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ENTREVISTA .......................... Associações com a Fundação de Serralves ou o MAAT têm aberto a produção nacional de jóias a outros públicos. Há mais caminhos a explorar nesse sentido?

O mercado de consumo está a mudar muito rapidamente. O consumidor e o processo de compra têm novas influências, processos e canais, o que cria novos desafios às marcas. Estas mudanças são transversais a toda a cadeia de valor, do design das peças à relação com o consumidor, as dinâmicas mudaram e obrigam a uma rápida adaptação. O que procuramos na AORP é identificar tendências e soluções para estes desafios, criando caminho para as marcas. A chave está na afirmação do coletivo. Se sentimos que os Museus poderão ser um canal importante não só de contacto com públicos, nomeadamente com o público internacional, mas também uma aproximação ao universo da arte contemporânea e do design, então temos nestas parcerias e iniciativas uma forma de afirmação da joalharia portuguesa que trará benefícios não só diretos como indiretos para as marcas. A digitalização global obriga a repensar estratégias. Desde as empresas de importação (substituídas pela presença directa das marcas); as vendas online; a criação de espaços mono-marca. O retalho nacional, sobretudo de cariz familiar, está preparado para isso? O que pode fazer a AORP?

Estas novas dinâmicas de consumo tiveram de facto um grande impacto no retalho e na AORP estamos muito atentos a esta questão, mas não caímos numa visão pessimista. Pelo contrário, estamos a procurar soluções que permitam valorizar o comércio tradicional, assim como potenciar a presença das marcas no ambiente digital. As duas realidades podem e devem coexistir e os mesmos operadores podem explorar ambos os caminhos. De salientar que a AORP se encontra de momento a criar uma nova plataforma online de promoção coletiva da joalharia portuguesa – Portuguese Jewellery Marketplace. As marcas aderentes terão a oportunidade de expor as suas coleções e produtos e alcançar, à escala global, públicos estratégicos como: consumidor final, compradores, meios de comunicação social e stylists/produtores de moda. Também estamos a preparar iniciativas de dinamização do comércio tradicional, para o qual olhamos agora de forma

mais abrangente, incluindo as lojas multimarca, monomarca e as concept stores, entre outros espaços, como os museus, em que a joalharia portuguesa esteja presente. Durante os anos de crise, Portugal exportou ouro em quantidades recorde. Diz-se que muitas peças de ourivesaria e prataria portuguesa desapareceram na voragem, derretidas. É um mito, ou isso aconteceu mesmo? Como proteger as peças de qualidade de origem nacional?

As joias são, de todos os objetos de consumo, aquele que invariavelmente está mais envolvido de carga emocional. Além de objetos preciosos, estão quase sempre associados a momentos de celebração, a heranças familiares, a sentimentos. Por isso, mesmo em tempos de crise, a componente emocional não consegue ser dissociada do valor intrínseco de cada joia. Houve, de facto, uma incitação à venda de ouro, mas não teve as consequências exageradas que se falou e felizmente é um episódio passado, que esperamos não venha a ter repetição. A nossa campanha vem aliás recuperar esse orgulho nas joias de família e na joalharia tradicional, valorizando o espólio existente. A Relojoaria tem sido sempre o “parente pobre” da AORP. Por um lado, porque a indústria nacional de relojoaria é praticamente inexistente. Mas, por outro, no passado, a AORP procurou realizar cursos de formação em Relojoaria, que têm estado parados. Há muito que players do sector reclamam uma Escola de Relojoaria no Norte ou uma extensão do curso da Casa Pia ao Porto. Como vê essa questão?

Não é um processo intencional, mas objetivamente a indústria da relojoaria em Portugal está vocacionada para processos técnicos muito específicos e com menos visibilidade pública que a joalharia. No entanto, temos vindo a acompanhar o seu crescimento nos últimos anos, incluindo a aposta na formação nesta área, através, por exemplo, do CINDOR - Centro de Formação Profissional para a Indústria da Ourivesaria e Relojoaria, que iniciou recentemente cursos específicos de relojoaria. Acreditamos que estes são os primeiros passos para que a indústria nacional se venha a dinamizar nos próximos anos e cá estaremos para acompanhar e apoiar esse processo.

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Anuário Relógios & Canetas – Novembro 2019  

Edição mensal digital (Novembro de 2019) do Anuário Relógios & Canetas

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