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Luci Vitchmichem, nascida em Prudentópolis, no sul do Paraná, é filha

“...Eu sei que você tem de ir, aprender, evoluir, mas quando a saudade apertar... Venha... Venha pelo pensamento, pelos sonhos ou de outra maneira... Mas venha sempre que puder. Quando recordo o passado, ouço uma canção da nossa juventude, choro muito, mas é um choro bom que lava a alma. Com você, passei os melhores e os piores momentos da minha vida aqui na Terra, o pior foi quando você partiu.

de tradicional família de origem ucraniana. Viúva do Dr. Fernando Corrêa, renomado cirurgião dentista, é mãe de três filhos, Fernando, Mayra e Felipe, também avó das gêmeas Caroline e Gabriela. Formada em piano clássico pela

Malena Kramer relata o reencontro de duas almas gêmeas depois de muito tempo... Nada, nem o que os homens chamam de morte, consegue desatar o inquebrantável laço de amor

[...] É impossível não sentir saudade, a saudade traz não só a dor, mas a emoção de recordar só os momentos bons do passado, os piores caíram no esquecimento através do perdão e do arrependimento. Sei que jamais estarei só, a morte não existe, você continua vivo, no plano em que se encontra agora, o tempo também não existe, não sei quando, mas sei que um dia nos reencontraremos e abraçados seguiremos pelo infinito.“

que há entre elas. Ainda menina, ela sonha em se tornar uma famosa pianista. Na infância, reencontra seu amor, e na adolescência a paixão desabrocha com uma

Academia de Música de Ponta

força avassaladora, vivida

Grossa, no Paraná, é professora

intensamente.

do instrumento desde a juventude. A fascinação pela leitura voltada para o sobrenatural e pela vida após a morte a levou a escrever de forma intuitiva, em 1999. Foi assim que nasceu seu primeiro romance, Malena Kramer, que só agora o publica e dedica àquele que foi seu grande amor.

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O hotel de sua família é seu pequeno paraíso. Sua vida vai se transformando e, já casada, encontra uma casa abandonada que será a perdição do jovem casal, se ela não lembrar que possui algo capaz de quebrar a maldição que os persegue.

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Copyright © 2013 by Luci Vitchmichem Todos os direitos desta edição reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida por qualquer processo eletrônico ou mecânico, fotocopiada ou gravada sem autorização expressa do autor. ISBN: 978-85-8255-017-5 Projeto gráfico: Aped - Apoio e Produção Editora Ltda. Editoração eletrônica: Thiago Ribeiro Revisão: Isabelle Vitorino Capa: Felipe Corrêa CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros – RJ V823m Vitchmichem, Luci     Malena Kramer / Luci Vitchmichem. - Rio de Janeiro : APED, 2013.       ISBN 978-85-8255-017-5       1. Espiritismo. 2. Romance brasileiro. I. Título. 13-0250.                                                                                           

CDD: 133.9 CDU: 133.9

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Aped - Apoio & Produção Editora Ltda. Rua Sylvio da Rocha Pollis, 201 – bl. 04 – 1106 Barra da Tijuca - Rio de Janeiro – RJ – 22793-395 Tel.: (21) 2498-8483/ 9996-9067 www.apededitora.com.br aped@wnetrj.com.br

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“Saudade é como um sino de bronze que tange na catedral do passado. Cada badalada é uma lembrança, cada lembrança é uma saudade. A mais bela nota da orquestra da vida é a recordação de uma pessoa amada.” Versos de um poema que extraí de um velho livro na longínqua infância e do qual eu não me recordo o autor. Ele ficou marcado para sempre em uma página do antigo álbum de recordações daquele que viria a ser meu marido 10 anos depois. E foi o mesmo que escolhi para compor a lembrança que foi distribuída para familiares e amigos na sua missa de sétimo dia, completada por uma frase que ele deixou destacada em sua mesa de trabalho: “Viver nos corações que deixamos não é morrer”. Fatos reais me fazem crer piamente que o acaso não existe. Depois deste poema que já previa a saudade, um laço inquebrantável de amor nasceu... 5

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Dedicatória

s Fernando, meu amor eterno, Agora eu sei que a hora da sua partida estava marcada e dedico este romance triste e lindo a você e ao nosso amor. Você vive em mim, em minha lembrança, em minha memória. E sei que nossos pensamentos se confundem... Mesmo agora. E isto me alimenta, me dá forças para continuar a lutar e a cumprir a missão que começamos juntos, pelos nossos filhos e pelas nossas netinhas que chegaram sete meses depois que você partiu como o sol para iluminar nossas vidas na manhã mais bela de dezembro, como você havia sonhado, elas têm cachinhos nos cabelos... Dois anjinhos lindos — mais uma razão para continuar a caminhada. Jamais imaginei que coisas semelhantes as que eu escrevia aconteceriam comigo, agora sinto que algo muito forte estava me preparando para eu ter forças para enfrentar toda aquela dor. O corte foi brutal, violento, a dor é inimaginável — apenas dois meses e tudo nesta vida estava acabado para nós. Eu perdi o chão e senti-me perdida num mar de dor e lágrimas. Na noite em que você partiu para a eternidade, eu me senti esmagada, parecia que todo peso do mundo estava sobre mim, eu estava despedaçada, 7

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pois minha metade fora arrancada brutalmente. Meu companheiro de todas as horas se fora... O que eu faria? Como viveria só? Tanta coisa para falar ainda, para viver... Eu nunca mais veria você! Este nunca mais doía tanto, tanto... Que eu parecia ter perdido a capacidade de raciocínio, pois tudo era só a dor e eu estava irremediavelmente só. Tinha nossos filhos, mas os filhos se vão. O mais velho, casado e morando em outra cidade. O mais novo, estudando também em outra cidade. A nossa filha tinha acabado de se formar, na certa não ficaria comigo por muito tempo, porém ela ficou do meu lado, dormindo noite por noite, tolerando sem reclamar a luz que eu mantinha acesa porque lia até amanhecer e só quando o dia estava claro eu adormecia vencida pelo cansaço. Quando acordava, algumas vezes — por uma fração de segundos — esquecia o que havia ocorrido, mas quando voltava à realidade, seu lugar na cama estava vazio ou ocupado por nossa filha. Era uma sensação indescritível que só quem viveu sabe como é. Chegou uma hora em que eu disse para ela voltar para seu quarto, aliás, troquei, fiquei com o dela e ela com o nosso de casal, porque eu não conseguiria dormir só ali. Durante muito tempo, o café da manhã teve gosto de lágrimas, era difícil levantar da cama e começar o dia sem você. Leitura infinita sobre a morte me fez, enfim, descobrir que nunca mais não existe, mas sim, até um dia. Até que nos encontremos novamente. Agora compreendo que você foi liberto antes de mim, que fez apenas a travessia que ainda terei de fazer um dia e que seria egoísmo mantê-lo do meu lado a qualquer preço, mesmo doente. Aquela dor era minha e eu teria de suportar. Sinto-me melhor com a certeza de que você já não sofre no plano onde está. Eu penso sentir a sua presença muitas vezes e isto me conforta. Cada canto da casa me lembra você. Não penso em você lá, naquele túmulo frio e escuro, pois você não está lá. Tento pensar só nas coisas boas que vivemos. Penso em você forte e saudável, com aquele sorriso meigo e aquele olhar que talvez só eu conhecesse. Eu que sentia tanta atração por histórias com baús misteriosos que continham coisas do passado, acabo de arrumar o seu onde estão contidas as coisas 8

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que você mais gostava e guardava com tanto carinho. As medalhas de basquete das quais você tanto se orgulhava. Eu pensava muitas vezes em nossa adolescência e juventude, que o basquete era o meu grande rival, porém nisso e em tantas coisas mais, você foi brilhante. Eu e nossos filhos escolhemos para guardar muitos objetos seus, alguns referentes à sua profissão a qual você tanto se dedicava. Você nem podia imaginar quanta gente gostava de você, não só como profissional, mas também como pessoa. Separamos livros, fotos, coisas do cotidiano para mostrarmos para a futura geração, para que conheçam a sua história, a nossa história, lembranças de uma vida. Você também teve suas fraquezas, errou muitas vezes. Eu talvez não tenha sido sempre a esposa perfeita, devo ter cometido vários erros ao longo dos 28 anos em que estivemos casados, alguns talvez de que nem eu mesma tivesse consciência. Mas quem não erra? Fomos felizes, muitas vezes nem tanto, sofremos, choramos. Erramos tentando desesperadamente acertar, mergulhamos fundo nas emoções e sempre juntos, como se fossemos um só. Isto se chama amor. Um grande e infinito amor. Caímos juntos, levantamos juntos e ele continuou forte e inabalável proporcionando-nos momentos de plena paz e alegria. Você conseguiu dar aos nossos filhos muito mais do que qualquer coisa material: amor, compreensão, carinho, atenção, diálogo e educação. Com todas estas coisas e muito mais, eles aprenderam com você o que é realmente o verdadeiro sentido da palavra pai. Não adquiriu fortuna, porque foi generoso. A sua generosidade não teve limites. Não encontrou barreiras. E isto só nós dois sabemos. Às vezes, nós dois achávamos que éramos sacrificados, injustiçados, porém agora tenho certeza de que tudo que fizemos só serviu para elevar o teu espírito diante de Deus. Mas nada importa agora. Importante foi a nossa união, o nosso companheirismo, a nossa cumplicidade, a forma como educamos nossos filhos, o amor que vivemos. Algo que poucas pessoas têm a chance de experimentar. Esta é a nossa maior fortuna e me conforta saber que ele não acaba nem mesmo com a nossa despedida. 9

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Quantas noites, durante o seu padecimento, observava você dormindo do meu lado e sentia medo de que você não resistisse ao tratamento que teria de enfrentar quando se fortalecesse. Então, pensei que do tempo que te restasse eu faria ser especial, te amaria como jamais alguém sonhou ser amado. Que pensamento cruel! Que engano! Se você vivesse mais, talvez fossem os piores momentos de toda a sua vida. Você foi liberto. Tudo aconteceu como tinha de ser, como Deus quis. Eu saio ferida, mas que força estranha encontro. Eu que não havia passado uma noite sozinha em um quarto, agora aprendi a ficar só para lutar, cuidar de mim e esta força vem de cima, de Deus, de você e outros bons espíritos que velam por nossa família. Eu encontrei paz, sabedoria e força nos livros que ensinam a verdade, que é a caridade, o amor a Deus e ao próximo, a resignação, o arrependimento e o perdão. Encontrei o caminho para seguir em frente, faltando uma metade. Saí ferida, cheia de cicatrizes que às vezes doem muito, mas é assim, assim que tem de ser. Foi a vida que escolhi viver antes de voltar a este plano, porque provavelmente já estive aqui e não sei se estou no caminho certo para partir e não mais voltar... Eu sei que você tem de ir, aprender, evoluir, mas quando a saudade apertar... Venha... Venha pelo pensamento, pelos sonhos ou de outra maneira... Mas venha sempre que puder. Quando recordo o passado, ouço uma canção da nossa juventude, choro muito, mas é um choro bom que lava a alma. Com você, passei os melhores e os piores momentos da minha vida aqui na Terra, o pior foi quando você partiu. Os mais doces foram na nossa adolescência, ela foi como um sonho bom, daqueles que jamais queremos acordar, isto nunca ninguém vai tirar de mim. Depois o nosso casamento, o nascimento de cada um dos nossos filhos, momentos marcantes de muita emoção. O casamento e formatura do Fernando, a formatura da Mayra, quando o Felipe entrou para a faculdade. As bodas de ouro dos nossos pais, as nossas bodas de prata que foram comemoradas sem pompa, nós dois pintando uma parede num momento de grande dificuldade, mas estávamos juntos e mais unidos do que nunca e era isso que importava. Eu fico feliz quando ouço alguém que nos conheceu adolescentes 10

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dizer que: “Luci e Fernando eram sinônimo de amor”, ou que, se existiu um amor na vida foi o nosso. Momentos inesquecíveis de um amor que começou ainda na infância. É bom quando estes momentos ficam vivos na memória e no coração, quando a vida era apenas um sonho e cabia inteirinha num olhar, num sorriso, num afago, num beijo. São nesses momentos que sinto sua presença. É a emoção que diz que você está do meu lado, nos momentos especiais, em algumas datas ou mesmo em dias comuns. É impossível não sentir saudade, a saudade traz não só a dor, mas a emoção de recordar só os momentos bons do passado, os piores caíram no esquecimento através do perdão e do arrependimento. Sei que jamais estarei só, a morte não existe, você continua vivo, no plano em que se encontra agora, o tempo também não existe, não sei quando, mas sei que um dia nos reencontraremos e abraçados seguiremos pelo infinito. Eu jamais esquecerei e guardarei para sempre uma frase muito verdadeira que você escreveu no verso de uma foto que me deu junto com um presente no Natal de 2002... “Como anjos de uma só asa precisamos estar abraçados para voar”. Luci

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Agradecimentos

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Consegui sobreviver à dor depois que a minha vida se modificou graças a Deus e a quem esteve sempre do meu lado, por isso agradeço à minha família, em especial aos meus filhos e minhas netinhas gêmeas, Caroline e Gabriela, razões maiores para continuar a longa caminhada. E a eles, sou grata... Como também, a minha Editora APED, em especial à Zélia de Oliveira e a agente literária Isabelle Vitorino, que realizaram o sonho de ver meu romance publicado.

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Capítulo 1

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oce sonho de infância perdido no tempo, a lembrança veio à tona acompanhada de um pranto silencioso. Lágrimas rolavam quentes pela face de Malena. Ela sentia saudade de um tempo feliz onde a vida era feita de fantasias. Olhando pela janela a chuva que caia lenta e melancólica, tinha a sensação de que viver era só dor e lágrimas. A vida seguia seu curso, as pessoas riam e se divertiam lá fora indiferentes a sua triste história. Ela sentia que não faria parte deste mundo por muito tempo, não queria abandonar a luta, mas estava cansada, já chegara ao limite de suas forças. Ela sentia que sua alma já começava a se desprender do corpo e era chegada a hora de partir. As imagens eram muito fortes e povoavam sua mente dominando-a por inteiro, então ela voltou ao passado... 1969, nove anos de idade, diante do espelho onde se arrumava, ela falava consigo mesma, e sua voz soava baixinho: — Malena Kramer, Malena Kramer... Um futuro brilhante te espera. — Ela gostava do seu nome, achava que ele soava bem. Desejava ser uma grande pianista, porém para que isto acontecesse precisaria de muitas horas de aulas e de estudos no colégio 15

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e tocar nas suas apresentações anuais, e então ganhar um piano de seus pais para ensaiar muito na sala de sua casa. E num futuro distante, depois de terminar o curso e frequentar uma faculdade, ela se aperfeiçoaria, só então estaria pronta para se apresentar nos clubes de sua cidade. E talvez um dia pelo mundo afora. Esses sonhos povoaram toda a infância e adolescência de Malena. Naquele dia, ela não precisara do uniforme, vestia um casaco de lã vermelha, usava meias de lã branca e sapatos pretos, os longos cabelos castanhos claros eram presos por um elástico. Era apenas uma menininha sonhadora de grandes e expressivos olhos verdes. Uma voz tirou-a daquele devaneio: — Lena! Papai nos espera! — Era sua irmã que a chamava. Elas estudavam em um dos melhores colégios da região sul do Brasil, que ficava em uma pequena e fria cidadezinha no sul do Paraná em regime de internato. Começavam as férias de inverno, passariam todo o mês de julho em casa. O pai, Augusto Kramer, esperava-as na portaria do colégio. Ela e Luíza apanharam as malas e seguiram pelos frios corredores de aspecto sombrio. Desceram as escadarias, abraçaram o pai, despediram-se das irmãs e foram para o carro. Enquanto se afastavam Malena olhava para trás e observava o colégio, era uma antiga construção em estilo europeu, ladeado por altos muros e frondosos cedros, que nas noites de tempestade curvavam-se ao vento produzindo um som assustador. No entanto, ela se sentia atraída por esse aspecto sinistro. No caminho, Luíza contava tudo o que se passara nos últimos quatro meses. Seu pai a ouvia com atenção. Malena já esperava pela pergunta. — E você Lena? Perdeu a língua no colégio? Conta alguma coisa. — Lena, era como as pessoas mais íntimas chamavam-na. Ela tentou responder. — Comecei a aprender piano papai, eu estou... — Ele nem escutou, continuou a ouvir sua irmã atentamente. Ela sentiu um aperto na garganta pelo esforço que fazia para conter as lágrimas. Situações como esta fizeram-na perder noites e noites de sono a chorar baixinho até que o cansaço a dominasse e quase ao amanhecer, adormecesse. 16

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Uma hora depois, ela já havia esquecido as lágrimas, uma magnífica paisagem iluminava os seus olhos. Estavam na balsa que os levaria ao outro lado da margem do rio, era lá que elas moravam. O lugar que Lena mais amava no mundo. No alto do portão de entrada da propriedade, embalada pelo gelado vento do inverno do sul, a grande placa de madeira com grandes letras entalhadas: Hotel Kramer. O local era uma estância hidromineral da qual o pai das meninas era o proprietário. Ao descer da balsa, o carro seguia por uma curta estrada, ladeada por árvores que na primavera ficavam repletas de flores, nos fundos, a sombra de um bosque se erguia o hotel de três andares, pintado de amarelo claro com janelas e portas brancas, do lado esquerdo ficavam alguns chalés, havia também um campo de futebol e uma quadra esportiva. No meio de tudo aquilo, o mais belo jardim que alguém possa imaginar; no centro deste ficava a fonte, e dela jorrava sem cessar uma água cristalina. Um pouco adiante, ficavam as piscinas. E pequenos postes brancos com lanternas iluminavam o jardim onde as pessoas costumavam se sentar nos bancos nas noites de verão. Ele estava na família há mais três gerações, no início era uma simples pousada de madeira, tudo muito rústico, mas gradativamente foi se modificando até se tornar como era atualmente. Ao sair do carro, Lena foi correndo para a casa que ficava atrás do hotel, um pequeno sobrado com pintura igual a do hotel. Na entrada, dois vasos com folhagem davam um ar acolhedor, era decorada de maneira rústica e aconchegante. A mãe e a avó esperavam-nas, depois de abraçá-las Lena pretendia contar sobre as aulas de piano, mas Luíza foi o centro das atenções, então ela se calou. Subiu correndo as escadas que a levaram ao quarto que dividia com a irmã. A mobília era de madeira pintada de branco; nas camas, colchas e almofadas de cor rosa davam suavidade ao local. Várias bonecas e bichos de pelúcia enfeitavam o ambiente, a cortina de um leve tecido branco na janela que se abria para o bosque, dava um ar de conto de fadas. Lena deixou suas coisas sobre a cama e desceu correndo as escadas. Sua mãe falou: 17

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— Lena, venha contar sobre a escola. — Mas ela não parou com medo de começar e ser interrompida como acontecia quase sempre. Saiu correndo ao encontro das crianças do local, filhos de funcionários do hotel e de alguns hóspedes. As crianças contornavam o rio, corriam pelo campo de futebol, pelo jardim e pelo bosque e davam longos passeios de bicicleta. Iam até a sala de jogos e ao saguão do hotel decorado com várias poltronas de couro marrom — no assoalho havia tapetes tipo persa, como também, um espelho grande e vasos com folhagem. Assistiam TV, depois iam à lanchonete, onde famintos faziam um reforçado lanche. No grande salão de festas que estava vazio, brincavam entre as mesas que eram decoradas com toalhas vermelhas que pareciam ter sido feitas especialmente para o Natal. Leves cortinas brancas balançavam com o vento, dando um ar agradável ao ambiente que se abria de um lado para o jardim e de outro para o bosque. A alegria delas atraia uma energia leve e agradável ao local, e alguém invisível aos olhos das crianças acompanhava Malena em quase tudo. As brincadeiras só eram permitidas durante o inverno porque no verão o hotel ficava repleto de hóspedes. Lena não parava em casa mesmo que isto às vezes lhe custasse uma semana perdida com tosse e febre. Em uma daquelas tardes ao chegar suja de lama, foi surpreendida pela voz grave da mãe: — Malena Kramer, não se atreva a entrar em casa suja assim! — Ela ficou feliz e apenas sorriu. Sem reclamar deu meia volta, indo até os fundos lavar os pés em uma torneira. A mãe não entendeu porque sorrira, ela não sabia o quanto a menina gostava quando era chamada pelo seu nome inteiro. Lena lembrava com saudade das tardes de inverno de sua infância, o cheiro de torta de maçã e café com leite que invadia a casa nas longas tardes de frio e de chuva. Ela e Luíza aconchegadas no sofá de couro marrom ou sobre o tapete de pele branca cobertas com uma manta de lã onde assistiam TV ou escutavam as longas histórias que vovó Maria contava enquanto a mãe si18

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lenciosa tecia. Ainda sentia o cheiro de sua casa, o odor de café com leite e maçãs sempre fora o cheiro de sua infância, o cheiro de sua casa paterna, o lugar onde melhor ela se sentira durante toda a vida. O Hotel Kramer era o seu pequeno paraíso. Lena não sabia, mas talvez já tivesse estado ali, vivido ali em outra época. Não importava onde ela estivesse no futuro, seu espírito permaneceria apegado aquele lugar e sempre que pudesse voltaria. Ela jamais esqueceria, o local estaria encravado no mais íntimo do seu ser, na mais doce lembrança, a única época em que fora verdadeiramente feliz. A infância, talvez seja para a maioria das pessoas a única etapa da vida em que se é realmente feliz ou a única em que se experimenta um pouco dela. Ao longo da vida o que entendemos por felicidade se resume apenas em breves momentos. Pois felicidade plena só se alcança em outra dimensão, depois de ter passado por todos os graus da escala espiritual. Suzana Kramer, a mãe, às vezes parecia estranha, embora as meninas soubessem de seu imenso amor por elas raras vezes o demonstrava. Ensinava a elas regras de boa educação, a cuidar de suas coisas e de seu quarto, como, mantê-lo limpo e arrumado, assim como elas mesmas deviam estar sempre limpas e asseadas. Aprendiam diversos tipos de trabalhos manuais e como cuidar de uma casa. Ela dizia que talvez nunca precisassem fazer aquilo, mas saber como fazer era muito importante na vida de uma mulher. O que faltava realmente era aquela conversa de mãe para filha sobre sentimentos, isto não interessava a ela, nem o que sentiam ou deixavam de sentir. Lena e Luíza sempre souberam que seu comportamento era fruto da educação rígida que recebera de seus pais. Ela não participava da vida no hotel, sua função era cuidar da casa e das filhas, o resto do tempo ocupava com trabalhos manuais. Quanto ao pai, ele era mais aberto a conversas, às vezes Lena achava que o problema era com ela, porque ele ouvia tudo o que Luíza falava, ela sempre chegava primeiro e era o centro das atenções, quando com Lena era assim: se não perguntavam nada 19

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a ela, ela nada dizia. Com o tempo foi se fechando, nem mesmo com a irmã ela se abria, escondia sua verdadeira personalidade. Ela pensava que Luíza em sua exuberância devia achá-la muito insignificante, não sabia se era um estorvo ou ocupava um papel importante em sua vida, às vezes sentia-se como uma pequena sombra da irmã. Com sua avó Maria, tudo era diferente. Ela era sábia no jeito de dizer as coisas, era tudo muito verdadeiro, ela não errava jamais em suas previsões e a ouvia pacientemente, e não era só uma sabedoria típica de quem muito viveu. Era um dom. Ouvia para depois emitir sua opinião ou aconselhar e também se comunicava com os mortos. Às vezes ao olhar no fundo de seus olhos azuis e observar em seu semblante uma sombra de amargura, Lena imaginava que ela escondia uma dor profunda ou guardava na alma um grande segredo. Era sua avó paterna, o avô nem conhecera, morrera antes dela nascer, assim como o avô e a avó materna. Vira fotos deles e tivera doce e carinhosa impressão. O mês de julho passou depressa, as meninas Kramer estavam novamente no colégio, Lena a cada dia aperfeiçoava seus estudos ao piano, adquirindo muita agilidade, uma sombra gentil a acompanhava. Ela acabara de completar 10 anos de idade e já executava alguns minuetos de Bach, peças de vários compositores e muitos estudos técnicos. Luíza nem tomava conhecimento, adorava os Beatles que eram a febre da juventude na década em que estavam vivendo. Lena também gostava deles, embora sua paixão fossem as composições de Chopin e Beethoven. Lena jamais tivera ciúme do temperamento de Luíza, ela era extrovertida e tinha uma exuberância natural, seu oposto, calada, discreta, introvertida e sensível, se magoava com facilidade. Ela queria ser aceita por seus pais do jeito que era. Eles desejavam que ela fosse igual à irmã, mas ela era Malena, jamais seria Luíza ou como Luíza. Eram como água e vinho. Só que eles não compreendiam que ela era como era e não como eles queriam que ela fosse. Era uma menina boa e generosa, desde muito pequena dividia seus brinquedos com as crianças dos empregados do hotel 20

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e em ocasiões especiais os doava. Ficava a margem do rio a esperar por crianças carentes que atravessavam a balsa para furtivamente observar a beleza da propriedade dos Kramer, Lena levava uma cesta com sanduíches, frutas, doces e fazia piquenique com elas. Muitas vezes levava a bicicleta e brinquedos com os quais elas nem poderiam sonhar que existissem, deixava que brincassem e muitas vezes que levassem para suas casas. Ela sempre se perguntava por que tinha tanto e aquelas crianças quase nada. E não era só obra de vovó Maria ensinar Lena a repartir, isto fazia parte de sua personalidade, do seu jeito de ser, ela desconhecia a palavra egoísmo. A rotina no colégio era repleta de atividades, pela manhã as aulas do ano letivo e à tarde além de várias tarefas, ela participava do curso de piano, bordado e pintura em telas. Luíza preferia os esportes. No meio da tarde era meia hora de recreio, depois ficavam na sala de estudos até as 17h00min, então iam para o banho. Depois do jantar, assistiam TV até as 21h00min horas só então iam para a cama. Só tinham certa liberdade nos sábados à tarde e aos domingos, neste dia também dormiam um pouco mais, as atividades não eram totalmente livres e tinham que seguir dentro das rigorosas normas do colégio, dirigido pelas bondosas freiras. Mais uma vez era dezembro e estavam em casa, logo começaram as perguntas: — Conta algo Lena. E a escola? — Estou aprendendo piano, eu estou... — Foi interrompida por seu pai. — E você Luíza? Como vão os jogos? Num ímpeto ela saiu correndo, engolindo as lágrimas foi para a beira do rio onde sempre conseguia se acalmar, porém não percebia que alguém ao seu lado a acalentava. O Natal se aproximava e os hóspedes chegavam sem parar, por isso iniciava-se a ornamentação natalina. Lâmpadas e bolas coloridas foram colocadas por toda parte, no portão de entrada que ficava junto à balsa, nas árvores do jardim, nas portas, nas janelas, no saguão, no restaurante e no salão de festas. Para completar a decoração a maior árvore de Natal que alguém possa imaginar com o mais belo presépio. 21

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Degusta Malena Kramer