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Poemas e poetas  ANTÓNIO GEDEÃO 

Estrela da Manhã  Numa qualquer manhã, um qualquer ser,  vindo de qualquer pai,  acorda e vai.  Vai.  Como se cumprisse um dever. 

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;  nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.  E em seu impessoal desejo latejam todos os restos  de quantos desejos ficaram antes por desejar. 

Abre os olhos e vai. 

Vai descobrir as velas dos moinhos  e as rods que os eixos movem,  o tear que tece o linho,  a espuma roxa dos vinhos,  incêncio na face jovem. 

Cego, vê, de olhos abertos.  Sozinho, a multidão vai com ele.  Bagas de instintos despertos  ressuma­lhe à flor da pele.


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Vai, belo monstro.  Arranca  as florestas com os teus dentes.  Imprime na areia branca  teus voluntariosos pés incandescentes. 

Vai

Segue o teu meridiano, esse,  o que divide ao meio teus hemisférios cerebrais;  o plano de barro que nunca endurece,  onde a memória da espécie  grava os sonos imortais. 

Vai

Lábios húmidos do amor da manhã,  polpas de cereja.  Desdobra­te e beija  em ti mesmo a carne sã. 

Vai

À tua cega passagem


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a convulsão da folhagem  diz aos ecos  «tem que ser». 

O mar que rola e se agita,  toda a música infinita,  tudo grita  «tem que ser». 

Cerra os dentes, alma aflita.  Tudo grita  «Tem que ser».  António Gedeão 

Fala do Homem nascido  Venho da terra assombrada  do ventre de minha mãe  não pretendo roubar nada  nem fazer mal a ninguém 

Só quero o que me é devido  por me trazerem aqui  que eu nem sequer fui ouvido  no acto de que nasci


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Trago boca pra comer  e olhos pra desejar  tenho pressa de viver  que a vida é água a correr 

Venho do fundo do tempo  não tenho tempo a perder  minha barca aparelhada  solta rumo ao norte  meu desejo é passaporte  para a fronteira fechada 

Não há ventos que não prestem  nem marés que não convenham  nem forças que me molestem  correntes que me detenham 

Quero eu e a natureza  que a natureza sou eu  e as forças da natureza  nunca ninguém as venceu 

Com licença com licença  que a barca se fez ao mar  não há poder que me vença


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mesmo morto hei­de passar  com licença com licença  com rumo à estrela polar  António Gedeão 

Lição sobre a água  Este líquido é água.  Quando pura  é inodora, insípida e incolor.  Reduzida a vapor,  sob tensão e a alta temperatura,  move os êmbolos das máquinas que, por isso,  se denominam máquinas de vapor.  É um bom dissolvente.  Embora com excepções mas de um modo geral,  dissolve tudo bem, bases e sais.  Congela a zero graus centesimais  e ferve a 100, quando à pressão normal.  Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,  sob um luar gomoso e branco de camélia,  apareceu a boiar o cadáver de Ofélia  com um nenúfar na mão.  António Gedeão 

Mãezinha A terra de meu pai era pequena  e os transportes difíceis.  Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.  Corria branda a noite e a vida era serena. 

Segundo informação, concreta e exacta,


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dos boletins oficiais,  viviam lá na terra, a essa data,  3023 mulheres, das quais  45 por cento eram de tenra idade,  chamando tenra idade  à que vai do berço até à puberdade. 

28 por cento das restantes  eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.  Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido  desde o dia da morte do extremoso marido;  outras, senhoras casadas, mães de fiilhos…  (De resto, as senhoras casadas,  pelas suas próprias condições,  não têm que ser consideradas  nestas considerações.) 

Das outras, 10 por cento,  eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,  mas que por temperamento,  ou por outras razões mais ou menos secretas,  não se inclinavam para o casamento. 

Além destas meninas  havia, salvo erro, 32,


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que à meiga luz das horas vespertinas  se punham a bordar por detrás das cortinas  espreitando, de revés, quem passava nas ruas. 

Dessas havia 9 que moravam  em prédios baixos como então havia,  um aqui, outro além, mas que todos ficavam  no troço habitual que o meu pai percorria,  tranquilamente no maio sossego, às horas em  que entrava e saía do emprego. 

Dessas 9 excelentes raprigas  uma fugiu com o criado da lavoura;  5 morreram novas, de bexigas;  outra, que veio a ser grande senhora,  teve as suas fraquezas mas casou­se  e foi condessa por real mercê;  outra suicidou­se  não se sabe porquê. 

A que sobeja  chama­se Rosinha.  Foi essa que o meu pai levou à igeja.  Foi a minha mãezinha.  António Gedeão


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Poema do Homem Só  Sós,  irremediavelmente sós,  como um astro perdido que arrefece.  Todos passam por nós  e ninguém nos conhece. 

Os que passam e os que ficam.  Todos se desconhecem.  Os astros nada explicam:  Arrefecem 

Nesta envolvente solidão compacta,  quer se grite ou não se grite,  nenhum dar­se de outro se refracta,  nehum ser nós se transmite. 

Quem sente o meu sentimento  sou eu só, e mais ninguém.  Quem sofre o meu sofrimento  sou eu só, e mais ninguém.  Quem estremece este meu estremecimento  sou eu só, e mais ninguém. 

Dão­se os lábios, dão­se os braços


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dão­se os olhos, dão­se os dedos,  bocetas de mil segredos  dão­se em pasmados compassos;  dão­se as noites, e dão­se os dias,  dão­se aflitivas esmolas,  abrem­se e dão­se as corolas  breves das carnes macias;  dão­se os nervos, dá­se a vida,  dá­se o sangue gota a gota,  como uma braçada rota  dá­se tudo e nada fica. 

Mas este íntimo secreto  que no silêncio concreto,  este oferecer­se de dentro  num esgotamento completo,  este ser­se sem disfarçe,  virgem de mal e de bem,  este dar­se, este entregar­se,  descobrir­se, e desflorar­se,  é nosso de mais ninguém.  António Gedeão


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Pedra Filosofal  Eles não sabem que o sonho  é uma constante da vida  tão concreta e definida  como outra coisa qualquer,  como esta pedra cinzenta  em que me sento e descanso,  como este ribeiro manso  em serenos sobressaltos,  como estes pinheiros altos  que em verde e oiro se agitam,  como estas aves que gritam  em bebedeiras de azul.  eles não sabem que o sonho  é vinho, é espuma, é fermento,  bichinho álacre e sedento,  de focinho pontiagudo,  que fossa através de tudo  num perpétuo movimento.  Eles não sabem que o sonho  é tela, é cor, é pincel,  base, fuste, capitel,  arco em ogiva, vitral,  pináculo de catedral,  contraponto, sinfonia,  máscara grega, magia,  que é retorta de alquimista,  mapa do mundo distante,  rosa­dos­ventos, Infante,  caravela quinhentista,  que é cabo da Boa Esperança,  ouro, canela, marfim,  florete de espadachim,  bastidor, passo de dança,  Colombina e Arlequim,  passarola voadora,  pára­raios, locomotiva,  barco de proa festiva,  alto­forno, geradora,  cisão do átomo, radar,  ultra­som, televisão,  desembarque em foguetão  na superfície lunar.  Eles não sabem, nem sonham,  que o sonho comanda a vida,


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que sempre que um homem sonha  o mundo pula e avança  como bola colorida  entre as mãos de uma criança.  António Gedeão 

Tempo de Poesia  Todo o tempo é de poesia  Desde a névoa da manhã  à névoa do outo dia.  Desde a quentura do ventre  à frigidez da agonia  Todo o tempo é de poesia  Entre bombas que deflagram.  Corolas que se desdobram.  Corpos que em sangue soçobram.  Vidas qua amar se consagram.  Sob a cúpula sombria  das mãos que pedem vingança.  Sob o arco da aliança  da celeste alegoria.  Todo o tempo é de poesia.  Desde a arrumação ao caos  à confusão da harmonia. 

António Gedeão


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Vidro Côncavo  Tenho sofrido poesia  como quem anda no mar.  Um enjoo.  Uma agonia.  Saber a sal.  Maresia.  Vidro côncavo a boiar 

Doi esta corda vibrante  A corda que o barco prende  à fria argola do cais  Se uma onda que a levante  vem logo outra qua a distende.  Não tem descanso jamais.  António Gedeão 

Amador sem coisa amada  Resolvi andar na rua  com os olhos postos no chão.  Quem me quiser que me chame  ou que me toque com a mão.  Quando a angústia embaciar  de tédio os olhos vidrados,  olharei para os prédios altos,  para as telhas dos telhados.  Amador sem coisa amada,  aprendiz colegial.  Sou amador da existência,  não chego a profissional.  António Gedeão


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Homem Inútil definir este animal aflito.  Nem palavras,  nem cinzéis,  nem acordes,  nem pincéis  são gargantas deste grito.  Universo em expansão.  Pincelada de zarcão  desde mais infinito a menos infinito. 

António Gedeão, in 'Movimento Perpétuo' 

Soneto Não pode Amor por mais que as falas mude  exprimir quanto pesa ou quanto mede.  Se acaso a comoção falar concede  é tão mesquinho o tom que o desilude.  Busca no rosto a cor que mais o ajude,  magoado parecer aos olhos pede,  pois quando a fala a tudo o mais excede  não pode ser Amor com tal virtude.  Também eu das palavras me arreceio,  também sofro do mal sem saber onde  busque a expressão maior do meu anseio.  E acaso perde, o Amor que a fala esconde,  em verdade, em beleza, em doce enleio?  Olha bem os meus olhos, e responde.  António Gedeão, in “Poesias Completas”


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Poema do coração Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração, e também a Bondade, e a Sinceridade, e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração. Então poderia dizer‐vos: "Meus amados irmãos, falo‐vos do coração", ou então: "com o coração nas mãos". Mas o meu coração é como o dos compêndios Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral) e os seus compartimentos (duas autículas e dois ventrículos). O sangue a circular contrai‐os e distende‐os segundo a obrigação das leis dos movimentos. Por vezes acontece ver‐se um homem, sem querer, com os lábios apertados, e uma lâmina baça e agreste, que endurece a luz dos olhos em bisel cortados. Parece então que o coração estremece. Mas não. Sabe‐se, e muito bem, com fundamento prático, que esse vento que sopra e que ateia os incêndios, é coisa do simpático.Vem tudo nos compêndios. Então, meninos! Vamos à lição! Em quantas partes se divide o coração? António Gedeão


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Máquina do mundo O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto, é a matéria. Daí, que este arrepio, este chamá‐lo e tê‐lo, erguê‐lo e defrontá‐lo, esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo. António Gedeão 

Impressão digital Os meus olhos são uns olhos, e é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos, onde outros, com outros olhos, nao vêem escolhos nenhuns. Quem diz escolhos, diz flores! De tudo o mesmo se diz! Onde uns vêem luto e dores, uns outros descobrem cores do mais formoso matiz. Pelas ruas e estradas onde passa tanta gente, uns vêem pedras pisadas, mas outros gnomos e fadas num halo resplandecente!! Inutil seguir vizinhos, querer ser depois ou ser antes.


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Cada um é seus caminhos! Onde Sancho vê moinhos, D.Quixote vê gigantes. Vê moinhos? São moinhos! Vê gigantes? São gigantes! António Gedeão 

Forma de inocência Hei‐de morrer inocente exactamente como nasci. Sem nunca ter descoberto o que há de falso ou de certo no que vi.

Entre mim e a Evidência paira uma névoa cinzenta. Uma forma de inocência, que apoquenta.

Mais que apoquenta: enregela como um gume vertical. E uma espécie de ciúme de não poder ver igual. António Gedeão


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Dez reis de esperança Se não fosse esta certeza que nem sei de onde me vem, não comia, nem bebia, nem falava com ninguém. Acocorava‐me a um canto, no mais escuro que houvesse, punha os joelhos à boca e viesse o que viesse. Não fossem os olhos grandes do ingénuo adolescente, a chuva das penas brancas a cair impertinente, aquele incógnito rosto, pintado em tons de aguarela, que sonha no frio encosto da vidraça da janela, não fosse a imensa piedade dos homens que não cresceram, que ouviram, viram, ouviram, viram, e não perceberam, essas máscaras selectas, antologia do espanto, flores sem caule, flutuando no pranto do desencanto, se não fosse a fome e a sede dessa humanindade exangue, roía as unhas e os dedos até os fazer em sangue. António Gedeão


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A Cr iança Que Ri na Rua  A CRIANÇA que ri na rua,  A música que vem no acaso,  A tela absurda, a estátua nua,  A bondade que não tem prazo ­  Tudo  isso excede este rigor   Que o raciocínio dá a tudo,  E tem qualquer cousa de amor,  Ainda que o amor seja mudo.  Fernando Pessoa  Amor é fogo que arde sem se ver;  É ferida que dói e não se sente;  É um contentamento descontente;  É dor que desatina sem doer.  É um não querer mais que bem querer;  É um andar solitário entre a gente;  É nunca contentar­se de contente;  É um cuidar que se ganha em se perder.  É querer estar preso por vontade  É servir a quem vence o vencedor,  É ter com quem nos mata lealdade.  Mas como causar pode seu favor  Nos corações humanos amizade;  Se tão contrário a si é o mesmo amor?  Luís de Camões 

AUTOPSICOGRAFIA O poeta é um fingidor.  Finge tão completamente  Que chega a fingir que é dor  A dor que deveras sente.  E os que lêem o que escreve,  Na dor lida sentem bem,  Não as duas que ele teve,  Mas só a que eles não têm.


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E assim nas calhas da roda  Gira, a entreter a razão,  Esse comboio de corda  Que se chama o coração.  Fernando Pessoa  "É fácil trocar as palavras,  Difícil é interpretar os silêncios!  É fácil caminhar lado a lado,  Difícil é saber como se encontrar!  É fácil beijar o rosto,  Difícil é chegar ao coração!  É fácil apertar as mãos,  Difícil é reter o calor!  É fácil sentir o amor,  Difícil é conter sua torrente!  Como é por dentro outra pessoa?  Quem é que o saberá sonhar?  A alma de outrem é outro universo  Com que não há comunicação possível,  Com que não há verdadeiro entendimento.  Nada sabemos da alma  Senão da nossa;  As dos outros são olhares,  São gestos, são palavras,  Com a suposição  De qualquer semelhança no fundo."  Fernando Pessoa 

Mar Português  Ó mar salgado, quanto do teu sal  São lágrimas de Portugal!  Por te cruzarmos, quantas mães choraram,  Quantos filhos em vão rezaram!  Quantas noivas ficaram por casar  Para que fosses nosso, ó mar!  Valeu a pena? Tudo vale a pena  Se a alma nao é pequena.  Quem quer passar além do Bojador  Tem que passar além da dor.  Deus ao mar o perigo e o abismo deu,  Mas nele é que espelhou o céu.  Fernando Pessoa, in Mensagem


Poemas e poetas  D. SEBASTIÃO  Rei de Portugal  Louco, sim, louco, porque quis grandeza  Qual a Sorte a não dá.  Não coube em mim minha certeza;  Por isso onde o areal está  Ficou meu ser que houve, não o que há.  Minha loucura, outros que me a tomem  Com o que nela ia.  Sem a loucura que é o homem  Mais que a besta sadia,  Cadáver adiado que procria? 

Fernando Pessoa, in Mensagem 

O Infante  Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.  Deus quis que a terra fosse toda uma,  Que o mar unisse, já não separasse.  Sagrou­te, e foste desvendando a espuma,  E a orla branca foi de ilha em continente,  Clareou, correndo, até ao fim do mundo,  E viu­se a terra inteira, de repente,  Surgir, redonda, do azul profundo.  Quem te sagrou criou­te português.  Do mar e nós em ti nos deu sinal.  Cumpriu­se o Mar, e o Império se desfez.  Senhor, falta cumprir­se Portugal!  Fernando Pessoa, in Mensagem  O Quinto Império  Triste de quem vive em casa,  Contente com o seu lar,  Sem que um sonho, no erguer de asa,  Faça até mais rubra a brasa  Da lareira a abandonar!  Triste de quem é feliz!  Vive porque a vida dura.  Nada na alma lhe diz  Mais que a lição da raíz ­­  Ter por vida sepultura.  Eras sobre eras se somen  No tempo que em eras vem.  Ser descontente é ser homem.  Que as forças cegas se domem  Pela visão que a alma tem!  E assim, passados os quatro  Tempos do ser que sonhou,  A terra será teatro


Poemas e poetas  Do dia claro, que no atro  Da erma noite começou.  Grécia, Roma, Cristandade,  Europa ­­ os quatro se vão  Para onde vai toda idade.  Quem vem viver a verdade  Que morreu D. Sebastião?  Fernando Pessoa, in Mensagem 

Meu coração tardou  Meu coração tardou. Meu coração  Talvez se houvesse amor nunca tardasse;  Mas, visto que, se o houve, houve em vão,  Tanto faz que o amor houvesse ou não.  Tardou. Antes, de inútil, acabasse.  Meu coração postiço e contrafeito  Finge­se meu. Se o amor o houvesse tido,  Talvez, num rasgo natural de eleito,  Seu próprio ser do nada houvesse feito,  E a sua própria essência conseguido.  Mas não. Nunca nem eu nem coração  Fomos mais que um vestígio de passagem  Entre um anseio vão e um sonho vão.  Parceiros em prestidigitação,  Caímos ambos pelo alçapão.  Foi esta a nossa vida e a nossa viagem.  Fernando Pessoa 

O que há em mim é sobretudo cansaço  O que há em mim é sobretudo cansaço  Não disto nem daquilo,  Nem sequer de tudo ou de nada:  Cansaço assim mesmo, ele mesmo,  Cansaço.  A subtileza das sensações inúteis,  As paixões violentas por coisa nenhuma,  Os amores intensos por o suposto alguém.  Essas coisas todas ­  Essas e o que faz falta nelas eternamente ­;  Tudo isso faz um cansaço,  Este cansaço,  Cansaço.  Há sem dúvida quem ame o infinito,  Há sem dúvida quem deseje o impossível,  Há sem dúvida quem não queira nada ­  Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:  Porque eu amo infinitamente o finito,  Porque eu desejo impossivelmente o possível,  Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,  Ou até se não puder ser...


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E o resultado?  Para eles a vida vivida ou sonhada,  Para eles o sonho sonhado ou vivido,  Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...  Para mim só um grande, um profundo,  E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,  Um supremíssimo cansaço.  Íssimo, íssimo. íssimo,  Cansaço...  Álvaro de Campos  É talvez o último dia da minha vida. 

É talvez o último dia da minha vida.  Saudei o Sol, levantando a mão direita,  Mas não o saudei, dizendo­lhe adeus,  Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.  Alberto Caeiro  Sou um guardador de rebanhos  Sou um guardador de rebanhos.  O rebanho é os meus pensamentos  E os meus pensamentos são todos sensações.  Penso com os olhos e com os ouvidos  E com as mãos e os pés  E com o nariz e a boca.  Pensar numa flor é vê­la e cheirá­la  E comer um fruto é saber­lhe o sentido.  Por isso quando num dia de calor  Me sinto triste de gozá­lo tanto,  E me deito ao comprido na erva,  E fecho os olhos quentes,  Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,  Sei da verdade e sou feliz. 

Alberto Caeiro  Se, depois de eu morrer...  Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,  Não há nada mais simples.  Tem só duas datas ­­­ a da minha nascença e a da minha morte.  Entre uma e outra todos os dias são meus.  Sou fácil de definir.  Vi como um danado.  Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.  Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.  Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.  Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;  Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.  Compreender isto com o pensamento seria achá­las todas iguais.  Um dia deu­me o sono como a qualquer criança.  Fechei os olhos e dormi.  Além disso fui o único poeta da Natureza.


Poemas e poetas  Alberto Caeiro 

Não me importo com as rimas  Não me importo com as rimas. Raras vezes  Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.  Penso e escrevo como as flores têm cor  Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir­me  Porque me falta a simplicidade divina  De ser todo só o meu exterior.  Olho e comovo­me,  Comovo­me como a água corre quando o chão é inclinado,  E a minha poesia é natural como o levantar­se o vento...  Alberto Caeiro  Hoje de manhã saí muito cedo  Hoje de manhã saí muito cedo,  Por ter acordado ainda mais cedo  E não ter nada que quisesse fazer...  Não sabia que caminho tomar  Mas o vento soprava forte, varria para um lado,  E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.  Assim tem sido sempre a minha vida, e  Assim quero que possa ser sempre ­­  Vou onde o vento me leva e não me  Sinto pensar.  Alberto Caeiro  Poema do Menino Jesus  Num meio­dia de fim de Primavera  Tive um sonho como uma fotografia.  Vi Jesus Cristo descer à terra.  Veio pela encosta de um monte  Tornado outra vez menino,  A correr e a rolar­se pela erva  E a arrancar flores para as deitar fora  E a rir de modo a ouvir­se de longe.  Tinha fugido do céu.  Era nosso demais para fingir  De segunda pessoa da Trindade.  No céu tudo era falso, tudo em desacordo  Com flores e árvores e pedras.  No céu tinha que estar sempre sério  E de vez em quando de se tornar outra vez homem  E subir para a cruz, e estar sempre a morrer  Com uma coroa toda à roda de espinhos  E os pés espetados por um prego com cabeça,  E até com um trapo à roda da cintura  Como os pretos nas ilustrações.  Nem sequer o deixavam ter pai e mãe  Como as outras crianças.  O seu pai era duas pessoas ­


Poemas e poetas  Um velho chamado José, que era carpinteiro,  E que não era pai dele;  E o outro pai era uma pomba estúpida,  A única pomba feia do mundo  Porque nem era do mundo nem era pomba.  E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.  Não era mulher: era uma mala  Em que ele tinha vindo do céu.  E queriam que ele, que só nascera da mãe,  E que nunca tivera pai para amar com respeito,  Pregasse a bondade e a justiça!  Um dia que Deus estava a dormir  E o Espírito Santo andava a voar,  Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.  Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.  Com o segundo criou­se eternamente humano e menino.  Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz  E deixou­o pregado na cruz que há no céu  E serve de modelo às outras.  Depois fugiu para o Sol  E desceu no primeiro raio que apanhou.  Hoje vive na minha aldeia comigo.  É uma criança bonita de riso e natural.  Limpa o nariz ao braço direito,  Chapinha nas poças de água,  Colhe as flores e gosta delas e esquece­as.  Atira pedras aos burros,  Rouba a fruta dos pomares  E foge a chorar e a gritar dos cães.  E, porque sabe que elas não gostam  E que toda a gente acha graça,  Corre atrás das raparigas  Que vão em ranchos pelas estradas  Com as bilhas às cabeças  E levanta­lhes as saias.  A mim ensinou­me tudo.  Ensinou­me a olhar para as coisas.  Aponta­me todas as coisas que há nas flores.  Mostra­me como as pedras são engraçadas  Quando a gente as tem na mão  E olha devagar para elas.  Diz­me muito mal de Deus.  Diz que ele é um velho estúpido e doente,  Sempre a escarrar para o chão  E a dizer indecências.  A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.  E o Espírito Santo coça­se com o bico  E empoleira­se nas cadeiras e suja­as.  Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.  Diz­me que Deus não percebe nada  Das coisas que criou ­  "Se é que ele as criou, do que duvido." ­  "Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,  Mas os seres não cantam nada.  Se cantassem seriam cantores.  Os seres existem e mais nada,  E por isso se chamam seres."  E depois, cansado de dizer mal de Deus,


Poemas e poetas  O Menino Jesus adormece nos meus braços  E eu levo­o ao colo para casa.  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...  ... ...  Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.  Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.  Ele é o humano que é natural.  Ele é o divino que sorri e que brinca.  E por isso é que eu sei com toda a certeza  Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.  E a criança tão humana que é divina  É esta minha quotidiana vida de poeta,  E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.  E que o meu mínimo olhar  Me enche de sensação,  E o mais pequeno som, seja do que for,  Parece falar comigo.  A Criança Nova que habita onde vivo  Dá­me uma mão a mim  E outra a tudo que existe  E assim vamos os três pelo caminho que houver,  Saltando e cantando e rindo  E gozando o nosso segredo comum  Que é saber por toda a parte  Que não há mistério no mundo  E que tudo vale a pena.  A Criança Eterna acompanha­me sempre.  A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.  O meu ouvido atento alegremente a todos os sons  São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.  Damo­nos tão bem um com o outro  Na companhia de tudo  Que nunca pensamos um no outro,  Mas vivemos juntos e dois  Com um acordo íntimo  Como a mão direita e a esquerda.  Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas  No degrau da porta de casa,  Graves como convém a um deus e a um poeta,  E como se cada pedra  Fosse todo o universo  E fosse por isso um grande perigo para ela  Deixá­la cair no chão.  Depois eu conto­lhe histórias das coisas só dos homens  E ele sorri porque tudo é incrível.  Ri dos reis e dos que não são reis,  E tem pena de ouvir falar das guerras,  E dos comércios, e dos navios  Que ficam fumo no ar dos altos mares.  Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade  Que uma flor tem ao florescer  E que anda com a luz do Sol  A variar os montes e os vales


Poemas e poetas  E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.  Depois ele adormece e eu deito­o.  Levo­o ao colo para dentro de casa  E deito­o, despindo­o lentamente  E como seguindo um ritual muito limpo  E todo materno até ele estar nu.  Ele dorme dentro da minha alma  E às vezes acorda de noite  E brinca com os meus sonhos.  Vira uns de pernas para o ar,  Põe uns em cima dos outros  E bate palmas sozinho  Sorrindo para o meu sono.  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...  ... ...  Quando eu morrer, filhinho,  Seja eu a criança, o mais pequeno.  Pega­me tu ao colo  E leva­me para dentro da tua casa.  Despe o meu ser cansado e humano  E deita­me na tua cama.  E conta­me histórias, caso eu acorde,  Para eu tornar a adormecer.  E dá­me sonhos teus para eu brincar  Até que nasça qualquer dia  Que tu sabes qual é.  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...  ... ...  Esta é a história do meu Menino Jesus.  Por que razão que se perceba  Não há­de ser ela mais verdadeira  Que tudo quanto os filósofos pensam  E tudo quanto as religiões ensinam ?  Alberto Caeiro  Isto  Dizem que finjo ou minto  Tudo que escrevo. Não.  Eu simplesmente sinto  Com a imaginação.  Não uso o coração.  Tudo o que sonho ou passo,  O que me falha ou finda,  É como que um terraço  Sobre outra coisa ainda.  Essa coisa é que é linda.  Por isso escrevo em meio  Do que não está de pé,  Livre do meu enleio,  Sério do que não é.  Sentir? Sinta quem lê!  Fernando Pessoa


Poemas e poetas 

SOU O FANTASMA DE UM REI  Sou o fantasma de um rei  Que sem cessar percorre  As salas de um palácio abandonado...  Minha história não sei...  Longe em mim, fumo de eu pensá­la, morre  A ideia de que tive algum passado...  Eu não sei o que sou.  Não sei se sou o sonho  Que alguém do outro mundo esteja tendo...  Creio talvez que estou  Sendo um perfil casual de rei tristonho  Numa história que um deus está relendo...  Fernando Pessoa  Não sei quantas almas tenho  Não sei quantas almas tenho.  Cada momento mudei.  Continuamente me estranho.  Nunca me vi nem achei.  De tanto ser, só tenho alma.  Quem tem alma não tem calma.  Quem vê é só o que vê,  Quem sente não é quem é,  Atento ao que sou e vejo,  Torno­me eles e não eu.  Cada meu sonho ou desejo  É do que nasce e não meu.  Sou minha própria paisagem,  Assisto à minha passagem,  Diverso, móbil e só,  Não sei sentir­me onde estou.  Por isso, alheio, vou lendo  Como páginas, meu ser.  O que segue não prevendo,  O que passou a esquecer.  Noto à margem do que li  O que julguei que senti.  Releio e digo: <<Fui eu?>>  Deus sabe, porque o escreveu.  Fernando Pessoa 

Exílio Quando a pátria que temos não a temos  Perdida por silêncio e por renúncia  Até a voz do mar se torna exílio  E a luz que nos rodeia é como grades 

Sophia de Mello Breyner Andresen


Poemas e poetas 

Porque Porque os outros se mascaram mas tu não  Porque os outros usam a virtude  Para comprar o que não tem perdão  Porque os outros têm medo mas tu não  Porque os outros são os túmulos caiados  Onde germina calada a podridão.  Porque os outros se calam mas tu não.  Porque os outros se compram e se vendem  E os seus gestos dão sempre dividendo.  Porque os outros são hábeis mas tu não.  Porque os outros vão à sombra dos abrigos  E tu vais de mãos dadas com os perigos.  Porque os outros calculam mas tu não.  Sophia de Mello Breyner Andresen 

25 DE ABRIL  Esta é a madrugada que eu esperava  O dia inicial inteiro e limpo  Onde emergimos da noite e do silêncio  E livres habitamos a substância do tempo 

Sophia de Mello Breyner Andresen  Um dia  Um dia, gastos, voltaremos  A viver livres como os animais  E mesmo tão cansados floriremos  Irmãos vivos do mar e dos pinhais.  O vento levará os mil cansaços  Dos gestos agitados irreais  E há­de voltar aos nosso membros lassos  A leve rapidez dos animais.  Só então poderemos caminhar  Através do mistério que se embala  No verde dos pinhais na voz do mar  E em nós germinará a sua fala.  Sophia de Mello Breyner  Hora  Sinto que hoje novamente embarco  Para as grandes aventuras,  Passam no ar palavras obscuras  E o meu desejo canta ­­­ por isso marco  Nos meus sentidos a imagem desta hora.  Sonoro e profundo  Aquele mundo


Poemas e poetas  Que eu sonhara e perdera  Espera  O peso dos meus gestos.  E dormem mil gestos nos meus dedos.  Desligadas dos círculos funestos  Das mentiras alheias,  Finalmente solitárias,  As minhas mãos estão cheias  De expectativa e de segredos  Como os negros arvoredos  Que baloiçam na noite murmurando.  Ao longe por mim oiço chamando  A voz das coisas que eu sei amar.  E de novo caminho para o mar.  Sophia de Mello Breyner Andresen 

Poema A minha vida é o mar o Abril a rua  O meu interior é uma atenção voltada para fora  O meu viver escuta  A frase que de coisa em coisa silabada  Grava no espaço e no tempo a sua escrita  Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro  Sabendo que o real o mostrará  Não tenho explicações  Olho e confronto  E por método é nu meu pensamento  A terra o sol o vento o mar  São a minha biografia e são meu rosto  Por isso não me peçam cartão de identidade  Pois nenhum outro senão o mundo tenho  Não me peçam opiniões nem entrevistas  Não me perguntem datas nem moradas  De tudo quanto vejo me acrescento  E a hora da minha morte aflora lentamente  Cada dia preparada 

Sophia de Mello Breyner Andresen  ESPERO  Espero sempre por ti o dia inteiro,  Quando na praia sobe, de cinza e oiro,  O nevoeiro  E há em todas as coisas o agoiro  De uma fantástica vinda.


Poemas e poetas 

Sophia de Mello Breyner  Pirata  Sou o único homem a bordo do meu barco.  Os outros são monstros que não falam,  Tigres e ursos que amarrei aos remos,  E o meu desprezo reina sobre o mar.  Gosto de uivar no vento com os mastros  E de me abrir na brisa com as velas,  E há momentos que são quase esquecimento  Numa doçura imensa de regresso.  A minha pátria é onde o vento passa,  A minha amada é onde os roseirais dão flor,  O meu desejo é o rastro que ficou das aves,  E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.  Sophia de Mello Breyner

Há Palavras Que Nos Beijam Há palavras que nos beijam Como se tivessem boca, Palavras de amor, de esperança, De imenso amor, de esperança louca. Palavras nuas que beijas Quando a noite perde o rosto, Palavras que se recusam Aos muros do teu desgosto. De repente coloridas Entre palavras sem cor, Esperadas, inesperadas Como a poesia ou o amor. (O nome de quem se ama Letra a letra revelado No mármore distraído, No papel abandonado) Alexandre O’Neil 

O amor é o amor O amor é o amor ‐ e depois?! Vamos ficar os dois a imaginar, a imaginar?.. O meu peito contra o teu peito, cortando o mar, cortando o ar.


Poemas e poetas 

Num leito há todo o espaço para amar! Na nossa carne estamos sem destino, sem medo, sem pudor, e trocamos ‐ somos um? somos dois? ‐ espírito e calor! O amor é o amor ‐ e depois?! Alexandre O´Neill ‐ in Poesias Completas

Mesa dos sonhos  Ao lado do homem vou crescendo  Defendo­me da morte quando dou  Meu corpo ao seu desejo violento  E lhe devoro o corpo lentamente  Mesa dos sonhos no meu corpo vivem  Todas as formas e começam  Todas as vidas  Ao lado do homem vou crescendo  E defendo­me da morte povoando 

Mal nos conhecemos  Inauguramos a palavra amigo!  Amigo é um sorriso  De boca em boca,  Um olhar bem limpo  Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.  Um coração pronto a pulsar  Na nossa mão!  Amigo (recordam­se, vocês aí,  Escrupulosos detritos?)  Amigo é o contrário de inimigo!  Amigo é o erro corrigido,  Não o erro perseguido, explorado.  É a verdade partilhada, praticada.  Amigo é a solidão derrotada!  Amigo é uma grande tarefa,  Um trabalho sem fim,  Um espaço útil, um tempo fértil,


Poemas e poetas  Amigo vai ser, é já uma grande festa!  de novos sonhos a vida. 

MIGUEL TORGA 

Destino Acordo como os pássaros cativos, Com a ária da vida nos ouvidos. Acordo sem amarras nos sentidos, Fiéis à sempiterna liberdade... Nada pôde vencer a lealdade Que juraram à deusa aventureira. Nem as grades do sono, nem a severidade Da noite carcereira. Acordo e recomeço O canto interrompido: O desvairado canto Da ira irrequieta... ‐ O canto que o poeta Se obrigou a cantar Antes de Ter nascido, Antes de a sua angústia começar. Miguel Torga 

Dá‐me a tua mão Dá‐me a tua mão: vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo e que é a linha sub‐reptícia.


Poemas e poetas 

Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir ‐ nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo, que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio. Miguel Torga 

EUGÉNIO DE ANDRADE 

O Silêncio Quando a ternura parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca, inda demora,

quando azuis irrompem os teus olhos

e procuram nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras desamparadas e desertas, pelo silêncio fascinadas Eugénio de andrade


Poemas e poetas 

P oema à m ãe  No mais fundo de ti  Eu sei que te traí, mãe.  Tudo porque já não sou  O menino adormecido  No fundo dos teus olhos.  Tudo porque ignoras  Que há leitos onde o frio não se demora  E noites rumorosas de águas matinais.  Por isso, às vezes, as palavras que te digo  São duras, mãe,  E o nosso amor é infeliz.  Tudo porque perdi as rosas brancas  Que apertava junto ao coração  No retrato da moldura.  Se soubesses como ainda amo as rosas,  Talvez não enchesses as horas de pesadelos.  Mas tu esqueceste muita coisa;  Esqueceste que as minhas pernas cresceram,  Que todo o meu corpo cresceu,  E até o meu coração  Ficou enorme, mãe!  Olha ­ queres ouvir­me? ­  Às vezes ainda sou o menino  Que adormeceu nos teus olhos;  Ainda aperto contra o coração  Rosas tão brancas  Como as que tens na moldura;  Ainda oiço a tua voz:  Era uma vez uma princesa  No meio do laranjal...  Mas ­ tu sabes ­ a noite é enorme,  E todo o meu corpo cresceu.  Eu saí da moldura,  Dei às aves os meus olhos a beber.  Não me esqueci de nada, mãe.  Guardo a tua voz dentro de mim.  E deixo as rosas.  Boa noite. Eu vou com as aves. 

EUGÉNIO DE ANDRADE


Poemas e poetas 

Rosa do Mundo Rosa. Rosa do mundo. Queimada. Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto. que foi pétala a pétala lenço de soluços.

Obscena rosa. Repartida Amada. Boca ferida, sopro de ninguém.

Quase nada. EUGÉNIO DE ANDRADE 

O Inominável Nunca dos nossos lábios aproximaste o ouvido; nunca ao nosso ouvido encostaste os lábios; és o silencio, o duro espesso impenetrável silêncio sem figura. Escutamos, bebemos o silencio Nas próprias mãos E nada nos une ‐ nem sequer sabemos se tens nome. EUGÉNIO DE ANDRADE


Poemas e poetas 

Havia uma palavra Havia uma palavra no escuro. Minúscula.Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no chão da água. Do fundo do tempo, martelava. contra o muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava. de Matéria Solar EUGÉNIO DE ANDRADE 

Três ou quatro sílabas Neste país onde se morre de coração inacabado deixarei apenas três ou quatro sílabas de cal viva junto à água. É só o que me resta e o bosque inocente do teu peito meu tresloucado e doce e frágil pássaro das areias apagadas Que estranho ofício o meu procurar rente ao chão uma folha entre a poeira e o sono húmida ainda do primeiro sol. de Véspera da Água EUGÉNIO DE ANDRADE


Poemas e poetas 

NEM SEMPRE O CORPO SE PARECE Nem sempre o corpo se parece com um bosque, nem sempre o sol atravessa o vidro, ou um melro cante na neve. Há um modo de olhar vindo do deserto, mirrado sopro de folhas, de lábios, digo. Há Dias Há dias em que julgamos que todo o lixo do mundo nos cai em cima depois ao chegarmos à varanda avistamos as crianças correndo no molhe enquanto cantam não lhes sei o nome uma ou outra parece‐me comigo quero eu dizer : com o que fui quando cheguei a ser luminosa presença da graça ou da alegria um sorriso abre‐se então num verão antigo e dura dura ainda. À Beira de Água Estive sempre sentado nesta pedra escutando, por assim dizer, o silêncio. Ou no lago cair um fiozinho de água. O lago é o tanque daquela idade


Poemas e poetas 

em que não tinha o coração magoado. (Porque o amor, perdoa dizê‐lo, dói tanto! Todo o amor. Até o nosso, tão feito de privação.) Estou onde sempre estive: à beira de ser água. Envelhecendo no rumor da bica por onde corre apenas o silêncio. EUGÉNIO DE ANDRADE 

PALAVRAS São como um cristal,  as palavras.  Algumas, um punhal,  um incêndio.  Outras,  orvalho apenas.  Secretas vêm, cheias de memória.  Inseguras navegam:  barcos ou beijos,  as águas estremecem.  Desamparadas, inocentes,  leves.  Tecidas são de luz  e são a noite.  E mesmo pálidas  verdes paraísos lembram ainda.  Quem as escuta? Quem  as recolhe, assim,  cruéis, desfeitas,  nas suas conchas puras?  Eugénio de Andrade


Poemas e poetas 

MANUEL ALEGRE  Uma flor de verde pinho  Eu podia chamar­te pátria minha  dar­te o mais lindo nome português  podia dar­te um nome de rainha  que este amor é de Pedro por Inês.  Mas não há forma não há verso não há leito  para este fogo amor para este rio.  Como dizer um coração fora do peito?  Meu amor transbordou. E eu sem navio.  Gostar de ti é um poema que não digo  que não há taça amor para este vinho  não há guitarra nem cantar de amigo  não há flor não há flor de verde pinho.  Não há barco nem trigo não há trevo  não há palavras para dizer esta canção.  Gostar de ti é um poema que não escrevo.  Que há um rio sem leito. E eu sem coração.  Manuel Alegre  Última Página  Vou deixar este livro. Adeus.  Aqui morei nas ruas infinitas.  Adeus meu bairro página branca  onde morri onde nasci algumas vezes.  Adeus palavras comboios  adeus navio. De ti povo  não me despeço. Vou contigo.  Adeus meu bairro versos ventos.  Não voltarei a Nambuangongo  onde tu meu amor não viste nada. Adeus  camaradas dos campos de batalha.  Parto sem ti Pedro Soldado.  Tu Rapariga do País de Abril  tu vens comigo. Não te esqueças  da primavera. Vamos soltar  a primavera no País de Abril.  Livro: meu suor meu sangue  aqui te deixo no cimo da pátria  Meto a viola debaixo do braço  e viro a página. Adeus.  Manuel Alegre  Canção tão simples  Quem poderá domar os cavalos do vento  quem poderá domar este tropel 

do pensamento


Poemas e poetas  à flor da pele?  Quem poderá calar a voz do sino triste  que diz por dentro do que não se diz  a fúria em riste  do meu país?  Quem poderá proibir estas letras de chuva  que gota a gota escrevem nas vidraças  pátria viúva  a dor que passa?  Quem poderá prender os dedos farpas  que dentro da canção fazem das brisas  as armas harpas  que são precisas?  Manuel Alegre

As mãos Com mãos se faz a paz se faz a guerra. Com mãos tudo se faz e se desfaz. Com mãos se faz o poema – e são de terra. Com mãos se faz a guerra – e são a paz. Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra. Não são de pedras estas casas mas de mãos. E estão no fruto e na palavra as mãos que são o canto e são as armas. E cravam‐se no Tempo como farpas as mãos que vês nas coisas transformadas. Folhas que vão no vento: verdes harpas. De mãos é cada flor cada cidade. Ninguém pode vencer estas espadas: nas tuas mãos começa a liberdade. Manuel Alegre


Poemas e poetas 

Letra para um hino É possível falar sem um nó na garganta é possível amar sem que venham proibir é possível correr sem que seja fugir. Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta. É possível andar sem olhar para o chão é possível viver sem que seja de rastos. Os teus olhos nasceram para olhar os astros se te apetece dizer não grita comigo: não. É possível viver de outro modo. É possível transformares em arma a tua mão. É possível o amor. É possível o pão. É possível viver de pé. Não te deixes murchar. Não deixes que te domem. É possível viver sem fingir que se vive. É possível ser homem. É possível ser livre livre livre. Manuel Alegre

POEMA COM h PEQUENO Cantarei o homem criador crucificado em suas máquinas. Caçador caçado por suas armas. Tocador tocado por suas harpas. Cantarei o homem vezes homem até ao infinito. Cantarei o homem: esse mortal‐imortal meu amigo‐inimigo. Meu irmão.

Cantarei o homem que transforma tudo


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e tão dificilmente se transforma. Ele que se escreve com h pequeno em todas as coisas que são grandes.

Cantarei o homem no plural. Ele que é tão singular tão impossível de ser outro senão ele próprio: o homem.

Cantarei o homem vezes homem até à massa. Cantarei a massa vezes massa até ao homem. Porque não sei de outra guerra. Não sei de outra paz. Não sei de outro poema que não seja o homem. Manuel Alegre

Regresso E contudo perdendo‐te encontraste. E nem deuses nem monstros nem tiranos te puderam deter. A mim os oceanos. E foste. E aproximaste. Antes de ti o mar era mistério. Tu mostraste que o mar era só mar. Maior do que qualquer império foi a aventura de partir e de chegar. Mas já no mar quem fomos é estrangeiro e já em Portugal estrangeiros somos. Se em cada um de nós há ainda um marinheiro vamos achar em Portugal quem nunca fomos. De Calicute até Lisboa sobre o sal e o Tempo. Porque é tempo de voltar e de voltando achar em Portugal esse país que se perdeu de mar em mar. Manuel Alegre


Poemas e poetas 

JOSÉ GOMES FERREIRA Chove... Mas isso que importa!, se estou aqui abrigado nesta porta a ouvir a chuva que cai do céu uma melodia de silêncio que ninguém mais ouve senão eu?

Chove...

Mas é do destino de quem ama ouvir um violino até na lama. JOSÉ GOMES FERREIRA

Dá‐me a tua mão, Deixa que a minha solidão prolongue mais a tua ‐ para aqui os dois de mãos dadas nas noites estreladas, a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá‐me a tua mão, companheira, até o Abismo da Ternura Derradeira. JOSÉ GOMES FERREIRA


Poemas e poetas 

Acordai! Acordai, homens que dormis A embalar a dor Dos silêncios vis! Vinde, no clamor Das almas viris, Arrancar a flor Que dorme na raíz!

Acordai! Acordai, raios e tufões Que dormis no ar E nas multidões! Vinde incendiar De astros e canções As pedras e o mar, O mundo e os corações...

Acordai! Acendei, de almas e de sóis, Este mar sem cais, Nem luz de faróis! E acordai, depois Das lutas finais, Os nossos heróis Que dormem nos covais.

ACORDAI! JOSÉ GOMES FERREIRA


Poemas e poetas 

Viver sempre também cansa As paisagens não se transformam Não cai neve vermelha Não há flores que voem, A lua não tem olhos Niguém vai pintar olhos à lua Tudo é igual, mecanico e exacto Ainda por cima os homens são os homens Soluçam, bebem riem e digerem sem imaginação. E há bairros miseráveis sempre os mesmos discursos do cavaco, guterres e carvalhas guerras, orgulhos em transe automóveis de corrida... E obrigam‐me a viver até à morte! Pois não era mais humano Morrer por um bocadinho De vez em quando E recomeçar depois Achando tudo mais novo? Ah! Se eu pudesse suicidar‐me por seis meses Morre em cima dum divã Com a cabeça sobre uma almofada Confiante e sereno por saber Que tu velavas, meu amor do norte. Quando viessem perguntar por mim Havias de dizer com teu sorriso Onde arde um coração em melodia Matou‐se esta manhã Agora não o vou ressuscitar Por uma bagatela Entrei no café com um rio na algibeira e pu‐lo no chão, a vê‐lo correr da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete nuvens e estrelas e estendi um tapete


Poemas e poetas 

de flores a concebê‐las.

Depois, encostado à mesa, tirei da boca um pássaro a cantar e enfeitei com ele a Natureza das árvores em torno a cheirarem ao luar que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir A melodia sem contorno Deste acaso de existir ‐onde só procuro a Beleza para me iludir dum destino. JOSÉ GOMES FERREIRA

Princípios Podíamos saber um pouco mais da morte. Mas não seria isso que nos faria ter vontade de morrer mais depressa. Podíamos saber um pouco mais da vida. Talvez não precisássemos de viver tanto, quando só o que é preciso é saber que temos de viver. Podíamos saber um pouco mais do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada sabemos do amor.

JOSÉ GOMES FERREIRA


Poemas e poetas  JOSÉ RÉGIO 

Quando eu nasci, ficou tudo como estava, Nem homens cortaram veias, nem o Sol escureceu, nem houve Estrelas a mais… Somente, esquecida das dores, a minha Mãe sorriu e agradeceu. Quando eu nasci, não houve nada de novo senão eu. As nuvens não se espantaram, não enlouqueceu ninguém… P’ra que o dia fosse enorme, bastava toda a ternura que olhava nos olhos de minha Mãe…

JORGE DE SENA

No País dos Sacanas Que adianta dizer­se que é um país de sacanas?  Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,  e todos estão contentes de se saberem sacanas.  Não há mesmo melhor do que uma sacanice  para poder funcionar fraternalmente  a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,  para além das rivalidades, invejas e mesquinharias  em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

JORGE DE SENA


Poemas e poetas 

ESTÃO PODRES AS PALAVRAS....» Estão podres as palavras ‐ de passarem por sórdidas mentiras de canalhas que as usam ao revés como o carácter deles. E podres de sonâmbulos os povos ante a maldade à solta de que vivem a paz quotidiana da injustiça. Usá‐las puras ‐ como serão puras, se caem no silêncio em que os mais puros não sabem já onde a limpeza acaba e a corrupção começa? Como serão puras se logo a infâmia as cobre de seu cuspo? Estão podres: e com elas apodrece a mundo e se dissolve em lama a criação do homem que só persiste em todos livremente onde as palavras fiquem como torres erguidas sexo de homens entre o céu e a terra. JORGE DE SENA

CAMÕES

Esparsa. Ao desconcerto do Mundo Os bons vi sempre passar No Mundo grandes tormentos; E pera mais me espantar, Os maus vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assim O bem tão mal ordenado,


Poemas e poetas 

Fui mau, mas fui castigado: Assim que, só pera mim, Anda o Mundo concertado. RUY BELO 

Algumas proposições com pássaros e árvores QUE O POETA REMATA COM UMA REFERÊNCIA AO CORAÇÃO

Os pássaros nascem na ponta das árvores

As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores Os pássaros começam onde as árvores acabam Os pássaros fazem cantar as árvores Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam‐se deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal Como pássaros poisam as folhas na terra quando o outono desce veladamente sobre os campos Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores mas deixo essa forma de dizer ao romancista é complicada e não se dá bem na poesia não foi ainda isolada da filosofia Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros Quem é que lá os pendura nos ramos? De quem é a mão a inúmera mão? Eu passo e muda‐se‐me o coração RUY BELO


Poemas e poetas 

Compreensão da árvore A tua voz edifica‐me sílaba a sílaba e é árvore desde as raízes aos ramos Cantas em mim a primavera breve tempo e depois os pássaros irão povoar de ti novas solidões E eu sentirei na fronte permanentemente o sudário levemente branco do teu grande silêncio ó canção ó país ó cidade sonhada dominicalmente aberta ao mar que por fim pousas na fímbria desta tua superfície. RUY BELO 

Para a dedicação de um homem

Terrível é o homem em quem o senhor desmaiou o olhar furtivo das searas ou reclinou a cabeça ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina Não há conspiração de folhas que recolha a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro quando caminha pela tarde acima A morte é a grande palavra para esse homem não há outra que o diga a ele próprio É terrível ter o destino da onda anónima morta na praia RUY BELO


Poemas e poetas 

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa nem árvores nem casas existiam antes que tu tivesses palavras e todo eu fosse um coração para elas Invento‐te e o céu azula‐se sobre esta triste condição de ter de receber dos choupos onde cantam os impossíveis pássaros a nova primavera Tocam sinos e levantam voo todos os cuidados Ó meu amor nem minha mãe tinha assim um regaço como este dia tem E eu chego e sento‐me ao lado da primavera RUY BELO 

Tem o amor a arte de tornar eterno aquele que por amor tem de morrer e até de morrer jovem amiúde pois os deuses amam aquele que perece em plena juventude e assim se fixa petrifica e permanece RUY BELO


Poemas e poetas 

SEBASTIÃO DA GAMA 

Inscrição Nada sabe do Mar quem não morreu no Mar. Calem‐se os poetas e digam só metade os que andam sobre as ondas suspensos por um fio. Sabe tudo do Mar quem no Mar perdeu tudo. Mas dorme lá no fundo, tem os lábios selados, e os olhos, reflectem e claramente explicam os mistérios do Mar, para sempre fechados Sebastião da Gama 

Viesses tu, Poesia Viesses tu, Poesia e o mais estava certo. Viesses no deserto, viesses na tristeza, viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar, se os não justificar,


Poemas e poetas 

Poesia, a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher, foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água... Mas tu é que disseste e os apontaste: ‐ Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto. E logo froam graça, aparição, presença, sinal...

(Sem ti, sem ti que fora das rosas? Mortas, mortas pra sempre na primeira, mortas à primeira hora.)

Ó Poesia!, viesses na hora desolada e regressara tudo à graça do princípio Sebastião da Gama 

Meu País Desgraçado Meu país desgraçado!... E no entanto há Sol a cada canto e não há Mar tão lindo noutro lado. Nem há Céu mais alegre do que o nosso, nem pássaros, nem águas ...


Poemas e poetas 

Meu país desgraçado!... Por que fatal engano? Que malévolos crimes teus direitos de berço violaram?

Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas, de olhos sem fé — busca, dentro de ti, fora de ti, aonde a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos que te deram a terra, o Sol, o Mar, fere‐a sem dó com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta‐te, Povo! Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres, a calada censura que te reclama filhos mais robustos!

Povo anêmico e triste, meu Pedro Sem sem forças, sem haveres! — olha a censura muda das mulheres! Vai‐te de novo ao Mar! Reganha tuas barcas, tuas forças e o direito de amar e fecundar as que só por Amor te não desprezam! Sebastião da Gama


Poemas e poetas 

Oração de Todas as Horas Agora, que eu já não sei andar nas trevas, não me roubes a Tua Mão, Senhor, por piedade! Voltar às trevas não sei, e sem a Tua Mão não poderei dar um só passo em tanta Claridade.

Pelas Tuas feridas minhas, pelas tristezas de Tua Mãe, Jesus. não me deixes, no meio desta Luz, de pernas presas...

Não me deixes ficar com o Caminho todo iluminado e eu parado e tão cansado como se fosse a andar ... Sebastião da Gama 

Os que Vinham da Dor Os que vinham da Dor tinham nos olhos estampadas verdades crudelíssimas. Tudo que era difícil era fácil aos que vinham da Dor diretamente.

A flor só era bela na raiz, o Mar só era belo nos naufrágios, as mãos só eram belas se enrugadas,


Poemas e poetas 

aos olhos sabedores e vividos dos que vinham da Dor diretamente.

Os que vinham da Dor diretamente eram nobres de mais pra desprezar‐vos, Mar azul!, mãos de lírio!, lírios puros! Mas nos seus olhos graves só cabiam as verdades humanas crudelíssimas que traziam da Dor diretamente. Sebastião da Gama 

Toada do Ladrão A mim não me roubaram Porque eu nada tinha. Mas roubaram tudo À minha vizinha.

Vejam os senhores: Roubaram‐lhe a ela A filha mais grácil, A filha mais bela.

Nem na sua casa, Nem na freguesia, Sequer no concelho, Melhor não havia.

Prendada, bonita... E depois... uns modos


Poemas e poetas 

De matar a gente, De prender a todos.

Dizia a vizinha Que era o seu tesoiro; Que valia mais Que a prata e que o oiro.

Que a não trocaria Por coisa nenhuma; Que filhas assim Só havia uma.

Pois hoje um ladrão Que há muito a mirava Entrava‐lhe em casa Para sempre a levava.

É a minha vizinha Dona de solares E de longas terras Com rios e pomares.

E de jóias raras Que ninguém mais tinha, Ei‐la num instante Pobrinha... pobrinha...

(Tem pomares ainda, Tem jóias, tem oiro... Mas de que lhe servem Sem o seu tesoiro?)


Poemas e poetas 

‐ Vizinha e senhora, Não me queira mal! Se há ladrões felizes Sou o mais feliz Que há em Portugal. Sebastião da Gama 

ÁLVARO MAGALHÃES 

O Limpa­P alavras  Limpo palavras.  Recolho­as à noite, por todo o lado:  A palavra bosque, a palavra casa, a palavra flor.  Trato delas durante o dia  Enquanto sonho acordado.  A palavra solidão faz­me companhia.  Quase todas as palavras  Precisam de ser limpas e acariciadas:  A palavra céu, a palavra nuvem, a palavra mar.  Algumas têm mesmo de ser lavadas,  É preciso raspar­lhe a sujidade dos dias  E do mau uso.  Muitas chegam doentes,  Outras simplesmente gastas, estafadas,  Dobradas pelo peso das coisas  Que trazem às costas.  A palavra pedra pesa como uma pedra.  A palavra rosa espalha o perfume no ar.  A palavra árvore tem folhas, ramos altos.  Podes descansar à sombra dela.


Poemas e poetas 

A palavra gato espeta as unhas no tapete.  A palavra pássaro abre as asas para voar.  A palavra coração não pára de bater.  Ouve­se a palavra canção.  A palavra vento levanta os papéis no ar  E é preciso fechá­la na arrecadação.  No fim de tudo, voltam os olhos para a luz  E vão para longe,  Leves palavras voadoras  Sem nada que as prenda à terra,  Outra vez nascidas pela minha mão:  A palavra estrela, a palavra ilha, a palavra pão.  A palavra obrigado agradece­me.  As outras não.  A palavra adeus despede­se.  As outras já lá vão, belas palavras lisas  E lavadas como seixos do rio:  A palavra ciúme, a palavra raiva, a palavra frio.  Vão à procura de quem as queira dizer,  De mais palavras e de novos sentidos.  Basta estenderes um braço para apanhares  A palavra barco ou a palavra amor.  Limpo palavras.  A palavra búzio, a palavra lua, a palavra palavra.  Recolho­as à noite, trato delas durante o dia.  A palavra fogão cozinha o meu jantar.  A palavra brisa refresca­me.  A palavra solidão faz­me companhia.

Poemas  

Poetas e poesia portuguesa

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