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Casou-se pela primeira vez aos 18 anos, e foi mãe aos 20. A paixão por animais levou-a a fazer seis cursos técnicos na área animal, culminando na faculdadede de medicina veterinária, academia esta, que não levou até o fim. Por muito tempo, ela se declarou como ex-futura veterinária frustrada. Aos 28 anos, casou-se pela segunda vez, teve mais três filhos e prestou vestibular para Serviço Social, tornando-se uma excelente profissional.

Aos 9 anos precisamente, comecei a ver uma velha feia e muito negra, que me olhava como se estivesse me vigiando, eu tinha muito medo. Qualquer barulho à noite, eu corria para cama dos meus pais, embora dormisse no mesmo quarto com meus irmãos. Tinha insônia só de pensar que poderia ver alguma coisa. Porém, havia uma coisa muito estranha que gostava de fazer; ficava muito feliz quando íamos com meu pai ao cemitério, visitar o túmulo de nossos parentes. Eu ficava encantada com as sepulturas, e com a paz enorme que me invadia. Estranhamente, lá, eu não pensava em fantasmas.

A Rebeldia das Rosas

Márcia Lopes dos Santos nasceu em Niterói-RJ. Teve uma adolescência difícil, por não entender e não aceitar sua mediunidade.

Eu era muito medrosa a respeito de espíritos e fantasmas, e a tudo que favorecesse ao lado místico. Escutava minha avó me chamar, apesar de não tê-la conhecido. Quando ela deixou este mundo, eu era muito pequena. Na sala de estar havia um quadro grande com a foto dela e meu avô; este ainda estava vivo. Mas, eu não entrava na sala sozinha, pois tinha pavor daquele retrato.

Márcia Lopes dos Santos

Crescendo junto comigo. Estive em contato com ele, até perder a virgindade.

Márcia Lopes dos Santos

A Rebeldia das Rosas

A Rebeldia das Rosas, é um romance espírita, onde conta as histórias de duas mulheres guerreiras, que viveram em épocas diferentes e a misteriosa ligação de suas vidas com a vida da autora. A história é contada com graça, beleza e fascínio, levando o leitor ao envolvimento e reflexão.

Plantou árvores, escreveu três livros (ainda não editados) e, hoje, vem compartilhar com o leitor essa experiência.

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Copyright © 2013 by Márcia Lopes dos Santos Todos os direitos desta edição reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida por qualquer processo eletrônico ou mecânico, fotocopiada ou gravada sem autorização expressa do autor. ISBN: 978-85-8255-058-8 Projeto gráfico: Aped - Apoio e Produção Editora Ltda. Editoração eletrônica: Thiago Ribeiro Revisão: William Kleber Carneiro de Macedo e Aped - Apoio e Produção Editora Ltda. Capa: Thiago Ribeiro

CIP-Brasil. Catalogação-na-Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros – RJ S236r         Santos, Márcia Lopes dos, 1959            A rebeldia das rosas / Márcia Lopes dos Santos. - 1. ed. - Rio de Janeiro : APED, 2013.         188 p. : il. ; 21 cm.                         ISBN 9788582550588         1. Romance brasileiro. I. Título. 13-02595  

CDD: 869.93 CDU: 821.134.3(81)-3

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Aped - Apoio & Produção Editora Ltda. Rua Sylvio da Rocha Pollis, 201 – bl. 04 – 1106 Barra da Tijuca - Rio de Janeiro – RJ – 22793-395 Tel.: (21) 2498-8483/ 9996-9067 www.apededitora.com.br aped@wnetrj.com.br

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Aos meus amigos encarnados e desencarnados. “As experiências não são só para serem vividas e sim divididas.”

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Dedicatória

A Deus e Meishu-Sama, agradeço por tê-lo reencontrado após três mil anos. Agradeço por existires em minha vida e reconheço que sem Vós, eu não seria nada! Agradeço a meus ancestrais e antepassados por terem gerado meus pais, por meus pais terem me gerado, por eu ter gerado meus filhos e por meus filhos estarem gerando meus netos. Agradeço a meu pai Pedro Lopes dos Santos, que me educou dentro dos princípios da moral e honestidade. Saiba querido pai, que depois de tua partida não passa um só dia que eu não pense em ti. Te amo. Agradeço a minha mãe Lina, por ter sido e ter permanecido como minha protetora e grande amiga, apesar dos seus 81 anos de idade. A você meu marido, agradeço pelo companheirismo e cumplicidade nesses 24 anos de enlace, carregados de amor e paciência. A vocês meus filhos, por serem pessoas corretas, amigas e que nunca me causaram aborrecimentos. A você meu irmão Paulo Henri Lopes dos Santos, que é meu amigo fiel e companheiro de todas as horas. 7

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Em especial a você, sensei, que sem você essa história não existiria; muito obrigada meu grande amigo reverendo. E as pessoas que mesmo sem aparecer, fizeram parte desta obra. Obrigada a todos!

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Sumário

Introdução ......................................................................... 11 Capítulo 1 – Família – Infância – Adolescência ................... 19 Capítulo 2 – Dominação – 1ª Vez . ......................................... 27 Capítulo 3 – Primeiro Casamento – Doença. ......................... 33 Capítulo 4 – Johrei – Primeiro Contato.................................... 33 Capítulo 5 – Mentalizando a Luz da Messiânica – Milagre........ 35 Capítulo 6 – Acumulo de Erros – Problemas.......................... 37 Capítulo 7 – Johrei – Segundo Contato................................... 41 Capítulo 8 – Dominação – Missão........................................ 43 Capítulo 9 – Segundo Casamento – Parto Difícil, Assistido...... 45 Capítulo 10 – Terceira Filha – Parto Tranquilo...................... 49 Capítulo 11 – Entrega – Missão........................................... 51 Capítulo 12 – Um Espírito Magoado........................................ 53 Capítulo 13 – Comprovação para o Mtrº M.............................. 57 Capítulo 14 – Vida de Moemy.................................................. 61 Capítulo 15 – Salvando Espíritos............................................. 69 Capítulo 16 – Jean Pierre....................................................... 79 Capítulo 17 – Zé – Afinidades Espirituais................................... 85 Capítulo 18 – Encaminhando Zé para Salvação Moemy está no Caminho da Luz ..................................... 89 Capítulo 19 – Sentimento de Vergonha – Missão Difícil............. 93 9

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Capítulo 20 – Salvação De Zé ................................................ 95 Capítulo 21 – Viagem Missionária – Alegria dos Antepassados ... 103 Capítulo 22 – Entronização do Altar do Lar. ......................... 107 Capítulo 23 – Manifestação do Meu Avô – Encaminhamento e Salvação do Espírito................................................. 109 Capítulo 24 – Sonnen (Pensamento – Sentimento em Ação)....... 113 Capítulo 25 – Resgate De Karma............................................ 115 Capítulo 26 – História de Vovó Tereza – Ingagaiá................ 117 Capítulo 27 – Noivado – Casamento De Ingagaiá.................... 123 Capítulo 28 – Início de uma Vida Sofrida. ............................... 131 Capítulo 29 – Nome............................................................ 133 Capítulo 30 – Tomaz........................................................... 135 Capítulo 31 – Disfarçando a Religião – Novos Rituais.............. 137 Capítulo 32 – Reencontro com o Ódio................................. 139 Capítulo 33 – Um Presente de Sinhá....................................... 141 Capítulo 34 – Parto de Sinhá................................................ 145 Capítulo 35 – Casamento com Cipriano. ................................ 147 Capítulo 36 – Nova Sinhá.................................................... 149 Capítulo 37 Uma Ordem De Sinhô Mizael – Fuga...................... 151 Capítulo 38 – Morte – Continuidade da Vida no Mundo Espiritual................................................................... 153 Capítulo 39 – Aprendizado no Mundo Espiritual...................... 155 Capítulo 40 – Manifestação em Pessoas com Missão Especial. .... 161 Capítulo 41 – Aparição de Vovó Tereza Aproximação – Manifestação............................... 165 Capítulo 42 – Constatação Médica Não é uma Pessoa Normal....169 Capítulo 43 – Umbanda........................................................ 171 Capítulo 44 – Ajuda Equivocada – Involução. ........................ 173 Capítulo 45 – Reflexão. ....................................................... 175 Capítulo 46 – Zelando por sua Menina................................... 177 Capítulo 47 – Parecer de: Márcia – Jean Pierre – Moemy – Ingagaiá.................................................... 183

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Introdução

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ste livro é uma grande experiência de Fé que venho compartilhar com você, leitor. A rebeldia de cada uma das rosas que é citada aqui é uma rebeldia guerreira de força, de coragem e de fé. Aprendi a amar a jovem impulsiva que morreu tão cedo e que existiu de verdade e continua existindo em várias mulheres. A você Moemy Chandinelli, a minha sincera gratidão, por tê-la conhecido tão de perto e ter tido um grande aprendizado. Eu ri e chorei com você, compartilhei sonhos e segredos e te admirei, amei seu jeito doce e amei o amor que sentes por mim. Muito obrigada. A você Ingagaiá minha doce, engraçada e bondosa vovó Tereza, todo meu amor e gratidão. Peço-vos perdão por ainda estar chorando sua partida, perdoe-me se infantilmente sou egoísta. Guardarei comigo o teu amor, e utilizarei em vida seus conselhos e ensinamentos de grande sabedoria. Aprendi com você que cultura não é sinônimo de educação; que família é um elo que não se rompe, e choradeira tem limite!. Obrigada por ter me escolhido! Sou uma jovem senhora que, nesta vida, teve grandes realizações, além de ter tido filhos, plantado uma árvore e escrito 11

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livros, fiz grandes amizades, puras e verdadeiras e então me considero rica. A capa e o título desse livro me foram entregue há seis anos. Sonhei com um primo meu, que está em aprimoramento há 24 anos no mundo espiritual. No sonho, cheguei a uma casa, na qual já morei. Estavam lá meus filhos, pequenos ainda, meus pais e meus tios. Todos nós estávamos de branco, meu pai chorava muito, tentando me dar uma notícia que o deixara arrasado, os médicos haviam me desenganado, eu estava com dias contados. Percebi que meu tio estava me escondendo algo, ele se esgueirava pelos cantos até chegar num certo cômodo que não queria que eu entrasse. Ele carregava vários baldes de água, e eu, curiosa, sem me dar conta, passei pela parede. Lá dentro meu tio lavava as paredes e escondia meu primo. Quando o vi, fiquei muito feliz; só que ele não queria falar comigo. Estava muito revoltado e com medo. Eu cheguei perto dele, como sempre fazia, e fui abraçá-lo. A princípio, ele não deixou; parecia assustado. Comecei a conversar com ele dizendo que ele continuava lindo como sempre e que eu estava contente em vê-lo com roupas limpas. Ele me abraçou e contou como estava e o que acontecia com ele. Estava com um livro na mão e eu perguntei que livro era aquele, ele me respondeu que era um livro que o estavam obrigando a ler. Eu pedi para ver o livro, segurando-o em minhas mãos e vi, então, nitidamente a capa e título do livro. Eu o abri e ali não havia nada escrito. No dia seguinte, fui em quatro livrarias espíritas, três livrarias católicas e cinco livrarias evangélicas, e não encontrei o tal livro. Quando comecei a escrever, foi que compreendi que este era o meu livro. Surpreendi-me, agradeci e entendi. Não tenho algemas e nem amarras, sou livre para amar, escrever e sonhar!

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Capítulo 1 Família – Infância – Adolescência

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asci em uma família pobre, sendo a segunda de três irmãos. Mais tarde, ganhamos uma irmã de criação que era mais velha do que nós. Cresci normalmente como toda criança de família pobre, porém, bem estruturada. Fui acometida por uma doença grave aos 8 meses de idade, chamada poliomielite, causando danos em meus membros, e grande sofrimento aos meus pais e parentes. Conforme eu crescia, sentia-me diferente, não por ser deficiente, isso eu tirava de letra, pois meus pais me ensinavam a não ter complexo. Mas a diferença era que eu via e ouvia coisas estranhas; vozes me chamavam e fantasmas se mostravam. Não sei se vinha deles, mas a proteção que eu tinha era muito grande. Aos 4 anos de idade, meu irmão caçula nasceu, enquanto minha mãe estava na maternidade, nós três ficamos com uma prima que era uma jovem bastante responsável. Numa manhã, enquanto ela preparava o almoço, minha irmã e eu brincávamos na soleira da porta, eu com as costas para dentro da cozinha e ela para fora. Estávamos brincando de engolir barbante; foi quando nossa prima retirou uma panela do fogão contendo carne seca es13

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caldada, colocou em cima da pia e de repente o cabo desta soltou, e toda aquela água fervendo foi parar em minhas costas; desse flash minha memória vai para o quintal da casa, onde meu pai andava comigo no colo pra frente e para trás; eu chorando metendo a mãozinha nas faixas que cobriam meu ombro esquerdo e minhas costas. Incrivelmente, não fiquei com cicatriz alguma. Desde cedo meus pais me ensinaram a rezar, e eu rezava muito; rezava pelas plantas, pelos bichinhos lá de casa e pelos coleguinhas quando ficavam doentes e, de alguma forma, Deus sempre me ouvia. Aos 7 anos de idade, sofri uma intervenção cirúrgica devido a uma apendicite aguda. Fiquei internada durante 10 dias. Correu tudo bem e virei até a mascote da clínica médica. Passei a ver um menino que minha mãe dizia que era meu anjo e esse “anjo” foi crescendo junto comigo. Estive em contato com ele, até perder a virgindade. Eu era muito medrosa a respeito de espíritos e fantasmas, e a tudo que favorecesse ao lado místico. Escutava minha avó me chamar, apesar de não tê-la conhecido. Quando ela deixou este mundo, eu era muito pequena. Na sala de estar havia um quadro grande com a foto dela e meu avô; este ainda estava vivo. Mas, eu não entrava na sala sozinha, pois tinha pavor daquele retrato. Aos 9 anos precisamente, comecei a ver uma velha feia e muito negra, que me olhava como se estivesse me vigiando, eu tinha muito medo. Qualquer barulho à noite, eu corria para cama dos meus pais, embora dormisse no mesmo quarto com meus irmãos.Tinha insônia só de pensar que poderia ver alguma coisa. Porém, havia uma coisa muito estranha que gostava de fazer; ficava muito feliz quando íamos com meu pai ao cemitério, visitar o túmulo de nossos parentes. Eu ficava encantada com as sepulturas, e com a paz enorme que me invadia. Estranhamente, lá, eu não pensava em fantasmas. Esqueci-me de dizer que fui alfabetizada aos cinco anos de idade, porque chorava muito querendo ir para o colégio. Sendo 14

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uma escola pública, as crianças só ingressavam aos sete anos; não existia maternal e jardim de infância. Minha mãe conversou com a diretora do colégio e esta concordou com meu ingresso, pois meus irmãos mais velhos já estudavam lá. Não pude ser matriculada devido a pouca idade, mas, mesmo assim, estudava como os outros alunos mais velhos do que eu. Tinha orgulho de vestir o uniforme da Escola Municipal Duque de Caxias, onde eu era a mascotinha. Fui uma criança muito inteligente e líder em brincadeiras e grupos. Meu pai era muito severo, e nós tínhamos medo dele. Minha mãe era carinhosa, protetora e não fazia distinção entre nenhum de nós. Eu usava botas ortopédicas muito pesadas; levava tombos toda hora, mas brincava de tudo que eu gostava, principalmente de “Bente Que Bente Ó Frade” e programa de calouros, onde eu queria sempre cantar mais do que os coleguinhas. Meu pai contava-me histórias de como São João segurava o mundo e São Pedro lavava o céu: “O mundo é como uma grande bola de futebol que Deus deu a São João para segurar e cuidar.” São João disse para Deus: — Senhor, gostaria de brincar com essa bola, queria chutá-la. Posso Senhor? Deus respondeu: — Só no dia do seu aniversário, João. — E quando é meu aniversário, Senhor? — É dia 24 de junho, João. — Ah! Então nesse dia vou poder chutar o mundo! Todo ano do dia 23 para 24 de junho, Deus coloca São João para dormir e só o deixa acordar no dia 25. Quando ele acorda pergunta a Deus: — É hoje meu aniversário, Senhor? Posso chutar agora? — Não João, não é mais dia 24, já é dia 25, você dormiu; quem sabe no ano que vem?! Então, João, obediente, se conforma, e fica esperando o próximo ano.” 15

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Eu chorava emocionada (como estou agora), e dizia: ah! Pai! Coitadinho de São João, dormir no próprio aniversário, coitadinho dele. Então, meu pai me consolava: “Não fique triste, Deus sabe o que faz!”. E todas às vezes que roncava, trovoada, e eu ficava com medo; meu pai me dizia que era São Pedro arrastando os móveis do céu para poder lavá-lo. Os móveis são muito pesados, por isso faz muito barulho. Depois que ele tira os móveis, abre uma grande torneira para lavar tudo. É por isso que molha aqui embaixo. Eu ficava vibrando, imaginando o tamanho dos móveis do céu. Meu pai fazia aniversário no mês de junho, nascera na véspera de São Pedro, 28 de junho, ele adorava fazer balões de papel fino, que eram confeccionados com muito esmero, colada folha por folha com cola de farinha de trigo. Eu observava todos seus movimentos e aprendia só de olhar. Na nossa casa tinha festa junina na noite de São João e na de São Pedro também, com fogueira, aipim, batata doce e cana assada. Balões com bucha de saco de estopa com parafina e querosene. Meu pai, meu primo e seu compadre bebiam bastante, e pela madrugada estavam tortos e resolviam soltar um balão, sozinhos, e conseguiam! Meu primo segurava o balão com o bambu do varal, meu pai colocava a bucha e enchia com a fumaça da fogueira, que a essa altura só tinha um braseiro enorme. Preparava o balão, botava fogo na bucha, segurava-o pela boca, e meu primo tirava o bambu e começavam a gritar; meu pai dizia: Ô LEVA ELE e meu primo respondia SÃO JOÃO. Ô LEVA ELE SÃO JOÃO! E o compadre, muito bêbado, caçoava: VAI LAMBÊ, VAI LAMBÊ! Nessa hora, já estávamos recolhidos dentro de casa, éramos crianças e as noites de inverno eram frias demais. Quando chegava a noite de São Pedro, ainda havia brasa acesa da fogueira de São João, era só alimentar o braseiro com mais madeira. Essas madeiras eram as podas de todas as árvores do nosso quintal que meu pai fazia todo ano no mês de junho que era inverno, para quando chegasse o verão elas estariam bonitas e fortes novamente para dar seus frutos. 16

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Ainda lembro-me desse tempo com muita saudade; posso sentir o cheiro da batata doce, assada na fogueira. Enquanto pequenina, minha mãe me levava à praia todos os dias para fazer exercícios na água. Às 5h da manhã, ela levantava e fazia a marmita do meu pai; às 6h me pegava ainda dormindo, e andava mais ou menos um quilômetro para pegar o bonde que passava próximo à praia. Depois, corria para casa porque meu pai já tinha saído para trabalhar e meus irmãos ficavam sozinhos. Ainda bem que, na maioria das vezes, eles ainda estavam dormindo quando retornávamos. Eu gostava muito de chuva (até hoje). Na primeira chuva do mês de janeiro, meu pai fazia cada um, de nós, bebermos um gole dessa água; dizia que era pra ter saúde o ano inteiro. Eu brincava na chuva, na lama, na poça d’água, e quando o quintal ia secando, com a terra meio úmida, adorava ajudar os meus irmãos a fazer búlica para o jogo de bola de gude. Gostava muito de bichos. Lá em casa tinha cachorro, galinha, pato e porco; e eu queria ter um elefante, um coelho, um avestruz que tivesse o nome de Teófilo, um cavalo que se chamasse Barium e um cachorro da raça São Bernardo com o nome de Angos. Meu pai me disse que para eu ter um elefante e um avestruz, eu teria que ser veterinária para trabalhar no jardim zoológico —lugar que só fui conhecer na adolescência. E o coelho, o cavalo e o cachorro, quem sabe um dia?! Fui crescendo cada vez mais inteligente, fazendo coleção de medalhas de honra ao mérito, que ganhava no colégio. Nessa época, eu estudava no Curso Nossa Senhora de Fátima e até hoje me lembro o hino de lá. Meu anjo continuava a me visitar. Comecei a ficar rebelde e confusa; não aceitava tanta submissão a meu pai. Só fomos ter televisão (preto e branco, é lógico), quando eu já estava com 9 anos de idade; e, mesmo assim, não podíamos ver o que queríamos, incluindo minha mãe. Na nossa casa era proibido assistir novela. Tinham duas novelas:“O Direito de Nascer” e “Redenção”, que assistíamos escondidos, enquanto ele não che17

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gava. Cada dia, um de nós ficava de plantão na porta,esperando ele apontar na escada; aí, era dado o aviso e mudávamos de canal imediatamente. Do contrário, meu pai ficava irritado, brigando com minha mãe e nos colocando de castigo. Já não ia mais a praia todos os dias, pois, agora, tomava massagem nas pernas para que os músculos se fortalecessem. Era em um hospital bem próximo de casa, onde eu recebia massagem. Ele existe até hoje; é o Hospital Getúlio Vargas Filho. Com 9 anos, eu já estava bastante alta, seios começando a apontar, pelinho nascendo e ficando vaidosa como toda menina nessa idade. Porém, minha perna afetada não acompanhava meu crescimento, estava muito atrofiada. Nessa época, então, foi feita a 1ª cirurgia, que apesar de tanto sofrimento, foi um sucesso. Deixei de usar as benditas botas. Com 11 anos menstruei. Assisti a copa do mundo pela primeira vez. Tios, primos, amigos e vizinhos se reuniam no quintal lá de casa; e a cada jogo era uma festa. Eu curti muito. Descobri que era emotiva demais, pois, quando ouvi o hino da França, nesta época, chorei muito e todas às vezes que ouvia, era a mesma coisa e não fazia ideia do porque. Fiz prova de seleção para um colégio, que na época era muito difícil de entrar, passei em 3º lugar, enchendo meus pais de orgulho. Lá, eu aprendi de tudo, passei por várias oficinas de trabalhos artesanais e manuais, incluindo gráfica e marcenaria. Aprendi a fumar, a matar aula e fiquei mais rebelde ainda; mesmo assim era boa aluna.

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