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A febre também delira I/XIV

Disseste-me que a humanidade tinha pernas de alicate e o mundo era uma poda de floresta amazónica. Nunca corri a velocidades de respirar. Tudo me serve de escasso e esta terra que viu nascer idades é o quanto basta para me sujar os pés. Tenho as unhas encardidas. Encruzilho os dedos ao chão e tropeço na vontade de cair.

Farejo o chão aos tombos e amarroto a pele como se fugir de casa me fizesse envelhecido. /Sou um nómada que se sedentariza, com olhos de mudar o mundo mas uma vista miopia, e se eu acordar - shhh... - Eu vou acordar - shhh... - nesta casa vazia, eu desenho um mapa de conquistas, rasgo as almofadas sem mais sono em que me silencio e as penas, ágeis dilemas, criam-se em asas de par como se o... E se o... Domar a Terra, do mar à terra e sem ar, criar-me elemento das labaredas, mas a semente.../

Tenho um pomar de ferrugem onde Deus imaginou o Éden. A serpente ergue-se por detrás do meu dorso e fere-me com mandíbulas de tétano. Uma doença no meu ferro, osso demérito e fraqueza de mero mortal mundano. E eu vergo... Inflamo... Liquefeita flama que deflagra pelas vértebras. Tenho a paixão de uma cidade desfeita que se constrói em Capital desejo e a imagem do que me fora a pele das costas são arranha céus a romperem-me a carne e a estrutura óssea. - Meu amor, já conheces o peso do mundo? Eu sou este assunto, e as tuas mãos viajam até que se cortam nos vértices de Mayhem. As nuvens tornam-se rubro sujo lodo, espessas gotas anémicas a choverem, caiem na língua das crianças que brincam dentro da saia da mãe - guarda-chuva de miragem e sedenta sede pelo sangue cresce nas suas bocas até que o gosto salgue.


São agora o choro acre. Uma barriga de estômago em ferida, medalhas de vezo em apetites vorazes: os dentes crescendo como gumes de faca que ferram a placenta, sugam desde a nascente e rasgam o ventre. A vida é de beber e não de ser vivida.

(E sobra-me este antro, com estes filhos da puta todos num dengue quórum de cancro. A tosse a coar os guarda-chuvas-tudo perto das pernas de osso lânguido destes homens, sem retorno nas horas e com pressa de demora, enquanto abafam a dor de Bock e gritam raivas de FMI. A vida é este fim: a amargura bêbada com desespero em suporte de copo.

Pego o guarda-chuva, inverno de fúrias, e a cidade é um demónio de lama e esgotos a dobrar-se [em mim. Pego o sobretudo, veste de lúrias, e a morte é um passo de costas na penumbra. Isto é o que me [sobra nu...)

Natureza cesariana, não há nada que pare esta metalúrgica que pare da metrópole. A semente brota rubiginosa, cresce e apodrece de ferro velho. Tudo é metal, mortal malte de moral cifrada. /e o que outrora se fazia titânico, hoje é simples [tetânico./ Um ermo de alma metalizado, com coração de válvula carcomida e pulmão de aço amordaçado à [indústria.

Hoje respiro o sal da terra com poeiras de fuligem.

O mar respalda na praia, minerais de carabina. A cara salga e a pele resseca.


Inspiro os corais num pulmão sem cura, afundo os pés na areia, vidros frios e quase relva. Conto às dunas do meu adeus este sorriso de ser bem-vindo e os lábios falham, quedos murmúrios no que agora parte. Os calcanhares arrastam-se longe da orla das ondas; agora a terra, cada vez mais lamacenta, quase pântano sem ideias, é o que sinto nos pés até me mergulhar no alcatrão quente. Rails amolgados batem-me nas canelas e sinto no meu osso o frio embate do acidente. No meu bolso guardo à chuva uma semente. Talvez cresça nesta terra de correr sempre. E eu enterro... Afundo... Fujo para não me sentir a resvalar da vida, mas as minhas pernas tesouradas cortam as árvores, tropeçam nos troncos e salpicam-se de lâminas líquidas, ferrugem humana, e eu, que só de mim [me contenho, sou toda a humanidade a dilacerar-me os passos, a adoecer-me de enferrujado e a cair... E o [fruto... Vil. Enfermo.

A febre também delira poesia d'alquimia, daniel xavier gonçalves lopes  

Texto constante na obra Alquimía, de Daniel Xavier Gonçalves Lopes.

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