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A GRANDE RUPTURA Como a crise climática vai acabar com o consumo e criar um novo mundo

Paul Gilding Tradução: Renato Aguiar

Rio de Janeiro 2014

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Título original: The Great Disruption – How the Climate Crisis Will Transform the Global Economy Copyright © 2011 by Paul Gilding Publicado mediante acordo com Bloomsbury Publishing Inc. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada, reproduzida – em qualquer meio ou fórmula, seja mecânico ou eletrônico, por fotocópia, por gravação etc. –, apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorização da editora Este livro foi revisado segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. DIRETORA EDITORIAL Rosangela Dias EDITOR William Oliveira TRADUÇÃO Renato Aguiar PREPARO Isadora Prospero REVISÃO Ana Beatriz Rangel Beatriz Crespo Dinis CAPA Clara Dias DIAGRAMAÇÃO Estúdio Vintém CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G394g Gilding, Paul A grande ruptura: como a crise climática vai acabar com o consumo e criar um novo mundo / Paul Gilding; tradução Renato Aguiar. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Apicuri, 2014. 300 p. ; 21 cm. Tradução de: The great disruption - how the climate crisis will transform the global economy Inclui bibliografia e índice ISBN 978-85-8317-018-1 1. Mudanças climáticas - Aspectos climáticos. 2. Mudanças climáticas - Política governamental. 3. Desenvolvimento sustentável. I. Título. 14-08535

CDD: 363.738746 CDU: 504.06

[2014] Todos os direitos desta edição reservados à MOREIRA DIAS EDITORA LTDA. – EDITORA APICURI Rua Senador Dantas 75, salas 301 e 507, Centro Rio de Janeiro, RJ – 20031-204 Telefone (21) 2524 7625 editora@apicuri.com.br | www.apicuri.com.br

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Aos pioneiros da sustentabilidade das décadas de 1960 e 1970, que dedicaram a vida a nos alertar sobre o que estava para acontecer: Rachel Carson, Donella e Dennis Meadows, Jorgem Randers, Paul Ehrlich, E.F. Schumacher, Denis Hayes, Stewart Brand e muitos outros. E àqueles que seguiram e seguirão seus passos, à medida que decidirmos realizar suas esperanças em vez dos seus temores. Saudações a todos.

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SUMÁRIO

Introdução 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. 19. 20.

Um furacão econômico e social O grito – Nós somos os filhos dos filhos deles Um problema muito grande Além dos limites – A grande ruptura Viciados em crescimento Sismo inicial – O ano em que o crescimento parou A estrada à frente – Nossa navegação planetária por satélite Estamos liquidados? Quando rompe a barragem da negação A guerra de um grau Como um economista austríaco poderia salvar o mundo Destruição criativa turbinada – Fora o velho, viva o novo Areias em movimento – Do petróleo do Oriente Médio ao sol chinês Um elefante na sala – Crescimento não funciona A economia da felicidade Sim, existe vida depois do consumismo Não, os pobres não estarão sempre conosco Desigualdade ineficaz O futuro está aqui, só não foi amplamente distribuído Adivinha quem está no comando?

Agradecimentos Notas Outras leituras Índice remissivo

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9 15 21 44 64 79 89 102 109 126 135 153 168 187 197 205 212 224 232 246 265 275 279 289 293

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INTRODUÇÃO

Quando escrevi pela primeira vez sobre a inevitabilidade de uma crise global econômica e ecológica, em 2005, a resposta foi principalmente cética. Considerava-se largamente que o sistema de livre mercado seria capaz de se autocorrigir e que sem dúvida estaria apto a resolver qualquer problema com que se defrontasse. Apenas três anos mais tarde, depois do alerta da crise financeira de 2008, o mercado já não parecia tão invencível. O número daqueles que viam potencial para uma crise global começou a crescer. Hoje, com mais de cinco anos de indícios acumulados, quase podemos ouvir o mundo acordando à medida que estouram as bolhas da ilusão. No início desta década, especialistas em muitos campos publicaram conclusões que se alinham com as minhas. O livro The End of Growth [O fim do crescimento], de Richard Heinberg, perito em pico do petróleo, argumentou que, além de graves restrições ambientais e de recursos, enfrentamos uma sobrecarga do sistema financeiro: um mundo oprimido por dívidas. Heinberg concluiu que o crescimento, como sistema econômico, está basicamente acabado. Chandran Nair, de Hong Kong, nos deu Consumptionomics [Consumonomia], uma análise devastadora que explica por que a Ásia absolutamente não pode seguir o modelo ocidental de crescimento. Ele defende que esta região deve abrir caminho para um novo modelo econômico, sendo agora o único grupo de países apto a fazê-lo. Jeremy Grantham, o lendário gestor de fundos, explicou tudo isso em números, mostrando como os preços de commodities alcançaram um nível novo e permanentemente elevado, à medida que restrições de oferta são postas à prova pelo crescimento global. O movimento Ocupe Wall Street popularizou essas discussões, provocando um sério questionamento sobre os perigos da desigualdade extrema e o papel do setor financeiro na economia. As pessoas despertaram para o

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que argumento ser uma “desigualdade ineficaz” – níveis que não são apenas moralmente suspeitos, mas que sequer beneficiam a economia. Mas por que esses protestos têm sido tão bem-sucedidos e por que justamente agora? Ora, o Ocupe Wall Street é como a criança num conto de fadas, dizendo o que todos sabem mas têm medo de dizer: o rei está nu. Eles deram foco àquilo que as pessoas já estavam vendo e sentindo; ou seja, que nosso problema não é apenas a dívida, ou a desigualdade, ou uma recessão, ou a influência corporativa e empresarial, ou a deterioração ecológica. Trata-se de todo o pacote – o sistema está profundamente rachado e além de qualquer reforma incremental. Enquanto isso, aumentavam os indicadores físicos e econômicos da crise. O ano de 2011 presenciou climas extremos, com secas, inundações e incêndios espontâneos rompendo recordes em todo o território dos Estados Unidos, ao passo que a fome generalizada assolava o Chifre da África. O Reino Unido enfrentou tumultos generalizados, as bolsas globais experimentaram uma volatilidade sem precedentes e um número maior de países esteve à beira da insolvência. E, para rematar, o preço dos alimentos teve elevações históricas, enquanto o volume de gelo marítimo ártico registrou baixas recordes. É cada vez mais difícil encontrar pessoas que acreditem que o mercado sempre se autocorrija. Todos os dias recebo e-mails perguntando: “Então é isso? É o começo da crise que seu livro diz que vai chegar?”. A resposta depende de quando você faz a pergunta. Se perguntar hoje: “Estamos enfrentando uma crise global que ameaça a civilização?”, a resposta da maioria dos comentadores será “não – as coisas não estão tão mal assim”. Eles têm uma explicação para tudo. Sim, o clima está mudando, mas trata-se apenas de anos extremos dentro de uma tendência de aquecimento mais amena. A fome africana é influenciada pelo clima, mas resulta mais da má governança e de conflitos. A dívida é uma questão séria, mas criaremos condições para retomar o crescimento rapidamente. O preço dos alimentos está alto, mas a culpa é tanto da especulação de mercado quanto dos limites fundamentais. Todos eles têm razão. Mas, numa perspectiva mais ampla, estão muito, muito errados, como A Grande Ruptura explicará. Se, contudo, você fizer a mesma pergunta no futuro, a resposta será sem dúvida muito clara. Como escreveu Tom Friedman no New York Times,

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em uma coluna sobre este livro: “Eu me questiono se daqui a alguns anos não olharemos para a primeira década do século XXI – quando o preço dos alimentos disparou, o da energia foi às alturas, a população mundial aumentou drasticamente, tornados arrasaram cidades, houve enchentes e secas recordes, populações foram deslocadas e governos ameaçados pela confluência de tudo isso – e nos perguntaremos: ‘O que estávamos pensando? Como não entramos em pânico quando os indícios eram tão evidentes?’”. De modo que, sim, o mundo é um lugar complexo, e toda crise é incitada por muitos fatores, mas a situação no geral é clara. Chegamos ao limite nos últimos anos, e não podemos mais arranjar justificativas para essa realidade. Assim, o que estamos pensando? Se os sinais de crise são tão claros, por que não os vemos? Por que não estamos declarando um estado de emergência e reagindo? Por que estamos fazendo o oposto – discutindo sobre ciência climática enquanto tomamos mais dinheiro emprestado dos nossos filhos para promover um crescimento econômico ilusório? Por que somos a primeira geração que, em vez de se sacrificar em nome do futuro dos nossos filhos, sacrificamos o futuro deles em nosso nome? A resposta é simples e traz uma notícia surpreendentemente boa: quando somos confrontados com um problema tão grande que exige que mudemos de maneira profunda, a resposta natural é a negação. Afinal, aceitação exige mudança, e mudar é difícil. Assim, quanto mais forte se torna a evidência, mais forte se torna a negação. A razão de isso ser uma boa notícia é que o caminho que a negação toma é previsível. Ela fica cada vez mais forte na proporção que aumenta a evidência da necessidade de mudança, como agora testemunhamos, e então entra em colapso, em geral repentinamente. Saber com precisão como e quando ela entrará em colapso é improvável, mas o fato de que ela vai entrar em colapso é claro. No momento, estamos presos, batendo contra os limites do que chamo de armadilha da dívida/crescimento. Funciona assim: em 2008, antes da derrocada financeira, o preço dos alimentos e do petróleo alcançou níveis alarmantes, resultando em distúrbios e inquietação política, que tomou conta de muitos países. Depois veio a recessão. As economias encolheram e o preço do petróleo e dos alimentos caiu. Em resposta, em-

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prestamos maciçamente, determinados a fazer o que fosse necessário para retomar o crescimento. À primeira vista, funcionou. Pacotes de estímulo governamental de grande porte e intervenções em todo o mundo evitaram o colapso da economia global, e ela voltou a crescer novamente, pelo menos no mundo desenvolvido. Então, isso era ou não uma boa notícia? Não estávamos novamente no caminho certo? Não, e essa é a armadilha. Quando começamos a crescer, o preço das commodities aumentou, como tinha aumentado quando a economia estava prosperando, até 2008. O preço dos alimentos alcançou patamares recordes, e o do petróleo tendeu a aumentar. Como você lerá neste livro, o preço das commodities é um dos indicadores-chave de que estamos chegando ao limite do crescimento. Sobre essa questão, Jeremy Grantham é direto: ele diz que “estamos no meio de um dos gigantescos pontos de inflexão da história econômica mundial”, caracterizando-o como “talvez o acontecimento econômico mais importante desde a Revolução Industrial”. “De agora em diante”, ele continua, “a tensão dos preços e a falta de recursos serão um traço permanente da nossa vida... O mundo está exaurindo seus recursos naturais a uma taxa assustadora, e isso causou uma alteração permanente no valor deles”. O interessante é que Grantham aborda a escassez como investidor. Ele analisa os dados objetivamente e chega a conclusões semelhantes àquelas que você lerá aqui, advertindo-nos de que “se mantivermos nosso foco desesperado em crescimento, esgotaremos tudo e implodiremos”. Este contexto estrutura a armadilha da dívida/crescimento. Nós emprestamos maciçamente para nos livrar da última crise financeira, e a única maneira de a dívida resultante poder ser paga é se tivermos um desenvolvimento econômico significativo. Contudo, esse desenvolvimento, explica Grantham, levará a aumentos nos preços das commodities que interromperão o crescimento econômico. De modo que estamos sem saída. Crescer e enfrentar restrições de recursos ou não crescer e nos afogar em dívidas. Mesmo assim, ao viajar pelo mundo para compartilhar a mensagem deste livro, meu otimismo quanto ao futuro não enfraqueceu – ao contrário, foi reforçado. Sim, a crise se aproxima cada vez mais rapidamente, mas o mundo nunca esteve mais preparado para ela. Conversei com inúmeras plateias, grandes e pequenas, desde grupos comunitários até

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13 INTRODUÇÃO

reuniões de executivos. Muitos questionaram a sensatez do meu otimismo, apontando para os abusos contra a ciência, para a incapacidade de diversos governos de atuar sobre essas questões, para a paralisia do sistema político norte-americano, para o rápido derretimento das calotas polares, e para as secas e condições climáticas extremas em todo o mundo. Reconheço tudo isso, mas vejo o mundo de maneira diferente. Vejo o boom do mercado de energia solar global, com quedas dramáticas de preços à medida que a indústria se prepara para o que vem por aí – uma capacidade anual de produção de 50 mil megawatts, em comparação com os cem megawatts produzidos no ano 2000. Vejo a China e outros países em desenvolvimento liderando essa tendência, investindo pesadamente numa economia mais limpa, de baixa emissão de carbono, e decidindo não deixar passar a oportunidade econômica oferecida pela resposta indiferente do Ocidente a essas energias. Vejo a maior campanha de desobediência civil em uma geração, com jovens organizando protestos pacíficos contra o oleoduto de Tar Sands – e o fazendo com um sorriso, optando pela esperança em vez do medo. Ouço conversas na cúpula dos nossos estabelecimentos de defesa, que se preparam para a inevitável crise global decorrente do limite de recursos. Ouço tanto jovens empreendedores quanto líderes empresariais seniores falarem sobre como estão preparando suas empresas para um futuro de possibilidades infinitas em termos de mudanças transformadoras e novas oportunidades de negócio. Principalmente, porém, estou otimista porque vejo a negação atingir o ápice do absurdo. Ouço as opiniões anticiência mais extremas se afirmarem e passo rapidamente do desespero ao riso. Parece que estou falando com um alcoólatra, que me diz não ter nenhum problema e admite apreciar a sarjeta. Por isso sei que esse momento passará. Passará porque somos melhores do que isso. E quando passar, aqueles que estiverem prontos, como a indústria solar e os jovens ativistas do clima, aproveitarão a oportunidade. Sim, temos uma grande tarefa à nossa frente. Temos que fazer nossa civilização entrar pelo buraco da agulha. A capacidade da Terra de prover nossas necessidades está em declínio devido ao uso excessivo e abusivo de recursos, enquanto nossa demanda por esses recursos continua crescendo. Essa é a receita para um grande aperto, com muita dor e sofrimento. Ao chegarmos ao outro lado, porém – quando tivermos aceitado que

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a única opção é construir uma economia que satisfaça às necessidades humanas e ao mesmo tempo reduza o uso global de recursos, quando todos vivermos com menos quinquilharias e mais tempo para as coisas que realmente importam – aí sim veremos um mundo de possibilidades infinitas. Um mundo que somos completamente capazes de construir, com uma economia que alimenta, veste e abriga todos os povos, que dá a todos a oportunidade de levar uma vida satisfatória e realizada, que trata o planeta como se fosse o único que temos. É para onde estamos indo, e escrevo este livro para as pessoas que querem fazer parte desse futuro.

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A grande ruptura  

Com um estilo inovador e lúcido, Gilding faz um alerta sobre a urgência do problema da crise climática global e como ela vai transformar nos...

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