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Apoteoses diagonais e manifestações não-verbais, competindo em atitude voraz contra artifícios sutilmente entranhados na cultura ocidental. Cores e formas marginais, correndo ao largo de charcos comerciais, permitem à alma o descanso e a graça, berços de criaturas puras e inocentes. E selvagens... Deito o leito e convoco as forças. Fez-se luz e das sombras colhi os frutos proibidos da árvore primal. Olhando lá de cima somos nós os alienígenas. Estamos à deriva. Não nos resta saída, a natureza ensina. Simplicidade, fraternidade, amor e criatividade, eixos centrais na batalha contra a tóxica mediocridade. Lanço mão das armas herdadas do acaso, tenho nas sincronicidades fiéis aliados. Deleite-se e sucumba ante o fato: Só a arte salva! Apocalipse webzine #2 Fevereiro/2014


marcus p贸voa


eduardo raggi


rafael lago

O POLÍTICO – Achei que a hora da minha morte fosse ser mais solene. Mas é só isso. – E como você achou que seria? – Ora, fui importante para o País, quiçá para o mundo. Fui ministro, senador, deputado. Um líder para tantos. – Seja sincero. Você foi um líder para você mesmo. – É claro que fui um bom pai, um chefe de família responsável. Por acaso é crime dar conforto e segurança para sua família? – Bem, da maneira como você fez, sim, é crime. Você cometeu alguns. – Crimes? Sempre dei o máximo de mim por este País, por este povo. Prejudiquei alguém? Não fui um punguista qualquer, ora. Mas aqui nesse País é assim: tudo é crime, tudo é ilegal. Nada aqui funciona a favor do servidor público. – Você recebeu muito dinheiro de maneira, digamos, irregular. – Nunca recebi dinheiro público. Meus pagamentos foram todos feitos por empresas, pela iniciativa privada. Afinal, trabalhei como um louco por cada projeto em que me envolvi. Depois disso tudo, então, deveria simplesmente entregar o suor do meu rosto para que empresários faturassem milhões enquanto eu, o idealizador de tudo, ficasse com nada? – Você tinha o seu salário. – Salário? Estamos falando de projetos de milhões e milhões e você me vem com salário? Sabe quanto ganha um desses executivos inúteis cuja única função é pagar um almoço no Porcão? E sabe de quanto é o salário de um ministro de estado? – Mas de onde você acha que vinha o dinheiro para pagar você? – Dos lucros milionários desses biltres empresários, ora. – Infelizmente, mesmo acreditando que foi um grande homem, o fato é que você foi esfaqueado por esta prostituta que está revirando seu paletó e acaba de encontrar sua carteira. Você não pode ver porque já perdeu muito sangue e seu cérebro já desligou as funções que não são necessárias para a sua sobrevivência. Por hora, o foco está em seu coração, pulmões e diafragma. – Eu deveria ter notado as marcas de seringa nos braços dela. Prostitutas viciadas nunca são confiáveis. – Quando você notou já era tarde, não? Uma vez que se começa, não é possível parar. – E o que eu faço agora? Não posso morrer aqui, dessa maneira ridícula. Não quero ver minha esposa e filhos humilhados novamente. E meus amigos, o que dirão? – Você não vai vê-los humilhados outra vez. Nem vai ouvir o que seus amigos dirão. Vai morrer antes.


– Faria qualquer coisa para reverter essa situação. – Qualquer coisa? – Sim, qualquer coisa. – Sabe, você gritou bastante. Parecia uma garotinha de filmes de terror. Chamou a atenção mesmo em um motel barato como este. Posso facilitar as coisas para a viatura que já está a caminho, mas teria um preço. – Qualquer coisa, já disse. – A polícia vai chutar a porta agora.

O FOTÓGRAFO – Meu primeiro dia aqui no jornal. Os putos colocam os novatos para seguir a polícia. Isso não é para mim. – Ah, não? E você queria começar onde? Na coluna social? – Não é isso. Não estou procurando moleza. Só que eu tenho sensibilidade. – Ah, um artista. – Sem ironias. Pode parecer meio presunçoso, mas eu sou muito mais do que isso. – E o que, exatamente, é você? – Não que eu seja um artista. Não agora. Mas posso sim, me tornar um. Ou algo mais. – E como vai ser isso? – Com certeza não vai ser fotografando traficantes na Ceilândia. Isso é Brasília, porra. Tudo o que mais importa ao País está aqui. – Curioso você citar traficantes e a Ceilândia. Não era lá que você ia buscar cocaína? – Outros tempos. Já parei com isso. – Parou mesmo ou só está deixando esfriar? – Parei. Nem me lembro mais daqueles tempos. – Mas deveria. Aquela garota tinha o quê? Dezessete, dezoito anos? – O que ela tem haver com isso? – Ora, depois que você começou a vender pó para os seus amigos, não ficava se gabando de ser o barão? A moça acreditou e deu no que deu. – Nunca quis que ela ficasse daquele jeito. Ela não tinha cabeça e foi muito fundo. Não é minha culpa. – Nem mesmo considerando que ela recebia a coca de graça? Que você botava para ela só para ela te dar? – Não! Eu gostava dela.


– Mas depois que ela engravidou de você e foi posta no olho da rua pelo Coronel, quantas vezes você a viu? – Nem sei se engravidou de mim, mesmo. Pode ter sido de qualquer um. E ela sumiu. Não sei como encontrá-la. – Mas você a procurou? – Olha, nada disso foi minha culpa. Já superei tudo isso. Quero agora crescer na minha profissão e ficar a madrugada inteira escutando o rádio da polícia não está ajudando. – Então você quer um prêmio Esso no seu primeiro dia? – Ralei muito para saber o que eu sei, dominar as técnicas. Sou um bom fotógrafo. – Ralou? Seu pai pagou um cursinho de fotografia porque você não quis estudar mais nada. Já tem 25 anos e nunca arrumou um emprego na vida. – Meus amigos também não têm empregos. – Lembre-se que seu pai quebrou depois que o ministro foi pego com a boca na botija e você não mora mais no Lago Sul. E os pais dos seus amigos têm ministros que não saem nos jornais, portanto, eles não precisam de emprego. – Ei, o ministro é o meu padrinho e muito amigo do meu pai. Não fale assim dele. Nem do meu pai. – Tudo bem. Desculpe. – Vou desligar essa merda e vou dormir. Desisto dessa porra. Se pelo menos acontecesse alguma coisa. – E se acontecesse? E se o rádio chamasse para algo grande, importante? – Eu iria, é claro. – O que importa é saber o que você faria quando chegasse lá. Faria os registros, como um fotógrafo de casamentos? Sabe, nos acostumamos a considerar alguns crimes como comuns. Um assassinato entre gângsters, um estupro de uma garota do subúrbio, um magricela preso com uma lata de merla. Comuns. Perdemos todo o drama que a vida encerra por trás desses crimes comuns. O potencial humano desperdiçado, a crueza da comunidade, toda a pressão da classe média com seus tênis, relógios e celulares. A TV e suas novelas. A maioria deles já nasce derrotada e ninguém percebe. Em grande parte, a responsabilidade é dos fotógrafos, que capturam a mais genuína prova de nossa falha como civilização da mesma maneira que fotografam um 3X4 de documentos. – Eu posso fazer mais que isso. Posso fazer melhor. Posso ser o melhor. – Então preste atenção no rádio agora.


A PROSTITUTA – Para quantos velhos gordos eu já dei? Essa gente cheia de perfume e roupas caras, sapatos brilhantes que passa o dia todo falando sobre moral e bons costumes. Carecas de bigodes e caras imensas, brilhantes. Eu sei quem eles são. – Você sabe que pode deixá-los quando quiser. Sabe que não precisa deles. – Como não preciso? E vou viver de quê? – O que você precisa é de dinheiro para comprar pó. Ou acredita que precisa. – Preciso, sim. E se for para comprar pó, foda-se. Eu gosto de coca. – Mas você percebe que enquanto quiser coca, os gordos e velhos poderão fazer o que quiser com você? Todas as obscenidades, as taras. Enquanto você quiser pó, terá que rastejar na imundície como uma porca e convencê-los de que está gostando. Na verdade, terá que gostar em ser humilhada feito uma cadela para que você seja capaz de viver consigo mesma. – Eles não são meus donos. Eu faço o que tenho que fazer. – Você tem que aguentar a sujeira dos velhos gordos porque é fraca, inútil. – Não sou fraca. Tenho um plano. – Não adianta ter um plano se você não tem coragem para executá-lo. É fraca demais. Quantas vezes voltou para esse cubículo imundo que chama de casa e teve vontade de morrer? Quantas vezes teve vergonha e asco de si própria? Mas não fez nada. É fraca demais. – Você vai ver. Hoje eu termino com isso. Só mais um velho rico e caio fora. – Essa será a última vez? Ou é só mais uma última vez? Leve o canivete, você pode precisar.

O POLÍTICO

– Vem cá, gostosa. Faça assim, ó. Isso! Agacha. Agora lambe o chão que eu pisei. Agora! – Você não manda em mais nada. Ninguém mais te respeita. Nem a puta. – Obedece, porra! Puta fedorenta. Tô mandando lamber o chão, caralho! – Ah, nem a puta tem mais respeito por você.


A PROSTITUTA – Só preciso de mais essa vez. – Esse gordo velho filho da puta te bateu. Apanhou de novo. Vai apanhar sempre. – Só mais essa vez. Mas não vou lamber o chão. – Claro que vai. Você é fraca e vai fazer o que ele manda. E, ainda assim, vai apanhar mais e mais. – Não vou mais apanhar.

O POLÍTICO – Lambe o chão, porra! Já mandei! – Ninguém te respeita mais. Você já era. Nem apanhando a puta te obedece. – Lambe! – Acho que a idade está deixando você ainda mais mole, fraco. Nem essa puta magricela sente algum peso em suas mãos.

O FOTÓGRAFO – Caralho, é o ministro! – Eu sabia que você fraquejaria. Vai ao menos registrar? – É o meu padrinho. Não posso fazer isso. – Sempre há um bom motivo para não se fazer o que deve ser feito. De novo. – Mas não posso. É meu padrinho. – É a débil caricatura do nosso cotidiano. O drama que você esperava. O seu momento. Um último presente do seu padrinho. – Um presente, é verdade.


O CORONEL – É a minha filha. Não posso deixar ninguém registrar essa ocorrência. – Não é mais sua filha. Você decidiu isso. Ela é apenas uma prostituta viciada. Nada mudou desde que ela engravidou e você a mandou seguir na vida. – Nada mudou. Mas agora, vendo ela ali, chorando... – Você mudou agora. Talvez reconheça que errou. Mas isso tudo não é sua culpa. – É a minha filha. Isso tudo é minha culpa, sim. – Mas como você vai consertar isso? Não há como esconder. Um ex-ministro está sangrando naquele canto. No hospital vão perguntar o que aconteceu. – Vou dar sumiço nesse filho da puta. – E o fotógrafo? – Ninguém mais sabe que ele veio aqui.


marco monteiro


felipe venancio


JULIANA CARIBé

I Ela não entendia as intenções, os movimentos e as iniciativas. Sempre quieta, evitava o contato com pessoas do sexo oposto, tentando evitar uma possível qualquer coisa que, mais tarde, resultaria em dor. Evitava, especialmente, os homens cheirosos e interessantes, porque esses eram os que poderiam, melhor e mais rápido, despertar nela a sensação de querer estar naquelas bocas e naqueles braços. Evitava, mas não era evitada por eles. E, de vez em quando, um desses – mais charmosos e capazes de roubar dela o ar – aparecia e, como quem não quer nada, fazia isso. E, impossibilitada de respirar bem (e de pensar bem), ela não via alternativa que não fosse se entregar. Mas não por submissão ou imposição: porque corria no sangue dela a vontade de se sentir possuída pela virilidade masculina. Porque pulsava nela o gozo, mesmo antes que ele viesse. Porque, na mesma intensidade com que queria estar naqueles braços, ela queria envolver aquele corpo com as pernas e sentir a força, o grito, o prazer. Não era ruim lhe roubarem o ar: era vital: gemidos, sussurros, sopros de arrepio: o ar que lhe faltava não fazia falta. Ela era pura luxúria e exalava isso, e só de pensar nisso sentia seu corpo latejar numa cadência de vai e vem. E, embora no início ela evitasse, agora era isto que ela queria: mais.


II Uma semana. Talvez mais, talvez menos: não há como precisar, nem porquê. Durante uma semana – ou mais, ou menos – não se contaram horas, minutos, segundos. Não houve o tempo. Não houve distância. Não se escutou a cidade: os sons eram risos, gemidos - uma percussão de sentidos aguçados. Nada mais importou. Não se falou em salário, em fila de banco, em dificuldade. Era como uma dança no escuro. Cada poro vibrando, cada coração no mesmo compasso. Mesmo à luz. Não houve espera que não a do amanhecer – ou do anoitecer, tudo se mistura. Não houve motivo, tampouco. Apenas houve. Uma semana – ou mais, ou menos, não importa. Uma semana fora do tempo. Uma semana – talvez mais, talvez menos – em que tudo era amor. Puro e simples. Amor.

III “Gosto de sentir o meu sexo transformar-se em mar teu. Gosto que me entornes a alma para a superfície da pele.” (Inês Pedrosa) que quando me olhas, teus olhos cheios de desejo me dizem: vem. Deixa tudo, esquece o que não passou. Vem e sente meu corpo se fundir ao teu. Vem e deixa eu me deixar em ti. Tu me olhas e teus olhos me dizem: vem, que quero teu cheiro em minha pele, teu suor em meus poros, teu gozo em minha boca. Rendo-me. Em teus braços, eu mesma, penso em nada. Apenas vou. E deixo que também tu venhas. Deixo que teu toque me arrepie a alma e me enlouqueça os sentidos. Deixo que tua vontade e a minha se arranhem, encostem-se, misturem-se. E não me preocupa onde começo, onde terminas. Somos mar e horizonte. E, ainda assim, o líquido que escorre de mim é doce. Quando te olho, meus olhos te dizem: vem, mata em mim a tua sede.


VI Somos porcos esperando o abate, migalhas jogadas ao abismo. E ainda isso não diminui minha culpa, ou meu sentimento de, a confusão que se chegou quando suas mãos se encostaram ao meu corpo. Sua boca no meu ouvido sussurrou palavras que sequer distingui, pois todo o som que ecoava era o da palavra “não”, que eu não consegui pronunciar. Eu nem sabia o que era, o que acontecia. Mas, no fundo, havia algo que me dizia que o que estava acontecendo não deveria. E por mais que eu tentasse relutar – inútil – suas mãos fortes me apertavam e deixavam gravada na minha pele a marca dos seus dedos. Esses mesmos dedos que você colocou em mim, enquanto eu me contorcia, em desespero e – envergonhadamente – prazer. Não houve tempo de gemer ou chorar, ou os dois, e você me largou e já estava à porta, virado para fora, apagando a luz: “durma bem, minha filha”.


Alexandre perotto


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Apocalipse webzine #2  

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