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ANO LVII – N.º 10 NOVEMBRO 2011 ASSINATURA ANUAL | Nacional 7,00 € l Estrangeiro 9,50 €

Cabo Verde exemplo de boa governação

Igreja local sujeito primeiro da Missão

Prémio Nobel 2011 Três mulheres pela paz

Colégio de São Miguel assinala cinquentenário


Nossa Senhora da Consolata Consolata é cheia de graça, por Deus agraciada para levar ao mundo a consolação de Jesus Consolados são os evangelizados, porque amados de Deus Consolar é levar a toda a parte a consolação de Deus salvador Como Maria tornamo-nos solidários com todos. Solidariedade é o outro nome da consolação Como Ela somos presença consoladora em situações de aflição Por seu amor colocamos a nossa vida ao serviço do homem todo e de todos os homens Allamano deu-nos Maria por mãe e modelo. Por isso chamamo-nos Missionários da Consolata

Apoie a formação de jovens missionários Funde uma bolsa de estudos. A oferta é de 250€ e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Pode dar-lhe o seu próprio nome ou outro que desejar. São-lhes concedidos, entre outros, os seguintes benefícios: 8 fica inscrito no livro de benfeitores dos Missionários da Consolata; 8 participa nas orações e nos méritos apostólicos dos missionários; 8beneficia de uma missa diária que é celebrada por todos os benfeitores

MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

Rua Francisco Marto, 52 – Ap. 5 – 2496-908 FÁTIMA | T. 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua D.a Maria Faria, 138 – Ap. 2009 – 4429-909 Águas Santas MAI | T. 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt Quinta do Castelo – 2735-206 CACÉM | T. 214 260 279 | cacem@consolata.pt Rua Capitão Santiago de Carvalho, 9 – 1800-048 LISBOA | T. 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Rua da Marginal, 138 – 4700-713 PALMEIRA BRG | T. 253 691 307 | braga@consolata.pt


Cruzar a soleira da porta da fé

Perante 115 movimentos eclesiais do mundo, reunidos em Roma num encontro sobre Nova Evangelização, Bento XVI anunciou a celebração de um “Ano da Fé”. O evento deverá iniciar a 11 de Outubro de 2012, por ocasião do cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II, e prolongar-se até 24 de Novembro de 2013, festa de Cristo Rei. “Será um momento de graça e de empenho para uma cada vez mais plena conversão a Deus, para reforçar a nossa fé e para anunciá-lO com alegria ao homem do nosso tempo”, explicou o Papa.

“O cristão não pode nunca pensar que crer seja um facto privado”. Com efeito, “a fé implica um testemunho e um compromisso públicos”, escreve Bento XVI na carta apostólica “A porta da Fé”, com a qual cria o “Ano da Fé”. O Papa lembra a responsabilidade social da fé, apontando a Igreja primitiva como modelo: “No dia de Pentecostes, a Igreja manifesta, com toda a clareza, esta dimensão pública do crer e do anunciar a própria fé, sem temor, a toda a gente. É o dom do Espírito Santo que prepara para a missão e fortalece o nosso testemunho, tornando-o franco e corajoso”.

Nos tempos actuais de crise, o mundo tem particular necessidade

“O cristão não pode nunca pensar que crer seja um facto privado”. Com efeito, “a fé implica um testemunho e um compromisso públicos”, escreve Bento XVI na carta apostólica “A porta da Fé”, com a qual cria o “Ano da Fé”

do “testemunho credível de quantos, iluminados na mente e no coração pela Palavra do Senhor, são capazes de abrir o coração e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que não tem fim”. Hoje, cada vez mais, “grandes sectores da sociedade” vão perdendo as referências cristãs, “devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas”. O Papa lembra que, “no nosso contexto cultural, há muitas pessoas que, embora não reconhecendo em si mesmas o dom da fé, todavia vivem uma busca sincera do sentido último e da verdade definitiva acerca da sua existência e do mundo”.

Por estas e outras razões, entendeu Bento XVI convocar o “Ano da Fé”, desafiando-nos para a aventura de cruzar a soleira da “porta da fé” e percorrer um “caminho que dura a vida inteira”. O que se pede aos cristãos é de “redescobrir o caminho da fé para fazer brilhar, com evidência sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo”. Em jeito de aviso, o Papa lembra: “Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida”, como se lê em São Mateus.

Passados 50 anos, o Concílio Vaticano II mantém a sua actualidade, como recordou João Paulo II, no início do terceiro milénio: Os textos dos padres conciliares “não perdem o seu valor nem a sua beleza. É necessário fazê-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos”. E mais adiante: “É uma bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa”. Bento XVI lembra quanto afirmou no início do seu pontificado: “O Concílio pode tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja”. Esta renovação passa pela alegria e entusiasmo de “homens e mulheres de todas as idades serem cristãos na família, na profissão, na vida pública, no exercício dos carismas e ministérios a que foram chamados”. É um programa de vida que exige dedicação e entrega. Mas sobretudo implica uma caminhada apoiada numa catequese de adultos sólida, condição fundamental para alcançar os objectivos do “Ano da Fé”. EA NOVEMBRO 2011

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Vista de Cabo Verde

Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA Nº 10 Ano LVII – Novembro 2011 Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt

FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Pro­vin­cial Norberto Ribeiro Louro Redac­ção Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 27.900 exemplares Director Elísio Assunção Redacção Elísio Assun­ção, Manuel Carreira Conselho de Re­dac­ção António Marujo, Elísio Assunção, Manuel Carreira Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos e Magda, Carlos Camponez, Cristina Santos, Darci Vila­ri­nho, Leonídio Ferreira, Luís Mau­rício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Teresa Carvalho; ­Diaman­tino Antunes – Moçambique, Tobias Oliveira – Quénia, Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa LUSA Contra-capa Ana Paula Ilustração H. Mourato, Mário José Teixeira e Ri­car­do Neto Com­po­sição e Design Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Joaquim Bernardino e Cristina Henriques

Um cabo-verdiano que dá exemplo a África

Igreja local sujeito primeiro da Missão

Assinatura Anual

Nacional 7,00€ Estrangeiro 9,50€ De apoio à revista 10,00€ Benemérito 25,00€ Avulso 0,90€

Prémio Nobel 2011 Três mulheres pela paz

Diocese de Inhambane, Moçambique 50 anos a crescer firmes na fé

(inclui o IVA à taxa legal)

Pagamento da assinatura

multibanco (ver dados na folha de endereço),

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03 EDITORIAL 805 PONTO DE VISTA Evangelizar 806 LEITORES ATENTOS 807 HORIZONTES É sempre tempo de romper o casulo 808 MUNDO MISSIONÁRIO

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a sua assinatura

FÁTIMA MISSIONÁRIA

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20 anos a tornar conhecida a missão | ÁFRICA grande epidemia de cólera | BRASIL missionários de 11 países vão à escola | IRÃO ameaças obrigam cristãos à fuga | IÉMEN crianças vítimas da violência | PAQUISTÃO obrigadas a converter-se ao Islão 811 AVENTURAS Pipo em discernimento 812 APÓSTOLOS MODERNOS Por uma cultura diferente 822 GENTE NOVA EM MISSÃO A festa de todos os santos 824 TEMPO JOVEM Rali da Vida 826 SEMENTES DO REINO Com as lâmpadas acesas 828 O QUE SE ESCREVE 830 O QUE SE DIZ 831 VIDA COM VIDA Para tudo e para todos 832 OUTROS SABERES À volta da panela se reúne toda a família 833 A MISSÃO É SIMPÁTICA A beleza está no coração do homem 834 FÁTIMA INFORMA Colégio de São Miguel assinala cinquentenário

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texto João César das Neves

Evangelizar Não é fácil evangelizar neste tempo de crise de valores. Não é apenas a Igreja que se queixa. Todas as entidades que têm mensagens a comunicar ao público lamentam a relutância dos seus ouvintes e a dificuldade em convencer as pessoas das coisas excelentes que lhes querem apresentar. Os médicos, falando de colesterol ou tensão alta, ansiando por promover uma vida saudável e dieta equilibrada, frequentemente protestam contra este tempo sem valores, contra a atitude irresponsável e ligeira dos seus doentes. O mesmo dizem os ecologistas, sempre prontos para a evangelização ambiental, ou tantas outras organizações, das ONGs aos sindicatos, partidos, galerias de arte, associações educativas, culturais, desportivas e económicas. No mercado das ideias são muitas as entidades que divulgam os seus propósitos e lutam pela atenção da sociedade. E todas garantem que não é nada fácil fazer evangelização nestes tempos desorientados. Vivemos numa época que exalta a liberdade, a afirmação do indivíduo e a realização pessoal. Cada um quer ser senhor de si e ninguém gosta de ser manipulado, convencido, orientado. Acima de tudo as pessoas fazem questão de repudiar tutores, contestar guardas, esquecer mentores, na ânsia de sentirem que controlam a sua vida. Não admira que seja difícil divulgar

A tarefa de evangelizar nunca foi fácil, e é tão difícil hoje como sempre foi, porque nunca foi outra coisa qualquer doutrina e arranjar prosélitos para as ideologias. É verdade que a dificuldade aguça o engenho. Face ao cepticismo actual surgiram múltiplas técnicas sofisticadas de convencer, fazendo com que seja aceite aquilo que se pretende. Há métodos claramente abusivos, que impingem ideias sem se perceber que se está a ser apanhado. Mas mesmo as entidades honestas e bem intencionadas têm de ter cuidado com a aparência, atender à imagem, preparar formas de comunicação. A tarefa do apóstolo não tem nada a ver com isto. Porque nós, na verdade, não queremos convencer ninguém do que quer que seja. O cristianismo não é um culto, sistema, filosofia ou doutrina. O cristianismo é uma pessoa,

Jesus Cristo, Alguém que está vivo e quer viver comigo a minha existência. Evangelizar é proporcionar o encontro com essa Pessoa e deixar que Ele crie uma relação com o próximo. A tarefa de evangelizar nunca foi fácil, e é tão difícil hoje como sempre foi, porque nunca foi outra coisa. Não interessa se o tempo tem falta de valores ou excesso deles, se é céptico, pedante ou crédulo. Cada tempo tem as suas dificuldades com a evangelização, porque ela sempre será muito difícil. Tão difícil como uma verdadeira amizade. Porque é precisamente uma verdadeira amizade. Daquelas que mudam para sempre a nossa vida. Aliás é a única que muda verdadeiramente a vida. Para sempre. Para sempre, mesmo. Como é que se divulga uma amizade? Como é que se leva outros a serem amigos íntimos do nosso Amigo mais íntimo? Porque é disso que se trata. Para uma coisa dessas não há técnicas nem truques. Bem, só há duas coisas com que podemos sempre contar para isso. A primeira é a qualidade da nossa amizade por Cristo, a sinceridade do amor verdadeiro por Ele. A segunda é contar com Ele e com a profundidade do Seu amor por aqueles que pretendemos evangelizar. Às vezes, nos tempos sem valores, a evangelização até é mais fácil, como com as prostitutas e os publicanos.

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Renove a sua assinatura

AGRADECEMOS que os nossos es­­ti­ mados assinantes renovem a assina­ tura para 2012. SÓ AS ASSINATURAS actualizadas poderão usufruir do pequeno apoio do estado ao porte dos correios. NA FOLHA on­de vai escrita a sua direcção, do lado esquerdo, poderá verificar o ano pago e o seu núme­ ro de assinante. O PAGAMENTO da assinatura pode­ rá ser feito através dos colaborado­ res, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multiban­ co, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05 IMPORTANTE Refira sempre o nú­­ me­ro ou nome do assinante. OS DO­­NA­TIVOS para as missões são de­dutíveis no IRS. SE DESEJAR RECIBO, deverá enviar­ -nos o seu número de contribuinte. MUITOS LEITORES chamam à FÁTI­ MA MISSIONÁRIA «a nossa revista». É bom que assim pensem e assim pro­ cedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 29 mil assi­ nantes. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

Revista barata

Assinantes feliz

Projecto Gurué

Elias

José

Belmira

Mais uma gracinha de Allamano

Cada vez mais linda

Caros amigos missionários, Saudações para todos vós que estais ao serviço da missão. Tem esta carta a finalidade de liquidar um novo ano de assinatura que vem em nome da minha esposa Helena. O pouco que sobra é para as missões. Tenho em conta que a revista é muito barata, em comparação com outros jornais e revistas.

Partilhar a alegria de ler

Eu saúdo-vos com votos de boa saúde. Quanto a mim, estou presentemente bem, graças a Deus. Peço-vos desculpa da minha parte, pois gostava de vos auxiliar mais na vossa obra missionária, mas a minha situação financeira não permite. Mas continuo com as minhas pobres oblações para a vossa missão. Agradeço-vos por me continuarem a mandar as revistas missionárias, pois elas são sempre bem apreciadas por todos os idosos e doentes que eu visito e que as lêem com agrado. Sempre que eu posso vou visitá-los e levo as simpáticas revistas para eles lerem. E todos agradecem. Filomeno

Ex.mos Senhores, Que Deus vos abençoe. Sou assinante da vossa revista e muito me congratulo por o ser. É uma revista muito boa, que nos põe a par de muita coisa que se passa no mundo, além de nos fazer reflectir sobre a nossa vida. Envio-vos um cheque para o projecto Gurué, ou para o que for mais necessário. Peço orações por mim e pela minha família.

Agradeço que publiquem na FÁTIMA MSSIONÁRIA, só estas palavras: “Ao Beato José Allamano, agradeço a graça concedida pela cura de um familiar”. Junto envio este donativo para ajudar os mais necessitados. Foi o que prometi ao Beato José Allamano. Isabel

Desculpem o atraso

Ex.mos Senhores, Envio o dinheiro da minha assinatura. Desculpem, por favor o atraso. O pouco que sobra é para qualquer obra vossa. Não deixem de me enviar a revista FÁTIMA MISSIONÁRIA. Gosto muito de a ler. Clarisse

Junto envio um cheque no valor de 20,00€, para pagamento da minha assinatura referente ao ano de 2011, o restante será para enviarem, para onde fizer mais falta, talvez para o Gurué, onde eu vivi, ou outro país. Não posso dar mais presentemente, porque este ano já contribuí – e muito – para casas de crianças abandonadas pelas famílias.

Com os meus respeitosos cumprimentos envio por esta carta um cheque para pagamento da assinatura da FÁTIMA MISSIONÁRIA, que está cada vez mais linda, especialmente o seu conteúdo que nos revela o dom do Espírito Santo nos testemunhos nela contidos. Domingos

Tudo por Deus

Ex.mos Senhores, Não conheço nada dos missionários da Consolata, mas, por acaso veio-me ter às mãos uma revista chamada FÁTIMA MISSIONÁRIA onde se falava num projecto de Gurué – Moçambique. Mando esta pequena ajuda. Helena

DIÁLOGO ABERTO Ex.mo Senhor Director, Já sou vossa assinante há uns anos. Toda a família aprecia imenso a vossa (nossa) revista missionária, pelos assuntos que apresenta e pela comunicação com o mundo missionário. Nas minhas orações tenho sempre presente as vossas intenções, os vossos trabalhos, os povos com quem e a quem se dedicam. Este ano, como prémio pela assiduidade, interesse FÁTIMA MISSIONÁRIA

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e tudo o mais que uma minha aluna da catequese (6º ano) demonstrou ao longo dos seis anos de catequese comigo, resolvi oferecer-lhe um ano da vossa revista. Teresa

Comentário A carta da senhora Teresa apresenta-nos alguns aspectos interessantes que destaco: É assinante há uns anos e pelo

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que diz tem ajudado os seus familiares a ler e a apreciar também a revista. É um modo de fazer «propaganda». Mostra ser missionária através da oração e da catequese. Por último, o que eu acho muito interessante, é dar em prémio a revista à sua aluna da catequese mais assídua às lições. Enfim, pequenos gestos que marcam a diferença. MC


É sempre tempo de romper o casulo texto TERESA CARVALHO ilustração MIGUEL CARVALHO

– Sabes, Maria, acho que só me admirei a mim e a Deus. Mas, o mais curioso e triste é que não gosto de mim. Não sou feliz! Maria olhava enternecida pa­ ra a sua amiga Alice, comovi­ da com a sua sinceridade. – Mas tu és tão amiga, tão disponível, ajudaste tantas pessoas… – Não sei quem sou. Tão de­ pressa estou bem a ajudar, como de repente insulto e sou agressiva para os mais pe­ quenos. O mais caricato é que houve tempos em que até eu pensava que era boa pessoa. Hoje, acho que ser boa pes­ soa é mais do que isso. Uma “boa pessoa” não pode andar a magoar os outros, sobretu­ do quem não é capaz de se defender. Isso é pobreza! – Como podes dizer isso, se foste a advogada de tantas pessoas sem meios de paga­ mento, defendeste as suas causas, lutaste ao lado delas!? – Sim, mas o que eu queria era ganhar. O meu verdadei­ ro interesse era “eu”. Acredi­ ta que ter consciência disto aos 67 anos é frustrante! Maria sentiu crescer dentro de si a admiração por Ali­ ce. Sempre a olhara como exemplo de determinação, de liberdade e generosida­ de. Hoje, admira a sua ver­ dade e coragem de pôr-se em questão. – Com todas as descobertas de que afinal não és “boa pessoa”, que pretendes fa­ zer?, desafiou Maria, rindo e

tentando reduzir a serieda­ de daquele encontro de café. – Não sei! Mas apetece-me conhecer-me! Preciso resol­ ver as minhas contradições. Sempre fui livre, sempre fiz o que quis, disse o que que­ ria dizer e agora vejo-me sozinha, fechada a cuidar da casa e das coisas que fui acumulando. Percebo que fiz tudo errado. Até os livros que guardei, estão lá empilhados. Devia ter-lhes dado outra uti­ lidade – sei lá! – partilhado. Afinal nunca fui livre. – Credo, Alice! Estás a exa­ gerar. Devias consultar um especialista. – Vou mesmo. Não é por es­

tar deprimida, mas para me entender a mim mesma. Já te disse que não tenho ami­ gos. Não confio em ninguém. Fecho-me para me proteger. Pus tantas barreiras à minha volta que, quando dei conta, já estava presa. Estou presa, Maria! E o tempo de amar foi passando. Passou! – Se o teu problema é esse, podes começar já a resolvê­ -lo. Não atrases mais “o tem­ po”. Pessoas para amar não te faltam. Até podes começar já por mim! – Não digas tolices, Maria! Não precisas de mim: tens tanta gente que te rodeia! – Não me imagino sem ti no

meu grupo de amigos. Sa­ bes, Alice, o amor é viciante. Quanto mais amor constróis, mais queres construir e mais alargado vai sendo o grupo a que pertences. – Pergunto-me como só aos 67 anos percebi isso. Mas ain­ da não o sei viver. Estou mui­ to sozinha, tenho muito para treinar! – Só podes ter razão, Alice: é mesmo uma questão de “treino”. Quem como tu usa a liberdade para se perguntar e procurar o amor, talvez já o tenha encontrado. Precisa treinar! E é sempre tempo disso! Só então o “tempo” fica preenchido.

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20 anos a tornar conhecida a missão Inaugurado a 13 de Outubro de 1991, o Museu de Arte Sacra e Etnologia, em Fátima, está a celebrar 20 anos. Propriedade dos Missionários da Consolata, o museu é uma obra de grande alcance que pretende dar a conhecer aos peregrinos de Fátima a história da evangelização até à actualidade missionária. Além do valor museológico das colecções de arte sacra sobre a infância e a paixão de Cristo, o museu apresenta duas colecções de várias missões da África e da América Latina, a que se junta uma colecção dos Missionários da Boa Nova, sobre

o Oriente. Através das visitas guiadas, o conjunto museológico revela-se um instrumento válido para divulgar a ideia missionária, qualificando a presença dos Missionários da Consolata em Fátima. As pessoas que visitam a cidade da Virgem, ponto de encontro das mais variadas culturas e povos, descobrirão neste espaço a expressão da catolicidade do Cristianismo. Interagindo com escolas e grupos paroquiais, ao longo de dois decénios o museu foi palco de imensas iniciativas que envolveu sobretudo jovens e crianças. Proporcionou-lhes

ÁFRICA grande epidemia de cólera

Segundo as Nações Unidas, a taxa de mortalidade ultrapassa os 22 por cento, em várias regiões da África Central e Ocidental, com cerca de 100 mil casos registados. “O número de casos declarados e a sua expressão significa que a região está confrontada com uma das maiores epidemias da sua história”, declarou o porta-voz da UNICEF, organização das Nações Unidas para a infância, Marixie Mercado. Chade, Camarões e República Democrática do Congo são os países mais afectados. Nalgumas regiões, já há anos que não se sentia a presença da cólera, o que torna as populações mais vulneráveis.

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a ocasião de tomar contacto com experiências missionárias actuais, que abrangem as várias dimensões da vida humana e das sociedades hodiernas. A celebração do 20º aniversário foi ocasião para lançar uma obra há muito solicitada: o roteiro do museu, instrumento adequado para acompanhar o visitante tanto durante, como após a visita. Igualmente há muito pensada e preparada, foi apresentada, durante a sessão comemorativa, a Liga dos Amigos do Museu, que espera agora pela chegada de novos amigos.

BRASIL missionários de 11 países vão à escola

Com a idade média de 29 anos, 20 missionários aprendem a fazer missão no Brasil, num curso de 90 dias. Os alunos são originários de 11 países: Gana, Itália, Nigéria, México, Filipinas, Vietname, Polónia, Honduras, Eslováquia, Paraguai e Alemanha. Além da aprendizagem da língua portuguesa, o curso introduz os alunos na cultura e vida da Igreja do Brasil, proporcionando ao missionário estrangeiro “uma correcta experiência de inculturação, como recurso fundamental da pessoa humana”, sublinha o director do curso.


IRÃO ameaças obrigam cristãos à fuga Sobre Yousef Nadarkhani, pastor cristão iraniano, pesa uma iminente condenação à morte, acusado de apostasia. Enquanto esperam a resolução do caso, cristãos do Irão vêem-se obrigados a abandonar o país para poderem professar livremente a sua fé, informa a organização «Christian Solidarity­ Worldwide», que segue a situação dos direitos dos cristãos no mundo. São ameaçados pelos chamados “Soldados Desconhecidos”, acusados de ter ligações com os serviços secretos iranianos. O pastor cristão aguarda a decisão sobre o seu destino, que está nas mãos do líder religioso local, o ayatollah Ghorbani. Os cristãos receiam que sejam imputadas falsas acusações contra meses, 137 cristãos foram presos arbiNadarkhani para justificar a sentença trariamente e cerca de 40 permanecedefinitiva de morte. Nos últimos 11 ram na cadeia várias semanas.

IÉMEN crianças vítimas da violência

“Demasiadas crianças vítimas da violência desde o início dos confrontos”, deplora a UNICEF, organização das Nações Unidas para a Infância. Os conflitos no Iémen já mataram 94 crianças e feriram 240. Além disso, verifica-se que 58 por cento das crianças têm atrasos no crescimento. São dramáticos os números da UNICEF, que condena “toda a violência contra crianças” e julga “deplorável que as crianças sejam vítimas de fogo cruzado”. O Iémen está afundar-se numa crise humanitária que afecta sobretudo os mais vulneráveis. Mesmo antes do conflito, eram alarmantes os casos de desnutrição. A situação agrava-se com o aumento dos preços dos bens essenciais e o colapso dos serviços sanitários.

PAQUISTÃO jovens obrigadas a converter-se ao Islão Todos os anos, mais de mil jovens pertencentes a minorias religiosas são raptadas, violentadas e convertidas ao Islão, no Paquistão, por muçulmanos radicais. É um balanço negro realizado por diversas fontes da sociedade civil e pela Igreja católica paquistanesa. Às minorias religiosas “não é garantida a justiça dos tribunais”. As mulheres paquistanesas vivem em situação de inferioridade. Pelo estigma de pertencer a uma minoria religiosa, as mulheres cristãs são ainda mais vulneráveis. Sofrem abusos e devem calar-se, sob pena de novas violências contra a própria família.

TOBIAS OLIVEIRA, NAIROBI, Quénia

Descansar

ajuda a discernir Escrevi estas linhas durante uma semana de repouso que estive a gozar em Mombaça, junto das tépidas águas do oceano Índico. Acompanhou-me aquela incerteza a que me referi no texto do mês passado, que denunciava em mim uma ponta de pessimismo, ao constatar que para o bom povo do Quénia a pobreza, a carestia e a insegurança são pão de cada dia ou, como eu dizia, chuva no molhado. Nestes dias toca-nos ainda acrescentar as incursões terroristas vindas da Somália com o consequente rapto de pessoas, entre as quais duas doutoras espanholas, cujo paradeiro continua desconhecido. Nestes dias, esse toque de pessimismo levou-me a prestar mais atenção à outra face da moeda, ou seja, às tantas razões que levam ao optimismo. Ajudou-me nisso um livro que já há muito desejava ler e que apresenta a oração como um encontro de dois centros, o humano e o divino. Se, de facto, o nosso Deus é aquele “em quem vivemos, nos movemos e existimos”, como diz São Paulo, não é difícil concluir que os males que nos assolam são bem pouco em comparação com a lista interminável dos bens que, dia após dia, nos visitam. A nova Constituição da República que, lentamente, está a ser implementada, a luta contra a doença “especialmente a mortalidade infantil” que viu crescer a população do país de nove para 40 milhões, em menos de 50 anos, assim como as liberdades política, social e religiosa, eis aqui algumas das muitas razões que nos levam a exclamar: “Corações ao alto!”. Valeu-me a pena parar esta semana. Foi uma paragem regeneradora. NOVEMBRO 2011

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Igreja local sujeito primeiro da Missão À luz do recente documento dos bispos portugueses sobre a evangelização, o pároco de Ramalde, Porto, aponta pistas para que a Igreja local viva a sua dimensão missionária. Almiro Mendes, em 2005, partiu em missão para a Guiné-Bissau, durante um ano. Além de padre, “fui mecânico, enfermeiro, barbeiro e tudo o mais que faz falta num país, onde o povo vive com falta de tudo” texto ALMIRO MENDES foto JOÃO CLÁUDIO

omo pode a Igre­ ja local ser real­ mente missio­ná­­ ria? Sem esquecer a importância, a oportunidade e a conve­ niência dos aspectos mais teóricos, limitar-me-ei a apresentar algumas linhas operativas muito práticas para uma pastoral missioná­ ria das nossas dioceses. 1. Despertar e alimentar a consciência de missão Convém que nas nossas dio­ ceses se invente, recupere e apure a consciência de que somos enviados por Deus à sociedade actual para a evan­ gelizarmos. E é preciso fazê­ -lo com a alegria de um dever e o júbilo de um dom. As dio­ ceses deveriam fazer um es­ FÁTIMA MISSIONÁRIA

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forço urgente para desenvol­ ver o dinamismo apostólico, despertando a consciência de missão nas pessoas, nas paró­ quias, nos grupos, nas estru­ turas. Para isto é preciso: Despertar e fortalecer a vo­ cação missionária ou apos­ tólica dos leigos em todos os processos catequéticos, for­ mativos e celebrativos; Impulsionar o anúncio e a irradiação pessoal da fé; Promover o valor do tes­ temunho da vida pessoal, grupal e comunitário; Elaborar e desenvolver, pou­­co a pouco, um projecto missionário que ajude a su­ perar planificações de carác­ ter puramente sacramenta­ lista ou catequético e nos faça caminhar em direcção a um

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Almiro Mendes, pároco de Ramalde, Porto

plano e desígnio missionário. 2. Desenvolver uma pastoral mais diversificada Normalmente oferece-se a todos o mesmo e de maneira indistinta. Uma diocese para ser missionária tem de: Oferecer possibilidades ca­ tequéticas distintas; Adaptar as celebrações ao nível da fé dos participantes; Sair ao encontro dos que es­ tão adormecidos para a fé ou a perderam; Não deixar de fora algum extracto da população nem nenhuma faixa etária; Fazer uma opção séria pelos mais desfavorecidos ou desa­ fortunados; Continuar a ocupar-se da ética, mas preocupar-se tam­ bém com a estética;

Não ter medo do mundo, não desconfiar da ciência, procurar, encontrar e amar as pessoas deste tempo como elas são e não como gostaría­ mos que fossem. 3. Desenvolver uma catequese missionária Impõe-se inventar formas novas de catequese missio­ nária que leve todos a sair de dentro para fora, ao jeito de espiral. Existe, actualmente, na maior parte das dioceses, uma excelente pastoral sa­ cramental. O que falta é uma sólida catequese missioná­ ria que leve a uma arejada e apaixonada consciência mis­ sionária e a uma profícua e efectiva prática. Para uma catequese missionária são necessárias:


No “Ide” final da Eucaristia, temos de perceber a actualização permanente do mandato de Cristo: “Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho” Acções de primeiro anúncio; Desenvolver uma pastoral pré-catecumenal de carácter evangelizador; Promover catecumenatos para pessoas afastadas; Possibilitar nas paróquias uma catequese de adultos de cariz missionário. 4. Celebrar a Eucaristia com intenção missionária A Eucaristia é fonte e, ao mesmo tempo, vértice de toda a evangelização. Constitui o meio por excelência para relançar, de modo audaz, a missão «ad Gentes». Nela havemos de encontrar o impulso dinamizador da acção evangelizadora da Igreja. No “Ide” final da Eucaristia, temos de perceber a actualização permanente do mandato de Cristo: “Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho”. Para isto é preciso: Promover a participação plena, activa e consciente dos fiéis; Preparar bem as celebrações; Ser mestre na arte de bem acolher quem chega pela primeira ou milésima vez; Promover a qualidade; Tirar partido da estética; Valorizar a força expressiva dos sinais e gestos; Cuidar da linguagem; Ter em conta a sensibilidade, as preocupações e as inquietações das pessoas deste tempo. 5. Ousar ir mais longe Elenco, aqui, de forma aleatória e sem uma ordem valorativa, alguns aspectos que poderão contribuir

também para que a Igreja local seja mais missionária: Criação de institutos missionários de cariz diocesano; Maior mobilidade do clero e, quanto possível, dispensar temporariamente sacerdotes diocesanos para a Missão «ad Gentes»; Consciencialização e formação missionária nos seminários diocesanos; Convidar missionários para os conselhos presbiterais e para os conselhos de pastoral Em parceria com os institutos missionários, organizar e subsidiar o voluntariado laical «ad Gentes»; Intercâmbios e geminações, sobretudo com África; Potenciar o Dia Mundial das Missões e criar o Dia Diocesano das Missões; Desenvolver uma pastoral dos enfermos com sentido missionário. A causa missionária teria muito a ganhar com as orações e a dor de tantos; Criar nos fiéis leigos a consciência de que ser missionário poderá implicar percorrer milhares de quilómetros ou apenas percorrer meia dúzia de metros, atravessar a rua e ir ao encontro do outro levando-lhe a Boa Nova ao jeito de Jesus Cristo. Que o Espírito Santo nos presenteie com a lucidez necessária e as forças que são precisas para fazermos das nossas Igrejas locais sujeitos primeiros da Missão e verdadeiras instâncias do amor de Cristo, o missionário do Pai.

Pipo em discernimento

texto CARREIRA JÚNIOR ilustração H. MOURATO

– Pipo, tenho estado a reparar em ti e vejo que estás crescido; deste um bom pulo nas férias grandes. Nos estudos já sei que te correu tudo bem. E como se projecta o teu futuro? – Quanto ao meu futuro, tenho andado em discernimento. Discernimento é uma palavra cara e eu nunca tinha ouvido falar nela. Mas, desde que ando a pensar no seminário e nas missões, oiço-a muitas vezes. Dizem os professores que para darmos um passo que dure para toda a vida, é preciso pensarmos bem, para podermos tomar uma decisão correcta. Temos de avaliar os prós e os contras, para depois não termos de nos arrepender. Por isso não se admirem se eu por vezes ando a modos que pensativo. Por enquanto não tenho dúvidas sobre a minha vontade de ser missionário. Mas ainda sou muito novo. Nem sequer sou adolescente. Mas, também não quero que me chamem um simples garoto; tenho as minhas ideias e só peço a Deus e aos professores que me ajudem no tal discernimento, para eu ver claro e saber o que Deus quer de mim.

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Por uma cultura diferente Em 10 anos de serviço à Universidade Católica de Moçambique, Conceição Marques descobre os enormes desafios da era pós-moderna. A missionária da Consolata de Santa Catarina da Serra, Leiria, cruza-se com uma variedade de culturas, “onde as pessoas, na maior parte dos casos, não convivem, não se conhecem, nem se sentem irmãos” texto CONCEIÇÃO MARQUES foto E. ASSUNÇÃO

uis Deus que eu vivesse num contexto que me foi despertando, progressivamente, para novas realidades, levando-me a procurar respostas credíveis para responder às situações actuais da nova evangelização. Até a África enfrenta a imposição de uma cultura sem Deus ou habitada por deuses estranhos. Permeada de hedonismo e consumismo, ela oferece uma mensagem cativante para os tempos de hoje. A preocupação de compreender o nosso tempo levou-me, durante as minhas férias, a frequentar um curso sobre diálogo inter-religioso, em Roma, na Universidade Pontifícia Gregoriana. Nos últimos dez anos, trabalhei na Universidade Católica de Moçambique, uma escola aberta a todas as crenças. Cada um na sua realidade, os estudantes revelam um grande desejo de saber mais e querem confrontar-se com a doutrina católica. São receptivos e, ao mesmo tempo, contestadores e participativos nos debates. Admiram e apreciam a doutrina social da Igreja católica. Dizia-me um estudante, de formação protestante, quando soube da minha partida: “Agora, que FÁTIMA MISSIONÁRIA

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a irmã vai deixar a universidade, já pensou em quem vai ocupar o seu lugar?”.

Como evangelizadora,

devo ser capaz de estar integrada com o povo, saber escutá-lo, dialogar e estar preparada para iluminar as suas preocupações e anseios com a proposta libertadora de Jesus Cristo. O missionário não

pode ficar à espera que o povo venha à Igreja para lhe fazer as suas catequeses. Serão sempre menos os que vêm ter connosco e cada vez mais os que se aproximam da realidade humana para lhe oferecer outras mensagens.

A maioria das pessoas

é analfabeta de Deus. Terá uma imagem de Deus vaga e,

por vezes, distorcida. Muitas pessoas têm alguma informação sobre as mais variadas propostas religiosas, mas sentem-se confusas e sem certezas. Assim a situação religiosa actual constitui um desafio para o missionário quanto ao vocabulário a usar, à metodologia a seguir ou ao modo de estar. Trata-se de testemunhar através da vida, com um coração de discípulo que experimenta a necessidade do encontro com Deus para se fortificar. O discípulo procura o que fazer – quando e como – tal como um bom samaritano que se aproxima da realidade e dá o seu contributo para poder amar e consolar nas situações mais impensáveis. Com a sabedoria divino-humana procura ser oportuno e eficaz, munido da paciência do Deus-Amor.

Urge uma nova cultura

Conceição Marques em diálogo com alunos do pólo de Nampula da Universidade Católica de Moçambique

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que seja fruto de um trabalho desenvolvido e participado pelas diferentes culturas, resultante do melhor que cada uma pode oferecer para o bem comum. Uma cultura que leve cada um a sentir-se em casa, porque aceite e respeitado nas suas diferenças, com a consciência de que todos somos irmãos e irmãs, porque filhos do mesmo Pai.


Tawakkul Karman, do Iémen, Ellen Jonson-Sirleaf e Leymah Gbowee da Libéria, distinguidas pela academia sueca

Prémio Nobel 2011

Três mulheres pela paz A academia sueca responsável pela atribuição dos Prémios Nobel causou surpresa ao nomear, este ano, três mulheres – duas africanas e uma iemenita – para, no próximo dia 10 de Dezembro, receberem, em Oslo, a maior distinção pela causa da paz texto CARLOS CAMPONEZ fotos LUSA

o distinguir a presidente da Libéria, Ellen Jonson-Sirleaf, a sua compatriota e activista, Leymah Gbowee, e a jornalista iemenita, Tawakkul Karman, a academia sueca parece ter pretendido destacar a importância das mulheres africanas e árabes no desenvolvimento e na promoção da paz, em sociedades onde o seu papel e o seu estatuto é frequentemente secundarizado. Ellen Jonson-Sirleaf, 72 anos, a primeira mulher a assumir a presidência de um país africano, em 2005, enfrenta agora a prova da sua primeira reeleição, numa Libéria profundamente marcada por 14 anos de guerra civil (1989-2003). O conflito causou mais de 250 mil mortos, numa população total de três milhões de habitantes, dezenas de milhares de estropiados, e milhares de crianças-soldados e crianças vítimas a precisarem

de uma ressocialização que apague as marcas da violência e do ódio deixadas pela guerra civil. A política de Ellen Jonson-Sirleaf tem sido considerada fundamental para a pacificação do país, apesar dos desafios que terá ainda de enfrentar.

A força das ideias

A sua compatriota, Leymah Gbowee, 39 anos, é a expressão de que o sonho pode mudar o mundo. Tudo terá começado com a ideia de mobilizar, em 2000, as mulheres liberianas em torno de uma ideia simples: uni-las em oração pela paz, fossem elas cristãs, fossem elas muçulmanas. A partir daí, surgiram outras campanhas em torno do movimento das mulheres liberianas unidas pela reconciliação e a democracia que criou uma forte pressão social para que os políticos se sentassem à mesa das negociações e daí não saíssem enquanto não chegassem a um acordo. Já o nome de Tawakkul Karman acabou

por ser uma meia surpresa. Esperava-se que o nomeado para o Prémio Nobel da Paz deste ano fosse alguém associado à Primavera Árabe. A jornalista iemenita, de 32 anos, corresponde a esse perfil e vive num dos países onde – como na Arábia Saudita e no Bahrein – os direitos e a protecção das mulheres são menos reconhecidos. Tawakkul Karman é considerada uma das responsáveis pela mobilização da Primavera iemenita e fundou, em 2005, o movimento Mulheres Jornalistas Sem Algemas. Tem lutado pela defesa da liberdade de expressão e libertação de vários jornalistas presos, e feito da intervenção pacífica uma das principais armas contra o regime.

Mulheres: um papel secundarizado

Ao escolher três mulheres para o Nobel de Paz, a academia sueca salientou também o papel das mulheres nas sociedades contemporâneas, sistematicamente secundarizado. Aliás, se nos ativéssemos ao perfil das 840 pessoas galardoadas com os diversos Prémio Nobel, diríamos que eles são homens, normalmente nascidos ou residentes nos Estados Unidos. Na história dos Prémio Nobel, apenas 44 mulheres receberam o galardão atribuído pela academia sueca, a primeira das quais foi, em 1903, a investigadora francesa Marie Curie, a quem foi atribuído o Nobel da Física. NOVEMBRO 2011

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dos seus antepassados na fé e a entregá-lo aceso às novas gerações, para aquecer e iluminar os corações dos homens e mulheres do futuro, à imagem do coração de Cristo.

Raízes do futuro

Catequistas provenientes de várias dioceses em formação no Centro Catequético do Guiúa

Diocese de Inhambane, Moçambique

50 anos a crescer firmes na fé A 8 de Dezembro de 2012 completam-se 50 anos da diocese de Inhambane, Moçambique. Meio século de vida, de história que a diocese irá recordar, dar a conhecer e partilhar, a partir da próxima solenidade da Imaculada Conceição, padroeira da diocese, que marca a abertura oficial do jubileu texto DIAMANTINO ANTUNES fotos ANA PAULA e MARGARIDA RIBEIRO ROSA

inquenta anos de existência representam um longo caminho rico de riscos, alegrias, dificuldades, compromissos, satisfações e graças. O jubileu é uma ocasião para recordar, agradecer e reafirmar uma evangelização difícil, mas rica em frutos. É uma FÁTIMA MISSIONÁRIA

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oportunidade para evocar os inícios, recuperar a inspiração e renovar o compromisso missionário e cristão. Para a Igreja de Inhambane representa o desafio de continuar o serviço de evangelização com a formação dos catecúmenos e de intensificar a formação dos leigos. A diocese não poderá esquecer

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a dimensão missionária, para que os católicos se sintam cada vez mais responsáveis em comunicar a fé aos seus irmãos. Na recordação do seu passado, os católicos de Inhambane põem os olhos no futuro. Ao celebrar o 50º aniversário da criação da diocese, estão dispostos a receber o fogo

A Igreja de Inhambane afunda as suas raízes na fé em Jesus Cristo, anunciada há 450 anos. Os primeiros missionários, os jesuítas Gon­ çalo da Silveira, André Fernandes e André da Costa, vindos de Goa, Índia, desembarcaram na baía de Inhambane. Seguindo as margens do rio Mutamba, viajaram até Mocumbi, em Tongue, capital do reino de Gamba, onde chegaram a 10 de Abril de 1560. Depois de sete semanas de catequese, baptizaram solenemente o rei Gamba e a rainha, com mais 400 pessoas. Intrigas palacianas conspiraram con­ tra a vida de Gonçalo da Silveira, acabando por lhe roubar a vida, o que ditou a retirada dos jesuítas.

Crescimento da árvore

A Igreja católica regressou à região, após um interregno de cerca de 200 anos. Em 1728, os portugueses estabeleceram uma feitoria e uma praça, em Inhambane. Em 1761 deu-se a elevação à categoria de vila, sendo então criada a paróquia de Nossa Senhora da Conceição e, em 1854, iniciou-se a construção da igreja matriz. Depois de um período de presença efectiva e de actividade missionária sistemática, os jesuítas criaram, em 1890, a missão de Môngué. Os Franciscanos deram novo impulso com a criação das missões de Mocumbi (1909), Homoíne (1910), Mocodoe­ ne (1936) e Mavila (1939). O campo cresceu, mas os


trabalhadores eram poucos. O cardeal Teodósio Clemente de Gouveia, arcebispo de Lourenço Marques, convidou então os Missionários da Consolata, presentes no norte de Moçambique desde 1926, a evangelizar a zona norte da actual diocese de Inhambane, desprovida de missionários. O primeiro gru­po chegou em 1946 e fundou as missões de Massinga e de Nova Mambone. Em 1947, foi a vez das missões de Mapinhane e de Maimelane. Entre 1950 e 1962 houve um grande desenvolvimento da actividade de evangelização do vasto território de Inhambane. Foram fundadas novas missões no litoral e no interior: Panda, Jangamo, Morrumbene, Quissico, Inharrime, Maxixe e Muvamba.

Nasce a diocese

Considerando a vastidão do território e o aumento significativo do número de católicos e de missões, o Papa João XXIII criou, a 3 de Agosto de 1962, a diocese de Inhambane. Contava então 17 paróquias e 135.030 cristãos, 23 por cento da população calculada em 583.772 habitantes.

O primeiro bispo, Ernesto Gonçalves Costa, missionário franciscano, orientou a jovem diocese de modo inteligente e eficaz. Criou novas missões e dotou-a de infra-estruturas relevantes, como a escola de magistério, o secretariado de acção pastoral, o centro catequético do Gui­úa­ e a nova catedral.

Resiste ao ciclone

Guiada por um novo pastor, o moçambicano Alberto Setele, a diocese enfrenta o ciclone da revolução socialista e ateia, depois da independência do país. Foi o tempo do sofrimento e da prova: a nacionalização das principais estruturas pastorais e sociais da diocese; o abandono forçado das missões por parte dos missionários e a redução do seu número; e as fortes limitações à acção pastoral. No auge da tempestade, houve fiéis e catequistas que abandonaram a Igreja, mas numerosas comunidades cristãs e leigos permaneceram fiéis, assegurando a continuidade de uma Igreja ferida e estigmatizada. Seguiu-se a guerra civil, que assolou a província de

A Igreja de Inhambane está viva e activa. São inúmeras as iniciativas que, a um ritmo constante, se realizam a nível paroquial e diocesano Inhambane a partir de 1982. A Igreja soube manter-se ao lado do povo. Comunidades, cristãos e missionários, sofreram juntos na carne e na pele as consequências da luta fratricida. No vértice da violência, 23 catequistas e seus familiares foram chacinados no Centro Catequético do Guiúa, em 22 de Março de 1992.

Brotam novos ramos

Com o Acordo Geral de Paz, de 4 de Outubro de 1992, chegou a paz tão desejada. A diocese passou a contar com missionários e missionárias de

novas congregações recém-chegadas a Moçambique. Com a devolução das missões pelo governo, recuperam-se edifícios e abrem-se novas perspectivas para actividades educativas, de promoção humana e sócio-económicas. Os cristãos recobram a esperança e assumem a responsabilidade pela vida das comunidades. Os jovens vão despertando lentamente para a vocação consagrada, no sacerdócio e na vida religiosa. Adriano Langa, actual bispo de Inhambane sucede a Alberto Setele, falecido em 2006. Conhecedor da situação da diocese, tem sido sua preocupação a animação dos agentes pastorais para uma evangelização aprofundada. Os actuais 250.000 católicos da diocese são o fruto de 22 paróquias e 635 comunidades cristãs da bonita e robusta árvore diocesana plantada nesta terra. A Igreja de Inhambane está viva e activa. São inúmeras as iniciativas que, a um ritmo constante, se realizam a nível paroquial e diocesano. A prioridade é a evangelização, tendo a educação como meio privilegiado de promoção humana.

Nova catedral de Inhambane substituiu a antiga (à direita), dedicada a Nossa Senhora da Conceição e começada a construir em 1854 NOVEMBRO 2011

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Um cab que dá a África Pedro Pires foi o vencedor, este ano, do Prémio de Boa Governação em África. É o segundo líder lusófono distinguido depois do moçambicano Joaquim Chissano em 2007. Antigo guerrilheiro nas matas da Guiné-Bissau, Pedro Pires foi primeiro-ministro e depois presidente de Cabo Verde, ajudando a consolidar a democracia num arquipélago árido mas respeitado por todos pelo apego ao desenvolvimento texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* fotos LUSA FÁTIMA MISSIONÁRIA

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uando chegou ao ginásio na Cidade da Praia, Pedro Pires já sabia ter conquistado o Prémio de Boa Governação em África. Mas nem a notícia de ir receber


bo-verdiano exemplo Existente desde 2007, o Prémio de Boa Governação em África foi cinco milhões de dólares (3,7 milhões de euros) ao longo de uma década e depois mais 200 mil dólares anuais de pensão vitalícia fez com que o ex-presidente cabo-verdiano alterasse a sua rotina, o que coincide com a sua aura de humildade. E, assim, foi de calças de fato-de-treino, pólo e ténis que os jornalistas o entrevistaram mal souberam da sua distinção com o mais valioso prémio mundial.

Oferecido pela Fundação Mo

Ibrahim, criada por um magnata sudanês das telecomunicações, o Prémio de Boa Governação em África distingue os líderes subsarianos que deixam o poder por vontade própria, confirmando um legado democrático associado à sua figura. É o caso de Pedro Pires, que depois de ser primeiro-ministro entre 1975 e 1991, nos tempos de partido único, fez-se eleger em 2001 para presidente, foi reeleito em 2006 e opôs-se a qualquer tentativa de revisão

constitucional para candidatar-se ao terceiro mandato de chefe de Estado.

Nesse dia 10 de Outubro, Pedro

Pires confessava ainda “não saber” o que irá fazer com o dinheiro do prémio. Mas acrescentou que “ajudar as duas filhas” será uma prioridade. Outro destino possível de parte da verba é uma fundação, velho projecto de homem de 77 anos, nascido em São Filipe, na ilha do Fogo, e que abandonou os estudos em Portugal para se dedicar à luta pela independência. Nas matas da Guiné-Bissau chegou a ser um dos cinco comandantes principais da guerrilha do Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde (PAIGC). Fundado por Amílcar Cabral, de origem cabo-verdiana, o PAIGC combatia pela libertação dessas duas colónias portuguesas, mas se a liderança era sobretudo do arquipélago, já os combatentes eram na sua maioria

atribuído a título especial ao sul-africano Nelson Mandela, ao moçambicano Joaquim Chissano e ao botsuanês Festus Mogae guineenses. Pedro Pires era aliás o único cabo-verdiano entre os cinco chefes militares mais importantes, outro deles Nino Vieira, que chegou a ser duas

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vezes presidente da Guiné-Bissau e foi assassinado por militares em 2009.

Dedicando o seu prémio a “todos

os combatentes pela independência”, Pedro Pires reforçou a sua determinação de escrever umas memórias que permitam dar a conhecer melhor o que foi a luta contra o colonialismo português, justificando a sua alcunha de “presidente-historiador”, mesmo que desde Setembro tenha cedido o cargo máximo a Jorge Carlos Fonseca. Além de chefe guerrilheiro, Pedro Pires foi também o representante de Cabo Verde nas negociações com Portugal que levaram em 1975 à proclamação da in-

dependência do arquipélago. E as suas qualidades de diplomata vieram depois ao de cima ao ser chamado como mediador em conflitos na Guiné-Bissau e na Costa do Marfim. Dono de várias condecorações e títulos honorários, o ex-presidente cabo-verdiano foi no ano passado feito ‘Doutor Honoris Causa” pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa.

Com fama de incorruptível, Pedro Pires recebe o prémio a título individual, mas também como representante de um país de escassos recursos que faz figura de excepção em África pela sua tradição

Pedro Pires recebe o prémio a título individual, mas também como representante de um país de escassos recursos que faz figura de excepção em África pela sua tradição democrática e apego ao desenvolvimento humano

democrática e apego ao desenvolvimento humano. Descobertas por navegadores portugueses no século XV, as dez ilhas de Cabo Verde eram tão áridas que não havia lá qualquer população. Serviram depois de entreposto comercial, como base para a venda de escravos negros para a Europa e as Américas. Da miscigenação de africanos e europeus nasceu a sociedade mestiça cabo-verdiana, que sempre teve uma atenção especial da metrópole, pois foi nas ilhas que primeiro se criou um liceu em África, gerando uma elite intelectual.

Existente desde 2007, o Prémio

de Boa Governação em África foi atribuído a título especial ao sul-africano Nelson Mandela, ao moçambicano Joa­quim Chissano e ao botsuanês Festus Mogae. Houve dois anos mesmo em que não foi atribuído, por falta de líderes premiáveis. Mas ter sido já entregue a dois lusófonos é curioso. O próprio Mo Ibrahim, que vive na Grã-Bretanha e olha com tristeza para o seu país natal, disse com alguma ironia ser uma pena que o Sudão não tenha sido uma colónia portuguesa. *jornalista do DN

Populares revelam sede de leitura na Feira do Livro, na Biblioteca Nacional da cidade da Praia, Cabo Verde FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Pedro Pires na primeira pessoa “Eu, quando decidi integrar o Movimento de Libertação de Cabo Verde, estava aqui em Lisboa. Nesse momento tinha muitos amigos, pessoas com quem trocava impressões. Portanto, cresci politicamente aqui e foi aqui que tomei a decisão” “Spínola construiu e trabalhou a sua imagem de grande militar. Mas, e este é um ponto de vista pessoal, Spínola foi

completamente derrotado na Guiné. É desta forma que ele sai da Guiné, é desta forma que alguns dos seus colaboradores próximos também saem da Guiné. Eles foram militarmente derrotados. Se nós tínhamos respeito por ele? Claro, tem-se respeito por qualquer chefe militar, sobretudo aquele que temos à nossa frente”

o Estado soberano, para se lançarem as bases do desenvolvimento do país. Chegámos depois à conclusão de que era necessário liberalizar a economia e também politicamente o país. E assim foi”

“Lutei com sinceridade, com lealdade e com empenho para que o meu país fosse independente, trabalhei da mesma forma para que ele avançasse e se construísse

muito complicado, a meu ver, mas é um exercício interessante para ver se a gente conhece e domina a língua”

“A realidade cabo-verdiana já sabemos que é uma sociedade mestiça, que a sua integração, “O mal da Guiné foi o seguinte: a sua fusão já se deu. Agora não se soube gerir a transição poderá melhorar, mas já se de um movimento de libertação deu” para partido político e “Leio livros e vejo a televisão também não se conseguiu portuguesa” gerir convenientemente a transformação de um “Não gosto de ler romances, movimento de libertação, de prefiro contos, ensaios. Nesse uma guerrilha, num exército aspecto, há vários autores que regular. Até hoje, a Guiné aprecio. De toda a maneira, sofre disso. Para resumir, gosto do Saramago, na medida diria que na Guiné o erro em que a leitura dos livros está em que não souberam dele é um autêntico exercício civilizar o regime” de conhecimento da língua, é

(Excertos de uma entrevista a Leonídio Paulo Ferreira publicada no DN a 26/05/2010)

Um arquipélago promissor

População 512 000 (mais vivem no estrangeiro) Área 4033 quilómetros quadrados

Dez ilhas (nove habitadas) e cinco ilhéus Línguas português (oficial) e crioulo Esperança média de vida homens 70 anos, mulheres 75 Moeda escudo cabo-verdiano Principais exportações sapatos, vestuário, peixe,

bananas, curtumes e pozolana (cinza vulcânica usada para fazer cimento). PIB per capita 3010 dólares Taxa de desemprego 21 por cento População abaixo do nível de pobreza 30 por cento Portugal é o principal fornecedor (41,6 por cento), mas Espanha é o principal destino das exportações

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Os anteriores vencedores do prémio

Joaquim Chissano: Presidente de Festus Mogae: Formado em Eco­ Nelson Mandela: Considerado como Moçambique entre 1986, quando su­ cedeu a Samora Machel, e 2005, Joa­ quim Chissano foi o primeiro vence­ dor do prémio Mo Ibrahim, em 2007. Depois dos estudos em Medicina em Lisboa, deixa Portugal com um grupo de outros estudantes das colónias para se juntar ao movimento de resistência. Um dos fundadores da Frelimo, foi ele quem anos mais tarde assinaria a paz com a Renamo que pôs fim à guerra civil em Moçambique. Tido como res­ ponsável pela pacificação e desenvolvi­ mento do país no pós-guerra, Chissano deixou o poder de forma voluntária ao fim de dois mandatos já em democra­ cia, favorecendo a estabilidade política.

nomia no Reino Unido, Festus Mogae foi funcionário do Fundo Monetário Internacional antes de regressar ao Botswana, onde presidiu ao Banco Central. Eleito presidente em 1999, o economista prometeu fazer da luta contra a pobreza e contra o desem­ prego a sua prioridade, isto sem es­ quecer o combate à sida, que prome­ teu erradicar em 2016. Reeleito em 2004, quatro anos depois decidiu não se recandidatar à presidência daquele que foi um dos mais pobres países de África, à época da sua independência. Hoje é um dos mais prósperos, o que lhe valeu o prémio Mo Ibrahim para a boa governação em África em 2008.

o maior líder mundial ainda vivo, Nel­ son Mandela, hoje com 93 anos, re­ cebeu em 2007 das mãos do próprio Mo Ibrahim um prémio honorário da fundação criada pelo magnata das te­ lecomunicações sudanês. Depois de 27 anos preso, Madiba, como é cari­ nhosamente tratado na África do Sul, tornou-se em 1994 o primeiro presi­ dente do país pós-apartheid. Nobel da Paz em 1993, Mandela decidiu retirar­ -se ao fim de um mandato, mas ficará para sempre como o homem cujo bom senso conseguiu promover o entendi­ mento e evitar a vingança dos negros sobre os brancos depois de décadas de um regime racista.

Radiografia do continente A tendência geral em África é de dese­ quilíbrio. Esta é a principal conclusão do quinto índice Ibrahim de Governação Africana. Criado em 2007, no mesmo ano que o prémio Mo Ibrahim, o índice é este ano liderado pelas Maurícias, segui­ das de Cabo Verde, Botswana, Seicheles FÁTIMA MISSIONÁRIA

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e África do Sul. Países que se destacaram nas categorias em análise: Segurança e Estado de direito, Participação e Direitos Humanos, Oportunidades Económicas e Desenvolvimento Humano. E se a Libé­ ria e a Serra Leoa – ambas saídas de lon­ gas e mortíferas guerras civis – foram os

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países que mais progressos registaram nos últimos cinco anos, Madagáscar, a ilha onde se registou uma forte agitação social, foi o que mais retrocedeu. Para Mo Ibrahim: “Os resultados do índice são o eco dessas reivindicações [dos jo­ vens africanos] – realizações na gestão


Milionário que quer mudar a imagem de África

Mo Ibrahim gosta de dizer de si pró- çambicano Joaquim Chissano – este em 1974. Depois de uma bem sucedida prio que é apenas um engenheiro que trabalhou muito, esteve no sítio certo à hora certa e tem senso comum. Mas a verdade é que o magnata das telecomunicações, nascido no Sudão em 1946, é muito mais do que isso. Pouco conhecido a nível internacional, o prestígio que ganhou graças ao sucesso da sua operadora africana, a Celtel, conseguiu convencer figuras tão importantes como o ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, ou a ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson, a integrarem o júri que anualmente escolhe o vencedor do prémio da Fundação Mo Ibrahim. Criado em 2007 – ano em que foi ganho pelo ex-presidente mo-

visa recompensar chefes de estado ou de governo da África subsariana que tenham saído do poder de livre vontade. Com um valor de cinco milhões de dólares, entregue em fatias de 500 mil dólares anuais, mais 200 mil dólares anuais até à morte do vencedor e ainda dez vezes 200 mil para projectos de desenvolvimento, este é o maior prémio do mundo, mais do que o milhão do Nobel. Uma generosidade só possível graças à fortuna que Mo Ibrahim acumulou com a venda das empresas que fundou. Depois dos estudos na escola núbia de Alexandria, formou-se em Engenharia no Reino Unido, para onde foi viver com a mulher, Hania,

carreira na British Telecom, em finais dos anos 1980, criou a MSI, que desenhava especificações técnicas para as operadoras de telemóveis. Vendeu-a em 2000 por 916 milhões. Dois anos antes criara a Celtel, a primeira operadora centrada exclusivamente em África. E, muito graças ao seu trabalho, entre 1999 e 2004, o número de africanos que usam telemóvel passou de 7,5 milhões para 76,8 milhões. Depois de vender a Celtel por 3,4 mil milhões, Mo Ibrahim decidiu dedicar-se à sua fundação, criada pela sua filha Hadeel com um objectivo claro: melhorar a imagem de África. O seu outro filho, Hosh, é actor.

económica e no desenvolvimento humano, embora notáveis, não serão concretizadas se persistir um défice democrático”. O sudanês acrescentou ainda: “As histórias de sucesso de África estão a distribuir o conjunto global de bens e serviços a que os cidadãos têm direito e

estão a construir um caminho que esperamos venha a ser seguido mais tarde”. Angola e Togo também apresentaram alguns progressos, enquanto Egipto, Tunísia e Líbia, que na altura da elaboração do índice ainda não viviam a Primavera Árabe, revelavam entre o fraco desempe-

nho na segurança, participação e direitos humanos, em contraste com o bom desempenho na área económica. No fim da tabela, os últimos lugares são ocupados pela República Centro-Africana, pela República Democrática do Congo, Zimbabwe, Chade, Somália.

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A festa de todos os santos Olá, pequenos missionários! Novembro está aí e, logo no primeiro dia, a Igreja celebra a festa de Todos os Santos. Perguntam vocês que festa é esta? Pois bem! É uma festa muito importante que nos diz que todos nós podemos e devemos ser santos… Santos vivos! Por isso, neste mês tão bonito, vamos sugerir como actividade missionária a substituição da festa horrível do Halloween por esta festa maravilhosa, onde nos podemos divertir ainda mais. Que vos parece? Bora lá? texto ÂNGELA E RUI ilustrações RICARDO NETO

O Halloween

É uma festa de origem pagã, impossível de se misturar com a festa de Todos os Santos. Celebra as superstições sobre a morte e sobre os defuntos e evoca as pessoas más, como as bruxas, os vampiros e os monstros, ao mesmo tempo que se pregam partidas que não têm piada nenhuma. É muito popular nos Estados Unidos, mas em Portugal já se começa a celebrar nas creches e escolas, infelizmente, pois não passa de um negócio para fazer dinheiro.

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Jesus chama-te para O seguires Na Igreja católica, o dia de “Todos os Santos” é celebrado no dia 1 de Novembro. É a festa dos Santos que já conhecemos, de quem sabemos o nome. Mas é também dos santos anónimos, que andam entre nós e que não conhecemos. A Igreja celebra e relembra o chamamento de Cristo a cada um de nós para O seguir e ser santo. Isto é, para sermos como Deus, para imitarmos a sua bondade. Foi assim que fomos criados e é como devemos caminhar em amor. Por isso, o dia de Todos os Santos é dia de ir com a nossa família à Eucaristia.

O meu momento de oração

Vamos festejar de maneira diferente Convidamos todos a fazerem festa, neste ano de 2011, de maneira diferente, na noite de 31 de Outubro. Podemos avisar com antecedência os nossos amiguinhos e preparar na catequese, com a ajuda do catequista, os vários momentos da festa. Todos disfarçados de anjos, com doces numa bolsa e cartões com dicas úteis para se ser santo nos dias de hoje, podemos ir pelas portas da vizinhança e explicar o que estão a fazer: no dia seguinte é uma festa muito importante para a Igreja. Também podem fazer uma festa grande em casa ou na catequese e, disfarçados de anjos, divertirem-se. Os santos são pessoas felizes e divertidas, uma vez que ser cristão é a melhor coisa do mundo.

Sabias que O Papa João Paulo II era um grande fã desta festa. Está aqui um grande exemplo, que vocês podem estudar, para vos ajudar a seguir o caminho da santidade.

Amigo Jesus, eu quero, do fundo do meu coração, seguir o teu caminho. O meu sonho não é ser um vampiro, nem uma bruxa, nem uma pessoa que pratica o mal. O meu sonho é ser um santo da tua equipa e juntos transformarmos este mundo em luz, alegria e paz. É na tua equipa que eu encontro a minha felicidade, sendo bom para a minha família, sendo amigo dos meus amigos, rezando todos os dias e estando presente na catequese e na Eucaristia. Perdoa-me se às vezes não consigo. Mas Tu conheces-me, por isso chama-me sempre e não desistas de mim. É à tua maneira que eu quero crescer. Pai Nosso

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Prova de estrada de velocidade média, o rali desenvolve-se parcialmente em estradas abertas ao tráfego normal e em itinerário único, que deve ser seguido por todos os veículos, ou em vias que conduzem a um ponto de concentração pré-determinado, podendo ou não seguir um caminho comum texto LUÍS MAURÍCIO foto LUSA FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Rali da Vid

Olhando para a vida, vejo o ser humano a enfrentar o desafio de abrir caminho através de diferentes itinerários. Por vezes, “acompanhado” na aventura de construir um mesmo sonho; outras “sozinho”, embarcado no único projecto, onde o “sim” pessoal se torna vital e determinante para alcançar a vitória. Como num rali, percorremos o mundo a uma velocidade média, marcada pelo cronómetro da idade,

condicionados pelos altos e baixos do terreno, com avanços e recuos nas nossas incontáveis experiências. Tanto no mundo do rali, assim como na nossa vida interior, chamamos-lhe “etapas”. São momentos importantes que nos marcam profundamente e que, no confronto com a “realidade”, acabam por nos revelar a nossa verdadeira identidade. É na relação com a rea­lidade que o homem des-

cobre as suas potencialidades, necessidades e as possibilidades de nela intervir. No rali da vida, o anseio de felicidade torna-se o combustível que move o coração humano, chamado a abrir-se à transcendência. O homem que procura sentido não se contenta em permanecer fechado em si mesmo, reconhece que lhe toca viver profundamente um ideal e lutar por uma finalidade última. Aqui, faço minhas

Eis o grande desafio da nossa existência: envolver-se com o mundo, na medida em que crescemos no conhecimento de nós próprios e dos outros

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Bom

ou mau piloto? Pistas para saber pilotar a sério no rali da vida O piloto maduro distingue-se pelas seguintes características: Controla adequadamente a sua vida emocional, o que lhe permite resolver os problemas, agora com maior serenidade e segurança do que nas etapas iniciais da vida – infância e adolescência.

Adapta-se inteiramente à vida social e cultural. Sente a necessidade de formar a sua própria família ou de identificar-se com um estilo de vida que lhe garanta autonomia e desenvolvimento pessoal.

da

É capaz de reconhecer e valorizar as suas

possibilidades e limitações, sentindo-se apto a realizar umas acções e incapaz de outras. as palavras profundas do valores que nos libertam e É a condição básica para o comportamento célebre psicólogo Viktor abrem à verdade absoluta. Frankl: “Ser homem implica Em poucas palavras, vencer eficaz de uma pessoa equilibrada. necessariamente uma ultrapassagem. Transcender-se a si próprio é a essência mesma do existir humano”.

Vencer é crescer

Vêm-me à mente as palavras de um piloto que descrevia a preparação do rali: “Vencer o «Dakar» é impossí­vel sem cuidados extremos na preparação das máquinas”. É impossível atravessar o itinerário da vida sem a consciência de que para alcançar a felicidade verdadeira é preciso preparar-se cuidadosamente. Uma tal preparação implica apren­­der com os erros para não os repetir tontamente, deixar o que impede de avançar, potenciar e fortalecer os

o rali da vida significa “crescer” para nos tornarmos o que somos chamados a ser. Deixo-vos uma frase, plena de conteú­do, de um grande filósofo e poeta católico alemão, Josef Peiper: “Humano significa conhecer para além das estrelas que estão por cima do tecto que nos cobre, isto é, além de toda a adaptação necessária ao concreto de todos os dias, estar consciente da totalidade das coisas, superar o ‘meio’ e avançar pelo mundo adentro”. Eis o grande desafio da nossa existência: envolver-se com o mundo, na medida em que crescemos no conhecimento de nós próprios e dos outros.

Em geral, tem uma percepção correcta da realidade (objectividade), que lhe permite actuar de forma mais segura e responsável.

O piloto imaturo tem características completamente opostas: Tem um comportamento contraditório e muito inconsistente. Geralmente, não controla as suas reacções emocionais, sinal evidente de pessoa imatura.

Tem grande dificuldade em perceber a realidade como ela é e a sua visão torna-se demasiado subjectiva (falta de objectividade). É menos consciente, pouco responsável e intolerante na sua acção e nas suas relações. NOVEMBRO 2011

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suas parábolas, São Mateus pede-nos que nos preparemos para o encontro com o Senhor das nossas vidas mantendo sempre as nossas lâmpadas acesas, isto é, vivendo com intensidade o momento presente. A imagem da lâmpada foi muito usada por Jesus para exprimir a necessidade de nunca deixarmos apagar dentro de nós a luz da fé. Mandou que a alimentássemos diariamente com o azeite das boas obras, porque só elas falarão. “Brilhe assim a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus”. E São João acrescentará: “Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade”.

Arder para nós e brilhar para os

Com as lâmpadas acesas texto DARCI VILARINHO foto ANA PAULA

“Como são ditosos, como são felizes aqueles servos que o Senhor quando voltar encontrar vigilantes! Ditosa vigília em que se espera o próprio Deus, criador do universo, que tudo abrange e tudo transcende! Quem dera que também a mim, seu servo, embora tão indigno, se dignasse despertar-me do sono da inércia e inflamar-me no fogo do amor divino, de modo que a chama da sua caridade me iluminasse com o seu esplendor muito mais refulgente que as estrelas, acendesse em mim

o desejo ardente de o amar cada vez mais e melhor e nunca mais se extinguisse na minha alma este fogo do amor divino. (…) Que a minha lâmpada esteja sempre acesa e nunca se apague; arda para mim e brilhe para os outros”.

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Que a minha lâmpada não se apa­­­gue. Que a minha vida espiritual se

É salutar apropriar-nos destas pa- reavive e a minha fé seja capaz de ilumilavras de um monge irlandês do século VII, São Columbano. Ajudar-nos-ão certamente a viver estas últimas semanas do ano litúrgico, marcadas por um sério convite à vigilância. Numa das

Que a minha lâmpada não se apague. Que a minha vida espiritual se reavive e a minha fé seja capaz de iluminar FÁTIMA MISSIONÁRIA

outros. Se Jesus é a luz do mundo, o discípulo é uma lâmpada portadora dessa luz para iluminar todos os homens até aos confins da terra. Uma luz, que foi recebida no nosso baptismo e que não se pode ocultar. Ninguém se pode eximir dessa grande responsabilidade diante do mundo. Se o mundo não acredita é também porque a lâmpada da minha fé não ilumina suficientemente. Falta-lhe o azeite da oração, as obras do amor e o fogo da missão. Só uma Igreja que for lâmpada acesa na luz de Cristo ressuscitado poderá iluminar o nosso mundo. A lâmpada não se preocupa de iluminar. Simplesmente arde, e ardendo ilumina e ajuda as pessoas a verem o que nas suas vidas está desarrumado. Com a luz, desfazem-se as trevas em que tanta gente vive.

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nar. “Vela com o coração, diz-nos Santo Agostinho, vela com a fé, com a caridade, com as obras; prepara as lâmpadas, cuida de que não se apaguem, alimenta-as com o azeite interior de uma recta consciência; permanece unido ao Esposo pelo Amor, para que Ele te introduza na sala do banquete, onde a tua lâmpada nunca se extinguirá”. Ele é na verdade a Luz perene, que nunca se apaga. Que ela já hoje se manifeste em mim e afugente as trevas que porventura nos dominem.


A palavra faz-se missão EM NOVEMBRO Festa de Todos os Santos Ap 7, 2-14; 1Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12 O SEGREDO DA FELICIDADE Cada um de nós nasce para realizar um sonho de Deus. O santo é aquele que descobriu e realizou esse sonho. Celebremo-los e invoquemo-los a todos – conhecidos ou desconhecidos – para que nos ajudem a descobrir o segredo da felicidade. Não se fecharam em si mesmos, mas irradiaram alegria, entusiasmo e solidariedade por toda a parte. “Quem poderá subir a montanha do Senhor e habitar no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração limpo”. 32º Domingo Comum Sab 6, 12-16; 1Tes 4, 13-18; Mt 25, 1-13 LÂMPADAS SEM AZEITE Cada um de nós, tal como essas dez donzelas do Evangelho, é convidado para a festa das bodas, onde o esposo é o próprio Jesus. Temos uma vida inteira para preparar as lâmpadas para a viagem. O azeite é ele mesmo que no-lo dá durante a nossa existência. Trata-se de caminhar na fé e na caridade, iluminados e nutridos pela sua palavra. Tenho azeite que baste para chegar a essa festa? É tempo de espera e de preparação. Não durmas! “Eu sou a luz do mundo: quem me segue terá a luz da vida”. 33º Domingo Comum Prov 31, 10-31; 1Tes 5, 1.6; Mt 25, 14-30 QUE É DOS TEUS TALENTOS? No fim dos tempos, Deus não medirá as nossas conquistas ou realizações. Não nos perguntará se fizemos proezas admiráveis. Contará somente a nossa fidelidade, assiduidade e caridade com DV

que cumprimos os nossos deveres, por mais humildes ou pequenos que pareçam. Não enterres os teus dons. O que Deus te confiou é suficiente para seres feliz e fazer felizes os outros. Ajuda-me, Senhor, a desfrutar todas as minhas capacidades humanas e espirituais para o serviço da minha comunidade de vida. Festa de Cristo Rei Ez 34, 11-17; 1Cor 15, 20-28; Mt 25, 31-46 A CHAVE DO REINO Temos nas nossas mãos a chave para abrir a porta do reino. A realeza de Cristo manifesta-se hoje nos nossos gestos. Não poderemos reconhecê-lo no Céu, se não o tivermos visto, amado, vestido e socorrido aqui na terra em cada rosto que traz a sua marca. Abre a tua porta a cada próximo para que Jesus não te feche a sua. Não procures outras chaves, porque só esta te abre a porta da eternidade. “Eis que estou à porta e bato: se alguém me abrir, entrarei e cearei com ele e ele comigo”. 1º Domingo de Advento (Ano B) Is 63, 16-19; 64, 1-7; 1Cor 1, 3-9; Mc 13, 33-37 COMO BARRO EM SUAS MÃOS Guiados pelo evangelista São Marcos, iniciamos mais um ano litúrgico. Jesus, por meio da sua Igreja, irá colocar as palavras certas no nosso coração. Disponhamo-nos, desde já, a acolhê-las para que não caiam em vão. Deixemo-nos moldar pelas suas mãos de Pai amoroso, que quer fazer de nós uma obra-prima do seu amor. Com a liturgia, rezemos: “Tu, Senhor, és o nosso Pai; nós somos a argila e Tu quem lhe dá forma, porque todos somos obra das tuas mãos”.

Para que os povos africanos encontrem em Cristo a força para percorrer o caminho da reconciliação e da justiça, indicado pelo Sínodo Episcopal para a África

Reconciliação A intenção missionária de Novembro propõe-nos o exercício de uma virtude chamada reconciliação. A reconciliação exige muita força de vontade e uma santidade a toda a prova. Reconciliar-se com alguém é muito mais do que perdoar-lhe uma ofensa. Perdoar é dizer: não te aflijas, não te preocupes, vai em paz. Mas reconciliar-se é restabelecer totalmente o elo quebrado e recomeçar tudo de princípio, como se nada tivesse acontecido antes. Nada que se pareça com “olho por olho, dente por dente”. Ou “perdoo, mas não esqueço”; ou ainda “quem mas faz, mas paga”. A própria Bíblia antiga fala mais de vingança do que perdão e, menos ainda, de reconciliação. O Evangelho, quando fala de 70 vezes sete que se deve perdoar, é sinal que nunca antes houve autêntica reconciliação. A intenção proposta pelo Papa fala de nações inteiras que se guerreiam e matam e, a um sinal de paz, a um tratado entre as duas partes bélicas, baixam as armas e dizem cada pessoa uma à outra: “Perdoo-te”. Mais do que isso é preciso dar o abraço da paz e reconciliar-se. É preciso varrer toda a sombra que possa escurecer o campo que separa as duas pessoas ou entidades desavindas. MC NOVEMBRO 2011

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As memórias de Rasid

O vagabundo da caridade

Um livro lindo, próprio para pequenos e grandes. É uma história em que se descrevem algumas cenas da vida da Sagrada Família de Nazaré, Jesus, José e Maria, contadas por um cão chamado Rasid. Trata-se de uma fábula, onde se evocam vários animais a falar não com palavras, mas com gestos: patas, olhos, rabo, língua e outros. Todas as cenas são ilustradas com desenhos simples e expressivos, a condizer. O resto só lendo e vendo.

Nem mais nem menos do que a vida do célebre Raul Follereau em banda desenhada. O livro, de tamanho A4, com desenhos a cores, destina-se, a adolescentes que gostem deste género literário. A 2ª edição portuguesa tem a data de 2005, mas por descrever a vida de um homem tão importante e as obras tão grandiosas que ele realizou, vale a pena gastar os 5,00€ e ficar a saber os passos que ele deu durante os 74 anos da sua existência.

Ao lermos este título e ao sabermos que o livro foi escrito, vivido e meditado por um padre, ficamos de boca aberta. O próprio autor confessa isso mesmo, dizendo que teve grande relutância em publicar estes textos em livro. Mas vale a pena tê-los publicado e vale a pena lê-los e rezá-los. Acompanham os textos uns graciosos desenhos, riscos apenas que ajudam a concentrar-nos.

Autor: Tomás Trigo 160 páginas | preço: 15,00€ Editora Diel

Orar 15 dias com São Domingos É este santo, fundador da Ordem dos irmãos Pregadores, os dominicanos, que vai guiar a nossa oração durante 15 dias, adoptando as suas nove maneiras de rezar. Qualquer cristão, depois de orar estes 15 dias, voltará a sentir vontade de recomeçar. É esta a sugestão que dá o autor. Autor: Alain Quilici 112 páginas | preço: 10,00€ Paulus Editora

As três palavras perdidas O livro é mesmo próprio só para crianças e das mais pequeninas. São frases curtas – tudo ilustrado – com que os adultos, os pais, os educadores tentarão fazer passar grandes mensagens aos mais pequeninos. Autora: Rita Vilela 16 páginas | preço: 4,99€ Paulus Editora FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Autor: José Tolentino Mendonça 128 páginas | preço: 10,00€ Editorial A. O.

Santa Beatriz da Silva Por muitas razões e muitas a propósito se escreve este livro no actual período em que se comemora um jubileu muito importante para o conhecimento desta santa portuguesa, os 500 anos da bula do Papa que aprova o regulamento da ordem religiosa. Sem vaidade, mas com sinceridade, andamos precisados de ver os nossos santos e santas evidenciarem-se pela vida que levaram e pelas obras que realizaram. Santa Beatriz é uma delas. O livro tem quatro capítulos de texto e três apêndices. Autor: Senra Coelho 112 páginas | preço: 9,00€ Paulus Editora

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Realização: René Berthier 32 páginas | preço: 5,00€ Edições Aparf

Estranha noiva de guerra É um romance daqueles que podemos, com razão, chamar um romance de guerra ou, como diz um comentador, João de Mancelos, um empolgante thriller bélico. É narrado com desenvoltura num estilo tão laborioso quanto intenso. Admira-nos o facto de em tão poucos dias de guerra o autor ter conseguido arranjar matéria para escrever este romance com tantas nuances: o companheiro morto que ele transporta às costas, os abutres, o régulo, os terroristas, os amores que ele vai cultivando pelo caminho. Uma verdadeira lição sobre a guerra da Guiné. Quem não viu, aprenda! Autor: Armor Pires Mota 144 páginas | preço: 16,00€ Editora Âncora


Evangelho e promoção social Bioética Este livro – diz-se na apresentação – é uma proposta para estudantes e para aqueles que participam na formação de jovens, de casais e de famílias. Pretende ser um instrumento útil e essencial para estimular o confronto e a interiorização dos valores essenciais da vida. Não se trata propriamente de um livro de leitura: faz parte de um curso. Mas lê-se tão bem e tem tantas curiosidades que apetece mesmo lê-lo aos bocadinhos. Autor: Giovanni Russo 160 páginas | preço: 16,30€ Paulus Editora

As minhas primeiras orações Pequeno volume de capa dura, com pouco texto e muitos desenhos apropriados para ajudar os mais pequeninos a aprenderem a rezar. Têm aqui uma acção muito importante os pais, catequistas e outros educadores para descodificar as palavras e as gravuras. Boa prenda de Natal! Autora: Thereza Ameal 50 páginas | preço: 8,90€ Paulus Editora

Cantarei depois da morte São textos poéticos, são frases aguçadas como flechas atiradas ao coração e à sensibilidade de homens e mulheres, crentes e não crentes. Fazem doer, fazem pensar. São orações, reflexões, coisas que apelam à mudança de vida. O autor, o patrono dos leprosos, não se compadece com a mediocridade, com a mezinha; quer sempre mais e melhor. Vai ao fundo. Livro interpelativo, útil para todos. Autor: Raoul Follereau 68 páginas | preço: 2,50€ Editorial Aparf

“A evangelização favorece sempre o desenvolvimento dos povos. É uma perspectiva que não deve ser subestimada: o anúncio do Evangelho leva e gera solidariedade. Por isso, mesmo se a evangelização é o nosso primeiro objectivo, propomo-nos sempre promover a solidariedade em relação a quantos vivem nos territórios de missão partilhando e compreendendo as suas necessidades humanas, sociais e materiais”. Mario Ponzi | O. R. | 8 Outubro 2011

De mão para mão

“No passado, os(as) missionários(as) apareciam para informar, formar e solicitar ajuda para as «missões». A motivação era contribuir para a «formação» da Igreja local em terras de missão. Nos nossos dias, cresce a consciência de que a missão já não é geográfica. Os países da Europa, incluindo Portugal, tornaram-se terras de missão: os campanários já não marcam o ritmo das pessoas e o Evangelho é cada vez mais desconhecido em vastas regiões da Europa”. António Faria Vida Consagrada | Outubro 2011

“Não se faz acção pastoral com nostalgias, nem copiando o que se realiza em paróquias diferentes. Também não se faz, por certo, minimizando ou abandonando o campo onde permanecem pessoas, que aí vivem e lutam. A hora não é de afirmações teóricas, mas de procura de caminhos novos, experimentados aí onde se vive e trabalha”. António Marcelino Notícias de Beja | 13 Outubro

“A Igreja existe para evangelizar. A Missão renova nos cristãos o entusiasmo e a alegria de ser discípulo missionário. O Evangelho não é um bem somente para quem o conhece, mas uma boa-notícia a ser comunicada para toda a humanidade. O Mês Missionário surgiu com a finalidade de ajudar os baptizados a tomarem consciência da Missão universal da Igreja”. Jaime Carlos Patias Missões | Outubro 2011

“É do conhecimento de todos, pela larga informação que se tem feito na comunicação social, de que há milhares de pessoas que morrem em cada dia por falta de alimentos, com fome; milhares de crianças desnutridas; doentes que não se curam porque não têm meios para se tratarem; de tudo vamos dando conta nos projectos da APARF. Sabemo-lo, mas nem sempre agimos, não nos despegamos do supérfluo para lhes acudir”. Rosa Celeste Ferreira O Amigo dos Leprosos | Set./Out. 2011

Passagem de testemunho

Caminhos novos

Missão universal

Informação e não só

“A história dos institutos missionários é exemplo vivo de uma dedicação total à missão. São páginas extraordinárias de vigor missionário, envolvendo num mesmo movimento tantos jovens e colaboradores. Ontem, os institutos missionários eram os «profissionais» da missão; a eles foi confiada a missão que, por natureza, pertencia a toda a Igreja e a cada baptizado. Hoje, num processo de rápidas mudanças, as Igrejas locais assumem-se como «sujeito primeiro da missão»”. Alberto Oliveira Silva Além-Mar | Outubro 2011

Padre para os outros

“Ora, a questão é que ninguém tem direito a ser padre! Eu não tenho direito a ser padre: a Igreja é que tem direito a que eu seja padre, a que haja alguém que, enviado por Deus, lhe administre os sacramentos e alimente com a Palavra de Deus. Porque ser padre é uma questão de os cristãos terem acesso aos sacramentos, e não de poder”. Orlando Henriques Correio de Coimbra | 13/10/2011

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Gurué, Moçambique

Donativos de apoio ao Centro de Acolhimento

Projecto 2011

Gurué Acolhimento a doentes e acompanhantes Paróquia do Gurué, Moçambique

Imagine-se doente, a dormir ao relento, ou ter um filho hospitalizado e não poder estar perto dele. Isso acontece na diocese de Gurué, que tem dois milhões de habitantes e apenas um hospital. O bispo da diocese, Francisco Lerma, missionário da Consolata, pretende construir um centro de acolhimento para doentes e acompanhantes.

Todos os meses pensamos em si!

porta 25 euros

telhas 10 euros tijolo 1 euro pregos 5 euros

Renove a assinatura

viga de madeira 20 euros

para 2012

sacos de cimento 15 euros

Anónimo (Fiães) – 50,00€; Anónimo (Fiães) – 50,00€; Anónimo (Fiães) – 125,00€; Maria Dias – 3,00€; José Dias – 11,00€; Fátima Matias – 10,00€; Rosália – 5,00€; Anónimo – 50,00€; Anónimo – 80,00€; Anónimo – 500,00€; Emília Ponte – 20,00€; Dolores Rosa – 45,00€; Guilhermina Pereira – 10,00€; Anónimo – 50,00€; Lucinda Branco – 25,00€; Maria Rosário Almeida – 4,00€; Alexandra Pedrosa – 10,00€; Anónimo (Fiães) – 20,00€; Maria Carmo Craveiro – 5,00€; Helena Gomes – 50,00€; António Lopes – 25,00€; Clara Mcbrinn – 10,00€; Sónia Silva – 10,00€; Anónimo – 40,00€; Anónimo – 21,11€; Anónimo – 10,00€. Total geral = 38.020,08€

Solidariedade vários projectos BOLSAS DE ESTUDO Anónimo (Fiães) – 250,00€; Anónimo – 250,00€; Ludovina e Ana Isabel Garrido – 350,00€; Raquel Oliveira – 250,00€. BAIRRO DEEP SEA – NAIROBI – QUÉNIA Josefa Dinis – 6,20€. PADRE TOBIAS OLIVEIRA (QUÉNIA) Anónimo (Fiães) – 50,00€. OFERTAS VÁRIAS Ramiro Pinto – 100,00€; Agostinho Gameiro – 40,00€; Anónimo –

3.000,00€; Fernanda e Orlando Dionísio – 50,00€; José Lourenço – 25,00€; Anónimo – 72,00€; Conceição Policarpo – 100,00€; Ausenda Carvalho – 30,00€; António Ribeiro – 25,00€; Casimira Vieira – 26,00€; Alfredo Santos – 36,00€; Virgínia Ferreira – 25,00€; Maria Sousa – 30,00€; Diamantina Couto – 43,00€; Isabel Pacheco – 25,00€; Simão Gordo – 33,00€; Lucília Martins – 53,00€.

8 Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | Telefone 249 539 430 | fatima@consolata.pt 8 Rua D.a Maria Faria, 138 Apartado 2009 | 4429-909 Águas Santas MAI | Telefone 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt 8 Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt 8 Rua Cap. Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | Telefone 218 512 356 | lisboa@consolata.pt 8 Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | Telefone 253 691 307 | braga@consolata.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Para tudo e para todos O padre Guido Borello nasceu em Chiusa de São Miguel – Itália, no dia 29 de Dezembro de 1901. Entrou na Consolata em 1922 e em 1933 foi ordenado sacerdote e, no ano seguinte, foi enviado para a missão de Iringa – Tanzânia, onde trabalhou 16 anos. Em 1950 foi destinado ao Quénia e exerceu o seu apostolado na diocese de Meru. Faleceu na Itália em 1958 texto MANUEL CARREIRA ilustração H. MOURATO

eregrino», assim o bap­ti­­­ zou o seu confrade e co­ lega de missão, padre An­ tónio Bazzaco, devido às voltas que o padre Guido deu para ajudar os missionários em seus trabalhos apostólicos na diocese de Iringa – Tanzânia. Começou pela missão de Malangali, onde apanhou a primeira dose de fe­ bre africana. Em 1936 ajudou o padre Tonelli a fundar a missão de Kanigom­ be. Seguiu depois para Mdabulo onde trabalhou com o padre Becchio, até que passou à missão central de Tosama­ ganga como assistente espiritual dos estudantes da «Central School» daque­ la localidade. Mas a sua peregrinação ainda ia a meio. De Tosamaganga onde celebrava a missa e dava aulas, desceu para terreno mais chão, e assumiu a

responsabilidade dos trabalhadores que cultivavam tabaco nos terrenos da missão. Ainda lhe faltava mais uma etapa para a peregrinação ser comple­ ta. Deram-lhe o encargo de decorar a catedral de Tosamaganga com pintu­ ras apropriadas. O dom da pintura, foi aquele que o fez sobressair a todos os seus colegas. Dessa forma da quinta do tabaco onde sujava as botas com os tra­ balhadores, ele subiu em altos andai­ mes até ao tecto da majestosa catedral diocesana e ali deixou as marcas do seu talento de pintor. Em 1950, o padre Guido Borello re­ gressou à Itália para um período de repouso. Mas a África não lhe saía do pensamento e do coração. Poucos me­ ses depois, voltou às missões. Os su­ periores, porém, em vez de o manda­ rem de novo para a Tanzânia, encur­

taram-lhe o caminho e apontaram-lhe o Quénia, concretamente a diocese de Meru. Ali continuou a ser peregrino e “servo dos servos de Deus”, como, em jeito de brincadeira, o apodavam os seus colegas de missão. Num dado momento entregaram-lhe uma moto – imagino que fosse velha e estragada – e ele percorreu longos e mal trilhados caminhos à procura de escolas e capelas onde houvesse crianças e outra gente para evangeli­ zar. De tantos balanços que dava na moto, chegava à noite todo partido. Atirava-se então para cima de uma esteira e dormia, à espera do amanhã em que outra viagem o aguardava. Em 1954 teve de regressar à Itália e «adeus África!». Faleceu no dia 13 de Maio de 1958, chamado ao céu – dizia-se – por Nossa Senhora de Fátima.

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Os povos, a quem, indevidamente, chamamos primitivos, cultivam com amor os valores da família. Nesse e noutros aspectos dão-nos exemplos admiráveis. Os missionários que têm ou tiveram a sorte de viver junto deles ficam impressionados com os sacrifícios que eles são capazes de fazer para não faltarem a um compromisso exigido pela etiqueta familiar: um casamento, uma festa de iniciação, um funeral, enfim uma circunstância qualquer que apele à união da família

À volta da panela se reúne toda a família texto MANUEL CARREIRA foto ANA PAULA

A presença física reforça a amizade

Apoio à compreensão A verdadeira amizade não se alimenta só com palavras, com escritos ou outras mensagens. É indispensável a presença física da pessoa. Já Cristo no Evangelho dizia (Mat 25, 36): “Estive doente e foste ao hospital visitar-me; estive na cadeia e foste lá ver-me...”. Claro, nem sempre este desiderato se pode cumprir à letra, mas a presença pessoal de um amigo, sobretudo em certas ocasiões difíceis da vida, vale milhões. São Paulo, escrevendo a Timóteo, queixou-se dos falsos amigos dizendo: “No meu julgamento todos me abandonaram; só Lucas permaneceu comigo”.

lhos são uma bênção de Deus para os pais em qualquer cultura onde vivam. Devem ser protegidos, ensinados, em todas as virtudes familiares e sociais. São os filhos que, depois, darão apoio aos pais já idosos ou necessitados. Ter só um filho exige um cuidado ainda maior, pois se este falha, a que porta irão bater? África Ocidental

A casota é a riqueza dos cachorrinhos

Apoio à compreensão Os cachorros, enquanto são pequenos, não andam a vadiar

por longe; contentam-se com o aconchego da sua casota e ali vivem felizes como se não houvesse mais nada no mundo. Ali têm segurança, têm o carinho da mãe e a alimentação assegurada. A moral desta história é que a criança merece todo o carinho possível e vai crescendo devagar. Só depois ganha confiança. Além disso a história ensina-nos o valor da família e o aconchego do lar. Pode não ser rico, mas ali existe afecto, partilha e alegria. A família é o melhor que existe no mundo. Camarões

Uma panela de massa, abundante e bem cozinhada, alegra a família toda

Apoio à compreensão Quer se queira, quer não, é à volta da mesa, durante as refeições, que se resolvem grandes problemas, se tomam sábias decisões e até se reconciliam pessoas desavindas. Jesus falou, várias vezes, de banquetes em que ele próprio participou ou referiu-se a eles por meio de parábolas. Veja-se, por exemplo: nas bodas de Ca­ná, Jesus fez um milagre pa­ ra resolver um pro­ blema aflitivo dos noivos. “À mesa de Mateus, o publicano, Cristo fez com que ele se convertesse e se reconciliasse com os ofendidos. Mas, sobretudo, foi à mesa da última ceia com os seus discípulos que Jesus instituiu a Eucaristia. Samburu — Quénia

Ásia

Quando um caçador tem só uma flecha não a atira logo às primeiras: pensa bem antes de a usar

Apoio à compreensão No entender daqueles povos a seta única representa o filho único que é preciso educar bem, para os pais o não perderem; doutra forma ficariam sem nada. Todos os fiFÁTIMA MISSIONÁRIA

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Festa da Família Missionária da Consolata na Matola, nos arredores de Maputo, Moçambique

NOVEMBRO 2011


A beleza está no coração do homem texto NORBERTO LOURO ilustração MÁRIO JOSÉ TEIXEIRA

Recebi, por estes dias, uma carta com que, sinceramente, não contava. Surpreendeu-me pela distância no tempo do conteúdo – de há quase 40 anos – e pela carga emotiva que continha e que, inevitavelmente, me contagiou. “O povo não se esqueceu de si” – dizia o remetente. “São filhos dos doentes de lepra da gafaria de Mpapa, Mandimba, Moçambique. Eu sou o jovem que o acompanhou nas visitas para o registo dos doentes e na distribuição misericordiosa de medicamentos. Tenho agora 55 anos, sacramentos completos, pai de nove filhos, desligado do serviço de professor por ter completado os anos de trabalho […]. É com o maior prazer e emoção que lhe escrevo. Mande-nos a sua bênção e uma fotografia”. Pareceu-me acordar de um sonho! Voltei a percorrer carreiros impraticáveis para visitar leprosos nos seus tugúrios com o Hermínio, cujo nome e feições me afloraram à mente. Recordei cada leproso, não já pelas feições, algumas delas deformadas pela doença, mas pelo estado deplorável das suas feridas e pela visão de alguns membros decepados pela escandalosa doen­ ça tão erroneamente considerada de alto contágio e tão fácil de curar. Foram centenas e centenas de fichas, milhares e milhares de comprimidos de sulfona distribuídos, cujo efeito e resultado não tive tempo de constatar. É que a doença cura-se, embora exija tempo, com fidelidade à medicação conseguida e à regularidade das visitas. Duas condições difíceis de manter, dadas as situações deploráveis de abandono em que os doentes de lepra então viviam. O fim da gafa-

ria e os cumprimentos dos filhos dos leprosos, de que fala a carta do Hermínio, são para mim uma consolação compensadora do trabalho desenvolvido. Falei desta carta numa escola do concelho de Mafra, para a qual fui convidado, apadrinhado por uma estudante minha conhecida e parente. Optimamente acolhido pela professora e pelos alunos, fui desbobinando o tema e reparei que o conhecimento dos meus ouvintes sobre a lepra era muito diversificado. Apresentei algumas noções e experimentei corrigir diversas deturpações. Tentei amenizar impressões negativas como, por exemplo, porque é que se olha para um leproso com repugnância e medo se a sua doença é menos contagiosa do que a gripe, a tuberculose ou outras; porque é que ainda se não acabou com a lepra, sendo uma doença curável com poucas centenas de euros. Gerou-se um diálogo com muitas perguntas e a conclusão final foi que é preciso acabar com todo o tipo de discriminação e conceito de fatalismo. Serão a justiça e a solidariedade universal a acabar com as situações de extrema miséria, onde essa e outras doenças se desenvolvem. Mostrei aos alunos fotografias de doentes de lepra que deixaram de o ser. Admiraram-se de eu ter convivido com eles e não ter tido medo. Mais se admiraram por ter dito e demonstrado que são pessoas normais e simpáticas. Contei-lhes a história daquela criança que, depois de me abraçar e beijar, arregalou os olhos e me disse: – Como é que tu és tão feio e tão simpático? É que a beleza está no coração de todo o homem. NOVEMBRO 2011

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


São Miguel, um estabelecimento de ensino de portas e janelas abertas para o exterior, como o gabinete do padre Joaquim Ventura

Colégio de São Miguel assinala cinquentenário texto LUCÍLIA OLIVEIRA foto ANA PAULA

Chamam-lhe o “homem do leme” e, desde a fundação do colégio, por desejo do então bispo de Leiria, João Pereira Venâncio, com “alma de gigante”, o padre Joaquim Ventura tem procurado “mais e melhor” pela educação. Rasgar caminhos e abrir portas tem sido a orientação do director do Colégio de São Miguel, instituição de ensino de Fátima, que está a viver o ano jubilar. São 50 anos ao serviço da educação assentes em três pilares: amizade, verdade e exigência. Um marco para “evocar o passado, que nos dá gosto; celebrar o presente em

Passeio cultural

A Liga de Amigos do Museu de Arte Sacra e Etnologia de Fátima, apresentada ao público a 13 de Outubro, por ocasião dos 20 anos do Museu, promove a primeira iniciativa a 12 de Novembro. Trata-se de um passeio cultural de visita a quatro museus da região e termina com uma passagem pela feira da Golegã. Informações e inscrições através do blogue http://masefatima.blogspot.com ou pelo telefone 249 539 470. FÁTIMA MISSIONÁRIA

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que estamos a apostar fortemente”; e “preparar o futuro”, explica o sacerdote. Dez momentos altos de comemoração, com iniciativas várias, desde exposições a conferências, celebrações religiosas, culminam com o jantar comemorativo de encerramento, em Outubro de 2012. «Asas prontas a voar» é o tema que congrega os mais de 1.100 alunos, durante este ano lectivo. O Colégio de São Miguel foi o grande pioneiro na “defesa e igualdade para as famílias escolherem o projecto” educativo para os filhos, salienta Joaquim Ventura. A “luta” – defende o

Ciclo de inverno

A primeira do ciclo de conferências de Inverno, promovido pelo Santuário de Fátima, decorrerá a 13 de Novembro, às 16h, na basílica. Será oradora a religiosa do Sagrado Coração de Maria, irmã Luí­ sa Almendra, que tratará a temática do anúncio a Maria. Depois da conferência haverá um concerto de órgão.

Ano pastoral

O Santuário de Fátima dará início ao novo ano pastoral

NOVEMBRO 2011

sacerdote – deve seguir pela defesa do princípio de cada família pagar segundo as suas possibilidades económicas. Aos 50 depois da fundação do Colégio, tal como aos 25 anos, o tema da escola não estatal continua actual e motiva o debate. No final do ano lectivo, o homem que completa 50 anos à frente do Colégio de São Miguel e 60 de sacerdócio afastar-se-á. Mas há outro projecto, a aldeia intergeracional, que começa a ganhar forma e que precisa de asas para voar. Leia a entrevista com o padre Joaquim Ventura em www.fatimamissionaria.pt

a 1 de Dezembro, apresentando o programa do segundo ano de preparação do centenário das Aparições, subordinado ao tema

«Quereis oferecer-vos a Deus?». O acontecimento de referência será a aparição de Maio de Nossa Senhora aos três pastorinhos.

Novembro em agenda

01 Exposição tem­porá­­ria no Museu da Con­solata, até 31 de Dezembro 04-06 Assembleia do re­novamento carismático 07-11 Retiro do Clero 1 21-25 Retiro do Clero 2 25-27 Semana de estudos de espiritualidade inaciana 26 Encontro para formadores das equipas de Nossa Senhora


un’altra visione del mondo mwingine mtazamo wa dunia another view of the world otra visión del mundo inny pogląd na świat une autre vision du monde wona wunyowani wa elapo eine andere sicht der welt djôbe mundu di oto manêra

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Apenas euros por ano MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA | Rua Francisco Marto, 52 | Ap. 5 | 2496-908 FÁTIMA Telefone 249 539 430 | 249 539 460 | geral@fatimamissionaria.pt | www.fatimamissionaria.pt


Eu, árvore

Nasci no chão moreno dum país na hora em que a manhã era alvorada. Aos poucos fui crescendo, e fui raiz, e tronco na planura da chapada. Na árvore que fui e em que me fiz, fui flor, e fui rebento, e fui ramada; e fruta que afundou sua matriz na Vida onde fui Tudo, onde fui Nada. Fui verde como a esp’rança deste mundo; Fui sombra neste chão onde me afundo; Fui lenha que acendeu tanta fogueira. E agora, ao arrebol da tarde finda, no ciclo terminal falta-me, ainda, ser folha que apodrece na poeira… João Baptista Coelho | «Poetas e Trovadores»


Cabo Verde