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D’Araujo

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Enquanto Deus Dormia

São Paulo 1ª Edição - 2009

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Enquanto Deus Dormia

Copyright ©2009 – Todos os direitos reservados a: D’Araujo

ISBN: 978-85-7893-364-7

1ª Edição Outubro 2009 Direitos exclusivos para Língua Portuguesa cedidos à Biblioteca24x7, Seven System Internacional Ltda. Rua Luís Coelho 320/32 Cerqueira César São Paulo – SP – Brasil CEP 01309-000

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Colaboradores: Capa: Vinicius Yagui, Anna Patrícia de Melo Silva. Revisão de texto: Erika Isabel Tiago, Vivianne Visintini.

Agradecimentos: Meus sinceros agradecimentos, a todos aqueles que direta ou indiretamente, contribuíram para que este projeto se tornasse uma realidade. E aos meus três queridos filhos, Anna Patrícia, Raniery Marlon e Agda Priscila, que muito me auxiliaram por toda esta trajetória.

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Sobre o Autor: Antônio de Araújo Silva (D’Araújo) é pernambucano e nasceu na cidade de Ouricuri, em 27 de Fevereiro de 1963. Filho de camponês saiu do nordeste aos dezenove anos e veio para São Paulo, em 1982. No final de 1982 foi para o Rio de Janeiro onde morou durante dois anos, entre 1983 e 1985. Reside desde 1990 em São Bernardo do Campo é separado e tem três filhos. Formado em: Fotografia pela Associação de São Bernardo do campo de Belas Artes. Naturopatia Massoterapia, Reiki e Terapias complementares, pela Humaniversidade Holística de São Paulo. Iridologia aplicada à diagnose. Pela, A.N.B.A.T.H. Associação Nipo-Brasileira de Acupuntura e Terapias Holísticas. Reiki Master: Método Usui shiki Ryoho: pela Escola Tradicional de Reiki Mikao Usui. Fitoterapia. Pela Fundação Herbarium. Atividades que desenvolve atualmente.

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Sinopse: Com a história toda contextualizada na vida simples do homem sertanejo, e focada na cultura nordestina, O Romance, “Enquanto Deus Dormia” relata a trajetória de um pacato cidadão, chamado Saquarema da Silva, que vê sua vida virada pelo avesso, depois que ele é procurado por dois anjos, que pretendem provar para o “Criador” que dar o livre arbítrio ao homem foi um erro. Então eles veem para terra, e para provar sua tese eles convencem o Saquarema á passar uma temporada na capital, aonde ele vai se deparando com os conflitos e os desafios da cidade grande. Eles percorrem as situações mais perversas praticadas pelo homem usando-se do livre arbítrio. E conforme se dá o confronto com esta realidade, mais se acentua a disparidade de valores éticos e morais. Abordando com imparcialidade o descaso político, o preconceito racial, e a difícil relação do ser com a corrida frenética pelo poder e o sucesso a qualquer custo. Trazendo de uma forma leve e divertida as mais cruéis formas de convívio social, entre os homens.

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Sumário Capítulo um: A chegada dos anjos. Capítulo dois: A chegada a Capital. Capítulo três: As promessas. Capítulo quatro: O Assalto. Capítulo cinco: A chegada de Politério Capítulo seis: A chegada de Gaubileto. Capítulo sete: O tão desejado encontro. Glossário

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Capítulo um: A chegada dos anjos Caro leitor, aqui começa a mais louca das aventuras vivida por um caipira chamado Saquarema da Silva. A história que contarei a partir de agora, aconteceu com um pacato cidadão, no sertão Nordestino. O seu Saquarema da Silva era um sujeito simples, porém, destemido, um homem acostumado ao trabalho árduo e sem motivos para reclamações. Tinha por volta dos seus quarenta e oito anos, mas o tempo e o trabalho incansável não lhe foram muito generosos, pois aparentava ter mais de sessenta anos. Morava em uma casinha simples no Sertão, sob um calor escaldante de trinta e oito graus na sombra. Com sua esposa Jovelina e seus dois filhos Joaquim Francisco e Joseilma Maria. Jovelina era uma mulher simples que passava basicamente o dia inteiro ocupada com seus afazeres de casa. Joaquim Francisco era um rapaz trabalhador, com seus vinte e dois anos e na flor da juventude, mais que enterrado naquele fim de mundo, não lhe sobrava tempo para muita coisa a não ser a lida interminável com seu pai na roça. Joseilma Maria uma jovem bonita com 18 anos vistosa de cabelos longos e negros como as velhas noites do sertão, um belo sorriso, mas como todos que ali moravam sempre castigados pelo tempo. Passava a maior tempo auxiliando sua mãe nos afazeres de casa, mal lhe restava tempo para viver seus desejos e necessidades da doce juventude. Viviam do pouco que conseguiam colher, num lugar onde a chuva costumava ser pouco freqüente e também de alguns bravos animais que resistiam quase que desafiando a ordem natural da vida. Estes animais se resumiam em alguns porcos, cabritos, galinhas e as lustrosas vacas Moxa* e Estrela que serviam mais de companhia do que para produzir leite. Seu transporte diário era o seu lustroso Jegue Juleão e como guarda tinha o seu fiel escudeiro fuça-fuça, um cão vira lata que 12


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tinha um porte elegante e vistoso, era de cor negra igual as noites da caatinga do sertão nordestino. Em uma manhã escaldante, provavelmente, do mês de setembro, parecia que tudo seria como todas as manhãs anteriores, em que seu Saquarema levantava-se antes do sol nascer. Como é de costume naquela região, onde se começa cedo o trabalho e se descansa ao por do sol, ao se levantar vai ao terreiro, apanha um pouco de lenha e acende o fogo para fazer um daqueles cafés que, certamente, esse povo grã-fino da cidade grande não se arriscaria a tomá-lo. Mas, por algum motivo, o seu Saquarema, naquele dia, não fez como de costume, que era acordar seu filho Joaquim para lhe ajudar na roça, pois estava preparando a terra na esperança de plantar nas primeiras chuvas, se é que aquele não seria mais um ano de seca. Tomou seu café que mais parecia um engrossante*. Com um pedaço de beiju que era mais velho que seus calos, então ele chamou seu fiel cachorro fuça-fuça, pegou a sua velha espingarda calibre vinte, o bornal e sua cabaça com água, e seguiu pelo seu velho e batido caminho, no qual ele poderia andar de olhos fechados, pois sua propriedade era pequena, além de muito judiada pelo tempo. Por algum motivo ele sentia que aquele dia não seria igual aos outros e talvez conseguisse algo de novo, mesmo assim, pegando algumas veredas, se embreou na caatinga, onde até lagartixa pensaria duas vezes antes de entrar. Fuça – fuça como já sugere o nome, não deixava escapar uma moita sem que procurasse algo para seu aprecio. Depois de algumas horas explorando a caatinga, sem achar nada que lhe valesse a pena gastar seu chumbo, seu Saquarema parou em uma sombra de uma formosa e gigantesca baraúna, de tronco grosso e algumas raízes expostas que lhe serviam de assento. Pegou sua cabaça, uma pequena cuia, e bebeu um pouco de água, que nesse momento, parecia mais um caldo ardente. Calçado com uma velha alpargata de couro surrado, seus pés latejavam feito brasa. Tirou seu chapéu de palha e encostou-se com a sua cabeça no tronco da baraúna. 13


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De repente, viu como se fossem duas estrelas cadentes cortando o céu por cima da gigantesca baraúna, que foram parar a uns duzentos metros à sua frente. Seu Saquarema não era caboclo de sentir medo, mas, naquele momento, sentiu um leve calafrio. Levantou-se num pé só. Passou a mão em seu chapéu e exclamou: - Minha Nossa Senhora, que diacho* é isso, homem de Deus! Seu cachorro saiu em disparada fazendo uma debandada. O barulho que o cachorro fazia era tão grande que se houvesse alguma coisa deste mundo, naquele lugar, com aquele barulho todo, pensou seu Saquarema, certamente ele já teria se danado no meio do mundo. No entanto, apesar da curiosidade, e do susto ele não teve muita pressa em chegar ao suposto local onde caíram os supostos objetos, além do que, poderia ter sido apenas uma alucinação, devido à grande caminhada e o intenso calor. Então ele disse: - É, mas deve ser algum corisco*, ou sei lá o que. Afinal o fuça - fuça tinha saído a todo vapor na mesma direção do suposto local da queda dos objetos. Ouvindo o latido do cachorro, que mais parecia um grunhido de medo, se aproximou e avistou uma clareira na caatinga e bem no meio dela, duas pessoas. Essas pessoas deixaram o cachorro muito agitado e seu Saquarema, ainda espantado e com os olhos arregalados, foi devagar e com certa cautela em direção àquelas duas criaturas. Passou a mão no seu velho chapéu de palha e o retirou da cabeça, benzeu-se, e de olhos esbugalhados, exclamou: - Valei-me meu Padin-Pade-Ciço, que diacho é isso, que eu nunca tinha visto ninguém cair do céu. - Eita diacho*! Que deve de ser assombração! Danou-se, e agora? Vendo que o cachorro tinha se acalmado seu Saquarema resolveu se aproximar; desconfiado e rasteiro, como um gato rodeando sua presa, ele foi chegando aos poucos, sem qualquer pressa, cada vez mais perto, quanto mais se aproximava, mais confuso ficava. Até que conseguiu avistar dois homens.

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Um deles tinha a pele branca e cabelos longos e lisos. Sua aparência era delicada e seus traços finos. Vestia uma roupa clara. Devido ao seu pouco conhecimento seu Saquarema não conseguia distinguir exatamente qual era aquela cor, tão diferente de todas as que ele conhecia no sertão. O outro era uma figura meio esquisita. Tinha a mesma estatura do primeiro, a cor da sua roupa se confundia com a própria pele escurecida e ao mesmo tempo avermelhada, quase que um tom de ferrugem. O cabelo era ainda mais estranho que sua cor, a barba toda desigual, hora lisa, hora encaracolada, e além de tudo aparentava ser um sujeito muito impaciente, pois gesticulava e esbravejava o tempo todo como se estivesse inconformado com aquela situação. De fato, notava-se que a decida deles não havia sido muito agradável. Chegando mais perto, seu Saquarema podia ouvir o sujeito de aparência estranha, esbravejando enquanto o outro permanecia sereno, como se estivesse indiferente às suas lamentações. - Olha aqui esse negócio não está certo, porque toda vez que nós temos que vir aqui eu tenho que subir para acompanhar você. Da próxima vez eu vou reclamar com o meu patrãozinho e se achar ruim, você desça sozinho, ou se não, arrume outro que lhe acompanhe. Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaii! Será que eu não posso nem fazer um comentário de nada que o patrãozinho já fica zangado! Disse o sujeito esquisito, levando a mão ao rosto como se fosse um animal feroz e ao retirá-la havia um vinco em sua testa que descia até o pescoço. Seu Saquarema teve um breve calafrio, suas pernas tremiam igual vara verde, seu coração não batia, mas galopava em seu peito. Com os olhos arregalados e sem piscar ele tentou se aproximar, o único problema é que estava em um possível estado de hipnose, imóvel, mal respirava direito e para completar, fuçafuça também estava assustado e acabou vindo sorrateiramente por trás dele, roçando levemente em suas pernas. Nesse instante seu Saquarema deu um salto acompanhado de um grito de pavor: - Meu Padin-Pade-Ciço! Ajuda-me, que dessa vez eu tô lascado! 15


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Pálido, notou que estava ao lado das duas criaturas e sentiuse em uma reunião de assombração. O sujeito de aparência estranha era uma verdadeira maritaca neurótica, após alguns instantes virou-se para seu Saquarema e espantando-o e porque não dizer desesperando-o, falou: - Olá seu Saquarema! Não precisa ter medo não. Porque nós estamos aqui para falar com o senhor mesmo. Aquelas palavras encheram seu Saquarema de medo e num impulso inesperado, com a voz gaguejante e trêmula perguntou: - Oxe*! Espere aí. Como é que o senhor sabe meu nome? Eu nunca vi criaturas tão esquisitas em toda minha vida. Afinal, de onde vocês vieram e o que querem comigo? Olha aqui meu senhor eu não devo nada a ninguém, nunca mexi no que é dos outros, compro tudo que preciso com meu dinheiro, que não é lá muita coisa, cumpro com todo o meu dever direitinho e trabalho feito burro de carga para dar de comer a minha família. Pra começo de conversa, vocês estão em minhas terras e vem dizer que querem falar comigo! Nesse instante seu Saquarema lembrou-se de que com a pressa ao sair do tronco da baraúna ele acabou esquecendo a bendita espingarda e o bornal, sem saída resmungou: - Eita molesta*! Como é que eu vou me esquecer da peste da espingarda justamente agora? Para seu maior espanto o sujeito disse: - Que é isso seu Saquarema, o senhor não vai precisar dela não, estamos aqui em paz e se o senhor se acalmar, explicaremos tudo da melhor maneira possível. Está bem? Disse seu Saquarema, agora mais espantado e confuso: - Agora se danou tudo! Você lê até pensamento, é? De onde você é? Virgem Maria! Eu devo estar sonhando. Onde já se viu um sujeito esquisito que lê até pensamento? E por falar nisso seu moço, acho que posso lhe chamar assim, não é mesmo? Por que de mais perto, vejo que você ainda é um moço, mas, por favor, qual é a sua graça? Ou será que não recebeu nenhuma? Porque pelo jeito, tudo em vocês é muito estranho. - Não, não seu Saquarema, meu nome é Gaudêncio e este aqui é o Anjo Saladino. 16


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- I xi*! Por que anjo? Você está querendo me dizer que ele é um anjo? Anjo daqueles que tem asinha e tudo mais é? - Isso mesmo seu Saquarema. - Você está variando moço, anjo só tem no céu. Então, ele lembrou-se das estrelas cadentes que havia observado cair do céu e exclamou: - Virgem Maria! Agora eu fiquei maluco de vez. Olhou para o lado e viu que o seu cachorro fuça-fuça estava deitado bem calmo, coisa difícil de acontecer. Então, Gaudêncio, uma das criaturas falou: - Calma seu Saquarema, vamos nos sentar um pouco lá onde o senhor estava, por que assim poderemos conversar melhor. Seu Saquarema perguntou a Gaudêncio: - É esse que você disse que é anjo? Esse anjo não fala não? Por acaso ele não tem língua, ou é calado assim mesmo? De volta à velha baraúna o sujeito começa a explicar para seu Saquarema o motivo pelo qual eles vieram até a terra. - Bem seu Saquarema, o senhor ouviu falar a vida inteira no céu e no inferno, pois então, como eu falei anteriormente o patrãozinho, ou seja, o fundador do inferno verificou que estamos com um problema de excesso de pessoas por lá e, diga-se de passagem, todos são pessoas inúteis, então, o patrãozinho está tentando junto ao... Nesse momento houve uma pequena pausa. Seu Saquarema sem compreender bem o que estava acontecendo perguntou: - Por que o moço não terminou o que estava falando, hem? Ao se deparar com esta pergunta Gaudêncio pede ajuda ao Anjo Saladino. - Ah! Saladino me ajuda aí, afinal, você sabe das consequências. Saladino com sua calma espantosa respondeu: - Bem seu Saquarema ele está tentando dizer que o patrãozinho dele “está tentando junto ao Criador...”. Sem perder tempo o seu Saquarema foi logo interrompendo: - Oxe! Diacho ele não fala de uma vez, ora...

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Capítulo dois: A chegada a Capital -Eita Peste! Essa foi de lascar eu mesmo garanto para moço que é a primeira vez que vejo falar em um anjo matuto e analfabeto. Vixe! Essa eu não vou esquecer nunca. Saladino respondeu: - Bem seu Saquarema, agora o senhor não é mais analfabeto. - Pronto só me faltava essa você toca em mim e eu viro anjo e ainda por cima alfabetizado, na mesma hora. Olha moço não é por nada não, mas eu acho que esse negócio não vai dar certo não. - Porque o senhor acha que não? Perguntou o Gaudêncio. - Já estou começando a achar que não foi muito boa essa ideia de virar anjo, vai que me acostumo e aí depois como é que vai ficar hem? Saladino logo tranquiliza seu Saquarema dizendo: - Não se preocupe tudo acontece em seu devido tempo. - Olha Gaudêncio, é melhor a gente começar aqui pela capital, assim ele vai se acostumando. Então seu Saquarema arregalou os olhos e disse: - Espera aí, o senhor disse que nós vamos para a capital, é? Saladino responde: - Isso mesmo seu Saquarema. - Oxe! O senhor acha que eu vou para lá desse jeito? Quando voltou os olhos para si, ele levou um baita susto, pois não estava com a mesma roupa que tinha saído de sua casa. - Eita danou-se! Que diacho vocês fizeram com minha roupa, hem? Saladino lhe perguntou: - O senhor não gostou da maneira como está vestido? - Não, não é isso, moço Saladino. É que ninguém sabe onde esta roupa começa e onde termina, não é mesmo? Mas não deixa de ser bonita, não sabe. Uma coisa é certa, que ela é esquisita isso é.

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Saladino explicou ao seu Saquarema: - Lembre-se seu Saquarema seu único obstáculo é o seu próprio desejo que também é seu transporte. - Oxe! Eu não entendi nada o que o senhor quer dizer com obstáculo, hem? - Bem o senhor transpassará qualquer objeto, parede, porta, montanha, árvore e conseguirá estar em qualquer lugar que desejar. Em alguns instantes seu Saquarema simplesmente desapareceu e Gaudêncio exclamou: - Não falei para ter cuidado com o que iria falar? Você sabe que ninguém consegue deixar de experimentar as virtudes de ser um anjo! Só falta agora depois de tanto trabalho nós perdermos o nosso homem! - Você não tem jeito mesmo, não é Saladino? Sempre metendo os pés pelas mãos. Daqui para frente deixa que eu cuido dele, está bem? Da mesma forma que havia desaparecido seu Saquarema reapareceu com um sorriso no rosto e um semblante de felicidade dizendo: - Eita minha Nossa Senhora! Não é que esse troço funciona mesmo. Já estou até gostando dessa história de ser anjo. Com jeito de poucos amigos, Gaudêncio dirigiu-se até seu Saquarema e disse: - Lembre-se seu Saquarema, com o pensamento se vai longe, mas o regresso pode não ser tão gratificante. Como Saladino havia lhe dito antes, seu único obstáculo são seus próprios desejos, ou seja, o senhor só transpassará qualquer objeto se for sua verdadeira vontade e da mesma forma, só estará em determinado lugar se for o seu desejo, entendeu? - Vixe*! Que depois dessa voltinha que eu dei lá em casa, ficou fácil seu moço, inclusive acho que assim invisível, as coisas podem ser boas pra mim. Sem cerimônia Gaudêncio retrucou: - Nem pense nisso, pode esquecer, as suas virtudes acabarão se forem utilizadas dessa forma.

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- Danou-se! Eu tinha até me esquecido que os moços leem pensamentos. Mas será que eu não posso nem fazer uma visitinha para poder testar se as coisas funcionam mesmo? - Seu Saquarema, controle suas emoções, porque nós temos muito trabalho pela frente e o tempo não passa para o senhor, mas para mim e o Saladino o tempo voa. - Oxe! Eu não entendo se parou para mim, por que não parou para vocês, hem? Gaudêncio responde: - Bem seu Saquarema, no seu caso, é uma necessidade e para nós é uma tarefa muito difícil. Como estamos esclarecidos, vamos ao trabalho. Só mais um lembrete, neste nosso primeiro deslocamento, nosso desejo será também o seu. Lembre-se de que o senhor pode vê-los e ouvi-los, mas não será visto ou ouvido, no começo vai estranhar depois se acostuma. Pronto para começarmos seu Saquarema? - Vixe! Que eu estou prontinho da silva. E num breve espaço de tempo lá estavam eles em plena capital, em um daqueles dias, porque não dizer infernal, onde o trânsito é uma tortura permanente, as faixas de pedestres abarrotadas de pessoas sempre com muita pressa e onde seus semelhantes são tratados apenas como mais um número estatístico e não como pessoas. Saladino então virou para o lado, e lá estava seu Saquarema de olhos arregalados, estatelado, pasmo e inerte feito uma estátua. Vendo isto Gaudêncio perguntou: - Algum problema com o senhor seu Saquarema? Gaguejando ele respondeu: - Arri égua! De onde saiu tanta gente e para onde esse povo todo está indo? Até parece procissão, mas eu não estou vendo nenhum andor e todos estão calados. - Não seu Saquarema. Não é uma procissão, estão quase todos indo para o trabalho, outros vão ao médico ou resolver os seus problemas diários. - Eles andam todos juntos, mas ninguém fala com ninguém. Oxe! Que coisa esquisita.

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- De fato o senhor está correto, o que acontece é que a maioria destas pessoas faz o mesmo trajeto todos os dias, compartilhando o mesmo caminho. Seu Saquarema, aqui na cidade grande é muito diferente do interior. Os homens aos poucos foram perdendo o calor humano. Aqui a luta pela sobrevivência virou uma batalha diária. Cada um defende seu espaço a ferro e fogo, independentemente de qualquer valor humano. - Moço Saladino, me diga uma coisa, por que o Criador não resolveu isso de uma vez por todas? Afinal, se todos são feitos a sua imagem e semelhança, como é que ele deixou seus filhos chegarem nessa desgraceira toda, homem de Deus? - Olha, de fato, ele criou todos iguais, mas também lhes deu em igualdade, inteligência e sabedoria para que todos traçassem seu próprio destino, por isso ele deu a todos o livre arbítrio. - Livre o quê? Perguntou seu Saquarema: - Livre arbítrio, ou seja, a qualidade de todos poderem resolver seus problemas, individuais e coletivos sem a interferência do Criador. Afinal, ele tem todo Universo para cuidar, por isso existem os que divulgam e proclamam as suas leis, para que todos conheçam o caminho da verdade, cabendo cada um segui-lo ou não. Ao perceber que Saquarema não estava mais ao seu lado, Saladino virou-se e lá estava ele atravessando uma velhinha no meio da avenida. Havia um barulho infernal de buzinas, roncos de motores e gritos dos motoristas e as pessoas que ali passavam gritavam indignados, imaginando porque uma senhora daquela idade atravessaria a avenida com tamanha irresponsabilidade, podendo causar um grave acidente. Ao chegar do outro lado da avenida, lá estava Gaudêncio e Saladino, furioso a sua espera, e foram logo dizendo de forma orquestrada juntos: - Nunca mais faça isso! Poderia ter causado um grave acidente e o senhor sabe muito bem que não pode interferir no curso normal da vida! Seu Saquarema respondeu com certa indignação: - Espera aí! A mulher estava do outro lado, e ninguém queria ajudar a coitada a atravessar a rua, esse povo dentro do 21


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carro se acha dono do mundo. Alguém tinha que fazer alguma coisa. Não é mesmo? Em um tom meio irritado, Gaudêncio tenta mais uma vez esclarecer algumas regras para seu Saquarema: - Seu Saquarema. - Diga o que foi dessa vez? - O senhor está vendo aquelas listras pintadas de branco no asfalto? - O moço falou listras brancas no quê? - No asfalto, ou vamos simplificar, na estrada, está certo? - Vixe Maria! É mesmo! Porque eles colocam esse monte de listras? Mas esse povo da cidade grande é cheio de frescura. Não é mesmo moço? E apontando para um semáforo, Gaudêncio diz: - Não é frescura não seu Saquarema, isto se chama faixa de pedestre. O senhor está vendo aquelas luzes? - Sim, claro que estou. - Então preste bem atenção só por alguns segundos... O senhor viu? Quando aquela luz fica verde, os carros passam e quando o bonequinho fica verde, aí os carros param e as pessoas passam pela a faixa com segurança. -Me explique direito, o moço Gaudêncio está me dizendo que eu posso me esgoelar de pedir pra passar por ali que ninguém vai parar? Mas a luz vermelha ascende e todo mundo para. - Isso mesmo seu Saquarema, - Eita!Que ficou todo mundo doido. - Não seu Saquarema, isto é bem simples para eles que já estão acostumados. Respondeu Gaudêncio. - Aqui entre nós seu moço, que costume desgraçado é esse? - Olha, vou lhe dar um exemplo simples. - Como assim exemplo simples? - Na sua casa o senhor deixa seus filhos saírem pela janela? - Claro que não! Janela não foi feita para sair de casa, ora, pra isso tem a porta, além disso, alguém pode levar um tombo e se machucar. -Viu como eu tenho razão? - O quê? 22


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- Isso é uma regra de segurança; para você atravessar no meio da rua, usa-se a faixa. Entendeu? Seu Saquarema coçou a cabeça, fez ar de quem não entendeu nada, mesmo assim disse: - Bem acho que o moço tem razão. De repente, seu Saquarema se dá conta da selva de concreto ao seu redor e de queixo caído e boquiaberto, perguntou: - Que é isso aí moço? Aconteceu tudo tão de repente, que agora é que eu tô vendo todas estas coisas, mas que diacho é isso? Esse monte de cisterna uma em cima da outra? - Cisternas? Pergunta Gaudêncio: - É seu moço. O meu compadre Gumercindo tem uma dessas lá no sítio dele, serve para guarda água da chuva, mas a dele é dentro do chão. Por que eles fizeram esse monte? Gaudêncio responde: - Não, não seu Saquarema. Isto aí são edifícios. - São o quê? Pergunta o seu Saquarema. - Edifícios, casas, é assim que a maioria das pessoas moram aqui na cidade grande. - Minha nossa senhora! O moço está dizendo que mora todo mundo assim, um em riba do outro. Ôxe! Que aí tem alguma coisa errada. - O que seu Saquarema? Pergunta novamente Gaudêncio. - Mas como é que eles... Como é que eu vou falar? É... É... É... Com as necessidades deles? Como é que eles fazem hem? - Ah! Todos os apartamentos. É assim que se chama esse tipo de moradia, seu Saquarema. Todos têm banheiros. - Banheiros? Não precisa responder não. Eu já sei. É aquele quartinho com aquele troço redondo, não é? Lá na casa da comadre Dalvaneia, em Quitimbu, tem um troço esquisito deste que o moço está falando, mas falando em esquisitice... Vendo que o Saladino não estava ali com eles, seu Saquarema pergunta: - Cadê o Saladino, virou fumaça? Gaudêncio responde: - Ele foi resolver alguns pequenos problemas que surgiram. 23


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- Mas o moço não disse que só veio para ver como estavam as coisas por aqui, num é mesmo? - Tem algumas providências a serem tomadas. Vamos que nós temos muito que fazer por aqui. Bem seu Saquarema, vamos ver como anda a noite neste Paraíso. E, sem perder tempo seu Saquarema, foi logo dizendo: - Vôte!* Se isso aqui é o Paraíso, o moço vai me desculpar, mas quando eu morrer, eu quero é distância deste lugar. - Não fale assim seu Saquarema, por que há muitas coisas boas por aqui. - Não estou entendendo o moço, pois está fazendo propaganda contra o seu patrãozinho? - Não é isso não, apenas estou sendo sincero, por exemplo, aqui as informações são dadas em tempo real. - Ôxe! E o Anjo Gaudêncio acha que o que agente fica sabendo lá em Quitimbu não é verdade? Por acaso, é tudo mentira? - Não seu Saquarema, quando eu falei em tempo real, não estava me referindo a verdadeiro ou falso. Era em relação à rapidez, ou seja, é que a notícia é dada quase no momento do acontecimento. - Vixe! Vocês complicam tudo, mas vamos andar, porque como dizia o profeta: cobra que não anda não engole sapo. De repente seu Saquarema se vira e grita: - Valha-me meu Padin-Pade-Cíço e Nossa Senhora Aparecida! Que marmota é esta? De olhos arregalados e cara de espanto, ele pergunta: - Pelo amor de Deus seu moço Anjo, pode me dizer o que diacho é aquilo, hem? Então como que por encanto o Saladino surge ao lado de seu Saquarema que lhe diz: - Até que enfim, homem de Deus, eu pensei que tinha me deserdado. Mas voltando ao assunto, os senhores podem me dizer que marmota do cão é aquilo? Gaudêncio responde com certo ar de deboche: - Mas seu Saquarema, vai me dizer que o senhor fez os seus três filhos e nunca fez sexo. Seu Saquarema um pouco nervoso responde: 24


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- Olha aqui seu Anjo coisa ruim você não está vendo que a coisa ali é meio esquisita? - Ah! Desculpe seu Saquarema é que por um instante eu esqueci que lá onde o senhor mora não é comum pessoas do mesmo sexo viver juntas. Assim, como casais normais. Neste instante seu Saquarema fez o sinal da cruz, benzendose e indagou: - Eita Molesta! O senhor Anjo está dizendo que esses dois... Vixe, Nossa Senhora! Como é que eu vou dizer... Está certo. Aqui na cidade grande dois homens podem viver juntos, assim, Ave Maria, meu Padin-Pade-Cíço, igual a marido e mulher o senhor seu Anjo enlouqueceu de vez, foi? Gaudêncio então tenta explicar da melhor maneira possível toda aquela situação para o seu Saquarema: - Não seu Saquarema, eu não estou louco, aqui na cidade grande, os tempos são outros, isto é a modernidade e o progresso. Na verdade isso sempre existiu só que as pessoas não ficavam sabendo. Como já era de se esperar, seu Saquarema, indignado, foi logo respondendo: - Olhe aqui moço, o senhor Anjo está é doido. Tudo bem que o senhor é secretário do “coisa ruim”. Afinal, para dizer que toda vida isso acontecia, o senhor Anjo Gaudêncio está é variando. Se isso fosse lá a Quitimbu, e eu estivesse com minha peixeira cortaria os documentos desses sujeitos safados e jogava para os gatos. O seu Anjo Saladino vai me dizer que o Criador está sabendo dessa pouca vergonha, que é uma safadeza e que num tomou nenhuma providência? Eu não acredito numa coisa dessas. Então Saladino com sua sabia paciência de sempre respondeu: - Seu Saquarema, o senhor precisa entender que nem tudo que se fala em nome do Criador é a verdade absoluta. O senhor lembra quando lhe falamos sobre o livre arbítrio? - Claro, livre o que mesmo? - Livre arbítrio, seu Saquarema, o homem é senhor de suas decisões, o Criador não interfere na liberdade do homem, pois ele é livre para escolher o seu caminho e seguí-lo. 25


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- Oxe! Agora lascou tudo mesmo, até o Criador perdeu o juízo, foi? - Cuidado seu Saquarema, não julgue para não ser julgado. Respondeu Saladino, imediatamente. - Arri molesta, e eu tô julgando, tô? Espera aí, logo quando vocês chegaram com aquela conversa mole para me convencer, disseram que eu tinha sido escolhido para ver o que estava errado, não foi seu Gaudêncio? - Sim, foi seu Saquarema. - O senhor também concorda comigo? Perguntou a Saladino. - Claro seu Saquarema, plenamente. - O que foi que o seu Saladino, disse mesmo? - Que concordo totalmente com o senhor. - Pois então, comece a anotar no seu caderninho. - O quê?! Exclamaram Gaudêncio e Saladino. - Vixe! Vocês têm um miolo só e até para perguntar os dois falam de uma vez? Então anotem aí, por que essa eu vou perguntar pessoalmente, ao Criador. Afinal, eu sou anjo ou não sou? - É sim seu Saquarema. - Não disse que os dois têm um miolo só? Vixe. - Por quê? O senhor está vendo algum erro tão grave assim? Respondeu Saladino. - Agora o seu Anjo Saladino desentupiu o canal da fala, foi? Em vista do que era está parecendo até uma matraca. E nervoso Gaudêncio perguntou: - Afinal, o que é que o senhor quer que agente anote, pois está nos enrolando há um século. - Oxe! E o seu Anjo Gaudêncio está avexado, é? Mas o senhor disse para mim que o tempo não conta. Por que se avexou assim de vez, homem de Deus? - Epa! Acho que o senhor está confundindo as coisas. - Ave Maria, que meu Padin-Pade Ciço me proteja. Por que agora baixou o capeta no anjo. Tudo bem, não precisa ficar parecendo uma brasa não, olha seu Saladino, eu já estou achando que esse tal de “coisa ruim” não deixa de ter certa razão... 26


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Capítulo Três: As promessas Dona Jovelina, como sempre, responde com toda calma do mundo: - Eu é que sei? Não sei de nada não, mas eu nunca o vi tão avexado assim. - Eita! A prosa está boa, mas estamos nos esquecendo da hora, desse jeito nós vamos perder nosso compromisso. Injuriado seu Saquarema responde: - Oxe! Agora já é nosso compromisso é? Pelo que eu saiba até agora o compromisso era seu, o meu único compromisso hoje era comprar uns badulaques, mas pelo jeito nem isso vou poder fazer, porque o senhor só fala nesse tal de deputado e não pegou nada do que eu preciso. - Isso a gente resolve já. O senhor não vai fazer essa desfeita aqui com seu amigo Zé, vai? - Oxe! Que desfeita eu só estou querendo o de sempre, ou seja, comprar minhas coisas. O senhor é que está com esse lenga- lenga e não faz nada. - Está bom, me dê a lista do que vocês precisam que eu mando a Maria das Graças e a Joana ir pegando para o senhor. - Eita bubônica!*Não disse? É mesmo o fim dos tempos. - Agora lascou, toda vida o senhor trouxe a lista. Que diacho tem que hoje eu não posso pedir para o senhor me dar a lista? - Não é isso não, seu Zé. - Então que diacho é homem de Deus, fale? - Eita homem aperreado da peste! Pelo o jeito esse homem lá da capital, serviu para alguma coisa. Seu Zé, então, pergunta: - Para quê seu Saquarema? - Oxe! O senhor não deixava a coitada da Joana botar o pé na bodega para os rapazes não botar os olhos grandes nela e agora acabou de dizer que ela vai pegar as minhas coisas, não é? - É seu Saquarema, os tempos mudaram, mas também não foi assim da água para o vinho. Eu estou fazendo isso porque com 27


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esse evento aqui eu não ia ter tempo de limpar tudo sozinho e eu tenho certeza que o senhor não vai querer levar para casa coisas roídas pelos ratos, ou vai? - Oxe! Os ratos já deram com o caminho da sua dispensa, é? - Não seu Saquarema, mas é só deixar juntar sujeira e embalagem furada que o senhor sabe, logo começa a aparecer inseto. Afinal, não são só os meus fregueses que comem as coisas da minha dispensa, minha família também se alimenta dela. - Claro seu Zé e é por isso que eu compro as coisas com o senhor por dez anos, não é mesmo? - É e espero ter o senhor aqui por muito mais anos, se Deus quiser. - Mas está bom, já que dona Maria das Graças e Joana vão pegar as coisas, Joseilma fica aí para ir arrumando tudo. Jovelina, Joaquim Francisco e eu vamos a esse tal de comício. - Oxe! A dona Maria das Graças não vai? - Não dá seu Saquarema, eu não posso fechar a bodega e deixar a freguesia sem nada, o senhor sabe que hoje todo mundo vem fazer sua feira e eu não posso deixar as pessoas esperando, não é mesmo seu Saquarema? - Vixe! O senhor tem toda razão, vamos logo, se não eu só saio daqui de noite. - Que é isso homem, lá vai ser ligeiro*, o homem tem muito compromisso; ele só vem fazer uma presença e mostrar suas ideias e projetos para nós. - Vixe, aí é que mora o perigo. Então, seu Zé impaciente com aquela conversa sem muito resultado retruca: - Arri égua*! Que homem mais desconfiado, que diacho de perigo você está falando? - Oxe! Esses homens letrados quando começam a ter ideias é só para tirar alguma coisa da gente. O senhor mesmo não fala que sempre aparece uma novidade na tal dificuldade do Júnior? - Seu Saquarema não é dificuldade, é faculdade. - Está bem eu já sei, mas dá tudo na mesma, como ia dizendo toda vez que os letrados têm uma nova ideia, quem se lasca é o compadre Gumercindo. 28


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- Oxe! Que conversa mais doida é essa desse homem? Como é que os homens lá da capital iriam prejudicar o Gumercindo? - Toda vez que eles inventam uma ideia nova, o compadre é que tem de vender mais uma vaca para custear as despesas com o Junior. - Ah! Que é isso Saquarema, eles têm que modernizar cada vez mais os seus equipamentos e se o dinheiro não for dos alunos, vai ser de quem? - Oh! Seu Zé é isso que não entra nos meus miolos. - O que seu Saquarema? - Oxe! O Junior toda vez que vem para cá fica lamentando; por que o compadre Gumercindo gasta o que tem e o que não tem para ele se formar doutor, enquanto os filhos dos fazendeiros e dos políticos aqui da região todos estudam de graça? O senhor acha isso certo seu Zé? - Claro que não seu Saquarema. Mas é por isso que nós devemos votar em um homem assim letrado, inteligente e que conhece os nossos problemas. - Eita e os que estão lá não são não, é? - É seu Saquarema, mas esse é diferente. O senhor Dr. Prefeito conhece e confia nele e se senhor dr. Prefeito confia eu também confio. Finalmente, depois de uma pequena pausa na conversa, Joaquim Francisco exclama! - Sei não seu Zé... - Eita molesta! Seu filho fala? Vixe! O mundo vai mesmo se acabar. -Nós estamos a mais de duas horas aqui conversando e o bichinho agora que desencantou, espero que não seja para falar bobagem. Vamos, fale meu filho. - Oxe! Eu não sei não, mas o Junior sempre falou que o senhor dr. Prefeito e os que ele sempre apoia só querem mesmo é nosso voto, porque nunca fizeram nada para nós. Claro que este pequeno comentário do Joaquim Francisco foi suficiente para irritar o seu Zé que logo foi respondendo com veemência. 29


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- Eu sabia! Esses jovens de hoje em dia, não têm o que falar, então eles arrumam um jeito de falar uma besteira. Por favor, seu Saquarema, o senhor não deixa esse menino de amizade com o Junior não. - Eita! Agora acho que o senhor enlouqueceu de vez. Oxe! Homem, esses meninos foram criados juntos e agora só por que o Junior vai ser um doutor advogado, o meu menino não pode mais ser amigo dele? - Ora essa seu Saquarema, não é isso, o negócio é que... Olha aqui não espalha, nem fala que foi eu que falei não, pelo amor de Deus. - Oxe! Que molesta o seu Zé tem para falar de tão grave. - Olha aqui, o senhor dr. Prefeito e os amigos dele aqui em Quitimbu sempre comentaram que o Junior do Gumercindo depois que foi estudar lá na capital, virou comunista. - Vixe Maria! Homem, o senhor falou comigo o quê? Isso é doença feia, é? - Pior que isso seu Saquarema, o senhor dr. Prefeito falou, que nos lugares onde tem esse tal de comunismo, eles tomaram conta de tudo o que era do povo. Lá as pessoas só têm direito a casa para morar. O senhor já ouviu falar nos papa-figo?* Isso mesmo, são eles. - Ave Maria, valha-me meu Padin-Pade-Ciço. Vixe! Aquele que come criancinha é? - É isso mesmo, seu Saquarema. - Oxe! O senhor está é doido. O Junior é um menino estudioso, amoroso com os pais, como é que de repente ele ia virar a cabeça desse jeito seu Zé? Então seu Zé faz mais um comentário que deixou seu Saquarema preocupado. - Isso são as escolas e as cidades grandes seu Saquarema. Lá eles aprendem o que não presta. - Eita molesta! Será que o compadre Gumercindo já sabe disso? Ele precisa tomar uma providência em quanto é tempo. - Que é isso, ele certamente já sabe. Mas ele é pai e por mais que o filho erre, estará sempre com ele.

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Novamente Francisco entra na conversa, o que já começou a deixar o Zé nervoso. - Olha aqui seu Zé, o que o Junior me falou desse tal de comunismo não foi bem isso que o senhor dr. Prefeito disse para o senhor. - Olha aqui, acho que é melhor você continuar como estava, de boca fechada para não falar mais besteira, está bom? Então seu Saquarema trata de acalmar os ânimos. - Oh! Não é por nada não, mas acho melhor nós irmos logo para esse tal de comício. - Isso mesmo, seu Saquarema. Olha Maria da Graça, você mais a Joana peguem os mantimentos do seu Saquarema e confiram tudo. - Estava até me esquecendo do Juleão! Olha o senhor me arruma uma bacia com água para eu dar para o Juleão? Se não o bichinho vai morrer de sede nesse calor da molesta, não é mesrmo seu Zé? - Está certo seu Saquarema, mas vê se tem cabimento um jumento se chamar Juleão. Isso é uma blasfêmia. - O que foi que o senhor disse seu Zé? - Nada seu Saquarema, estava só pensando alto. - Oxe! Eita homem do pensamento alto da moléstia! Vê lá o que o senhor anda pensando, por que vai acabar se lascando, não é mesmo? Então, seu Saquarema deixa escapar uma leve olhada para dona Maria das Graças. Sem perder tempo seu Zé logo desconversou, dizendo: - Vamos lá seu Saquarema e olha aqui Francisco pelo amor de Deus, não me fala nesse negócio de comunista lá não, se não tudo vai se acabar com você sendo preso e pagando o pato pelos os outros. - Eita peste! Parece que esse tal de comunista aí não é uma pessoa muito boa não. Vixe! Que toda vez que o senhor fala nisso arregala os olhos como se tivesse vendo o cão. Já estou até achando que tem caroço nesse angu. Seu Saquarema dirigindo-se ao Joaquim Francisco diz:

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- Quim, como nunca se sabe o que pode acontecer, é melhor você ficar calado e só ouvir o que o homem fala. Depois quando o Junior voltar, nós tiramos esse negócio a limpo, não é? Com toda calma do mundo, Joaquim Francisco respondeu: - É pai o senhor tem razão, melhor a gente deixar para esclarecer isso depois. Não é mesmo? - Então vamos lá porque eu já estou ficando aperreado com essa conversa sem resultado. Seu Zé logo diz: - Também seu Saquarema o senhor fala como se tivesse que andar uma légua para chegar lá na praça. - Oxe! É lá o tal de comício? - Pronto e aonde deveria ser seu Saquarema? - Não me diga que é na calçada da Igreja? Ora, veja só, esse homem, não respeita nem a casa de Deus, fica fazendo essas heresias do lado da casa de Deus! - Olha aqui, seu Saquarema, não é heresia é comício... Chegando onde se encontrava uma pequena multidão, claro que de acordo com a população de Quitimbu, seu Saquarema comenta a situação. - Eita seu Zé, não é que a coisa aqui está animada? Até o Ciço da Zabumba* está aí, isso vai pegar fogo! - Olha aqui, o homem pode até não prestar, mas a festa aqui pelo jeito vai ser de lascar. Olha só isso Francisco, você já viu tanta franguinha* num lugar só, não é mesmo? E não é que de repente o seu Zé resolveu “cutucar o cão com a vara curta” *, como se costuma falar naquela região. - É mesmo seu Saquarema, mas com todo respeito, o senhor tomou as providências direitinho para que a sua não viesse. Não foi? Com ar de quem não tinha gostado do comentário, seu Saquarema responde rapidamente: - Oxe! O senhor deu agora para faltar com o respeito pela filha dos outros, foi? - Oxe! Que isso seu Saquarema, eu disse com todo respeito. - Eita! Agora é assim, é? 32


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- Assim o quê? - Oxe! Primeiro o sujeito pede licença e depois mete o porrete? - Que isso seu Saquarema, foi só uma observação besta. - Pois então, guarde suas observações bestas para o senhor, porque eu não gostei, não sabe? - Oxe! O homem ficou nervoso. - Olha aqui seu Zé, o senhor sabe muito bem que o sujeito pode falar o que quiser da minha pessoa que eu não me importo, mas se mexer com minha família eu viro um bicho. - Eita moléstia! Que homem ignorante, ficou nervoso com uma besteira dessas, enlouqueceu foi? - Está bom, vamos esquecer o acontecido e se achegar porque eu acho que o doutor lá, já está falando. Então seu Saquarema faz um breve retorno da história, dirigindo-se a Gaudêncio. - Olha seu Gaudêncio esse homem fazia um barulho, pois gritava mais do que uma maritaca com dor de parto! - Epa! Seu Saquarema, maritaca é um pássaro e pelo que eu sei pássaro não dá cria. - Oxe! Também você repara em tudo, homem, não vê que é só uma maneira de falar? Gaudêncio de maneira irônica responde: - Olha! Não é que o senhor já está pegando o jeito do povo da cidade grande? - Oxe! Seu anjo “coisa ruim” está ficando maluco, é? - Por que seu Saquarema? - Oxe! Deus me livre de ficar assim como esse povo todo esquisito, não dá nem se quer um bom dia para os outros, parece até que estão sozinhos no mundo. - É seu Saquarema, isso acontece por causa da vida na cidade grande; as pessoas vão perdendo os pequenos valores. Impulsivamente seu Saquarema pergunta: - Oxe! Ainda por cima, esse povo perde dinheiro também, é? - Eita! Não é isso não seu Saquarema, quando eu digo pequenos valores é só uma maneira de falar, porque as pessoas 33


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aqui não falam um bom dia ou como vai sua família? Essas coisas que aos poucos vão deixando as pessoas indiferentes à vida dos seus amigos, vizinhos, etc. - Vixe! Agora o seu anjo “coisa ruim” falou pouco, mas falou bonito. - É seu Saquarema o senhor se lembra do que o nosso candidato tanto prometeu lá em Quitimbu, hem? Diga-me. - Eita! Que se eu lembrasse e fosse falar agora a metade do que o doutor prometeu, vixe! Nós teríamos conversa para mais de um mês, não sabe? Será que eu me esqueci de alguma coisa importante? Eu acho que não, mas tem uma coisa que eu preciso contar. - O que foi seu Saquarema? - É que quando eu estava perto de acabar com a falação, ele disse mais o menos assim: Se eu for eleito, esse generoso e humilde povo de Quitimbu, não terá mais fome, vou trazer financiamento para o senhor Prefeito dr. Flores belo fazer escola, hospital e ninguém aqui nesta região vai mais sofrer ou deixar suas casas por causa da seca, porque eu trarei irrigação para essa região, nem que eu tenha que ir buscar água no inferno. Então seu Saquarema pergunta ao Gaudêncio: - Por falar nisso, o senhor anjo “coisa ruim” o viu por lá, viu? - Lá aonde seu Saquarema? Agora eu não entendi. - Pronto agora deu mesmo. Oxe! Lá no inferno ora! Onde mais haveria de ser, seu anjo “coisa ruim”. - Pronto! Só me faltava essa, o senhor já ouviu falar alguma vez que alguém com vida tenha ido ao inferno buscar alguma coisa e depois voltou a terra para contar a história, viu? - Oxe! Não é isso não seu anjo “coisa ruim”. É que faz tanto tempo que o Doutor foi eleito e até hoje ele não chegou com a irrigação lá em Quitimbu. Foi por isso que eu de fato achei que ele tivesse ido buscar a água lá no inferno, sabe. Se bem que ele deveria ter ido, por que só assim o diabo aproveitava e ficava com ele lá; assim ele deixaria de ser um mentiroso safado, não é mesmo seu anjo?.. 34


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Capítulo quatro: O Assalto - Olha, até que enfim o senhor anjo tem a mesma opinião que eu, não que é mesmo? Mas com certeza o Gaudêncio entende disso, afinal, lá no inferno a música deve ser bem diferente, não é mesmo? - É! Responde Gaudêncio: -Mas numa coisa eu tenho que concordar com Gaudêncio, como é que essas pessoas conseguem tocar vários instrumentos todos juntos sem errar uma única nota, não é mesmo muito esquisito? E com sua sutileza de sempre, Saladino responde: - Trabalho e dedicação seu Saquarema tudo feito com prazer, amor e arte. Sem perder tempo Gaudêncio interfere: - Pronto eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia começar com esse discurso de grã-fino. Olha pode parar por aí, porque eu não estou com paciência para suas recomendações. - Valei-me meu Padin-Pade-Ciço! Será que eu ouvi direito? Seu Gaudêncio está dizendo que seu Saladino era um grã-fino, quer dizer um homem rico? - Bem seu Saquarema, agora que já comecei não tem mais jeito. - Epa! Epa! Jeito de quê? Pode desembuchar, não vem com lero-lero não. - Olha Saladino eu sei que o acordo era não falar sobre nenhum de nós, mas agora não tem mais jeito. - Ah então tem acordo para esconder a verdade de mim, é? Não estou gostando disso não. - Não é esconder a verdade seu Saquarema, apenas ficou acertado que não seria comentado nada sobre a nossa vida, porque isso não tem importância. Trataríamos apenas dos problemas a que viemos resolver. Acho que o senhor consegue entender que não deveríamos misturar o que eu ou o Gaudêncio fomos antes de sermos anjos, afinal, nós temos muitas coisas para fazer ao invés 35


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de ficar gastando tempo com coisas que não irão nos ajudar em nossa missão. - Epa! Pode não ajudar vocês, mas para mim é mais que importante, afinal pode me fazer entender melhor as coisas, não é mesmo? - É seu Saquarema, o Saladino era um milionário antes de ser anjo. - Pronto! Eita que explicação mais ligeirinha não, com essa sua grande explicação eu fiquei sabendo menos do que eu sabia antes, não é mesmo? - Eu prometo ao senhor que assim que nós terminarmos a nossa missão, diremos tudo que o senhor quiser saber a nosso respeito. Apenas não vamos misturar as coisas do passado, com os nossos problemas atuais, porque elas poderão influenciar na sua maneira de entender os fatos atuais. Está bem?- Pergunta Gaudêncio para o seu Saquarema. - Não está tão bem assim, mas se não tem outro jeito vou fazer o quê? Não pense que eu vou esquecer, viu? - Certamente eu sei que o senhor não vai esquecer. - Vixe! Valei-me minha Nossa Senhora que diacho é isso homem? - O que seu Saquarema? O que foi dessa vez? - Arri moléstia! Vocês não estão vendo não, é? - Ah está bem! Isto aí é a periferia, onde você pode ver todo egoísmo e desrespeito ao direito do ser humano. - Mas seu Gaudêncio, isso é um ninho de cobra da moléstia. Como é que esse povo vive montado um em cima do outro desse jeito? Nem rato lá na roça vive assim. Vixe! Eles vivem assim, com tanto espaço nesse mundo, porque diacho eles ficam todos exprimidos, hem? O senhor seu Saladino pode me dizer, pode? - Olha seu Saquarema, como eu poderia lhe explicar. Vamos dizer que é uma mistura de necessidade, escolha ou única alternativa. Mais uma vez Gaudêncio faz um de seus velhos e contundentes comentários. - Que é isso Saladino, não tente melhorar a situação. Porque você não fala de forma clara e precisa, uma vez que não admite 36


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que a divina criação não tenha saído tão divina assim. Você sabe que tudo isso é puro egoísmo, falta de sensibilidade, solidariedade e ganância. Levando o ser humano a se aproveitar de certas necessidades dos outros, escravizando-os e submetendo-os a condições cada vez mais difíceis para que elas próprias esqueçamse dos seus direitos de igualdade, tanto financeiro, educacional e cultural e cada vez mais venha a se submeter aos caprichos dos que só visam seu próprio progresso... - Eita molesta! Que agora o anjo “coisa ruim” se arretou de vez. Arri égua! Ele desembuchou toda sua ira, não é mesmo? O senhor não vai dizer nada não seu Saladino? Vai deixar o homem dizer esse monte de coisa, sem falar nada? - Espera aí! Eu ainda não acabei não! - Oxe! E não? Ainda tem mais? Está com a peste ou que molesta deu nele? Agora ele se aporrinhou de vez. - Não, seu Saquarema eu apenas acho que a verdade tem de ser dita aos quatro cantos do mundo, doa a quem doer. Ah! Porque é que o patrãozinho do Saladino não... Antes que Gaudêncio esboçasse qualquer reação, Saladino desta fez foi rápido e rasteiro. - Opa! Espera lá. Olha o respeito com o criador, cuidado porque você está passando por cima das regras e dos limites préestabelecidos. Cuidado! Eu já estou perdendo a paciência! - Vixe Maria! Pela primeira vez o seu anjo ficou arretado*, mas podem parar os dois que vocês não estão aqui para brigar, não é mesmo? Vocês que são os anjos de verdade, não vão perder o controle, vão? Que diacho é isso, hem? - Bem seu Saquarema, porque é que eles não admitem que a grande criação realmente tenha saído do controle e que hoje tem vontade própria e pior, renega o próprio pai, por mais que ele interfira, o homem não dá a menor importância, fazendo até piada dos castigos enviados. - Oxe! De que diacho o anjo Gaudêncio está falando, hem? - Ora, seu Saquarema, das pestes, da fome, dos terremotos, das guerras, das doenças que não se curam, do homem que destrói o seu próprio habitat natural... - Arri molesta! Hábito... O quê seu Gaudêncio? 37


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- Destruindo tudo que lhe foi dado sem nenhum custo. O homem destrói a sua própria casa, seu Saquarema. - Vixe! Que também vocês não perdem a mania de mudar o nome das coisas. Epa! Mas espera aí, o seu anjo “coisa ruim” está dizendo que toda essa desgraça que acontece no mundo é Deus quem manda, é? Que diacho é isso, então, ele cria o homem e depois ele mesmo o destrói, é? Assim sem mais nem menos, é? - Não é bem assim seu Saquarema. - Ah! E o anjo Saladino ainda está vivo? Pensei que tinha se perdido de uma vez, não é mesmo, hem? Mas diga como é esse negócio? - Bem seu Saquarema. As coisas não são bem assim como o Gaudêncio está falando não. Desta vez Gaudêncio dispara sua velha e conhecida metralhadora de ironia: - Não é não! Meu bom amigo Saladino, explica aí, para o seu Saquarema, vai? Eu quero ver, vamos, comecemos, nós estamos ansiosos para ouvir suas santas explicações! Vamos lá, está esperando o quê? - Valei-me meu Padin - Padre - Ciço! Seu Gaudêncio está com a molesta dos cachorros. O homem não dá trégua um minuto, que diacho de bicho mordeu o seu anjo “coisa ruim”, hem? Ele agora está parecendo um verdadeiro representante do tinhoso. - Olha aqui seu Saquarema, com todo respeito, eu não sei por que o senhor tem tanta raiva do patrãozinho. Ele já fez alguma coisa contra o senhor? -Vixe! Que é isso seu Gaudêncio me proteja Nossa Senhora Ave Maria, homem eu lá quero negócio com ele, o senhor enlouqueceu de vez, foi? - Não seu Saquarema, mas pelo que eu sei, nós só temos raiva ou medo de alguém quando esta pessoa nos faz algo de mal, o senhor há de concordar comigo, não é mesmo? - Vixe! Que nesse caso o senhor vai me desculpar, mas eu não concordo não! Veja lá, se eu, Saquarema da Silva vou querer negócio com esse “coisa ruim”, o senhor está variando*, não é mesmo?

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- Está bem seu Saquarema, então vamos ver o que o Saladino tem a dizer. - Olha sua nova postura, cuidado! Lembrem-se, quem pediu essa visita aqui e quem está com problemas é o seu patrãozinho. Eu não tenho que ficar ouvindo seus discursos moralistas de defensor dos mais fracos. Você pode até se empolgar, mas cuidado porque o resultado pode ser desastroso, ouviu Gaudêncio? - Eita! Que diacho deu em vocês, hem? Não estão se entendendo mais, se não chegarem a um acordo, quem vai se mandar daqui sou eu, não sabe? - Calma seu Saquarema, esse assunto pertence a mim e ao Gaudêncio. - Está bem! Eu sei disso, mas eu não tenho obrigação de aguentar as desavenças de vocês dois, não é? - Concordo com o senhor e acho que tem toda razão, o Saladino só está querendo ganhar tempo para arrumar uma explicação razoável para os descasos do mundo. - Espera aí, olha o senhor me desculpe seu Saquarema, pois está vendo como ele não para de me provocar, eu não vou tolerar esse desaforo. - Que desaforo coisa nenhuma; por acaso a mocinha ficou nervosa? Então Saladino perde a compostura e parte para cima de Gaudêncio furioso. Seu Saquarema, como um raio, interfere. - Pode parar os dois, que diacho é isso homem. Oxe! Vocês perderam a vergonha? Primeiro vem com essa história de que precisam de mim, que tenho uma missão, que é para mudar as regras do mundo e piriri, pororó... Agora ficam aí como cão e gato e eu já estou achando que tudo isso é conversa fiada, pois o que querem mesmo é se divertir às minhas custas. Saibam que mais uma briguinha dessas, eu é que desisto disso tudo, tá certo? - Está bem seu Saquarema vamos ao que interessa. De repente, voa uma criança pela janela de um barraco e se ouvem gritos altíssimos lá de dentro. - Sua vagabunda, sua piranha, vou quebrar sua cara e furar seus olhos, para você nunca mais olhar para ninguém. Eu me mato de trabalhar e essa vagabunda fica em casa dando trela para outro 39


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homem. Tem mais uma coisa, eu vou te dar tanta porrada que você vai até esquecer teu nome, sua imprestável! Seu Saquarema visualiza a mulher sendo arremessada com a porta para fora do barraco. Ela era uma senhora, morena e gorda, que aparentava uns quarenta anos. Em seguida o agressor sai embriagado, muito alterado e olhando fixadamente para o sujeito, ele diz: - Eita moléstia! Agora pense em um sujeito bruto*, pense. Vixe! Olha, olha! - Estamos vendo seu Saquarema. É uma briga de casal, isso é normal por aqui. - Vixe! Briga de casal, é? Eu estou farto de ver briga de casal, mas com filho que voa pela janela e mulher que sai com porta e tudo, essa é a primeira vez, embora não seja sobre isso que eu estou falando, não sabe? - Então é de que seu Saquarema? - Oxe! O seu anjo não está reconhecendo o safado, não? - De quem o senhor está falando seu Saquarema? - Agora lascaram mesmo, vocês tem miolos curtos, é? Não se lembram daquele lugar em que nós passamos? - Que lugar seu Saquarema? - Aquele lugar que vocês disseram que o homem e a mulher iam pra lá, ah... O senhor sabe. - Ah no motel. - Isso, esse tal de mote mesmo, era esse filho de uma ronca e fuça* que estava com aquela safada lá. - Ora, ora, o senhor tem uma memória privilegiada. - Não seu anjo “coisa ruim”, não é isso não. Eu não esqueço fácil da falta de vergonha não. Esse desgraçado aí trata a safada com poema e a mulher e o filho na porrada. Que diacho de lugar mais doido é essa tal de cidade grande. Olha seu Anjo Saladino Deus me livre de eu vir morar num lugar desses! - Sinto muito seu Saquarema. Deus não tem nada a ver com isso não. - Oxe! Deus foi só uma maneira de falar, como diz o senhor. Já que tocou no assunto, se a culpa não é do “criador” então, é do seu patrãozinho? Não é mesmo seu Gaudêncio?.. 40


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Capítulo cinco: A chegada de Politério - Oxe! Você pode parar, eu não tenho nenhuma obrigação aqui não, não sei se o senhor se lembra seu Gaudêncio, mas foram vocês que me colocaram nessa situação e se não está satisfeito com a escolha é só dizer. Assim que puder eu volto para o meu cantinho na roça de onde eu nunca deveria ter saído, não sabe? - Calma seu Saquarema, não dê ouvidos para o Gaudêncio não. Você sabe como ele é. - Oxe! Como não seu Saladino? O seu anjo coisa ruim está todo delicado. Se ele tem os seus problemas tudo bem eu entendo, mas, quem não tem? Não é por isso que todo mundo sai xingando os outros, não é mesmo seu Saladino? Gaudêncio, rapidamente, interfere na observação que seu Saquarema, tinha acabado de fazer: - Eu não falei mal de ninguém seu Saquarema. - Eita! Também, não se pode aumentar nem um pouquinho, não é mesmo? Caro amigo, permita-me lhe dizer que, finalmente, depois daquele longo caminho percorrido, acho que seu Saquarema escutou uma boa notícia. - Tudo bem seu Saquarema, já que estamos quase no final dos nossos trabalhos, o senhor poderá voltar para o aconchego da sua família. Para surpresa dos dois... Com certeza, eles não esperavam jamais ouvir a resposta que escutaram de seu Saquarema: - Oxe! Logo agora que eu estou me acostumando vai terminar tudo? - Bem seu Saquarema, nós não viemos aqui para consertar o mundo, nossa tarefa era esclarecer da melhor forma possível as necessidades de mudanças nas Leis Divinas. - Olha seu Saladino, uma coisa é certa, aquele tal de livre arbítrio tem de mudar. O “criador” não pode deixar o homem decidir o que fazer por aqui não, por que ele só faz besteira, destrói tudo e aonde ele coloca a mão as coisas vão mal.

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- Também não é assim seu Saquarema. Tem muita gente por aqui que se preocupa em preservar o mundo. - Ora Saladino, não vem com esse papo não, por que tem muita gente aqui preocupada em conseguir a sua própria fatia do bolo. - Pronto agora lascou! O que tem o bolo com essa história seu Gaudêncio? Por acaso está variando? Mais uma vez, caro leitor, Gaudêncio se desdobra para explicar essa expressão ao seu Saquarema: - Não seu Saquarema, eu não estou variando como disse o senhor. Quando eu falei da fatia do bolo, foi só uma maneira de falar. - Eita! Mas que maneira de falar mais esquisita. Comparar o mundo com um bolo, não é mesmo seu Saladino? - Bom! Ele não deixa de ter certa razão seu Saquarema. - Arri Moléstia! Agora lascou tudo mesmo! Os dois anjos estão ficando de miolo mole. - Não é nada disso seu Saquarema, se o senhor parar para analisar um pouco vai descobrir que não é tão absurda assim a comparação. - Como assim seu Saladino? - Está bem seu Saquarema, vamos ver se consigo lhe explicar melhor, por exemplo, quando sua esposa dona Jovelina... - Epa! Pode parar. Não coloque minha mulher nessa história não, porque ela não tem nada com isso não. Oxe! Onde já se viu isso, ela nem sabe que eu virei anjo e o senhor está colocando ela nessa confusão toda. - Calma seu Saquarema, eu não estou colocando sua santa esposa em confusão nenhuma. - Como não? O senhor disse alto e em bom tom que viu com esses olhos que a terra há de comer, quando minha esposa... O que foi que o senhor disse mesmo, hem? - Como assim o que eu disse? O senhor não me deixou falar, ora essa. - É mesmo, não é? Mas o seu anjo me desculpe porque com minha família ninguém mexe, pois eu fico doido. O que o senhor ia falar sobre a minha família mesmo? Vamos diga. 42


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- Bem, quando sua esposa dona Jovelina faz um bolo... - Ave Maria! O senhor me desculpe, mas não tem como não se meter. O que o bolo que minha Jovelina faz tem com essa distribuição do mundo? Vamos diga seu Saladino. - Bem, se o senhor me deixar falar eu juro que vou tentar explicar da melhor forma possível. - Tudo bem seu Saladino, mas que isso é muito esquisito o senhor tem que concordar. - Seu Saquarema, se acalme, e deixe pelo menos eu terminar meu raciocínio. - Terminar o quê? - Seu Saquarema essa é a minha explicação, agora o senhor está me deixando nervoso. - Está vendo, eu não tenho culpa se o senhor tem mania de complicar as palavras, já que sabe que eu sou um caipira da roça e não conheço essas palavras difíceis. - Está bem seu Saquarema, mas pelo amor de Deus, deixeme terminar de falar. - Oxe! Até seu Saladino está nervoso, que diacho está acontecendo, hem? - Não está acontecendo nada seu Saquarema. Há um longo tempo eu estou tentando lhe dar uma explicação e o senhor não me deixa falar, certo? - Vixe Maria! Está bem seu Saladino vou ficar de boca fechada, vamos lá pode falar. - Então vamos lá. Quando dona Jovelina faz um bolo lá em sua casa... - Sim, pode falar que eu estou ouvindo. - Pois bem, quando ela vai dividir o bolo para quem é o primeiro pedaço e de preferência o maior, hem? Como era de se esperar seu Saquarema não demorou a dar aquela velha e boa explicação, machista que é comum àquela região. Sendo assim, deixemos essa conversa para lá e vamos à história. - É o meu, ora eu sou o mais velho e o dono da casa, a pessoa que sustenta a casa sou eu, acho muito justo que venha a

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ser servido primeiro e com o pedaço maior, como disse o senhor. Não vejo nada demais nisso, não é mesmo seu Saladino? - Tudo bem, já que o senhor está seguindo o mesmo raciocínio o que eu posso fazer, uma vez que eu não sou dono da verdade, não é mesmo. - Ora essa, lá vem o senhor de novo com esse nome difícil, não é mesmo. - Calma seu Saquarema, muita calma, como eu ia dizendo o primeiro pedaço vai para o senhor, depois o segundo para sua esposa e assim segue até o filho mais novo, certo? - Está certo e eu não vejo nada de errado nisso, aonde o senhor quer chegar com essa conversa mole, hem? - Pois bem, em outras palavras, para dividir aquele simples bolo, segue-se uma hierarquia. - Eita moléstia! Lá vem o seu Anjo Saladino com essas palavras difíceis de novo, como é que eu vou entender? - Vai sim, é só escutar com paciência, hierarquia é delegar poder, não se preocupe o senhor vai entender o que é a lei dos homens. - Eita! Que troço complicado, não? - Não é tão complicado assim não, seu Saquarema. - Ah! Pode não ser para o senhor que é um anjo há muito tempo, mas para um simples mortal como eu, dá até um nó nos meus miolos, não sabe? - Veja bem seu Saquarema, foram delegando poder aos mais velhos pela sua sabedoria e a sua experiência, assim, foi se formando grupos de famílias com muito poder, principalmente, econômico. Claro que vieram aqueles que conquistaram o poder pela força ou por força das circunstâncias. Sendo assim, a fatia maior de todos os bolos que surgia sempre ficava nas mãos de quem já tinha o poder. O senhor está me entendendo seu Saquarema? - Mais ou menos seu Saladino. - Então, ao chegar aos dias de hoje, quando se divide o bolo, a fatia maior e melhor fica sempre para quem já tem muito e por consequência, cada vez eles vão ter mais. Os que foram excluídos da hierarquia no poder por virem depois ou por consequência do 44


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próprio sistema, vão sempre amargar a miséria. Ou então, com muita luta e organização eles conseguem uma condição melhor de vida. - Olha seu Saladino, eu só não entendo uma coisa o “criador” não faz nada não, é? - Lembre-se o “criador” deu ao homem o direito de escolher o seu próprio destino. - Está bem, já sei o tal de livre arbítrio. Eita peste! Não é que eu acertei essa palavrinha desgraçada. Se bem que, de vez em quando ele podia dar uma forcinha para aqueles que estão ficando para trás, não é mesmo? - O senhor acha que ele não dá essa forcinha? Pois acaso o homem não teria se autodestruído ao longo dos tempos? Porque se nós pararmos para pensar, vamos perceber que as coisas sempre caminham para um colapso. De repente aparece alguém com uma forma de mudar a direção e assim a humanidade apesar de tudo, ainda resiste bravamente, e mesmo com seus defeitos e seus problemas continua com a esperança de que virão tempos melhores. - Virgem Maria! O “criador” é um sujeito inteligente da molesta! Pensa em tudo, não é mesmo? - Sim seu Saquarema, os erros são fundamentais para se chegar à perfeição. - Oxe! O senhor quer dizer que até Deus cometeu erros, é mesmo? - Não seu Saquarema, o homem comete muitos erros, mas graças a isso, ele consegue aprender e assim evitar o que poderia lhe custar o seu fim, bem... - Eita moléstia! Seu Saladino o senhor quer dizer que o mundo vai acabar se o homem não tomar cuidado, é? - Olha seu Saquarema, o mundo acaba todo o dia. - Pronto, só faltava essa, se o mundo acaba todo dia, como é que ele continua existindo, hem? - Bem seu Saquarema, o mundo acaba quando termina a nossa passagem por aqui, ou seja, quando morremos. Seu Saquarema ficou fora de sintonia, se bem que isto já era esperado. 45


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Capítulo seis: A chegada de Gaubileto - Há algum tempo, “esse coisa ruim” como diz o senhor, mandou um enviado ao paraíso para tratar de assuntos, vamos dizer de suma importância para sua sobrevivência. - Oxe! Pode parar, o senhor está querendo dizer que “o coisa ruim” estava morrendo? - Que é isso seu Saquarema, sobrevivência é maneira de falar. - Vixe! Lá vêm vocês com essas conversas que ninguém entende. Isto cheira a enganação, não é mesmo seu Politério? - Olha aqui seu Saquarema, eu não sou homem de enganar ninguém. - Vixe! Que é isso? Calma seu Politério. - Não fiquei nervoso não, apenas não gosto de ser comparado a esses canalhas. - Vixe! O senhor me desculpe, pois parou até de gaguejar de vez. Virou homem? Não é mais anjo não, é? - Está bem, mas não precisa dizer “homem”. - Eita! “Homem” é maneira de expressar. Afinal, hoje em dia os homens são mesmo só forma de expressão, não é mesmo? - Olha que o senhor não perde uma oportunidade para fazer comparação, tem um ótimo senso de humor, mas se continuar a me interromper eu não vou conseguir lhe explicar nada. - Oxe. Pode continuar. - Como eu lhe dizia anteriormente, o Gaudêncio foi enviado para tratar de alguns assuntos de suma importância, que segundo o patrãozinho precisava ser discutido, mas ele não sabia como proceder, eu não sei por que, pois ele é muito inteligente. - Quem? O seu Gaudêncio ou “o coisa ruim”? - Já começou. - Oxe! Eu preciso saber de quem o senhor está falando, não é mesmo? - Tudo bem, qualquer um dos dois. Como eu dizia o Gaudêncio, conforme fiquei sabendo depois, já vinha articulando 46


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uma possível saída dele de lá do inferno e o anjo que estava cuidando do processo dele era o Saladino. O senhor já ouviu falar naquela fábula do pássaro sonhador? - Mas que diacho é essa tal de “fabula”? - Não é “fabula” seu Saquarema, mas sim fábula. Ela conta a trajetória de um pássaro que se perdeu em seu próprio sonho. - Oxe! Que coisa mais esquisita essa tal de “fábula”! - Bem seu Saquarema eu vou lhe contar e talvez o senhor entenda melhor. - Arri moléstia! Que troço complicado homem! - Realmente é um pouco complicado, mas o senhor vai entender. Tanto o Gaudêncio quanto o Saladino demonstravam descontentamento nas suas funções atuais, foi quando eles decidiram se juntar e formar uma terceira força. - Oxe! O senhor está querendo dizer que os dois resolveram bater de frente com o “criador” e “o coisa ruim” de uma vez só? Oxe! Eles são doidos, não são? Ficar entre o céu e o inferno de uma vez. - Por enquanto, vamos deixar isso de lado e voltar para a fábula, depois nós retornaremos a esse assunto, está bem? - Ora, se o senhor acha melhor assim, então, vamos para essa tal de fábula, certo? - Então eu vou contar a “Fábula do pássaro sonhador”:

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Se eu fosse um Pássaro... Ah, por onde poderia começar meu sonho? Quem sabe pelo primeiro momento da minha fecundação, dias que se seguem, de quanta expectativa, poderia eu tão frágil romper aquela moldura que me protegia do perigo do mundo. Ah, mas que mundo, se eu o desconhecia e nunca tinha estado nele. Finalmente é chegado o tão sonhado dia que num esforço sobre-humano rompia a grande moldura. E lá estava eu, naquele lugar que dali em diante seria meu mundo. Qual não foi a minha surpresa em ver ao meu lado algo que me afagava com um cantar melodioso que agradava os meus ouvidos. E pensar que tudo aquilo era para festejar a minha chegada. Ah, quanta surpresa a vida me guardava, a minha primeira refeição, um degustar estranho e eu nem se quer sabia bem o que era. Bem isso não importava, por que o que me comovia mesmo eram a paciência e a capacidade com a qual aquela criatura de olhar angelical que mais tarde fiquei sabendo, era a minha mãe. Tratava-me com orgulho como se eu fosse um troféu valioso. Ah, quantos mistérios me cercava, minha indagação era para com aquele ser imponente que ao longe me observava, com olhar autoritário, com seu porte e plumagem formosa, aquele ser que na ausência de minha mãe era todo ouvido, e que de repente atacava impiedosamente aqueles que ousavam se aproximar. Para mim era um gigante a me proteger. Ah, quantos sonhos, quanta admiração e dúvidas em ver aquele que me rodeava sumir em voos rasantes a cortar o horizonte sem fim, assim como os meus sonhos. Ah, quanta angústia separava o sonho da realidade. Os dias pareciam cada vez mais lentos e sem muitas novidades, até que em um dia maravilhoso a minha plumagem florescia como grama em campo fértil. Ah, quanta felicidade, finalmente era chegada a hora que provaria do bem mais valioso do ser, a fantástica liberdade.

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Ah, quantas dúvidas e incertezas passavam em meus pensamentos, ainda, tão infantis e sob o olhar de orgulho e de dever cumprido dos meus pais. Finalmente, dei meus primeiros voos para a tão sonhada liberdade. Ah, quantas coisas novas pude ver naquele horizonte sem fim, eu me sentia senhor de mim, era como se o mundo estivesse sido criado para mim e não eu para o mundo. Eu que era a caça tornei-me um feroz caçador, finalmente, poderia escolher meu alimento, bem como o lugar que fosse ideal para meu repouso e cantar as melodias que mais gostasse. Ah, para liberdade de voar não existe parâmetro de comparação, ela é única e indescritível. Ah, quantos desafios teria eu nesta longa jornada que é a vida. Eu que era senhor de mim, o infinito era o meu limite. Ah, quanta ilusão, quantos sonhos desperdiçados com coisas fúteis que nunca me engrandeceram em nada... E como para os tolos meu tempo passou rápido demais. A minha juventude se perdeu na imensidão do amanhecer. Sem que eu percebesse. Ah, quantas coisas se passaram sem que eu pude se imaginar a sua verdadeira importância. Finalmente despertei-me de que já se aproximava o meu fim e o mais triste, não liguei para o fato de que não tinha deixado sequer a continuidade da minha espécie. Ah! Eu sempre a fingir não ver o meu tempo passar. Ah quanto me arrependo de não ter dado a devida importância ao tempo que me foi outorgado e que eu não soube aproveitá-lo. Eu um pássaro sonhador que se perdeu em seu próprio sonho. Ah, mas o que importa sonho vivido ou sonho perdido será sempre só um sonho...

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Capítulo sete: O tão desejado encontro - Eita moléstia! Como assim, não estou entendendo? - Assim como eu Gaubileto também tem trâmite livre tanto no céu quanto no inferno, por isso, cuidamos pessoalmente dos dois processos. Ele é um ser que alcançou um estágio mais avançado e está entre o céu e o inferno, ou seja, fica em um parâmetro superior, um estado intermediário. - Vixe! Meu Padin – Pade - Ciço! Então ele vem para separar as coisas, não é mesmo? - Mais ou menos isso, eu não estou acreditando que eles tenham coragem de trazer o Gaubileto. Pessoalmente eu acho que isso não vai dar certo. - Diacho! Esse tal de ser iluminado não aceitaria vir não, hem? - Não, não é bem isso! A questão é que eu acho que o senhor vai estranhar a situação. Isso vai. - Olha aqui seu Politério, cada vez eu entendo menos. Oxe! Que diacho tem esse tal de Gaubileto, que todo mundo acha ele estranho? - Bem seu Saquarema, o senhor já vai saber. - Como assim seu Saltério? Que confusão da molesta, uma hora eu lhe chamo de Politério outra de Saltério. - Não tem problema seu Saquarema. Veja só eles estão chegando. Eu não acredito, aquele é o Gaubileto. Caro leitor, o Gaubileto era de aparência, pode-se dizer até que normal sem nenhuma atribuição física em especial, mas... Vamos lá que você já vai saber o que o tornava diferente dos outros. - Arri molesta! Eu pensei que vocês tinham desistido da missão que tinha por aqui, mas vou finalmente conhecer esse tal de Gaubileto. Rapidamente, Gaubileto faz um comentário que deixou seu Saquarema... Podemos dizer em estado de choque, se levar em consideração o tipo de educação que ele recebeu. 50


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- Oi! Estava ansioso para conhecer você. Que bom, estou aqui e sou todo seu, coisa fofa! - Vixe! Nossa Senhora da gamela torta*! Vá de retro satanás! Que diacho é isso meu Padin-Pade-Ciço. Vixe Maria! Eu que achei que já tinha visto de tudo nesta vida e agora me aparece um anjo boiola!*. Arri égua! Tenho mesmo que falar com o “criador”, porque pelo jeito ele deixou as coisas irem longe demais! Onde já se viu um cabra fresco* virar anjo, isso só pode ser dedo do “coisa ruim”, mas espera aí seu Saltério. O senhor disse que ele era um ser iluminado. Oxe! Ele é um ser muito safado, isso sim! - Calma, olha o preconceito. Como eu lhe disse ele não é um anjo e sim um ser de luz. - Oxe! Só se for de luz traseira. - Seu Saquarema! - Oxe! Lá na minha terra nós damos uma surra em um sujeito desses. Em um instante ele iria acabar com essa pouca vegonha, não é mesmo? - Ui! Que homem bruto, mas é uma gracinha! Chego a ficar todo arrepiado, que coisa gostosa. - Arri moléstia! Pode tirar essa coisa daqui se não eu vou fazer uma besteira! - Ui, calma coisa rude e fofa. - Olha que eu perco a paciência, afinal, para que diacho vocês trouxeram esse pirobo*, para cá, só me faltava essa. Escuta uma coisa, minha tarefa acaba aqui, como se não bastasse aguentar um gago da molesta. Agora vocês acham que eu vou aturar um baitola*. Acabou, estou voltando para casa agora mesmo! Em coro os três falaram ao mesmo tempo: - O senhor não pode ir de jeito nenhum! - Oxe! Vocês ficaram bilé*, foi? Não sabe que eu como anjo posso ir a qualquer lugar? Pois foram vocês que me fizeram assim. Como uma mágica seu Saquarema desapareceu e então começa a confusão. Saltério não perde a chance de falar algumas verdades para Saladino e Gaudêncio.

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- Vocês não mudaram em nada, não é mesmo, continuam fazendo uma burrada atrás da outra. Quando é que vocês vão aprender, hem? Se é que algum dia isso vai acontecer. Então com uma aparente calma Saladino responde: - Burrada coisa nenhuma, essa era justamente a prova final, aquela que nós precisávamos. O “criador” está errado em dar o livre arbítrio a uma criação que passou a renegá-lo. Neste momento Saltério passa um verdadeiro sermão aos dois. - Como vocês podem ser tão mesquinhos e egoístas? Vocês já avaliaram o sofrimento pelo qual aquele pobre homem vai passar, pois já se deram conta de que esta atitude irresponsável e desumana pode acabar com as chances de redenção dos dois? Por acaso vocês pararam para pensar nisso? - Olha aqui Saltério, nós não fizemos nada de tão grave assim. Ora, afinal, como vocês sempre se defenderam, não há nada de tão especial ou assustador em Gaubileto. Não é mesmo meu caro Saltério? - Olhem aqui vocês dois não façam de conta que não entenderam, porque você sabe muito bem que o Gaubileto está muito além da compreensão de uma pessoa simples como seu Saquarema. Não adianta querer justificar mais uma das idiotices e atitudes irresponsáveis de vocês e tem mais, os dois serão responsabilizados por qualquer coisa que acontecer com o seu Saquarema. Podem se mexer e dar um jeito de trazê-lo de volta. Antes que ele faça de fato uma besteira. - Olá coisa linda! Quanto tempo eu não lhe via. Que tempestade é essa que estão fazendo sem necessidade. Vocês não acham? - Não Gaubileto, não é tempestade. Eu não gosto destas atitudes irresponsáveis, porque eu nunca lhe dei esta intimidade. Saladino, novamente, entra na conversa. - Olhem aqui! Vocês podem parar com essa discussão besta. Não sei se vocês estão sabendo, mas seu Saquarema vai para o futuro e ele não poderá fazer nada, nem mesmo expressar a sua agonia. Gaubileto responde: 52


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- Ai Jesus! Que coisa, se eu soubesse que iria causar essa confusão, não teria aparecido aqui. Olhem aqui meninos, vocês são muito maus, como podem fazer uma coisa dessas com uma criatura maravilhosa como seu Saquarema? Só para satisfazer os seus caprichos? Rapidamente Gaudêncio responde: - Pode parar com seu sermão moralista Gaubileto, porque você estava gostando da ideia. - Hei seu bofe eu não sabia de quem se tratava. Está bem criatura abominável, eu tenho sentimento. Olhando para Saladino, com seu jeito de pouco caso, Gaudêncio diz: - Muitos sentimentos para o nosso gosto, não é mesmo Saladino? Saladino finaliza a conversa dizendo: - Olha aqui! Vamos parar com essa discussão besta, que não vai nos levar a nada, agora temos que fazer alguma coisa para contornar essa situação. Chegando a casa, seu Saquarema assustou-se ao ver aquela multidão e não conseguia entender o que poderia ter acontecido. Era uma tarde sombria, o povo que ali estava, aparentava um semblante triste e perdurava um aspecto de tragédia no ar. Cheiro de flores que costumeiramente eram usadas para enfeitar os mortos. Sem se dar conta do que estava acontecendo seu Saquarema cumprimentou a todos e logo percebeu que ninguém o respondeu ou apresentou qualquer reação de surpresa com sua presença. Aos poucos ele percebeu que apesar de estar ali, continuava como um anjo, totalmente invisível para os olhos humanos. Ao entrar na sala pode ver que bem no meio dela havia um caixão com quatro velas ao seu redor. Isso deixava aquele ambiente desagradável, com um aspecto sombrio. Olhou em volta e em um canto da sala estava sua esposa Josefa e sua filha Joseilma em prantos inconsoláveis. Respirou fundo, criou coragem e se aproximou do caixão. Nesse momento ele se assustou ao ver dentro daquele caixão, enfeitado de flores em um sono eterno seu filho Quim. 53


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Era como se uma faca bem afiada atravessasse seu peito. Com aquela dor profunda, por alguns instantes seu Saquarema ficou imóvel. Embriagado por aquela cena chocante, ele não podia entender o porquê de seu filho estar ali. Como o “criador” o submetia àquela tortura, ele que era um homem justo, que cumpria os seus deveres, qual seria o motivo dele ter recebido aquele castigo? O pior era não poder fazer nada diante daquele horror. Para ele aquela era uma visão indescritível, pois o jovem tinha a cabeça esfacelada como se estivesse sido prensada. Qual seria o significado daquilo tudo? Desesperado saiu como um vento em uma tempestade, apagando as velas e batendo as portas, tentava achar acalento para o seu coração que latejava como brasa em seu peito. Sentou-se debaixo de uma grande e formosa figueira que ficava atrás da casa, dali podia ver ao seu lado uma cruz, mas na cruz não estava escrito o nome de seu filho, por mais que tentasse não conseguia ler aquele nome e como não desejasse mais pertencer aquele mundo injusto... Acabou voltando em forma de ciclone para a sua missão com os outros anjos, quem sabe eles seriam os verdadeiros culpados por aquela tragédia. Afinal, foram eles que o tiraram do convívio de sua família e além dos mais eles o prometeram que o tempo pararia na sua ausência. Então, por que seu filho morrera? Foi aí que decidiu saber pelo menos como seu filho foi morto. Da mesma maneira como saiu ele retornou, sentou-se no batente da porta de entrada e ficou ouvindo as pessoas comentarem sobre a tragédia. O seu compadre Gumercindo explicava o acontecido a um estranho que ali estava e tinha o mesmo semblante do mendigo da cidade que ele conhecera. Seu Saquarema então se aproximou e começou ouvir a conversa: - Isso mesmo, ontem de manhã ele foi para o boqueirão das pedras* procurar a vaca Moxa, como ele não voltou até o anoitecer eu e o compadre Resende fomos ver o que tinha acontecido, chegando lá meu amigo presenciei a cena mais horrível da minha vida, uma jiboia de mais de seis metros estava enrolada em seu corpo e com a cabeça... Valei-me meu Padin- Pade - Ciço! Chega 54


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me dar uma sensação ruim... Já introduzida em suas mandíbulas, não havia mais o que fazer por ele... Matamos a cobra e trouxemos o corpo, meu Deus nunca tinha visto uma coisa tão chocante. Mesmo que eu viva mil anos, jamais esquecerei aquela visão do inferno. Então o desconhecido, inesperadamente, dirigiu-se ao Gumercindo dizendo: - Seu Gumercindo isso não é estranho? - O que meu senhor? - É muito difícil nós ouvirmos falar que uma Jibóia tenha atacado alguém por essas bandas. - Meu amigo, a seca tem castigado muito esta terra e já não há muitos animais para servir de alimento para os outros bichos. Então, eles começaram a atacar qualquer coisa que se mexa, aliás, acho que foi essa mesma jiboia que atacou a vaca Moxa. - Ele não estava nem com um cachorro pelo menos. Então Gumercindo responde: - Nisso você tem certa razão moço. Ele tem um cachorro, aliás, é o xodó deles, só que o compadre Saquarema levou o cachorro para a roça e ele resolveu ir sozinho. Então, o estranho indagou: - Como é que ele ficou sabendo que a vaca Moxa estava lá no riacho das pedras. Gumercindo foi explicar para o moço o recado mandado pelo Zé da Cabaça, que morava logo depois do riacho das pedras. - Foi o Zé da Cabaça que avisou ao compadre que na semana passada uns caçadores de passagem tinham visto uma vaca lá no boqueirão, como ele estava na roça o menino resolveu ir sozinho, já que era muito corajoso, pois mesmo sabendo que de vez enquando sumia umas ovelhas e umas cabras ele não teve medo. E todos nós achávamos que era uma onça que atacava os animais. Agora nós temos que tomar mais cuidado quando formos lá para aquelas bandas. Com a alma em prantos Saquarema se retira. Os anjos ainda estavam em discussão quando, da mesma forma que tinha sumido seu Saquarema retornou e com a cara de quem desejava execrar todos que ali estavam então, ele foi se 55


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aproximando e chegou bem próximo do Saltério; indignado perguntou: - Por quê? Por que vocês não me avisaram? Por quê? Então, um silêncio profundo pairou naquele instante, depois com a voz embaralhada Saltério responde: - Desculpe seu Saquarema, mas eu não podia fazer nada. Inconformado, na verdade, completamente transtornado, seu Saquarema responde: - Como não podia fazer nada, se você é um anjo que conhece o futuro. Como deixou que eu passasse por uma dor tão grande como essa? Dirigindo-se a Saladino e Gaudêncio ele perguntou: - E os dois aí, onde estavam? Por que me deixaram passar por um sofrimento deste, sem fazer nada, hem? Digam-me pelo amor de Deus? Vocês não têm coração, não? - Hei! O que foi que nós fizemos? - Vixe! Ora essa, por acaso se esqueceram que foram vocês que falaram que o tempo iria ficar parado enquanto eu estivesse aqui, não é? Como sempre Saladino tenta explicar de uma maneira natural o que está acontecendo. - Mas é justamente por isso seu Saquarema que nós não podíamos fazer nada, o tempo está parado enquanto o senhor estiver aqui conosco. Se o senhor resolver por sua vontade própria voltar, sempre irá para o futuro. Como o futuro ao “criador” pertence, nós não podemos interferir, entende. - Como pode, eu um ignorante entender os preceitos do “criador”. Vou dizer mais, quero me encontrar com ele, chega desse lenga-lenga aqui com vocês, preciso falar com ele pessoalmente. - Mas seu Saquarema, o senhor não está preparado. - Agora só faltava essa seu Saladino. O senhor me dizer que eu não estou preparado para falar com o “criador”. Isso é por que eu nunca fui a escola, você me acha um matuto, hem? - Seu Saquarema, não é nada disso. As coisas não podem ser como o senhor imagina. O senhor não está entendendo. - Oxe! Que isso é uma desculpa esfarrapada da moléstia. 56


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Vocês não devem ser anjos coisa nenhuma, não é mesmo, estão me enrolando esse tempo todo, não é mesmo? - Que é isso seu Saquarema, nós não faríamos uma coisa dessas com o senhor. Além do mais o que nós estaríamos fazendo aqui se não fosse para ajudar ao próximo. - Eita bubônica*! Bela ajuda os senhores me deram. Primeiro me trazem para um lugar desgraçado desses, depois eu tento voltar e vejo meu filho morto, sem se quer poder confortar minha família... Que diacho de ajuda é essa? De repente como se tudo aquilo que estivesse ali desaparecesse, passou-se a ver uma névoa, como se fosse uma brisa confortante em um tapete de estrelas que era levado a um arco de flores com um perfume celestial. Completamente enlouquecido e sem saber o que estava acontecendo seu Saquarema ouviu apenas o que seu coração pedia. - Eita! Que diacho de lugar é este? Ao cruzar o grande arco, lá estava ele frente a frente com seu sonho. Ouvia-se uma melodia suave e confortadora, seu Saquarema sentia-se levitando naquele ar perfumado. Olhou para todos os lados, como se procurasse alguma coisa em especial. Caminhando um pouco, via-se mais à frente, um portal que parecia um arco-íris. - Vixe! Nesse lugar o ar é como se fosse um alimento bom. Minha Nossa Senhora! Será que aqui é o céu? Meu Deus será? Eis que uma voz densa e melodiosa soou em seus ouvidos. - Entre filho. Tanto pedistes e aqui estais. O que temes agora? Seu Saquarema sem saber bem o que fazer ficou resmungando. Até que conseguiu falar a primeira coisa que lhe veio à mente. - Ave Maria! Será que é o “criador”? Meu Padin-PadeCiço! Se for um sonho, não deixa acordar agora não, viu! Disseram para entrar, então, lá vou eu. Vixe! Que lugar bonito, homem de Deus se paraíso existe eu acabei de achar. Novamente uma voz lhe soa aos ouvidos. - Ainda está duvidando da minha existência filho? - Oxe! De onde vem essa voz, eu não estou vendo ninguém 57


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aqui? - Vem do seu coração filho. - Eita! Agora até meu coração fala, é? - Lembre-se filho nós só vemos aquilo que desejamos ver. - Oxe! Pronto, só faltava essa. - Vamos filho chegue mais perto, não tenha medo. - Oxe! Medo de quê? Eu não estou vendo nada. Demonstrando um ar de tranquilidade, harmonia e amor seu Saquarema percebe um feixe de luz à sua frente, seus olhos estavam arregalados e ele tremia mais que folha ao vento, sem falar em voz, porque na verdade ela não existia naquele momento. Com sua imensa sabedoria, foi se aproximando de seu Saquarema como uma brisa suave, e ele reestabelecido do susto, respirou fundo e exclamou: - Como o senhor mesmo disse, fui eu quem pediu e se aqui estou, então, vamos ao que interessa. Novamente a voz que tinha o timbre de uma brisa soou nos ouvidos de seu Saquarema. - Este sim, é o meu filho destemido e sem rodeios. Então seu Saquarema perguntou. - O senhor falou alguma coisa? - Não filho, continue: - Eita! Agora o senhor fala como eu, sua voz é igualzinha, até pensei que era eu mesmo que estava falando sem abrir a boca. Como eu disse, vamos ao que interessa. Não é mesmo? - Então fale filho. - Olha aqui! É difícil para eu falar, mas não tem outro jeito. O senhor deve de estar sabendo de tudo que aconteceu. Portanto, vou direto ao assunto, eu não concordo com esse tal de livre arbítrio não. Isso está destruindo o homem, ele se acha o senhor de si e não respeita o seu semelhante, nem mesmo o senhor, afinal, ele não se respeita mais. Isso não pode continuar o senhor deve ter visto tudo o que aconteceu lá embaixo. Aquilo mais parece um inferno. Desculpe esqueci! Não deveria ter falado essa palavra. - Não se incomode, continue meu filho, neste mundo não existe nada que eu não tenha criado ou permitido a criação. - Oxe! Está dizendo que até o inferno foi criado por você? 58


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- Filho se não existisse o mal, que importância vocês dariam ao amor, à vida e à amizade? Mesmo sabendo que o mal existe e que levam todo ser a ruína, meus filhos ainda desprezam o amor e a amizade. Imagine como seria o mundo se existisse só o caminho do bem. Vocês, certamente, com suas inquietações morreriam de desânimo. - Senhor, quantas vidas são perdidas ainda jovens? - Filho, ninguém perde a vida, ao contrário, se ganha a eternidade. - O homem vive a mercê da sua vontade, sem respeitar nada nem a ninguém e não acontece coisa alguma. - Filho, todos recebem o que lhe é de direito, cada um a seu tempo. - Senhor, hoje em dia se mata por nada. É gente passando frio, fome, sofrendo injustiças de todas as formas. Esses dias que eu passei nesta tal de capital eu vi coisas que só acredito agora porque presenciei a cena, se alguém me contasse eu não acreditaria. - Mas filho, isso não é minha culpa, são vocês que fazem. Meus filhos utilizam-se do presente maior que eu posso lhes dar depois da vida. - O que Senhor? - A liberdade, filho. - Mas Senhor, o homem está se destruindo com a sua própria liberdade. De que adianta o senhor dar a liberdade se o homem não sabe o que fazer com ela? - Ah filho!O tempo é o meu melhor aliado e vos ensinará a dar o devido valor à liberdade. - Senhor essa tal de liberdade ou livre arbítrio, seja lá o que for não tem jeito de ser mudada não? - É filho, por exemplo, se eu tivesse aceitado este mesmo argumento feito pelo Saladino. . . E como se estivesse falando consigo mesmo seu Saquarema faz um breve comentário: - Eita peste! Agora o caldo vai engrossar! - O que foi meu filho? Alguma coisa o preocupa? - Não, não senhor estava só pensando alto. 59


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- Pois bem, se eu estivesse aceito esse mesmo argumento feito pelo Saladino, você filho... - Eu? O que foi que eu fiz Senhor? - Você meu filho, certamente, não estaria aqui comigo. - Oxe! Por quê? - Ora filho, isso é livre arbítrio, você está onde deseja, na hora que quiser e como quiser. Desde que não interfira na liberdade de seu semelhante. - Vixe! Eu não tinha pensado nisso senhor. - Como você pode ver filho, tudo vem a seu tempo. Não devemos tentar apressar o tempo, pois não saberemos o que será o amanhã, porque para todos que eu criei chegará o dia em que não haverá o amanhã... - Vixe! Assim o senhor me assusta. - Não filho, não é para ter medo. O homem apenas tem que aprender a viver com algumas verdades que não podem ser modificadas. - O senhor está falando do livre arbítrio, não é mesmo? - Certamente filho. - Mas o senhor veja o meu exemplo: trabalhei a vida inteira, atropelei meu sonho feito louco sem direção, vi cada um deles ser levado e destruído junto com o ardor do meu trabalho. Nem sei se ainda vou ter força para continuar lutando contra a própria natureza. - Filho, jamais se esqueça que: se estiver fraco, se sua vida não parece ter sentido, não desanime eu estou contigo. Erga a tua mão e venha a mim e eu te levantarei tão alto que os teus inimigos não o alcançarão. Se teus caminhos parecem não te levar a nada, não desanime eu estarei contigo em todos os momentos e lugares, eu sempre te mostrarei o caminho certo. Se teus sonhos estão se acabando aos poucos como fumaça ao vento, lembre-se, eu jamais lhe abandonarei, mesmo que tudo pareça perdido e que o mundo conspire contra tudo que tentas fazer, mesmo assim, saiba que estarei contigo. Jamais abandone seu sonho, o sonho é o combustível da vida, lute até o último segundo de tua fabulosa existência. Lembre-se nada é maior ou mais forte do que um sonho. O desejo é seu futuro, e você, só você pode mudar o seu 60


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sonho e mais ninguém, nem eu posso modificar o seu sonho, por isso, trace seu caminho e esqueça os obstáculos, uma vez que eles são apenas estímulos para que em um momento de desânimo, você nunca desista. Lembre-se filho, o desafio de realizar os seus sonhos será sempre o combustível da sua existência. - Vixe! Senhor eu estou até “abestalhado” * com tantas palavras bonitas. Aproveitando que está falando em sonho eu gostaria de pedir uma coisinha. - Pode pedir. - É sobre meu filho senhor, como já sabe... - Cada coisa há seu tempo, lembra não tente apressar o amanhã por que as coisas não são como você imagina. - Mas senhor eu daria metade da minha vida ou o que me resta para que meu filho não... - Sabe filho, por que você não me olha nos olhos como gostaria? Do que você tem medo? Seu Saquarema para e fica perplexo e recusa-se a acreditar no que vê. - Meu Deus! - Diga filho, por que o espanto. - Mas Minha Nossa Senhora! O senhor tem a minha... É como se eu tivesse olhando no espelho. - Deverias saber disso filho, que toda criação tem a face do seu criador. Quer encontrar ao pai? Encontre a si mesmo, pois eu vos criei a minha imagem e semelhança. - Mas senhor, como eu dizia sobre meu filho... - Seu Saquarema, seu Saquarema...

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Síntese sobre a filosofia do capitalismo: Aqui, ali, lá e cá. Aqui se faz. Ali se vende. Lá se compra. E cá compartilhamos todos da mesma burrice.

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Glossário: Abestalhado: Otário, Tolo. Alforje: Peça em tecido ou couro, colocada por sobre o lombo do Animal utilizado para transportar, pequenas quantidades. Aperreado: apressado por já estar sem paciência, de “saco cheio”. Aporrinhar: Fazer raiva, tirar do sério. Arre égua: Interjeição: (Alegria ou tristeza). Pode expressar alegria ou tristeza. Arre moléstia: Refere-se à coisa ruim. Avexado: Com muita Pressa. Badulaques: Objetos de pouco valor. Baitola: Gay Bile: Louco, maluco. Bodega: Pequena Mercearia, Bar. Bruto: Pessoa sem educação. Bubônica: Febre transmitida pelo Rato. Cadinho: Pequena porção. “Pouquinho” Capucho de algodão: Pequeno pedaço de Algodão. Carne de pescoço: Pessoa difícil de lidar. Corisco: Pequeno Meteorito. Cu curote: Meio da Cabeça. Danou: Colocar tudo a perder. Diacho: Mesmo que Diabo. Eita diacho: Expressão de Dificuldade, espanto, susto. Eita molesta: Expressão de espanto, susto com uma coisa ruim. Encafifado: Preocupado Engrossante: Mingau ralo de Farinha de Mandioca, amido de milho para crianças. Engabelar: Enganar, ludibriar. Enrolado: Sem saída, Pessoa atrapalhada. Esmoler: Mendigo. 63


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Franguinha: Adolescente, moça jovem. Fresco: Viado, Gay. Frescura: Atitude de Gay, ou sem seriedade. Gamela: Objeto feito de madeira para alimentar animais Gogó: Pescoço, pessoa que promete, mas não cumpre. Homem da cobra: Pessoa que fala muito, Tagarela. Vixe: Expressão de espanto ou admiração. Ligeiro: Rápido. Lascou-se: Se deu mal. Lenga-lenga: Conversa que não responde a nada. (mole) Matuto: Caipira, homem da roça. Mangai: Objetos de pequeno valor. Mangar: Fazer pouco caso. Miolo mole: Pessoa sem juízo. Moxa: Sem Chifre. Oxe: Abreviação de oxente, expressão de espanto ou surpresa. Papa-figo: Forma usada para assustar crianças, homem que seqüestrava criança para retirar o órgão. Peleja: Vem de Pelejar; Tentar várias vezes. Pia: Mesmo que “Olha”, ou “Veja”. Pilera: Mentira. Pirobo: Gay, viado. Pírola: Desmaio Pitinga: O mesmo que pirola. Quengo: Cabeça, Crânio. Ronca e fuça: Refere-se a uma pessoa porca, suja. Teiú: Lagarto encontrado na Caatinga. Trololó: Conversa fiada. Variando: Não diz coisa com coisa. Vira bandeira: Mesmo que fresco Vixe: Expressão de surpresa, espanto (Vixe Maria). Virgem Maria: O mesmo que vixe. Vô te: Expressão de tristeza, alegria ou espanto. Zabumba: Instrumento utilizado nas festas regionais, principalmente forró.

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Contos e Crônicas:

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