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ANO LIX | MAIO 2013 | ASSINATURA ANUAL | NACIONAL 7,00¤ | ESTRANGEIRO 9,50¤

FÁTIMA PELO MUNDO

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MILHARES DE TESTEMUNHOS GUARDADOS EM ARQUIVO

ESCUTEIROS: 90 ANOS A DAR SENTIDO À VIDA Pág. 10 PIRATARIA NA SOMÁLIA EXIGE MUDANÇAS Pág. 13 CONTRA O INVERNO Pág. 14 DEMOGRÁFICO


editorial

“O FUTURO DECIDE-SE HOJE” Em 2012 nasceram em Portugal pouco mais de 90 mil crianças. Menos sete mil do que no ano anterior. A situação é alarmante. Portugal é o segundo país do mundo onde nascem menos crianças. Só a Bósnia tem um índice de fecundidade inferior. Em fins de maio do ano passado, realizou-se na Fundação Calouste Gulbenkian uma conferência, organizada pela Associação Portuguesa das Famílias Numerosas (APFN), com a intervenção de vários especialistas em demografia, economia e políticas de família, na procura de soluções para contrariar a “inversão demográfica”. O professor Alban d’Entremont, da Universidade de Navarra, fez aí declarações alarmantes. No ano 2100, se não forem tomadas medidas, Portugal pode ficar reduzido a metade da população atual. “O país pode perder entre quatro a sete milhões de habitantes, se não se inverter a queda da natalidade e a mortalidade aumentar. Estamos perante um lento suicídio de um país”. É uma previsão, aliás, sustentada por um relatório das Nações Unidas. “O governo tem que tomar consciência do problema e atacá-lo já, até porque a natalidade ajuda a relançar a economia”, recomenda o professor de Navarra, que acrescenta: “Os filhos são um recurso valioso para o país, devolvem vinte vezes mais riqueza à sociedade do que aquilo que consomem”. “Uma população envelhecida apenas consome

muitos fármacos e camas de hospitais e desequilibra a balança”. Mais filhos quer dizer mais consumo e maior crescimento. Terá futuro um país de velhos? “Não há fórmulas mágicas para resolver o problema, mas o governo tem que começar por repor a justiça e deixar de penalizar as famílias com mais filhos que neste momento pagam mais impostos face à capacidade financeira que têm”, declarou Ana Cid Gonçalves, secretária geral da APFN, que acrescenta: “A crise económica pode passar em meia dúzia de anos, mas a crise da natalidade, que tem um impacto imediato no consumo e na economia, tem consequências muito mais profundas e desastrosas a médio prazo para o país”. Também na produção cultural, na educação, no sistema de valores e nas relações entre gerações. Para quando uma cultura que favorece a natalidade? É por isso muito oportuna a última carta pastoral dos bispos portugueses “Força da família em tempos de crise” que apresenta pistas de ação. Contra todo o pessimismo e egoísmo que obscurecem o mundo, a Igreja está do lado da vida humana. Defende-a, promove-a e alimenta-a, apoiando incondicionalmente a família e a natalidade, porque crê firmemente que a vida humana é sempre um esplêndido dom de Deus e um enorme benefício para a humanidade. DARCI VILARINHO

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sumário Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA Nº 5 Ano LIX – MAIO 2013 Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt redacao@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Provincial António Jesus Fernandes Redação Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 26.100 exemplares Diretor Darci Vilarinho Diretor executivo Francisco Pedro Redação Darci Vilarinho, Francisco Pedro, Juliana Batista Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos Camponez, Cláudia Feijão, Elísio Assunção, Leonídio Ferreira, Luís Maurício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Patrick Silva, Teresa Carvalho; Diaman­tino Antunes – Moçambique; Tobias Oliveira – Roma; Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa e Contracapa Ana Paula Ilustração H. Mourato e Ri­car­do Neto Design e com­po­sição Happybrands e Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Joaquim Bernardino e Cristina Henriques Assinatura Anual Nacional 7,00€ Estrangeiro 9,50€ De apoio à revista 10,00€ Benemérito 25,00€ Avulso 0,90€ (inclui o IVA à taxa legal) Pagamento da assinatura multibanco (ver dados na folha de endereço), transferência bancária nacional (Millenniumbcp) NIB 0033 0000 00101759888 05 transferência bancária internacional IBAN PT50 00 33 0000 00101759888 05 BIC/SWIFT BCOMPTPL cheque ou vale postal

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O MUNDO AOS PÉS DE MARIA

03 EDITORIAL “O futuro decide-se hoje” 05 PONTO DE VISTA O Orçamento chumbado 06 LEITORES ATENTOS 07 HORIZONTES Convidam-nos para jantar? 08 MUNDO MISSIONÁRIO África é o continente mais atingido pela chaga das minas

Violência de grupos armados diminui em El Salvador Trabalho infantil impede crianças de frequentar a escola no México Cristãos da Síria divididos entre partir ou morrer 10 A MISSÃO HOJE Noventa anos a dar sentido à vida

11 PALAVRA DE COLABORADOR 12 A MISSÃO HOJE Experiência com rumo 13 DESTAQUE Pirataria na Somália exige mudança de estratégia 14 ATUALIDADE “Filhos não são obstáculo à felicidade” 16 ATUALIDADE Metade da humanidade exige mais

distribuição da riqueza

ATUALIZE A SUA ASSINATURA

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22 GENTE NOVA EM MISSÃO Esperança e confiança! 24 TEMPO JOVEM A escola do sacrifício 26 SEMENTES DO REINO Espírito para a missão 28 O QUE SE ESCREVE 29 O QUE SE DIZ 30 GESTOS DE PARTILHA 31 VIDA COM VIDA Missionário de estilo mariano 32 OUTROS SABERES Não tenhas medo... Ele venceu a morte! 33 NOTAS MISSIONÁRIAS Outros caminhos 34 FÁTIMA INFORMA “Eu aposto na vida, eu acredito”


ponto de vista

O ORÇAMENTO CHUMBADO texto JOÃO CÉSAR DAS NEVES

O Orçamento de Estado para 2013 viu várias das suas medidas reprovadas pelo Tribunal Constitucional no dia 5 de abril. É importante referir que este Orçamento já era consequência de uma reprovação semelhante que acontecera a 5 de julho do ano passado, sobre o Orçamento para 2012. Em ambos os casos o tribunal impediu os cortes previstos de pensões e salários públicos, e outras prestações. Da primeira vez, a reação do governo, no atual OE, foi fazer um enorme aumento de impostos. Curiosamente, essa subida, que também esteve sob análise do tribunal, não foi proibida. Desta vez, segundo as declarações iniciais do primeiro-ministro, a opção não irá realizar-se do lado da receita, mas continuará a ficar na despesa, antecipando cortes estruturais que estavam previstos para anos posteriores. O que significa isso exatamente? Ninguém sabe muito bem, e não houve ainda quaisquer anúncios. São de esperar reestruturações institucionais, das câmaras e freguesias aos ministérios, passando pelas empresas e institutos públicos. Haverá mais cortes na Saúde, Educação, Polícia e Forças Armadas, Agricultura e infraestruturas, além de mudanças relevantes na Função Pública e na Segurança Social.

do tribunal estão estimadas em menos de 1.300 milhões de euros, que agora serão adicionados ao valor anterior. É preciso encontrar nesse total um montante de cortes que equivala a este montante. Ninguém diz que é fácil, mas a fatia a reduzir não chega a dois por cento do total. A coisa mais importante a entender é que estes cortes são absolutamente indispensáveis. O Estado vive acima das suas posses há décadas, gastando sempre mais do que arrecada em impostos. Este é o famigerado défice, que nunca chega a ser dominado, quanto mais resolvido. Quando o Estado enfrenta as suas dificuldades subindo impostos, atira para cima do aparelho produtivo a carga, estrangulando a atividade que nos alimenta a todos. A maneira certa de fazer é mesmo alterar a estrutura do sistema público, de maneira que ele consiga viver com aquilo que tem. Há muito que ouvimos, e ouviremos ainda mais, os vários interesses sociais defender as suas benesses. Proclamam sempre que os cortes anunciados são a desgraça do país. Mas o que nos desgraça mesmo é o despesismo sem sustentação.

A despesa total do Sector Público prevista no Orçamento de 2013 era de quase 78.100 milhões de euros, 46,8 por cento do PIB. As proibições Maio 2013

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leitores atentos

RENOVE A SUA ASSINATURA Faça o pagamento da assinatura através dos colaboradores, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multibanco, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05. Refira sempre o nú­­me­ro ou nome do assinante. Na folha on­de vai escrita a sua direção, do lado esquerdo, encontra o ano pago e o seu número de assinante. Agradecemos que os nossos es­ti­mados assinantes renovem a assinatura para 2013. Só as assinaturas atualizadas poderão beneficiar do pequeno apoio do Estado ao porte dos correios. Os do­­na­tivos para as missões são de­dutíveis no IRS. Se desejar recibo, deverá enviar-nos o seu número de contribuinte. Muitos leitores chamam à FÁTIMA MISSIONÁRIA «a nossa revista». É bom que assim pensem e assim procedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 100 mil leitores. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

Diálogo aberto

Ao padre António Fernandes: Por gentileza, o meu distinto amigo e familiar padre José Torres Neves, deixou-me como lembrança da sua visita, a revista FÁTIMA MISSIONÁRIA, antes da sua recente partida para Moçambique. Devorei-a de fio a pavio. Porque uma das minhas interrogações espirituais era: como posso divulgar o Evangelho, se tenho uma vida tão cheia de pequenas coisas, do dia a dia? Com a leitura da 6

COM GRANDE SURPRESA

Foi com grande surpresa e mágoa que tive conhecimento do falecimento do senhor padre Manuel Carreira. Durante dezenas de anos passávamos, eu e o meu marido, a Páscoa em Fátima, e sempre na Consolata. Conversávamos muito enquanto se tomava o café após o almoço. O meu marido faleceu no ano 2000 e eu, já com 84 anos, tenho dificuldade em deslocar-me. Recordá-lo-ei com simpatia junto de Deus. Manuela

NO “FIO DA HISTÓRIA”

Senhor Diretor, Remeto uma importância em cheque para aquilo que os senhores padres muito bem entenderem. Uma vez que a minha assinatura está em dia, gostaria que fosse para custear pequenas despesas do Instituto dos Missionários da Consolata. O Instituto é a casa que o nosso saudoso padre Manuel Carreira tão bem mencionou no “Fio da História”, onde dá a impressão de ter feito as suas despedidas. Quanto ao seu falecimento, não tenho palavras. A revista FÁTIMA MISSIONÁRIA e todos os seus amigos ficaram mais pobres.

GOSTARIA DE O TER CONHECIDO

Antes de mais quero manifestar o meu pesar pelo desaparecimento do querido padre Carreira. Gostaria de o ter conhecido pessoalmente. Apenas o conheci pelos agradecimentos escritos que me dirigiu pelas minhas humildes contribuições. Deus já o terá acolhido na sua santa glória e recompensado pelas suas obras. Junto envio uma ajudinha para as crianças da Costa do Marfim. Maria Eduarda

AO SERVIÇO DOS MAIS FRACOS

Votos para todos quantos trabalham na FÁTIMA MISSIONÁRIA. Que o Senhor vos dê saúde para continuarem o vosso maravilhoso trabalho de amor e entrega ao próximo. Feliz daquele que põe a sua vida ao serviço dos mais fracos e oprimidos, levando a Palavra do Senhor àqueles que ainda O não conhecem, porque será grande a sua recompensa junto do Pai. Maria de Lourdes

Alzira

FÁTIMA MISSIONÁRIA veio-me à ideia elaborar uma lista de nomes de pessoas, algumas da família e amigas e outras clientes e conhecidas nossas, e torná-las assinantes desta tão tocante revista. Assim vou proceder ao pagamento desta primeira anuidade para estes 30 assinantes e todas as anuidades seguintes serão sempre da minha responsabilidade. Pedindo a bênção para toda a minha família, aproveito para desejar os maiores êxitos apostólicos para os Missionários da Consolata e para todos os

que procuram divulgar o Evangelho de Jesus. António Caldeira

Que rica surpresa, amigo António. Bastariam poucos como o senhor para difundir a nossa revista. Trinta novos assinantes. O seu método é o mais eficaz para uma divulgação capilar. Bem-haja pelo seu gesto todo missionário de fazer chegar o Evangelho vivo a casa das pessoas. Haja outros que sigam o seu exemplo. As nossas saudações missionárias e a bênção de Deus para toda a sua família. DV


horizontes

CONVIDAM-NOS PARA JANTAR? texto TERESA CARVALHO ilustração HUGO LAMI – Bom dia, Luísa! Sou o Paulo Antunes! Do outro lado da linha, uma voz de espanto. – O nosso Paulo Antunes? Irmão do Victor e do Afonso? – Esse mesmo! Estou cá na cidade com a minha namorada e gostaria que ela vos conhecesse. Convidam-nos para jantar aí na Instituição? Foi assim que 12 anos depois, aquele rapazinho curioso e insatisfeito que queria “ser alguém” se fez anunciar. Foram 19 anos de muitas conquistas: Fez o curso na Escola Náutica, tornou-se piloto de grandes navios, viajou por quatro continentes, trabalhou em várias empresas internacionais e não descansou ainda de desafios, cada vez mais elevados. Sobretudo, possui aquilo que diz ser o centro do seu sucesso: tem amigos em todos os locais por onde passou. A namorada de Paulo olha-o com ternura. Nenhum deles precisa de muito para estar feliz, mas são exigentes na qualidade do que fazem e querem: “esforçam-se pelo seu melhor”. O projeto a dois não se confina a quaisquer fronteiras porque ambos se habituaram a não temer o medo. Ao jantar, Luísa, Paulo e a namorada, rodeados por muitos rostos atentos, recordaram o rapazinho de 18 anos que se lançou no desconhecido a partir da instituição onde, com os irmãos, passara a sua adolescência e juventude. Para essa aventura, levou apenas o que “era”, porque “ter”, não tinha “nada”. Na sua teimosia em vencer, aprendeu a transformar dificuldades em oportunidades e lutou para que

as “dores” de que era feita a sua história não fossem sinónimo de “ser menos” mas criadoras de “valor” que ele podia usar para ser tão “grande” quanto decidisse ser. Ao longo de todo este tempo não deixou que a solidão ou os desânimos o vencessem ou que os temores face às responsabilidades que lhe eram confiadas o impedissem de assumir tarefas de crescente complexidade. Hoje, quando regressou à instituição onde aprendeu a desafiar-se, quis ser símbolo de conquista e de esperança para todas aquelas crianças e jovens que, tal como ele, vivem sonhos e medos numa batalha tantas vezes solitária e silenciosa. Ao jantar, ao contar a sua história rodeado por crianças e jovens curiosos, era um homem amadurecido, conhecedor de um mundo com que tentava motivá-los, aprendiz de lições que lhes queria ensinar, mas era sobretudo um conquistador de uma estima por si

e por um grupo imenso de pessoas com quem se cruzou, a quem valorizou e se foi ligando. Era tudo isso que queria partilhar neste gesto simples de se fazer convidar para o jantar: queria dizer “obrigado” e ser rosto de esperança – ele sabia quanto isso era importante! As expressões do grupo, o espanto pelos seus contos, as perguntas sem fim, recarregaram de afeto a sua mochila de piloto que um dia foi menino e jovem à volta desta mesa. As palavras da Luísa e os “yes” ruidosos dos “miúdos” traduziram aquilo que ele sentia: – Sabes, Paulo, a tua visita representou para nós um feito maior do que o de conduzires um navio em dia de tempestade: Vamos recordar-te sempre como sinal de esperança, sobretudo nos nossos dias de temporal! Muito obrigado!

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mundo missionário texto E. ASSUNÇÃO fotos LUSA

ÁFRICA É O CONTINENTE VIOLÊNCIA DE GRUPOS MAIS ATINGIDO PELA CHAGA ARMADOS DIMINUI DAS MINAS EM EL SALVADOR Dos 110 milhões de minas espalhadas pelo mundo, mais “Há um ano a cidade de San Salvador ocupava o de 44 milhões estão em África, segundo as estatísticas mais recentes. Estes engenhos explosivos constituem a maior ameaça para a vida das jovens gerações, sublinhou o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, no dia mundial contra as minas. A República Democrática do Congo é um dos países mais afetados. Em diversas províncias do país estão espalhados engenhos por explodir. Apenas 30 por cento destes engenhos de morte estão desativados. De 2002 a 2012, as minas causaram 2.458 mortes. Entre os países africanos mais atingidos por minas e outros engenhos explosivos, figuram Angola, Chade, Eritreia, Etiópia, Somália e Sudão do Sul, a que se juntou recentemente o Mali.

terceiro lugar na lista das cidades mais violentas do mundo”. Hoje, o seu nome já “não consta na lista”, informa José Miguel Insulza, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OSA). “A trégua entre grupos armados está apenas no início: mudar o modo de vida de um número significativo de jovens, dando-lhes esperança e reabilitá-los, e promover a paz é uma tarefa muito complexa”. El Salvador e a OSA assinaram um acordo de cooperação para apoiar o processo de paz social, que conduziu a uma trégua firmada entre grupos armados. Como consequência, a média de homicídios por dia baixou de 14 para 5,9. O acordo foi conseguido com a participação decisiva do bispo das forças armadas, Fabio Colindres, e do dirigente social Raul Mijango, com o apoio da OSA.

Papa Francisco bispo

TOBIAS OLIVEIRA, missionário da Consolata português

em Roma

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Costuma dizer-se que as últimas palavras dum moribundo têm sempre um significado especial, como é o caso das últimas palavras de Jesus na cruz. Mas também é verdade que as palavras que acompanham um primeiro encontro são também elas muito significativas. Assim sucedeu, creio eu, com as primeiras palavras do Papa Francisco. Depois da inesperada saudação “boa noite!”, Francisco apressou-se a dizer à multidão que o dever do conclave era dar um bispo a Roma. Nunca a palavra “Papa” lhe saiu da boca nessa primeira saudação, embora tenha dito que compete à Igreja de Roma presidir na caridade a


TRABALHO INFANTIL IMPEDE CRISTÃOS DA SÍRIA CRIANÇAS DE FREQUENTAR A DIVIDIDOS ENTRE PARTIR ESCOLA NO MÉXICO OU MORRER Só no estado de Tamaulipas, México, mais de 76 mil Os cristãos sírios enfrentam um dilema dramático. crianças, entre os cinco e os 17 anos, estão sujeitas ao trabalho infantil. Regra geral, a maioria recebe abaixo do salário mínimo e 38 por cento não frequenta a escola. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, mais de 20 por cento ultrapassa as 34 horas semanais de trabalho. Esta situação desastrosa repete-se em todo o mundo, onde cerca de 215 milhões de crianças trabalham, muitas a tempo inteiro, sem terem a possibilidade de frequentar a escola ou divertir-se. A Organização Internacional do Trabalho destaca as péssimas condições em que vivem estas crianças. Mais de metade são obrigadas a trabalhar em ambientes perigosos, em zonas de conflitos armados, sob escravatura ou outras formas de trabalho forçado, envolvidas em atividades ilícitas e degradantes, como o tráfico de droga e a prostituição.

“Têm de escolher entre dois cálices amargos: partir ou morrer”, afirma o arcebispo maronita de Damasco, Samir Nassar. Numa Síria devastada pela guerra, onde a morte espreita milhões de civis indefesos, cristãos e muçulmanos pensam em fugir para escapar aos bombardeamentos e às privações de toda a ordem. “É um outro modo de morrer” mais lentamente, explica o arcebispo católico de rito oriental. Na sua fragilidade, “a Igreja local transforma-se num muro do choro”, onde todos acorrem, diariamente, “para pedir proteção e ajuda, à procura de um visto para poder partir”. Sentem-se “abandonados, condenados à morte sem poder fugir”, uma vez que “os consulados estão fechados há ano e meio”, queixa-se o arcebispo. Vivem mergulhados na angústia devido “à indiferença e ao silêncio mundial perante o seu longo e triste calvário”.

todas as Igrejas. Tive a sorte e a graça de estar presente na praça de São Pedro nessa feliz noite de 13 de março e, ao ouvir as suas palavras, não pude evitar de dizer cá para comigo mesmo: “Isto traz água no bico”. Um Papa que em primeiro lugar se apresenta como bispo e pastor, que procura o contacto com pobres, presos e doentes e que fala mais com o coração que com a boca, é um precioso exemplo para toda a Igreja à qual se apresenta como primaz na caridade mais que na autoridade. Um verdadeiro discípulo de São Francisco de Assis.

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a missão hoje

Luís Barbosa, o escuteiro mais velho do país, entrega prémio em concurso nos anos 80

NOVENTA ANOS A DAR SENTIDO À VIDA Numa altura em que o país atravessa uma crise económica, o Corpo Nacional de Escutas continua a crescer e a afirmar-se. São já mais de 72 mil os que integram o movimento e o ajudam a servir a juventude e a Igreja

anos. Num momento de crise económica e de algum pessimismo, o Corpo Nacional de Escutas (CNE) “tem vindo a crescer e a afirmar-se na sociedade” e continua a educar crianças e jovens “para o lado positivo da vida”, destacou Carlos Alberto Pereira, Chefe Nacional de Escutas.

texto JULIANA BATISTA foto DR

Para assinalar o aniversário da associação, será realizada, dia 26 de maio, uma missa de ação graças na Sé de Braga, cidade onde nasceu o movimento. À celebração seguir-se-á uma romagem ao túmulo

O maior movimento juvenil em Portugal, que reúne mais de 72 mil elementos, comemora este mês 90

Cremildo entusiasmado com entrada na escola profissional O jovem de 17 anos que se destacou num curso de formação promovido pelos Missionários da Consolata no Guiúa, Moçambique, já frequenta as aulas do curso profissional de alfaiataria e costura, na escola de Inhassoro. Cremildo Chauque está radiante e muito entusiasmado com a oportunidade que lhe foi oferecida pela 10


palavra de colaborador O maior movimento juvenil em Portugal, que reúne mais de 72 mil elementos, comemora este mês 90 anos. Num momento de crise económica e de algum pessimismo, o Corpo Nacional de Escutas “tem vindo a crescer e a afirmar-se na sociedade”

de Manuel Vieira de Matos, fundador da associação e antigo arcebispo de Braga. Luís Barbosa, o escuteiro mais antigo do CNE, com 85 anos, tenciona estar presente. Nascido a 25 de fevereiro de 1928, o escuta entrou para a associação aos dez anos de idade. “Devo muita da minha educação ao movimento, mas também dei tudo o que pude e vou continuar a retribuir”, referiu. Por isso, todos os sábados, Luís Barbosa desloca-se à sede da associação de Braga, cidade onde vive. Abandonar o escutismo devido à idade é algo em que não pensa. “Nem estou cansado, nem aborrecido com o movimento, e sempre que possa estou com eles”, disse. Luís Barbosa confessou que nutre “muito orgulho” pelo seu percurso no CNE, e que tem “muita” esperança e fé nos jovens portugueses. Mais informação em www.fatimamissionaria.pt

equipa da missão, que quis premiar o seu talento e empenho, financiando-lhe os estudos. Apesar de se encontrar fora de casa pela primeira vez, e a 400 quilómetros dos avós, com quem vive, Cremildo adaptou-se com facilidade a esta nova fase da sua vida, exibindo com orgulho o fardamento escolar.

“FAÇO-O COM TODO O GOSTO” texto e foto DARCI VILARINHO São palavras do nosso colaborador Luís Guerra, da Golpilheira, Batalha. Um homem de 67 anos cheios de juventude, que nos recebeu de braços abertos na sua casa, juntamente com a esposa, dona Piedade. É uma família feliz, com três filhos “felizmente todos empregados” e três netinhos. Colabora na paróquia, tal como a esposa, mas, diz ele, “onde me sinto mais realizado é neste trabalho a favor das missões”. Este ano até foi mais fácil a cobrança das assinaturas da FÁTIMA MISSIONÁRIA, graças também ao celebrante da Eucaristia. Monsenhor Luciano Guerra, antigo reitor do Santuário de Fátima, aceitou o convite e disse palavras de apoio, recordando também o padre João Monteiro, missionário da Consolata, no Brasil, natural desta localidade. “E tudo foi mais fácil”, diz este generoso colaborador, que mostra ter jeito para este serviço, porque “na cobrança, nunca pergunto se querem desistir, nem ponho a hipótese de não renovarem”. Mais: “Sinto-me realizado neste trabalho e dou o meu tempo por bem empregue”. Quando morre algum assinante, faz de tudo para que a assinatura continue com alguém da família. E tudo isto porque, no fim de contas, “é por uma causa nobre”, a causa missionária, conclui Luís Guerra, a quem a nossa revista agradece.

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a missão hoje

EXPERIÊNCIA COM RUMO “Mestre que hei de eu fazer?” Há mais de 20 séculos, um jovem questionou Jesus desta forma. Tantas gerações passadas e Cristo continua a ser a grande questão para todo o coração juvenil texto EDUARDO NOVO* foto DR Na sua mensagem para a 28ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que se realiza de 23 a 28 de julho, no Rio de Janeiro, Brasil, o Papa saiu ao encontro das inquietações do tempo presente para atualizar a resposta de Cristo a partir das palavras do próprio Jesus: “Ide e fazei discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19). Ao lançar à juventude dos cinco continentes este desafio, esta “urgente chamada”, Bento XVI antecipou-se na resposta convidando-os a viver uma experiência radical: “Deixai-vos amar por Cristo e sereis as testemunhas de que o mundo precisa”. A JMJ nasceu de um sonho, uma intuição profética do beato João Paulo II, que operou uma revolução no campo da pastoral juvenil. Em 1984, Ano Santo da Redenção, o Papa celebrou com os jovens em

Roma, na véspera do Domingo de Ramos, o chamado “Jubileu Internacional da Juventude” e entregou-lhes uma grande cruz de madeira. Mas foi em 1985 – proclamado pela ONU ano Internacional da Juventude – que um novo encontro em Roma com os jovens fez ganhar o nome de Jornada Mundial da Juventude. Desde aí, de três em três anos, milhões de jovens sentiram já a alegria de estar, de partilhar momentos de oração, de reflexão e união com outros jovens de todo o mundo e com o Papa, olhando juntos o futuro e renovando o seu próprio compromisso, abrindo caminho para uma nova maneira de ser cristão, “um cristianismo sorridente”. A participação na Jornada não é meramente turística ou cultural, é sobretudo uma caminhada de fé, uma peregrinação interior e por

Jornada Mundial da Juventude nasceu de um sonho profético de João Paulo II

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isso requer um corpo preparado e um coração aberto para as maravilhas que Deus tem reservado para cada um. São catequeses, testemunhos, partilhas, exemplos de amor ao próximo e à Igreja, festivais de música e atividades culturais que possibilitam o encontro com Deus, celebrando a festa da fé. Para o jovem que caminha para ser apóstolo confirmado na fé, e que a cada dia necessita ser cativado por Deus através de outros jovens e agentes de pastoral juvenil, a participação numa Jornada Mundial da Juventude torna-se um marco, uma oportunidade única de alimentar o dom da fé. Afinal a educação, a formação e construção da personalidade dos jovens passa também por este tipo de experiências de “tocar o desconhecido” para que, na alegria do encontro com Deus, se tornem mensageiros dessa alegria e missionários da nova evangelização. * Diretor do Departamento Nacional da Pastoral Juvenil texto conjunto MissãoPress


destaque

Combate ao sequestro de navios passa pela consolidação do Estado na Somália

PIRATARIA NA SOMÁLIA EXIGE MUDANÇA DE ESTRATÉGIA A luta mundial contra a pirataria na Somália tem-se centrado na perseguição dos piratas e na mobilização das forças navais. Mas para chegar à raiz do problema é preciso ajudar o país a ganhar estabilidade política e fazer com que os sequestros sejam menos rentáveis texto FRANCISCO PEDRO foto LUSA “Perseguir o sistema e não apenas os piratas”. Esta é a principal conclusão de um estudo do Departamento de Pesquisa do Banco Mundial sobre os efeitos da pirataria na Somália, na economia nacional e internacional. Até agora os esforços no combate ao sequestro de navios no Corno

de África têm-se centrado na perseguição dos piratas e no reforço da vigilância naval. Mas o autor da investigação, Quy-Toan Do, defende uma mudança de paradigma, em que o foco da atenção passe a estar em quem torna possível a pirataria e não tanto nos responsáveis por esta atividade. É que, para o economista, os atos de extorsão são “um sintoma do colapso do sistema político na Somália”. Segundo Toan Do, há três elementos essenciais na génese dos ataques: o capital político, os recursos humanos e os recursos financeiros. A competição entre clãs, a par da colonização europeia, deixaram muitas áreas sem instituições que funcionem de modo adequado, e isso tem permitido aos piratas o recrutamento de jovens locais, a compra de lanchas rápidas e, o mais importante, o controlo de zonas costeiras onde podem ancorar as embarcações sequestradas durante meses ou anos.

atingido os 293 milhões de euros. E os efeitos da pirataria no comércio apresentam um custo global anual de cerca de 13 mil milhões de euros, pois obrigam as operadoras a mudar de rotas, a gastar mais em combustível e a pagar prémios de seguro mais elevados. Para atacar este problema, Quy-Toan Do propõe que se comece pela consolidação do Estado na Somália, identificando melhor a forma de funcionar da economia política da distribuição dos recursos, para se compensar os ganhadores e punir os perdedores. Ou seja, sugere, entre outra medidas, a atribuição de incentivos às autoridades locais que aceitem reduzir as zonas costeiras disponíveis para receberem barcos sequestrados. Só assim os crimes de extorsão se tornariam menos rentáveis para os piratas.

Incentivos locais

Entre 2005 e 2012, calcula-se que mais de 3.740 membros da tripulação de 125 países foram vítimas de piratas somalis, e pelo menos 97 morreram. O valor dos resgates obtidos nesse período terá Maio 2013

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atualidade

NATALIDADE Família de Óbidos contraria estatísticas

“FILHOS NÃO SÃO OBSTÁCULO À FELICIDADE” Portugal está em acelerado declínio demográfico. O número de nascimentos em 2012 foi o mais baixo dos últimos 60 anos e a incerteza do futuro está a deixar cada vez mais famílias órfãs de filhos. Mas ainda há casais a remar contra a maré. É uma opção difícil? “Sim, mas muito compensadora”, assegura Sandra Santos, que já deu à luz cinco vezes texto FRANCISCO PEDRO foto ANA PAULA

Os cinco filhos do casal Santos são uma bênção e não um obstáculo à felicidade

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Os cortes no aquecimento, nas saídas e na dieta alimentar já se fazem sentir em casa da família Santos, em Óbidos, mas até agora, apesar de se apresentar severa e impiedosa, a austeridade não conseguiu enfraquecer o aroma de felicidade, de esperança e de união, que se respira em cada divisão da moradia. “Desde que haja roupa limpa, comida na mesa e saúde, já é suficiente”, diz Sandra, 39 anos, enfermeira de profissão e mãe por vocação. Numa altura em que a Europa


vive um dos piores momentos em matéria de natalidade, sobretudo nos países assolados pelos efeitos do garrote económico, Portugal incluído, começam a ser cada vez menos as famílias que arriscam ter um filho, quanto mais dois ou três. Pois bem, Paulo e Sandra Santos têm cinco e não se mostram nada arrependidos. É verdade que sentem o sufoco dos impostos a subir, que se têm visto obrigados a reajustamentos constantes do orçamento familiar, que deixaram de comer peixe com a frequência desejada e que já pensam em procurar emprego no estrangeiro. Mas se os convidassem a embarcar na máquina do tempo, voltavam a escolher exatamente o mesmo percurso. “Ter estes filhos é a nossa maior bênção”, afirma, olhos nos olhos, Paulo Santos, 46 anos, oficial da Força Aérea Portuguesa.

Emigrar para sobreviver

O casal conheceu-se nas festas de verão de A-da-Gorda, Óbidos. Após um namoro de nove meses, veio o casamento. Antes do juramento de fidelidade, Paulo gracejava que um dia haviam de ter quatro filhos. Sonhava com uma família alargada, como as que via nos filmes, nos seus tempos de infância. A realidade “superou a brincadeira”. Sandra deu à luz por cinco vezes. Primeiro veio o Francisco (agora com 18 anos), depois a Maria (13), o Tomás (9), o André (4) e a Constança, que tem apenas um ano. A nível familiar, a “máquina” está perfeitamente oleada. O dia começa às 06h30, com o despertar, e termina por volta das 21h00, depois do jantar, e de se trocarem impressões sobre as venturas e desventuras do quotidiano, sem a televisão a interferir nos diálogos.

Há muita autonomia e, sempre que necessário, os mais velhos ajudam os mais novos. O problema maior, agora que a crise aperta, prende-se com as dificuldades orçamentais. O casal perdeu 35 por cento do rendimento em dois anos, fruto dos cortes na função pública, teve que abdicar do aquecimento central, suspender algumas atividades extracurriculares dos filhos, e pondera seriamente emigrar ou trocar a casa por um apartamento, para fazer face às despesas. Paulo, à semelhança do que acontece com

O casal perdeu 35 por cento do rendimento em dois anos, fruto dos cortes na função pública, teve que abdicar do aquecimento central, suspender algumas atividades extracurriculares dos filhos, e pondera seriamente emigrar ou trocar a casa por um apartamento, para fazer face às despesas

Exemplos que vêm de fora

A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), de que Paulo e Sandra fazem parte, conta atualmente com 5.000 famílias associadas – a mais numerosa integra 17 filhos e vive em Proença-a-Nova. A APFN tem como principal missão a “defesa dos legítimos interesses das famílias numerosas, designadamente em matéria fiscal, de habitação, saúde e

muitos dos portugueses, sente uma enorme tristeza pelo estado a que chegou o país. “Se nada se alterar não sabemos como vai ser”, afirma o militar, lamentando a falta de apoios às famílias, sobretudo às mais numerosas. “Não peço benefícios especiais, apenas que considerem o rendimento ‘per capita’ para efeitos de imposto”, em vez do atual sistema que se baseia nos rendimentos do casal. Apesar das dificuldades, Paulo Santos mantém a opinião de que “os filhos não são obstáculo à felicidade”. No entanto, adverte que se não forem tomadas medidas urgentes “há muita gente que gostava de ter filhos e acaba por não ter”. Uma opção que “vamos pagar muito caro nas futuras gerações”.

educação”. E foi das primeiras a aplaudir a recente medida do governo, que pretende incentivar a natalidade utilizando fundos comunitários para compensar os pais que queiram trabalhar a tempo parcial. Ainda assim, este incentivo fica muito aquém do que têm feito países como a França, Alemanha e Suécia, onde são oferecidos subsídios mensais, longas licenças de maternidade e cuidados gratuitos para as crianças.

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atualidade

COOPERAÇÃO Potências emergentes querem combater pobreza

METADE DA HUMANIDADE EXIGE MAIS DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA Cinco líderes das potências emergentes reuniram-se na África do Sul para reforçar a cooperação de modo a pôr em causa um sistema internacional que favorece a América Anglo-Saxónica e a Europa Ocidental. Representam 43 por cento da população do planeta, mas apenas 21 por cento da riqueza mundial. Exigem que a porção para os seus povos seja maior texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* foto LUSA Os quatro homens e a mulher que juntam as mãos e sorriem para os fotógrafos representam 43 por cento da população mundial. Ela é a brasileira Dilma Roussef, eles são o russo Vladimir Putin, o indiano Manmohan Singh, o chinês Xi Jinping e o sul-africano Jacob Zuma. Se somarmos as iniciais dos nomes dos seus países dá a sigla BRICS, com o S a ser da designação em inglês da África do Sul, o mais recente membro deste grupo de potências emergentes e anfitrião da cimeira que teve lugar em Durban no final de março. Para se perceber a motivação dos BRICS é vital olhar para outra percentagem: os cinco países representam ainda apenas 21 por cento da riqueza global, o que significa que os seus povos são bem mais pobres que os da Europa Ocidental ou da América Anglo-Saxónica. Ora, em Durban discutiram-se formas de ultrapassar injustiças, com a hipótese de um novo banco capaz de competir com o Banco Mundial a ser levada muito a sério. A convicção entre os líderes presentes é que tanto o Banco Mundial como o Fundo Monetário 16

Internacional, ambos nascidos dos Acordos de Bretton Woods, no final da Segunda Guerra Mundial, refletem sobretudo os interesses dos Estados Unidos e seus aliados da União Europeia. Aliás, são um americano e uma francesa que lideram as duas instituições, tendo falhado até agora todas as tentativas para fazer eleger para qualquer dos cargos alguém do mundo em desenvolvimento. Se avançar, o novo banco será dotado de 50 mil milhões de

Gente de armas

Estava lá um ex-agente do KGB (Putin), um guerrilheiro anti-Apartheid (Zuma), uma opositora da ditadura militar que foi presa e torturada (Dilma), o filho de um combatente das fileiras de Mao Tsé-tung (Xi) e ainda alguém que adolescente fugiu com a família para o lado certo da fronteira, evitando ser mais uma vítima dos massacres que

dólares, com cada um dos BRICS a contribuir com somas idênticas. Pode parecer pouco para o financiamento de infraestruturas em cinco países tão vastos, onde faltam estradas, ferrovias e redes de distribuição de eletricidade, mas mesmo assim é bastante mais do que o que o Banco Mundial se comprometeu em investir. As mãos juntas e o sorriso da foto de família no final da cimeira não devem, no entanto, fazer esquecer que os BRICS apresentam muitas diferenças entre si, tanto em dinamismo económico como em protagonismo diplomático. Se era a Rússia até há duas décadas (na versão soviética) que fazia papel de segunda superpotência, é a China agora que emerge como principal rival dos Estados Unidos, sendo provável até que se torne a primeira economia mundial algures nos próximos dez anos. No ranking das grandes economias, os cinco elementos dos BRICS ocupam o segundo lugar (China), o sétimo (Brasil), o nono (Rússia), o décimo (Índia) e o 29º (África do Sul). E se a posição sul-africana

acompanharam a divisão da Índia britânica (Singh). Passados de peso, mas que não isentam estes líderes de críticas: Putin tem tiques de czar, Zuma está longe de ser um Nelson Mandela, Dilma tem de ser mais lesta a livrar-se dos corruptos, Xi lidera um regime de partido único e Singh não consegue deixar de ser visto como uma criação de Sonia Gandhi.


Os líderes de cinco países emergentes estiveram reunidos na África do Sul

parece modesta, há que recordar que se trata da maior economia do continente, muito longe até da superpopulosa Nigéria. O reforço das relações bilaterais é outra das formas que as potências emergentes estão a explorar para tornar as relações internacionais mais equilibradas, como o mostra o acordo entre a China e o Brasil para que as suas trocas comerciais sejam em yuans e reais, pondo de lado o tradicional dólar. E poucos dias antes da cimeira de Durban, o novo Presidente chinês escolheu a Rússia como seu primeiro destino, assinando projetos de cooperação que visam, sobretudo, garantir o acesso do seu país ao gás e petróleo siberianos. Do ponto de vista político, destaca-se a posição dos líderes dos BRICS em relação à guerra civil na Síria,

recusando uma condenação do regime de Bashar al-Assad e apelando antes a conversações, o que contrasta com a atitude americana e das maioria da nações europeias. Também na questão do nuclear iraniano, os cinco países insistem no direito da república islâmica a dotar-se de energia

OS BRICS EM NÚMEROS PAÍS POPULACÃO

nuclear desde que para fins civis, o que significa outra divergência com a posição oficial de americanos e europeus ocidentais. * jornalista do DN

PIB* CRESCIMENTO 2013**

China

1340 milhões

6,4 biliões

8,2 por cento

Brasil

196 milhões

1,9 biliões

3,5 por cento

Rússia

142 milhões

1,5 biliões

3,7 por cento

Índia

1240 milhões

1,5 biliões

5,9 por cento

África do Sul

53 milhões

303 milhões

2,8 por cento

* dólares **previsão Fonte: El País Maio 2013

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dossier

FÁTIMA Mensagem universal

O MUNDO AOS PÉS DE MARIA O culto a Nossa Senhora de Fátima não tem fronteiras. A prova está nos arquivos do santuário, onde repousam milhares de documentos que nos levam até uma pequena paróquia perto de Pequim, na China, ou nos remetem para o Everest, o pico mais alto do planeta. Uma devoção universal que não passou ao lado do Papa Francisco texto FRANCISCO PEDRO fotos ANA PAULA e FRANCISCO PEDRO Antes de entrarmos a fundo no espólio documental da Cova da Iria, vale a pena dar um salto à terra dos índios Warao, nos confins do Delta Amacuro, na Venezuela, para se ficar já com uma ideia da universalidade da mensagem de Fátima. A viagem até Nabasanuka (não vale a pena procurar porque 18

não vem no mapa) demora no mínimo seis horas de barco a motor. Sai-se de Tucupita, o último aglomerado urbano antes da densa mancha florestal, e segue-se por um gigantesco labirinto de ribeiros e canais que serpenteia pela selva, em direção ao Oceano Atlântico. A pequena aldeia indígena fica do

lado direito de quem chega, um bom bocado antes de se avistar o mar. Tem pouco mais de duas dezenas de casas em madeira assentes em estacas, a maioria construídas com tábuas e chapas de zinco. O ‘mobiliário’ resume-se, salvo raras exceções, a meia dúzia de tachos e panelas e às redes para dormir. Entrando no povoado e cortando à esquerda, no único trilho a que se pode chamar caminho, chega-se com facilidade a casa de Quintiliana Garcia, de 61 anos. No tapume principal da barraca, a surpresa. Ao lado de dois terços, pendurados num prego, vislumbram-se dois postais, pintados à mão, com a imagem da Nossa Senhora de Fátima e dos três pastorinhos. É verdade, neste local,


Quintiliana Garcia reza todos os dias a Nossa Senhora, nos confins da selva

a que muitos chamariam de ‘fim do mundo’, também há uma enorme devoção pela Virgem Maria. “Foi Deus que a guiou até nós, é a nossa mãe e eu gosto muito dela”, justifica-se Quintiliana. A seu lado, o marido, pele acastanhada pelo sol, acena com a cabeça em sinal de aprovação.

Mais de 6.000 registos

Pequenos gestos de veneração, como o de Quintiliana Garcia, dificilmente chegam ao conhecimento do Santuário de Fátima. Mas são bem o exemplo da dimensão da universalidade da mensagem anunciada aos três videntes, únicas testemunhas das aparições de 1917, na Cova da Iria. E se dúvidas existissem, elas dissipar-se-iam perante os milhares de documentos guardados nos

arquivos do Serviço de Estudos e Difusão (SED) do Santuário, com testemunhos de manifestações dedicadas a Nossa Senhora de Fátima por esse mundo fora. Entre santuários, paróquias, igrejas, escolas, universidades, institutos, hospitais, altares e até empresas, são mais de 6.000 os exemplos já registados e documentados pelo

departamento dirigido pelo padre Luciano Cristino. Do pico Everest, a montanha mais alta do mundo, ao Kilimanjaro, o ponto mais alto de África. Da cidade mais populosa da Austrália (Sidney) à província do povo Zulu, na África do Sul, da Ilha das Flores, na Indonésia, aos arquipélagos mais remotos dos grandes mares, há uma

A difusão da mensagem de Fátima pelos quatro quantos do mundo remonta aos inícios do segundo quartel do século XX. Mas o verdadeiro impulso à disseminação do culto mariano começa em 1947, com o início da peregrinação da imagem de Nossa Senhora, sobretudo pelos países atingidos pela grande guerra

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referência à Nossa Senhora de Fátima ou uma imagem da Virgem onde menos se espera ou se imagina. Na opinião de António Marto, bispo da diocese Leiria-Fátima, a força que impulsiona tamanha devoção está na essência da própria mensagem. “Porque foi uma mensagem de misericórdia da parte de Deus” para um mundo em guerra e para uma Igreja “que era perseguida e corria o risco de ser aniquilada por um ateísmo programado”. Um chamamento à conversão que viria, aliás, a ser atualizado por Bento XVI, na sua deslocação a Portugal, em 2010, quando afirmou em Fátima que “o maior inimigo da Igreja não são os que estão de fora, mas o pecado dentro da própria Igreja”, recorda o prelado.

Virgem peregrina

A difusão da mensagem de Fátima pelos quatro quantos do mundo

remonta aos inícios do segundo quartel do século XX. Mas o verdadeiro impulso à disseminação do culto mariano começa em 1947, com o início da peregrinação da imagem de Nossa Senhora, sobretudo pelos países atingidos pela grande guerra. Os fiéis reviam-se na “grande mensagem de paz e de esperança para a humanidade” e foi por causa deles que a imagem peregrina passou a integrar celebrações religiosas em todo o planeta. “Foram duas senhoras que fizeram a proposta ao bispo. E como sempre, a hierarquia pôs as suas objeções, as suas relutâncias, uma delas relacionadas com as despesas. Elas responderam: Senhor bispo, se Nossa Senhora quiser ir, o dinheiro aparece. Se o dinheiro não aparecer, é sinal que não quer ir”, revela António Marto. Daí em diante, a imagem

peregrina “nunca mais parou”. E o culto não se fica apenas pelas bases. Nos nossos tempos, o Papa João Paulo II ajoelhou-se três vezes aos pés de Maria, na Cova da Iria, Bento XVI marcou presença num dos aniversários da beatificação dos videntes Francisco e Jacinta Marto e o Papa Francisco, pouco depois de ser eleito, pediu por duas vezes ao cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, que consagrasse o seu ministério a Nossa Senhora de Fátima. O pedido vai ser cumprido a 13 de maio.

O Papa João Paulo II ajoelhou-se três vezes aos pés de Maria, na Cova da Iria, Bento XVI marcou presença num dos aniversários da beatificação dos videntes Francisco e Jacinta Marto e o Papa Francisco, pouco depois de ser eleito, pediu por duas vezes ao cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, que consagrasse o seu ministério a Nossa Senhora de Fátima

Saiba mais  

45,3 milhões de referências são geradas pelo Google, um dos principais motores de busca da internet, quando se pesquisa a palavra Nossa Senhora de Fátima. Em inglês, este número ultrapassa os 25 milhões   268 santuários têm o nome de Nossa Senhora de Fátima. O Brasil é que tem mais (41), seguido da Itália (35) e dos Estados Unidos da América (29). Na Índia há 13 e até no Sri Lanka existem oito templos dedicados à Virgem Maria 20

SÍMBOLO DE ESPERANÇA NA COLÔMBIA Existem situações da vida que

podem ser consideradas acidentais, mas do ponto de vista da fé, sabemos que são providenciais. As aparições de Fátima deram-se num momento muito difícil, não só para Portugal mas também para toda a Europa: havia guerra e falta de esperança, e a paz era um desejo e um desafio muito forte. A Virgem Maria apareceu a três humildes pastorinhos. O relato dos acontecimentos reforça a ligação ao que se passa com o povo de Puerto Ospina, na Colômbia. Este povo encontra-se num território que outrora foi dominado pelo narcotráfico e agora vive na

própria carne o conflito armado: afetado por minas, deslocamento forçado, por pressão do exército ou da guerrilha. Num território amazónico tão rico, as pessoas são pobres porque não podem viver em paz. É aí que entra a Nossa Senhora de Fátima, a padroeira deste povo e a única que não os abandona. A esperança em Deus e a fé em Maria dá-lhes força para continuarem a sonhar com um futuro melhor. Antonio Benítez


Procissão com a imagem da Virgem Maria, em Marandallah, na Costa do Marfim

CRUZAMENTO DE CREDOS E CULTURAS Cada Virgem de Fátima, lá onde ela se encontre, será certamente única, diferente, particular. Com a nossa, em Marandallah, na Costa do Marfim, essa diferença existe e, justamente por isso, ela é nossa. Pertence, por seu desejo pessoal, a um povo de misturas onde se cruzam culturas, povos e credos

IMAGEM CHEGOU PELO CORREIO A igreja paroquial de Mecanhelas, na diocese de Lichinga, em Moçambique, é consagrada a Nossa Senhora de Fátima e foi inaugurada a 13 de maio de 1967. A região tem uma alta percentagem de católicos e o culto a Nossa Senhora é muito vivo. A festa da Padroeira, celebrada a 13 de maio, é muito concorrida e sentida. A imagem é levada em procissão, atravessando

numa sinfonia exuberante em que o coração é mestre. A singularidade da Virgem de Fátima de Marandallah é que ela não é uma pequena estátua encastrada numa árvore imensa no centro do “jardim da amizade”, mas é a amizade mesmo. Amizade de mãe e de amiga. Passeia-se pelas ruas, envolve-se com as crianças, multiplica-se nos sorrisos, carícias, cantos e danças. Para compreender esta nossa mãe, é necessário ter a coragem que ela teve: visitar-nos. Podem-se

acender velas e entoar cânticos, formular preces e improvisar agradecimentos. Mas se diante desta mãe fecharmos os olhos e guardarmos silêncio, escutaremos através da infinidade de passarinhos que formam o coro do jardim da amizade uma voz terna e suave a dizer-nos: “Amo-te como só Deus te pode amar”. João Nascimento

as ruas da pequena vila situada nas margens do lago Chirwa. Por desejo das comunidades cristãs, Nossa Senhora visita todas as suas capelas, durante o mês de maio. Um dia, verificando que a imagem era demasiado grande e frágil para aguentar por picadas esburacadas, expus esta dificuldade a uma prima, que vive em Portugal. Ela surpreendeu-nos, enviando uma imagem suficientemente robusta para aguentar as deslocações até aos lugares mais distantes. Entretanto, em 2002 foi criada a

paróquia de Nossa Senhora Mãe da Igreja de Entre-Lagos. Como o Santuário de Mecanhelas já tinha imagem, a Virgem de Fátima vinda por correio foi oferecida à nova igreja de Entre-Lagos com o compromisso de emprestá-la durante o mês de maio aos católicos de Mecanhelas para a peregrinação anual pelas comunidades. Diamantino Antunes

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gente nova em missão

MAIO, MÊS DE MARIA “Não tenhas medo” da Palavra de Deus

ESPERANÇA E CONFIANÇA! Olá amiguinhos! Que alegria é partilhar convosco o mês de maio dedicado a Maria, nossa Mãe. “Não tenhais medo” é o tema deste ano pastoral no Santuário de Fátima, no âmbito das comemorações do centenário das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos. E haverá expressão mais apaziguadora para o nosso coração que esta? texto CLÁUDIA FEIJÃO ilustrações RICARDO NETO Na história da salvação, o Povo de Deus viveu momentos de sofrimento. Mas o Senhor sempre o acompanhou servindo-se de pessoas simples que Nele depositaram a sua esperança para alcançarem a felicidade. Ao longo da Bíblia encontramos a expressão “não tenhas medo” como forma de acalmar os corações inquietos, motivando os protagonistas a terem confiança em Deus. Assim aconteceu com Maria quando o anjo Gabriel surgiu para lhe anunciar que ela seria a mãe do Filho de Deus: “O anjo, então, disse: “Não tenhas medo, Maria! Encontraste graça junto a Deus”. (Lc 1, 30). Ouvindo tudo o que o anjo lhe anunciou, Maria confiou no Senhor e colocou-se em suas mãos: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra”. (Lc 1, 38). Maria viveu esta confiança em Deus não só no momento da anunciação mas em toda a sua vida com 22

Jesus, sendo o momento mais significativo a crucificação cujo sofrimento culminou com alegria da ressurreição.


“SÓ TÊM MEDO OS QUE PENSAM QUE ESTÃO SÓS” Quando em 1917 Nossa Senhora apareceu aos pastorinhos, os católicos eram perseguidos por movimentos anti-cristãos. Lúcia, Jacinta e Francisco, foram três crianças humildes e de coração puro que confiaram na “Senhora mais brilhante que o Sol”. E sem qualquer hesitação, ofereceram-se a Deus suportando sofrimentos para a reparação dos pecados e para a conversão dos pecadores. “O meu Imaculado Coração será o teu refúgio, o caminho que te conduzirá a Deus”, foram as palavras de Nossa Senhora para Lúcia dando-lhe alento e confiança para o longo caminho que ela iria percorrer.

dar uma palavra ou ter um gesto de consolo. “Só têm medo os que pensam que estão sós” (Santa Catarina de Sena). Digamos como Maria “Eis-me aqui!” e, como os pastorinhos, coloquemo-nos ao serviço dos outros. Transmitamos com as nossas orações e obras de amor a esperança e confiança no Senhor, para que quem anda triste sinta no seu coração a consolação da Mãe e a paz e o amor do Pai.

Atualmente também vivemos tempos difíceis. Porém, como membros do povo de Deus não tememos porque confiamos no Senhor, ouvimos no nosso coração a Sua voz que diz “não tenhas medo”. Vivemos na esperança do amanhã melhor. Mas para isso acontecer é necessário agir! Como? Com algo que é gratuito para quem dá e para quem recebe, e que a ambos enriquece: o amor ao próximo. Quando? Sempre. Onde? Em qualquer lugar, principalmente onde seja necessário ajudar o outro,

MOMENTO DE ORAÇÃO Obrigado Mãe Santíssima pelo teu colo consolador. Intercede junto do Pai para que nos faça instrumentos da esperança e do amor. E como os pastorinhos, oferecemos-Te os nossos sofrimentos e as nossas orações pelos que não crêem, não adoram, não esperam, e não O amam. Ave Maria …

Digamos como Maria “Eis-me aqui!” e, como os pastorinhos, coloquemo-nos ao serviço dos outros. Transmitamos com as nossas orações e obras de amor a esperança e confiança no Senhor, para que quem anda triste sinta no seu coração a consolação da Mãe e a paz e o amor do Pai Maio 2013

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tempo jovem

A ESCOLA DO SACRIFÍCIO Tenho ouvido dizer, por vezes, que os jovens de hoje não gostam ou não sabem fazer sacrifícios. Confesso que também eu tenho alinhado neste tipo de observações e comentários. Mas a passada Semana Santa trouxe-me uma bela surpresa. Nem sempre a nossa mente e o nosso coração sabem apreciar o que há de “bem, belo e bom” nas pessoas com quem nos relacionamos. É bom descobrir que ainda temos tanto que aprender e muito para caminhar texto MAURÍCIO GUEVARA foto ANA PAULA Neste ano, foram quase 30 os jovens que decidiram viver uma Páscoa diferente, numa terra chamada Proença-a-Nova, fora das suas zonas de conforto e dispostos a viver um desafio totalmente desconhecido. De facto, se por acaso ainda não o sabes, cada dia que começa apresenta-se sempre totalmente novo para ser descoberto e intenso para ser vivido. Metade do grupo – quase todos universitários – caminhou durante três dias (mais de 100 quilómetros) para chegar a Proença. Apesar da logística estar “quase” toda calculada ao milímetro, tiveram a visita imprevista de dois “amigos” que costumam tornar-se muito importunos quando se quer andar a sério: a chuva e o vento. Não foi 24

nada fácil. A vontade de desistir, as dores que não acabavam, as lágrimas misturadas com o suor e a chuva, foram os sentimentos e sensações que predominaram nos corações daqueles que, neste desafio, demonstraram autoconfiança desmedida e orgulho acrescentado. “Grande lição de humildade!”, foi a expressão que brotou dos lábios de uma jovem missionária, a qual pensava que o trajeto da vida se fazia num abrir e fechar de olhos. Caminhar implicou um grande sacrifício que os levou a experimentar a dor e o cansaço até ao extremo. Graças a Deus, todos conseguiram chegar à meta. No final, reconheceram que o importante não é correr, mas sim chegar. Assumiram que as metas atingem-se melhor quando nos deixamos ajudar por alguém e descobriram que caminhar na vida implica muito sacrifício que, aceite com liberdade e tranquilidade, nos torna, com o tempo, mais fortes e mais seguros de nós próprios. A outra metade do grupo que já se encontrava em Proença também teve a oportunidade de descobrir no sacrifício uma escola para a vida. A privação das coisas de que mais se gosta e o mergulho no silêncio profundo deram aos 15 jovens as pistas para encontrar no sacrifício as razões fundamentais do amor

e da entrega sem limites daqueles que decidem servir os outros sem pedir nada em troca. Amar dói, mas “morrer por ser preciso e nunca por chegar ao fim”, como diz a Mafalda Veiga, é a máxima expressão de felicidade para quem se aventura a fazer dos instantes da vida algo sagrado. Grande lição de sacrifício me ensinaram os jovens nesta Páscoa! Se por acaso não sabias, é muito interessante conheceres a origem da palavra “sacrifício”. Nem sempre usamos esta palavra em sentido positivo. Geralmente, ligamo-la à dor ou à perda de alguém ou de alguma coisa. Na verdade, dentro da palavra “sacrifício” encontram-se escondidas duas palavras latinas “sacrum” + “facere”, isto é, tornar sagrados os nossos atos. A abnegação com que fazemos as coisas dá um carácter sagrado às nossas ações.

Amar dói, mas “morrer por ser preciso e nunca por chegar ao fim”, como diz a Mafalda Veiga, é a máxima expressão de felicidade para quem se aventura a fazer dos instantes da vida algo sagrado. Grande lição de sacrifício me ensinaram os jovens nesta Páscoa!


NO FINAL, RECONHECERAM QUE O IMPORTANTE NÃO É CORRER, MAS SIM CHEGAR Maio 2013

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sementes do reino

ESPÍRITO PARA A MISSÃO A vinda do Espírito Santo sobre os discípulos transforma-os numa nova comunidade. Assim animados e transformados, são enviados ao mundo para que conheça esta vida nova texto PATRICK SILVA foto ANA PAULA

Leio a Palavra

Jo 20,19-23 A caminhada dos discípulos com Jesus foi marcada pela incompreensão. Sem Ele, os discípulos sentem-se desamparados. São João sublinha estes sentimentos através de alguns elementos presentes neste texto, tais como o “anoitecer”, “as portas fechadas” e “o medo”, que revelam um certo desorientamento. Jesus, ao aparecer no meio deles, tudo transforma. O medo dará lugar à alegria do reencontro. E será o dom da paz que irá fortalecer estes laços. Jesus quer que a paz esteja no meio deles. É o “shalom” hebraico que significa, mais do que uma ausência de conflitos, sintonia e união viva com Jesus. Jesus mostra, logo a seguir, os sinais da cruz, que são a prova da Sua entrega total e o sinal do amor radical do Pai para com todas as pessoas. A ressurreição não “apaga” a cruz, mas coloca-a num degrau superior. Por fim, Jesus sopra sobre os seus discípulos. Revestidos por este Espírito, podem agora ser enviados em missão, tal como Jesus foi enviado pelo Pai.

Saboreio a Palavra

O medo é algo que bloqueia e impede de viver plenamente a nossa vida. Em Jesus não há medo. É Ele que oferece o “shalom”, a paz, a serenidade e a tranquilidade. Mas 26

Para saber se estou a ser missionário, posso perguntar-me: “Quando foi a última vez que falei de Deus?” vai ainda mais longe ao oferecer o Espírito. O gesto de soprar sobre os discípulos recorda o momento da criação no livro do Génesis, onde o sopro de Deus torna aquele pequeno pedaço de pó num ser vivente. Agora os discípulos têm uma nova vida.

Rezo a Palavra

Ore com o salmo 30 (29): é um canto de louvor ao Senhor que nos enviou do alto uma vida nova no Espírito Santo.

Vivo a Palavra

A vinda do Espírito Santo sobre os discípulos é o momento marcante da sua missão. Esta força vinda do alto envia os discípulos pelo mundo inteiro para anunciarem

a Boa-Nova de Jesus. A missão dos discípulos é cancelar os pecados, convidando cada pessoa a reconhecer o amor incondicional de Deus. Rejeitar essa proposta é permanecer no pecado, isto é, no egoísmo que leva à morte. Aderir é ser parte da comunidade que vive uma nova vida em Jesus. Esta Palavra tem efeitos práticos. O cristão é convidado a ir e a anunciar esta nova vida. Não o fazer é trair a missão dada por Jesus. Alguns são convidados a irem onde ainda não se conhece Jesus, mas todos devem ser missionários, mesmo na sua terra ou na sua casa. Para saber se estou a ser missionário, posso perguntar-me: “Quando foi a última vez que falei de Deus?”.


intenção missionária

A PALAVRA FAZ-SE MISSÃO 05 6º Domingo da Páscoa

At 15, 1-2.22-29; Ap 21, 10-14.22-23; Jo 14, 23-29 ARRUMAR A CASA “Não se perturbe o vosso coração”. Demasiado perturbados e projetados no exterior, não nos apercebemos que temos uma vida interior capaz de arrumar a nossa casa e dar solidez ao nosso caminho. “Quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele”. É Ele que faz de nós a sua casa. Um coração assim, possuído de Deus, vive na paz e na alegria. É missionário quem constrói esta morada de Deus entre os homens, difundindo a sua paz. Console-nos a certeza, Senhor, de que vives no coração da humanidade e dentro de cada um de nós.

12 Ascensão do Senhor

At 1, 1-11; Ef 1, 17-23; Lc 24, 46-53 IDE POR TODO O MUNDO Sobe aos céus o nosso redentor. Cumpre-se a sua promessa de nos introduzir a todos no seio da Santíssima Trindade. “Eu vos levarei comigo para que, onde Eu estiver, estejais vós também”. Mas por enquanto ficamos para continuar a sua obra: “Ide por todo o mundo e anunciai o Evangelho a toda a criatura”. A Igreja existe para comunicar o Evangelho, promover ascensões e levar a humanidade à plenitude do conhecimento de Deus. Qual o meu lugar nesta tarefa imensa? Incute em mim, Senhor, a paixão pelo anúncio do teu Reino a todos os povos.

19 Festa de Pentecostes

MAIO

At 2, 1-11; 1Cor 12, 3-13; Jo 20, 19-23 É O ESPÍRITO DA NOSSA MISSÃO A descida do Espírito Santo inaugura o tempo da Igreja. Celebramos a nova aliança de Deus com a sua Igreja. Paira sobre nós o Espírito renovador que vem recompor a face da terra. É Ele que vivifica a Igreja. É o Espírito animador da comunidade dos discípulos de Jesus em permanente missão. É o fogo divino que incendeia o coração dos apóstolos e os torna destemidos anunciadores de Jesus ressuscitado. “Vem, Espírito Santo, vem amor ardente, e acende na terra a tua luz fulgente”.

26 Festa da Santíssima Trindade

Prov 8, 22-31; Rom 5, 1-5; Jo 16, 12-15 LAÇOS SAGRADOS A Santíssima Trindade é mistério para viver em cada relação que continuamente tecemos. Somos feitos uns para os outros numa dependência sagrada e vital. Ninguém foi criado para viver isolado. Não! Deus criou-nos à sua imagem para que circule em nós a mesma seiva divina. A minha família, o meu grupo, a minha comunidade, só os posso entender como espaço de relações trinitárias, em permanente acolhimento daquilo que cada um tem para dar. A consciência de que somos tua morada, Trindade Santíssima, reforce os laços da nossa unidade e nos construa no mútuo respeito e amor. DV

Para que os seminaristas, especialmente das Igrejas de missão, sejam pastores segundo o coração de Cristo, inteiramente dedicados ao anúncio do Evangelho

À imagem do Bom Pastor “Dar-vos-ei pastores segundo o

Meu coração”. São palavras do profeta Jeremias (3, 15). Deus promete ao seu povo que jamais o deixará privado de pastores que o reúnam e guiem. A intenção missionária deste mês projeta-se num futuro próximo. Reza-se para que os candidatos ao ministério sacerdotal sejam amanhã pastores que, à imagem do coração de Cristo, se dediquem inteiramente ao anúncio da Boa-Nova. Ainda não são pastores, mas já devem ter o coração de pastores. Aplica-se a toda a Igreja, mas particularmente às comunidades dos territórios de missão, onde, felizmente, a Igreja vai tendo um maior número de vocações. A formação dos futuros sacerdotes, tanto diocesanos como religiosos, e o assíduo cuidado em vista da sua santificação pessoal e a atualização constante no seu empenho pastoral, é uma das tarefas de maior importância para o futuro da evangelização da humanidade. Ser pastores segundo o coração de Cristo é viver, como Ele, pobres, felizes, despojados, ousados, próximos e dedicados. É ter “o cheiro das ovelhas”, vivendo com elas e para elas. DV

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o que se escreve

ANO DA FÉ

ÚLTIMAS CATEQUESES DE BENTO XVI

Papa Francisco A vida e os desafios Aqui está um livro caído em cima do acontecimento. A pouco mais de um mês do início do seu pontificado, aparece esta primeira biografia do Papa Francisco com os seus primeiros discursos e os grandes desafios que ele vai afrontar. Todos reconhecem que a Igreja e a humanidade estão em boas mãos. O livro está bem elaborado. Lê-se de um só fôlego e com o gosto de saber mais sobre esta figura ímpar com que o Espírito Santo e os cardeais presentearam a Igreja. Autor: Saverio Gaeta 160 páginas | preço: 12,00 € Paulus Editora

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DIDAQUÉ

O CATECISMO DOS PRIMEIROS CRISTÃOS

Diz o Papa Ratzinger: “Proclamei este ano especial, precisamente para que a Igreja renove o entusiasmo de crer em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, reavive a alegria de percorrer o caminho que nos indicou e testemunhe de modo concreto a força transformadora da fé”. Ficarão na história da Igreja estas catequeses; belas, profundas, esclarecedoras. Vale a pena ler e refletir. Autor: Bento XVI 127 páginas | preço: 6,60 € Editorial Franciscana

Didaqué é uma palavra grega que significa “instrução”, “ensino” ou “doutrina”. Este precioso livrinho, também conhecido como “Instrução dos Doze Apóstolos”, é uma obra do fim do primeiro século, constituída por dezasseis pequenos capítulos de grande relevância histórica e teológica. Dado que possui uma parte doutrinária e uma parte litúrgica, este primeiro catecismo é um testemunho vivo de como a Igreja primitiva vivia e se alimentava da Palavra de Deus. 48 páginas | preço: 3,40 € Paulus Editora

SABEDORIA PERENE

31 DIAS COM MARIA

Certo jovem, aceite para trabalhar num supermercado, apresenta-se no primeiro dia de trabalho. O gerente recebe-o com um aperto de mão e um belo sorriso, entrega-lhe uma vassoura e diz-lhe: Para começar, dá uma varridela à loja. Como? Eu tenho um doutoramento, protesta o jovem, indignado. Tenho muita pena, não sabia, responde-lhe o gerente. Dá-me cá a vassoura, vais ver como se faz. Este livrinho é uma coletânea de dezenas de histórias simples, mas profundas como esta que conduzem a uma meditação sobre as nossas atitudes e estilo de vida. É obrigatório ler! 232 páginas | preço: 6,00 € Paulus Editora

CELEBRAÇÕES PARA O MÊS DE MAIO

O povo cristão associa o mês de maio à Virgem Maria. Com o intuito de intensificar em comunidade a vivência pessoal do mês de Maria, apresenta-se neste livro uma celebração para cada dia de maio. À leitura bíblica segue-se uma reflexão que estabelece a ponte entre a Palavra, o testemunho da Mãe de Jesus e a vida quotidiana. Cada encontro conclui-se com preces e uma oração final. Muito útil para este mês. Autor: Guillermo Juan Morado 102 páginas | preço: 6,80 € Edições Salesianas


o que se diz

O SEGREDO DA VIRGEM MARIA

São Luís Grignion de Montfort revela-nos neste clássico livrinho “o segredo das heroicas virtudes e da fecundidade do seu apostolado: a perfeita devoção à Virgem, praticada como aqui no-lo ensina”. Aprende-se com ele que quem ser membro de Jesus Cristo, cheio de graça e verdade, deve formar-se em Maria, pelo dom do Espírito Santo. É um caminho seguro de santificação. É um livro para revisitar e viver. Autor: Luís Maria Grignion de Montfort 80 páginas | preço: 5,10 € Paulus Editora

GUIA DE INOVAÇÕES PARA COMBATER A POBREZA

100 INVENÇÕES GENIAIS

Um geógrafo e um engenheiro de experiência comprovada expõem neste livro uma centena de tecnologias destinadas sobretudo às populações dos países em vias de desenvolvimento. Mas serve, e de que modo, também para o nosso país. Se procura, por exemplo, caldeiras solares, bombas de água, lâmpadas fotovoltaicas ou um dessalinizador 100 por cento ecológico, encontra nesta obra, colorida e ilustrada, todos os conselhos e referências de que precisa. Muito útil. Autores: Patrick Kohler e Daniel Schneider 214 páginas | preço: 12,50 € Paulus Editora

A Igreja é muito mais “(Sobre o Papa Francisco), tenho a certeza que a Igreja é muito mais

do que aquilo que as televisões vão conseguir registar, o sucesso das viagens que irá fazer, as encíclicas que irá escrever, as homilias que irá proferir e as missas a que irá presidir… Tenho a certeza que o mais importante não será fotografado”. Nuno Santos | Mensageiro de Santo António | abril 2013

Os pobres pagam a crise “A dívida que nos estrangula nasceu da distribuição de benesses a

múltiplos grupos e sectores nos anos da ilusão e do crédito. Agora os que foram os grandes beneficiários são também aqueles com mais capacidade de se defender dos sofrimentos. São eles que protestam e isso agrava a situação, forçando o governo a cortar, não onde deve, mas onde pode. E o local mais fácil, por falta de influência, são os pobres”. João César das Neves | Diário de Notícias | 18/03/2013

A vacina mais eficaz “O desenvolvimento do mundo não é apenas na ordem do progresso

tecnológico, mas também na dimensão moral e espiritual. Subsistem algumas fontes de corrupção, vírus mortais da esperança. A afirmação da fé na Páscoa de Jesus Cristo continuará a ser a vacina mais eficaz contra os inimigos de uma vida humana sadia e com sentido de eternidade”. António Vitalino | Mensagem de Páscoa | Notícias de Beja | 28/03/2013

Paz para o mundo inteiro “Paz para o mundo inteiro, ainda tão dividido pela ganância de quem procura lucros fáceis, ferido pelo egoísmo que ameaça a vida humana e a família – um egoísmo que faz continuar o tráfico de pessoas, a escravatura mais extensa neste século XXI. Paz para todo o mundo dilacerado pela violência ligada ao narcotráfico e por uma iníqua exploração dos recursos naturais”. Papa Francisco | Mensagem de Páscoa 2013

Promoção da coesão social “O Fundo Social Europeu (FSE) – com mais elevada taxa de execução

em Portugal – continuará a ser o principal fundo para o combate à pobreza e promoção da coesão social. Note-se que, todos os anos, na UE, cinco milhões de pessoas de grupos desfavorecidos beneficiam da assistência direta do FSE”. José Manuel Fernandes, DE | Voz das Misericórdias | março 2013

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gestos de partilha COSTA DO MARFIM AMC (Núcleo do Algarve) Anónimos 445,00€; AMC (Zona Cento) 105,00€; Natália Dias 50,00€; Amália Baraona 30,00€; Edite Trindade 10,00€; Conceição Policarpo 100,00€; Natália Coelho 4,00€; Georgete Rodrigues 13,00€; Carlos Godinho 5,00€; Cândida Barros 100,00€; Manuela Bravo 300,00€; Aurora Manso 30,00€; Eduardo Soares 30,00€; Anónimo 5,00€; Flora Mira 33,00€; Fátima Matias 10,00€; Bárbara Silva 3,00€; Manuel Mota 100,00€; António Marques 13,00€; Anónimo 13,00€; Lucílina Coimbra 15,00€; Maria Fonseca 20,00€; Luciano Silva 15,00€; Filomena Marques 20,00€; Manuel Alves 10,00€; Fátima Lopes 33,00€; Anónimo 30,00€; Anónimo 10,00€; Filomena Vaz 30,00€. Total geral = 3.217,00€. OUTROS PROJETOS Maloca para todos Olinda Vieira 15,00€; Anónimo 20,00€; Anónimo 5,00€. Padre António Fernandes AMC (Núcleo do Algarve) Anónimos 732,00€. Ofertas várias Sucena Bento 31,00€; Conceição Pereira 53,00€; Ma­ dalena Lopes 27,00€; Fátima Carvalho 100,00€; José Gonçalves 43,00€; Palmira Guimarães 44,00€; Lurdes Soares 29,00€; António Gomes 243,00€; Maria Vieira – 43,00€; Luís Castro 93,00€; José Gambôa 63,00€; Anónimo (Fiães) 90,00€; Maria Narciso 43,00€; Angelina Silva 51,00€; Isabel Pacheco 93,00€; Margarida Soares 26,00€; Maria Anjo 33,00€; Alzira Henriques 64,00€; Maria Rodrigues 29,00€; Amália Santos 43,00€; Rosa Martins 3,00€; Gonçalo Nunes 43,00€

Contactos Pode enviar a sua oferta para a conta solidária dos MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA: NIB 0033.0000.45365333548.05 IBAN: PT50.0033.0000.45365333548.05 SWIFT/BIC: BCOMPTPL ou para uma das seguintes moradas: Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | Telefone 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua D.ª Maria Faria, 138 | Apartado 2009 | 4429-909 Águas Santas MAI | Telefone 229 732 047 | aguasantas@consolata.pt Rua Cap. Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | Telefone 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM | Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | Telefone 253 691 307 | braga@consolata.pt Rua Padre João Antunes de Carvalho, 1 | 3090-431 ALQUEIDÃO | Telefone 233 942 210 alqueidao@consolata.pt Rua Estrada do Zambujal, 66 - 3º D | Bairro Zambujal | 2610-192 AMADORA | Telefone 214 710 029 | zambujal@consolata.pt Alameda São Marcos, 19 – 7º A e B |2735-010 AGUALVA-CACÉM |Telefone 214 265 414 |saomarcos@consolata.pt 30


vida com vida

MISSIONÁRIO DE ESTILO MARIANO Hugh Ferguson nasceu em Inkerman, na Escócia, no dia 31 de março de 1922. Fez o serviço militar em países do Médio Oriente, e em 30 de março de 1953 entrou para o nosso Noviciado Internacional em Fátima, onde a sua vocação assimilou um profundo estilo missionário mariano texto AVENTINO OLIVEIRA ilustração H. MOURATO Foi ordenado sacerdote em Turim no dia 31 de maio de 1958. Nesse mesmo ano partiu para as nossas missões do Quénia. Aí desenvolveu uma atividade inteligente em tempos difíceis e melindrosos, quando a ideia da independência avançava nessas terras. Em Meru tornou-se numa espécie de ministro dos negócios da diocese, onde foi secretário do bispo Bessone que o estimava altamente pelas suas qualidades de prudência e fortaleza. Mas sentiu-se ainda mais realizado durante o tempo em que, ao domingo, ia celebrar à missão de Isiolo, onde tinha recentemente chegado a pobre tribo dos Turkana que então não era muito bem vista, passava fome, e era mesmo por vezes perseguida por gentes de outras origens. O padre Ferguson levava sempre o Land Rover cheio de tantas coisas que eram um mimo para aquela pobre população. Era exímio na solidez dos seus conselhos e na sua argumentação dos princípios básicos da doutrina da Igreja. Moderação, equilíbrio e bom senso caritativo animavam também o seu muito contato ecuménico com outras igrejas cristãs.

Amava o Instituto de todo o coração. Escrevera um dia: “O espírito do Allamano e o trabalho dos nossos missionários sacerdotes, irmãos e irmãs que vi no Quénia intensificaram em mim a alegria de me ter tornado um deles”. Sentia no seu coração uma grande atração por Fátima, onde sempre se tinha sentido em família: tudo muito lógico, pois ao nascer consagrara-o sua mãe à Virgem Santíssima de Fátima, consagração esta que sólida e suavemente orientou toda a sua vida.

Fátima, o nosso padre Ferguson, de passagem para Turim, na Itália, teve a graça de visitar o Santuário da Cova da Iria. No dia 21 do mesmo mês, faleceu durante a noite na nossa casa de Madrid, Espanha. Foi o seu corpo trazido para Fátima, onde está sepultado no talhão dos Missionários da Consolata.

Em 13 de agosto de 1967, no cinquentenário das aparições de Maio 2013

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outros saberes

NÃO TENHAIS MEDO... ELE VENCEU A MORTE! texto NORBERTO LOURO foto ANA PAULA Nada há tão contagioso como o medo, sentenciou um autor desconhecido. E é verdade. Ele por aí anda, à solta, como constatamos todos os dias, veiculado pelos meios de comunicação social, documentado por estatísticas demolidoras, partilhado em conversas pessimistas, exemplificado por situações confrangedoras. Medo de quê? Em última análise, medo da morte. Morte identificada com morte de bem-estar, morte de direitos adquiridos ou usurpados, morte de privilégios. E tudo isto comprometido pela falta sentida dum “Messias” que salve, e pelo alastrar do “salve-se quem puder”. Veio um, Jesus, que diagnosticou a verdadeira morte e indicou a terapia eficaz: “Partilhou a nossa condição, a fim de destruir pela sua morte aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo, e libertar aqueles que, por medo da morte, passavam toda a vida paralisados pela escravidão” (Heb. 2,14). É que, traduzido em sabedoria adquirida:

“Do medo, nada cresce; do amor tudo floresce” (Rui Dinis) “O medo é a maior das doenças, porque paralisa o corpo e a mente” (autor desconhecido)

O medo sufoca a criatividade, rejeita o risco, atrapalha o raciocínio, amolece a vontade, encosta-se à dependência, espera o milagre, abandona-se à sorte ou ao azar. 32

“A vida é maravilhosa, se não se ultrapassar situações, vencer tem medo dela” (Charles Chaplin) crises, superar pobrezas, enobrecer O pessimismo leva à estagnação, seca a capacidade de sonhar, reduz a produção por medo de errar por já ter errado, sem ter em conta que só erra quem produz, mas só produz quem não tem medo de errar. Alguém dizia: “Não tenho medo do amanhã porque já vi o passado e amo o dia de hoje” (William Allen).

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz” (Platão)

atitudes, ultrapassar egoísmos. Só quem não quer ver!

“Tema, quem não teme a Deus”

(provérbio Árabe) Quem não teme a Deus, esse sim é que está sujeito a agarrar-se desmesuradamente a esta vida, a ter medo da morte e a lutar (inutilmente) contra ela de todas as maneiras lícitas e ilícitas, pois não vê outra vida para além desta de que deve dar contas.

O mundo está cheio de exemplos luminosos de como agir,

“Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro; a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz”


notas missionárias

OUTROS CAMINHOS Nonhlanhla nasceu numa pequena aldeia nas encostas do Vale das Mil Colinas, em pleno Kwa-Zulu, da África do Sul texto CARLOS DOMINGOS lustração HUGO LAMI Jovem e bela, atraía sobre si o interesse de muitos jovens do seu clã, mas o pai tinha outros planos. Interiormente desejava que ela casasse com um jovem guerreiro de outro clã, esperando naturalmente que o casamento pudesse sarar as feridas de uma pequena guerrilha que já durava há algumas gerações entre o seu clã e o clã do jovem pretendente. Entretanto, eis que uma irmã Dominicana passou pela sua aldeia buscando jovens para o novo convento de Montebello e a jovem decidiu seguir esse caminho. A voz da irmã falou mais alto e Nonhlanhla entrou na comunidade das irmãs Dominicanas de Montebello.

O pai é que não ficou muito contente já que perdia a oportunidade de fazer as pazes com o outro clã, para além de perder também o dote, que esperava receber da família do futuro pretendente. Nonhlanhla, entretanto, prosseguia os seus estudos e a sua formação religiosa, até ser admitida como postulante. Aquando da sua profissão religiosa toda a sua família foi convidada. Vieram todos, contentes por participarem nesta cerimónia desconhecida. Todos, exceto o pai, que continuou entristecido por a filha o ter “abandonado” e de ter escolhido um outro “esposo”. Nonhlanhla seguiu as pisadas das outras irmãs e também ela se dedicou ao ensino na escola adjacente ao convento. Aí continuou fazendo o bem, educando muitas jovens para a vida e contribuindo para uma maior consciencialização, mesmo entre os descendentes daqueles que o seu pai queria que ela apaziguasse.

e ele reconheceu que afinal a filha tinha feito bem em seguir a sua “vocação”, o que quer que isso fosse. Reconhecia ele que, o que lhe interessava na vida era o imediato e que pudesse também sanar algumas quezílias do clã. E para isso contava também com a sua jovem filha. Mas alguns anos mais tarde também ele passou a ver com outros olhos a realidade à sua volta e o contributo que a sua filha deu à sociedade em geral. Embevecido pelo que via, o pai de Nonhlanhla passou também a acreditar. Viu que afinal havia algo mais importante do que o gado que apascentava e as terras que amanhava, algo que dava sentido a tudo o resto. Foi batizado no leito de morte. Afinal Deus não procura pessoas de grande fé, mas pessoas dispostas a segui-lo. Mesmo que por caminhos travessos.

Foi só anos mais tarde que os dois fizeram as pazes. Já o pai tinha uma idade avançada quando voltaram a encontrar-se Maio 2013

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fátima informa

“EU APOSTO NA VIDA, EU ACREDITO”

Pastoral Juvenil, padre Eduardo Novo. Ajudar cada jovem a encontrar as respostas às questões importantes para a vida, utilizando diversas maneiras, é o objetivo. Os momentos culturais e espirituais vêm reforçar “a dinâmica de ser cristão, de ser jovem hoje. E dizer: eu aposto na vida, eu acredito”, realça o sacerdote. Um dos destaques do programa vai para o concerto do padre Omar Raposo, reitor do santuário de Cristo Rei, no Corcovado, Rio de Janeiro que “vem convidar-nos a participar” na Jornada Mundial da Juventude. Será também apresentado o musical “Alegria da fé” que Vânia Fernandes levará à JMJ.

texto LUCÍLIA OLIVEIRA foto ANA PAULA Fé, animação e ação! Cinco mil jovens de todo o país são esperados na edição do Fátima Jovem. A iniciativa que decorre a 4 e 5 de maio é uma antecipação da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) agendada para

julho, no Rio de Janeiro, Brasil, com a presença do Papa Francisco. É um “encontro nacional de uns com os outros, mas sobretudo nesta alegria da fé, na alegria do encontro”, salienta o diretor do Departamento Nacional da

Peregrinação dos acólitos

patriarca de Lisboa a escrever a oração de consagração que será rezada no final da Eucaristia de 13 de maio.

“Eu sei em quem pus a minha fé” é o tema da peregrinação dos acólitos ao Santuário de Fátima, a 1 de maio. O programa tem início às 10h00 com o encontro no Centro Pastoral Paulo VI, em que participa a banda “Terceira Margem”, e encerra às 17h30 com a procissão do Santíssimo Sacramento.

Consagração do pontificado

O pontificado do Papa Francisco vai ser consagrado a Nossa Senhora de Fátima, conforme o seu pedido expresso ao presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, José Policarpo. Será o cardeal 34

Interescolas EMRC

Fátima recebe a 13ª edição do Interescolas, a 17 de maio. São esperados mais de três mil alunos da disciplina de Educação Moral Religiosa Católica do 1º ciclo, vindos de escolas de norte a sul do país. Neste Ano da Fé, o encontro é subordinado ao tema “Encontro muitas razões de (com) viver”.

O Fátima Jovem encerra com chave de ouro com um flasmob. A música clássica aliada ao movimento faz a explosão no coração do Cristo redentor. “De viva voz, no altar do mundo, apresentamos esta responsabilidade de ser discípulo e ao mesmo tempo viver em missão”, sublinha Eduardo Novo. Mais informações em www.ecclesia.pt/ pjuvenil/. E tu, vais ficar em casa?

Maio em agenda 4/5 Retiro aberto a todos no seminário da Consolata 19 Encontro Nacional da Comunidade Luz e Vida 25/26 Conferências Fé, Missão e Martírio no Auditório Allamano (Consolata)


CONSOLATA É CHEIA DE GRAÇA, POR DEUS AGRACIADA PARA LEVAR AO MUNDO A CONSOLAÇÃO DE JESUS. CONSOLADOS SÃO OS EVANGELIZADOS, PORQUE AMADOS DE DEUS. CONSOLAR É LEVAR A TODA A PARTE A CONSOLAÇÃO DE DEUS SALVADOR. COMO MARIA TORNAMO-NOS SOLIDÁRIOS COM TODOS. SOLIDARIEDADE É O OUTRO NOME DA CONSOLAÇÃO. COMO ELA SOMOS PRESENÇA CONSOLADORA EM SITUAÇÕES DE AFLIÇÃO. POR SEU AMOR COLOCAMOS A NOSSA VIDA AO SERVIÇO DO HOMEM TODO E DE TODOS OS HOMENS. ALLAMANO DEU-NOS MARIA POR MÃE E MODELO. POR ISSO CHAMAMO-NOS MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

NOSSA SENHORA DA CONSOLATA Apoie a formação de JOVENS MISSIONÁRIOS

Funde uma bolsa de estudos. A oferta é de 250EUR e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Pode dar-lhe o seu próprio nome ou outro que desejar. São-lhes concedidos, entre outros, os seguintes benefícios: fica inscrito no livro de benfeitores dos Missionários da Consolata; participa nas orações e nos méritos apostólicos dos missionários; beneficia de uma missa diária que é celebrada por todos os benfeitores.

MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

www.fatimamissionaria.pt | www.consolata.pt Rua Francisco Marto, 52 | Apartado 5 | 2496-908 FÁTIMA | tel: 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua Dª Maria Faria, 138 | Apartado 2009 | 4429-909 AGUAS SANTAS MAI | tel: 229 732 047 | aguasantas@consolata.pt Rua Capitão Santiago de Carvalho, 9 | 1800-048 LISBOA | tel: 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Rua da Marginal, 138 | 4700-713 PALMEIRA BRG | tel: 253 691 307 | braga@consolata.pt Rua Padre João Antunes de Carvalho, 1 | 3090-431 ALQUEIDÃO | Telefone 233 942 210 | alqueidao@consolata.pt Rua Estrada do Zambujal, 66 - 3º D | Bairro Zambujal | 2610-192 AMADORA | Telefone 214 710 029 | zambujal@consolata.pt Alameda São Marcos, 19 – 7º A e B | 2735-010 AGUALVA-CACÉM | Telefone 214 265 414 | saomarcos@consolata.pt Quinta do Castelo | 2735-206 CACÉM | Telefone 214 260 279 | cacem@consolata.pt


MISSÃO

Nem saco nem sandálias; apenas a Palavra para um caminho a perder-se, nos confins do dia, às portas de mil cidades fechadas nas pressas do pão, Sem tempo nem templo!... Anunciai a paz aos fazedores de inquietações. E aos donos dos celeiros e da fome dizei: dai, se quereis enriquecer sem securitas nem naftalina, porque a bondade vale mais que todos os bens. Não queimeis recusas. Olhai as árvores dos curiosos com linho nos olhos e ceai a festa dos simples que é o banquete do Reino!... João Aguiar Campos Encontros


Fm maio13