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Os nossos Associados Neste espaço pretendemos dar a conhecer as atividades e o trabalho desenvolvidos em Comunicação Técnica pelos nossos associados. A nossa primeira entrevistada – em jeito de aprazível conversa – foi Rosário Durão!

Entrevista a Rosário Durão Rosário Durão é docente de comunicação técnica no Department of Communication, Liberal Arts, Social Sciences da New Mexico Tech (NMT) onde ensina comunicação profissional internacional, comunicação visual, visualização de dados, design digital e escrita técnica. Os seus interesses de investigação situam-se na interseção da comunicação profissional internacional, o design de informação e visualização de dados, os estudos de ciência e tecnologia, e a complexidade. Atualmente, investiga a universalidade e a especificidade cultural das representações visuais em ciência e tecnologia. Fundou e dirige a revista digital connexions • international professional communication journal. É co-diretora do projeto Humanizing Tech/nology do Department of Communication, Liberal Arts, Social Sciences, e diretora do grupo de investigação Visualizing STEM Research Synergy Cluster do mesmo projeto.

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1. O percurso académico da Rosário é pautado pela diversidade: Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, Mestrado em Estudos Anglo-Americanos e Doutoramento em Estudos de Tradução, sendo presentemente docente de Comunicação Técnica. Nesta – aparente – diversidade, em que aspetos é que as áreas confluem e se enriquecem mutuamente? Nada se perde nunca. Nada do que nós aprendemos se perde pelo caminho. Há, pelo contrário, um enriquecimento constante. A título de exemplo, a minha formação em línguas, literaturas e culturas foi importante este ano quando estava a dar a cadeira de “Visualização de Dados” (Data Visualization) a alunos de ciências e tecnologia. A cadeira decorreu sob a forma de seminários e quando discutíamos na aula os artigos que os alunos tinham lido, por vezes eles faziam uma interpretação menos rica do conteúdo porque desconheciam as conotações de certas palavras. Mas eu tinha acesso a conhecimentos que permitiam descodificá-las: as questões do Humanismo ou os valores Renascentistas, por exemplo. Por isso, fazia um desvio no debate e desenvolvia os temas... E as coisas faziam sentido para eles, ou melhor, faziam outro sentido. A primeira parte da cadeira foi a história da visualização de dados e era muito importante eles compreenderem como somos fruto de cosmovisões


inteiras, além de muitas outras coisas – por exemplo, um artigo falava de Michel Foucault e eles não sabiam quem era Michel Foucault... O que acontece é que os alunos depois vão investigar com outro interesse e inter-relacionam os conteúdos de maneiras completamente diferentes. O papel do docente em cadeiras como esta é de alertar e despertar interesses, apresentar o conhecimento e deixar os alunos seguirem os seus percursos, e é isso que eu acho fascinante no ensino superior – até porque pensar que obrigamos os alunos a estudar não faz sentido nenhum. Isto é para dizer que, de facto, nada se perde, tudo é cumulativo. E isto acontece porque, à medida que vamos aprendendo e lendo coisas diferentes, vamo-nos questionando. E se nos permitirmos pensar “Isto é engraçado. Mas porque será? Porque será que é assim?” então é fantástico. Vamos por aí fora e a vida é uma experiência encantadora. Claro que há ambientes em que isto é mais fácil acontecer do que noutros. E há também momentos. Por exemplo, eu nunca poderia ter feito uma formação em Comunicação Técnica em Portugal nos anos 80 porque não havia senão cursos de Línguas, Literaturas e Culturas. Posteriormente, começaram a ser mais comuns os Estudos de Tradução. Eu própria tinha trabalhado em tradução numa empresa e isso permitiu-me, juntamente com a experiência de ensino de tradução, passar facilmente para um douramento em Estudos de Tradução, em 2002.

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O meu percurso começou na tradução profissional – a tradução de contratos, manuais e outros tipos de comunicação que são o pão de cada dia das empresas, do setor educativo, da investigação e das entidades públicas – passou pelo ensino da tradução literária, evoluiu rapidamente para o ensino da tradução profissional – um ensino mais por projetos, mais por temas, pelas diferentes áreas do conhecimento e da realidade prática – e, nos últimos anos, para o ensino e investigação da comunicação profissional, na qual se engloba a tradução profissional. Ao longo deste tempo, fui ficando cada vez mais espantada com o facto de a tradução literária continuar a ser o grande foco do ensino e investigação da tradução. Vejo nisto uma inexplicável desvalorização do trabalho das pessoas que fazem outro tipo de tradução – a tradução que salva vidas, espalha o conhecimento pelo mundo fora, assegura o nosso conforto e até os nossos pequenos e grandes luxos… Felizmente há pessoas – e a APCOMTEC é um exemplo disso – que não seguem este rumo e vão ao encontro dos mundos que estão para além da tradução literária. Eu vejo a tradução como um contínuo, em que num extremo temos uma coisa e no outro outra. Só que não vejo a tradução literária como um extremo em si; ela é apenas uma das formas de traduzir. É uma forma em que o referente – e aqui vamos para a


Linguística – é muito distanciado de qualquer referente concreto, porque a literatura é essencialmente fruto da imaginação, ao contrário da tradução profissional que tem uma relação muito grande com a realidade, e é muito mais funcional. Além disso, a tradução literária é profundamente textual – à exceção da literatura para crianças. O que se passa, na minha perspectiva, é que vamos por esse contínuo até chegarmos ao outro extremo em que tudo é muito mais multimodal e multimédia, muito mais ligado à realidade que nós conhecemos, e a realidades que têm outros objetivos para além do objetivo que a literatura tem de tornar aprazíveis os tempos livres das pessoas. Este é um universo muito mais complexo, muito mais exigente. As pessoas podem fazer todos os erros na tradução de literatura e não vem mal ao mundo; o mesmo não acontece noutros tipos de tradução; aqui tudo é mais sério. Poderá ser mesmo esta vertente de responsabilidade e multimodalidade um receio para a tradução, uma vez que cada vez mais a tradução envolve outros modos e meios em todas as esferas, desde a publicidade aos tutoriais. O nosso mundo é extremamente rico em termos de comunicação, o que o torna profundamente complexo... se quisermos, de facto, comunicar. (E isto, por ventura, aponta para outras questões desta entrevista.) Na verdade, há muito tempo que vejo a tradução como uma componente da comunicação. Porquê? Lembro-me das colourless green ideas de Chomsky; podemos ter uma frase perfeita, gramaticalmente, mas que não faz sentido nenhum. De igual modo, um manual pode 3/7

estar perfeitamente escrito e traduzido e não fazer sentido nenhum para quem tem de o utilizar, por variadíssimas questões, desde motoras – ser destro ou canhoto – a etárias – termos mais dificuldade em ver com o passar dos anos – a culturais – as culturas orientais são mais visuais do que as ocidentais. Por isso, não chega a tradução escrita, não chega a Terminologia, não chega a Linguística. Temos que abordar a tradução como um fenómeno de comunicação. E a pergunta de base é sempre “Para comunicar – sendo que comunicar é transmitir e ser compreendido – para que este ato possa resultar no fim que nos propomos, qual é a melhor maneira de o fazer?” Isto envolve muitos aspetos, para além da escrita...

2. A Comunicação Técnica é uma área marcadamente interdisciplinar. Na Europa, em particular, existe uma forte ligação com a Tradução Especializada. O mesmo ocorre nos Estados Unidos da América. A diferença entre a comunicação técnica na Europa e nos Estados Unidos está relacionada com várias questões. Na Europa, por questões políticas e geográficas – há muitos países que têm que se entender – a tradição da linguagem escrita é muito importante e isto explica o predomínio do estudo da linguagem. Nos Estados Unidos, a tradução tem


um peso muito menor, uma vez que há uma língua comum – embora, por razões históricas, políticas e demográficas, nalguns estados o bilinguismo seja comum. Além disso, há nos Estados Unidos toda uma tradição de estudo e prática da Retórica e, mais recentemente, da sua aplicação à Comunicação. Um momento determinante foi a 2ª Guerra Mundial quando foi preciso ensinar os soldados a usar os equipamentos. Começaram por entregar-lhes os manuais que tinham, mas eles tinham sido escritos por engenheiros e outros especialistas e os soldados continuavam a não saber usar os equipamentos porque não compreendiam os manuais. Então produziram novos manuais, tendo em conta os conhecimentos e as capacidades dos soldados (foi assim que nasceu a profissão de comunicador técnico). Voltando à questão da Retórica, nos Estados Unidos, o exercício e o estudo da Retórica sempre tiveram um lugar de destaque – pense-se nos discursos de Martin Luther King, por exemplo – e quando a aplicaram à comunicação técnica, ajudaram-nos a pensar sempre, antes de tudo, no contexto da comunicação, no(s) público(s)-alvo e no propósito da comunicação. Só depois disto é que podemos começar a trabalhar o documento – a criar o documento da perspetiva da comunicação – e depois a traduzi-lo. A Comunicação Técnica abrange estas duas fases. Há, portanto diferenças entre a Europa e os Estados Unidos e, tal como todas as diferenças, elas têm aspetos negativos, mas também positivos, sobretudo quando 4/7

olhamos para elas de uma perspetiva interdisciplinar e de inter-relação. Quando fazemos isto, é fácil ver que os universos da tradução especializada e da comunicação técnica têm muito a dar um ao outro.

3. É docente em variadas cadeiras relacionadas com a Comunicação Técnica, de âmbito marcadamente visual. Para si, qual o papel da comunicação não-verbal na Comunicação Técnica? É preciso tomar em conta muito mais do que a escrita, até porque muitas coisas existem antes da escrita. O mundo ocidental é muito centrado na escrita, essencialmente os países do norte da Europa e os Estados Unidos pela importância que o Protestantismo deu à interpretação individual da Bíblia. Porém, se pensarmos bem, as pessoas comunicam de outras formas antes, e até em vez de escreverem. Os engenheiros e os cientistas, antes de porem qualquer coisa em papel, imaginam-na; e a maior parte das pessoas imagina visualmente. Logo, todas as pequenas e grandes inovações e as coisas do dia a dia têm uma representação visio-espacial, antes de existirem. A questão é que, por força da tradição ocidental, a componente visual tem sido muito descurada. Felizmente, hoje em dia, quando tudo é profundamente visual, a academia começa a aceitar que há


outros mundos para além da escrita, e começamos a dar relevância a isso. Isto conduz-nos ao meu projeto de investigação, Visualizing Science and Technology Across Cultures, que começou comigo a pensar: “Aparentemente as representações visuais sobre ciências e tecnologia são iguais em todo o lado. Mas, se pensarmos do ponto de vista do humano (porque mesmo o que é produzido por máquinas implica que há pessoas por trás), e se nós somos fruto de toda uma formação e de imensas experiências interculturais, e uma vez que a instrução superior chega sempre tarde na vida, o que acontece ao resto? Não posso dizer que o resto desaparece.” Fiz um teste piloto com alguns alunos de ciências e tecnologia e concluí que as pessoas abordam a produção visual de ciências e tecnologia de formas diferentes consoante os destinatários e que fazem isso por razões culturais. Um momento curioso foi quando um dos participantes, de origem saudita, representou a cadeia alimentar exatamente da mesma forma para destinatários diferentes: um saudita, o outro norteamericano. Eu fiquei triste quando olhei para as duas páginas, e comecei a pensar que a minha hipótese estava errada. A seguir, li o que ele escreveu no inquérito pós-teste. Aí, ele dizia que só há uma verdade. Pois é, pensei a seguir, os muçulmanos, na sua tradição religiosa, só aceitam uma verdade. Está tudo explicado.

4. Conte-nos um pouco da sua experiência enquanto docente de Comunicação Técnica na Universidade New Mexico Tech: quais as 5/7

principais diferenças que identifica, em relação à sua experiência de docência em Portugal? Há uma diferença crucial e que pode chocar muitas pessoas aí. Aqui, os alunos contraem dívidas abissais para fazer um curso superior e isto gera neles uma atitude de extrema responsabilidade, com raríssimas exceções. Há uma enorme dedicação ao estudo e ao trabalho (quase todos trabalham pelo menos dez horas por semana em vários sítios na universidade e fora dela em supermercados, restaurantes, lojas de ferragens… para além das 4, 5 ou 6 cadeiras que fazem) e essa dedicação reflete-se nas expectativas dos docentes. Nós sabemos que eles vão fazer o que lhes pedimos. Pela minha experiência, a atitude em Portugal é diferente; os alunos adotam uma postura mais passiva, muitas vezes veem o ensino superior como uma continuação do secundário e esperam que o professor dê tudo. E eu ainda tenho um pouco essa tendência; sinto que a maior parte da responsabilidade pela aprendizagem é minha, quando de facto a responsabilidade por aprender é dos alunos, não é nossa; nós apontamos caminhos. Mas há outras diferenças. Aqui, todos os funcionários, desde o presidente ao jardineiro, são avaliados anualmente e sofrem as consequências de uma má classificação. Além disso, há uma relação de abertura e de apoio entre colegas que, mais uma vez pela


experiência que tenho, é difícil encontrar em Portugal. Aqui, o que importa é o valor que a pessoa mostra ter a cada instante; em Portugal há muitos entraves e as hierarquias pesam imenso. Aqui, eu sinto-me apoiada e sinto que posso dar as sugestões que quiser porque sei que serão acolhidas se forem boas, mas também sei que se não forem aceites, sendo elas boas ou más, cada um segue o seu caminho e não vem mal nenhum ao mundo. Há diálogo e há abertura, mesmo no trabalho entre docentes de áreas diferentes.

na tradução, Portugal daria passos largos em termos de comunicação técnica se começasse a ponderar estes três grandes aspetos de outra forma.

Por fim, nesta universidade o sistema de major e minor funciona muito bem. Os alunos de ciências e tecnologia podem fazer minors em Comunicação Técnica; por sua vez, os alunos de Comunicação Técnica podem fazer um major em Engenharia, por exemplo. Também há alunos que fazem double major, que é uma dupla licenciatura; por exemplo, uma aluna está a fazer um major em comunicação técnica e outro em engenharia civil, e outra em comunicação técnica e química. Para além disto, todos os alunos de Ciências e Tecnologia fazem cadeiras de Humanidades e de Ciências Sociais – teatro, literatura, comunicação visual, escrita técnica… Este caminho permite aos alunos saberem falar com pessoas de áreas diferentes, nem que seja apenas saberem formular perguntas para obterem respostas àquilo que não sabem. Os alunos formam-se com uma visão muito mais abrangente; a perspetiva do mundo é, logo, muito diferente. Isto é comunicação.

A connexions foi criada quando, ainda em Portugal, comecei a perceber que havia dois mundos separados – o da tradução e o da comunicação profissional – e achei que era possível eles comunicarem entre si. Falo de comunicação profissional e não de comunicação técnica porque a comunicação técnica é muito específica. A comunicação profissional é mais geral, englobando tudo o que é produzido com o objetivo de ser utilizado em universos de trabalho, ou worksites, como prefiro chamar-lhes, porque integram a virtualidade da comunicação de hoje.

São estas as três grandes diferenças e eu acho que, se os Estados Unidos têm a aprender com a ênfase que a Europa coloca 6/7

5. É fundadora e coordenadora da revista digital connexions • international professional communication journal. Fale-nos um pouco desta revista e dos aspetos em que se diferencia de outras revistas na área?

Quanto mais eu pensava no projeto, quanto mais se tornava claro que ele fazia sentido; nos Estados Unidos era importante dar mais relevo à componente da comunicação interlinguística, que é o foco da tradução, enquanto que na Europa, para que a tradução seja de facto bem feita, isto é, para que se converta em comunicação, fazia falta incorporá-la


no universo mais vasto da comunicação. Há outras revistas que abordam estas questões, mas com um enfoque diferente. Por exemplo, a revista Rhetoric, Globalization, and Professional Communication incide sobre comunicação global e retórica. Repare-se que a connexions não fala em comunicação global. Porquê? Isto tem provavelmente a ver com a minha experiência europeia de ênfase na tradução, em que o que tudo se passa “entre nações” – inter*nacional (não vamos aqui entrar pela questão dos estados e das nações). Só que eu interpreto esse internacional de uma perspectiva muito complexa. Tal como a tradução, também coloco internacional num contínuo. Internacional começa no regional – os pequenos locais onde há confluências internacionais, como esta universidade – e acaba no global que, em termos de comunicação, é mais um desejo do que uma realidade. É-o porque as pessoas podem criar um produto para ser global – e há de facto produtos que são globais, como alguns refrigerantes – eles não são apenas a intenção do global – mas são poucos. A maior parte das questões não são globais. Elas afetam um continente inteiro, ou alguns países, ou um país apenas, ou várias empresas num determinado país, ou determinados setores de uma empresa. Internacional vai, portanto, do nacional e as suas múltiplas interseções até à ambição transnacional da palavra global. A comunicação profissional internacional é profundamente complexa e é essa complexidade que a connexions interpela. Por fim, a connexions é de acesso livre (open access), o que é cada vez mais 7/7

comum, felizmente, embora esta forma de publicar revistas científicas coloque grandes desafios porque há quem não utilize esta excelente oportunidade da melhor forma... Porém, alguma coisa que vale a pena não tem desafios, e cai do céu sem dificuldades? Para mim, não. Para mim a vida deve ser vivida com desafios e contra os desafios, fazendo de cada dia uma experiência nova e muitíssimo interessante!


Os nossos associados entrevista rosario durao