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entrelinha Revista-laboratório da disciplina Design de Notícias e Planejamento Visual no Jornalismo 2017/4 Curso de Comunicação Social - Habilitação Jornalismo - Universidade de Caxias do Sul - UCS

PIPOCA & CALÇADAS Epicentro da cultura de Caxias do Sul no século passado, cinemas de rua permanecem vivos na memória caxiense p. 12

A​ ​33ª​ ​Feira​ d ​ o​ ​Livro​ ​de​ ​ Caxias​ ​do​ ​Sul​ ​encerra​ ​com​ ​ 57.172​ ​livros vendidos p. 4 Lei​ ​Municipal​ ​de​ ​Incentivo​ ​ à​ ​Cultura​ ​tem​ ​queda​ d ​ e​ ​ 40%​ e ​ m​ ​2017 p. 5 Câmara de Caxias deve fechar as contas no verde p. 9 Alimentos orgânicos: benefícios que vão além da mesa p. 14 E muito mais...


2 EDITORIAL

Como mesmo afirma em seu nome, a revista Entrelinha perpassa a linha do óbvio e permeia os meandros do nãodito, do não-falado. A pauta que se entrelaça à subjetividade com objetividade. A informação em conjunto com a indagação. Todos esses fatores fazem do informativo um campo experimental perfeito para explorar o novo. Sob os cuidados da prof. Marlene Branca Sólio, esta revista foi discutida entre os alunos de Jornalismo da Univesidade de Caxias do Sul e que resulta neste conteúdo final.

Ao tratar de temas de interesse público e que, de alguma forma, auxiliarão no processo de aprendizagem tanto dentro quanto fora da academia, chega-se ao fator autonomia. Dita logo de pronto, talvez não traga a tona seu verdadeiro signficado, mas uma reflexão mais elaborada sobre a palavra, faz com que se perceba que a a autonomia é o fator que nos conduz à utopia. Desbravar novos mares, realizar sonhos inimagináveis e tecer redes de relacionamento é o que abarca a entrelinha da vida.

EXPEDIENTE

Dr. Evaldo Antônio Kuaiva

Dra. Maria Carolina Rosa Gullo

Coordenador do Curso de Jornalismo

Me. Marcell Bocchese

Repórteres Álan Pissaia Alison Patrick Oliveira Machado Gabriela Soares Greta Camassola de Rossi Juliane Spigolon Leonardo da Silva Portella Liliane Fernandes de Oliveira Luana Padilha Marlon Fernandes Lima Sara Fontana

Disciplina Design de Notícia e Planejamento Visual no Jornalismo

Professora Dra. Marlene Branca Sólio Projeto Gráf ico Álan Pissaia

Campus-Sede R. Francisco Getúlio Vargas número 1130 B.Petrópolis, Caxias do Sul - RS, 95070-560 Telefone: (54) 3218-2100 2017/4

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SUMÁRIO

Reitor

Diretora da Área do Conhecimento de Ciências Sociais

Sim, caros leitores, a entelinha reside no subtexto, no âmago de cada indivíduo, na razão do não falar e na emoção do aproveitar. Nesta edição, portanto, a revista Entrelinha se propõe a discutir temas relacionados à educação, à cultura, à saúde e às memórias. Afinal, até que ponto se é autônomo ou não para problematizar, esclarecer ou duvidar? Permita ser cheio de indagações e seja surpeendido com informações que podem interferir diretamente no seu cotidiano. Boa leitura!

A 33ª Feira do Livro de Caxias do Sul encerra com 57.172 livros vendidos

Lei Municipal de Incentivo à Cultura tem queda de 40% em 2017


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Cidade Escola Ayni Um novo modelo de educação no sul do país

Câmara de Caxias deve fechar as contas no verde

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Inclusão acadêmica ocorre através do PIMA em 2017

Empreendendo na crise

Pipoca e calçadas

13 Vídeolocadoras, onde elas estão?

14 Alimentos orgânicos: benefícios que vão além da mesa

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Foto: Juliane Spigolon

CULTUR A

A 33ª Feira do Livro de Caxias do Sul encerra com 57.172 livros vendidos A feira do livro de 2017, realizada entre os dias 29 de setembro e 15 de outubro, obteve um aumento de 38,7% nas vendas em relação ao ano de 2016, mas não atingiu a meta da Alca - Associação dos livreiros Caxienses - que era de 100 mil exemplares.

33ª Feira do Livro 2017, Praça Dante Alighieri

Juliane Spigolon jspigolon@ucs.br

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Praça Dante Alighieri voltou a receber a feira do livro em 2017, de onde havia saído no ano passado. Após dois anos, a 33ª Feira do livro de Caxias do Sul teve aumento significante se comparada às anteriores, quando houve queda de 41% e 40% respectivamente. O gráfico ao lado compara esses dados. Nos últimos oito anos, 2014 foi o de maior venda, com total de 114.660 exemplares. O ano de 2016, quando a Feira do Livro ocorreu na Estação Férrea, foi o de menor venda, com 41.221 exemplares. As 230 mil pessoas que passaram pela praça central nos 17 dias de feira puderam visitar as 45 bancas de livreiros e acompanhar diversas atrações, entre as quais, sessão de autógrafos com o autor Getúlio Vasata, de Flores da Cunha que lançou a obra “O Vale do Menorá”, inspirado na cultura judaica. Outro autor presente na Feira do Livro foi o Caxiense Lúcio Humberto Saretta, com o livro “O Louco no Espelho” baseado em crônicas esportivas.

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f ique por dentro O livro mais vendido, neste ano, na categoria geral, foi a Bíblia. E na categoria infantil o livro “Felipe Neto: a trajetória de um dos maiores youtubers do Brasil” ganhou destaque.

A próxima Feira do Livro de Caxias do Sul está prevista para 28 de setembro a 14 de outubro de 2018.


Foto: Álan Pissaia

EM B ARG O

Lei Municipal de Incentivo à Cultura tem queda de 40% em 2017 Com corte de gastos, houve menor repasse de recursos para projetos culturais Álan Pissaia apissaia@ucs.br

Houve queda acentuada no apoio financeiro de projetos realizados em relação ao último ano

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este ano, a Lei do Incentivo à Cultura sofreu queda acentuada no repasse de valores. Em comparação a 2016, o valor investido nos projetos culturais totalizou mais de dois milhões de reais. Já em 2017, o valor recuou para pouco mais de 1 milhão de reais. A queda, em valores percentuais, chega a 40%. Um dos fatores para o declínio se dá devido ao menor número de empresas e repasse de recursos financeiros da prefeitura. Outro fator que também pode ser associado é o número de projetos apresentados em 2017 comparados a 2016. No ano de 2017, 38 projetos foram protocolados, sendo 25 deles aprovados e/ou em aguardo de distribuição. O valor dos projetos variam de R$ 7.200 a R$ 60.000. Somados, a iniciativa cultural chega em pouco mais de R$ 1.190.000. Entenda a Lei A Lei Municipal de Incentivo à Cultura (LIC), foi instituída em dezembro de 1996. De lá para cá, diversos projetos foram efetivados. Para encaminhar um projeto, é necessário protocolar no Departamento de Fomento da Secretaria Municipal da Cultura. Após, ele será

encaminhado para a Comissão Municipal de Incentivo à Cultura. Aprovado nessa fase, o projeto fica autorizado a buscar incentivo junto às empresas pagadoras de imposto sobre serviço de qualquer natureza (ISSQN) ou às pessoas físicas ou jurídicas pagadoras de IPTU do Município de Caxias do Sul. O incentivador poderá aplicar, em projeto cultural de sua preferência, até 20% do imposto devido. Existem duas formas de incentivar os projetos culturais. A primeira delas se baseia no apoio cultural ou doação, na qual o incentivador deduz 90% do valor incentivado e contribui com 10% deste. Outra forma é o patrocínio, ou seja, o incentivador deduz 70% do valor incentivado e contribui com 30% do mesmo valor. Atualmente ocorre um processo seletivo anunciado em edital público para a seleção de projetos em sete segmentos: artes visuais, cinema e vídeo, dança, folclore/artesanato, literatura, música e teatro. Os interessados podem se inscrever conforme cronograma estipulado pela própria Secretaria da Cultura do município.

Financiarte raticamente nos P mesmos moldes burocráticos e seg-

mentos artísticos da LIC, o município também conta com o Financiamento da Arte e Cultura (Financiarte). Com lei sancionada em 2009, o objetivo é prestar apoio financeiro a projetos visando o estímulo à produção e difusão cultural em Caxias do Sul. O projeto cultural tem valor fixado, até este ano, em R$ 35.000. Os projetos inscritos são avaliados por um comitê assessor, que é responsável pela análise do projeto e sua viabilidade técnico-financeira.

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E DUCAÇÃO

Cidade Escola Ayni Um novo modelo de educação no sul do país Proposta do projeto é pautada na sustentabilidade e na ecopedagogia Sara Fontana sfontana@ucs.br

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m meio aos vales da Serra gaúcha está Guaporé, cidade de colonização italiana com cerca de 25 mil habitantes. Famosa pela produção de joias e lingerie, surpreende por ser também a casa de uma forma inovadora de educação e estilo de vida. Em um bosque localizado próximo ao bairro central, se encontra a Cidade-Escola Ayni. O nome, de origem Inca, significa cooperação e solidariedade. É esta a energia que circula pelos quase 22 mil m² de área verde que abrigam o projeto. O objetivo é oferecer uma nova estrutura de ensino, baseada na educação viva, na sustentabilidade e na economia solidária. A escola nasceu a partir de uma viagem de três anos ao redor do mundo. O fundador, Thiago Berto, dedicou-se à pesquisa de projetos voltados à educação alternativa, em diversos países, e decidiu aplicar todo conhecimentoadquirido em uma Cidade Escola no Sul do Brasil. Desde 2015, voluntários de

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diversos locais dedicam-se à cons­ trução de 25 espaços que formarão a pequena cidade ecológica. A técnica utilizada é a da bioconstrução, que busca o maior aproveitamento dos recursos disponíveis e o menor impacto ambiental. A pedagoga da Ayni, Ana Paula Zatta, explica que, ao invés de professores e salas de aula, as crianças serão recepcionadas pelos “guardiões” nos espaços chamados de ateliês. Esta nomenclatura está ligada ao conceito de educação viva, que oportuniza à criança a escolha do que deseja aprender e, assim, expressar seu potencial máximo. “A Ayni possibilita uma esperan­­ça enquanto educação. O edu­cacional, como é oferecido hoje, não funciona mais. Há a necessidade de ir além. As crianças precisam ser elas mesmas, e o adulto que a acompanha deve se conectar a essa essência”, afirma Ana Paula. As construções também são pensadas para que as crianças possam extrair o máximo de aprendiza-

do e estimular a criatividade. A porta de entrada do primeiro ateliês a ficar pronta é pequena, do tamanho exato para que uma criança possa entrar. Os adultos precisam se abaixar, e isto, segundo Rodrigo Nogueira, um dos guardiões e guia do tour pela Ayni, é uma forma de lembrar que também já viram o mundo a partir desta perspectiva. As paredes desse mesmo ateliês fazem música quando tocadas, assim como um grande instrumento musical. As crianças terão contato direto com a natureza, sendo estimuladas a cuidar e a aprender desde cedo sobre sustentabilidade. Para auxiliar neste processo, além de estar inserida em um bosque, a infraestrutura conta também com hortas, sistema de compostagem, berçário de plantas e casa de sementes. Pequenos mestres Na Ayni, as crianças são vistas como pequenos mestres dotados de uma sabedoria genuína. Para estimu-


Fotos: Sara Fontana Pórtico de entrada para o bosque que abrigará as 25 estruturas em bioconstrução

lar o aprendizado, não existe uma divisão de tempo para pensar e se expressar. A interação das crianças com a estrutura e as rotinas acontece o tempo todo. Assim como na Escola da Ponte (Portugal), uma das referências para o projeto, os alunos auxiliam no preparo dos alimentos e também na organização dos espaços. A escola não terá disciplinas individuais e muito menos o sinal estridente para delimitar o tempo de cada período e, mesmo assim, atenderá a todas as regras do MEC. Ana Paula Zatta ressalta que o projeto ainda está “engatinhando”, no que diz respeito à parte pedagógica, mas que, a partir de 2018, estará apto para receber crianças de 4 a 6 anos no contraturno. Apoio da prefeitura

Verba

A Ayni não recebe ajuda finan-

Futuro ara 2018, já há a P confirmação de 10 crianças que fre-

Foto: Sara Fontana

Parte do Parque Municipal Ecológico Honorato Toniollo foi cedida pela prefeitura de Guaporé para a construção da Cidade-Escola. Segundo a secretária do Meio Ambien­te do município, Monia Zampeze, a presença da Ayni é uma forma de sensibilizar a população em relação ao cuidado com o meio ambiente. “Por se encontrar em uma área verde do perímetro urbano, a Ayni acaba sendo uma referência, levando o nome de Guaporé como inspiração para outros municípios e também para o mundo”, pondera a secretária.

ceira do governo e, para conseguir manter-se, conta com o auxílio de voluntários, colaborações espontâneas, cursos e também com uma loja online. No ambiente virtual, são vendidas camisetas, canecas e acessórios com a logomarca do projeto. No futuro, será construído um hotel para receber os visitantes e também gerar mais uma fonte de renda. A economia criativa e solidária acaba sendo uma forma alternativa de manter o projeto em funcionamento. Segundo Ana Paula, o objetivo não é transformar a educação em mercadoria mas em direito. As famílias tornam-se parte essencial para que a ideia da Cidade-Escola aconteça. Os pais não pagam mensalidade, mas têm como contrapartida fazer parte da Ayni, auxiliando e levando para casa os ensinamentos desta pedagogia diferenciada.

Um dos ateliês da Ayni

quentarão a Ayni em turno contrário ao da escola. Por enquanto, o único pré-requisito para participar do projeto é estar matriculada em uma instituição de ensino regular. Em 2019, o esperado é ter mais espaços construídos para poder receber mais crianças. A partir de agora, o objetivo é criar uma escola que seja modelo para os governos estaduais e municipais, inspirando a adoção de novas práticas de educação e sendo um espaço de referência a ideias de sustentabilidade e respeito ao meio ambiente.

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Foto: Greta Camassola de Rossi

I NC LUSÃO

Inclusão acadêmica ocorre através do Pima O projeto tem como objetivo auxiliar acadêmicos portadores de alguma deficiência

Renata Sassi professora em Educação Especial

Greta Camassola de Rossi gcrossi@ucs.br

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sociedade inclusiva existe, de fato, ou é apenas uma fachada? Nas escolas e universidades da Serra gaúcha, em municípios como em Caxias do Sul e Bento Gonçalves, essa sociedade existe e tem um caminho trilhado por excelentes profissionais. Além de cegos, surdos e mudos, os portadores de Transtorno de Espectro Autista (TEA) também são auxiliados nessas entidades. A inclusão de alunos deficientes e portadores de Espectro Autista é realizada e acompanhada por psicólogos e psicopedagogos, com a ajuda de demais colegas, levando-se em consideração a propagação de ideias e rompendo com preconceitos históricos. Iara Strapazzon, professora em Bento Gonçalves, pós-graduada em Educação Especial, trabalha há seis anos com alunos deficientes e comenta que a maior dificuldade para a inclusão de um aluno do Espectro Autista, na escola, ocorre

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quando a criança recebe o diagnóstico tardio. A falta de conhecimento dos pais sobre o assunto ou a ausência de preparação da escola para aten­der esse aluno são fatores comuns.

Ela relata, também, que o motivo pelo qual escolheu trabalhar com alunos especiais é porque gosta das diferenças e apaixonouse por eles, dando o melhor do seu trabalho. Assim, faz o possível para auxiliar e ensinar seus alunos. Na Universidade de Caxias do Sul (UCS), a inclusão também ocorre no meio acadêmico, com o Programa de Integração e Mediação do Acadêmico (Pima), no Campus-Sede. O programa funciona há dez anos e tem o objetivo de incluir e auxil-

iar os acadêmicos, portadores de alguma deficiência, do Transtorno do Espectro Autistas, ou qualquer tipo de transtorno cognitivo, durante a graduação e a pós-graduação. Em entrevista ao Entrelinha, a professora do curso de Psicologia e mediadora do Pima Renata Sassi (foto), esclareceu que o acolhimento do aluno deficiente é obrigação da Instituição, não uma escolha. Apesar disso, assinalou: “Uma das dificuldades apresentadas na inclusão é a resistência de alguns professores”.


Foto: Marlon Fernandes Lima

F I NANÇAS

Câmara de Caxias deve fechar as contas no verde Expectativa de que finanças do legislativo caxiense terminem 2017 com saldo positivo Marlon Fernandes Lima mflima3@ucs.br Câmara em Caxias do Sul

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esde a última eleição, o mote das administrações públicas é “apertar o cinto nas contas”. Em face da crise econômica, os execu­tivos têm procurado usar com mais consciência os recursos públicos – não quer dizer que anteriormente os gestores públicos fizessem gastança desordenada. Contudo, a maioria dos municípios do estado e do País enfrenta grave crise econômica. Com isso foram registradas quedas na arrecadação de impostos, exigindo ade­quação de investimentos. No Poder Legislativo não é diferente. Até o momento, a Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves, por exemplo, já realizou uma pres­ tação de contas à comunidade. Além disso, os recursos excedentes são devolvidos à prefeitura daquele município, para que invista na cidade. Em Caxias do Sul, não há devolução periódica. Ao contrário, conforme regimento da casa, o reenvio da verba é feito no final de cada ano. Segundo a técnica em contabilidade da Câmara de Caxias Taiane Pozzi, em entrevista ao Entrelinha,

em 2017, o orçamento para 2017 era de cerca de R$ 35 milhões. Desse total, havia a expectativa para que o valor a devolver ficasse em torno de R$ 10 milhões. Conforme explica o Contador da Câmara de Vereadores, Luis Antônio Finkler, o presidente da casa adotou medidas para ajudar na redução de despesas. “Houve várias reduções em diversos setores da Câmara, como o uso de material de consumo, as homenagens, e a principal de todas, a redução de horas extras pelo fato de as sessões terem sido transferidas do verspertino-noite para o turno da manhã”, analisa Finkler. O diretor-geral do gabinete da presidência, Rafael Toigo, explica que a cada final de ano é devolvido, em média, um quarto (¼) daquilo que é previsto pelo Executivo. No final do quadriênio a casa legislativa economiza um ano de orçamento pretendido pelo executivo. Ainda segundo Toigo, por ocasião da entrevisdta, no final de 2017 haveria uma sessão ordinária para prestar contas do ano. Na ocasião, também será entregue o montante para o Executivo.

Economia no Legislativo de Bento Gonçalves aperto nas receiO tas do município fez com que o presi-

dente da casa, Moisés Scussel Neto, também adotasse medidas para conter os gastos com a casa legislativa. Remover uma sessão ordinária foi a principal ação da Câmara, e corte nas diárias foi outra providência. Com o total de R$ 12.500.000,00 milhões, o propósito da casa legislativa é devolver parte dos recursos a ela destinados. Na sessão de devolução, foi informado que as despesas com a Câmara de Vereadores ficou em 2,34% do total da receita corrente líquida do município (RCL). Por lei, elas podem representar até 6%.

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ECON OMIA

Empreendendo na crise Mesmo em tempos de dificuldades, mais de seis mil empresas abriram suas portas em Caxias do Sul, nos últimos dois anos Leonardo da Silva Portella lsportella@ucs.br Luana Padilha lpadilha2@ucs.br

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m tempos de crise, a economia se retrai, os consumidores passam a gastar menos e os empreendedores precisam usar a criatividade para, no mínimo, tentar manter o mesmo ritmo de vendas. Entretanto, mesmo quando os economistas recomendam cautela nos investimentos, há quem ainda encontre espaço e pontos positivos para abrir o próprio negócio, principalmente no setor de serviços e alimentação. Em Caxias do Sul, segundo dados da Secretaria Municipal do Desenvolvimento Econômico, Trabalho e Emprego (Sdete), são 65.325 empresas ativas no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas – uma para cada 7,3 caxienses. Além disso, a cidade é o 12º melhor ambiente empreendedor do Brasil e a 5ª melhor em termos de inovação, segundo pesquisa sobre cultura empreendedora realizada pelo Instituto Empreender Endeavor. Somente nos últimos dois anos, cerca de 6,5 mil empresas, a maioria de micro e pequeno porte, abriram suas portas na cidade. É o caso da Urso Brownie, que deixou de ser uma pequena produtora de brownies em potes de vidro, para abrir uma doceria na área central de Caxias. A história começou em 2015, quando os amigos e sócios Wilckson, Vinicius, Josemar e Lucas juntaram as economias, para com-

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prar os primeiros 100 potes de vidros para a primeira experiência da futura empresa. “Iniciamos vendendo 10 potes por final de semana e, com indicação das pessoas, as encomendas não paravam de vir. Foi aí que resolvemos alugar um espaço para a produção dos potes de brownie , contando com a ajuda dos nossos familiares, para dar os primeiros passos”, conta Wilckson Bitencourt, que descobriu o brownie em uma viagem ao Rio de Janeiro e adaptou a ideia para o mercado da Serra gaúcha. Se não bastasse ampliar o espaço e a produção do doce, os quatro sócios deram outro grande passo no final do ano passado: abriram a loja física da marca, oferecendo, além de brownies no pote, um cardápio com pratos doces, salgados e uma linha de cafés e bebidas quentes. “Tivemos um grande desafio ao empreender em momento de crise. Mas, antes de iniciarmos o projeto, tínhamos em mente que o setor de gastronomia da nossa região estava ainda bem aquecido. Por mais que as pessoas segurassem o seu dinheiro, nunca deixaram de lado o consumo de uma boa comida e de um bom momento de lazer”, destaca Bitencourt. E o projeto ainda não foi concluído: desde outubro 2017, a marca Urso Brownie está à disposição para expansão, por meio de franquias, o chamado franchising , que poderá levar os doces em brownie, da marca

caxiense, para outras cidades do País. “Sempre tivemos o sonho de ter uma loja física, porém não acreditávamos que seria tão rápido. Conseguimos concluir parte do nosso projeto, que não para por aí, é só o início de uma longa história. Queremos levar o Urso Brownie para todo Brasil”, antecipa. Do food truck para o Centro Outra marca local que nasceu em plena crise econômica deixou as quatro rodas, para também migrar para um estabelecimento próprio. O Mr. Waffle, nas ruas desde 2015, fixou sua marca no Centro de Caxias do Sul, no final de 2016. Com decoração inspirada no food truck tradicional em feiras e eventos pela cidade – e apostando em lanches rápidos e sofisticados, os proprietários Robson e Gisele Hoffmann investiram R$ 110 mil no novo negócio. O valor ainda é menor que o investido no food truck – que passou dos R$ 300 mil. A experiência como empreendedor do truck foi fundamental para continuar investindo no segmento da alimentação. “Sabemos que é uma loucura investir em tempos de crise, mas estamos fazendo uma aposta diferenciada. Se não fosse o bom retorno do food truck, não estaríamos abrindo a nova loja”, afirma Robson. O principal motivo de oferecer waffles doces e salgados,


Foto: Leonardo da Silva Portella e Luana Padilha

em um espaço fixo, é financeiro. Com a falta de uma legislação que regulamenta o serviço na cidade e funcionando prati­camente só nos finais de semana, o bom movimento e faturamento no food truck acaba dependendo das condições climáticas e da participação em feiras e eventos. Em razão disso, segundo Hoffmann, é difícil prever qual faturamento o negócio vai registrar em cada mês. “Em meses com tempo bom, trabalhando muito, chegamos a lucrar R$ 70 mil bruto. Se for um mês chuvoso, que não se possa trabalhar e colocar o food truck na rua, o retorno cai muito. Abrir o negócio em um espaço próprio é encontrar uma fonte financeira fixa”, revela. Sinais de otimismo Para a economista e integrante da diretoria de Economia, Finanças e Estatística da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias do Sul, Maria Carolina Gullo, é louvável que ainda existam pessoas interessadas em investir em um negócio próprio, principalmente no ramo de serviços. Mesmo na crise, a especialista observa que os interessados em investir são aqueles que veem com otimismo a retomada do crescimento no curto prazo. “Mesmo com a recomendação de cautela, quem investe em um negócio próprio

faz uma aposta que os tempos serão melhores e estarão prontos quando a poeira abaixar”, analisa a economista.

a visão de Maria N Carolina, salões de beleza, academias e outras empresas, que lidam diretamente com o consumidor final, precisam ter um atrativo a mais para garantir movimento e faturamento. “Todo mundo precisa cortar o cabelo, cuidar da saúde, da estética. As pessoas não estão abandonando, mas reduzindo a procura. Quem tiver um diferencial, no atendimento, um produto melhor, conquista o consumidor”, avalia.

Foto: Wilckson Bitencourt/Divulgação

Prato salgado no Mr. Waffle

Cardápio conta com diversos pratos doces

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Foto: Studio Geremia/Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami

M EMÓR IA S

Pipoca e calçadas Epicentro da cultura de Caxias do Sul no século passado, cinemas de rua permanecem vivos na memória caxiense

Alison Patrick Oliveira Machado apoliveira3@ucs.br

U

ma parte da história de Caxias do Sul está atrelada ao cruzamento das ruas Pinheiro Machado com Dr. Montaury e ao número 1729 da Av. Júlio de Castilhos. Esses locais hospedaram, respectivamente, dois dos mais famosos cinemas de rua da cidade: o Cine Ópera, com seus três andares, interior luxuoso e mais de 1500 lugares, e o antigo Cine Theatro Central, de fachada neoclássica com o trio de estátuas do artista Estácio Zambelli, dois protagonistas de um capítulo esquecido da cultura da cidade, mas imortalizados na memória afetiva dos caxienses. No auge dos cinemas de rua, nas décadas de 50 e 60 do século XX, Caxias do Sul chegou a contar com cinco cine teatros funcionando simultaneamente. Além do Ópera e do Central, operavam o Cine Teatro Guarany, o Cine Teatro Imperial e o Cine Teatro Real. O número de estabelecimentos se justificava por sua importância para a cidade, como grandes pontos de encontro e um raro entretenimento em uma região em desenvolvimento. Além de filmes, esses locais recebiam diversas atrações, como peças de teatro, apresentações de artistas e companhias nacionais e internacionais e de sediar os eventos sociais da cidade. Segundo Kenia Pozenato, doutora em Informação e Comuni-

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Cinema Guarany em 1960

cação, os cinemas de rua tiveram um forte impacto na cultura de Caxias do Sul, pois eram uma das únicas fontes de informação e cultura na cidade, o que influenciava fortemente a moda e os costumes locais, contribuindo para o desenvolvimento da cidade. Foi nas cadeiras de couro do Cinema Imperial e em assentos de madeira, como os do Guarany, que várias gerações de caxienses tiveram contato com obras como “Tempos modernos” de Charles Chaplin e “Sansão e Dalila”, de Cecil B. De Mille, clássicos que emocionaram plateias de todo mundo. Como conta a servidora pública Anabel Maria Meirelles Modena, de 55 anos, que viveu no Cine Guarany uma de suas memórias mais marcantes: “Não tínhamos muitas condições para ir ao cinema. Tanto financeiramente, quanto em termos de locomoção, então quando íamos era em matinês. Um filme que me marcou foi “E o vento levou”, romântico e envolvente. Pois fiz uma surpresa para minha mãe. Minha satisfação maior foi ver o encantamento dela, uma mulher batalhadora que teve poucos momentos de lazer.” Relembra Anabel. Decadência Durante a década de 60, os cinemas de rua começaram a perder público

e espaço na cena cultural caxiense. Embora o crescimento da audiência da televisão tenha sido um fator determinante, Kenia Pozenato também aponta para outros dois fatores: o aumento da criminalidade, e a censura praticada pelo regime militar, que prejudicou a diversidade do conteúdo apresentado. “Com a censura, a variedade e a qualidade dos filmes apresentados caiu demais. O que se via em cartaz eram só filmes de luta violentíssimos ou obras leves, que tinham sido aprovadas pela censura. Além disso, vários cinemas começaram a exibir obras de sexo explícito. Isso afastou o público. Várias gerações de cinéfilos foram perdidas, pais deixaram de levar seus filhos ao cinema, porque, além da criminalidade, a qualidade dos filmes apresentados era péssima”, explica Kenia. Devido à queda de frequentadores e, por consequência, de receita, os cinemas de rua foram fechando suas portas. Alguns com notas nos jornais da época como Real, outros no esquecimento, como o Guarany e o Central. O trágico incêndio que destruiu o interior já sucateado do Ópera, na madrugada de 24 de dezembro de 1994, foi a derradeira despedida deste pedaço da história caxiense.


Foto: Gabriela Soares

CU R I O S I DADES

Vídeolocadoras, onde elas estão? As famosas videolocadoras já fizeram muito sucesso, mas hoje existem poucas “sobreviventes”

Gabriela Soares gsoares7@ucs.br

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inal de tarde de sexta-feira, dia de pegar os filhos na escola e correr para a i. A meta era chegar cedinho para conseguir alugar os filmes da sessão de lançamentos, antes que outra família escolhesse para assistir no final de semana. Assim era a rotina de muitas famílias, principalmente nas décadas de 80 e 90. Conforme as tecnologias vão surgindo, essa realidade se distancia, embora ainda existam algumas velhas sobreviventes nesse meio. Em conversa com Nery Rodrigues de Atayde, proprietário da video­locadora Sanremo, em Caxias do Sul, pode-se notar o brilho no olhar de quem ainda cultiva o acervo por puro carinho. Ele recorda, orgulhoso, da época em que resolveu dar início ao seu empreendimento, por convite de um amigo, em 1993, juntando a locadora a uma revistaria que já possuía. Atayde destaca que, naquele período, era um negócio muito promissor, afinal era uma tendência. Ele relata que havia um bom movimento até 2010. “Depois disso apenas diminuía a clientela.” Atayde atribui isso às novas tecnologias, que possibilitam às pessoas verem filmes sem saírem de casa. O empreendedor estima que seu público, atualmente, soma apenas 10% do que havia no auge do seu negócio. Ressalta, porém, que ainda

“Atayde destaca que naquele período era um negócio muito promissor, afinal era uma tendência.”

não gera prejuízo. A justificativa é de que seu acervo é diferenciado e muito bem organizado, separado por nacionalidade, diretores e tantas outras subcategorias, além de continuar atualizado com lançamentos, fatores que atraem o público, que era frequentador de locadoras que já fecharam as portas. Apesar de se orgulhar tanto e manter seu negócio, Atayde precisou encontrar maneiras de aumentar sua renda, o que resultou na aber­ tura de uma espécie de bazar, que divide o espaço com a videolocadora, e onde vende acessórios e calçados femininos. Além disso, eleconta que viu, na tecnologia, nova oportunidade: Após o expediente, trabalha como motorista, por meio de um dos aplicativos disponíveis no mercado. A praticidade das novas plataformas nos garante, sem dúvida, mais disponibilidade de tempo, mas a magia de frequentar uma videolocadora com a família, para muitos, fica ape­ nas na lembrança.

Foto: Gabriela Soares

Nery, o proprietário da Sanremo

Parte do acervo de Nery

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S AÚDE

Alimentos orgânicos: benefícios que vão além da mesa Dados mostram que houve aumento de 30% em produtos do gênero no Brasil, nos últimos anos Liliane Fernandes de Oliveira lfoliveira1@ucs.br

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os últimos anos, percebemos crescente preocupação com os hábitos alimentares, e o cuidado na escolha dos alimentos impacta na saúde e no meio ambiente. Essa nova postura do consumidor acarretou um aumento na produção e no consumo de produtos orgânicos. Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex ) e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA- United States Department of Agriculture), o Brasil apresentou aumento de 30% no consumo de produtos orgânicos em 2015. Valdirene Camatti Sartori, bióloga e doutora em Processos Biotecnológicos, coordenadora do Laboratório de Agricultura Orgânica da Universidade de Caxias do Sul, alerta que, para um produto ser considerado orgânico, ele tem que obedecer a uma série de requisitos e passar por análises de sementes, solo e água. A doutora Valdirene explica que o cultivo orgânico consiste em não utilizar agroquímicos (agrotóxicos) durante todas as fases da produção, que, no caso da orgânica, tende a ser em menor escala e exige maior cuidado por parte do produtor, uma vez que as plantas ficam mais suscetíveis ao ataque de pragas (insetos) e doenças

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(fungos e bactérias). Com a intenção de melhorar a produtividade e proteger as lavouras, o Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, da Universidade de Caxias do Sul busca desenvolver métodos de controle biológico alternativo. A doutora em Biologia Celular e Molecular, Joséli Schwambach coordena uma equipe de pesquisa que busca desenvolver defensivos agrícolas, a partir de fungos que não são nocivos ao organismo humano e com óleos essenciais. Ela ressalta que um grande problema, na agricultura orgânica, consiste em uma pequena quantidade de produtos alternativos para o controle biológico possuir registros. Dessa forma, não são reconhecidos pelas certificadoras que realizam as análises nas produções. A falta de registro se dá pelos altos custos, para desenvolver as pesquisas necessárias e para submeter os produtos a testes por órgãos reguladores como o IBAMA e a Anvisa. A produção orgânica também pode ser estendida para a criação de animais e produtos. Nesse modelo de cultura, os animais têm que receber apenas alimentos orgânicos e não podem ser submetidos a nenhum método de estímulo ao

crescimento como hormônios. Além disso, é necessário que eles não sejam mantidos em confinamento. Na elaboração de produtos orgânicos, como geleias, é necessário que os ingredientes sejam todos cultivados seguindo as normas de produção estabelecidos. A doutora Valdirene ressalta que os alimentos orgânicos trazem uma série de benefícios para todas as esferas da produção. Esse modelo de cultivo não polui o meio ambiente (solo, ar e água); os produtos estão livres agrotóxicos e, na maioria das vezes, são produzidos por pequenos produtores ou pela agricultura ­familiar, o que favorece a permanência do agricultor no campo. O produtor orgânico Luiz Clésio da Silva optou por esse modelo de cultivo há cerca de três anos, e nesse período viu o mercado crescer e se expandir. Luiz conta que trabalhou na agricultura convencional quando jovem e que acabou abandonando o campo pelos constantes problemas de saúde, como dermatites e doenças respiratórias causadas pelo contato e pela inalação de defensivos químicos aplicados nas plantações. Após muitos anos afastado do campo, o produtor rural buscou informações a respeito do


Foto: Liliane Fernandes de Oliveira Produtos orgânicos na feira

cultivo orgânico e decidiu retornar à agricultura, seguindo esse modelo por ele agredir menos o organismo e o meio ambiente. O produtor ressalta que um ponto que favoreceu o fortalecimento do cultivo orgânico, na região de Caxias do Sul, foi a regularização de feiras exclusivas para esse segmento. Na feira, o consumidor tem a possibilidade de comprar diretamente do produtor rural, sem o intermédio de atravessadores, que acarretam aumento do preço final dos produtos. Uma frequentadora das feiras orgânicas é a funcionária pública Graciela Kuch que, há alguns anos, optou pelo vegetarianismo e pela alimentação orgânica. Graciela ressalta que escolheu alimentar-se com produtos de origem orgânica, por acreditar que são mais benéficos à saúde, uma vez que, em função do vegetarianismo, as frutas e verduras são a maior parte dos alimentos que consome. A funcionária pública julga que, apesar dos produtos orgânicos terem o valor um pouco mais elevado que os convencionais, ainda valem a pena, por terem um valor nutricional agregado. Quem deseja alimentar-se com produtos orgânicos, tem que buscar pontos de vendas certificados

e produtos com selo de garantia de produção. Caxias do Sul conta com estabelecimentos voltados para esse nicho de mercado e também com feiras, nas quais podem ser encontradas frutas, verduras, e produtos de origem orgânica certificada.

Feiras Orgânicas em Caxias do Sul Quinta-feira Onde: Centro de Convivência da Universidade de Caxias do Sul- Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130 Bairro Petrópolis Horário de funcionamento: das 12h30min às 19h Sábado Onde: Largo da Estação Férrea- Rua Augusto Pestana, S/N - Bairro São Pelegrino Horário de funcionamento: 6h30min às 11h30min

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Revista Entrelinha  

O seguinte projeto gráfico foi desenvolvido na disciplina de Design de Notícia e Planejamento Visual no Jornalismo.

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