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ANO LVII – N.º 6 JUNHO 2011 ASSINATURA ANUAL | Nacional 7,00 € l Estrangeiro 9,50 €

“Vivemos num equilíbrio muito frágil”

Paquistão

Mulheres e minorias sem direitos Sombras negras sobre o “país dos puros”

Onde está Deus?

Crianças convidadas a adorar a Deus


Emigrantes

enfrentam

calvário

A Europa enfrenta um problema complexo com as migrações. Preocupada com a sua segurança não pode fechar os olhos ao seu dever de solidariedade. São dois pilares que foram postos em causa com os recentes acontecimentos ocorridos na África do Norte, embora as dificuldades levantadas por fluxos migratórios já viessem de trás. É conveniente recordar que só da Líbia já fugiram para os países confinantes cerca de 700 mil pessoas e cerca de 30 mil desembarcaram nas costas meridionais europeias em poucas semanas. Estes números suscitam naturais preocupações e põem à prova o Tratado de Schengen. Ainda recentemente vimos um braço-de-ferro entre a Itália e França, aparentemente resolvido num encontro bilateral entre os dois governos em finais de Abril, sobre a livre circulação de pessoas entre as suas fronteiras. A própria União Europeia encara a possibilidade de propor, para preservar a estabilidade do seu espaço, o controlo temporário “das fronteiras internas em circunstâncias excepcionais”. É claro que a Europa tem necessidade de adoptar, rapidamente, uma política comum que responda aos desafios e às oportunidades criadas pela migração, sobretudo tendo em conta o que está a acontecer na zona do Mediterrâneo. Estão a ser propostos controlos mais apertados das fronteiras externas, um sistema comum de asilo mais aperfeiçoado, uma migração legal mais organizada, uma troca de experiências conseguidas em matéria de tratamento de migrantes e uma estratégia concertada nas relações com os países de onde provêm os migrantes.

Em todo o caso, a Europa não poderá nunca esquecer o seu dever

A Igreja levanta a sua voz porque “é testemunha dos dramas que estes homens e mulheres [migrantes] vivem ao deixar o seu país”

de respeitar a sua vocação de acolher aqueles que demandam o seu território em busca de refúgio e protecção. Tem responsabilidades que terá de assumir. Mas, ao mesmo tempo, a sua história de humanismo e a sua caminhada de respeito dos direitos humanos exigem que demonstre solidariedade com os países do norte de África que vêem a sua organização interna posta em causa com o afluxo massivo de migrantes provenientes sobretudo da Líbia. A solidariedade poderá ser vantajosa para a Europa que se debate com falta de mão-de-obra em vários sectores. Sobretudo ajudará a conseguir o reequilíbrio demográfico da população activa europeia. É sabido que, nos próximos anos, essa necessidade terá tendência a agravar-se. Mas os membros da União Europeia terão de fugir à tentação de regular as suas políticas de migração unicamente pela sua agenda eleitoral.

A Igreja não deixa de estar atenta ao fenómeno das migrações. No início de Maio último, 13 bispos da Argélia, Tunísia, Marrocos, Líbia, França e Espanha reuniram-se na capital tunisina e abordaram temas como o diálogo islâmico-cristão e a questão “crucial” das migrações. Como é seu dever, não deixaram de lamentar que a Europa procure “pôr em acto uma protecção drástica que nem sempre está em linha com a justiça e se torna, muitas vezes, fonte de exclusão e de discriminação”. A Igreja levanta a sua voz porque “é testemunha dos dramas que estes homens e mulheres [migrantes] vivem ao deixar o seu país”. É notório o esforço que as Igrejas fazem, geralmente com meios escassos, para os acolher e socorrer. Na sua pobreza, “são pessoas dignas pela força humana e espiritual que as empurram a prosseguir uma migração que, por vezes, se transforma em calvário”. EA junho 2011

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Refugiado em Lahore Paquistão

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Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA

Sombras negras sobre o “país dos puros”

Nº 6 Ano LVII – Junho 2011

Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Pro­vin­cial Norberto Ribeiro Louro Redac­ção Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 28.100 exemplares Director Elísio Assunção Redacção Elísio Assun­ção, Manuel Carreira Conselho de Re­dac­ção António Marujo, Elísio Assunção, Manuel Carreira Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos e Magda, Carlos Camponez, Cristina Santos, Darci Vila­ri­nho, Leonídio Ferreira, Luís Mau­rício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Teresa Carvalho; ­Diaman­tino Antunes – Moçambique, Tobias Oliveira – Quénia, Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa Lusa Contra-capa Ana Paula Ilustração H. Mourato, Mário José Teixeira e Ri­car­do Neto Com­po­sição e Design Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Joaquim Bernardino e Cristina Henriques

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Tomás é um artista

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Assinatura Anual

Nacional 7,00€ Estrangeiro 9,50€ De apoio à revista 10,00€ Benemérito 25,00€ Avulso 0,90€

“Vivemos num equilíbrio muito frágil”

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Grande assembleia da Consolata em Roma

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(inclui o IVA à taxa legal)

Pagamento da assinatura

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multibanco (ver dados na folha de endereço),

transferência bancária nacional (Millenniumbcp)

NIB 0033 0000 00101759888 05 transferência bancária internacional IBAN PT50 00 33 0000 00101759888 05 BIC/SWIFT BCOMPTPL cheque ou vale postal

Em Fátima um grupo de leigos, irmãs e padres procuram caminhos novos

803 EDITORIAL 805 PONTO DE VISTA Ousadia de amar paga com a própria vida 806 LEITORES ATENTOS 808 MUNDO MISSIONÁRIO Em 10 anos África consegue

Tem a sua assinatura da revista atrasada? Com ape­nas 10

euros 2011 Porque continua à espera? pode actualizá-la para

Não perca tempo! FÁTIMA MISSIONÁRIA

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melhor escola | Confrontos entre cristãos e muçulmanos no Egipto | Velho autocarro como habitação de idoso, em Hebron, Palestina | Refugiados líbios fogem da violência para a Tunísia | Nossa Senhora de Fátima venerada na China | Mais de 4,5 milhões de sem-abrigo nas Filipinas | Escola corânica do Sudão ensina a decorar Alcorão 811 Aventuras ����������������� Pipo e o Cafasso 812 Apóstolos Modernos Evangelizando nos caminhos da promoção humana 813 DESTAQUE Bin Laden foi morto mas não o que ele representa 822 GENTE NOVA EM MISSÃO Educação e diversão juntos na construção de um mundo melhor! 824 TEMPO JOVEM Onde está Deus? 826 SEMENTES DO REINO O �� Espírito que nos anima 828 O QUE SE ESCREVE 830 O QUE SE DIZ 831 VIDA COM VIDA Missionário na paz e na guerra 832 OUTROS SABERES ���������������� Trabalho e bons costumes 833 A MISSÃO É SIMPÁTICA No caminho de quatro Papas 834 FÁTIMA INFORMA Crianças convidadas a adorar a Deus

junho 2011


texto Norberto Louro

Ousadia de amar paga com a própria vida Vi, nestes últimos dias, não só uma, mas duas vezes, o filme “Dos Homens e dos Deuses”. Fi-lo porque nele se narra de maneira tão desconcertante a história verídica do martírio de sete monges trapistas na Argélia. Só vendo duas vezes consegui convencer-me que era mesmo verdade. E que, embora tendo podido, os monges não fugiram à morte mais que provável que se aproximava. Fiquei convencido que o fizeram conscientemente, por opção deliberada, fundada sobre princípios para muitos absurdos a que pode conduzir a decisão vocacional de aderir a Cristo do mesmo modo como Ele aderiu aos irmãos. Durante o discernimento sobre se ficar ou fugir ao perigo, dizia o padre Cristóvão (segundo o filme) para o confrade padre Cristián, prior do convento: “Em pequeno, eu queria ser missionário. Naquela altura, morrer pela fé não me impedia de dormir. Mas morrer aqui, agora, será verdadeiramente útil? Estou confuso. Tenho a impressão de endoidecer! E, depois, pergunto a mim mesmo: É-se mártir para quê? Para Deus? Para ser herói? Para mostrar que somos melhores?”. A resposta do prior do convento é elucidativa: “Se a morte nos apanhar não é por nossa vontade, pois nos

“Deveríamos fazer o voto de amar a Missão mesmo a custo da própria vida” Beato José Allamano

esforçaremos até ao fim por a evitar. É-se mártires por amor, por fidelidade. A nossa missão aqui é de sermos irmãos de todos. E, lembro-te, o amor tudo espera, tudo suporta”. Assim narra o filme. De facto, no seu testamento, o padre Cristián deixará escrito: “Se me acontecesse um dia (e poderia até ser hoje mesmo) ser vítima do terrorismo, gostaria que a minha comunidade, a minha Igreja, a minha família, se lembrassem que a minha vida estava já dada a Deus e a este país”. Henri Teissier, bispo de Argel quando se deram estes factos, condena o facto de o regista dar a impressão de partir de uma perspectiva absolutamente errada, dando a entender que os

monges estavam ali só à espera do martírio. Estavam sim, afirma o bispo, a viver a sua vocação de monges, não obstante o perigo, e a tornar-se um sinal e um testemunho de consolação para todos os seus vizinhos e, em geral, para todo o povo argelino. De facto, todos os vizinhos dos monges estavam ameaçados como eles e não podiam partir. Para os monges, permanecer ali era fidelidade missionária, fidelidade a uma vocação recebida, iluminada pela cruz de Cristo. O padre Cristóvão deixou escrito no seu diário: “O que aconteceu a Cristo, aconteça também a nós! Tu nos dizes de ficarmos lá, como monges, até ao fim da história!”. E acrescenta: “Mártires por amor, pelo homem, por todos os homens, também pelos assassinos, pelos algozes. O facto é que o martírio de amor inclui o perdão. É este o dom perfeito que Deus faz sem reservas”. Da mesma têmpera destes monges que foram raptados e deram a vida por amor ao povo a quem testemunharam o verdadeiro consolador, Jesus Cristo, era o beato José Allamano que dizia: “Deveríamos fazer o voto de amar a Missão mesmo a custo da própria vida”. E muitos foram já os missionários e missionárias da Consolata que pagaram com a própria vida a ousadia de amar com a radicalidade de Cristo. junho 2011

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Renove a assinatura Agradecemos que os nossos estimados assinantes renovem a assinatura para 2011. Só as assinaturas actualizadas poderão usufruir do pequeno apoio do estado ao porte dos correios. Na folha on­de vai escrita a sua direcção, do lado esquerdo, poderá verificar o ano pago e o seu número de assinante. O pagamento da assinatura poderá ser feito através dos colaboradores, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multibanco, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05 Importante Refira sempre o número ou nome do assinante. Os do­­na­tivos para as missões são de­dutíveis no IRS. Se desejar recibo, deverá enviar-nos o seu número de contribuinte. Muitos leitores chamam à FÁTIMA MISSIONÁRIA «a nossa revista». É bom que assim pensem e assim procedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 29 mil assinantes. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

Esticar o dinheiro Junto envio cheque para pagamento da minha assinatura. É com grande satisfação que recebo a revista e a vou divulgando aos meus amigos. Cada mês, tem artigos de grande interesse. Espero continuar a poder lê-la. A reforma é pequenina, a saúde é pouca, o dinheiro mal vai chegando para os medicamentos, mas quero ver se posso ir fazendo sacrifício para não desistir. Maria Lurdes

NR Estes sacrifícios valem ouro aos olhos de Deus.

Gracinhas de Allamano Chegaram-nos duas mensagens de assinantes dizendo que receberam graças (milagres) por intercessão do Beato Allamano. Temos pena que os leitores não se identifiquem melhor e não descrevam melhor o tipo das graças recebidas. Um relatou de viva voz o seguinte: “Eu e a minha esposa estávamos casados há tempos e não alcançávamos ter filhos.

Alguém nos aconselhou que recorrêssemos ao Beato Allamano. Rezámos-lhe com muita fé e hoje, por intercessão dele, temos um lindo bebé que alegra a nossa casa”. Seria bom se soubéssemos algo mais.

mundo fora cuidando dos mais carecidos: doentes, pobres, perseguidos e todo o irmão sofredor. Que Deus vos ajude e recompense por este belo trabalho. Acompanho-vos com a minha oração e sacrifício.

A redacção

Manuela

Amor ao próximo

A caminho dos 102 anos

Queridos amigos, Faço votos para que todos quantos trabalham na Fátima Missionária, se encontrem bem e que o Senhor Jesus vos dê saúde e força para continuarem o vosso maravilhoso trabalho de entrega e amor ao próximo.

Junto envio o cheque para pagar a assinatura anual de apoio à revista e o restante é para as missões. Peço desculpa de só agora fazer o pagamento, mas aconteceu por motivo de circunstâncias que se prendem com a minha idade de 101 anos que fiz em Outubro. Tenho muito gosto em ler os preciosos artigos, principalmente sobre o que têm feito para ajudar os desprotegidos, desejando que possam continuar a fazê-lo.

Lourdes

Apreço pela missão Rev.mo Padre Director, Agradeço o envio da revista que muito aprecio por nos pôr em contacto com o mundo missionário, do trabalho, disponibilidade e riscos que enfrentam no dia-a-dia tantos missionários. São sacerdotes, leigos consagrados ou simples voluntários por esse

Joaquim

NR: Apre! O senhor Joaquim dobrou o cabo das Tormentas! Ultrapassou os 100 anos e já vai a caminho dos 102. Todos os leitores atentos lhe dão parabéns.

DIÁLOGO ABERTO Bom dia! Olá! Neste momento encontro-me num estabelecimento prisional e por isso não tenho acesso ao multibanco para depositar o dinheiro na vossa conta. Sempre quis ajudar as pessoas que mais precisam de apoio. Só que eu não sabia como. Hoje peguei num livro para dar uma vista de olhos. Acabei por encontrar o projecto «Empada». O livro é a revista FÁTIMA MISSIONÁRIA. Eu acho muito bonito o que vocês estão a fazer pelos outros que precisam de apoio. Eu sinto todo o prazer de ver FÁTIMA MISSIONÁRIA

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que ajudam a dar um sorriso a quem precisa. Muito obrigado por aquilo que vocês estão a fazer. É bom dar a mão a quem está no chão para se levantar. Sinto-me honrado por vos ter ajudado com alguma coisa para tirar a tristeza da cara de quem está triste. Espero que consigam fazer ainda muito mais. Leitor identificado

NR Compete-nos guardar a máxima discrição ao lidar com esta carta, embora ela venha devidamente iden­ tif­icada. Publicamos o texto para

nossa edificação e como testemunho de que a generosidade e os bons sen­ timentos atravessam nem que sejam as paredes de um estabelecimento prisional. Agradecemos a este leitor as boas palavras de elogio que faz à revista e ao trabalho dos missionários. Isto dá-nos coragem para sermos ain­ da melhores. Agradecemos também a partilha – 10,00€ – que faz com as missões. De coração lhe dizemos: “Tenha coragem, amigo, e não deixe perder estes belos sentimentos”. MC


Tomás é um artista texto TERESA CARVALHO ilustração MIGUEL CARVALHO

Há quem olhe para Tomás e insista em chamar-lhe “coitadinho”. Até mesmo ele já se apelidou de “coitado”, de “infeliz”. Os outros, alguns – quase nenhuns, ainda revelam essa pobreza de olhar. Mas Tomás já não! Esse tempo em que olhava para si e só via braços curtos e torcidos, mãos pequeninas que não lhe obedeciam nos gestos simples, pernas que não sentiam onde estavam nem eram capazes de segurar o seu peso para se pôr de pé, coluna encurvada que lhe projectava o abdómen para a frente, um corpo inútil numa cadeira de rodas,… Esse tempo já passou! Desde há dois anos que Tomás já não aceita ser nem “coitado”, nem “infeliz”. Respeita-se como “Tomás” que é. Deixou de perguntar repetidamente porque nasceu assim. Todos lhe davam uma explicação clínica, a mesma apresentada pelos muitos especialistas que conheceu: diziam que sofria de uma malformação genética que impediu que os ossos se desenvolvessem normalmente, e explicavam em pormenor o que o impedia de ser um menino igual a todos os outros que ele conhecia. Isso Tomás já sabia “de cor e salteado”. O que ele não percebia e ainda ninguém lhe tinha conseguido explicar, era o que poderia ele fazer com esta “malformação genética”? Ser Infeliz? Tomás dizia que só isso lhe era permitido, mas no seu íntimo resistia a acreditar que fosse mesmo assim. Às vezes sonhava que era es-

pecial: teria de haver alguma coisa que ele pudesse fazer. Queria ser “especial” não só porque o amavam mas sentir-se ele próprio “especial” por poder contribuir para algo – que ele não sabia ainda o quê. E assim foi Tomás crescendo, protegido por todos para que não partisse nenhum

dos seus ossitos frágeis. Há dois anos, nas férias de Verão, Tomás integrou-se numa actividade da Associação de Jovens do seu concelho. Participava em tudo – até onde podia, claro. Quando atingia o seu limite, esperava até o grupo terminar. Mas, enquanto esperava, conversava com todos os que por

ele passavam. Transformou-se num óptimo comunicador – “Às vezes parece que engoliste um rádio”, diziam. Um dia, nos seus palreios com os transeuntes, alguém comentou que ele devia ter jeito para ser jornalista de rádio. “Jornalista de Rádio”? – Os seus sonhos dispararam: já se via a comunicar através da rádio com outros jovens e crianças, e… todos! “É mesmo isto. Já sei como fazer a diferença!” Tomás não mais abandonou essa ideia. Falou dela a toda a sua gente e a Associação de Jovens acreditou no projecto e na competência de Tomás para o realizar. Candidataram-se a um fundo europeu de apoio às iniciativas juvenis e… Iupi: foi aprovado! Tomás bailou na sua cadeira de rodas, vendo-se entrar no mundo onde os sonhos tocam a realidade. Estagiou numa rádio local e foi aluno exigente. Queria aprender tudo. Aprendeu tudo! Hoje, Tomás gere e faz os programas de rádio online, deixando passar uma alegria tão contagiante que as audiências têm subido constantemente. Nos seus programas, Tomás insiste na importância dos obstáculos, na força de um sonho, no poder da persistência e na grandiosidade da amizade que conjuga esforços e vontades em torno de um bem maior. “Vencer” passou a ser o seu desafio pessoal, e comunicar todos estes valores que vai descobrindo é a sua forma actual de o realizar. Tomás já está a “fazer a diferença”. Hoje é já o “artista da Rádio”.

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Confrontos entre cristãos e muçulmanos no Egipto

Em 10 anos África consegue melhor escola A educação na África sub-sariana alcança resultados sem precedentes na sua história. No entanto, apesar de uma escolarização excepcional, a situação permanece frágil e é muito desigual de país para país. A avaliação é da UNESCO, organismo das Nações Unidas para a educação, ciência e cultura. Os progressos do último decénio merecem nota alta e o balanço é encorajador, apesar dos pontos negativos. O número de crianças matriculadas no ensino primário aumentou 48 por cento, isto é, passou de 87 para 129 milhões, ao passo que no ensino secundário e superior aumentou 60 por cento. Constata-se que a parceria entre os países africanos e FÁTIMA MISSIONÁRIA

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os países doadores de apoios resultou numa mobilização “para conseguir a educação para todos”, explica a directora geral da UNESCO, Irina Bokova. “Mostra ainda que os seus esforços dão fruto, com um número de crianças escolarizadas sem precedentes”. Entre os «bons alunos», estão Moçambique e Burundi, que aumentaram mais de 12 por cento as despesas com a educação. Angola, Senegal, Etiópia e Camarões seguem-lhe o exemplo com aumentos superiores a 10 por cento. Pelo contrário, são «maus alunos» Guiné, Serra Leoa, Uganda, Madagáscar e República Centro-Africana que gastam menos de 100 dólares por ano e por aluno. Todavia, não junho 2011

obstante o aumento do investimento na educação, muitos países africanos estão longe de proporcionar aos seus jovens condições aceitáveis. Os dados mais recentes mostram que, num terço dos países africanos, metade dos alunos não completa o ensino primário. Mais de 32 milhões de crianças em idade escolar não estão matriculadas. Falta mais de um milhão de professores. Os países africanos têm de aumentar os esforços nos próximos anos para manter esta tendência favorável. Tanto mais que o aumento da população não favorece a tarefa. Na África, a sul do Sara, as crianças dos quatro aos cinco anos deverão aumentar mais de 34 por cento nos próximos 20 anos.

Bombeiros tentam apagar o fogo numa igreja na área densamente povoada do bairro pobre de Imbaba, Cairo. Seis pessoas morreram, quando a violência eclodiu entre muçulmanos do Egipto e os cristãos coptos, deixando mais de 50 pessoas feridas. Os confrontos eclodiram quando centenas de muçulmanos conservadores marcharam para a igreja, pensando que uma mulher era mantida refém, após ter-se convertido, recentemente, ao Islão para se casar com um muçulmano.

Velho autocarro como habitação de idoso, em Hebron, Palestina De 78 anos, o palestino Abed el-Sheikh Haseeb Zaloum dá uns passos junto de um velho autocarro, onde mora desde que as escavadoras dos militares israelitas demoliram a sua casa, há 10 anos. Vive em condições precárias e de total abandono, perto do bairro judaico de Kiryat Arba, na cidade de Hebron, na Cisjordânia.


Refugiados líbios fogem da violência para a Tunísia

Voluntários distribuem comida às dezenas de milhar de refugiados líbios que continuam a fugir da violência no seu país. O campo foi recentemente inaugurado em Dehiba e destina-se a acolher famílias líbias. O controlo da fronteira tem passado alternadamente de mãos, conforme o andamento dos combates entre as forças do líder líbio Muammar Kadhafi e os rebeldes espalhados em território tunisino.

Nossa Senhora de Fátima venerada na China A estátua de Nossa Senhora de Fátima é transportada por fiéis católicos durante a procissão, que iniciou na igreja de São Domingos e terminou na igreja da Penha, Macau. As celebrações de 13 de Maio têm lugar anualmente para comemorar a primeira aparição de Nossa Senhora, em Fátima, aos três pastorinhos, em 1917.

Mais de 4,5 milhões de sem-abrigo nas Filipinas São dados da organização não-governamental local, Gawad Kalinga. O problema é de tal maneira preocupante que o vice-presidente filipino, Jejomar Binay, deslocou-se aos Estados Unidos, onde angariou 350 mil dólares para construir casas nos subúrbios de Manila. Os representantes da organização Feed the Hungry manifestaram interesse em ajudar na educação das famílias dos sem-abrigo e na construção de salas de aula em diferentes partes do país.

Escola corânica do Sudão ensina a decorar Alcorão

Situada no sul do Kurdufan, na fronteira com o novo estado do Sul do Sudão, na escola corânica de Dillinj, os professores lêem versículos do Alcorão e os alunos escrevem frases do livro sagrado muçulmano, recitando-as até as memorizarem. As placas são limpas para escrever novas frases para recomeçar o processo. Ao ar livre, a escola é especializada no ensino do Alcorão, livro sagrado muçulmano, aos seus 47 alunos.

Tobias Oliveira, NAIROBI, Quénia

Fé e política A Igreja católica do Quénia promove desde há anos a devoção a Nossa Senhora, mãe de Deus e mãe da África, em Subukia, povoação situada na linha do Equador. Brevemente surgirá lá um santuário mariano, com capacidade para mais de cinco mil fiéis. Quando há dias lá se procedeu a uma recolha de fundos para a construção do dito santuário o presidente da República e vários outros políticos foram generosos contribuidores. A tradição nacional de proporcionar aos políticos a oportunidade de serem notados na Igreja como pessoas endinheiradas cria sempre nos crentes um certo mal-estar, como se tivessem assistido a um casamento de conveniência. A palavra de Jesus, acerca de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, parece-me em casos como este não se harmonizar facilmente com a obrigação de denunciarmos sem qualquer constrangimento os abusos do poder civil, dado que a voz profética da Igreja pode facilmente ser abafada pela conveniência de não hostilizar a mão que lhe dá pão. Num país onde metade da população sobrevive com menos de um dólar por dia, é importante que a Igreja se sinta livre para denunciar a corrupção, o enriquecimento ilícito e os demais flagelos sociais, a que os governantes parecem não querer pôr cobro. Não nego que as contribuições dos poderosos sejam uma preciosa ajuda para edificar igrejas, escolas, dispensários e outros equipamentos sociais. Temo só que, mesmo involuntariamente, estejamos a contribuir para manter pobres os pobres, beneficiando do poder dos poderosos. junho 2011

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Esposa, mãe, professora, catequista, uma vida multifacetada e muito preenchida. As tarefas não brigam umas com as outras; “complementam-se!”. Ana Alexandra Ferreira, 33 anos, de Cascais, vive em Fátima, há seis anos, com o marido e dois filhos. Conta dois anos de voluntária leiga em África: “Disponibilizei-me a ir para onde me enviassem. E calhou Moçambique” texto E. Assunção foto Ana Paula

“Vivemos num equilíbrio muito frágil” – Ser mãe é uma missão para a vida. Os nossos filhos são o nosso investimento. — Um desafio difícil? – Como vocação, é exigente, mas faz-se com gosto. — Qual a sua experiência mais bonita de ser mãe? – Perceber que estamos a construir um futuro juntos. O projecto é comum e eles [os filhos] sentem-se parte. — Ser esposa? – É ser companheira de caminho. É uma equipa com o marido e com os filhos. — Ser esposa e ser mãe gera conflitos? – Complementam-se. Não po­demos dividir a vida por secções. — E ser professora? – Ser professora também entra no tal projecto. — Tem a ver com ser mãe e esposa ao mesmo tempo? – Aos meus alunos costumo dizer que lhes quero bem como aos meus filhos. Passam mais tempo connosco do que com as suas famílias. — Foi voluntária em África? – Durante cerca de dois anos, em Cuamba, no norte de Moçambique — Porquê Moçambique? – No fim do meu curso, tinha decidido fazer uma experiência diferente antes de entrar para a vida profissional. QueFÁTIMA MISSIONÁRIA

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ria tentar dar aos outros um pouco do que tinha recebido. — Como aconteceu? – Li uma notícia dos Leigos para o Desenvolvimento, te­ le­fonei, apresentaram-me vá­rios projectos e disponibilizei-me a ir para onde me enviassem. E calhou Mo­ çambique. — Onde? – No norte, na missão de Cuamba, apadrinhada pelos Missionários da Consolata. Lá, a nossa família era a Consolata. Dei aulas, catequese, estive envolvida nas actividades com grupos de jovens, formação, encontros... — A melhor recordação des­ ses dois anos? – Duas: uma tem a ver com os missionários que por lá encontrei: pessoas 100 por cento disponíveis, que viram o país totalmente destruído pela guerra, mas encontraram forças para o reconstruir e continuam a afirmar que vale a pena; outra recordação, as pessoas de lá. Apesar daquilo a que chamamos miséria, continuam a ser o povo mais feliz à face da terra. — A pior recordação? – Em Moçambique, conheci a Igreja. Aí aprendi a viver em Igreja. Encontrei o melhor e o pior. Nomeadamente alguns contra-teste-

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munhos de padres e irmãs. — Quem é que mais admira na sua vida? – Jesus Cristo é incontornável! E os meus pais! — Que está a ler? – Leio vários livros, ao mesmo tempo. Um deles: “O fim da pobreza”, do professor Jeffrey Sachs. — Como vê o mundo de hoje? – Estamos a viver num equilíbrio muito frágil. Tudo o que construímos, pode desaparecer de um momento para o outro, com um sopro do vento. Temos de saber o que não vai desandar. — E a crise? – A crise começa dentro de cada um de nós. Temos que fazer a revolução interior para que as coisas possam mudar. — Que pensa dos homens que nos dirigem? – Têm um grande desafio. Têm de ser muito competentes e coerentes. — Estão a sê-lo? – Quero crer que as pes­soas estão lá para fazer o bem e acreditam no que estão a fazer. Mas, no dia-a-dia, são influenciadas por diversos factores e, muitas vezes, desviam-se do caminho mais ou menos intencionalmente. — O mundo de hoje cami­ nha para a justiça?

– “Não há paz sem justiça e não há justiça sem perdão”, como dizia João Paulo II. Para caminharmos para a justiça, temos que caminhar para a atitude de perdão. Viver sem rancor no coração. Com os nossos vizinhos do lado. — Que pensa da Igreja? – Sou uma novata nas coisas da Igreja. Sinto uma grande responsabilidade. Temos que caminhar mais para construir a verdadeira Igreja que Jesus sonhou. — Que é que a apaixona na Igreja? – A radicalidade! A exigência! A Igreja puxa pelo melhor que há em nós. Vamos à missa e não ouvimos ninguém a apelar para fazermos o mal. As palavras podem parecer antigas e não se perceberem, mas é tudo para o bem. A Igreja puxa por nós. — Que reprova na Igreja? – Não reprovo 99 coisas como Martinho Lutero. Reprovo as pessoas da Igreja que centralizam tudo nas suas mãos. Reprovo que não haja trabalho de equipa. — O que é a missão para si? – É todos os dias darmos o nosso testemunho cristão em casa, no nosso local de trabalho. Mostrar o que Jesus faria no nosso lugar.


Grande assembleia da Consolata em Roma Está a decorrer até 20 de Junho, em Roma, a magna assembleia dos Missionários da Consolata, que é chamada capítulo geral, em cujos trabalhos tomam parte cinco “portugueses” texto LUÍS MAURÍCIO foto JAIME PATIAS

rovenientes de quatro continentes e 21 países, 48 missionários da Consolata tomam parte no capítulo geral. A primeira semana foi dedicada ao conhecimento dos capitulares e, ao mesmo tempo, a escutar vários especialistas. Apresentaram temas que foram preparando a mente e o coração para começar a sentir o pulsar da nossa missão pelo mundo. “Escutar” foi o grande desafio da primeira semana. Ouvir os confrades vindos de todas as partes do mundo,

Roma: Norberto Louro (o mais veterano do capítulo), Fernando Rocha, Luís Maurício (argentino, o mais jovem), António Fernandes e Darci Vilarinho

escutar os êxitos, desaires e preocupações; conhecer um outro modo de ver e de pensar influenciado pela grande pluralidade cultural, foi um verdadeiro tempo de graça. Como prosseguir este grande momento histórico para a nossa família? Os conferencistas convidados lançaram grandes provocações para o desenrolar do capítulo. Como estar mais presentes nos pontos fulcrais e de fractura das diversas sociedades onde actuamos? Como reorganizar a vida dos missioná-

rios para que se tornem mais ágeis e eficazes na sua acção missionária? Que fazer para os ajudar a ultrapassar o medo da mudança e da novidade? Ajudados com a força do Espírito, procuramos respostas operativas para os grandes desafios que põem em tensão o futuro da nossa missão no mundo. Após a elaboração do novo projecto, com as suas tácticas e estratégias, elegeremos os missionários que terão a tarefa de promover a sua execução: o superior geral e quatro conselheiros.

texto Carreira Júnior ilustração H. mourato

– Então Pipo, como estamos de notícias? Tens novidades? – Por acaso, até tenho uma notícia muito interessante: uns amigos quiseram ir a Fátima ver o museu da Consolata

e ofereceram-me boleia para ir com eles. Disseram-me: “Como sabes muitas anedotas, vais connosco e, durante a viagem, ajudas-nos a passar o tempo. Tu que andas lá muito metido com os padres”. Atirei-lhes logo: Alto aí! Com os padres não se brinca! Estes, além de padres e irmãos, são missionários valentes. Tapei-lhes a boca. Mal chegámos a Fátima, os meus amigos meteram-se no museu e eu aproveitei para ir falar com o meu tio padre. Pedi-lhe informações sobre um santo que era tio do Beato Allamano. Tem um nome esquisito: Chama-se Cafasso. O meu tio contou-me algumas histórias da vida dele. Disse que era capelão numa cadeia de Turim. Havia lá criminosos que não tinham religião nenhuma e o padre Cafasso ia lá ver se os convertia. Levava-lhes tremoços e os presos, gozões, comiam-nos e atiravam com as cascas ao padre. Um dia, levou-lhes cerejas e fizeram o mesmo com os caroços. Ele desculpava-os, dizendo: Coitados, não têm mais nada com que se divertir!... Era mesmo santo aquele Cafasso!

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Eram três da tarde, quando, a 16 de Abril de 1985, desci as escadas do avião em Joanesburgo, proveniente de Lisboa. Mais de 12 horas sobre o Atlântico, devido ao boicote que impedia o regime racista da África do Sul de usar o que é de todos: o espaço aéreo. Da Europa do meu passado, fui conduzido ao futuro em África, murmurando baixinho: “Este é agora o meu país. Está aqui o meu futuro. Este será o meu povo. Obrigado, Senhor!” texto e foto JOSÉ MARTINS FERNANDES

Evangelizando nos caminhos da promoção humana Eram os tempos do “big onslaught”, isto é, da grande turbulência política, social e humana. Iria culminar, nove anos mais tarde, com a libertação e o acesso à democracia da maioria oprimida. Mas as consequências da opressão iriam permanecer durante tempos incalculáveis: uma sociedade dividida, em que as pessoas não tinham nome, mas apenas a cor da pele. Fui enviado para esse mundo, há 26 anos. Um mundo onde a Igreja, para além de ser minoritária – seis por cento da população – se colocava ostensivamente do lado da maioria oprimida. Igreja mergulhada no mar imenso de igrejas e grupos religiosos de toda a espécie, que se autoproclamam os verdadeiros descendentes do Nazareno.

A inspiração vinha-lhes do seu fundador, José Allamano, que unia promoção humana e evangelização. A presença nu­ma só diocese dava-lhes unidade e determinação. O carinho e apoio do bispo diocesano fortalecia-os nas dificuldades: houve quem fosse expulso, quem fosse esfaquea­ do e quem, como eu, se visse de armas militares apontadas no coração da noite. Era o mundo exaltante da missão! Celebrei a minha primeira Eucaristia com sete pessoas. Era o meu primeiro domingo

em “terras de missão”. Depois foi a aprendizagem da língua: nove longos meses de silêncio e escuta. Foi o tempo para nascer de novo, para abrir os olhos ao mundo que Deus me oferecia, para recomeçar com uma nova identidade.

Sonhos truncados

Numa segunda-feira, a meio da manhã, visitei a Thembi. Era bela, de olhos vivos e inteligentes que lhe iluminavam a face arredondada e afável. Adoentada, tossia muito. Dizia que isto era passageiro.

Nas periferias urbanas

Um pequeno grupo de missionários da Consolata dedi­cava-se com afinco à evange­lização dos mais desfavo­re­ci­­dos. Nos bantustões e nas pe­­riferias urbanas. Criavam oportuni­­da­des, iniciavam co­­mu­­ni­da­ des, formavam animado­res, abriam novas presenças. FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Jovem zulu com o chapéu tradicional usado em funerais

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Daí a três dias tinha o exame final de enfermagem. Queria curar-se, depressa, para o exame. Aos 21 anos, estava ansiosa por devolver aos pais o fruto das suas poupanças e a alegria de uma vida com futuro. Perguntou-me: “Porque deixaste a tua família e vieste para este país?”. Rezámos: “Vim para que tenhais a vida e a tenhais em abundância”. Quinta-feira era o dia do exame. Thembi não foi à universidade. O local do exame tinha mudado. Fez o exame final em frente de Deus. A SIDA colhera mais uma das suas inúmeras vítimas. Um final inesperado e abrupto! O missionário sente o amargo da frustração. Porquê? Já me rendi à evidência de não ter palavras para responder. Só me resta a presença e o olhar. É tão profundo o olhar dos jovens naqueles últimos dias! São milhares, cada dia. Até ontem oprimidos, hoje destroçados pelo monstro da SIDA. Sonhos truncados, juventude e beleza interrompidas, futuro irremediavelmente adiado, mãos apertadas, gestos e palavras com sabor a eternidade.


Dez anos depois dos atentados nos EUA

Bin Laden foi morto mas não o que ele representa texto CARLOS CAMPONEZ foto LUSA

Morreu Osama Bin Laden, mas ainda não morreu aquilo que ele representa: o terrorismo como uma forma de guerra devastadora, as populações civis como principal alvo de um conflito não declarado e a tentativa de imposição de uma legitimidade política minoritária por via do terror. Talvez por isso, o sucesso da operação que matou Osama Bin Laden, levada a cabo por tropas de elite norte-americanas, seja, para já, sobretudo simbólico. Em primeiro lugar, porque falamos da eliminação do chefe máximo da Al-Qaida; em segundo lugar, porque os EUA conseguiram demonstrar quão longo é o braço da sua justiça; em terceiro lugar, porque se trata de um acontecimento que decorre quando os EUA se preparam para comemorar os dez anos sobre o atentado às torres gémeas de Nova Iorque. Ao sublinhar-se a dimensão simbólica desta operação, está-se apenas a dizer que as consequências da morte de Bin Laden só se poderão avaliar nos próximos anos. Só então se poderá analisar com rigor os efeitos da morte do líder da

Al Qaida sobre a rede da organização espalhada por todo o mundo e nunca antes de decorrido o previsível período em que essa organização vai, naturalmente, lançar várias operações de retaliação pelo desaparecimento do seu chefe.

gritam por liberdade e democracia, desafiando os poderes autoritários; a segunda, a morte física, ocorreu às mãos das tropas de elite norte-americanas, numa cidade a cerca de cinquenta quilómetros da capital do Paquistão, Islamabad.

«A segunda morte» de Bin Laden O embaraço paquistanês Para todos os efeitos, este ano não será fácil para a Al-Qaida. De facto, desde que soaram os primeiros gritos da denominada «Primavera Árabe», que a organização terrorista se viu confrontada com um discurso novo, que a deixava fora de uma mudança crucial no mundo árabe: nem a guerra santa, nem o discurso anti-americano e anti-ocidental, nem a questão is­rae­ lo-árabe mobilizaram os manifestantes nas ruas, mas sim o desejo de democracia e de liberdade, duas ideias com que Bin Laden não podia estar menos de acordo. É neste sentido que o editorial do jornal francês «Le Monde» falava da segunda morte de Bin Laden. A primeira, aconteceu nas ruas e nas vozes dos manifestantes que desde a Tunísia, ao Egipto, à Líbia, à Síria, ao Iémen e à Arábia Saudita

...não morreu aquilo que ele representa: o terrorismo como uma forma de guerra devastadora, as populações civis como principal alvo de um conflito não declarado...

Este facto constitui a razão do embaraço paquistanês face à intervenção das tropas americanas no seu território e tem na sua origem uma questão profundamente perturbadora. Como é que Bin Laden se refugiou tão próximo da capital paquistanesa sem o conhecimento das autoridades paquistanesas? Duas respostas são possíveis: ou por inépcia dos serviços de segurança, ou por conivência. O facto de as autoridades norte-americanas terem decidido levar por diante a operação sem conhecimento das autoridades paquistanesas diz bem da posição dos Estados Unidos a esse respeito. Por isso, as sensíveis relações americano-paquistanesas são também consideradas o grande dano colateral da morte de Bin Laden. Uma questão que não é de somenos importância. O Paquistão é uma potência nuclear mundial, vive uma situação política de grande instabilidade, devido ao radicalismo islâmico, e mantém um conflito com a Índia, o segundo país mais populoso do mundo.

Cristãos paquistaneses em oração na igreja dedicada a Santo António, em Lahore junho 2011

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Família Missionária da Consolata

Em Fátima, um grupo de leigos, irmãs e padres procuram caminhos novos Medos e pessimismo são os inimigos a enfrentar na animação missionária da Igreja, em Portugal. Irmanados no mesmo ideal, leigos, irmãs e padres, que representam os vários grupos da Família Missionária da Consolata, olham para as diferentes actividades dos diversos centros da Consolata. Corrigir desacertos e, sobretudo, descobrir caminhos de futuro é o desafio texto E. Assunção FÁTIMA MISSIONÁRIA

A reflexão inicia com uma provocação: “Animação missionária: figueira seca ou regresso à Galileia?”. Rámon Cazallas Serrano, missionário da Consolata, questionou os presentes sobre as causas da escassez de frutos, apesar dos esforços e do investimento. E lembra a imagem da figueira estéril, dos evangelhos. Sem frutos, foi amaldiçoada por Jesus e secou. A nova animação missioná­ria, definida “acção com al­ma”, assenta no “regresso à Galileia”, isto é, “às raízes onde tudo começou”. A Galileia é a imagem de “um novo amanhecer, de novos caminhos”, que é preciso descobrir e per­correr sem se amedrontar diante das dificuldades e da escassez

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de resultados. Rico de novos meios, o tempo actual “novos con­teúdos e profundidade de vida” cristã e apostólica. As sombras da animação missionária são muitas: faz falta abraçar a mudança e tornar-se mais criativos; os esforços esbarram diante da atitude de jovens que rejeitam compromissos duradoiros; escasseia a coragem de arriscar; e, sobretudo, o discurso sobre Deus provoca, no mundo de hoje, um “apagão” desconfortável. Neste cenário, há luzes que ani­mam: uma maior abertura da Igreja local; o Evangelho e a Missão continuam a seduzir os jovens; cresce o movimento missionário. Os novos caminhos terão de apresentar a

mensagem com um brilho criativo e sedutor, prestar maior atenção às famílias. Sobretudo é necessário um espírito novo e de unidade, que brota da paixão e da força do Espírito de Deus. Deixando-se animar, cada grupo da Família da Consolata tornar-se-á animador a partir da riqueza que o caracteriza: os jovens serão criativos; os adultos próximos da família; os mais idosos estarão ao lado da terceira idade; os solidários voltar-se-ão mais para a animação; e o grupo de reflexão apresentará o carisma do Allamano como fonte de inspiração. Os participantes foram convidados a partir para “contar” aos outros e, juntos, prepararem um caminho novo.

Vários grupos da Família Missionária da Consolata

Síntese da reflexão

1. A animação missionária é transversal a todos os grupos e os seus frutos serão proporcionais ao espírito de comunhão 2. Inserção na Igreja local: não se pode ser uma ilha na Igreja. “Sejam eminentemente missionários” (Bispo Manuel Clemente) 3. As sombras podem tornar-se oportunidades 4. A animação missionária exige criatividade: novos ambientes e novas actividades 5. Os jovens exigem proximidade, empatia e confiança. É preciso acreditar neles 6. É necessário abertura fundada sobre a oração 7. Os pobres são “os nossos mestres”. Devemos aprender com eles.

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Jornadas Missionárias Nacionais em Fátima

Voluntariado e Missão “Pôr as mãos ao arado” Luís Maurício director do secretariado para a missão animação missionária é uma das fortes razões da presença da Consolata em Portugal. Animamos a Igreja local, con­tagiando-a com o espírito da missão e, ao mesmo tempo, suscitamos no coração dos cristãos a alegria de abraçar a missão como estilo de vida. Como sentiu o encontro? Fiquei muito feliz e cheio de esperança. Senti em todos o vibrar e a vontade de caminhar juntos na procura de um novo para­digma de anúncio da Boa Nova. Somos uma grande família e, graças a Deus, com muitas forças para abordar os diversos areópagos de missão em Portugal. Que mudanças preconiza? É urgente criar um novo método de fazer missão aqui, que passa por avaliar, com coragem e rigor, as nossas actividades, distinguir entre o que ainda continua a dar respostas actuais e o que já não as dá. Exige de todos os missionários e missionárias envolvidos no terreno um tempo de reflexão profunda. A missão já não pode ser pensada e proposta apenas por aqueles que se consagraram, para sempre, a ela. Os grupos da Família Missionária da Consolata também devem pôr as mãos ao arado e sulcar a nova terra que Deus quer semear hoje.

2011 - Ano Europeu do Voluntariado - é uma das expressões mais históricas e mais evangélicas do testemunho cristão. «Dar de graça o que de graça se recebeu» é um apelo que atravessa os dois mil anos de história do cristianismo, deixando um rasto de serviço, sobretudo, a favor dos mais pobres texto Manuel Durães Barbosa*

Ao assumir o tema «Voluntariado e Missão», as Jornadas Missionárias Nacionais, a rea­lizar em Fátima, na igreja da Santíssima Trindade, de 16 a 18 de Setembro, oferecem um contributo para a reflexão sobre a gratuidade do serviço da Igreja aos mais desfavorecidos. Três grandes conferências ten­tam abranger as três dimensões do Voluntariado hoje: «Voluntariado e desafios de cidadania» abordará o sentido mais amplo da disponibilidade para estar ao serviço da comunidade; «Voluntariado e nova consciência social» tra­rá uma abordagem mais fo­cada nas experiências do âmbito do serviço social que a Igreja presta; «Voluntariado com Missão» incide na missão dos leigos que deixam a sua terra, a família e as seguranças aqui, para oferecerem um, dois ou mais anos de vida além fronteiras. Três painéis de testemunhos na primeira pessoa são ocasião para partilhar acções concretas de voluntariado em compromissos sociais, na evangelização aqui e na missão lá fora.

Voluntariado missionário

Na Igreja e na sociedade portuguesas está a acontecer uma «revolução silenciosa» através do voluntariado missionário. Em 1988, um grupo de «Jovens Sem Fronteiras» partiu para a Guiné-Bissau, para abrir os alicerces da Escola Sem Fronteiras, de Caio, Tubebe, entre a etnia manjaca. No mesmo ano, o primeiro grupo de «Leigos para o Desenvolvimento» montou a sua tenda em São Tomé e Príncipe. Nos anos seguintes, foi a vez de Moçambique, Timor e Angola. O voluntariado missionário é uma revolução na missão da Igreja. Dá um legítimo protagonismo aos leigos que têm o direito (e o dever) de partir para as chamadas «linhas da frente da Missão», outrora exclusivo dos consagrados de institutos missionários. É uma revolução na Igreja porque envolve mais as famílias, a sociedade e as paróquias. Uns apoiam, e outros colocam

dificuldades, mas ninguém fica indiferente. Na hora do regresso, o facto mais significativo é o testemunho do voluntário que torna a missão mais próxima das pessoas e envolve familiares e amigos em projectos. O anúncio do Evangelho libertador ganha um impacto maior, quando os leigos se envolvem de alma e coração, e levam para a missão o que sabem fazer e a fé que lhes vai no coração. O voluntariado missionário é, na actualidade, um dos rostos mais visíveis da intervenção criativa da Igreja na evangelização, sobretudo com a participação dos jovens. Cerca de 40 instituições preparam, enviam e acolhem leigos jovens e menos jovens, no regresso da missão. Uma nova onda missionária, que não rebenta com a antiga, ajuda a aumentar o dinamismo no mar da missão hoje. * Director Nacional OMP Texto conjunto da MissãoPress junho 2011

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Sombras negras o “País dos Puros FÁTIMA MISSIONÁRIA

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sobre os”

Pa quist ão Receoso de ver uma Índia independente dominada pelos hindus, o advogado Mohammad Ali Jinnah conseguiu convencer os britânicos a aceitar uma pátria para os muçulmanos do subcontinente. Mas imaginava um país moderno, respeitador das suas minorias. A morte do fundador logo em 1948, um ano depois da independência, foi um duro golpe para o novo Paquistão, ou ‘País dos Puros’. Pouco a pouco os militares foram impondo o seu comando ao país e, para levarem a sua influência ao vizinho Afeganistão e ao Caxemira disputado com a Índia, promoveram os grupos adeptos do islão conservador, que nega tanto os direitos às mulheres como às minorias religiosas. Que Ussama Bin Laden tenha sido morto pelos americanos no seu território gera também suspeitas sobre a cumplicidade de certas figuras do regime paquistanês com a Al-Qaeda, a rede terrorista que os Estados Unidos responsabilizam pelos atentados de 11 de Setembro de 2001 texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* fotos LUSA junho 2011

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tra a lei da blasfémia que aterroriza os cristãos? Ou ainda nesse Paquistão que a América suspeita de ter protegido Bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo e que, afinal, não se escondia numa gruta afegã, mas sim numa mansão em Abbottabad, cidade a cem quilómetros de Islamabad e onde existe uma academia militar?

m que Paquistão se deve acreditar hoje? No que, em 1989, elegeu Benazir Bhutto como primeira mulher chefe de governo num país islâmico, exibindo modernidade? No que, em 1998, conseguiu fazer testes nuclea­res, que o tornaram um exemplo de desenvolvimento tecnológico entre as nações muçulmanas? Ou no que, este ano, viu já serem assassinados o governador do Penjabe e o único ministro não-muçulmano, porque as suas vozes se ergueram con-

Advogado formado em Londres, Ali Jinnah casou com uma zoroastrista e apreciava um bom whisky. Não parecem as credenciais de um muçulmano conservador, mas a verdade é que foi este homem, irritado com o destaque de hindus, como Jawaharlal Nehru e o Mahatma Gandhi, na luta contra a colonização britânica, que começou a exigir uma pátria separada para as populações islamizadas do subcontinente. Pressionado pelo tempo e pela habilidade política de Ali Jinnah, o úl-

Refugiada afegã em Peshawar. Em solo paquistanês estarão 1,7 milhões de afegãos FÁTIMA MISSIONÁRIA

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timo vice-rei britânico da Índia, lorde Mountbatten, acabaria por ceder e a 15 de Agosto de 1947 nasciam dois países. Ali Jinnah, já viúvo, viu a sua única filha recusar a ideia de Paquistão, continuando a viver em Bombaim, na nova União Indiana. Mas a irmã, Fátima, não só o seguiu, como após a sua morte, em Setembro de 1948, se lançou numa carreira própria que quase a tornou, em 1965, presidente do Paquistão, o ‘País dos Puros’, em língua urdu, o idioma oficial a par do inglês. A filha do ‘Quaid-i-Azzam’ ou ‘Grande Líder’, não teve, porém, quaisquer hipóteses frente ao general Ayub Khan, numas eleições fraudulentas, destinadas a legitimar o primeiro de uma série de ditadores militares.

Foi uma mulher, porém, que aca-

baria por se impor como a grande líder do Paquistão pós-Ali Jinnah. Benazir Buttho, que assistira impotente ao enforcamento do pai, ex-primeiro-ministro, pelo ditador militar Zia ul-Haq, impôs-se nas eleições de 1989. De repente, parecia que o Paquistão estava a voltar ao trilho traçado pelo fundador: uma democracia aberta e tolerante, com um povo de muçulmanos a votar entusiasmado por uma mulher. Contudo, a herança de Zia ul-Haq, que morreu em 1988 num desastre aéreo, era muito mais pesada do que se poderia pensar. Para legitimar a sua ditadura, o general adoptou a lei islâmica e, aproveitando o interesse dos americanos em contrariar os soviéticos no Afeganistão, apoiou grupos fundamentalistas islâmicos, no país vizinho, e recrutadores de voluntários árabes, como o saudita Bin Laden. Benazir não foi capaz de reverter nem a estratégia externa nem a política de islamização da sociedade e as acusações de corrupção minaram tanto a sua credibilidade como a própria democracia. O seu grande rival político seguiu o mesmo caminho e acabou vítima de um golpe militar. De repente, em 1999, os generais voltavam a mandar em Islamabad. O seu líder, Pervez Musharraf, possuía fama de ser um muçulmano moderado, muito influenciado pelo exemplo da Turquia, onde vivera na juventude por o pai ser diplomata. Líder de um país isolado depois dos tes-


tes nucleares de 1998 e do golpe militar de 1999, Musharraf aproveitou os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 contra os Estados Unidos para se tornar útil ao velho aliado americano. Mas foi obrigado a cortar o apoio estratégico aos talibãs, senhores do Afeganistão e protectores de Bin Laden, e a colaborar na perseguição ao líder da Al-Qaeda. Até à sua partida do poder, em 2008, nunca foi capaz de apagar as suspeitas de que sectores do regime faziam jogo duplo, ora perseguindo os talibãs, tanto no Afeganistão como na sua variante paquistanesa entre as tribos pastunes, ora limitando o impacte da caça aos seus líderes, sobretudo Bin Laden.

A força dos sectores mais extre-

mistas da sociedade paquistanesa viera ao de cima em Dezembro de 2007, quando a recém-regressada Benazir foi morta num atentado. O estado paquista-

nês, que usara os grupos fundamentalistas para influenciar tanto o Afeganistão como o Caxemira, sob controlo indiano, mostrava-se ultrapassado pelos acontecimentos. E nem mesmo a eleição de Asif Zardari, o viúvo de Benazir, para presidente conseguiu mudar a situação. Com os militares e os poderosos serviços secretos envolvidos até à medula com os grupos extremistas, e as escolas religiosas a serem a única fonte de educação para a esmagadora maioria das crianças, o Paquistão entrou num via islamizante que assusta a sua própria elite e o mundo em geral, preocupado com o futuro da única potência nuclear muçulmana, um país de 187 milhões de habitantes, senhor do sétimo exército mais numeroso do planeta. As perseguições às minorias religiosas, o assassínio das poucas vozes que ousam defender os cristãos ameaçados, as manifestações públicas de apreço por actos

Pa qu ist ão

As perseguições às minorias religiosas, o assassínio das poucas vozes que ousam defender os cristãos ameaçados, as manifestações públicas de apreço por actos terroristas, tudo se soma para mostrar um ‘País dos Puros’ sob fortes nuvens negras que não dão sinais de dissipar

terroristas, tudo se soma para mostrar um ‘País dos Puros’ sob fortes nuvens negras que não dão sinais de dissipar. Ali Jinnah continua a ser um herói, mesmo que muitos muçulmanos paquistaneses desconheçam que era um ismaelita, e a sua mensagem de modernidade ainda tem seguidores no país que criou. Mas os líderes políticos e militares terão de tornar em oportunidade o embaraço criado pela captura de Bin Laden em Abottabad se quiserem mudar o país. Neste momento, acumula-se a tensão com os velhos aliados americanos e o facto de a operação militar contra o líder da Al-Qaeda não ter sido comunicada às autoridades de Islamabad deu origem a um perigoso sobressalto nacionalista. Mas se o general Zia foi capaz de mudar a alma aos paquistaneses num sentido, nada impede que se tente agora o mesmo em sentido inverso. Será um processo lento e parece faltar um líder mobilizador (talvez Bilawal Buttho, o jovem filho de Benazir e Zardari), mas quem o tentar terá sempre um grande aliado: o pensamento liberal do ‘Quaid-i-Azzam’. *jornalista do DN

Três países, 500 milhões de muçulmanos O Raj, nome dado pelos britânicos ao seu império das Índias, era um vasto domínio, onde populações de línguas múltiplas e religiões diferentes coabitavam nem sempre em paz. No geral, os hindus eram maioritários, mas havia algumas regiões de predomínio muçulmano, como o Baluchistão e o Bengala Oriental, nos extremos. Contudo, o facto de durante séculos a Índia ter tido como soberana uma dinastia oriunda da Ásia Central, os mongóis, fez com que o Islão se espalhasse um pouco por todo o subconti-

nente, com bairros inteiros de Deli ou Bombaim habitados por muçulmanos, aldeões do Kerala e do Bihar a rezar virados para Meca e até o mais emblemático monumento indiano, o Taj Mahal, a ser um túmulo mandado erguer por um soberano islâmico entristecido pela morte da sua amada. Quando a luta pelo fim da colonização britânica se iniciou, o Partido do Congresso assumiu-se como portador de um ideal de unidade e na verdade agrupava personalidades de todas as comunidades, in-

cluindo cristãos, sikhs, jainistas, budistas e zoroastristas. Contudo, lutas internas e rivalidades pessoais acabaram por fazer surgir a Liga Muçulmana que, liderada por Mohammad Ali Jinnah, se opôs a Jawaharlal Nenhru e ao Mahatma Gandhi e começou a exigir uma pátria separada para os muçulmanos da Índia. O último vice-rei britânico, Lorde Mountbatten, cedeu e assim a 15 de Agosto de 1947 nasceram a moderna União Indiana, plurirreligiosa, e o Paquistão islâmico. Este tinha duas metades, se-

paradas pela Índia, e ao fim de 24 anos a parte oriental tornou-se independente sob a designação de Bangladesh. Assim, hoje, em vez de uma pátria para os muçulmanos do subcontinente, existem três. Porque se o Paquistão tem 187 milhões de habitantes, 95 por cento deles muçulmanos, já na Índia vivem 160 milhões, cerca de 14 por cento do total, e no Bangladesh outros 150, que representam 90 por cento da população do país. Ao todo, os muçulmanos do antigo Raj serão hoje cerca de 500 milhões.

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Não obstante as ameaças, cristãos paquistaneses (dois por cento da população) celebram a festa da luz na catedral de Lahore

Os cristãos sob ameaça Quando entra no gabinete da Jamia Naeenia, uma escola islâmica de Lahore onde fica o livro verde e branco onde se registam os novos convertidos ao islão, o cristão Parvaiz Masih não tem dúvidas. “Estou a pensar nisto há dois ou três anos. Mas há quatro dias tomei a decisão”, confidenciou ao jornal ‘The Star’. E tal é a certeza deste motorista de riquexó de 23 anos que até já disse aos amigos que a partir de agora se chama Mohammed Parvaiz. Longe de

ser caso único, Masih é apenas um dos 20 a 25 cristãos que todas as semanas se convertem ao islão no Paquistão. E se alguns o fazem por convicção religiosa, a maioria fá-lo por achar que assim está mais seguro.

Nos últimos anos, a vaga de violên-

cia contra a minoria cristã tem vindo a agravar-se. E não espanta que alguns dos três milhões de cristãos paquistaneses estejam a pensar mudar de re-

Factos e números Paquistão significa

(75 por cento sunitas, 20 por cento xiitas) Cristãos são 2 por cento, metade católicos, metade protestantes Única potência Já teve três guerras atómica islâmica 187 milhões de habitantes com a Índia Arcebispo de Carachi Elegeu a primeira mulher chefe de Governo chama-se Pinto Islamabad é a capital num país islâmico Independente desde 15 Carachi é a maior de Agosto de 1947 cidade, com 13 milhões Aderiu à ONU em de habitantes 1947, apesar do voto Os penjabis são o contrário do Afeganistão maior grupo étnico (50 66 anos de esperança por cento) média de vida 95 por cento da população é muçulmana O presidente é Asif Ali “País dos Puros” em urdu País fundado por um advogado

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Zardari, viúvo de Benazir Bhutto Sexto pais mais populoso do mundo Têxteis constituem a maior exportação A moeda é a rupia Línguas oficiais são o inglês e urdu Tem o sétimo maior exército do mundo Críquete é o desporto mais popular 20,4 milhões de utilizadores da Internet

Tem a segunda

montanha mais alta do mundo, o K2

ligião. No Outono de 2010, Salman Taseer , governador do Penjabe lançou uma campanha de apoio a Asia Bibi, uma cristã condenada à morte por enforcamento ao abrigo da lei da blasfémia. O político muçulmano, à frente de uma das mais prósperas províncias paquistanesas, acabou baleado por um dos seus guarda-costas a 4 de Janeiro.

Mas o mais significativo foi a

r­ eacção da opinião pública à morte de Taseer. Enquanto o corpo do governador era sepultado, milhares de pessoas saíram às ruas para saudar o seu assassino. E até os mesmos advogados que em 2008 foram considerados como os salvadores do sistema judicial paquistanês após enfrentarem o então presidente Pervez Musharraf, lançaram pétalas de flor ao guarda-costas quando este ia a entrar no tribunal. “Para dizer a verdade, senti-me bem quando soube que morrera; livrámo-nos dele”, resumiu ao ‘The Star’ Raghib Naeemia, imã na mesma escola islâmica.

A contestação à lei da blasfémia

é antiga, mas reavivou com a história de Asia Bibi. A cristã estava nos campos perto da aldeia de Ittanwali, no Penjabe, quando foi mandada ir buscar água. Mas as outras trabalhadoras recusaram beber algo transportado por uma cristã. Seguiu-se uma discussão sobre religiões. E as muçulmanas acabaram por


Com esta lei da blasfémia, bas-

ta um muçulmano invocar que alguém de outra religião insultou o profeta para gerar uma reacção que, geralmente, passa por uma multidão em fúria a espancar uma pessoa, ou pode mesmo conduzir a uma pena de morte. Mas os cristãos paquistaneses têm sido também alvo de outro tipo de violência, com igrejas queimadas e algumas conversões à força.

Composta por metade de cató­licos

e metade protestantes, a comunidade cristã do Paquistão (1,6 por cento dos 187 milhões de habitantes do país) optou por ficar no Paquistão aquando da partição do subcontinente indiano em 1947, após a independência do Reino Unido. Ao contrário da maioria dos hindus e dos sikhs, por exemplo, que escolheram a Índia, os cristãos acreditaram na promessa do pai da independência, Mohammad Ali Jinnah, de dar direitos

iguais a todos os cidadãos. Mas a promessa foi quebrada pelos sucessores do advogado e em 1956, o Paquistão tornou-se numa república islâmica.

Chegados ao que é hoje o Pa-

quistão com os britânicos, nos finais do século XVIII e no século XIX, muitos cristãos paquistaneses, católicos ou protestantes, são descendentes de membros da administração pública chegados nos tempos coloniais. Em Carachi sobretudo, há uma grande comunidade de cristãos católicos de Goa, a começar pelo arcebispo da cidade, Evarist Pinto. O seu antecessor chamava-se Simeon Pereira.

Apesar de muitos deles pertencerem a uma elite, os cristãos paquistaneses estão proibidos por lei de chegar a alguns cargos, como o de presidente, primeiro-ministro ou juiz do Tribunal Federal da Sharia, garante da lei islâmica no país. E o único ministro não-muçulmano, o cristão Shahbaz Bhatti, foi assassinado em Março por tentar mudar a terrível lei da blasfémia.

A única fonte de educação para a maioria das crianças são as escolas religiosas

Pa qu ist ão

apresentar queixa contra Bibi por blasfémia contra o profeta Maomé. A condenação foi a morte por enforcamento.

A somar letras se inventa um nome Foi um estudante muçulmano em Cambridge que inventou em 1933 o ‘Pakistan’, palavra que em língua urdu significa ‘País dos Puros’. Rahmat Ali, nascido no Penjabe, pegou nas províncias mais ocidentais da Índia Britânica, aquelas onde os muçulmanos eram clara maioria, e a partir das suas iniciais e com mais alguns truques criou o neologismo que em 1947 baptizaria a nova nação independente. Assim, o P é do seu Penjabe natal, o A de Afegânia (corresponde à histórica Província da Fronteira do Noroeste), o K é de Caxemira, o S corresponde a Sinde e o Tan final vem da terminação de Baluchistão e significa país nas línguas persas e afins como o urdu. De notar que a outra região da Índia colonial com grandes massas islâmicas, o Bengala, não foi tida em conta para o exercício linguístico, pois não se usou qualquer B. E se o Paquistão de hoje corresponde grosso modo às províncias pensadas por Rahmat Ali há 80 anos, mesmo que metade do Penjabe seja indiano e Caxemira também tenha ficado dividida, a verdade é que o país inicial perdeu em 1971 a área bengali islamizada, que deixou de ser o Paquistão Oriental para passar a chamar-se Bangladesh. Afinal, não ter incluído o tal B até foi uma espécie de premonição sobre o destino do ‘País dos Puros’. junho 2011

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Educação e diversão juntos na construção de um mundo melhor!

Olá amigo/amiga! Junho é um mês especial para ti! Celebra-se o Dia da Criança. Convido-te a reflectir no Princípio 7º, que diz: “Toda a criança tem direito a receber educação primária gratuita e, também, de qualidade, para que possa ter oportunidades iguais para desenvolver as suas habilidades. Brincar é uma boa maneira de aprender. As crianças têm todo o direito de brincar e de se divertir!” texto CARLOS E MAGDA ilustrações RICARDO NETO

á muitos, muitos anos existia um país muito conhecido pelas suas belezas naturais. Era rico de praias, rios e montanhas, onde as crianças passavam o tempo a brincar, sem regras e sem um propósito. Nesse país reinava um casal de monarcas que eram muito egoís­

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tas e pensavam, apenas, no seu bem-estar e superioridade. Quando tiveram um filho, criaram-no com todas as condições de bem-estar e conforto. À medida que ele foi crescendo, deram-lhe a melhor educação escolar, a que os outros meninos do reino não tinham direito. As pessoas do reino não sabiam ler nem escrever. O rei nunca deixara que elas aprendessem, para que o po­ vo não fosse superior ao rei. Os anos foram

passando até que, um dia, as crianças da aldeia juntaram-se todas para realizarem um trabalho em conjunto. Queriam celebrar o Dia da Criança. Foi aí que descobriram que o príncipe sabia ler e escrever. E fizeram-lhe muitas perguntas: – Como é que tu aprendeste a fazer essas coisas bonitas? Onde e quem te ensinou a ler e a escrever? – perguntaram os outros meninos e meninas. – O meu pai pagou a professores para me


ensinarem. Porque é que vós não aprendeis a fazer as mesmas coi­ sas que eu? Porquê? – interrogou o príncipe. – O teu pai nunca quis que nós aprendês­ semos a ler e a escre­ ver como tu. Nunca nos deixou descobrir o mundo. Então o príncipe teve uma ideia e propôs: – Em vez de prepa­ rarmos o trabalho pa­­ra festejar o Dia da Criança, vamos mos­ trar ao meu pai e aos seus conselheiros que todas as pessoas e, es­ pecialmente, as crian­

ças têm direito a re­ ceber ensino gratuito. Todos ficaram en­tu­ sias­ma­dos e puseram mãos à obra. Fizeram cartazes, onde o prín­ cipe escreveu: “Todos temos direito a apren­ der”. “O mundo intei­ ro podemos conhecer, partilhando o nosso sa­ ber” e “Queremos saber ler e escrever”. Quando chegou o dia tão esperado pelas crianças, o rei ficou muito zangado, ao ver o protesto. Man­ dou chamar o seu filho que era o líder. Conversaram ambos

durante muito tempo, até que o pai se deixou convencer pelos argu­ mentos do filho. O monarca reuniu os conselheiros do reino. Muitos não estavam de acordo com o que ele queria fazer e ten­ taram, a todo o custo, que ele desistisse da ideia. Mas o rei de­ monstrou-se muito firme e determinado. E, ao final do dia, de­ clarou solenemente: – A partir de hoje todas as crianças e adultos do reino têm o direito de receber ins­ trução gratuita.

Querido Jesus, quando fui à escola pela primeira vez, Tu ficaste contente por veres que eu ia aprender e descobrir coisas interessantes sobre o mundo e sobre Ti! Neste mês dedicado a todas as crianças, peço-te que todas possam sentir a mesma alegria que eu senti por aprender! Que todas possam brincar e estudar para o mundo inteiro explorar!

Passatempo 1 O que escrevo também se pode apagar. Sou o… 2 Sirvo para apagar e fazer pensar. Sou a … 3 É um amigo e companheiro que connos­ co trabalha o ano inteiro… 4 Aquele que nos ensina, educa e nos provoca curiosidade pelo mundo que nos rodeia… 5 Gosto muito que me utilizes com alegria e imaginação. Nas minhas folhas escre­ ve com dedicação… 6 O que escrevo no papel permanece para sempre.

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Onde está Deus «Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar. Tenho que subir aos céus sem cordas para me segurar», escreve Gilberto Gil, em “Se eu quiser falar com Deus” texto JOSÉ Brás

á 50 anos, a 12 de Abril de 1961, o russo Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem a sair do nosso pla­ neta e a viajar pelo espaço. Depois de regressar à terra, terá dito: «Estive no alto dos céus, olhei para todo o lado e não encontrei Deus». Se tomarmos a sério a sua afirmação, decorrente de uma certa imagem de FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Deus, poderíamos tranquilizar Gagarin e outros que, como ele, andam à busca das nuvens em que Deus e os anjinhos se escondem. Não é necessário percorrer tão longa distância para O encontrar. Deus está em toda a parte. Mas, «se Deus está em toda a parte, porque não o vemos?». Telescópios, microscópios, radares, sensores e outros instrumentos aumentam para níveis extraordinários a capacidade dos cinco sentidos com que o homem apreende o mundo e desven-

da muito do que para nós era dado como inexistente. A nossa sensibilidade natural encontra-se apoiada por tecnologia que nos permite ultrapassar em muito as capacidades naturais. Contudo, Deus permanece invisível.

Experiência de Deus

Quando perguntaram ao fundador da psicologia analítica, Carl Jung, se acreditava em Deus, ele respondeu: “Deus? Eu não creio. Eu sei”. Partindo da sua expe-


riência de investigação entre diferentes povos do mundo, Carl Jung afirma que, para o crente, a certeza da existência de Deus, na sua intimidade, é uma das mais certas a que o homem pode aceder. Como é possível ter esta certeza de Deus, sem O vermos com os nossos olhos? Também não vemos os pensamentos e emoções uns dos outros. Quando muito, vemos a sua tradução em acções ou expressões de comunicação. No entanto, «sabemos» que os pensamentos e as emoções existem pelo simples facto de também existirem em nós. Podemos localizá-los, como tendo origem no nosso cérebro, que a ciência designa como centro de tais pensamentos e emo­ções. E o cérebro é fa­cilmente loca­li­­zá­vel em cada pessoa. Mas, onde po­de­mos localizar Deus pa­ra aí, de algum mo­do, assentarmos a nos­­­ sa certeza da sua existência? Ao for­­mular esta interrogação co­ mo crentes, cientes do seu significado, estamos à procura de algo que, de facto, não está no nosso mundo.

Deus transcende o mundo

Deus não está ao alcance dos nossos sentidos para que O possam visualizar. Ele transcende-nos. A título de exemplo, imaginemos que a nossa vida se desenvolvia numa folha de papel. Tal como desenhos animados, viveríamos nessa folha. Num mundo de três dimensões no espaço, como o nosso, situar-nos-ía-mos num plano de apenas duas dimensões. Com a nossa vida a desenrolar-se no plano do papel, um copo colocado ao lado seria invisível para nós. Os nossos olhos veriam apenas o que se passasse na dimensão do papel, ou seja, outros desenhos como nós. Como o copo não pode atravessar o papel em que vivemos, nunca daríamos pela sua presença. Mas, se o copo cheio de água se entornasse sobre o papel, encharcando-o, daríamos conta da existência de algo para lá do nosso pequeno mundo. Esse «dar

conta de» que estamos «encharcados» por algo que não é visível, tornar-se-ia a base de uma fundamentação no mais profundo do nosso ser. Só podemos visualizar ou descrever com clareza aquilo que adquire uma forma concreta no nosso mundo e se torna objecto dos nossos sentidos. Deus não é um objecto do mundo, nem sequer um objecto abstracto do nosso pensamento. Deus é, sabemo-lo, a verdadeira origem e fundamento de nós próprios e de tudo quanto existe. Sempre que O tornamos um objecto diante de nós, estamos a pintar o nosso desenho d’Ele e a falseá-lo.

Ver Deus

Sem sentidos próprios para vermos Deus, Ele é e será sempre invisível. Pretender vê-Lo, exige que aprendamos a ver o invisível. E de facto, podemos tentar. Trancados e abrigados dentro do nosso quarto, damos conta que o vento sopra lá fora. Olhando pela janela, vemos as folhas das árvores a mexer. Mesmo de noite, sabemos que o Sol continua a brilhar lá onde se encontra escondido, pois a Lua reflecte para nós a luz que vai recebendo dele. A pretensão de encontrar Deus, ou seja, encontrar os sinais que nos revelem a sua presença no mundo, tornar-se-ia numa tarefa equivalente à de Gagarin. Continuaria a ser impossível, se Deus não se tivesse abeirado de nós para atear fogo ao papel da nossa vida. Ele tomou a iniciativa e aproximou-se do homem, entrando na sua história. Nós, cristãos, temos uma longa tradição que aponta para o encontro do homem com Deus. A Bíblia narra a caminhada de um povo que, em sucessivas gerações, procura viver sustentado pelo Deus invisível. Ao longo da sua história, vemos surgir reis, profetas, homens e mulheres comuns que nos deixaram um testemunho vivido da presença de Deus na história humana. Esse encontro é possível para todos, sem excepção. Mais que o testemunho, das páginas bíblicas transparece a própria voz de Deus que indica o caminho em que a unidade do criador com a criatura é possível. Para se aproximar de Deus, o homem terá de tornar-se muito mais humano, trocando o coração de pedra por um coração de carne.

Para além da contemplação estética Mais do que saber onde está Deus, importa o nosso encontro com Ele. Para isso, temos de pôr-nos a caminho. Se não o fizermos, dizia Kirkegaard, permaneceremos no pecado da contemplação estética de Deus. Importa definirmos bem a nossa rota e o modo de lá chegar. Marcamos o Amor como destino. Deus é amor e quem não ama não conhece a Deus (1 Jo 4, 16). Como nave que nos levará a Ele, escolhemos o Espírito. Deus é espírito e os verdadeiros adoradores de Deus adoram-no em espírito e verdade (Jo 4, 24). O caminho a seguir é o da comunhão. Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles (Mt 18, 20). Só o amor autêntico envolve o indivíduo todo em dádiva plena e cria em cada homem um caminho para Deus. Só o amor permite sairmos de nós próprios e encontrar morada no Outro, num salto para outra dimensão. Sendo compenetração no que de mais profundo e íntimo existe em nós, Deus é, ao mesmo tempo, a vivência da Verdade que nos sustenta no mundo. Na busca, geralmente, necessitamos de auxílio. A nossa fé não nos permite que nos conformemos apenas com o que nos é dado. Por isso procuramos as soluções para os nossos imensos impossíveis na oração, no diálogo com Aquele que é a origem de tudo. Ser cristão é caminhar como Pedro por cima das águas para a margem, onde Cristo nos aguarda para nos mostrar o rosto de Deus. Cada passo é certeza e perplexidade; esconde o risco de nos afundarmos. Mas, mesmo aí, existe a esperança que, em último recurso, a própria mão de Cristo impeça a nossa submersão completa. Chegados ao final da nossa viagem, algures numa tangente entre o nosso espaço-tempo e a eternidade de Deus, perante o abraço de Cristo, poderemos exclamar, como Silesius: «Deus é em mim o fogo e eu n’Ele o brilho: não nos será comum o que nos é mais íntimo?». junho 2011

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O Espírito

que nos anima Em cada ano se renova na Igreja o prodígio de Pentecostes, o dom do Espírito Santo, a dádiva por excelência de Cristo ressuscitado, o protagonista da nossa missão texto DARCI VILARINHO foto ANA PAULA

efusão do Espírito Santo é o feliz acontecimento que determinou o nascimento oficial da Igreja. É uma “cascata” de luz, de força e de amor que transformou radicalmente os apóstolos e ainda hoje transforma os nossos corações. Sem ele não há religião que valha. Ele é a chave de volta da nossa vida cristã. Sem Ele seríamos religiosamente mortos, apagados, tristes e encurralados dentro de nós, sem o verdadeiro respiro de Deus. É através do Espírito que o Pai e Jesus “respiram” em mim, vivem, amam e actuam em mim. É Ele a alma de toda a nossa vida espiritual. Tens dificuldade em entender a Palavra de Deus? Falta-te o Espírito que a inspirou. Não consegues explicar-te quando comunicas? Falta-te o Espírito que cria sintonia entre as pessoas. Não consegues perdoar? Acolhe o Espírito que te torna capaz de criar novas relações. Estás só? Tens a impressão de que a tua vida mete água por todos os lados? Sentes-te incompreendido ou ferido? Invoca o Espírito que é Consolador e faz companhia a quem está só. Escutas a PaFÁTIMA MISSIONÁRIA

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lavra, mas tens dificuldade em torná-la vida? Invoca o Espírito que é Vivificador e torna a nossa fé clara e transparente como a fé dos grandes santos. És acusado, julgado, mal interpretado? Invoca o Paráclito, o teu advogado defensor.

Uma realidade permanente

Com o Pentecostes a Igreja iniciou o seu caminho e nunca mais parou. Não é um evento que aconteceu uma única vez, o Pentecostes. É uma realidade permanente, uma nascente ininterrupta no coração da Igreja. “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar”, diz o texto dos Actos. Quando o Espírito enche o coração das pessoas, elas começam a falar. Com quem? Com Deus, antes de mais. Fala-se com Deus de um modo novo e diferente. O Espírito muda o coração, dá-nos um coração de filhos, cria relações de familiaridade única com Deus. E a partir daí tornamo-nos capazes também de falar aos outros, anunciando-lhes as grandes obras que Deus faz. “Em outras línguas”, diz o texto. Porque o Espírito Santo transforma as relações entre as pessoas de culturas e mentalidades diferentes. Quando as pessoas

se amam, são capazes de entender-se, mesmo falando línguas diversas, porque conhecem a única linguagem do Espírito que é a linguagem do amor. De povos diversos o Espírito faz uma única família, a Igreja, onde cada um, conservando a própria cultura e tradições, não se sente estrangeiro, mas é capaz de se abrir ao diálogo e ao intercâmbio fraterno dos dons que Ele distribui com imensa fantasia e abundância.

O divino tecelão

É Ele então o regista secreto do nosso encontro com Cristo e o tecelão das nossas relações com Deus e com os irmãos. É o artífice da unidade da Igreja na variedade dos dons que cada um recebe para a utilidade comum, e é a “luz dos corações” que nos faz penetrar e saborear a Palavra de Jesus. É Ele que cria, renova e sustém a fé em Jesus tornando-a profissão intrépida e entusiasta. Derramado nos nossos corações, vive e age em cada um de nós. É o Espírito da missão. É Ele que dilata o coração da Igreja. É Ele a fonte de comunhão entre os seus membros. É fogo ardente que incendeia corações. É presença amiga e brisa consoladora.


A palavra faz-se missão EM JUNHO

Ascensão do Senhor | Act 1, 1-11; Ef 1, 17-23; Mt 28, 16-20

Ide por todo o mundo

“Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura”. A Igreja existe para evangelizar. Há dois mil anos que o faz. Amarrados aos nossos problemas ainda não obedecemos totalmente a esta ordem de Jesus. Há que sacudir as nossas vidas e proclamar no mundo a nossa fé. Infunde em mim, Senhor, a paixão de anunciar o teu Reino aos povos. Festa de Pentecostes | Act 2, 1-11; 1Cor 12, 3-13; Jo 20, 19-23

Recebei o Espírito Santo

Entremos com Maria e os Apóstolos no Cenáculo para descobrirmos a nossa vocação missionária. Subamos também nós para a sala de cima, a fim de recebermos esse fogo divino que aquece os corações. Que o Espírito do Senhor desça sobre nós, para que essa chama renove a nossa vida. “Vem, Espírito Santo, / vem, amor ardente / e acende na terra / a tua luz fulgente”. Santíssima Trindade | Ex 34, 4-9; 2Cor 13, 11-13; Jo 3, 16-18

Deus é relação

Para que o Espírito Santo faça surgir nas nossas comunidades Cristãs muitas vocações missionárias dispostas a consagrarem-se inteiramente à evangelização

Fui eu que vos chamei

Jesus é o Filho enviado aos irmãos para testemunhar o amor do Pai. Quem o acolhe, acolhe o Pai e torna-se filho. Até o mais pequeno gesto de acolhimento – um copo de água fresca – é gesto divino, que não será esquecido. Ajuda-me, Senhor, a realizar os pequenos gestos da tua missão.

Esta frase, tirada do Evangelho de São João, mostra-nos que a vocação, o chamamento é uma intervenção divina na vida e no destino de cada homem e cada mulher. É uma escolha, como se o próprio Deus, no momento em que nos chama à vida, nos marcasse um trabalho: «Tu fazes isto, tu fazes aquilo». Mas o pior para nós é que, por vezes, esse destino não aparece claro logo à primeira vista; temos de fazer um discernimento através da oração e da ajuda de algum conselheiro experiente e desapaixonado. O Beato Allamano era perito nesta arte. Um dia apresentou-se-lhe uma jovem dizendo que desejava fazer-se religiosa, freira. Ele estudou bem o assunto e por fim sentenciou: “Casa-te, casa-te! Serás uma boa esposa e uma boa mãe de família”. Outros que fossem, e logo a arrebanhavam para o seu convento e lhe vestiam o hábito de religiosa. Feliz de quem encontra um bom conselheiro ou conselheira, no momento em que está para dar um passo decisivo na sua vida. Para tudo, o melhor conselheiro, o indispensável, aquele que dá luz, inspiração e força é, sem dúvida, o Espírito Santo.

DV

MC

Quem diz Trindade diz encontro, relação, comunhão e dom recíproco: Deus para nós e de nós para Deus; de mim para ti, de ti para mim. Eterna fecundidade do dar e do receber. Se eu amo e me deixo amar, vivo na Trindade. Trindade Santíssima, fazei-nos viver à vossa imagem, em plena comunhão convosco e com todos os nossos irmãos. Nossa Senhora da Consolata | Sof 3, 14-17; 2 Cor 1, 3-7; Lc 1, 26-38

Consolai o meu povo

A Mãe participa na missão do Filho. O Instituto dos Missionários da Consolata foi querido por Ela para que outros se alistem no grupo dos enviados. E foram já muitos os que responderam ao chamamento do Senhor. Que Maria torne fecundo o trabalho de tantos missionários. Senhora da Consolata, neste dia em que celebramos o teu nome e a nossa missão, enche-nos dos teus dons e faz-nos mensageiros da tua consolação. Corpo de Deus | Deut 8, 2-3.14-16; 1Cor 10, 16-17; Jo 6, 51-58

Corpo oferecido

“Dar a vida” é a raiz da nossa missão. Corpo oferecido e sangue derramado foi a missão de Cristo e é a missão da Igreja. É a eucaristia que faz a Igreja, reunindo toda a humanidade à sua mesa. É ela o Pão que nos alimenta. Senhor, dá-nos sempre deste pão! 13º Domingo Comum | 2 Re 4, 8-16; Rom 6, 3-11; Mat 10, 37-42

Basta um copo de água

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A intuição evangélica de São Francisco

Porque rezar, como rezar

Autor: Frei Giacomo Bini | 140 páginas preço: 7,50€ | Editorial Franciscana

Autor: Enzo Bianchi | 120 páginas preço: 12,30€ | Paulus Editora

Meditações com o Beato João Paulo II

O peso de uma missa

Autor: Monsenhor Francesco Follo 86 páginas | preço: 8,50€ | Paulus Editora

Autores: Josephíne Nobísso Katalín Szegedí | 36 páginas preço: 10,05€ | Editora Lucerna

Mais um livro sobre Francisco de Assis. Neste caso as suas intuições evangélicas, pregadas num retiro. O autor merece toda a nossa confiança pois os altos cargos que tem exercido ao serviço da Ordem Franciscana a quem pertence, fazem dele um profundo conhecedor da influência que São Francisco tem despertado ao longo de vários séculos em variadíssimos sectores da vida humana. Leitura fácil, agradável e atraente.

Arte de estudar Parece impossível, e o autor reconhece-o, que haja tantos milhões de pessoas que estudam e não saibam estudar. Sabem que precisam de estudar porque é proibido ser analfabeto e então estudam; estudam sabe Deus com que sacrifício! E os cábulas que o digam! O autor pretende tornar o estudo numa tarefa leve e semeia histórias engraçadas em quase todas as páginas. Só que o livro, a que ele chama «livrinho», tem 168 páginas e precisará de muita atenção para se poder descodificar o seu verdadeiro conteúdo. Autor: João César das Neves 168 páginas preço: 10,90€ Editora Princípia

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Nestas duas semanas que se têm seguido à beatificação de João Paulo II apetece-nos imaginar que ele está em permanente lua-de-mel, tanta é a atenção que se tem dado à sua festa. Este livro é mais uma acha na grande fogueira. O autor ocupa uma boa parte do livro falando da devoção do Papa a Nossa Senhora. Depois coloca-o diante de vários textos, que o próprio Papa escreveu, como que a revê-los e a reflectir sobre eles. Uma nova maneira de falar de João Paulo II.

Todos sabemos por experiência que rezar não é fácil. Pior ainda quando a oração nos é apresentada, como reflexão, escuta de Deus, nalguma igreja escura e fria ou nalgum deserto onde Deus parece estar tão longe. O padre Bianchi é o fundador de uma comunidade monástica e este seu livro ressente-se disso. É próprio para pessoas que não têm as mãos calejadas, pessoas que dispõem de tempo livre. Livro apropriado para gente bem iniciada.

Bonito e, a todos os títulos, edificante. Formato grande, óptima impressão, desenhos a condizer. As palavras, poucas, relatam-nos a história de um padeiro avarento e de uma viúva pobre que lhe pediu pão. A senhora ia para a missa. O padeiro negou-lhe a oferta e fez pouco dela. O resto da história, linda e com fim feliz, só lendo. E vale a pena, tanto para pequenos como para grandes.

Eu cultivo a felicidade

Escolinha de inglês

Autora: Nicole Attali | 126 páginas preço: 9,00€ | Paulinas Editora

Autoria: Marta Cancela | 32 páginas preço: 4,80€ | Papa-Letras Editora

Inquéritos, verdadeiros ou falsos, feitos a vários níveis, indicam que o povo português, é por natureza, triste e deprimido; e vão ao fado buscar a justificação, por ter o fado uma melodia plangente e saudosista. Pelo sim e pelo não, o melhor é ler este livro onde a autora nos convida a descobrir e a cultivar o que em nós há de melhor e que se encontra ao nosso alcance. É só detectar os pontos fracos que nós temos e fazer uns exercícios ad hoc. Leitura agradável e cheia de sabedoria.

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Para crianças da pré-escolar. Contém vocabulário, organizado com actividades divertidas e variadas. É indispensável o apoio do adulto/educador. As diversas actividades são explicadas e é feita a leitura das palavras em inglês. A criança terá gosto em repetir os termos e os sons da nova língua. Óptima apresentação em formato A/4 e com ilustrações abundantes.


Aldeia da esperança

Em subtítulo, “Um pequeno paraíso”. Escrito por uma irmã doroteia, este livro é verdadeiramente um hino à caridade fraterna e um gesto de amor aos mais pobres e necessitados, neste caso os leprosos. Quem conhece a irmã Valente-Perfeito sabe os sentimentos profundos que estão por detrás destas palavras que ela aqui escreve. Isto não é romance, mas parece; isto não é ficção, mas parece. O que é então? A pura realidade. A irmã Rita descreve a sua própria vida e a vida dos leprosos que ela assiste, cura e a quem dá esperança para viver. Livro encantador. Autora: Irmã Maria Rita Valente-Perfeito 128 páginas | preço: 3,00€ Editorial Aparf

Maria na devoção dos jovens

“Tanto no «Fátima Jovem» como nas Jornadas Mundiais da Juventude, Nossa Senhora tem um lugar privilegiado na devoção dos jovens. Ela disponibiliza o seu coração de mãe para os acolher e os conduzir pela mão até Jesus, o seu Filho. Ela vai à frente como a estrela da evangelização dos jovens. Aqueles que se deixam conduzir por ela e aceitam ser filhos, encontram Cristo, o caminho da vida, e nunca mais se querem perder d’Ele”. Virgílio Antunes | Voz da Fátima | 13 Maio 2011

Futuro de esperança

“O ano de 2010 fez retroceder em muito as relações entre a Santa Sé e o Governo chinês. E tornou mais difícil a unidade no interior da comunidade católica, dividida por um passado recente de dificuldades internas e de perseguição externa. Mas, apesar de tudo, o futuro é de esperança para a Igreja na China. Dialogar é a palavra de ordem”. Manuel Ferreira | Além-Mar | Maio 2011

Força do Evangelho

“O Evangelho, meus senhores, é uma exactidão tremenda! É uma força terrível! Se alguém te disser do doce Rabi da Galileia, não faças caso. São poetas a fazer renda. Mas quando os pregadores da Cruz falam do Revolucionário que veio ao mundo trazer a espada, então sim escuta”. Padre Américo | O Gaiato | 7 Maio 2011

O gatinho curioso

Seis histórias para crianças.

Oferecem momentos divertidos. O autor pôs vários animais a falar: um gato, um cão, um coelho, um papagaio, um peixe e outros ainda. O senhor João dedica estas histórias engraçadas a todas as crianças. Os alunos da escola do Seixal fizeram os desenhos e as ilustrações. Quem ganha são os leitores. Autor: João Ferreira 42 páginas | preço: 3,00€ Editorial Aparf

Recursos humanos

“É inequívoco que os recursos humanos constituem o factor mais valioso e decisivo para o desenvolvimento e progresso de uma cidade ou de uma região, de uma pequena e média empresa ou de uma multinacional”. Mira Ferreira | A Defesa | 10 Maio 2011

A maior pobreza

Laços de família

“A família é um dos reflexos da Trindade divina, o lar dos afectos fortes e puros, a vida naquilo que tem de mais suave. A família, um composto por seres que se acarinham da forma mais legítima: o pai, a mãe e os filhos. Quem diz pátria diz um agrupamento de famílias”. Adérito Barbosa | Valentes | Maio 2011

Fátima na eucaristia

“A mensagem de Fátima está com efeito, fortemente impregnada da espiritualidade eucarística. Podemos dizer, com alguma verdade, que a dimensão eucarística da mensagem de Fátima se apresenta numa linguagem muito própria, marcada por formas de expressão da espiritualidade da época, às vezes, com um certo tom de ingenuidade e utilizando expressões e imagens típicas de uma certa piedade popular”.

Joaquim Mendes | Vida Consagrada | Maio 2011

Jornadas da juventude

“Quando, em 1984, olhou para os jovens reunidos na Praça de São Pedro, João Paulo II teve uma visão do futuro da Igreja. Desafiou os jovens a reunirem-se em nome de Cristo e em redor da figura do Papa. Assim nasceram as Jornadas Mundiais da Juventude”.

Ricardo Perna | Família Cristã | Maio 2011

“Ser pobre não é necessariamente o mesmo que encontrar-se permanentemente num estado de pobreza; mas para muitos é um fardo que carregam toda a vida, especialmente os desempregados de longa duração ou as pessoas cujos salários são tão baixos, que nunca poderão experimentar uma vida economicamente desafogada!”.

África na fronteira

Mário Silva | Acção Missionária | Maio 2011

Jorge Heitor | Boa Nova | Maio 2011

“Fala-se por vezes de uma África como nova fronteira do desenvolvimento, designadamente nos casos de Angola e da Guiné Equatorial; mas esse pretenso desenvolvimento não está a passar por formas equitativas de boa governação, sendo enorme o fosso entre uma minoria de ricos e uma imensa maioria a viver abaixo do limiar da pobreza”.

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Gurué, Moçambique

Donativos de apoio ao Centro de Acolhimento Paróquia do Gurué, Moçambique Comunidade de Ribas (Alhadas) – 310,00€; Mário Gonçalves – 25,00€; Maria Melra – 10,00€; Maria Lopes – 10,00€; Celeste Portela – 100,00€;

Anónimo – 30,00€; Luísa Gomes – 5,00€; Emília Pereira – 20,00€; Anónimo – 25,00€; Ana Romão – 10,00€; Maria José Cunha – 20,00€; Maria Luz Cavalheiro – 10,00€; Dina

Projecto 2011

Gurué Acolhimento a doentes e acompanhantes Paróquia do Gurué, Moçambique

Imagine-se doente, a dormir ao relento, ou ter um filho hospitalizado e não poder estar perto dele. Isso acontece na diocese de Gurué, que tem dois milhões de habitantes e apenas um hospital. O bispo da diocese, Francisco Lerma, missionário da Consolata, pretende construir um centro de acolhimento para doentes e acompanhantes.

porta 25 euros

telhas 10 euros tijolo 1 euro pregos 5 euros viga de madeira 20 euros

sacos de cimento 15 euros

Fernandes – 20,00€; Vera Costa – 5,00€; Anónimo – 5,00€; Adelaide Santos – 10,00€; Anónimo – 15,00€; Licínia Maricato – 5,00€; Deolinda Ferreira – 5,00€; Otília Gonçalves – 5,00€; Aldina Simões – 2,00€; Ernesto Gonçalo – 30,00€; Rosa Freire – 15,00€; Anónimo – 5,00€; Capela de Nossa Senhora da Consolata (Águas Santas) – 165,50€; Paróquia de Vandoma, Astromil e Vila Cova de Carros – 350,00€; Paróquia de São Martinho do Campo – 350,00€; Anónimo – 150,00€; Anónimo – 10,00€; António Couto – 20,00€; Alice Marques – 10,00€; Graziela Fonseca – 10,00€; Fernanda Azevedo – 10,00€; Eduarda Henriques – 10,00€; Anónimo – 15,00€; Anónimo – 15,00€; Helena Barros – 60,00€; Madalena Araújo – 20,00€; Risete Monteiro – 100,00€; Anónimo – 20,00€; Anónimo – 10,00€; Ermelinda – 100,00€; Maria Narciso – 40,00€; Purificação Páscoa – 10,00€; Cremilde Pereira – 15,00€; Augusta Matos – 1,00€; Manuela Grangeio – 13,00€; Lurdes Ferreira – 5,00€; Fátima Matias – 10,00€; Otília Margato – 5,00€; Fernando Margato – 6,00€; Ausenda Carvalho – 20,00€; Conceição Almeida – 3,00€; Filomena Abreu – 100,00€; Carlos Carnide – 60,00€; Cidália Simões – 3,00€; Vítor Fernandes – 26,00€; Rui Neves – 90,00€; Patrocínia – 100,00€; Anónimo – 161,00€. Total geral = 27.848,15€.

Solidariedade vários projectos Bolsas de Estudo Lucinda Pereira – 250,00€. Bairro Deep Sea – Nairobi – Quénia Maria Piedade – 50,00€; Olívia Monteiro – 60,00€; Jaime Sousa – 100,00€; Mário Carvalho – 6,00€. Padre Tobias Oliveira – Quénia Anónimo – 52,50€. Missões de Moçambique António Silva – 50,00€. Ofertas várias Anónimo – 180,00€; Joaquina Trigo – 250,00€; Ana Paredes – 53,00€; Amélia Gomes – 95,00€; Rosa Martins – 53,00€; Filomena Mendes – 75,50€; Joaquim Rocha – 36,00€; Maria Saudade Oliveira – 40,00€; Alzira Lopes – 136,00€; António Oliveira – 100,00€; Rosa Rocha – 25,00€; Anónimo – 178,00€; Fernanda Santos – 46,40€; Maria Dores Góis – 36,00€; António Soares – 41,00€; Pedro Melo – 250,00€; Lucille Mendes – 36,00€; Lourdes Dias – 43,00€; Emília Simões – 35,00€; Maria Luz Febra – 43,00€; Clara Felgar – 26,00€; José Moreira – 500,00€; Albertina Cerqueira – 43,00€; Agostinho Gameiro – 50,00€; Isabel Pacheco – 25,00€.

8 Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | Telefone 249 539 430 | fatima@consolata.pt 8 Rua D.a Maria Faria, 138 Apartado 2009 | 4429-909 Águas Santas MAI | Telefone 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt 8 Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt 8 Rua Cap. Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | Telefone 218 512 356 | lisboa@consolata.pt 8 Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | Telefone 253 691 307 | braga@consolata.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Missionário

na paz e na guerra texto MANUEL CARREIRA ilustração H. MOURATO

João Berloffa nasceu a 28 de Novembro 1912 em Vila Lagarina – Itália. Foi ordenado sacerdote em Junho de 1936. Em 1938 partiu para a Etiópia e trabalhou na missão de Guder e depois como capelão militar. Foi prisioneiro de guerra entre 1940 e 45. Voltou à Itália e em 1947 partiu para as missões da Colômbia onde faleceu em Outubro 1954 uem olha para a cara deste jovem missioná­ rio e sabe que ele só teve 42 anos de vida, vê logo que ele não terá podido realizar muitas proezas apostólicas du­ rante tão curta existência. Mesmo as­ sim não perdeu tempo. Ordenado sa­ cerdote em Turim pelo cardeal Maurí­ cio Fossati em Junho de 1936 depressa alcançou o objectivo da sua vocação que eram as missões. Tocou-lhe em sorte a Etiópia que naquele tempo era uma colónia italiana. Chegou lá em 1939 e pôs-se logo ao serviço como colabo­ rador do seu colega mais velho, padre Domingos Viola, na missão de Guder e depois como capelão dos imigrantes italianos e dos militares que trabalha­ vam por conta do Estado na construção de novas estradas. Ele desempenhou tão bem esta função que, mais tarde, o

próprio governo italiano o condecorou com a cruz de guerra. Não era, porém a guerra que lhe interessava; era a paz e o apoio que dava a quem precisava dele. Mas a guerra não se compadeceu com os seus desejos de paz e apanhou-o nas suas malhas levando-o para longe como prisioneiro. Porém o nosso jo­ vem Berloffa não desanimava: era pa­ dre, era missionário e como tal tinha de desempenhar a sua missão. Do campo de concentração nº 308, no Egipto, es­ creveu ao seu superior, em 11 de Março de 1944, o seguinte: Trabalho não me falta. Tenho sob a minha jurisdição (espiritual) 1500 prisioneiros italianos, divididos por três campos e, apesar das dificuldades, tenho conseguido visitá-los todos e levar consolação espiritual aos nossos compatriotas ali concentra­ dos. O padre Berloffa regressou à Itá­ lia em 1946. Mas a sua missão no es­ trangeiro ainda não estava terminada.

A Colômbia esperava por ele, e em 1947 rumou naquela direcção. Foi colocado na zona do rio Madalena onde em pou­ cos anos fez grandes «milagres» quer em obras materiais quer no campo espiritual: construiu a igreja, a residência paroquial, um salão polivalente para reuniões e ou­ tras obras, despertando em todos os fiéis o desejo de colaborar. Mas a corda esti­ cou tanto que a certo momento partiu. E partiu pelo elo mais fraco: o coração. Já no extremo das suas forças ainda tinha programado outras realizações numa das paróquias de que tomava con­ ta, mas já não conseguiu. A congestão cerebral que o acometeu, no dia 10 de Junho de 1954, deu por finda toda a sua actividade e repentinamente faleceu. Muito chorado, muito recordado, mui­ to acompanhado no funeral, foi sepul­ tado no interior de uma igreja nova que ele próprio tinha construído em Tocaima, Colômbia. junho 2011

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Com frases curtas e palavras simples, os provérbios concentram montanhas de sabedoria: servem para educar, para estimular e para castigar defeitos. Têm o condão de atingir toda a gente sem ferir ninguém. Como quem diz: “Vista a carapuça aquele a quem ela servir”. E todos acatam

Trabalho e bons costumes texto MANUEL CARREIRA foto E. Assunção

O trabalho e o esforço chegam sempre primeiro

Apoio à compreensão: Em qualquer actividade que se realize, tem de se começar sempre pelo trabalho. Só depois virá o sucesso. Sem esforço e boa vontade não se obtém nada de positivo. É assim em todos os sectores da vida. Primeiro tem de se investir, tem de se lançar a semente; o fruto virá depois. Em português diz-se: “Quem não trabuca não manduca”. Primeiro trabalhar, depois comer. Samburu

O marido que tem várias mulheres morre pelo caminho com a manta às costas

Apoio à compreensão: O homem que tem várias mulheres (poligamia), tem de andar com a manta às costas de lado para lado, para ir dormir a casa de cada uma delas, visto que elas podem morar em povoações diferentes. Sendo assim, o melhor de tudo é cada homem ter a sua própria esposa e cada esposa o seu próprio marido, como Deus fez no princípio do mundo. Macua

As palavras, mesmo sem terem pernas, percorrem milhares de quilómetros

Apoio à compreensão: Hoje as palavras chegam depressa a qualquer lado, através dos meios da comunicação modernos. Mas este provérbio refere-se às coisas do passado, quando as notícias se transmitiam de boca em boca. Começava-se por dar o essencial da notícia, depois vinha outro e dava mais uns pormenores até que se chegava ao total da notícia com todos os pormenores e mais alguns, para se cumprir o dito popular: “Quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”. Coreia

A pobreza não se vence com a língua

Jovem pedreiro moçambicano de Mapinhane, na província de Inhambane FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Apoio à compreensão: O trabalho sim, mas o muito palavreado não ajuda a vencer a pobreza. É costume dizer-se que os povos de África, em geral, são pouco dados ao trabalho; bons conversadores e espertos em contar histórias. Mas este provérbio arrancado à cultura do povo macua, prova o contrário. Quando a fome aperta, então se vê que não é com cantigas que a questão se resolve. Lá que as tarefas estão bem divididas entre homens e mulheres, isso é verdade, mas quando a necessidade é urgente então trabalham eles e elas e também as crianças, porque diz o ditado: “Trabalho de menino é pouco, mas quem o despreza é louco!”. Macua


No caminho de quatro Papas texto NORBERTO LOURO ilustração MÁRIO JOSÉ TEIXEIRA

A beatificação de João Paulo II reavivou em mim a memória que, dele e de outros Papas, fui entesourando ao longo da minha vida já longa. Com dois, tive a sorte de contactar directamente, embora de relance e por mero acaso. Mas dois deles, conheci-os antes de o serem e quando nada fazia crer que o viessem a ser. Ainda bispo e, mais tarde, patriarca de Veneza, João XXIII veio a Fátima em peregrinação e hospedou-se no hotel Pax. Junto à porta do quarto onde pernoitou, foi colocada uma lápide para recordar o facto. João Paulo I conheci-o no seu paço episcopal, em Vittorio Veneto, Itália, onde era bispo. Eu e os colegas tirámos fotografias com ele. Recordações que guardei ciosamente, por muito tempo, pois o facto tornou-se digno de memorização quando foram investidos da alta dignidade de Papas e se tornaram, um e outro, célebres por motivos diferentes, mas tão marcantes, que todos conhecemos. Com Paulo VI tive uma surpresa simples mas, ao mesmo tempo, emocionante. Numa audiência geral, ocupava eu um lugar no primeiro banco da frente, na basílica de São Pedro, juntamente com a direcção geral dos Missionários da Consolata, recém-eleita, em 1969. Ao passar a cumprimentar-nos um a um, apertou-me a mão e ousei dizer-lhe que trabalhava em Fátima, onde ele tinha estado em 1967, e pedi-lhe uma bênção especial por isso mesmo. Apertou-me mais

uma vez a mão e parou um pouquinho, parecendo querer dizer alguma coisa que lhe não vinha. Depois desta breve hesitação, apertou mais a mão e disse em por-

tuguês marcado com forte sotaque italiano: “De todo o coração!”. Era o português que lhe não vinha. Com João Paulo II, agora beatificado, estive a rezar

sozinho por uns cinco minutos, na sua capela. Durante uma visita dos bispos de Moçambique a Roma, que acomapnhei, tive um percalço insignificante. Não levara paramentos para a concelebração, porque me disseram que não era preciso. O secretário do Papa excluiu-me de tão elevada honra e alegria de concelebrar com o Papa e os bispos, na sua capela particular. Retirei-me inconformado. Mas, reparando que a outros ignaros, como eu, eram dados os paramentos, atrevi-me a fazer notar tal discriminação. O secretário olhou-me de sobrolho carregado, mas diante de tal facto discriminatório indicou-me a sacristia. Paramentei-me, ajudado por uma irmã que, para minha surpresa e talvez por engano, me introduziu na capela onde o Papa, ajoelhado e com a cabeça entre as mãos se preparava para a missa. A sós com o Papa, ajoelhei-me e procurei rez­ar. O coração galopava. De vez em quando, aquele santo, pronunciava palavras imperceptíveis porque entrecortadas por suspiros profundos. Concentrei-me e uni-me a ele naquela oração tão sentida, pela Igreja de Moçambique, e rezei. Entretanto os bispos entraram em procissão e, ao verem-me ali, a sós com o Papa, não escondiam a sua surpresa e, talvez, inveja. No fim da missa, tive que explicar tudo. Rimos a bom rir. Missão significativa e altamente simpática a deste Papa que soube inaugurar um modo tão cativante de estar com a gente.

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Crianças convidadas a adorar a Deus texto LUCÍLIA OLIVEIRA

Semana a semana, as crianças estão a descobrir o caminho que as conduz ao tesouro. Ao raspar a janela correspondente encontram uma pista. A primeira é “Creio”, a segunda “Adoro, a terceira “Espero” e a quarta “Amo-vos”. Chegando ao tesouro, os meninos e meninas encontrarão o tesouro, a oração que o Anjo ensinou aos pastorinhos: “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não vos amam». Os mais pequenos são ainda desafiados a construir a caixa do «tesouro do coração», que oferecerão a Deus na peregrinação das crianças a Fátima. A 9 e 10 de Junho decorre aquela que é a peregrinação mais festiva do ano: a das crianças. O altar é colocado no meio do recinto, de modo a acolher todos os

meninos e meninas que, das diferentes dioceses de Portugal participam na peregrinação. Neste fim-de-semana de feriado nacional, o bispo de Aveiro, António Francisco dos Santos, presidirá à peregrinação que acontece um dia antes do novo reitor, padre Carlos Cabecinhas, tomar posse (11 de Junho). Neste primeiro ano da celebração do centenário das Aparições (em 2017), o

Repensar juntos a Pastoral

A síntese das reflexões realizadas nas dioceses, congregações, movimentos e obras eclesiais sobre a temática “Repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal” estarão em análise, com particular acentuação na nova evangelização, nas Jornadas Pastorais do Episcopado Português, que decorrem de 13 a 16 de Junho. O presidente do Conselho Pontifico para a Nova Evangelização, Rino Fisichella, estará presente nos trabalhos.

Santuário partiu das aparições do Anjo e propõe como tema:”Pai, Filho, e Espírito Santo, eu Vos adoro”. O objectivo é “desenvolver a atitude de adoração a Deus, Santíssima Trindade”. Nesta peregrinação, será cantado o hino, especialmente preparado para este momento: “O Anjo com grande encanto” tem um poema do padre José Henrique Pedrosa e música de Cristiana Francisco.

a 26 de Junho. Esta iniciativa insere-se no âmbito da programação do primeiro dos sete anos de celebrações do centenário das Aparições, em 2017. Os trabalhos decorrerão na Capela da Morte de Jesus, na igreja da Santíssima Trindade. Estão previstas reflexões teo­ lógicas e pastorais, intervenções de carácter mais testemunhal, bem como apresentações de expressões culturais do tema.

Novo reitor toma posse

Carlos Cabecinhas, que sucede a Virgílio

“Adorar Deus em espírito e verdade” Antunes, recém-nomeado bispo de Coim“A centralidade de Deus na fé e na vida, procurando compreender aquilo que é próprio da atitude crente”, é um dos objectivos do simpósio teológico-pastoral “Adorar Deus em espírito e verdade – Adoração como acolhimento e compromisso” que decorre de 24 FÁTIMA MISSIONÁRIA

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bra, tomará posse, como reitor do Santuário de Fátima, a 11 de Junho. A cerimónia decorrerá durante a Eucaristia das 11h, na igreja da Santíssima Trindade. O nomea­do reitor tem 40 anos, 16 de sacerdócio, e é capelão do Santuário desde há um ano.

JUNHO em agenda

10 Peregrinação das crianças 17 Encontro do secretariado nacional da pastoral da cultura 18/19 Peregrinação missionária da família da Boa Nova 23 Simpósio Teológico -Pastoral: Adorar Deus em espírito e verdade 26 Encontro nacional dos grupos bíblicos 26 Convívio dos familiares dos missionários da Consolata


Mãos de esperança Com mão sempre cheias de esp’rança ao campo foi o semeador: levava no rosto a ilusão do fruto a nascer da haste a florir e do trigo a crescer. Por entre os espinhos e abrolhos nas pedras caiu a semente morreu sem nascer nem florir por falta de chão e os homens com fome e amor feito de pão. Em terra lavrada e faminta o homem também semeou: do sol recebeu o vigor, a chuva a regou e numa seara o campo se tornou «Palavras de vida», Centro Bíblico dos Capuchinhos


Paquistão