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Publicação Bimensal €8,00

Edição Julho/Agosto . 2018

nº353

Kéramica revista da indústria cerâmica portuguesa


Terça-feira | 2 de outubro de 2018 | 16h00

Circularidade e Competitividade O Caso da Cerâmica e Cristalaria

CONFERÊNCIA Coimbra

Um Novo Olhar Sobre a Cerâmica Portuguesa

WORKSHOP LIPOR, Porto

Quarta-feira | 28 de novembro de 2018

Promotor:

Apoio:

Organização:

Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro


Index

Editorial . 03

Entrevista . 28 À Conversa com Gonçalo Conceição, Gerente da Viúva Lamego

Destaque . 04

Inovação . 33

Projeto CER++ (Cerâmica+Produtiva+Eficiente)

Vidrados Transparente e Mate para Grés Porcelânico Polido

Estudos . 07

Secção Jurídica . 40

07 Avaliação e Melhoria do Desempenho da Cerâmica e Cristalaria em Segurança Alimentar 12 Vigilância Tecnológica dos Produtos Cerâmicos e Similares Relativamente a Desempenho Normativo (Ambiente e Segurança) 15 Impacto de Ambientes Agressivos em Cerâmica Estrutural e de Revestimento

Trabalho Igual Salário Igual

Design . 42 Produtos Cerâmicos Industriais Sustentáveis em Portugal

Formação . 20 Implementação de Práticas com Base na Filosofia de Lean Management

Energia . 44 Sessão Informativa sobre Energia

Ambiente . 23 Promoção de Estratégias de Economia Circular

Propriedade e Edição APICER [Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria] Direção, Administração, Redação e Publicidade Rua Coronel Veiga Simão, Edifício C 3025-307 Coimbra [t] +351 239 497 600 [f] +351 239 497 601 [e-mail] info@apicer.pt [internet] www.apicer.pt Diretor Carlos Hernández Editor e Coordenação Albertina Sequeira [email: Keramica@apicer.pt] Conselho Editorial Albertina Sequeira, António Oliveira, Marco Mussini, Paulo Lima e Sílvia Machado Capa José Luís Fernandes

Calendário de Eventos . 48

Colaboradores Alice Oliveira, Anabela Amado, Ana Sofia Amaral, António Oliveira, Baio Dias, Ferreira Ramos, Helder J.C. Oliveira, João António Labrincha, José Manuel Frade, Marisa Almeida, Marta Ferreira, Marta Frias Borges, Pedro Frade, Regina Santos, Valente de Almeida Paginação José Luís Fernandes Impressão Gráfica Almondina - Progresso e Vida; Empresa Tipográfica e Jornalistica, Lda Rua da Gráfica Almondina, Zona Industrial de Torres Novas Apartado 29 2350-909 Torres Novas [t] 249 830 130 | [f] 249 830 139 [e-mail] geral@grafica-almondina.com [internet] www.grafica-almondina.com Distribuição Gratuita aos associados e assinatura anual (6 números) ; Portugal €32,00 (IVA incluído) ; União Europeia €60,00 ; Resto da Europa €75,00 ; Fora da Europa €90,00 Notas Proibida a reprodução total ou parcial de textos sem citar a fonte. Os artigos assinados veiculam as posições dos seus autores.

Índice de Anunciantes

BONGIOANNI MACCHINE (Verso da Contracapa) • CERTIF (Página 25 ) • IFH – ESTÚDIO CERÂMICO (Página 37) • INDUZIR (Verso da Capa) • PWC (Página 5) • SACMI (Contracapa) • SEW-EURODRIVE (Página 1) • VIÚVA LAMEGO (Página 31)

Publicação Bimensal nº353 . Ano XLIII . Julho.Agosto . 2018

Depósito legal nº 21079/88 . Publicação Periódica inscrita na ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] com o nº 122304 ISSN 0871 - 780X Estatuto Editorial disponível em http://www.apicer.pt/apicer/keramica.php

p.2 . Kéramica . Index

Julho . Agosto . 2018


José Luís Sequeira, Presidente da Direção

Editorial

As melhores heranças não são aquelas que deixamos prontas e acabadas para as gerações futuras, mas antes aquelas que deixamos em condições, para que quem as herdar, possa sustenta-las, desenvolve-las e projeta-las para outros futuros, onde alguém delas irá usufruir e poderá beneficiar. Caberá aos seus beneficiários apresentarem no seu tempo outros desafios e novas propostas de trabalho, de modo a que este ciclo de vida útil das organizações se prolongue no tempo, sempre com renovada frescura e reconfortante juventude. Vem esta introdução a propósito do encerramento de projetos que foram aprovados ainda no mandato da anterior Direção da APICER, e que agora podemos dar como concluídos para apresentação no próximo dia 12 de setembro, com a certeza de que procurámos fazer o melhor possível, com vista aos melhores resultados e às mais eficientes conclusões. Não querendo ser redundante quanto a essas conclusões nem antecipar resultados que melhor serão apresentados no espaço e tempo próprios, e sem que por outro lado queira destacar mais virtudes e mais encómios para esta ou aquela ação concreta, julgo importante referenciar especialmente o concurso ao “Prémio Inovação no Setor Cerâmico”, sobretudo pela surpresa dos resultados da participação, em que intervieram 12 candidaturas, onze das quais na categoria de Materiais, Produtos e Design, e uma na categoria de Processos, Tecnologias e Serviços.

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Dessas 12 candidaturas foi excluída uma delas por ter sido apresentada por um candidato sem residência em Portugal, o que nos termos do respetivo regulamento implica a sua exclusão. De realçar ainda que dez dessas candidaturas foram apresentadas por Alunos, uma por Empreendedor e uma por Técnico a título individual. Mais se refere e salienta o facto de este concurso ter criado a oportunidade de juntar representantes de várias entidades do Sistema Científico e Tecnológico com os quais se constituiu o Júri que fará a apreciação e valorização dessas candidaturas cujos resultados serão então apresentados no próximo dia 12 de setembro. Constitui o Júri o Prof. Doutor Pedro Saraiva (Presidente do Júri, em representação da APICER); Prof. Doutor João Labrincha, Departamento de Engenharia de Cerâmica e Vidro da Universidade de Aveiro; Prof. Doutor José Frade, da Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha – Instituto Politécnico de Leiria, Eng.º Victor Francisco, do CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro, Eng.º António Lamas -Sociedade Portuguesa da Cerâmica e do Vidro. Para todos os jurados, fica o nosso renovado agradecimento. Em função destas conclusões, ficam-nos razões suficientes para felicitar a anterior Direção pelo lançamento do projeto, regozijamo-nos com o facto de a atual Direção e os serviços da APICER terem conseguido dar-lhe execução e concluí-lo, e congratulamo-nos com o facto de as suas conclusões poderem ser úteis às empresas e uma mais-valia para todo o setor da cerâmica portuguesa. É esta a frescura a que me referia na introdução, e é esta a juventude que queremos ver instalada num setor tão tradicional. Resta-nos pois agradecer a todas as entidades e organizações envolvidas, sem as quais não teria sido possível atingir os resultados que em setembro ficarão disponíveis. José L uí s S e q ue i r a ( Presid ent e d a Di reç ã o d a A PIC ER)

Destaque . Kéramica . p.3


Destaque

PROJETO SIAC n.º 16121 - CER++ (C E R Â M IC A + P ROD U T I VA + +EFICIENTE) D I V U L G A Ç Ã O D O S R E S U LTA D O S OBTIDOS

por António Oliveira, Economista da APICER

O projeto “CER++ (Cerâmica+Produtiva+Eficiente)” tem por objetivo reforçar as competências das PME das indústrias de cerâmica e de cristalaria nas áreas da inovação, competitividade e internacionalização, dotando-as de ferramentas e informação suscetíveis de alavancar o seu posicionamento no mercado global. Este projeto, iniciado a 1 de outubro de 2016 e com conclusão a 30 de setembro de 2018, é cofinanciado pelo COMPETE 2020 - Programa Operacional Competitividade e Internacionalização, no âmbito do Sistema de Apoio a Ações Coletivas “Qualificação”, e conta com um investimento elegível de 416.657,72 euros e um Incentivo FEDER - Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional de 354.159,06 euros. Os objetivos do projeto correspondem à concretização de um conjunto de atividades, desenvolvidas em colaboração com o Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro e a consultora PwC, que visam a melhoria do desempenho do produto e dos processos produtivos, tendo em comum uma forte articulação entre todos os stakeholders relevantes do setor, nomeadamente as PME das indústrias de cerâmica e cristalaria. As conclusões e resultados obtidos, aos quais é dado destaque nesta edição da Kéramica, serão divulgados em sessão que a APICER vai promover no próximo dia 12 de setembro de 2018, e que reportam às seguintes atividades: Avaliação e melhoria do desempenho da cerâmica e cristalaria em segurança alimentar Esta atividade, dirigida ao subsetor da louça de mesa (porcelana, faiança, grés e cristalaria), visa a redução de metais pesados presentes nas matérias-primas (tintas, corantes, decalques e vidrados), partindo do envolvimento dos fornecedores deste tipo de produtos. Foi produzida informação com o objetivo de promover a sustentabilidade dos produtos cerâmicos e cristalaria, minimizando os seus impactos ambientais e evidenciando as vantagens destes produtos com forte tradição

p.4 . Kéramica . Destaque

em Portugal, com vista ao seu crescimento sustentado e competitivo. No âmbito desta atividade foram gerados os seguintes resultados: − Relatório com a situação atual; − Resultados de libertação de metais; − Relatório com avaliação de viabilidade técnica e/ ou económica das estratégias de redução de metais ao longo do ciclo de vida do produto de louça cerâmica; − Modelo de previsão ou “árvore” de decisão da libertação de metais para a fase de conceção de peças cerâmicas. Vigilância tecnológica dos produtos cerâmicos e similares relativamente a desempenho normativo (ambiente e segurança) Relacionada com os subsetores da cerâmica de mesa e dos pavimentos e revestimentos cerâmicos, esta atividade tem por objetivo a avaliação do cumprimento, em matéria de normativos legais, dos produtos cerâmicos da louça e dos pavimentos e revestimentos existentes no mercado, nomeadamente no que concerne a matéria de ambiente e segurança alimentar. Os resultados produzidos incluem: − Estudo de mercado (oportunidades e ameaças de cumprimento de requisitos de segurança alimentar e am-

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Olhar para o futuro

A PwC apoia a indústria da cerâmica e de cristalaria Em Portugal, somos cerca de 1.300 colaboradores, apoiados por uma rede global com cerca de 236.000 pessoas em 158 países, que partilham o objetivo de prestar serviços de qualidade em auditoria, assessoria de gestão, fiscalidade e formação para executivos. Conheça-nos melhor em www.pwc.pt

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Destaque

biente dos produtos cerâmicos); − Guia com aplicabilidade normativa aos subsectores na área de ambiente e segurança alimentar; − Relatório de caracterização com ensaios. Estudo sobre o impacto de ambientes agressivos em cerâmica estrutural e de revestimento Através desta atividade, dirigida aos subsetores da telha cerâmica e do tijolo face-à-vista, foi desenvolvido um método de ensaio representativo das condições atmosféricas da zona costeira e que permite avaliar a resistência à corrosão salina dos materiais cerâmicos. Foram também definidos critérios para a produção de materiais cerâmicos estruturais e de revestimento com princípios que lhes permitam maior resistência a estes ambientes. Foi igualmente desenvolvido um Guia que pretende constituir um manual de referência para os fabricantes de telhas e para os construtores e, à semelhança de outros manuais editados no passado, ser inclusivamente adotado para formação em diversos cursos de engenharia civil em universidades e institutos politécnicos. Os resultados desta atividade incluem: − Procedimento para o ensaio da resistência a ambientes salinos das telhas cerâmicas e tijolos de face-à-vista: − Guia para Projeto e Aplicação de Telhas Cerâmicas (formato digital). Implementação de práticas com base na filosofia de Lean Management Esta atividade, direcionada aos vários subsetores da indústria cerâmica, visa a promoção das metodologias com base nas filosofias de Lean Management aplicada aos processos, tendo em vista a melhoria da produtividade e a criação de valor no setor da cerâmica, bem como generalizar as melhores práticas disponíveis em cada um dos subsetores. Os resultados produzidos incluem: − Estudo do estado da arte; − Relatório de benchmarking; − Guia de caracterização das ferramentas aplicáveis/adequadas aos subsetores e resultados previstos; − Workshops de divulgação (capacitação dos intervenientes nos projetos como garantia do sucesso da implementação de ferramentas Lean).

lizados de novo como matérias-primas ou materiais secundários num outro produto ou indústria e respetivo ciclo de vida, promovendo desta forma o uso racional de recursos e minimizando a geração de resíduos. Foram obtidos os seguintes resultados: − Estudo de mercado de potenciais destinos para o caco cerâmico, incluindo simbioses industriais; − Resultados com parâmetros de caraterização que possam contribuir para a desclassificação de resíduos; − Metodologia para a desclassificação de caco cerâmico com definição da melhor estratégia de valorização de resíduos (desclassificação ou fim de estatuto de resíduo); Definição de benchmark de CO2 face ao estado da arte dos subsectores; − Guião de estratégias para a transição de uma economia com baixas emissões de carbono na indústria cerâmica associada à construção. Prémio Inovação no Setor Cerâmico O Prémio Inovação do Setor Cerâmico foi lançado pela APICER, em colaboração com a PwC, como o objetivo de promover a geração de ideias inovadoras que possam dar resposta às oportunidades existentes no mercado. O concurso, cujo prazo para a receção de candidaturas decorreu entre os dias 1 e 27 de julho de 2018, foi aberto a empreendedores, investigadores, alunos e técnicos a título individual, nas categorias de “Materiais, Produtos e Design”, “Processos, Tecnologias e Serviços” e “Gestão e Organização”. Foram rececionadas 12 candidaturas que serão apreciadas por um Júri que inclui representantes da APICER, Departamento de Engenharia de Cerâmica e Vidro da Universidade de Aveiro, Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha – Instituto Politécnico de Leiria, Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro e Sociedade Portuguesa da Cerâmica e do Vidro. Os candidatos e propostas vencedoras serão anunciados na sessão de divulgação a realizar no dia 12 de setembro de 2018.

Promoção de estratégias de economia circular O objetivo desta atividade, dirigida transversalmente a todos os subsetores da indústria cerâmica, consiste em desenvolver estratégias que permitam valorizar e promover os recursos naturais, nomeadamente através de simbioses industriais, ou seja, criando condições para que resíduos ou subprodutos de uma indústria possam ser uti-

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Estudos

AVALIAÇÃO E MELHORIA DO DESEMPENHO DA CERÂMICA E CRISTALARIA EM SEGURANÇA ALIMENTAR

por Alice Oliveira, Regina Santos; Marisa Almeida e Anabela Amado, do CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro

1. INTRODUÇÃO Os materiais em contacto com os alimentos devem ser seguros e não devem transferir os seus compostos para os alimentos em quantidades não aceitáveis, existindo por isso, limites específicos impostos para a libertação potencial de substâncias durante o contacto com os alimentos, nomeadamente de chumbo e cádmio, para que os consumidores estejam dentro do possível menos expostos. Recentemente, a Comissão Europeia colocou a possibilidade de revisão da Diretiva n.º 84/500/CEE, publicando, em 2012, o 1.º draft da revisão da diretiva. A redução dos limites propostos para chumbo e cádmio é bastante significativa, na ordem de 400 vezes inferior para o chumbo e 60 vezes inferior para o cádmio, no caso da categoria 2. A atualização dos limites para chumbo (Pb) e cádmio (Cd) foi considerada como prioritária, no entanto, encontra-se em aberto a possibilidade de inclusão de limites de libertação de outros metais pesados considerados perigosos e relevantes na louça utilitária colorida por existirem em muitas matérias-primas e aditivos, tais como: cobalto (Co), cobre (Cu), manganês (Mn), entre outros. A mudança dos limites de libertação de metais vai afetar a indústria, que precisa de saber quais os seus produtos que satisfazem os novos limites e adaptar-se para poder cumprir com a novas exigências legislativas europeias, podendo ser necessário substituir alguns materiais e/ou métodos de produção. Assim, a alteração proposta na revisão da legislação implica um esforço suplementar dos diversos agentes envolvidos, nomeadamente produtores, fornecedores de matérias-primas e laboratórios, que obriga à realização de estudos e de desenvolvimento de novas matérias-primas e processos. O estudo focou-se no aprofundamento do conhecimento da principal causa detectada como fonte de libertação de metais na louça cerâmica: matérias-primas associadas a tintas e corantes, decalques e vidrados, partindo do envolvimento dos fornecedores deste tipo de produtos, sem prejuízo da utilização do leque de cores necessários para cumprir com os requisitos de design atuais. A avalia-

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ção da eficácia foi monitorizada através da realização de ensaios normalizados.

2. METODOLOGIA/DESENVOLVIMENTO A abordagem metodológica utilizada baseou-se no estudo desenvolvido pelo Joint Research Centre (JRC), em Outubro de 2016, para a Comunidade Europeia, relativo à migração de metais em materiais em contacto com alimentos. A análise de metais foi realizada após extração com ácido acético, que demonstrou continuar a ser o método mais representativo, e adicionalmente à primeira extração foi testada a migração na terceira extração, de acordo com as orientações preconizadas para a futura regulamentação. Foram envolvidas no estudo empresas representativas das matérias-primas utilizadas na maioria das empresas cerâmicas nacionais, envolvendo empresas fornecedoras de vidros, decorações, bem como empresas utilizadoras (aplicação dos decalques nas peças de grés, e a sua cozedura nas condições de fabrico industrial, num forno de decoração). Numa primeira fase, foram preparadas duas amostras de cada uma das referências tal qual (sem fundentes ou camadas protetoras). Numa fase posterior foi testado o efeito do vidrado base sobre a libertação de metais, em duas referências, que na primeira fase do trabalho apresentaram valores mais elevados de libertação de metais, de modo a se perceber a influência do vidrado suporte na migração dos metais, tendo em conta as características do vidrado: Transparente; Semi-opaco e Opaco. Em paralelo, foram ainda preparadas para ensaios seis grupos de decalques das amostras referenciadas, com aplicação respetivamente de seis composições de fundentes distintas, para estudo do efeito dos fundentes sobre a migração de metais para a solução. Este estudo foi efetuado sobre um conjunto de 10 de amostras, selecionadas após a caraterização da migração de metais no primeiro grupo de amostras de referência. Os produtos resultantes dos testes realizados pelas empresas fornecedoras foram submetidos a ensaios de mi-

Estudos . Kéramica . p.7


Estudos

p.8 . Kéramica . Estudos

Após os resultados obtidos nos ensaios referidos anteriormente, foram selecionadas duas referências de cor azul, que na primeira fase do trabalho apresentavam valores mais elevados de libertação de Pb, Cd e Co, para estudar o efeito dos vidrados de suporte com base diferente da utilizada anteriormente (vidrado opaco e transparente). Das referências ensaiadas apenas a migração de chumbo e de cobalto foi detetada e quantificada. O primeiro nas duas lixiviações ensaiadas e o segundo apenas foi detetado na primeira lixiviação. As tendências observadas no vidrado semi opaco utilizado como referência nos ensaios, mantêm nos outros dois vidrados, transparente e opaco. Nos gráficos seguintes estão evidenciadas as tendências ao nível da migração destes dois elementos nos diferentes tipos de vidrado base, nas duas amostras selecionadas.

Migração de Pb

120

12 1236 Azul 72 1234 Azul

100 80

40 20 0

1ª lixiviação

3ª lixiviação

Vidrado transparente

1ª lixiviação

3ª lixiviação

Vidrado semi opaco

1ª lixiviação

Vidrado Opaco

Migração de Co

1000

3ª lixiviação

Gráfico 1 – Migração de Pb

60

12 1236 Azul

900

72 1234 Azul

800 700 600 500 400 300 200 100 0

1ª lixiviação

3ª lixiviação

Vidrado transparente

1ª lixiviação

3ª lixiviação

Vidrado semi opaco

1ª lixiviação

3ª lixiviação

Vidrado Opaco

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Gráfico 2 – Migração de Co

Na primeira fase do estudo foram utilizadas 28 referências de paletas designadas por “isentas”, ou seja sem adição intencional de chumbo e cádmio, em que os fornecedores apenas garantem teores inferiores a 100 ppm de chumbo e 600 ppm de cádmio, podendo no entanto estes elementos estar presentes de forma residual. Foram efectuados ensaios de migração nas amostras sem fundente e com vidrado branco semi-opaco. Verificou-se que apenas 4 das 28 amostras evidenciaram a presença de Pb em solução na 3ª lixiviação e nenhuma das amostras denotou a presença de Cd na 3ª lixiviação. Dos elementos cobalto, cobre, manganês e lítio, apenas foi detetado e quantificado o elemento cobalto em amostras de cor azul e na primeira lixiviação. Tendo em conta as alterações metodológicas previstas na nova Diretiva, que prevê o estabelecimento dos limites de migração de metais na 3ª lixiviação, os resultados de migração dos metais ensaios evidenciam à partida um bom desempenho, não tendo qualquer das 28 referências ensaiadas evidenciado valores superiores aos projetados na nova Diretiva. Por outro lado, os resultados obtidos demonstram que os fenómenos de migração são na generalidade mais difíceis de contornar no caso do Pb. Na primeira lixiviação é um elemento que mesmo em níveis reduzidos está quase sempre presente. O mesmo se passa com o Cd, mas em menor escala e para outra gama de cores mais restrita. Uma evolução no sentido da eliminação completa destes dois elementos dos vidrados em contacto com os alimentos irá condicionar fortemente a riqueza da palete de cores que ficarão disponíveis para a utilização na decoração de materiais a usar em contacto com os alimentos. À exceção do Co, os outros elementos estudados não apresentaram níveis de migração significativos não colocando grandes restrições à sua incorporação como corantes nas decorações de produtos cerâmicos, nomeadamente no contexto estudado de cozedura de decoração a temperaturas entre 805 e 810 °C. O Co, usado intensamente para a obtenção de decorações azuis, denota em algumas referências níveis de migração elevados numa primeira lixiviação, níveis esses que também normalmente são acompanhados por níveis

3.2. Amostras com vidrado transparente e opaco

(ug/l)

3. RESULTADOS 3.1. Amostras sem fundente e com vidrado branco semi-opaco

de Pb significativos, nomeadamente na 3ª lixiviação. Este desempenho poderá vir a condicionar a obtenção de alguns tons de azul nas decorações cerâmicas, caso os limites impostos por alguns mercados não admitam a migração destes elementos.

(ug/l)

gração no CTCV. Os metais foram extraídos com auxílio de ácido acético a 4%, num ambiente controlado a uma temperatura de 22°C. As peças foram sujeitas a extração em 3 lixiviações sucessivas, sendo as análises efetuadas na 1ª e 3ª lixiviação. Nestas soluções de extração, além do chumbo e cádmio, foram ainda analisados outros elementos, nomeadamente: cobalto, cobre, manganês e lítio.


Estudos

Em termos de migração do chumbo os valores mais baixos são observados, em ambas as amostras, no vidrado semi opaco, situação que também é verificada na 3ª lixiviação. As variações mais significativas sucedem no vidrado transparente na amostra com a referência azul 12 1236 onde a migração de Pb é ligeiramente superior, tanto na 1ª como na 3ª lixiviação. No caso do cobalto verifica-se que os valores de migração mais baixos foram obtidos no vidrado opaco, com algum destaque na amostra com a referência azul 12 1236, não se tendo detetado migração deste elemento na 3ª lixiviação. Os resultados obtidos permitem-nos comprovar que ao nível da migração dos vários elementos ensaiados as tendências se mantêm, permitindo-se aferir a validade do estudo baseado no ensaio das amostras aplicadas sob vidrado semi opaco.

3.3. Amostras com diferentes composições de fundentes Para esta fase do estudo foram utilizados seis fundentes diferentes, que foram aplicados no mesmo tipo de peças utilizadas na primeira fase (amostras com vidrado branco semi opaco), cozidas de igual modo na fábrica com o mesmo ciclo térmico e foi seguida a mesma metodologia de extracção e de determinação de metais. Apenas o Pb, o Cd e o Co (em apenas duas referências de corantes azuis) evidenciam migração para a solução de extracção. A migração dos elementos Cu e do Li que encontrase sempre abaixo do limite de quantificação do equipamento. O efeito dos fundentes não tem uma tendência homogénea induzindo libertação distintas para elementos distintos e para referências distintas. Para evidenciar algum tipo de tendência ou correlação efetuou-se a representação gráfica dos resultados individualizados da migração para cada um dos elementos, apresentando-se nos gráficos seguintes essas variações. Como se pode verificar, com base na análise gráfica do efeito dos fundentes sobre a migração do Pb, Gráfico 3, não existe uma tendência homogénea de cada um dos fundentes sobre a migração deste para solução. Neste sentido, considerando a análise do desempenho dos vários fundentes podem verificar-se: - Fundente 1 (ref.ª 102500) – É o que induz a maior oscilação na migração de Pb para solução. Nas referências de corantes azuis o seu efeito é ainda mais critico se tivermos em conta que em ambos os casos induz um aumento da migração do Pb na 3ª lixiviação. No caso da migração de Cd este fundente tem um efeito bastante positivo na maioria das referências contribuindo para a redução, quase total, da migração de Cd para a solução. As exceções neste caso estão associadas às referências de Vermelho e do Bordeaux. No caso do Co este fundente induz também um

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aumento de migração de Co na mesma referência de azul onde se verificou o forte aumento da migração do Pb. - Fundente 2 (ref.ª 1064053) – O fundente que induz também uma oscilação elevada no nível de migração de Pb para a solução e em em mais de 50% das situações induz um aumento da migração face às amostras sem fundente. O seu efeito na migração de Cd é menos eficaz do que a de outros fundentes, contribuindo para uma diminuição em 50% das referências ensaiadas, mas potenciando por sua vez o aumento da migração nos azuis e no preto. Relativamente ao seu efeito na migração de Co verifica-se que tem um efeito positivo, diminuindo a migração do Co para a solução. - Fundente 3 (ref.ª 10117) – É o fundente que no conjunto das referências ensaiadas apresenta um desempenho mais favorável na 1ª lixiviação contribuindo para a diminuição do nível de migração de Pb face à amostra sem fundente em 60 % dos casos e levando a ligeiros aumentos nas situações restantes. Acresce a este desempenho o facto de nenhuma amostra processada com este fundente evidenciar migração de Pb na 3ª lixiviação. O recurso a este fundente tem um impacto bastante positivo na redução da migração de Cd na maioria das referências, com excepção das duas referências de azul. O efeito na migração de Co é bastante positivo, contribuindo para uma diminuição significativa face à amostra sem fundente. - Fundente 4 (ref.ª 10143) – Apresenta um comportamento interessante na diminuição da migração de Pb nas referências de cor azul. Em duas situações induz um aumento significativo da migração de Pb face à amostra sem fundente (1 amarelo e 1 preto). Em 50% das referências o nível de migração de Pb anda próximo do nível apresentado pela amostra sem fundente. Na 3ª lixiviação não é detetada a migração de Pb em nenhuma das amostras ensaiadas. Relativamente à migração de Cd, o desempenho evidenciado não é favorável. Apenas em 2 amostras se verifica uma diminuição do nível de migração de Cd face à amostra sem fundente. Nas demais amostras a presença deste fundente induz alguma a migração de Cd, mesmo em referências onde esta não era verificada na amostra sem fundente. Quanto ao seu efeito na diminuição da migração do Co este fundente é o que apresenta melhor desempenho, evidenciando os níveis mais baixos em qualquer um dos casos. - Fundente 5 (ref.ª 101650) – Evidencia um desempenho bastante favorável na 1.ª lixiviação. Apresenta um comportamento interessante na diminuição da migração de Pb nas referências de cor azul e num dos amarelos. Contudo atendendo ao seu efeito na migração do Pb na 3.ª lixiviação o seu desempenho já não se configura tão favorável uma vez que em 40% das referências ensaiadas (1 Laranja, 1 Bordeaux, 1 verde e 1 preto) se deteta a migração de Pb que não é verificada nem no material sem fundente, nem com qualquer dos outros fundentes. O efeito no controlo da mi-

Estudos . Kéramica . p.9


Estudos

Gráfico 3 – Efeito dos fundentes na migração do Pb para solução – 1ª Lixiviação.

200,0

150,0

100,0

50,0

0,0

Amarelo

Amarelo

Sem Fundente

Laranja escuro Fundente 1

Vermelho

Rosa escuro

Fundente 2

Bordeaux

Fundente 3

Verde Fundente 4

Azul Fundente 5

Azul

Preto

Fundente 6

Gráfico 4 – Gráfico 4 – Efeito dos fundentes na migração do Cd para solução – 1ª Lixiviação.

25

20

15

10

5

0

Amarelo

Amarelo

Sem Fundente

Laranja escuro Fundente 1

Vermelho

Rosa escuro

Fundente 2

gração do Cd para a solução também é bastante favorável, verificando-se que apenas 3 amostras evidenciam migração de Cd, na 1.ª lixiviação, e em níveis bastante inferiores aos exibidos pela respetiva amostra de referência sem fundente. Contudo duas destas amostras continuam a evidenciar a migração de Cd na 3.ª lixiviação o que condiciona o seu desempenho nestas referências (1 vermelha e 1 verde). O efeito deste fundente na diminuição da migração do Co é bastante favorável e equiparado ao do fundente 4.

p.10 . Kéramica . Estudos

Bordeaux

Fundente 3

Verde Fundente 4

Azul Fundente 5

Azul

Preto

Fundente 6

- Fundente 6 (ref.ª 10169) – Fundente que na maioria das situações não parece apresentar vantagens face à amostra sem fundente. Em 80% dos casos induz um ligeiro aumento da migração de Pb e em apenas 2 referências induz uma redução modesta da migração de Pb na 1.ª lixiviação. Na 3.ª lixiviação o seu efeito na redução da migração do Pb nas duas referências de azul não é alcançado, mantendo-se mais ou menos no nível apresentado pelas amostras sem fundente.

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1100

Sem Fundente

1000

Fundente 1

900

Fundente 2

800

Fundente 3

700

Fundente 4

600

Fundente 5

500

Fundente 6

400 300 200 100 0

Azul

Azul

12 1236

72 1234

Apenas 3 amostras processadas com este fundente evidenciam migração de Cd, na 1.ª lixiviação, em níveis bastante inferiores aos exibidos pela amostra de referência sem fundente. O efeito diminuição da migração do Co é também favorável evidenciando uma redução efetiva dos níveis de migração de Co.

4. CONCLUSÕES A migração de metais pesados da louça cerâmica encontra-se associada, de forma genérica, a determinadas matérias-primas utilizadas no processo de fabrico e indispensáveis para a obtenção do produto final pretendido/ exigido pelo cliente.

Na estratégia para a redução de metais pesados presentes nas matérias-primas, no que se refere ao ensaio de migração de metais, será essencial que na revisão da legislação seja considerado a 3.ª lixiviação, em detrimento da 1.ª, tendo em conta que nesta lixiviação a quantificação de metais é significativamente reduzida. Uma boa prática a seguir pelas empresas será a colocação de fundente, como camada protetora, encapsulando as tintas/corantes, no entanto, esta medida deve ser avaliada caso a caso, com os diferentes fundentes atualmente disponíveis, porque podem resultar de forma diferente consoante o tipo de cor e parâmetro a avaliar. A análise do efeito destes fundentes poderá ser efetuada por fundente, ou por referência, sendo que para minimizar a migração dos elementos para solução a metodologia mais adequada será efetuar a análise por referência, considerando nesta análise não só os efeitos da 1.ª e 2.ª lixiviação como também os efeitos cruzados da libertação dos vários elementos para solução. A análise por fundente poderá ser importante em termos de processo quando são conjugadas várias referências numa mesma decoração e aí coloca-se na análise não só a eficiência dos processos de produção das decorações, como também os efeitos conjugados das várias referências de corantes para se proceder à seleção do fundente que induz melhor desempenho. Avaliando todo o ciclo de vida da louça cerâmica, conceção, fabrico e utilização, há que ter em conta determinadas medidas e boas práticas essenciais para contribuir para um produto com redução de metais, que se encontram resumidas no quadro 1.

Medidas / Boas práticas para a redução de metais pesados

Viabilidade técnica

Viabilidade económica

Sensibilização dos técnicos de desenvolvimento e conceção do produto para a seleção de cores e decorações sem recurso a tintas, vidros e corantes com metais pesados

$

Seleção de cores e decorações que utilizem composições de tintas com baixos teores ou mesmo isentas de metais pesados

$$

Implementação de um plano de receção, inspeção e controlo de matérias-primas e auxiliares

$

Controlo das fichas técnicas e fichas de dados de segurança, nomeadamente a composição de metais pesados nos diversos materiais utilizados

$

Substituição de cores ou decorações por outras afins mas com menor nível de perigosidade ou menor probabilidade de migração

$

Considerar, sempre que possível, a aplicação da camada protetora que impeça ou minimize a libertação de metais, nomeadamente nas decorações on-glaze

$$$

Gestão e controlo da curva de cozedura (incluindo temperatura máxima e duração do ciclo)

$$$

Manutenção periódica do forno, substituindo o material refratário que possa contaminar a louça a cozer

$$$

Sensibilização do utilizador para lavar as peças antes de as usar pela primeira vez, por exemplo com indicações nas embalagens que seguem com o produto $ - Baixa

$$ - Média $$$ - Elevada

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Baixa

Média

$

Elevada

Estudos . Kéramica . p.11

Quadro 1 – Medidas / Boas práticas para a redução de metais pesados

Gráfico 5 – Efeito dos fundentes na migração do Co para solução – 1ª Lixiviação.

Estudos


Estudos

VIGILÂNCIA TECNOLÓGICA DOS PRODUTOS CERÂMICOS E SIMILARES RELATIVAMENTE A DESEMPENHO NORMATIVO (AMBIENTE E SEGURANÇA)

por Marta Ferreira e Valente de Almeida, do CTCV – – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro

CONTEXTUALIZAÇÃO As crises alimentares, extremamente amplificadas pelos meios de informação e por excessivos alertas sanitários de diversas proveniências, têm contribuído de maneira decisiva para criar climas de medo e insegurança junto dos consumidores portugueses e europeus perante os produtos alimentares. Actualmente, a União Europeia é o maior importador/exportador mundial de alimentos e bebidas, decorrendo daí que tenham sido dados vários passos no seio da Europa para encontrar mecanismos para repor a confiança dos consumidores, principalmente em termos de gestão da qualidade, segurança dos produtos, transparência na informação e segurança das embalagens ou materiais usados para transporte, acondicionamento, manipulação e consumo dos produtos alimentares, onde se incluem a louça utilitária, embalagens em material cerâmico e o vidro de embalagem para alimentos líquidos e sólidos. A segurança alimentar é o conjunto de medidas integradas com o objectivo de oferecer ao consumidor géneros alimentícios seguros: • Que não representem perigo para a saúde do consumidor; • Cujos constituintes ou contaminantes capazes de causar perigo para a saúde, estejam ausentes ou abaixo do limite critico; • Que sustentem a produção de embalagens e recipientes de suporte (pratos, taças, copos, etc.) seguros, o que tem implicações no processo de produção cerâmico e do vidro; É da responsabilidade dos produtores de embalagens e de recipientes de suporte garantir que estes não apresentam perigo para o consumidor quando são manuseados e utilizados no contacto com alimentos. Uma vez que as empresas cerâmicas e do vidro são intervenientes na cadeia alimentar, devem também aplicar todas as medidas necessárias para a salubridade dos alimentos e a segurança dos consumidores. Uma das estratégias disponíveis para operadores da cadeia alimentar, onde se incluem as

p.12 . Kéramica . Estudos

empresas cerâmicas, para promover a segurança dos seus produtos é o HACCP, um sistema preventivo de controlo alimentar cujo objectivo é a segurança dos alimentos. É uma abordagem documentada e verificável, para a identificação dos perigos, das medidas preventivas, dos pontos críticos de controlo e para a sua monitorização. Este sistema baseia-se em 3 princípios: 1. Identificação e avaliação dos perigos associados com ao processo produtivo 2. Determinação de pontos críticos para controlar qualquer perigo identificado 3. Estabelecimento de sistemas para monitorar os pontos críticos de controlo A conceção dos materiais de embalagem e de suporte deve proporcionar uma protecção adequada aos produtos de forma a minimizar a contaminação e a prevenir os danos, e deve acomodar uma etiquetagem apropriada. Os materiais de embalagem e de suporte quando utilizados, devem ser não tóxicos e não devem representar uma ameaça à segurança e à adequação dos alimentos, de acordo com as condições especificadas de armazenamento e utilização. Quando seja esse o caso, as embalagens ou matérias de suporte reutilizáveis (como é o caso da louça e do vidro) devem ter uma durabilidade adequada, ser fáceis de limpar e, quando necessário, de desinfectar.

Origem

Categoria

Pb (mg/l* ou mg/dm2**)

Cd (mg/l* ou mg/dm2**)

Indonésia

Small Holloware

< 0,2 l.q.

< 0,02 l.q.

China

Small Holloware

< 0,2 l.q.

< 0,02 l.q.

China

Small Holloware

< 0,2

l.q.

< 0,02 l.q.

China

Small Holloware

< 0,2 l.q.

< 0,02 l.q.

Tailândia

Small Holloware

< 0,2

l.q.

< 0,02 l.q.

China

Small Holloware

< 0,2 l.q.

< 0,02 l.q.

* - aplicável a “small holloware” ** - aplicável a “flatware”

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Figura 1 – Exemplos de louça comercializada no mercado nacional provenientes de mercados como a China, Indonésia e Tailândia

Estudos

Com base na legislação existente e requisitos normativos aplicáveis nas áreas da segurança alimentar e ambiente foi elaborado um guia, a fornecer à indústria cerâmica dos subsectores da louça utilitária e de revestimentos cerâmicos, que orientará as referidas Empresas nestas

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temáticas, muitas vezes confusas e diluídas em legislação avulsa. No que se refere às questões ambientais são abordadas temáticas relacionadas com as várias etapas do ciclo de vida dos materiais cerâmicos, incluindo aspectos ambientais como águas, energia efluentes e resíduos, com vista a

Estudos . Kéramica . p.13


Estudos

uma maior sustentabilidade nesta áreas bem como dotar o sector de ferramentas que permitam antecipar o cumprimento de requisitos legais e outros. Com o intuito de complementar este estudo com outros mercados de proveniência da louça importada (a grande maioria é proveniente do mercado chinês) procedeu-se à aquisição de louça comercializada no mercado nacional. Em forma de resumo, apresentam-se os resultados desses ensaios bem como a proveniência e aspecto das peças adquiridas (foi particularmente difícil obter louça de outras proveniências que não a China, tendo sido possível adquirir louça proveniente da Tailândia e Indonésia). Como principal conclusão deste estudo pode constatar-se que as amostras recolhidas cumprem a legislação nacional e europeia aplicável, encontrando-se os valores obtidos muito abaixo dos limites máximos admissíveis.

GUIA COM APLICABILIDADE NORMATIVA AOS SUBSECTORES NA ÁREA DE AMBIENTE E SEGURANÇA ALIMENTAR O guia com aplicabilidade normativa de ambiente e segurança pretende fornecer um conteúdo normativo aplicável e em vias de desenvolvimento para que o setor possa avaliar o cumprimento dos produtos existentes no mercado em matéria de normativos legais, nomeadamente ambientais e de segurança alimentar. Desta forma, pretende-se garantir um maior controlo do produto existente no mercado, assim como antecipar necessidades e ferramentas que garantam o cumprimento de novos requisitos legais e outros, nas temáticas do ambiente e segurança alimentar, contribuindo para que o setor cerâmico apresente uma maior competitividade e sustentabilidade. A crescente preocupação e regulamentação ambiental, aliada à importância e pressão da opinião pública, colocam a questão do desempenho ambiental dos produtos cada vez mais como uma das prioridades dos fabricantes, os quais têm uma série de requisitos a cumprir para os produtos. Por outro lado, a estratégia para o desenvolvimento sustentável assenta, entre muitas outras variáveis, na obtenção de produtos que possam garantir impactes o mais reduzidos possível no ambiente, e uma utilização sustentável dos recursos, ao longo de todo o seu ciclo de vida, incluindo a fase de utilização, onde devem proporcionar igualmente as melhores condições em termos de saúde e conforto. Ao falar-se em segurança alimentar é imperativo falar dos materiais e objetos destinados a entrar em contacto com os géneros alimentícios, nomeadamente, embalagens, louça de mesa e de cozinha, tubagens, depósitos, mesas de trabalho, utensílios ou equipamento para processar alimentos, isto é, toda e qualquer superfície que esteja em contacto com os alimentos ou que a isso se destine. Estes materiais e objetos devem ser suficientemente inertes para não provocarem a transferência de subs-

p.14 . Kéramica . Estudos

tâncias para os alimentos em quantidades suficientes que representem um risco para a saúde humana, alterações inaceitáveis na composição dos alimentos ou uma deterioração das suas propriedades organoléticas. Nos países desenvolvidos, uma grande parte do mercado do setor das embalagens é destinado ao ramo alimentar, mercado este que está em contínuo crescimento devido ao avanço tecnológico na área e ao aumento na diversidade de materiais utilizados no embalamento dos alimentos, revelando deste modo uma crescente preocupação e importância por parte das entidades do setor e da própria sociedade. Por este motivo, o tipo de embalagem utilizada no acondicionamento dos alimentos é um dos fatores essenciais para o sucesso ou fracasso de muitas empresas do setor alimentar. Fatores como a facilidade das operações logísticas, a forma de preservar os alimentos e o cumprimento das regras de segurança alimentar, cada vez mais exigentes, bem como todas a questões ligadas à comodidade para os consumidores e marketing utilizados, são alguns dos pontos-chave que têm vindo a ter uma enorme importância na estratégia destas empresas. O Guia desenvolvido (e disponibilizado pela APICER) apresenta um conjunto de normativos ambientais e de segurança alimentar aplicáveis aos referidos subsetores, tendo em conta o ciclo de vida destes produtos cerâmicos, nomeadamente na sua utilização, promovendo desta forma o desenvolvimento de produtos mais sustentáveis. Este guia está estruturado da seguinte forma:

Ambiente Instrumentos legais

• Libertação de substâncias de materiais cerâmicos de construção para meios aquosos • Substâncias químicas

Segurança alimentar

• Libertação de metais pesados para os alimentos • Avaliação de Ciclo de Vida (ACV)

Ambiente

• Eco-Design • Rótulos e Declarações Ambientais

Instrumentos voluntários Segurança alimentar

• HACCP • ISO 22000 • BRC

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Estudos

IMPACTO DE AMBIENTES AGRESSIVOS EM CERÂMICA ESTRUTURAL E DE REVESTIMENTO

por Valente de Almeida e Baio Dias, do CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro

INTRODUÇÃO Uma das necessidades atuais dos produtores de cerâmica estrutural e de revestimento refere-se ao facto de estes produtos serem suscetíveis ao ataque de sais de sódio, o qual conduz à sua degradação, provocando uma diminuição da espessura do material e o seu enfraquecimento. A ocorrência de sais de sódio no ambiente dá-se essencialmente nas zonas costeiras e predominantemente nas zonas em que haja rebentação das ondas do mar nas rochas e arribas, sendo o sal levado por ação do vento até às coberturas e fachadas das casas próximas desta influência. Embora existam normas estas encontram-se adaptadas em número de ciclos e concentração salina para os metais. No entanto poderão ser usados os mesmos princípios mas com adaptações às caraterísticas dos produtos que pretendemos estudar, nomeadamente produtos de cobertura e fachada.

CONTEXTUALIZAÇÃO Aproximadamente metade da população de todo o mundo vive atualmente numa faixa litoral de 50 km. Por esta razão, a presença de construções nestas zonas é abundante. Pode afirmar-se que grande parte das construções no mundo está nas proximidades de oceanos e mares pelo que existe uma elevada interação entre os ambientes marinhos (de grosso modo) com os polos urbanos edificados. A água dos oceanos apresenta uma composição rica em sais. Na realidade, em média por cada 1000g de água do mar, cerca de 35g são sais (Gross, 1967). Os iões que constituem estes sais são maioritariamente o cloreto (Cl-) e o sódio (Na+) com percentagens médias de 55% e 30,6%, respetivamente. Estes iões, através de um processo químico relativamente simples, por forças eletrostáticas formam o cloreto de sódio (NaCl). Quando a maioria destes sais interagem com os diversos materiais de construção, provocam o seu envelhecimento ou degradação acelerada, através de processos físicos ou químicos. O mecanismo preponderante depende das características do material em causa.

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O ensaio laboratorial que permite a interação do cloreto de sódio com os materiais, simulando o meio natural, denomina-se "nevoeiro salino". Este termo não é atribuído a nenhum processo atmosférico ou meteorológico específico, mas sim a todos aqueles em que estão presentes pequenas partículas de solução marinha (spray marinho) com uma elevada percentagem de cloreto de sódio. A penetração de sais no interior da rede de poros dos materiais é um processo que ocorre apenas em meio líquido, isto é, se os sais não estiverem dissolvidos numa solução não ocorre a sua penetração. As características da porosidade dos materiais são essenciais no controle da penetração de soluções afetando assim grande parte a velocidade de degradação dos materiais. Torna-se um importante parâmetro a ser estudado, já que em alguns materiais as suas características podem ser determinadas pelo fabricante do material em causa. Dois destes materiais são os cerâmicos e o betão. No caso dos materiais cerâmicos o tempo, a temperatura máxima de cozedura e o próprio método de fabrico estão intimamente ligados à porosidade final da peça. A deposição, nos materiais de construção, de partículas em suspensão na atmosfera origina uma grande variedade de processos físico-químicos de degradação dos mesmos, particularmente em áreas costeiras onde a ação do mar representa um papel fundamental. No entanto, os processos físicos apresentam maior intensidade dado que os sais podem ser quimicamente inertes ao material em causa. A cristalização de sais é amplamente reconhecida como uma causa de degradação física de materiais de construção porosos. A condição necessária para que danos ocorram é o crescimento contínuo de um cristal confinado, aplicando assim tensões ao material e consequente variação das suas características mecânicas. Na figura 1 apresenta-se alguns exemplos de ataque por nevoeiro salino (ensaio laboratorial). O ataque por nevoeiro salino tem, entre outras consequências, a capacidade de atacar quimicamente a primeira camada superficial das telhas (camada de acabamen-

Estudos . Kéramica . p.15


Figura 2 – Degradação de telhas por ataque por nevoeiro salino

Figura 1 – Ataque por nevoeiro salino (ensaio laboratorial)

Estudos

to) de proteção como se pode verificar nas imagens atrás apresentadas. Essa destruição leva a que o “interior” das telhas seja atingido e a degradação seja acelerada e possa no limite reduzir seriamente uma das principais funções das

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telhas numa cobertura – estanquidade. Na figura 2 pode visualizar-se essa destruição em situação real. Para estas situações, uma solução possível (testada laboratorialmente com resultados positivos) será a hidro-

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Estudos

Figura 3 – Câmara de nevoeiro salino

fugação para melhorar o comportamento das telhas cerâmicas quando o local de aplicação dessas mesmas seja em zonas próximas da orla marítima nacional. A hidrofugação já hoje é uma prática corrente na maioria das empresas produtoras deste tipo de materiais como forma de prevenção dos riscos associados ao fenómeno do gelo-degelo. A conservação das coberturas de telhado é outro fator que deverá ser tido em conta nesta problemática, uma vez que um telhado bem “mantido”, isto é, limpo com regularidade não permite a acumulação de detritos/musgos que facilitam a deposição de sais provenientes da atmosfera arrastados pelos ventos marítimos. Outra condicionante muito importante é a inclinação da cobertura. A deficiente inclinação de uma cobertura de telhado pode ser a origem de bastantes patologias em telhas cerâmicas.Assim, toda a construção da orla marítima nacional deverá ter em conta como entrada do “projeto” de edifícios/habitações ou de outra índole) o fator “inclinação da cobertura”.

DESENVOLVIMENTO DE MÉTODO DE ENSAIO DE DETERMINAÇÃO DA RESISTÊNCIA A NEVOEIRO SALINO No contexto do Projeto CER++, foi desenvolvido um método de ensaio representativo das condições atmosféricas da zona costeira que permita avaliar a resistência à corrosão salina dos materiais cerâmicos. Pretendeu-se estabelecer critérios para a produção de cerâmicos estruturais e de revestimento com princípios que lhes permitam maior resistência a estes ambientes. Não existindo um método de ensaio normalizado para este tipo de materiais, recorreu-se a uma norma de aplicação genérica de realização de testes de corrosão em atmosferas artificiais1. O agente corrosivo utilizado é o Cloreto de Sódio (NaCl) com uma concentração de 50 g/l. Este agente foi escolhido tendo em conta o intuito do ensaio, ou seja, avaliar a corrosão por agente salino comum na zona litoral do País (vulgo sal). O ensaio decorreu

em ciclos de 48h, sendo composto por duas etapas: • 12h de ataque salino a uma temperatura de 20 ºC • 36h de secagem a uma temperatura de 35 ºC A avaliação intercalar do comportamento das telhas efetua-se ao fim de 10, 20, 30, 40 e 50 ciclos no que diz respeito ao aparecimento de defeitos visíveis nas mesmas. De forma a obter a quantificação do método de ensaio recorreu-se a ensaios físicos complementares: absorção de água, variação de massa e variação de módulo de elasticidade (através da variação velocidade de propagação de ultrassons) (figura 3). A metodologia proposta na medição das características atrás referidas é a que a seguir se apresenta:

(1) ISO 9227 – Corrosion tests in artificial atmospheres. Salt spray tests.

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Estudos

ABSORÇÃO DE ÁGUA A metodologia do ensaio de determinação da absorção de água é baseada na EN 539-22. Após secagem dos provetes a 110ºC±5ºC e posterior pesagem, os provetes são submersos em água durante o tempo necessário para atingir o peso constante (figura 4).

Figura 4 – Medição da absorção de água

VARIAÇÃO DE MASSA A variação de massa é efetuada aproveitando o peso dos provetes do ensaio de absorção de água.

VARIAÇÃO DO MÓDULO DE ELASTICIDADE

Figura 5 – Medição da variação do módulo de elasticidade

A medição de tal parâmetro permite de algum modo avaliar a durabilidade das telhas. O método utilizado da determinação da perda de módulo de elasticidade consistiu na utilização de um sensor PUNDIT (velocidade de propagação de ultrassons3)

(2) EN 539-2:2013 – Clay roofing tiles for discontinuous laying – Determination of physical characteristics. Part2: Test for frost resistance. (3) EN 14579:2004 - Natural stone test methods. Determination of sound speed propagation

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Figura 6 – Guia para Projeto e Aplicação de Telhas Cerâmicas

Estudos

com vista a quantificar possíveis danos provocados pelos ciclos de nevoeiro salino, danos esses que não são visíveis à vista desarmada. O método em si recorre a uma propriedade intrínseca dos materiais que se traduz no seu módulo de elasticidade: um material elástico apresenta curtos tempos de travessia por ultrassons, ao passo que materiais que apresentem fadiga (caso de materiais sujeitos a repetidos ciclos de nevoeiro salino com consequente dilatar e contrair dos materiais) apresentam consequentemente um aumento de tempo de trânsito dos ultrassons (figura 5).

GUIA PARA PROJETO E APLICAÇÃO DE TELHAS CERÂMICAS

de telhas cerâmicas em formato digital, no qual colaborou um grupo de trabalho que envolveu representantes dos principais fabricantes nacionais de telhas, bem como a APICER e a Universidade de Coimbra, para além do CTCV. Trata-se de um documento técnico dirigido a um público técnico: projetistas, engenheiros, arquitetos, aplicadores mas também a estudantes, comerciantes e donos de obra que tem como objetivo divulgar as técnicas mais adequadas para que se projetem coberturas de telhas cerâmicas com rigor e se apliquem com as melhores práticas de modo a evitar as patologias que são sempre desagradáveis e consomem tempo e recursos. Este guia terá uma edição em formato eletrónico para uma maior divulgação (figura 6).

No seguimento dos desenvolvimentos previstos nesta atividade, foi desenvolvido um manual de aplicação

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Formação

IMPLEMENTAÇÃO DE PRÁTICAS COM BASE NA FILOSOFIA DE LEAN MANAGEMENT

por Marta Ferreira (mferreira@ctcv.pt) e Ana Sofia Amaral (anasofia@ctcv.pt), do CTCV – Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro – Sistemas de Gestão e Melhoria INTRODUÇÃO / CONTEXTUALIZAÇÃO Existe no setor produtivo uma perceção das vantagens da implementação de ferramentas Lean, mas persiste algum desconhecimento quer sobre a diversidade destas metodologias quer sobre a sua aplicação prática e quantificação associada à sua implementação. Este projeto pretendeu constituir um estudo do estado da arte no setor da cerâmica, das especificidades inerentes a cada subsetor e da adequabilidade das diversas ferramentas a cada caso em particular através da formalização de um Guia de Ferramentas Lean e da realização de um Estudo de Benchmarking.

METODOLOGIA/DESENVOLVIMENTO A aplicação de ferramentas Lean como suporte às estratégias de melhoria da produtividade e da competitividade assenta a sua atuação nas ações dirigidas ao combate de desperdícios. Estes podem assumir diversas formas e podem ser encontrados na organização dos processos, da infraestrutura, nos equipamentos, nos materiais (abrangendo matérias-primas e produto em curso de fabrico e produto final), em movimentações e em todas as atividades que não acrescentam valor ao produto. Assim sendo, o conhecimento da abrangência da aplicação das metodologias Lean reveste-se de importância fulcral para que todos os agentes do processo possam identificar as áreas de intervenção e tenham dados de comparação fiáveis. Como o grau de desenvolvimento das metodologias e ferramentas Lean é ainda insipiente para vários subsetores foram ainda exploradas neste Guia algumas ferramentas qualidade. A estrutura do guia foi definida no sentido de permitir que este constitua uma abordagem simplificada e atrativa para despertar o interesse das empresas sobre as vantagens destas ferramentas na melhoria da organização, sistematização de práticas e consequente eficiência dos processos produtivos. Cada ferramenta ou metodologia é abordada se-

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gundo as seguintes vertentes: • Objetivo da utilização da ferramenta • Fluxo de aplicação • Grau de envolvimento necessário • Competências associadas • Modelos de registo aplicáveis • Subsetores aplicáveis • Resultados previstos com a implementação da ferramenta/metodologia Para conhecimento do estado da arte nas empresas de cerâmica nacionais foi ainda elaborado um questionário sobre práticas Lean, nomeadamente na sua vertente prática de aplicação. Este questionário foi disponibilizado online, na plataforma Google +, visando constituir uma via de chegada facilitadora da adesão das empresas para o seu preenchimento. A informação fornecida teve um tratamento estritamente confidencial. A informação recolhida através do questionário permitiu avaliar o nível de implementação de ferramentas e metodologias Lean e comparar o desempenho de cada organização com empresas do mesmo subsetor produtivo e com empresas do setor da cerâmica. Foi retratado o momento que cada organização atravessa e, através de dados objetivos, comparado o seu desempenho com o de outras organizações, de forma a poder identificar áreas de melhoria que conduzam as organizações a níveis superiores de desempenho. O questionário sobre práticas LEAN apresentado às empresas, era constituído por 8 grupos de questões, relativas a 8 competências LEAN: 1. Liderança LEAN 2. Foco no cliente 3. Envolvimento das pessoas 4. Comunicação 5. Processos chave 6. Infraestrutura e Equipamento 7. Processos de suporte 8. Cadeia de abastecimento

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Formação

Para cada competência LEAN foram apresentadas opções qualitativas sobre o estado de implementação em cada organização, numa escala crescente desde o nível 1 – – não existe na organização, até ao nível 5 – existe na organização, sem exceções. Estas opções visaram permitir às empresas questionar-se sobre o seu conhecimento das ferramentas LEAN e, face à sua realidade, posicionar-se e selecionar a opção que melhor traduzia o seu grau de implementação na empresa.

RESULTADOS O Guia de Ferramentas Lean pretende ter uma linguagem muito direta e objetiva, que ajude as empresas com menor grau de implementação e ainda desconhecedoras das vantagens destas ferramentas a ter uma visão pragmática sobre o tema e a querer melhorar o seu desempenho através da implementação das mesmas e foi estruturado com o seguinte conteúdo: • Os 5 princípios base do Lean • Os principais desperdícios da produção • Análise das ferramentas Lean: - A3 - 5S - SMED - VSM - Operações Normalizadas - Kaizen Diário - KANBAN - TPM – Manutenção Produtiva Total • Apresentação das ferramentas básicas: - Diagrama de processo ou fluxograma - Diagrama causa-efeito - Diagrama de Pareto - Histograma - Diagrama causa-efeito - Cartas de Controlo Relativamente ao Estudo de Benchmarking, num total de 71 empresas contactadas, foram recebidas 35 respostas, maioritariamente de empresas do subsetor da cerâmica estrutural, representando 34% das respostas recebidas. Os resultados são analisados na vertente comparativa das respostas e, para áreas fulcrais de cada uma das competências, é efetuada uma comparação setorial.

CONCLUSÕES As metodologias Lean têm sido adotadas por várias organizações como filosofia de trabalho eficaz para atingir os seus objetivos estratégicos. O contexto atual de economia global, cada vez mais competitiva, exige às empresas a adoção de modelos de gestão que lhes permitam aumentar a eficiência dos seus processos, melhorar a qualidade dos seus produtos e serviços e reduzir os custos de produção.

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Podemos mesmo dizer que o futuro de qualquer organização depende essencialmente de um eficaz controlo interno de custos, da melhoria contínua da segurança e qualidade e de uma estratégia orientada para a satisfação das expetativas dos clientes. As metodologias Lean tornaram-se potentes ferramentas de melhoria de processos e têm permitido a muitas organizações alcançar um patamar de elevados níveis de desempenho, com excelentes resultados financeiros. É neste contexto de procura da excelência na gestão, de novos modelos que apostem na criação de valor para o cliente através da inovação, que as metodologias Lean ganharam espaço para se desenvolverem e se tornarem estratégias de referência em projetos de melhoria. Com este trabalho pretendeu-se dar um contributo para a compreensão das estratégias Lean na Indústria Cerâmica e a análise dos resultados do questionário, nas suas diferentes vertentes, sobre o nível de implementação das metodologias Lean nas empresas do setor cerâmico em Portugal, conduz às seguintes conclusões: 1. Houve uma grande adesão das empresas ao projeto. As principais referências do mercado cerâmico nacional estão presentes neste estudo e a distribuição das empresas está em linha com a caracterização do mercado atual. 2. O grau de implementação de metodologias e ferramentas Lean é ainda insipiente numa parcela considerável de empresas, conforme atestam os números: - 46% das empresas não tem qualquer estratégia Lean nem os seus objetivos estão ligados à implementação de princípios Lean; - 34% das empresas tem lacunas da estruturação da organização e na definição de funções e responsabilidades; - 14% das empresas produz com um layout definido sem considerar o fluxo contínuo de materiais; - 51% das empresas não monitoriza tempos de mudança com vista a identificar oportunidades de melhoria aquando da utilização da metodologia de redução de tempos de setup; - 54% das empresas não classifica os seus produtos, de acordo com a classificação ABC, e não gere produção nem stocks com recurso à utilização de kanban, milkrun, ou outras ferramentas Lean; - 17% não implementa a metodologia 5S e 49% não realiza auditorias 5S com regularidade. 3. O subsetor mais deficitário na implementação de metodologias Lean é o da Cerâmica Estrutural. 4. Nos subsetores de Sanitário, Pavimento e Revestimento e Louça, há variações consideráveis entre as empresas, com algumas a declarar níveis elevados de implementação, em oposição a outras, nas quais não existem ferramentas Lean na organização. 5. Existe um caminho a percorrer para dar a conhecer às empresas as vantagens das ferramentas Lean no dia-a-dia, permitindo alavancar a produtividade e reduzir

Formação . Kéramica . p.21


Formação

Todas as pessoas da organização são encorajadas a envolver-se em equipas de melhoria contínua para identificar e eliminar desperdícios

Participação das empresas / Subsetor de atividade Louça

26%

Sanitário

Existe sempre, sem exceções

11%

Cerâmica técnica

% de empresas

3%

Pavimentos e revestimentos

11% 11%

Muito representativo, com algumas exceções

17%

Existe com frequência, mas não na maioria

17%

11%

25%

25%

33%

11%

26% Existe em algumas áreas

Estrutural

25%

56%

50%

44%

34% Não existe na organização

0%

20%

40%

60%

80%

Estrutural

Existe uma estratégia Lean e os objetivos da organização estão ligados à implementação dos princípios Lean. Existe sempre, sem exceções

9%

20%

17%

Existe em algumas áreas

46% 10%

30%

40%

Louça

14%

Existe com frequência, mas não na maioria

20%

0%

Sanitário

6%

Muito representativo, com algumas exceções

Não existe na organização Não existe na organização

Pavimento e revestimento

Existe sempre, sem exceções

23%

Existe em algumas áreas

22%

A matriz de competências está afixada e é utilizada para encorajar a flexibilidade de trabalho. Os operadores são formados e podem, em caso de necessidade, trabalhar noutras funções, além da sua função principal

3%

Muito representativo, com algumas exceções Existe com frequência, mas não na maioria

42%

100%

50%

Existe em algumas áreas

23%

Não existe na organização Não existe na organização Existe com frequência, mas não na maioria

40% 0%

5%

10%

15%

20%

Existe em algumas áreas

25%

30%

35%

40%

45%

Muito representativo, com algumas exceções

Existe sempre, sem exceções

Existe com frequência, mas não na maioria Muito representativo, com algumas exceções Existe sempre, sem exceções

desperdícios. As competências e participação em programas de melhoria pode ainda ser otimizada e a flexibilidade devem ser promovidas. Desta análise surgem algumas recomendações que poderão dar origem a desenvolvimentos futuros e ganhos relevantes para as empresas: • Formação: aposta em programas de formação que dotem as empresas de competências e conhecimento em ferramentas Lean, quer ao nível da gestão de topo, quer nas áreas técnicas e de trabalho no terreno. A mudança de mentalidades é essencial para que todos se questionem sobre a validade do que sempre fizeram e que estejam abertos à possibilidade de “fazer de forma diferente”. • Gestão de topo: o envolvimento da gestão de topo nos programas de melhoria é essencial. Deve partir deles a necessidade de implementação de ferramentas Lean, a análise da empresa através de indicadores de eficiência e a orientação no sentido da melhoria. • Desempenho: a avaliação do desempenho dos colaboradores deve ainda estar baseada na capacidade que estes demonstram para contribuírem para a melhoria e o seu papel efetivo nos esforços desenvolvidos. Desta forma

p.22 . Kéramica . Formação

serão orientados para a necessidade constante do incremento da performance organizacional. • Abrangência: as metodologias Lean não devem ser apenas implementadas na área produtiva. Embora para muitas empresas esse ainda deva ser o ponto de partida, outras mais evoluídas nesta matéria deverão ponderar a possibilidade desta filosofia abranger áreas como a contabilidade, os serviços administrativos, a sua prestação de serviço aos clientes, as compras e subcontratação, etc.

Julho . Agosto . 2018


Ambiente

PROMOÇÃO DE ESTRATÉGIAS DE ECONOMIA CIRCULAR

por Marisa Almeida, Anabela Amado, Pedro Frade, do CTCV - Centro Tecnológico da Cerâmica e do Vidro

1. INTRODUÇÃO Esta atividade desenvolvida no âmbito do projeto SIAC n.º 16121, promovido pela APICER e concretizado pelo CTCV, pretendeu desenvolver simbioses industriais, ou seja, criando condições para que resíduos ou subprodutos de uma indústria possam ser utilizados como matérias -primas ou materiais secundários num outro produto ou indústria e respetivo ciclo de vida, promovendo desta forma o uso racional de recursos. Para tal, foram desenvolvidas tarefas com o objetivo de obter resultados com parâmetros de caraterização para contribuir para a desclassificação de resíduos, nomeadamente, um estudo do estado da arte em matéria de potenciais destinos para o caco cerâmico e ensaios de lixiviação a cacos cerâmicos para aferir o seu cariz inerte. Por outro lado, e tendo em conta, a quarta fase do Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE), referente ao período 2021-2030 que prevê reduções das emissões de gases com efeito de estufa em, pelo menos, 40% até 2030, de acordo com o enquadramento da política climática e energética de 2030 e como parte da sua contribuição para o Acordo de Paris, foi também avaliado no âmbito desta atividade e emissão de gases com efeito de estufa, particularmente emissões específicas de dióxido de carbono (CO2) para os produtos abrangidos pela diretiva CELE (tijolo, telha, sanitário, pavimento e revestimento).

2. METODOLOGIA 2.1. Parâmetros de caraterização que possam contribuir para a desclassificação de resíduos As soluções de valorização dos resíduos cerâmicos são várias e diversos sectores industriais têm demonstrado uma grande disponibilidade para os incorporar nos seus processos produtivos, assim como na própria pasta cerâmica, substituindo total ou parcialmente matérias-primas (ex. areia) adicionada à mistura. De entre os resíduos gerados na cerâmica, destacam-se os cacos resultantes antes do processo térmico (crús

Julho . Agosto . 2018

e secos), que na maioria das empresas são reaproveitados totalmente para o seu processo de fabrico, na fase de preparação ou pré-preparação (incorporados com as restantes matérias-primas), pelo que para a maioria das unidades industriais estes materiais não são considerados resíduos, na medida em que a empresa não se desfaz deste tipo de material, de acordo com o Decreto-Lei n.º 178/2006, de 5 de setembro, alterado e republicado pelo Decreto-Lei n.º 73/2011, de 17 de junho. No entanto, existem casos de empresas que não dispõem de condições para a incorporação destes cacos resultantes antes do processo térmico (crús e secos), uma vez que laboram em ciclo parcial, isto é, não têm secção de preparação de pastas, pelo que, a valorização desse material tem que ser feita externamente, normalmente com o próprio fornecedor de pasta. De entre os resíduos gerados na indústria cerâmica, destacam-se os cacos cozidos, resultantes de não conformidades nos produtos finais após a sua cozedura, este tipo de resíduo tem um cariz inorgânico inerte, possuindo a mesma composição/caraterísticas dos produtos finais, apresentando um destino final diferenciado, função do tipo de resíduo e do subsetor considerado. O diploma referente ao regime geral da gestão de resíduos, o DL n.º 73/2011 estabelece requisitos para que substâncias ou objetos resultantes de um processo produtivo possam ser considerados subprodutos e não resíduos, quaisquer substâncias ou objetos resultantes de um processo produtivo cujo principal objetivo não seja a sua produção, devendo ser apresentado um pedido junto da ANR (Autoridade Nacional dos Resíduos), individualmente ou através da respetiva associação setorial. Com vista a esta finalidade a APICER promoveu este estudo de considerar o caco, poeiras e partículas de despoeiramento como subprodutos sendo sido desenvolvido pelo CTCV, uma série de análises químicas ao caco cozido e ao respetivo lixiviado, de acordo com a metodologia indicada no Decreto-Lei n.º 183/2009, de 10 de agosto, resultantes do processo de fabrico de diferentes subsecto-

Ambiente . Kéramica . p.23


Ambiente

naquele diploma, embora alguns parâmetros para a abobadilha (arsénio e fluoreto) estejam dentro dos critérios dos resíduos “não perigosos”. Salienta-se que estes valores são consequência das matérias-primas utilizadas (argilas), as quais são naturais e possuem na sua composição química aqueles parâmetros. Verifica-se, ainda, que a maioria dos parâmetros analisados encontra-se abaixo do limite de quantificação do equipamento, nomeadamente, parâmetros orgânicos (COT, BTEX, PCB, óleo mineral, HAP), Cd, Cr, Cu, Hg, Ni, Pb, Sb, Se, Zn, cloretos, sulfatos e índice de fenol. Naqueles quadros encontram-se ainda os valores limite quantificados na legislação holandesa relativa ao solo – Dutch regulations on dangerous substances - Soil quality decree, os quais foram aplicados noutros estudos de lixiviação efetuados a materiais de construção. Estes limites, considerados como uma referência na área, apresentam-se genericamente menos exigentes que os da legislação portuguesa, para a deposição de resíduos inertes em aterro, consequência dos diferentes objetivos pretendidos. Se considerarmos estes limites holandeses, os valores obtidos no estudo realizado encontram-se consideravelmente inferiores, com exceção de um valor de fluoreto, o qual é dependente das matérias-primas argilosas existentes no solo do nosso país. Verifica-se, assim, que a deposição de cacos cerâmicos cozidos diretamente nos solos não gera riscos para o meio ambiente, podendo ser mesmo um dos materiais mais adequados para a reparação de alguns caminhos, entre os quais os de acessos às explorações de matérias-primas argilosas, campos de ténis, enchimento de obras de construção civil, recuperações em jardins, etc., contribuindo para o fecho do ciclo de vida do produto, facto que sustenta a proposta da Comissão, da introdução da definição de “backfilling” (deposição em aterro), na versão revista da Diretiva Quadro dos Resíduos.

res da indústria cerâmica (tijolo, abobadilha, telha, Louça de grés, porcelana e faiança, pavimento, revestimento e sanitário).

2.2. Estudo e promoção de medidas de descarbonatização da economia dos produtos abrangidos pela diretiva CELE A determinação dos valores de benchmark efetuada na presente atividade assentou basicamente na quantificação das emissões anuais de CO2 de cada instalação de cada um dos subsectores abrangidos pelo CELE (tijolo, telha, sanitário, pavimento e revestimento), de acordo com a metodologia estabelecida no Regulamento (UE) n.º 601/2012 e nos TEGEE´s de cada instalação, bem como as respetivas quantidades de produtos produzidos. Foram agrupados depois por tipologia de produção e aplicadas ferramentas estatísticas como média e percentil 10. Efetuou-se ainda um estudo prospetivo da realidade que poderá vir a acontecer no período de 2021 a 2025 e depois de 2026 a 2030. Este estudo de cenários é conservativo face à realidade que a União Europeia anuncia para os sectores abrangidos pelo CELE.

3. RESULTADOS 3.1. Parâmetros de caraterização que possam contribuir para a desclassificação de resíduos Os resultados obtidos para a ecotoxicidade das várias amostras de caco cozido ensaiadas constam nos quadros 1 e 2 e são comparados, para efeitos de classificação de resíduos como inertes, não perigosos ou perigosos, com os valores constantes da Tabela 2 e 3 da Parte B do Anexo IV do DL n.º 183/2009. Aqueles valores permitem classificar os cacos dos produtos cerâmicos analisados essencialmente como “inertes”, de acordo com os critérios de aceitação estipulados

Valor obtido

Quadro I – Análise química do caco cozido

Parâmetro (mg/kg)

Valor limite

Louça Grés

Louça Porcelana

Louça Faiança

Tijolo

Abobadilha

Telha 1

Telha 2

Pav/Rev 1

Pav/Rev 2

Pav/Rev 3

Pav. extrudido

Sanitário

DL 183/2009

Holanda

COT

<10 000l.q.

<10 000l.q.

<10 000l.q.

-

<10 000l.q.

-

<10 000l.q.

<3 000l.q.

<500l.q.

<500l.q.

<10 000l.q.

<10 000l.q.

30 000

-

BTEX

<1,2l.q.

<1,2l.q.

<1,2l.q.

-

<1,2l.q.

-

<1,2l.q.

<5l.q.

0,068

<0,16l.q.

<1,2l.q.

<1,2l.q.

6

4,75

PCB

<0,023l.q.

<0,022l.q.

<0,024l.q.

-

<0,023l.q.

-

<0,024l.q.

<0,1

<0,01l.q.

<0,021l.q.

<0,022l.q.

<0,022l.q.

1

0,5

Óleo mineral

<200l.q.

<200l.q.

<200l.q.

-

<200l.q.

-

<200l.q.

<0,1

<50l.q.

<100l.q.

<200l.q.

<200l.q.

500

500

HAP

<0,070l.q.

<0,066l.q.

<0,073l.q.

-

<0,070l.q.

-

<0,072l.q.

<0,1

<0,4l.q.

<0,8l.q.

<0,066l.q.

<0,066l.q.

100

50

< l.q. – inferior ao limite de quantificação

Pav/Rev: Pavimento/Revestimento

COT: Carbono Orgânico Total

BTEX: Benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno

PCB: policlorobifenilos 7 congéneres

HAP: Hidrocarbonetos Aromáticos Policíclicos

p.24 . Kéramica . Ambiente

Julho . Agosto . 2018


CREDIBILIDADE - IMPARCIALIDADE - RIGOR reconhecidos na certificação de produtos e serviços e de sistemas de gestão

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Ambiente

Valor obtido

Quadro 2 – - Análise química do eluato do caco cozido

Parâmetro (mg/kg)

Louça Grés

Louça Porcelana

Louça Faiança

pH (Escala de Sorensen)

6,5

6,1

Condutividade (25ºC) (µS/ cm)

7,3

Arsénio (As)

<0,10l.q.

Valor limite DL 183/2009 Inertes

Não perigosos

Perigosos

Valor limite Holanda

6,2

-

-

-

-

29

4,3

-

-

-

-

0,0096

<0,10l.q.

<0,10l.q.

0,5

5

25

0,9

0,097

0,16

0,750

2,52

20

100

300

22

<0,003l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

0,04

2

5

0,04

Tijolo

Abobadilha

Pav/Rev 3

Pav. extrudido

Telha 1

Telha 2

Pav/Rev 1

Pav/Rev 2

Sanitário

7,5

-

6,9

7,1

7,1

-

-

-

7,3

4,5

42

-

47,1

34,5

34,4

-

-

-

<0,10l.q.

0,16

0,26

0,56

0,28

<0,10l.q.

<0,02l.q.

0,0096

<1,8l.q.

Bário (Ba)

0,986

0,740

1,21

0,43

0,640

0,483

0,337

Cádmio (Cd)

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

0,01

<0,003l.q.

Crómio total (Cr)

<0,05l.q.

<0,05l.q.

0,07

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,5l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

0,5

20

70

0,63

Cobre (Cu)

<0,6l.q.

<0,6l.q..

<0,6l.q.

<0,6l.q.

<0,6l.q.

<0,6l.q.

<0,6l.q.

<0,05l.q.

0,016

<0,01l.q.

<0,6l.q.

<0,6l.q.

2

50

100

0,9

Mercúrio (Hg)

<0,0054l.q.

<0,005l.q.

<0,005l.q..

<0,005l.q.

<0,0050l.q.

<0,0050l.q.

<0,0050l.q.

<0,01l.q.

<0,002l.q.

<0,002l.q..

<0,005l.q.

<0,005l.q.

0,01

0,5

2

0,02

Molibdénio (Mo)

0,170

0,090

0,11

<0,25l.q.

0,195

0,092

0,059

<0,01l.q.

0,02

0,021

0,368

0,062

0,5

10

30

1

Níquel (Ni)

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

<0,4l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,25l.q.

<0,25l.q.

0,4

10

40

0,44

Chumbo (Pb)

<0,05l.q.

0,07

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

<0,01l.q.

0,015

<0,01l.q.

<0,05l.q.

<0,05l.q.

0,5

10

50

2,3

Antimónio (Sb)

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,05l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,05l.q.

<0,01l.q.

<0,01l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

0,06

0,7

5

0,16

Selénio (Se)

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,05l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

<0,05l.q.

<0,02l.q.

<0,02l.q.

<0,010l.q.

<0,010l.q.

0,1

0,5

7

0,15

Zinco (Zn)

<0,2l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

1,6

0,13

<0,1l.q.

<0,2l.q.

<0,2l.q.

4

50

200

4,5

l.q.

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

20

<6l.q.

7,9

<100l.q.

<100l.q.

800

50 000

25 000

616

<5l.q..

<5l.q.

9,7

20,9

9,9

4,3

0,32

<1,5l.q.

<1,5l.q.

<5l.q.

<5l.q.

10

250

500

18

l.q.

<100l.q.

<100l.q.

247

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

<100l.q.

5,4

5,5

<100l.q.

<100l.q.

1 000

20 000

50 000

1 730

<0,10l.q.

<0,10l.q.

<0,10l.q.

<0,25l.q.

<0,10l.q.

<0,10l.q.

0,03

<0,05l.q.

<0,10l.q..

<0,10l.q.

1

-

-

1,25

COD

22

<20l.q.

31

320

40

<20l.q.

500

1 000

1 000

-

SDT

430

190

260

1180

900

910

4 000

60 000

100 000

-

Cloreto Fluoreto Sulfato Índice de fenol

<100

<5l.q. <100

< l.q. – inferior ao limite de quantificação

0,19

0,29

22

23

<50l.q.

20

16

<20l.q.

230

320

80

110

230

420

Pav/Rev: Pavimento/Revestimento COD: Carbono Orgânico Dissolvido

3.2. Estudo e promoção de medidas de descarbonatização da economia dos produtos abrangidos pela diretiva CELE O estado atual do desempenho dos diversos subsectores em matéria das emissões de CO2 dos subsetores abrangidos pelo regime CELE, particularmente os que fabricam tijolo, telha, sanitário, pavimento e revestimento, referidos a uma média de 2013 a 2016, apresenta-se no quadro 3. Neste quadro ilustra-se ainda o comportamento expectável em termos de evolução do benchmark, bem como uma previsão de como poderão ficar os diversos subsetores face ao que poderá ser expectável em termos da evolução dos benchmark aplicáveis a cada uma das tipologias de materiais cerâmicos em estudo. Por forma a promover medidas de descarbonatização da economia e estratégias para

p.26 . Kéramica . Ambiente

SDT: Sólidos Dissolvidos Totais

uma economia de baixas emissões de carbono, através de medidas de promoção da eficiência energética e de recursos (particularmente os associados a matérias-primas carbonatadas), preparando desta forma, a cerâmica para uma maior competitividade e sustentabilidade, foi desenvolvido um guião com algumas medidas e estratégias para os produtos cerâmicos utilizados para a construção, particularmente os abrangidos pelo regime CELE (tijolos, telhas, sanitário, pavimento e revestimento cerâmico), que foi disponibilizado em versão informática.

4. CONCLUSÕES O estudo desenvolvido sobre o estado da arte em matéria de potenciais destinos para o caco cerâmico e en-

Julho . Agosto . 2018


Quadro 3 – Estado atual dos subsetores relativamente às emissões de CO2

Ambiente

saios de lixiviação a cacos cerâmicos após o processamento térmico (com cariz inerte), foi anexado ao pedido formal de Decisão submetido à Agência Portuguesa do Ambiente em 21 de março de 2017, pela APICER. Deste pedido resultou a declaração de Subproduto n.º 9/2017, de 16/08/2017, relativa à classificação dos desperdícios resultantes do fabrico de produtos cerâmicos como subproduto, ao abrigo do artigo 44º-A do Regulamento Geral de Gestão de Resíduos. Aquela decisão é válida para os materiais que resultam das seguintes fases do processo de fabrico: • Preparação da mistura cerâmica, aparas resultantes da conformação da pasta antes do processo térmico; • Partículas e poeiras, recolhidas do sistema de despoeiramento; • Peças cerâmicas não conformes, após processamento térmico (“caco”). E destinando-se a situações em que os materiais tenham destino que se enquadre nas condições de: a) Certeza de posterior utilização daqueles desperdícios; b) Possibilidade de utilização direta, sem qualquer outro processamento que não seja o da prática industrial normal; c) A produção daqueles desperdícios ser parte integrante de um processo produtivo; d) Cumprimento dos requisitos relevantes como produto em matéria ambiental e de proteção da saúde e não acarretar impactes globalmente adversos (ambiente ou saúde humana), face à posterior utilização.

Julho . Agosto . 2018

Assim, esta decisão destina-se exclusivamente a empresas associadas da APICER (a viabilizar empresa a empresa) e às situações em que aqueles materiais tenham como destino as seguintes atividades: • Fabrico de pasta cerâmica; • Fabrico de materiais de construção (cimento, betão, argamassas, agregados); • Terraplanagens e construção de estradas; • Pavimentação de áreas desportivas. No que se refere à evolução do benchmark, aplicáveis a cada uma das tipologias de materiais cerâmicos abrangidos pelo regime CELE (tijolo, telha, sanitário, pavimento e revestimento), a maioria das instalações cerâmica irá ter dificuldades na adaptação às novas condicionantes do CELE, estimando-se que apenas as instalações com fabrico de tijolos com biomassa e gás natural possam ter licenças necessárias para suprir as suas necessidades, todas as restantes instalações serão deficitárias, destacando-se grandes dificuldades para as que fabricam: • Telhas e acessórios; • Pavimento em Grés e em Porcelânico em ciclo completo; • Revestimento monoporosa em ciclo completo. As estratégias desenvolvidas para uma economia baixa em carbono poderão ser uma ferramenta útil para a indústria cerâmica na adaptação às alterações climáticas e às novas regras do CELE que se avizinham.

Ambiente . Kéramica . p.27


Entrevista

À CONVERSA COM GONÇALO CONCEIÇÃO, GERENTE DA VIÚVA LAMEGO

3 gerações na Viúva Lamego - Maria Ana Vasco Costa, Mestre Cargaleiro, Bela Silva

Kéramica – É do conhecimento público que veio do sector financeiro e bancário para a indústria. Porquê a cerâmica e quais as principais diferenças sentidas? Gonçalo Conceição – Vim para a indústria em 2009 com o propósito de reestruturar duas empresas industriais na fileira da madeira sem nunca ter entrado numa fábrica. Foi uma experiência muito intensa que me proporcionou uma visão profunda da chamada economia real, bem diferente daquela de onde vinha. A cerâmica aparece numa fase posterior já numa lógica de investimento directo. Kéramica – Em 2017, adquiriu 100% da Viúva Lamego ao Grupo Aleluia Cerâmicas, foi uma “oportunidade de negócio” ou uma aquisição direcionada? Gonçalo Conceição – Pode-se dizer que foi uma oportunidade de negócio. Kéramica – Como caracteriza a produção da Viúva Lamego? Que segmentos de mercado abrangem? Gonçalo Conceição – A Viúva Lamego diferenciase pela capacidade de aliar um processo fabril com uma for-

p.28 . Kéramica . Entrevista

te componente manual e artística. A capacidade instalada permite-nos assumir compromissos de trabalhos de grande dimensão, tanto na vertente artística como arquitectónica, sem perder essa identidade única no mercado. Trabalhamos sempre numa lógica de projecto para a arquitectura e para a arte pública e privada. Kéramica – Quais os atuais os fatores de sucesso e desafios desta empresa? Gonçalo Conceição – Vejo claramente três factores de sucesso: 1) o saber fazer suportado numa história com quase 170 anos, 2) a ligação ao mundo da Arte totalmente consolidada na relação com Artistas que habitam literalmente nesta fábrica e fazem dela o seu atelier, 3) a capacidade que a fábrica tem tido de encontrar soluções técnicas para todos os desafios que nos têm proposto. O nosso maior desafio é a obsessão pela excelência a par de uma necessidade constante de pensar o futuro, mantendo-nos fiel à nossa história e à nossa essência. Kéramica – Faz sentido afirmar que a Viúva Lamego consegue o casamento perfeito entre o tradicional e a inovação, conciliando técnicas de manufatura tradicional que caracterizam algumas etapas do processo, mas em paralelo inovando, satisfazendo as exigências do mercado, e o sentido estético dos clientes? Gonçalo Conceição – Faz todo o sentido. Kéramica – A Viúva Lamego é reconhecida pela relação de trabalho que tem com artistas e arquitetos, tais como Cargaleiro, Álvaro Siza, Joana Vasconcelos, Bela Silva, Maria Ana Vasco Costa - artista-residente na Viúva Lamego e vencedora de vários prémios internacionais, entre outros. Conte-nos um pouco desta relação, objetivos, expectativas, resultados. Gonçalo Conceição – Correndo o risco de ser injusto por omissão ou desconhecimento, haveria muitos mais que poderiam ser citados, como Querubim Lapa ou Maria Keil. Eu sou o herdeiro dessa tradição há muito iniciada e a minha preocupação é assegurar que no futuro os artistas e arquitectos sintam que têm na Viúva Lamego uma

Julho . Agosto . 2018


Entrevista

Autoria: André Saraiva (ilustração) Projecto: Jardim Botto Machado Localização: Lisboa, Portugal Ano: 2016

Autoria/ arquitectura: Álvaro Siza Vieira Projecto: Capela do Monte Localização: Lagos, Portugal Ano: 2018 Créditos fotografia: João Morgado

fábrica atelier ao seu serviço, um espaço que sintam como seu. A relação que existe é algo que ainda hoje não pára de me surpreender, extremamente profícua e que revela, e a minha expectativa é que continue a revelar, caminhos de inovação e criação que nos desafiem e nos mantenham à frente. Kéramica – O património do azulejo português poderá estar em perigo? Gonçalo Conceição – O que eu verifico é que existe uma enorme procura pelo azulejo de características tradicionais, isto é, com uma forte componente de incorporação de mão-de-obra no processo de fabrico. O perigo vem da adulteração deste conceito com produções industriais vindas de fora que são vendidas como artesanais. No entanto estou convencido de que a prazo prevalecerá a produção artesanal verdadeira e genuinamente portuguesa. Kéramica – Sendo Portugal um dos principais produtores de cerâmica na Europa, qual será o desafio da indústria cerâmica portuguesa na arquitetura portuguesa e mundial? Gonçalo Conceição – A internacionalização é para mim o maior desafio, em particular se não for suportada em preço, mas sim em inovação, qualidade e serviço. Kéramica – Há peças da Viúva Lamego que constituem coleções, outras têm sido utilizadas como presentes de prestígio, como a que foi usada para presentear o Papa Francisco na sua visita a Portugal ou até como troféus da 80.ª Volta a Portugal dados a vencedores e aos munícipes por onde passou a Volta. Estamos perante evi-

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Entrevista . Kéramica . p.29


Autoria: Henriette Arcelin (ilustração) | Anahor y Almeida (arquitectura) Projecto: Quinta do Quetzal Localização: Vidigueira, Portugal Ano: 2016 Créditos fotografia: Rodrigo Cardoso

Entrevista

Autoria: Anahor y Almeida (arquitectura) Projecto: Pitaria Localização: Lisboa, Portugal Ano: 2017 Créditos fotografia: Rodrigo Cardoso

dências da notoriedade da marca? Gonçalo Conceição – Não existem dúvidas relativamente à notoriedade da marca, no entanto devo realçar a capacidade de a Viúva Lamego produzir, por força do excelente quadro de artesãos que nela trabalham, um produto com uma qualidade superior que é transversalmente reconhecida.

MERCADO EXTERNO

Kéramica – A vertente da Internacionalização é uma prioridade da Viúva Lamego? Para que mercados externos exportam atualmente e em que percentagem? Gonçalo Conceição – Nenhuma empresa sobrevive sem uma forte componente das suas vendas vocacionada para o mercado externo e a Viúva Lamego não é excepção. França, USA, Coreia do Sul e Japão são para nós mercados com um grande peso na exportação, embora a nossa ambição extravase esses mercados. Kéramica – A volatilidade e flexibilização do mercado, a aposta no Design, a Qualificação de quem trabalha nesta Indústria … como encara estes desafios crescentes no contexto da empresa que atualmente gere? Gonçalo Conceição – É minha obrigação assegu-

p.30 . Kéramica . Entrevista

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Uma fábrica-atelier a escrever a história do Azulejo Português desde 1849.


A u t o r i a : J o a n a Va s c o n c e l o s P r o j e c t o : Tr a f a r i a P r a i a ( Pa v i l h ã o d e Po r t u g a l n a 5 5 t h E x p o s i ç ã o In t e r n a c i o n a l d e A r t e - l a B i e n n a l e d i Ve n e z i a) A n o : 2 0 1 3 Cr é d i tos fotografia: Bruno Portela (Cortesia Unidade Infinita Projectos)

Entrevista

rar a transição geracional do tal saber fazer. Tenho hoje na Viúva Lamego, a par de um quadro de artesãos com provas dadas, jovens com sólida formação e competências a trabalhar lado a lado, de forma a que existam condições para essa transição. Tenho assim a expectativa que dentro de muitos anos a Viúva Lamego continue a abordar os arquitectos, artistas e designers na certeza de que podem confiar nas

p.32 . Kéramica . Entrevista

soluções que propomos e no produto que entregamos.

FUTURO E INVESTIMENTO

Kéramica – A Viúva Lamego já tem uma longa história e comemorará no próximo ano 170 anos desde a sua fundação em 1849. Que futuro ambiciona para esta empresa? Gonçalo Conceição – Pelo menos mais 170 anos de existência sem sobressaltos como os ocorridos no passado. Kéramica – Por último, identifique uma obra da Viúva Lamego, em Portugal ou no estrangeiro, que pessoalmente o mais orgulha e porquê. Gonçalo Conceição – Felizmente temos um portfólio de obras realizadas com arquitectos, artistas e designers de primeira linha da qual só me posso orgulhar muito. É impossível identificar uma… mas é muito emocionante ver a nossa marca tão presente na História e na paisagem do nosso país e, por mais que haja obras extraordinárias lá fora, são as que temos em Portugal que me trazem um sentimento de satisfação mais forte. Andar na estação de metro do Chiado, do Rato, de Arroios, do Parque, olhar o pavilhão de Portugal na Expo ou ver as fachadas de azulejos de muitos dos prédios de Lisboa, ir à Sala Barroca na Casa da Música, passear no Jardim Botto Machado, circular na Av. Infante Santo, ir às Pedras Salgadas ou Vidago, ao Centro Ismaelita ou, enfim, visitar o Guggenheim em Bilbao e ver o imponente Galo de Barcelos à porta, é extraordinário. Compor o cenário quotidiano de tantos portugueses e ser porta-estandarte do nosso país é um privilégio enorme.

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Inovação

VIDRADOS TRANSPARENTE E MATE PARA GRÉS PORCELÂNICO POLIDO

por Engº Helder J.C. Oliveira, da IFH, Estúdio Cerâmico Lda e Prof. Dr. João António Labrincha, do Dept. de Engª Cerâmica e do Vidro, da Universidade de Aveiro/CICECO

O presente trabalho detalha o estudo de novas composições de vidrados (brilhante e mate transparentes), preparados por via húmida, para grés porcelânico polido. Esta técnica permite a redução de custos, devido à diminuição da quantidade de material a aplicar, sem comprometer as características técnicas exigidas a estes produtos e garantindo elevada variabilidade estética (cor, textura, brilho, etc) através da decoração digital InkJet, nomeadamente nos tons intensos (negro e castanho). A obtenção de uma camada menos espessa e mais homogénea, requerendo polimento menos profundo, ajusta-se à tendência da indústria de pavimento e revestimento para produzir peças polidas, cada vez mais em grandes formatos. Este novo método de aplicação de vidrados permite obter superfícies polidas que cumprem os requisitos técnicos exigidos nas normas actualmente em vigor e, ao mesmo tempo, reduz os custos com o material a aplicar e nas etapas de acabamento, particularmente no polimento. Procedeu-se à caracterização dos vidrados transparente e mate aplicados. As peças foram cozidas à temperatura de 1220ºC, com um ciclo de cozedura cuja duração, de acordo com o formato, pode oscilar entre 60/70 minutos. Foi avaliada a resistência da camada ao ataque à mancha, ao ataque químico, à abrasão e mediu-se a dureza (MOHS).

As peças com este tipo de acabamento apresentam actualmente elevada resistência à abrasão e ao risco, sem porosidade à superficie depois do polimento. A aplicação destes vidrados é feita após aplicação de engobe, sendo depois efetuada a decoração digital, por Inkjet, em pistolas “air less” tipo Jet. Em geral usam-se valores de densidade de 1500/1600g/L, com aplicações de 60/70g no formato 30x30 [2], obtendo-se uma superfície bem estirada pelo uso de fluidificantes líquidos com propriedades autonivelantes. A figura 1 mostra uma unidade de aplicação destes vidrados por Jet [3]. A aplicação com pistolas “air less”, fixas ou móveis dependendo do tamanho do formato, requer menor quantidade de vidrado, o que diminui o custo do produto. Permite bom espalhamento do vidrado e secagem mais uniforme, o que assegura boa textura de acabamento. Em

Figura 1 – Aplicação de vidrado por cabine a Jet.

RESUMO

1. INTRODUÇÃO A necessidade de desenvolver produtos cerâmicos diferenciados e esteticamente apelativos realçou, nos últimos anos, a importância das etapas de acabamento superficial das peças de pavimento e revestimento no sentido de garantir a obtenção de novos efeitos decorativos. Esta tendência gerou o desenvolvimento de atomizados e/ou granilhas e mais recentemente, à investigação de novas fritas e formulações de vidrados [1] com superiores propriedades técnicas e variabilidade estética (cor, textura, etc.).

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Inovação . Kéramica . p.33


Figura 2 – Vidrados transparente brilhante e mate transparente antes de polir.

Figura 3 – Marmorizados polidos, negro e castanho, obtidos por decoração digital em sandwiche.

Inovação

consequência, as etapas de polimento subsequentes podem ser feitas a menor profundidade, ou apenas superficialmente, do tipo “lapato” total. Antes do polimento, os produtos possuem aspecto brilhante ou mate transparente, tal como se exemplifica na figura 2. O controlo é feito sobre barras de diferentes cores, aplicada de forma digital, sendo bem vísivel o bom desenvolvimento cromático e respetivas intensidades [2]. Estas novas composições de vidrados aumentam a variabilidade estética das peças produzidas em porcelânico polido, nomeadamente na obtenção de produtos marmorizados por decoração digital, em tons intensos de negro e castanho, como se ilustra na figura 3. Além disso alargam o campo de aplicação para formatos maiores (90x90 / 60x120 / / 150x300), a utilizar em zonas de maior tráfego, devido à possibilidade de aplicar decoração digital por inkjet, em sandwiche, entre o engobe e vidrado.

2. PROCEDIMENTO TECNOLÓGICO E EXPERIMENTAL Caracterizaram-se os vidrados a usar e determinouse a composição química por fluorescência de raios X (FRX), avaliou-se o comportamento térmico ATD (dilatometria e microscopia de aquecimento por teste de fusibilidade), analisou-se a microestrutura por microscopia eletrónica de varrimento (SEM) e avaliaram-se eventuais fases cristalinas por difração de raios X (DRX). O vidrado mate é constituído por 40% (em massa) de frita (mate), sendo a fração restante uma mistura de componentes crus (feldspato, wollastonite, alumina e caulino). O vidrado transparente é constituído por teor

p.34 . Kéramica . Inovação

expressivamente superior (80%) de frita (transparente e de elevado brilho), tendo nefelina, caulino e argila micronizada como matérias-primas cruas. Ambos os vidrados foram moídos com 40% de água, utilizando 0.3% de um ligante (CMC) de média viscosidade, 0.1% de desfloculante (tripolisfosfato de sódio) e 0.05% de conservante anti bactericida. Os resíduos de moagem ao peneiro de 45 µm são de 1-2 g no caso do vidrado mate e 10-12g para o vidrado transparente. Esta diferença justifica-se pelo elevado teor de frita presente no vidrado transparente. Ambos os vidrados foram peneirados numa tela de abertura igual a #120 mesh, seguindo-se um tempo de repouso de 24 h, sob agitação lenta, antes da sua utilização na vidragem, garantindo-se assim, a eliminação do ar existente nas suspensões, introduzido durante a moagem. Os vidrados foram aplicados a Jet, a partir de uma suspensão com densidade entre 1520/1540 g/L, viscosidade de 15’’ (taça Ford com 4mm de diâmetro) e massa de 70g no caso de peças 30x30 cm, [2]. As peças obtidas foram cozidas à temperatura máxima de 1220ºC, num ciclo com duração total de duração total de 60-70 minutos, seguindo-se operações de polimento e aplicação de cera líquida com função “tapa poros”. Posteriormente as peças foram analisadas visualmente e avaliou-se a resistência da camada de vidrado ao ataque às manchas, iodo, azeite, contacto com pasta vermelha de Fe e pasta verde de Cr, e ainda marcador azul E 3000, de acordo com a norma ISO 10545-14 [6]. A resistência ao ataque químico foi verificada limpando a superfície da peça de teste com um solvente (acetona) e secando completamente antes de iniciar o teste. As substâncias de teste utilizadas foram ácido clorídrico (3% e

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Vidrado transparente VTG 066

Vidrado mate VMG 205

Temperaturas (ºC)

Vidrado transparente VTG 066

Vidrado mate VMG 205

SiO2

54.0

43.8

A-Sinterização

1042

1090

Al2O3

11.4

18.2

B-Amolecimento

1115

1155

CaO

14.6

18.0

C-Esfera

1132

1160

MgO

1.4

1.8

D-Semi esfera

1158

1171

Na2O

2.2

2.3

E-Fusão

1185

1180

K2O

4.5

2.2

BaO

3.3

___

ZnO

6.0

4.2

TiO2

0.06

0.07

Fe2O3

0.1

0.2

perda ao fogo

0.7

8.6

18% de concentração), ácido cítrico, ácido láctico e hidróxido de potássio (30g/L e 100g/L). Colocaram-se pedaços de peças em contacto com as substâncias de teste durante 24h (ácido cítrico e láctico) e 96h (ácido clorídrico e hidróxido de potássio), segundo a norma ISO 10545-13 [6]. A resistência à abrasão (PEI – Porcelain Enamel Institute)) foi medida de acordo com a norma ISO 10545-7 e a dureza foi medida de acordo com a resistência ao risco usando-se a escala de MOHS [7].

3. RESULTADOS 3.1. Caracterização dos materiais

A tabela 1 mostra a composição química do engobe e do vidrado transparente, expressa em % ponderal dos óxidos, obtida por fluorescência de raios X (FRX). De salientar a ausência de zircónio como opacifi-

Ta b e l a 2 – Va l o r e s d a s t e m p e r a t u r a s que traduzem a fusibilidade de cada vidrado.

(%) ponderal Óxidos

cante, em ambas as composições, estando de acordo com o carácter transparente de ambos os vidrados. No vidrado mate, o superior valor de perda ao fogo resulta do maior teor em matérias-primas cruas. De destacar os teores elevados de alumina e cálcio, componentes essenciais para este tipo de composições de alta temperatura, ao mesmo tempo que é relativamente reduzida a concentração de elementos alcalinos, sódio e potássio. Com isto diminui-se a ocorrência de defeitos superficiais, particularmente na fase de desgaseificação (T=750-950 ºC), uma vez que o material é menos fusível. A presença de zinco em ambos os vidrados justifica-se pelo seu carácter matizante (no vidrado mate sedoso) e simultaneamente fundente de alta temperatura (no vidrado transparente), garantindo assim, elevado brilho e o adequado espalhamento da superfície. Os coeficientes de expansão térmica, avaliados entre 50-400ºC, são iguais a 63.2x10-7 e 66.8x10-7 ºC-1 (erro de +/- 2), para o vidrado transparente e mate, respectivamente. É expectável um bom acordo expansivo com a pasta, que possui α = 71x10-7 ºC-1. Como complemento aos dados dilatométricos a tabela 2 mostra os diferentes valores das temperaturas que traduzem a fusibilidade dos vidrados, obtidos por microscopia de aquecimento. A figura 4 mostra a evolução da fusibilidade dos vidrados, que permitiu estimar os valores daquelas temperaturas [3].

Figura 4 – Imagens das temperaturas características da fusibilidade do vidrado transparente VTG 066 (I) e do vidrado mate VMG 205 (II).

Tabela I – Composição química do vidrado transparente (VTG 066) e do vidrado mate (VMG 205), obtida por fluorescência de raios X (FRX).

Inovação

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Inovação . Kéramica . p.35


Figura 6 – Análise elementar EDS do vidrado transparente VTG 066, obtida sobre a área da fig. 5 (I).

Figura 7 – Análise elementar EDS do vidrado mate VMG 205, obtida sobre a área da fig. 5(II).

Figura 5 – Micrografias do vidrado transparente VTG 066 (I) e do vidrado mate VMG 205 (II).

Inovação

De registar as temperaturas elevadas de amolecimento (B) dos dois vidrados, sendo superior em 40ºC a do vidrado mate devido ao superior teor de componentes crus, naturalmente menos fusíveis (em especial a wollastonite e alumina). Apesar das diferenças de composição, as temperaturas de fusão (E) são muito próximas e ambas elevadas. Estes valores são especialmente adequados para uso em grés porcelânico, que sofre cozedura entre 1180 e 1220ºC, uma vez que os vidrados mantêm uma desejável permeabilidade, permitindo o escape de gases gerados no suporte cerâmico. Minimizam-se desta forma os riscos de formação de defeitos como picado e/ou bolhas, comuns em suportes cerâmicos de baixa porosidade e absorção de água inferior a 0.5%. Os vidrados apresentam textura bem desenvolvida e elevado grau de maturação, reduzindo-se o risco de surgimento de poros superficiais na fase de polimento, que acarretam à rápida acumulação de sujidade sobretudo em aplicações em ambientes de alto tráfego.

p.36 . Kéramica . Inovação

Foi feita a observação em microscópio electrónico de varrimento (SEM), de ambos os vidrados (figura 5). É de realçar o carácter fortemente homogéneo e vítreo de ambos os vidrados. As figuras 6 e 7 mostram espectros de EDS das amostras visualizadas em SEM, com indicação dos elementos químicos presentes e da respectiva concentração (ver tabelas 3 e 4). O maior destaque vai para os teores superiores de cálcio e alumina no vidrado VMG 205, sendo ligeiramente inferior os teores de zinco e de potássio, explicando estas diferenças, o carácter mate deste vidrado. A difração de raios X dos vidrados, figuras 8 e 9, revela o carácter acentuadamente amorfo dos materiais, pela (quase) ausência de picos correspondentes à presença de compostos cristalinos. Desta forma garantem-se as desejáveis características estéticas: elevada transparência e brilho no caso do vidrado transparente e desenvolvimento de superfície mate-sedosa no vidrado mate.

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Tabela 5 – Durabilidade química, resistência à abrasão e dureza dos vidrados, avaliados de acordo com as normas ISO.

Figura 9 – Difractogama de raios X do vidrado mate VMG 205.

Figura 8 – Difractograma de raios X do vidrado transparente VTG 066.

Tabela 4 – Análise elementar EDS do vidrado mate VMG 205, obtida sobre área da fig. 5(II).

Tabela 3 – Análise elementar (EDS) do vidrado transparente VTG 066, obtida sobre a área da fig. 5(I).

Inovação

TESTES

ISO 10545-14

Ataque às Manchas após polimento

5

Ataque químico (Ácidos-Bases)

ISO 10545-13

ISO 10545-7

GLA-GHA

Abrasão (PEI) antes polimento

IV

Dureza (MOHS) após polimento

6-7

A ausência de partículas cristalinas em volume considerável minimiza o seu arrancamento/destacamento durante a fase de polimento, principal causadora da formação de porosidade superficial. Sendo arriscada a correta identificação de fases cristalinas, ausentes no caso do vidrado transparente, ainda assim parece existir aluminato de cálcio (Anortite) e aluminosilicato de bário (Celsium) no vidrado mate. A tabela 5 mostra resultados da resistência às manchas e aos agentes químicos, bem como da resistência à abrasão e de dureza de MOHS dos vidrados aplicados. A superfície das peças polidas não apresentou quaisquer indícios de manchamento por qualquer das so-

p.38 . Kéramica . Inovação

luções testadas, sendo ambos considerados de classe 5. Este resultado é compatível com o desenvolvimento de superfícies polidas isentas de porosidade aberta. A resistência ao ataque químico é igualmente excelente, tendo ambos os produtos obtido a classificação A perante todos os agentes agressivos utilizados. A classificação GLA-GHA é a que traduz maior resistência ao ataque químico e que pressupõe a não deteção de qualquer degradação na superfície das peças. O teste de resistência à abrasão (PEI) foi realizado em peças não polidas. Ambos os vidrados pertencem à classe IV. A dureza de MOHS, estimada em peças polidas, foi igual a 6-7.

4. CONCLUSÕES Os vidrados desenvolvidos apresentam superfícies de elevada transparência e brilho no caso do vidrado transparente, e textura mate sedosa no caso do vidrado mate. Ambos apresentam facilidade de polimento, do tipo “lapato”, e ausência de porosidade superficial. Além disso, permitem decoração por InkJet, em sandwiche, com elevado desenvolvimento cromático. Este tipo de vidrados possibilita o armazenamento do produto final, tanto na forma brilhante como mate, sem exigência de polimento imediatamente após a produção. Esta operação pode ser realizada apenas quando necessário e de acordo com as solicitações comerciais. Antes de polimento as peças apresentam valores de

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Inovação

PEI IV, que permitem a sua utilização em áreas de tráfego considerável. A resistência às manchas é superior (classe 5), além de apresentarem resistência aos agentes químicos, sendo classificadas como produtos de classe GLA-GHA. Por estas razões conclui-se que as superfícies, brilho e mate sedoso, obtidas desta forma inovadora cumprem os requisitos exigidos pelas normas ISO em vigor.

5. BIBLIOGRAFIA [1] Juan B.Carda Castelló, Purificación Escribano Lôpez, Eloísa Cordoncillo, Esmaltes e Pigmentos Cerámicos, Faenza Editrice Iberica S.L. – Universitat Jaume I – Castellón, 2001.

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[2] Oliveira H.J.C., dados técnicos, IFH – Estudio Cerâmico Lda, 2009-2017 [3] Oliveira H.J.C, Apontamentos Vidrados Cerâmicos, Edições Almedina, Março 2017. [4] Sacmi Tecnologia Cerâmica Aplicada, volumen 1, Faenza Editrice Iberica, Castellon de la Plana, 2004. [5] C. Agrafiotis, T. Tsoutos, Energy saving technologies in the European ceramic sector: a systematic review, Applied thermal engineering, 21, 1231-1249, 2001. [6] Ed. Int. CERLabs, European Network of National Ceramic Laboratories, Ceramic Tiles the ISO International Standards for Ceramic Tiles, 1993. [7] European committee for standardization, Ceramic tiles - Definitions, classification, characteristics and marking, The European Standard, 2006.

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Secção Jurídica

TRABALHO IGUAL SALÁRIO IGUAL Novas obrigações em matéria de igualdade remuneratória

por Ferreira Ramos e Marta Frias Borges - FAF Advogados

Longe vai a discussão cega do trabalho igual salário igual. Com dignidade constitucional o princípio emerge do princípio da igualdade e, convenhamos, é de cristalina justiça. Alguém que faça exactamente o mesmo trabalho deve receber o mesmo salário. A doutrina fez um trabalho notável nestes últimos 40 anos de aprofundamento do conceito e a jurisprudência apurou critérios evidenciando a dificuldade, muitas vezes, de validar a quantidade e a qualidade comparativa do trabalho prestado. Ao fim e ao cabo, cada Homem (a maiúscula – nos bons ou maus, depende da perspectiva- velhos tempos significava a Humanidade), cada Ser tem a sua própria individualidade e, há quem defenda, nunca nenhum de nós terá um mesmo desempenho quando comparado com outrém. De um momento para o outro, publicamente, a questão do género tomou conta também desta discussão. Em 2017 começou a ser anunciada a preocupação do Governo relativamente a esta questão: igualdade remuneratória. Igualdade remuneratória entre Homens e Mulheres. A opinião publicada dava a devida nota desta nova linha e as agendas das confederações foram devidamente actualizadas. Pouco mais de um ano passado o anúncio foi concretizado. No passado dia 18 de julho, a Assembleia da República aprovou, em votação final global, a Proposta de Lei nº 106/XIII (em conformidade com o texto de substituição apresentado pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias), que virá estabelecer medidas de promoção da igualdade remuneratória entre mulheres e homens por trabalho igual ou de igual valor. O referido diploma vem impor às entidades empregadoras que assegurem a existência de uma política remuneratória transparente, com base em critérios objetivos

p.40 . Kéramica . Secção Jurídica

comuns a homens e mulheres, que terá de ser demonstrada em caso de alegação de discriminação remuneratória. O cumprimento desta obrigação será exigível decorridos que sejam seis meses da entrada em vigor do diploma agora aprovado. Por outro lado, com vista a garantir a efetividade destas medidas, o serviço competente para proceder ao apuramento estatístico do ministério responsável pela área laboral passará também a disponibilizar, no primeiro semestre de cada ano civil, informação estatística que sinalize as diferenças salariais, por empresa (balanço) e por setor (barómetro), com base nas fontes legais e administrativas disponíveis. Após a receção de tal balanço por empresa, a ACT notificará a entidade empregadora respetiva para apresentar um plano de avaliação das diferenças remuneratórias, que deverá ser implementado nos doze meses seguintes. Findo tal período, e concluída a implementação do referido plano, a empresa deve ser capaz de justificar ou corrigir essas diferenças remuneratórias, sendo que se presumirão discriminatórias todas as diferenças salariais que não sejam justificadas por critérios objetivos e transparentes. Durante os primeiros dois anos de vigência do diploma, a notificação para a elaboração de plano de avaliação será imposta apenas a empresas com mais de 250 trabalhadores. Porém, a partir do terceiro ano de vigência, tal regime passará a ser aplicado a todos as entidades que empreguem 50 ou mais trabalhadores.

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Secção Jurídica

Após a entrada em vigor da presente proposta de lei, qualquer trabalhador passará a poder requerer à CITE a emissão de parecer sobre a existência de discriminação em razão do sexo. Ora, perante a apresentação de tal pedido pelo trabalhador, aquela entidade procederá à notificação da entidade empregadora para que, no prazo de 30 dias, apresente a sua política remuneratória e os critérios usados

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para o cálculo de remuneração do requerente e dos trabalhadores de outro sexo em relação aos quais o trabalhador se considere discriminado. Caso o CITE venha a concluir pela existência de indícios discriminatórios convocará novamente a entidade empregadora, desta feita para proceder à justificação desses indícios ou propor medidas de correção, no prazo de 180 dias. Merece ainda destaque o facto de o referido diploma legal vir ainda consagrar a obrigação de os Tribunais comunicarem imediatamente à CITE as sentenças condenatórias por discriminação remuneratória. O referido diploma legal foi promulgado no passado dia 01 de Agosto de 2018, aguardando, à data da elaboração do presente artigo, publicação em Diário da República. Ficaremos por aqui? A resposta será claramente negativa. Não. Este é um primeiro passo. A Islândia penalizou já a desigualdade remuneratória com multa. Daqui à criminalização é um salto. E, em Portugal, outro assunto passou também para a agenda: a desigualdade salarial dentro das empresas, entre trabalhadores e gestores, a amplitude salarial. Diga-se que, na economia real, na indústria, esta amplitude é contida. Mas noutras áreas, nos serviços, nas commodities, nas bolsas é razoável, justo, admissível que um gestor ganhe mais 100/200 salários pagos a trabalhadores? Para os próximos tempos esta é uma discussão a suscitar já a intervenção dos mais altos dignatários políticos e com a CIP a passar a comparação para os salários dos jogadores de futebol… e já se sabe: quando o assunto é futebol temos discussão garantida! Bom campeonato.

Secção Jurídica . Kéramica . p.41


Design

PRODUTOS CERÂMICOS INDUSTRIAIS SUSTENTÁVEIS EM PORTUGAL

por José Manuel Frade, Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha do Instituto Politécnico de Leiria

Durante o mês de maio esteve aberta ao público a Exposição Produtos Cerâmicos Industriais Sustentáveis em Portugal no espaço dos Silos localizado em Caldas da Rainha. Esta exposição integrada no Projecto de investigação CP2S – Cerâmica, Património e Produtos Sustentáveis – do ensino à indústria a decorrer no âmbito das atividades do Laboratório de Investigação em Design e Artes do Instituto Politécnico de Leiria foi constituída por cerca de 300 produtos industriais cerâmicos, produzidos por 19 empresas nacionais integradas nos principais subsetores industriais

p.42 . Kéramica . Design

- estrutural; pavimento e revestimento; utilitário e decorativo e sanitários - que foram selecionados por revelarem estratégias de sustentabilidade e inovação no projeto de design dos respetivos produtos e que vão continuar a ser utilizados em aula para orientação do design de novos produtos com resolução tecnológica. Um dos objetivos do projeto de investigação CP2S é trazer (e divulgar) exemplos reais de produtos industriais para o ensino do design como forma de potenciar e inspirar a criação de novos produtos industriais cerâmicos em ambiente académico que se ali-

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Design

nhem numa tendência cada vez mais generalizada de uma maior preocupação e consciência ambiental, social, económica e cultural na prática do design. Quer a análise crítica dos produtos expostos, quer a investigação já realizada no âmbito do projeto permitem concluir que as várias empresas e os próprios subsetores industriais evidenciam diferentes estratégias na prática do design que visam incrementar a sustentabilidade dos respetivos produtos, fator cada vez mais valorizado pelos mercados com maior consciência ambiental e responsabilidade social. A equipa de investigação do projeto de investigação CP2S – Cerâmica, Património e Produtos Sustentáveis – do ensino à indústria apoiado pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, no âmbito do Programa Portugal 2020 – Programa Operacional Regional do Centro, aproveita a oportunidade para agradecer a todos os que tornaram possível a realização desta exposição, nomeadamente às diferentes empresas que nos ofereceram os seus produtos, a outras que justificadamente apenas os cederam para este evento, e a todos os alunos que de algum modo estiveram envolvidos na pesquisa e no contacto com estas empresas com a minha orientação científica e tecnológica e espera poder vir a atualizar no tempo este tipo de mostra alargando-o a outras empresas de referência nacional.

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Energia

S essão I nformativa sobre E nergia Evolução dos preços do Gás Natural e Energia Elétrica entre 2010 e 2018

por António Oliveira, Economista da APICER

A indústria de cerâmica, atendendo à natureza dos produtos fabricados e aos respetivos processos produtivos, é classificada como consumidora intensiva de energia, isto é, utiliza grande quantidade de energia. Os custos energéticos são particularmente relevantes nesta indústria, representando, em termos médios, 25% a 30% dos custos totais. No ano de 2016 (último período com dados disponíveis), o consumo energético nas cerâmicas ascendeu a 290.366 tep (fonte: DGEG, balanço energético provisório, atualizado em abril de 2018). O gás natural é a principal fonte energética representando 77,8% do consumo energético total, seguindo-se a eletricidade com 8,9% e as lenhas e resíduos vegetais com 7,0%. As cerâmicas constituem também um dos maiores consumidores de gás natural no contexto da indústria transformadora. Nas cerâmicas o gás natural representou 18,1% do consumo final da indústria transformadora, 12,9% do consumo total da indústria transformadora e 5,2% do consumo total nacional em 2016. A importância que este tema reveste para a indústria cerâmica e para a sua competitividade e sustentabilidade, assim como a complexidade associada à existência das várias componentes que determinam a composição do preço pago pelos consumidores, justificou a realização de uma sessão informativa sobre a evolução dos preços da energia elétrica e gás natural entre 2010 e 2018, que se realizou na sede da APICER em 5 de julho de 2018, com a presença de 25 participantes. Para falar sobre este tema, a APICER convidou o Eng.º Celso Pedreiras, Vice-presidente do CENE - Conselho Estratégico Nacional da Energia da CIP e representante dos Grandes Consumidores de Gás Natural, no Conselho Tarifário da ERSE. Ao longo da sessão, o Eng.º Celso Pedreiras abordou temáticas como a composição do preço, a análise das diversas parcelas que compõem a fatura, componentes negociáveis no mercado livre, evolução dos preços entre 2010 e 2017 e perspetivas para 2018. Os indicadores e gráficos que, com a devida autori-

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zação, apresentamos neste artigo, integraram a apresentação efetuada.

GÁS NATURAL No gás natural, o preço é determinado pelas seguintes componentes: 1) Energia (gás) O cliente negoceia diretamente o preço da energia com os comercializadores. 2) Tarifa de Acesso às Redes (TAR). Mesmo em mercado livre continua a existir uma parcela sujeita a regulação por parte da ERSE. Esta tarifa contém termos fixos e variáveis. 3) Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP) O cliente abrangido pelo Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) tem estado isento do pagamento do ISP. 4) Taxa Ocupação Subsolo (TOS) Taxa Municipal da ocupação do subsolo pelas redes de distribuição do GN. Esta taxa só é cobrada por alguns municípios. 5) Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) O IVA pago é, na maioria dos casos, dedutível. Apenas a Energia e as TAR são aplicáveis à totalidade das empresas. Para estas 2 componentes (excluindo ISP, TOS e IVA), e considerando os valores associados às TAR em média pressão, a componente Energia representa entre 80% a 85% do preço e as TAR entre 15% e 20%. Os custos relativos às TAR (média pressão) têm vindo a baixar desde o ano gás 2015-2016, mantendo desde então essa tendência, que se prolongará até 2018-2019, face aos dados já publicados pela ERSE. O preço da componente Energia é negociado em mercado livre de diversos modos, sendo os mais frequentes: - Preço Fixo - Preço Indexado (ao preço do barril de petróleo através de uma fórmula do tipo): Preço = P1 + [P2 x Brent(6,0,3) + P3] / TC

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Energia

vido a fatores como o aumento do custo do Brent, a desvalorização do euro face ao dólar e o aumento das margens de comercialização dos distribuidores em função do aumento do consumo.

- Soluções Mistas - Outros A opção de preço indexado contém os riscos associados às variações do preço do petróleo nos mercados internacionais e à variação da taxa de câmbio do dólar face ao euro. A partir de 2015, as descidas simultâneas dos preços das duas componentes, a Energia (gás) (-35%) e as TAR (-33%), provocaram reduções significativas do preço final do gás natural em Portugal, em convergência com os preços da Europa. Se considerarmos a banda de consumo I4 (para consumos anuais entre os 27,8 GWh e os 277,8 GWh ⇔ 2,3 a 23,4 milhões Nm3), verificamos que a evolução dos preços conduziu a uma situação de convergência dos preços praticados em Portugal com a média da Zona Euro e de países como Espanha, França e Itália (figura 1). O preço do gás natural na indústria praticado em Portugal (preços excluindo IVA e outros impostos recuperáveis) era de 0,0381 €/KWh em 2014 (2.º semestre) e baixou para os 0,229 €/KWh, em 2017 (2.º semestre), evidenciando uma variação de -39,9%. No mesmo período as variações de preço registadas na Zona Euro, Espanha, França e Itália foram de -23,7%, -31,4%, -22,9% e -24,7%, respetivamente. Em todos os casos, o preço desceu, mas com variações inferiores à registada em Portugal. No ano de 2018, e não obstante a descida prevista das TAR, o preço do gás natural tem vindo a aumentar de-

ENERGIA ELÉTRICA

Preços do Gás Natural na Indústria (excluindo IVA e outros impostos recuperáveis) €/kWh | Banda I4 (27,8 GWh < C < 277,8 GWh) 0,040

0,035

0,030

0,025 Convergência 0,020 2010-S2

2011-S2 Portugal

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2012-S2 Espanha

2013-S2

2014-S2

França

Itália

2015-S2

2016-S2

2017-S2

Zona Euro

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F i g u r a 1 – E v o l u ç ã o d o s p r e ç o s ( € / kW h ) d o g á s n a t u r a l n a i n d ú s t r i a e n t r e 2 0 1 0 e 2017 (fonte: Eurostat)

Para clientes em mercado livre, a composição do preço da energia elétrica é determinada pelos seguintes componentes: 1) Energia (eletricidade) O cliente negoceia diretamente o preço da energia com os comercializadores. 2) Tarifa de Acesso às Redes (TAR) Mesmo em mercado livre continua a existir uma parcela sujeita a regulação por parte da ERSE. 3) Imposto sobre Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISPE) O cliente abrangido pelo Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE) tem estado isento do pagamento do ISPE. 4) Imposto sobre Valor Acrescentado (IVA) O IVA pago é, na maioria dos casos, dedutível. O peso relativo das várias componentes, em mercado e em média tensão, IVA excluído, é o seguinte: Energia: 50%, TAR: 49% e ISPE: 1%. Em termos comparativos, constata-se uma diferença significativa entre a composição da fatura do gás natural e da energia elétrica no que se refere à componente ener-


Figura 2 – Evolução dos preços da energia elétrica em Portugal entre 2010 e 2018 (fonte: ERSE, cálculos CP)

Energia

gia, que representa cerca de 85% no caso do gás natural e apenas 50% no caso da energia elétrica, o que limita substancialmente a componente negociável no caso da energia elétrica. Os custos relativos às TAR incluem o Uso das Redes e ainda os Custos de Interesse Económicos Gerais (CIEG), representando estas componentes cerca de 21% e 29%, respetivamente, do preço suportado pelos consumidores. O Preço da componente Energia é negociado em mercado livre de diversos modos, sendo os mais frequentes: - Preço Fixo - Preço Indexado (ao OMIE) - Soluções Mistas A opção preço indexado contém os riscos associados às variações do preço no mercado diário, que tem mostrado nos últimos anos grande volatilidade. Para clientes alimentados em média tensão, as TAR têm crescido sistematicamente entre 2013 e 2017. Em 2018 baixaram 3,6%. Em contrapartida, o preço da componente Energia, que registou variações negativas nos anos de 2016 e 2017, cresceu 16,8% em 2018, face a 2017. Os efeitos conjugados destas 2 componentes originaram uma subida do preço da energia elétrica em 7,3% no ano de 2018 (figura 2). Se considerarmos a banda de consumo IB (para consumos anuais entre os 20 MWh e os 500 MWh), e tendo como referência os preços praticados no 2.º semestre de 2017, verificamos que os preços praticados em Portugal são dos mais elevados da Europa, superiores à média da

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Zona Euro e de alguns dos nossos principais concorrentes na produção de materiais cerâmicos, tais como Espanha, França e Polónia (figura 3). No 2.º semestre de 2017 o preço médio ponderado de Energia Elétrica no Setor Indústria praticado em Portugal (preços excluindo IVA e outros impostos recuperáveis) era de 0,1520 €/kWh e constituía o 7.º mais elevado entre os 28 países da UE, apenas ultrapassado por Alemanha, Itália, Grécia, Bélgica, Malta e Chipre. Era também superior ao preço médio praticado na Zona Euro (0,1450 €/ kWh) e na UE28 (0,1371 €/ kWh). Como anteriormente foi referido, os preços da energia elétrica englobam uma componente com um peso de cerca de 29% na fatura energética. Trata-se dos CIEG (Custos de Interesse Económicos Gerais) que resultam de decisões políticas passadas para pagamento das chamadas “Rendas” (que representam cerca de 2.000 milhões de euros por ano!) que, a não serem objeto de medidas corretivas, comprometem a competitividade e a sustentabilidade da indústria nacional.

CONCLUSÕES Face aos dados apresentados, regista-se a circunstância da componente negociável no mercado livre ser mais limitada no caso da energia elétrica do que no gás natural. No caso do gás natural, é de salientar a aproximação dos preços praticados em Portugal em relação aos pre-

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Energia

Suécia Finlândia Bulgária Roménia Hungria Holanda Lituânia Estónia Eslovénia Luxemburgo Dinamarca Croácia Polónia França República Checa Áustria Eslováquia Letónia Espanha Reino Unido Zona Euro Irlanda Portugal Chipre Malta Bélgica Grécia Itália Alemanha

0,000

0,1520

0,020

0,040

0,060

0,080

ços praticados nos países que constituem os nossos principais concorrentes na produção de materiais cerâmicos. No 2.º semestre de 2014 (banda de consumo I4) o preço praticado em Portugal era superior ao preço de Espanha, França, Alemanha e Itália, assim como ao preço médio da UE28. No 2.º semestre de 2017, apenas a Itália registou um preço inferior ao de Portugal. Já no caso da energia elétrica, a respetiva fatura representa um ónus considerável para a nossa indústria,

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0,100

0,120

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0,200

verificando-se que a componente das TAR, quer no mercado livre quer no mercado regulado, representa um peso de 50% na composição do preço, nomeadamente por efeito dos CIEG, que distorcem e subvertem o funcionamento do mercado. Como consequência, comprometem a competitividade e sustentabilidade da nossa indústria, em resultado da prática de preços que colocam Portugal entre os países que suportam os custos mais elevados em toda a Europa.

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F i g u r a 3 – P r e ç o s ( € / kW h ) d a e n e r g i a e l é t r i c a n a E u r o p a n o 2 . º s e m e s t r e d e 2 0 1 7 (fonte: Eurostat)

Preços de Energia Elétrica na Indústria no 2.º semestre 2017 (excluindo IVA e outros impostos recuperáveis) €/kWh | Banda IB : 20 MWh < C < 500 MWh


Calendário de Eventos

VIETNAM CERAMICS ’2018 (Cerâmica) Anual – Hanói (Vietnam) De 30 a 31 de Agosto de 2018 http://vietnamceramicsexpo.com

CERSAIE’2018 (Ladrilhos Cerâmicos) Anual – Bolonha (Itália) De 24 a 28 de Setembro de 2018 www.cersaie.it

DOMOTEX’2019 (Materiais de Construção) Anual – Hannover (Alemanha) De 11 a 14 de Janeiro de 2019 http://www.domotex.de

AUTUMN FAIR’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Birmingham (R.U.) De 2 a 5 de Setembro de 2018 www.autumnfair.com

INTERCASA’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Lisboa (Portugal) De 3 a 7 de Outubro de 2018 https://intercasa.fil.pt

BAU’2019 (Materiais de Construção) Anual – Munique (Alemanha) De 14 a 19 de Janeiro de 2019 www.bau-muenchen.com

MAISON & OBJET’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Paris (França) De 7 a 11 Setembro de 2018 www.maison-objet.com

BUILD SHOW ‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Birmingham NEC (UK) De 9 a 11 de Outubro de 2018 www.ukconstructionweek.com

MAISON & OBJET’2019 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Paris (França) De 18 a 22 Janeiro de 2018 www.maison-objet.com

KAZBUILD‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Almaty (Cazaquistão) De 94 a 6 de Setembro de 2018 kazbuild.kz/en/

THE NEW YORK TABLETOP’2019 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Nova Iorque (USA) De 9 a 12 Outubro de 2018 http://41madison.com/

CEVISAMA’2019 (Ladrilhos Cerâmicos) Anual – Valência (Espanha) De 28 de Janeiro a 01 de Fevereiro de 2019 cevisama.feriavalencia.com

CERANOR’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Porto (Portugal) De 7 a 10 Setembro de 2018 www.ceranor.exponor.pt

FINNBUILD ‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Helsínquia (Finlândia) De 10 a 12 de Outubro de 2018 https://messukeskus.com

AMBIENTE’2019 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Frankfurt (Alemanha) De 8 a 12 de Fevereiro de 2019 ambiente.messefrankfurt.com

INTERGIFT’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Madrid (Espanha) De 12 a 16 de Setembro de 2018 www.ifema.es/intergift_01/

CERAMBATH ‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Foshan (China) De 18 a 21 de Outubro de 2018 en.cerambath.org

ISH’2019 (Materiais de Construção) Anual – Frankfurt (Alemanha) De 11 a 15 de Março de 2019 https://ish.messefrankfurt.com

HOTEL SHOW DUBAI’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Dubai (EAU) De 16 a 18 de Setembro de 2018 www.thehotelshow.com

SAUDI BUILD ‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Riade (Arábia Saudita) De 25 a 25 de Outubro de 2018 saudibuild-expo.com

EXPOREVESTIR’2019 (Ladrilhos Cerâmicos) Anual – Valência (Espanha) De 13 a 16 de Março de 2019 cevisama.feriavalencia.com

100%DESIGN’2018 (Cerâmica Utilitária e Decorativa) Anual – Londres (R.U.) De 19 a 22 Setembro de 2018 www.100percentdesign.co.uk

LONDON BUID ‘2018 (Materiais de Construção) Anual – Londres (UK) De 23 a 24 de Outubro de 2018 www.londonbuildexpo.com

MOSBUILD’2019 (Materiais de Construção) Anual – Moscovo (Rússia) De 2 a 5 de Abril de 2019 http://www.ite-exhibitions.com

TECNARGILLA’2018 (Tecnologia Cerâmica) Bienal – Rimini (Itália) De 24 a 28 de Setembro de 2018 www.tecnargilla.it

THE BIG 5 DUBAI’2018 (Materiais de Construção) Anual – Dubai (EAU) De 26 a 29 de Novembro de 2018 www.thebig5.ae

COVERINGS’2019 (Ladrilhos Cerâmicos) Anual – Orlando (USA) De 9 a 12 de Abril de 2019 http://www.coverings.com/

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Keramica 353  

As atividades desenvolvidas no âmbito do projeto denominado Projeto CER++ ( Ceâmica +Produtiva+Eficiente), cofinanciado pelo COMPETE 2020, é...

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