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ANO LVII – N.º 8 AGOSTO/SETEMBRO 2011 ASSINATURA ANUAL | Nacional 7,00 € l Estrangeiro 9,50 €

Marcos Coelho e João Baptista

Sacerdotes para o mundo O sul já não mete medo aos negros americanos | “Nunca tive medo” | A Missão no ADN do cristão | “Voluntariado e missão”


Nossa Senhora da Consolata Consolata é cheia de graça, por Deus agraciada para levar ao mundo a consolação de Jesus Consolados são os evangelizados, porque amados de Deus Consolar é levar a toda a parte a consolação de Deus salvador Como Maria tornamo-nos solidários com todos. Solidariedade é o outro nome da consolação Como Ela somos presença consoladora em situações de aflição Por seu amor colocamos a nossa vida ao serviço do homem todo e de todos os homens Allamano deu-nos Maria por mãe e modelo. Por isso chamamo-nos Missionários da Consolata

Apoie a formação de jovens missionários Funde uma bolsa de estudos. A oferta é de 250€ e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Pode dar-lhe o seu próprio nome ou outro que desejar. São-lhes concedidos, entre outros, os seguintes benefícios: 8 fica inscrito no livro de benfeitores dos Missionários da Consolata; 8 participa nas orações e nos méritos apostólicos dos missionários; 8beneficia de uma missa diária que é celebrada por todos os benfeitores

MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA

Rua Francisco Marto, 52 – Ap. 5 – 2496-908 FÁTIMA | T. 249 539 430 | fatima@consolata.pt Rua D.a Maria Faria, 138 – Ap. 2009 – 4429-909 Águas Santas MAI | T. 229 732 047 | aguas-santas@consolata.pt Quinta do Castelo – 2735-206 CACÉM | T. 214 260 279 | cacem@consolata.pt Rua Capitão Santiago de Carvalho, 9 – 1800-048 LISBOA | T. 218 512 356 | lisboa@consolata.pt Rua da Marginal, 138 – 4700-713 PALMEIRA BRG | T. 253 691 307 | braga@consolata.pt


Evangelho para hoje

Há uma expressão nova, “Missão Metrópoles”, que entrou recentemente no vocabulário da Igreja. Traduz a atenção que a mesma dedica às grandes cidades, sujeitas a uma pressão humana desmesurada. Grande parte da população concentra-se nestes gigantescos aglomerados humanos, criando enormes desafios à chamada nova evangelização. O Evangelho permanece o mesmo. A verdade evangélica não muda. A maneira de apresentar Jesus é que pode e deve ser diferente, porque diferentes são as situações que os cristãos têm de viver ao lado dos seus irmãos, crentes ou não, no mundo contemporâneo. Marcada para a Quaresma de 2012, esta nova iniciativa pastoral, chamada “Missão Metrópoles”, irá envolver contemporaneamente 12 das maiores cidades europeias. O arcebispo Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, um organismo criado recentemente por Bento XVI, encontrou-se, em Julho passado, com cardeais e bispos de Barcelona, Budapeste, Bruxelas, Dublin, Colónia, Lisboa, Liverpool, Paris, Turim, Varsóvia e Viena, para preparar a “Missão Metrópoles”. A iniciativa vai tentar, ao nível do velho continente, dar uma resposta conjunta “aos problemas da nova evangelização, na situação de crise em que a Europa se encontra”.

A questão da nova evangelização ganha cada vez mais relevância,

A Igreja não poderá continuar a “guardar” só para si o Evangelho. Precisa de tomar consciência que ele deve ser compartilhado, como um bem precioso que Deus, através dela, quer fazer chegar a toda a humanidade

em todo o mundo, sobretudo nos países e lugares de antiga evangelização, onde a fé cristã está a passar por sérias dificuldades, correndo mesmo o risco de desaparecer. A preocupação é antiga. Foi um dos motivos mais importantes para a convocação do Concílio Vaticano II, cujos 50 anos serão comemorados já a partir do próximo ano. João Paulo II convidou, inúmeras vezes, toda a Igreja a assumi-la, com novo ardor e com novos métodos. Bento XVI propõe-se levar mais adiante o processo e convocou o próximo Sínodo dos Bispos, que terá por tema a nova evangelização para a transmissão da fé cristã, a realizar em Roma, de 7 a 28 de Outubro de 2012. As novas tendências culturais, por vezes, fecham-se e até se opõem às convicções e aos valores cristãos. A secularização invade a vida quotidiana das pessoas, difundindo a mentalidade de que Deus está ausente, o fenómeno migratório ligado à globalização, a revolução informática com benefícios e riscos da cultura mediática e digital, a economia com os crescentes desequilíbrios entre o norte e o sul do mundo, a relação entre a ciência e a técnica, a cena mundial na qual emergem novos actores políticos, económicos e religiosos, são cenários que questionam a Igreja e exigem dela um novo posicionamento.

As múltiplas iniciativas que estão a ser tomadas em vários quadrantes, propõem-se suscitar na Igreja uma conversão pastoral e missionária. É urgente “lançar as redes em águas mais profundas” e ter em conta os vastos horizontes da missão situados em todos os continentes e não apenas na Europa. A Igreja não poderá continuar a “guardar” só para si o Evangelho. Precisa de tomar consciência que ele deve ser compartilhado, como um bem precioso que Deus, através dela, quer fazer chegar a toda a humanidade. Mas “ninguém deita remendo de pano novo em roupa velha”, avisa o Evangelho. EA AGOSTO/SETEMBRO 2011

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Três bandeiras envolvem dois novos sacerdotes

Rua Francisco Marto, 52 Apartado 5 2496-908 FÁTIMA Nº 8 Ano LVII – Agosto/Setembro 2011

Consolata dois novos sacerdotes

Tel. 249 539 430 / 249 539 460 Fax 249 539 429 geral@fatimamissionaria.pt assinaturas@fatimamissionaria.pt www.fatimamissionaria.pt

FÁTIMA MISSIONÁRIA Registo N.º 104965 Propriedade e Editora Delegação Portuguesa do Instituto Missionário da Consolata Contribuinte Nº 500 985 235 Superior Pro­vin­cial Norberto Ribeiro Louro Redac­ção Rua Francisco Marto, 52 2496-908 Fátima Im­pres­são Gráfica Almondina, Zona Industrial – Torres Novas Depósito Legal N.º 244/82 Tiragem 28.100 exemplares Director Elísio Assunção Redacção Elísio Assun­ção, Manuel Carreira Conselho de Re­dac­ção António Marujo, Elísio Assunção, Manuel Carreira Colabora­ção Alceu Agarez, Ângela e Rui, Carlos e Magda, Carlos Camponez, Cristina Santos, Darci Vila­ri­nho, Leonídio Ferreira, Luís Mau­rício, Lucília Oliveira, Norberto Louro, Teresa Carvalho; ­Diaman­tino Antunes – Moçambique, Tobias Oliveira – Quénia, Álvaro Pa­­che­co – Coreia do Sul Fotografia Lusa, Ana Paula, Elísio As­sunção e Arquivo Capa e Contra-capa Ana Paula / E. Assunção Ilustração H. Mourato, Mário José Teixeira e Ri­car­do Neto Com­po­sição e Design Ana Pau­la Ribeiro Ad­mi­nis­tração Joaquim Bernardino e Cristina Henriques

Assinatura Anual

Recomeçar na Costa do Marfim

Nacional 7,00€ Estrangeiro 9,50€ De apoio à revista 10,00€ Benemérito 25,00€ Avulso 0,90€

“Se tivesse filhas, faria o mesmo”

(inclui o IVA à taxa legal)

Pagamento da assinatura

multibanco (ver dados na folha de endereço),

transferência bancária nacional

Os desafios do Sudão do Sul

(Millenniumbcp)

NIB 0033 0000 00101759888 05 transferência bancária internacional IBAN PT50 00 33 0000 00101759888 05 BIC/SWIFT BCOMPTPL cheque ou vale postal

O Sul já não mete medo aos negros americanos 03 EDITORIAL 805 PONTO DE VISTA O imperativo da sobriedade 806 LEITORES ATENTOS 07 HORIZONTES Preencher vazios 808 MUNDO MISSIONÁRIO Obras

Tem a sua assinatura da revista atrasada? Com ape­nas 10

euros 2011 Porque continua à espera? pode actualizá-la para

Não perca tempo! FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Missionárias Pontifícias têm novo director | Meio milhão de crianças a morrer de fome em África | Paróquias da Europa lugares de esperança | Bispos alemães criticam venda de armas ao governo de Luanda | Bispo mais jovem de Portugal na diocese de Bragança-Miranda | Afeganistão é o pior lugar do mundo para ser mãe | Organizações eclesiais envolvidas na luta contra a SIDA 811 Aventuras Pipo ���������������� nas férias 812 Apóstolos Modernos De Maputo ao Niassa 822 GENTE NOVA EM MISSÃO “Sê digno de viver! Olha em frente!” 824 TEMPO JOVEM A Missão no ADN do cristão 826 SEMENTES DO REINO “Nunca tive medo” 828 O QUE SE ESCREVE 830 O QUE SE DIZ 831 VIDA COM VIDA Missionário e lavrador 832 OUTROS SABERES De manhã se começa o dia 833 A MISSÃO É SIMPÁTICA Sem palavras! 834 FÁTIMA INFORMA Voluntariado e Missão

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texto Francisco Sarsfield Cabral*

O imperativo da sobriedade Os preços dos bens alimentares subiram muito em 2008 e de novo este ano, agravando o espectro da fome. Recentemente aliviaram um pouco, mas a perspectiva a longo prazo aponta no sentido da alta. Em parte por boas razões: há milhões de pessoas que melhoraram o seu nível de vida, sobretudo na Ásia, e naturalmente querem alimentar-se melhor. Mas também por motivos negativos: as alterações climáticas não ajudam a produção agrícola. Em África, por exemplo, a seca que atinge países como a Somália é a pior dos últimos 60 anos. O Quénia e a Etiópia também sofrem com a falta de chuvas. A fome mata ali muita gente. O programa alimentar das Nações Unidas está sem dinheiro para enfrentar a catástrofe. Acresce que as guerras no chamado “Corno de África” aumentam a miséria. Os países ricos têm falhado as suas promessas de ajuda alimentar. Isto, para além do proteccionismo agrícola dos Estados Unidos, da União Europeia e do Japão, que trava o desenvolvimento da agricultura dos países pobres. Os países desenvolvidos estão pouco virados para a generosidade porque, também eles, estão a passar por dificuldades. Pela primeira vez desde há muito, as futuras gerações irão viver pior do que a dos seus pais – contra a convicção de que a economia ia sempre progredindo, tirando um ou outro abalo passageiro. Ora os países ricos vivem em sobressalto desde há pelo menos

Precisamos de adoptar um estilo de vida mais sóbrio, prescindindo de certas coisas que há 50 anos muitos portugueses não tinham, mas depois passaram a considerar indispensáveis. Não é fácil, mas não há outro caminho no curto prazo

três anos. Em Setembro de 2008, após a falência do banco americano Lehman Brothers, o sistema financeiro internacional esteve à beira do colapso, que teria consequências económicas trágicas. Evitou-se o pior, mas os governos tiveram que gastar uma enorme quantidade de dinheiro, inédita em tempo de paz, para não deixarem cair a economia. Agora os EUA estão atrapalhados com o seu défice orçamental.

E a EU parece só resolver os problemas “in extremis”, como felizmente aconteceu no último Conselho Europeu extraordinário. Aí deram-se passos importantes para enfrentar a crise das dívidas soberanas, nomeadamente da Grécia, mas também de Portugal e da Irlanda. Assim pode ter-se evitado a saída destes países da zona euro ou até a desagregação da moeda única, o que seria uma tragédia económica. Estas crises têm uma causa comum: as pessoas (americanos e portugueses, por exemplo) viveram durante anos acima dos seus recursos. Consumiam mais do que produziam, no caso português cerca de 10 por cento. E cobriam a diferença com crédito externo. Os EUA vendendo títulos do Tesouro a todo o mundo, sobretudo à China; os portugueses acumulando uma dívida externa que já atinge cerca de 220 por cento do PIB. Dívida que não é só do Estado; é também das famílias e das empresas. E agora? No caso português, vai demorar tempo a conseguirmos produzir mais e a sermos mais competitivos. Por isso, há primeiro que apertar o cinto, isto é, reduzir o consumo. Não dos mais pobres, que já consomem menos do que deviam. Mas dos outros, como a chamada classe média. Precisamos de adoptar um estilo de vida mais sóbrio, prescindindo de certas coisas que há 50 anos muitos Portugueses não tinham, mas depois passaram a considerar indispensáveis. Não é fácil, mas não há outro caminho no curto prazo. *Jornalista

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


Renove a assinatura Agradecemos que os nossos estimados assinantes renovem a assinatura para 2011. Só as assinaturas actualizadas poderão usufruir do pequeno apoio do estado ao porte dos correios. Na folha on­de vai escrita a sua direcção, do lado esquerdo, poderá verificar o ano pago e o seu número de assinante. O pagamento da assinatura poderá ser feito através dos colaboradores, se os houver, ou nas casas da Consolata, ou através de multibanco, cheque ou vale postal. Ou ainda por transferência bancária: NIB 0033 0000 00101759888 05 Importante Refira sempre o número ou nome do assinante. Os do­­na­tivos para as missões são de­dutíveis no IRS. Se desejar recibo, deverá enviar-nos o seu número de contribuinte. Muitos leitores chamam à FÁTIMA MISSIONÁRIA «a nossa revista». É bom que assim pensem e assim procedam. A revista é feita por muitas mãos e lida por mais de 29 mil assinantes. Ela é mesmo nossa! Somos uma grande família.

O nosso obrigado

Meus caros e bons amigos missionários da Consolata. Votos de boa saúde deste vosso amigo, que vos está a enviar a lista de assinantes que quiseram pagar. Isto está cada vez pior apesar de o nosso pároco fazer o apelo para que liquidassem as assinaturas. Por hoje me despeço com um grande abraço com muita consideração e estima. João

NR Parabéns ao seu pároco pelo aviso que deu em prol da revista. O nosso obrigado!

Ajuda a reflectir

Queridos amigos, Sou a assinante nº 48603 que muito aprecia a vossa revista que nos dá conta da vida missionária em acção. Obrigada sobretudo por ela – a revista – interpelar o cristianismo que se está esboroando nas cedências a outras fontes que não são as de Cristo. Mas nós, cristãos, temos de ter a esperança alicerçada na Pedra angular. Creio que estamos prontos a testemunhar esse Jesus, mesmo em épocas difíceis, ajudados e alimentados

pelas reflexões que FÁTIMA MISSIONÁRIA nos propõe. Com a maior gratidão, a assinante e amiga. Maria Lurdes

Renovo cinco anos

Caros irmãos missionários Tenho 80 anos e venho renovar a minha assinatura da FÁTIMA MISSIONÁRIA para mais cinco anos; peçovos que após este período, se não vos tiver contactado, como sempre faço, que suspendam o envio da revista; vivo só e a minha família vive no Norte. Bem hajam! Obrigada por todos estes bons anos de companhia, ensinamento e reflexão. Nantília

Mais uma oportunidade

Senhor director, Tendo presente o anunciado por vossa excelência na revista de Abril 2011 – Ano LVII, sob o título – “Mais uma oportunidade”, e encontrando-me entre os leitores (há muito beneficiado com o recebimento periódico da maravilhosa revista, sem o cumprimento do pagamento devido), venho por este meio enviar o meu cheque, com vista a beneficiar (ainda mais uma vez) da actualização da assinatura para 2011.

Desejo do coração os maiores êxitos e vida longa a tão benéfica e promissora revista que vossa excelência muito dignamente dirige. Creia-me leitor assíduo e comprometido para o meu dever de pagador. Sou um trabalhador da Messe, em tempos de crise, onde escasseiam os trabalhadores e também as vocações, mas não a humildade. Leitor identificado

Difusão da revista

Exmos. senhores e amigos, Enviamos por este meio o pagamento da assinatura do jornal/revista, que nos mandam referente ao ano de 2011. Queremos agradecer a boa vontade na espera do nosso pagamento, mas os afazeres nesta Irmandade levam-nos o tempo quase todo, e são mais de cem institutos e editoras para onde enviamos cada assinatura e que depois aqui distribuímos, nesta Igreja de Santo António dos Congregados no Porto. Damos assim a conhecer, tanto quanto possível, a boa vontade de que se revestem todos aqueles que trabalham para Nosso Senhor. Atenciosamente. Manuel

DIÁLOGO ABERTO Caros missionários da Consolata Peço desculpa por só agora renovar a assinatura da revista FÁTIMA MISSIONÁRIA. Não por falta de tempo mas talvez por ter andado um pouco à «deriva» por tudo o que me tem acontecido. Há pouco tempo vi partir para a eternidade dois queridos filhos. A sua falta transformou bastante a minha maneira de ser. Penso que Deus está de costas voltadas para mim, na medida em que me tem sido muito difícil aceitar a perda dos meus ricos filhos. Talvez esteja errada e por isso peço muitas vezes a Deus Pai que me perdoe e me FÁTIMA MISSIONÁRIA

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ensine a aceitar os problemas que vão aparecendo. Para estes queridos filhos pedia as vossas orações, porque eu já não sei pedir, não sei rezar, penso que Deus me quer castigar. Mas eu acredito na infinita misericórdia de Deus Pai e não me irá castigar mais. Desculpem o desabafo. Palmira

Comentário: Acontece a todos, e bastantes vezes, «andar à deriva». Nem sempre se lhe dá este nome, mas o efeito é o mesmo. Todos temos momentos altos e baixos na nossa vida. Andamos

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na terra, como se fosse num barco: baloiçamos para um lado e para o outro, como se a terra nos fugisse debaixo dos pés. Por isso, temos momentos de euforia, em que nos parece que tudo são rosas, e momentos de desânimo, em que a vida se nos apresenta como um fardo a levar. O melhor que temos a fazer é puxarmos pela nossa fé, agarrarmo-nos ao Senhor e dizer como a Maria José Nogueira Pinto: Se o Senhor estiver comigo, “nada me faltará”. Pense nisso, senhora leitora, e tenha coragem: “De hora a hora, Deus melhora”. MC


Preencher vazios – “Antes, eu achava que não ia conseguir nada nem sabia o que queria, e assim…” – O que mudou? – “Não sei, mas agora quero ir para a Universidade e já me apetece estudar e isso...” texto TERESA CARVALHO ilustração MIGUEL CARVALHO

uma linguagem ao estilo juvenil e com uma expressão feita de um misto de vergonha e de orgulho, até de espanto consigo mesmo, Daniel esperava que o seu interlocutor lhe explicasse alguns mistérios sobre algumas coisas que sentia e pensava. – Naquele dia sempre fui lá colaborar na recolha de alimentos. – Como foi essa experiência? – Estava quase a vir embora. Só não vim porque os que ficavam não conseguiam fazer tudo sozinhos. Pedíamos que as pessoas colaborassem e algumas até fugiam por outro lado. Uns até disseram que não tínhamos nada que incomodar as pessoas que iam às compras. Eu ficava envergonhado. Apetecia-me fugir. – Mas continuaste mesmo com vergonha!... – Pois foi. No fim até já estava a gostar. Não queria vir embora. Enchemos cinco carrinhos grandes do supermercado com compras. Depois fui ajudar a professora a levar tudo para a Cáritas. – Alguma coisa mudou depois desta tua ajuda? – Agora, acho que já não me importo com o que possam dizer. Foi bom juntar tanta ajuda!... Senti-me bem! Foi algo de parecido como ser o Robin dos Bosques. Mas ainda melhor,

porque ajudámos os mais pobres e não foi preciso lutar. Bastou pedir! Daniel parecia agora um jovem sonhador e liberto do peso dos seus medos de não ser aceite num grupo, de enfrentar olhares, de receber críticas e de não ser capaz de realizar nada com valor. Na verdade, Daniel pertencia ao grupo dos “mais pobres”. Vivia com a mãe-avó (avó a quem chamava “mãe”) depois da mãe o ter abandonado aos dois anitos. Recolhia-se em casa em atitude desistente, envergonhado da sua história e de si próprio. Mas, naquele dia em que, a medo, levantou o dedo na aula de Inglês, a pedido da professora, alistou-se no grupo de voluntários para a recolha de alimentos para serem distribuídos pela Cáritas. A partir daí, Daniel esqueceu que era um jovenzito que, às vezes, descia a pé para a escola por não poder comprar o passe e que a “mãe”, também ela, recorria à Cáritas para que ele não passasse fome. Até se esqueceu de pensar: “Sou um triste”. O efeito desse dia não acabou com a badalada da meia-noite: Hoje, muitos dias depois, Daniel continua a procurar novas oportunidades para concretizar a recente descoberta: também ele podia dar. Mesmo não tendo “nada” para dar, podia pertencer ao grupo daquelas pessoas que ele não conhe-

cia, mas estava habituado a admirar, porque pareciam poderosas e capazes de resolver todos os males – as que ele sabia que ajudavam a resolver alguns dos problemas que afligiam a mãe. A descoberta de quanto era bom e possível desde já pertencer a este grupo, converteu os seus desânimos e inércia em determinação de outras conquistas. Por momentos, os vazios forjados pela experiência de abandono no início da sua vida, foram esquecidos e preenchidos pela descoberta da sua vocação escondida de “amar”, partilhando o que pode daquilo que é e possui. E Daniel possuía tanto sem saber! Abrir-se aos outros, para fora de si, levou-o ao espaço onde se encontrou com um Daniel sem medo, cheio, não de vazios, mas de possibilidades. Encontrou-se com outras dimensões de si mesmo. E gostou! Ainda não conhecia este Daniel cativante. Agora que o descobrira, até se atreveu a dizer: “Estou feliz!” A partir deste ponto, Daniel desenhava no seu horizonte outros caminhos preenchidos com outras cores: não feitos de vazios, mas preenchidos com outros tantos gestos e sinais amorosos de tanta gente que o acolheu e amou. Foi este o resultado de uma tarde a ser “Robin dos Bosques – mas ainda melhor!”.

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Obras Missionárias Pontifícias têm novo director

O missionário do Verbo Divino, António Lopes, é o novo director nacional das Obras Missionárias. O decreto de nomeação, pela Santa Sé, é de 12 de Julho. António Lopes assumirá as suas novas funções logo após as Jornadas Missionárias Nacionais, que decorrerão em Fátima, de 16 a 18 de Setembro. Sucede no cargo ao padre Manuel Durães Barbosa, da congregação dos Missionários do Espírito Santo, que cumpriu dois mandatos à frente da instituição. Natural da Aldeia da Ponte, diocese da Guarda, António Lopes foi ordenado padre em 1986, tendo sido missionário no Togo. De regresso a Portugal, esteve na comunidade verbita de Tortosendo e, em seguida, em Guimarães. Ultimamente, tinha assumido a responsabilidade pastoral da paróquia de São Cristóvão de Selho, Guimarães. É colaborador do “Contacto svd”, jornal dos verbitas, e dos cadernos bíblicos, que a Congregação do Verbo Divino tem elaborado em conjunto com a arquidiocese de Braga, para a Quaresma e Advento. As Obras Missionárias Pontifícias (OMP) são uma instituição da Igreja e do Papa, implantadas em cada diocese. Têm como objectivo “despertar e promover o espírito missionário universal de todos os membros do povo de Deus”.

Meio milhão de crianças a morrer de fome em África

Paróquias da Europa lugares de esperança

A seca no Corno de África deixou mais de 500 mil crianças desnutridas. “Esta emergência vai agravar-se nos próximos meses”, alerta o director da UNICEF, organismo das Nações Unidas para a infância. A falta de proteínas causa nas crianças desnutridas inchaço nas pernas e no rosto. Cerca de 11 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária urgente, desde o Quénia à Somália, Djibuti e Etiópia. Devido à seca, cerca de 3.200 pessoas abandonam a Somália, diariamente, fugindo para o Quénia e Etiópia. Em Mogadíscio, capital somali, os médicos tentam conter a epidemia do sarampo que alastra entre os refugiados.

“Somos «estrangeiros», como os cristãos das origens”, afirmou o teólogo alemão, Hubert Windisch, no 26° Colóquio Europeu das Paróquias, na Hungria. Estamos a assistir a “um processo rapidíssimo de diminuição” tanto “quantitativa como qualitativa do cristianismo”. Os cristãos europeus sentem-se “oprimidos, inseguros, angustiados”. No futuro, a Igreja ocidental deve desenvolver uma “nova pastoral”, feita com “modéstia, doçura e respeito”, mas “sem medos”. O professor exprimiu a sua “admiração” pelos cristãos da Europa de Leste que foram capazes de resistir e “encontraram força na fé em Cristo e na esperança, tornando-se um sinal para o mundo”.

Bispos alemães criticam venda de armas ao governo de Luanda

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Após a recente visita de Ângela Merkel a Angola, a Alemanha vai fornecer de seis a oito navios patrulha a Luanda. “Armas são a última coisa de que precisa um país onde grande parte da população vive na miséria em bairros degradados e onde de um e outro lado da fronteira com o Congo vivem milhares de pessoas sem perspectivas de futuro em centros de refugiados”, criticou o bispo de Estugarda, Gebhard Fürst. No congresso sobre a paz, promovido pela Igreja alemã e pela Cáritas angolana, em Março de 2011, “os delegados africanos” lembraram que o país necessita de “um processo de pacificação e reconciliação, que não se pode alcançar com as armas”. AGOSTO/SETEMBRO 2011


Bispo mais jovem de Portugal na diocese de Bragança-Miranda “Colaborador dos jovens” e “servidor de esperança” são dois títulos que o novo bispo da diocese de Bragança-Miranda, José Cordeiro, reivindica para a sua acção pastoral. O novo prelado confessou que “foi uma enorme surpresa” a nomeação, aos 44 anos, fazendo dele o mais jovem bispo de Portugal. Reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, José Cordeiro propõe-se lidar de perto com os efeitos sociais da crise, que atribui, em parte, à “crise dos valores humanos e cristãos fundamentais”. Nomeado pelo Santo Padre, a 18 de Julho, sucede a António Montes Moreira, que a 30 de Abril de 2010 completara 75 anos, limite de idade para apresentar a resignação.

Afeganistão é o pior lugar do mundo para ser mãe Meia centena de mulheres morrem, diariamente, no trabalho de parto no Afeganistão, segundo um relatório publicado a 24 de Junho, pela organização «Save the Children». Uma em cada três mulheres é vítima de violência física ou sexual e a esperança média de vida das mulheres é de 44 anos. Ainda de acordo com o mesmo relatório, mais de 85 por cento das mulheres afegãs são iletradas e 70 por cento das meninas em idade escolar não frequentam a escola. O relatório conclui que “o Afeganistão é o país menos indicado” para a maternidade, apesar do esforço das autoridades para melhorar as condições de saúde das mulheres.

Organizações eclesiais envolvidas na luta contra a SIDA Os doentes de SIDA, no mundo, serão actualmente mais de 34 milhões, dos quais 22 só em África. Há mais de 20 anos que a Igreja está envolvida na luta contra esta pandemia, com mais de 120 mil estruturas sanitárias, desde o pequeno dispensário da selva africana até ao grande complexo clínico das zonas urbanas. Há zonas do planeta, sobretudo na África subsariana, onde apenas cinco por cento dos doentes infectados têm acesso às terapias antirretrovirais, essenciais para garantir o prolongamento da vida, impedir o contágio de mãe para filho, e diminuir a carga viral e, por conseguinte, a possibilidade de transmissão a um parceiro saudável, sobretudo entre cônjuges.

Tobias Oliveira, NAIROBI, Quénia

O drama dos refugiados

As Conferências Episcopais dos oito países da África Oriental uniramse há 50 anos numa associação chamada AMECEA. Reunidos há dias em Nairobi para celebrarem as bodas de ouro os bispos da AMECEA publicaram um comunicado em que manifestam a determinação da Igreja Católica em continuar a ser luz do mundo e sal da terra nesta parcela da África. Os problemas são imensos e se por um lado brilha a esperança de melhores dias para o povo e para a Igreja do Sudão do Sul, uma nação agora independente e livre, por outro lado a fome, a doença, o tráfico de seres humanos, e ultimamente também a imensa multidão dos refugiados, chamam-nos à mente os famosos flagelos do antigo Egipto. O Quénia encontra-se hoje em dia ao centro da problemática dos refugiados vindos especialmente da Somália. Para além da guerra civil que devasta aquele país, há também as centenas de milhares de vítimas da carestia. O Quénia, não obstante os seus muitos problemas sociais, tem agora o pouco invejável primado de possuir o campo de refugiados maior do mundo em Dadaab junto da fronteira da Somália onde já se encontram mais de 300.000 pessoas, a maioria das quais são mulheres e crianças. O Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, esteve no início de Junho no Quénia para se inteirar da situação e propor soluções. É neste ambiente de esperanças e incertezas que as Igrejas locais e os missionários dos países da AMECEA são chamados a dar testemunho de amor, hospitalidade e partilha em favor dos mais necessitados.

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Recomeçar na Costa do «Algo me leva a crer que, apesar dos imensos desafios que se colocam, estou no lugar certo», afirma João Nascimento, missionário da Consolata, em missão na Costa do Marfim texto CRISTINA SANTOS foto E. Assunção

hegou a hora de partir. «Ao levantar voo, a 30 de Junho, por volta das 18h.30, compreendi que começava um novo capítulo da minha vida», escreve João Nascimento, recém-chegado à Costa do Marfim. «Embora longa, a viagem não foi cansativa nem aborrecida. Apesar da tristeza da separação, senti-me como uma fonte a transbordar de gratidão por tudo quanto recebi ao longo de quase dois anos repartidos entre Portugal e a Suíça», confessa o missionário, natural de Chaves. A caminho de Grand Zatry, o missionário da Consolata

visita Abidjan, capital económica do país. «A imponência dos edifícios de estilo ocidental mistura-se com a explosão e a desordem dos bairros populares», observa o sacer-

dote de 49 anos, que já trabalhou em Moçambique. «Revi situações de outros lugares de África, em que os traços comuns são evidentes: a concepção do tempo, o ritmo

dos movimentos, a espontaneidade, a hospitalidade». A viagem prosseguiu. «Fui captando as primeiras imagens de um país que quer lançar as sementes da paz nos sulcos profundos da desordem social e política ainda em fase de rescaldo». Nos últimos meses, a Costa do Marfim viveu um período conturbado e violento, devido à crise pós-eleitoral. Hoje, o país chora

João Nascimento e pais Natural de Loivos, Chaves. Nasceu a 9 de Novembro de 1962. Decidiu seguir o caminho do sacerdócio aos 18 anos. Dedicou-se durante 12 anos à formação de missionários em Moçambique. Acompanhou os toxicodependentes de um centro, nos arredores de Maputo. Estudou Islamismo. Aprende francês na Suíça, língua oficial da Costa do Marfim

“Se tivesse filhas, faria o mesmo” Mediador no Bairro do Zambujal, arredores de Lisboa, cigano de 22 anos, casado, um filho, António Quaresma lida com crianças ciganas em idade escolar. “Falo com elas sobre a escola”. Muitas não a frequentam. “Tento melhorar a situação” texto e foto E. Assunção

A vida não está fácil. Sem a escolaridade necessária, não vão conseguir um trabalho. Qual trabalho? Desde pequeninos somos ensinados a trabalhar nas feiras. Mas, as feiras estão a acabar. Que farão sem a escolaridade obrigatória!? Será complicado. Você estudou? Cheguei até ao 5º ano. Casei FÁTIMA MISSIONÁRIA

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com 14 anos, por vontade própria e não por obrigação. Comecei a vida de feirante, mas, aos 19, a vida mudou. Consegui fazer um curso. Como encontrou trabalho? Fui à procura. A vida não está grande coisa e sem um trabalho não se vence. As raparigas casam cedo e estão prometidas? Comprometer-se de pe­que­

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ni­nos e casar cedo já passou um pouco. Se o meu filho, amanhã, quiser casar por vontade própria, não o vou obrigar a casar. Vai dar-lhe uma esposa? Não! Já não sinto essa obrigação. O costume existe, mas não como antigamente. Como define a alma cigana? Para mim, é saber respeitar, ser uma pessoa honesta

e saber dizer o que pensa. No bairro há várias etnias? Existe a interculturalidade e um bom diálogo entre todos. Não há grandes confusões.


Marfim milhares de mortos e conta um milhão de deslocados. À chegada a Grand Zatry, o missionário foi acolhido por três missionários africanos, de nacionalidades diferentes, e pela alegria exuberante de crianças curiosas: «Bien venu, mon Pére!», isto é: «Bem-vindo, padre!». A gran­­­ de maioria das pessoas que frequentam a paróquia são es­trangeiras, provenientes dos

países vizinhos, à procura de trabalho. «É perceptível o apreço que as pessoas sentem pelos missionários», afirma João Nascimento. O sacerdote vai trabalhar no norte do país, a 600 quilómetros de Abidjan, no meio de uma população muçulmana. «Deus santifica-nos onde estamos e naquilo que fazemos. Algo me leva a crer que, apesar dos imensos desafios, estou no lugar certo». Na Costa do Marfim, trabalham 13 missionários da Consolata, de sete nacionalidades diferentes. «Sou o único português. É bom começar desta forma», assegura João Nascimento. «Ajudar as pessoas deste país, ensiná-las a ler ou curar as suas feridas, bem como aprender e receber delas, será apenas a consequência do espírito de Deus que me habita e me impele a ser solidário».

A fama do bairro não é essa! É verdade que, às vezes, há conflitos, tiros, mas, em geral, não é entre etnias. Quais as tradições que mais aprecia no povo cigano? Que a mulher seja pura, casar com a pessoa de que se gosta e respeitar as pessoas idosas. Quais as suas virtudes? O cigano é uma pessoa que respeita, sabe estar num sítio e é uma pessoa civilizada. Quais os seus problemas? Discriminação e falta de oportunidades. Porque é que as meninas ciganas abandonam a escola? Deixam a escola pelas tradições ciganas. Têm de preparar-se para o casamento. Deveria mudar a tradição? Não tenho filhas, mas se

tivesse, faria o mesmo. Porquê? Pelo receio que elas possam integrar-se noutras etnias. Como explica? Se a minha filha casasse com uma pessoa não cigana, eu não iria ser visto da mesma forma. Iria perder o meu valor e o meu respeito. Como vai ser o futuro dos ciganos? Brilhante e difícil. Quais dificuldades? A escolaridade obrigatória. É preciso dar esse passo para ter um futuro brilhante. É verdade que os ciganos não são capazes de se integrar na sociedade? É um povo muito fechado, cumpre muito as suas tradições, mas é capaz de se integrar.

Pipo nas férias texto Carreira Júnior ilustração H. mourato

– Pipo, as férias já vão adiantadas. Como é que as tens aproveitado? – Para mim o mais importante foi eu ter ido à casa dos missionários da Consolata participar num curso que eles lá organizaram para jovens que mostrem sinais de vocação. – Em que é que consistiu esse curso? – Em três pontos: 1º O que é a vocação? E isso, estou eu farto de saber. Sei que para haver vocações tem de haver um chamamento de Deus. É uma coisinha que a gente escuta e provoca uma inclinação para ali. 2º O que é a missão? Explicaram que a missão é a actividade que o missionário desenvolve conforme a sua preparação. Se for padre faz uma coisa, se for irmão faz outra, se for irmã ou leigo faz outra. Em todos os sectores o mais importante é sempre a catequese. 3º Onde é a missão? Aqui é que houve algumas discussões: uns diziam uma coisa, outros pensavam outra. Todos apontavam para a África e a Ásia, sítios onde há menos cristãos. Mas explicaram-nos que o lugar da missão é onde se encontram pessoas que precisam de ajuda seja ela qual for. AGOSTO/SETEMBRO 2011

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Moçambique

De Maputo ao Niassa Missionário genuíno, itinerante por terras de Moçambique, José Torres Neves aponta alguns marcos do seu peregrinar de norte a sul. Só uma grande paixão alimenta e dá alma a um sonho missionário tão rico e variado texto JOSÉ TORRES NEVES foto ANA PAULA

assaram mais de 20 anos desde a minha chegada a Mo­çambi­que em Novembro de 1989. Entre muitas actividades, assinalo quatro experiências neste país africano. Em Maputo, na casa provincial, fui nomeado ponto de apoio às actividades missionárias do interior. Para não me ocupar unicamente de coisas materiais, fui pároco de Likeleva. Durante dois anos, procurei inserir-me nesta realidade da periferia da capital moçambicana. O meu destino seguinte foi Lichinga,

capital da província do Niassa, no norte do país. Assumi a responsabilidade da comunidade missionária de Nzinje, juntamente com as paróquias do Planalto e Lago, confiadas aos Missionários da Consolata. Foi um desafio enorme enfrentar as quatro línguas locais faladas nesta zona da diocese. Com a chegada de novos missionários, fiquei apenas com a responsabilidade da paróquia do Lago para uma tarefa mais ordenada e profunda. Em 1998, assumi a paróquia de Majune, durante quatro anos. Foi um tempo muito rico e desafiante, pois tive

Actualmente, já estou em Mecanhelas e Entre Lagos, duas paróquias no sul da província do Niassa

Missão de Entre Lagos oferece à população estruturas básicas, como poços FÁTIMA MISSIONÁRIA

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de recomeçar o trabalho nessas paróquias fechadas ou condicionadas durante o tempo de guerra. Descobri comunidades animadas e orientadas por leigos. Com eles, dediquei-me à formação de catequistas, ministros da palavra e da eucaristia, e outros ministérios.

Formador de missionários

Em 2005, fui enviado para Maputo, como membro da comunidade formativa do noviciado da Consolata, em Laulane. Ofereci a minha experiência missionária, em coordenação com o mestre de noviços, a uma dezena de jovens, de vários países africanos, que se preparavam para serem missionários da Consolata. Juntos percorremos um caminho de aprendizagem dos sinais dos tempos, na Igreja e na sociedade, em vista de implantar o carisma do Instituto em África. Foi consolador sentir como os jovens eram solidários com o empenho missionário da Igreja e do Instituto, crescendo na capacidade de viver e trabalhar ao lado de irmãos de outras raças. Foi uma experiência enriquecedora.

Passagem de testemunho

Em 2009, parti para Majune, onde me esperava a tarefa complexa de preparar a paróquia para a entregar aos padres da Sociedade Missionária Coreana. A administração dos lares, da moagem e da escolinha estava sob a responsabilidade do irmão leigo missionário. Eu dediquei-me à organização da catequese, à formação de leigos e animadores para os vários ministérios laicais. Depois de 15 meses, entreguei uma paróquia mais amadurecida e organizada, graças ao trabalho em união com todas as forças presentes no terreno, designadamente com as Missionárias da Consolata e com os Leigos Missionários. Actualmente, já estou em Mecanhelas e Entre Lagos, duas paróquias no sul da província do Niassa, com uma realidade pastoral intensa semelhante à da vizinha cidade de Cuamba, onde também já trabalhei cerca de dois anos. É mais um novo desafio de mudanças e de estilo de pastoral missionária.


Desenvolvimento, milícias, questões étnicas

Os desafios do Sudão do Sul texto CARLOS CAMPONEZ foto LUSA

Com a criação, no passado dia 9 de Ju­ lho, do Sudão do Sul termina a história de uma das mais sangrentas guerras ci­ vis do continente africano que, durante cerca de 50 anos, vitimou cerca de dois milhões de pessoas. Por detrás das de­ clarações solenes de independência, das festividades e das promessas de apoio, o novo governo de Juba, a capital do mais jovem estado africano, enfren­ ta inúmeros desafios à sua estabilidade. A guerra, as questões étnicas, a pobreza que alimentaram o conflito com Car­ tum, são agora problemas que o Sudão do Sul vai ter de resolver internamente. A independência do Sudão do Sul é o resultado próximo dos acordos de paz celebrados em 2005 e do referendo rea­ lizado em Janeiro onde cerca de 99 por cento dos votantes deram o sim à in­ dependência de parte daquele que era o maior país do continente africano. Praticamente desde a sua fundação, em 1955, questões religiosas, étnicas, ideológicas e o controlo dos recursos petrolíferos estiveram na base de mais de 50 anos de conflitos.

Unir um território plural

A curto prazo, o novo presidente, Salva Kiir Mayardit, terá de enfrentar árduos desafios que se colocam ao novo Esta­ do. O primeiro deles será o de consoli­ dar a unidade nacional: uma dezena de milícias rebeldes desafiam a segurança nacional, sendo-lhes atribuída a respon­

Celebrações da independência do Sudão do Sul, a 9 de Julho de 2011

sabilidade pela morte de cerca de um milhar de pessoas por ano. Para além disso, o Sudão do Sul, com uma dimen­ são idêntica à França, é constituído por cerca de 10 milhões de habitantes, dis­ tribuídos por cerca de 500 grupos tribais e mais de 100 línguas locais diferentes. Apesar das promessas do petróleo, o Sudão do Sul integra o grupo dos paí­ ses mais subdesenvolvidos do mundo. Juba é uma capital em ruínas, o asfalto falta nas ruas, bem como a água, o sa­ neamento básico e a electricidade. Algumas questões relacionadas com a criação do novo Estado estão ainda por resolver. Em primeiro lugar, a de­ finição da fronteira com o seu vizinho do Norte. Em causa está aquela que é considerada a maior fronteira africa­ na onde permanecem conflitos sobre algumas regiões disputadas por popu­

Apesar das promessas do petróleo, o Sudão do Sul integra o grupo dos países mais subdesenvolvidos do mundo

lações do Norte e do Sul ou que con­ sideram que a fronteira entre os dois países não os colocou no lado certo.

A questão petrolífera

Os dois países terão ainda de resolver a questão das populações deslocadas em cada uma das regiões e evitar ajustes de contas de carácter étnico, religioso ou mesmo económico. Para além disso, apesar dos acordos de paz e das promessas de cooperação internacional, Juba e Cartum terão ainda que se entender sobre o futuro dos recursos petrolíferos. O tratado de paz de 2005 previa a repartição dos recursos entre os dois países, mas eles vão ter de ser renegociados, uma vez que os acordos caducaram e sem que se chegasse a uma nova solução. Se Juba tem sob seu domínio cerca de 75 por cento dos recursos petrolíferos, Cartum é quem detém o poder de re­ finação e os oleodutos. Mas será essa dependência mútua motivo suficiente para trazer a paz e o desenvolvimento a dois países irmãos que se digladia­ ram durante tanto tempo?

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O Sul já não mete medo Foi terra de escravatura e também de linchamentos do Ku Klux Klan, mas hoje dá oportunidade a muitos afro-americanos de passar uma reforma ao sol ou, para os mais novos, de construir uma carreira. Este regresso dos negros ao Sul, onde estão as suas raízes, é mais um sinal de que o racismo perde terreno nos Estados Unidos texto LEONÍDIO PAULO FERREIRA* fotos LUSA

ns eram polícias e bombeiros, em Nova Iorque; outros operários da indústria automóvel em Detroit. Agora vivem os anos da

reforma na Florida, contribuindo para o fenómeno do regresso dos negros americanos ao Sul, uma zona dos Estados Unidos durante muito tempo hostil a quem tinha a pele escura e de má fama por

causa dos capuzes brancos do Ku Kluz Klan, uma milícia racista. Mas não são só os idosos negros a sentirem a atracção pelo Sul, também muitos jovens profissionais procuram aí fixar-se, devido a uma

prosperidade superior à do resto do país. Dados de 2010, indicam que 57 por cento dos afro-americanos vivem hoje nos estados sulistas, o valor mais alto em meio século. Na Florida, no Texas e na Jórgia, a população negra cresceu em mais de meio milhão de pessoas. E na Carolina do Norte e no Maryland o acréscimo foi também de várias centenas de milhar. A perder nas contas ficam o Nordeste e os Grandes Lagos.

Em busca do sol ou do sucesso profissional, a ver-

Exemplos de sucesso Na lista dos cem mais poderosos do mundo da revista ‘Time’ há sete afro-americanos

Barack Obama

Eleito em 2008, com uma mensagem de esperança, Barack Obama chega às presidenciais de 2012 desgastado pela crise financeira e pela luta com um Congresso de maioria republicana. Aos 50 anos (a 4 de Agosto), o primeiro negro a chegar à Casa Branca quer mesmo fazer a diferença. Para isso, o filho de um queniano e de uma branca do Kansas precisa de um segundo mandato. FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Michelle Obama

Mais do que primeira dama, a mulher de Barack Obama gosta de se definir como “primeira mãe”. Talvez por isso, a mãe de Malia e Sasha tenha feito da luta contra a obesidade infantil a sua prioridade, desde que chegou à Casa Branca. Descendente de escravos, a advogada de 47 anos não se limita a ser um ícone de moda, quer deixar a sua marca no futuro dos americanos.

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Geoffrey Canada

Há 14 anos, quando Geofrey Canada criou o projecto, o Harlem Children’s Zone abrangia apenas um quarteirão daquele bairro nova-iorquino. Hoje, abrange cem quarteirões e mais de oito mil crianças. Sinal do sucesso deste activista social, de 59 anos, que acredita que, com a educação certa, todas as crianças podem ser bem-sucedidas.

Cory Booker

Oprah Winfrey, a rainha dos talk-shows americana, acredita que Cory Booker podia ter sido eleito senador. Mas preferiu continuar como mayor de Newark. E, para desenvolver a rede de escolas da maior cidade do estado de Nova Jérsia, não hesitou em pedir ajuda ao fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.


o aos negros americanos dade é que, ao apostarem no Sul, os afro-americanos estão também a responder ao forte apelo das raízes. Foi dessa parte dos Estados Unidos que os seus avós e bisavós partiram para o Norte em busca de uma vida melhor numa sociedade menos segregada racialmente. Calcula-se que sete milhões de negros terão deixado o Sul durante a primeira metade do século XX, naquilo que os historiadores americanos chamam “a grande migração”. Agora, sente-se o movimento inverso e isso pode ser tanto ou mais

significativo sobre o retrocesso do racismo que a eleição de 2008 de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. tações de tabaco e de algodão, que exigiam mão-de-obra escrava. Quando escreveu a famosa Declaração de Independência em 1776, Thomas Jefferson proclamou que todos os homens nasciam iguais, mas os novos Estados Unidos mantiveram a escravatura, durante várias décadas ainda, para evitar

polémicas entre o Norte industrializado e o Sul agrícola. Foi só com a eleição de Abraham Lincoln que a contradição entre os princípios liberais da América e a escravatura foi resolvida de vez. Mas, mesmo assim, 11 estados sulistas revoltaram- ­ -se e, entre 1861 e 1865, o país viveu uma sangrenta guerra civil. Embora derrotados, nos cem anos seguintes os brancos do Sul tudo fizeram para continuar a negar direitos aos negros, o que levou muitos destes a procurarem outras partes dos Estados Unidos

Lisa Jackson

Oprah Winfrey

Bruno Mars

Nascida e criada em Nova Orleães, há 25 anos que Lisa Jackson luta por um mundo mais limpo. Foi com esse objectivo que a engenheira química, de 49 anos, entrou na Agência de Protecção Ambiental e é, de acordo com ela, que a dirige desde Janeiro de 2009.

O Sul foi a terra das plan-

Durante 25 anos, Oprah Winfrey entrou em casa dos americanos através da ABC, mas agora a rainha dos talkshows vai iniciar uma nova fase da sua vida com o seu canal OWN. Nascida numa família pobre do Mississípi e vítima de abusos sexuais, fez dos temas sociais a sua bandeira. Eleita a afroamericana mais rica do século XX, é também uma conhecida filantropa.

“Um dos mais versáteis e acessíveis cantores da pop”, escreveu o ‘New York Times’ sobre Bruno Mars. Aos 25 anos, o cantor, escritor e produtor faz parte de uma nova geração de artistas que juntam várias facetas. E, segundo a ‘Time’, tem todas as portas para abrir à sua frente.

para construírem a sua vida já em liberdade. E os negros que ficaram no Sul viviam sob o medo, com o Ku Klux Klan a ameaçar de linchamento quem se atrevesse a falar de igualdade entre as raças.

Com o racismo a persis-

tir, mesmo após o fim da escravatura, houve líderes negros que pensaram em romper a ligação aos Estados Unidos. Um deles, Marcus Garvey até criou uma companhia marítima para levar os afro-americanos para a terra dos seus antepassados, África. Outros ainda sonharam construir uma pátria in­dependente na própria América, mas nem sequer no Alabama ou Mississípi os negros são uma maioria. Mas a corrente maioritária sempre acreditou no sonho americano e, graças a Martin Luther King, conseguiu na década de 1960 conquistar todos os direitos cívicos para a sua comunidade, ao mesmo tempo que, embora continuando mais pobres que a média da população, os 40 milhões de afro-americanos começaram a distinguir-se no cinema, na música, no desporto e, nos últimos anos, também nos negócios e na política.

Filho de um imigrante

queniano e de uma branca do Kansas, Obama não viveu a experiência histórica de escravatura, segregação, racismo, mas conhece-a através da sua mulher Michelle, descendente de escravos do Sul. E sabe por isso que quando um negro compra hoje uma casinha na Florida, vale ainda mais que a Casa Branca. *jornalista do Diário de Notícias

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Consolata dois novos sacerdotes

Três países, três continentes e dois novos sacerdotes criam uma história rica de significado para a Igreja. Constituídos sacerdotes a 9 e 10 de Julho, os dois jovens missionários da Consolata têm caminhos diferentes na longa estrada que os conduziu ao sacerdócio, mas estão ligados a um projecto actual da Consolata textos ELÍSIO Assunção / Lucília Oliveira fotos ANA PAULA / ELÍSIO ASSUNÇÃO FÁTIMA MISSIONÁRIA

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Após o caminho tradi­

cional dos seminários me­ nor e maior, percorrido de maneira brilhante, Marcos Coelho optou por abando­ nar o projecto, algo ines­pe­­ radamente, quando ter­mi­ nou a sua formação univer­ sitária em Roma. Queria me­dir forças com “o mundo exterior”, para verificar a solidez da sua vocação mis­­ sionária e sacerdotal. Re­ gres­sou após quatro anos, para continuar a caminha­ da nu­m estágio pastoral na Coreia do Sul e, aos 32 anos, é ordenado sacerdote


pelo bispo do Porto, Manuel Clemente, a 10 de Julho de 2011, tendo celebrado missa nova a 17 de Julho, em Paço de Sousa, sua terra natal.

Com uma caminhada

totalmente diferente, João Batista Amâncio foi ordenado sacerdote no nordeste brasileiro, em Guarabira, na sua diocese de origem, a 9 de Julho, tendo celebrado a sua primeira missa em Pilõezinhos, sua terra natal, no dia seguinte. João Amâncio tem um percurso extraordinário de leigo cristão militante.

Aos 18 anos, após uma juventude de trabalho na agricultura e de compromisso de vida cristã em movimentos de Igreja, troca a sua terra natal pelo Rio de Janeiro, para se tornar trabalhador estudante. Envolvido nas actividades da comunidade cristã dos Telégrafos, conhece a Consolata e entusiasma-se pela vida missionária. Entra no Instituto e inicia uma caminhada que o leva de São Paulo a Buenos Aires, Roma e, finalmente, ao Bairro do Zambujal, nos arredores de Lisboa, onde comple-

tou um ano de pastoral, num ambiente complexo, mas rico de vida e experiência.

Com percursos tão dife­

rentes, oriundos de continentes diferentes, os dois neo-sacerdotes têm pela frente um caminho muito semelhante. Ambos vão exercer o seu ministério fora da sua pátria, um na Coreia do Sul e o outro em Portugal. Uma missão apaixonante que responde às orientações do recente capítulo geral dos Missionários da Consolata, que teve lugar em Roma, em

Junho passado. A magna assembleia decidiu “assumir que a Europa é uma área da missão «ad gentes»”, isto é, o Instituto olha para a Europa como olha, do ponto de vista missionário, para qualquer outro continente. Decidiu ainda encaminhar-se “para se abrir decididamente ao continente asiático”, seguindo a orientação da Igreja que convida “a que se escolha a Ásia como prioridade da missão «ad gentes»”. Marcos Coelho e João Amâncio são dois neo-sacerdotes apontados a este horizonte.

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Marcos Coelho ordenado sacerdote a 10 de Julho, na Sé do Porto, por Manuel Clemente, bispo da diocese

Ordenação de Marcos Coelho

“Sacerdote para o mundo” Marcos Coelho foi ordenado sacerdote a 10 de Julho, quase oito anos depois de ter sido ordenado o último missionário da Consolata á três anos na Coreia do Sul, Marcos Coelho vai regressar a este país asiático de minoria cristã, para exercer aí o seu ministério. “Para além do empenho no estudo da língua coreana e das actividades que já exerci, a minha vida não será a mesma, graças ao poder sagrado de que fui investido. Se antes devia servir como diácono, agora devo ser o servo dos servos”, explica Marcos Coelho, ordenado sacerdote. Foram muitos os amigos, familiares e membros da Família Missionária da Consolata que estiveram presentes na ordenação presbiteral, que teve lugar na Sé do Porto, a 10 de Julho. Na homilia, Manuel Clemente deixou um alerta aos

Livre, feliz e realizado, assim se sente o missionário da Consolata FÁTIMA MISSIONÁRIA

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dois novos presbíteros e sete diáconos, ordenados com Marcos Coelho: “Deus conta convosco, indispensavelmente”.

Imposição das mãos faz o novo sacerdote

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É o ponto de partida para a nova etapa da caminhada que Marcos Coelho inicia, 19 anos depois de ter entrado no Instituto Missionário da Consolata. “Todos os dias devem ser um ponto de partida”, salienta o novo sacerdote. “Muito mais agora. Pelo poder sagrado de que fui investido irei ter a missão de organizar e reger o povo sacerdotal, oferecer o sacrifício eucarístico na pessoa de Cristo, em nome de todo o povo”. Livre, feliz e realizado, assim se sente o missionário da Consolata que aponta a “entrega total e abandono em Deus”, como pontos fortes do seu ministério. “Tenho tudo o que mais preciso. Este «tudo» é somente Deus”, afirma. Aos jovens que sintam o apelo de Deus, mas que tenham receio de fazer esta opção de vida, o sacerdote encoraja-os a caminhar, “mesmo tendo em conta as dificuldades e os apelos da sociedade”. É impossível ficar indiferente, quando “acreditamos num Deus que é amor e que nos ama”. O novo sacerdote desafia: “Que os nossos actos sejam o testemunho deste amor”.


Autenticidade e optimismo “Tenho fé e certeza que vai ser um grande missionário, um grande pescador de homens”, diz com orgulho, Maria de Lurdes Soares, mãe do novo sacerdote ordenação sacerdotal de Marcos Coe­lho encheu de alegria o coração dos pais, que já tinham participado na ordenação diaconal do filho, na Coreia do Sul, em Janeiro de 2011. “É uma paz de espírito muito grande, é ver realizar-se uma coisa que ele desde pequenino queria”, salienta a mãe. Para Maria de Lurdes Soares, o mais importante é a felicidade do filho. “Estamos com ele nesta alegria, no começar de uma vida nova. É uma paz muito grande, uma felicidade!”. É a alegria de “dois em um”: filho e padre. Como muitos pensam, não se “perde um filho”; ganha-se “muitos herdeiros espirituais”. Marcos Coelho “já sabe falar coreano”, uma “língua difícil”, afirma Maria de Lurdes. “Acho que está a conseguir muito bem”. Tendo estado naquele país de minoria cristã, aquando da ordenação diaconal do filho, a mãe apercebeu-se que ele “gosta de estar lá, deu-se bem com o frio e com a comida”.

O superior dos missionários da Consolata na Coreia do Sul, Diego Cazzolato, durante a festa da ordenação, afirmou: “Esperamos-te na Coreia”, e explicou que a ordenação “não é o dia de chegada, mas o dia de começar”. Por sua vez, Norberto Louro, superior da província portuguesa da Consolata, realçou a “seriedade” de Marcos Coelho. Depois de um período de prova da sua vocação, chegou a uma decisão firme. A experiência positiva fê-lo “constatar que a maior segurança estava em voltar”. E explicou: “Mediu as forças, mediu a insistência com que Deus lhe bateu à porta e o

“Estamos com ele nesta alegria, neste começar de uma vida nova. É uma paz muito grande, é uma felicidade!”

trabalho que havia para fazer e voltou”. O novo sacerdote, de 31 anos, é “opti­ mista” e não pensa em fronteiras próximas. Pensa “ir para a China”, recorda o provincial da Consolata. Na Coreia entrou num projecto de evangelização difícil e fez uma “boa experiência”. Norberto Louro garante que Marcos Coelho é um homem de coragem. Apesar de ser filho único, seguiu determinado a sua vocação. Já o ex-superior geral dos Missionários da Consolata, Aquiléo Fiorentini, destaca as principais características do novo sacerdote: “Autenticidade, perspicácia e ideias claras na doação à missão”. Tendo acompanhado a formação de Marcos Coelho, o sacerdote aproveitou a viagem a Portugal para participar na ordenação sacerdotal. O ex-superior sublinha, no novo sacerdote, a “autenticidade que faz com que viva o seu dia-a-dia, o seu estudo, a sua missão com alegria e serenidade”. E confessa que seria um grande prazer, “num lugar ou noutro do mundo, partilharmos a missão”.

Maria de Lurdes Soares, Azemiro Ferreira Coelho, pais do novo sacerdote, e a sua tia Anistalda Soares, missionária da Consolata

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João Batista Amâncio, ordenado sacerdote por Francisco Lucena, bispo da diocese de Guarabira, Paraíba, Brasil

Um padre apaixonado “Sinto-me feliz e realizado! Sempre foi meu desejo, desde pequeno. No decorrer da minha vida, da minha caminhada do dia-a-dia, fui sempre buscando ser sacerdote”. E que caminhada! asceu numa aldeia humilde, Pilõezinhos, nos arredores de Guarabira, no nordeste brasileiro. “João é filho de agricultores, pessoas pobres, mas honradas e honestas”, comenta o director da sua escola, António Ireneu, agora aposentado. Fi-

lho de Luís Amâncio dos Santos, já falecido, e de Maria Francisca da Silva, uma mãe vergada pelo peso da doença, mas muito feliz, João Batista Amâncio bem cedo começou a trabalhar na agricultura, no Serradinho, a sua aldeia. Movido pelo seu sonho, aos 18 anos, partiu para Rio de Janeiro, onde conheceu a

vida dura de trabalhador estudante. E o sonho torna-se realidade depois de percorrer o caminho formativo para ser sacerdote, passando por São Paulo, Buenos Aires, Roma e Lisboa. Regressa à sua terra, aos 39 anos, para ser constituído sacerdote pelas mãos do bispo Francisco Lucena, a 9 de Julho de 2011, na catedral de Nossa Senhora da Luz, de Guarabira: “Muitíssimo feliz por voltar à minha cidade e ver todas as pessoas, desde as mais simples, aos professores, catequistas, amigos e familiares que vieram de longe para estarem presentes e participarem na minha ordenação”. A catedral estava a transbordar: “Vi a comoção das pessoas e isso deixou-me muito feliz”.

Calçar as sandálias

Maria Francisca Silva, mãe do novo sacerdote, entre o casal Paulo e Patrícia Chapelas FÁTIMA MISSIONÁRIA

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“Cheguei!”, exclama. Não para parar, mas para dar passos maiores: “Deus vai levar-me para a missão. Tenho que dar passos maiores, arregaçar as mangas e calçar as sandálias para trabalhar”. O trabalho agora é mais árduo e exigente: “A missão começa com muito mais afinco, com muito mais força”. Nada a que João Batista não esteja habituado. Desde a sua terra natal e por onde passou, foi sempre um cristão empenhado nos grupos da paróquia e, hoje, a imagem do padre que pretende ser, está bem clara na sua mente. Como ensinava um seu antigo professor psicólogo, não basta simplesmente ser padre. “Quero ser um


padre apaixonado pela missão, pelas pessoas, pelos mais simples, pelos mais necessitados, pelos que precisam de mim, pelos que vêm pedir o meu auxílio. Um padre que ame realmente!”.

Trabalhar e celebrar com o povo

A última etapa da sua caminhada para o sacerdócio foi vivida no Bairro do Zambujal, nos arredores de Lisboa. Foi uma experiência missionária que o modelou. “O Zambujal ajudou-me muito, ensinou-me muito e formou-me”. E acrescenta: “A comunidade do Zambujal foi para mim um livro aberto, onde aprendi muito”. Agora vai regressar como sacerdote. “Serei o padre no meio deles, com mais responsabilidades. Acredito que eles depositarão em mim esta confiança e estarão felizes com a minha presença”. João Batista não esconde a relação que o prende às gentes do bairro: “Gostaria muito de continuar lá, viver com o povo, trabalhar e celebrar com o povo. Para mim seria uma alegria imensa”. Sempre com o

O neo-sacerdote recebe das mãos do bispo Francisco Lucena o cálice e as hóstias

seu jeito próprio: “Serei um amigo para o povo, aquele que esteve sempre no meio deles, conversando, participando, cele-

brando e vivenciando a alegria que o pessoal do Zambujal me demonstra, a mim e aos Missionários da Consolata”.

Testemunhos Jeanice Maria, leiga da Consolata: Conheci o João, quando trabalhava como catequista na comunidade dos Telégrafos, na Mangueira, Rio de Janeiro. Apareceu lá e foi-se chegando para a capela, procurando ajudar a gente. Fez uma grande amizade com todos. Com aquele seu jeitinho, começou a despertar o interesse pela vocação... Quase virou padre diocesano. Então a gente disse-lhe: Como missionário da Consolata, você vai ter um horizonte muito maior. Não vai ficar preso num lugar só. Aí ele começou a procurar e acabou amando a Consolata . Maria José Monteiro, professora: É uma alegria enorme, quando a gente se depara com o

João. Dei-lhe um abraço de grande satisfação, por ele se tornar um fruto daquilo que a gente plantou e que nós estamos colhendo agora . António Ireneu, professor aposentado: João é um ex-aluno nosso, filho ilustre desta terra. Conheço-o desde criança. Foi sempre uma pessoa exemplar, que nunca deixou a desejar. Hoje temos este orgulho de vê-lo ser ordenado sacerdote . Maria Graça, catequista: Aos 8 anos, João começou o catecismo. Tenho a honra e a alegria, juntamente com a sua família, de ter contribuído com os primeiros sinais da fé na caminhada de João Batista... Padre é uma vocação nobre e bela. Um homem chamado

a continuar Cristo no mundo… Não é tarefa fácil: deixar tudo e entregar-se completamente nas mãos do Senhor é um desafio. Pede vocação, força e fé. Nós queremos agradecer ao nosso bom Deus por nos ter dado o João de presente . Lírio, provincial dos Missionários da Consolata: Desde que conheci o João, notei nele um rapaz muito espontâneo, muito alegre, muito entusiasta, trabalhador, estudioso. Tinha os seus defeitos, como todos nós, mas sabia o que queria. Sentimo-nos felizes, santamente orgulhosos de tê-lo como missionário da Consolata . Mãe do João Batista: Agradeço a Deus por me dar a graça de poder ver o

meu filho sacerdote. Dou graças a Deus que me deu tamanha alegria . Padre João Batista: Gostaria de agradecer a Deus por me ter escolhido, chamado e enviado ao mundo… Por me ter tirado de Pilõezinhos e ter-me levado a outros povos, a conhecer outras culturas, fazer novas amizades e ter aberto a minha mente. Agradeço à minha família, à minha mãe, ao meu pai que já se encontra com Deus... É uma grande alegria ser ordenado padre na minha diocese, com o meu povo, com os meus catequistas, os meus professores, os meus amigos e a minha família… A Consolata está em 28 países e eu estou disponível para ser enviado a qualquer um deles .

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FÁTIMA MISSIONÁRIA


“Sê digno de viver! Olha em frente!” Olá queridos missionários! Chegaram as férias e concluímos o nosso tema deste ano: A Declaração dos Direitos da Criança! Só quando lutarmos e nos empenharmos para que estes direitos sejam todos respeitados é que, nós missionários, poderemos afirmar que anunciamos Jesus: com a Sua força, com a Sua paz, com o Seu respeito por todo o ser humano! Terminamos com uma história do poeta António Botto (1942), onde resume que todas as crianças têm o direito a serem respeitadas para assim serem, um dia, adultos que contribuam para que outras crianças vivam felizes! texto CARLOS E MAGDA ilustrações RICARDO NETO

• Princípio 9º

Nenhuma criança deverá sofrer por negligência (maus cuidados ou falta deles) dos responsáveis ou do governo, nem por crueldade e exploração. Não será nunca objecto de tráfico (tirada dos pais e vendida e comprada por outras pessoas). Nenhuma criança deverá trabalhar antes da idade mínima, nem deverá ser obrigada a fazer actividades que prejudiquem a sua saúde, educação e desenvolvimento.

• Princípio 10º

A criança deverá ser protegida contra qualquer tipo de preconceito, seja de raça, religião ou posição social. Toda a criança deverá crescer num ambiente de compreensão, tolerância e amizade, de paz e de fraternidade universal. FÁTIMA MISSIONÁRIA

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As três peneiras O pequeno Raul saiu da escola a correr, chegou a casa excitado e, ao beijar a mãe exclamou: – Já sabes o que dizem do António? – Espera lá, já me contas; mas, antes de principiares, lembra-te das três peneiras… – Quais peneiras, minha mãe?

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– A primeira peneira chama-se Verdade. Tens a certeza de que é certo o que vais dizer? – Não; se é certo, não sei. – Vês?! E a segunda chama-se Bondade. Será benevolente, será boa essa notícia que me trazes? – Não, minha mãe! Não é boa.


Querido Jesus

Passatempo

Hoje peço por todas as crianças Faz corresponder as imagens com os dez princípios dos direitos da criança. do mundo! A criança tem direito a… As que são exploradas pelo pouco que têm, 10º Mas também pelas maltratadas … ser educada em espírito de pelo muito que lhes é dado… fraternidade universal. Rezo pelos adultos que cuidam de nós, para que se lembrem que o dia de hoje prepara o amanhã… 8º Ajuda-os a prepararem-nos para a …estar entre os primeiros a vida, como ser únicos e insubstituíveis, receber protecção e socorro. mas responsáveis pelo outro que está desprotegido e desanimado. Obrigado por todos os que se preocupam 5º connosco e lutam todos os dias para …ter cuidados especiais se for deficiente. que cada vez mais tenhamos todas as oportunidades de conhecermos, admirarmos o mundo, as pessoas e… sermos verdadeiros missionários! 2º “Sê digno de viver! Olha em frente!” (Matilde Rosa Araújo, 2008)

Ser criança é ser capaz

De sentir alegria, confiança e entrega! Entrega no hoje que prepara o amanhã… Contudo, ser criança é estar protegida, acarinhada e bem-tratada. O homem do futuro que nascerá é a criança que, hoje, foi respeitada, identificada e amada!

…ser protegida para se poder desenvolver bem.

9º …ser protegida contra o abandono, crueldade e exploração. 1º …ser considerada igual às outras crianças do mundo. 3º …a um nome e nacionalidade.

Hoje sou criança Ajuda-me a crescer! Para um dia ser um Homem Que sabe compreender!

4º ...ter assistência para ela e sua mãe antes e depois de nascer.

Não me protejas em demasia Nem me maltrates e explores Para que um dia, quando fores idoso Não fiques sozinho, nem chores!

6º … ter a compreensão e o amor de todos.

– Vês?! E a terceira chama-se Necessidade. Será necessário repetires-me tudo isso que te contaram desse teu camarada e amigo? – Não, minha mãe. – Pois, se não é necessário, nem benevolente e talvez não seja verdadeiro, é preferível, meu filho, ficares calado.

7º … receber instrução gratuita.

Sugestões de leituras sobre A Declaração dos Direitos da Criança e do Homem: Os direitos da criança. Matilde Rosa Araújo (2008). Arca das Letras Todos nascemos livres. Amnistia Internacional (2008). Paulinas Editora AGOSTO/SETEMBRO 2011

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A Missão no ADN do cristão texto LUÍS MAURÍCIO foto ANA PAULA

os meus tempos de estudante de Medicina, tive um professor que dizia: o nosso ADN guarda toda a informação genética necessária para o nosso desenvolvimento, desde o início até ao fim da nossa vida. Tal informação liga-nos a um passado (herança genética) e permite adaptarmo-nos ao presente, segundo o meio em que vivemos. De uma forma análoga, o mesmo acontece com o nosso ADN cristão. Nós somos herdeiros da “missão histórica e transcendente”, transmitida por Jesus aos seus discípulos e, por consequência, a partir destes, transmitida de geração em geração a todo aquele que se aventura no seguimento das pegadas de Cristo.

Prontos para sulcar a história

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O ADN cristão é parte constitutiva do gene que faz de nós homens e mulheres prontos a sulcar a história com um coração sobrenatural. A nossa AGOSTO/SETEMBRO 2011

natureza cristã é profundamente missionária e a única razão de existirmos como Igreja é a Missão. Tão grande verdade foi testemunhada por multidões de homens e mulheres que Deus chamou através dos tempos. Em cada época, compete aos cristãos procurar uma maneira própria e desafiante de comunicar a grande e libertadora notícia: Deus veio salvar todos os homens, sem distinção de raça, povo ou nação. Em cada época, um grupo específico de cristãos é desafiado por Deus a deixar tudo: casa, família, filhos, prestígio, tempo, tudo, para servir a Missão e por toda a vida. Homens e mulheres que, investidos pela força do Infinito, sentem um chamamento especial e com total liberdade aceitam o desafio de serem enviados por Deus, tornando-se arautos do Evangelho. Não são heróis! Um herói valese das suas próprias capacidades e forças.


São missionários, homens e mulheres contemplativos na acção, enviados a consolar a humanidade com a força e a graça de Deus.

Mudança de época

Hoje, enfrentamos uma “mudança epocal”. São muitas e rápidas as transformações que estão a acontecer nos diversos âmbitos da vida, da sociedade e do cosmos inteiro. Tenho encontrado, ultimamente, pessoas e grupos que vivem uma mesma consciência histórica do presente, mas com pontos de vista muitos diferentes e contraditórios. É assustador o aumento contínuo de comportamentos esquizofrénicos nas famílias, nos grupos sociais e até na Igreja. Uns vivem sem muito empenho, sem motivações e sem sentido. Outros refugiam-se no passado como única fonte de sentido, perturbados, confusos e traídos por um presente em rápida e constante mudança. Outros ainda vivem um presente agitado, fugaz e superficial. Buscam a felicidade no material, procuram o prazer para se sentirem vivos. Pes­soas e amizades virtuais servem apenas para preencher a imensa solidão que os habita. Compete ao missionário de hoje a grande tarefa de decifrar o novo código genético da humanidade que o mundo em constante mutação está a suscitar. O homem de Deus é provocado para delinear e vislumbrar novos caminhos que garantam uma vida alternativa mais plena e duradoira.

Ler e assumir o presente

Actualmente, o discípulo de Cristo é confrontado com uma nova consciên­cia temporal. O êxito da missão que lhe foi confiada depende

da sua capacidade de ler e assumir o presente. O missionário de hoje tem a capacidade de criar espaço para se encontrar com os outros, com Deus e com a criação. Para isso, deve ser uma pessoa profundamente enraizada na experiência de Cristo. Só Ele é a fonte, o começo e o fim de toda a actividade missionária. Quando a experiência do Infinito o invade, ele não pode calar tudo o que viu e ouviu. O missionário torna-se pregoeiro e testemunha de uma realidade que o preenche e ultrapassa. Alegria, coragem, simplicidade, esperança consoladora, fidelidade ao projecto de Deus e paixão pela humanidade são a “marca evidente”, que está gravada a fogo no ADN do missionário que, um dia, foi chamado e decidiu deixar tudo para seguir Cristo.

Ser missionário É abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. Se para os encontrar é preciso atravessar os mares e voar até aos céus, então missão é partir “até aos confins do mundo”. Dom Hélder Câmara AGOSTO/SETEMBRO 2011

A alegria, a coragem, a simplicidade, a esperança consoladora, a fidelidade ao projecto de Deus, e a paixão pela humanidade, são a “marca evidente” gravada a fogo no ADN do missionário que um dia foi chamado e decidiu deixar tudo para seguir Cristo

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Da página do evangelho do primeiro Domingo de Agosto sobressai a imagem da barca que, pilotada pelos apóstolos, sulca o mar agitado da história. É figura da nossa existência na difícil travessia deste mundo e é figura da Igreja que nestes dois mil anos tem caminhado inserida na história, lutando contra ventos e marés. Os cristãos não caminham fora da história. São pessoas incarnadas no seu tempo, com os pés na terra e o olhar levantado para o alto, e por isso não podem vacilar

“Nunca tive medo” texto DARCI VILARINHO foto ANA PAULA

“Coragem, sou eu! Não tenhais medo!”, diz-nos o nosso Mestre. A vida tem as suas provas e os seus sofrimentos, e os cristãos não estão isentos. Mas basta um grito e um olhar de fé. É suficiente chamar por Ele e reconhecê-Lo nas situações de cada dia. Ele saberá acalmar o nosso coração. Com certeza que também tu já te encontraste com o coração em tempestade. Talvez já te sentiste arrastado pelo vento contrário para a direcção oposta. Quem é que não passa pela provação? O fracasso, a pobreza, a dúvida, a tentação ou a depressão... Às vezes é a dor dos outros que mais nos afecta ou faz sofrer: um filho drogado, incapaz de encontrar o seu caminho, um marido alcoólico, um familiar desempregado, a separação ou divórcio de pessoas amigas. O vento contrário pode ser a hostilidade e a incompreensão das pessoas, os revezes da vida ou dos negócios, a dificuldade em encontrar um trabalho ou uma casa, uma situação delicada de saúde, uma doença crónica incompreensível. São provações difíceis de suportar, sobretudo quando não temos ninguém com quem partilhar a dor ou quando a fé não ilumina o nosso caminho. “Não tenhais medo”, diz-nos Jesus. Também Ele, do alto da sua cruz se sentiu provado e abandonado. Também Ele se sentiu só, inseguro e ferido, e sentiu sobre os seus ombros a dor da perversidade humana. Ele é o amor que afasta todo o temor.

Um testemunho de fé

Há bem pouco tempo, impressionou-me a partida deste mundo da deputada, Maria José Nogueira Pinto. Conhecia

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muitos aspectos da vida dessa mulher de coragem, esclarecida e combativa, sabia que era cristã convicta, mas nunca tinha tido a possibilidade de “medir” a sua fé. Falou bem alto por isso o artigo póstumo que um jornal diário publicou logo depois da sua morte, uma espécie de testamento cheio de dignidade e coragem na profissão da sua fé: “Tenho tentado dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções. Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz – como repetiu João Paulo II – “não tenhais medo”. Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos. Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou – mesmo quando faltava tudo”. Na certeza de ter guardado a fé nos combates da vida, concluía: “Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor. Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará”. Simplesmente admirável!


A palavra faz-se missão EM AGOSTO

19º Domingo Comum 1Re 19, 9-13; Rom 9, 1-5; Mat 14, 22-33

levanta o nosso coração para o alto e prepara um lugar para todos nós, peregrinos em busca de Deus.

“Sou Eu, não temais”

Caminha, Senhor, ao nosso lado, para que não nos sintamos sozinhos e não tenhamos medo de lutar contra ventos e marés. Aumenta a nossa fé na tua presença amiga e consoladora. 20º Domingo Comum Is 53, 1.6-7; Rom 11, 13-15; 29-32; Mat 15, 21-28

“É grande a tua fé”

Senhor, Tu nos ensinaste que para fazer parte do teu Reino não valem privilégios ou genealogias, mas só uma fé forte e operante, humilde e confiante. Aumenta, Senhor, a nossa fé! Assunção Nossa Senhora Ap 12, 1-10; 1Cor 15, 20-27; Luc 1, 39-56

Senhora dos Altos Céus

Santa Maria, Mãe de Cristo e nossa Mãe, elevada ao Céu em corpo e alma,

21º Domingo Comum Is 22, 19-23; Rom 11, 33-36; Mat 16, 13-20

Quem sou Eu para vós?

Senhor, da resposta dos Apóstolos de­ pende a missão a que fomos chamados. Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo. Tu és a revelação do Pai que nos ama. Tu és o amigo sempre fiel. Tu és a força inabalável da nossa Igreja. 22º Domingo Comum Jer 20. 7-9; Rom 12, 1-2; Mat 16, 11-27

Perder é ganhar

Ensina-me, Senhor, que na economia da graça divina, perder é ganhar. Tenho de rejeitar muita coisa para me oferecer como vítima viva, santa e agradável a Deus, único tesouro da nossa vida. Que eu siga os teus passos, Senhor, para contigo morrer e ressuscitar.

EM SETEMBRO

23º Domingo Comum Ez 33, 7-9; Rom 13, 8-10; Mat 18, 15-20

“Eu estarei no meio deles”

Que riqueza, Senhor, é para nós a tua presença! Que beleza, ó Senhor, poder perdoar-nos uns aos outros e crescer no teu amor! Jesus, no meio de nós, perdoa as nossas divisões e contradições, e faz-nos crescer na tua comunhão.

25º Domingo Comum Is 55, 6-9; Fil 1, 20-27; Mat 20, 1-16

“Ide vós também para a minha vinha”

Não há lugar para braços cruzados na tua vinha, ó Senhor. Sempre e cada vez mais, há trabalho a realizar na tua Igreja e no mundo. Contrata-nos, Senhor, para a tua missão e sê tu a nossa recompensa no termo da nossa jornada.

24º Domingo Comum Sir 27, 30-28, 7; Rom 14, 7-9; Mat 18, 21-30

Assim como nós perdoamos

Perdoar sempre e em tudo é o teu mandamento, Senhor. A tua Igreja é uma comunidade de reconciliados, que partilham do teu perdão, oferecendo-o aos irmãos. Ensina-nos, Senhor, a arte difícil de perdoar.

26º Domingo Comum Ez 18, 25-28; Fil 2, 1-11; Mat 21, 28-32

“Arrependeu-se e foi”

São teus filhos, Senhor, os trabalhadores da vinha. Dizem que fazem e não fazem. Somos ouvintes da tua palavra, mas não realizadores obedientes. Dá-nos, Senhor, fidelidade e constância. DV

Para que os cristãos do Ocidente, dóceis à acção do Espírito Santo, reencontrem o vigor da fé cristã e vivam em conformidade com os seus princípios Intenção de Agosto

Embora à primeira vista pareça

que não, esta intenção, proposta pelo Santo Padre, tem sentido: pedir aos cristãos do mundo ocidental que rezem pela sua própria conversão e sejam dóceis à acção do Espírito Santo, vivendo com dinamismo a sua fé. Hoje não é novidade para ninguém falar de uma segunda evangelização na Europa, pois a fé tradicional que reunia os fiéis à volta das igrejas paroquiais de maneira a que ninguém faltasse à missa aos domingos para rezar e ouvir o senhor prior a explicar o Evangelho, terminou ou, pelo menos, abrandou.

Para que as comunidades cristãs, espalhadas pelo continente asiático, proclamem o Evangelho e dêem testemunho dele no seu dia a dia Intenção de Setembro

Bento XVI volta a convidar-nos

para estendermos os olhos para a Ásia e rezarmos para que os cristãos que lá se encontram tenham coragem de praticar a sua fé com alegria e sem respeitos humanos. Sabemos que não é fácil ser cristão no meio de tanta gente que adere a outras religiões ou não está filiado em nenhuma. Os poucos missionários e missionárias da Consolata que lá trabalham referem as dificuldades que encontram no seu apostolado. Por isso é-nos pedida a nossa solidariedade, quanto mais não seja através da oração. MC

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Paixão de Deus pelos homens

Embora com sabor antigo, este livro está cheio de originalidade que o torna absolutamente moderno; o título é de sempre; o conteúdo é de agora. Há aqui muita teologia, filosofia, política, ética, religião, ateísmo e muitos outros conceitos e «ismos». Há naturalmente, muita teoria, mas ainda muito mais prática. O autor socorre-se de citações de grandes sábios, o que dá consistência à obra. Leitura simples e agradável quer “para gregos, quer para troianos”, para todos. Autor: João António Pinheiro Teixeira Páginas 168 | preço: 12€ Paulus Editora

A caridade dá que fazer

Geração JMJ Título e capa bastante confusos. Trata-se de um opúsculo onde figuram os depoimentos de 25 pessoas, tantas quantos os anos de existência das Jornadas Mundiais da Juventude, este original evento criado pelo Papa João Paulo II

Sem caridade nada feito. São Paulo aos Coríntios diz que as virtudes teologais são três: fé, esperança e caridade. Todas as três são grandes, mas a terceira, a caridade, é a mais de todas. Podemos rezar, fazer sacrifícios, dar esmolas…mas, se não tivermos caridade, nada nos vale. A caridade identifica-se com Deus. O autor divide o seu trabalho em duas partes: a primeira refere-se à caridade propriamente dita; a segunda aos efeitos da caridade que são essencialmente as 14 obras de misericórdia, que se aprendem no catecismo. O resto vem explicado, e bem, no livro. Autor: Luciano Manicardi Páginas 224 | preço: 14,80€ | Paulinas Editora

em 1985. Acabado de sair a lume,

João Paulo II e o Carisma Franciscano

este livro vem mesmo a propósito para nos entusiasmar a vivermos, de perto ou de longe, a grande celebração de Madrid neste mês de Agosto. Útil e recomendável. Autoras: Cristina e Ana Larraondo Páginas 176 | preço: 10€ Editorial AO

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Tiveram uma ideia feliz os membros da ordem franciscana em coligir neste pequeno volume as mensagens que, em diversas ocasiões, o Papa João Paulo II dirigiu aos membros da ordem. Umas vezes para os felicitar pelo carisma deixado por São Francisco de Assis, outras para os entusiasmar a serem sempre melhores, e até mesmo para limar algumas arestas que se tenham agudizado no traquejar do dia-a-dia franciscano. Essencialmente dedicado aos membros da ordem franciscana, o livro é útil para qualquer leitor. Autor: João Paulo II Páginas 121 | Preço: 8,00€ | Editorial Franciscana

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Espiritualidade Missionária

Escrito no Brasil, ligeiramente retocado em alguns pormenores de ortografia, vocabulário e morfologia, o livro chega a Portugal pelas mãos da editora missionária de Cucujães. É uma prenda concedida a todos os leitores que, de qualquer maneira, se interessam pelas coisas da missão. Está dividido em três secções: a primeira toca a parte formativa e doutrinal; a segunda contém uma série de testemunhos de vidas edificantes; e a terceira compõe-se de temas de mensagem e oração. Digno de ser lido. Autor: Paulo de Coppi Volnei Lazzari Paginas: 206 | preço: 8,00€ Editorial Missões

Joãozinho o menino que seguia Jesus

Traduzido do italiano e editado no Brasil, foi adaptado para português de Portugal; tudo por obra e graça do padre Januário que é um “guloso” de livros bonitos. Aqui está este “Joãozinho”, uma maravilha para as crianças e o que é bom para elas também não deixa de o ser para os outros. Particularidade do livro é que supostamente, é escrito por uma criança, o tal Joãozinho. Descreve vários episódios da vida e acção de Cristo e dialoga com Ele é de igual para igual. Adquiram que não se arrependerão! Autor: Maria Tereza Crescini Páginas 64 | Preço: 5,00€ Editorial Missões


Felizes apesar de tudo

O livro admite a hipótese de algumas vezes termos razões para não sermos felizes. E então o autor tenta apresentar as mil e uma razões que existem para realmente sermos felizes. Ele é psicólogo e, pela experiência que tem, sabe que muitas pessoas se deixam abater, caem no desânimo e chegam a perder a vontade de viver. Para evitar que se chegue a este ponto é salutar aprender algumas normas aqui descritas e pô-las em prática antes que seja tarde. Autor: Valério Albisetti Páginas 200 | Preço: 11,80€ Paulinas Editora

Cinquenta anos com os leprosos

O livro conta a história da vida de Raoul Follereau, relatada em 50 flashes, tantos quantos foram os anosque o autor viveu com os leprosos. Cada um destes flashes é um pedaço da vida deste homem que se dedicou de alma e coração a tornar conhecida esta doença, ao lado da qual passa o resto da humanidade. Raoul Follereau grita, discursa, defende por todas as maneiras a causa dos leprosos, para que eles sejam tratados e curados. Tem umas cenas alegres, outras chocantes que fazem pensar?

Autor: Raoul Follereau Páginas: 144 | Preço: 5,00€ Edições Aparf

Dar a conhecer a esperança

“Ainda que com estilos de vida diferentes, tanto os missionários como os leigos partilham de uma mesma identidade e vocação. Todos são baptizados e completam-se na tarefa de responder aos desafios do Terceiro Milénio: dar a conhecer ao mundo a cor da esperança com gestos concretos da solidariedade, apresentando Jesus Cristo como caminho, verdade e vida”. Rita Costa | Acção Missionária | Julho 2011

Mulheres no Evangelho tem confundido o sentido “As mulheres no Evangelho sentem que Jesus se dirige a elas de uma forma nova, humanizante e inclusiva: sentem-se curadas, libertadas, acolhidas. Os quatro Evangelhos testemunham a existência de mulheres no grupo que seguia Jesus desde o início da sua pregação e são caracterizadas como discípulas”. Maria Julieta Mendes Dias Igreja e Missão Janeiro/Abril 2011

Ser responsáveis

“Atenção e cuidado são palavras fundamentais nos tempos que correm. Perante as dificuldades acrescidas, impõe-se ter os olhos abertos para ver o que está ao nosso lado e o que exige a nossa resposta. Responsabilidade é a capacidade de ter resposta, de corresponder a quem pede a nossa ajuda”. Guilherme Oliveira Martins Ecclesia | 5 Julho 2011

Juventude de Deus

“A santidade é sempre jovem, como eterna é a juventude de Deus. Às vezes confundimos a santidade com as imagens que vemos nas nossas igrejas, santos velhos, carrancudos, sérios…até, por vezes, pensamos que para ser santos devemos refugiar-nos do mundo. O mundo em geral e a juventude em particular

da santidade e por isso não a tem buscado”. Abel Dias | Audácia Julho/Agosto 2011

Respeito pela pessoa

“O sucesso da democracia não é apenas de obediência ou de vitória das maiorias partidárias, processo importante para evitar impasses, mas é, também, a expressão, aceitação e fidelidade a valores indispensáveis ao respeito pela pessoa e sua dignidade, à garantia dos direitos fundamentais, em igualdade de condições para todos os cidadãos”. António Marcelino | Notícias de Beja | Julho 2011

É preciso renascer

“Paira sobre nós um ambiente político vazio de ideias e prenhe de vassalagem a instituições que arruínam o país real, o das pessoas. Um mundo diferente é possível. Há quem fale em dar um murro na mesa. Outros, em correr riscos. Ao velhinho Nicodemos, Jesus insiste que é preciso nascer de novo”.

Acílio Mendes Mensageiro de Santo António Julho/Agosto 2011

Evangelização

“A razão de ser da Igreja é a evangelização e esta realidade não é apenas algo que tem a ver com a dimensão da acção, mas,

pelo contrário, marca a Igreja na sua mais profunda identidade. Ao falar em evangelização, estamos pois perante uma realidade e dimensão que não é simplesmente do âmbito do fazer”. Juan Ambrósio Boa Nova | Julho 2011

Grande desafio

“O Alentejo não pode quedar-se indiferente, mas outrossim estar na linha da frente, alertado e motivado por todos, para o grande desafio que ao país se impõe, nos domínios da produtividade, criação de riqueza, especialmente no sector da agricultura: cereais, azeite, vinho, cortiça, pecuária, hortícola”. Mira Ferreira A Defesa | 6 Julho 2011

Novas linguagens

“Os consagrados têm o dever de melhor compreenderem que o grande sujeito das novas linguagens e da transmissão da fé são as comunidades vivas e inseridas, onde surge o testemunho, como forma de vida e de comunicação, que é sempre o laboratório e uma fonte de novas linguagens. Portanto, é urgente que nos tornemos ouvintes atentos das linguagens dos homens do nosso tempo, para prestarmos atenção à obra de Deus no mundo”. A. Gomes Dias Vida Consagrada | Junho 2011

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Gurué, Moçambique

Donativos de apoio ao Centro de Acolhimento Projecto 2011

Gurué

Acolhimento a doentes e acompanhantes Paróquia do Gurué, Moçambique Imagine-se doente, a dormir ao relento, ou ter um filho hospitalizado e não poder estar perto dele. Isso acontece na diocese de Gurué, que tem dois milhões de habitantes e apenas um hospital. O bispo da diocese, Francisco Lerma, missionário da Consolata, pretende construir um centro de acolhimento para doentes e acompanhantes.

porta 25 euros

Rosa Peixoto – 13,00€; Amália Santos – 75,00€; Albertina Ferreira – 18,00€; Celeste Neto – 60,00€; Fátima Matias – 10,00€; Glória Silva – 20,00€; Ausenda Carvalho – 20,00€; Anónimo – 60,00€; Brígida Conceição Ferro – 20,00€; Célia Baltazar – 100,00€; Adelaide Domingues – 5,00€; Anónimo – 10,00€; Grupo de Valado dos Frades – 110,73€; Anónimo – 10,00€; Anónimo – 10,00€; Anónimo – 25,00€; Grupo 4º ano da Catequese – Nossa Senhora da Esperança (Alhadas) – 400,00€; Maria Santos – 10,00€; Anónimo – 20,00€; Teresa Palma – 5,00€; Anónimo – 5,00€; Ana Rodrigues – 10,00€; Adelaide Domingues – 5,00€; Augusta Marques – 5,00€. Total geral = 35.030,33€.

telhas 10 euros

Solidariedade vários projectos

tijolo 1 euro

Bolsas de Estudo Noémia Canavarro – 20,00€; Irene Silva – 250,00€. Moçambique Anónimo – 20,00€.Crianças do Brasil Marcelina Santos – 100,00€. Crianças da Etiópia Adelaide Domingues – 5,00€. Ofertas várias José Joaquim Neves – 31,00€; José Carlos Gomes – 40,00€; Otília Cardoso – 36,50€; Rosa Martins – 43,00€; Maria Luz Serrano – 40,50€; António Oliveira – 100,00€; Nantília Oliveira – 75,00€; José Fernando Ferreira – 93,00€; J. Primitivo, SA – 36,00€; Isabel Pacheco – 25,00€; Maria Marques – 43,00€; Anónimo – 20,00€; Anónimo – 20,00€; Anónimo – 15,00€; Anónimo – 200,00€; Manuela Sottomayor – 50,00€; Ana Carapeto – 25,00€.

pregos 5 euros viga de madeira 20 euros

sacos de cimento 15 euros

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Missionário e lavrador O padre Tiago Boeri nasceu em Agliano de Asti, Itália, no dia 8 de Setembro de 1900. Entrou na Consolata com 27 anos e foi ordenado sacerdote em 1938. No ano seguinte partiu para as missões do Quénia onde trabalhou sobretudo em actividades agrícolas. Faleceu em Outubro de 1956 texto MANUEL CARREIRA ilustração H. MOURATO

padre Tiago Boeri já levava 14 anos de missão no Quénia, quando regressou a Itália, pela primeira vez. Ia para férias, mas ia também para se tratar, pois o seu físico abanava para todos os lados. Precisava de uns retoques sob a direcção de um bom médico. Mas o padre Boeri não estava convencido de que a coisa fosse grave e a cura podia ser demorada. Mesmo de longe, continuava a sonhar com a sua missão no Quénia e desabafava: “Com Mau ou sem Mau, hei-de lá voltar!”. Todos saberão que o Mau Mau era um movimento independentista queniano que surgiu na década de 50 e lutava com todas as forças para conseguir que os ingleses dessem a independência ao seu país, o que veio a acontecer alguns anos mais tarde. O padre Boeri depois de alguns meses de férias na Itália, regressou efectivamente

ao Quénia em Setembro de 1953. Mas já não era o mesmo. Passados três anos sobreveio-lhe um ataque cardíaco, logo a seguir outro e, apesar de todos os cuidados médicos, não resistiu. Faleceu a 2 de Outubro de 1956. Falta-nos dizer que o padre Boeri nasceu na província italiana de Asti, em Setembro de 1900. Facto curioso é que, ainda antes de ele nascer, já o pai tinha morrido. Por isso, órfão de pai, cresceu ao lado de mais seis irmãos. A mãe - grande mulher! - não deixou cair os braços e criou, bem criados, os seus sete filhos, dois rapazes e cinco raparigas. O marido tinha-lhe deixado em herança uma quinta para amanhar e todos, filhos e filhas e alguns assalariados, se dedicaram a esta grande tarefa. Viviam com muito trabalho, mas desafogadamente. Só que, a um certo momento, começaram a seguir uns para cada lado, e a mãe ficou sozinha com o ónus de toda a responsabilidade. O Tiago, embora sentisse pena em

deixar a mãe, seguiu a vocação mis­ sionária, entrando na Consolata em 1927. Após o tempo da formação no seminário, foi ordenado sacerdote em 1938 e, no ano seguinte partiu para as missões do Quénia. O trabalho que lhe foi destinado não terá sido o que ele mais ansiava. Desejava ter uma missão onde pudesse fazer apostolado, celebrando a missa, fazendo catequese e visitando as famílias pelas aldeias. Mas, não! Tinha sido lavrador na quinta do pai e lavrador o mandavam ser agora numa plantação de café que os missionários da Consolata possuíam na localidade de Fort-Ternan. O padre Boeri aceitou sem pestanejar as ordens da obediência, bem sabendo que aquele serviço também era missão, pois era da venda do café que viviam e sobreviviam as obras dos outros missionários. Homem virtuoso, só depois da sua morte, todos puderam constatar as suas virtudes e o seu espírito apostólico, não obstante a humildade do seu trabalho.

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De manhã se começa o dia texto MANUEL CARREIRA foto ANA PAULA

Viajamos hoje desde o Japão até à África Ocidental, passando por Moçambique e pela Coreia. Em todo o lado aprendemos coisas novas e vemos que realmente o saber não ocupa lugar e que ninguém, sozinho, sabe tudo. É preciso perguntar, é preciso respeitar e conviver com lealdade

Quem se levanta cedo e vai para o campo trabalhar não passa fome Apoio à compreensão É confirmado pelo seu contrário que diz: “Quem muito dorme pouco aprende”. Os macuas privilegiam a manhã para trabalhar e a tarde para descansar e conversar com os amigos. O próprio clima, em geral quente, convida a aproveitar o fresco da manhã, para trabalhar no campo. Naturalmente este e outros provérbios, quase todos, se referem aos tempos em que a agricultura era a única forma de viver: não havia indústria e o comércio pouco mais era do que a feira semanal ou mensal. Macua

Pergunta o caminho, mesmo se já o sabes Apoio à compreensão Este provérbio é próprio para uso dos jovens, para que tenham cautela. Eles julgam saber tudo e, por vezes, até se riem dos mais velhos, aqueles que, mesmo sem terem estudado tanto, têm a seu favor um caudal de experiência que nenhum estudo pode substituir. Em prática, é preciso evitar os dois extremos. Os velhos dizem: No meu tempo!... Os novos dizem: Isso era dantes! Hoje tudo mudou; temos de ir pelo novo! Coreia

Agora andas à beira de um rio; algum dia o terás de atravessar Apoio à compreensão Mesmo quando tudo parece correr sobre rodas, é preciso estar prevenido para o pior; algum dia ele há-de chegar. Se não for antes, ao menos chegará com a morte. É bonito passear à beira do rio e dizer: a vida é bela! Mas isto não dura eternamente. África Ocidental

Dez pessoas, dez cores

Apoio à compreensão Podemos buscar a melhor compreensão citando outro provérbio: “Somos todos iguais e todos diferentes”. Iguais no essencial, diferentes nos pormenores: na cor da pele, nas feições do rosto, no cabelo, na língua. Ultimamente, criou-se um provérbio novo que diz: “Todos iguais, mas uns mais iguais do que outros!”. É a brincar, mas a texto MANUEL CARREIRA realidade não lhe passa muito ao largo. foto ANA PAULA Japão

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Sem palavras! texto NORBERTO LOURO ilustração MÁRIO JOSÉ TEIXEIRA

Desde que comecei a correr para os hospitais e a frequentar farmácias, parece-me ser como se tivesse frequentado uma faculdade de medicina. São nomes esquisitos de remédios e de doenças que se memorizam, decifração de sintomas que se aprende a fazer; cuidados meticulosos de saúde que se assumem, disciplina alimentar que se aceita impor e observar escrupulosamente, recaídas por incúria que se aprende a evitar. E penso que é assim que acontece com todos os que, como eu, se tornam clientes fixos destas casas e técnicos de saúde: médicos autodidatas. Mas há outra ciência bem mais importante que se aprende: o modo de lidar com a saúde, com a doença e com a vida. Para gerir e aliviar os males adquiridos, esta ciência faz muito bem: convencer-se que, mesmo doente, a vida não deixa de ser bela útil e, embora frágil, de valor incomensurável. Tal convicção alivia a dor, ajuda a cura, alarga os horizontes deprimentes da fatalidade, da auto-vitimização e auto-flagelação, os injustos da revolta contra quem quer que seja do

aquém ou, pior ainda, do além. A vida ganha outro sentido. O sentido de merecer ser vivida mais intensamente porque, eventualmente, mais breve. Pode-se viver “mais e melhor” em pouco tempo do que ter muito tempo para viver. Fez-me impressão a alegria dum certo casal que uma vez encontrei na sala de espera dum hospital. Éramos muitos os que ali estávamos e os médicos demoravam a vir. A continuar assim, o ambiente podia deteriorar-se para quem ali estava, pois já sofria que chegasse. Mas o casal, primeiro entre eles, depois contagiando os outros com gracejos, chistes e humor de bom gosto, fez o tempo voar. Marido e mulher pareciam os mais sãos de todos, que vinham levantar a alta de qualquer internamento passageiro e sem consequências. Como tinha sido o último a chegar, não me meti no “jogo”, mas estava encantado com aquele modo de ser e estar. Pelos vistos tinham chegado pouco antes de mim. De facto, ficámos os três para últimos. Quando o marido foi chamado, não me contive

que não me felicitasse com a senhora pela boa disposição vivida e comunicada. Começou então a contar-me a história, não de alta do hospital que julguei que viesse pedir, mas do calvário que o marido e ela estavam a viver. Jardineiro duma família abastada, o marido fora mordido por um cão de raça que quase lhe arrancara a barriga duma perna. Contraíra o tétano de cujo coma se salvara milagrosamente. Sobrevieram graves problemas cardíacos. Só o transplante do coração o salvou. Hoje viera ali com receio de princípios de pneumonia. E ela ali estava com ele, depois de, no dia anterior, ter feito hemodiálise a que está sujeita, dia sim, dia não, noutro hospital. Fiquei sem palavras! Mas não me tive que lhe não dissesse: Como é possível sofrer tanto e ser assim? “Temos dois filhos que são a nossa alegria de viver! O Senhor não tem filhos?”. “Não – respondi eu. Sou padre”. “Missão nobre, dar a vida pelos outros. É isso que nos faz viver, concluiu ela, pedindo-me a bênção!”. Missão simpática, deveras!

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Cabo Verde nas intenções da peregrinação do migrante A peregrinação internacional do migrante e refugiado a Fátima que decorre a 12 e 13 de Agosto será presidida pelo bispo da diocese de Santiago de Cabo Verde, Arlindo Furtado. Em cada ano, uma comunidade específica de imigrantes ou as comunidades portuguesas de determinado país são colocadas como intenção especial da peregrinação. Este ano é lembrada, em particular, a comunidade de Cabo Verde que tem uma forte presença em Portugal. A Obra Católica Portuguesa das Migrações apela a uma participação massiva de todos os imigrantes cabo-verdianos.

Curso de missiologia

Um mês depois das Jornadas Mundiais da Juventude, em Madrid, com a presença do Papa e no Ano Europeu do Voluntariado, os participantes das jornadas missionárias nacionais debruçam-se sobre a temática «Voluntariado e Missão». Os trabalhos decorrem de 16 a 18 de Setembro, no Convívio de Santo Agostinho, na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima. As inscrições devem ser efectuadas até 6 de Setembro. Durante dois dias e meio, os trabalhos assentarão sobre o voluntariado e sobre a sua ligação à missão. Há inclusive um painel sobre experiências de voluntariado missionário.

As inscrições terminam a 19 de Agosto e o curso decorre de 23 a 27 do mesmo mês, nas instalações do Instituto Missionário da Consolata, em Fátima. Este ano corresponde ao 2º ciclo bienal e apresenta as bases bíblico-teológicas da missão «ad gentes», bem como exemplos concretos da prática missionária actual, e os desafios da inculturação e do diálogo do Cristianismo com outras religiões». Entre os docentes encontra-se o bispo auxiliar de Braga, António Couto; o superior dos missionários do Verbo Divino, José Antunes da Silva e professores da Universidade Católica Portuguesa. A iniciativa é dos Institutos Missionários Ad Gentes, com apoio das Obras Missionárias Pontifícias.

Formação de catequistas

Destinado a catequistas que tenham um curso de iniciação e possuam alguma experiência de catequese, realiza-se um curso geral de formação de catequistas, de 21 a 28 de Agosto, no centro catequético, em Fátima. A iniciativa é das Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus, com a colaboração do Serviço da Catequese da diocese de Leiria-Fátima. O curso geral completo efectua-se, intensivamente, em dois anos consecutivos.

Encontro da Pastoral Social

«Desenvolvimento local, caridade global» é o tema do XXVII Encontro da Pastoral Social que decorre de 13 a 15 de Setembro, no Seminário do Verbo Divino. «Esta acção permitirá que todos os que, de alguma forma, intervêm nas nossas instituições de acção social, possam aprofundar as linhas da identidade cristã que as distingue e sentirem-se animados num agir mais criativo e radical» adianta o Secretariado da Pastoral Social. O cardeal arcebispo emérito de Milão, Dionigi Tettamanzi, é um dos oradores dos trabalhos.

Entre os vários oradores, a representante do Ano Europeu do Voluntariado, Fernanda Freitas. O padre Lino Maia, presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade é outro dos convidados e abordará a temática do voluntariado como nova consciência social.

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01/29 Exposição «Sala de Cristal – Temas sacros em vidro de Cristal» no Museu da Consolata 23/27 Curso de missiologia no Centro Allamano 24/25 Peregrinação da diocese da Guarda

Setembro

13/15 Semana da Pastoral Social 16/18 Jornadas Missionárias Nacionais 29/30 Jornadas da Comunicação Social

texto LUCÍLIA OLIVEIRA

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Agosto em agenda

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un’altra visione del mondo mwingine mtazamo wa dunia another view of the world otra visión del mundo inny pogląd na świat une autre vision du monde wona wunyowani wa elapo eine andere sicht der welt djôbe mundu di oto manêra

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Apenas euros por ano MISSIONÁRIOS DA CONSOLATA | Rua Francisco Marto, 52 | Ap. 5 | 2496-908 FÁTIMA Telefone 249 539 430 | 249 539 460 | geral@fatimamissionaria.pt | www.fatimamissionaria.pt


Oração

do jornalista Rezo orações de papel na pressa da escrita, estendo palavras nas ondas, fixo instantes digitais... Acendo na TV a lareira de conversas apagadas e trauteio saudades de vinil. Ai quem me dera ouvir-Te, neste largo global, contar Tua história de Amor!... Incarna, Senhor, em meus gestos e sons e sê comigo passageiro nas estradas de fibra. João Aguiar Campos | «Encontros»


Marcos Coelho e João Baptista