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Apeiron

Índice Nota de Apresentação……………………………………………2

Minha futura philosophia“………………………………….........4 Alexandre Costa

Falar de Deus………………….………………………………...10 Joaquim Ferreira

Pitagorismo: Obscuridade Hermenêutica…………………….…12 Steven Gouveia

Educar ou aprender? O quê e para quê?.......................................24 João Madeira

Poético é o homem………………………………………….…..33 Diana Neiva 1


Apeiron

Nota de Apresentação

O propósito desta Revista Filosófica é praticamente semelhante ao das tradicionais revistas filosóficas nacionais: dar espaço e lugar aos académicos (neste caso, em formação, pois todos os participantes desta revista serão alunos a frequentar as suas respectivas licenciaturas) para exporem as suas investigações, comunicações, artigos, recensões críticas e afins. Como alunos deparámo-nos com grande dificuldade em publicarmos tantos os nossos trabalhos como as nossas opiniões. Esperemos que esta revista preencha essa lacuna com eficácia. O nome da revista – Apeiron – surgiu-nos quase intuitivamente, pois esta revista não procura debater apenas uma temática nem pretende representar um tipo de pensamento: pelo contrário, pretende ser ‘ilimitada’ – daí tornar-se claro o porquê da escolha do título presente desta Revista Filosófica dos Alunos - quanto aos assuntos abordados, onde qualquer aluno de qualquer universidade poderá solicitar a presença de qualquer artigo seu (desde que incorpore o espírito filosófico que todos nós apreciamos). Não terá uma periodicidade definida (neste pormenor adoptámos a parte “indefinida” do título escolhido). Cada edição da revista irá ter uma obra de arte a embelezar a capa, que neste caso foi produzida por Alexandre Costa. A revista terá uma disposição simples, clara e objectiva. Cada participante terá a responsabilidade de exercer o maior rigor académico, pois esta revista não terá qualquer comissão científica ou redactorial; contudo, queremos libertar-nos das duras e exigentes regras das típicas revistas filosóficas e assumiremos de boa vontade qualquer erro: serão esses erros que nos farão crescer como académicos. Nesta primeira edição, iremos abrir a revista com um artigo de Alexandre Costa, artista plástico, psicoterapeuta e estudante do 2º ano da licenciatura em Filosofia da universidade do Minho, sendo um libertário social convicto e crítico da aparente democracia instituída, parcialmente influenciado pelo idealismo de Kant e de Leonardo Coimbra, apresenta no seu texto: minha futura filosofia” apenas uma intenção: proporcionar ao sujeito leitor a possibilidade de através do seu próprio acto criador considerar a própria realidade como sendo um novo girar sobre si próprio… De seguida, será apresentado um pequeno e interessante artigo sobre a questão: Porquê falar em Deus?, onde o autor mostra que Deus não está tão longe quanto poderá

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Apeiron parecer mas, pelo contrário, está nas boas acções do dia-a-dia, redigido pelo aluno Joaquim Ferreira do 1º ano da licenciatura em Filosofia da Universidade do Minho. Continuaremos com uma breve síntese das principais questões presentes no Pitagorismo e das enormes dificuldades em conseguir obter uma interpretação concreta e uniforme – Pitagorismo: Obscuridade Hermenêutica – realizado pelo aluno Steven Gouveia do 1º ano da licenciatura em Filosofia da Universidade do Minho. Seguir-se-á um artigo interessante sobre a problemática questão: “Educar ou Aprender? O quê e para quê?”, onde o autor, conjugando a sua opinião pessoal com o pensamento platónico, procura mostrar-nos que o problema da Educação continua a ter sobeja importância e, consequentemente, o seu questionamento e análise, parecem fazer cada vez mais sentido. Neste artigo, o autor propõem-nos alternativas para a superação das principais dificuldades evidenciadas no nosso atual modelo de ensino, realçando que o princípio base deverá ser educar a aprender a pensar, e não consubstanciar o ensino a uma mera transmissão de conhecimento aos alunos através de outros que se limitaram, também eles, a aprender. Este artigo foi realizado pelo aluno João Madeira do 1º ano da licenciatura em Filosofia da Universidade do Minho. Concluiremos esta primeira edição da Revista Filosófica dos Alunos da Universidade do Minho – Apeiron – com um artigo poético, realizado pela aluna Diana Neiva do 2º ano da licenciatura em Filosofia da Universidade do minho, onde a Poesia aparenta desejar um lugar no mundo da Filosofia, tal como o filósofo alemão Heidegger pretendeu demonstrar, observando que a essência humana é poética. A organização e coordenação desta revista estão a cargo de Steven Gouveia (aluno do 1º ano da Licenciatura em Filosofia da Universidade do Minho); qualquer esclarecimento, sugestão ou pedido de participação (ou solicitar algum contacto dos participantes) poderá ser dirigido para o contacto [stevensequeira92@hotmail.com]. Pedimos compreensão, mas também pedimos o maior rigor para que possamos evoluir e conquistar novos horizontes. Talvez seja um risco, mas “a derrota é só para os que não arriscam”, e nós preferimos arriscar.

Steven Gouveia 3


Apeiron minha futura philosophia “

…maldito saturno (filho da puta) ladrão dos meus materiais e espirituais sonhos tu que andas sempre na minha sombra querias tirar-me agora a minha diva philosophia que irá sarar a dor e a ferida que quíron em mim colocou mas verás que como tempestade heide pelas tuas rígidas portas passar ileso sereno olhar-te-ei nos olhos e desse teu trono nojento derrubar-te-ei para sempre pois de mim nunca terás intencionalidade (seu cabrão) à tua vontade sistémica só obedecerei obrigado e ao teu método tosco que destrói amores de verdade jamais entregarei o que quer que seja da minha vida terás tu que me aceitar tal como sou (meu menino) pois não és tu nem o dono da verdade nem o senhor do amor ou da liberdade por isso cuida-te poder saturnino porque como aliado meu tenho eu plutão o senhor da morte e da transformação que me sussurra agora mesmo ao ouvido (que no coração da minha querida philosophia viverei para sempre) e da água que sofrida me corre no rosto e de mim brota não és tu a causa mas o amor e a sabedoria que juntos afogar-te-ão para sempre porque este meu mundo já não te concede mais autoridade ou reverência (logo) por mim serás exilado e no teu devido lugar colocado e enterrado à entrada de um novo paradigma (eu mesmo, contigo da minha vida ausente) e passarás a ser a piada dos museus de história (seu palhaço) pagarás pelo que acabas de me querer tirar e eu farei rolar a tua cabeça pois continuas a tirar-me tudo o que às minhas mãos vem parar mas a realidade do pensamento a ideia esta jamais a tirarás (pois eu sei) ela respira com a minha imagem no pensamento e através do meu nobre e forte coração sente (e tu saturno de merda) aí tu não entras (nem que te fodas todo) oh minha querida prometida filosofia os teus cabelos meus a cor da tua pele o balançar do teu elegante corpo o teu irresistível olhar de ternura os teus lábios quentes e protectores a serenidade estampada no teu rosto e a tua determinação (que agora se quebrou e mudou com os justos ventos) que saturno não se apodere de ti e que a felicidade reine em ti para sempre pois tu meu querido saturno tu que me rasgas o coração em pedaços esqueces-te que ele não é teu mas pertence à philosophia que há de o ressuscitar para sempre pois quando saio de casa enterro-o num eloquente vaso de terra percorro as ruas da minha cidade e sento-me ao lado de uma inquietante estátua 4


Apeiron que jorra água continuamente mas é impressionante minha querida amada o ar continua quente enquanto caminho eufórico e crente pois só tu preenches o meu pensamento mas eis que de repente pressinto que alguém chama por mim em pensamento (mas não creio que sejas tu minha querida) pois a ideia de uma nova musa apodera-se do meu pensamento (perdoa-me) mas devorá-la-ei a ela e a saturno enquanto continuo por este passeio kantiano (na expectativa de o encontrar, pois este senhor também vai pagá-las) e acabo de passar pelo quarto dos nossos sonhos para agora sentado em frente ao meu dionísio sem deveres e sem princípios ouvir um pássaro que canta por entre o trânsito e o tocar dos sinos como setas de diamante enquanto dionísio ali colocado imóvel e intenso provoca em mim a boa vontade de o partir em dois e assim tornar-me nele para poder ser para ti eterno pois ele é bem mais puro do que eu continua a jorrar água perenemente e eu não (por agora) mas no entanto ambos estamos sós eu e ele no meio desta contingente selva mas a diferença é que ele congelou os sentimentos (e eu não posso, nem quero) pois continuarei a iludir-me irreverentemente com o meu destino que tenso observa dionísio que em mim projectado contém no rosto a impressão da minha última ferida que me leva a prosseguir e a percorrer 200 metros rodeado de árvores em flor e a sentar-me de novo agora contigo em pensamento pois sinto que a primavera gentilmente desperta um silencio que se impõe em si mesmo e que se apodera das minhas faculdades (mas não, eu não pretendo filosofar, mas sim, é transcendente, não é imanente, pois esse poder é para o senso comum, e este, do qual eu falo, é só para os eleitos) e tudo parece mais belo e em ordem pois ainda aqui sentado no mesmo local um pensamento abala e incomoda o meu espírito pois é este maldito sistema esta terrível sociedade de homens psicologicamente sociáveis e contudo vazios nesta florescente hipocrisia nesta legião de corruptas verdades nesta ignorância permanente eis o que em consciência o poder do meu aliado urano me informa ou seja que inventarei a criação de um novo mundo em mudança e que saturno irá suplicar o seu posto mas que a sua energia e o seu mundano poder já não mais fará parte de mim e eu não o ouvirei tampouco (pois estarei já numa outra dimensão político filosófica) e agora ainda contigo no pensamento bebé arrepio caminho pelas ruas da minha cidade escrevo em andamento e afirmo que em tua honra deixarei crescer a barba por mais 5 dias (ou talvez 10) pois ao observar ao longe dois namorados que se beijam e abraçam perdidamente (penso) que jamais me afastarei de ti philosophia pois assim como o tempo passa eu entro agora pela porta principal do shopping sisudo e de coração apertado triste decepcionado e enraivecido mas um pouco mais acordado pois de seguida irei passar pela fnac sentar5


Apeiron me numa determinada mesa e sozinho fumarei um cigarro (irei chorar, eu sei) mas não te preocupes eu curar-me-ei (e tu também) pois ansioso subo agora as escadas rolantes pois recordo e agora imagino que me vou encontrar contigo (a minha nova diva) contudo tive que fazer um desvio para fumar um cigarro (pois senti que ia começar a chorar minha querida philosophia) e acendo agora o cigarro (já em lágrimas) e grito silenciosamente (puta que pariu a minha vida) desgosto atrás de desgosto chapada atrás de chapada tombo atrás de tombo (mas sempre firme na rocha) pois penso que um dia tudo fará algum sentido (ou não) e prossigo pelo corredor do shopping e sento-me aqui mesmo onde tiveste sentada à minha frente a seduzir-me com as tuas aventuradas lanças divas pois estavas linda fantástica maravilhosa e envolvente (mas nada é por acaso, pois aparece-me agora saturno, disfarçado) que me faz reflectir que alguns locais irei mantêlos na minha mente e outros tentarei lidar com eles internamente pois as catarses surgirão naturalmente e se algum dia me vires novamente verás em mim a mesma luz que sempre vistes aquela energia aquela voz aquele olhar e aquela postura que um dia surgiu para iluminar o teu caminho e que se ressurgir novamente será para que a leves para sempre (não a minha pessoa, mas a luz) que até ao teleológico fim (só para os eleitos) te apoiará até ao infinito onde a terra sobre o meu mundo agora desaba pois já não sobram ideais nem ombros afrodisíacos restam apenas alguns ossos que giram sobre si mesmos que pálidos e paralisados no interior do tempo deambulam pelo espaço interdito e neutro que sugado pelo próprio estômago apoderou-se do meu ânimo totalmente pois já não sou eu mesmo quem por aqui mora mas contudo eis que me contactas através de um sonho (sms) 21:12 estou nostálgica… queria te perto de mim 21:16 e eu estou neste momento com um livro teu na minha mão 21:19 eu quero te muito 21:28 e eu sinto a inspiração a surgir, sabes de onde vem? 21:31 do meu amor, espero… 21:35 então, só podes ser de outro mundo, pois o que sinto é inefável e mágico 21:39 sim, é do outro mundo o que eu sinto por ti (e acordo em frente ao pc) 22:28 minha querida filosofia viverei contigo tudo o que agora escrevo mostrar-te-ei o romantismo da minha nobre cidade e ficarás de tal forma deslumbrante neste ontológico filme que fadas e anjos em uníssono aplaudirão em lágrimas escondidos por entre as luzes do meu electivo jardim (minha musa, até rousseau estremecerá na sua tumba) titulo? nightfall in Guimarães” (e woody allen entrará em aporético estado com as tuas expressões divas)…(na primeira cena) anjos e deuses e ninfas metafísicas o próprio orpheu tocará melodias contemporâneas hillsong united para ti nick cave para mim e leonard cohen para ambos com epicuro presente com pequenos átomos nas mãos 6


Apeiron e essências inimagináveis que nos serão graciosamente oferecidas pelo poder real de um só ser que transcendente à nossa união existe categoricamente onde uma nova ontologia será instintivamente inventada (e heidegger cerrará os dentes na sua floresta negra) e eu delicadamente para ti roubarei a flor mais bela daquele imaculado sagrado chão que alegremente benzida pelo próprio dionísio (meu conselheiro) provocar-te-á uma tão única e eloquente sensação de welfare que no momento em que o teu coração respirar a minha devoção o intemporal elixir dos eleitos nos será verticalmente vertido como néctar e brisa que o nosso entendimento suaviza para que de imediato no subconsciente de toda a humanidade a felicidade se manifeste como um reflexo da nossa boa vontade (reconciliar-me-ei com kant, superá-lo-ei, e a paz dominará o mundo minha querida deusa) e como perante ti ajoelhado estarei com todos os meus defeitos colocados na mão (para por ti serem pelos teus deliciosos beijos purificados) através do meu cérebro novas estrelas surgirão projectadas no céu e num ápice novos conceitos criar-se-ão por si mesmos (veremos que Nietzsche finalmente rejubilará na sua montanha) e eu empenhado em respirar essa tua imensa e ímpar beleza construirei a linguagem e o poder que abre a porta deste nosso novo mundo e o teu sorriso ecoará na imensidão deste meu olhar que em ti repousa impaciente para que os caminhos para o nosso querido leito a priori se revelem férteis em alquímico estado puro (ou quase) pois do meu sangue explodirão transparentes borboletas de ouro camas e colchões rolantes se estenderão pelo macio espaço quântico que interligado pelo nosso aliado destino unirá a força dos nossos mundos que imanentes e paralelos encaixar-se-ão aleatoriamente numa não acidental perfeição e almofadas e lençóis e castelos e vales e rios e montanhas de arco iris em forma de liberdade tocam o teu sorriso e anunciam os teus olhos meus que com novos sistemas translúcidos transbordarão intactos da tua pele onde novos métodos inspirarão revoluções e novos talentos renascerão sobre tintas que jamais vistas autenticamente reflectirão linhas e formas intransponíveis que em verdade surgirão para sempre através do teu impressionante sorriso que sublime fascinante e comovente para lá da tua pura razão coração em mim se revelará através de danças intemporais cantos múltiplos e abraços quentes que em risos afrodisíacos se difundem em amorosas mónadas que irreverentes plantam a raiz de uma árvore por nós projectada enquanto que unidos explodimos de amor e paixão (e leibniz ficará fascinado, com tamanha precisão) e em plena paz nos meus braços deleitar-te-ás para que eu amorosamente os teus mundanos frutos depositados sobre o brilho dos teus cabelos possa colher (e tu philosophia) ao conquistares o assentamento do meu repousar na guerra que o teu 7


Apeiron elegante corpo representa perto do meu suplicarás para que te pinte como quem foge da ancestral e corpórea morte pois serás para sempre a única folha em branco a tela e a tinta do meu sangue espiritual através da fonte que determina a causa dessa tua paixão natural pois estar contigo é pensar a possibilidade daquilo que não sou ainda mas ser contigo é sentir que estou verdadeiramente animado pela vida pois o meu mundo adormecerá sereno e satisfeito nas nuvens do mundo teu pois és a rainha do tempo e eu o teu resiliente porto seguro que guardará o teu segredo no espaço com ternura e afeição (e então) como recordação dessa tua divina e delicada expressão pela noite dentro imprimirei amor no teu corpo e no meu e serenos navios e rápidos aviões e algas magnéticas em turbilhão e perfumes eclécticos com a tua lingerie de chocolate no chão e filmes filosóficos e cristalino óleo de amêndoas pelo teu corpo meu e leituras ao sol e lábios com lábios em deliciosos gelados teus e passeios derretidos e pizzas e coca colas com natas no chão e escorregadios iogurtes de frutos silvestres maduros assim como eu e as tuas mãos por entre as mãos das minhas mãos no elegante corpo teu que se desdobra no meu (eis a sabedoria de um genuíno dia que coabitado pelo mundo teu, só podia ser um sonho meu) e que o silêncio regenere o poder das palavras pois literalmente sentado mentalmente despido de conceitos filosoficamente de juízo suspenso e esteticamente livre… oh minha linda philosophia! Não não… não não e não não mais construirei castelos afectos em vão mas antes propositadamente derrubá-los-ei um a um para o chão para que a toda a hora e a qualquer momento críticos os sentidos se desenvolvam sãos e assim em pura e absoluta razão o nosso amor somente a si próprio se deva na hierarquia da minha nobre razão pois imagina (oh filosofia) livre de qualquer heterodoxia e de secundários princípios girando sobre as suas próprias vísceras apenas em sábia intenção agirá o verdadeiro amor gerando assim no teu peito e no meu o correto implante da pura forma que em intuição purgará o imaculado leito onde para sempre comigo tu repousarás pois já não sei se te tenho se algum dia verdadeiramente tive (ou se ainda te virei a ter) mas que és real és (no espiritual local onde as palavras moram) e por tudo isto minha doce flor que a tua luz sem temor derrube estes erros trágicos e que a tua existência afaste para sempre as sombras da nossa dupla desilusão que neste meu templo sagrado ainda corre para que em verdadeiro ato criador a vida se realize em si mesma próspera pela limpidez das tuas encobertas e ausentes lágrimas que filhas daquele interno e externo duplo conflito ainda integram palavras soltas que acorrentadas pelo destino insólito não escapam mas paralisam e obstruem esta nossa funcional dialéctica que em sangue pelo espaço disperso tenta unir no eterno 8


Apeiron incondicionado os amantes corajosamente apaixonados para que assim as possibilidades embaladas e consoladas pelo vento se transformem em autêntica e rebelde realidade que irreverente afasta o ferido tempo para que em sublime voz eu murmure os meus sóbrios afectos que ainda recordam os traços as cores e os movimentos que o teu ser em si mesmo contém para além dessas tuas substâncias essenciais e dessas imensas e virtuosas características divas que em harmonia silenciosa fruem para o nosso real projecto de eternos idealistas pois eis que são de ouro as coisas reais que dançam nos teus cabelos pois são como brumas que multiplicam nuvens e tecem conceitos que no teu peito enrolados choram comigo no pensamento que inconformado acaricia suavemente a tua própria acorrentada alma desfeita com ferros cor de rosa apunhalados pelo destino que tu própria escolheste sem tempo quando descalça de sentidos aprisionados amanhecias e despertavas comigo no vasto horizonte da tua mente pois o barulho que através do teu ansioso corpo respiras é a imagem que minha tu pintas-te e enterras-te no teto que encoberto pelo espírito do universo reflecte o desejo teu que dolorosamente aguarda que a casa em cima de sentimentos usados caia como valores que gastos se denunciam decompostos e que aos teus pés se ajoelham reincidentes sendo que eu rodeado por loucas sementes à procura do meu cérebro escondido neste filosófico sistema contingente já não deposito verdade alguma porque se na sociedade o que parece é (o que é na minha vida jamais aparece…

Alexandre Costa, 2º ano - Licenciatura em Filosofia, Universidade do Minho 9


Apeiron Falar de Deus

Deus? … sim! Porquê falar de Deus? Falar de Deus é um assunto que mexe com o nosso psíquico e interroga a nossa vivência. Embora esta palavra “Deus” nos tenha soado ao ouvido repetidas vezes, tantas que talvez não as possamos medir, acontece, porém, surpreendermo-nos quando queremos falar de Deus e o nosso raciocínio não se desenvolve, o nosso entendimento paralisa e a nossa mente contempla. Perante esta questão, faço a minha pausa, questiono-me e encontro um paralelo em Stº Agostinho quando numa situação idêntica se interroga: “ Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei”. Falar-se de um Ser cuja existência remonta à cosmogonia dos mundos que para uns é concomitante com esta realidade cósmica que se concretiza no Belo e no Bem, no infinito e no ilimitado. Estamos perante uma evidência à qual todo o ser se rende, ao cosmo em si, à sua harmonia, à sua beleza e à presunção concetual da existência de um criador a quem chamamos Deus. Na génese da criação, Deus criou o homem como um ser destinado à felicidade que habitava o paraíso, um espaço sem dor e sem tempo. Mas Adão, imbuído pela ideia da superação e pelo orgulho, quebrou a harmonia preestabelecida com Deus que dependia da privação do fruto de uma das árvores. Esta debilidade de Adão conduziu-o à saída deste espaço/tempo idílico e à subsequente privação da imortalidade como herança para a humanidade. Neste suceder de ideias reflito como o modo de estar do homem no mundo não prescinde da coexistência das duas realidades: a ontológica e a metafísica. Estas realidades caminham lado a lado como gêmeos verdeiros, acolhendo Deus como sumo Bem e, porque só o bem alimenta a nossa intimidade com Ele, também a nossa distanciação se opera quando somos causas de mal. No decorrer do Antigo testamento Deus, através dos profetas, conduziu o seu povo e a Moisés confiou-lhe a identidade “Eu sou o que Sou”. Ser permanente, incorruptível, sem ontem nem amanhã. O Alfa e o Omega. Confesso que perante tão grande enigma resta-me apenas valer-me da minha experiência de vida para falar das maravilhas que Ele realiza em nós todos os dias. 10


Apeiron Experienciar a aproximação de um idoso solitário, surpreendê-lo com a nossa disponibilidade para ouvir as suas vivências, para expulsar a sua solidão, para lhe diminuir a sua angústia e para lhe redimir a ação, retribuir-lhe afeto, utilidade, alegria e acima de tudo dar-lhe um pouco do mundo do qual se sente excluído. Redescobre-se Deus nos outros e em nós. Concluo dizendo: Deus está insistentemente a bater-nos à porta. Se O ouvirmos talvez descubramos que somos motivo de agradáveis surpresas e que podemos ser surpreendidos pela luz da esperança.

Joaquim Ferreira, 1º ano – Licenciatura em Filosofia, Universidade do Minho 11


Apeiron Pitagorismo: Obscuridade Hermenêutica

Vida e Obra

Pitágoras de Samos foi um filósofo e matemático grego que nasceu em Samos entre cerca de 571 a.C. e 570 a.C. e morreu em Metaponto entre cerca de 497 a.C. ou 496 a.C. A sua biografia está envolta em lendas. Diz-se que o nome significa altar da Pítia ou o que foi anunciado pela Pítia, pois mãe ao consultar a Pítia1 soube que a criança seria um ser excepcional. Pitágoras nada escreveu e é apresentado como um expoente máximo da prática, insaciável e crítica, da investigação característica dos intelectuais jónicos. O seu pensamento teve grande influência no mundo antigo: “De notar é que a própria metafísica de Platão está profundamente imbuída de ideias por nós reconhecidas (apesar de ele o não confessar) como pitagóricas.” (Kirk, 2010: 224) O Fédon, por exemplo, parece recriar uma autêntica mistura pitagórica dos preceitos escatológicos sobre o destino da alma com uma conotação ético-religiosa, e situa-a num âmbito pitagórico de um debate filosófico entre amigos. Segundo Pitágoras, a purificação da alma resultaria do trabalho intelectual, portanto um esforço puramente humano, de descoberta da estrutura numérica das coisas, que tornaria a alma semelhante ao cosmo, em harmonia, proporção e beleza. Foi através de experiências com sons do monocórdio2, que Pitágoras teria chegado à concepção de que todas as coisas são números 3, dando origem ao quarto ramo da matemática: a música. Descobre através dos experimentos com o monocórdio que o som varia de acordo com a extensão da corda sonora, ou seja, que existe uma dependência do som em 1 A pítia ou pitonisa (serpente) era a sacerdotisa do templo de Apolo, em Delfos, Antiga Grécia, situadonas encostas do monte Parnasso.

2 O monocórdio, instrumento possivelmente inventado por Pitágoras, é composto por uma corda estendida entre dois cavaletes fixos sobre uma prancha ou mesa, possuindo um cavalete móvel colocado sob a corda para dividi-la em duas seções.

3 Para os pitagóricos, a matemática, a geometria, a aritmética não eram apenas uma ciência isolada, mas sim a junção da matemática com a ordem do mundo; os princípios matemáticos são o princípio de todas as coisas, que existem- a aritmosofia.

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Apeiron relação à extensão, e portanto, da música (importante como propiciadora de vivências religiosas) em relação à matemática. A relação de consonância dos intervalos de oitava, quarta e quinta e a harmonia, que se tornou base para a especulação científica, teve origem já na antiguidade oriental. Pitágoras poderá ter realizado viagens ao Oriente, percorrendo a Síria, Palestina, Arábia, Pérsia e Egito, onde permaneceu por alguns anos onde estudou Ciências Ocultas e regras de cálculo. Essa influência da cultura oriental, pode ser percebida na doutrina pitagórica defendida por Aristóteles que sustentava que: “Tudo é número e harmonia”. (cf. Sugahara: 2007) Toda essa correspondência entre música e número transformou-se numa cosmologia que afetou decisivamente não só o pensamento grego, como mais tarde, todo o pensamento europeu. Nas tendências contemporâneas que submeteram esta ideia aristotélica de que, para os pitagóricos, “tudo é número”: a conclusão à qual chegaram com essa postura hermenêutica cética de autores clássicos como Frank e Cherniss é a de que toda a matemática pitagórica é, na realidade, resultado de uma transposição académica. Contudo, uma mais recente revisão dessas tendências da crítica, concentrada na reavaliação dos fragmentos de Filolau, sugeriu um novo caminho hermenêutico, que aponta para a recuperação de uma efectiva teoria pitagórica dos números, tal como as fontes pré-socráticas demonstram. Três divergentes versões da doutrina estão, de facto, presentes na doutrina aristotélica (o que leva a querer que Aristóteles não conseguiu, a partir das fontes à qual tinha acesso, uma semântica objectiva mas, pelo contrário, uma grande variabilidade): a) uma identificação dos números com os objectos sensíveis; b) uma identificação dos princípios dos números com os princípios das coisas que são; c) uma imitação dos números pelos objectos reais. (Cf. Cornelli, 2011: 279). Enquanto que as versões a) e c) revelaram claro intento polémico do Estagirita contra a militância da causa formal, a versão b), dos números como causas formais da realidade, comprova ser uma reconstrução aristotélica da tese pitagórica. O resumo aristotélico da teoria dos números revela-se, ao mesmo tempo, estar em dependência e em polémica com o platonismo. Diante destas dificuldades, Zhmud, aprofundando uma clássica posição de Burnet (Cf. Cornelli, 2011:280) irá contestar o testemunho da Aristóteles, negando inclusivamente que o protopitagorismo corresponda a uma doutrina do número não havendo nas fontes pré-socráticas tal referência. Deste ponto de vista, Aristóteles parece

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Apeiron ter criado um denominador doutrinário comum (“tudo é número”) para uma escola filosófica pouca coesa em termos doutrinários.4 Uma semelhança clara que surge neste ponto torna-se clara: para conseguir interpretar o platonismo, precisaríamos de conseguir clarificar estas e outras problemáticas presentes no pitagorismo. Aristóteles, contudo, distingue estas duas ‘escolas’ em duas questões centrais, ambas pronunciadas na famosa página da Metafísica (987b). A primeira dissemelhança está no lugar ontológico conferido aos números: fora dos sensíveis para Platão, enquanto os pitagóricos sustentavam que os números fossem “as próprias coisas”. Uma segunda diferença entre Platão e pitagóricos está na maneira como é concebido o Uno (um): o facto de Platão ter posto no lugar do um ilimitado pitagórico uma díade, como também de ter concebido o ilimitado como derivado do grande e do pequeno, resulta numa doutrina “mal argumentada”, apesar de Aristóteles estar sozinho neste ponto, pois toda a tradição doxográfica sublinha, pelo contrário, que os pitagóricos também postulavam um Uno e Díade indefinida como princípios da realidade. Notamos, mais uma vez, a dificuldade em perceber o papel ‘numérico’ em todas as fases do pitagorismo. Mas uma intuição que parece emanar-se da historiografia pitagórica poderá ser a seguinte: o número é visto pelo protopitagorismo como místico, e a evolução doutrinária irá transformar o misticismo numa epistemologia fundamentada que irá influenciar todo o platonismo.

O duplo ensinamento

A acusmata - “Bios Pythagóreios” - teve um papel igualmente importante no sistema pitagórico. Eram máximas e preceitos, transmitidas verbalmente, acusmata (“coisas ouvidas”), com o objectivo de alcançar o reconhecimento da sua nova condição por parte dos seus companheiros e dos deuses, deste mundo e do próximo 5. Este catecismo doutrinal e prático teria várias regras de abstinência: a abstenção de favas 4 Huffman, retomando uma intuição de Burket, irá retomar um trabalho de busca de possíveis referências históricas para reconstrução aristotélica, pois Aristóteles parece demonstrar que tem acesso a literatura pitagórica (o livro de Filolau); contudo, mesmo essa solução filolaica apresenta dificuldades: não há em Filolau nenhuma referência explícita a essa doutrina do “tudo é número”. 5 Não me parece portanto errado de todo admitir que o “Bios Pythagóreios” teria funções, para além das práticas no microcosmos, na evolução da alma no macrocosmos, sendo de extrema importância segui-lo rigorosamente, de modo a ter uma vida prazenteira no além.

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Apeiron tanto por elas se assemelharem às partes pudendas, como por se parecerem com os portões do Hades, como por serem semelhantes à natureza do universo, ou por serem oligárquicas (pois é por meio delas que os governantes seriam tirados à sorte). Também não poderiam apanhar aquilo que tombava das mesas – para os habituar a comer com moderação, ou porque isso indicava a morte de alguém. Não deveriam tocar em qualquer peixe que fosse sagrado, por não ser justo que os mesmos alimentos fossem servidos aos deuses e aos homens - entre muitas outras regras, tão estranhas como exaustivas. (Cf. Kirk, 2010: 240) A vida em comunidade conjunta – comunismo – é portanto nitidamente essencial para perceber-se tanto a ligação Bios Pythagóreios com a doutrina da reencarnação como com a concepção ‘numérica’ do universo. A linha que irá, tradicionalmente (investigada por Burnet) distinguir, de um lado, o interesse por parte de alguns tabus tradicionais de uma religiosidade arcaica (os akoúsmata e sýmbola) e, do outro, a dedicação à pesquisa de princípios científicos, notadamente a matemática. Distinção essa já presenta nas fontes relacionadas ao duplo ensinamento em Porfírio e à distinção entre os Pitagoreus e os Pitagoristas (estes últimos imitadores dos primeiros, e que corresponderiam aos acusmáticos) em Jâmblico. Embora haja um gap entre os dois grupos, essa mesma distinção, nas intenções de Burnet, uma separação definitiva entre os dois lados no interior do mesmo protopitagorismo. Pelo contrário, identifica em dois lugares pontos de contacto: a) na complexa figura do próprio Pitágoras, que estaria na origem de ambas as didaskalíai; b) no conceito de kathársis, de purificação, que conecta o aspecto religioso e aquele científico, uma vez que a ciência torna-se também ela própria, um instrumento de purificação. Mas existem vários autores que refutam esta ideia. Podemos perceber que entre circularidades hermenêuticas e pânicos historiográficos, a breve história da crítica moderna sobre o pitagorismo resultou numa narravita onde cada facto e cada testemunha foram colocados em discussão, gerando controvérsias e recíprocas refutações. Como Cornelli explica: “Desde o historicismo evolucionista de Zeller, que influencia directamente a colecção de Diels, passado pela abordagem apriorística de Burnet, que identifica o arcaico com o elemento religioso do pitagorismo, e o mais recente com aquele científico, a ponte que pretende separar os dois pitagorismos tornou-se o problema central da história da crítica do espinhoso problema da complexidade multifacetada do pitagorismo” (Cornelli, 2011: 91)

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Apeiron A grande dificuldade de alcançar o maior rigor hermenêutico passa pela tentativa de compreender as fontes primárias do pitagorismo, as fontes aristotélicas e todas as restantes fontes secundárias pré-socráticas e do neopitagorismo. Teremos, portanto, um conjunto de factores que dificultou uma interpretação objectiva dos estudiosos, resultando numa imagem poliédrica e bastante contraditória do pitagorismo, necessitando o aparecimento de uma metodologia com a pretensão de alcançar uma única compreensão.6

Xamanismo: influências em Pitágoras

Um xamã pode ser descrito como uma pessoa psiquicamente instável, que obedeceu a um chamamento para a vida religiosa. A sua alma abandonava o seu corpo e viajava para regiões distintas, muito frequentemente para o mundo do espírito. Efectivamente, um xamã pode ser visto simultaneamente em locais diferentes, pois tem o poder da ubiquidade. Ora, na Cítia 7, e provavelmente na Trácia8, os Gregos teriam entrado em contacto com povos que eram influenciados pela sua cultura xamânica. (cf. Dodds, 1988: 155 ) Uma das conclusões essenciais de Dodds é admitir que a abertura do Mar Negro ao comércio e à colonização grega no séc.VII, ajudou neste contacto de influência entre povos, enriquecendo novos traços religiosos do quadro tradicional grego. Uma importante ligação neste tema é, sem dúvida, Pitágoras-Zalmóxis. Heródoto conta a história que o trácio reuniu “os seus melhores homens” e lhes anunciou, não que a alma humana era imortal, mas que eles e os seus descendentes iam viver eternamente – aparentemente eram pessoas escolhidas, uma espécie de elite espiritual. Zalmóxis foi feito, historicamente, escravo de Pitágoras. Daí perceber-se uma possível influência entre doutrinas. Mas esta ideia carece de solidez: o próprio Zalmóxis era uma divindade, possivelmente um xamã feito herói num passado distante. Mas tal 6 Uma excelente proposta metodológica é utilizada por Gabriele Cornelli na sua obra “O Pitagorismo como Categoria Historiográfica”, bastante rigorosa e elucidativa dos problemas centrais do pitagorismo. 7 A Cítia foi uma região na Eurásia habitada na antiguidade por um grupo de povos iranianos falantes de línguas iranianas conhecidos como citas. 8 A Trácia foi um grande corredor natural para os povos Indo-Europeus que passavam em direção à Grécia (Aqueus,Jônios, Eólios e Dórios) ou à Anatólia (Hititas, Frígios, Celtas). Foi povoada pelos Trácios, que deram o nome ao país.

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Apeiron interligação deve-se ao próprio Pitágoras ter prometido aos seus seguidores que viveriam outra vez e até se tornariam divindades se seguissem todos os seus preceitos e regras. (cf. Dodds, 1988: 158-161) Para Dodds, a linha de descendência espiritual xamânica começa na Cítia, atravessa o Helesponto até a Grécia Asiática, talvez se combine com alguns restos da tradição minoica que sobrevive em Creta e emigra para o extremo Ocidental com Pitágoras. Para os pitagóricos, o corpo é visto como uma prisão, onde a alma é castigada pelos seus pecados passados. Evitavam a carne, praticavam a catarse – os meios pelos quais o eu oculto poderia ser promovido e apressar a sua libertação. Tal concepção percebe-se nos ensinamentos da escola pitagórica sobre a reminiscência: no sentido mais primitivo, de treinar a memória para recordar os feitos e os sofrimentos de uma anterior vida na Terra. Este conceito promoveu um horror pelo corpo e uma repulsa pela vida dos sentidos inteiramente novos na Grécia. Estas crenças foram interpretadas num sentido moral pelas mentes dos Gregos; e quando isto aconteceu, o mundo da experiência apareceu inevitavelmente como um lugar de escuridão e penitência. “O prazer”, diz o antigo catecismo pitagórico, “é mau em quaisquer circunstâncias; porque nós vivemos aqui para seremos punidos e devemos ser punidos”. (cf. Dodds, 1988: 168) Esta afirmação é intuitivamente oriental: o budismo, que florescia no nordeste do subcontinente indiano, teria semelhante ideia em relação ao prazer como explicação para o sofrimento, e que a libertação só poderia ser obtida através de práticas rigorosas. O vegetarianismo, que é o traço central das askesis pitagóricas, é usualmente tratado como um corolário para a transmigração: o animal que se mata pode ser a morada de um eu ou de um alma humana, tal como o horror em derramar sangue. Um poeta pitagórico perguntava-se “de onde veio a humanidade e como se tornou tão má?”, onde surge uma resposta para explicar a maldade humana: tudo começou com os Titãs malvados, que apanharam Dionísio em criança, cortaram-no em bocados, cozeram-no, assaram-no, e comeram-no, até que foram queimados por um raio de Zeus; do fumo dos seus restos brotou a raça humana, que herdou, assim, as terríveis tendências dos Titãs, temperados com uma pequena porção de matéria divina, a alma, que é a substância do deus Dionísio – esta resposta é provavelmente Órfica. (cf. Dodds, 1988: 170) Curiosamente, as Upanishads indianas, de forma semelhante, tentaram combinar a antiga crença na poluição hereditária com a doutrina mais recente da reencarnação. 17


Apeiron Isócrates, contemporâneo de Platão, também denuncia alguma possível influência egípcia em Pitagóras, ao oferecer o seguinte relato:

Não sou o único nem o primeiro homem a ter observado [a natureza pia dos egípcios]:muitos, assim no presente como no passado, fizeram isso, incluindo Pitágoras de Samos, que foi para o

Egipto e estudou com os egípcios. Foi ele o primeiro a trazer a

filosofia para a Grécia e o seu

interesse

concentrava-se

(…)

em

questões

relacionadas com sacríficios e purificações rituais. (apud Barnes, 1997: 99)

Este xamanismo de Pitágoras tem paralelos claros com o seu carácter divino: conta-se que foi visto no mesmo dia à mesma hora – o dom da ubiquidade; ou que o rio Cosas o saudou e que muita gente teria ouvido essa saudação; ou que se pôs em pé num teatro e se viu que uma das suas coxas era de oiro; ou ainda de ter previsto um próximo conflito político. Concluímos portanto que Pitágoras foi um indivíduo particular, com várias lendas em torno do seu nome. O seu carácter xamanístico e taumaturgo têm a máxima importância para entender tanto a sua comunidade como as suas doutrinas.

Metempsicose

A teoria da metempsicose9, ou da transmigração da alma, é implicitamente atribuída a Pitágoras por Xenófanes. Heródoto também faz menção a ela: foram os egípcios os primeiros a enunciar a ideia de que a alma é imortal e que, quando o corpo morre, ela se instala noutro animal que naquele momento esteja vinda à luz; e depois de já haver percorrido todas as criaturas da terra, do mar e do ar, torna a entrar no corpo de um homem que naquele momento esteja a nascer; e nesse ciclo gasta a alma três mil anos. Para muitos gregos esta concepção é original de Pitágoras. (cf. Barnes, 1997: 101102)

9 O protopitagorismo parece adoptar esta teoria primeiramente no Ocidente; mas existe uma ligação inegável com o Orfismo, mais antigo; não abordarei esta ligação por falta de tempo, mas deverá ser tomado em conta.

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Apeiron Heraclides do Ponto relata que Pitágoras contava de si mesmo o seguinte episódio: veio outrora ao mundo como Atalides e foi considerado o filho de Hermes 10. Este convidou-o a escolher tudo aquilo que desejasse, expceto a imortalidade; assim, pediu ele que, vivo ou morto, pudesse recordar-se de tudo o que lhe aconteceu. Assim, quando, em vida recordava-se de tudo e quando morria guardava a mesma memória. Algum tempo mais tarde veio a ser Euforbo e foi ferido por Menelau. Euforbo 11 costumava contar que no passado foi Atalides e que adquirira de Hermes o dom da recordação, além de aprender sobre a circulação da sua alma – como ela havia circulado, por quais plantas e animais havia passado, o que sua alma sofrera no Hades, que, por sua vez, quis dar uma prova, de modo que foi para Brânquidas 12, entrou no templo de Apolo e apontou para o escudo dedicado a Menelau (dizia que Menelau havia dedicado o escudo a Apolo em seu regresso marítimo de Tróia); o escudo, por aquela ocasião, já estava deteriorado e tudo o que restava era o ornamento em marfim. Quando Hermotimo morreu, tornou-se Pirro, o pescador délio; e novamente lembrou-se de tudo – que primeiro fora Atalides, depois Euforbo, depois Hermotimo e então Pirro. Quando Pirro morreu tornou-se Pitágoras e recordava-se de tudo o que acabo de relatar. (cf. Barnes, 1997: 162) Na continuação da história, Pitágoras costumava então dizer que recordava ter sido, nos tempos troianos, Euforbo, filho de Panto, que foi morto por Menelau. Dizem que certa ocasião em que se encontrava em Argos 13 avistou um escudo dos espólios de Tróia preso à parede e se desfez em lágrimas. Quando os argivos indagaram-lhe o motivo de tal emoção, respondeu que aquele escudo fora utilizado por ele próprio em Tróia quando era Euforbo. Os argivos não lhe deram crédito, julgando que tivesse perdido de razão, mas Pitágoras afirmou que providenciaria um autêntico sinal que comprovasse as suas palavras: na parte interior do escudo, estava inscrito, em letras 10 Hermes era, na mitologia grega, um dos deuses olímpicos, filho de Zeus e de Maia, e possuidor de vários atributos.

11 Na mitologia grega, Euforbo filho de Pântoo, participou da Guerra de Tróia, combatendo pelo lado troiano. Foi ele quem deu o primeiro golpe em Pátroclo, que foi, em seguida, morto por Heitor.

12 Mais conhecida por Dídimos, foi um antigo santuário da Jônia, hoje a moderna Didim na Turquia. O santuário continha um templo e o mais importante oráculo de Apolo depois do de Delfos, e estava na dependência da cidade de Mileto. 13 Argos é uma cidade da Grécia, na península do Peloponeso. De acordo com Heródoto foi a primeira grande cidade grega a se destacar no comércio com o Mediterrâneo Oriental, particularmente com a Fenícia.

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Apeiron arcaicas, o nome Euforbo. Dada a natureza extraordinária da sua afirmação, insistiram eles em que o escudo fosse removido – e resultou que na parte interior de facto encontrava-se a tal inscrição. (cf. Barnes, 1997: 103)

i)

Esperanças no além

O texto mais antigo e exaustivo é oriundo de Hipónion14 e sabe-se com precisão que data de cerca de 400 a.C. O princípio do texto é de difícil compreensão devido ao seu estado de deterioração, mas podemos retirar alguma informação: “Na casa de Hades encontrarás uma fonte à direita, ao lado da qual se ergue um cipreste branco. É aí que as almas que descem se refrescam. Não te aproximes desta fonte! Mais adiante encontrarás água fria vinda do lago das recordações. Os guardiões aí presentes perguntar-te-ão, sensibilizados, a razão por que atravessas a escuridão do corrupto Hades. Respondelhes: “Eu sou um filho da terra e do céu estrelado, mas estou a morrer de sede, por isso dêem-me depressa um pouco de água fresca que jorra da fonte das recordações”. E então súbditos do Rei Ctónico terão compaixão e dar-te-ão a beber água do lago das recordações… E na verdade percorrerás um longo caminho sagrado que é trilhado também gloriosamente por outros mýstai e bácchoi”. Esta última declaração só está na folha proveniente de Hipónion, enquanto a parte principal, a cena com os guardiões do lago, é comprovada por vários outros exemplares com algumas diferenças. Píndaro trilha o “O Caminho de Zeus”. A função da iniciação é fornecer saber e certeza sobre este caminho. “Bem-aventurados são todos em virtude de terem sido libertados de fadigas pela iniciação”, encontra-se novamente em Píndaro numa canção fúnebre que descreve o destino dos devotos. O cenário do mundo subterrâneo é retratado nestes textos de modo simultaneamente impressivo e enigmático: o cipreste branco junto da fonte perigosa, a pergunta dos guardiões da água fresca, a palavra-passe com a qual o “que sabe” 14 Moderna Vibo Valentia, no sul da Itália.

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Apeiron reivindica um estatuto cósmico: “filho do céu e da terra”. Os guardiões junto da fonte, a pergunta e a resposta têm paralelos evidentes no Livro dos Mortos egípcios. À recordação tem de corresponder um esquecimento. No mito de Er contado por Platão aparece a planície de Lethe, onde as almas bebem água do rio Ameles, sendo um paralelo óbvio na concepção do além e na importância da memória. “Recordação” e “memória” são valores supremos entre os pitagóricos. Heródoto relata que os egípcios não sepultam os seus mortos envoltos em roupas de lã, mas sim de linho, e acrescenta: “Tal corresponde aos chamados Orfiká e Bacchiká, que, na verdade, são egípcios e pitagóricos.” (cf. Burket, 1993:558-560) Numa compilação órfica do período helenístico recente, conhecida por Rapsódias, a antropogonia estava articulada à doutrina da transmigração das almas, a metempsicose – uma doutrina especulativa particular da Índia e que era um corpo claramente estranho dentro do sistema da religião grega. Ela apareceu por volta do século V a.C., em várias obras de Píndaro, Empédocles e Heródoto e, mais tarde, nos mitos de Platão. Um dos textos mais expressivos é a segunda Ode Olímpica de Píndaro dedicada a Téron de Acraga em 476 a.C. Segundo Píndaro, há três “caminhos” no além, três possibilidades: quem levou uma vida piedosa e justa encontra no mundo subterrâneo uma existência prazenteira, livre de todos os cuidados, num local onde o sol brilha durante a noite; pelo contrário, os malfeitores sofrerão coisas terríveis. Depois, a alma regressa ao mundo da superfície onde o seu destino é determinado pelas suas acções anteriores – algo semelhante à concepção kármica da vida que estava a brotar na Índia antiga. Quem suportasse isto três vezes, entrava na Ilha dos Bem-Aventurados para sempre. (cf. Burket, 1993: 568) Segundo Aristóteles, nos chamados “mitos pitagóricos”, qualquer alma podia entrar em qualquer corpo. Num poema de desdém, Xenófanes, atribui a Pitágoras a crença de que num cão açoitado podia estar a alma de um homem. Com Pitágoras aparece finalmente uma personalidade histórica. Os seus seguidores, Pythagóreioi, desempenharam um papel de relevo até ao século IV, especialmente em Tarento. Os testemunhos pré-platónicos revelam uma curiosa fusão de simbologia numérica e saber aritmético com doutrinas sobre a imortalidade e a vida no além e com regras de uma vida ascética. Uma lenda antiga e peculiar apresenta Pitágoras como hierofante15 de um culto em honra de Méter, com características 15 Hierofante é o termo usado para designar os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito.

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Apeiron orientais que fundamentava a sua doutrina da imortalidade através de uma “descida ao mundo subterrâneo”. De resto, é perfeitamente possível que um jónio do Século VI tivesse assimilado elementos da matemática babilónica, da religião iraniana e mesmo a doutrina indiana da metempsicose. O mais importante é a transformação do conceito de alma, psyché, que tem lugar nestes círculos. A doutrina de transmigração pressupõe que nos seres vivos, tanto nos homens como nos animais, exista algo individual e constante, um Eu que preserva a sua identidade por força da sua própria essência, independentemente do corpo que perece. Deste modo, é criado um novo conceito genérico de “ser vivo”, émpsychon: “dentro está uma psyché”. Esta psyché não é obviamente a imagem impotente e inconsciente da recordação no Hades bolorento, como na Nekyia homérica. Ela não é afectada pela morte: a alma é athánatos, “imortal”. O facto de este epíteto, que desde “Homero” caracterizava os deuses, passar a distinguir a pessoa humana, é realmente uma revolução. (cf. Burket, 1993: 569-571) Deste modo, com a ideia da alma imortal, a “descoberta do indivíduo” atingiu um objectivo que só se cumpre na filosofia: o socrático “zelo pela alma” e a sua forma clássica, que lhe foi conferida pela metafísica platónica, viriam a tornar-se predominantes ao longo de centenas de anos, com a produção de éticas e formas de vida a expandir-se de forma notável. Pitágoras revelou-se um apoio importante do pensamento ocidental, e um dos principais pilares nos restantes séculos pós-Pitágoras. O caminho para uma interpretação honesta e sincera do pitagorismo (desde o pitagorismo, as várias fases e culminando no neopitagorismo) merece ser construído cada vez melhor, de forma a tornar mais justa e concreta as doutrinas e conceitos pitagóricos que tanto influenciaram a restante história da Filosofia.

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Apeiron Steven Gouveia, 1º ano – Licenciatura em Filosofia, Universidade do Minho Bibliografia:

BARNES, Jonathan (1997), Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo: Martins Fontes.

BURKERT, Walter (1993), Religião Grega Na Época Clássica e Arcaica, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. CORNELLI, Gabriele (2011), O Pitagorismo Como Categoria Historiográfica, São Paulo: Anablume Clássica. DODDS, Eric Robertson (1988), Os Gregos e o Irracional, Lisboa: Gradiva.

KIRK, Geoffrey, et al. (2010), Os Filósofos Pré-Socráticos, 7.ª ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Jaeger, Werner (1995), Paidéia : a formação do homem grego, 3.ª ed., São Paulo: Martins Fontes. SUGAHARA,

Leila

(2007),

“Música,

Matemática

e

Mitologia

Grega”

in

http://www.rededuc.com/page_34.html (consultado a 20 de Janeiro de 2013).

WEST, Martin Litchfield (1997), The East Face of Helicon – West Asiatic Elements in Greek Poetry and Myth, New York: Oxford University Press

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Apeiron «Aprender? Certamente mas, primeiro, viver e aprender pela vida, na vida». John Dewey Educar ou aprender? O quê e para quê? No diálogo Alcibíades Primeiro16, ao debruçar-se sobre os problemas da justiça, Platão conclui que, na vida prática, os erros resultam, na maioria das vezes, devido à ignorância consubstanciada na presunção de “saber o que não se sabe” (ALCIBÍADES PRIMEIRO, 2007: 117d). Essa é, aliás, para Platão, a pior de todas as ignorâncias. É neste contexto que Sócrates acusa Alcibíades de ter ingressado na política antes de se instruir, afirmando que “é necessário aprender com quem pode e sabe ensinar, pois para transmitir conhecimentos é preciso antes possuí-los” (IDEM: 118c). Neste texto elaborado há mais de vinte e quatro séculos, estamos em crer que o horizonte da época de Platão pode ser confrontado com o horizonte de expetativas da sociedade hodierna e, se “a arte de governar e arte de educar são duas das mais difíceis invenções dos homens” (KANT, 2012: 15), o problema da Educação continua a ter sobeja importância e, consequentemente, o seu questionamento e análise, parecem-nos fazer cada vez mais sentido. A Educação é um tema mobilizador e abrangente, pois, de certa maneira, o Homem vive em permanente estado de aprendizagem. A Educação interage diretamente com a vida, de tal modo, que é hoje assumida como um direito adquirido de todos (cf. CRP, Art.º 74, 1). Contudo, parece-nos importante questionar de que Educação falamos? Para que serve? E deveremos falar em educar ou em aprender? Se falarmos em aprender, o que é que, então, devemos aprender e para quê? Será, assim, principal propósito deste texto dar resposta a estas questões e para a discussão desta contenda entre educar ou aprender partiremos da análise no Alcibíades Primeiro da perspetiva da formação social e política do cidadão. Sócrates deixa claro naquele diálogo, que tudo se confina à natureza humana, isto é, à alma e é a partir do

16 O diálogo Alcibíades Primeiro insere-se nos primeiros escritos de Platão e foi elaborado entre os anos 340 e 330 a.C. In Goldsmitdt, V., Os diálogos de Platão: Estrutura e Método Dialético, p. 302.

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Apeiron «Não podemos ensinar nada a um homem; Podemos apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo». Galileu Galilei

conhecer-se a si mesmo17, que se poderá alcançar o objetivo maior da vida: a felicidade do ser humano. Na prossecução desta tese Socrática, defendemos que a Educação deverá ter como finalidade, promover mudanças desejáveis e relativamente permanentes nos indivíduos, pois é através da Educação que a Humanidade é transmitida e transformada. Neste contexto, a Escola deveria construir-se como um espaço de participação, de partilha e de negociação de sentidos que impliquem transformações na vida pessoal de cada um dos que a frequentam. O papel da Escola, no mundo da Educação, será, então, o de se interrogar criticamente sobre os modos de aprender e de pensar, em que ambos os verbos tenham, necessariamente, de ser conjugados conjuntamente, se queremos dar um sentido à vida – afinal aquele já defendido, anteriormente, por Sócrates: o da Felicidade Humana. Para começarmos a contender as questões anteriormente colocadas temos, necessariamente, que contextualizar a opinião social e política de Sócrates, recorrendo, de novo, ao Alcibíades Primeiro a fim de observarmos como a Educação era, naquele tempo, discutida frente aos valores da sociedade de Atenas. Desde já, há que perceber que o preceito conhece-te a ti mesmo aplica-se, em simultâneo, ao aperfeiçoamento do homem livre e da polis. Para Sócrates, só através da Educação poderia Alcibíades aprender sobre a arte de bem aconselhar, própria do governante, pois, só a Educação permite formar os melhores e os capazes de governar. Trata-se de “aprender o que é melhor para administrar e preservar a polis” (ALCIBÍADES PRIMEIRO, 2007: 126a), isto é, “a amizade e a concórdia como condições indispensáveis para a prática da justiça e da sabedoria” (IDEM: 127d). Para adquirir estas virtudes é fundamental compreender o verdadeiro sentido da expressão délfica – Conhece-te a ti mesmo. 17 gr. gnôthi sautón: "Conhece-te a ti mesmo". Fórmula atribuída pela primeira vez por Antístenes a Tales (DL., I, 40). Sócrates viu-a inscrita no frontispício do templo de Apolo em Delfos (Xenofonte, Mem., IV, II, 24). In Platão e sua tradição.

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Apeiron Infelizmente, o que observamos na realidade educacional e social contemporânea é que a Educação não parece favorecer o desenvolvimento deste verdadeiro potencial da individualidade – o Eu. Como refere Kant “o Homem só se pode tornar Homem através da Educação, nada mais é do que aquilo em que a Educação o torna, não alcançando, assim, a finalidade da sua existência” (KANT, 2012: 12). Tal como outros setores da sociedade, a Educação tem vindo a sofrer influências cada vez maiores de fatores socioeconómicos e políticos, e é devido a esta conjuntura desequilibrada que decresce o seu papel em relação ao desenvolvimento, enquanto compromisso social. Esta realidade tem provocado em muitas pessoas e grupos, sentimentos e sensações, ao mesmo tempo de insegurança e medo, potenciadores de apatia e conformismo. Alguns estudos sociológicos têm vindo a analisar este problema procurando interpretar os conceitos de crise e de incerteza para a explicação dos quotidianos da vida atual. Fala-se, inclusive, de crises pessoais e existenciais e de crises coletivas decorrentes do progresso e da crise do tão propalado projeto de modernidade18. Neste quadro, pensamos ser de considerar, também, a existência de uma crise da governação da sociedade em geral e, particularmente, da Escola (Ensino/Educação), as quais nos parecem estar, naturalmente, associadas à crise da modernidade. A crise da governação da Escola pública parece, pois, apoiar-se numa crise mais vasta, caracterizada por contradições estruturais, conflitos sociais e de crises pessoais. Relativamente à atual crise da Escola, ela parece-nos resultar, fundamentalmente, de um desajustamento entre o modelo organizacional e pedagógico da Escola e as características da vida social coetâneas. Logo, e na medida em que a Escola continua essencialmente burocrática, o processo de democratização está dificultado, observando-se uma erupção de conflitos e de injustiças no universo escolar e de uma complexificação dos processos de direção e gestão democrática da Escola pública, a qual parece-nos estar a passar por um processo de obsessão avaliativa ou avaliocracia19.

18 A modernidade costuma ser entendida como um ideário ou visão de mundo que está relacionada com o projeto de mundo moderno, empreendido em diversos momentos ao longo da Idade Moderna e consolidado com a Revolução Industrial. Está normalmente relacionada com o desenvolvimento do Capitalismo. In Wikipédia.

19 Afonso, A. Janela, In A Gazeta do Povo, p. 23. 26


Apeiron A presença deste Estado Avaliador “em que a felicidade dos Estados cresce em simultâneo com a miséria dos homens” (IDEM: 20), expressa-se essencialmente por um «É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer». Aristóteles clima de competitividade que se sente atualmente nas escolas face, por exemplo, às pressões sociais existentes que espelham a acentuada preocupação pelos resultados escolares numa articulação direta com as perspetivas do que tem vindo a ser designado por mercado educacional. Assistimos, assim, hoje, a um tipo de Educação que se expressa num espírito empresarial, empenhado em maximizar a rentabilidade do investimento em Educação, perdendo de vista a dimensão própria da Educação num ethos democrático20. Ela deixou, portanto, de ser um direito, para tornar-se uma espécie de mercadoria. Nesta perspetiva parece-nos indispensável que se alterem as atuais práticas educacionais e se comece a investir num outro modelo de Educação com mais qualidade. Para tal, deveremos começar por refletir sobre afinal que tipo de Educação estamos a praticar. Hoje parecemos mais preocupados com a quantidade da Educação do que com a sua qualidade, numa procura desenfreada por uma certa universalização da Educação. O pensamento que leva a isso, no entanto, é bastante utilitarista. De acordo com a teoria mercantilista da Educação que referimos anteriormente, trata-se de uma perspetiva de capital humano — melhorando a Educação, melhora-se a qualidade de vida das pessoas. A Educação tornou-se, assim, um passaporte para a ascensão social. Ora, isso significa que a Educação transformou-se num simples degrau social, em que, quem se educa é mais capaz de servir o mercado, o capital. Educar-se, neste sentido, não é mais do que adestrar-se dentro da sociedade e para a sociedade. Assim, a Educação serve para se formarem massas para defenderem os interesses do Estado e para a manutenção da sua ordem. Esta é a visão quantitativa do progresso. Criaram-se, assim, Escolas vazias de vida, que apenas contribuem para a manutenção dos mecanismos de poder e do controle sobre a própria vida, as nossas vidas.

20 O termo indica, de maneira geral, os traços característicos de um grupo, do ponto de vista social e cultural, que o diferencia de outros. Entenda-se, então, como um valor de identidade social. In Wikipédia.

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Apeiron Parece-nos, portanto, irremediavelmente perdido o sentido de verdade que Sócrates perspetivava na Educação. A verdade aprendida hoje nas escolas é de que aos bons alunos, (aqueles de quem se diz obterem sucesso escolar de excelência) será garantido atingirem (igualmente) o sucesso de um bom desempenho na vida (entenda-se este como obter um grau académico). Estes tempos de avaliocracia que vivemos (e a que já anteriormente fizemos menção), acumulativa de conteúdos curriculares que não conseguem estabelecer nenhuma conexão com a vida nem entre eles mesmos, fragmentada em saberes estanques, acaba, na nossa perspetiva, por destruir a verdadeira inteligência humana. A criatividade vê-se reprimida pela repetição dos automatismos e a individualidade é amordaçada em nome da média, ou talvez devessemos dizer antes mediania. Para recuperarmos um novo sentido de Educação deveremos forçosamente recuar ao pensamento Socrático e focar os nossos esforços, de novo, na natureza humana, isto é, exigindo que cada um comece por se conhecer a si mesmo, através de educar-se a si mesmo com uma procura constante do conhecimento do mundo, da verdade. Pois tal como já o era para Sócrates, acreditamos que só partindo do conhecerse poderemos chegar a uma vida equilibrada e harmoniosa e, por consequência, mais autêntica e feliz. Para tal, é fundamental promovermos uma Educação mais libertadora que possibilite ao Homem não perder o contato consigo mesmo, não perder o seu contorno próprio evitando, assim, cair na vulgarização de ser um bom cidadão, mais um. A vida é única e viver ganha sentido no encontro consigo mesmo, com o seu ser individual e particular. Esta chamada para a vida, numa perspetiva nietzschiana – “Como a tua vida, que é individual, adquire o mais alto valor, o mais profundo significado?” (NIETZSCHE, 1987: 33) – só pode acontecer através do desenvolvimento de cada um a partir de si próprio, escutando-se a si mesmo, como construção contínua e permanente que se constitui no diálogo com a própria vida. Este diálogo com a vida, que é o próprio viver, não é mais do que o longo e, por vezes, doloroso processo de educar-se a si mesmo a que Sócrates apelava. Abrimos aqui um pequeno parênteses para realçar de que não se entenda que este educar-se a si mesmo seja um caminhar sozinho. Já o próprio Nietzsche “sonhava em encontrar um verdadeiro filósofo, capaz de elevá-lo acima da deficiência do tempo presente, alguém que o ensinasse a ser simples e honesto no pensamento e na vida” 28


Apeiron (IDEM: 42). Contudo, os mestres não nos poderão ensinar o caminho. Somente despertá-lo para que possamos encontrá-lo nós mesmos. Tal como questionava Kant, não poderá ser esta “a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado (…) na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a guia de outrem?” (KANT, 2008: 9). Educar-se a si mesmo não é, pois, prescindir de mestres, dos educadores (entendam-se estes como aqueles que se preocupam para que cada um possa aprender a ser). Os conhecimentos que escutamos dos mestres não são nada em si mesmos, nenhum valor está contido ali, a não ser a capacidade de gerar em cada um que escuta, um caminho a seguir com o seu próprio pensamento. Seguir o mestre é, portanto, ir além dele, é superá-lo. Não no sentido de progresso, mas sim no sentido de diferença. Essa diferença conquista-se não se deixando ser adestrado ou apenas instruído. Tal como Nietzsche se opunha à domesticação das idéias, ao adestramento seletivo e à formação de si (cf. NIETZSCHE, 1987). Qualquer adestramento que venha de forças externas constitui-se num padrão de poder sobre o ser adestrado. Somente a desconstrução dos modelos educacionais que valorizam os conhecimentos automatizados, substituídos por uma Educação questionadora em si, poderá criar um novo modelo libertador de Educação. É necessário que tenhamos estratégias ativas para uma mudança de valores que possam fazer-nos caminhar no sentido de uma outra sociedade. Uma Educação que valorize a conquista da autonomia do aluno e que se liberte dos números quantitativos para dar lugar à qualidade, à verdade. Qualidade essa que só pode ser pensada de forma integradora, através da relação permanente entre o Homem e a Vida e de um único modo: aprendendo. Mas aprender o quê? Como? Onde? Desde os primeiros anos das nossas vidas que temos de estar prontos para aprender. Desde que nascemos vamos aprendendo a viver numa cultura que as gerações anteriores criaram. Essa transmissão cultural é a presença do humano no humano – a Educação num sentido mais amplo, pela qual homens e mulheres se fazem humanos e educadores na vida. Não sobreviveremos se nos desviarmos de conhecer e viver a vida. Precisamos saber das coisas que nos cercam, dos ambientes em que vivemos e das maneiras como sobreviver e interagir em sociedade. Aprender a falar, a escrever e a interpretar são princípios básicos, se quisermos participar do quotidiano de uma sociedade.

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Apeiron Aprendemos a aprender, a superar os obstáculos que possam aparecer no nosso caminho, aprendermos a superar-nos. Acontece que no movimento de transformação da cultura (criação de novos significados, de novos modos de trabalhar e de novas regras de convivência) a vida social transforma-se, a ponto de as pessoas precisarem se apropriar de saberes específicos para poderem participar das práticas sociais. Isso implicou uma divisão do saber e do trabalho e a necessidade de novos saberes que possam dar conta de controlar a própria vida social. A necessidade de educar e de aprender estes novos saberes específicos para podermos participar na vida social fez com que a Escola fosse inventada como lugar em que se ensinam coisas que não se aprendem em casa, nem na rua (saberes científicos e técnicos) e, simultaneamente, é o lugar onde se aprendem (muitas vezes sem saber), de maneira diferente, as coisas que se aprendem em casa e na rua também. A Escola, mesmo sendo uma instituição criada especificamente para ensinar aquele mínimo de cultura necessária à convivência das diferenças é, como qualquer outra instituição social, um espaço em que produzimos, transmitimos e criamos cultura. Logo, deverá ser, também, um espaço educativo em sentido amplo – tem a extraordinária tarefa social de criar intencionalmente as condições educativas para que possamos receber, desconstruir e reconstruir o mundo humano já construído. O processo de aprender é, portanto, coletivo e materializa-se na compartilha de espaços e, sobretudo, no confronto com o que se aprende. Contudo, precisamos estar cientes de que tudo o que absorvermos nos alimentará, que nada é impossível face ao nosso desejo de descobrir o mundo, de procurar continuamente soluções e, principalmente, da superação de desafios. Educar-se e aprender só poderá significar, portanto, viver. E a vida exige ação, implica pensar, se pretendemos deixar de ser Homens vulgares, pois, para estes “sentir é viver, para mim, pensar é viver, sentir não é mais do que o alimento de pensar, pensar é destruir o homem vulgar” (SOARES, 1997: 178). O problema central da Educação deverá, então, focalizar-se em educar a aprender a pensar. E é isso que parece estar por fazer, porque a Escola limita-se a tentar transmitir aos alunos o que outros já aprenderam antes deles. E controlam (avaliam) isso, em exames no final de cada ciclo ou ano letivo focalizando-se, apenas, sobre conteúdos que os alunos rapidamente esquecem. Enquanto a Escola se limitar a este papel – transmitir conteúdos, a atufar os arquivos humanos de conceitos, de sentidos 30


Apeiron que não encontram lugar no mundo, (para além dos exames) – os alunos continuarão a repelir esses conhecimentos, procurando, em vão, livrar-se deles, ficando felizes somente quando os exames acabam e, depois, já os podem esquecer. O único conhecimento de que nos apropriamos, de facto, é aquele que construímos e nos serve, nos liberta. Não existem fórmulas para se construir tal Educação. Porque é o caminho que nos permite ter acesso à verdade. Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer, tal como a fórmula química de um qualquer elemento, mas a verdade que é capaz de transformar-nos no nosso próprio Ser. Apenas um caminho que se alimenta de esperança daquilo que o conhecimento, a virtude Socrática –“a amizade e a concórdia como condições indispensáveis para a prática da justiça e da sabedoria” (ALCIBÍADES PRIMEIRO, 2007: 127d) – nos traz, possa ser assumido criativamente pelos educadores e pelos educados, em que a cada um seja permitido pensar por si mesmo. E, desse modo, deixar o caminho livre para que cada um possa educar-se a si próprio. Uma Educação de qualidade, libertadora, pressupõe, portanto, uma Educação que consiga educar-nos a aprender a pensar em uníssono, uma Educação que nos conduza numa nova aventura de pensar, neste tempo acelerado dominado pela superficialidade em que as pessoas anseiam por respostas breves e vazias como se fosse comida já mastigada. Estamos em crer, que só promovendo um novo sentido à pergunta – que incentive e que obrigue a pensar – as gerações futuras poderão dar um passo decisivo na direção do desenvolvimento da Humanidade, uma vez que o grande segredo da perfeição da natureza humana se esconde no próprio problema da Educação. Resguardada esta condição, poderemos readquirir a “esperança numa humanidade que, finalmente perca o seu estatuto de menoridade e se torne esclarecida pelo uso autónomo da razão” (KANT, 2008: 15). Assim, talvez se abra a perspetiva para a descoberta de uma outra verdade esquecida: a da Felicidade do Homem.

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João Madeira, 1º ano – Licenciatura em Filosofia, Universidade do Minho Bibliografia:

AFONSO, A. Janela (2011), “A obsessão pela avaliação: Vida e Cidadania”, in A Gazeta do Povo, p. 23. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA, “Capítulo 3, Direitos e Deveres Culturais, Artigo 74, Ensino”, in Ahttp://www.parlamento.pt/Legislacao/Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx (Consultado a 12 de Janeiro de 2012). GOLDSCHMIDT, Victor (2002), Os diálogos de Platão: Estrutura e Método Dialético, Trad. Dion Davi Macedo, São Paulo: Edições Loyola, p. 302. KANT, Immanuel: - (2008), A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, Trad. Artur Mourão, Lisboa: Edições 70 [1784]. - (2012), Sobre a Pedagogia, Trad. João Tiago Proença, Lisboa: Edições 70 [1803]. NIETZSCHE, Friedrich (1987), Schopenhauer Como Educador, in Nietzsche, F. Obras Incompletas, Vol. 2, Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho, São Paulo: Abril Cultural. PLATÃO (2007), Alcibíades Primeiro, 2ª Ed.ª. Trad. Carlos Alberto Nunes, Belém – Pará: Editora EDUFPA. PLATÃO E SUA TRADIÇÃO (2012), “Gnôthi Sautón”, in http://www.filoinfo.bemvindo.net/plotinus/taxonomy/term/5243 (Consultado em 2 de Janeiro de 2013). SOARES, Bernardo (Fernando Pessoa) (1997), Livro do Desassossego, in Richard Zenith (Org.), São Paulo: Companhia das Letras, p 178.

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Apeiron WIKIPÉDIA, http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal (Consultado em 2 de Janeiro de 2013).

Poético é o homem Tudo num segundo. E nada logo a ser derramado no tenebroso poço. Num instante lágrima de paz. Noutro instante a dor da morte. Assim se faz a noite do cadáver por chegar que o sabe em demasia: Sentada. Livro no colo e sons melodiosos no meu peito. Apenas vazio de cor, em frente. A única música que oiço é o som da possibilidade. Da tristeza e melancolia. Ó lua, se minha tivesses sido... Onde escondeste meu amor? Onde, a felicidade? Mente minha. Alma escura e negra. Ocupaste meu corpo de emoções. O nada ou o tudo? A dúvida! Com pequeníssimos passos de quem receia, acordo o vizinho. Por que não me despi no tempo? Por que não pude lembrar-me? Ele ali esperava. Agora ele ouviu... Agora acordou. Acordou. 33


Apeiron E eu repleta de mantos de perdas, de segundos e tristezas, de apatias, de nadas fazer. Se eu me despisse... Ainda que ele me ouvisse... Não me importaria. Mas ele acordou. E eu aqui na melancolia. Ele iria chegar. Por que escolhi com toda a minha alma? Com cada pedaço da minha carne? Não vivo. Por que escolhi eu correr? Em direcção de nada. Acompanhada com nada Como poderás dizer que não há o nada? Pois, saberei eu que o nada existe. Sinto-o comigo. Sinto-o em mim. Podes tu, ó nada, ser aquilo que eu, e apenas eu sinto? Então existes em mim. Agora o ouço chegar. Nada há que possa cantar por arrependimentos. Nada que possa fazer pelos beijos adiados. Por prazeres renegados. Pela dor que tomei como companheira de almofada. Neste instante são insignificantes. Aquelas são insignificantes. 34


Apeiron E estes tentam-me. Façam-me ouvir que a medida das palavras é pouca. Sabê-lo-ei. Não as deixo de escrever. Elas fervem-me os dedos. Emancipam-se da prisão onde as queria ter. “Se tivesses, ó bela melancólica, despido o que querias despir, estarias agora contente. Mas o que escolheste?” Escolhi ignorar o vizinho. Retirando o peso de tantos minutos ter chamado a tua presença, assim o quis, assim o fiz. E finalmente me ouviste. Espero tudo despir agora. Por isso pode ser, pode ser... Que me mostres a luz que tenho ouvido. Assim espero. Assim desejo. Por isso a ti me entrego. Torna-me tua como sempre fui.

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Apeiron O meu pensamento acerca do que acima compus dividir-se-á em duas partes: numa primeira reflexão irei falar acerca do seu conteúdo temático; numa segunda reflexão formarei um juízo acerca da poesia. Primeira reflexão: De tudo o que penso fazer de nós homens, o que não me dá tanto gosto relembrar é que sou finita. Pareço, no entanto lembrar-me em demasia. Afinal, não é o sentido que a vida toma? Terá o “Dasein” de Heidegger, como projecto lançado, infinitas possibilidades. Porém será sempre a morte um pedaço do ser-no-mundo. Parece um hábito esquivarmo-nos do assunto. Todos os dias o encaramos de algum modo, ao conhecer a morte de outros. Não ocorre reflectirmos acerca deste assunto porque é banal? Ou por ser angustiante? Teremos que lembrar o assunto “morte” se tivermos como objecto do pensamento a nossa existência. Entendemos não saber realmente o que nos espera ou se algo nos espera. Podemos ir buscando por respostas, mas interessa isso realmente? Como declarou o nosso mestre Sócrates a ver a morte chegar “Mas chegou a hora de partir, eu para morrer, vós para viver. Entre o meu e o vosso destino, qual será o melhor? É algo que ninguém sabe, a não ser a divindade.” (Platão, 1993: 71) Se assim é, se somos-para-a-morte e se a morte é a sombra da vida, o que fazer acerca disso? Temos uma montra com manequins que podemos escolher incorporar. Nada fazer, nada escolher e esperar que a vida tome conta das acções que poderíamos tomar, se é que alguma das que tomamos são realmente livres. Assumindo que sim, podemos, de outro modo, pretender dirigi-las num tipo de caminhada no tempo “a vida é o que eu quiser”. Sabemos que todos caminhamos para o mesmo, ou corremos. E o tempo que connosco caminha ou corre poderá ser empregue do modo que tencionarmos empregar. Teremos sempre que relembrar que o nosso não é infinito, pelo menos a uma primeira análise. Apesar desta análise estar dependente do analisador, a morte é certa e o tempo persegue quem vive. Por isso mesmo, o tempo e a vida sim, são o que quisermos. Canta-nos Jorge Palma em Eternamente tu: “O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão. 36


Apeiron O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção. Se abandonarmos as horas não nos sentimentos sós. Meu amor... o tempo somos nós.” Segunda reflexão: Talvez por ser de um país de poetas, ou de poesia, tomei gosto nesta arte. Tem algum papel a poesia na filosofia? Terão as imagens poéticas algum alcance cognoscente? Pode a filosofia ser interrogada perante a poesia que lhe será um desafio? Provirá a poesia apenas de uma imaginação e a filosofia exclusicamente da razão, sendo por isso aceitável que a primeira se subordine à segunda? Concorrerá a imaginação com a razão? Se assim for, esta é também uma possível entrada no domínio do saber, sendo possível que a poesia seja capaz de alcançar verdades superiores às filosóficas em menos texto e esforço, e com mais beleza e luz. Uma possibilidade que me parece mais sólida, será a do diálogo entre ambas: poesia e filosofia. Terá sido um dos desejos de Heidegger. Em “Hölderlin e a essência da poesia” - “Hölderlin und das Wesen der Dichtung” -, Heidegger propõe mostrar a essência da poesia fundando-se na que Hölderlin deixou, autor que referiu como o “poeta del Poeta”. (Heidegger, 1989: 20) Em diversas fases do seu discurso, o filósofo alemão pretende demonstrar que a essência humana é poética. Baseando a argumentação em excertos de poemas de Hölderlin, Heidegger afirma ser o Ser do homem fundado na Palavra como diálogo. Seria deste modo, pela palavra, a poesia o edifício do ser. Antes de filósofo, ou antes de qualquer tipo de méritos que possa obter, um homem será sempre um homem. “Que la realidad de verdad del hombre es, en su fondo, 'poética'.” (ob. cit., 31) A realidade do homem é, por dom, poética. Como tal, todo o homem, anteriormente aos méritos ou à filosofia, é poético. Assim, em conclusão, para Heidegger, a essência da Poesia compreende-se pela linguagem; esta não é um despejo aleatório de palavras, pelo contrário é atribuir nomes, Ser e essência às coisas. Porém, o inverso sucede: também a essência da linguagem se compreende mediante a Poesia. Concluo que a essência da Poesia que mostra a essência da linguagem e que é a essência do homem é um, se não o primordial modo de conhecer e compreender 37


Apeiron verdades essenciais. Nas palavras de Heidegger “(...) que lo que el poeta dice, y lo que sobre su palabra toma por ser, eso es lo real.” (ob. cit. 35)

Bibliografia:

PLATÃO (1993), Apologia de Sócrates, Trad. Carlos Aboim de Brito, Lisboa: Pe – Edições. HEIDEGGER, Martin (1989), Hölderlin y la Essencia de la Poesia, Trad. Juan David Gracía Bacca, Barcelona: Editoral Anthropos.

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Apeiron Diana Neiva, 2ยบ ano - Licenciatura em Filosofia, Universidade do Minho

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Revista apeiron 1ª