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106 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

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LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

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106 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

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LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

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um... dois… três...

BOOGARINS

BENKE FERRAZ DINHO ALMEIDA RAPHAEL VAZ YNAIÃ BENTHROLDO

tive uma sensação estranha. mas não se engane, não era ruim, pelo contrário, era um desvio onírico. das janelas verdes que me circundam, ondas sonoras começaram a se dissipar de dentro para fora e de fora para dentro. e o mais incrível é que elas nunca eram iguais. as sonâncias começavam de uma maneira, e por mais que elas parecessem voltar para o mesmo lugar, elas nunca voltavam, elas sempre encontravam um outro caminho, assim, sem mais nem menos, como uma aventura que nunca acaba.

desde que o primeiro acorde foi tocado que os dias viraram noites e as noites viraram dias. os búlgaros, nome dos quatro meninos de goiânia que comandaram a transe sinestésica a que todos por aqui foram expostos, eram imparáveis. quando o dinho pegava o caderninho e anotava algo, era certeza que tava vindo algum trem bom. era ele pegar a guitarra e esboçar uma melodia que o negão já começava a arrebentar na bateria, o raphael entrava com o baixo e o benke já iniciava seu processo de colagem gonza. eu já fui chamada de muitas coisas pelas pessoas que por aqui passaram, mas essa foi a primeira vez que me definiram como um baita lugar para tomar um papelzão. vai saber. o verdadeiro nome dos búlgaros é boogarins, dei uma pesquisada, e vi que é uma florzinha que exala amor (e bagunça, imagino). enquanto eles tocavam, o lê almeida, um sábio e taciturno alquimista do som, ficava numa mesa gravando. e, pasmem, tudo em fita cassete, aquelas antigas. fazia tempo que não apareciam umas por aqui. tem um aparelho antigo lá na casinha do jardim que costumava

tocar cassete, tomara que esteja funcionando. na sexta-feira, um simpático e desajeitado rapaz que eu vim a descobrir que se chama papaizinho apareceu por aqui e olha, o bicho tava bem louco. sem dúvidas, virado. acordou todo mundo e fez uma balbúrdia. só se aquietou quando deu um pulo na piscina de pedras que fica lá nos fundos. eita, que água gelada. saiu novo. e depois se acalentou quando a companheira e amada dele, a ava, chegou com a filha. foi uma tarde, noite, madrugada sensacional. eu nem me dei conta quando todos foram embora. por mais que eu estivesse cansada, já estava acostumada com aquelas jams intermináveis, com aquelas improvisações, com aquele devir. nada acontece de novo. só a transformação que é contínua. eu sigo por aqui, impermanente e feliz com as marcas do tempo. o toco voltou para a casa de cima. despreocupar, casa das janelas verdes

a gente se põe pra tocar desse jeito. Há pouco tempo nós fizemos um show assim lá em Setúbal, cem por cento improvisação. E aí sei lá, é igual a tocar para mim, por mais que venha os versos, solta os versos, é mais o trem de pensar numa melodia e sair tocando.

PERDIGA A gente tava falando ontem… Acho que era ontem, nem sei quanto tempo estamos aqui nessa casa. Você falou que tu procura não levar a música como tua prioridade, porque assim tu fica mais leve, com menos pressão para produzir.

PERDIGA E tu acha que a casa ajuda nisso?

MÚSICA DA CASA Meto o loco, meto o loco e vou atrás Do que não posso ser Mas isso Mas isso me satisfaz E eu não consigo ver É um vicio Um vicio que me traz paz É torto mas é normal Talvez a dor seja um sinal Um outro de outro mesmo mal Talvez dores, muitas dores, Ou nada que tem a ver comigo Um grande nada, mesmo nada Ou tudo além do seu umbigo.

TRANSCRIÇÃO PERDIGA Mermão, qual é dessa fritação tua? Tu chega com um bloquinho, sai lendo, cantando, tocando todos os instrumentos. DINHO

É… tem algumas coisas que a genta tá tocando que é antigo, mas a maioria vem do nada mesmo, de ficar tocando. Esse fluxo é minha, nossa pira mesmo. Às vezes

coisa anotada. Na hora que a gente vai tirar essa zoeira, sai o que tiver rolando. Tipo, uma hora o Ynaiã vai puxar uma bateria que parece um trem, eu entro com uma melodia que parece outro trem, daí todo mundo vai se enfiando de algum jeito.

DINHO Ah, porra, aqui a gente tá de boa. Num lugar desses é bem melhor para curtir uma onda. E também a gente tava tocando há muito tempo e agora nós ficamos duas semanas sem se ver e nos encontramos para vir para cá. E aí é muito relaxado, ficar aqui nessa casa desse jeito, é muito de boa. Daí a gente fica mais relaxado, suave, daí sai uns trem que tu não imagina. Nada que sai aqui passa pela tua cabeça antes, por mais que eu tenha

DINHO É, é foda… Por mais que hoje eu trabalhe com música, o Boogarins seja meu trabalho, eu acho que a gente consegue levar de um jeito bem natural, tranquilo. Claro que tem show e outras paradas, pressão, mas a parte de criação não tem pressão, não sofremos ainda com isso. E isso é muito bom. Não dá para colocar um peso de “qual vai ser o futuro da música”, isso te deixa num trem errado. Tocar é um momento de libertação, de prazer. E tocar aqui é isso, é liberar os trem. E o nosso show ainda é assim. Não sei o porquê e como, mas a gente ainda consegue conservar isso. A gente faz uma tour com quarenta shows e ainda consegue fazer com que


tiver ligado sempre…

DINHO Acho que o grande desafio é esse… Além de viver de música e ter a sorte das outras pessoas gostarem da sua música, o grande desafio é tá sempre a vontade. Se for para ficar mal, bicho, eu faço concurso. Assim eu to de boa, trabalho pouco, curto pra caralho. PERDIGA Debocha… DINHO Se for para ter um trabalho que eu não possa debochar, eu prefiro ser servidor público, trabalhar com o meu pai… Mas do jeito que é, que a gente consegue debochar e consegue trabalhar, desse jeito eu quero trabalhar com música. Se fosse muito serião, não teria porquê.

DINHO O objetivo é continuar fazendo isso da melhor maneira possível e continuar vivendo disso. Depois de tá enfiado nisso, você começa a ver que você precisa dançar. Objetivo de fato nem quando a gente tá nas conversas mais sérias a gente chega em algo. Mas a gente fala “já fizemos isso, isso e aquilo e agora?”. Porque é diferente o que eu penso agora depois de tantos shows, tanta estrada do que a visão que eu tinha há quatro anos, que eu tocava um fodasse tão grande quanto é o agora.. Mas se há quatro anos eu ficasse com mil sonhos e ideias e pensando que ia ser assim, assim assado, eu ia me fuder. Isso aqui é agora e continua. Claro que sabe mais o que é, sabe mais o que fazer, entende que tem mil possibilidades nesse negócio de ter uma banda e fazer música, mas o fodasse ainda é ligado que nem lá atrás. Mas claro que não tem a inocência de quatro anos atrás porque é isso, virou trabalho. Virou um trem que eu tenho que fazer. PERDIGA Mas tudo bem ir se transformando se o fodasse

dentro da Casa das Janelas Verdes. Talvez nem saiba o que é janela. Toco entra pela porta e se deita no chão. A música que estoura seus tímpanos parece tranquilizar-lhe. Pessoas riem ao seu redor. Servem-se de delírios e Toco pare-

Óbvio que todo trabalho tem a sua parte chata, mas a gente ainda trabalha com criação livre. Se não for assim, não tem como…

PERDIGA Se tu tivesse que falar daquele vício ali… DINHO

O da letra da música?

PERDIGA Sim, daquela que você tava pirando ali. DINHO É um vício antigo... É mais vício de comportamen-

música, eu já ouvi várias vezes e cada vez eu penso num trem.

ce não preocupar-se com nada. Pudera, vive de aproveitar.

PERDIGA Ih, olha o Toco ali…

Carrega chagas. A mais

JOÃO FRANCISCO HEIN

PERDIGA De alguma maneira, vocês permitem o erro, aceitam a imperfeição… Mas assim, vocês tem algum lugar que vocês querem chegar com a banda? Vocês tem algum objetivo ou só deixam levar?

a dar oi ou não dar oi de verdade… dar bom dia e não dar bom dia de verdade, você nem dá bom dia só vai no automático. É uns vícios de enferrujar mesmo a sensibilidade. É mais sobre isso do que… Isso pode ser, as meninas. Pode ser o que cada um se identificar. Como sentir que tá enferrujando dentro dele, onde você perdeu sua sensibilidade depois de tá tanto tempo fazendo tantas coisas. Mais sobre isso… é uma maneira aberta, cada um vai ter seu caso. O meu eu não consigo pensar… Porque, por exemplo, você ouviu a

DINHO Esse cachorro é um trem louco... NEM TODO HERÓI POR DANIEL FOSCARINI

to, das pessoas, deuses. Que as vezes você entra numas mania de fazer uns, nuns comportamentos que é esquisito. Assim, não é esquisito, mas você se percebe ficando mais velho, ficando mais automático assim. Em relação assim,

Quem se depara com aquele olhar sereno, o caminhar manquitolado e pança corpulenta não faz ideia de que está de frente para um herói. Desses com H maiúsculo, que aparecem em capa de filme. Não qualquer filme. Ok, provavelmente filme algum. Não ouse compará-lo com Buddy ou K9, esses cachorros (insira como deseja chamá-los). Olhe para ele. Passe a mão na sua cabeça e sirva-o com um pedaço de carne. O Toco merece. Dizem que os cachorros não enxergam cores, então é possível que ele nem saiba que passa boa parte dos seus dias

visível é a pata direita torta, capenga. Por que pensar que há algo de errado com ele? Tão quieto, tão tranquilo. É um herói, já lhe disse.

EDIÇÃO

cada show a gente gaste um trem diferente e isso é bom. Se fosse ficar muito noiado com isso, noiado em ser perfeito, noiado em ganhar dinheiro, noiado em ter que ser alguma coisa, acho que seria muita expectativa no trem e isso é muito errado. Não atrai coisa boa. Tem gente que consegue fazer assim… A gente não conseguiria e eu me sinto muito bem de fazer assim, tranquilo, dichavadão, sem peso.


TOCO

eu so fiz o que qualquer pessoa do mundo que nao é recem nascida faria

Um embate cinematográfico teve início e, contra os prognósticos mais razoáveis, Toco botou a cobra a correr. Seu corpo, contudo, fora ferido e o veneno corria em seu sangue. Lá vem a morte. Em meio às labaredas e tomado pelo veneno, Toco foi resgatado. Tarde demais, ao menos um enterro digno o paladino merecia. A bem da verdade, Toco morreu, o que é uma pena, mas a criança está viva e todos só conseguiam ficar felizes. Chorava-se de alegria.

QUINTA-FEIRA LCUAS

Já que insistes tanto, vou contar-te. Aconteceu em um dia atipicamente quente na serra fluminense. Os adultos adultavam e, sem perceber, perderam a criança para a mata. Demoraram a se dar conta e quando o fizeram era tarde demais. O céu trovejava e dessas investidas nasceu um impossível incêndio. As árvores cuspiam fogo e o grito de socorro era sufocado. Cada um partiu para um lado e ninguém encontrou sinal algum. Toco, corajoso, encarou a parte mais selvagem da mata, em meio a chamas e perigos ainda maiores. A pobre criança fora encurralada por uma sinistra cobra.

PSICOGRAFIA

— Quero o teu sangue —, dizia a peçonhenta através dos olhos. Lambia os lábios e se preparava para o bote, o mais fácil de sua vida, quando seu plano foi interrompido pelo nosso destemido herói. Toco marcou-a com seus caninos e mostrou à criança o caminho da saída. Antes, porém, que pudesse acompanhá-la, sofreu um sorrateiro ataque do animal rastejante. — Ai.

Uma dessas lágrimas escorreu pelo corpo de Toco, justamente na sua torta pata. Nesse momento, ele despertou. Negou-se a morrer. Mais do que isso, decidiu se imortalizar. Não pela sua própria existência, mas pelo o amor que deixa no coração de todos que tem o prazer de o conhecer. Ave, Toco.

AS REVELAÇÕES DE TOCO POR MAGNO DA ADIDAS todo mundo conhece a historia do heroi nacional lecionada em salas de aula de todo o brasil mas essa é a primeira vez que toco revela suas verdades obscuras e tambem abre o jogo sobre a lendaria temporada com os boogarins na casa das janelas verdes

MAGNO

eu to otimo

TOCO

coisa boa

MAGNO toco antes de mais nada preciso dizer que voce é um heroi nacional parabens por tudo toco

MAGNO

se toca toco

TOCO

kkkk

MAGNO fala serio ai meu irmao como voce esta TOCO

eu to bem demais e você magno?

TOCO

MAGNO toco voce diria que é um profeta

todo e qualquer brasileiro

TOCO

qualquer unzinho

MAGNO inclusive os bebes recem nascidos TOCO

esses acho que nao

MAGNO entao por gentileza refaça sua resposta TOCO

como assim

MAGNO todo e qualquer brasileiro TOCO

qualquer unzinho com exceçao dos recem nascidos

MAGNO olha toco sinto muito te interromper de novo mas acho que tem mais gente que nao faria isso

ta certo vamo em frente como tá o coraçaozinho

au au

MAGNO um pedaço de carne ou 10 minuto de improvisação

MAGNO

imagina magno eu só fiz o que todo brasileiro faria

MAGNO

TOCO

ai magno que pergunta pesada

TOCO

porra magno larga de ser chato

fala toco

TOCO

eu não escolho nada eu deixo que deus ilumine o meu caminho

TOCO

MAGNO

MAGNO toco voce que é reconhecido como um grande sommelier de diversos tipos de arte o que voce mais aprecia sobra de churrasco ou um show da boogarins

TOCO

ta bem demais faceiro alegre forte uma beleza

MAGNO me disseram que voce se apaixonou TOCO

eu me apaixono todo dia pela vida

MAGNO e vive bem demais diga se de passagem mas se tem alguem no mundo que merece isso é voce toco nosso heroi parabens

TOCO

nao jamais eu nao teria a audacia de me colocar nesse papel

MAGNO você ja acompanhou grandes artistas de perto ja vivenciou o processo criativo de diferentes icones qual o segredo oculto dessas pessoas TOCO

olha eu nao posso falar pelos outros mas uma coisa que eu sinto é que essa gente talvez as vezes use algumas substancias como agua mineral

MAGNO

grave

isso é uma denuncia

TOCO

vivemos em uma democracia e tenho o direito de me manifestar

MAGNO toco voce esta pelado bota uma roupa TOCO

eu sou cachorro fico pelado porra

MAGNO ta desnudo toco isso é apologia a zoofilia bota um casaco agora TOCO

eu nao tenho roupa


MAGNO toco infelizmente nosso tempo esta acabando voce continua pelado antes que o dops chegue aqui gostaria que deixasse uma mensagem aos jovens que enxergam em voce um espelho a ser seguido TOCO

TOCO

ai por favor

MAGNO

espero que nao nos censurem

TOCO

nao vai dar nada

MAGNO toco me diz uma coisa como é a sensaçao do penis encostando no chao TOCO

TRANSCRIÇÃO PERDIGA O que tu sempre

quis perguntar pro Lê, Dinho?

DINHO Cê não achou que ia trabalhar com o seu pai, não? LÊ

Meu pai…

o que

MAGNO quando voce senta o pingulim fica direto no chao nao é meio repugnante TOCO

TOCO

eu vi com meus proprios olhos

MAGNO talvez isso explique o som cada vez mais louco TOCO

magno vou ser bem sincero achei que os meninos estavam todos vendidos para a midia golpista fake news norte americana e que a partir de agora eles so cantariam baladas romanticas em ingles porem fizeram isso ai

MAGNO

mesmo

mas é uma piração do bem voce ve eles tao cheio de saude os jornal do mundo inteiro fica falando da musica deles mesmo os gringo nao entendendo uma palavra em portugues

MAGNO talvez a força da palavra seja superestimada TOCO

E você toparia?

Toparia… Depende. Se fosse uma coisa muito aberta, sei lá, ligada ao som. Por mais que não seja tocando, fazendo show. Mas mexendo com gravação, eu me sinto realizado, pleno. Entendeu?

DINHO Entendi. É, isso é um bagulho engraçado. Cê faz o que a gente faz há mais tempo que nós. E tipo, você tá dizendo que faz isso há tanto tempo que você não se importa de fazer outra coisa desde que tenha música. Mas é isso, nós tamo sempre aberto a trabalhar com outra coisa se precisar.

eu prefiro latir

A festa foi tão insana quanto ir no show. A série de coisas que aconteceu era tão insana quanto ir num show. Às vezes num show, dependendo do que tu faz, tu pode ganhar mais do que trabalhando numa festa de quinze anos.

DINHO É um bagulho engraçado, né?! Principalmente porque você nunca achou que tocar ia ser sua profissão. Pelo menos eu, imagino que você também não.

Mas você trabalharia com outra coisa?

DINHO

É…

O meu pai me proporcionou novas aberturas… Por causa dele eu fui ao Centro, eu passei a ficar pelo Centro. E eu gastava muito tempo a toa enquanto eu não estava com o meu pai. Eu ficava muito tempo de bobeira pelas ruas. E graças a isso, tipo, eu saquei galeras, movimentos e pessoas.

DINHO

Sim

Com o que?

DINHO Fazendo caipirinha no Escritório, hehe. Sei lá, qualquer coisa.

Eu também não… Mas dentro da sua família você tem bons movimentos…

DINHO

os bicho sao pirado

TOCO

Isso é bom!

eu acho normal

MAGNO toco voltando ao assunto musica voce afirma que os boogarins tomaram agua mineral

DINHO

DINHO

PEDRO PERDIGÃO

essa conversa infelizmente nao vai poder continuar assim

Tenho, tipo, meu único emprego com carteira assinada foi de cozinheiro com dezessete, dezoito anos… E, desde então, eu nunca tive um emprego com carteira assinada.

É, eu tenho!

LÊ DINHO Você não imaginou, em algum momento, que você não ia ficar fazendo rockinho… que ia precisar fazer outras coisas? LÊ

Eu tinha um medo fudido disso…

DINHO

medo?

Você ainda tem esse

Eu conheci o seu pai, aquela vez em Goiânia, e ele queria um violão para tocar…

Eu já trabalhei como garçom numa festa de quinze anos para ir num show. Eu e um amigo meu. A gente não tinha grana e nós fizemos esse trabalho para ir num show.

DINHO LÊ

Você viu ele tocar, né?

Eu não vi ele tocando, mas vi ele pedindo um violão para tocar. Eu não tive esse tipo de coisa, de ter a galera da família tocando, mas eu imagino como

DIREÇÃO CRIATIVA

MAGNO

faça tudo que te der na telha faça com o coração e evite causar dor e sofrimentos nos outros


alguém no futuro incentivando uma galera mais nova. Tipo, motivando primos, sobrinhos, esse tipo de coisa.

Sóbrio, você acha?

DINHO É… Mas sóbrio no sentido de mais esperto. Eu acho isso bem massa. Vocês têm um fluxo ali diferente. Não é uma estrutura convencional. Tem um bar, tem tudo, mas não fica louco, chapa óbvio, mas é outra vibe, outra lógica. DINHO

É…

PEDRO KASTELIJNS SABI WABI VAMPIRÃO DANIEL FRICKMANN

Eu imagino que é importante, do lugar e galera que eu venho, música são dois extremos… Ou é uma coisa de vagabundo ou é algo de quem é muito bem sucedido. Não tem meio…

DINHO Sim, onde normalmente a gente tá… LÊ

É, é engraçado…

DINHO

O que o Lê faz é um trem certo no meio dos trens errado, na minha cabeça. Não é errado, é tipo assim, sei lá, nesse bagulho de banda música às vezes nego só cola pra chapa. Eu vejo o rolê de vocês e fico, uoooouuu, é outra coisa. É bonito. Daí cê pergunta o que já rolou no Escritório, eu não sei. O que eu imagino que já rolou? Muita coisa massa. Bem nessa energia mais de boa. A primeira vez que eu colei com você já pensei, o moleque é muito como nós, muito suavão. Mas

FOTOGRAFIA E ILUSTRAÇÕES

ALAN ATHAYDE LETÍCIA BRITO LUCAS GUIMARÃES MARCOS RIBAS

PERDIGA Tá maior papão, mas lembrando da noite de ontem, do escritório. Dinho, o que você acha que já aconteceu

PERDIGA Eu acho que o Rio…

tava lá no bar ontem o João, a primeira vez que ele foi no Escritório foi no aniversário dele de dezessete anos. E ele falou que lembra da música que tava tocando na hora. Para ele era uma parada especial, chegar ali e tipo é a gente trabalhando, é a gente fazendo as paradas. Então é muito difícil a pessoa entrar ali e não ser vista, não ser notada, não trocar ideia, não lembrar. Mas já aconteceu de algumas vezes eu falar para alguém “pô, você nunca foi no escritório?” e a pessoa diz “pô, já fui lá várias vezes”, hehe.

PERDIGA Dinho, você tinha falado que queria fazer uma coletânea do Lê Almeida. Quais seriam as tracks? DINHO Quais seriam as tracks? Agora eu não lembro qual que é uma bike, parte um ou parte dois, qual é minha preferida, mas é foda. Hardcore Experiência é uma letra bem fudida. Essa música ela é bem foda. Deixa eu vê, eu tenho várias. Amigo Comprimido é uma que eu tiro onda. Tem umas que não tão nos trens, sei lá. Uma vez eu baixei um bagulho, uma série de arquivos teus e que vinham umas coisas que não tinham nos discos e tapes. LÊ

É que esse primeiro disco foi lançado por um selo menor.

galera aceitar. Às vezes nego quer ir no show e ouvir o que você gravou no disco.

DINHO É isso… Esse é o grande desafio. E às vezes é até chato pra gente que é tocador, às vezes você tá em outra pira. LÊ

Mas você ouvindo um som, digo assim, quando você vai no show de alguém que você curte, você não acha legal você ouvir uma coisa nova?

DINHO

Ah, eu acho legal.

Eu acho que tem o seu valor, não tem não?

DINHO Tem tem… Mas eu não ligo de ir no seu show e ficar pedindo suas músicas velhas porque eu curto ouvir e ao vivo é outra pilha. Mas, enfim, acho que sim. Eu consigo, eu sinto prazer de ser o tipo de ouvinte que pô, gosto do show do cara, entrei ali para ver o show. Se for para ouvir só as músicas, eu fico em casa. Assim, todo mundo tinha que tá aberto, se todo mundo fosse para o show esperando algo além do disco, os shows seriam melhores. LÊ

Também acho.

DINHO

Se todas bandas

DINHO Sim, mas tem uns trens que são meio de fora dele. Não sei, eu preciso sentar e ouvir tudo de novo. Mas essas que eu falei são muito fodas.

por lá? Pensando que tu é o barman ali, o cara da caipirinha, o que você acha que iria ver por lá?

DINHO Eu? Não sei… O rolê do Lê é diferente. Quando eu colei lá vocês são um rolê muito mais “sobrião”.

ao mesmo tempo, é tipo isso. Hoje em dia em Goiânia todo mundo é suavão, mas antes não era. É meio como deve ser aqui no Rio, como tu deve ter passado com a tua galerinha…

Hoje em dia é um período meio diferente, eu acho que a gente tá formando novas turmas, que não necessariamente são as nossas. Tipo, eu tenho interesse em saber quem frequenta, de onde veio, tipo, o moleque que

Mas você não acha que é um caminho normal quando você sai com uma banda e ela tá lançando um disco e ela não fica tocando coisa velha. Ela vai seguindo em frente.

DINHO Ah, isso eu acho uma coisa genial! LÊ

Tem uma galera do jazz da antiga que fazia isso. Sei lá, um Fela Kuti, lançava uma parada, ia para a outra e abandonava o passado. É uma coisa que é meio difícil da

fossem para o show para tocar além do que o que foi gravado, a gente ia entrar em outra era de espetáculo. Porque é muito preso nisso né. A banda grava, aí tem banda que até grava menos porque pensa “pô não vou conseguir fazer ao vivo”, essa conversa tá errada. Esse bagulho é foda. Se o fazedor de show fosse para fazer algo novo e se o cara que fosse escutar o show fosse para escutar algo novo de fato…


DINHO Existe. Igual você vai ver uns caras grandes, você pode contratar o show deles por várias pessoas. Os caras já vendem vários shows. Você tem esse show aqui, que são com tais músicos. Você tem esse show aqui, que é aquele show clássico, que chama aquele amigo do passado para tocar junto, é essa fita aí. Graças a Deus nós não faz isso, imagina… Você tinha que fazer isso, né. Imagina, vender esse aqui ó, é diferente, haha. Você já faz disco vai fazer dez anos, né não? LÊ

var um disco, masterizaram aquilo, lançaram a parada e ficaram com toda grana. É uma galera que tem uma história boa de gravação em cassete, é muita influência pra mim. E o Boogarins tocou junto com eles, mas lembraram de mim e trouxeram um pôster que tá lá colado no Escritório.

DINHO

É isso.

É isso.

DINHO Então bora comer, to morrendo de fome. TAPE LLEESSOONNSS POR LÊ ALMEIDA

É…

PERDIGA E Lê, se você pudesse escolher um festival que o Boogarins foi pra tu tá junto, qual seria

DINHO E nós viu que o Lé é melhor que o Guided by Voices… LÊ

É, eu fiquei de cara, depois os caras meio que falando mal… Pô, não deixaram a gente tomar cerveja.

DINHO

Tem o seu valor, tu pensa, todo mundo envelhece. Um dia você chega lá… Imagina o valor de tu juntar seus amigos, tocar aqueles hit velhos, pedir um milhão de cerveja, é um momento bonito.

Acho até que é meio óbvio… Os caras tocaram com uma banda que eu gosto

Haha, não, eles eram gente fina. Molecão como a gente só que velho. Só que tipo assim, é uma reunião, é engraçado… Eles pedem muita Bud Light que é tipo uma Antarctica Sub-Zero e é caixas e caixas dessa porra. E junta aquele tanto de tiozão com os amigos deles da cidade, trocando história. Aí nós colava lá, meio Brasil, ficava meio picando, daí pegava umas breja. Era o momento dos caras, conversamos pouco, mas os bichos eram

Imagina só, você tem seus 15 anos e descobre que pode gravar em cima de umas fitas cassetes, aquelas bregas que seus parentes largavam pelos churrascos no final dos anos de 1990. Eu nem lembro da onde veio meu primeiro deck de cassetes, só lembro que eles tinham duas entradas para mic. Na época eu tocava bateria com o André, um amigo e vizinho, e logo depois eu conheci o Léo. Chegamos a tocar os três juntos, mas depois só eu e o Léo continuamos. Formamos nossa bandinha, o Siameses, e fomos atrás de um baixista. Nessa época eu gravava cada ensaio em cassete, só pra gente se ouvir mesmo. Enquanto a galera da minha idade pedia fitas de videogame aos pais,

Já com dezessete anos e afundado nas aulas noturnas do supletivo, fui na casa de um amigo que tinha um computador com programa de gravação e uma mesa de som, aquilo era um luxo. Ele tinha umas paradas para resolver e deixou a casa liberada para nós, era um domingo chuvoso e a gente só queria tocar e gravar, foi bonito. Acho que esse foi um dos episódios onde passei a entender que muito se resumia ao momento, registrar o momento. Lá em casa demoramos a ter um computador, mas logo que conseguimos eu já descolei um programa de gravação, o mesmo que me acompanha até hoje, o Sonar. Por volta dos 18 anos comecei a sair do cassete e ir pro PC, ele ficava na sala, eu estava começando a tocar guitarra, desenvolvendo a minha onda. O Léo tinha me ensinado uns acordes, eu já tocava bateria e tinha até feito uns experimentos gravando guitarra e voz juntos num cassete e dando play nele em um som 3 em 1 e colocando o meu deck pra gravar enquanto eu tocava bateria por cima. Rendeu umas boas experiências.

Foi meio que nessa época que descobri o Guided By Voices, tava numa loja que alugava CDs e vi uma capa emblemática com colagem e o cara da loja me incentivou a ouvir o disco, ele falou exatamente da 15° faixa, lembro até hoje “Motor Away”, me

LUCAS GUIMARÃES MAGNO DA ADIDAS MARK HENKEL NEGRO LEO

gente boa, engraçados. Mas eu prefiro o show do Lê que o show deles. Mas é bom, foi bonito. E eu escutei mais suas músicas que as deles.

eu pedia pros meus uma fita TDK de 60 minutos (a de 90 era mais cara). Aliás, foi por causa do meu pai que eu entrei nessa de rock, ouvindo uns LPs do Kiss e do Led Zeppelin. Isso marcou um momento especial, uma doutrina nova que se abria na minha juventude perdida nas salas de aulas.

RAPHAEL VAZ VAMPIRÃO VINICIUS PEREZ TOCO

muito. Quando eu era garoto, eu comecei a gravar em casa, e eu achava muito tosco. Até que eu comecei a ouvir uma galera, o Guided by Voices, eu pirava pra caralho. O disco deles que eu ouvi e me marcou muito é o Alien Lanes, a história dele é um disco que foi todo gravado em fita cassete, daí os caras receberam uma grana e ao invés de gra-

DANIEL FOSCARINI DINHO ALMEIDA JOÃO FRANCISCO HEIN LÊ ALMEIDA

Um dia desses a gente tava gastando uma onda sobre, o quanto assim, sei lá, uma banda muito grande fosse tocar num lugar e o cara que contratasse o show dissesse o cachê é tanto tocando essa música, é outro tocando essa. Eu acho que isso deva acontecer. Isso deve ter virado uma coisa mercadológica. Não explanado, mas rola.

TEXTOS


DINHO ALMEIDA EDUARDO MANSO ENZO MASTRANGELO GIOVANI GROFF BRUNO RODRIGUES BRUNO SCHIAVO CHRISTIAN DIAS DAHLIA LEONORA PRIES AVA ROCHA BEATRIZ AMORIM BENKE FERRAZ BETO MORADORES DA CASA DAS JANELAS VERDES

bateu demais. O CD era caro, mas logo depois contei pra um amigo, o Pablo, e ele tinha uma cópia em CD-R. Peguei emprestado e nunca devolvi, tenho até hoje essa cópia. Essa banda me apresentou ao lo-fi, antes deles eu nem imaginava que gravar em casa, na fita cassete e com poucos recursos tinha um termo. Fiz todos os meus amigos ouvirem Guided By Voices.

Quando comecei a usar o computador, eu e o Evandro (baixista do Siameses) passávamos muitas tardes experimentando. Lembro que na primeira vez no computador gravamos vários instrumentos numa faixa só e achávamos que era só isso, que o som já estava ótimo. Eu, Evandro, o Léo Feliz (esse é outro Léo) e o Bigú tínhamos uma banda que eu tocava guitarra e cantava chamada Tape Rec, mas era difícil de nos encontrarmos. Comecei um projeto novo chamado Coloração Desbotada e passei a experimentar colocando um monte de guitarra meio que pra não deixar muito pop, tinha uma vergonha fudida de cantar e gravava todas as vozes sempre na madrugada quando geral tava dormindo, quase que sussurrando. Quando descobri que gravar o mesmo vocal várias vezes deixava a voz mais “aceitável” eu não parei mais com essa técnica.

A Transfusão foi criada em 2004 e só lançou o primeiro disco em 2005. Minha ideia era apenas ter um selo que representasse o que eu fazia musicalmente com meus

amigos. Era uma fase difícil onde ter uma banda pra gente só era possível pela nossa força de vontade, independente de lugares pra tocar ou pessoas para ouvirem. Foi nesse contexto que eu me dei conta que deveríamos gravar discos, gravar todas as coisas que fazíamos. De 2005 até hoje os discos da Transfusão tiveram uma mesma estética visual e eu sempre cuidei em confeccionar as cópias físicas. Isso foi uma função que eu passei a dar conta por causa do trabalho com o meu pai na oficina de consertos de malas dele no Centro do Rio, já que passei muito tempo sacando lojas, gráficas e coisas do tipo pela região, eu tinha muito tempo livre e queria gastar de modo produtivo. Em 2008 eu conheci os irmãos Paulo e João Casaes via MySpace, a banda deles se chamava Fujimo. A princípio tínhamos por afinidade o gosto por GBV, Pavement e afins, e assim rapidamente fomos nos entrosando nas gravações. Os dois eram estudiosos na arte de gravar, mas respeitavam a minha onda nada didática. Foi por causa dos dois que eu usei uma mesa de som pra gravar pela primeira vez, eles me deram uma de uns 6 canais e uma Tascam 4track. Eu tinha acabado de produzir um disco, mas joguei tudo fora e fiz de novo usando as máquinas recém ganhas. Esse disco foi o REVI. Aprendi muito de teoria das gravações com os irmãos Casaes, eles são mestres. Essa mesa Tascam 4track que eu ganhei deles eu só passei a usar intensamente no disco seguinte, o Mono Maçã, porém só nas baterias, que gravei todas na fita e em vários lugares de casa. A meta era que as músicas tivessem sons diferentes de bateria ao longo do

disco. Mono Maçã foi lançado por um selo na Europa chamado WeePOP Records antes de sair no Brasil, depois saiu aqui em LP por um selo de Minas Gerais, o Vinyl Land. Eu sempre consegui fazer parcerias com outros selos, considero importante essa interação com a galera do meio. Em 2010 eu fui até Juiz de Fora produzir o primeiro disco de uma galera que veio a se tornar grandes amigos meus, o André e o Dú. Eles formaram um selo chamado Pug Records e o primeiro lançamento deles foi um relançamento em cassete do primeiro disco da Transfusão, aquele da Coloração Desbotada. Quando voltei pra Juiz de Fora pra gravar a Top Surprise, banda do André, eu e ele já tínhamos conversado bastante sobre como seria tudo. Ele sempre soube o que queria nas gravações e era alguém que sabia muito ouvir. O disco se chamou

“Everything Must Go” e foi todo gravado dentro de um apartamento com a casa cheia de amigos. Fizemos toda a bateria no Tascam de 4 canais do André comigo operando. A ideia dele era estourar o som da bateria, andávamos ouvindo muito o disco “Rip It Off ” do Times New Viking. Depois de gravar tudo num final de semana, eu passei os arquivos pro Paulo mixar e finalizar. É um disco que tenho muito orgulho, gosto muito de lembrar das sessões e dos momentos, fiquei muito próximo deles, amizade mesmo. Entre as gravações na minha casa e a abertura do Escritório, minha dimensão de experiência foi se ampliando. Nesse período eu passei a me encontrar cada vez mais usando uma mesa de som tosca de 4 canais. Gravei um EP chamado Pré Ambulatório no

meu quarto, o primeiro disco da Suíte Parque (que eu tocava bateria), o primeiro da Trash No Star, do Chapa Mamba, os dois da Babe Florida (que era uma espécie de coletivo de gravações que tinha ou tenho) e mais uma série de discos de amigos e meus. O Pré Ambulatório eu criei uma espécie de crowdfunding e fiz uma pré venda de 50 discos .Coloquei os nomes dos apoiadores como “enfermeiros do pré ambulatório” na contra capa. Foi uma doidera de contabilidade, mas aconteceu, o disco foi lançado em LP 10’’ verde. O segundo EP da Tape Rec, Death Friends, saiu por um selo da Califórnia chamado IFB Records. Eles fizeram 500 cópias e nos mandaram 70, tempos depois esse selo passou a lançar meus discos solos, “Paraleloplasmos” e “Todas as Brisas”. O “Paraleloplasmos” foi o primeiro disco meu que gravei no Escritório, fiz quase

tudo sozinho. Eu queria que fosse muito perceptível que o som era outro, mais pesado e menos som de quarto. Em algum período em 2015, já estável com os equipamentos que consegui juntar e muita coisa velha que ganhei de amigos no Escritório, eu comecei a me empenhar numa mesa Tascam bem antiga. Ela

me parecia mais fácil de se usar, na real mesmo nem era tão fácil assim, ela tinha umas interferências nas mudanças de mic para playback que às vezes me tirava o sono e


Meses depois produzi junto com o João o segundo disco do Giallos, um conjunto garageiro do ABC Paulista que conhecemos tocando juntos algum tempo antes, nesse disco aperfeiçoei alguns métodos, tanto de posicionamento de mic quanto de volume na captação. O disco foi gravado três vezes, duas em fita e uma

Nossa meta no Cosmos era gravar um disco de umas 5 faixas bem longas. Quando finalizamos a segunda faixa eu decidi colocar ela como primeira faixa de um projeto chamado Cassete Club, onde eu convidaria uma banda para gravar uma faixa em cassete sob a minha produção. Disponibilizamos os singles nos canais online do Escritório. Ao longo dos meses fui gravando uma série de bandas, fazendo minhas anotações e estudos sobre a gravação em cassete, passei a procurar por pessoas que gravassem atualmente em cassete e o que mais achei foram pessoas que tinham o interesse, a mesa, mas que

No final de 2016 eu reuni 3 amigos para um novo projeto, queria ter um conjunto que o som fluísse de maneira mais prática e fácil, mas que pudesse ser pesado. Juntei Renatin e Dani cada um em uma bateria e o João Luiz no baixo e passei a tocar teclado além da guitarra. Na primeira sessão que fizemos já saiu uma faixa e alguns ótimos momentos que recortei e fui usando. Conforme íamos fazendo novas sessões, o som ia criando uma forma natural e eu fui expandindo as doideras no cassete. Assim nasceu o conjunto Oruã. Por realizarmos muitas sessões, às vezes dedicadas a apenas uma faixa, fazíamos uns dois ou três takes razoáveis e depois eu conseguia usar momentos muito bons

de um take em outro. Durante esses encontros eu passei a usar um gravador mono portátil de cassete que tem um microfone. Ele possui um som único e eu gravava uns vocais que depois tentava sincar nas gravações do Tascam (muito da onda estava pra mim nas partes que não sincavam e ficavam meio “erradas”). Também comecei a usar esse esquema como overtape

LUIZ PAULO ZUCCO LUIZA MACHADO MAHMUNDI MARCELA VASCONCELOS

não sabiam usá-la. Depois de mais de 15 singles lançados no Cassete Club eu fui desenvolvendo muitas manhas na mesa. Consideraria até o Cassete Club como a minha faculdade de estágios dentro da esfera das gravações em fita cassete.

mo) que eu já tinha gravado. Nisso eu passava a ter duas guitarras de um mesmo take com texturas diferentes que eu usava só em determinados momentos nas guitarras. Para mim isso era como se os solos se expandissem no cérebro. Esse disco do Oruã me possibilitou expandir alguns experimentos sensoriais e de espontaneidade. Eu não tinha microfones o suficiente pra microfonar duas baterias, mas tinha no Escritório dois pré amplificadores valvulados que passei a testar colocando um mic numa posição logo acima do bumbo. Gravando as duas baterias e eu jogava cada uma em um lado 100% e cada uma em um pré desses. Esse esquema de posição do mic na bateria misturado na fita e com o pré amp foi um passo muito próximo na minha eterna busca da batida perfeita de bateria. “Escola das Ruas” foi um dos sons de bateria mais pesado que tirei nessa fase. Quando conheci a galera do Boogarins e passei a trocar ideia tanto com o Dinho quanto com o Benke eles me falaram que tinham visto uma entrevista minha num programa de TV chamado Alto Falante em que eu falava alguma coisa sobre gravar em casa. Eles me disseram que passaram a gravar em casa depois disso, doidera. Lembro que nas minhas primeiras trocas de experiências com o Benke ele me perguntou sobre como eu tinha conseguido o som de violão do “Pré Ambulatório”. Era um método que eu tinha descoberto ligando o mic num

LEONARDO GONÇALVES LETICIA BRITO LUCAS GUIMARÃES LCUAS PRIES

Quando comecei a tocar na Cosmos Amantes, tudo que a gente tocava eu gravava em fita e operava o Tascam como um instrumento ficando até mais próximo dele durante as sessões. Éramos 5 e às vezes tinha que juntar instrumentos diferentes no mesmo canal (baixo e bateria indo pra uma mesa antes de ocuparem um único canal na mesa Tascam). “Mantra da Sereia do Lago Sereno” foi nossa primeira gravação, porém usei sem querer uma fita mofada e o som vai e volta quando se ouve no fone, nada proposital.

(overdub direto na fita e sem gravar um novo take), que consiste em usar esse gravador com o mic apontado pra caixa de som onde rolava uma guitarra (ou outro instrumento, fiz mais com guitarra mes-

HUGO ABDALLA JOÃO FRANCISCO HEIN LAURA LAVIERI LÊ ALMEIDA

Dessa experiência mais instrumental a gente decidiu gravar um disco inteiro na fita, em longas sessões de improviso. Eu demorei 3 sessões para achar O SOM. Depois das sessões eu gastava um tempo digitalizando, nessa etapa era onde continuava-se a magia, mixar direto em uma mesa girando botões foi a parte onde me identifiquei absurdamente, gastava horas ouvindo e reouvindo pra saber em qual momento eu deveria aumentar tal canal ou jogar pra direita ou esquerda no estéreo. Tempos depois eu desenvolvi uma maneira mais prática de fazer esses detalhes recortando determinados trechos, mas nesse disco tinham 3 músicas com mais de 10 minutos, então cada faixa me consumia muitas e muitas horas de mixagem. Andava ouvindo muito um disco do Funkadelic chamado “Free Your Mind and Your Ass Will Follow” o estilo de mixagem dessa galera fez minha cabeça ir pra outra dimensão, assim como o GBV abriu minha cabeça sobre o lo-fi anos antes eu acho que essa mixagem fez eu não deixar mais os canais parados cada um no seu lado, passei a bagunça-los cada vez mais, de modo sensorial e chapado.

no PC. Eles eram guitarra, bateria e voz, era perfeito e cabia tudo tranquilamente nos 4 canais da mesa, sem contar que a ideia deles era justamente ter o som de fita, estavam todos abertos e empolgados na experiência como um todo.

MORADORES DAS JANELAS DA CASA VERDE

estragava vários takes bons. Ainda nessa época fizemos a trilha sonora no MIS em SP do filme Over The Edge onde eu, Joab, João e Bigú inserimos temas instrumentais e alguns já gravados nas cenas.


De início do projeto da residência com os Boogarins eu andava ouvindo o último disco deles “Lá Vem a Morte” e comecei a criar uma associação positiva com o que o João Casaes estava fazendo, que tinha muito a ver com o recorte de produtor, um método que me parece de rearranjar uma faixa depois de gravar, às vezes com loops exatos acrescidos de vocais e outros detalhes. A primeira faixa que saiu na residência foi produzida a partir de um loop de bateria gravado na fita que depois de digitalizado, o Benke foi montando no pc e acrescentando os demais instrumentos.

JANELAS DOS MORADORES VERDES DA CASA

MARCOS RIBAS ODETE DE ARUANDA PAULO EMMERY MADEIRA PEDRO DAMASIO

PEDRO PERDIGÃO RAPHAEL VAZ RODOLFO WITTBOLT SANDRA

TOCO UMA GONÇALVES VICENTE BARROSO YNAIÃ BERTHROLDO

daqueles decks velhos que eu usava quando comecei a gravar e passando o som dele pra mesa e depois pro PC. O deck passava a servir como pré amp. Acho que muitas coisas dentro da esfera das gravações se desencontram e reencontram.

Fazer algumas gravações fora da minha zona de conforto acabou servindo como nova fonte de estudos práticos em cassete como produtor. Dentro dos dias da residência, houve um em que gravamos no meio do mato e meus equipamentos ficaram todos envoltos da natureza, isso me agregou um bem estar enor-

me, muito por não estar numa sala fechada e sim no meio do mato e sem fronteiras de certo e errado nas gravações. Nas longas sessões de improviso com eles fui sacando uma comunhão da busca pelos momentos mágicos, tipo quando você encontra um loop perfeito dentro de um improviso e o estende por um tempo. Eles estendiam por longos e enormes momentos e em sessões como essa em conjunto com os ruídos da natureza, o som ganhava mais timbres. Costumo não ouvir muito o som no mesmo instante que eu gravo o material. Dou umas conferidas pra ver se estão gravando mesmo e me fixo no rec. Na residência eu ouvi e reouvi algumas vezes pro pessoal mesmo ter uma noção de como ficava o som, principalmente a bateria que era gravada apenas com um mic ligado a um pré amp valvulado bem aquecido, e tinha um som pesado e preenchido. Foi diferente do que costumo fazer, ouvir com uma distância de tempo faz muito sentido pois consigo entender melhor alguns momentos e redescobrir outros. Semanas após as gravações eu passei dias e dias sozinho ouvindo e mixando todas as 16 fitas, eram muitos sons e vibes diferentes. Cada fita era de uma marca diferente (eram fitas velhas que regravei por cima e soaram melhor e mais charmoso que qualquer plugin artificial de computador).

Esse momento de mixagem é quase que o meu momento preferido, onde gasto a onda girando os botões direto na mesa e como o Escritório é um espaço onde circulam muitos amigos eu consegui ir mostrando o que eu estava fazendo para o pessoal. Isso serve muito de parâmetro nas doideras de fita.

escola, e ficamos viajando nas mil possibilidades de gravar de um jeito diferente e por conta própria.

Essa residência gravando as doideiras do Boogarins fizeram eu aprofundar muito meus estudos na gravação em cassete nos 4 canais. Passar todos esses dias em função dessa mesa fez eu me encontrar ainda mais dentro desse mundo das fitas e na minha eterna busca pelo bom som. Operar o gravador como um instrumento de trabalho passou a ser um movimento sublime, como se eu tivesse perto de me formar na faculdade e fosse passar para um estágio maior, porém por mais que pense dessa forma eu acho que esse estágio do Tascam ainda possui enormes descobertas pra mim.

COLETÂNEA LÊ ALMEIDA POR DINHO Free gordon Curso de datilografia Longeridite Corroescondido Fuck the new school Bike Never Dies Procuro um sono Maré Céu do quintal Aflorado Amigo Comprimido Deni *todas as músicas podem ser encontradas no youtube/spotify/soundcloud. É um multiplicar pães e peixes, fazer água virar o vinho mais fino ou simplesmente tirar leite de pedra. Na real mesmo é sobre ser fudido pela vida e dar de volta nela com música, fazendo isso do jeito que der e desenvolver algo extremamente seu durante esse processo. A primeira vez que ouvimos falar do rolê do Lê Almeida foi numa entrevista que ele deu pra Rede Minas. O Benke assistiu na casa dele e eu na minha, depois nos encontramos, não lembro se ainda na

Em 2014 tocamos com o Guided by Voices e curtimos muito, mas ainda saímos achando o trampo do Lê ainda mais foda. A discografia do Lê é algo extenso e muito pra você se enfiar aos poucos, ouvindo um disco de cada vez. Eu sou um fã absurdo das faixas pequenas que ele fazia antes, e hoje ele tá na pira dos dez minutos, o que eu acho foda também. Porque a onda toda não é construída pela duração, mas pela forma que a textura e o desenvolver da música te instigam. O bichão faz uns truque de melodia muito bonito, puxa várias coisas externas e bota elas dentro do criar maluco dele. Essa coletânea podia ser maior, mas é um bom aperitivo do lance todo. Boa pra uma caminhada longa, ou rolê de bike, carro, sei lá, movimento, lombras e afins.

TRANSCRIÇÃO PERDIGA Acordou NEGROLEO Porra, maravilha

esse lance. vocês já estão há 1 semana já, 5 dias, 7 dias, 5 dias. Vocês chegaram antes da galera?

PERDIGA Não, na real não podia chegar antes. A gente só podia entrar na casa na segunda a tarde, ai os moleques chegaram na segunda de manhã. A gente fez uma hora, comemos uma parada e viemos. chegamos a tarde. Quando a gente chegou montamos tudo e começamos a primeira sessão meio que segunda a noite.


Dentro da casa ou fora.

PERDIGA Primeiro dia foi dentro da casa, depois a gente explorou outros cantos.

NEGROLEO Ali moram outras pessoas?

PERDIGA Ali não. Parece que é um ateliê, uma marcenaria. NEGROLEO Foi tudo nessa casa

então. Mas ninguém reclamou não?

TONHO

Quando você soube do convite, o que você pensou? Que imagem você teve?

NEGROLEO Maneiro isso hein PERDIGA Porra, é só barulho de bicho e mato.

aquele lance de manhã, você chegou meio virado, deu um mergulho, voltou, entrou, deve ter sentido várias paradas malucas.

NEGROLEO Foi, foi muito louco.

Eu cheguei de manhã, né. E eu tinha passado a noite, eu tinha feito o show do Água Batizada e vim direto pra cá. Direto. Fiquei na rua, bebendo e não sei como cheguei aqui. Logo quando cheguei tomei um banho gelado e a gente já atacou tocando. Isso eu achei maravilhoso, porque os moleques tavam em prontidão. Acordaram cedo e a gente começou a tocar. Tocamos, tocamos, tocamos. Aí, minha filha chegou com Ava, tomei outro banho de cachoeira com

NEGROLEO Tenho, aperta aí. LCUAS Se eu não fumar eu vou dormir. NEGROLEO Só alegria!

LCUAS

O que?

NEGROLEO Essa coisa da imer-

LCUAS É um formato, né. O tipo de coisa que dá pra repetir. É infinito, acaba na total alegria.

NEGROLEO Ah, os moleques

PERDIGA Pode cre. Como foi

Tem fumaça aí?

são. de ter um espaço, de ter uma casa. Aí a gente já veio, bam, tu já trouxe as fitas e já começou. Foi um bom lance.

PERDIGA Cara, ninguém.

são bons cara. Eles vão pegar tudo, vão editar e vão fazer um disco com certeza.

LCUAS

BENKE NEGROLEO Eu não sei como foi.

Se foi Pedro que me chamou, se foi Dinho. Se foi a rapaziada, junto. Quando me bateram o telefone e falaram, você vai lá pra casa, vai ser uma festa do caralho eu já fui convidando uma galera. A gente tá começando agora uma amizade, com o pessoal. E isso é bonito. É o primeiro momento, quando você tá conhecendo e tal. Trocas musicais. Ava tá gravando uma música do Dinho, no disco dela. E a gente teve a oportunidade de se conhecer em São Paulo e tal. Ela já tinha encontrado eles em muitos festivais, então ela já tinha um contato mais próximo. Eu, então fui estreitando aos poucos. Até porque eu não viajava e não encontrava ninguém, ela viajava e encontrava os outros. E aí, conhecendo e

Certeza!

NEGROLEO Uma alegria! Meu

PERDIGA E tu Benke, tu pro-

jetou alguma coisa quando o Leo confirmou que ia colar?

BENKE Ah porra, sei lá. Era meio o que tava bancando essa vinda aqui, né. kkkkkk a gente tava pensando que não sabia nada do que ia rolar, mas o Leo já topou. A gente não sabia o que ia rolar, a gente não sabia o que ia ter que fazer. Não sabia que ia ser um lance tão aberto pra gente. Onde íamos poder ditar o nosso ritmo da coisa e poder fazer as coisas do jeito que a gente faria normalmente. NEGROLEO Pô eu fiquei impres-

sionado, sabe com o quê. O lance de tu já sair editando, bixo. Já sair passando pro digital. Eu fiquei muito impressionado, porque as paradas já estão meio que prontas. Em 5 dias, a gente já chegou aqui e já ouviu uns bagulhos que pô, uns bagulhos já meio que prontos, já organizados. Isso eu achei muito sinistro. A produção action lekk. Tá foda, vocês davam um live lek.

HUGO ABDALA GUILHERME NARCIZO MARCELO RAMALHO DELVIO MARTINS

NEGROLEO Foda.

admirando o trabalho. Água Batizada mesmo foi inspirado no Boogarins. Eu tava até comentando pro Perdiga, que eu conheci o Connan Mockasin, e o Connan me levou a eles e outros grupos de nova psicodelia, sei lá. Aí é basicamente isso.

ALICE SOUZA JULIA ARGALJI RUBEN DARIO RAFAEL PAIXÃO

PERDIGA Isso

a criança. A criança quase teve uma hipotermia. Aí, depois, foi legal, deu tudo certo e pá. Ela ficou bem. Voltamos a tocar. Foi legal o lance que rolou a tarde. Eu tive um pouco menos dentro do que rolou a tarde porque eu já tava um pouco cansado, né. Tanto que dormi agora um pouco, tava bem cansado. Mas, assim, foi muito prazeroso o dia de hoje e a experiência mesmo de tá assim, em um lugar, uma espécie de laboratório de criação pra um artista. As pessoas tem isso geralmente dentro de um estúdio. Mas, ninguém sugere isso aqui. É uma sugestão interessante pra caralho. Eu achei um barato a proposta, e essa imersão dos caras criando e tal. Achei um privilégio ter tocado aqui. Coisa entre gerações. A galera tá toda ai, tocando junto. Ter vindo aqui foi uma alegria.

DOUGLAS PAULINO LUCAS MARRA DENNYS PAYANO DOUGLAS COELHO

ram madrugada adentro com eles tocando.

irmão Benke, que alegria! A gente encerrando o disco lá. Eu tava até falando com o Rapha. Quando a gente tava no México, eu encontrei o Dinho e o Ynaiã. Como eu falei, o Connan me levou pro Boogarins e começou a me levar pra uma porrada de parada. Um universo rico. Então pra mim isso aqui começa em 2015. Começa ali, e aqui é um ponto que começa de novo. Que a gente agora se conhece, agora a gente vira parceiro.

TODOS

kkkkkkk

NEGROLEO Pô foi muito bom

cara. Agora no finalzinho eu fui dormir porque eu tava fudido.

VOID

NEGROLEO Madrugada, entra-


EDUARDO RAMALHO LUIZ GUILHERME GABRIELA GOULART MAXINE MENEGHETTI LUCIANO FESTA LUCAS RODRIGUES LAURA COSTA LUANA TIBAU

BENKE Todo mundo, a gente não percebe. Mas é até uma parada que eu tava falando aqui pro Perdiga, a impressão que dá é que a gente tá em turnê fazendo isso. São 5 dias que a gente tá totalzão entregue ao negócio. Tocando sem parar. Quando a gente foi lá pro teu show na Rebel e depois foi pro Escritório, eu só ficava ouvindo as músicas na cabeça. Porque você fica numa lavagem cerebral tão grande. No processo só de ficar repetindo e escutando tudo. É um loopping. Um mantra.

NEGROLEO Foda. E eu achei foda que quando eu cheguei, quando eu fui tomar o banho gelado, a parada já tava rolando. Não foi? Foi muito bom. Que dia.

JUCA EDUARDO SOUZA ISABEL GUIMARÃES JADE MAYWORM

BENKE

Foi massa que vocês curtiram também. A gente gosta muito de fazer isso. Acaba que a gente só faz isso em São Paulo. Poder tocar com a galera assim, só de poder chegar. As vezes que a gente fez isso aqui foi com o Lê, lá no Escritório. De mandar um improviso com a galera daqui. Com o Lê, com o Berna do Elma.

NEGROLEO Sim, claro. o Bernardo Pacheco.

LCUAS Foi o primeiro, Hey babe. Baby Hillary, e os entrefamosos Pré-Actions.

rins. Esses lances q tornam o negocio de fazer musica especialmente emocionante.

BENKE Esse disco é muito foda! Ela mandou pra mim meio que comparando com esse som que a gente fez.

Os telefonemas tratavam disso: laissez-faire-laissez-passer-ziriguidum com Boogarins, estendido à Ava e logo a Manso, Schiavo e Pries. Iríamos pra Vargem Grande viver um dia memoravel com as crianças.

NEGROLEO Pô quero me ligar.

Vou me ligar. Tem bandcamp?

BENKE Tem. Berna and the Gangstas. NEGROLEO Que do caralho gente.

PERDIGA Bora zoar então, né. Semana acabou. Como tu tá Leo? bora. NEGROLEO Eu tô destruído, porra. Mas vamo.

BENKE

Tu tem filtro?

NEGROLEO Filtro eu não tenho. BENKE Vampirão ou Menino Lucas devem ter. Oooooooo seus doido!

BENKE A gente tem uma banda de improviso com ele também. E foi lá que a gente fez mais coisas desse tipo. NEGROLEO Tem nome? BENKE Berna and the Gangstas. Sou eu, negão, o Berna e um quarto que tem que ser sempre uma pessoa que a gente vai tocar pela primeira vez. O Dinho foi o convidado. A Letícia escutou esse disco. Eu mandei pra ela escutar e ela mandou um do Baby Hitler pra gente escutar. Acho que foi o primeiro lançamento Quintavant.

TESTIMONIAL RELEK POR NEGRO LEO PARTE 1

Eu ja tava possuído pelo lek em agosto quando recebi um telefonema da Luiza e, na sequencia, do Perdigao, eles sao altamente. Fizeram um convite irrecusavel pra lek: participar do delírio criador, caoide e perigoso dos Booga-

Aprendi q nao se deve confiar ao alcool os caprichos da gloria passageira, a mim ele cobra especialmente caro. E foi uma semana danada. Dou fé a interdição espiritual q me alertou sobre o excesso de alcool, mas às vezes preciso q ele conduza minha alma perigosamente, pra ter certeza de q sou humano. O alcool tem esse poder de testar nossa humanidade. Os boogarins ja estavam na casa da void, a gnt iria no quinto dos cinco dias q eles surfariam por la. Na quarta daquela semana o show agua batizada completava um ano solar exato e fui arrebatado pela presença dos leks na plateia, raphael, benke, dinho e ynaiã. a musica deles tinha inspirado o disco - ainda nao tinha saído ‘lá vem a morte’, q acabou consolidando a admiraçao total q tenho por eles. Acabou o show e geral ficou naquelas a fim de cruzar o portal da resistência inconsciente. Fomos ao bar, nao a qq bar, ao alfa bar, comer aquela comidinha mixuruca e beber muito mais cerveja a preço abusivo. Esse estado de martir sempre alerta q transtorna a minha geraçao e duas acima, nos fez fazer do alfa um mítico ponto de encontro em botafogo. Nesse dia o espectro tava ampliadíssimo, varios papos, maria gabriela saldanha, lcuas pries, singoalla lagerblad, mariana mansur, bernardo oliveira, paula gaitán, gabraz sanna,

anne santos, alberto continentino, daniel castanheira, arthus focchi, duda pedreira, gabriel gagá, felipe zenícola, mari romano, pedro azevedo, bethania, leticia brito, etc. Leks, esse foi o primeiro show de despedida, os boogarins foram pro escritorio do Le Almeida em algum momento e as pessoas foram saindo à francesa, ate q fiquei ali refem das circustancias. bebaço, fui resgatado por um amigo q me levou a sua casa em santa teresa, cheiramos algumas fileiras e fomos dormir. A cocaína é uma droga aguda, ela traz uma urgencia descontrolada de açao, geralmente seu uso acaba estimulando verborragias narcísicas e nao provoca uma verdadeira viagem, é um café muito forte. Eu deixei a cocaína faz muito tempo, mas eventualmente, o alcool cobra esse preço. Descansei o resto da tarde na casa de minha mãe, aquele canto de conforto psiquico inigualavel, o seio materno, o cuidado… A ansiedade é um sintoma da percepçao q temos de nossa falibilidade. Estamos às vésperas de um golpe militar, ninguem parece sensível ao fato. As coisas vao piorar muito, o indivíduo vai ser cobrado. O fora da lei, o supercordial, o tribal tem q ser estimulado. Esse foi o sonho q tive aquela tarde, acordei sobressaltado com a imagem de varios amigos atrapalhados em processos fictícios, presos,

torturados, militancias das liberdades individuais sufocadas: a derrota da cosmovisao da singularidade da escolha. Fui pra Rebel, fumei varios. Tenho o mau habito de controlar minha ansiedade fumando, o q prejudica muito minha voz antes dos concertos. Bruno apareceu de surpresa tremendamente.


Ja nao sou capaz, no momento q escrevo, de reconstituir a ordem precisa dos acontecimentos, mas Lucas, q àquela época era um dos designers responsáveis pelo desenho das novas latas de um refigerante multinacionalmente atuante, chegando de moto-taxi, vindo de sao conrado, foi uma cena demasiado concreta, alias Lucas é um cara demasiado concreto, é tipo uma presença atemporal, as mesmas peças de vestuario, a mesma cor das peças de vestuário, as mesmas caracteristicas fisicas, uma espécie de super herói, eu

No fim do dia tínhamos acordado q íamos todos para o show anarcogospel ‘meu reino não é desse mundo’ no escritório, junto com oruã. É lindo ver a rua da constituiçao tomada de gnt em dias de escritorio. Aquela

NEGÃO Pô, ali foi doido, meu irmão. Foi uma intervenção sonora ao ar livre. A gente tava pirando que a gente já tinha gravado aquela ideia de groove ali dentro e tava pensando num final para essa parte aqui do lado de fora. Daí fizemos uns takes mais abertos, mais barulhentos mesmo. Meti outro som de bateria que vai ser legal

PETERSON FREION MATHEUS AUGUSTO ANA MOURÃO GABRIELA ROSEMARY

PERDIGA E me conta o que rolou nessa jam aí da rua, no meio do mato…

MATHEUS FREIRE FERNANDO SANTOS DA SILVA SHOCK NAOMA AMARAL THIAGO CORREA

vai mexendo, editando ali, metendo uns parangolê, umas doidera.

TRANSCRIÇÃO PERDIGA Como é que funciona o processo de vocês? Nessa música do toco loco o Raphael faz uma base com o baixo e depois tu entra? NEGÃO É meio que isso, não tem muito uma ordem. Por exemplo, essa música começou ontem dessas sentadas aí…

para misturar com o lá de dentro. Pegar o lá de dentro que foi na sala e que a gente

DINHO CANTANDO NO FUNDO

Meto o louco, meto o louco…

ROBERTA CAMPOS JOSÉ ANTÔNIO CAUÃ BARBOSA GRAZIELLA BARROS

PARTE 2

área à noite, mais proxima do campo de santana, é tao deserta q é possível escutar o ronco das cotias. Meu reino tocou 8min de relogio, as pessoas ficaram meio desapontadas, mas é como nossas performances sao. Oruã fez um show fodíssimo na sequencia, o q lavou a alma do rolé. Depois a rua foi retomando suas feiçoes sem o publico q ia esvaziando o escritorio, ate q, um dos ultimos, me despedi de Dinho, unico remanescente dos boogarins, às 4h.

NEGÃO O Dinho já tinha mais ou menos a ideia dessa letra, começou a cantar… DINHO CANTANDO NO FUNDO

Do que não posso ser…

NEGÃO

Aí o Raphael já meteu um baixão, daí já comecei com a batera, mas é meio gonzão…

PERDIGA Parece uma

colagem…

NEGÃO

Isso aí, é tipo uma colagem. Daí o Benke já

acaba tocando mais baixo e misturar com o aqui de fora que nós descemos a mão, vai ficar maneiro.

PERDIGA Vi que vocês botaram um mic ali embaixo… NEGÃO É, ficamos fazendo uns reamp da caixa, utilizando o amplificador da guitarra,

VOID

Fizemos um belo show de despedida, fiquei tocado! Dali fomos mais uma vez ao alfa bar e aqui começa a aventura.

ja vi uma senhora parar pra pedir-lhe a bençao. Dessa vez bebemos com força. Tem uma hora, no segundo dia consecutivo de bebedeira, q é pura pulsao de morte, os 500 cigarros consumidos, o descontrole geral. Ja pelas 6h da manha Bruno e eu fomos descansar na casa de Mariana e Bernardo, ledo engano, tomamos mais algumas kriptonytas e ficamos acordados ate 8h, horario q a van q nos levaria à casa da void chegou. Mal despertamos ao som do interfone e descemos cambaleados ate a van. Dormimos a viagem toda, eu, Lcuas e Schiavo, Dahlia ia observando a paisagem. Quando chegamos à casa estava chovendo, mal pude crer, morando em sp, tinha sonhado com aquele dia solar tipicamente carioca ao lado dos goianos, eu estava tão eufórico e ainda ligadão de alcool q nao parecia real. Estava frio, mas fui direto pra piscina de pedra. Ynaiã me disse mais tarde q se registrassem minha chegada e minha partida, nao dava pra saber se era a mesma pessoa. Nao demorou muito e a gnt começou a tocar como louco. Lê Almeida e Benke estavam ligadíssimos na gravaçao, em tascam, no esquema q o proprio Lê montou e domina como ninguem. Logo depois chegaram Ava, Uma, Manso e Letícia Brito — com uma polaroid q fez os melhores registros daquele dia. A expectativa e talvez exigencia do projeto era q gravássemos algo pro programa especial da void com os boogarins e nós fizemos umas sessoes intercaladas por cochiladas, almoço, lanche, bauretes, naquela condiçao absurda do corpo de ressaca. Foi um dia magico, Uma e Dahlia tocaram muito synth, bateria, brincaram o dia todo, tomaram banho de piscina. Uma quase teve uma hipotermia pq estava muito ansiosa por mergulhar e o frio nao vacilou um momento.


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APRESENTAM

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WWWWWWW WWWWWWW OOOOOOOOO OOOOOOOOO OOOOOOOOO OOOOWWWW WMIMPI2017 FILMFESTIVAL 17–20/11

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TANTÃO E OS FITA | QUARTINHO #04 (LIVE)


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A MESMA CERVEJA DESDE SEMPRE.

AAMESMA MESMA CERVEJA CERVEJA DESDE DESDE SEMPRE. SEMPRE. THISBUD’S BUD’S THIS FORYOU. YOU. FOR


CERVEJA DESDE SEMPRE.

THIS BUD’S FOR YOU.

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MISTURAR WHISKEY COM CHÁ? TÁ TUDO BEM. SER SUAVE É PARA OS FORTES.


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PERDIGA Foda

to, pode ser resumida em uma palavra: histeria. A banda chegou na cidade sendo aclamada com vigor unânime; pela intelligentsia local, pelos críticos geriátricos dos

NEGÃO Foi bom hoje o dia, de trazer as paradas aqui para fora.

VOID

VINICIUS CECATTO FRAULEM DAMASIO LUIZ CARLOS TELLES PABLO ALTAMIRO

IVAN NISHITANI STEPHANIE LEVY LUCAS MELLO TRINI GODOY

VICTORINE LIGUICANO FRANCIELE BORGES JOY MAXIMO LUIZA CLARO

KIKO

E hoje de noite ainda tem esqueminha…

passando pelos pedal do Dinho, daí fica fazendo uns efeitos, aí vai tudo pro 4track, então o seguinte, é uma doidera aquilo ali.

NEGÃO

É, vamos ver o

dos seus sonhos nessa casa? Quem você traria para cá?

PERDIGA E a que vocês tavam fazendo mais cedo ali? Aquilo foi intenso. NEGÃO Foi. Cara, é muito doido. Porque, assim, basicamente, a gente tá fazendo os trem tudo do zero. Não tem nada que a gente já tinha feito… A não ser uma música que a gente deu uma ensaiada ontem, mas o que tá rolando é tudo do zero. Mas isso é muito doido, vão nascendo as ideias

Negro Leo, né?

KIKO

Acho que o Raphael Kim Camilo não vai voltar para casa hoje…

PERDIGA Qual a frequência que vamos chegar hoje, Raphael?

KIKO

Além do Fliper, o golfinho, é claro…

RAPHAEL Além do Fliper, eu ia trazer só o Perdigão, para fazer um frango assado. PERDIGA Então fechado!

a partir disso. A partir de um loop que o Dinho começa a fazer, de uma levada de bateria, de um solo de guitarra. E a gente vai tocando tocando tocando até meio que ir encaixando. Foi isso que aconteceu. Foi indo indo, foi encaixando. Aí encaixou numa ideia, daí o Dinho conseguiu criar uma linha de melodia e cantar em cima, eu consegui encaixar com o Benkinho e com o Raphael, mantendo um groove, daí eu comecei a ter outras ideias, daí vai construindo. A partir do momento que a gente consegue entender o que a gente tá tocando junto, a gente começa a adicionar mais algumas coisas. Um acento ali, uma virada aqui, uma outra nota ali… E foi isso que rolou. Eu curti, achei foda.

RAPHAEL Eu fiz um contrato lá com vocês, no qual, eu não assinei ainda. Ninguém assinou, não sei se vocês sabem. Valeu pela confiança, galera. Pode ser que nenhum de nós volte hoje.

NEGÃO A casa é longe, podemos nos perder no caminho.

DINHO

PERDIGA Solzera na cabeça…

RAPHAEL Mas se bem que essa casa é foda, riacho, ficar jogadão de boa.

O MENINO DE CERES POR VINICIUS PEREZ

NEGÃO Fritando a moleira… Isso tudo deixa o trem mais inusitado.

NEGÃO

É, vai que…

RAPHAEL Só nós dois e os mosquitão… KIKO

E os ET’s, não?

RAPHAEL Os ET’s, não sei. Tava imaginando um dia desses se chegassem umas naves dessas de filme no Brasil, Globo mostrando. Essas nave grande, tipo o da Chegada, ia ser uma loucura. KIKO

Ia ser uma correria.

RAPHAEL Pessoal da igreja ia ficar louco… RAPHAEL Não assinamos

nada…

KIKO

Precisamos colocar essas tuas piras, histórias e contos na revista… É o Raphael Costa, ele era uma bosta…

A passagem dos Boogarins

PERDIGA Quais seriam as férias por Porto Alegre, onde habi-

cadernos culturais, pela turminha ativista de movimento estudantil, até meu amigo que morou em Virgínia com o Olavo de Carvalho estava ansioso e empolgado (“esse visual deles meio Agostinho Carrara do Brasil profundo eu acho feio, mas os timbres são bons, é foda”, ele me confessou). Após uma torrente de postagens no Facebook atrás de ingressos (esgotaram rápido, deixando um séquito de fãs na fissura), as fotos e vídeos do show monopolizavam os stories do Instagram: os quatro músicos lotaram o Theatro São Pedro, esse fundado em 1858, com fãs ensandecidos que, olhinhos cerrados, cantavam sorrindo as letras e bangueavam suavemente ao som do seu desvario neopsicodélico. Isso tudo era apenas representação em escala menor do sucesso dos Boogarins: turnês internacionais nos principais festivais de música alternativa; presença garantida em listas de melhores do ano; elogios histéricos em sites hipster-murrinha a la Pitchfork; uma participação em um tributo aos Kinks organizado pela revista inglesa Mojo, ao lado de nomes como Ty Segall e Nada Surf. “Lá Vem A Morte”, o disco novo que seria lançado poucos dias após o show, é um sinal claro do amadurecimento da banda nos arranjos, produção e na


Ceres é um município do interior de Goiás. Segundo o Censo IBGE de 2010, a cidadezinha comporta pouco mais de 20 mil habitantes e possui uma conurbação (expressão para quando duas cidades começam a crescer e acabam se esbarrando) com o muni-

cípio de Rialma. Fundadas em 1953, as cidade-irmãs tem apenas 64 anos, duas crianças. Em seu verbete da Wikipédia, são destacados dois eventos marcantes na sua história rialmense: um escândalo político em 2013, quando o então prefeito foi preso durante seu mandato na Operação Tarja Preta, acusado de superfaturar a compra de remédios

Na viagem entre a capital e Ceres (quatro horas de van), nós conversamos sobre a plataforma, propostas e logística

Chegando na cidade, ficou clara que a volta de Raphael (aqui conhecido como Fefel) era definitiva: o compartimento para bagagens da van da banda estava lotada de malas e caixas, provavelmente material para campanha. “Eu

da campanha. “Que cê acha do meu número do santinho ser 69? Liberdade sexual, véi”, Raphael pergunta fazendo o clássico V de vitória que os políticos fazem com os dedos da mão; adicionando, porém, a língua entre o

vou trazer muito recurso pra cidade”, explicou Raphael. Fomos recebidos pelos pais do músico com simpatissíssimos “tá bão?” e, no quarto onde Fefel cresceu (na parede um pôster puído do Humberto Gessinger), nos aprofunda-

LARISSA DO NASCIMENTO THIAGO MONÇORES LETÍCIA VENTIN FERNANDO PINHEIRO QUINES

para a rede pública e, em 2012, uma icônica vitória de um rialmense na Megasena, lucrando a fortuna de mais de 24 milhões de reais (23% do PIB do município). O nome Rialma é uma aglutinação tipicamente goiana de “rio das Almas”, curso d’água que banha o estado. De história tímida e pacata, a cidade transformou Raphael Vaz, o menino de Ceres que conquistou o mundo com sua música, em uma espécie de lenda local — “tá muito bem o menino, viu?” comentam as aposentadas escoradas nos muros de suas casas. Para o povo, Raphael Vaz é um híbrido de Charlinho com Marco Polo, um guerreirinho e um explorador. Natural o artista usar a fama para fazer a mudança política que acha necessária, vide Romário, Tiririca, Stepan Nercessian e aquele sujeito do Bonde do Rolê que fundou o MBL. Imerso no começo dessa jornada, embarquei junto com a banda no voo de volta para Goiânia.

ROBERTA GUIMARAES JULIA LAGE JULIETE ALVES HUGO SANTOS

desinteresse, postura que logo diagnostiquei como um ennuï de rockstar. Todas perguntas sobre música recebiam réplicas monossilábicas, “sei lá”, “tanto faz”. As conquistas da banda — fosse os ingressos concorridos ou o disco a ser lançado — não pareciam despertar nada no músico de 27 anos. O único momento em que seu semblante sonolento insinuou vitalidade foi quando Humberto, marido da minha mãe e serralheiro, me telefonou e, ao ver “Humberto” piscando na tela do meu celular, Raphael esfregou as mãos: “É o Humberto Gessinger? Esse cara é um espetáculo, um showman! Baixista, poeta… o Humberto é um homem renascentista, não é? Isso sem falar do cabelo. Como será que ele cuida?”, mas foi só isso, logo Raphael escorregou novamente na poltrona, voltando a péssima postura lombar e atitude difícil. Meio cansado da empáfia letárgica do baixista, fiz logo a última pergunta da entre-

vista para me livrar daquela provação: “E quais são os próximos passos para os Boogarins?”. Raphael riu e bufou “Bom, daí não é comigo, eu posso dizer meus próximos passos só”. Ah, vai. Que papinho cretino, digressãozinha epifânica de músico chinfrim, penso, já de saco cheio. “Tá, quais os teus próximos passos?”. Raphael Vaz me fita bem nos olhos, agora duas bolinhas de gude brilhantes e sinceras. A coluna, que antes parecia um ponto de interrogação, fica reta. Ele sorri com uma empolgação contagiante emanando do seu corpo (parece que injetaram esteróide no morto-vivo com quem eu falava até então) e me responde: “Eu vou ser prefeito da minha cidade natal”.

THEO BHERING THAYNA SILVA ADRIAN BERRO DAVID LANNES

Ciente disso tudo, encontrei o baixista do grupo, Raphael Vaz, para uma entrevista no bar do hotel em que eles se hospedavam. De bigode, camisa florida com os botões do peito abertos e afundado em uma poltrona, Raphael respondia as perguntas sobre a banda com apatia e

indicador e o dedo médio, transformando na clássica mímica do cunnilingus, popular em pátios de escola e avatares de militantes da causa lésbica. Tento explicar que provavelmente não dê para ser 69 o número, que depende da filiação partidária. Tento aproveitar a deixa e perguntar com qual partido ele pensa em se associar, mas o esforço é em vão, o ex-músico está imerso nos próprios pensamentos e segue falando, mais pra ele mesmo do que pra mim: “… liberdade sexual é uma coisa importante para o desenvolvimento de um município saudável, cê sabe, no interior tem muito isso de punheta coletiva, cê entende, os recursos eram muito pequenos no quesito audiovisual em Ceres e Rialma, a gente via a mesma VHS de turma mesmo na sala da casa de um amigo meu, aí acaba acontecendo a punheta coletiva, o que até ajudou depois tendo que dividir quarto de hotel com o pessoal da banda, mas é uma coisa que traumatiza também, tinha esse menino que tinha fimose, eu chego a sonhar até hoje, na época a gente não sabia o que era circuncisão, não tem comunidade judaica em Rialma, eu quero trazer recurso, liberdade sexual, quero trazer diversidade, judeu…”.

VOID

construção de uma identidade musical. Em suma, Boogarins é a Anitta do cenário independente: um foguete que sobe implacável, uma força brutal da natureza.


DANIEL FRICKMANN LUCAS GUIMARÃES DANIEL MENDES BRUNO SALGADO

mos no projeto de prefeitura. Raphael sorri introspectivo, me mostrando fotos no celular de Ceres, cidade batizada em homenagem Ceres da mitologia: “a Deusa dos cereais”. A cidade é cenário de um curioso acontecimento histórico: na

sas sessões de jogo do copo foram infrutíferas e sequer recebemos um “não”. Sem se abalar com o convite negado, Raphael aproveitou o hiato da banda para convocar o guitarrista e vocalista dos Boogarins, seu amigo Dinho, para a posição de vice. É difícil saber quanto disso foi motivado pelo arquétipo do baixista que é consumido pela inveja da tietagem das fãs que o vocalista recebe, mas Raphael parecia satisfeito e orgulhoso de agora ser o astro principal. Prefeito Raphael e vice Dinho (Raphael insistia em chamar o parceiro de Adinho, “fala aí, vice Adinho”).

PEDRO PERDIGÃO WALLACE BRUNA OLIVEIRA JOÃO FRANCISCO HEIN

PEDRO DAMÁSIO LUIZA MACHADO GIOVANI GROFF ANA BEATRIZ AMORIM

Entre as propostas de Raphael, destacava-se uma mudança significativa na segurança pública. O carro-chefe década de 60, o ex-presidente sírio Mohamed Adib Chichakli refugiou-se na região e foi assassinado por um ex-pugi-

lista cuja família fora morta nas mãos do político, seu corpo alvejado por cinco tiros na ponte que cruza o Rio das Almas e une Ceres e Rialma. “Eu queria o ex-presidente morto como vice, acho muito importante”, informa Fefel. Embora eu concorde que uma figura conhecida com um currículo extenso na política poderia legitimar nossa campanha, as questões do oculto e sobrenatural dificultavam dar esse passo: todas nos-

do seu programa de governo municipal é a promessa de uma alteração no uniforme da Polícia Militar no município: o tradicional coturno seria substituído por uma plataforma Melissa de vinil rosa. Os benefícios, explicava Raphael com o bebê de um possível eleitor no colo, “é que traz mais igualdade, cê sabe? Tem uma expressão, to walk in someone’s shoes, é inglês, isso eu aprendi nos Estados Unidos. Significa ‘andar nos sapatos de outra pessoa’. Aí eu pensei, por que não fazer os guardas literalmente andar nos sapato das outras pessoas? Número menor, feminino mesmo, pra sentir como é. Se bem que isso do número menor é até machismo falar, tem umas mina que tem uns pezão…”. A aptidão ao populismo e a erudição adquirida nas viagens de Raphael instiga um grupo de transeuntes que passa e logo forma-se uma pequena comitiva de ouvintes no centrinho de Rialma. O ex-músico se empolga e segue: “E outra! Cê já usou coturno? Nossa Senhora, até eu

quando uso coturno fico com vontade de bater nas pessoas, muito da brutalidade policial vem do coturno, parece que chama isso na gente”. Satisfeito, Raphael segue adiante, deixando o grupo de locais em um burburinho confuso — um casal rialmense inclusive troca de sapatos como no exercício proposto há poucos segundos. Todavia, a população, encantada com seu Gulliver conterrâneo e suas aventuras por terras distantes, comprou o discurso do agora político e o clima progressista tomou conta do interior goiano. Em um showmício itinerante, Raphael atravessou as cidades da região tocando baixo na caçamba de um caminhão de som, acompanhado de uma cantora transsexual da capital. “Quem é ele?”, perguntou uma senhorinha desavisada apontando para a cantora, apenas para outra idosa, essa já trajando a camiseta tie-dye oficial da campanha eleitoral, responder: “Ele? Chegou a radfem pra passar vergonha. Deleta que dá tempo, viu?”. Um senhor até trupicou com o diálogo e exclamou: “Uai, chega doeu esse shade”. Enquanto isso, o caminhão com um banner enorme serigrafado RAPAHEL 69 — O MENINO DE CERES VOLTOU acelerava Goiás adentro, deixando o rastro sonoro de um grave solo de baixo. A música, naturalmente, teve um papel forte na campanha. Raphael é um entusiasta do contrabaixo e rapidamente transformou o ginásio do município em um conservatório improvisado, obrigando dezenas de criancinhas que queriam jogar bola a aprender os segredos e prazeres do instrumento de quatro cordas. Sentadinhos sobre seus amplificadores Warm Music, a criançada tentava fazer slap no baixo (um aluno mais prodígio fazia a linha inteira de “The Unforgiven II”, improvisando o som de pedal duplo batendo os chinelos Havaianas no chão). O culto ao baixo foi propagado com tanto fervor que, na praça central da cidade, Raphael inaugurou uma estátua em

bronze de Humberto Gessinger com contrabaixo em punho e cabelos ao vento. A juventude ceresina, até então apolítica, efervesceu com a chegada da nova opção para prefeito. Cabelos cresceram, camisas com motivos tropicais foram compradas, uns adolescentes até emulavam o bigode do político. O espírito de mudança estava no ar e os adolescentes, como nas jornadas de 2013, pareciam estar vivendo seu maio de 68. O assunto na cidade eram os recursos que Fefel estava trazendo e o desejo da população era cada vez mais recursos. “Eu vou trazer muito recurso pra essa cidade, vocês fiquem tranquilos!”, o ex-músico dizia para um grupo de dez ceresinos com menos de 20 anos. As visitas de jovens ao diretório político (o quarto de adolescência) de Raphael eram recorrentes e a atenção do político com seu eleitorado era surpreendente: conversava individualmente com cada um, em privacidade. A visita sempre saía de lá satisfeita. A atenção e foco de Raphael me deixaram envergonhado pelo cinismo que me motivou a pegar essa pauta, a curiosidade mórbida em ver um músico tentar carreira política e fracassar. Raphael estava tendo um diálogo real com seus conterrâneos. Estava fazendo a diferença. A mudança é possível. Mas aqui é Brasil e a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Improvisei uma pesquisa do Ibope para as eleições, para ter algum dado estatístico da aceitação de

Raphael e também verificar a popularidade dos outros famigerados candidatos de cidade pequena. Seria possível uma vitória? Essa cidade pequena do interior de Goiás daria


TRANSCRIÇÃO PERDIGA Já faz um dia que nós estamos aqui e parece que vocês já produziram bastante, conta aí como que tá sendo.

pontinhos. Essa versão que tá tocando aí, ela tá bem torta ainda, nunca fica bem perfeitinho, sempre aceitamos os acidentes da gravação. É gravado na fita. Quando tava tocando a bateria, o Dinho não tava com uma guia ali no computador, então ainda tem que gastar um tempo para deixar perfeitinha, mas já temos uma versão da métrica que eu acho ideal para o negócio e já sabemos o que ainda precisamos gravar. Tem que gravar voz, outras coisas. Eu to montando a música e os meninos tão gravando mais coisas com o Lê.

PERDIGA O processo você disse que é um pouco esse. Do Dinho vir e trazer coisas e propor e depois vocês irem montando juntos. Tá

BENKE Influencia, claro. Só de ter recebido um convite que é para nos juntarmos, tocar, produzir coisa nova e fritar, é massa. É meio como a gente gravou o último disco, o “Lá vem a Morte”, na casa lá em Austin. E mais recentemente também mais material novo que a gente gravou antes do SxSW. Mas é diferente. Aqui tem uma galera massa preocupada em produzir e criar outro tipo de conteúdo com a gente, registrando tudo, sem a gente se preocupar com nada. A gente fica mais de boa só para fritar mesmo. A casa tá influenciando, sim. E vai influenciar mais ainda quando a gente tocar do lado de fora. O processo tá parecido com o que a gente faz, tirando o Lê gravando tudo e já jogando no 4track, que é algo que a gente nunca fez, gravar na cassete. Todos nós já gravamos em cassete em todos nossos outros projetos, mas nunca com o Boogarins. Quando a gente passou a ter a possibilidade de gravar em cassete, o Boogarins já tava num tamanho que a gente não podia lançar um disco

gravado em cassete, já pedia um outro nível, nível padrão comercial. O “Manual” é bem isso, bem limpo, mesmo que sendo analógico na fita, só

PERDIGA E o Dinho? BENKE O Dinho é desse jeito. A melodia dessa música de hoje eu nunca tinha ouvido ela não. Ontem a gente ficou trabalhando, tocando por meia hora o mesmo riff e era um riff que provavelmente ele já tinha, que ele já chegou tocando, daí eu toquei bateria primeiro, depois o Negão. Mas esse lance de já criar com ele tocando, é bem foda. É que o Dinho é tão acostumado e ele gosta tanto de tocar que ele fica brincando desses trem, fica fazendo loop o dia inteiro. Que que é isso, um morcego? DAMASIO Não, acho que é uma borboleta, um borboletão pré-histórico daqueles. BENKE Enfim, eu não tenho esse ânimo de ficar tocando e o Dinho ele fica fazendo vários desses riffs que a gente fala “caralho, como que a gente não tá gravando isso?”. As vezes é só um pedalzinho de guitarra tão elaborado, com tanta ideia. É que ele toca há tanto tempo sozinho, que ele já faz todos os elementos para ter um som gordo, fazendo as camadas. No “Lá vem a Morte”, o último sample que rola é o Dinho gravando tudo sozinho num amp de guitarra e depois a gente só microfonou o amp de guitarra. Ele pegou um microfone, gravou o loop de guitarra, daí sentou na bateria gravou um groove, e isso pisando no pedal e tocando. Ele não tem a pira de fazer isso computador, ele faz isso pela pira de fazer um lance foda, bem orquestrado. DAMASIO Ontem eu fiquei viajando nisso. Vocês ficaram meia-hora tocando o mesmo loop. E eu acho isso muito foda porque é difícil. O cara vê

NATHALIE BORGES MURILO LOBO TAÍS JOANA ISABELLA DE CASTRO

funcionando dessa maneira aqui também? E a casa já tá influenciando em algo?

MATHEUS VERONEZ PEDRO GARCIA LEONARDO BALLA NATALIA GRANITOFF

BENKE Ah bixo, normalmente a gente toca e logo depois pegamos o material para escutar, mas a gente tá muito na pilha de tocar, de ter som para vocês filmarem, daí nem paramos, produzimos e gravamos um monte de coisa. Quando eu escutei a primeira fita hoje, ela já tava bem boa, daí eu já passei para o meu computador e a parte que a gente pegou foi uma parte que o Dinho ficou tocando bateria sozinho, mas que a fita continuou gravando, e daí veio um som bem sujão, mas ainda assim é só a bateria na sala. Ficou bem foda, daí deu para cortar e dar sentido para aquilo ali. Daí eu coloquei para tocar repetindo em loop, o Dinho pegou e já criou uma melodia na cabeça dele. Daí, com a guitarra mesmo, gravou em cima e nós ficamos escutando aquela bateria com a melodia de guitarra. Ficamos escutando um tempão, sem parar, daí vai acertando uns

que é na fita mesmo, apartamento antiguera, estúdio gigante lá na Espanha, mas daí virou esse som bem limpão, mas que é bem menos nossa cara do que gravar no cassete. Tanto que logo que a gente teve a oportunidade de comprar um desses, a gente comprou, mas nunca tivemos a chance de usar para um trem do Boogarins.

SIMONE RANGEL PEDRO HEMB RICARDO MOHR MONICA ABDALLA

A gente se adiantou muito nisso. Desolado, voltei para nosso diretório e fui informar Raphael. Sempre respeitei a privacidade entre político e eleitor nas conversas que ele tinha com os jovens, mas estava com um peso no peito e precisávamos pensar em uma alternativa. Revolta armada, tomada de poder. Alguma coisa. Abri a porta de supetão e flagrei Raphael entregando um prensadinho de maconha para um adolescente com camiseta do Tame Impala. “Taí o recurso, chegou ontem”, ele dizia enquanto fazia aquele cumprimento de traficante onde tira-se o dinheiro e larga-se a maconha na palma da mão em uma manobra virtuosa. “Quando quiser recurso, me chama no zap”, Raphael conclui. As caixas, onde imaginei estarem os santinhos e outros materiais, estavam lotadas da droga maconha. Raphael me notou e encostou a porta. Mais uma mancha de corrupção na turbulenta história política brasileira.

Vocês tocaram bastante, daí tu pega o material, já começa a pensar, fazer uns recortes. Conta aí.

VOID

uma chance ao novo, ensinando uma lição ao resto do país? Tive dificuldade em realizar a pesquisa, principalmente por não haver outros candidatos. Nem Raphael, nem eu, nem nossa equipe percebeu que faltavam quatro anos para as eleições municipais.


MAURO MEIRELLES LUCAS VERÍSSIMO LAIS ROLDAN LOHAN ABDALA THAIS SCOT JORDANA FORTUNA CAMILLA PERDIGÃO CAROL NOTHEN VERENA FIGUEIREDO OMAR CERMENO RACHEL CARVALHO BRUNA MACHADO

quando a banda, todo mundo, fecha, tocando a mesma coisa mas com pouca variação. É foda, muito foda. Porque daí realmente é uma jam, mas não é aquela jam que fica cada um solando. Tava todo mundo numa hipnose, daí aparecem micro elementos. Vocês fazem bastante isso? Isso é fundamental para o processo?

BENKE Faz, faz pra caralho. Eu acho que esse é o nosso diferencial. Nós nunca tivemos um show muito tra-

balhado em perfeição. Nunca usamos playback, não tinha sintetizador antes também, era uma banda que o lance de ser massa era porque a gente ficava pirando nas músicas mesmo, então as músicas ficaram mais longas. Mas daí quando o Raphael comprou o Moog, e a gente foi gravar o “Lá vem a Morte”, daí a gente pegou essa pira também de sei lá, apareceu um motivo para gente fazer um esquema bem mexidão, com muito uso de pós-produção. E acabou que foi o nosso primeiro disco — a gente já tava indo para esse caminho, rumando para esse lado desde que nós gravamos o “As Plantas que Curam” — só que como o “Manual” a gente gravou um disco ao vivo, tudo analógico, na Espanha, a gente perdeu, entre aspas, um disco com sonorida-

de mais fudida, que era coisa que a gente tava experimentando há horas. Então a gente lançou o “Manual” meio que não era a cara do que a gente tava fazendo, mas que tinha as canções e era massa também, teve o lance de gravar ao vivo, no meio da turnê, primeira turnê nossa, então teve um clima bom também. As músicas que foram compostas no estúdio são as melhores do disco, mas ainda não teve a cara do que a gente tava fritando mesmo. Aí o “Lá vem a morte” calhou que o Rapha tinha comprado o sintetizador, aí deu para dar uma liga maior nessas coisas. A gente tava escutando muito rap, muita música eletrônica e a gente já fritava muito de ir mais para esse lado experimental mesmo, não de ficar solando, mas de ficar criando uma paisagem ora calma ora bem cavernosa mesmo. E o Negão tocava no Macaco Bong, ele sabe fazer o negócio ir para um lado pesado. Então esses nossos improvisos vão ser sempre muito diferentes para quem está escutando, mas para nós a gente tá só viajando, se repetindo entre a gente, mas criando um lance novo até chegar em algo muito legal que vai ser definido quando tiver todo mundo ali parado, tocando a mesma coisa. E isso aí depois vai ser usado em algum outro contexto, sem ser só na jam. Mas nos shows rolam esses free jazz. E é diferente porque muita banda quando vai ficando grande, tocando para mais gente, vai para o outro lado, usa playback. Não que isso seja ruim, a gente sabe a diferença que rolou quando a gente começou a tocar no sintetizador. O peso que isso dá. A partir do momento que você tá tocando para muita gente, você arrisca menos no

seu show, então a maioria das bandas vai para um lado mais seguro. E o lance dos nossos shows é mais a dinâmica do que ficar pancado, linear o tempo todo, meio chapado. A gente curte a dinâmica e isso nos diferenciou muito. A gente bota fé e mesmo com o “Lá vem a Morte”, que não tem tanto o lance do ao vivo, a nossa dinâmica tem uma pegada mais humana.

com coisas complexas mas prontas, sai muito da cabeça deles, eles sabem das possibilidades. E eles moravam juntos, eles desenvolveram um lance muito foda para a banda. O Negão tá tocando junto com todo mundo o tempo todo. Dá os ataques comigo, tá tocando com o Raphael o tempo todo, com o Dinho ele faz toda dinâmica e velocidade da música, então, é foda.

PERDIGA E esse mantra, você acha que em algum momento quando vocês tão tocando vocês atingem alguma frequência maluca?

PERDIGA Bora lá tomar um banho no riacho então!

BENKE Eu acho que atinge, já atingiu várias vezes. O Dinho tem, ele brota com muita coisa e a gente já sabe tocar muito bem junto. É um processo de encaixe, depois de lapidação, mas que hoje em dia não tem muito erro, vai dar certo. Independente da frequência, dá certo. Ainda mais depois de fazer trezentos shows em três anos. E com o Negão a gente tem tocado tanto. E, claro, nós temos esses momentos de epifania, mas o grande lance, que a banda fica conhecida de ser boa de show, é que mesmo se o som tiver ruim, a gente já tá num fluxo e vai ser massa. DAMASIO Tu acha que tu tem

esse papel de ser meio que o editor da parada, que tem que

ficar ali flagrando e já pensando em como transformar aquela jam, enxergar já mais processado?

BENKE Sim, mas também o Dinho e o Negão curtem muito tocar. O lance é como se eu tivesse que ficar enxergando o que rola e deixar as coisas mais sucintas com passagens mais eficazes. Mas eles chegam

BENKE

Bora, uai!

MASTERPIECE (NOT!) POR MARKIMILIAN What is my job, and how do I do it? It’s not easy to explain, but let me try… It starts with a flight from Philadelphia to Austin, a place both distant and strange. Admitting ignorance of Brazilian geography and culture, I imagine the feeling of the Philadelphian in Texas is similar to the feeling of the urbane Paulista who’s inexplicably been plopped down in Amazonas and expected to adapt. This is the feeling of the tour manager at the start of the tour, this is the feeling I feel. From the airport in Austin, I rent a van and drive to the south side of the city where, hidden away in a huge studio complex, there’s a heavy grey closet door. Opening this door, bright rays of sunlight reveal a forgotten stack of amplifiers, drums, hardware, cymbals and accumulated junk. This is the closet of Boogarins, this is where the tour begins. “The woods are lovely, dark and deep, But I have


Circling the arrivals lane at Portland International Airport, illicitly checking my phone for some sign of arrival from the band, I begin to lose hope. Any number of things could have gone wrong. But there’s wi-fi at the airport, I know that for a fact. Any moment a message should arrive announcing their arrival and successful immigration, but the wait goes on, time stands still. Finally a message comes through, “Markin, where are you sweetheart?” I pull the van around again, looking for the four Brazilians on the curb, inevitably tired and underdressed. I make another pass, and finally they emerge from the airport crowd. Dinho with his shirt undone to the navel, Benke in short nylon shorts and flip-flops with socks, Ynaiã in his finest Italian blazer, and Raphael, divinely mustached, with a sleeping mask lassoed around his neck. They haven’t told me yet, but I have a feeling they’re hungry…

“Kakakakakakakakakaka / holy shit man / holy / ass shit” – Ynaiã

Forgive me for carrying forth in an abstract style, but to continue from the end right on to the beginning, the artists themselves tell part of the story: “O man I’m in the line for pizza / but it’s gonna happen soon / they say” – Raphael

“Guys ordered food and we are looking for a place to sit and eat” – Benke

“Markin mi amigo / we need to get some sleep brotha” - Raphael “I guess I can just go to your room and sleep in Raphael’s king size bed too” – Benke

“Kkkk / are you angry Markin?” Dinho “We are in the taco place but it is raining a lot, can you pick us up?” – Benke

MARCELA VASCONCELLOS RAPHAEL BASILIO MAIWSI AYANA CAMILA CARREIRA

“Mark / if you can get me a crazy glue / a strong glue / would be cool” – Raphael

PAULA ZAIDAN VERONICA LINDER GABRIEL SCHETTINI VINICIUS GODINHO LEITE

Snow is falling as the van, equipment and driver careen through the narrow passes of the Oregon Cascades. There’s a show tomorrow in Portland but the band’s still high overhead in a jet plane from Goiás. As the van descends from the mountains, my cell phone signal grows stronger. Civilization approaches, glittering strip malls of Walmarts and Targets rise on the horizon. The flight lands in thirty minutes, no time to lose.

“What we call the beginning is often the end. And to make an end is to make a beginning. The end is where we start from.” – T.S. Eliot

“Markin, tell me when you wake up, I need the van key” – Dinho “Can u guys open the back door pls / Mark are you here? / inside?” – Ynaiã “Where are you / Markin / we arrived / show your butt face” – Dinho

VOID

promises to keep, And miles to go before I sleep, And miles to go before I sleep.” – Robert Frost

LUKA BRANDI LUANA BOUVIE ÍCARO CAVALCANTE VICTORIA CHUNG

“Guys / wait for me / I’m on my way home / to go to the pool party” – Ynaiã


overtakes the light, the dream becomes a nightmare…

get.” His head drops, a sad tear rolls down his cheek.

“Day by day and night by night we were together,—All else has long been forgotten by me;” – Walt Whitman

“Life is as tedious as a twicetold tale, Vexing the dull ear of a drowsy man.” – William Shakespeare

How much does this Chinese buffet cost? Are the noodles hot or cold? Can they squeeze a lemon into my glass? Is the bathroom clean enough to use? Is there wi-fi here? Is there wifi here? Is there wi-fi here?

Why do we do this to ourselves? What is the point? Is the fleeting elation of playing a show worth all this pain and suffering? Do the people really mean it when they clap? Do they actually listen to the record after they buy it? Why do all the interviewers ask the same boring questions? How many miles is it from Spokane to Fargo? How many bananas have I eaten today? Was it this hard for Bruce Springsteen? Is there a Guitar Center in Cleveland? Where can I buy a leather jacket? Is this the beginning or is this the end? Has this tale already been told?

“Last night and today was crazy old man” – Raphael

GABRIEL GALLI CAIO COSTA

“As I told you, Neymar is bullshit” – Benke

FELIPE TAMANHONI LUISA LETTI PEDRO DE ALBUQUERQUE CAROL MATSUBARA

“Markin / are you awake? / how do you feel about trying to find a suitcase for Boogarins?” – Dinho

“Hey Markinnn, are you drunk my ma?” – Ynaiã Life carries on for weeks in this vein, with little variation. The questions are constant, the answers increasingly uncertain. The scenery changes, appetites ebb and flow. Fatigue is constant, ecstasy is met in equal measure by despondence and depression. This is “living the dream,” this is what every child dreams of. But as the landscape passes endlessly by, and one day leads unnoticeably into the next, the darkness

We stop at Walmart to buy socks, muscle relaxers, heartburn medication, indigestion medication, an iPhone plug, popcorn, children’s toys, a Chromecast, bottled water, baby wipes. Dinho is followed through the store by a little old lady who suspects him of stealing. Raphael is eating ice cream. Benke is eating ice cream. Ynaiã is missing, GameStop maybe? We have three hours to drive, we have one hour to get there. The cards are stacked against us. I park the van by a stinky dumpster in a narrow alley, we load the equipment down two narrow flights of stairs into the basement of a restaurant. There’s a platter of cold sandwiches on a table, it’s damp and dark, the PA’s hissing static. We’ve been driving every day for four weeks, we’ve eaten at Chipotle Mexican Grill nineteen times, we’ve eaten at Whole Foods Market twenty-three times, we’ve eaten at McDonald’s and Burger King in moments of desperation and weakness. There is no joy in food, there is only sustenance. Raphael touches one of the sandwiches, a sad expression on his face. “Are we gonna eat?” he asks. “I don’t know,” I answer, “I think that’s all we

But I’m vexing your ear, and for that I am sorry…

era com a moçada do meu bairro, fisicamente. Todo dia ir no ponto de ônibus da Vila Alzira ficar vendo o povo andar de skate, polícia sempre dando baculejo (tomar enquadra). No bando só os apelido forte, Romim, Caveira, Rato, Alemão, Avalanche, Brocas, Kobinha, Véi Burro, Costela, Strups, Blenys (esse era nome, mas tive que botar aqui) Garrafa, mais um monte, só os fiozin de ouro. Todo mundo ligadão nos punk rock, hardcore. Rolava uma cena de umas 3 bandas de punk/hc no bairro, a moçada se organizava fazia umas festinhas/ show nas casas, lembro de um campeonato de skate com banda tocando em cima de um trio-elétrico e ainda 3 edições de um mini-fest chamado rock’n’rua (acho que quase todo bairro com banda teve isso) que rolava em frente do ponto de ônibus da moçada do skate. Eu era badeco (igual piá, guri, moleque) no meio disso tudo, não andava de skate e peguei bem o final disso, porque eu tinha 15 mas o resto da moçada já estava entre os 18-27 anos. Tinha um amigo nosso que fez o começo do ensino médio comigo e tinha 23-25 anos. Eu fui criado na igreja, tocava na igreja, mas saí porque comecei a beber e queria tocar com os meninos.

SAIR DE CASA/SAIR DE MIM? POR DINHO Esses dias atrás me peguei pensando no que me fez ir ver shows quando eu era mais novo, o que me faz gostar de show hoje em dia e se eu consegui o que eu “queria”. Me enfiando nessas tour de 30 show seguidos, sem entender direito o porquê, além do gostar de música eu digo, porque esse lance de sair de casa “pra ouvir/fazer música” em shows definitivamente me afogou nesse trem de música e num tanto de outra coisa. Definitivamente cresci com o lance da Internet. Tenho 24 anos, mas pelos meus 14-15 quando tinha acabado de me mudar pra Aparecida de Goiânia, mesmo usando a Internet, minha relação

Naquela época minha banda Ultravespa foi a última daquela galera, eu era o único menor de idade da banda. O fato de eu ser o mais novo fazia a moçada cuidar de mim, pagavam o ônibus (quando não entrava por trás), pagavam bebidas e o mais importante, e o porquê de eu tá contando isso, pagavam os ingressos dos shows que eu nunca ia ter grana pra ir ver. Noites memoráveis com shows que se tornavam marcantes pela grande aventura que era sair da Vila Alzira de ônibus ás


17h da tarde e voltar andando a pé do Martim Cererê (lugar histórico pro rock independente goiano).

Fazendo isso conheci bandas, muitas pessoas. Esses dias atrás topei um cara que vejo indo em rock há 10 anos e a gente sempre se cumprimentou de cabeça, o bicho lembrou de mim e conversamos sobre shows e tudo mais. Isso é tudo é normal, nada de mais, comum pra muita gente com certa idade pelo menos. O que me faz coçar a cabeça, é ver a moçada mais nova que vai no show do Boogarins, e imaginar como eles dão significado nesse lance de ir em show. O ouvir música, baixar (ou streaming), trocar bandas com amigo pela internet é normal, falo mais desse lance que me pegou, ir em bando pra show, sabe? Mil grau, 14 pessoas criando confusão desde o ônibus pra ir até a hora de voltar pra casa e ter que andar horrores ou dormir na rua pra pra esperar o primeiro ônibus do outro dia. Esses lances deixam a coisa toda marcante, junto com o show e a música. Hoje que tô mais tocando que indo em show mesmo, não sei como é isso, como tá isso, e porra, se a gente vive do tal “fazer música” isso só é possível porque existe essa cultura de ir ver show e isso gera a venda dos bilhetes dos shows que me dão uns trocados pro lazer/laser e ajudar minha família. Hoje em dia tem Uber, povo vai junto/separado, nem sempre as amizades são de bairro, moçada se conecta com os iguais na Internet e pronto. No meio dessa confusão/inovação das relações, a música ainda vence, galera vai em show se comove, tem sede de música e da experiência da performance ao vivo. Isso é bom pra caralho, no meu caso e no da banda, possibilita a gente de viver disso e continuar fazendo essa troca

maluca que é o show, pra todo mundo que conhece ou quer conhecer essa fritura sem eira nem beira que a gente faz. É óbvio que nada muda do dia pra noite e é mais óbvio ainda que se eu tenho uma banda e despejo meus tormentos e alegrias num palco junto com meus irmãos/ iguais de banda, ia achar foda/genial encontrar uns doente que façam as mesmas demências que fiz pra construir minha paixão por música e por essa experiência de ver/ fazer show. A gente foi fazer um show em São Paulo, mas numa parte da cidade que a gente não toca muito (acho que só tocamos uma vez mais perto da região norte, no festival Ubuntu da galera do Lab Fantasma). Fomos comprar um vinho num posto, e passamos numa pracinha, cheia da moçadinha com cara de mais nova, aquele festejo, de repente eles se revelaram fã da banda, uns 8. Pediram pra assinar uns trem, tirar foto e comecei a conversar, fazendo umas piada boba porque fico sem graça. No meio papo um deles solta que todo mundo é do mesmo bairro, que vieram junto de metrô/trem e que eles iam mandar a foto pra um amigo que não pôde colar no show. Eu achei foda demais. Enchi eles de pergunta, falei que fazia igual e depois, no fim do show, mandei um salve pra galera da VG, estilo a moçada do rap. No meio do show encarava os moleque, os olhinho brilhando pirando no show, a menina de olho fechado era a que mais tinha se empolgado. Na pracinha, eu tinha contado que eu fazia igual a eles, ela me ouvia e falava sem parar “é isso, é isso, a gente é uma família”. Aí vou falar que vou/faço show pra ouvir/bater palma. É foda.

Essas conversas dão o brilho da noite. É claro que tem o tocar, o som e várias coisas boas nesse lance de show, mas se encontrar com uns iguais, gastar uma onda e receber de volta, isso é genuíno. Naquela noite o show foi foda, noite de descarrego. Todo show que faço/vejo me clareia ou me atiça umas dúvidas nuns pontos sobre o que é esse lance de mexer com música, isso é bom demais, e vejo esse questionamento como um fruto daquelas caminhadas que eu fazia com os bicho raro da Vila Alzira, do centro de Goiânia até minha casa. Valia/Valeu a pena aquele rolê todo? Acho que ainda nem sei direito dessas porra, mas busco um tanto de valor novo em cada vez que saio de casa pra mexer com esse trem louco da música, e talvez isso seja gostar de show/música/ sair de casa/sair de mim/entrar nos outros.

O MAGO PSICO ATIVO POR MENINO LUCAS E VAMPIRÃO os textos e ilustrações a seguir foram criados pelos autores numa sessao xamânica dentro do programa cibernético flockdraw. a ideia deste experimento era ativar as sinapses afetadas pelo uso de cogumelos oriundos das fezes do cachorro toco e homenagear o jupiter maça e o rubini barrichelli que é o nosso campeão. cerra as aspas e vai pra guerra, kim camilo. tudo começou quando a gente tomou um chá de cogumelo tudo embaçou e pirilinpos muito gostoso o vamp chegou lá com um cogu no primeiro dia deixou ninguem saber exatamente o que seria com quem e onde poderia chegar a latitude dessaaaaa uooooooou que cogu delicioso a gente tomou na manhã pq o mlk é criado no campos de colheita vampirão tomou

seu primeiro cogumelo em 1929 e ai em cima de uma grande explosao todos se manifestaram sob o efeito ou talvez ate o defeito que era o efeito assim passado vai-se-indo atras do grande cacique major boss que provavelmente estava a pintar suas telas sagradas na sauna sarada nos momentos seguintes começou a despedida de psico ja tem um tempo que foi essa historia e não lembro tão bem mas lembro bem do momento que a gente frisado com o paje do pagamento em debito ou credito sob o olhar da lua. entao passando esses somos nós e o benke com sua sombra tudo aconteceu naturalmente sob a luz das estrelas numa noite maravilhosa em


vargem grande estávamos ali ja sob um clima ameno e magistral onde começamos a contar historias sobre a vida e a existencia time to live time to die onde as coisas estão conectadas e ao mesmo tempo não tão é tudo uma viagem da droga vc se sente parte da natureza ai é verdade pq vc tb é a natureza mas quando vc toma um chá parece que vc entra no mundo do sitio do pica pau amarelo e cada pessoa vira um personagem das historias ai de fantasia e nesse dia era eu vampirao e o benke nao sei se eu ja falei mas o benke é indio mesmo e nessa hora da janela a gente e o mago benke videeou o conjunto floral maior eram tres folhas nascendo do mesmo galho (vide imagem) saude paz e sabedoria cada flor representava um ensinamento trazido pelo nosso guia espiritual benke ai que vem a grande questao de que boogarins eh flores que curam e ele tava ali dando varias lições e as flores nascendo ao vivo tempo real live agora voltou quando ele olho pela a webcam fechou mais um cigarrilho defumante que assim seja vieram as palavras dele uma longa jornada ao deserto, um isolamento de um mes que passou pela sua cabeca lembrou do momento que estava vivendo ali e agora. para mais informacoes acesse o site fumaaifilmafumaifilmafumafilma aifumafilmafumando e pita crivando e criva filmando no pito fumegante da coéembarassada — a brasa — embaratada —

quando chegou o guedes a gente filmou fumando muito todas as imagens contidas no filme do boogarins foram feitas a base de entorpecentes pois era o que tinha para

fazer nao tinhamos o animo necessario para prosseguir se nao filmar fumando e pita era uma deitar e recortar e rolar pra uma nova audiencia que não é a necessidade do amoso enrugamento de pele. quando nao havia mais fita de capa enfrentamos uma trilha e embarcamos em mais uma van a mais nova van do trajeto eles dormiam e nós não sabiamos o que era aquilo falamos assim vamos? e sim eles falaram porque nao? vamos! e todos desembarcaram eh voce sabe ne a vida nao eh facil quem disse vampirão dentro da van nos proporcionou uma experiência de som 3d disse a verdade durante essa experiência entramos num e nos deparamos com cenas do filme metropolis alem dos limites da bela van do halen vdam vmasmvsamsv msva mas que tutti buena xente ele pensava se iria mesmo desenbocar mas po irado viado acho que gostaram hein cacique de oxala nao vai desaprovar o novo efeito da onda mais nova onda da galera que será exigida em nota final após o lago transbordar os instrumentos ficaram sob uma nova maré no final da van descendo a casa eu vi jesus na mata mas era soh mata mesmo mas me fez pensar que boogarins plantas que curam me curaram uma bad que eu senti um pouco tempo antes de entrar nessa jorney i li pixadores de açucar mascavo estavam escondidos ali mas sabiam que ele saberia desviar quando necessario todos na casa estavam sob uma vaibe void expressando tudo que haviam adquirido toma tenencia moçada vai fazer ai com o tempo da vida mundana quando lucas fechou seu proximo ciclo de cigarros ele pensou em voltar um pouco mais pois sabia que era necessario as vezes quem cedo clicou nao enrolou mais no dia seguinte aperta um ai aperta mais um ai mas ta acabando ai a entende quanto mais se sugar mais se sujar mais se eh muito louco mutcho louco agora mudamos a dinâmica aqui de grupo focal surubas nao rolaram pois nao deu tempo sabes neh o mundo eh só filma fulmafude nao teve

mal fumantes saimos da van prensacrak best friends mete o louco e vou atras mete o louco mucho loku mochileiro vai atras nao vai vai vai mais porque nao saberas ou talvez ate seja um sinaaaalti me do live time to meet your dog never say hi again to bobby pera ai onde estaria benke nesse exato momento? o bar escritorio era muito sacana pois nao escadaria a dentro era muito apertado lcuas pries tocou uma fita da possessao negro leo deu action lek negro leo

full_category

o almoço foi e sempre sera prospero e saboroso com nossos amigos que estavam cada dia mais empolgados com a transiçao de experiencias passadas em volta ao mundo que cir cim sim cis circulavam round and round como diria boogarins na gringase sentindo como no paraiso só q invertidnte dudas nao piuco pouco despinukations se seidomos. paz filmafumandofilma ai fulma ai filam fumandofuma filmando filma filmado filma ai fuma ai filma ai fuma ai filma filmando fuma ai filma ai fulmando filma fumando filma ai fillma fumando fuma filmado ai filma filmaai fuma filma fuma filme filmando fumando filma ai vamp fuma ai vamp filma ai fuma filmando fuma mais um lucs filma fuma ai luck filma lucas lucs filma ai fiaf fiat

debita ou credita

LOG POR MENINO LUCAS E VAMPIRÃO boa noite faze o log? prazer log uhun time to LOG mas ja eh hora de logar? ja enxeu asa archivada toda? nao mas espaco tem falta conteudo memory is full ja logou a vhs? levou 3h:48 aprox.

maicomia coe vamp vamo fuma ou tem que loga vamo ai viado loga lugando ou pita crivando io cabo da vhs ta ruim eh cartao dois hande credito

vamo ai uppa nenen supleyyyyyyyyyyyyyyyyyyyyy yyyyyyyyyyyyyyyy forca:

LO _

qual a palavra? cabeça-tronco-braço-perna outro braçoSTKFR (x) perdeu ~ valendo: 01 churros com barricheli lot of caipirinos emrson are you here? drink some quexos con my muxaxo toko toko ainda achou que tu nao tinha logado nao é brincadeira logou todo dia né certinho tu dormia com o log pra proteger o log ne abraçadinho acaricias maresia corroi o LOG e marcoriba? gosta de log? o log fala por nós oq é o log pra vc? ele varia depende do dia as vezes é uma variação de portas 2.0 ou 3.0 o log tava passou paciência e responsabilidade o log te ajuda a conseguir


dinehrio poder e sexo? somente com mulheres? pq? quando tu conta que tu faz um log ela fala oq? responsável mais maturidade log é paz ja perdeu algum log? por enquanto ainda nao mas sempre pode ser que aconteça né uma questão de chance vários quesitos

descuido-

TRANSCRIÇÃO AVA

Foi super legal vir encontrar a galera aqui.

PERDIGA Vocês já estavam nesse encontro, né. Já tinha rolado uma gravação com o Dinho. AVA

É, ele foi gravar no meu disco. A gente admira um o trabalho do outro. O Leo com eles, eu com eles. A gente criou uma identificação com os meninos e a gente começou a se encontrar muito em festivais, em situações. E a gente começou a se falar, porque a gente gosta do som um do outro. Enfim, e aí eu acho o Dinho um compositor incrível. Ele acabou me dando essa música. O Benke mandou essa música do Dinho pra escutar, e eu achei maravilhosa. Eu e o Leo escutamos e a gente ficou maravilhado com a música. E aí eu falei, eu quero gravar e tal. E é isso. Ele veio tocar no disco. E agora a gente tá aqui.

PERDIGA Hoje, a onda ali foi muito no improviso. AVA

É a primeira vez que de fato a gente se encontra pra tocar. Só sentar e tocar, porque no corre, nos encontros, a gente não tem muito esse tempo. A gente já tava com muita vontade de fazer isso.

PERDIGA É bom fazer sem pressão, sem compromisso.

AVA

É gostoso fazer assim, só encontrar e tocar. Acho que a gente se gosta bastante, se admira. Eles tem um trabalho muito bonito, o Dinho é um poeta incrível, toda sonoridade da banda, todos os meninos são fodas. Me inspira bastante, gosto muito de acordar e botar eles pra tocar na vitrola. kkkkkk

PERDIGA Quando você chegou, você acabou falando muito da casa e do que está rolando, do fato de parar e se isolar para tocar. Você já teve alguma experiência parecida, de parar, juntar em uma casa pra tocar? AVA

Dentro de uma casa, ficando e dormindo acho que não. Já rolou de maneira natural, sabe. Ir pra um lugar, com determinadas pessoas e sair dalí com várias criações, acaba acontecendo coisas, e tal. Mas, de uma maneira assim, com um foco mais específico, não rolou. Mas eu fiz recentemente uma residência com o Negro Leo, na Colômbia, em Bogotá, à convite de uma banda chamada Os Toscos. A gente ficou 3 semanas mergulhados em uma residência. A gente se encontrava em uma casa, que era um espaço de show lá, Matik-Matik, que também é um selo de música de vanguarda colombiana. Então, a gente se encontrava muito lá, e gravava, e compunha. Mas era uma coisa, como diz o nome da banda, mais tosca. E a gravação meio tosca também. E ai, a gente vai lançar um EP, agora, só com músicas em espanhol.

PERDIGA É engraçado você falar do tosco, acabou que a gente estava em um processo de gravação analógica por ali, que traz muitas vezes outras texturas e ruídos, o que pode ser interpretado como algo mais tosco, mas também fortalece um caminho de assumirmos o erro e as imperfeições de ferramentas. Você acha, que esse tosco e uma despretensão pode ser um lugar de encontro entre você e os Boogarins? AVA

Eu acho que sim. Acho que eles estão no mesmo

processo inventivo, poético. Acho que as coisas não precisam necessariamente parecer, pra ter uma identificação entre si. Acho que um som não tem que representar o outro, eu acho que as identificações se dão pelas singularidades e pelo devir inventivo. Eu acho que eu me interesso muito pelo que os Boogarins fazem pelo ponto de vista do processo, das edições, mas de fato eu ainda não explorei isso na minha música. Eu explorei no cinema, bastante. E me interessa muito. E poeticamente, me interessa bastante também. Eles fazem um som que é diferente, eles são uma banda, então é uma sonoridade maravilhosa, enfim, é diferente um pouco do que eu faço, mas tem vários encontros. É o interesse inventivo dentro da música brasileira, da liberdade de transcender essa coisa brasileira, também. Estamos no mundo, mas somos Brasil, mas somos o mundo também. Enfim, todas essas coisas que terminam se somando. Acho que tem isso, pelo meu lado, eu me interesso por todo tipo de som. E eu poderia estar, poderia, porque ainda não fiz e não sei se farei, mas eu poderia estar ali, sendo uma integrante do boogarins! kkkkkkk sei lá, eu acho que eu me identifico totalmente com o som deles embora eu realmente não faça exatamente o que eles fazem, isso é o que eu to tentando dizer.

PERDIGA Que demais, o que você achou dessa experiência de improvisar com eles. O que rolou ali. AVA

Eu adorei, achei super legal. A gente tava pela primeira vez tocando, uma coisa também diferente, porque é aqui na residência. Eu tava tentando fluir no som, a gente tava tentando conversar e criar um diálogo,

porque essa coisa do improviso também é uma coisa assim, né. A gente tava ali tocando junto, sei lá. Tava ali sentindo, tentando mergulhar ali nos sons, tentando imaginar canções, fazer uma coisa, produzir sons, sei lá, minha cabeça variava muito. Horas eu ficava improvisando, horas eu pensava em umas palavras que me vinham, alguma melodia que me aparecia. Mas, foi natural, a gente sentou pela primeira vez, nesse primeiro encontro e acho que a gente se deixou fluir com a liberdade de cada um.

PERDIGA Talvez tenha criado uma matéria prima para um novo encontro. AVA

É tomara, tomara.

TONHO É uma maneira de conversar, ali na música, entre vocês. E eles estavam ali processando, seus vocais, em algum momento. Você se sente tomada naquele momento. Como você se sente. Porque você estava intimamente envolvida naquele momento. Como você lembra disso? AVA

Acho que são momentos. É como uma repetição. Você vai praticando uma repetição, é como um mantra que você tá num ato de inventar uma canção, uma melodia, ou ser um instrumento, no meu caso, vocal. Não simplesmente tá produzindo um som. E eu vou naturalmente, isso vai me conduzindo naturalmente para um estado de conexão, de concentração, em um estado. E isso varia, isso pode variar ao longo de um improviso, ou de um show, isso pode variar ao longo, ou não. Você tá em um momento de sensibilidade, em que você tem que buscar essa conexão para se inspirar. Não é um processo fácil. Mas, muitas


vezes é um processo simples, parece que você já tá pronto. Outros momentos, não. Outros momentos, você tem que trabalhar, você precisa de um estado para entrar naquilo. Aqui, por exemplo, a gente foi, começou, eu fui entrando, em vários momentos eu senti que eu entrei, mas foi isso, ao mesmo tempo, é ali, sei lá, eu não sei explicar.

AVA

TONHO É um fio muito sensível, você conecta e se desconecta.

Vocês gostaram do som?

AVA

É, exatamente, você pode se desconectar. Mas, acho que eu fiquei bem conectada, na verdade. Eu me perguntava, eu não sabia, eu tava ali num estado, eu tava procurando um estado, não sei também, eu fiz ali o que me veio. Eu tava ali, tentando entrar na onda, no fluxo, entrar na história, na comunhão entre todo mundo. Eu gosto bastante desses momentos. Eu crio bastante assim. Já fiz muitas músicas e canções que foram frutos de sessão como essa. Acho que o Dinho fez isso hoje, né.

TONHO Você falou ali, que teve uma música que você gravou assim, em um show. Que você começou a cantarolar, e a banda foi levando. Em uma passagem de som. AVA

Ah, Joana d’Arc. Na verdade, eu já tinha feito um pedaço dela na saída de um show do Negro Leo no Mundo Pensante, em São Paulo. A gente tava na saída, e a gente começou, pá, e aquilo ficou na minha cabeça. Aí, quando a gente tava na passagem de som, eu puxei. Aí, o Marcelo veio e fez uma coisa. Depois, eu encontrei a minha cunhada em um café da manhã e cantei uma parte e ela completou. E a música ficou pronta. Foi isso, eu fui levando, tinha uns pedaços e umas ideias. E essas duas pessoas fizeram comigo, que é o Victor Hugo e a Gabriela Carneiro da Cunha.

PERDIGA Quando você chegou aqui, você trouxe algo específico, ou foram coisas que já te acompanham.

Hoje, eu talvez tenha feito coisas que eu nunca fiz, mas acho que eu não preparei nada. Mas, eu tenho meus escritos, meus poemas, minhas ideias. São coisas, que é isso, eu já trago. Mas tem coisas que eu fiz só hoje, que a gente fez só hoje. Porque é isso, tava toda a galera criando aquele som. Improviso tem isso.

PERDIGA Alucinante. Entra-

mos no fluxo também fazendo as imagens. Rolou.

AVA Dá cola né. E foi muito

legal que o Lcuas veio, que o Manso veio. É uma galera que faz som muito próximo com a gente. O Manso tá produzindo meu disco agora, mas só vou lançar ano que vem. juntou uma turma bacana.

PERDIGA Bora acordar o Leo. POR FEFEL ***

DEUSIMAR EM CIMA DA PONTE COM O CORPO INCLINADO. A CABEÇA DE GOLFINHO EMBAIXO DO BRAÇO. OS QUATRO OLHINHOS OLHAM O RIO. (((ao som de forever dolphin love))) É DEUS MAMÃE Eu posso vou e sou o gozo infindável impossível alegórico. Não sou daqui já que ninguém é e as histórias que me contam são versões da mesma bosta o silêncio é o fim o começo o caminho de tudo. Tenho desenhado mapas tenho cruzado atalhos tenho nadado com tanta intensidade como nunca mais o fiz. E tenho sono; das rotas imaginadas quero a quietude que chamo

de prazer. Essa ponte que eu só atinjo pela tangência. Concreto levitante mamífero marinho choque molhadinho. É deus mamãe é deus mamãe é deus mamãe é o mar. Mamo pra dormir. Os objetivos frustrados esqueci mesmo quais eram? A palavra não se propaga na água ela só preenche os espaços onde não existo mas algo insiste. Se algo insiste do alto da glória dessa ponte eu me jogo e esse jogo é um jogo de morte. Tanto faz agora se a encontro pois se a encontro eu a perco alguma coisa eu sempre perco e mesmo tanto faz. Os fantasmas que me guiam é deus mamãe é deus mamãe. Os sonhos não me enganam eles me envolvem me seduzem me afogam mas não enganam não prometem nada. Nada nada nada nada nado pra sair nada até chegar mas onde se há problema pra alguém não é pra mim. Dirão viu o rapaz que teve um caso de morte um caso de marte? Meu caso é com o mar eu saboto minha morte sendo deus e mar o maior filho da puta um mamífero marinho. Mantenha a esquerda nas esquinas molhadas nas correntes geladas sem sunga quem nunca. Os choques e as cócegas sinto sim sinto muito é tudo bem longe dessa queda vagarosa…

***

…“O rio leva vida e traz morte, pequeno, há que ser atento”… Deusimar tinha os pulmões cheios de água, depois dos três quilômetros de correnteza braba. Já estava ciente do afogamento e tentava pescar na memória como aquela ideia errante dos mamíferos aquáticos tinha se apossado vagamente dos seus devaneios. A lorota de que o Rio das Almas era assombrado por fantasmas foi o começo dessa aventura sem objeto, amarrada ainda pelos mistérios banais da puberdade e pela falta de experiência de um corpo fraco e angustiado… “O rio leva vida e traz morte, pequeno, há que ser atento”… Almas, tudo estava muito claro, no nome. Já no seu, a mãe tinha juntado as duas coisas que ela mais

gostava no mundo, “deus e mar”, dizia baixinho com a mão no umbigo. Ele se sentia pequeno pra tanta pomposidade. Mas pensava grande: mamãe, na sua sabedoria instintiva, desenhara um destino turvo porém muito certo… E quando, na madrugada morna de Rialma, acordava com uma ereção insustentável, lembrava de erguer a cabeça pra respirar e pensava se os mapas fluviais estariam certos, se tinham outros braços aquele rio, se o mamífero que o chamava e o mamava de noite existia de fato. Nem se parecia mais com aquele menino de anos antes, um miúdo entre os tantos outros que tiveram as vistas perturbadas com a chegada das embarcações dos turcos. Eram tão enormes que mal cabiam dentro do rio. Os rialmenses imaginaram que a luta por um lote na terra fértil de Ceres estava tão disputada, que as notícias corriam no além-mar, muito mais longe do que as Minas Gerais. Mas depois de um mês com o barcão estacionado, percebeu-se que nenhum estrangeiro queria fixar moradia e trabalhar na lavoura. Eram feirantes. Só deixavam o navio pra ir à feira comercializar peixes exóticos, comprar toneladas de arroz ceresino e estocar dentro da embarcação, que, em tempos de cheia, ficava até pequena perto da turbulência das Almas. As prefeituras de Ceres e Rialma viviam no impasse, os prefeitos chateados porque não podiam cobrar imposto de quem morava no rio, que na época era água de ninguém. Foi aí que os turcos ganharam a licitação pra construção da ponte velha. Deusimar foi o único que temeu pelos seus conterrâneos; pensou em algo irremediável, com obra de tal magnitude — “um pouco de coragem ou disposição, eu sei lá” —, porque as coisas não deviam ser assim, cômodas, pra um povo tão corajoso que viajou a pé de Minas Gerais pra chegar em terra nunca prometida. Ninguém ligou pra sua opinião:


— Estão cansados, menino, de cortar as correntes das almas, nadar com um sacão pesado na cabeça. — E esse povo turco veio do mar, sabem dessas coisas de ponte… Um orgulhinho crescia tão rápido que nas assembleias falavam até em asfaltar a avenida da cidade. Foi na feira que Deusimar teve seu intestino delgado sacudido pela primeira vez e a sensação de doença, que viria a se instalar nos próximos anos, o fez corar as faces. Depois de atravessar o rio a nado e se enxugar nas plantas artificiais pra não alagar a avenida principal, sua atenção se dirigiu à barraca dos estrangeiros. Uma atração um número um evento definitivamente acontecia ali: um turco envolto em pisca-pisca anunciava, em português escasso, as recém-chegadas banhas de peixe-boi: “Bom pra sopa, pra alimentar galinha e pra esquentar do tempo frio que tá pra chegar. E olha que na beira do rio as coisas esfriam de verdade! Nós mesmo viemos fugindo na frente do frio.” Deusimar chegou perto, desavisado, e puxou um fio que vinha do tanque escuro. Levou um choque leve intenso que tremeu até a espinha do pé. E o turco: “Ê, menino, é peixe-elétrico! Vamo levar?” Deusimar ficou tão aturdido que tirou todo o dinheiro da bolsa impermeável e comprou o bicho. Mas pediu pro turco manter o animal no tanque, que ele buscaria depois. “Tão tá”. A sensação ao voltar pra casa foi absurda. O menino não entrou na água e decidiu pegar o táxi-boat fiado. Era a primeira vez que atravessava o rio assim. Na calça, carregava uma intumescência indisfarçável e sentia uns tremeliques no intestino, a cabeça avoada, olhando pro céu, que nem viu quando chegou. Fez o percurso de ida e volta mais duas vezes e só então percebeu que quem guiava o bote era um outro turco, que anotava satisfeito, com um risinho contido, o nome de

Deusimar na caderneta com o valor 5 viagens. Marina nunca vira o filho naquele estado, seco, sem o saco de arroz recém-colhido e com os olhos tão fundos que parecia um adulto. Engasgado, ele foi direto pra banheira. A cabecinha pré-adolescente foi tomada por tamanha clarividência que o banho durou 2 dias. Formou-se uma fila paciente no banheiro e Deusimar saiu de lá com muitas conclusões, olhando as moças de toalhas, as leitoas no quintal, as cabritas que gemiam apaixonadas, debruçadas na cerca viva do estabelecimento. — Manhê, quem é o pai? — Cê é filho do boto, meu amor! — E é? E isso aqui é puteiro é? — É casa de tolerância e restaurante. Entramos na dinâmica do bom funcionamento do município. Atônito e lúcido, saiu o garoto, com um aquário na mão, rumo à barraca turca, pra buscar seu peixe. *** DEUSIMAR BARBADO PARADO NA BARRACA DO TURCO, SEGURANDO UMA CABEÇA DE GOLFINHO

TURCO: — E aí, rapaiz, comeu

o peixe? Silêncio TURCO: — E aí, rapaiz? E o peixe-elétrico? DEUSIMAR: — Comi, tô comendo. TURCO: — Gostoso né? Choque molhadinho, dá um soninho suave. DEUSIMAR: — Às vezes até vontade de sumir, sumir não, de se diluir sabe… TURCO: — Sei como é. DEUSIMAR: — Sabe não. TURCO: — Sei. Silêncio DEUSIMAR: — Tem uns anos agora. Desconfio que isso vai mal; o pau descabelado, uma queda na voltagem, as escamas pelo ralo. TURCO: — Hein? Silêncio DEUSIMAR: — Isso aqui é o quê? É boto?

TURCO: — Uai, primo do boto,

lá do mar. É tipo boto, só que do mar, mais inteligente. Chama golfinho, chegou hoje, dentinhos bom de serra, multiuso. DEUSIMAR: — Do mar? TURCO: — Do mar. Silêncio DEUSIMAR: — Dizem que é perto né… TURCO: — Pertinho, toda semana vamos lá buscar besteira. É só manter a esquerda a vida toda, nas correntes mais geladas. DEUSIMAR: — É DEUS MAMÃE. ***…“O rio leva vida e traz morte, pequeno, há que ser atento”… Depois do acontecimento, pêlos cresciam em todo seu corpo e Deusimar virou um homão arisco, pronto pra quebrar qualquer cliente que reclamasse na fila do banheiro sobre as longas noites que ele passava com o peixe-elétrico. Foi aí que começaram os sonhos de afogamento. Deusimar só conseguia dormir na banheira, sentia choque até desmaiar e, quando a cabeça ficava submersa, o gosto das ondas salgadas tomava de forma vaga sua respiração. O sono de repente ficava rarefeito e então surgia o tal mamífero, o arrastava e mordiscava o seu pé e o convidava a ir mais fundo numa brincadeira um tanto séria. O garoto botava a cabeça pra fora, antes do mergulho fatal, e via que aquele riozão azul não tinha margem não tinha costa, era tudo um deserto de água salgada. Ele acordava com um suspiro fundo, numa experiência arrependida de quase morte. DEUSIMAR EM CIMA DA PONTE COM O CORPO INCLINADO. A CABEÇA DE GOLFINHO EMBAIXO DO BRAÇO. OS QUATRO OLHINHOS OLHANDO O RIO. Foi um monumental salto de ponta. A cabeça afundava na água e cansada, ouvia baixinho de um lugar remoto, abafado e espaçado, da ponte mesmo talvez, as primeiras conversas:

— rapaiz, soube do fi da marina da barranca? — a puta? — o rapaiz doente doidinho, né…? — fugiu, rapaiz, nadando parece, diz que foi pra Bahia. — pelo rio? — né muito longe não. e ele é bom nadador… — acho que os turcos fizeram a cabeça dele. — ouvi dizer que mau pulou quebrou a cabeça na pedra e morreu. — rapaiz, quando menino, teve um tempo, antes da ponte velha aí, que ele ganhou uns três campeonatos de natação de rio. Modalidade cabeça fora d’água. — rapaiz, ele é bom, mas nesse rio das almas diz que tem até peixe-elétrico! — ouvi dizer que ele criava um peixe desses, na banheira, rapaiz, pensa… — será que vive?


106 LEITURA NÃO RECOMENDADA PARA MENORES DE 18 ANOS.

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