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# 073

ANO 07 / 2011 DISTRIBUIÇÃO GRATUITA LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

#073

AFIADA

AFIADA


Toda caixa tem uma hist贸ria. Inicio. Vans Off the wall desde 1966. .


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NESSA EDIÇÃO

POLAR Com o frio trincando o esqueleto, o índice pluviométrico quebrando recordes e o bolor tomando conta das paredes, o que nos resta a fazer se não depositar todo nosso bom humor e esperança nesses macios pedaços de celulose? Prepare o coquetel tarja preta e tenha uma agradável leitura.

JUVENILHA

CONTAGEM REGRESSIVA

HEMISFÉRIO NORTE

Encher a cara e se enfiar numa festa repleta de adolescentes em fúria pode ser uma boa idéia, especialmente quando a temperatura lá fora não passa dos 10 graus.

Depois de quinze dias de chuva ininterrupta, é inevitável pensar que alguma merda muito grande está por vir. O Movimento Zeitgeist só confirmou nossa teoria.

Recalcando geral, a família Barros nos manda notícias e fotos de uma tour que acabaram de fazer por Espanha e França. Sol, calor, praias e muito skate ao ar livre... Merdah!

CAPA(S)

FOTO DA CAPA: GABRIELA MO

Rua Felipe Neri, 148/303 Porto Alegre - RS - 90440-150 Fone: (51) 3023-7662 Email: void@avoid.com.br

VOID # 060 NADAAVER

VOID # 061 NÓIS QUE VOA

VOID # 062 MOCADO

VOID # 063 EM PELO

VOID # 070 POIS FOI

VOID # 071 SEMPRE

VOID # 072 OLHO DE GATO

VOID # 058 EU ACREDITO VOID # 067 FOTOS

VOID # 069 MEIA NOVE

VOID # 057 MAU SUJEITO VOID # 066 FEZES

VOID # 059 BABY BOOM

VOID # 056 FOTOS VOID # 065 BAZINGA!

VOID # 068 NA LINHA

VOID # 055 AGORA VAI

A VOID não se responsabiliza por opiniões emitidas em artigos assinados que não refletem, necessariamente, a opinião da revista. Os trabalhos identificados pelo ícone da licença Creative Commons têm sua publicação permitida nas seguintes condições: Distribuição e adaptação livre sem fins comerciais mediante o crédito do autor. Info: http://creativecommons.org/international/br

VOID # 064 CORPO SINTÉTICO

www.avoid.com.br


EXPEDIENTE Direção: Gabriel Rezende Marco Arioli Pedro Hemb Rodrigo Santanna Vicente Perrone Editor: Pedro Damasio Repórteres: Felipe de Souza, Piero Barcellos e Gabriela Mo

COLABORADORES Leandro Vignoli é radialista da

Oi FM e nosso expert em música e adjacências. Ele é residente nas seções “Na Caixa” e “1001 Discos”. Lise Bing NÃO É uma garota quietinha. Gadgets e bizarrices internéticas são o recheio da sua coluna Bing Bang! lisebing.tumblr.com

Fabrizio Baron vive em um mundo envolvente onde tudo é possível. Nas horas vagas, trabalha com carteira assinada. É dele a coluna I Shot Macunaíma. Denise Rosa não canta mais as bolinhas do bingo, mas ajuda a organizar o galeto da paróquia. denise@avoid.com.br

Lucas Pexão é dono da Galeria

Projeto gráfico e Diagramação: Lucas Corrêa @Lava www.lavastudio.com.br Diagramação: Claudio Sudhaus www.sudhouse.com.br Fotografia: Maurício Capellari Gabriela Mo

Fita Tape e representa artistas via noz.art. Na Void ele escreve sobre arte e faz a curadoria da seção Magma. www.noz.art.br/pexao Ana Ferraz faz um monte de

coisas ligadas a projetos de arte e divide com Pexão a responsa na Galeria Fita Tape, e na seção Magma da Void. Mr Lexuz é um cara

Planejamento: João Francisco Hein

que vai no intestino grosso da televisão mundial transmitida a baixo custo, sempre a bordo do seu inseparável controle remoto.

Jurídico: Galvão & Petter Advogados office@galvaoepetter.com.br

Tobias Sklar é

DISTRBUIção A VOID É DISTRIBUÍDA GRATUITAMENTE NAS CIDADES DE PORTO ALEGRE, CURITIBA, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO E BELO HORIZONTE.

editor da Vista e colabora para a Void na seção Na

Lairton Rezende, também conhecido como Jacaré do Mar, é artista visual e pai do HomemBanana, o herói da dúvida. lairtonrezende@gmail.com

COLABORARAM TAMBÉM NESSA EDIÇÃO...

André Barros é pai de uma grande

família formada por um filho, esposa, amigos, agregados e a comunidade do skate ao seu redor, a família RTMF (Rio Tavares Mother Fucker). Determinado a levar o skate para os 4 cantos do Brasil. Rafael Chaves

é um caos ambulante.

CORROBORE! VOCÊ TAMBÉM TEM ALGO A DIZER, MOSTRAR, SOCAR NA FERIDA OU ARREMESSAR NO VENTILADOR? MANDE UM EMAIL PARA VOID@AVOID.COM.BR E CORRA O RISCO DE ENTRAR PARA ESSA LISTA DE NOBRES IMORTAIS PENSADORES. A REVISTA VOID É UMA PUBLICAÇÃO MENSAL COM DISTRIBUIÇÃO GRATUITA E TIRAGEM DE 20 MIL EXEMPLARES


na privada

POR FELIPE DE SOUZA, GABRIELA MO E PIERO BARCELLOS

SCRUM NOS PELADOS O rugby é um esporte em crescimento no Brasil. Tanto que jogadores de futebol como Elano, André Santos e Fred demonstraram suas habilidades para a nova paixão nacional durante a Copa América na cobrança de pênaltis, chutando a bola por cima do gol. Segundo o ranking da International Rugby Board, o Brasil está na 29 posição mundial. Atualmente são dez equipes disputando o campeonato brasileiro da modalidade 15-a-side, e a tendência é a de que este número continue aumentando. Mas ainda está longe de chegar ao ponto da Nova Zelândia, atual campeã mundial e onde o rugby é quase uma religião para alguns. Porém outros encaram como uma forma de diversão saudável, ainda mais quando se joga pelado. O Black Nudes é um time neozelandês que participa apenas de partidas amistosas, mas com uma peculiaridade: jogam pelados. Os adversários ficam com a opção de manter um contato derme com derme ou manter o uniforme no corpo. Outra demência destes amistosos é que a juíza é cega (e não é piada). A mulher tem cartões em braile, e é orientada por um amigo quando deve apitar. Tanto homens quanto mulheres participam do time misto. O problema maior deve ocorrer na hora do scrum. Imagina tomar uma bolada na cara, sendo que a bola em questão é a que fica no meio das pernas de um dos jogadores?

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DRUG FREE UNFORGIVEN Há uma música do Metallica que diz “My lifestyle determines my deathstyle”. Ou seja, a maneira como você leva sua vida vai determinar o jeito da sua morte. E uma coisa é certa: James Hetfield, o vocalista dessa que é uma das maiores bandas de rock do mundo, não vai ter problemas no fígado, pelo menos não tão cedo. Ex-alcoólatra, o cara decidiu marcar o início de um estilo de vida livre de drogas de uma maneira bem radical: tatuou um X no pulso, símbolo dos straight-edges, galera que se abstém do uso de álcool e drogas. A imagem da tattoo foi mostrada na capa da revista So What. Hetfield tem 46 anos e já enfiou muito o pé na jaca durante a vida toda. Por isso, ele mesmo toma a iniciativa de dizer que não é um drug-free nato, mas sim um “renascido no straight-edge”. Antes renascido no SXE que renascido em Cristo, né não?


BOA

Tirou uma? void@avoid.com.br

AMY VENCEU OSLO O mês que passou apresentou uma boa oportunidade para os mais atentos estudarem como funciona a indústria de notícias no mundo. Em uma sexta-feira de julho um carro bomba explodiu no centro da pacata Oslo, capital da Noruega. Duas horas depois, a 40 quilômetros dali, um psicopata de ultradireita abria fogo contra um grupo de jovens do acampamento do Partido Trabalhista do país. Sozinho, o demente matou mais de 80 pessoas. A notícia correu o mundo em questão de minutos e ocupou as principais manchetes de sites e noticiários televisivos. Mas todo o furor foi por pouco tempo.

QUESTÃO DE ORDEM

Foto enviada por Clóvis Abraão Pahr

Na manhã seguinte, outra bomba relógio explodiu, essa bem mais previsível: Amy Winehouse enfim bateu as botas depois de uma vida regada a álcool e sabe-se lá mais o quê. Amy morreu sozinha em casa e um funeral familiar resolveria tudo. Mas não, a mídia esqueceu os mais de 90 inocentes que perderam a vida em um ato covarde para ficar, de modo randômico, repetindo à exaustão matérias sobre a vida e a morte da pinguça. Dê graças a Deus de viver no Brasil, país que (até agora) está fora do mapa do terrorismo. Aliás, a Noruega também estava.

FISGAMOS “O ALIMENTO MAIS COMPLETO É O PÊNIS, TEM LEITE, CARNE, DOIS OVOS E SE CONSUMIDO COM PRAZER, PODE ENCHER A BARRIGA POR UNS 9 MESES!” Fisgado no Facebook, a nova Academia Brasileira de Letras.

Fisgou alguma? void@avoid.com.br

“VAI QUE É PENTE!” Estímulo pro amigo não fugir da briga quando o adversário esboça puxar um canivete. Direto do túnel do tempo via um tio do repórter Felipe de Souza.

“TOMA QUE CHAPÉU DE TROUXA É MARRETA.” Fisgado não lembramos onde.

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REPRODUÇÃO

DENSA NÉVOA EM EZEIZA

SAMBA DE RUA

METAL DA SILVA SAURO

Se você tem planos para curtir Amsterdã e seu tradicional fumacê, é melhor se agilizar. Fontes quentes apontam que a partir de novembro deste ano apenas holandeses poderão desfrutar da flora típica que rola ali pela rua Oudezijds Voorburgwal. O que tá pegando é que o governo holandês, que hoje é comandado por um partido cristão, está querendo restringir o turismo que eu e você curtimos fazer por lá, saca? Dos quatro mil coffee shops que existiam na cidade, restam pouco mais de 600 e a tendência é que esse número diminua ainda mais.

Para os que montaram uma banda ontem e hoje já empinam o nariz e só falam através do assessor de imprensa, é bom avisar que todo esse castelo construído com musiquinhas radiofônicas e fãs histéricas pode desabar mais rápido do que se imagina. Edson Café é um exemplo disso. “Edson quem?”, você deve estar se perguntando. Pois então, depois de passar anos como integrante do Raça Negra (“Cheia de manias, toda dengosa / Menina bonita, sabe que é gostosa”, lembra?) Café vive hoje perambulando como mendigo pelas ruas de São Paulo. Violonista e percussionista, o cara ficou 14 anos no grupo e ganhou fama e grana.

Enquanto aqui as crianças do Brasil crescem ao som de Ivete Sangalo e sonham em ser pagodeiros ou dançarinas de funk, a Finlândia dá um exemplo de como se coloca pequenos ranhentinhos no caminho certo. Lá a grande sensação entre a pirralhada são cinco dinossauros que tocam heavy metal. A banda HeviSaurus surgiu em 2009 e já lançaram dois CDs, que possuem participações de nomes conhecidos do metal, como Mirka Rantanen (Thunderstone), Jens Johansson (Dio, Stratovarius) e Henrik Klingenberg (Sonata Arctica).

Mas enxugue a lágrima dos olhos. Enquanto Amsterdã aperta o cerco, Buenos Aires amenizou geral e na capital argentina já é possível até comprar apetrechos para plantar a erva em casa. Ninguém mais é preso por cultivar seu mato sagrado em pequenas quantidades. Maravilha, não? E o melhor: a passagem para Ezeiza custa cinco vezes menos que o trecho Guarulhos-Schiphol. Simbóra pro Obelisco, mano.

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No entanto, uma série de revezes rolou na vida do sujeito. Primeiro o cara teve um derrame que paralisou metade do seu corpo, depois se separou da mulher e se desentendeu com os companheiros de banda. Tomado pelo desgosto, se tornou na vida real um personagem que poderia estar nos livros de Albert Cossery. Há quatro anos sem teto, Edson mata o tempo entre uma praça na Zona Leste de Sampa e as casas de amigos caridosos. Na rua, fez companheiros provavelmente mais fiéis do que os que tinha na banda e, pai de oito filhos, mantém a dignidade: até agora não bateu na porta de Sônia Abrão para chorar as pitangas.

Os dinos tem até uma historinha: há 65 milhões de anos existiam cinco ovos de dinossauros do metal. Durante muito tempo eles estiveram adormecidos, até que bruxas os encontraram e fizeram vários feitiços para que eles despertassem. Então os ovos começaram a quebrar e nasceram os HeviSaurus. Não é um primor de história, mas é beeeem melhor do que TeleTubbies, vai dizer? Info: www.hevisaurus.com


REPRODUÇÃO

A MORTA

DORGAS MANOLO

ENTERRO COM PAU DE PUTA A única certeza que nós temos nesta vida é a de que um dia iremos bater as botas. OK, dizem que antes disso você vai levar um chifre e andar de Fusca. Mas em todo caso, a morte é garantida. Então, se você vai partir dessa pra melhor, que tal garantir que a sua passagem não seja marcada com choradeira e depressão? Pois lá em Taiwan, os funerais são animados com shows de strippers! Isso mesmo! O presunto tá lá, duro no caixão, enquanto os parentes e amigos admiram uma dançarina asiática sacudir seus úberes desnudos em um palco cheio de neon. Segundo o documentário “Dancing for the Dead: Funeral Strippers in Taiwan”, a prática deste tipo de ritual começou há 25 anos, quando a máfia que controlava os negócios de strip-tease decidiu investir no ramo funerário. Com isso eles começaram a oferecer pacotes promocionais

no melhor estilo “compre um funeral e leve uma dançarina”. Foi uma boa sacada, já que lá há a cultura de que quanto mais pessoas estiverem no enterro, mais honras o finado ganha. Sem falar que os chamados “prazeres carnais” agradariam um panteão de deuses menores que curtem uma sacanagem. As meninas, além de sacolejarem seus dotes físicos, também cantam e interagem com a plateia. Essa interação pode ser tanto um bate-papo informal como também uma dança no colinho de um camarada do defunto. Os strip-teases geralmente não são totais – a mina fica só com um biquíni cobrindo “as partes”. Isso porque existem leis locais que proíbem a nudez total. Entretanto, tem muita gente que já viu as moças burlarem a legislação e darem surra de peitos nos convidados. Afinal, se é pra morrer, que seja em grande estilo!

Enche o saco ver tanta campanha inútil contra o uso de drogas. Apesar disso, tem cada dia mais gente entrando pra dentro do cachimbo do crack. Já que todo mundo é contra, vamos fazer diferente e citar alguns motivos pelos quais você deve cheirar a caspa do capeta, fumar a erva do demônio ou beber qualquer tipo de substância que altere sua percepção de realidade. Não se abale com a morte da Amy e siga fundo na imersão alucinógena.

ALEGRIA DA RAPAZIADA

PRODUÇÃO DE CONTEÚDO

SELEÇÃO NATURAL

Peça para um amigo gravar um vídeo seu tomado pelos efeitos do chá de fita. Teremos um novo hit no Youtube! Imagine a sua cara de chapado sendo vista por milhões de pessoas pelo mundo, aparecendo nos vídeos mais engraçados do programa do Gugu e afins? A humanidade precisa de mais webcelebridades se fodendo, e você pode ser uma delas!

Charles Darwin defendia que dentro de uma espécie, só os mais fortes sobrevivem. E só uma overdose para saber se você está no topo da cadeia da evolução junto com um panteão de seres como Ozzy Osbourne e Keith Richards. Encha seu nariz com a caspa do capeta até não querer mais! Se você não resistir, melhor ainda! É menos um estorvo no mundo!

Se o ditado diz que cu de bêbado não tem dono, imagina o de crackeiro? Véio, na fissura da pedra até o seu brioco vira moeda de troca! Pense na alegria de quem nunca comeu um cu na vida, conseguir um assim, baratinho, dez reáu? Sexo deixa as pessoas felizes, e você vai colaborar para a felicidade alheia. Se não gastar tudo no tóxico, reserve uma grana para unguentos como Hipoglós e KY.

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ÍNDICE AEROSMITH DE AVALIAÇÃO FEMININA POR PIERO BARCELLOS

TODA MULHER GOSTA DE AEROSMITH, ISSO É FATO. SE NÃO GOSTA, OU É PORQUE NUNCA OUVIU, OU PORQUE NÃO É MULHER, SEM POSSIBILIDADES DE MEIO-TERMO. CIENTISTAS BRITÂNICOS DESCOBRIRAM QUE ISSO ACONTECE PORQUE CADA MÚSICA DA BANDA DE STEVE TYLER É FEITA PENSANDO EM UM TÍPICO ESPECÍFICO DE MULHER, O QUE PROVOCA A IDENTIFICAÇÃO IMEDIATA DA COCOTA COM A CANÇÃO. DEPOIS DE ANALISAR AS QUASE 140 MÚSICAS CRIADAS PELA BANDA DURANTE MAIS DE 40 ANOS DE CARREIRA, FOI ELABORADO O ÍNDICE AEROSMITH DE AVALIAÇÃO FEMININA, CUJO NOME FOI ESCOLHIDO PARA QUE SUA ABREVIAÇÃO (IAAF) FICASSE PARECIDO COM UMA ONOMATOPEIA DE ORGASMO. SELECIONAMOS ALGUNS TRECHOS DESTE ESTUDO INTERESSANTE RELACIONANDO PSICOLOGIA E MÚSICA.

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CRYING A VACA

PINK A NINFETINHA

JADED A MIMADA

Todo cara no mundo já encontrou uma mina que faz cu doce. Moça difícil que só com muita luta e muita fé se entrega. A frase dela no “Face” é “Mulheres são como maçãs, as melhores estão no topo da árvore e são mais difíceis de pegar”. O problema é que depois de pegar você se apaixona perdidamente, mas ela mantém a frieza calculada do sexo feminino. Sabe que é gostosa, e que num estalar de dedos tem o homem que quer. Vai te fazer pagar cinema, motel, restaurante, e até comprar um presente beeem caro em alguma data comemorativa. Dois dias depois ela termina tudo dizendo que se sente sufocada, que quer pensar no relacionamento e bla bla bla... Na semana seguinte ela está com outro e você está com uma coceirinha na testa. É a vida.

Hormônios em ebulição, corpo de mulher e cabeça de criança. É a típica menina de 18 anos que anseia os benefícios da vida adulta, mas sem sair do casulo da adolescência. Sabe seduzir um homem como ninguém, ainda mais se for mais velho. O quarto desta moça é todo cor-de-rosa, e ela tem um ursinho de pelúcia enfeitando a cama (de solteiro). Tolere se ela usar uma camiseta do Black Sabbath e tiver Restart como toque do celular. Tampouco perca tempo tentando entender o que ela digita no MSN. Ah, e não se deixe iludir pela idade: você pensa que vai ensinar alguma coisa pra ela, no entanto é você que aprende uma lição.

Ela não aceita um “não” e tudo tem que ser do jeito dela. Age como se fosse uma criança algumas vezes, é carente de atenção e reclama quando você não liga pra saber como ela está. De vez em quando ela merece um block no MSN só pra você não ter que ler suas lamentações. No entanto, ela tem o dom de fazer você se sentir culpado por não dar a atenção que lhe é devida. Mais cedo ou mais tarde você vai acompanhála quando ela for ao shopping comprar roupas, ou vai encarar aquela festa estranha com gente esquisita só porque ela curte. Diga não e perderá o seu amor. Diga sim e ela te transforma numa marionete.

Pink it was love at first sight Pink when I turn out the light

You got your mamma’s style


CRAZY A AMIGA FF (FODA FIXA)

DUDE (LOOKS LIKE A LADY) É UMA BILADA, CINO!

I DON’T WANNA MISS A THING PRA APRESENTAR PRA FAMÍLIA

Nem todo mundo busca um relacionamento duradouro. Às vezes só é necessário alguém pra uma boa trepada e saciar as necessidades físicas. Aí que entra a amiga “foda-fixa”. Vocês se conhecem há anos, e encaram o sexo como algo rotineiro da amizade, “just for fun”. Esta mulher é bem decidida no que quer, e consegue diferenciar sentimento do sexo. Ela procura o amigo FF quando precisa dar uma pra desopilar do serviço, se vingar de um namorado otário ou esquecer uma separação – o que pode explicar o olhar distante no meio do “tome-lhe tome-lhe”. Terminou o serviço, ela se veste e vai embora. Dormir de conchinha é coisa de casalzinho. Logo, se você se apaixonar, fodeu, pois não é isso que ela quer de você.

Você está na balada, já com o nível de álcool batendo os limites do tolerável, quando vê aquela morena alta bebericando sozinha no canto do balcão. Se aproxima e larga um papinho escroto. Pior é que ela te dá a maior bola. Você quer ela na sua cama e nem repara que a moça tem um gogó saliente, nem na largura dos seus ombros, tampouco no buço. Só na hora H você percebe que a mina tinha um atributo diferente das demais no meio das pernas, e com 20 cm de comprimento. Independente desta surpresa, ela é uma mulher e se comporta como uma. Ela deixa a decisão de um amor desprovido de preconceito na sua mão. Dedicada ao leitor Ronaldo Nazário.

Quando você chega ao ponto de acordar no meio da noite e ficar observando a sua mina dormindo, é porque ela conseguiu. Você se apaixonou, e ela pode dormir tranquila sem se preocupar com o futebol com os amigos, com a secretária do trampo, nem com aquela colega da faculdade. Você já apresentou pra família, tua mãe já chama de nora, e agora é só uma questão de tempo pra colocar o anel no dedo. Ah, e não se iluda: ela sabe que você acordou e está olhando ela dormir. Só não abriu os olhos para não estragar o clima.

FALLING IN LOVE A ARREPENDIDA SWEET EMOTION A HIPSTER

LOVE IN AN ELEVATOR A TARADA

A música fala de uma mina que fala de coisas que ninguém liga, e veste o que ninguém usa. É uma hipster total. Ela tem um iPhone, usa óculos wayfarer e curte fotografia. Você vai encontrar ela numa baladinha alternativa, tomando uns bons drinks. Pode puxar um papo com ela sobre os modismos da internet que ela vai curtir. Não critique seus cineastas favoritos, e elogie aquele filme que ganhou um festival lá na puta que pariu, mesmo que nunca tenha visto. Ela certamente vai reparar no seu jeito de vestir, então use camisetas com referências pop como HQ’s e seriados para conquistar a moça. Tome cuidado com a falsa bipolaridade que todo hipster ostenta e abstraia o papo chato sobre Bukowski.

São raras as mulheres que não tem um lado pervertido dentro de si. Umas são mais diretas quando o assunto é sexo, outras mais recatadas. Mas entre quatro paredes viram um furacão. É só ter a oportunidade certa. Tenha certeza de que ela vai tomar a iniciativa praquela rapidinha no horário do almoço, vai deixar a mão entrar na sua calça dentro do carro, e vai acabar contigo antes mesmo da porta do elevador abrir. Mantenha seu estoque de ovos de codorna e Redbull sempre em dia, pois ela vai exigir desempenho total. Aliás, esta é a música preferida para tocar na hora do sexo.

Tipo de mulher mais comum do que se pensa. Ela tem um relacionamento seguro, estável, cheio de amor, mas falta algo que nem ela sabe direito o que é. Descobre isso num happy hour, quando saiu com as colegas de trabalho e conheceu o amigo da amiga. No entanto, ela ainda ama o namorado/marido. O arrependimento pela pulada de cerca faz ela ser mais amável com o “titular do campinho”. Aí num belo dia, na hora do sexo, ela deixa escapar o nome do amante. Para tudo, recolhe os brinquedos, e explica essa porra direito. Ela chora, diz que não vai acontecer de novo, e implora pelo perdão. O pior é que o homem é capaz de perdoar porque gosta da mulher, mesmo com a probabilidade de repeteco. Ou seja, a música além de falar de uma mulher arrependida pela traição, também fala de um personagem do anedotário popular: o corno manso.

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NOWPUBLIC

DENTRO DO LIXO REPRODUÇÃO

POR GABRIELA MO

18 / na PRIVADA

REPRODUÇÃO

NOSSOS E-MAILS VIVEM LOTADOS DE SPAM. NÃO IMPORTA QUANTOS BLOQUEIOS SEJAM FEITOS, ALERTAS MARCADOS, OU QUANTAS VEZES SE CLIQUE EM “SAIR DA LISTA DE ENVIOS” OU SE MARQUE A OPÇÃO “NÃO QUERO SABER DAS OFERTAS E NOVIDADES DE MARCAS PARCEIRAS”, SEMPRE VAI TER UM REMETENTE NOVO LHE OFERECENDO VIAGRA À BAIXO CUSTO OU ENSINANDO COMO VOCÊ PODE EMAGRECER ENQUANTO DORME. RESOLVEMOS DAR UMA CHECADA NO QUE TINHA DE BOM NAS MENSAGENS QUE VÃO DIRETO PARA O NOSSO “LIXO ELETRÔNICO” ANTES QUE ELE EXPIRASSE. SE VOCÊ ACHA QUE REVIRAR O LIXO DO BANHEIRO DE CASA JÁ É NOJENTO, NÃO IMAGINA A QUANTIDADE DE MERDA QUE ENCONTRAMOS NA LATA VIRTUAL.

TRANSFORMANDO SUA EQUIPE EM UM TIME DE ÁGUIAS

DVD APRENDA A DANÇAR COM CARLINHOS DE JESUS

Essa foi marcada com uma estrela e encaminhada à coordenação da revista. Siamar Filmes para Treinamento quer nos vender um vídeo motivacional narrado pelo “Homem do ano” (de que ano, será?), Mike Singletary, que utiliza sua experiência pessoal como jogador de futebol americano dos Bears, de Chicago, para ensinar funcionários de empresas a trabalharem com mais rapidez e eficiência. Disso a gente precisa.

Juramos de pés juntos que essa oferta chegou aqui, COMO SE PRECISÁSSEMOS. Por R$59 você ganha aulas de forró, bolero, samba de pé e samba de gafieira. O design da capa do DVD já chama para dançar de tão lindo. Um mix de malandragem, aconchego, swing, euforia e embalo no gingado carioca. Para não dizer mais.

Marcada como “Não Indesejada”! Mais em www.siamar.com.br

A gente já tem o rebolado. Se você não tem, dá para comprar no www. cursosmusicais.com.br


COMPLIMENT OF THE DAY

GOTA NUNCA MAIS

O destinatário é genérico e, como esse é um assunto constante, o remetente varia conforme o dia. Primeiro, foi Claudia Novais que anunciava sua intoxicação. De imediato, a impressão é que colocaram pílulas encolhedoras no drink da coitada enquanto ela dançava a Macarena e agora ela quer relatar os detalhes de seu passeio pelo pequeno “país das maravilhas”. Mas não. O e-mail é uma propaganda do perfume Eros a Magnifique Essence, e conta a longa, interminável e entediante história de Paulo Perin, que sentiu um cheiro embriagador (?) e se apaixonou loucamente por uma mulher desconhecida. No mesmo e-mail, também tem o depoimento de uma mulher que, ao utilizar a fragrância, reconquistou o marido.

Um tal de Mr. Issa Smith, diretamente da África, pede nossa ajuda para uma transferência bancária. Precisa de uma conta no Brasil para depositar 15 milhões de dólares e nos oferece 60% do valor como gratidão. Como somos bem espertos, perguntamos qual seria o procedimento. O primeiro passo é colocar 50 dólares na conta dele – para pagar as burocracias, aquelas coisas todas. Estamos economizando. Aguenta aí, Issa!!!

Quando vimos o remetente VIDA SEM GOTA (assim mesmo, em CAPS), pensamos que seria o fim das goteiras aqui na redação. Mas não, era uma oferta do Óleo de Copaíba, que não acaba com infiltração nem troca as telhas para ninguém, mas promete uma “Vida Saudável Com o Bálsamo da Amazônia”. E adverte: “Se você clicar no link abaixo e o site não abrir, favor copiar e colar, na barra de endereço do navegador”. Só para ter certeza que você, portador de gota, vai mesmo comprar óleo pela internet.

Acreditou? Vai para o www.comprefacil.info/perfume

Quem quiser ajudar, pode contatar o Mr. Issa no e-mail dele mrissasmith@ sify.com

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

FUI VÍTIMA DE UMA SUBSTÂNCIA MÁGICA

SERÁ QUE VAI DIZER NÃO À SUA FELICIDADE? Tara, a Médium Visionária, vive mandando e-mail. E como a gente não tem tempo para responder, ela cobra atenção e alerta os riscos previstos para o futuro próximo. Tara está cada vez mais preocupada com o nosso descaso e diariamente pergunta se recebemos seu último aviso, de que algo muito importante e perigoso está para acontecer. Dá medo. Veja seu futuro online em www.taraclarividencia.com. É confidencial.

Faz parte dos 7% da população brasileira que sempre esperou dizer adeus à gota sem sacrifícios? Então seu lugar é em www.vivasemgota.com.br

Obs.: Não encontramos nem na caixa de spam seu e-mail com elogios à revista, então você deve estar mandando para o endereço errado. Manda de novo!

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DÓI E É PARA SEMPRE POR FELIPE DE SOUZA FOTOS PATRICIA SARAIVA

APESAR DE ESTARMOS EM PLENO 2011, TER O CORPO COBERTO POR TATUAGENS AINDA PODE REPRESENTAR UM TRANSTORNO PARA QUEM OSTENTA ARTE NA PELE. PRECONCEITO NA HORA DE ARRANJAR UM TRAMPO, OLHO TORTO NO MOMENTO DE CONHECER OS SOGROS, MALEDICÊNCIAS DE TIAS XAROPES... NO ENTANTO, SE VOCÊ TEM A DERME RISCADA OU PRETENDE TER, ALGUMAS ATITUDES PODEM LHE AJUDAR A NÃO FICAR TRAVADO PELA OPINIÃO ALHEIA. ESSA FOI A INTENÇÃO DE MARCELO GALEGA AO ESCREVER O LIVRO TATTOO YOUR SOUL, A DOR E O PRAZER DE SER VOCÊ MESMO. EMPRESÁRIO DESDE OS 21 ANOS, AOS 30 O CARA GERENCIA UMA REDE DE ACADEMIAS E JURA DE PÉ JUNTO QUE AS TATTOOS NUNCA O ATRAPALHARAM EM NADA. A IDEIA DO LIVRO É DESMISTIFICAR O UNIVERSO DAS TATTOOS E SERVIR DE BALIZADOR PARA TATUADOS, NÃO TATUADOS, SIMPATIZANTES E ATÉ OS NÃO SIMPATIZANTES. DIA DESSES CONVERSAMOS COM GALEGA A RESPEITO DO TATTOO YOUR SOUL E SUAS IDEIAS SOBRE PRECONCEITO E REALIZAÇÃO PESSOAL.


Void_Como veio a motivação para o livro? Foi porque você passou a ter outro olhar sobre o preconceito em relação às tatuagens ou cansou de ouvir amigos tatuados reclamando que sofriam discriminação? Marcelo_Um pouco dos dois. E também porque eu sempre ouvi (e ainda ouço) que eu nunca iria ter emprego porque eu tinha me tatuado. Ainda ouço muitos tatuados reclamando e quase nunca eles percebem que o problema está neles e não nas tattoos ou nas pessoas. Void_Quando as tattoos entraram na sua vida? E como foi aquele grande passo para riscar em lugares visíveis, como pescoço e antebraços? Marcelo_Fiz minha primeira tattoo com 14 anos. Eu andava de skate e gostava de bandas que tinham integrantes tatuados. Eu tinha vontade de tatuar antebraços, mãos, pescoço, mas ainda não tinha coragem, tinha medo de alguma coisa que eu não sabia bem o que era. Quando percebi que esse medo não era algo real, e que uma tatuagem não ia mudar minha capacidade, comecei a me tatuar onde mais me agradava. Void_Se por um lado as tattoos têm muito mais aceitação hoje em dia, por outro ela parece que foi cooptada pela grande indústria da mídia e do entretenimento e até da moda. Não acha que está rolando uma banalização das tatuagens? Tipo, algo que deveria ser de foro íntimo, como um ritual de passagem, acaba se tornando um produto. O que você pensa a respeito disso? Marcelo_Eu não sei direito se a tatuagem banalizou. Eu acho que muitas pessoas sempre tiveram vontade de se tatuar e hoje fazem com mais coragem. Fico feliz, por exemplo, quando vejo uma senhora com mais de 70 anos se tatuando pela primeira vez e dizendo que pretende fazer mais.

Void_Qual sua motivação para fazer tattoos? Eu faço uma toda vez que algo importante rola na minha vida, algo para marcar uma época ou algum desenho para homenagear minha família. E você, tem essa pilha? Marcelo_Eu faço em momentos que eu preciso de força, momentos difíceis em que eu digo para mim mesmo: Força, você vai conseguir. Void_Diz para nós quais artistas já tatuaram o seu corpo, quais seus tatuadores preferidos e quais são aqueles que você ainda sonha em entregar a pele para ser marcada. Marcelo_Meus tatuadores não são conhecidos. Depois que eu escrevi o livro, conheci tantos tatuadores famosos e muitos viraram amigos. Tenho vontade de ter uma tattoo de cada um deles. Não vou falar nome de ninguém para não correr o risco de esquecer de algum (risos). Void_Você é empresário e deve ter que comandar uma equipe todos os dias. Já aconteceu de algum empregado seu não levar fé nas tuas instruções ou não levar a sério o trampo pelo fato de ter um chefe com dezenas de tatuagens? E os seus clientes? Foi mais difícil conquistar a confiança deles? Marcelo_Já aconteceu de alguns funcionários não me levarem a sério por eu ser mais novo, mas nunca por causa das tattoos. O que acontece quase sempre é que as pessoas que trabalham comigo se sentem mais encorajadas a se tatuarem. Tiveram muitos que se rabiscaram inteiros (risos). Quanto aos clientes, cada dia conquistamos pelo menos 10 novos em um dos negócios. Muitos não sabem quem eu sou e outros fazem o mesmo que alguns funcionários: se rabiscam. Mas com certeza deve ter os que sabem quem eu sou e não gostam de minhas tattoos, mas isso é um problema deles. Todos os dias negocio com pessoas. Uma regra que eu tenho é nunca me esconder

e muito menos esconder as tatoos. Eu sou assim e escolhi ser assim, portanto não devo me esconder. Acredite, é escondendo a tattoo que começa o preconceito. Afinal, porque vamos esconder algo que escolhemos e não é contra nenhuma lei? Sempre mostro minhas tatuagens como algo natural, jamais com arrogância, pois as tatuagens não me fazem melhor que ninguém. É apenas um desenho. Void_Qual seu estilo favorito de desenho? Oldschool, newschool, oriental ou tribal? Marcelo_Gosto de todos. Cada um combina com um certo tipo de pessoa. Eu tenho de vários tipos, mas acho muito legal quando vejo alguém com muitas tattoos e sempre seguindo um estilo.

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MR. LEXUS

Caros telespectadores que me lêem, devo confessar-lhes que ando tendo uns probleminhas técnicos para realizar esta nobre coluna. Sou um cidadão que gosto de ver minha tela de noite, depois das 23h, quando crianças já estão dormindo e os que assistem TV aberta estão se preparando para as notícias do Jornal da Globo. Só que de uns tempos para cá, a Tia Surubinha (chamo assim minha noiva) determinou que num dia a TV fica ligada e no outro estabelece-se a escuridão tediosa. Por isso, enquanto não a despacho para a Vó Surubona (chamo assim a minha sogra), acabo tendo que saciar meu desejos assistindo programas matinais. E não é que zapeando meu Lexuz fui parar num canal português... Graças ao fuso de 4 horas em relação aos lusitanos, quando eu estou acordando aqui, eles estão apresentando o programa Boa Tarde por lá no canal SIC Internacional. E é um pequeno trecho desse programa, que foi suficiente para fuder com o resto do meu dia, que venho aqui repartir com vocês... Uma apresentadora dessas meio peruas, entrada nos seus 40 e tantos anos (que certamente eu trocaria pela Surubinha) entrevista uma mulher bem gorda e com um semblante muito, mas muito triste (que certamente eu não trocaria pela Surubinha). A entrevista transcorre num clima

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melancólico, com a perua perguntando sobre a história de vida de Maria (a gorda). O gerador de caracteres anuncia “Não mereço esta vida”. Ok, a Márcia Goldschmidt tem umas pilhas parecidas, mas a gordinha portuguesa me deixou curioso. Ela começa dizendo que não pediu para vir a esse mundo e que, quando criança, sua mãe não a tratava com carinho. Conta que aos 10 anos de idade, estava na escola fazendo uma redação sobre a primavera quando alguém bateu na porta da sala. Era sua avó, que a levou para casa. Chegando lá, encontrou a família de chapéu e estranhou, mas logo sua mãe lhe contou, sem alterar as feições, que seu pai havia morrido queimado num acidente de trabalho. Nesse momento da entrevista, esse que vos escreve já estava com os olhos marejados... A gordinha continua sua história e conta que passou a viver com diversos padrastos. Aos 11 anos, foi apresentada pela mãe a um homem de 23, com quem deveria viver a

partir daquele momento. Um ano depois estava grávida do filho da puta. Foi levando como dava e, aos 7 meses de gravidez, chegou em casa do trabalho se sentindo mal e não conseguiu fazer o jantar. A mãe e o padrasto saíram de casa e voltaram 10 minutos mais tarde trazendo uma barra de gelo de 5kg. Disseram que ela deveria colocar a barra sobre a barriga para aliviar as dores. Achando que estava sendo protegida, a gordinha suportou todo o derretimento do gelo, até que começou a não sentir mais o próprio corpo e, obviamente, perdeu a criança. Nesse momento, o cidadão aqui desligou a TV e foi comer um Donuts. Aprendi 2 lições com o drama da Maria. A primeira é que 10 minutos de um programa sensacionalista podem comprometer 24 horas da sua vida. A segunda é que, se a Surubinha não se enquadrar na minha grade de programação, vai ter que voltar para o sofá da Vó Surubona e para aquela TVzinha de 14 polegadas. Sem Lexus, é claro.


BING, BANG

POR LISE BING

TRALHAS

A MODA É SALTO ALTO

ADEUS, GORGONZOLA

BEM FRESCO

FOREVER ALONE

Porque andar normalmente, igual a todo mundo, se você pode usar o Tramp-it e pular feito um canguru, não é? Última moda na Europa, Trampit, uma bota que possui um sistema que simula efeitos do trampolim, é a sensação do momento. Pode ser usada para fazer exercícios, acrobacias e também para fazer as outras pessoas rirem da sua cara. Disponível nos tamanhos pequeno, médio e grande.

Sapato incrível, mas chulezento. Não tem problema, você não pretende dar para o gato no 1º encontro mesmo. Bora usar! Aonde ele leva você? Naquele restaurante japonês que é proibido usar sapatos. FUÓOOON! Eis a solução: Shuvee, uma máquina de limpeza de sapatos. Utilizando a tecnologia de luz ultravioleta, o Shuvee elimina as bactérias e micoses que causam o mau cheiro.

Esse produto da Thanko foi feito para pôr no assento da poltrona e resfriar a sua bunda. Ele contém uma série de ventiladores internos que, ao girar, movimentam o ar e resfriam de baixo pra cima. Por causa desse sistema, não é recomendado usar no ambiente de trabalho após uma feijoada. Possibilidade de demissão por justa causa. Por 1260 yen. Info: www.thanko.jp

Você carente e ninguém ao seu redor. Tenta o MSN e nada. Facebook sem nenhum “curtir” nos seus comentários. Então bate aquela vontade de postar frases da Clarice Lispector no Twitter. Para não ter que chegar a esse ponto, os japoneses criaram a jaqueta Sense Roid. Você pode abraçar até uma árvore, que os sensores da jaqueta registrarão os dados para que a jaqueta lhe abrace com a mesma intensidade. Forever alone sim! Mas carente nunca mais!

BE COOL

QUE IDÉIA BOA

AMÉM

ALERTA

WEB

Não é porque você tem um celular xexelento que não vai poder ser cool ao postar suas imagens. Este site faz online o que os aplicativos fazem via smartphones: dá um ar vintage e retrô. Chega de se sentir um loser, clique já. Info: vintagejs.com

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Ideias, independente de seu tamanho, podem ser contadas com duas imagens e um tweet. Este é o mote do Ideeeas, projeto que tem o objetivo de simplificar e ajudar a tirar idéias do papel. Info: ideeeas.com

Bernart Fornet, um designer e fotógrafo espanhol, nos abençoa no momento que ele mantém um blog com o que o inspira. Inspire-se também. De ficar horas fuçando. Info: blog.bernatfortet.com

Uma situação que todo mundo já passou: seu amigo, aquele que adora falar, está com um pedaço de alface nos dentes. Avisar ou não? SIM!!! Mas com o Toothpict, um aplicativo que manda uma mensagem para o tagarela avisando sobre a floresta entalada. Genial. Info: toothpict.com


MACUNAíMA POR FABRIZIO BARON

UÉLCOME Continental, milhares de quilômetros de praias e florestas, fronteira com 10 países. Zero tsunamis, terremotos, vulcões, furacões, nevascas. Zero perigo nuclear, invasões externas, imigração ilegal em massa ou lobotomia cristã/islâmica. Trilhões de reais nos cofres públicos, 2º maior PIB das Américas, solidez bancária, 200 milhões de habitantes, mais de 5 mil municípios, potencial energético e produtivo quase incalculável. Credenciais o Brasil tem de sobra pra figurar no top ten dos mais visitados da Terra, certo? Errado. Com uma pífia média de 5 milhões de visitantes estrangeiros/ano, o país ocupa apenas a 50ª posição no ranking. Então, como entender que até mesmo parques temáticos recebam o dobro de gente? Foi pensando nisso que Han Solo e Leia Skywalker desenvolveram um modelo inédito de turismo. Concebido pra funcionar em zonas de guerra, o Project Jabba Reality foi sendo adaptado a lugares com potencial turístico desperdiçado em função de burrices locais. A ideia é ao invés de engambelar turistas prometendo “resorts paradisíacos, preços globalizados e povo acolhedor”, os viajantes terão justo o contrário: um choque brutal de realidade. Sem pensar muito surgiu o Brasil como 1ª opção. Na capa do material promocional, a saída de um túnel revela o rosto sorridente de um fugitivo da colônia penal de “segurança máxima” de Cafundós. O título “Meet you there” já sugere o que vem pela frente. “Pensamos em evitar o manjado modelo Truman Show, onde os poucos turistas que íam ao Brasil ficavam torrando no sol de meia dúzia de praias ‘badaladas’, tendo apenas uma vaga noção do que era o país”, diz Solo, recém casado com Leia. Conta ainda que resolveram testar inicialmente o projeto com Luke, irmão (que perdeu a mão) de Leia. “Não podíamos arriscar a vida de turistas comuns, civis e sem treinamento ou coragem acima da média”.

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Durante o vôo, cada viajante é instruído a ler estatísticas sobre a surrealidade brasileira. Os guias Chewie e Lando perguntam por exemplo se alguém sabe por que o país investe mais na geração de burocracia, corrupção e cargos inúteis do que em educação e segurança. É preciso ter cada detalhe na ponta da língua, afinal o “passeio” não inclui hotéis, shoppings nem escola de samba. A nave desce direto em uma das dezenas de pistas ilegais que trazem armas e cocaine. O primeiro contato já é de conflito em meio a índios em pé de guerra (todos com relógio e calção), fazendeiros e ecologistas. 5h de sono/dia durante duas semanas. O objetivo é fazer com que cada turista sinta na pele exatamente aquilo que sente a maioria dos brasileiros: cansaço, medo e desesperança. “Se quando visitam a Europa os viajantes desfrutam basicamente de tudo que os europeus têm acesso no cotidiano, sem a necessidade de ser rico, queríamos que o mesmo rolasse quando europeus visitassem o Brasil”, explica Leia. Os highlights da trip são exclusividades brasileiras e incluem centrais telefônicas do sistema penitenciário, sessões de votação de leis inúteis no Congresso, flagrantes de acidentes de trânsito gravíssimos com os culpados saindo em liberdade, visitações a obras superfaturadas, o martírio diário do engavetamento humano no transporte coletivo, salas de aula que parecem presídios, favelas com intelectuais admirando a pobreza, assaltos, arrastões, latrocínios, estupros e golpes ocorrendo em tempo real... Enfim, a lista de “atrações” é imensa, assim como o potencial turístico brasileiro, completamente desperdiçado.

FREE TO PLAY O que pode ser melhor que barato? Preço simbólico? Não, grátis mesmo. A Steam começou a liberar gratuitamente jogos que já não são mais novidade e que movimentam milhões de gamers pelo mundo, numa estratégia dupla de trazer cada vez mais gente ao portal que não pára de crescer. Basta se cadastrar, baixar e jogar. Spiral Knights, Forsaken Worlds, Champions Online, Global Agenda, Alliance of Valliant Arms e o melhor de todos, Team Fortress 2. Tudo liberado, tudo funcionando 24h. Team Fortress 2, aliás, um dos melhores multiplayers da história, já roda até no Mac. Info: store.steampowered.com

TOMA!!!

Digita ‘tiny hat’ no YouTube...


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JUVENT U D E TRANSV IADA TINHA UNS 13, 14 ANOS QUANDO FUI NA MINHA PRIMEIRA FESTA ADOLESCENTE COMO UM MEMBRO DA ESPÉCIE. AS BALADINHAS ROLAVAM NO SALÃO DO APARTAMENTO DE ALGUM COLEGA DE AULA, RARAMENTE TINHA BEBIDA ALCOÓLICA E TODO MUNDO ERA MEIO CAGADO PARA CHEGAR NA MENINA QUE ESTAVA A FIM. DOS QUE OBTINHAM ALGUM SUCESSO, ARRISCO DIZER QUE EM 95% DOS CASOS A COISA NÃO PASSAVA DE UNS BEIJOS E SÓ. OU SEJA, UMA MERDA PARA QUEM ESTAVA NO ÁPICE DA EXPLOSÃO TESTOSTERÔNICA.

POR PIERO BARCELLOS

FOTOS MAURICIO CAPELLARI

AGORA, DEPOIS DE SOBREVIVER AOS PERCALÇOS DA JUVENTUDE, FUI COM O FOTÓGRAFO MAURÍCIO CAPELLARI VER O QUE A GAROTADA CRIADA A LEITE COM PÊRA E OVOMALTINE ANDA FAZENDO NA NOITE. E ADIANTO A MINHA AVALIAÇÃO: SE OS ANOS 90 TIVESSEM UM DÉCIMO DA EFERVESCÊNCIA DA FESTINHA QUE FOMOS, MUITA GENTE NÃO SOFRERIA COM PROBLEMAS DE ACNE, TAMPOUCO PROCURARIAM PSICÓLOGOS PARA ENTENDER O SENTIDO DA VIDA DEPOIS DE ADULTOS.

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CHEGUEMO NO PICO Mal botamos os pés na frente da casa noturna e um cara numa Lamborghini fez o motor roncar alto, garantindo a alegria da galerinha que esperava do lado de fora para entrar. A função não muda com os anos: os carros chegam dirigidos pelos pais trazendo, na maioria das vezes, um par ou trio de adolescentes. Muitos progenitores contorceram o semblante ao ver que sua filha era vista como um pedaço de carne pelos urubus mirins que ali estavam. Como a ideia era se enturmar, aproveitamos que dois deles se aproximaram para pedir fogo, e batemos um papo sobre a festa. “Ah, cara, é sempre lotado. Sempre pego umas dez minas ou mais aqui”, disse um deles. “O esquema é pegação forte. Dependendo rola sexo depois”, conta o outro. O primeiro rapaz, que nem buço tinha em cima dos beiços, começou a contar vantagem: “Lá em casa eu já aviso meu pai. Peço pro velho pegar as coisas dele e ir pra casa da namorada, pra eu poder levar alguma menina pra lá. Da última vez fiz isso e fiquei comendo a mina a noite toda”.

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NA BALADA A casa noturna é dividida em duas pistas: balada pop e área rock. No entanto, tinha gente lá com um neon na testa escrito “vim só pra me dar bem”. O dresscode denunciava quem era da turminha do pagode, do funk, do skate, dos emos... Até porque a música pouco importava. O esquema mesmo era contabilizar quantas línguas se enroscaram com a sua até o fim da noite, no mínimo, já que o objetivo principal seria feito longe dali, quiçá na cama de casal dos pais. Fui abordado por um moleque cujo rosto calejado denunciava a prática de louvor a Onã. “Tio, compra uma ceva aí pra mim?” Não consegui pensar em outra resposta que não fosse “Como assim, caralho?” Aí me liguei que o bar só vende ceva para quem atingiu a maioridade. Mandei o guri a merda. Pouco tempo depois, um par de minas também veio com a mesma abordagem. Gostosinhas até, com shortinho atochado na bunda, decotão, cara de quem tinha uns 19 anos. Larguei um papinho idiota pra cima delas, quando uma respondeu: “Toma cuidado, eu tenho 16 anos! Eu posso te processar!” Mandei elas tomarem uma Fanta Uva.

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DRAMA ADOLESCENTE Durante a função de observação e diversão, uma menina se aproximou com aquele papinho de “bate uma foto pro site”. Acabou conversando com a gente por um tempo. “Ai, meu, tou mal pra caramba. A mina que eu tou a fim não quer nada comigo”. Tentarei explicar o drama da moça, que aqui vamos chamar de Maria Joana (só de zueira): MJ estava a fim de outra menina. Porém, a amiga dessa menina estava a fim de MJ, e tentou ficar com ela. Como não era o alvo principal, levou um fora, e a amiga, em solidariedade, também não cedeu às investidas. Complicado? Imagine lá no meio da festa, tentando entender que isso saía da boca de uma pirralha de 14 anos e que eu jurava ter no máximo uns 17... Mais adiante encontramos um grupo de meninas tentando consolar a amiga que levou um pé na bunda do namoradinho. Enquanto as lágrimas faziam da menina uma versão mirim do Alice Cooper, as parceiras de balada incitavam a vingança: “fica com outro, ele não te merece”. Recém passaram pela primeira menstruação e já despertaram o gene feminino do “olho por olho”. Sem conhecer a história e os envolvidos, já fiquei com pena do rapaz e do que ele poderia sofrer nas mãos daquelas moças. Não interessa a idade: mulher quando fica com ódio é melhor sair correndo ou aguentar as consequências.

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SEXO: AINDA NÃO SEI Maria Joana não era a única menina lá querendo fazer um spider fight. Tampouco estava sozinha no quesito “foda-se se é homem ou mulher, tou pegando igual”. Jair Bolsonaro, se ali estivesse, teria um AVC ao ver o futuro do Brasil trocando saliva com seres do mesmo sexo. A história entre as meninas é quase a mesma: ficaram com uma amiga do colégio só de brincadeira e acabaram gostando. Já entre os caras era mais difícil saber este tipo de coisa. Interceptamos dois “amigos coloridos” que, quando questionados se eram namorados, soltaram um “pfff”, abanando a mão na nossa direção como se fossem divas, e negando qualquer traço de homossexualidade, ainda que sua linguagem corporal dissesse o contrário. Em outro momento, um grupo de amigos passou por nós e pediu uma foto, já posando para tal. Depois de ouvir que a intenção é registrar espontaneidade, um carinha disse “Ah, se é assim, xá comigo”, para em seguida engolir a amiga que estava do lado. Cliques feitos, a turminha sumiu na pista. Tempos depois, encontramos ela, sozinha, com um grupo de amigas. “E o teu namorado?”, perguntamos. “Ah, ele não é meu namorado. É meu amigo gay”. “Mas vocês se beijaram com força!” A resposta dela resumiu-se em um risinho safado dado com a mão na frente da boca. Perto dali, chamou nossa atenção aquele que seria o minicraque do Léo Áquila. Loiro, cabelo armado e maquiagem carregada, na mesma faixa etária dos da maioria na festa. Circulava de mãos dadas com outro cara numa boa, e fazia carão quando percebia que a câmera o mirava. Aliás, acredito que no fundo o mais legal da noite tenha sido perceber que a geração Z, apesar de mimada e com um péssimo gosto musical, está crescendo desprovida de preconceitos, respeitando a opção sexual dos seus pares e descobrindo a sua com mais liberdade e aceitação. Ao menos isso acontece do lado de dentro da festa, já que o ar ortodoxo dos pulmões paternos embaçava os vidros dos bólidos que esperavam ou deixavam suas crianças na frente da balada. Bastava uma menina com um pouco menos de roupa ou um moleque com trejeitos femininos para que alguns adultos torcessem o nariz dentro de seus carros.

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O FIM DOS FREAKS Outro fato interessante é que aparentemente TODO MUNDO estava se dando bem naquela noite. Durante a festa, encontramos várias vezes o nosso contador de vantagem do início da matéria, e em cada uma delas ele estava com uma menina diferente. “A louca me deixou com umas marcas foda no pescoço, olha só”, e levantava o queixo mostrando os chupões como um troféu da noite. Outro que se destacava no lugar era uma versão do Harry Potter com dois metros de altura. Em outros tempos ele seria um dos “freaks” do colégio. Lá ele era só mais um a se divertir, e que depois vi caminhando de mãos dadas com uma baixinha para um canto mais reservado da casa. Sem falar nas gordinhas. Creio que durante os anos que separam a minha geração da deles, as moças com uma concentração maior de adiposidade aprenderam o poder da autoestima, e a usar roupas que valorizassem seus atributos físicos, sem precisar das amigas esbeltas na volta para se darem bem. Pior para as magrinhas bulímicas e sua falta de voluptuosidade. O padrão estético “Beth Ditto” era bem assediado. Nunca estavam sozinhas, sempre com um taradinho a tiracolo. Agora, não podemos falar o mesmo dos caras...

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O DRAMA DE RUFUS Não sei se este é o nome verdadeiro dele. Chamo-o assim pela sua semelhança com Rufus o lenhador, do desenho Corrida Maluca. Gordinho, 17 anos no lombo, cara de bolacha Trakinas, estava ali pelo mesmo motivo que todos da sua faixa etária: pegar umas menininhas. Entrou na festa acompanhado de uma amiga, pagou uma bebida pra ela, e nos abordou para fazer uma foto. Quando falamos que a gente estava lá para uma matéria, ficou batendo papo, e se juntou conosco para aconselhar Maria Joana sobre como conquistar a amiga ressentida. Quando se ligou, Rufus havia perdido a amiga. Partiu atrás dela como se fosse a última esperança de se dar bem naquela noite.

Cruzamos com Rufus mais tarde... “E a amiga, cara? Achou?” “Que nada... Encontrei ela pegando outro”, disse com uma certa melancolia no olhar. Incentivamos ele a ir a luta. Como a tendência de todo ser masculino de IMC elevado é se foder, lá foi Rufus cumprir com a profecia. Encontramos com ele novamente outras vezes, sempre com um sorriso bonachão cheio de esperança de que tudo ia dar certo. Nós, como arautos do mau agouro, sabíamos que não era isso que ia acontecer. Não deu outra – topamos com o gordinho botando as tripas pra fora no banheiro como se não houvesse amanhã. “Acho que fiquei uns cinco quilos mais leve”, comentou conosco. Já do lado de fora da festa, esperando um táxi para ir embora, vimos Rufus saindo da balada com aquela cara de quem ficou no zero a zero total. E, óbvio, veio falar com a gente, quiçá ouvir uma palavra amiga. “Que deu errado nessa noite, Rufus?” “Cara, há dois anos venho aqui e nunca peguei ninguém. Mas sei lá... As meninas que vem pra essas festas não são muito o meu perfil...” refletiu, buscando uma desculpa para a sua fracassada noite. Interpelado pelo fotógrafo Maurício Capellari sobre como fazia para saciar as necessidades físicas, soltou um tímido “dou meu jeito”, como quem tem vergonha de admitir que mais uma vez o palhaço ficaria despenteado naquela noite. (recomendo a leitura deste último parágrafo ouvindo The Lonely Man, do antigo seriado do Incrível Hulk) Confesso que fiquei compadecido daquele jovem. Faltando um ano para a vida adulta, ele já sofre com a peculiar crueldade feminina e com a falta de traquejo social em ambientes descoladinhos. Falamos para ele que com a maioridade as coisas melhoram, e que no futuro bastará ele ter grana o suficiente para baixar uma garrafa de whisky com Redbull para comer quantos cus ele quiser. Que só a experiência com as mulheres erradas fará ele encontrar a mulher certa. Se este guri seguir todos os nossos conselhos, será um jovem adulto feliz – com sífilis, mas feliz. Mas no tempo presente, ele é só mais um adolescente desajeitado rumando para casa sozinho para mais uma seção de espancamento covarde de cinco contra um e buscando seu lugar no mundo, como todo mundo faz nesta idade.

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GABRIELA MO

GABRIELA MO

POR GABRIELA MO GABRIELA MO

ESTICA BACANAS DE PIJAMAS O pior pesadelo de um fashionista é estar em um ambiente público usando pijamas. Vai dizer que não? Mas nesta temporada, eles não vão precisar ter esta preocupação. As grife$ Louis Vuitton, Céline, Lanvin e Salvatore Ferragamo acabaram de desfilar seus conjuntinhos de seda estampados que podem ser usados tanto sob as cobertas como em um passeio pelo shopping. Captou a mensagem? Os pijamas vão se tornar seu novo pretinho básico. Agora você, preguiçoso de plantão, vai ficar de fora dessa? Não, né? Aproveita que é fashion e usa o desleixo como desculpa para levantar da cama e sair de casa sem precisar se arrumar. Mas calma, isso também não significa esquecer de escovar os dentes. Confira nossas dicas e aposte nessa ideia rápida e confortável sem fazer feio por aí. A Void agradece a modista Nina Godinho que montou os looks – e posou para a gente, mostrando como é possível ficar bem de pijamas e não parecer um banana!

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OPÇÃO RADICAL

NA BALADA

COM O CÃO

Sem desculpas para deixar de praticar esportes. Não tem o abrigo da Nike? Grande coisa. Andar de bicicleta ou skate vestindo seu conjunto de dormir pode ser ainda mais cool do que o casaquinho retrô da Adidas se você souber se portar. Além de práticas, as calças da algodão facilitam os movimentos e te dão um ar grunge. Vai que é quente! Se estiver calor, opte por uma daquelas cuecas samba-canção.

A festinha no vizinho foi até de manhazinha? Pelo menos você já está vestido para deitar. Usando a camisa do pijama como bata, dá para montar um look bonito tanto para o dia quanto para a noite. E o melhor de tudo é que se você chegar em casa bebaço, não precisa nem tirar o jeans.

Se emperiquitar para passear com o cachorro é como colocar batom só para levar o lixo. E se está com preguiça de sair com o Rex, pensa no tamanho do cocô no meio da sala que ele é capaz de fazer. Levanta logo do sofá, larga de frescura e sai de casa de pijama mesmo, afinal de contas, ninguém vai notar o seu visual quando se tem um cãozinho fofo desses vestindo uma jaqueta mais cara do que a sua camisola.


REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

Jean Paul Gaultier que não se gabe, porque talvez a precursora nessa onda toda tenha sido a Chanel quando liberou as mulheres dos corpetes e das frescuras excessivas da Belle Epoque as vestindo com calças e tailleurs, além de influenciar uma geração com seu temperamento questionador. Isso lá em meados do século passado! De lá para cá, Marlene Dietrich e Twiggy (só para exemplificar) provaram que dá para ser bem feminina sendo um bocado masculina. Outra bandeira é levantada. Agora não em prol do feminismo, e sim contra a homofobia. A cada vez mais famosa transexual Lea T. (antes conhecida como Leandro) foi escolhida em 2010 pelo estilista Riccardo Tisci para estrelar a campanha outonoinverno da Givenchy e já posou nua para a Vogue Francesa. Mais recentemente, em janeiro, foi capa da Love beijando Kate Moss.

Até aí tudo bem, deixa o moço! A questão é que essa brincadeira de gêneros está ditando tendência no mundo da moda. Andrej já virou melhor amigo de Jean Paul Gaultier. E, logo logo, a androginia vai aparecer nas vitrines de todas as lojas e também no seu dia-a-dia, quer ver? Se prepara para ver seu amigo másculo e heterossexual vestindo legging e ankle boots.

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SÓ NO BICO

A top inglesa Angyness Deyn é outra que adora brincar com seu gênero. De cabelos curtos, volta e meia ela aparece travestida de homenzinho. E faz um puta sucesso por causa disso. Ela ficou famosa mundialmente depois de ser garota propaganda do perfume Madame, de Jean Paul Gaultier. Olha o Gaultier aí de novo, gente, mas que coincidência. Já a top do momento não tem traços físicos ambíguos, mas Freja Beha Erichsen usa e abusa de calças de alfaiataria, blazer, camisa, e sapato Oxford, tudo herança dos guarda-roupas masculinos.

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Olha a rapariga aí da imagem. Foi eleita uma das mulheres mais sensuais do mundo de acordo com a publicação masculina FHM Magazine. Que tal? Antes de chamá-la de gata, ou ao menos de bonitinha, se liga, lombriga, porque a pessoa na foto é um rapaz! Um rapazinho que parece tanto com uma mina que até o pessoal da FHM se confundiu (e até agora nem se pronunciou sobre o erro para não passar mais vergonha). A edição de número sete da americana Dossier foi outra que errou e revestiu com plástico fosco escuro os exemplares que mostravam o cara sem camisa. Calma, gente, é um homem, e, mesmo assim, não estamos nos anos 1940! A causa dessa

confusão toda atende pelo nome de Andrej Pejic, é sérvio, tem 19 anos e é quase que o(a) novo(a) Gisele Bünchen do mercado de modelos, tem sido visto e comentado por toda parte. Andrej é meio a meio, metade menino metade mocinho, pelo menos no que diz respeito ao seu visual. Ele é requisitadíssimo nos desfiles de grifes femininas e masculinas, e posa para editoriais sem deixar claro seu verdadeiro sexo. Isso porque ele fica sexy de vestidinho floral e viril de terno e gravata. Sério mesmo.

TERRY RICHARDSON

REPRODUÇÃO

METADE MENINO METADE MOCINHA

Na televisão, quem apareceu foi Ariadna, no BBB 11. No começo, ninguém sabia, mas ela foi a primeira transexual a participar do reality show. Nascida Thiago Arantes, a cabeleireira carioca foi eliminada rapidinho. Mas nada que abalasse sua fama. Agora, ela é uma das dançarinas gostosas do Pânico na TV. É, o mundo muda. O queridinho da América James Franco também não se importou de se vestir de mulher para ilustrar a capa da revista Candy, em uma edição dedicada aos transexuais e crossdressers. Heterossexual, James Franco se garante e é mais uma prova de que a androginia está se estabelecendo. Por lados diferentes, mas está chegando para ficar.

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GUILHERME VARGAS

ESCORREGAMOS! TEM GENTE QUE SÓ OLHA AS FIGURINHAS. MAS QUEM LÊ, REPARA QUE A NOSSA TIRAÇÃO DE ONDA É CONSTANTE, E QUE ALGUÉM SEMPRE VIRA VÍTIMA DE NOSSAS PIADINHAS OU TROCADALHOS. MAS COMO NEM TODA HORA É HORA, JÁ DIZIA A PROFESSORA DA PRÉ ESCOLA, TEM MOMENTO (E ASSUNTO) QUE NÃO SE PODE BRINCAR NEM DAR BANDEIRA. E PARA NÃO VIRAR PROCESSO, SEGUE A NOSSA ERRATA DO MÊS.

MAL CREDITADA A foto da Yasmin Brunet que ilustra a nota sobre a grife gaúcha Ambicione na Void #071 na verdade é do amigo fotógrafo Fabian Gloeden, responsável por toda essa campanha. Erroneamente, creditamos a imagem ao Estúdio Burti. Foi mal!

FAY.Z Nessa mesma edição, escorregamos legal na casca de banana! E para não perder a amizade e perder a piada (não está mais aqui quem falou em tapa sexo!), admitimos que erramos feio na nota Das Arábias sobre o uso do hijab, vestimenta típica das mulheres muçulmanas. Em primeiro lugar, a opção religiosa não tem nada a ver com Arábia, como o título induziu. Inclusive, existem muitas brasileiras de origens distintas convertidas ao islamismo. Para esclarecer as dúvidas, conversamos com Falastin Zarruk, dona da grife Fay.Z, destinada justamente a esse público: muçulmanas que adotam os trajes sugeridos pelo islamismo e, ao mesmo tempo, não abrem mão de se vestir bem.

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Qual a sua origem? Eu sou brasileira, mas a minha família é uma mistura de polonês, italiano e árabe. Meu avô veio da Palestina. E a metade dos meus parentes é muçulmana, a outra metade é católica. Sempre estudei em escolas católicas, mas acabei optando pelo islamismo. Depois que decidi, minha mãe, que antes era católica, também se converteu, há cinco anos. Existem muitas brasileiras muçulmanas? Sim! Porque você não precisa ter origem árabe para ser muçulmana. Só porque o islamismo tem essa origem, as pessoas têm a ilusão de que ele é feito para árabes, ou de que todo árabe é muçulmano. Assim como existe muito católico no mundo árabe, por exemplo. Para se ter uma ideia, vários costumes da cultura árabe são considerados pecado no islamismo, como o casamento obrigado. A cultura árabe é muito conhecida pelo machismo e esses atos foram banidos pelo islamismo. O islamismo pode ser considerado então uma religião feminista? Sim, pois dá direitos à mulher. Na época em que o islamismo surgiu, as mulheres tinham mais liberdade do que as católicas. Foi a primeira religião que libertou as mulheres. Então qual a explicação do uso do hijab pelas muçulmanas? Proteção. A religião aconselha o uso do hijab para proteger a mulher. No momento que uma mulher de lenço conversa com um homem, ele vai prestar atenção no que ela está falando, e não nas suas curvas ou na sua jogada de cabelo. Mas tudo isso é apenas uma indicação, não uma obrigação. A minha mãe não usa o lenço, por exemplo. O islamismo não obriga ninguém a nada.

A mulher pode usar saia curta e o hijab ao mesmo tempo? O lenço, na verdade, não é o hijab completo, e sim parte dele. O hijab significa toda a veste, ou seja, roupas mais largas e compridas que cubram até os pulsos e tornozelos, além do lenço cobrindo o cabelo. Meu trabalho de conclusão foi sobre a moda islâmica, e a partir daí comecei a observar que algumas muçulmanas deixavam de usar a vestimenta completa por não se sentirem à vontade com ela, ou por se acharem velhas com as roupas largas. Por isso que criei o meu blog, para ensinar as muçulmanas a usarem roupas adequadas sem ser caretas. E quando você criou a Fay.Z? Em outubro do ano passado eu criei o blog com dicas atuais de moda para mulheres muçulmanas que queriam se vestir bem, justamente para atender esse público que desistia de usar o hijab por não se identificar com as roupas indicadas. A maioria das lojas muçulmanas daqui vende peças de origem árabe, várias com muito brilho, por exemplo, e a mulher brasileira não se identifica com isso, ela é mais ligada, quer se preservar e ao mesmo tempo se achar bonita. A marca é nova, surgiu em janeiro. E quem não é muçulmana, também pode comprar seus produtos? Acontece muito de meninas que não são muçulmanas quererem meus lenços! Eu sempre vendo, não critico, mas dou a dica de não usar da forma islâmica. Inclusive, já publiquei vídeos com sugestões diferentes de uso, pois quem usa o hijab está representando a religião, e se você não concorda com ela, por que fazer isso? O que também rola são mulheres com câncer em tratamento de quimioterapia que me procuram. Eu as auxilio também e mostro formas alternativas de vestir o lenço que não seja da forma islâmica. Info: www.fayhejab.blogspot.com


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POR Gabriela Mo ěũ(ũ-(,+#2!

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TEXTO WWW.TODODIAUMLOOK.COM

FOTOS GABRIELA MO

QUEM DISSE QUE BRASIL É CALOR O ANO INTEIRO, É SAMBA, É MORENA GOSTOSA BALANÇANDO A BUNDA EM FRENTE AO BOTECO MOLHANDO A BOCA NO CHOPE GELADO, ESTÁ MUITO ENGANADO. MATIAS RECH DE LUCENA, GABRIEL VON DOSCHT E VINÍCIUS PEREZ, O TRIO BACANA DO BADALADO SITE DE MODA (COF COF) TODO DIA UM LOOK ENCARNOU UM GRUPO GRINGO NA NAÇÃO DE FUTEBOL E DEU DICAS DE BEM VESTIR AO TURISTA DESAVISADO, MOSTRANDO QUE O PAÍS CANARINHO NÃO É FEITO SÓ DE SUNGA E TOP LESS. OS TRÊS FORAM DE COMBOIO À REGIÃO SUL (TERRA DE XUXA, GISELE E RONALDINHO – O GAÚCHO), E COMO BONS EXCURSIONISTAS ARGENTINOS, BUSCARAM PRAIA E SOL NO TERRITÓRIO MAIS CINZA E MARROM DO CONTINENTE. CONFIRAM AS DICAS FASHION DOS MOLEQUES QUE EMBARCARAM EM UMA INDIADA SEM ENTENDER QUASE NADA DO BEM VESTIR.

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Disseram que o Brasil era um país tropical, cheio de ninfetas _Disseram que o Brasil era um país tropical, cheio de e ladyboys incríveis, mas está tão frio que é preciso usar uma ninfetas e ladyboys incríveis, mas está tão frio que é preciso pinça da Dolce e Gabbana para achar seu pênis, enquanto usar uma pinça da Dolce e Gabbana para achar seu pênis, o único termo para definir seus testículos é “petit poá”. enquanto o único termo para definir seus testículos é Hibernando em sua touca, você percebe que praticamente “petit poá”. Hibernando em sua touca, você percebe que dá pra mijar na neve e escrever: Yves Saint Lauren Rules (é praticamente dá pra mijar na neve e escrever: Yves Saint um nome longo, mas suas desventuras pela capital gaúcha Lauren Rules (é um nome longo, mas suas desventuras pela foram tão únicas que você engravidou e está com bexiga de capital gaúcha foram tão únicas que você engravidou e está gestante). com bexiga de gestante).

_Torre Eiffel? Nada disso, a passarela da Av. Ipiranga é seu ponto turístico favorito. Para provar que é gringo e viajado de verdade, desfile seu rosto blasé e inchado, semelhante às estátuas da Ilha de Páscoa, resultado de uma noite mal dormida na “boate” do Ronaldinho Gaúcho. Nunca largando seu smart phone, não tenha vergonha de mostrar que usa Android e é a favor do softwear livre (e com softwear livre queremos dizer que em 10 minutos um crackeiro vai roubar seu celular). A calça de tactel te dá a agilidade para fugir enquanto a camisa florida atrai a atenção de vendedores ambulantes, sequestradores e trombadinhas.

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_Olhando para sua camisa de bicheiro, não há dúvida: as vendas de oxi e rinhas de galo renderam dinheiro suficiente para poder visitar Porto Alegre, gastar dinheiro em um tradicional prostíbulo local, cheirando cocaína numa bandeja com as iniciais TDUL, protegido por ninguém menos que Jesus Cristo, também entusiasta de prostitutas, vide Maria Madalena. Sua vida desregrada e alucinante certamente vai ser imortalizada nessa viagem quando, provando que you gotta fight for your right to party, você tiver um infarto agudo do miocárdio e for levado para ambulância enquanto o enfermeiro faz um review de seu look exclamando um “Porra, mas ele tá todo cagado.”.

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_Sua calça e chapéu caqui deixam claro que você não precisa de guia na Terra Brasilis, já que esta combinação estampa “turismo sexual” no seu pervertido semblante. A atmosfera funny de sua camisa vermelha florida somada a sua barba pedobear deixam em cheque qualquer Hertchcovith da vida, provando que o look Brian Wilson senil é super in. A câmera cara é fundamental para ser usada como suborno quando a polícia te pegar com Antonella Versacce, aquele travesti conhecido na década de 90 como Mickey Rourke. E ofereça logo antes que eles vejam que não são as paisagens que você tem registrado e recolha o gadget como “evidência”.


_Ciente das pegadinhas aplicadas nos turistas, você decide que vai se infiltrar entre os homens comuns brasileiros ao comprar uma calça de capoeira (era isso ou andar sempre com um berimbau no ombro). Mesmo com touca e jaquetão, você não pode desistir da praia e do mar que as canções do Jorge Ben tanto lhe prometeram (se bem que você foi confiar em um cara que canta sobre alquimistas e emos e foi batizar a filha de Anabela Gorda), então insista no tropical e sente à beira do Arroio Ipiranga. Pra que recriar Garota de Ipanema quando se pode estar no local que Werner Schunemann sofreu acidente de carro?

_Praticamente um Cristovão Colombo, ou como um pirata viciado em ópio (terra à vista) a procura de adolescentes do colégio militar, você fica deslumbrado com a cidade, sonhando com o window shopping, comidas típicas e cultural local, sem perceber que o taxista deu sete voltas na mesma quadra. Sua camiseta surrada dá o veredito: você não vai ter dinheiro para pagar a corrida.

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MUITO ALÉM DO ABC FOTOGRAFIA ANDREA LAVEZZARO ENTREVISTA POR GABRIELA MO

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ANDREA LAVEZZARO CANSOU DA VIDA NO ABC PAULISTA E FOI MORAR EM BERLIM, NA ALEMANHA, PARA GANHAR DINHEIRO FOTOGRAFANDO MULHER PELADA PARA O SUICIDE GIRLS. PONTO. A INTRODUÇÃO DESSA ENTREVISTA PODERIA COMEÇAR ASSIM, SEM DEVANEIOS, MAS PREFERIMOS SER MAIS ESPECÍFICOS. ELA É ARTISTA POR HERANÇA GENÉTICA. O PAI, ARGENTINO, CRIOU OS FILHOS PRODUZINDO E VENDENDO ESCULTURAS DE SANTOS EM UMA EMPRESA COM A ESPOSA. O AVÔ FOI UM PINTOR E “MULTITASKING DOS ANOS 1900”. JÁ ANDREA SE ESPECIALIZOU NA FOTOGRAFIA, E O

SEU DIFERENCIAL É CLICAR MENINAS ASSIM COMO ELAS VIERAM AO MUNDO. NATURAL DE SÃO CAETANO, ANDREA LAVEZZARO VIVEU ATÉ OS 18 ANOS EM SÃO BERNARDO E DEPOIS FOI MORAR NA CIDADE DE SÃO PAULO, ONDE NÃO SE ENCAIXOU POR MUITO TEMPO. ASSIM QUE VIROU FOTOGRAFA OFICIAL DO SG, EMBARCOU PARA EUROPA EM BUSCA DE MODELOS GRINGAS. HOJE, ALÉM DO SITE, ELA TAMBÉM COLABORA PARA A REVISTA JUICE, VAI A SHOWS DE BANDAS FODAS QUASE DE GRAÇA E AINDA CONHECE GENTE DO MUNDO INTEIRO. E SÓ VOLTA AO BRASIL DE VEZ EM QUANDO PARA VISITAR OS PARENTES E AMIGOS E FAZER UM DINHEIRINHO EXTRA.

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Fotografar mulher pelada dá grana? Ainda pago meu aluguel com o SG! Então pode-se dizer que pornografia paga as contas... O SG é classificado como soft porn. É sobre nudez, e não de maneira biológica, então é pornografia sim, e paga meu aluguel! Aliás, ele não é exatamente erótico nem sensual nem pornográfico. É o que o público quiser que seja! Eu não rotulo, eu só fotografo, os outros que julguem, coloquem nomes, discutam. Como você começou a fotografar para o SG? Comecei por volta de 2005, querendo fazer parte do site como modelo e não deu certo, ainda bem, pois eu não sabia o que estava fazendo. Em 2006, me colocaram de fotógrafa oficial e logo mudei pra Alemanha, onde passei quase dois anos sem fotografar pra eles, fiquei pra trás. Demorei pra reaprender, mas garanto que desde o final 2009 venho fazendo um trabalho que tenho orgulho, e que deixa meus clientes felizes. Mas tem autorretratos seus lá, como modelo, certo? Sim. Eu fiz eles em 2009, mas não é o que eu realmente curto. Na época eu estava fora de forma e não sei o que eu fazia com minha sobrancelha! Hoje em dia, adoraria poder apagar essas

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imagens! Mas estão lá no SG, e o set cumpriu sua meta que era de chamar mais atenção pro meu trabalho dentro do site. Não gosto das fotos, mas gosto da ideia e do fato de eu tê-la executado de maneira muito original. Foi bom pra entender melhor as modelos e mostrar quem eu sou. Deu resultados, agora posso focar em outras coisas. Não gosto de ser fotografada, também nunca posei pra outros fotógrafos. Já deu alguma merda desnecessária com essas fotos? Já teve muito drama desnecessário no passado. Hoje em dia não tem mais disso, tenho 28 anos, sei o que faço e só trabalho com gente que também sabe. Não perco tempo. Nunca rolou nada muito grande. Já teve gente falando mal, inventando história, tentando roubar meu emprego, eu não ligo pra nada disso, o tempo passa e essas pessoas vêm e vão, meu trabalho só cresceu. O que o seu pai acha disso tudo? Ele sempre me pergunta porque diabos as meninas querem posar nuas! Não acho que tenha preconceitos, ele só não entende. Mas eu sei que ele se orgulha de eu ser independente, assim como minha mãe. Nunca escondi que tipo de fotos faço, muitas meninas já fotografaram até na casa deles.


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Você chegou a ter aulas de fotografia? Eu não acredito em cursos de fotografia porque acho que arte não se aprende na escola. As pessoas são acomodadas e fazem “fórmulas” pra tudo, e depois não conseguem se soltar. Muitos trabalhos terminam iguais, as pessoas gostam de mecanizar tudo. Arte se aprende sozinho. E tudo que é técnico pode ser aprendido sozinho também! O melhor jeito de se aprender a fotografar é sozinho,

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fotografando, errando, conversando com amigos que estão fazendo as mesmas descobertas. Então você aprendeu na prática... Pois é. Não sou formada, larguei um curso de moda antes de sair do Brasil no final do segundo ano de faculdade e não me arrependo nem um pouco. Mas eu sempre me interessei pelas artes, influência do meu pai, só demorei pra descobrir qual área eu realmente

queria seguir. Daí eu trabalhei pra aprender. No Brasil, comecei fazendo fotos pra sites desconhecidos e depois consegui ir pra Folha, mas nunca fui feliz em São Paulo nem tive meu trabalho valorizado. Eu me considerava diferente e fora de lugar. Era bem deprimida com isso, não entendia que era algo que na verdade deveria me fazer feliz. Depois, quando aprendi a me aceitar, vi que o problema não era comigo. E graças ao Suicide Girls consegui viajar e trabalhar bastante em outros países, e hoje tenho diversos clientes e projetos.


Qual a diferença entre ser fotógrafa no Brasil e na Alemanha? Não tem muita. Se você é bom aqui, vai ser bom lá, se você é ruim... a mesma coisa! Se bem que eu vejo a fotografia no Brasil muito atrasada. Aquela coisa de qualquer um com câmera poder ser fotógrafo. Isso cola em muitos lugares no Brasil e na Alemanha não é tão fácil quanto aí de enganar. As pessoas sabem o que presta e têm acesso à informação. Acho que essa é a diferença e, por isso, acredito que as coisas relacionadas à arte por aqui têm mais qualidade. Eu era infeliz em São Paulo, não encaixava na cidade, tinha um relacionamento muito ruim que me desgastou muito, e não havia nada pra mim por aí. Sabia que o problema não estava comigo. Achei tudo que procurava aqui. Qual o problema de São Paulo? Nunca me senti bem em São Paulo, tenho bons amigos por lá, e no Rio também. Amo visitar minha família e ficar na casa deles. Só que a minha vida não funciona em SP. As coisas que eu gosto de fazer não existem por lá. Os

artistas que eu gosto quase nunca vão pra lá. E se vão, são pra festivais super caros, mal organizados. Muitas coisas relacionadas à cultura são de muito difícil acesso, ou muito caras. Eu sou pobre! Gosto de pagar €15 pra ver a banda mais falada do momento (como foi com o OFWGKTA mês passado), sem contar que aqui as informações chegam bem antes. E eu gosto de participar desses eventos e muitas vezes ter acesso especial, porque eu trabalho com isso, não porque sou filha do dono, entende? Sem contar que a mentalidade de muitos meios em SP não combina com o que eu acredito ser bom. Qualquer um tem um título, mas eu não vejo trabalho nenhum. Tem uma competição muito feia em SP, coisa de ego, de gente que não faz nada e quer provar que é melhor, ah, preguiça disso... Qualquer um sabe o que é e como funciona. As pessoas não se ajudam e se relacionam só por interesse. Deve existir um monte de gente que não é assim em SP, mas infelizmente não as conheci. Conto numa mão meus amigos que tenho lá.

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Ainda têm meninas no Brasil que conhecem seu trabalho e procuram você? Sim, ainda bem! Eu volto de vez em quando pra visitar minha família e aproveito pra trabalhar um pouco. Porque eu não fico sem trabalhar nunca! Em dezembro estou aí, quem quiser fotografar pode entrar em contato o quanto antes. Muitas meninas me acompanham pelo Facebook ou pelo Twitter, eu também sempre aviso quando estou indo.

os braços completos, algumas no peito que eu odeio e não vejo a hora de cobrir, e mais outras cinco pelas pernas e costas. Estou começando uma gigante na perna esquerda próximo mês.

Está cada vez mais banal posar pelada? Não sei. Não importa. Todo mundo é pelado! Mostra quem quer, vê quem quer... Não tem muito o que filosofar sobre isso :)

Quando fez a primeira? Fiz com 18 anos, escondida da família. E escondi durante mais uns 5 anos! Tinha um braço todo fechado e meus pais nem sabiam. Quando minha mãe viu, achou horrível, mas eu já nem morava com eles mais, já pagava minhas contas. Meu pai nunca me falou nada, mas sei que não gostava. Hoje já aceita e diz que acha as minhas bonitas. Ele me respeita e eu o respeito muito, ele é curioso e me pergunta de tudo. É bem tradicional, muito mais pela idade que tem (76!), mas é muito inteligente e quer compreender as mudanças.

As meninas ficam à vontade com você? Sou sincera, ajudo nas poses, o clima é tranquilo durante os ensaios, trabalho sozinha e estou ajudando a menina o tempo todo. Sou menina também, entendo as preocupações de uma mulher. E meu interesse é que elas se sintam bem. Eu trabalho sozinha, sem equipe, e sempre vou trabalhar assim. Assim como a maioria das modelos do site, você também tem muitas tatuagens. Sim, mas não estou nem na metade! Tenho

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Ser mulher e tatuada é vantagem no meio das artes? Anteontem mesmo, um desconhecido no Twitter me escreveu que em 20 anos vou “me arrepender de ter essas tattoos nojentas”. Bonita é a atitude dessa pessoa, né?

No que você está trabalhando mais hoje? Estou mais envolvida no momento é com a revista Juice, que é a maior revista de rap/ hip hop da Europa e está me dando muitas chances e liberdade de criação.


Então além do SG, você também passeia por outras áreas da fotografia. Que tipo de trabalho te dá mais prazer? Gosto muito de fotografar as meninas que são minhas amigas, a gente se diverte muito! E como falei antes, tudo que estou fazendo pra Juice está me deixando muito feliz, ter a chance de fotografar pessoas que fazem as músicas que me inspiram, de estar envolvida nesse meio e de colaborar com uma revista tão bem feita, me faz sentir super satisfeita.

E o nu masculino? Já fiz dois. Por mais tranquila e cabeça aberta que sou, não gostei de fazer, é diferente de fotografar meninas. O pênis me incomoda, haha. Eu sou heterossexual. Mas não sei, me sinto incomodada com um homem nu que eu nem conheço e ainda tenho que encarar. Não funcionou. Info: www.facebook.com/lavezzarophotography www.twitter.com/lavezzaro www.juice.de

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na CAIXA POR LEANDRO VIGNOLI

COALAS Era pra ter sido em junho, mas aí pintou aquele vulcão doideira no Chile, e a turnê do Cut Copy pelo Brasil foi remarcada pra outubro. Anota aí, então, amizade: dia 19 em Porto Alegre (Bar Opinião), dia 21 em São Paulo (HSBC) e dia 22 no Rio de Janeiro (Circo Voador). Primeira passagem pelo país, eles vêm divulgar o terceiro disco, Zonoscope, lançado em fevereiro. No início uma bandade-um-homem-só, hoje o Cut Copy se apresenta como quarteto, e são expoentes

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da bombante cena australiana do rock com electro (escrevi sobre ela na primeira edição da Void 2010). Quem não conhece, pode lembrar dos carinhas na trilha do vídeogame Fifa 09, com a faixa “Lights and Music”, ou a música “Nobody Lost, Nobody Found”, trilha do quadro AMAURY DUMBO do Pânico na TV (não se faz de louco que vocês tão ligados!). Fica de olho no www. avoid.com.br pra saber sobre o valor dos ingressos. Depois é só fritar na pista.

MOSCAS

BARATAS

Nunca a espera foi tão grande entre um disco e outro, mas o Red Hot Chili Peppers voltou. Décimo álbum da banda, I’m With You é o primeiro lançamento em 5 anos. Das coisas que sabíamos há tempos, o guitarrista Josh Klinghoffer substitui John Frusciante que vazou em 2009 e a produção é de Rick Rubin, que está nessa barca desde o Bloody Sugar Sex Magic (que aliás, acaba de completar 20 anos). Das novidades, a capinha ali da mosca é um design do sempre provocativo Damien Hirst, inglês que trabalha a morbidez como um pão com manteiga. “The Adventures of Rain Dance Maggie”, já exaurida nas FM’s, é o carro-chefe, um funkão conduzido pelo baixo com todo trademark do RHCP, além do refrão pegajoso pra lá de californiano praiano. Lembrando que o Red Hot toca no Brasil no final de setembro, em São Paulo e também no Rock in Rio. Picadinha mais que recomendável.

Três gerações de bom esterco, e que você jurava já ter virado adubo, também estão de volta às plantações dessa coisa chamada business. O Limp Bizkit, disseminador do “nu-metal” nos anos 90, voltam após seis anos com o álbum Gold Cobra. Ultrapassados como nunca, Fred Durst aparece no vídeo da faixatítulo cantando um rap ao lado dum carrão, de camiseta do Celtics e um boné dos Yankees, clichê maior que a própria música. Ainda há mais tempo fora de nossas vidas, o Blink 182 retorna oito anos depois do fim. A faixa “Up All Night” circula pela web, a mesma caricatura punk-nerd-punheteiro que acabará na trilha de algum novo American Pie. E pra selar nossa descrença no universo, o Bush também volta, esses dez anos depois, com The Sea of Memories. O álbum deve sair por esses dias, mas a Internet está aí aos mais corajosos. O aluguel sobe, eles voltam e a gente agüenta.


QUEM SABE FAZ AO VIVO

ÀS VEZES UM BOM DISCO PODE SER SUFICIENTE. MAS EXISTEM BANDAS QUE ELEVAM PARA OUTRO NÍVEL A SUA CONDIÇÃO DE EXISTÊNCIA. FAZEM DO SHOW UM CIRQUE DE SOLEIL DE CAOS E FÚRIA. TRÊS DELAS SÃO ESTAS LOGO ABAIXO. PREPARE-SE PARA O PIOR.

FUCKED UP

BLACK LIPS

LIGHTNING BOLT

Do Canadá, eles têm uma nada usual formação de sexteto pra bandas de hardcore. E uma nada usual música pro hardcore, que foge do padrão quatro-por-quatro, com melodias complexas e guitarras atonais. Na estética, um nada usual vocalista gordão careca barbudo que geralmente toca de cueca nos shows. E uma nada usual performance de quebrar latas e garrafas de cerveja na própria cabeça, o sangue jorrando às bicas. Certa vez, a MTV teve a nada usual (e inteligente) ideia de chamar a banda pra tocar dentro de um BANHEIRO, prontamente destruído por todo mundo – banda e fãs. Melhor que isso, o Fucked Up acaba de lançar David Comes to Life, obraprima de ópera-hardcore-punk de 18 faixas dividas em quatro atos. Gritaria caótica garantida.

Na música os caras parecem uma viagem de ácido, garage-rock anos 60, com influência especialmente de bandas obscuras e letras de fetiche junkie. Nos shows, performances vão desde atear fogo nas guitarras e quebrar tudo à infâmias escatológicas, como se cuspir, vomitar ou beber o mijo. Na Índia foram expulsos do palco (e do país) por se pelarem e se beijarem. Interativos, incitam o público a invadir o palco, e ocasionalmente entram em confronto com este mesmo público, em total descontrole. Na internet, esses fight-gigs são verdadeiras febres entre os vídeos da banda. Quem curte ficar apenas no seu lar estofado e quentinho, o Black Lips lançou há algumas semanas o sexto disco, Arabia Mountain, produzido pelo queridinho inglês Mark Ronson. Fritação garantida.

Dupla do menor estado americano, Rhode Island, os caras tem na sua base as chamadas “guerrila gigs”, shows onde eles tocam no chão, cercados de gente por todo lado, e que pode ser numa cozinha ou na calçada. No som, noiserock extremo, com o baixo atochado no pedal de distorção em afinação de cello, barulheira filha da puta. Com meia dúzia de discos, qualquer um vai te deixar paralisado com o desempenho, mistura de admiração e repulsa por tanta grosseria. Brian Chippendale, o batera vocalista, costuma tocar de máscaras e a voz processada através de megafones. Lightning Bolt é a banda aconselhada pra deixar no volume máximo e irritar o vizinho que compartilha o pagode dele com o prédio inteiro. A mais nova da dupla é uma jam com os Flaming Lips, chamada “I wanna get high, don’t wanna brain damage”. Chapadêra freak garantida.

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1001 DISCOS PARA OUVIR DEPOIS dE MORRER JANES’S ADDICTION STRAYS O Janes’s Addiction sempre foi a mais superestimada das bandas, saindo do ostracismo pro mainstream pelas micagens do vocalista e uma postura sexista, neurótica e drogada. Quase ninguém ouviu de fato aqueles dois discos, um enfadonho e confuso embuste de hard-rock com rock progressivo, de músicas quilométricas meio esotéricas. Perry Farrel criou o festival Lollapalooza como a turnê de despedida, mas virou símbolo do “rock alternativo”, e aquele que era apenas um punheteiro junkie nunca mais saiu de cena. Em partes. Lançado treze anos depois do primeiro fim, Strays avacalha a falsa impressão da maioria sobre o Jane’s Addiction ser uma ótima banda. O mote do álbum é um hard-rock datado, que abre os trabalhos com acordes de guitarra chupadinhos de “Welcome To The Jungle” e com quase todo o

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resto parecendo uma banda cover de Guns N Roses. Os riffs nunca chegam a grudar na cabeça, os solos gigantescos em excesso, o vocal gemendo, só falta o Jared Leto pra ficar pior. E se nos livramos dos laquês, os cabelos de poodle e das calças de couro atoladinhas no rego, você olha pra capa do disco e tem a impressão de ser uma banda de country-metal com alguma disfunção sexual. Botava todo mundo na cadeia.

absolutamente incontáveis as metáforas com aves). Daquele pouco que se salva, “Superhero” vale pelo espírito meio chapado de maconha, com vocais sobrepostos, linha de guitarra beirando o indie-dance do Happy Mondays, e vários yeah-yeah, yeah-yeah, que serve também de abertura pro seriado Entourage, da HBO. Mas também seja possível que o único motivo de se gostar da música seja o próprio seriado.

A maior dureza de entrar anos 2000 adentro fazendo essas farofagens é que tudo vai parecer algo que vai te envergonhar. A balada em voz e violão lembra alguma ruim do Mr.Big, outra pouco mais pesada vem o Skid Row na memória, e só não chega ao desastre de parecer o Bon Jovi porque a voz “excêntrica” de Farrel é como uma marreca com prendedor de varal no bico (gazela com crise bronquítica, gralha no cio, enfim, são

Produzido por Bob Ezrin, célebre produtor de bandas como Alice Cooper, Kiss, Aerosmith e o The Wall do Pink Floyd, a ideia do álbum era transformar a “sonoridade horrível e artística do Jane’s em uma banda de rock de verdade”. Tudo que ele conseguiu foi transformar algo ruim em ainda pior. E se o Janes’s Addiction sempre foi a mais superestimada das bandas, depois de Strays nem a Jane agüentou, largou desse vício barato.


SÓ NOS RESTA O ZEITGEIST POR LUIZA CARNEIRO E FELIPE DE SOUZA

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FOTOS MAURICIO CAPELLARI


O planeta está com a data de expiração marcada. Ainda não sabemos se o prazo de validade estoura em 2012, como previram os maias em seu calendário, ou se ainda teremos mais tempo de agonia e desespero. Nossos leitores mais assíduos devem lembrar da turma do EVAS (EcoVilas Auto-Sustentáveis), que entrevistamos na longínqua edição #043 (matéria F.U.D.E.U., de Felipe de Souza e Piero Barcellos). Preocupados com o destino de nosso lar, desde então estamos na busca por respostas e soluções que tirem o nosso da reta. O certo é que a Terra tornou-se um lugar hostil para se viver. Muita gente, poucos recursos. Corrupção, fome e guerras ditam o ritmo do que rola por essas bandas. E como diz aquela linda canção, “Do abuso imperialista a natureza se vinga”(1): enchentes aqui, secas acolá, terremotos e tsunamis do outro lado do mundo... O que fazer? Cruzar os braços e acompanhar o globo se despedir de nós enquanto assistimos a novela das 21h? Não! Três anos depois do alerta dado pelo time do EVAS, chegou a vez do Zeitgeist nos chamar para uma conversa ao pé do ouvido. O Movimento Zeitgeist é um grupo que quer “restaurar as necessidades fundamentais e a consciência ambiental da espécie através da defesa das ideias mais atuais de quem e o que nós verdadeiramente somos”. Sai de cena o tripé religião, política e dinheiro para dar lugar para a ciência, a natureza e a tecnologia, conforme versa o próprio site da instituição. A pilha dos caras é fazer a vida florescer na Terra sem efeitos colaterais como estratificação social, crimes e enfrentamentos entre nações. Aliás, a ideia é que sentimentos como ganância e beligerância simplesmente desapareçam da cabeça de nós, humanos. Enfim, o esquema é encarnar o espírito Teletubbie para ver se essa bagaça tem solução. O bagulho nasceu da cabeça do cineasta independente Peter Joseph e ganhou o mundo depois que ele dirigiu, narrou e compôs a trilha sonora dos filmes Zeitgeist The Movie (2007) e Zeitgeist Addendum (2008). Nas duas obras, que circulam livremente em torrents na internet, o californiano soca o pau no American Way Of Life e no mecanismo financeiro mundial. Na opinião dele, o sistema econômico atual é totalmente esquizofrênico e produz escassez, e é a escassez que gera lucro para uma minoria afortunada. Tem muito de “Teoria da Conspiração” no lance todo, mas o certo é que o Zeitgeist amealhou mais de 30 mil cabeças ao redor do planeta. E o Brasil não ficou de fora.

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RECOMEÇAR DO ZERO Por aqui são mais de cinco mil pessoas que seguem a pilha de Joseph e em uma tarde de frio, chuva fina, horizonte plúmbeo e moldura apocalíptica, fomos visitar a sede dos caras na cidade. Na casa antiga, com cara de squat e pinturas no estilo flower power, fomos recebidos por Konrad Sauer, um dos coordenadores regionais do esquema. Ele começou nessa onda messiânica depois de baixar os filmes na web e defini-los como um verdadeiro “soco no estômago”. Do choque para a prática, a primeira atitude de Konrad foi abandonar a ideia de financiar por anos um apartamento. “Eu iria fechar o contrato numa sexta-feira e o cara da incorporadora pediu para eu deixar para a segunda-feira. Aí no sábado entrei no site do movimento Zeitgeist internacional, que era o único que existia na época, e lá eles colocaram um livreto de orientações. Depois que acabei de ler aquelas instruções eu decidi não comprar mais o apartamento (risos)”. Hoje é certo que em algum canto do planeta um corretor de imóveis deve odiar Peter Joseph com todas suas forças. E o primeiro alvo do rapeize é o governo. Eles não reconhecem nações, nem fronteiras. “Eles (os governantes) querem ver as soluções dentro de um sistema já de certa forma instituído. Propomos parar e começar do zero, para ver o que realmente precisamos e o que nos atrapalha para conseguirmos resolver esses problemas. Nossa sociedade é depreciativa com relação ao que procuramos como qualidade de vida. E o mais prejudicial à nossa existência realmente é o sistema econômico”, metralha o rapaz. Depois de interromper seu discurso para atender uma chamada em seu IPhone, o mancebo prossegue: “O maior empecilho de tudo é o sistema econômico, o dinheiro. Mas se conseguirmos criar uma abundância de alimentos através do bom uso da tecnologia não precisaríamos mais cobrar pelo alimento, assim como não cobramos pelo ar. O ar é abundante e não faria sentido a gente vendê-lo, pelo menos por enquanto. Poderíamos criar estruturas hidropônicas. Temos estudos que viabilizam a construção de prédios inteiros onde cada andar tem algum tipo de hidroponia, conseguindo gerar uma abundância tão grande de alimentos, que não seria mais necessário vendê-los”. Ufa, vai dar um trabalho do caralho fazer isso sem um puto tostão no bolso, mas coloquemos fé na boa intenção do moço.

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UMA IDEIA, ALGUMAS GERAÇÕES Na real, o Zeitgeist foi, até alguns meses atrás, o braço político do Projeto Vênus, criado pelo americano Jacque Fresco lá nos idos dos anos 70. A ideia de Fresco era criar cidades sustentáveis, usando a energia de maneira eficiente, pegando leve com o meio ambiente e revertendo os frutos desta nova mentalidade para os seres humanos. Projetista industrial, engenheiro social (seja lá o que isso queira significar), escritor, professor, futurologista e inventor, Fresco teve seus primeiros insights na nobre arte de salvar o mundo durante a Grande Depressão, que assolava os Estados Unidos no início do século passado.“Por que as pessoas passam fome e estão desempregadas, se as máquinas continuam dentro das fábricas e há terra para ser cultivada?”. Através de um questionamento generalista, começou a projetar soluções dinâmicas: “Os recursos estão ali para serem utilizados, como não fazemos isso? Se o dinheiro está faltando e a gente só pode acessar as coisas através do dinheiro, então talvez este seja o problema.” A partir daí, passou a enxergar a Terra como uma grande caixa de ferramentas e entre o boom revolucionário das décadas de 60 e 70 criou um protótipo do Projeto Vênus – uma cidade totalmente planejada de maneira sustentável, sem leis, líderes ou qualquer tipo de divisão hierárquica, movida pelas trocas. A engrenagem começou a se mover de verdade quando Jacque tomou conhecimento do trampo de Peter e enviou o livro de sua autoria “The Best That Money Can´t Buy” (O Melhor Que o Dinheiro Não Pode Comprar, em tradução literal). Como uma luz divina, Peter abriu os horizontes e viu entre as páginas a resposta para todas as dúvidas. Em meio a gravação de seu segundo filme, The Zeitgeist Addendum, o artista passou a desmembrar o poder das simples notas de papel (na maioria das vezes inexistentes, segundo o próprio) chamadas dinheiro. Era o ano de 2008, e com o poder da Internet e de Youtubes da vida, iniciava-se um movimento social que somente no Brasil já soma mais gente do que os jogos da Portuguesa no Canindé.

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O MINIMIZADOR DA FELICIDADE HUMANA Para eles, o capitalismo é o minimizador da felicidade humana. De um lado vê-se seres crescendo em meio ao consumo, a competição e ao poder pelo lucro. Do outro, um modelo criado a partir da sustentação do planeta, da continuação da espécie e do reconhecimento de que o todo é natureza e deve ser trabalhado para uma possível contemplação do perfeito e criação do bemestar global. Utópico? Alguns críticos dizem que sim. Aldo Luiz, um formador de opinião carioca que assina o blog infinitoaldoluiz.blogspot.com, vê no movimento mais um “engodo com cara de futurismo salvador para iludir desavisados”. Segundo Aldo, a sociedade é escravagista e precisa ser libertada. “Quem precisa de Zeitgeist se é possível governar pelo amor incondicional? O ser humano é mantido infantilizado e por isto não sabe que está numa prisão onde as grades invisíveis são o medo aterrador da idéia de liberdade e autonomia”, grita em rebeldia. Ele vai além, apontando que o negócio é uma versão maquiada para algo que descreve como nazisionismo (!!!). “Querem agora um só governo, um só banco, uma só moeda, um só exército para controlar os 500.000.000 de seres humanos que restarem depois da despopulação já em curso acelerado. É o 3º Reich que agora vem em nova embalagem”, apavora o sujeito. Em contraponto, o engenheiro e admirador do Zeitgeist, Luis Maccarini, acredita que as ideologias são uma maneira de expor as limitações da civilização. “À medida que a humanidade utilizar conhecimento para a criação tecnológica em prol da felicidade, as pessoas, em um círculo virtuoso, se libertarão de profissões que escravizam, que exercem apenas por dinheiro. A chave do desenvolvimento tecnológico passa por um processo de auto conhecimento onde reconstruímos a forma como vemos o mundo visando o beneficio de todos”, admite. Viver em um mundo com recursos abundantes e sendo distribuído de maneira igual entre todos, não estar subjugado a nenhum governo ou instituição privada que vise o lucro, conviver em harmonia com o outro independente de sua raça, credo ou classe social, o fim de guerras e conflitos étnicos. Quem não quer tudo isso? Apesar de acharmos improvável, pode ser que essa revolução comece em uma sala bagunçada repleta de gente esquisita. Vai saber...

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Confuso, intrigado, e sem saber o que pensar da matéria que acabou de ler? Relaxa, nós também estamos nos sentindo da mesma maneira. Para ajudar a dissipar essa névoa de questionamentos, abaixo seguem alguns links que podem ajudar (ou não). Site do Movimento Zeitgeist no Brasil: movimentozeitgeist.com.br Canal no Youtube: www.youtube.com/ movimentozeitgeist Blog: blog.movimentozeitgeist.com.br Twitter: twitter.com/tzmediabr Facebook: www.facebook.com/mzbrasil

Testemunhas do Apocalipse, Ratos de Porão

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BIANO BIANCHIN PARA A EVOKE

Depois de Pedro Barros, agora é a vez de Biano Bianchin assinar uma série exclusiva com a Evoke. O modelo chegou ao mercado brasileiro no fim de julho e quem quiser o seu é bom correr, pois a série é limitada em 150 peças. A pilha do Evoke By Biano Bianchin é transportar para os óculos a agressividade deste que é um dos maiores representantes do skate brasileiro na atualidade.

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A armação do modelo é em Grilamid TR 90, que proporciona maior leveza, flexibilidade e ajuste óptico. O produto custa, em média R$689,90 e pode ser encontrado nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Goiânia. Ah, também dá pra pegar o seu na loja da Evoke na web. Info: www.evoke.com.br

REPRODUÇÃO

POR FELIPE DE SOUZA E TOBIAS SKLAR DIVULGAÇÃO

na BASE

CONHEÇA DANIEL CHIARELLI

SEU BONECO

Você provavelmente nunca ouviu falar nele, mas Daniel Chiarelli é um dos nomes fortes no BMX australiano. O moleque só tem 19 anos, mas já apavora nas pistas e parques da cidade de Maryland, subúrbio de Newcastle. Um pouco da técnica do jovem mancebo pode ser conferida no vídeo que o cara participou para a Rampant Clothing, marca que o patrocina. O rolê foi gravado em um pico chamado Woodward West e as imagens foram captadas e editadas por Dylan Pfohl. O filme tem pouco menos de três minutos e mostra que Chiarelli manda bem tanto no street quanto no dirt. Para conferir o desempenho do moleque, digite Daniel Chiarelli Rampant Clothing no campo de busca do Vimeo e divirta-se.

Steve Caballero rasgando as bordas da pia da cozinha? Bucky Lasek dropando o sofá da sala? Ryan Sheckler dando um flip por cima de um hamster? Deve ser mais ou menos por aí a idéia do pessoal da Action Sports Toys, que está lançando as três estrelas do skate em formato brinquedo. Os caras afirmam em seu site que o negocio é revolucionário e que vai mudar definitivamente a forma como as crianças se divertem com seus bonecos. Isso graças ao mecanismo que permite controlar, de maneira independente, o corpo, as pernas e o skate, recriando assim diversas manobras. Incrível, não? Os fabricantes de videogame e todas as marcas de skate do planeta devem estar seriamente preocupados nesse momento.

Info: rampantriders.com vimeo.com/26855615

Info: www.actionsportstoys.com


RENATO CUSTÓDIO

ATILLA CHOPA

CARNIFICINA COSTEIRA

JAY ADAMS

Rolou nos dias 6 e 7 de agosto a terceira edição do Converse Coastal Carnage, campeonato de skate que acontece no já tradicional bowl azul em Huntington Beach, Califórnia, durante U.S. Open de surf. A promessa do time gringo da Converse, Tom Remillard, mostrou serviço e levou pra casa o chequão de 15 milhas. A segunda colocação ficou com o camaradinha Pedro Barros que, depois de voltar da Europa (ver matéria nessa edição), se tocou pra temporada de bowls norte-americana e vem enfileirando um pódio atrás do outro. O terceiro lugar ficou com Curren Caples e o quarto com o titio da molecada Tony Hawk.

Essa é pra quem curte skate, ídolos old school e uma boa marra chicana. Em maio, a marca Tribal Gear lançou um documentário em curta metragem com a lenda de Dogtown Jay Adams. No vídeo, o tiozinho style fala sobre sua vida, interesses, brigas, amores e situação atual. Aproveitando o ensejo, a marca também jogou no mercado uma edição limitada de camisetas e shapes, pra dar aquele up na conta bancária de Jay. O shape, a principío custaria US$200 e traz estampada uma bela foto deste senhor para o qual todos que vivem o skate devem muito mais do que algumas doletas. Info: www.tribalgear.com/tribal

FABIO BITÃO

O CENTRO A região central de São Paulo, mais precisamente a galeria Olido, está recebendo até outubro uma mostra de fotos de skate chamada “Apropriação – Meu Centro é o Skate”. Idealizada pelo fotógrafo e curador Homero Nogueira, a exposição traz fotos e vídeoinstalações que oferecem ao visitante proximidade com as relações interpessoais, o convívio com os transeuntes e a utilização da arquitetura pública e privada por skatistas na região central de São Paulo. “Proibido ou não, o fato é que o mobiliário urbano central foi ocupado. Apropriado pelo inconsciente coletivo da comunidade do skate e eternizado pelas lentes de alguns fotógrafos e videomakers”, explica Homero. “Até mesmo por conta da carência de lugares para o skateboarding em outros bairros, as ruas da região central e suas praças (Roosevelt, Pátio do Colégio, Vale do Anhangabaú e Sé) viraram pontos de encontro e tornaram-se referência, ilustrando importantes revistas de skate nacionais e internacionais”, ele lembra. Dê o seu jeito e não perca.

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PELAS PAREDEs TEXTO E FOTOS ANDRÉ BARROS  

MOLDURAS RAFAEL CHAVES  

Um lugar onde você pode conhecer boa parte da história da humanidade, sentir na arquitetura o cheiro do passado e ainda andar de skate, só mesmo a Europa. Sempre quis conhecer o velho continente e, mais ainda, levar meu filho para que juntos pudéssemos ter essa experiência. Mas o turismo naquelas bandas custa caro, um brasileiro rico vira pobre apenas cruzando umas fronteiras, por isso resolvi aguardar a hora certa para fazer essa tão sonhada viagem com meu filho Pedro Barros. Ele, como skatista, ajudou bastante a concretizar nossas idéias.

só de skate. Como eu adoro fotografia, ia, pensei na hipótese de fazer umas imagens que mostrassem o skate em m harmonia com a história, algo perfeito to para se fazer na Europa.

A história das fotos que estão nessas páginas surgiu assim... Certo dia, fazendo um som com o pessoal da Evoke, nossa patrocinadora, fiquei imaginando uma foto legal do Pedro e do Vi Kakinho para colocar no pico onde eles trabalham. O lugar é bem core e tem um conceito forte, então seria delicado pendurar qualquer coisa na parede, não poderia ser uma foto

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Juntamos então eu, Pedro, Vi Kakinho o e Marcos Feijó, da produtora Garden Groove Filmes, e caímos na estrada. Foram 10 dias dentro de um trailer em busca de fotos que pudessem mostrar um pouco da história européia éia misturada com as manobras dos moleques. Imagens que, com qualquer er moldura de bom gosto, poderiam estar tar em uma sala de estar, no hall de um lugar como o QG da Evoke ou, por que ue não, nas páginas da Void. Visitamos Madrid, norte da Espanha e algumas praias da França. Nas fotos, busquei mostrar monumentos ou construções que tivessem a cara do lugar. O resultado ficou legal e já mandei fazer uma moldura para colocar a que eu mais gostei ao lado da minha lareira.


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KANIBA LIZANDU O SINEMA 70


POR PIERO BARCELLOS

FOTOS GABRIELA MO

No ano em que entrei para o seleto grupo de nobres notáveis que escrevem nesta publicação, fui incumbido de entrevistar um maluco do interior de Santa Catarina que fazia filmes trash. O “maluco”, neste caso, é um adjetivo positivo atribuído a alguém que trabalha com cinema alternativo em meio a um monopólio industrial de produção em massa, para a massa. Principalmente quando o termo “alternativo” não classifica bem o gênero utilizado por Petter Baiestorf. Munido de sua câmera VHS, um grupo de amigos elevados a atores, baixo orçamento e tendo como cenário a pacata cidade de Palmitos, Baiestorf deixou verter a demência que todos nós temos em algum recanto do cérebro e transformou-a em filmes trash-gore-pornô, com homens decepando bucetas e mulheres nuas se divertindo em meio a tripas frescas de um cadáver qualquer. Foi o que vimos quando chegou até a redação uma cópia da obra à época recente chamada “Vadias do Sexo Sangrento”. No meio daquele regozijo visual, decidimos entrevistar o jovem talento para a edição #042 da Void. Três anos depois, encontramos Petter Baiestorf praticando uma de suas atividades sociais recorrentes (a.k.a. bebericando um suco de cevada) junto da namorada, a artista plástica Leyla Buk. Aproveitamos para bater um papo sobre cinema, seus projetos, e como ajudamos (ou não) sua carreira.

Void_Como foi a repercussão da matéria? Mudou alguma coisa ou não aconteceu merda alguma? Petter Baiestorf_Olha, ninguém me disse nada (risos). Teve uma gurizada que comentou que viu na internet, mas ficou nisso. O pessoal do Rio Grande do Sul falou bastante, mas fora isso não teve grande repercussão. Void_Então nem ajudamos, nem pioramos a situação? Baiestorf_Mas é como eu falo, sempre é válido todo tipo de divulgação. Às vezes pode pegar um público que é diferente do que eu estou acostumado, que é um público mais chinelão, aquele cara bêbado que vai em show de metal e punk, tosco, que fica na porta do show enchendo o saco... É mais este público mesmo. Void_Na época que nós conversamos você estava envolvido no lançamento do filme “Arrombada”... Baiestorf_Eu havia terminado as gravações de “Arrombada – Vou mijar na porra do seu túmulo”, e estava divulgando “Vadias do Sexo Sangrento”. Depois disso eu fiz “Ninguém deve morrer” e “O doce avanço da faca”, filmei um curtinha em HD, e fui ator num filme chamado “A noite do Chupacabra”, que foi lançado recentemente. Void_Nestes últimos três anos você tem participado de muitos festivais de cinema, teus filmes tem bastante procura? Baiestorf_Bastante. E cada vez mais, na verdade. Tanto que eu não fazia trabalho de ator. Só abria uma exceção para amigos. Aí me convidaram pra este filme aí, e foi uma experiência boa pra caralho, porque é um filme que tu não precisa se preocupar com dinheiro, coisa com a qual eu estou acostumado. Desta vez foi ao contrário, só se preocupar em ensaiar as falas e tal, e eu achei bem mais sossegado. “A noite do Chupacabras” já está agendado para participar de vários festivais, começou no Fantaspoa1 e já tem exibições marcadas em Rio de Janeiro e São Paulo. A produção dele foi de R$ 130 mil, uma coisa mais profissional do que estou acostumado. Void_Você começou fazendo filmes em câmera VHS, depois passou pra mini-DV. Hoje tem gente fazendo filmes com a câmera do celular. Essa evolução tecnológica afeta seu trabalho? De que maneira? Baiestorf_Eu estou cada vez mais me adaptando. Rodei dois curtas com uma câmera em HD, uma câmera fotográfica que filma, e a qualidade é foda. Fora que diminui os custos da produção também.

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recordar é morrer Void_Falando em produção, como anda a captação de atores para os filmes? Na época você disse que havia uma grande procura, e que era necessária uma filtragem pra não colocar qualquer pessoa... Baiestorf_A seleção está cada vez melhor. Por exemplo, agora em 2012 a Canibal Filmes vai fazer 20 anos. Pra comemorar, já estamos pensando em fazer um filminho um pouco maior, com gente de todo o Brasil. Já tou com gente de Minas Gerais que vai trabalhar na parte técnica, atriz de São Paulo, atores que vão vir de outros estados... Na verdade eu tou montando o orçamento, que é outro problema, mas já sei o que vou fazer. Em 2012 quero fazer um filme bem violento e porra-louca, quero botar todas as coisas que não se deve. Provavelmente vai ser um filme que eu não vou conseguir colocar em festival nenhum porque vai ficar muito louco. Mas a ideia é essa, fazer algo que representasse a tônica da Canibal Filmes. Void_Então o Manifesto Canibal continua firme e forte em seus ideais? Baiestorf_O Manifesto Canibal (o livro) estava sendo sondado para ter mais uma edição, mas eu não sei como está isso. Void_Coincidentemente, o lançamento nacional do “A noite do Chupacabras” aconteceu na mesma semana em que foi lançado nos cinemas de grande porte “Cilada.com”, do Bruno Mazzeo. E o cara tem o casting inteiro da Globo à disposição dele. O que você faria se contasse com o mesmo acervo de talentos nacionais? Baiestorf_Não filmaria com ninguém da Globo. Eu acredito que são dois mundos diferentes. Eu nem sei quem trabalha na Globo hoje em dia, mas vou citar pessoas do tempo que eu via TV: Tarcísio Meira, Glória Pires... Esse pessoal não trabalharia porque não interessa. O negócio é underground. Por exemplo, eu filmaria com um vocalista de uma banda underground que talvez chamaria público. Mas os demais, eu quero que eles fiquem no canto deles. Void_Mas nem pra empalar um ator de Malhação? Baiestorf_Não. O cara sabe que só vai se incomodar com uma figura dessas. Tu tem que filmar com um orçamento minúsculo. Às vezes tu só tem uma semana à disposição pra filmar. Então tu vai fazer um filme com um cara que vai ter que acordar às quatro da manhã, trabalhar 24 horas por dia, molhado de sangue, passando frio... Tu acha que esses caras da Globo não vão dar chilique?

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Void_Com quem você gostaria de fazer um filme, que ainda não fez? Baiestorf_Santiago Segura, um comediante espanhol. Respeito muito a obra dele. O dia que eu conseguir um dinheirinho eu vou trazer ele pro Brasil pra filmar, com certeza. Ele começou fazendo fanzine, então eu me identifico muito com ele por causa disso, pois também comecei fazendo fanzine. Conheço os curtas dele desde quando ele fazia em VHS também, tem uma história muito parecida com a minha. E filmaria também com o Ron Jeremy. Void_ E o que você anda assistindo de filme? Baiestorf_Eu vejo de tudo. De filme da Disney até pornô extremo japonês com gente se jogando merda na cara. A maioria eu não gosto, mas eu tenho uma curiosidade cinematográfica muito grande, aí praticamente tudo me interessa. Void_Qual foi o último filme que você viu e gostou? Baiestorf_Foi “´Pólvora Negra”, do Kapel Furman, que foi o responsável pelos efeitos especiais do último filme do Zé do Caixão. Void_Quais são os teus próximos projetos? Baiestorf_No momento estou focado na captação de recursos para o filme dos 20 anos da Canibal Filmes, pra lançar no segundo semestre de 2012, se nada der errado. É que sempre pode dar tudo errado. Se eu não conseguir fazer isso, eu já tenho um roteiro pra um curta, que não tem nada a ver com os meus outros filmes, é mais dramático, pra filmar com um casal de velhos. É um filme mais contido, mais intelectual. Tá ligado que eu faço umas paradas de vídeo-arte? Se eu não conseguir fazer o primeiro, este ultimo fica mais barato, acho que com R$ 15 mil dá pra fazer algo bem bacana. Void_E a tua cidade continua sendo cenário das atrocidades? Baiestorf_Sim, sim. Gosto muito de filmar lá no oeste. Já filmei em vários lugares, mas eu prefiro lá. Acho melhor em Palmitos.

Não lembra da edição onde desbravamos a estética do Cinema Canibal? Confere uma parte desta coisa medonha que nós chamamos de matéria:

Em 2002, foi lançado o livro Manifesto Canibal, em que Petter Baiestorf e outros entusiastas deste cinema explicam como revolucionar a sétima arte no Brasil, restrita atualmente, segundo aos autores, a um cinema acéfalo, de padrões estéticos glamourizados por Hollywood e pela Globo. Em uma das passagens, Baiestorf destila sua fúria: “Se a ideia é o Governo patrocinar o cinema brasileiro dito oficial, precisamos contestar os valores das grandes produções. Ao invés de dedicar R$ 12 milhões para um único filme, poderíamos produzir filmes de R$ 100 mil (é possível realizar obrasprimas com este valor, sem corrupção, lógico). Teríamos 120 trabalhos com possibilidade de lucro e explorando as mais diversas temáticas possíveis”. Aliás, é a fúria que move o Kanibaru Sinema. “Soltemos nossos urros de revolta!!! Construamos nossos próprios filmes e que sejam feios, sujos, malvados, alucinados, aleijados, bêbados, contestadores e transgressores dos valores sociais”, despeja Baiestorf. Em resumo, os caras querem ser toscos e agredir a sociedade. Um exemplo disso está no trailer de Arrombada - Vou Mijar na Porra do seu Túmulo. Uma das chamadas do filme incita as pessoas: “Cuidado! A sua filha pode estar neste filme”. Em outra, os personagens dementes e pervertidos são identificados pelos cargos que ocupam, como o padre, o médico da

família, o juiz de direito, o deputado eleito senador, e por aí vai. Esta é a forma que Baiestorf usa para inserir uma crítica política em meio ao pornôgore da tela. Para ser um adepto do Kanibaru Sinema é preciso, antes de tudo, esquecer quaisquer regras, seja de estética, de moral ou de comportamento. Faça o filme com poucos recursos mesmo. “Se não tiver como conseguir uma câmera, roube uma”, indica o Manifesto. Faça tudo sozinho, desde a produção até a distribuição. Chame seus amigos, parentes e tudo que houver de mais freak do seu convívio social para atuar. Inserir os filmes em mostras não-competitivas também faz parte do movimento, bem como avacalhar as mesmas (a competição é uma bobagem criada pelo capitalismo). Não queremos festivais, não queremos prêmios, não queremos pessoinhas alegres com suas caras de saco murcho! Abaixo os bonzinhos, abaixo os saudáveis, abaixo historinhas de ninar, abaixo toda sua bosta light! Nós queremos que você enfie seu jornal no cu, nós queremos que sua TV se foda, nós queremos que vocês continuem sendo capachos do politicamente correto!(trecho do livro Manifesto Canibal)

Quer ler mais? A matéria completa está lá no site da Void. É só conferir em www.avoid.com.br

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INAUGURAÇÃO COMPLEX 06 E 07 DE AGOSTO / POA

FOTOS: MAURÍCIO CAPELLARI, ALEX BRANDÃO E MELL HELADE

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REVELAÇÃO Temp.04 Ep.06 Por: PDR e MAU

NÃO BRINQUE COM ISSO, RUSSOWSKI... MELHOR VOCÊ ENTRAR LOGO...

MAIS UMA VEZ, OBRIGADO POR DEIXAR A GENTE SE ESCONDER AQUI...

ABRRAM O PORRTA, AQUI É O KGB! VOCÊS ESTÃO CERRCADAS!!

É UM PRAZERR, CAMARRÁDA BANÁNA! TROUXE ATÉ UM BEBIDINHA PARRA COMEMORRARR!

EI BANANA, OLHA SÓ O QUE EU ENCONTREI AQUI NO SEU ORKUT...

O QUE ELE QUER DIZER COM ISSO??

NÃO FAÇO IDÉIA... MAS VOU DESCOBRIR!

ME ADICIONA NO BADOO?

continua...

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© HB É UM PERSONAGEM ORIGINAL DA LAIRTON REZENDE COMICS. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS, NÃO VAI QUE É FRIA.


PELO DIREITO DE FAZER BARULHO CHUCK TAYLOR ALL STAR

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VOID #073 - AFIADA