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ANO LVIII – N.º 1 JANEIRO 2012 ASSINATURA ANUAL | Nacional 7,00 € l Estrangeiro 9,50 €

DESAFIO RUSSO dignidade e democracia

“Um, ninguém e cem mil”

Bairros unidos pela miséria

Para que “Quereis oferecer-vos vivemos a Deus?”


Nossa Senhora da Consolata Consolata é cheia de graça, por Deus agraciada para levar ao mundo a consolação de Jesus Consolados são os evangelizados, porque amados de Deus Consolar é levar a toda a parte a consolação de Deus salvador Como Maria tornamo-nos solidários com todos. Solidariedade é o outro nome da consolação Como Ela somos presença consoladora em situações de aflição Por seu amor colocamos a nossa vida ao serviço do homem todo e de todos os homens Allamano deu-nos Maria por mãe e modelo. Por isso chamamo-nos Missionários da Consolata

Apoie a formação de jovens missionários Funde uma bolsa de estudos. A oferta é de 250€ e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Pode dar-lhe o seu próprio nome ou outro que desejar. São-lhes concedidos, entre outros, os seguintes benefícios: 8 fica inscrito no livro de benfeitores dos Missionários da Consolata; 8 participa nas orações e nos méritos apostólicos dos missionários; 8beneficia de uma missa diária que é celebrada por todos os benfeitores

MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

Rua Francisco Marto, 52 – Ap. 5 – 2496-908 FÁTIMA | T. 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua D.a Maria Faria, 138 – Ap. 2009 – 4429-909 Águas Santas MAI | T. 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt Quinta do Castelo – 2735-206 CACÉM | T. 214 260 279 | cacem@consolata.pt Rua Capitão Santiago de Carvalho, 9 – 1800-048 LISBOA | T. 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Rua da Marginal, 138 – 4700-713 PALMEIRA BRG | T. 253 691 307 | braga@consolata.pt


Jovens

dom precioso para a sociedade Há um ano, um jovem tunisino imolou-se pelo fogo em Sidi Bouzid,

“Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo” Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz

em protesto por lhe ter sido confiscado o seu carro de vendedor ambulante. Mohamed Bouazizi morreu 18 dias depois no hospital de Ben Aros, nos arredores de Tunis, a 4 de janeiro. Vendendo frutas e legumes mantinha-se, a si e à família. O pai morrera quando ele tinha apenas três anos e desde os 10 vendia na rua. O seu gesto de protesto e desespero tornou-se um rastilho que rapidamente contagiou uma multidão de jovens em vários países árabes, gerando um movimento coletivo de revolta. Mohamed Bouazizi tornou-se um herói, símbolo do mal-estar da juventude, e da opressão e da pobreza das populações do mundo árabe. Em outubro de 2011, o Parlamento Europeu distinguiu-o, com o Prémio Sakharov, juntamente com outras quatro personalidades ligadas à Primavera Árabe, cada vez mais olhada com desconfiança. No primeiro aniversário da morte de Mohammed, a sua mãe, Manoubia Bouazizi, expressou uma preocupação comum a muitas mães, pedindo às autoridades tunisinas que não defraudem as expectativas da revolução, proporcionando melhor qualidade de vida à população, principalmente aos jovens. “[Meu filho] queimou-se pela concessão de liberdade à Tunísia e ao mundo árabe. Peço ao governo que preste atenção às áreas pobres e crie empregos para os jovens”.

Queremos relacionar este fato com o tema da mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial da Paz, que se celebra a 1 de janeiro: “Educar os jovens para a justiça e a paz”. No final do texto, o Papa lança um veemente apelo aos jovens: “Diante das dificuldades, não vos deixeis invadir pelo desânimo nem vos abandoneis a falsas soluções, que frequentemente se apresentam como o caminho mais fácil para superar os problemas. Não tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrifício, de optar por caminhos que requerem fidelidade e constância, humildade e dedicação”. E acrescenta: “Vivei com confiança a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, tão rica e cheia de entusiasmo”. Apesar da frustração gerada pela grave crise que afeta a sociedade hodierna e que torna difíceis as condições de vida, Bento XVI convida a olhar para 2012 com uma atitude de confiança: “O coração do homem não cessa de aguardar pela aurora […]. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens”. São eles que “podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperança ao mundo”. É urgente proporcionar-lhes uma “formação que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma família e encontrar um emprego estável, a capacidade efetiva de intervir no mundo da política, da cultura e da economia, contribuindo para a construção duma sociedade de rosto mais humano e solidário”. É o melhor investimento do pouco que nos resta em tempos de crise. É caminho de justiça, paz e solidariedade. EA JANEIRO 2012

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Sacerdote ortodoxo transporta a cruz durante uma manifestação religiosa

Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA Nº 1 Ano LVIII – JANEIRO 2012 Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt

FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Provincial António Jesus Fernandes Redação Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 27.700 exemplares Diretor Elísio Assunção Redação Elísio Assun­ção, Manuel Carreira Conselho de Re­dação António Marujo, Elísio Assunção, Manuel Carreira Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos e Magda, Carlos Camponez, Cristina Santos, Darci Vila­ri­nho, Leonídio Ferreira, Luís Mau­rício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Teresa Carvalho; ­Diaman­tino Antunes – Moçambique, Tobias Oliveira – Quénia, Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa Lusa Contracapa Ana Paula Ilustração H. Mourato, Mário José Teixeira e Ri­car­do Neto Com­po­sição e Design Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Joaquim Bernardino e Cristina Henriques

Assinatura Anual

Nacional 7,00€ Estrangeiro 9,50€ De apoio à revista 10,00€ Benemérito 25,00€ Avulso 0,90€

O clima esperará pela diplomacia?

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multibanco (ver dados na folha de endereço),

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“Um, ninguém e cem mil”

(Millenniumbcp)

Bairros unidos pela miséria

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03 EDITORIAL 805 PONTO DE VISTA Nem antes nem depois Deus é sempre pontual 806 LEITORES ATENTOS 807 HORIZONTES Música de novo acordar 808 MUNDO MISSIONÁRIO Paulo Schebesta grande missionário e antropólogo

Atualize

a sua assinatura FÁTIMA MISSIONÁRIA

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| MÉXICO E CUBA recebem visita de Bento XVI | CRIANÇAS malária mata 655 mil em 2010 | SUDÃO conflitos atingem “duramente” 250 mil | GUATEMALA Crianças receiam violência | IÉMEN meninas obrigadas a casarem-se já aos oito anos 811 FIO DA HISTÓRIA Turim 812 APÓSTOLOS MODERNOS Da missão continental à missão universal 822 GENTE NOVA EM MISSÃO A festa dos Reis 824 TEMPO JOVEM Para que vivemos?826 SEMENTES DO REINO Glória a Deus e paz na Terra 828 O QUE SE ESCREVE 830 O QUE SE DIZ 831 VIDA COM VIDA O construtor 832 OUTROS SABERES A sorrir é que a gente se entende 833 A MISSÃO É SIMPÁTICA Unido na dor da tragédia 834 FÁTIMA INFORMA Quereis oferecer-vos a Deus?

JANEIRO 2012


ANTÓNIO FERNANDES*

Nem antes nem depois Deus é sempre pontual Caros amigos e amigas

O Natal está no meio de nós.

Somos convidados a fazer memória deste acontecimento que marcou a história da humanidade e marca de maneira indelével as nossas opções e vida. Desejo convidar-vos a viver este tempo de Natal, tendo presente atitudes que acredito serem essenciais para que o Natal seja vivido em profundidade e ocupe o verdadeiro lugar que deve ter no quotidiano da nossa vida.

Que a Nossa Mãe Consolata nos encha da verdadeira Consolação, Cristo Jesus, nos proteja e ilumine

A fidelidade de Deus. Ele sempre esteve e está

presente. Acompanha-nos nas vicissitudes do dia a dia. Viver a nossa fé nesta certeza é confiar plenamente no grande amor de Deus por cada um de nós. Deus acompanha-nos, vai connosco, está presente. Esperá-lo é reconhecê-lo nos rostos concretos que encontramos, nas situa­ções que vivemos, na nossa própria história e estar conscientes de que ELE é PONTUAL. Está connosco, na sua fidelidade amorosa e confiante.

Agradecimento pelo dom da nossa vida. A mão de Deus sempre esteve connosco, sempre nos protegeu e preservou. Fazer memória do ano, reler a nossa vida à luz da fé ajuda-nos a encontrar o verdadeiro sentido da vida. Dom de Deus para ser doado em plenitude.

Abrir-se ao novo. É tempo de abrir a porta ao novo. Proclamamos um tempo novo, apesar dos perigos.

Apresentamos àqueles que nos cercam, sejam ricos ou pobres, enfermos ou sãos, as maravilhas de um novo tempo. Que cada um de nós possa ser portador do advento, das boas-novas da paz, da fé, da esperança e do amor. Cristo chegará. Ele renascerá.

Nossa missão. A humanidade precisa

de saber isto. Vamos viver e proclamar este tempo, com fé e amor, convivendo, construindo, servindo. Todos ao nosso redor, não importa as situações que vivam, perceberão que breve será Natal! Vivemos tempos de incertezas e de espera. Mas, acima de tudo, vivemos o exercício da esperança. Esperamos Cristo Jesus. Ele chegará com certeza! Vamos preparar as nossas casas – corações – limpando e deitando fora o desânimo, a falta de fé, de coragem, de visões, de amor. Esperemos Aquele que já está no meio de nós - Jesus Cristo. Chegará no Natal. Pontual! Chega a todos os lares, permitindo a partilha, a ajuda, o cuidado, o dar e o dar-se. Somos responsáveis pela chegada do Natal, das boas-novas.

Desejo a todos os leitores e amigos dos Missionários da Consolata um Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Abramos o nosso coração. Que a Nossa Mãe Consolata nos encha da verdadeira Consolação, Cristo Jesus, nos proteja e ilumine. Unidos na oração e na missão. *superior dos Missionários da Consolata JANEIRO 2012

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Caros amigos e leitores atentos

Renove a sua assinatura

AGRADECEMOS que os nossos es­­ti­ mados assinantes renovem a assina­ tura para 2012. SÓ AS ASSINATURAS atualizadas poderão usufruir do pequeno apoio do Estado ao porte dos correios. NA FOLHA on­de vai escrita a sua direção, do lado esquerdo, poderá verificar o ano pago e o seu núme­ ro de assinante. O PAGAMENTO da assinatura pode­ rá ser feito através dos colaborado­ res, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multiban­ co, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05 IMPORTANTE Refira sempre o nú­­ me­ro ou nome do assinante. OS DO­­NA­TIVOS para as missões são de­dutíveis no IRS. SE DESEJAR RECIBO, deverá enviar­ -nos o seu número de contribuinte. MUITOS LEITORES chamam à FÁTI­ MA MISSIONÁRIA «a nossa revista». É bom que assim pensem e assim pro­ cedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 29 mil assi­ nantes. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

Hoje começo eu a escrever nesta vossa página e faço-o para agradecer a todos aqueles e aquelas que nos mandaram parabéns e boas festas de Natal e Ano Novo. É sempre agradável receber estes miminhos por estas alturas em que tudo fala de paz, alegria e felicidades. Não podendo eu responder pessoalmente a todos – são muitos – sirvo-me da Fátima Missionária para retribuir os votos de saúde e felicidade que vieram em papel liso ou em cromos bastante coloridos. Bem-hajam por tudo. MC

Espírito missionário

Ex.mos Senhores, Como faço habitualmente no fim do ano envio o pagamento da assinatura da FÁTIMA MISSIONÁRIA para o próximo ano 2012 e envio um pequeno donativo para as missões. Aproveito para vos agradecer a pontualidade com que chega todos os meses a revista e dizer-vos que me agrada muito de ler os textos, refletir sobre eles, faz-me muito bem e vai alimentando o meu espírito missionário. Manuel

Até ao fim

Ex.mos Senhores, que trabalham na FÁTIMA MISSIONÁRIA, Em primeiro lugar desejo muita saúde que Deus lhes dê para poderem levar esse lindo trabalho até ao fim. Venho por este meio pagar a minha assinatura para o ano 2012. Fernando

Ecos de França

Queridos amigos, FÁTIMA MISSIONÁRIA, a todos vos abraço e vos dou os parabéns pela maravilhosa revista, que leio e de que gosto imenso. Eu vos mando o número de assinante e vos envio esta importância para

pagar três anos. Infelizmente o meu marido faleceu há um ano e só tenho um filho aqui em França, por isso telefonei para aí a dar a minha nova morada. Fiquei muito feliz ao receber aqui a revista. Fernanda

Cada revista um tesouro

Caros missionários, Venho por este meio felicitá-los e agradecer-lhes pela nossa FÁTIMA MISSIONÁRIA. É um tesouro que nos chega todos os meses a casa. Cada uma delas é uma preciosidade. Que o Beato Allamano vos abençoe para que possam continuar a vossa tão bela missão. Maria

Jesus e sua Mãe

Meus amigos, Venho desejar Santo Natal e que o Menino Jesus e sua Mãe Santíssima lhes tragam muita saúde, paz e continuação de boa disposição. Para a nossa revista FÁTIMA MISSIONÁRIA e a todos os seus colaboradores, venho desejar que continuem dando-nos a alegria, por vezes tristeza também pelo que vai pelo mundo. Estes são os votos da vossa amiga, para este Natal e ano 2012. Maria

DIÁLOGO ABERTO Senhores Padres, Junto envio um cheque de 70,00€ para pagamento da assinatura da nossa revista FÁTIMA MISSIONÁRIA de que gosto muito. É uma revista muito boa e que se lê de fio a pavio com muito agrado e que nos interpela tantas e tantas vezes. Ao ver o trabalho heroico dos nossos missionários, a pobreza de tantas terras onde vivem, e vendo a abundância dos FÁTIMA MISSIONÁRIA

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nossos locais que, apesar da enorme crise que atravessamos, ainda temos abundância de muita coisa, eu pergunto-me se não estaremos a desafiar Deus com a nossa pouca fé, pouca oração sei lá!… Todos precisamos, eu também preciso, que o Senhor me converta o coração. Emília

Amiga e senhora Emília, vejo que a senhora também é daquelas assinantes que

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leem a revista de fio a pavio! Fico contente em saber que na sua casa a Fátima Missionária não é um papel qualquer que serve apenas para embrulhar sardinhas. É algo de «sagrado» que dá muito trabalho a quem a faz e leva uma grande mensagem a cada leitor que a recebe. Vejo que a senhora Emília usa com muita propriedade a palavra «interpela». Interpelar quer dizer

«fazer pensar». Essa é uma das funções da revista: pôr as pessoas a pensar nas missões e no trabalho que os missionários por lá realizam com a ajuda de todos nós. Vem, depois, a crise que nos afeta, mas que não é nada em comparação com as necessidades daqueles que realmente são pobres. Por isso diz bem: “Precisamos todos de conversão”. MC


Música de novo acordar texto TERESA CARVALHO ilustração MIGUEL CARVALHO

Sara levantou-se apressada, como todas as manhãs. Deu um abanão a Miguel e informou: “Já tocou. Não molengues!”. Foi ao quarto das crianças e deu-lhes ordem de levante. Das 7 às 8h Sara é imparável: acordar todos, pôr a mesa, apressar, ordenar, reclamar. Com a hora a avançar, o tom de voz subia e as ofensas sucediam-se: “Miguel, que atraso de vida!”, “Canalha, só me chateiam logo de manhã!”. Este é o ritmo da família Silva: Sara afogueada, enquanto Miguel e os filhos, silenciosos e acelerados, tentavam evitar ofensas. Naquele dia, Miguel decidiu agir. Com o silêncio esperava paz, mas a paz não acontecia. A infelicidade agravava-se. Havia que conversar com Sara. Mereciam isso! Preparou um fim de semana para o casal, vencendo a resistência da esposa. Quando sós, olhando o mar, Miguel deu a mão a Sara e iniciou um discurso há muito treinado: – Sara, a nossa vida é uma loucura! Tu estás exausta; os miúdos e eu não conseguimos ajudar-te; não sabemos fazer as coisas à tua maneira e de acordo com os teus tempos. Nem temos de o fazer! Tu esforças-te tanto a cuidar de nós, mas há gritos, desvalorizações, não estamos felizes. Temos de mudar a nossa vida! – De que te queixas? Eu é que faço tudo,

eu é que me preocupo, eu é que tenho de decidir, nem tenho tempo para mim, só posso confiar em mim… E Sara chorou convulsivamente, numa tensão e desalento acumulados, chocada com a revelação de Miguel. – Queixo-me exatamente disso, Sara. Quero ver-te tranquila, quero pensar contigo, decidir contigo, dividir tarefas, quero que os miúdos participem do que é a vida em família, das decisões, de tudo. Quero que eles saibam que podem errar e aprender sem gritos. Quero alegria! Não quero só controlar as horas, o pó, a panela, o trabalho, a forma sempre igual de tudo acontecer.

Amanhã, o dia será diferente. A música, a alegria e o direito a aprender em cada dia formas renovadas de amar, seria a nota do novo acordar

– Queres dizer que não tens alegria e que a culpa é minha? – Não! Quero dizer que quero que te permitas sair um pouco de cena e nos deixes entrar. Há outras formas de começar o dia e outros valores. Precisamos de parar, rir e brincar, de sentir o que está à nossa volta, de vibrar com a vida. Precisamos de poder ser diferentes e nos admirarmos no que somos e fazemos. Juntos vamos conseguir, Sara! Mas tens de deixar… Sara deixou-se ir, aconchegada no abraço de Miguel. Estava muito cansada. Desde há sete anos que não se dava ao direito de não estar preocupada. Foi difícil olhar os olhos de Miguel. Há quanto tempo não o via! E era tão terno o seu olhar! Relaxou, sentindo que tinha nele um apoio que não se tinha permitido ver. Juntos mergulharam no azul do mar e Sara pôde sentir o prazer da água, o afago do sol, o som das vagas, ... o abraço amoroso de Miguel! Ali, lado a lado, sentia-se sem peso. Seria isso a felicidade!? À luz do sol que se punha, relembraram projetos por que se encantaram, viram as crianças, os cansaços, as ofensas e também os perdões. Amanhã, o dia será diferente. A música, a alegria e o direito a aprender em cada dia formas renovadas de amar, seria a nota do novo acordar.

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Paulo Schebesta grande missionário e antropólogo

Chegou a Moçambique há 100 anos, em 1911. Passados quase cinco anos, o missionário verbita alemão foi preso, na missão da Zambézia, e expulso, depois da Alemanha declarar guerra a Portugal. Esta breve experiência missionária deu origem a uma obra “muito importante”, que os missionários do Verbo Divino acabam de lançar entre nós: “Portugal: a missão da conquista no sudeste de África”. No seu lançamento, o historiador José Mattoso considerou “surpreendente que não tenha sido editada antes em Portugal”, depois de ter sido publicada em alemão em 1966. Compreende-se, uma vez que “a presença [do missionário e dos seus companheiros] não podia agradar ao governo e à Igreja portuguesa, quando faltavam apenas oito anos para o 25 de Abril”, explicou o conceituado historiador. A concluir a apresentação da tradução do livro de Paulo Schebesta, José Mattoso lamentou o atraso, que revela bem a sua importância: “A tradução tem 45 anos de atraso, mas nunca é tarde para edificar a paz entre os homens”.

MÉXICO E CUBA recebem visita de Bento XVI

CRIANÇAS malária mata 655 mil em 2010

Enquanto seis milhões de fiéis veneravam a Virgem Maria, “la morenita”, no santuário mexicano de Guadalupe, o Papa anunciou a sua próxima visita pastoral à América Latina. Bento XVI celebrava, a 12 e dezembro, a “Missa crioula”, em honra de Nossa Senhora de Guadalupe por ocasião do bicentenário da independência de vários países da América Latina. “Antes da santa Páscoa, tenho intenção de realizar uma viagem apostólica ao México e a Cuba, para proclamar a Palavra de Cristo num tempo que é precioso para evangelizar com fé autêntica, esperança viva e caridade ardente”. Enquanto o Papa anunciava a viagem em São Pedro, Vaticano, cerca de seis milhões de fiéis celebravam o 480 aniversário da aparição de Nossa Senhora de Tepeyac – “la morenita”. A festa de Nossa Senhora de Guadalupe foi celebrada no país durante 24 horas seguidas, com vigílias, terços e missas.

Apesar de registar uma diminuição, a malária fez 655 mil vítimas, sobretudo entre crianças africanas, em 2010. Mais de 86 por cento das mortes ocorreram entre crianças com menos de cinco anos. Desde 2000, a taxa de mortalidade ligada à malária diminuiu 26 por cento no mundo, mas ainda longe do objetivo fixado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), fixado numa redução de 50 por cento. Seis países: Nigéria, RD do Congo, Burkina Faso, Moçambique, Costa de Marfim e Mali, registam 60 por cento de mortos de malária. Segundo a OMS, a malária representava em 2010 uma ameaça para 3,3 biliões de pessoas. Todavia a maior ameaça vem da resistência da doença ao tratamento: “A resistência dos parasitas aos medicamentos antimaláricos representa um perigo bem real e sempre presente para o nosso sucesso futuro”, declarou a diretora da OMS, Margaret Chan.

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SUDÃO conflitos atingem “duramente” 250 mil

As Nações Unidas calculam que mais de 250 mil pessoas são “duramente afetadas” pelos combates que se registam nas regiões limítrofes do Sudão do Sul. A situação torna-se ainda grave devido à recusa do governo de Cartum em permitir o acesso das populações às agências humanitárias.

“Calculamos que mais de um milhão de pessoas sejam afetadas pelos combates do Nilo Azul e do Kordofan Sul”. O governo do Sudão procura controlar estas regiões, onde uma parte da população apoiou o Sul Sudão durante a guerra civil, de 1983 a 2005, que causou dois milhões de mortos.

GUATEMALA crianças receiam violência Oito em cada 10 crianças guatemaltecas têm medo de furtos, incidentes nos autocarros e outras situações perigosas. Sentem-se inseguras e receiam ser vítimas de violência a caminho da escola. A Guatemala é tida como um país bastante inseguro e reconhecidamente violento. Um inquérito recente revela que a maioria das crianças da Guatemala sofreram agressões. A falta de confiança nas forças de segurança da Guatemala é muito elevada, apesar do programa “Escolas Seguras”. No entanto, as escolas são tidas como um espaço seguro para os alunos: 81 por cento refere que os fatores externos à escola são os mais perigosos.

IÉMEN meninas obrigadas a casarem-se já aos oito anos

O matrimónio infantil precoce favorece os abusos sobre meninas e mulheres jovens. A prática muito difusa no Iémen põe em risco o acesso das meninas iemenitas à escola e coloca-as em situação de desigualdade. Obrigadas pelas suas famílias a casarem-se, sofrem danos permanentes irreparáveis. Dados recentes mostram que 14 por

cento casam antes dos 15 anos, e 52 por cento antes dos 18. Em zonas rurais, há meninas de oito anos já casadas e, por vezes, com homens muito mais idosos. Vários países do Médio Oriente e do norte de África não respeitam os tratados e convenções internacionais que fixam os 18 anos como idade mínima para contrair matrimónio.

TOBIAS OLIVEIRA, NAIROBI, Quénia

Dar-vos-ei água viva O Beato José Allamano ao fundar o Instituto Missionário da Consolata inculcou nos seus seguidores a necessidade de serem missionários dos corpos e das almas. A evangelização deve ser acompanhada pela promoção e dignificação da pessoa humana. De facto esta promoção muitas vezes chega antes da evangelização porque é pelo nosso exemplo que mais facilmente podemos levar as pessoas ao encontro com Deus, fonte de todo o bem. Nestes dias tive ocasião de testemunhar um exemplo dessa arte de levar as pessoas até Deus através das obras de bem. O missionário leigo José Argese, ao longo de mais de 30 anos conseguiu encontrar e canalizar água potável para mais de 250.000 pessoas residentes numa área semiárida do Quénia. Este irmão a quem os habitantes da zona deram o apelido de Muquiri (o silencioso) enquanto recolhia e canalizava a água ia também, ao longo de uma dúzia de anos, construindo uma Igreja onde as pessoas pudessem um dia beber da nascente de águas vivas como nos ensina Jesus “quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede”. O Santuário edificado pelo irmão Muquiri foi inaugurado no dia 13 de dezembro de 2011, centésimo aniversário da chegada dos missionários à zona onde o mesmo se situa. Foi comovente verificar que durante a celebração, e contra todas as previsões, choveu abundantemente Não chamaremos a isto um milagre, mas foi um sinal de bênçãos esta chuvada localizada no momento em que à obra missionária de promoção humana se abinava um centro de fé e evangelização. JANEIRO 2012

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A caminho da Costa do Marfim

“Um, ninguém e cem mil” Profissão: aprendiz de missionário Local de trabalho: Costa de Marfim Natural de Ancona, Itália; 30 anos Formação: licenciado em teologia. Mateus Pettinari, missionário da Consolata aterra na Costa do Marfim, de mochila às costas cheia de sorriso e paixão texto e foto MATEUS PETTINARI

e vários lados, dentro e fora de mim, à minha volta, de uma maneira ou de outra, todos me perguntam sem cessar: Porque partes? Dito de outra maneira: Porquê a missão?”. O missionário sente que a sua figura se costura com os mais variados panos, tão diferentes uns dos outros, que corre o risco de ser “um, ninguém e cem mil”, no dizer de Pirandello. Para uns, veste o fato de construtor de escolas, hospitais, igrejas, centros de formação profissional: é o homem dos contentores e do tijolo, o gerente do “bricolage” ou o entendido em mil e um ofícios. Para outros, veste o fato do perito em desenvolvimento ou cooperação entre os povos: é um estratega do voluntariado internacional, uma espécie de guru de organizações sem fins lucrativos, perito em diálogo, advogado do planeta-terra, conhecedor dos desequilíbrios e das injustiças da “aldeia global”. O rol de atributos é uma lista sem fim de “etiquetas”, todas periféricas e, por vezes, afastadas do centro daquilo que é a vida missionária. Com FÁTIMA MISSIONÁRIA

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os seus gestos e palavras, o missionário favorece, muitas vezes, este tipo de leitura acerca da sua vida, correndo o risco de trair o coração vivo da sua identidade.

O “partir” do missionário

não se explica apenas pelo seu operar. Em muitos lugares do planeta, a vida missionária também é feita de visitas às comunidades cristãs dispersas na floresta ou na savana, de pre­sença e primeiro anúncio do Evangelho de Jesus, de

formação de catecúmenos e catequistas, de liturgia e sacramentos. É ainda cons­truí­

Missão é o sorriso do dia a dia dado a quem nunca experimentou a gratuidade do calor humano

Missionário da Consolata já conhece a Costa de Marfim desde 2007

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da­de caminhos de reconciliação entre grupos humanos desavindos, de testemunho da vida nova do Espírito, de encontro entre culturas e da novidade absoluta da pessoa de Jesus e do seu Reino.

Missão é tudo isto e muito

mais! É o sorriso do dia a dia dado a quem nunca experimentou a gratuidade do calor humano; é a carícia e o abraço a quem nunca conhecemos e que, talvez, nunca mais vejamos; é espalhar a semente da liberdade evangélica entre as escravidões da história; é a simplicidade aprendida e partilhada com os mais humildes. É abrir cada momento, cada encontro, cada gesto ao Amor que, um dia, se apoderou da vida do missionário e nunca mais a largou. É deixar que Deus, que habita no seu coração, possa amar, através da sua pessoa, quem quer que o missionário encontre. A sua vida é “prisioneira” do Amor de quem se deu para que todos encontrem alegria, luz e esperança. A vida missionária «ad gentes» é uma existência que se posiciona nos horizontes imensos do amor de Deus que quer chegar a todos. Os rostos da missão são tão numerosos e diversos quanto os contextos em que o missionário, no seu “vagabun­ dear missionário”, é chamado a tornar visível e concreto o amor de Deus. A missão “deriva da exigência profunda da vida em Deus”, no dizer do saudoso João Paulo II. Signi­ fica afirmar que a missão depende do deixar-se habitar pelo Deus missionário e peregrino por amor do homem.


Missionários da Consolata

Prémio atribuído

a Museu de Arte Sacra

Diretor Gonçalo Cardoso

enção honrosa na ca­tegoria de “Melhor serviço de extensão cultural” é o prémio atribuído ao museu dos Missionários da Consolata, Fátima, pela Associação Portuguesa de Museo­ logia. Este reconhecimento

“mostra que é um museu com grande nível”, explicou o diretor Gonçalo Cardoso. “Vivo, dinâmico e aberto à comunidade”, o museu promove atividades cultu­rais e tem parcerias com escolas em vários âmbitos. “É o que se pretende de um museu atual, aberto à comunidade”. O museu organiza visitas in­ terativas para grupos e escolas, adaptadas aos diferentes tipos de público e aos seus objetivos. “Os visitantes gostam muito da secção dos índios, gostam de saber para que é que servem os diferentes objetos expostos”. Por sua vez, os visitantes, à volta de 12 mil por ano, “deixam as suas opiniões e fazem sugestões”. Este prémio “aumenta a nossa responsabilidade”. Com o apoio da recém-criada Liga de Amigos do Museu, estão a ser agendadas atividades “para aproximar mais o museu da comunidade”.

Outra vez 29 de janeiro

Parabéns Allamano! Parabéns Consolata! Parabéns missionários e missionárias! Parabéns a todos! Este ano, o Instituto da Consolata anda embrulhado numa capicua, que se escreve com três números iguais. Completa 111 anos de vida. A 29 de janeiro, em 1901, o bispo de Turim, Agostinho Richelmi, assinou o decreto da sua fundação. É uma boa oportunidade para batermos palmas, darmos os parabéns e desejarmos ao Instituto as melhores felicidades. Após várias tentativas, José Allamano viu realizado o seu sonho de abrir um seminário para a formação de missionários. Quanto caminho andado! O Instituto da Consolata tornou-se adulto. Formou largas centenas de missionários: padres, irmãos, bispos e muitos leigos que seguem as pegadas e as diretivas do Beato Allamano. A pequenina semente lançada à terra, em Turim, germinou e hoje floresce em 28 países de quatro continentes. A próxima capicua só se verificará em 2123, ou seja, daqui a 111 anos. MC

Turim

Iniciamos uma rubrica nova: «Fio da história». São pequenos episódios da nossa história. Não olham a datas nem a personagens certas. É tudo por um fio texto MANUEL CARREIRA ilustração H. MOURATO

este mundo tudo tem um princípio; se vingar há de ter um meio. E se durar há de ter um fim. Foi isso que aconteceu com a Consolata. Ela começou a existir em Turim. Tinha e tem lá um rico santuário. Fica mesmo no centro da cidade. Turim é a terra dos automóveis da marca Fiat. À volta desta marca giram outras marcas que dão trabalho a muita gente. Por isso Turim é considerada uma cidade rica. Tem fama e tem proveito! Situa-se no norte de Itália e tem para aí uns dois milhões de habitantes. Os turinenses são gulosos e, por isso, a cidade tem muitas

pastelarias. Turim, além de ter estas boas qualidades no aspeto social e económico, é também muito católica. A dar-lhe pelo alto, tem mesmo vários santos de altar: José Cafasso, José Cottolengo, João Bosco, Maria Massarello e outros mais. Atrás deles e das suas obras giram centenas de padres, irmãos, irmãs e muitos estudantes em seminários, uni­ versidades e institutos católicos. Foi em Turim que estudaram os primeiros alunos portugueses que se preparavam para serem missionários da Consolata: o Pedro, o Marques e o Carreira. Mas, por agora, centremos a nossa atenção na Consolata e no Allamano.

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Da missão continental à missão universal

Em Aparecida, Brasil, a Igreja latino-americana refletiu sobre a sua missão no continente e convocou batizados, comunidades cristãs, paróquias e dioceses para um projeto continental de missão. Todos são desafiados a viver o espírito missionário, explica António Fernandes, à luz da sua experiência missionária de 22 anos, ligada ao continente americano texto ANTÓNIO FERNANDES foto ANA PAULA

missão nasce da cons­ ciência de que todo o cris­ tão e, consequentemente, as comunidades cristãs são discípulas e missioná­ rias. Não se pode ser missionário, sem a consciência e a convicção de que Jesus é o mestre e formador. Ser discípulo é as­ sumir a atitude de seguimento e escuta, de discernimento pessoal e comunitário da vontade de Deus. Implica a desco­ berta da vocação e do compromisso de anunciar Jesus e o seu Reino. A descoberta de que somos discípulos e missionários é um imperativo para ir mais além do nosso pequeno mundo e dos nossos problemas. É um convite es­

sencial para que a nossa fé seja vivida to­ talmente nas situações que clamam pela presença de Deus. É um constante apelo a avançarmos sem medo ao encontro das situações que necessitam de ser transformadas através do amor incon­ dicional de Deus por todo o ser humano.

Valorizar, resgatar e iluminar,

a partir da Palavra de Deus e da sua presença consoladora, a vida de povos que há séculos habitam as terras ame­ ríndias é outro compromisso assumi­ do em Aparecida. A sabedoria e a ca­ pacidade de resistência das comunida­ des indígenas são condições essenciais para que, através do anúncio do Evan­

gelho, a Palavra de Deus possa pene­ trar nos seus anseios mais profundos. A fuga constante das pessoas do campo para as cidades, em busca de melhores condições de vida, para poderem vi­ ver com dignidade a sua história, exige das comunidades cristãs e da Igreja um reinventar da sua ação pastoral missio­ nária. Nas grandes metrópoles em con­ tínuo crescimento, é urgente passar de uma estrutura pastoral construída so­ bre o modelo rural para uma estrutura que esteja atenta e acompanhe as novas rea­lidades humanas, socioculturais e as novas relações que se estabelecem nela, e se transformam em tema de reflexão e ação das comunidades cristãs.

Passar à outra margem e lançar as redes no mar fundo

Bispo Roque Paloschi inaugura igreja para índios de Roraima FÁTIMA MISSIONÁRIA

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A escuta e o discernimento da Palavra de Deus leva os cristãos e comunidades a comprometerem-se com os projetos dos mais desprotegidos. É necessário o esforço de todos para lançar as redes em mares mais profundos. Exige-se coragem para ir mais além dos limites e espaços socioculturais e geo­gráficos. À luz da sua missão continental, a Igreja ameríndia precisa de repensar o seu compromisso com os outros continentes e abrir-se mais à ação evangelizadora “Ad Gentes”. Remar sem medo e lançar as redes é o grande desafio que todo o cristão e comunidade do continente ameríndio têm diante de si, para viver coerentemente o seu batismo. A Igreja universal necessita desta Igreja particular, que anda à procura da sua missão e do seu empenho, para que o Evangelho e a sua Boa Notícia sejam credíveis.


Cimeira de Durban procura novos consensos

O clima esperará pela diplomacia? texto CARLOS CAMPONEZ foto LUSA

Depois de 15 dias de reuniões, os 195 países­que participaram na cimeira de Durban, África do Sul, comprometeram-se, a 11 de dezembro, em estabelecer um roteiro com vista a conseguir, até 2015, um novo tratado que vincule a comunidade internacional com a redução das emissões de gases com efeito de estufa. Mas a cimeira esconde uma amea­ ça séria de falhanço dos objetivos definidos em Quioto. Em tempos de crise, o clima vai ter de esperar pela diplomacia. No final destas cimeiras, habitualmente, as opiniões dividem-se entre o sucesso e a desilusão. Enquanto as diplomacias sublinhavam o compromisso conseguido, as organizações não-governamentais acusavam o caráter abstrato do acordo. Com efeito, este incide apenas sobre um compromisso, cujos objetivos só serão definidos até 2015, concedendo-se um período de mais cinco anos para a aprovação do tratado por parte dos estados.

Canadá desvincula-se de Quioto

Entretanto, o acordo que vigorará sobre esta matéria será o de Quioto, assinado em 2005 e que deveria expirar em 2012. Para evitar um vazio sobre esta matéria, a cimeira de Durban decidiu prolongá-lo até 2017. Mas, dois dias após o compromisso, o Canadá assumiu a sua incapaci­ dade em cumprir os objetivos de redução das emissões de carbono em seis por cento. Estima-se que as suas emissões aumentarão 17 por cento, o que obrigaria o governo de Otava a pagar uma multa de cerca de 13,5 biliões de dólares. Face a esta posição, a questão que se coloca é a de saber qual vai ser a atitude de países como o Japão e a Austrália, já que os Estados Unidos nunca assinaram o protocolo de Quioto. A seguir-se por este caminho, tal atitude pode representar

Christiana Figueres (E), secretária, e Maite Nkoana-Mashabane, presidente (D) da cimeira

deitar fora os objetivos de Quioto e dar uma machadada final na credibilidade de futuros acordos sobre esta matéria. Deste modo, também de nada valerá a iniciativa de Durban de vincular toda a comunidade internacional, incluindo os países em vias de desenvolvimento, num compromisso de redução das suas emissões de carbono para a atmosfera.

O clima não enviará negociador

Com efeito, a China – considerada o maior produtor de gases com efeito de estufa – e a Índia passarão a estar vinculadas num futuro acordo sobre esta matéria. Mas se os países se puderem desvincular dos compromissos, como agora o tenta fazer o Canadá, tudo nesta matéria não passará de boas intenções. A redução das emissões de carbono pretende evitar que a temperatura mundial

...quando chegar a fatura climática, não haverá negociador nem diplomacia que consigam minorar os seus efeitos suba, até ao final do século, mais dois graus centígrados, limite para além do qual se prevê que o planeta poderá sofrer alterações climatéricas catastróficas. Se é verdade que em tempos de crise as preocupações ambientais tendem a ser secundarizadas, não é menos verdade que, quando chegar a fatura climática, não haverá negociador nem diplomacia que consigam minorar os seus efeitos. JANEIRO 2012

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Missionários amparam deslocados na Colômbia e Venezuela

Bairros unidos

pela miséria Separados por mais de mil quilómetros, os bairros Caracoli, na Colômbia, e Carapita, na Venezuela, têm quase tudo em comum. Barracas amontoadas, falta de infra-estruturas básicas e história de vida dramáticas. A criminalidade, quase sempre violenta, mantém afastadas as autoridades. Mas os missionários da Consolata insistem em manter-se presentes, na esperança de minimizar o sofrimento a quem já se habituou a nada ter texto e fotos FRANCISCO PEDRO

ulderi Chavez, 36 anos, mulher franzina, de rugas precoces e olhar perdido no vazio da incerteza, abre-nos as portas da sua barraca, cons­truí­da à base de chapas de zinco, no problemático bairro de Caracoli, na periferia de Bogotá, Colômbia. Com sete filhos, de FÁTIMA MISSIONÁRIA

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idades entre os dois e os 15 anos, cuida deles sozinha e carrega uma história de vida dramática. O marido morreu com um cancro e deixou-a a braços com cinco filhos. Com medo que a guerrilha lhe levasse os descendentes varões, resolveu fugir para Caracoli, onde já viviam alguns familiares. Conseguiu emprego

a fazer umas horas como empregada de limpeza. Conheceu um novo marido (de quem teve mais dois filhos) e foi construindo a sua própria ‘casa’. Apesar das condições extremas de pobreza, Sulderi sentia-se feliz. Mas a felicidade foi sol de pouca dura. Perdeu o trabalho e o segundo marido, que ajudava no sustento da


casa como operador de máquinas, acabou assassinado por mais uma das investidas de grupos guerrilheiros. “Agora, o pouco dinheiro que consigo arranjar é para comer. E muitas vezes falta”, lamenta, envergonhada. No amontoado de construções em chapa metálica e tijolo despido de cimento, erguidas de forma anárquica no morro de Caracoli, ao estilo das favelas brasileiras, não faltam narrativas de passados trágicos e comoventes como o de Sueli. Ou de outros, bem mais arrepiantes. “Temos o caso de uma menina de 12 anos, que tem sido violada pelo avô. E são frequentes as situações em que os padrastos abusam das enteadas, à frente da família, pois vivem todos juntos: pais, filhos, tios avós e crianças”, conta a irmã Nora Peres, de 27 anos, professora no Centro de Acolhimento e Formação, instituição criada e dinamizada pelos Missionários da Consolata, em Caracoli.

Luta pelo território

Servido por acessos de terra batida, que se transformam em lamaçais à primeira queda de chuva, o bairro assiste todos os dias a uma intensa luta pelo domínio do território. A proximidade da capital atrai elementos das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e de grupos paramilitares de extrema-direita, criados como braços armados dos grandes proprietários e dos barões da droga para lutarem contra as ações das guerrilhas de esquerda. Há muita droga, álcool, agressões e assassinatos. As crianças assistem a tudo na primeira fila e tornam-se atores principais neste palco de criminalidade, sonhando com o dia em que irão vestir uma farda, conseguir uma arma ou ganhar espaço num dos muitos bandos que aterrorizam a população. Por isso, e ao contrário do que acontece numa escola normal, neste centro, as preocupações vão muito para além da qualidade do ensino. “As crianças não têm regras e um dos nossos objetivos é baixar-lhes o nível de agressividade”, adianta a religiosa, da congregação de Irmãs Teresianas. As tesouras e as navalhas são proibidas no espaço escolar e nem assim se evitam os conflitos. “Uma vez, estava em plena aula, e um aluno es-

A maioria dos habitantes instalou-se no morro para fugir à miséria do interior do país petou o lápis no ombro do companheiro, dizendo que o matava”, recorda Nora Peres. Os missionários asseguram, pelo menos, duas refeições diárias a perto de duas dezenas de crianças e adolescentes.

Bairro da Carapita

A mais de mil quilómetros dali, no bairro de Carapita, nos arredores da capital venezuelana, não são conhecidos grupos de guerrilheiros organizados, mas os problemas são idênticos. “Ouvem-se tiros a toda a hora e a violência é a ordem do dia”, explica o padre Peter Makau. A maioria dos habitantes instalou-se no morro para fugir à miséria do interior do país. A parte restante veio de países como a Colômbia, Equador, Haiti ou Peru. Esta mescla de nacionalidades serve de fermento à insegurança. “Há bandos armados que controlam as suas zonas e é difícil encontrar uma família a quem não tenham morto alguém”,

adianta o sacerdote queniano, enquanto conduz o velho e pesado “Jeep” pelas ruas apertadas e íngremes de Carapita. Instalada no bairro desde 1999, a missão da Consolata está preparada para garantir o trabalho espiritual de uma paróquia, apoiar os doentes, dar formação cristã e evangelizar. Mas o padre Peter, coadjuvado pelos colegas Manolo Garcia e Oscar Aguilar, sabe que tem de ir muito mais além. “Além da insegurança, há muitos problemas por causa do álcool e da droga. Não existem serviços básicos, há muito lixo acumulado e a água potável só chega uma vez por mês”, diz o missionário, lamentando o facto de nem sempre conseguir responder às solicitações por falta de meios. A nossa breve conversa, na acanhada e austera sala de estar da missão, é interrompida várias vezes pelo som estridente da campainha. São pessoas que procuram auxílio alimentar. A embalagem de massa, arroz ou farinha, entregue pelos missionários, é, por vezes, o único alimento que entra na casa de muitas dessas famílias. Apesar dos quilómetros que os separam, os dois bairros já se habituaram a viver um dia a seguir ao outro. O medo pressente-se nas ruas, a fome adivinha-se nos corpos débeis, o crime insinua-se ao virar de cada esquina. Mas ainda se respira esperança. Como diria Richard Bach, “não há longe nem distância”. Até mesmo na fé.

Em Caracoli, "vivem todos juntos: pais,filhos, tios, crianças", conta a irmã Nora Peres JANEIRO 2012

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O desafio da Rússia aos planos de Putin

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A Rússia Unida voltou a ganhar as legislativas, mas com bastante menos votos e sob muitas suspeitas de fraude. O primeiro-ministro Vladimir Putin mantém, porém, os seus planos para voltar à presidência até 2024 e tenta acalmar os protestos de rua. A seu favor, joga ter devolvido prosperidade e dignidade ao país. Mas passados 20 anos sobre o fim do regime comunista, o estilo autoritário não agrada a todos e a campanha para as presidenciais de 2012 já começou texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* fotos LUSA

hegaram a ser gravadas mais de 600 perguntas por minuto e, depois de selecionadas as melhores (ou mais adequadas), Vladimir Putin passou horas a responder. Há quem veja neste exercício, cujo ponto alto ocorreu a 15 de dezembro, o primeiro ato de campanha do atual primeiro-ministro russo a pensar já nas presidenciais de 2012. Mas pode também ser entendido como uma forma de esvaziar a onda de protestos contra o regime que se seguiu às legislativas do dia 4. Para regressar ao cargo de chefe do Estado, substituindo o seu aliado Dmitri Medvedev, Putin tem de defender a sua popularidade e ir além dos 49 por cento de votos que o seu partido Rússia Unida

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obteve há semanas. Um resultado que mesmo assim oferece uma confortável maioria parlamentar aos fiéis de Putin, por todos considerado o verdadeiro homem forte da Rússia, situação que dura desde esse 31 de dezembro de 1999 em que de surpresa Boris Ieltsin lhe cedeu a presidência. Contra Putin joga algum desgaste da sua imagem, e também a facilidade com que planeia trocar de cargo com o presidente Medvedev, uma criação política sua. E se

Os protestos começaram logo após a divulgação dos resultados, e houve confrontos com a polícia e detenções os 49 por cento de votos nas legislativas oferecem mesmo assim 238 deputados, em 450, ao Rússia Unida, a oposição acusa o poder de ter estimulado a frau-

Oceano Ártico Noruega Suécia a di ân l n Fi

Ucrânia

Sampetersburgo Moscovo

Mar Cáspio

ussa R o ã ç a r Fede China

Cazaquistão Mongólia

O maior país do mundo Com a desagregação da União Soviética em 1991, Moscovo passou a governar menos um quinto de território. Mas mesmo assim, a Rússia, principal das antigas 15 repúblicas soviéticas, é de longe o maior país do mundo. Estendendo-se pela Europa e Ásia, de Oeste para Leste, a Federação Russa vai da Carélia, que faz fronteira com a Finlândia, até às ilhas Curilhas, FÁTIMA MISSIONÁRIA

vizinhas do Japão. E, no sentido Norte-Sul, desde o Ártico até ao Cáucaso. É um imenso território, despovoado na zona da Sibéria, que conta ainda com o enclave de Kalininegrado, na costa do Báltico. NOME OFICIAL Federação Russa (89 entidades). POPULAÇÃO 140 milhões de habitantes. TERRITÓRIO 17 milhões de quilómetros qua­dra­dos

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(distribuídos por Europa e Ásia). CAPITAL Moscovo (Sam­­petersburgo, antiga capital dos czares, é a outra grande cidade). LÍNGUA Russo (existem dezenas de línguas minoritárias, sobretudo do Cáucaso e da Sibéria). RELIGIÃO Cristianismo or­ todoxo (islão é também influente em algumas regiões). ESPERANÇA MÉDIA DE VIDA

Homens 62 anos, mulheres 74. MORTALIDADE INFANTIL 12 por mil (em Portugal é 4 por mil). RENDIMENTO MÉDIO ANUAL Equivalente a 10 mil dólares. MOEDA Rublo. EXPORTAÇÕES Petróleo (primeiro produtor mundial, com 10,1 milhões. de barris diários), gás natural (segundo produtor mundial), madeira, metais, químicos e equipamento militar.

de generalizada e inflacionado a votação do partido governamental. Segundo os resultados oficiais, a segunda força mais votada foi o Partido Comunista, com 19 por cento, seguido do Rússia Justa, uma formação de centro-esquerda que obteve 13 por cento, e em quarto lugar ficou o Partido Liberal-Democrata, nacionalista, com 12 por cento. As forças mais liberais foram esmagadas nas urnas, mas estão agora na primeira linha da contestação à veracidade das legislativas. E se começaram sozinhas, no primeiro sábado a seguir às eleições contavam já com o apoio nos protestos de rua dos militantes do Partido Comunista, uma força não desprezível nesta Rússia que assinalou, no dia de Natal, 20 anos de fim oficial da União Soviética. Os protestos começaram logo após a divulgação dos resultados, e houve confrontos com a polícia e detenções. Mas o mais impressionante foi a manifestação de 10 de dezembro em Moscovo. Em vez dos habituais 500 ou 1000 críticos do regime a gritar palavras de ordem, desta vez saíram à rua entre 80 e 100 mil pessoas (25 mil, segundo a polícia). Não só foi a maior manifestação antigovernamental em duas décadas de democracia, como teve acompanhamento em cidades um pouco por toda a Rússia.

Argumentos a favor

Putin, um ex-espião do KGB, continua, porém, a ter fortes argumentos a seu favor: durante os seus dois mandatos presidenciais (2000-2008), a riqueza da Rússia duplicou e o país voltou a entrar no quadro das dez grandes potências económicas. E enquanto os preços do petróleo e do gás natural se mantiverem em alta, a economia continuará a vir em socorro dos governantes. A par do Brasil, da Índia e da China, a Rússia é um dos BRIC (o R é de Rússia), as quatro gran­ des potências emergentes do planeta. A favor de Putin joga também o contro-


A polícia russa prendeu várias centenas de manifestantes, em Moscovo e Sampetersburgo, logo após as eleições legislativas de 4 de dezembro, em que Putin obteve 49 por cento dos votos. Embora acusados de reunião ilegal, os manifestantes contestavam a suposta fraude dos resultados eleitorais

lo que impôs aos oligarcas, figuras que enriqueceram com as privatizações dos tempos de Ieltsin. Acossados pelo Kremlin, alguns exilaram-se, outros estão presos, como é o caso de Mikhail Khodorkovsky. O ex-patrão do grupo petrolífero Yukus foi condenado por fraude fiscal, mas suspeita-se que a verdadeira razão porque está numa prisão siberiana é ter financiado a oposição russa.

Diferente visão do mundo

Putin, aliado ao seu delfim Medvedev, também recuperou muito do orgulho nacional russo, seja derrotando os se-

paratistas chechenos, seja humilhando a Geórgia através do reconhecimento da independência dos ossetas do Sul, povo do Cáucaso pró-Moscovo. Em pa-

Para voltar a ser uma superpotência, a Rússia tem que contrariar o declínio populacional

ralelo, o líder russo promoveu manobras militares no Atlântico e uma visita da frota nacional as Caraíbas, exibição de força nunca vista desde o fim da União Soviética. Aliás, o apego de Putin a algumas das memórias dos tempos comunistas notou-se nas recentes acusações aos Estados Unidos de estarem a promover a contestação às eleições russas. Um estilo a lembrar a Guerra-fria, quando Moscovo acusava o rival de todos os males que afetavam o país. Mas as maiores tensões com Washington têm a ver com a diferente visão do mundo: por exemplo, se

A curiosa regra dos calvos e dos cabeludos Se Putin ganhar as presidenciais do próximo ano, a política russa continuará a obedecer a uma curiosa regra: a alternância no poder entre líderes cabeludos (como o atual presidente Medvedev) e líderes calvos (como Putin, que antecedeu Medvedev). E é uma coincidência tanto mais fabulosa porque se afirma mais forte que qualquer mudança de regime – existiu no czarismo, manteve-se no comunismo e persiste agora na Rússia pós-soviética.

O último czar, Nicolau II, era cabeludo, mas o seu pai fora careca. Derrubado em 1917, e depois executado pelos revolucionários comunistas, Nicolau II foi substituído como homem forte por um Lenine célebre pela sua cabeça lisa. Mas aquando da morte do fundador da União Soviética, em 1924, o Kremlin passou logo para as mãos de Estaline, conhecido pelos bigodes mas também pessoa de farta melena. Quando ao fim de três décadas se acabou

a era estalinista, a União Soviética escolheu como líder Krutchev, de crânio tão desértico que até brilhava. Quem não se recorda do dia em que, numa ida a Nova Iorque, se irritou e bateu com o sapato na tribuna da ONU. Depois veio Brejnev, cabeludo, e por fim Gorbachev, cuja calvície deixava ver o imenso sinal a que os caricaturistas davam a forma do território soviético. (Entre Brejnev e Gorbachev houve duas figuras efémeras que não

destroem a chamada teoria capilar da liderança russa). Com o fim da União Sovié­ tica em finais de 1991, e o ressurgimento da Rússia, Gorbachev cedeu o protagonismo a Ieltsin que, adivinhe-se, era cabeludo. Depois veio Putin, a seguir Medvedev e agora talvez Putin de novo. Se os planos da dupla Medvedev-Putin se cumprirem, a regra sobreviverá de certeza: Putin fica no Kremlin até 2024, Medvedev candidata-se a sucessor.

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A dupla Putin-Med

Túmulo de Estaline na Praça Vermelha

a Rússia esteve com o Ocidente no caso da Líbia, agora recusa nas Nações Unidas qualquer ação contra a Síria, o seu grande aliado no Médio Oriente e país que alberga uma base naval russa. Porém, para voltar a ser uma superpotência, a Rússia tem que contrariar o declínio populacional. A população é hoje de oito milhões inferior a 1991. As causas são várias, desde a mortalidade precoce masculina por exagero alcoólico, à baixa fertilidade feminina, com o número de abortos a disparar. Ambas as situações têm a ver com a falta de horizontes dos primeiros tempos do pós-comunismo e daí a importância do dinamismo económico. Nos planos de Putin está a fazer-se eleger presidente até 2024 (os mandatos passaram a ser de seis anos). O seu sonho é recuperar o estatuto do passado, seja da época dourada dos czares, seja do tempo soviético. Mas para isso, na democracia musculada que impôs, tem de conquistar o povo. *jornalista do DN FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Agora Dmitri Medvedev é presidente e Vladimir Putin primeiro-ministro, mas os dois homens planeiam trocar de cargos já em 2012. E é evidente que o mais velho deles, Putin de 59 anos, tem a posição preponderante na parceria política que ambos construíram. Medvedev é 13 anos mais novo. Antigo agente do KGB, Putin destacou-se na década de 1990 na administração de Sampetersburgo e foi chamado a Moscovo em 1999 pelo então presidente Boris Ieltsin para chefiar o Governo russo. Já nessa época Medvedev era um dos colaboradores de confiança do ex-espião. De primeiro-ministro a presidente foi um instante, com Ieltsin a ceder o lugar a Putin, que se fez eleger chefe do Estado em 2000. Para marcar a diferença com o seu antecessor, Putin decidiu usar de mão-de-ferro contra quem quer que ousasse desafiar Moscovo e começou logo por declarar nova guerra contra os independentistas chechenos, hoje quase derrotados. Ao mesmo tempo, recuperou alguns velhos ícones soviéticos, como o hino, apesar de ter mudado a letra que glorificava o comunismo. E avisou os

O primeiro-ministro Vladimir Putin e o presidente Dmitry Medvedev fazem o sinal da cruz, à entrada para a catedral Voznesensky, em Novocherkassk, aquando da sua visita à região de Rostov-on-Don, onde os dois políticos tomaram parte nas consultas locais sobre os programas de educação. Ambos planeiam trocar os cargos já em 2012

antigos membros da União Soviética que não toleraria afrontas, promessa cumprida em 2008 quando a Rússia invadiu uma Geórgia que ambicionava aproximar-se da NATO. A exceção foi a entrada dos Estados bálticos na Aliança Atlântica, mas esses três países sempre foram um caso à parte e a política moscovita preocupa-se apenas com a proteção da minoria russa. Reeleito presidente em 2004 com 70 por cento dos votos, Putin aproveitou a subida da cotação de petróleo e do gás natural para dinamizar a economia e cativar o apoio de boa parte da população. Ao mesmo tempo, fazia-se fotografar a praticar judo, a caçar ou a andar a cavalo para exibir a sua boa

A Medvedev caberá ser primeiro-ministro à espera da sua oportunidade


edvedev forma física como contraponto ao Ieltsin dos últimos anos, decadente e adicto ao álcool, ou aos antigos dirigentes soviéticos, em regra já muito velhos. Decidido a respeitar a constituição, que impõe o limite de dois mandatos presidenciais, Putin organizou uma grande força política que batizou de Rússia Unida e designou Medvedev como candidato à sucessão. Assim, nas presidenciais de 2008 o delfim tornou-se presidente, enquanto após a vasta vitória do partido Rússia Unida nas legislativas Putin tomou posse como primeiro-ministro. A cooperação entre ambos foi exemplar e nunca se notaram focos de tensão, prova que o mais novo estava a seguir o decano. Formado em Direito, Medvedev coordenou a campanha presidencial de Putin em 2000, foi vice-primeiro-ministro com a pasta dos Assuntos Sociais e presidente da Gazprom, o grande grupo energético russo. Tem fama de ser mais liberal que Putin, mas no último congresso do Rússia Unida aceitou sem pestanejar que não seria candidato presidencial em 2012. A constituição foi revista para alargar o mandato de presidente de quatro para

A constituição foi revista para alargar o mandato de presidente de quatro para seis anos e Putin ambiciona assim fazer-se eleger e ficar no poder até 2024, quando teria já 72 anos seis anos e Putin ambiciona assim fazer-se eleger e ficar no poder até 2024, quando teria já 72 anos. A Medvedev caberá ser primeiro-ministro à espera da sua oportunidade. Em 2024, com 59 anos, teria finalmente a sua hipótese de ser o número um inquestionável, acreditando que Putin se remeteria a uma reforma tranquila, dedicando-se à caça e à pesca.

As cautelas da TV estatal Foi preciso passar seis dias para que os canais televisivos controlados pelo poder russo começassem a noticiar com destaque a contestação aos resultados eleitorais. Apesar de as legislativas terem sido realizadas no domingo, 4 de dezembro, só no sábado, dia 10, o popular Pervyi Kanal abriu o seu noticiário da noite com os protestos contra a dimensão da vitória da Rússia Unida, o partido do presidente Dmitri Medvedev e do primeiro-ministro Vladimir Putin. E foi também nesse momento que a cadeia NTV, controlada pela empresa estatal Gazprom, mostrou imagens da manifestação em Moscovo a denunciar possíveis fraudes eleitorais. Durante a semana, os media pró-Kremlin, sobretudo a TV estatal e outras do género, quase omitiram as detenções de manifestantes, assim como a condenação a 15 dias de prisão do blogger Alexei Navalny, famoso pelas suas arremetidas contra a corrupção. Mas os 80 a 100 mil manifestantes que se juntaram de repente em Moscovo tornaram obrigatória a notícia. E até houve imagens de Boris Nemtsov, um líder oposicionista que há anos não tinha direito a ser mostrado nas televisões sob controlo do Estado. Terá sido a amplitude da mobilização, e o acompanhamento da ação dos contestatários na internet, que levou as autoridades a alterar o seu habitual padrão de silenciamento dos protestos contra o Governo. Aliás, o site noticioso gazeta.ru publicou ter sido o próprio Medvedev a dar ordens às televisões para cobrirem as manifestações (em Moscovo e dezenas de outras cidades). E prova evidente que o Kremlin e seus aliados querem evitar mais polémicas sobre a liberdade e a democracia no país, assim que passaram as imagens dos manifestantes, a conta twitter da NTV lançava: “Ainda há críticas à NTV, depois das notícias difundidas ao início da noite?”.

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A festa dos Reis Olá, pequenos missionários! Como foi o Natal? Feliz! Não é verdade!? Com Jesus a nascer nos vossos corações e, com a simplicidade, para estar com Ele sempre. O tempo de Natal termina com a Epifania, isto é, com a festa dos Reis Magos. Eles mostram que o nosso amigo Jesus quer chegar a casa de todos os povos, a todas as nações, aos pobres e aos ricos texto ÂNGELA E RUI ilustrações RICARDO NETO

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Os Reis Magos Belchior (ou Melchior) é o representante da raça branca

Epifania

Epifania é uma palavra grega, que significa “manifestação”. Para os cristãos, é uma manifestação extraordinária de Deus. Ou seja, Jesus nasce e Aquele que é, ao mesmo tempo, Homem e Deus manifesta-se a nós. Tal como os pastores e como os Reis Magos, somos chamados a ir ao seu encontro e deixar-nos modificar pela sua epifania. Com a festa da Epifania fica concluído o tempo do Natal. Assim, conhecendo melhor Jesus, não deixem de ir à missa, com os vossos pais ou coleguinhas da catequese, para celebrar a manifestação de Jesus com alegria.

(europeia). Gaspar representa a raça amarela (asiática) e, por fim, Baltasar representa todos os de raça negra (africana). Nos Reis Magos estão representadas todas as raças bíblicas (e as únicas conhecidas na altura: os semitas, os jafetitas e camitas). Pode então dizer-se que a adoração dos Reis Magos ao Menino Jesus simboliza a homenagem de todos os homens da terra ao Rei dos reis. Até os representantes dos tronos se curvam diante de Cristo. Os senhores da terra reconhecem a sua realeza divina. Ao chegarem diante do Menino Jesus, os Reis Magos ofereceram-lhe presentes: ouro, oferecido por Belchior, representa a sua nobreza; incenso, oferecido por Gaspar, representa a divindade de Jesus; mirra, oferecida por Baltasar. A mirra é uma erva amarga, que simboliza o sofrimento de Cristo na terra para salvar os homens. Também simboliza Jesus como homem.

Sabias que

A festa dos Reis ou Epifania foi escolhida para ser o Dia da Infância Missionária, uma das Obras Missionárias Pontifícias. As crianças têm o dom de irradiar a fé sem falsidade e com coragem. São capazes de falar de Jesus aos adultos, para eles O conhecerem melhor. As crianças são especiais. São pequenos missionários e pequenas missionárias que sabem falar de Jesus na família, na escola e na catequese. Com a sua candura e alegria, as crianças mostram aos adultos como encontrar o amor de Deus que brilha no seu rosto e se irradia ao seu redor.

O meu momento de oração Nasceste agora. Tão pequenino no colo da tua mãe, dormindo, és o nosso Rei; o nosso Salvador; o nosso melhor amigo; o nosso irmão. Chegaste ao meu coração e és um de nós! Concede-me, a partir de hoje, a graça de fazer os outros felizes. Que o teu mais sincero presépio seja o meu coração. Um coração que não magoa, não vira as costas à minha família, aos meus amigos, aos meus professores e aos meus catequistas.

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Para que vivemos Durante uns dias de férias na minha terra natal, em Metán, no norte de Argentina, tive um encontro com jovens finalistas do 12º ano. São jovens que se preparam para partir para outras cidades, onde iniciarão os estudos universitários texto LUÍS MAURÍCIO foto ANA PAULA

pesar de grandes sonhos em relação ao futuro profissional, são naturais as inquietações dos jovens, meus conterrâneos, envolvidas em dúvidas e incertezas: “Qual o destino do homem?”. A maior parte das perguntas andaram à volta deste tema, que continua a provocar grande interesse, sobretudo entre quem procura a Verdade. Muitos jovens – e não só – pensam que a mesma se constrói sobre as ba­ses da casualidade. Se assim fosse, não valeria a pena sonhar, construir, lutar por uma causa, amar para sempre. Imaginar a vida guiada ou de­terminada pela fatalidade, seria vi­ver constantemente a questionar-se sobre “o que é que eu espero da vida?”. Para quem acredita em Deus a pergunta segue um caminho oposto e uma cor diferente: “O que é que a vida espera de mim?”. Por outras palavras, FÁTIMA MISSIONÁRIA

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qual é o sentido da minha existência neste mundo? Qual é a minha missão que tenho de cumprir? É impossível sulcar os caminhos da vida sem responder a estas perguntas básicas. A nossa vida não pode ficar à mercê

da sorte. Nascemos para algo e esse algo tem um nome e um significado.

Vazio existencial

A partir da minha experiência pessoal, adverti os jovens que a procura de res-

Chave para descobrir o A responsabilidade de “saber escolher” é o grande desafio para quem quer descobrir o sentido da sua vida. Homens e mulheres grandes da história provam com a sua vida que nenhuma circunstância, por mais grave que seja, poderá anular totalmente a “oportunidade” de escolher. Há sempre um mínimo de margem de liber-

dade, onde podemos pegar em mãos e controlar as rédeas da nossa vida. Após a dura experiência de prisioneiro num campo de concentração nazi, o grande psicólogo Victor Frankl testemunhou que, com o mínimo de margem de liberdade, o homem pode conservar um vestígio de liberdade espiritual e de independência mental. Essa liberdade


Quem sou eu, para onde vou, como chegar, o que há mais além, são as perguntas que muitas vezes causam o sentimento absurdo do vazio postas sobre o sentido da própria vida nem sempre é fácil. Cu­rio­samente, quem busca respostas sobre “o sentido” da vida, experimenta uma primeira sensação íntima e profunda do “sem sentido”. Quem sou eu, para onde vou, como che-

gar, o que há mais além, são perguntas que muitas vezes causam o sentimento absurdo de vazio. Na arte de escutar, que desenvolvi no exercício do meu sacerdócio, tenho encontrado uma imensa quantidade de pessoas que andam an-

sentido mantém-se nas mais terríveis situações de tensão psíquica e física. É a “liberdade espiritual” que ninguém nos pode arrebatar. Ela ajuda-nos a encontrar o sentido e o significado da nossa existência neste mundo. Para nós cristãos, a liberdade espiritual fundamenta-se e apoia-se na providência. Não tem nada a ver com a boa ou má sorte. A provi-

dência é a intervenção de Deus sobre a história e esta intervenção torna-se ­visível, na medida em que aprendemos a discernir a vontade do Infinito na nossa pequena e finita história. Ler com o coração e na liberdade do espírito os sinais dos tempos é a chave para navegar na vida com um sentido claro e concreto, rumo a um porto seguro.

gustiadas e deprimidas, sem respostas para essas perguntas aparentemente básicas. Tenho dado conta que uma das causas que dá origem a esse triste sentimento é a falta de consenso sobre os valores, que dão solidez à vida. O fenómeno da perda de valores vem a ser, já há muito tempo, fortemente influenciado por uma grande diversidade de valores e antivalores que uma sociedade cada vez mais pluricultural propõe. Outra causa que desestabiliza o chão do equilíbrio pessoal é a forte rejeição da tradição e da religião. Os antropólogos confirmam que os mitos e crenças dos homens primitivos permitiam-lhes interpretar as desgraças e as graças da vida, conferindo-lhes sentido. Acreditar num ser infinito dá sentido aos acontecimentos da vida e gera forças para suportar os sofrimentos, sem afundar-se no desespero e cair no vazio.

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Glória a Deus e paz na terra “O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz”. É a oração litúrgica que brota do coração da Igreja e dos nossos lábios no primeiro dia do ano. Reina a paz onde reina o Senhor. Reina a paz onde as pessoas são capazes de dialogar, de se aceitar e respeitar mutuamente. Reina a paz onde as pessoas são capazes de vencer o mal com o bem

mas não menos mortíferas, o medo do futuro, a exploração e a desconfiança entre as nações abrem sulcos muito profundos, gerando, cada vez mais, desequilíbrios. Não é só o fosso, cada vez mais acentuado na distribuição dos rendimentos, que existe em Portugal. É também o fosso entre as nações europeias: de um lado, os donos dos mercados com excedentes escan­dalosos e, do outro, países à procura de capital com juros inaceitáveis. A paz surgirá unicamente

eixo-vos a minha paz”. É a declaração preciosa de Je­ sus: um testamento já aberto, ainda não totalmente realizado. A paz assenta na fraternidade e na solidariedade entre as nações. A situa­ção do nosso mundo e da Europa, em particular, é um sinal claro de que ainda estamos longe de a alcançar. A guerra dos mercados, com armas invisíveis,

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“O que é a paz?, pergun-

tou um dia um bispo italiano que dedicou toda a sua vida a atenuar o fosso entre ricos e pobres, entre povos do norte e povos do sul do mundo. “É o convívio das diferenças. Não há outra definição mais bela, porque fomos buscá-la ao coração da Santíssima Trindade”, responde o bispo. “A paz não é a simples destruição das armas. Nem tão pouco a equitativa distribuição do

...[A paz]...“É o convívio das diferenças”

texto DARCI VILARINHO foto ANA PAULA

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na justiça, no entendimento mútuo e na solidariedade.

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pão por todos os comensais da terra. Paz é comermos juntos à mesma mesa o nosso pão. A Santíssima Trindade é a mesa prometida, na qual um dia teremos a felicidade de nos sentar, contanto que sobre a terra nos treinemos, desde já, em estar juntos uns com os outros à volta da mesma mesa da vida”.

Como alternativa à guer-

ra global, temos de mirar ao diá­logo e ao respeito pelas diferenças. Sentimos a necessidade de trabalhar, com convicção, por um mundo mais interdependente, que vai muito para além do mundo globalizado. A globalização centra-se nos mercados financeiros, ao passo que a interdependência põe em relação as pes­ soas com as suas necessidades e com os seus direitos, acentuando o apoio, a tolerância, o diálogo e o respeito recíproco. São os caminhos do Evangelho, na procura da fraternidade universal. No âmbito do diálogo entre as religiões, no âmbito da economia e da política, a fraternidade pode tornar-se motor de processos positivos – que alimentam a tensão e a aspiração à unidade. São valores que pulsam no coração de cada pessoa, de cada grupo social e de cada povo. Que Deus ilumine os nossos passos e nos conceda a sua paz. Que fale aos corações dos responsáveis pela sorte dos povos e sugira soluções novas, e espaços de diálogo e solidariedade entre as pessoas­e entre os povos.


A palavra faz-se missão EM JANEIRO Santa Maria Mãe de Deus Num 6, 22-27; Gal 4, 4-7; Lc 2, 16-21 BOM ANO! Começa bem o teu novo ano! Com Maria Rainha da Paz e com Cristo, construtor da nossa unidade. Inicia-o com a paz no coração. É meio caminho andado para a construíres à tua volta. Programa bem todos os teus dias para que sejam úteis não só para ti mas para todos os que te rodeiam. Difunde os valores da fraternidade e da paz e Deus te abençoará. Em todo este ano mostra-nos, Senhor, o teu rosto e seremos salvos! Epifania do Senhor Is 60, 1-6; Ef 3, 2-6; Mt 2, 1-12 UM DEUS PARA TODOS É outra vez Natal. Dilata-se a gruta para acolher todos os homens. É Deus que se revela a toda a humanidade. Hoje é a festa da Missão, porque a Igreja quer ser esta “casa”, onde os homens encontram Deus. É nossa tarefa fazer deste mundo o lugar da manifestação de Deus. Fazer da nossa família o lugar onde se fala e se vive de Deus. Fazer da nossa vida um sinal da presença de Deus. Aceita, Senhor, o incenso da minha oração, a mirra do meu serviço, o ouro do meu coração para que a minha vida te revele a todos os que ainda não te conhecem.

­ Jesus. Pedro indicará a outros o mes­ a mo caminho. Cada vocação é sempre uma convocação. Não posso ficar sozinho, especado na minha fé. A fé dos outros precisa da minha fé. Ajuda-nos, Senhor, a reconhecer o teu projeto universal de salvação e a tornar-nos apóstolos e profetas do teu reino. 3º Domingo Comum Jos 3, 1-5.10; 1 Cor 7, 29-31; Mc 1, 14-20 “VINDE APÓS MIM” Jesus não quer fazer tudo sozinho. Precisa de colaboradores, que livremente o ajudem na sua missão de anunciar aos homens o nosso Deus. Chamou-lhes amigos e pescadores de homens. É um convite que ainda hoje continua a lançar na praia do nosso mundo: vem e segue-me. Junta-te a mim, vive e proclama o que eu anuncio. Quem está disposto a segui-lo? Ajuda-me, Senhor, a fazer uma forte experiência de ti, para que, com a minha vida, te possa anunciar aos outros.

4º Domingo Comum Deut 18, 15-20; 1 Cor 7, 32-35; Mc 1, 21-28 FALAR COM AUTORIDADE Jesus falava com autoridade. Que quer dizer? Que a sua doutrina era sabedoria que vinha do alto. Sou chamado também eu a falar com autoridade. Não é poder nem domínio. É riqueza interior que de mim passa para os outros. 2º Domingo Comum 1 Sam 3, 3-10.19; 1 Cor 6, É coerên­cia de vida entre o meu falar e o meu agir. Se vivo aquilo que anuncio, 13-15; Jo 1, 35-42 falarei com autoridade. “LEVOU-O A JESUS” A fé vive-se em partilha e cresce quan- Senhor Jesus, infunde em mim o teu do se transmite. João Batista indica o espírito de sabedoria para que em pacaminho de Cristo aos seus discípulos­ lavras e obras proclame a tua vida com para que o sigam e vivam com ele. autoridade e verdade. An­­dré vai à procura de Pedro e leva-o DV

Para que o compromisso dos cristãos em favor da paz seja ocasião para testemunhar o nome de Cristo a todos os homens de boa vontade

Dou-vos a minha paz

Mal ficaria a qualquer cristão se não pugnasse com todas as suas forças para que a paz pudesse reinar em todos os corações, em todas as comunidades e em todas as nações. Ser cristão é ser discípulo de Cristo o qual, sobretudo nos últimos tempos da sua vida na terra, não se cansava de dizer aos seus apóstolos: “A paz esteja convosco”, não tenhais medo: “Trago-vos a paz, dou-vos a minha paz”. E quando enviava os discípulos dois a dois recomendava-lhes: “Quando entrardes em alguma casa dizei primeiro: a paz esteja nesta casa e, se lá houver gente de paz, a vossa paz ficará com eles, se não voltará para vós”. A importância que Jesus dava a esta virtude era tanta que até a proclamou como uma das oito bem-aventuranças sobre as quais iria assentar o seu Reino. “Bem-aventurados os obreiros da paz, porque Deus os chamará seus filhos”. Ainda hoje, felizmente, encontramos homens e mulheres que se apresentam como mediadores de paz e conseguem obter excelentes resultados entre pessoas e nações que andavam desavindas. Vejamos por exemplo a comunidade de Santo Egídio em Roma que pacificou RENAMO e FRELIMO. MC JANEIRO 2012

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Ser cristão para quê?

Deus vem a público

Em subtítulo: Entrevistas sobre a transcendência. O autor, já

São muitos os críticos que batem palmas ao autor pelo seu grande talento. E merece-as bem, pois deixa-nos aqui um livro que é um verdadeiro tratado sobre a matéria que aborda. Socorre-se de São Tomás de Aquino, que representa por excelência os autores clássicos, e cita e transcreve inúmeros autores modernos que puxam a teologia e a moral mais para a frente. Falta dizer que o livro é muito erudito para ser lido e entendido pelos menos cultos. Penso, no entanto, que não se poderia dizer tanta coisa em menos espaço e com palavras mais simples. Autor: Timothy Radecliffe 320 páginas preço: 18,50€ Paulinas Editora

muito nosso conhecido, brinda-nos a todos com este poderoso volume de 480 páginas onde ele transcreve seis dezenas de entrevistas feitas a pessoas que ele chama «únicas». E são-no de verdade. Há para todos os gostos: Homens e mulheres, teólogos e filósofos, escritores e pensadores, crentes e não crentes. Enfim, 60 textos deste teor não é coisa para todos os dias. Uma oportunidade a não perder. Autor: António Marujo 480 páginas Editora Pedra Angular

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São os passos de Jesus para o calvário, ou seja as estações da via-sacra. O autor consegue apresentar um texto breve e agradável, onde figura um pouco de Bíblia, reflexões, orações e a sugestão para uns cânticos. E mais, tem em cada estação um desenho a lápis tipo estilizado a condizer com o texto escrito. Autor: Padre Josico 60 páginas preço: 3,05€ Edições Salesianas

preço: 28,01€

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Caminhando com Jesus

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Eis o Homem! São dois atos da paixão e ressurreição de Cristo. O primeiro vai praticamente desde a última ceia até à morte e ressurreição de Jesus. O segundo ato, bastante mais curto, apresenta a vida de Cristo ressuscitado. Os temas, em forma de teatro, apresentam-se como instrumentos de catequese em que intervêm novos e velhos. Autor: Orlando Carvalho 120 páginas preço: 6,00€ Edições Salesianas

Sobreviver O autor, apesar de ter de tratar três temas que podemos chamar “melindrosos”: a morte, o suicídio e o sentido da vida, dá a volta por cima; o que ele ama é a vida. Não pode deixar de falar dos outros aspetos porque sabe que eles existem. Mas a vida é sempre o melhor. Autor: Abílio Oliveira 136 páginas preço: 9,50€ Âncora Editora

Os 7 maiores tesouros Ainda bem que vai aparecendo gente grande que sabe contar histórias bonitas e fazer desenhos lindos para os mais pequeninos. Claro, além dos autores, tem de haver alguém que saiba ajudar as criancinhas a compreender as letras, as palavras e os desenhos que ilustram a cores fortes cada página. Para tudo isto haja pais, professores, catequistas que ajudem. Autora e ilustrações: Rita Vilela e Ana Sofia Caetano 16 páginas preço: 4,99€ Paulus Editora


Cristão sal e luz “Não há nenhum ambiente da vida social em que não seja pedido ao cristão

Contigo eu canto Pelo que me dizem os técnicos desta arte de bem cantar e bem tocar, trata-se de um bom livro, um grande auxiliar para variar os cânticos litúrgicos, que correm o perigo de se tornarem estereotipados. Por isso saudamos o autor e recomendamos aos grupos corais e outros que se aproveitem. São cânticos para os diversos tempos litúrgicos, partes comuns da missa e outras celebrações. Autor: Dr. Manuel Ribeiro Cardoso 224 páginas preço: 20,00€ Editorial Missões

ser sal e luz. A luz, a verdade e a força de renovação do Evangelho requerem ser testemunhadas nos lugares em que os homens e mulheres nascem, crescem, vivem, convivem, trabalham, se alegram, sofrem e morrem”. António Marto | Testemunhas de Cristo no Mundo | setembro 2011

Nós e os outros

“Vivemos hoje num mundo global, atravessado por uma grande mobilidade: um mundo tornado pequeno onde todos estão sempre em contato com todos. Nestas condições, a eterna questão «nós e os outros» repropõe-se de um modo novo, com nova intensidade e urgência: como havemos de olhar os «outros» e que significa a sua proximidade?”. Bernardino Silva | O Contacto SVD | novembro/ dezembro 2011

Europa cristã

“É público e notório que muitos dos homens do nosso tempo fogem com todas as suas capacidades a aplicar a palavra fraternidade, que tão cara foi a esta Europa, pela simples razão de que admitir a fraternidade cristã é implicitamente aceitar um Deus que de todos é Pai”. Manuel Brandão | Correio de Coimbra | 8 dezembro 2011

Emancipação da mulher

“A função da mulher na Igreja é um desafio aberto aos sinais dos tempos, numa linha de consciencialização perene. A Igreja não pode caminhar mais a reboque das circunstâncias, numa sociedade em que um dos sinais dos tempos é a emancipação das mulheres”. João Torres | Boa Nova | dezembro 2011

Alegrias escondidas 50 perguntas sobre Jesus Chega-nos agora a quarta edição deste livro ao qual já fizemos referência em 2007. O que então dissemos, voltamos a dizê-lo, hoje ainda com mais ênfase pois trata-se de uma quarta edição, o que é bom sinal. O autor responde a 50 perguntas que muita gente faz e para as quais procura uma resposta correta e não a panaceia de qualquer romancista mal informado. Autor: Juan Chapa 160 páginas preço: 8,00€ Paulinas Editora

“A alegria é uma escolha, muitas vezes uma escolha difícil. É uma escolha para a luz, mesmo quando há tanta escuridão. É uma escolha de verdade, mesmo no meio de deceções. No entanto, uma vez escolhida para reclamar as alegrias escondidas no meio das vicissitudes do quotidiano, a vida torna-se uma celebração”. James H. Kroeger | Além-Mar | dezembro 2011

Desprotegidos

“É nos momentos de crise que os homens e mulheres portuguesas se elevam, através da sua preocupação em proporcionar afetos aos mais desprotegidos, dando-lhes uma oportunidade única de se sentirem pessoas importantes, acedendo a níveis de convivência e de lazer únicos”. José Manuel Correia | Voz das Misericórdias | novembro 2011

Fala-se de esperança

“Hoje apetece-me falar da esperança. Os olhares estão turvos e as árvores despidas; as palavras tropeçam nos desânimos e os passos vão desencontrados; os cansaços geram indiferenças e os abraços não são calorosos como eram antes, por isso, apetece-me falar de esperança”. Mário Tavares | A Defesa | 7 dezembro 2011

Rosto da Igreja

“A Caritas é o rosto solidário da Igreja católica no mundo inteiro. Em Portugal desempenha um papel notável no levantamento das situações de exclusão social e no compromisso para a resolução de todos os problemas que têm a ver com pobreza”. Arminda Camate | Ação Missionária | dezembro 2011

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Anónimo – 10.000,00€; Isabel Miranda – 33,00€; Conceição e António Quadros – 100,00€; Anónimo – 43,00€; Hermínia Oliveira – 10,00€; Manuel Marques – 20,00€; D. Manuel Falcão – 50,00€; Rosa Lé – 50,00€; Lucília Marques – 43,00€; Manuel Branco – 53,00€; Natividade Castanheira – 10,00€; João Afonso – 100,00€; Elvira Fonseca – 10,00€; Raimundo Gomes – 10,00€; Amélia Neto – 13,00€; Solange Maximiano – 60,00€; José Carvalho – 1,00€; Maria Carmo Rosa – 20,00€; Augusta Martins – 20,00€; Idalina Vieira – 10,00€; Maria Anjos Sousa – 20,00€; Maria Trindade Ferreira – 13,00€; Angelina Sousa – 33,00€; Bárbara Silva – 10,00€; Martinho Montez – 20,00€; Margarida Silva – 13,00€; Rosa Guimarães – 20,00€; Arminda Correia – 10,00€; Antónia Monteiro – 10,00€; Antonieta Teimão – 13,00€; Teresa Bernardino – 3,00€; Fátima Gomes – 13,00€; Anónimo – 20,00€; Firmino Helena – 20,00€; Mariana, Raquel, Maria Inês e António Pedro – 50,00€; Maria Anjos Lopes – 50,00€; Maria Carmo Sá – 10,00€; Anónimo – 200,00€; Mulheres Missionárias da Consolata (Fátima) – 20,00€. Total geral = 11.204,00€.

Solidariedade vários projetos PARÓQUIA DO GURUÉ, MOÇAMBIQUE Mulheres Missionárias da Consolata (Fátima) – 915,00€; Escola Alemã (Lisboa) – Turma 9º Ano – 213,18€; Anónimo – 155,00€; José Mirra – 10,00€; Anónimo – 3,00€; Cidália Vieira – 23,00€; Maria Marques – 13,00€; Teresa Silva – 25,00€; Anónimo – 250,00€; Fátima Matias – 10,00€; Conceição Portela – 100,00€; António Ribeiro – 50,00€; Anónimo – 143,00€; Laudelina Barros – 20,00€; Ana Sousa – 50,00€; Teresa Mata – 250,00€; Lúcia Moura – 250,00€; Lucinda Costa – 250,00€; Adozinda Almeida – 250,00€; Emília Sequeira – 250,00€; Marieta – 500,00€; Anónimo – 250,00€; Gracinda Jesus – 250,00€; Família Afonso Isabel e família Barros – 250,00€; Aventino Alves – 250,00€; Maria José Alves – 250,00€; Maria Carmo Marques – 250,00€. BOLSAS DE ESTUDO Ernesto Monteiro – 100,00€; Anónimo – 250,00€. PADRE JOSÉ TORRES NEVES (MOÇAMBIQUE) Anónimo – 5.000,00€. OFERTAS VÁRIAS Joaquim Neves – 51,00€; José Moreira – 500,00€; Anónimos – 68,73€; Ernesto Monteiro – 100,00€; Fernanda e Orlando Dionísio – 50,00€; Luísa Dias – 57,00€; Maria Mechernane – 40,50€; Joaquim Ferreira – 30,00€; Adelina Neves – 86,00€; José Bernardes – 100,00€; Manuel Espinheira – 28,00€; Dominicanas do Rosário Perpétuo – 26,00€; José Lage – 36,00€; Arminda Vasconcelos – 36,00€; Elisa Quaresma – 36,00€; Rosa Filipe – 45,00€; Anónimo – 50,00€; Maria Gomes – 100,00€; Ana Ventura – 36,00€; Emília Fernandes – 63,00€; Maria Esteves – 54,00€; Rui Faria – 35,00€; Amélia Pais – 50,00€; António Matos – 43,00€; Anónimo – 170,00€; Beatriz Duro – 43,00€. Pode enviar a sua oferta para a conta solidária dos MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA: NIB 0033.0000.45365333548.05 IBAN: PT50.0033.0000.45365333548.05 – SWIFT/BIC: BCOMPTPL ou para uma das seguintes moradas: 8 Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | Telefone 249 539 430 | fatima@consolata.pt 8 Rua D.a Maria Faria, 138 Apartado 2009 | 4429-909 Águas Santas MAI | Telefone 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt 8 Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt 8 Rua Cap. Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | Telefone 218 512 356 | lisboa@consolata.pt 8 Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | Telefone 253 691 307 | braga@consolata.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA

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O construtor Padre Eusébio Natale Nasceu em Versuolo, Cúneo, Itália, no dia 16 de maio de 1910. Entrou na Consolata em 1926. Foi ordenado sacerdote em junho de 1933. Partiu para as missões da Tanzânia em 1934. Trabalhou ardorosamente em vários setores. Faleceu em Tosamaganga, Tanzânia, em 1959 texto MANUEL CARREIRA ilustração H. MOURATO

oje temos pela frente o resumo da história do padre Eusébio Natale. Nasceu em Cúneo, como tantos outros seus cole­ gas, mas quando ele ainda era peque­ no os seus pais mudaram-se para Mondovi, uma diocese ali ao lado. Entrou na Consolata em 1926, tinha então 16 anos. Ordenou-se em 1933 e no ano seguinte os superiores com­ praram-lhe o bilhete do barco e ele partiu para a Tanzânia, que naquele tempo, se chamava Tanganica. Uma vez chegado, deitou-se ao trabalho apostólico com todas as ganas, a tal ponto que o superior de lá, padre Hi­ gino Lumetti não hesitou em escrever a respeito dele: “O novo missionário foi uma boa aquisição que a diocese

de Iringa alcançou. O padre Eusébio distingue-se pela inteligência, espírito religioso, caráter aberto, jovial e zelo apostólico”. Exerceu a sua atividade pastoral em várias missões. Percorreu zonas intei­ ras da diocese, onde a ação missioná­ ria mal tinha ainda chegado. Eram tempos difíceis os recursos humanos e materiais eram poucos e as difi­ culdades eram muitas. Depois veio a guerra. As atividades nas missões abrandaram e o padre Eusébio teve de procurar outros campos de aposto­ lado. Não lhe foi difícil encontrar uma colónia de cidadãos polacos foragidos dos campos de concentração russos e que, após mil e uma peripécias, se tinham refugiado num recanto da Tanzânia, chamado Ifunda. O padre

Eusébio encheu-se de compaixão por aqueles infelizes e esforçou-se por to­ dos os modos para lhes dar apoio. Foi assim por nove anos. Quando a tempestade bélica e as suas consequências amainaram, o padre Eusébio regressou à missão de Nyabu­la. Dedicou-se de alma e cora­ ção ao apostolado abrangendo todos os setores da vida paroquial: escolas, capelas, catequistas, professores e outros. Os catecúmenos e os batis­ mos aumentavam de dia para dia e a igreja não os comportava. No intuito de resolver o mal pela raiz lançou-se na construção de uma igreja nova, do tamanho de uma catedral. Quando a terminou, lavou as mãos, pediu os «últimos» sacramentos e morreu, ví­ tima de um enfarte cardíaco. JANEIRO 2012

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A sorrir é que a gente se entende O sorriso é o melhor cartão de visitas. Abre (quase) todas as portas. A um bom sorriso (quase) ninguém resiste: Mas cuidado! Também há sorrisos maus, fingidos. Vêm só dos lábios e não do coração. Desses, Deus nos livre! Os provérbios, além da sabedoria, ensinam-nos também a prudência e a astúcia texto MANUEL CARREIRA foto ANA PAULA

A união e a solidariedade podem podemos apresentar a alguém, é ofe­ Por isso o provérbio adverte para o trafazer secar os mares e abater as recer-lhe um sorriso e dizer-lhe pa- balho, aqui representado pelas mãos. lavras amorosas. A um bom sorriso Compara-se com outro provérbio que montanhas Apoio à compreensão Trata-se de um provérbio impossível de realizar à letra, mas esconde nas suas palavras uma verdade extraordinária. Jesus disse isso mesmo a respeito da fé; “Se tiverdes fé como um grão de mostarda direis àquela árvore: tira-te daí e lança-te no mar” e ela obedece. Nós acrescentamos: “A caridade move montanhas”. Está aqui concentrado o valor da união e da solidariedade. A letra desta canção ajuda a compreender: Canta, canta, amigo canta Vem cantar a nossa canção Tu sozinho não és nada Juntos temos o mundo na mão. China

Se for simpatia que vem, é simpatia que vai

Apoio à compreensão Um proprovérbio de todos os tempos e de todos lugares. O melhor cartão de visitas que FÁTIMA MISSIONÁRIA

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quase ninguém resiste, a não ser que esteja de pé atrás e desconfie da amizade. Mas o provérbio não puxa para aí, não vai pela negativa. Admite sempre o lado melhor que é a boa fé que o amigo trás quando se aproxima de nós. E, se ele vem por bem, é com simpatia que se despede. Coreia

Os teus melhores parentes são as tuas mãos

Apoio à compreensão Entre os Macuas e aliás, também em outros povos, a família e os parentes constituem uma segurança para os membros que fazem parte desse grupo. Quem tem uma família grande não tem medo do presente nem do futuro. Se alguma coisa lhe corre mal, ele encosta-se à família e onde comem dois ou três, podem comer quatro ou cinco. Mas é preciso ser esperto e não confiar tudo nos outros.

diz: “Mão parada, barriga sem nada”. Macua – Moçambique

Eu ajudei-te a fazer nascer os dentes, tu ajuda-me a fazer cair os meus

Apoio à compreensão Os filhos devem tomar os cuidados necessá­ rios para com os pais velhos, tal como os pais tiveram cuidado com os filhos quando eles eram pequenos. É um provérbio que tem muito cabimento também hoje. Não é raro ouvir os pais idosos a queixarem-se dos filhos porque não cumprem estas regras. Há uns tempos atrás eu próprio constatei isso. Fui visitar um lar que ficava junto de uma praia. E dizia-me um dos internados: “Veja lá! O meu filho veio passar um mês na praia com toda a família e a mim, aqui ao lado, nem sequer um «adeus» me disse”. África Ocidental


Unido na dor da tragédia texto NORBERTO LOURO ilustração MÁRIO JOSÉ TEIXEIRA

Confesso que sempre tive simpatia pela caça, sem nunca ter sido grande caçador. Em pequeno, “cacei” pássaros com armadilhas que, na minha terra, se chamam “costelas”. Esses taralhões, pobres vítimas inocentes da “vio­ lência” infantil, constituíam um acepi­ pe extraordinário para variar a nossa die­ta alimentar, onde predominava a carne de suíno de salgadeira. Cheguei a engendrar armas de fogo rudimen­ tares. Mas a indústria não pegou. Por vezes, os canos rachavam. Milagre que não tenham provocado tragédias! Período áureo de caça a sério foi em África. E por necessidade! As missões geriam grandes escolas com internatos a abarrotar de alunos. Manter toda aquela gente só à base de papas de milho e de mandioca, fazia doer. Cheguei a Moçam­ bique já na decadência desses internatos e, entretanto, sobreveio a independência

com a nacionalização das escolas. Toda­ via, com alguma frequência ainda era intimado a acompanhar, com o carro da missão, aqueles que iam caçar para a es­ cola ou para o hospital. Muito raramen­ te, porém, os destinatários saboreavam a carne, que seguia outros destinos. Este ano, em pleno tempo de caça, pas­ sei algum tempo na minha aldeia. Com a desculpa da dieta a que estou sujeito e com a nostalgia dos tempos de miúdo, voltei a armar as costelas aos taralhões. Outra caça quase não havia por lá, zona de pinhal e mato. Contudo admirei o zelo do veterinário da terra para fixar a caça naquela terra inóspita. Com tenacidade e perseverança, lavra e semeia de gramí­ neas, tudo o que é ceara abandonada e, em cada uma, instala bebedoiros. As armas de fogo são traiçoei­ras e, fre­ quentemente, o seu uso inapropriado faz vítimas. Foi o que aconteceu mesmo

antes de regressar a Lisboa. Ouvi na rá­ dio a notícia duma tragédia. Ao colocar a arma no jipe, um caçador acionou o gatilho inadvertidamente. Atingido na própria fronte, teve morte imediata. Es­ tremeci todo! De imediato, o meu pen­ samento galgou montes e vales e bateu à porta daquela família mergulhada na tragédia, para mim desconhecida, com o desejo de aliviar tamanha dor. Pus-me a orar, colocando-me ao seu lado. Regressado a Lisboa no dia seguinte, à noite, alguém me contactou pelo tele­ fone, narrando-me a tragédia do caça­ dor de Sarilhos Grandes, do outro lado do Tejo, e pediu-me encarecidamente que presidisse ao funeral do caçador. Impressionou-me a coincidência entre o meu estado de alma e as lágrimas da­ quela família mergulhada no luto. Sem a conhecer, desde o primeiro momento estivera unido à sua dor.

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Simpósio teológico-pastoral 2012

texto LUCÍLIA OLIVEIRA

tema “Quereis oferecer-vos a Deus? – Horizontes con­temporâneos da entrega de si” vai nor­tear os trabalhos do simpósio teológico-pastoral do segundo ano do itinerário temático do centenário das Aparições de Fátima, lançado a 1 de dezembro de 2011. Os trabalhos do simpósio decorrerão de 15 a 17 de junho, no Salão do Bom Pastor, no Centro Pastoral de Paulo VI. Isabel Varanda, professora da Universidade Católica Portuguesa, é a presidente da Comissão organizadora que inclui a vice postuladora para a Causa da canoniza-

ção de Francisco e Jacinta Marto, irmã Ângela Coelho, o secretário do bispo de Leiria-Fátima, padre Vítor Coutinho, além de outros teólogos e professores, como Eduardo Borges de Pinho. O logótipo do simpósio já foi escolhido e apresenta três elementos: uma interrogação, o mundo e a silhueta de Nossa Senhora. “Sugere o diálogo entre o Céu e a Terra, e a interpelação de Deus à humanidade, por intermédio de Nossa Senhora”, explica o autor. Rui Pedro Mendes sublinha que o cartaz renova o convite e desafia “cada um de nós a descobrir novos horizon-

“Fé, o dom frágil”

O sacerdote jesuíta José Frazão Correia, da Universidade Católica Portuguesa apresenta a conferência “Fé, o dom frágil”, a 8 de janeiro, às 16h, na basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Seguir-se-á um apontamento musical proporcionado pela Associação Coral Calçada Romana, Alqueidão da Serra, Leiria.

Curso de acolhedores

É uma formação gratuita e visa aprofundar a Mensagem de Fátima, sensibilizando os candidatos para a cultura do acolhimento. Os trabalhos decorrerão sob o tema “Quereis oferecer-vos a Deus?”. O próximo curso decorreFÁTIMA MISSIONÁRIA

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tes para responder a este apelo”, feito por Nossa Senhora aos pastorinhos, na aparição de maio de 1917. A questão dirigida a Lúcia, Francisco e Jacinta “é, também, uma interpelação a toda a humanidade”, salienta o artista, recordando o convite de Deus “a fonte de onde brotámos”. No logótipo surge um ponto de interrogação, “em cujo interior recortei a silhueta do rosto de Nossa Senhora. Como parte integrante deste ponto de interrogação, surge o planeta terra, que representa toda a humanidade”, conclui o autor.

rá a 21 e 22 de janeiro, na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo, no Santuário, devendo os interessados contactar o Santuário.

Obra de migrações, 50 anos

O subsecretário do Conselho Pontifício para os Migrantes e Itinerantes irá participar nos trabalhos do 12º encontro de formação de agentes sócio-pastorais das migrações que decorrerá de 20 a 22 de janeiro, no centro missionário Allamano. O ­ tema do encontro é «Portugal entre a emigração e a imigração». No fórum assinala-se também o início das comemorações dos 50 anos da fundação da Obra Católica Portuguesa de Migrações.

Janeiro em agenda 01 Dia mundial da paz 08 Dia da infância mis­sio­nária 08 Encontro nacional da comunidade Luz e Vida 15 Encontro nacional do movimento Es­piritualidade da Sagrada Família 18/25 Oitavário pela uni­­da­de dos cristãos 29 Aniversário da fun­da­ção dos missionários e missionárias da Consolata


un’altra visione del mondo mwingine mtazamo wa dunia another view of the world otra visión del mundo inny pogląd na świat une autre vision du monde wona wunyowani wa elapo eine andere sicht der welt djôbe mundu di oto manêra

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Apenas euros por ano MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA | Rua Francisco Marto, 52 | Ap. 5 | 2496-908 FÁTIMA Telefone 249 539 430 | 249 539 460 | geral@fatimamissionaria.pt | www.fatimamissionaria.pt


O que nos une “Derrubemos as balanças, Onde a amizade não conta!” Assim dizem as crianças Nos seus cantares e danças Até a razão ficar tonta. E se tonta ela perdura Até se esvair na morte, Caem na doce loucura De uma amizade tão pura Que de eterna tem a sorte. João Nascimento | 2011

Desafio Russo  

Dignidade e democracia

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