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Wellington S.O.

Sobre m達es, filhos, esposas e maridos


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Copyright © 2013 by Wellington S. O. Todos os direitos desta edição reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida por qualquer processo eletrônico ou mecânico, fotocopiada ou gravada sem autorização expressa do autor. ISBN: 978-85-8255-043-4 Projeto gráfico: Aped - Apoio e Produção Editora Ltda. Editoração eletrônica: Thiago Ribeiro Revisão: Aped - Apoio e Produção Editora Ltda. Capa: Thiago Ribeiro

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros – RJ O52s         Oliveira, Wellington de Sousa, 1992            Sobre mães, filhos, esposas & maridos / Wellington Sousa de Oliveira. - 1. ed. Rio de Janeiro : APED, 2013.         264 p. ; 21 cm.                         ISBN 9788582550434         1. Romance brasileiro. I. Título. 13-01816  

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

05/06/2013    05/06/2013   

Aped - Apoio & Produção Editora Ltda. Rua Sylvio da Rocha Pollis, 201 – bl. 04 – 1106 Barra da Tijuca - Rio de Janeiro – RJ – 22793-395 Tel.: (21) 2498-8483/ 9996-9067 www.apededitora.com.br aped@wnetrj.com.br

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Todas as mulheres transformam-se em suas mães. Essa é a tragédia delas. Isso não ocorre com os homens. Essa é a tragédia deles. Oliver Wilde.

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“Para Goreti, Cláudia, Thaís e Antônia. Minhas pilastras sustentadoras.”

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Agradecimentos

Eu escrevi esse livro sozinho. Mas, indiretamente, existem muitas pessoas que contribuíram para que ele se tornasse realidade e que, agora, tenho a feliz oportunidade de agradecer. Primeiramente, agradeço a quatro mulheres extraordinárias: minha tia Antônia, minha inspiração inicial para escrever esse livro e que é portadora de tamanha força, coragem e entusiasmo. Valores que eu realmente invejo; minha prima Thaís, minha melhor amiga. Sempre me espelho em seus passos confiantes e destemidos; minha tia Cláudia, minha segunda mãe, que é a pessoa mais atenciosa e carinhosa com quem já tive o privilégio de conviver. E, por último, e não menos importante, minha mãe Goreti, que fez de mim quem eu sou, e me ensinou as primeiras letras antes mesmo que eu ingressasse na escola. Então, tudo isso é culpa dela. Agradeço a todos aqueles à minha volta, que me apoiaram; aos grandes professores que tive, aos meus amigos de longa data – Fátima e João – os quais não tenho mais contato, mas que foram responsáveis pelos momentos mais felizes da minha infância. E agradeço, por fim, a duas pessoas que observam esse momento lá de cima agora. Meu pai Roberto – meu eterno exemplo de caráter 9

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e bravura; e minha avó Tereza – que me proporcionou tanta sabedoria em nossas longas e deliciosas conversas e a quem prometi que um dia escreveria um livro. Isso é para vocês. É para todos vocês.

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Sumário

Capítulo 1 — Carmen — Abril 1966.......................................13 Capítulo 2 — Vincent — Abril 1972.......................................30 Capítulo 3 — Carmen — Maio 1974.......................................46 Capítulo 4 — Alicia — Maio 1978..........................................65 Capítulo 5 — Vincent — Junho 1980......................................82 Capítulo 6 — Carmen — Dezembro 1983..................................99 Capítulo 7 — Vincent — Fevereiro 1985.................................117 Capítulo 8 — Alicia — Agosto 1987.....................................134 Capítulo 9 — Vincent — Agosto 1988..................................153 Capítulo 10 — Carmen — Janeiro 1989.................................176 Capítulo 11 — Alicia — Janeiro 1990....................................199 Capítulo 12 — Vincent — Março 1991.................................223 Capítulo 13 — Carmen — Março 1992.................................243 Capítulo 14 — Vincent — Julho 1993...................................276 Capítulo 15.........................................................................308 Capítulo 16 — O diário do bebê . ..........................................336 Capítulo 17 — Alicia — Janeiro 1994....................................347 Capítulo 18.........................................................................372 Capítulo 19 — Carmen — Abril 1996....................................403 Capítulo 20.........................................................................416 11

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Carmen Capítulo 1 — Abril 1966

O

relógio antiquado ao lado da cama marca três da manhã, quando eu sinto as primeiras contrações. Meu primeiro instinto é sentar na cama, ligando o abajur de metal tão gelado ao lado do relógio, enquanto Edgar continua dormindo como uma rocha. Eu pressiono minha barriga tão pesada de oito meses de gestação e aperto os olhos. “Não. Ainda não. Ainda não é hora”. O que Edgar mais odeia em todo o mundo é ser acordado no meio do seu sono. Imagino então como ele faz no Exército. Será que esbraveja com o cadete que o acorda na madrugada para informar algo importante como, por exemplo, um ataque surpresa com bombas e torpedos? Imagino também o que ele pensava quando decidiu ser a hora de termos um filho. Teria sido tolo o suficiente para se esquecer das vezes em que teria que acordar as duas ou quatro da manhã para levar a mamadeira ou, simplesmente, tentar descobrir o motivo do choro tão estridente? Não. Na verdade a tola da história sou eu. Tola por ter um filho com um homem que só está em casa um fim de semana por mês. Tola por acreditar que ele será um daqueles maridos que não te deixa acordar de madrugada e se oferece para fazer o serviço. Serei eu a responsável pela tarefa árdua — todas as tarefas árduas inclu13

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sive — enquanto ele dorme sem incômodos na quietude do seu quartel general. A segunda contração acontece. Ligeiramente mais forte do que a anterior e eu decido que não é hora de me preocupar se irei incomodá-lo ou não. De qualquer maneira, não grito em seus ouvidos ou o atiro para fora da cama. Apenas me movo mais bruscamente e o senhor sono pesado não faz nada além de coçar o nariz. Para que se importar com a esposa que está prestes a dar à luz prematuramente? Melhor continuar sonhando com combates de outrora, de onde seu pelotão saiu vitorioso e eu não dou a mínima. A próxima contração chega antes mesmo que eu esqueça a dor da anterior e... Ao inferno com as boas maneiras! Eu o empurro com raiva e Edgar já se vira para mim me fitando com seus olhos azuis enormes. “O bebê está nascendo.” Eu digo, e fico surpresa pela calma em minha voz. Edgar senta. Sonolento. Assim como faz ao acordar pela manhã, ele esfrega o rosto repetidamente com suas mãos grandes e com os pés procura pelos chinelos que insistem em escorregar para debaixo da cama. Ele levanta calmo como se eu houvesse dito “Traga um copo de água para mim” e sai do quarto, na verdade indo direto para a garagem tirar o Cadillac — que por muitas vezes suspeitei que ele amasse mais do que a mim mesma. Mas esse é o Edgar. E eu já havia tido cinco anos para me acostumar com isso. A mim só restou acompanhá-lo e ao chegar até a porta do quarto... “Olá, quarta contração!” No hospital tudo é muito rápido e eu agradeço a Deus por isso, porque já não consigo mais contar as contrações ou mesmo o tempo que se dá entre elas. A única certeza que tenho é da dor desconcertante e indescritível e já me apavora pressentir que a seguinte está próxima. Edgar está ao meu lado no quarto onde em minutos tudo acontecerá. Ele segura a minha mão suada — todo o meu corpo está suado — e eu não consigo lembrar se alguma vez em toda a 14

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minha vida me senti tão desconfortável. A minha vontade é de sair correndo e correr, correr, correr talvez até mesmo uma maratona inteira até que a dor finalmente passe. Nos segundos que antecedem a contração, sinto uma onda de calor tão intensa que tenho vontade de rasgar por inteiro o vestido branco estampado com flores violetas que uso. Já no instante em que a terrível contração acontece, a dor me faz sentir como se fosse mergulhada em um lago congelado. “Traga o lençol, Edgar. Não, tira esse lençol daqui! Eu estou congelando, Edgar. Suma com esse lençol! Eu estou pegando fogo!” Nunca vi o olhar de Edgar tão assustado antes e acho que nem mesmo um inimigo em campo de batalha havia o apavorado tanto. Minutos depois minha médica está à frente das minhas pernas tão afastadas uma da outra. Não tenho certeza se no quarto também estão duas enfermeiras, se Edgar ainda continua ali. A dor impede que eu me concentre em uma coisa sequer. “Força, Carmen. Precisa fazer força.” Minha médica diz e eu escuto sua voz longe, mesmo ela estando tão próxima de mim. Eu posiciono meus braços debaixo das minhas pernas erguidas. Posso sentir meu rosto pálido agora avermelhado, em brasas. Faço uso de toda a força que possuo, impulsionando todo o volume em movimentação em meu interior para baixo, para fora. “Eu só quero ele fora de mim! Só que a dor termine!” Penso sem me importar se é ou não um dos pensamentos mais bonitos. “Precisa fazer mais força, Carmen. Não está acontecendo nada aqui.” Minha médica insiste. Eu então inspiro todo o ar que posso e faço força como ainda não havia feito antes e posso sentir os olhares preocupados sobre mim. “O quê? O que é?!” Eu grito. “O bebê está invertido. O bumbum vai sair primeiro. É uma posição mais difícil, mas você consegue se fizer mais força.” Minha médica anuncia. Mais força?! Eu me sinto tão esgotada que minha vontade é de gritar para que todos saiam. Que me deixem em paz e apenas parem de me pedir para fazer uso da força que já não tenho mais. 15

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Eles insistem e não tenho saída a não ser por um fim em tudo. Crio forças de onde elas não existem e, de repente, sinto a sensação mais magnífica em muito tempo. Todo aquele volume deixando o meu corpo numa sensação de alívio deliciosa. Fico feliz tão rápido que me parece loucura acreditar que um segundo atrás sentia a dor que me dava vontade de arrastar a cama por todo o quarto. Com curiosidade e ansiedade, estendo a cabeça por cima das minhas pernas elevadas em busca da primeira visão do meu filho. Uma necessidade eufórica sem precedentes, como se minha vida dependesse disso. Mas por que o quarto permanece calado? Por que não ouço o primeiro choro dele? Logo, vejo a enfermeira partir e mesmo avistando apenas de costas sei que leva meu filho em seus braços. Em silêncio. Torturante silêncio. Poucas horas depois, que para mim passam lentamente quase formando um dia inteiro, me dizem que posso vê-lo no berçário. Quase não acredito quando ouço as palavras. Certa — e aliviada — de que minha terrível constatação está errada, caminho devagar pelo corredor branco tão iluminado. Edgar do meu lado. Chegamos à frente do grande vidro e de repente são todos aqueles maravilhosos seres em miniaturas dentro das incubadoras que nos olham, e não o contrário. Dezenas de mãozinhas agitadas, pezinhos escondidos por meias e pares de olhos um tanto confusos. Muitos abertos, muitos fechados. Eu sei o número de sua incubadora, mas ao pôr os olhos nele pela primeira vez tenho a certeza de que o reconheceria dentre centenas, milhares de outros bebês de qualquer maneira. Para mim ele é o maior ali. O que tem os grandes olhos mais contentes e mais bonitos da cor do céu e o cabelo marrom mais vistoso. Nunca, nem em meus sonhos mais otimistas, imaginei que seria tão perfeito. E o nariz tão pequenino e vermelho? Perfeito. Edgar tem a mão espalmada contra o vidro. Ele tenta aparentar estar apenas se apoiando. Descontraído. Mas eu sei que ele deseja ver o mais próximo que pode. Eu noto o braço dele trêmulo e me surpreendo. E quem imaginaria o corpo forte, tomado por músculos e pêlos do general, algum dia tomado por tal singela emoção? 16

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Eu me encho de alegria quando me dizem que posso voltar para casa com o meu filho. E logo o pouco tempo que ele passou na incubadora sendo chamado de bebê prematuro não mais importa. Só o que importa é que ele está bem e tudo o que acontecerá daqui em diante. O Cadillac — brilhando como sempre graças aos cuidados quase maternos de Edgar — para em frente ao nosso prédio e saio com ele nos braços, radiante. O elevador nos leva até o nono andar e só há mais um andar acima de nós. Estamos no corredor de paredes de tijolinhos marrons e chão acinzentado enquanto Edgar abre a porta verde-musgo com o numeral 901 metálico fincado nela. Nós entramos e quero mostrar a ele todo o limitado espaço do seu novo lar. Basta uma breve olhada em volta e eu mostro toda a saleta. Mostro em especial o grande quadro de época na parede sobre o sofá, mostrando homens da classe alta, caçando raposas pela floresta densa com seus cães de raça. Mostro ainda o pequeno armário lotado com a prataria e assim termino com as únicas coisas que realmente importam ali. Chego ao corredor e já abro a porta do banheiro ao meu lado esquerdo. Não há nada de especial ali, mas ele continua com os olhos azuis bem abertos de curiosidade, bem confortável enrolado na manta da mesma cor. Eu abro a porta de frente para a do banheiro e mostro o quarto dos seus pais. Também não há muito para mostrar ali. Apenas me certifico de que ele saiba que fui eu quem escolheu o papel de parede cor chocolate de tão bom gosto. Abro rapidamente a porta ao lado, revelando o armário cheio de tralhas inúteis e muitas caixas ainda fechadas da mudança que não tive tempo — ou coragem — de arrumar. Voltamos nossa atenção novamente para o lado esquerdo e atravessamos com cuidado uma cortinha formada por muitas miçangas coloridas que formam desenhos de escamas. Estamos na cozinha. Eu mostro a mesa quadrada de mármore com as quatro cadeiras amarelas, os muitos armários cor gelo — não simplesmente branco ou cinza como Edgar insiste — sobre a pia e o balcão largo, minha principal conquista decorativa. Conseguir 17

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colocar um balcão tão espaçoso dentro de uma cozinha tão pequena. Continuo aguardando o meu prêmio em reconhecimento a tal feito. Eu vejo quando ele boceja e sei que o sono se aproxima e então decido mostrar meu jardim improvisado pendurado para fora da janela da cozinha outro dia e me apresso em mostrar o último cômodo. Aquele que ele precisa ver já. Abro a última porta ao fim do corredor e estamos em seu quarto. Paredes azuis e um teto bem branco nos cumprimentam. Muita luz entra pelas duas janelas brancas do lado direito e as cortinas de um amarelo bem claro balançam bastante com a brisa. Estou de pé com ele em meus braços, bem no centro do quarto. De pé sobre o tapete oval, macio e verde claro. Eu ainda consigo mostrar a cadeira de balanço em frente à janela, a grande prateleira cheia de animais de pelúcia e o berço bem alto antes que ele, enfim, durma. Eu o coloco dentro do berço pela primeira vez e ainda não sei se quero sair. Olho para ele mais um pouco. Parece o ser mais frágil do mundo. Olho em volta do quarto mais um pouco. É o maior cômodo da casa. Assim como eu havia feito questão que fosse. Cada pequeno momento é único. O banho tão cauteloso que eu dou. Cada troca de fralda ou ao improvisar uma canção qualquer para que ele durma. Mas principalmente ao amamentá-lo. Como explicar o sentimento que me toma ao sentir a conexão tão forte entre nós nesse momento? Sinto a Carmen de antes sumir gradualmente, de pouquinho a pouquinho, cada vez que acontece. Quem toma o lugar é alguém muito mais forte, disposta a fazer o inimaginável para protegê-lo. É até estranho sentir-se tão confortável em algo que é tão novo. Acordar de madrugada — e por várias vezes — não é o dilema tenebroso que esperava. E nem mesmo estou tão desamparada como imaginava. Pela primeira vez, em nossos cinco anos juntos, Edgar está em casa por dois fins de semana ao mês. Ainda é pouco? Sem dúvida. Mas para alguém em sua posição, tomo como um grande ato de interesse. Não sou apenas eu que estou diferente. Edgar não é mais o mesmo. “Se afaste dele ao menos um pouco. Deixe a criança 18

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respirar.” Protesta ele quando sei que é a sua maneira de me dizer que preciso deixá-lo ter mais tempo com o filho nos raros momentos em que está em casa. “Não devia segurá-lo assim durante o banho... Ele não devia ter horários certos para tomar o leite?... Tem que sair mais com ele porque o sol faz bem...” E ele continua e continua, sem nem ao certo saber o que diz, só tentando ser o pai perfeito que almeja ser, mas agindo assim só me irrita. Erramos sim, às vezes, mas com o desejo sincero de acertar. Erros e acertos. Tentativas e certezas. Tudo por nosso filho... O nosso filho sem nome. Incrível a discussão por nomes antes do nascimento, incrível é a discussão agora e ainda mais incrível é perceber que mesmo assim ele chega próximo dos três meses de vida sem ter um nome. Mas chega à hora do consenso. Um consenso necessário. Edgar diz pela décima vez o nome Terence e eu digo “não” pela décima vez. Ele é insistente e, Deus, como é horrível quando o assunto é pensar em nomes. Não posso culpá-lo. Afinal, é genético. Seu pai se chama Atos graças ao pai que se chama Ator. Sendo assim, Edgar ao menos tem sorte por ter o nome que tem. O que não quer dizer que deve se considerar um expert no assunto. Eu digo “William”. Ele diz “Não. Muito britânico”. Ele diz “Nicolas”. Eu digo “Não. Muito grego”. Eu digo “Diogo”. Ele diz “Não. É muito simples e não conheço ninguém com esse nome que tenha sido alguém de sucesso”. Ele diz “Walfred”. Eu digo “É muito estranho. Não combina para uma criança.” E, por fim, perante todas as suas horríveis sugestões, questiono com bom-humor “Por que odeia o nosso filho?”. Irritado, ele diz “Rudolf.” Meu Deus, não! Eu digo “Hugo”. Não. A conversa é longa e cansativa e nossas únicas opções parecem ser nomeá-lo com o nome de “Não” ou “Sem Nome”. A imagem de sua foto como manchete no jornal com um desses nomes agora em minha cabeça. 19

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A solução só vem na manhã seguinte. O nome é sugerido por mim e ele apenas se diz cansado de discutir o assunto e me concede a vitória. Apenas uma manobra dele para não admitir que também goste da sugestão e, muito pior, o fato de eu ter razão. Saíamos do cartório. Ele seguro em meus braços e a partir desse instante ele não é mais apenas “ele”. O papel comprova. Seu nome é Vincent. Vincent tem dois meses e meio de vida e eu não me sinto muito bem. Não consigo mais ignorar a dor cortante acima da virilha ou a febre baixa que vai e volta, porque agora a dor é do tipo que me paralisa por completa e a febre é alta e constante. Vincent chora em seu quarto e eu posso ouvir em alto e bom som da sala. Mas assim que atinjo o corredor a dor se apresenta forte como nunca antes. Atiro-me contra a parede. As costas sofrendo todo o impacto. Porque simplesmente não me mantenho mais de pé. Começo a deslizar devagar de encontro ao chão e o choro de Vincent só aumenta. Luto para conquistar o óbvio. Ignorar a dor e atendê-lo. Mas ao me mover, sinto como se meu corpo fosse se partir ao meio. A divisão bem acima da virilha. Eu olho para frente e encaro o quarto de Vincent ao fim do corredor. Olho para trás e encaro o telefone ao lado do sofá, tão longe. Estou bem no meio entre as duas possibilidades inalcançáveis. Não penso muito mais e grito “Socorro!”. Há apenas outro apartamento ocupado no andar. O 902 que dividi a parede da minha sala. Não sei muito sobre sua moradora. Aliás, sei muito pouco sobre os moradores do prédio onde vivo há pouco mais de seis meses. Sei que ela se chama Lola e deve ser um pouco mais velha do que eu. Sei também que ela raramente está em casa — na verdade Edgar está com mais frequência no prédio do que ela — e é isso que me apavora. Ela é a minha única esperança e eu grito novamente pedindo ajuda. A porta de entrada fechada, mas não trancada, se abre e Lola entra eufórica com um avental rosa cheio de babados e uma toca térmica marrom na cabeça com o fio emborrachado preto balançando no ar. Estou salva. 20

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Ela liga para a emergência e eles tomam o apartamento em quatro minutos. Sou levada para o hospital, mas Vincent fica com Lola. Meu coração aperta. Não sei nada sobre ela, além do fato de ter acabado de salvar minha vida e, assim, sou obrigada a exercitar meu lado mais otimista. No hospital a dor é severa. Sou atendida rapidamente. O diagnóstico igualmente veloz e em segundo algum deixo de pensar em Vincent. “Deixaram um pequeno resquício da placenta dentro de você.” A médica diz e as palavras me atingem duramente. O chão sob a cama desaparece e caio em uma cratera negra sem fim. “É incrível que só tenha sentido a febre e as dores mais fortes agora. Tem uma infecção se agravando em seu útero. É muito sério.” E por que ela não para de dizer essas coisas? Médicos supostamente não devem tranquilizar seus pacientes? Estou muito nervosa. Eles entram em contato com o hospital onde dei a luz. Entrar em contato com Edgar? Sem sucesso. Alguns responsáveis da gerência do outro hospital invadem o quarto onde estou com semblantes amistosos e repletos de teorias e pedidos de perdão que não me importam. O medo de um processo está escrito em seus rostos e são me oferecidos intermináveis fornecimentos de fraldas, pomadas, roupas, brinquedos e tudo mais o que eu possa imaginar, como um tratado de desculpas e principalmente de paz. Mas, Deus, eu digo claramente onde eles podem colocar cada um desses presentes. Como digo. E assim eu não me reconheço. Estou mesmo mudando. E como é engraçado o quanto mudamos após a chegada de um filho. Penso como me sentiria diferente em tal situação se Vincent não existisse. Temeria pelo meu bem-estar, pela minha própria vida. Mas com ele tudo é diferente. Só o que me importa é estar em condições para estar junto dele. E para que isso aconteça, concessões dolorosas são tomadas. Quando eu deixo o hospital, não tenho mais o útero. Com a certeza de que não darei a luz outra vez, mas também com a certeza de que ao estar com Vincent tudo ficará bem. 21

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No dia em que Vincent completa um ano, eu compro um daqueles livros grandes e pesados para recortes. Adiciono as lembranças já coletadas — os fios de cabelo da primeira vez em que seu cabelo foi aparado, o curativo do primeiro machucado, um simples corte no dedo — e aguardo ansiosa pelas próximas. A capa do livro é toda em couro branco e há apliques com figuras de elefantes azulados por toda ela. Eu me aventuro em minha cozinha minúscula para fazer um modesto bolo de chocolate e lá pelas seis da tarde tudo se resume ao bolo levemente solado — camuflado pela generosa cobertura marrom e confeitos — a velinha, Vincent e eu. Apesar do meu mais sincero otimismo, papai não está em casa. Meu menino faz dois anos de idade e há mais novidades no livro. Seu primeiro desenho feito com pintura a dedo. Muito amarelo e vermelho por toda parte — inclusive no tapete da sala por um bom tempo. A fotografia do dia em que ele andou pela primeira vez. Ele tinha um ano e três meses quando deu o primeiro passo e eu já estava preocupada com o que considerava um atraso. Eu saio da cozinha para buscá-lo na sala quando me deparo com ele caminhando pelo corredor na minha direção. Faltaram-me as palavras. Ele é uma maravilha em movimento. É só assim que consigo descrevê-lo. Anda por toda parte e tenta repetir todas as palavras que ouve — na maioria das vezes, sem sucesso. Sua primeira palavra foi “mamãe” e ele a disse claramente, com todas as letras. Eu o chamei de meu pequeno Albert Einstein naquela tarde. Com meus dotes culinários um tanto aprimorados fiz uma torta — que não solou — coberta por glacê branco e confeitos coloridos. Novamente, apenas nós dois, agora duas velinhas, mas ainda sem papai. Por que ainda acredito? Vincent faz três anos de idade e me assusto ao perceber que quase metade do livro está completa. Também com tudo necessário e desnecessário que coloco ali. Muitas fotos. Principalmente fotos. Lembranças registradas em imagens de sua primeira ida ao parquinho, a primeira vez que comeu sozinho e atirou purê de batatas em todos os armários da cozinha, nossa primeira ida ao zoológico. 22

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Edgar me liga no dia anterior e me avisa que virá. Eu fico contente além de palavras e grata por ele avisar porque meus planos já se resumiam a comprar uma torta comum na confeitaria da esquina onde os moradores do asilo, a duas quadras dali, insistem em fazer excursões. Arrisco fazer um bolo de duas camadas em glacê azul e branco, além de alguns salgadinhos. Sei que é demais apenas para dois adultos e uma criança, mas estou muito entusiasmada. Sei que Vincent também está. Correndo de um lado para o outro da casa. “Olhe por onde anda!” Eu só advirto esperando que se lembre de quando bateu a cabeça na penteadeira do meu quarto apenas dois meses atrás e do susto que me deu. Já são seis e meia da tarde. Hora combinada. Os ponteiros do relógio marcam sete horas. Incrivelmente rápido e Edgar está atrasado. Oito e meia da noite é a hora marcando no relógio quando tomo coragem para encará-lo. Edgar não virá e Vincent que já dorme no meu colo no sofá, mesmo em seus sonhos, também já sabe. Há muito bolo estufando a geladeira pelas próximas semanas. Que tola Carmen. Que tola! Meu garoto tem quatro anos e está ainda mais lindo. Mantenho o cabelo castanho dele sempre baixo e ele parece com a miniatura de um homem muito importante. Deus, como ele está esperto. Agora ele sabe que o pai sempre deixa seu presente de aniversário uma semana antes escondido no armário das tralhas e nesse ano eu o encontro desembrulhando o grande caminhão de madeira do papel vermelho, dois dias antes. Um novo esconderijo é necessário. Dessa vez, com um bolo comprado e dois pares de velinhas brancas, acontece nossa festinha privada. Um pedido secreto, um abraço apertado, um beijo roubado. Papéis de presente pelo chão da sala, uma pequena camisa listrada suja de glacê e dois pratinhos na pia da cozinha. Meu bebê faz cinco anos de idade e nem sequer penso sobre quando deixarei de chamá-lo assim. Meu bebê. Nunca, talvez? Não há mais espaço no livro para lembranças e agora elas se estendem para fora dele. São tantas as fitas espalhadas pela sala com gravações que faço dele agora que sua brincadeira favorita é cantar para mim. 23

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Ele apaga as cinco velinhas sobre a torta da confeitaria — há rumores de que ela entrará em falência e eu só penso para onde os idosos irão à excursão a partir de então. É o primeiro aniversário em que Vincent não menciona Edgar nem uma vez sequer. Nem mesmo após desembrulhar o presente do pai e descobrir que o papel multicolorido esconde a tola bola plástica que se monta e sai pulando por aí, que ele havia visto na TV e desejado de imediato. Eu me preparo para dizer algo perante o rostinho triste dele encarando o chão. Preciso escolher bem as palavras. É quando a porta se abre e nossos olhares a acompanha juntamente. Edgar entra com a barba a fazer e a camisa amassada, camuflando sua estafa com um sorriso enorme. Vincent corre tão rápido em sua direção, feliz em um piscar de olhos e a minha respiração cessa por um breve instante. Edgar fecha a porta atrás dele, e Vincent pula sobre ele. “Papai!” Ele grita com a voz tão contente. “Você veio. Você nunca vem!” Grita ele explodindo em alegria e olha para mim. “Disso a mamãe sabe muito bem.” Eu quase deixo escapar com a última afirmação dele, mas me detenho. Com a visão dos dois se abraçando, eu quero chorar, mas também me detenho. Pareceria confuso e o meu papel é fazer com que ele acredite que o raríssimo acontecimento se repetirá dali em diante, quando na verdade eu sei que um eclipse tem chances de se repetir com mais frequência. Edgar o põe no chão e o entrega outro embrulho multicolorido, esse bem menor, que tira do bolso da camisa. Edgar caminha até mim e conforme suas mãos grandes se posicionam atrás da minha cintura, ele já me beija. Eu não estou em minha melhor imagem. Não estou propriamente penteada e há um pouco da massa dos docinhos na borda do meu vestido laranja. Ele me abraça e sua camisa está úmida com o suor. Seu peitoral robusto contra o meu rosto. Ele é tão alto que eu não conseguiria apoiar minha cabeça em seu ombro, nem se me posicionasse nas pontas dos pés. Por fim, somos como a família que precisamos ser no dia em que mais precisamos. Nenhum bolo caseiro bem elaborado, 24

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preparativos meticulosamente bem planejados ou algo mais. Apenas pai, mãe e filho dividindo a torta da confeitaria à beira da falência, antes que fosse hora do pequeno ir dormir. O aniversário de Vincent cai pela primeira vez em um sábado, o que significa que Edgar estará presente de qualquer maneira. É o fim de semana em que ele vem para casa. A certeza faz Vincent comemorar seu aniversário de seis anos mais do que qualquer outro. Edgar parece igualmente excitado. Ele me liga dois dias antes — não pedindo, mas já comunicando — que trará um amigo e mais um casal de amigos para a festa. E a bomba agora está em minhas mãos, fazendo tic-tac sem parar, porque sou eu quem vou tomar conta de tudo sozinha. A primeira festa de Vincent com convidados. Eu começo os preparativos já no dia seguinte. Vou até a mercearia comprar os ingredientes para o bolo, os doces e salgados que farei bem cedo, na manhã seguinte. E como chega rápida a próxima manhã. O despertador me tira da cama às seis da manhã em ponto, o que me dá exatas doze horas antes do primeiro convidado entrar pela porta, e incrivelmente já percebo que o tempo é curto demais. Saio do quarto quase que diretamente para a cozinha, já amarrando o avental coral em volta da minha cintura e resgatando os ingredientes da geladeira. Às oito horas, eu tiro o grande bolo do forno e agora só preciso cobri-lo com o glacê – preparado de antemão — e mantê-lo em segurança na geladeira até a hora da festa. Vincent está acordado agora e isso dificulta um pouco a confecção dos doces e salgados. Graças à tão importantes pausas para dar-lhe atenção, preparar seu café da manhã e muito mais, acabo com os doces e salgados um pouco depois da hora do almoço. A euforia de que irá me faltar tempo me domina e não vejo outra opção a não ser pedir auxílio. Logo Lola está sentada no chão da sala montando blocos com Vincent, porque preciso sair. Eu compro bexigas, confetes, as velinhas, chapéus. “Não! Como pude esquecer as bebidas?” E volto para o elevador, para descer novamente os nove andares, em direção à loja novamente, antes 25

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mesmo de abrir a porta de casa, para ter a sacola cheia de refrigerantes. Eu quase não suporto a sacola tão pesada. Já é pouco mais de duas da tarde e eu só tenho quatro horas, o que pode parecer muito, mas quando você precisa tomar conta de si, de uma criança e de uma casa inteira, não chega nem perto de ser o suficiente. Lola é de imensa ajuda. Enquanto eu passo a toalha da mesa, ela espalha os confetes pela sala. Eu organizo tudo sobre a mesa e ela posiciona as bebidas. Eu aspiro toda a casa uma última vez e ela cuida dos detalhes finais antes de ir para casa se arrumar. Afinal, depois de tanto ajudar, ela é a minha convidada de honra. Então é hora de cuidar do aniversariante. Porque já são quatro e meia! Eu dou banho nele no chuveiro, esfregando bem suas orelhas e o visto com o macacão azul marinho novo. Penteio seu cabelo aparado, coloco muita colônia — o que ele odeia — e recomendo o máximo de vezes possível para que não se suje. São pouco mais de cinco horas quando volto à cozinha para fritar os salgados. Não poderia fazer tão cedo porque estariam frios e rançosos até a hora da festa e não posso fazer depois de me arrumar porque gordura ainda não é um dos perfumes mais atraentes. Faltam apenas quinze minutos para seis horas e agora estou em pânico. “Vou ter tempo de me arrumar? E se Edgar se adiantar com seus convidados?” Eu tomo um banho tão rápido que por um triz escapo de escorregar no banheiro e coloco o vestido já escolhido anteriormente. É azul claro e bem marcado na cintura, parando um palmo acima do joelho e com apliques florais da mesma cor no decote quadrado. Tem um bom movimento. Já se passaram cinco minutos depois das seis horas e eu ainda me penteio em frente ao espelho que me reflete por inteira. Então eu esqueço o tempo e paro para dar uma boa olhada em mim mesma. Minha pele está muito pálida. Sei que preciso tomar mais sol. Gosto do formato dos meus quadris e o vestido justo no busto realmente faz meus seios parecerem maiores. Preciso retocar o ruivo do meu cabelo, esconder melhor todos os fios loiros. Mas em geral minha aparência é bem saudável e tenho as bochechas coradas. 26

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A campainha toca e meu coração pula seguindo a melodia. Ainda no quarto, eu atiro a escova longe e continuo ajeitando o cabelo agora com as mãos enquanto caminho até a porta. Eu abro e me deparo com uma pequena multidão. Edgar entra ainda com a roupa típica do quartel. Atrás dele entra uma mulher da minha idade, apertada dentro de um vestido tubinho vermelho — é assim que se veste para um aniversário infantil? — acompanhada de um homem calvo de aparência simpática. O tal casal do qual Edgar é amigo. E, então, o outro amigo entra e de imediato eu amaldiçoo Edgar por não ter me dito nomes ao telefone, porque eu sei quem ele é. Seu nome é Wolfgang e como o mesmo sugere, ele é alemão. Eu o conheço da mesma época em que conheci Edgar. Wolfgang é um tanto mais baixo do que eu, um tanto mais jovem do que eu e muitíssimo mais irritante e ignorante do que qualquer um de nós jamais conseguirá ser. Felizmente, fazia anos que eu não o via, mas ele continua com a ridícula franja loira na altura dos olhos e usa um terno todo branco. Tenebroso. Ele está acompanhado do seu filho de oito anos, e ao menos Vincent tem outra criança para brincar com ele na festa que de comemoração infantil que se torna uma reunião de adultos. Eu já fecho a porta quando outra figura adentra e me surpreendo porque Edgar só havia mencionado três convidados — o filho de Wolfgang já havia sido surpresa. Edgar aparece do meu lado rapidamente dizendo bem humorado que o homem é um convidado de última hora e, então, eu o convido a entrar. Ele é tão alto quanto Edgar, mais tem uma bela pele bronzeada. Igualmente forte, mas seus olhos são de uma cor mel penetrante. “Prazer. Eu sou Franc.” E estende o braço robusto em minha direção. Ele me entrega o casaco e eu o observo enquanto caminha em direção aos outros. A verdade é que eu não tenho considerado atraentes muitos homens desde que me casei com Edgar, mas conhecer Franc, sem dúvida, rende-me alguns pensamentos desconcertantes. Lola chega meia hora depois, ignorando o fato de morar no apartamento ao lado. Ela usa um extravagante vestido e há muito rosa e muito tecido por todo o seu corpo. Um lenço da mesma 27

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cor em seu pescoço completa o cenário, e agora a mulher com o vestido tubinho não é mais a única vestida de forma equivocada. Uma hora passa voando e a festa resume-se aos adultos conversando na sala com os cigarros acesos em suas mãos elevadas e os meninos brincando no quarto de Vincent, com todos os presentes recém-abertos. Constantemente, vou até a cozinha e retorno com a bandeja cheia de petiscos, salgados e doces. A mulher com o vestido tubinho vermelho — eu sequer me importo em descobrir seu nome — fica maravilhada e tudo lhe parece novo. O vestido justo em suas partes mais provocantes é a minha primeira pista de que ela não pertence a esse mundo, e que está mais familiarizada em passar seu tempo em clubes noturnos em posse de uma taça cheia com alguma bebida cara. Ainda assim, ela continua me lançando o sorriso barato que me irrita. Edgar conversa a maior parte do tempo com Franc. Wolfgang incomoda o casal com suas histórias patéticas e Lola e eu nos refugiamos na cozinha. Eu fico sabendo mais sobre ela. Assim como eu, ela não pode ter filhos, mas ela já nasceu assim. Ela leva um cinzeiro para a sala a meu pedido e lá todos ignoram os refrigerantes na geladeira e só querem saber das bebidas alcoólicas no armário da prataria. Eu arrumo os últimos detalhes para a hora de cortar o bolo que se aproxima, quando sinto alguém se aproximar por trás de mim e antes mesmo que eu possa identificá-lo — Edgar? Lola? — as mãos masculinas e suadas apalpam meus seios e o corpo se choca contra o meu, fazendo com que eu sinta o volume rígido em contato com as minhas costas. Eu me viro assustada e fico mais assustada ainda ao me deparar com Wolfgang. “O que você acha de nós...?” Eu não deixo que ele termine, porque a palma da minha mão já atinge seu rosto com velocidade incrível, e todo o lado direito de seu rosto pálido e desprezível se torna rubro em um segundo. “Mas o que...?” Não me interesso em ouvir uma frase inteira sequer que saia dos lábios insuportáveis dele. Deixo a cozinha, apressada e furiosa. 28

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Alguém teria escutado? Wolfgang comentaria algo? Eu não me permito pensar em nada desse tipo porque estou muito ocupada odiando-o. Mas que audácia! Aquele anão de jardim bastardo...

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Degusta sobre maes