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23 Os jardins, os terraços, os lindos quiosques, o elegante Kursaal, feericamente iluminado, tudo concorre para atrair a elite baiana àquele trecho da zona urbana, fazendo-a fruir horas agradáveis por essas noites sugestivas da estação que passa. (RENASCENÇA, jan. 1920)

Imediatamente após a concorrida e elegante inauguração, o Kursaal deu início às suas

matinées das quintas feira, buscando atrair um público jovem, senhorinhas e rapazes, o melhor do nosso “escol social”, quando era então oferecido um serviço de gelados aos seus habituées. Um ano após, já agora denominado Guarani (13/5/1920), as vespertinas promovidas juntamente com o Diário de Notícias se tornam mais diversificadas contando com apresentações no palco e na tela, distribuição de lindos ramalhetes de violetas e rosas às senhorinhas e sacolas de bombons às crianças (FONSECA, 2002, p.118). A população feminina rica e mediana, cultora da moda exibida pelas estrelas cinematográficas, se apropriava da Praça enquanto que o “escurinho do cinema” favorecia o flirt e a novas formas de sociabilidade, repercutidas pela revista Artes & Artistas de maneira jocosa. Foi no Guarani. A loirita senhorinha, muito friorenta, envolta em peles, sentou-se junto à coluna... Todos encalorados agitavam chapéus e lenços... Ele, muito dedicado e serviçal, braço sobre a cadeira, baixava de quando em vez a cabeça e segredava-lhe coisinhas, que Mlle. baixando os olhos sorria, angelicalmente. Depois veio “William Farum” e Mlle. entusiasmada, suspirosa, bradava: que beleza!... que beleza!... Mas, em dado momento, sem o aviso salvador da companhia, a luz inundou a sala, e o espectador lateral pode verificar que a beleza que Mlle, tão entusiasmada e nervosa admirava, não era bem a do célebre cowboy americano... (ARTES & ARTISTAS, Bahia, nov. 1920)

A Praça Castro Alves se afirmava então como palco privilegiado para o espetáculo da

belle époque soteropolitana. A revista Renascença, sempre a postos, flagrava e divulgava nas suas colunas o vai-e-vem do público, sobretudo aquele feminino que entre o desejo de “ver e ser visto” mantém ainda o “conveniente” e suposto recato dos “velhos tempos”. Era a época dos primeiros paparazzi, de “mundanismo ... e esquivança”. (Figuras 12 e 13) Para tal retraimento não se nos depara justificativa e, pois, de costas, encobrindo o rosto com as mãos ou com as abas dos chapéus, as gentis urbanistas hão de figurar na “Renascença”, cabendo-lhes, depois, o direito de indagar, ou não: “Você me conhece?”.

2011 Praca Castro Alves IGHBA CAPITULO - Copia  

A PRAÇA CASTRO ALVES: O LAMENTO DOS “CANTOS”. 1850 – 1888. Texto originalmente publicado em: DOURADO, Odete. Do lamento dos “cantos” à munda...

2011 Praca Castro Alves IGHBA CAPITULO - Copia  

A PRAÇA CASTRO ALVES: O LAMENTO DOS “CANTOS”. 1850 – 1888. Texto originalmente publicado em: DOURADO, Odete. Do lamento dos “cantos” à munda...

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