimentos das pessoas que sofreram com a perda de seus animais foi realmente muito emotiva para todos nós. No entanto, nenhum dos personagens entrevistados se emocionou tanto ou mostrou tantos sentimentos latentes quanto Anna (que preferiu se identificar apenas dessa forma). Ela é o que as pessoas chamam de “gateira”, ou seja, uma pessoa que ama gatos e recolhe os bichanos que foram abandonados nas ruas, os trata e encaminha para adoção. Simples, né? O problema é que um desses gatos que ela trombou foi a fêmea Cleo. Anna a encontrou no caminho de volta do enterro da própria mãe, quando o pneu do carro furou e ela teve de parar em uma oficina mecânica. “Eu ia pegá-la e colocá-la para adoção, mas foi uma coisa muito apaixonante, ela era um bicho muito especial. Eu acabei abrindo meu coração, não teve jeito. Até porque ela estava chegando na minha vida em um momento de perda”, recorda, em prantos, Anna. Tudo ia bem até Cleo pegar FIV, a leucemia viral felina. Para complicar toda a situação, Anna se culpa pelo contágio. “A veterinária discorda, mas eu acho que a doença se manifestou porque eu trouxe para casa uma ninhada nova de gatos resgatados”. Para Anna, Cleo não curtiu muito aquela história de ter que dividir a atenção de sua dona com outros da mesma espécie e isso acabou abalando psicologicamente a gata e, por consequência, baixando sua imunidade. A tal da FIV fez com que Cleo desenvolvesse um linfoma no mediastino, o que começou a produzir um líquido que pressionava o coração e o pulmão do pobre animal. A mazela fez com que a gata entrasse em um ciclo de sofrimento que envolveu sessões de quimioterapia e transfusões de sangue. “Para mim gato é muito sensível. Quando eles param de comer é como se estivessem desistindo de viver, sabe? Ela passou a não se alimentar mais, ficou uns 50 dias com sonda, foi enfraquecendo e acabou falecendo”, recorda chorando muito.

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A partir da notícia do falecimento, vem o momento doloroso do funeral. “A médica veterinária foi muito bacana e acertou tudo pra mim, levou o corpinho dela pra casa, embalou, colocou um envelope de tecido. Aí encontramos com ela e fomos juntos para a cremação (chorando muito). Ela foi um serzinho tão especial para mim que eu não podia me desfazer dela de qualquer maneira” declara entre soluços. Durante a vida, vamos tendo uma série de perdas. Tomamos pé na bunda de namoradas, somos mandados embora de nossos trampos, nossos amigos e parentes se mandam dessa para outra sem aviso prévio... No entanto, para Anna a morte do animal de estimação toca ainda mais fundo. “Eu acho que é uma dor muito maior. Eu escolhi não ter filhos, mas imagino que o sentimento seja o mesmo da perda de um filho. E isso que eu estava com ela há apenas um ano e pouco. Tem coisas que a gente não tem como medir a intensidade. Isso foi há três anos e até hoje não superei (choro)”. Hoje as cinzas de Cleo repousam na estante da sala onde Anna mora com seu marido. Apesar de ela não ter uma crença religiosa muito exata e se definir como “católica não praticante”, acredita que, quando morrem, nossos amigos animais ficam nos esperando em algum lugar, para nos fazer companhia eterna. “Eu acredito que um dia a gente se encontre de novo com eles (choro)”, sentencia. E já escolada nesse esquema de adotar bichos que sofrem maus tratos na rua, a gateira aproveita e manda uma mensagem a todos: “Que as pessoas aproveitem e saibam entender seus bichinhos de estimação, dar carinho, respeitar... E respeitar não só os seus, mas também os que estão na rua. Às vezes eu vejo tanta gente com cachorro compradinho, de pedigree, olhar para tanto bicho abandonado na rua e não fazer nada. O pouco que eu posso eu dou conta de fazer”, finaliza Anna.


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NA TELA AO REDOR DO MUNDO E ATRAVÉS DO TEMPO Funeral de Buda – Recentemente, o templo budista Klong Toey Nai, de Bangcoc, passou a realizar cerimônias fúnebres para aqueles que querem enterrar seus animais sob o olhar do “Desperto”. O ritual inclui orações curtas feitas pelos monges, cremação de duas horas e uma viagem rio abaixo para espalhar as cinzas. A maioria dos “clientes” é formada por donos de cães e gatos, mas também são cremados muitos macacos e tartarugas. Toda a função custa a partir de 60 doletas.

Agradecimentos: Chatterie – Centro de Saúde do Gato – Info: http://chatterie.com.br/

Robert Crumb é um quadrinista americano e Fritz The Cat foi talvez seu personagem mais famoso. Fritz era um gato com fortes tendências artísticas e volta e meia se metia em grandes aventuras sexuais. O bichano saiu do papel e virou filme de animação em 1972, sendo o primeiro desenho animado da história dos EUA a ganhar a classificação X (impróprio para menores).

Des Chiens – É de Paris o cemitério pet mais antigo do mundo (pelo menos na era moderna). O Cimetière des Chiens foi inaugurado em 1899 e serve de última morada para cães, gatos, cavalos e até peixes. Lá está depositado o corpo do famoso Rin Tin Tin. Os funerais, as lápides e os ornamentos do lugar são muito parecidos aos encontrados nos cemitérios de humanos. A única diferença é que a direção do local não permite cerimônias religiosas. O portal de entrada foi desenhado pelo arquiteto Eugene Petit e segue o estilo Art Nouveau. Tipo Faraó – No Egito antigo os gatos eram vistos como animais sagrados e a mitologia local dá destaque para Bastet, a deusa gata que era protetora das mulheres, da maternidade e da cura e era guardiã das casas e feroz defensora dos seus filhos. Em Bubastis, cidade do Delta do Nilo, existia o Templo de Bastet, que mantinha gatos sagrados que eram embalsamados em grandes cerimônias quando morriam, por serem considerados encarnações da deusa. Assim, os gatos é que eram tidos como os melhores amigos do homem. Eles só perderam o posto para os cachorros na Idade Média, na Europa, quando havia a crença de que os bichanos traziam má sorte e poderiam ser bruxas disfarçadas. Além disso, os gatos não resistiam aos surtos de peste bubônica, muito comuns na época.

Seguindo na vibe do amor aos bichos, separamos aqui algumas dicas de filmes para geral assistir e se debulhar em lágrimas. Mais do que chorar, você irá perceber que nunca foi tão verdadeiro aquele ditado: “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos animais”. Marley e Eu – Dirigido por David Frankel, o filme conta com os atores Owen Wilson e Jenifer Aniston, que interpretam um casal de jornalistas. Os dois decidem criar um labrador. O filhote se torna um enorme cão de 45 Kg e transforma a casa e a vida da dupla em um caos. Apesar disso, rola muito amor. Você já deve saber como essa história termina. Triste pra caralho. Sempre a seu lado – Bom exemplo do como um Akita pode amolecer o coração de um galã como Richard Gere. Na história, Gere é Parker, um professor universitário que encontra o adorável cachorro abandonado em uma estação de trem perto de sua casa. Ele o acolhe em sua residência e a partir daí nasce uma amizade daquelas, a ponto do mascote ir com o dono todos os dias até a estação de trem para vêlo embarcar para o trabalho e ficar o esperando no retorno da jornada. A diferença aqui é que no fim das contas quem acaba ficando sozinho é o cão. Se prepare para chorar mais um pouco. Caninos Brancos – Adaptação do livro de Jack London, o filme conta a história do órfão Jack Conroy, interpretado por Ethan Hawke, que vai para o Alasca em busca de uma mina de ouro deixada pelo pai. Lá ele acaba fazendo amizade com um bicho que é mezzo lobo, mezzo cão e o batiza de Caninos Brancos. A direção é de Randal Kleiser, o mesmo cara que comandou as filmagens de A Lagoa Azul. Vale pela história e pela paisagem do pico. Harry, o amigo de Tonto – Os felinos também tem seu espaço na sétima arte. Neste filme, dirigido por Paul Mazursky, o personagem Harry Combes (Art Carney) é obrigado a sair do apartamento em que viveu a vida toda pois seu prédio será demolido para dar lugar a um estacionamento. Harry, com mais de 70 anos, embarca em uma viagem pelos Estados Unidos e leva junto Tonto, seu gato de estimação. Uma mostra de amizade fora do comum.

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DANIEL DE LOS SANTOS

POR GABRIELA MO DANIEL DE LOS SANTOS

NA ESTICA

LEVIZINHA Oi mulherzinha. Você sabe que roupa justa e apertada marca e ainda ajuda a concentrar gordurinha nos lugares mais chatos. O melhor para o verão é usar peças folgadas, vestidos leves e, acompanhando as tendências globais, investir nas transparências e estampas marcantes. A estilista Adriana Zanol desenvolve peças de mulher para mulher, isso mesmo. Adriana é formada em Moda no Polimoda International Institute of Fashion Design and Marketing, e sua marca está na ativa há um ano. A coleção de verão é delicada e suave, bem feminina e confortável, com peças produzidas a partir de algodão, seda e modal. Uma delicinha. Info: adrianazanol.blogspot.com

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VANS DE MOTO O fotógrafo e cineasta parisiense louco por motocicletas, Dimitri Coste, foi escalado pela Vans para colaborar com a linha OTW. O cara (que pelo jeito agora virou designer também) desenhou um novo modelo de Larkin, em couro branco na parte frontal, com listras navy na cor vermelha. Na parte de dentro, a assinatura do fotógrafo vem gravada com letras maiúsculas. Puro estilo francês. Bom seria a moto vir de brinde!


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FERNANDO SCHLAEPFER

PIRATAS DE CURITIBA

TÊNIS PARA BONITO

SELVAGERIA

Já falamos aqui na Void sobre a marca curitibana Dion Ochner. Depois que publicamos a nota sobre as tees originais e estilosas, parece que a marca deu um salto! Tanto que agora, neste verão, a Dion Ochner lança um site oficial após nove anos de trabalho em redes sociais. Inclusive a parceria com o fotógrafo carioca Fernando Schlaepfer, que clicou a coleção Navy Pirate, veio desse investimento na web. E para carimbar o bom momento com honras e méritos, a marca lança peças bem lindas, mas bem lindas mesmo, daquelas que a gente compra para dar de presente e acaba ficando para si. As camisetas têm tudo a ver com a gente que é: moderno, jovem, mas quer se vestir direitinho para ir trabalhar. As compras podem ser feitas por e-mail (dionochner@hotmail.com) e o idealizador da DO larga um recado para os lojistas: “Valorizem as marcas que estão começando, invistam em artistas em geral”. É isso aí, né?

Olha a Nike chegando aí para conquistar os pés de quem não tá nem aí para fazer exercícios. Apesar de inspirados nos modelos usados por tenistas, a linha Classic Premium é perfeita para quem prefere andar de carro à dar uma corrida. O seu estilo casual combina detalhes em azul royal na costura, na língua ou no cano do calçado. São duas opções de cores e uma tiragem limitada: apenas 12 pares de cada modelo chegaram aqui no Brasil. Tá entendendo o que é isso? É um tênis para não pisar no barro, meu filho. À venda na Surface to Air desde o dia 3 de novembro.

Grrrrrr! Soltaram as aves exóticas, leões e tigres! Os bichos da floresta agora estão andando pela cidade, entrando em shoppings centers e curtindo as baladas! Será o fim do mundo? O caos? O apocalipse? Não, calma lá! Não há motivo para pânico. A real é que o curitibano Jefferson Kulig lançou uma linha de camisetas, a Jeffer.son, composta por blusas, tees e regatas inspiradas nos animais selvagens. São 18 estampas impressas de forma digital em cinco modelos diferentes. O melhor de tudo é que o processo de desenvolvimento das roupas é sustentável (tudo a ver com o tema animalesco). Todas querem! Sabe aquela peça hit que todo mundo vai amar no verão? Tá aqui, achamos. O único pavor agora é que elas esgotem. Elas são vendidas na loja da marca em Curitiba, na Galeria Lúdica e na !N Trend. Simbora comprar! Apela para o parcelamento em 10 vezes sem juros e leva todas!

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REPRODUÇÃO INTERNET

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Existem superficialidades válidas na vida. Como a sensação de comprar um sapato lindo e poder sair com ele da loja. É como se você não precisasse vestir mais nada a não ser aquele lindo par de sandálias ou o que for. Conhece a sensação? Se nunca experimentou o sentimento, então está na hora de comprar um Louloux, a marca de calçados mais linda do mundo. E não, ela não é de uso exclusivo de celebridades internacionais, é acessível, pode ser adquirida pela internet e chega direitinho na sua casa. A Louloux nasceu em 2005 no Sul do Brasil, fruto da paixão do designer Cristiano Bronzatto pelas artes aliada à criação de sapatos. Desde então, Cris já levou suas “obras de artes para os pés” a diversos países, sempre driblando as amarras impostas pelo mundo da moda para criar sapatos legais para pessoas legais que não precisam vender o carro para comprar umas sapatilhas. Exclusividade e sustentabilidade são as tags da grife, que reaproveita materiais (couros, tecidos, fitas...) para produzir no máximo 34 pares de cada modelo. Para Cris, buscar soluções e combinações inusitadas é a diversão. E o resultado são esses sonhos ilustrados aqui. Ai, ai... Info: louloux.com.br

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LOULOUX LINDOS

BRINCADEIRA DE CRIANÇA Ah, como é bom! Ficar em casa assistindo Sessão da Tarde é coisa de criança ou de desempregado. Mas que é legal cabular o trabalho e ficar de bobeira vendo televisão, isso é! A alternativa para não perder o emprego por ausência é levar a nostalgia para o escritório. Vestir a camiseta de seus heróis de infância favoritos não é mais mangolisse, é fashionisse. É só combinar com um terno que pronto, você vira um executivo moderninho ou um escravo da publicidade. Se você é menina, fica mais linda ainda. A Blue Steel, que agora virou marca independente da Renner, tem investido nesse público: que precisa ser adulto mas não perde o humor e a imaginação. Entre as peças lançadas pela Blue Steel, estão camisetas dos Ursinhos Carinhos, Smurfs e Mickey Mouse.

RÁPIDOS NO OLHAR Quem melhor para ser garoto propaganda de uma marca moderna e visionária? Emerson Fittipaldi, óbvio. A lenda do automobilismo abraçou a Evoke e lançou junto com a marca o Evoke X Fittipaldi. São óculos baseados em um modelo que o piloto usava na década de 1970: vintage, silhueta clássica e linhas marcantes. O Evoke X Fittipaldi pode ser encontrado em multimarcas de SP, RJ, SC, RS, ES e GO e na loja online da marca por preços que variam de R$ 899,00 a R$ 2.750,00. Uuuuuhhh! Será que eles vêm em alta velocidade?


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MORO E EU FOTOGRAFIA YIJUN LIAO (PIXY) ENTREVISTA POR GABRIELA MO

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A PEQUENA FOTÓGRAFA CHINESA YIJUN LIAO ESCOLHEU UM NAMORADO DA MESMA FORMA QUE UM HOMEM DAS ANTIGAS ESCOLHERIA UMA MULHER PARA CASAR. ELA FOI ATRÁS DE UM CARA MAIS NOVO PARA MANDAR E DESMANDAR, CONTROLAR EM VEZ DE SER CONTROLADA, TORNAR-SE O PILAR MAIS RESISTENTE DA RELAÇÃO E, ÀS VEZES (POR QUE NÃO?), TAMBÉM PARA VESTI-LO DE BONECA E BRINCAR DE CASINHA. CONTRARIANDO SUAS EXPERIÊNCIAS ANTERIORES, ELA QUERIA SER A MAIS FORTE DO CASAL. YIJUN LIAO, A.K.A. PIXY, NASCEU E CRESCEU NA CIDADE MAIS POPULOSA DO MUNDO, XANGAI, EM UM PAÍS COM FORTES TRADIÇÕES E QUE NÃO ESTIMULA A PRODUÇÃO ARTÍSTICA. AINDA MAIS SE VOCÊ FOR MULHER. DEPOIS DE 25 ANOS NA CHINA E LOUCA PARA COLOCAR PARA FORA TODOS OS SEUS ANSEIOS E SUA CRIATIVIDADE, PIXY FEZ AS MALAS E FOI ESTUDAR FOTOGRAFIA EM UMA OUTRA CIDADE CONFUSA: MEMPHIS, NOS ESTADOS UNIDOS. “A CASA DE ELVIS PRESLEY” AINDA PREGA O CONSERVADORISMO E É CONSIDERADA UMA DAS REGIÕES MAIS VIOLENTAS DO PAÍS. MAS FOI LÁ QUE ELA SE REBELOU, INICIOU SEUS TRABALHOS MAIS DOIDOS E CONHECEU O NAMORADO/COBAIA MORO, UM MÚSICO JAPONÊS MUITO LOUCO COM QUEM ESTÁ JUNTO ATÉ HOJE E QUE ACABOU SE TORNANDO O “MUSO” DE SUAS FOTOGRAFIAS EXPERIMENTAIS. A INFLUÊNCIA DOS EXTREMOS FEZ DE PIXY MAIS DO QUE UMA GRANDE FOTÓGRAFA, UMA ARTISTA EXCEPCIONAL. SEU PROJETO EXPERIMENTAL RELATIONSHIP, AO MESMO TEMPO BEM HUMORADO E QUESTIONADOR, MOSTRA EM IMAGENS ESTÁTICAS A RELAÇÃO DE CINCO ANOS COM MORO. PIXY TAMBÉM COLECIONA AS SÉRIES STILLS FROM UNSEEN FILMS, COM FRAMES FICTÍCIOS DE FILMES QUE NUNCA EXISTIRAM, E MEMPHIS, TENNESSEE, QUE MOSTRA SUA PRIMEIRA VISÃO DA AMÉRICA. ELA AINDA RESERVA UM TEMPO PARA CANTAR NA BANDA PIMO (PIXY & MORO), FAZENDO BARULHOS ESQUISITÍSSIMOS MAS EM MUITO BOM TOM. HOJE, AOS 31 ANOS, ELA MORA NO BROOKLYN, EM NOVA YORK, A CAPITAL MUNDIAL DA MISTURA. LUGAR PERFEITO PARA O MOMENTO.

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O que faz a sua relação com Moro ser diferente das que você teve anteriormente? Ele é o primeiro namorado que está disposto a admitir e aceitar a troca de papeis. Nenhum dos meus ex-namorados (inclusive um que era mais novo que eu) estava disposto a fazer essa troca, ou mesmo a admitir que ela acontecia. Mas com Moro isso rola naturalmente, a gente assume papeis diferentes desde o início. Qual é o seu papel nesse namoro? Acho que tenho me tornado cada vez mais dominante quando estamos na rua. Mas em casa nós temos algo diferente. Ninguém é dominante o tempo todo. Nós trocamos os papeis com frequência em nossa rotina. Quer dizer que às vezes você é o “homem da relação”? Sim, por que não? Não há razão para existir um papel exclusivo para cada um. Isso se aplica ao sexo também? Haha... Isso é algo que realmente precisa ser experimentado! Essa troca de papeis pode ser a solução para casamentos fracassados? Não acho. Um casamento depende do quanto as pessoas combinam uma com a outra. Algumas pessoas se sentem perfeitamente confortáveis com seus papeis originais e estereotipados. Outras não! Para essas que não se encaixam no estereótipo, mudar a atitude pode ser a solução. Você já experimentou relacionamentos diferentes antes? Já tive “relações estereotipadas”. Por isso eu acho que é hora de mudar e aproveitar para fazer esse projeto. Como é a relação ideal na sua opinião? Uma relação que seja autossuficiente, que pode ser prolongada infinitamente. Quando duas pessoas combinam entre si, se complementam e se toleram. É possível amar e odiar ao mesmo tempo um lugar ou uma pessoa? Os dois sentimentos são parecidos, eles precisam de paixão e são ambos extremos. O ódio vem do amor, mas o amor dura e o ódio termina. Você amava Xangai? Eu vivi em Xangai do meu nascimento até três anos depois da minha formação na universidade. Me graduei em Tecnologia Educacional, algo sobre como usar a tecnologia na educação, o que eu não entendo até agora. Nunca fui atrás de arte. Na

China, as pessoas pensam que só aqueles que não passam nas provas do colégio devem ir para a escola de artes. Mesmo eu me imaginando uma artista, sempre me disseram para ser uma boa aluna.

chinesa saindo de sua cidade natal pela primeira vez e indo para o sul dos EUA! As pessoas de lá, a arquitetura, o churrasco, o blues... Tudo ficou muito marcado na minha memória. Quanto a Xangai, este é o lugar onde nasci e cresci. Posso voltar quando precisar.

Foi por isso que você se mandou para os Estados Unidos? Eu me tornei designer gráfica em Xangai, o que não tinha nada a ver com a minha formação. Mas eu gostava muito do assunto e me tornei uma autodidata. Só que depois de trabalhar com isso por três anos, fiquei exausta! Me senti limitada e queria ir atrás de algo que me desse mais liberdade de criação. Então fui para os Estados Unidos estudar fotografia.

Deve ter sido muito chocante essa mudança de Xangai para Memphis... Memphis se tornou uma cidade muito especial para mim. Antes de ir, tudo o que eu conhecia de lá era a localização geográfica e Elvis! Eu achava que era um lugar tranquilo, mas descobri uma das cidades mais perigosas dos EUA! Também encontrei muitos músicos, inclusive meu namorado. O que eu realmente gosto de Memphis é que às vezes ela parece uma cidade abandonada, que foi deixada para trás, um lugar cheio de lugares vazios. Isso mexe muito com a minha imaginação, fico pensando o que acontecia por lá no passado.

A sua família lhe deu apoio? Eu tinha 25 anos e meus pais eram bem liberais se comparados aos outros pais chineses. Na época, eles já tinham se dado conta de que não podiam mais tomar decisões por mim. De certa forma, eles me apoiaram, mas eu fiz tudo basicamente sozinha. Eu estudei em escolas públicas, consegui bolsa de estudos integral para os EUA e trabalhei na faculdade. Eles me ajudaram quando eu precisei deles. Como foi ser uma aluna estrangeira nos Estados Unidos? Eu gostei muito da experiência, porque foi a primeira vez que me permitiram fazer algo que eu realmente gostava. Apesar da barreira do idioma, senti que tinha muito a aprender e superei isso. Existem outros fotógrafos de Xangai que inspiram você? Shen Wei*. Ele é um bom amigo e um mentor para mim. Ele também é de Xangai e, assim como eu, vive hoje em Nova York. E o que você faz em Nova York? Moro no Brooklyn e leciono arte e fotografia no Queens Museum, aberto para a comunidade local e pessoas que falam mandarim. Eu nunca achei que fosse gostar de dar aulas, mas preciso dizer que isso é parte da minha vida agora. Ser professora é bem gratificante, pelo menos mentalmente. Fico orgulhosa quando meus alunos realmente aprendem comigo. É melhor viver no Brooklyn do que em Memphis ou Xangai? Não diria que é melhor, é diferente. Toda cidade tem coisas que você ama e outras que você odeia. No ponto que estou da minha vida, acho que eu preciso viver em Nova York e trabalhar por mim mesma, e o Brooklyn parece ser o lugar para se viver aqui. Memphis foi um lugar perfeito para eu começar minha jornada fotográfica, foi o primeiro gostinho que tive dos EUA, algo bem americano e diferente do que eu já conhecia. Imagine uma garota

Seu trabalho Stills From Unseen Films lembra os autorretratos de Cindy Sherman em Untitled Film Stills**. Você sofreu alguma influência dela? Acredito que toda mulher fotógrafa se influencia de certa forma ou se identifica com a Cindy Sherman. A ideia do projeto dela fala muito sobre “ser mulher” e o que nós pensamos de nós mesmas. O meu também tem esse olhar para dentro. As fotos de Stills From Unseen Films são situações que você gostaria de ter vivido? São apenas stills de filmes imaginários, não uma situação que eu gostaria de viver. Cada filme do projeto tem seu próprio protagonista e nenhum deles sou eu. O que você anda fazendo atualmente? Neste momento estou investindo na minha banda com meu namorado. Chama-se PIMO (Pixy & Moro). A ideia é baseada no Experimental Relationship, mas a música não é somente sobre o meu ponto de vista. Eu diria que a metade das músicas é sobre o ponto de vista do Moro. Nós fazemos músicas e alguns videoclipes bobos juntos. Estamos no processo de gravação do nosso primeiro álbum. Está sendo divertido. * www.shenphoto.com ** Cindy Sherman é uma fotógrafa norte-americana autora de vários projetos entre eles o famoso Untitled Film Stills, uma série de 69 autorretratos que simulam stills de filmes imaginários, em que ela interpreta um personagem diferente para cada foto.

Info: www.bloodypixy.com www.facebook.com/pimoband

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na CAIXA

POR LEANDRO VIGNOLI

MOMENTO CARAS Informamos que o casal Thurston Moore e Kim Gordon, líderes da banda Sonic Youth, anunciou o seu divórcio no último mês, através da assessoria de imprensa da banda. Os dois tinham 27 anos de casamento e tem uma filha, Coco Hayley, de 17 anos. Nenhum comentário foi feito em relação ao futuro da banda, que no final de novembro fez inclusive uma turnê pela América do Sul, com shows em Buenos Aires, Montevidéu, Santiago e São Paulo, no

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festival SWU. Aliás, o casal está junto na banda há ainda mais tempo: são 30 anos de formação completados nesse ano. O álbum mais recente (que talvez possa ser o último) lançado pelo Sonic Youth é The Eternal, de 2009 – Thurston Moore lançou há poucos meses o seu segundo disco solo, produzido por Beck. Agora deixe pra trás aqueles comentários sarcásticos que um dia fez sobre as notícias de fofoca do Nelson Rubens e escorra sua lagriminha indie.

MOMENTO MAD

MOMENTO NME

Outra dupla, esta imaginamos que não também um casal, o Duck Sauce está de volta com mais um single. Conhecidos mundo afora nas baladas pelo hit gigantesco “Barbra Streisand”, em que o vídeo já teve mais de 65 milhões de visualizações no Youtube, é no audiovisual que A-Track e Armand Van Helden apostam mais uma vez. O clipe de “Big Bad Wolf” ultrapassa o nível do surreal, com os dois DJ’s fazendo papel de, literalmente, dickheads – uma gíria americana para “imbecil”, mas no sentido literal, “cabeça de piça”. Vejamos o spoiler, pra quem ainda não sacou: na historinha de bizarro soft-porn do vídeo, os dois saem numa balada e terminam a noite com muito sexo, eles com cabeças humanas no lugar do pau, as garotas com cabeças humanas no lugar da checa. Não é excitante, só grotesco e pervertido mesmo. Procura no seu site de vídeos preferido. Evite estar comendo.

Os irmãos Gallagher, dupla que briga mais do que casal, agora pode simular suas guerrinhas através dos charts de músicas. Mês passado, o mais velho finalmente lançou o seu álbum solo, Noel Gallagher’s High Flying Birds, quase nove meses após a nova banda do mais novo. Nas paradas, o primogênito se deu melhor e o disco de Noel chegou ao Number 1 de mais vendidos da semana no Reino Unido e Irlanda, enquanto Liam Gallagher, com o Beady Eye, alcançou no máximo o Nº 3 nos dois países. Nos singles, o mais velho também deu de relho, com duas faixas entrando no Top 20 britânico, enquanto o máximo conseguido pela banda do caçulinha foi o Nº 31 – mesmo com 4 singles lançados. E o que fica dessa ladainha é a confirmação de que quando uma banda ruim se separa é muito pior pra quem odeia. Agora temos por aí não uma, mas duas bandas pra constantemente ouvir o velho mais do mesmo.


FOTOS POR MELL HELADE

CTRL X + CTRL C

Feito uma lava escaldante que passou meses à espera de entrar em erupção, o Cut Copy passou pelo Brasil transbordando fervura. Marcada inicialmente pra junho, a turnê da banda australiana por São Paulo e Rio de Janeiro foi cancelada em virtude de Puyehue – para os mais íntimos, “o vulcão chileno” –, em que as cinzas pairaram no ar sul-americano e impediram a realização de algumas dezenas de vôos na época. Shows remarcados para outubro, agora com Porto Alegre também na rota, uma vez mais o ardiloso vulcão deu as caras, interrompeu outras dezenas de pousos e decolagens, dessa vez vencido, porém, pelos insistentes australianos que aterrissaram no sul brasileiro no pequenino interlúdio de abertura aérea. Então, feito uma larva escaldante que passou meses à espera de entrar em erupção, o Cut Copy passou pelo Brasil transbordando fervura. Dessa nova safra de eletrônico comportado que nunca fica ruidoso o suficiente, a banda é daquelas que cresce no palco, que usa o “quem sabe faz ao vivo” a seu favor. Durante todo o tempo, eles interpelam livre uso do estético e orgânico de forma uniforme, como um bloco, sempre em mínimos detalhes. Quando são os beats que predominam, a guitarrinha articula a melodia de canto, sem gritar a presença. Quando até mesmo um violão é que comanda as ações da música, os synths jamais saem de cena. Nunca uma escolha parece atrapalhar a outra, o Cut Copy varia do estético pro orgânico com tamanha naturalidade, seja soando tal qual uma banda de rock garagem testando o gigantesco set-up de pedais de distorções, seja na simulação de clubbers botando pra dançar pessoas atochadas em ecstasy. Com uma técnica perfeita – e não há ressalvas quanto à execução de sequer uma música –, a performance da mesma maneira em nada fica a dever. Os rapazes, ainda que trajados discretamente em camisas sociais e sapatos Oxford tais quais vendedores da H&M, dominam aqueles metros quadrados em que estão tocando como poucos. Sob iluminação a estilo psicodelia-rave, a banda faz todo o mise-en-scéne esperado em shows, dançando e pulando e pedindo palmas, incitando o público quando ele parecia mais acomodado, subindo na bateria e socando pratos, insurgindo em feedbacks de guitarra contra os amplis. Aquele tipo de coisa que acerta no alvo mesmo aos que têm pouca familiaridade com a banda, convencidos ou na base das músicas ou do simples festerio proporcionado. Como outros fenômenos da natureza, seria provável que daqui alguns pares de anos um certo vulcão chileno fosse esquecido. Agora por certo todos lembrarão, para sempre, mesmo que por vezes ele ganhe das pessoas um outro nome, Cut Copy.

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1001 DISCOS PARA OUVIR DEPOIS dE MORRER MILLI VANILLI ALL OR NOTHING POR LEANDRO VIGNOLI

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Volto a 1989 onde coloco esse LP na ponta da agulha, esgaço o volume do aparelho de som 3 em 1 no máximo e canto cada música desse disco como se estivesse no Maracanã lotado. Talvez tenha dançado um break pela sala também. Aquele tipo de coisa especialmente embaraçosa, mais prudente de ocultar como poeira de rodapé a compartilhar com alguém. Então se algum de vocês teve vergonha alheia de ter sequer imaginado a cena, outros tantos ficaram constrangidos por algo bem pior: o de também terem feito a mesma coisa.

A história da duplinha cabelo pixaim artificial foi bem drástica, porque venceram o Grammy com a fraude, mas não é pioneira. Desde os anos 50, há registros de gravações sem créditos, como Sid Vicious, que não tocava baixo quando entrou pros Sex Pistols. Assim sendo, com o mercado da música tão plural quanto artificial, hoje tudo pode ser um grande Milli Vanilli – sem alguém abrir a boca, você não saberá a diferença de Lady Gaga ou David Guetta, assim como todas músicas do Coldplay podem ser gravadas na verdade pelo Rogério Flausino.

anos de fato sabiam cantar, apenas não puderam sair do esquema – nos shows eram obrigados a dublar. Existe até uma clássica lenda de que foram descobertos quando um playback deu pau. A verdade, mais sem graça, é que deram uma entrevista admitindo a farsa. Um deles morreu de overdose apenas alguns anos depois, o outro ainda lança músicas como Fabrice Morvan. Existe um filme em produção contando toda essa tragicômica história – desde já entramos na campanha para que os dançarinos da Xuxa do You Can Dance representem a dupla.

E o pior de toda a história do Milli Vanilli nem foi a música. Essa era apenas uma caricatura como tantas do euro-dance dos anos 80 e que se arrasta até os dias de hoje. O verdadeiro problema foi que eles escancaram que na música pop qualquer meia-boca pode gravar um disco de forma anônima e colocar pessoas mais “midiáticas” pra representar.

Então o pior de toda a história do Milli Vanilli é que ela deu um tiro de escopeta em nossa INOCÊNCIA. Nada menos que 30 milhões de pessoas no mundo que compraram os singles foram enganadas. Engano que rendeu nada menos que quatro músicas da dupla no primeiro lugar dos EUA. E o mais triste, os dois modelos de vinte e poucos

O pior de toda a história do Milli Vanilli é que passados 23 anos do acontecido, e mesmo com All or Nothing sendo o álbum fora de catálogo com mais cópias vendidas da história, aquele meu LP guardado como uma espécie de tesouro, no eBay vale apenas 12 dólares. Toda uma vida de constrangimento para absolutamente nenhuma recompensa.


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LEIA O LIVRO... E RELEIA... E RELEIA... E RELEIA... 60


TEXTO E FOTOS: VINÍCIUS DE LA ROCHA E LITA ALMEIDA

(Recomendamos a leitura a seguir ao som dos álbuns Tim Maia Racional Vol. I e Vol. II ou qualquer música das Bandas Racionais Universo em Desencanto) Motivos para serem vistos como freaks é que não faltam para os estudantes da Cultura Racional, fundada no longínquo ano de 1935. Sim, estudantes mesmo, porque é assim que são chamados - e se autodenominam - os seguidores daquela que, como dizia Tim Maia, “não é religião, não é seita, não é doutrina, não é ciência, não é filosofia, não é espiritismo, é um conhecimento vindo do nosso verdadeiro mundo de origem”. Porém, o conteúdo ditado pelo chamado Racional Superior vai além. Ele é tudo isso e mais um pouco. Ou melhor, ele “não é” isso tudo que foi citado acima, mas é um pouco mais, sim. Aliás, bem mais. O que esperar de uma galera que anda sempre de branco, acredita em discos voadores e afirma que os extraterrestres são os habitantes do nosso mundo de origem, conhecido como Mundo Racional, local de onde viemos e para onde vamos? Pode soar, no mínimo, um tanto quanto estranho, especialmente se o seu conhecimento sobre o assunto não vai muito além das músicas compostas por Tim Maia em sua Fase Racional. Esse era o nosso caso, até que, numa caminhada pelo Centro de São Paulo em busca de um lugar para almoçar num sábado chuvoso, nos deparamos com um grupo de estudantes da Cultura Racional. Paramos para conversar, saber mais sobre o tema e, de repente, extrair dali uma pauta para a Void. Mas foi complicado entender o que aqueles homens e mulheres de branco tentavam nos explicar com muita simpatia e sempre de olho em alguns folhetos, como se “colassem” a matéria. Um desses materiais tinha o seguinte título: “Desvendado o Mistério dos Discos Voadores e Extraterrenos”. Era difícil compreender, naquele momento, do que se tratava e quais os princípios da Cultura Racional. O que eram aqueles painéis com desenhos de ETs e portais e glândula pineal e umbanda e outras imagens que pareciam ter saído direto da mente do pintor Salvador Dalí ou do cineasta Luis Buñuel, mestres do surrealismo? Pensamos até em desistir da pauta ou então chamar a matéria de Confusão Racional. Se realmente tivéssemos tomado esse rumo, teríamos cometido uma grande injustiça com os estudantes, os preceitos da Cultura e, principalmente, com o seu criador, o carioca Manoel Jacintho Coelho, morto em 1991, aos 88 anos de idade.

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O CAMINHO DO BEM Para nós, reles mortais e leigos no assunto, tudo mudou e ficou bem mais claro quando fomos ao bairro de Santo Amaro, zona sul da capital paulista, visitar o ensaio da Banda Racional e conhecer uma das livrarias dedicadas ao tema na cidade. Na escola onde a banda se reúne, fomos recebidos pelo carismático e cativante Seu Luiz, 60 anos. Ele conversou animadamente com a gente, contou sua história na Cultura, os motivos que o levaram até ela e nos convidou para um “almoço racional” que seria realizado no domingo seguinte. O papo com Seu Luiz trouxe um pouco de luz para a até então obscura pauta. Já na livraria, foi a atenciosa Eliete Barros, 53 anos, estudante da Cultura Racional desde 1995, quem nos recebeu e falou com muita clareza - ufa! - sobre o tema. “As pessoas têm uma visão muito distorcida da gente. Não somos um bando de fanáticos como falam. Andamos de branco sim, mas porque é uma cor que transmite paz, amor, união e concórdia, alguns princípios da Cultura”, diz Eliete, enquanto vende uma leva de pelo menos dez livros para uma senhora de aproximadamente 65 anos e vestida toda de branco, é claro. “As palavras do livro são energias materializadas. Lendo, a gente desenvolve a glândula Pineal . E o que acontece? Com esse desenvolvimento, a glândula faz você enxergar cada vez mais o todo. E quanto mais estudo, mais ela se desenvolve. Essa é a Cultura do Terceiro Milênio, da razão, do raciocínio. Antes, até 1935, a cultura era do pensamento e da imaginação”, explica. Basicamente, o objetivo da Cultura Racional é o desenvolvimento do raciocínio para, desta forma, retornar ao mundo de origem. “A gente está aqui de passagem, não é mesmo? Você sabe para onde vai? Estamos vivendo, mas todo dia fazemos a mesma coisa. E a finalidade de estarmos aqui, qual é? Para onde eu vou quando morrer? Quando você sabe realmente como tudo funciona, nem liga mais para a morte”, empolga-se Eliete. “Mas não adianta. Se você não ler, eu vou ficar aqui falando e você não vai entender nada”.

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MAS LENDO ATINGI O BOM SENSO, A IMUNIZAÇÃO RACIONAL Franzino, simplório e sorridente, Seu Luiz Rodrigues conheceu a Cultura Racional há pelo menos 20 anos, através de um amigo. Na verdade, foi por causa do cabalístico “7”. Seu Luiz não entendia porque o número era tão importante e qual a ligação dele entre fatores tão distantes. O mundo foi feito em sete dias, eram sete as maravilhas do mundo, são sete os continentes, sete notas musicais… Que conta era essa, onde tudo de mais básico e importante na vida era somado, dividido ou multiplicado a partir desse ímpar aparentemente tão reles? “Daí eu li o livro. Li várias vezes até realmente ler de verdade. Eu achava que lia, mas não. Eu só juntava as palavras e elas formavam frases”. No livro de capa azul, Universo em Desencanto, Seu Luiz achou a chave para o questionamento que carregava com tanta aflição: “São sete os reinos: animal, mineral, vegetal, fogo, terra, água e ar. Um precisa do outro, são interligados. Mas nós precisamos de todos e nenhum deles precisa de nós. Entendeu?”. Acredite ou não, ele já está na quarta leitura de todos os livros. Não se assuste com o número, mas são 1 mil - isso mesmo, 1 mil - os livros que fazem parte da Cultura Racional. Ou seja, o Seu Luiz aí já fez umas 4 mil leituras, é mole? Eles foram divididos em cinco partes. A primeira é chamada de Obra, composta por 21 volumes que tratam sobre o lado material da vida, aquilo que conseguimos ver. A segunda é a Réplica, a “prova”, que fala sobre tudo o que está acima do Sol, também com 21 livros. A terceira parte é conhecida como Tréplica, a “comprovação”, e seus 21 volumes abordam temas ligados ao Mundo Racional. A quarta é o Histórico, composta por 934 volumes. Já a quinta são os chamados Amarelões, com três volumes editados entre os anos de 1935 e 1938. Vai encarar?

No almoço de domingo, conhecemos a historiadora Renata Lípia, 27 anos, que praticamente nasceu dentro da Cultura Racional. Seu pai teve contato com o livro no final dos anos 70, exatamente na rua onde tivemos a ideia de fazer esta matéria, a Barão de Itapetininga. Coincidência? Sinal? Será que a minha fase também é racional? Enfim... “O livro tem uma linguagem muito simples. A intenção é que qualquer pessoa aprenda exatamente a mesma informação que está sendo passada ali. E ela é repetida várias vezes porque, em alguns momentos, a informação não chega na primeira, mas chega na terceira vez. Outra pessoa pode pegar na quinta, e outra só na oitava. Cada vez que você lê, é uma visão diferente, pois você já está diferente. E o quanto você muda é importante, porque a ideia é essa, é a transformação”, conta Renata. O Universo em Desencanto, o primeirão, é o principal livro da Cultura Racional, uma espécie de abre-alas para o conhecimento. “Tem até erro de português, de concordância, mas ele explica tudo de três maneiras diferentes. Uma vírgula já muda todo o sentido. As pessoas falam que ele é repetitivo, mas não é. O conteúdo não veio da cabeça de nenhum ser humano, ele é transcendental, ditado pelo Racional Superior”, explica Eliete.

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E para você que está tentando adivinhar o que passa na cabeça dos “jovens racionais”, Renata deixa a dica. “Eu fui uma adolescente normal, usava piercing, chegava estragada da noite, essas coisas que quase todo mundo faz”, confessa. “É engraçado, porque você vai para a balada e vê a galera dançando e pirando nas músicas do Tim Maia, mas eles não têm noção do que é aquilo, não entendem o que significa. E eu adoro ouvir quando estou na noite”, conta. Logo que entrou na Cultura, o pai dela levava para a casa os LPs racionais do cantor e colocava na vitrola para a família curtir durante o jantar. Style, né? E enquanto isso você aí, tentando lembrar o que é mesmo um jantar em família e o seu coroa enlouquecido com o último CD do Julio Iglesias.

RESTA APENAS UM CONTATO COM O MUNDO RACIONAL Mas e esse papo de que os extraterrestres são os habitantes do Mundo Racional, como fica? Quer dizer que o famoso ET Bilu é o cara mais evoluído do planeta e que logo mais, quando partirmos desta para a melhor, ele será um dos nossos companheiros? Antes de zoar, calma lá, caro leitor. A própria Renata diz que a história não é bem assim. “Temos a nossa maneira de enxergar os UFOs. A gente não vê o ET de Varginha por aí, mas sim uma manifestação, uma energia. Eu confesso que já vi um, mas também não posso dizer que era, é tudo muito relativo. A gente tem um jeito de lidar com as questões energéticas e dizer que só a gente vê assim também é errado. A física quântica, por exemplo, fala disso, só que ninguém chama físico de maluco. Mas para você entender, precisa mesmo ler e reler. É o único jeito”, ensina a historiadora. A simpática Eliete completa: “A função deles é alertar que a fase mudou, que existem outras coisas, e é com a ajuda deles que a gente adquire esse conhecimento. Eles estão aí para avisar que estamos na Fase do Terceiro Milênio”. Então tá! E que a fase seja bem-vinda (imagine aqui um emoticon sorridente).

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Mas é bom falar sobre uma questão importante em relação ao Tim Maia. Embora o nome do cantor carioca esteja estritamente ligado à Cultura, ele foi apenas mais um integrante dela. O que ocorre é que, no início dos anos 70, Tim conheceu o famoso livro Universo em Desencanto, um dos alicerces da Cultura Racional. E ficou tão fascinado que entrou de cabeça na história, dando origem a dois álbuns que continham canções de exaltação à Cultura: Tim Maia Racional Vol. I e Vol. II (existe ainda um terceiro, com extras que não entraram nestes dois primeiros volumes). A partir daí, a imprensa passou a ignorar completamente o mestre do soul brasileiro durante um bom tempo, por achar que ele havia pirado definitivamente. Como diz a letra da canção Bom Senso, do seu primeiro álbum racional, o síndico virou uma verdadeira “calçada maltratada”. Porém, nos últimos anos, estes álbuns viraram verdadeiras obras cult e invadiram boates de todo o Brasil varonil. Em abril de 2011, inclusive, a editora Abril lançou uma série colecionável com vinte CDs do músico carioca, dentre eles os três que haviam sido ignorados pela mídia especializada no passado. Nos dias de hoje, a Cultura Racional não está presente apenas em Guiné Bissau, Moçambique e Angola, onde todos ficam Numa relax, Numa tranquila, Numa boa. Porém, os números totais de estudantes no Brasil e no mundo são tão díspares - de 15 mil a alguns milhões - que achamos melhor não dar a morta.

Glândula Pineal ou Epífise: é considerada pelos cientistas mais místicos a “morada da alma”. O filósofo René Descartes a definiu como “sede da alma” e “glândula do saber e do conhecimento”. É o órgão da percepção e da razão e atua nas sensações físicas de bem-estar, sendo também uma espécie de sensor capaz de “ver” o mundo espiritual.


NÃO É FANFARRA, NÃO É ORQUESTRA, É BANDA RACIONAL “Eu tenho dois empregos. Todo mundo tem sua vida, mas sempre que podemos estamos aqui”, explica Paulo Laduano. Ele rege a maior e mais antiga Banda Racional do país, a de Santo Amaro, que existe desde 1982 e conta com 150 integrantes. As bandas racionais foram montadas para transmitir a Cultura, principalmente em datas cívicas como o Dia da Independência, por exemplo, quando desfilam lado a lado com militares, adventistas e escolares em colants coloridos. “Quando começou (a banda) era fanfarra, porque os metais não tinham pisto, depois é que entraram (os trompetes)”, conta Paulo. Hoje eles são uma banda marcial, com instrumentos de palhetas como oboé e sax, além de pratos, caixas, bumbos, comissão de frente e balizas.

saxofonista. E o som fica bom, não dá confusão? “Olha, é tanta gente que você nem escuta o que os outros tocam”, diverte-se ela, que toca na banda desde os nove anos de idade.

Além de regente da banda de Santo Amaro, Paulo é diretor da União Racional, a banda-mãe que reúne todas as 27 bandas regionais espalhadas pelo país. “É lindo, juntamos mais de mil e quinhentos músicos”, conta orgulhoso. Eles fazem um encontro geral uma vez por ano, durante o Réveillon, no Retiro Racional de Nova Iguaçu, cidade do Rio de Janeiro. Todos são voluntários, desde regentes até cozinheiros, e se acomodam como podem nas diversas casas e galpões do Retiro.

Todas as bandas racionais tocam as mesmas canções, desde Asa Branca, de Luiz Gonzaga, até Cisne Branco, hino oficial da Marinha brasileira, passando também por Trem das Onze, de Adoniran Barbosa e a Marcha Nupcial. Apesar da variedade do repertório, a música Imunização Racional, mais conhecida como Que Beleza, composta por Tim Maia, depois imortalizada (ou mortalizada) na voz de Gal Costa, ainda é o carro-chefe e a mais pedida.

Em uma de nossas visitas ao ensaio, todos estavam se preparando para o encontro anual do Dia da Cultura Racional, comemorado em 4 de outubro. “Não vai todo mundo, mas provavelmente teremos uns 500 componentes, de várias outras bandas”, conta Renata, que também é

Além da banda marcial, os músicos de Santo Amaro também se dedicam a outro tipo de grupo. Montaram, há cinco anos, o Cordão do Bola Branca, parafraseando o famoso bloco carioca Cordão do Bola Preta. Eles ainda não se apresentam nas ruas encharcadas de cerveja e purpurina que o Carnaval

oferece, mas ensaiam regularmente. O pátio da escola municipal Borba Gato, onde a galera se reúne, no mesmo bairro paulistano de Santo Amaro, vira uma quadra de escola de samba. Animadas senhorinhas ensaiam seus passos ao som de repinique, tamborim, bumbo e outros instrumentos chacoalhantes. Mas os batuques não param por aí. Estão fundando uma escola de samba, com agremiação e tudo, a Unidos do Raciocínio. A primeira apresentação acontecerá no retiro de Nova Iguaçu, em fevereiro do ano que vem. Vão desfilar no sambódromo? Aderson Moreno, professor de português e coordenador nacional das bandas racionais, desconversa e ri: “Ainda é cedo, não sabemos nem como vai ser essa história de escola, por enquanto vamos nos divertir”. Quer conhecer as letras, baixar partituras ou organizar um Karaokê Racional na sua casa? Vai aqui: http://www. bandaracional.com.br/

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PIC-NIC COM OS ASTROS


POR SABRINA DURAN

N

o início dos anos 90, o cineasta Oliver Stone colocou um sabor tétrico na minha vida que eu nunca mais abandonei. Mérito daquela clássica cena final do filme The Doors, que ele dirigiu, quando a câmera passeia entre os túmulos do cemitério parisiense Père Lachaise até encontrar a lápide do Jim Morrison e estacionar nela, com o macambúzio Adágio em G Menor, do Albinioni, soando por trás da voz do Jim, que recita em off o poema The Severed Garden. Uma tristeza só. Por causa da morte, a vida era dura. Jim não existia mais, os Doors não existiam mais, eu havia chegado tarde ao mundo e ainda era uma adolescente que chorava feito besta numa cena clichê, sonhando com o dia em que visitaria o túmulo do meu ídolo cabeludo e drogado. Dezessete anos depois, lá estava eu, na entrada do Père Lachaise, procurando no mapa do cemitério onde era a casinha caiada do vocalista dos Doors. Foi em julho desse ano, durante o verão parisiense, quando aproveitei uma viagem de trabalho para prestar esta homenagem aos mortos da minha vida. Peguei um queijo brie vagabundo, um vinho chinfrim e uma baguete amanhecida e fui fazer pic-nic com Jim Morrison, Balzac, Edith Piaf, Moliére e Oscar Wilde no Père Lachaise, onde estes e outros famosos estão enterrados. Enquanto eles descansavam na eternidade, eu comia, bebia e me fotografava em suas tumbas. Foi lindo. Foi forte. Foi doente. Obrigada, Oliver Stone, por despertar a morbidez clichê na minha vida. Obrigada, forças do universo, por permitirem que eu ainda não tenha virado comida de verme. Feliz mês dos mortos pra vocês.

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STIMULUS

UM ANO SEM IRONS

no resultado final da série de shapes, batizada de Live Fast, que garantiu a cada skatista da Flip um modelo exclusivo. A explicação dos gráficos pode ser conferida em um vídeo no site da marca. Recomendamos assistir em estado de consciência alterada para uma melhor (ou qualquer) compreensão.

Você conhece o Skimboard? Se o nome não lhe é familiar, a imagem do surfista deslizando com as pranchinhas finas da areia em sentido contrário às ondas não deve ser totalmente estranha. Para divulgar ainda mais a beleza do esporte, a Exile Skimboards e a Extreme Outdoor Supply lançaram o Stimulus, filme que mostra o resultado de três anos e meio de imagens captadas em picos como México, Califórnia, Chile e algumas praias européias. São 40 minutos de ação com cenas fantásticas em alta definição e uma trilha sonora de tirar o fôlego. Woody Harris, Brendan Stevens e Paulo Prietto são alguns dos riders que participam do filme. Para assistir o trailer, basta digitar Stimulus no campo de busca do Youtube. O DVD original pode ser adquirido no site da Extreme Outdoor Supply por 30 doletas.

O último 2 de novembro marcou um ano da morte de Andy Irons, que nos deixou cedo demais, aos 32 anos. Em homenagem a este que foi um dos principais nomes do surf mundial, a Billabong produziu um vídeo tributo que contém uma entrevista muito bacana, em que Irons fala sobre o clima competitivo do esporte, a pressão por resultados e sobre conviver com Kelly Slater, entre outras coisas. Além do filme (que pode ser assistido no Vimeo), a marca irá relançar o famoso board short modelo Rising Sun, uma das marcas registradas de Andy e seu estilo. Em julho, a Billabong firmou acordo em que transfere os royalties da venda dos produtos que levam a assinatura de Irons para a esposa e a filha do atleta.

Info: flipskateboards.com

Info: extremeoutdoorsupply.com

PSICODELIZANDO Depois de colaborar com a Matriz Skate Shop na produção de um modelo de shape exclusivo para o skatista Luan de Oliveira (ver Na Base edição #074), a marca Flip emenda outra parceria, dessa vez com o artista inglês Pinky. O doidão, que mora na praia de Brighton, próximo a Londres, é conhecido por criar universos gráficos imaginários repletos de cores e elementos que remetem diretamente à psicodelia. E é exatamente isso que dá pra perceber

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REPRODUÇÃO

POR FELIPE DE SOUZA E PEDRO DAMASIO REPRODUÇÃO

na BASE

Info: vimeo.com/31417794


DIVULGAÇÃO

DE WOODWARD A CARAPICUÍBA André Jesus é um dos principais nomes do BMX brasileiro e, para dar um upgrade em sua técnica e em seu repertório de tricks, ele passou o último verão americano enclausurado no Summer Camp de Woodward. O pico é um sonho de qualquer atleta de esportes de ação e conta, entre outras coisas, com mega rampa, bowl e pista de dirt. Na volta para casa, André aproveitou e exibiu suas habilidades para um vídeo da Ogio, marca que o patrocina. As imagens foram captadas por Wellington Utida entre os meses de setembro e outubro em São Paulo, Osasco, Carapicuíba e São Bernardo. O resultado final foi batizado como André Jesus I Back to Roots, dois minutos de pura arte em cima da magrela. Info: youtube.com/ OGIOBR

CHORA, PUNK Uma dica pra você que já não cozinha mais na primeira fervura, mas ainda acha que pode mudar o mundo com uma tattoo no pescoço, uma guitarra na mão e um skate no pé. The Other F Word é um documentário que mostra a vida de alguns personagens clássicos de cenários como o punk, o skate e o BMX, depois que viraram pais de família. Na lista dos progenitores, músicos como Tony Adolescent (Adolescents), Jack Grisham (T.S.O.L), Flea (Red Hot Chili Peppers), Greg Hetson (Circle Jerks), Mark Mothersbaugh (DEVO), Fat Mike (NOFX), além de skatistas como Tony Hawk e o “Master of Disaster” Duane Peters. O filme teve premiére no festival SXSW em março, começou a ser exibido nos EUA em novembro e sabe-se lá se vai rolar por aqui. Provavelmente não. O negócio é esperar o torrent pipocar na web e baixar, ao bom estilo do it yourself, como o papai ensinou. Info: theotherfwordmovie.com

O LADO SK8 DA FORÇA Se você viveu os anos 80 em toda sua intensidade, é bem provável que não tenha passado imune por dois fetiches clássicos da época: Star Wars e skateboard. Não sabemos se esse é o caso do artista indonésio Abell Octovan, mas ele acaba de juntar essas duas fissurinhas em um boneco de oito polegadas que muito marmanjo gostaria de ver embaixo do pinheiro de Natal. Lord on Board tem edição super limitada e pode ser adquirido diretamente no Flickr do artista pela bagatela de 160 doletas (tá pensando que o lado negro se vende assim tão fácil?). Vai lá e arremata ou, se a situação tiver meio feia, ainda dá tempo de escrever sua carta pro bom velhinho, nerdão. Info: flickr.com/34206813@N06

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ENTREVISTA E FOTOS GABRIELA MO

FORA DA TELA 74


Lucca Gloeden tinha 3 anos de idade na foto que estampou a capa da Void #018. Nessa edição, a matéria Digital Junkies expressava a nossa preocupação com viciados em computadores. Mas isso foi em meados de 2006, hoje as apreensões são outras. Em um ano em que o sex symbol infantil Justin Bieber se apresentou no Brasil, estamos mais assustados com o novo rumo dessa juventude. Afinal, o que vai ser dos nossos filhos? O menino Lucca nos dá uma gota de esperança. Ele não gosta de ler, mas adora geografia e, aos 13 anos de idade, é levantador do time de vôlei de um clube local. Na contramão da sua geração, prefere ir ao parque jogar futebol com os amigos a ficar em casa no videogame, sabe tocar na bateria todas as músicas do Nevermind, arranha uns riffs na guitarra e não suporta pagode nem sertanejo universitário. Ah muleke! Se você pensava que quem não era nascido na Copa de 1994 não podia ser levado à sério, está na hora de rever seus conceitos. Lucca nasceu em 1998 e é a prova viva de que com boas referências e educação, um outro mundo é possível. Estamos contando com ele! Void_ O que mudou na sua vida depois de ser capa da Void? (silêncio) Void_ Você lembra quando a revista saiu? (silêncio) Void_ Enfim... Que tipo de som que você curte? Led Zeppelin, Foo Fighters, Nirvana, Red Hot Chili Peppers, Chickenfoot, Greenday, Incubus, Rage Against the Machine, Ozzy Osbourne, John Mayer, Stone Sour, Papa Roach… entre outros.

Void_ Os teus colegas de aula também curtem esse som? Mais ou menos. Meus três amigos mais próximos curtem a mesma coisa que eu. E a maioria das bandas diferentes que eles curtem fui eu quem mostrou. Na verdade, o meu pai que me apresenta muita coisa. Os meus amigos conhecem por minha causa e eu conheço por causa do meu pai. Void_ E os outros colegas, gostam de que? Ah, eu não procuro saber. Mas eu acho que é pagode, essas coisas assim. Void_ Você não escuta pagode? Não, pavor! Void_ E as bandas coloridas? Ridículas! Void_ Como você sobrevive nas festas da turma? Nem tem. O líder da minha turma tem preguiça até de respirar. Eu me dou melhor com os mais velhos. Jogo futebol todo domingo no parque com uns amigos que não são do colégio. Um tem 16, outro vai fazer 15 anos. O meu melhor amigo é um ano mais velho do que eu. Void_ É, imagina como seria uma festinha da turma, só pagode... Que tristeza... Void_ Já brigou na escola? Já aconteceu de brigar umas duas ou três vezes, porque se tirar com a minha cara, também... Mas eu não sou de partir pra cima, é muito difícil. A última vez eu tentei me acertar na boa, mas o cara me deu um soco na cara. Eu virei e dei dois! E ele saiu chorando com o olho roxo, foi para o banheiro. Mas o bom é que ele não vai mais se meter comigo, porque eu dei dois nele!

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Void_ Você é popular no colégio? Não sei, sou popular na minha aula, porque sou bom no futebol, no vôlei. Não quero me achar. Porque já pensam que eu me acho. Void_ E por que você não se candidata a líder da turma? Todo mundo pede pra eu ser, mas tenho mais o que fazer. E se eu for líder da turma, os outros vão pensar que eu me acho. Void_ Você faz sucesso com as meninas da turma? Elas estão naquela fase de só querer caras mais velhos. Void_ E isso incomoda? Não, porque tendo uma que gosta de mim já basta. Void_ E tem uma? (silêncio)

“ELAS ESTÃO NAQUELA FASE DE SÓ QUERER CARAS MAIS VELHOS.” 76

Void_ Tá bom, vamos mudar de assunto. Quando sair do colégio, vai fazer o quê? Depende do que for melhor. Se eu ver que tenho futuro pro vôlei, vou pro vôlei. Se ver que tenho futuro pra música, vou pra música. Se nenhum dos dois der certo, eu vou fazer uma faculdade. Eu acho que sei lá, fotografia. Void_ Você fotografa também? Eu gosto de foto. Não que eu fotografe, mas foto da família eu faço. Void_ Entre futebol, música e videogame? Esporte em geral e música. Prefiro ir para o shopping do que ficar em casa jogando videogame, a não ser que eu esteja muito entediado. Aí eu curto, jogo futebol, God of War e Call of Duty online no PS3. Não deixo de sair de casa para ficar jogando videogame nunca.

Void_ Você tem uma banda? Banda mesmo, não. Tenho dois amigos que estão tocando comigo e já somos quase uma banda. A gente ensaia no estúdio que meu pai e eu temos aqui em casa, compomos músicas. Void_ Qual o tema das músicas? Quando conheci os caras que tocam comigo, eles já tinham a letra pronta, então eu nunca parei pra prestar atenção nela. Eu ajudo a compor o instrumental, a bateria. A gente não se empenha muito na letra, é mais no som mesmo. Void_ Já fizeram algum show? Não, a única vez que eu toquei foi no aniversário do meu pai. Fiquei muito nervoso, mas deu tudo certo. Void_ Quais os últimos shows que você assistiu? Eu fui no show do Ozzy, o que eu mais gostei, no do ZZ Top, do Aerosmith e do Joe Lynn Turner, ex vocalista do Deep Purple. Estou aguardando o show do Pearl Jam, o próximo que vou. Um dia quero assistir Foo Fighters e Red Hot Chili Peppers, que ainda não tive oportunidade. Void_ Não foi no Paul McCartney? Não. Eu curto Beatles, mas não as carreiras solo. Só John Lennon eu curto um pouco. Void_ Você quer ser famoso um dia? Sim. Quero ser reconhecido. E morar na Europa. Void_ Gosta de ser fotografado? É legal até. Se vocês me passarem as fotos vou colocar no Facebook. Quando eu era pequeno fiz alguns trabalhos como modelo. Mas depois não me aceitaram mais, acho que eu não tenho qualidade suficiente para o trabalho.


Void_ Você lembra de ter tirado a foto para a Void? Não lembro. A foto é bem mais antiga do que a edição. Eu tinha 3 anos quando meu tio Fabian Gloeden tirou aquela foto. Mas sei que foi bem espontânea mesmo, pega de surpresa enquanto eu estava vendo televisão.

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REVELAÇÃO Temp.04 Ep.09 Por: PDR e MAU

CHEGOU A HORA, MEUS AMIGOS... SENTIREI FALTA DE VOCÊS... MAS PROMETO TRAZER A VITÓRIA COMIGO!

CAMARRÁDA BANÁNA, O MÁQUINA É FEITO SÓ PÁRRA UM PESSOA DE CADA VEZ… LEMBRRE-SE DISSO!

DUAS CÓRRPOS AÍ DENTRRO PODE SERR UM CATÁSTRROFE!!

O VELHO BLABLABLÁ DE SEMPRE, MANGO...

MAS QUE BARULHO É...

PUPUPU...

TUDO PRONTO... QUE O POTÁSSIO ESTEJA COMIGO... IGNIÇÃO!!

PASSARALHO!! O QUE VOCÊ ESTAAAAAHHHHH...

PUPUPUPUUUUUUHHHH...

continua...

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© HB É UM PERSONAGEM ORIGINAL DA LAIRTON REZENDE COMICS. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS, NÃO VAI QUE É FRIA.


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VOID #076 - SENGAYA  

Edição #076 da revista Void

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