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daniel macivor +

Denise Fraga

+

d i m i t r i s Pa Pa i oa n n o u

ed. 09

2014


colaboradores

Aernout mik + AnA cArol Andre bAnkoff + Andr Antonio fAgundes + Ar Arthur de fAriA + brun cesAr Augusto + clAud dAniel Alvim + dAnie dAniel tAvAres + denise f rousseff + dimitris pA eliAs AndreAto + fAu felipe hintze + frAnz JuliAnA gAldino + kiko leAndro nunes + luisA mAriA cArolinA dressl fernAndA cAndido + mAri mAuricio pereirA + migu nAthAliA timberg + new os fofos encenAm + otA otAvio m端ller + rAch renAtto souzA + reynAld ricArdo blAt + robert roberto setton + simo


linA mArinho re mAntelli rietA correA no fAgundes dio fontAnA el mAcivor frAgA + dilmA ApAioAnnou usto roim z klepper o berthiolini A vAlente + ler + mAriA iA teresA cruz uel cAlderon wton moreno Avio mArtins hel ripAni do giAnecchini tA koyAmA one zucAto

agradecimentos Adriana Balsanelli

Lidyanne Aquino

Alessandra

Ligia Jardim

Colasanti

Lívia Bollos

Ana Luiza Mattos

Luciana Martinez

Barbara Paz

Lucio Agra

Beth Gallo

Luh Moreira

Bruno Palma

Luisa Barros

Caco Ciocler

Marcia Chiochetti

Celia Forte

Possolo

Cia Dos Atores

Maria Helena

Claudia Noronha

Cividanes

Dani Borowski

Mariana Loureiro

Daniel Gaggini

Martim Pelisson

Daniela Bustos

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Douglas Picchetti

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Frederico Paula

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Germano Soares

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Ricardo Grasson

Guto Muniz

Roberto Alvim

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Rodolfo Garcia

Instituto Goethe

Vazquez

Isabel Hölzl

Rodrigo Figueiredo

Jacqueline Guerra Rodrigo Nogueira João Caldas

Sandra Oksman

João Maria

Sesc Pompeia

Jose Roberto

Simone Malina

Jardim

Verena Cervera

Julia Murari

Victor Martínez

Katnira Bello

Victor Sulser

Keli Freitas

Vivian Hipólito

Kyriacos Karseras

Zé Maria


editorial

E

xiste um estado de felicidade que permeia uma espécie de urgência no contemporâneo. Ser feliz é praticamente uma obrigação. O alerta não é nosso. Mas po-

deria. Vem trazido por um dos mais interessantes nomes da dramaturgia, Daniel MacIvor. E se o tempo necessita de alertas, falar sobre o que está parece igualmente urgente. O encontro com Denise Fraga revelou a importância de falarmos sobre nossas paixões. As histórias que ambos buscam trazer

ruy filho

aos outros são de agora, desse instante. Então, invadimos o presente nessa edição, de modo mais arriscado. Seja na visita ao excepcional coreógrafo grego Dimitris Papaioannou, e com ela a observação de ser preciso dar ao tempo outro estado de presença, para que possamos construir percepções mais amplas sobre nó mesmos. Seja nas cenas e acontecimentos que costuram uma terrível dramaturgia do agora, onde a violência e o desrespeito sobressaem ao seu sentido

patrícia cividanes

de catarse social, para alcançarem o prazer da dominação destrutiva. São tempos difíceis. Impossíveis. Então, como? A felicidade, esse estado construído como produto de um jeito de existir, pode ser alcançada na ação de desafiar os desafios. Assim nasceu também a Antro+. No estímulo mais concreto que possa haver para a construção de algo. O prazer em agir. Não pelas conseqüências decorrentes, tal qual se vende nas televisões. No adquirido ao reconhecer a ação já como ampliação consequente. Deixe as causas pra lá. Desista de entender suas faltas de lógicas. Resista ao discurso de que você precisa, de que você quer, de que você merece. A felicidade não estará em nada disso. Surgirá no momento em que deixar de ser a urgência contemporânea, para ser a mais contemporânea de suas urgências. E, ainda que por caminhos não tão usuais, a isso serve a arte, diferentemente do entretenimento. Para lhe deixar em outro estado de felicidade. Sobretudo, por evidenciar o escondido de sua própria humanidade. E, às vezes, isso não é nada simples de suportar. Por isso, permita-se desligar um pouco. Entre em museus, teatros e cinemas. Descubra. Incomode-se. Esse é nosso convite e dos artistas que aqui estão. Mas, entenda de uma vez, em um segundo, o teu celular pode realmente destruir absolutamente tudo. E não só pra você.

Fevereiro de 2014

SP / BR


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sAiA Já do foco A LuZ DO CELuLAR NA PLATEIA TE COLOCA EM CENA. RESPEITE O PúBLICO E O ARTISTA. desligue.

POR

Antônio Fagundes

FOtO patrícia cividanes

estA é umA cAmpAnhA


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sAiA Já do foco A LuZ DO CELuLAR NA PLATEIA TE COLOCA EM CENA. RESPEITE O PúBLICO E O ARTISTA. desligue.

POR

Nathalia Timberg

FOtOS patrícia cividanes


POR

Elias Andreato

estA ĂŠ umA cAmpAnhA


nte expedie

editores

Ruy Filho anes Civid Patrícia realizaç

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ositivso p e livre, o r t o virtual s e c An a ultural. tral, com

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capa: foto de ES CIVIDAN PATRíCIA


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sumário 10 26 32 34 36 56 60 74 96 98 102 112 119 128 130 142 146 158 160 168 176 180 202 204

VISITANDO Daniel Maclvor POR AquI Casa Daros POR AquI ADIANTADO Cine Belas Artes POR Aí ADIANTADO The Humboldt Forum HOMENAGEM Os Fofos Encenam CINE TEATRO Satyrianas e O Outro teatro DIÁLOGO X3 Conselho de Classe VISITANDO Dimitris Papaioannou TEATRO EM PAPEL OBS por Ruy Filho CIRCuNFERêNCIAS VERTICAL por Ruy Filho DRAMATuRGIA IMPOSSíVEL por Luis Päetow ACESSO CAPA Denise Fraga IDA E VOLTA Festival de Cinema de Tiradentes OuTROS TEMPOS TODO OuVIDO Arhur de Faria DIÁLOGO X2 Vira-Latas de Aluguel CONTAMINAçãO Festival de Londres CARTA ABERTA para Dilma Rousseff FOTO PALCO André Mantelli :) Priscila Rodrigues e Yuri Neto INFINITO


daniel Macivor visitando

O inventor de um jeito novo de nos reconhecermos humanos


d

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Ensaio fotográfio nas dependências da unidade do sEsC Pompéia, em são Paulo.

ramaturgia é mais do que apenas uma estratégia, recurso de linguagem, saber contar um história. Isso é relativamente simples. O que não significa dizer que dará certo ou alcançará resultados excelentes. Muito pelo contrário. A escrita limitada à estratégia, por vezes se revela vazia de conteúdo e assinatura. Quando sustentada apenas pela linguagem, corre o risco de virar um exercício estético igualmente superficial. E boas histórias podem ser conseguidas de milhares maneiras, o que, por si só, não determina grandes descobertas. A dramaturgia, portanto, depende de algo mais para se consolidar como meio. E se inicia exatamente na aceitação de ser ela um meio. Por ela sobressai uma percepção de mundo determinante à estética, conceito e metodologia. Então, dramaturgia mesmo, aquela possível de originalidade em quaisquer dos vértices citados, é raro encontrar. Imagine bons dramaturgos. Imagine, ainda, aquele que faz de seu olhar sobre o mundo algo tão genuíno que torna linguagem o que é apenas o seu jeito. São poucos e raros. E cada tempo revela os seus poucos. Porque, para cada momento, é preciso surgir igualmente uma cena que comporte a percepção e seja capaz de construir no encontro um diálogo único. Muitos são os momentos em que um dramaturgo surge, mas não seu realizador. Ou grandes diretores, mas limitados às escritas superficiais. Não é o caso aqui. Enrique Diaz nos apresentou Daniel MacIvor. São três, os espetáculos encenados do autor, até agora. E são três resultados imensamente profundos e capazes de nos oferecer a grandeza de uma escrita absolutamente singular. Então, fomos até ele. Conversamos. Rimos. Falamos seriamente. E rimos. E, mais do que um bate-papo, trocamos ideias e reflexões. No camarim do SESC Pompéia, onde Cine Monstro se apresentaria, desta vez com a presença do autor, Daniel permitiu um profundo mergulho. E, por vezes, a vontade era mesmo me deixar afogar dentre tamanha inquietação. Houve uma previa, é verdade. Um dia antes, na leitura de um recente texto seu, Daniel e Enrique conversaram com o público. Não me apresentei. Preferi permanecer anônimo e absorver o que pudesse para nosso momento. Falou-se sobre a maneira de desenhar os personagens sem a completa revelação de suas histórias e características. E foi exatamente nesse ponto que saltamos ao mergulho. Sobre as provocadas faltas, pergunto-lhe se não são tentativas de encontrar o fundamental ao reconhecimento do humano. Algo como se por serem incompletos ou velados, pudessem nos expor pela ausência a dimensão mais precisa daquilo que o define, mas que, por não se revelar, torna intraduzível em palavra e representação e essência. Daniel começa argumentado que o homem, de alguma maneira, busca uma sensação de conexão com algo. Isso é a base de sua observação sobre o outro. É a presença dessa sensação que explica a sociedade e os comportamentos, continua. Porém, há o medo de que de fato a conexão ocorra, enquanto contraditoriamente também se coloca o medo de ficar só, de nada haver. Essa disputa entre o desejo e a aversão à conexão exige ao homem substituir a realidade por uma ficcionalização de sua existência. E, para isso, a solução


possível é o teatro, afirma. “O teatro nos dá a comunhão, nos dá a nos mesmos”. Para Daniel, esse é o argumento pelo qual a metalinguagem é tão presente no pós-moderno. Estar no palco é uma maneira de recuperar o reconhecimento de sua própria humanidade. Mas seria preciso que o reconhecimento fosse imediato para acessarmos o presente, e as ciências cognitivas comprovam que entre a percepção de algo e seu reconhecimento estamos distantes três segundos da realidade. Ou seja, vivemos um estado continuo de crença sobre o passado e não sobre o presente, e da capacidade de nos reconhecermos reais. Em seus textos, o passado existe como história, conhecimento e reconhecimento, quase que como estrutura. Perguntado se para ele o teatro seria a experiência mais profunda na construção de possíveis passados, Daniel, após um período de silêncio, talvez também três segundos, responde que tudo no mundo deve estar nesses três segundos. Avança problematizando a questão com o fato do homem estar muito preso ao material. Ao seu ver, o metafísico e o imaterial se colocam também como possibilidades necessárias. “O pensamento tem uma presença neles”, explica. Entendendo os pensamentos também como caminhos de possibilidades e tra-

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daniel em ensaio fotográfico dentro da cenografia e iluminação de sua peça Cine Monstro, dirigida e interpretada por Enrique diaz.


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ços, Daniel expõe sobretudo a estrutura de sua escrita. Seus textos podem ser observados como sobreposições de traços, estruturados de modos a comporem rascunhos precisos de personagens e instantes. No traçar a imagem possível de uma identidade, o autor configura outra qualidade de discurso. Não se trata mais de traduzir alguém ou algo, mas de sustentar na presença dos espaços entre os traços expostos a dimensão humana e do acontecimento como ação ao tempo. O que Daniel escreve, enfim, são mais as escolhas dos traços em brancos do que propriamente os riscos definitivos. Permitindo, assim, uma amplitude inesgotável de leitura e recriações. Para tanto, para essa dramaturgia dos espaços entre os traços, é preciso compreendermos o novo tempo que se revela a partir dessa imaterialidade e metafísica. Sendo o tempo a manifestação plural de acontecimentos e presenças, cabe ao teatro reler sua configuração como estrutura narrativa. Para ele, o teatro é uma câmera de tempo, na qual a narrativa se desloca por colunas pela qual os acontecimentos ocorrem simultâneos. Em outras palavras, o tempo agora deve ser compreendido como uma construção vertical, não mais horizontal e linear, tal qual conhecemos. Tal inversão, transforma também o narrar de linear e consequencial para concomitante e multitemporal. A percepção dos por quês o teatro permanece como possibilidade ao homem, dialoga com seu argumento durante o debate anterior de que o existir seria o intervalo entre o nascer e o morrer, a vida, portanto. Todavia, provoco-lhe com a colocação de Freud, cujo existir seria o inicio lento do processo de morte. Daniel concorda, e atualizada os dizeres freudianos para um “excitante processo de morte”. Para ele, o teatro é parte do quanto o processo de viver pode ser excitante. Fala sobre gostar do objeto do teatro, por isso lhe interessa aumentar a sensação de ambiente artificial. Expor o palco e a luz, leva o momento a uma ação dramática verdadeira e autêntica. Essa artificialidade autêntica é o que redimensiona o acontecimento teatral ao real. São formas de energias que não podem ser criadas nem destruídas, explica. E a função do teatro é ser como uma usina de energia, ser o instrumento para que a energia contida nessa construção de realidade chegue ao outro, finaliza. Dessa maneira, o excitante no viver se torna sua própria ampliação dramática exposta como acontecimento de existência. Morando no Canadá, Daniel optou por se afastar da cidade e viver em meio a natureza. Pode parecer uma ação meramente bucólica, mas revela ter ocorrido exatamente o contrário. Alguns de seus trabalhos mais doces surgiram na cidade grande; os escuros, nas florestas. Ao se distanciar dos grandes centros, o isolamento o ajudou a ser mais verdadeiro, que denomina por um perfeito estado do ser. Para Daniel, a brutalidade da cidade é superficial, enquanto na natureza é mais profunda, feito um verme se alimentando. O que diferencia o existir entre um ambiente e outro também revela a face de nossa humanidade. É assim que somos perfeitos, diz, na melancolia. Estado esse que, infelizmente, assume outras interpretações agora. Vivemos um momento onde a felicidade é tratada como uma commodities. A melancolia passou a ser algo negativo ao ser, e ambas tomaram posições contrapostas, o que não necessariamente é verdade. Existe um ser concreto e nobre quando se fala da felicidade. Alguém esta ganhando dinheiro com isso, e não sei


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“A FUNÇÃO DO TEATRO É SER COMO UMA USINA DE ENERGIA”


20


“SE FICáSSEMOS NO TEATRO pOR ANOS, NÃO ENvElhECERíAMOS.”

quem é, ironiza Daniel. O segundo ponto levantado por ele, refere-se a uma necessidade induzida de que podemos ser sim felizes o tempo todo. Dessa maneira, para ele, esse é um dos motivos de nosso existir miserável. Nessa miserabilidade que nos assola por essa produtificação da felicidade, talvez o caminho a percorrer seja encontrar no outro os aspectos que redimensionam suas memórias como genuinamente acessos aos sentimentos verdadeiros. Pergunto-lhe, então, se lhe agrada mais a memória do outro ou inventar memórias. Daniel é direto ao escolher a segunda opção. Para ele, nossa memória é falsa, porque nós colorimos sobre nós mesmos. Todo aquele que apresenta sua história, o faz da maneira mais adequada e pertinente a outros interesses. Assim como a memória dos historiadores são contaminadas pelos seus desejos e medos, também nós passamos por tais atalhos. “Somos todos historiadores e precisamos que outros contem nossa história”, conclusão a que chegou sobretudo com o desenvolvimento de uma ópera e o libreto qual trabalha sobre Adriano III .... A escrita de Daniel, no entanto, não se coloca como um estado de construção de discursos políticos. O escritor afirma ter dificuldades no lidar com a política. E eu discordo. Digo-lhe que recuperar o entendimento sobre o humano é a manifestação política mais importante ao que cabe a arte, o que o faz rever sua colocação e aceitar seu diálogo com o estado político do sujeito. A questão humana não pode ser negada na dramaturgia, diz, mas a política precisa ser recebida por ela sem ideologias. Em outras palavras, é preciso que o teatro se coloque aberto aos contraditórios, pois apenas neles poder-se-á gerar uma configuraç��o


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“SOMOS TODOS hISTORIADORES. pRECISAMOS QUE OUTROS CONTEM NOSSAS hISTÓRIAS.” ampla do que venha a ser politicamente o homem, já que tal postura há de determinar o desenho do que seja nossa humanidade. “Assim que você diz estar errado, você para de ouvir”. Então é preciso uma certa dose de perdão e submissão. Trago para ele as palavras concordantes de dois dos maiores pensadores, o alemão Habermas e o francês Derrida que, casualmente em Nova Iorque, após o ataque de 11 de setembro, concluíram que toda forma de perdão seria também uma espécie de autoafirmação de superioridade, e que seria preciso, portanto, assumir o limite da igualdade entre as partes para que não se aceitasse o ocorrido. Daniel explica que, ao seu ver, toda ação de submissão pode ser política e direta, tanto quanto a agressividade pode demonstrar o oposto de sua aparência. Como amar alguém até matá-la, exemplifica. In on It estreou em Nova Iorque duas semanas após os atentados. A reação era de que o espetáculo teria sido escrito para eles. A projeção desse sentido pelo público passou a ser parte do espetáculo para sempre. Há muito de construção de dramaturgia na maneira como se colocam certos significados a um trabalho. A questão está na dificuldade em aceitarmos a potencialização do todo. Daniel provoca afirmando que se você quer sentir mais, deve sentir tudo mais. Todavia, cobramos com certo exagero a ampliação daquilo que nos convém, enquanto fugimos de existir por inteiro em tudo o que nos é oferecido como experiência. Existe na crueldade um tanto de prazer e de delírio, resume. Por isso, em suas histórias, a crueldade se coloca mais como imagem daquilo que potencialmente será. Essa dinâmica de oferecer as possibilidades e não as respostas é também um certo artifício de exposição da própria crueldade existente no espectador. Afinal, só lhe sobra a condição de imaginar. E nada é mais cruel e livre que tal opção. Daniel explica que um fato começa a se desenvolver a partir do que se quer dele. Em resumo, você pode tirar a história, mas você mesmo não desaparece. Reapresentar o humano que insistimos não ver, e por ele desvendar a dimensão de nossos limites e consequências, tanto quanto do sonho e da liberdade. Esse é o universo trazido por Daniel MacIvor. São textos fortes, irônicos, poéticos na maneira de submergirem ao nosso interior. E são também potências arquitetônicas de uma escrita precisa e original, na qual estética, conceito e metodologia oferecem os caminhos para ocuparmos o palco por novos artifícios. Se o teatro pode recuperar o espelhamento do ser, então Daniel espelha o escondido. E faz surgir no mergulho ao infinito intraduzível do humano o retrato narcísico mais inovador daquele que afunda. Ler Daniel é traduzir aos olhos a face daquilo que fingimos esquecer. O que já seria imprescindível. Então veio o encontro com Enrique Diaz. E o palco se tornou a possibilidade da forma à falta de limite ao infinito. Cada época possui seus poucos. E cada poucos seus pares. Daniel e Enrique estão aí. E parece ser apenas o começo. Prepare-se para afundar ainda mais.


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“É ASSIM ECTIUS. QUEIS REMpOREM. SOMOS pERFEITOS. pOREMpORE DOl NA MElANCOlIA. ORUM ES NUlpA SIT ATIA pORQUE SOMOS vOlUpTATIA vERDADEIRAMENTE hUMANOS.” dade. Interessante, ao fim, perceber o quanto os julgamentos necessitam ser atribuídos pelos valores que norteiam as escolhas e não os trazidos por quem julga. Em uma espécie de círculo previsível, onde a espiral existe o retorno ao contraponto, sempre produzindo a renovação das estruturas originais. daniel fotografa Depois de experimentar a dramaturgia contemporânea, os espeRoberto setton, enquanto é clicado táculos criados a partir de Henrik Ibsen e William Shakespeare ofepelo fotógrafo. receram-lhe as aproximações necessárias ao entendimento de como a realidade poderia ser novamente aproximada pela estética, através do que denominou por Realismo Capitalista. Fundamental ao projeto dessa exposição realista está a formulação de uma poética do cotidiano, atuando por meios comuns em construções próximas as nossas ações e reações reais. Para o diretor, os dois autores com quem tem mais trabalhado nos últimos anos somam a representação de como a consciência ocupa os espaços nessa nova realidade. A primeira, demonstrada em Hamlet, traz a consciência política como estado de inquietação e descobrimento, refletindo um indivíduo arqueado sob o peso das próprias percepções. A segunda difere-se exatamente por sua capacidade de reação, a consciência da ação política, como pode ser visto em O Inimigo do Povo. A importância está no não se limitar à construção meramente tecnicista do realismo como linguagem histórica, tampouco como sua atualização. Não se trata tanto de realismo, explica. Os espetáculos são, ao seu ver, laboratórios do comportamento humano, pelo qual se busca pelo jogo a veracidade desse existir. Ou seja, conclui, a utopia possível de realidade no interior dos jogos travados com os espectadores. Todavia, nada disso faria sentido se não houvesse no movimento do jogo uma instância premeditada de configuração política sobre o outro. Por isso, o realismo capitalista redimensiona o outro a partir da nova lógica de configuração política, pela qual o capital econômico se impôs. Ao construir por tais argumentos sua arte, o


por aqui onde casa daros rio de janeiro


CaSa DAROS Em Botafogo, o espaรงo perfeito para encontrar a arte


28

É

comum ir ao Rio de Janeiro para visitar os

rou um espaço voltado às artes, mas também à per-

monumentos, aproveitar as praias e a at-

manência. Seja como visitante das exposições, seja

mosfera carioca que tanto se distancia da

para um café, a Casa oferece ótimos argumentos

paulistana. Mas o Rio é mais do que areia

em ambos os sentidos. A programação atual, e que

e boteco. Entre Copacabana e Urca, pró-

segue até meados de fevereiro, traz uma excelente

ximo ao centro, em Botafogo, desponta o edifício

seleção de obras do argentino Júlio Le Parc. São

neoclássico construído em 1866. Pouco depois do

obras cinéticas, desenvolvidas a partir da relação

inicio desse século, o espaço mudou de proprietá-

entre estruturas metálicas e luz, que, certamente,

rio. Agora, a chamada Casa Daros tem outros obje-

oferecem ao visitante modos singulares de obser-

tivos. Serve de sede para a circulação de um acerto

var o uso dos materiais e a facilidade do artista em

de 119 artistas latino-americanos, compondo uma

compor experiências estéticas com a construção e

vasto panorama através de 1200 obras. Galerias são

manipulação da luminosidade em movimento. Aos

abertas a todo instante. Museus, nem sempre. E a

criadores do teatro, Le Parc explode a criatividade

Daros é, para além de outro espaço de exposição,

no uso da iluminação cênica, oferecendo verdadei-

um ambiente voltado também aos processos educa-

ras aulas de estética e conceituação. Contrapondo

tivos. Por isso, a existência de uma biblioteca e sa-

a delicadeza do acabamento de Le Parc, em março

las para atividades. Passear por suas dependências

o edifício abrigará a exposição Paintant Stories, do

é prazer. O edifício é interessantíssimo, e a reforma

argentino radicado em Nova York Fabian Marcaccio.

que possibilitou sua abertura em maio de 2013 ge-

os trabalhos lembram o universo irônico, agressivo


À esquerda, espaço de convivência no interior do edifício e café. nesta, detalhes da entrada e fachada frontal.

9

2


acima, detalhe da exposição com cartuns de Pablo Helguera. no centro, instalação cinética de júlio Le Parc.

e colorido do artista plástico Paulo McCarthy. Só que em tinta. Ou acumulo de tinta. Ou massa tornada corpo. Em Marcaccio as figuras atingem a violência da observação da agressão de nosso tempo e exigem que nos desloquemos dos confortos para aceitarmos aquilo que cerca nossa desconfiguração. Argumentos pesados para uma cidade praiana? ali se desenvolveu e ainda existe. E perceberá que Marcaccio é, antes, um retratista do presente humano. Mas calma, aproveite as férias. Le Parc continua e a poética sublime de suas obras certamente o ajudará a se deslocar para outro tempo. Depois, acredite, Marcaccio o recuperara à realidade. Casa Daros, é absolutamente

CASA DAROS RIO >> Rua General Severiano 159 Botafogo, RJ . Tel.: (21) 2138-0850

FOtOS ANDRé NAzAREth E PAtRíCiA CiviDANES

Nem tanto. Lembre-se dos morros e tudo o que


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saia já do foco A luz DO CElulAR nA plATEIA TE COlOCA Em CEnA. RESpEITE O púBlICO E O ARTISTA. dEsliguE.

POR

Ricardo Blat

FOtO Patrícia cividanes

Esta é uma campanha


por aqui

adiantado

onde cine belas artes são paulo

ENTrE portas abertas

ele retornar à cidade. e ir ao cinema será novamente um prazer

E

le surgiu como uma nova possibilidade na cidade. Normal. Como é comum ocorrer nos grandes centros. E o tempo passou e se

tornou um símbolo para os aficionados pelo cinema de arte. Só que a cidade não para, não oferece a chance para que se possa readaptar aos interesses de cada momento. Então, levou a inevitável rasteira. Caminhou. Caiu. E, por pouco, não deixou de existir. o novo Cine Caixa Belas Artes é o mesmo de sempre. Aquele onde as madrugadas podiam ser preenchidas com cinema, café e pipoca. Agora, retornará reformulado, reformado e novamente disponível ao melhor que houver na produção cinematográfica. No ano em que São paulo comemora seus 460 anos, lembraremos quando a esquina da paulista com a Consolação reacendeu os holofotes e projetores. Vida longa a esse que é parte da história de todos nós. parabéns, André Sturm pela insistência e conquista. Aguardaremos ansiosamente a reabertura. Difícil vai ser esperar até maio para

1 18

matar a saudade.


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. desligue.

por

Reynaldo Gianecchini

foto patrícia cividanes

esta é uma campanha


por aĂ?

adiantado

onde The humboldT Forum berlim

imagens da maquete e projeto. Ao lado, registro do encontro no instituto Goethe SP.


arTE E HiStÓRia no coração de Berlim nasce o espaço destinado a todas as culturas

C

uradores, artistas, cientistas e especialistas de Berlim e da América Latina reunidos ao redor de uma mesa, para refletirem e investigarem as possibilidades futuras do Humboldt Forum. O prédio, que vem sendo recuperado após os ataques sofridos na Segunda Guerra

e praticamente destruído pelo comunismo, situa-se na região mais significativa à museografia em Berlim. De um lado, a Ilha de Museus com seus edifícios abrigando da Antiguidade ao Contemporâneo; do outro o Humboldt, voltado às culturas não alemãs, trazendo milhares de peças, desde as manifestações primitivas. O HF não se acomoda no mero reunir de objetos, no entanto. Agrega, ao seu redor, uma rede de especialista de diversas áreas, não só artísticas, mas antropológica, histórica, social, filosófica... Também não se trata de um espaço destinado ao passado. Esqueça essa configuração de museu. A partir de uma organização conectada ao presente, o museu formula o principio de multiperspectividade, olhar para algo ou um instante sobre vieses diversos, não encerrados em si mesmos, e em encontro com outras qualidades e estruturas simbólicas. Para tanto, a aproximação entre ciência e arte é fundamental. Por isso, estimula-se e provoca-se um em relação ao outro. Como pontos de vistas científicos podem ser representados por artistas? O caminho escolhido pelo Humboldt é tratar as exposições não como ordem e sistemas específicos de leituras, mas trazer a instabilidade como argumento de provocação ao encontro. O museu deve abrir parte de suas dependências em poucos anos, e levar ainda uma década para finalizar o projeto completo. Se viajar a Berlim já era uma das melhores possibilidades aos interessados em cultura e arte, agora, o Humboldt Forum convida a todos a permanecerem algumas semanas a mais na cidade.


homenagem

fofos os

encenam Um paĂ­s se desenha pelas esferas de suas estruturas. Um povo, pelos seus esconderijos. O teatro, pela potĂŞncia em desafiar ambos.


2

3


“n

unca faltou coragem a este coletivo. em 2001, “Deus sabia de tudo...” inaugurou esta família paulistana. Foi o nosso primogênito. Cuidamos dele como podíamos, ainda pais e mães experimentando as loucuras de um casamento recente. Lua-de-mel e fraldas pelas coxias. mas lá estava a coragem de experimentar um novo dramaturgo, que tinha que dirigir, produzir e atuar seu primeiro texto; e todos se jogaram sem rede de proteção para cuidar desta primeira cria. Seguimos com a coragem de nos assumirmos um coletivo de atores com uma direção artística bicéfala, formada também por dois atores, florescendo/fermentando suas pesquisas. aprendemos a coragem de equilibrar as idiossincrasias de cada, uma caldeirada mestiça, paulista-pernambucana; mas felizmente gilberto Freyre nos inoculou desta ‘fortaleza das misturas’, quando nos aproximamos de sua obra. Definimos que as matrizes que formam o ator/performador brasileiro eram o norte; assim como investigações sobre nossa memória que nos sustenta, explica e nos lança – esperamos - para a construção de um futuro mais harmônico. Buscamos no nordeste uma compreensão do Brasil de hoje, entre assombros, patriarcados e terras de santo. E com a tutela, mesmo que não oficial, do pensamento de grotowsky, avançamos cientes que mergulhar num projeto é aceitar o labirinto da autodescoberta, do desvelamento, da busca de si. e haja coragem para se percorrer caminhos de autoconhecimento. a única e dolorosa jornada. não só domínio de técnica; mas a busca do domínio de si. aí começa a coragem de Fernando neves em abrir um baú familiar de miríades circenses. e enfrentar fantasmas, cobranças, angústias. o circo revelou a ele seu medo e coragem. Um duelo bem interessante de assistir. e a máscara do circo-teatro revelou para todos nós fragilidades e forças, raio-x de nossas ‘personas’ através do temperamento. a ‘nudez’ como requisito. mostrar-se nu requer coragem. anos depois, a coragem de assumir as responsabilidades de gerir um espaço cultural. e, hoje, também a coragem de saber a hora de abrir mão dele para a sanidade de nossa força criativa frente a desmedida especulação imobiliária. acho que coragem é o que vai nos guiar sempre. em tempos de lona, estrada e alma nômade, os bravos encenam. os fofos encenam paulistas herdaram este nome da primeira formação do grupo na UnIcamP entre os anos de 1992 e 1995. Herdaram também a mesma entrega e bravura. “ NewtoN MoreNo


40

Nas páginas anteriores, cenas de “terra de Santo”, sob olhar de João Caldas. Aqui, cenas de “Memória da Cana”, com direção de Newton Moreno. Nesta página, clique de João Maria.


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3


32


Cena de “Ferro em Brasa” de 2006, com encenação e concepção de Fernando Neves.. 2

3


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Imagens do espetáculo “Menória da Cana”, de 2009. À esquerda, foto de João Maria.

5

4


32

Nesta página, foto de Guto Muniz do espetáculo “Deus sabia de tudo e não fez nada”, de 2001. À direita, o olhar de Ligia Jardim sob “Dar corda pra se enforcar”.


2

3


48

José roberto Jardim em cenas de “A mulher do trem”, de 2003, e “Assombrações do recife Velho”, de 2005, em fotos de Guto Muniz e Ligia Jardim, respectivamente.


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espetáculo “o enterro do anão”, em foto de Lígia Jardim.

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3


52

retratos de cenas de “Assombrações do recife Velho”, com texto de Nelson rodrigues e direção de Newton Moreno.


2

3


“T

ratar a narrativa por qualquer aspecto que se desdobre sobre uma estética e presença do regional popular é uma aventura quase sempre improdutível. A não ser, quando se é um poeta. Mas ser poeta também pode não ser suficiente ao construir nela uma linguagem, apenas um artifício para construção da narrativa. a não ser, quando o poeta é Newton Moreno. Então a escrita, a fala descoberta, a narrativa revelada, encanta a atmosfera e faz da cena algo mais que apenas um desdobramento. A amplitude e singeleza de sua poesia oferece a dimensão mais precisa da regionalização do sujeito, sem que isso se resuma em localização e identidade. Pelo contrário. É preciso atores para elevar o local ao universo. É preciso atores para desenhar no tipo um arquétipo. assim, os Fofos encenam tornaram-se a face mais bem acabada de um desejo de poesia que olha o país e seu povo como uma dinâmica narrativa-estética. Quando se deu a notícia de que poderiam perder sua sede, a tristeza era, sobretudo, pela derrota de todos nós. mas, quando se deu a notícia de que a sede poderá ainda resistir, a conquista é principalmente das paixões. Porque se faz desse sentimento, o teatro ali. Apaixonadamente. Encantado e encantador. Que o sobressalto que fez pular os sonhadores da cama torne a possibilidade do susto um trampolim ao voo. Porque precisamos, cada vez mais, de poetas que nos ensinem a voar. ruy FILho

32

Cena de “Assombrações do recife Velho”.


2

3


cineteatro

em frames O TEATRO INVADE AS TELAS E PROJEÇÕES

s

ão 14 edições realizadas do maior encontro teatral ocorrido na cidade de São Paulo. Entendendo o que isso significa, quase 80 horas de teatro, em

centenas de cenas e experimentos, que vão da produção de textos inéditos ao olhares de diretores. As Satyrianas consolidaram na Praça Roosevelt a presença do teatro na cidade, sem lhe atribuir dependência ao mercado e estruturas tradicionais. Era evidente que registrar o evento se tornava, a cada ano, a questão mais urgente. Mas, como tudo o que surge na ambiência do evento, foge da previsibilidade, então não bastava o registro. Era necessário desenvolver igualmente uma linguagem que comportasse as ambiências artística, urbana, comportamental e cultural. Dirigido por Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otávio Pacheco, o documentário Satyrianas, 78 horas em 78 minutos mescla registro, depoimentos, ficção, história e observação. Caminhando pelo circuito dos festivais, o teatro invadiu as salas de cinema e brevemente a televisão. Tornar o teatro um espaço vivo. Satyrianas é isso. E o filme, bom, melhor assistir. Contá-lo tiraria boa parte da diversão.

PaRa vER ONliNE sente-se confortavelmente. O Outro Teatro, Dramaturgia alternativa Contemporânea, vídeo documental de verena Cervena, traz entrevistas com Roberto alvim,

56

luiz Paetöw e lucas arantes. Permita-se viajar.

FOTO kauE zilli

ligue o computador, aumente o som e


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p

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n

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a

saia já do foco A Luz DO cELuLAR NA PLATEIA TE cOLOcA Em cENA. RESPEITE O PúbLIcO E O ARTISTA. dEsliguE.

POR

André Bankoff

FOTO patrícia cividanes

Esta é uma campanha


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n

h

a

saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

por

César Augusto

foto patrícia cividanes


por

Maria Fernanda Cândido

Esta ĂŠ uma campanha


diรกlogo. x3

por daniel tavares, ruy filho e maria teresa cruz


conselho de

VOLTAR À ESCOLA. COMPREENDER AQUILO QUE ERA DISTRAÇÃO. RECONHECER OS PARADOXOS. E TUDO ISSO, FEITO COM UM TEATRO AFINADO PELO TALENTO.


ruy filho: Oi, queridos, já estou por aqui. maria teresa cruz: oiii! nao tinha recebido. estou por aqui rf: oi querida, vamos esperar o daniel. marquei com ele as 17h, já enviei msg pelo celular. mtc: ta bom. vou buscar um café na cozinha rf: otima ideia. vou fazer o meu.... daniel tavares: opa.. to aqui. td bem? mtc: siiim! rf: oi, rapaz. assim q a tetê retornar, começamos. tudo bem sim, e vc? vamos nessa, então. mtc: oba dt: td certo... rf: a resposta do dani, já conheço, e tetê, vc curtiu a peça?

62

mtc: poderia ser apenas uma banalidade, uma peça sobre um conselho de classe. Mas não é

justamente porque, de cara, ele desconstroi a necessidade do genero. A mudança do signo, do que é esperado, acredito que num primeiro momento me agradou. assim, de cara. falei demais como sempre
enfim,
em
 resumo, gostei. vcs sabem o que um pensa e o outro tambpem, mas
eu
nao.
afinal,
 qual o maior acerto? (ou erro, não sei rs) rf: também gostei muito. da maneira como se amplia tanto a retórica sobre o assunto, quanto a perspectiva da importância de trazer pelo realismo a discussão. tenho q
colocar
tb
q
fiquei
 muito surpreso com a escrita do jô bilac. havia algum tempo não me encantava com um trabalho dele, esse é primoroso. mtc: é interessante porque tem algumas caracteristicas ditas femininas, bastante exploradas - cinismo, inveja, fofoca - que, como o genero é desprezado, acabamos por notar que são comuns ao ser humano. ao grupo, as relações

humanas. sim, o texto é excelente dt: Eu gostei muito da peça. atores, texto, direcao. essa questao da brincadeira com os generos tb me surpreendeu e deu uma outra dimensão para a peca. sobre o tema da educacao, que tinha tudo para
ficar
chato
ou
 panfletário
é
trazido
 de uma maneira tao interessante através dos discursos e dos personagens carismáticos. todos tem suas razões e de uma maneira ou de outra sao personagens apaixonados pea ideia de ensinar... mtc: toca em pontos importantes atuais, com crítica na medida, sem soar defesa de bandeira rf: exatamente. o gênero é muito bem construído. sem perder o feminino, mas oferecendo a violência própria q o masculino sugere. mtc: sim. o lance da paixão como motivo chega a emocionar. não tinha pensando nessa questão de virulencia, ruy. É bem verdade.

dt: e acho tao bom o ponto de vista feminino, mas por uma perspectiva de um autor... mtc:

quando
ficamos
 acuados, a reação pode ser surpreendente como assim? rf: essa crítica na medida é que me fez pensar muito sobre o quanto o realismo pode oferecer a um discurso, sem ser necessariamente político ou planfetário. acho q o dani quer dizer sobre ser um autor escrevendo e não autora, é isso? mtc: uia pensamos juntos rs. ia dizer isso, foi isso, daniel? dt: sim...exatamente Ruy...ele constroi essas personagens de maneira bem complexa mas vejo muito o olhar masculino sobre elas... rf: é interessante o quanto as reações valorizam as verdades de cada personagem. sobretudo, pq discutir a educação
é
infinito.









 dt: o homem da peca é mais pratico, mais simples, quer resolver as questoes


elenco do espetรกculo conselho de classe.


rf: concordo, dani. isso me atrai mais. dt: as mulheres estao a beira de um ataque de nervos, sao competitivas, violentas... mas tem esse outro lado da mulher que é o lado maternal e passional de cuidar de uma escola com total intensidade... se envolvendo realmente

64

rf: a discussão me interessa exatamente pela incapacidade em ser conclusiva.

mtc: é isso sim. Mas quero trazer uma outra possibilidade: a certa feita, tentando deixar o genero de lado (como é até proposto pela encenação) não estaria a beira de um ataque de nervos a educação? rf: sim, um tanto de proteção e outro de paixão cega. certamente, tetê. talvez até mais do que isso. a educação viva hj um estado de total incapacidade de reação. dt: total, Tete! e acho que tudo na

peca, as professoras desistimuladas, o conselho de classe vazio, os alunos que parecem desinteressados ajudam a compor o quadro da educacao sem futuro... mtc: pois é, ruy e dani. eu mesma diante dos ultimos acontecimentos, esse retorno de manifestação,
fiquei
 pensando na massa de manobra que surge justamente em um ambiente caotico, em que as pessoas não conseguem mais

encontrar um caminho para o dialogo, a crise se instaura e ninguem consegue ouvir e ser ouvido. aí o ponto da virada é o homem (o unico masculino da peça) - ou masculinizado, como prefiram









 rf: talvez pq não faça mais sentido ouvir ou dizer quaisquer coisas. mtc:

que
fica
a
todo
 momento tentando buscar um norte mas a cena
final,
penso
que
 seja de resignação o que acham?


dt: encontrar uma solucao em meio ao caos rf: entrar em uma sala de aula, hj, é quase um processo constrangedor. mtc: isso muito dt: nossa, vc achou de resignacao? mtc: então é uma leitura possivel. acho que nao a unica rf: tb não vi dessa forma....
fiquei
curioso,
 agora. diga mais.

dt: eu achei até que tem uma certa esperanca...ficou
em
 mim uma frase do tipo: mtc: mas pensem: o cara abre uma cerveja, exaurido depois de uma catarse sem muito exito - lembremos que o que cessou a discussão foi o ataque da professora mais velha - numa cena até de compaixao das colegas rf: tia paloma, menina, mais respeito! mtc: hahahaha, mas

voltando, percebi o seguinte: dt: “as coisas sao dificeis,
mas
vc,
com
 sua energia e sua vontade de fazer algo, vai conseguir fazer algo...e
se
fizer
algo
 já é alguma coisa para uma juventude tao sem perspectivas... mtc: o rapaz mais jovem abre a cerveja e nota que pode mudar, mas até a pagina cinco achei bonito esse aspecto de esperança, dani vc tem razao

rf: esse é um ponto interessante... o ouvir ocorrer somente no momento extremo, quando nada mais seria relevante q a propria vida. dt: ela nao fala extamente isso para ele, mas me pareceu que queria dizer isso.. mtc: mas pra mim fica
bem
forte
a
ideia
 de que as mudanças não dependem só da gente.
E
que
no
final
 das contas, o que conta é termos algo em que acreditar mas


44


que isso nao necessariamente vai fazer com que as coisas se alterem de forma permanente por isso disse que senti uma certa dose de resignação rf: ao tempo em q tb essa é a única possibilidade, dani. a de fazer algo, seja o q for, ainda q se saiba de q nada poderá ser efetivamente afetado em suas estruturas fundamentais. mtc: do tipo: “olha, você vai mudar isso aqui” dt: entendi....acho que vc tem razao nisso...e acho que o texto me ganha até porque ele nao aponta uma solucao ou dá uma moral....mas coloca pontos importantes que temos que refletir...




ali,
atraves
 de cada ponto de vista, todos tem razao... mtc: aí a pergunta que fica
nas
camadas
do
 subconsciente (aquilo que nao se diz, mas que é perene): a quem interessa essa mudança? quais os pregos nesse

muro alto que teremos que transpor? isso, dani.
nao
é
panfletario,
 nao é moralista é o que é. rf: sim, e isso é o mais dificil
de
se
construir
no
 teatro. pq toda escolha implica em um olhar organizado sobre algo. dt: vc nao consegue defender ninguem pq todos estao a seu modo tentando fazer algo pela educacao melhor dizendo, vc nao consegue descobrir quem esta agindo melhor ou pios dentro da escola pior rf: enquanto assistia a peça me vi sobre os dilemas da minha adolescência. mtc: exato. Por isso a analogia inevitavel (sei que às vezes soa mala, porque nesses tempos todo mundo tenta achar significado,
mas
nao
é
 meu objetivo rs) com as mobilizações populares. Todo mundo tem uma razão. Todas elas são defensaveis, mas sem um norte, um objetivo, fica
todo
mundo
 batendo a cabeça.

como uma manada de mamutes cegos depois de encherem a cara de cachaça rf: é como se hj a escola que tive fosse ampliada apenas nos seus dilemas. mtc: eu também me vi muito. dt: ruy tive a mesma sensacao... rf: foi triste para mim, sentir assim... mtc: desenvolvam acham que antes era melhor que hoje? não entendi rf: me deu uma certa certeza q as mudanças possíveis não as mudanças necessárias dt: e eu como publico tb
fico
angustiado
pq
 tb nao sei pensar em uma solucao para as questoes que a peca apresenta... rf: não necessariamente, tetê, essa é a questão. acho que era igual, porém algo mais se perdeu de lá pra cá. havia um

encantamento com a escola. hj nem isso há mais. dt: o problema esta em todas as partes: nos alunos, na escola, nos professores, está no governo, na nossa falta de educacao, na nossa falta de cultura. mtc: entendi, ruy. me senti angustiada também, dani. e um pouco culpada, sabia? porque muitas vezes ria de situações desgraçadas. vocês sentiram isso? rf: essa culpa sinto toda vez q entro em sala para dar uma aula. mtc: desvalorização de professores, conduta incorreta entre alunoprofessor é mesmo. Aliás, muito legal voce falar disso. Você que tem vivencia em sala de aula rf: vc sabe o quanto tento tornar uma aula um processo de provocação e inquietação (bom, espero q saiba... rs) mtc: vocês acham que um dos equivocos


recentes é que os pais imputam na escola o que nao conseguem fazer dentro de casa? (siiiim!)

aulas em escola publica. Notava isso: a desvallorização era tao evidente, que o professor não se sentia estimulado
a
refletir











rf: acho sim. dt: eu tenho a impressao mesmo que acabou total o encantamento do aluno com a escola...a relacao aluno professor nao tem mais respeito...parece até clichê falar isso... mas acho que é um fenomeno recente rf: hj um professor virou serviço ao aluno, não mais acesso. digo acesso, pois não acredito no professor como aquele q detem o poder, mas como aquele q pode conduzir às descobertas falta muito tb na parte dos professores, dani. o encanto não existe de nenhum lado mais. nem do professor, nem do aluno, nem das instituições.

68

mtc: pode ate ser, dani, mas é crucial esse diagnostico. Desrespeito ao conhecimento, a alteridade gostei da relação serviço x acesso nao tinha pensado nisso. Muda todo o sentido da relação eu já dei

rf: mas se imagina adolescente e jovem, tetê. pq o aluno vai querer conhecimento se nossa sociedade despreza isso? mtc: por isso que, no final
das
contas,
penso
 que a escola é um reflexo
de
fora.









 rf: construimos uma cultura banal, portanto nada mais profundo se torna necessário. e isso ataca as escolas em suas essencialidades. mtc:

tem
um
filme
 frances “entre os muros da escola” que trata esse choque. O problema é que o choque nao existe dt: nao sei s a sociedade despreza isso, mas o aluno enquanto esta na escola parece nao saber sobre a importancia do conhecimento esse filme
é
excelente...









 rf: 
sim,
adoro
o
filme.



 mtc: se pensarmos na escola como “dentro” e

na sociedade restante como “fora”, vemos que não há embate e sim aceitação dt: e tb fala de uma escola a margem mtc: isso. Mas onde uma proposta de reflexao
é
feita.
E
 questionada. rf: foucault já apontava q as instituicões como as escolas estariam fadadas ao desaparecimento. mudou-se a maneira de se compreender e de existir em sociedade. as escolas ainda se parecem prisões do seculo xix. dt: pois é, tem essa questao tb ruy...será que o ensino e as escolas estao realmente de acordo com o que as pessoas querem/ precisam aprender rf: não cabe mais o ensinar, em seu sentido tradicional, mas o de participar. e as escolas e professores não estão preparadas a isso. mtc: a escola da peça, ou melhor dizendo, na escola da peça, o discurso é muito: “vou fazer o meu e foda-se” -

DIREÇÃO: Bel Garcia e Suzana Ribeiro TEXTO: Jô Bilac ELENCO: Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings, Thierry Trémouroux e Sérgio Maciel CENOGRAFIA: Aurora dos Campos ILUMINAÇÃO: Maneco Quinderé TRILHA ORIGINAL: Felipe Storino


porque aí temos tudo que dissemos discorremos acima: salario de merda, alunos sem limites, pai imputando na escola uma responsa que é dele. fato, ruy e dani! e aí quando surge algo nessa linha, vira exceção vocês viram “sementes do nosso quintal”?

realmente falta, é olhar os olhos e conversar sobre tudo. mtc: sim. Dá muito. Tem cenas lindas lá sobre essa coisa de olhar no olho, do toque da alteridade do respeito ao espaço seu e do outro ao mesmo tempo, soa utopico por tudo que já discutimos acima

um espetáculo nos apaixonar como artistas e nos angustiar como humanos. mtc: por isso que o sistema como um todo precisava ser repensado rf: sim. e foi pensando sobre esse repensar, q saí do teatro pensando o quanto nos cabe tb repensar o teatro.

rf: não... dt: nao,. mtc: é um documentario sobre uma escola de são paulo que aplica o construtivismo da forma mais radical. rf: é interessante pensar que uma peça como essa s�� pode ser criada a partir de uma perspectiva totalmente oposta a esse discurso que os personagens defendem do “meu”

rf: na peca, quando os olhos se encontram, são imediatamente conduzidos às defesas. os melhores discursos são ditos nas fugas, ou em instantes poéticos, nas falas do Olinto. mtc: acho que estou angustiada rs é mesmo. Algo até descolado que na relação nao se estabelece. Se estabelece fora dela gostei disso, ruy dt: mas aí o aluno dessa escola tem que prestar um vestibular bizarro e nao teve aquele conteudo obrigatório das escolas...

mtc:

aí
fiquei
 pensando que só virou filme
porque
é
exceção
 e não regra. Isso diz muito.
E
enfim,
era
 apenas para corroborar com o discurso de vocês rs

mtc: nao tinha pensado... perfeito, dani!

rf: e dá certo? pq, às vezes, sinto q o q

rf: isso é ótimo, tetê. tem sido raro

dt: exatamente... pq voltamos para uma das questoes essenciais do teatro que é se reconhecer ali no palco e pensarmos quem somos atraves dessa “ficcao”
e
sobre
a
 direcao ruy e tete? o que vc acharam? rf: gosto muito. até pq foi proposta pelas meninas a questão de gênero. mtc: é. também no teatro vemos “massas de manobras”, situações em que é mais facil
ficar
na
casinha,
 a
dificuldade
de
tentar
 outras linguagens. dt: encenacao... direcao de atores... ah e o lance do som.. que é inspirado no filme
som
ao
redor









 mtc: eu gosto dani


rf: mas gosto principalmente por dois motivos: o primeiro pela capacidade em
reconfigurar
 a importância do realismo sem o teor ideológico ou didático, como já disse. mtc: eu gosto da proposta da encenação (como disse no inicio) que te da uma rasteira, e do que a direção conseguiu dos atores - são caricatos sem serem obvios rf: segundo, pq reconheço muito do que existe da linguagem da companhia, na maneira de construir as cenas e personagens. mtc: e você, dani? não sabia, sinceramente, da inspiração no som ao redor ... rf: sobre o som... em entrevista eles contam q, enquanto ensaiavam, as ruas pegavam fogo, seria impossível não trazer essa contaminação para a peça. mtc: entendi

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dt: os mosquitos, o som de construcao

fora de cena, os atores falando fora de cena...parece que os barulhos contribuem para que ninguem se ouça... ninguem se entenda mtc: é. O excesso de barulho leva ao caos. Bingo! rs rf: com certeza dt: isso mtc: Não sabia da inspiração, mas gostei de saber! tudo a ver e o que fazemos do caos? pra
mim
é
essa
reflexao
 que
fica!
(olha
eu
com
a
 mania de jornalista de finalizar
as
coisas...rs)





 rf: queridos, precisamos concluir... além de estarmos no limite comportado para a conversa, tenho q correr para a reinauguração do cine belas artes. mtc: ahh que demais acho que minha comnclusao ta acima a menos que algum de vcs deixe uma provocação que nao consiga nao responder rs rf: o q posso dizer é

q vi um teatro q não saberia fazer, sendo apresentado de uma maneira honesta e brilhante. e isso me faz acreditar q muito ainda e possível, se tratarmos arte e educação como proposições reais de vida. dt: pois é, vi um teatro que me fez sair cheio de perguntas e inquietacoes e um caos interior... mas tb totalmente inspirado pq vi artistas competentes e um autor que a cada montagem surpreende rf: algo mais a ser dito? ou permanecemos por aqui com nossas inquietações e angústias? dt: sensacoes antagônicas sabe? mtc: Por tudo isso, já que falavamos acima de termos objetivos, de conseguirmos
refletir,
 ouvir e ser ouvido, acho que “conselho de classe” é super acertado!
pra
mim
fim.
 foi otimo, queridos!

dt: juro, foi inédito para mim esse diálogo crítico pelo face, mas foi muito bom! tete, quero te conhecer! rf: teremos outros, com certeza. mtc: sempre. Já te adicionei no face! oba só marcar, dani! beijos e se perderem o sono na madrugadam, sintonizem na radio que eu to lá falando ate semana que vem risos. ruy, manda beijo pra pat. rf: tetê, querida, beijos e obrigado como sempre. obrigado aos dois. beijos e agora é marcarmos uma cerveja pra continuar tudo isso. dt: opa...que radio? mtc: bandnews fm! dt: legal..otimo! rf: beijos. vou matar meu café e correr que, claro, já estou atrasado. mtc: vai la!

rf: adorei tb. dani, seja sempre bem-vindo aqui.

dt: valeu pelo convite, ruy! bjos


eles n達 o aca ba m


q ua nd o termin a m

especial

www.antropositivo.com.br


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dimi tr i s visitando

PaPaioannou O corpo como tempo. O tempo corporificado. A dança como encontro com as possibilidades de se existir aos dois por

ruy filho

intĂŠrprete

kiko bertholini


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o

primeiro contato com sua obra determinou o quanto seria fundamental trazer para a revista esse encontro. Não foi fácil. Não por ele, mas pelo seu tempo, por sua nova estreia no meio do caminho, por estar mais no palco do que livre ao virtual. Então aguardei. Ansiosamente, assumo. Seis meses de mensagens e interrupções, até que o calendário nos favorecesse. Dimitris é exatamente como eu imaginava. E o que poderia ser apenas uma certeza é, para além disso, a melhor delas. Porque a delicadeza de sua atenção durante o encontro foi fundamental ao aprofundamento da conversa. Porque se espera exatamente isso dos grandes artistas, a tranquilidade em expor suas inquietações e paixões, enquanto sua obra explode a dimensão de sua potência de modo contundente. Homem e obra. E conversar com Dimitris Papaioannou

favoreceu o reconhecimento de ambos na realidade de ser sua soma a manifestação maior daquilo que se pode denominar artista. Não haveria outro caminho inicial que não abordarmos o corpo. O coreógrafo e dançarino grego, que já atuou de assistente do diretor americano Bob Wilson à diretor do espetáculo de abertura de uma Olimpíada, considera o corpo a máquina mais complexa existente. Então vamos por aí. Para ele, cujo um dos trabalho mais recente, Primal Matter, formaliza a composição de corpos recriados a partir da combinação de suas imagens, o corpo deve ser compreendido como um campo de batalha, no qual é preciso entender a individualidade de cada um. A discussão evidentemente não é nova, mas a abordagem em seu trabalho respira por outro caminhos, o que oferece à discussão sabores mais

nas páginas anteriores, retrato de dimitris por Elissavet Moraki e cena de nowhere, de 2009, em foto de Marilena stafylidou. aqui, o espetáculo “2”, de 2006, sob olha de Lila sotiriou.

7

7


Cenas do espetáculo “inside”, de 2011, em fotos de Marilena stafylidou.

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interessantes por sua atualização. Por aqui, Helena Katz e Christine Greiner construíram um elaborado discurso sobre o corpomídia, nomeado pliado ao outro. Nesse sentido, o assim para enfatizar maior corpomídia deixa de ser um estado distancia da dicotomia de mídia sobre si mesmo, tal qual a que separa mente e corpo, reflexão propõe inicialmente, para compreendendo o corpo ser ampliado a um corpo biopolícomo igualmente sujeito tico que, não necessariamente, e não apenas pertencente se configura uma midiatização da a um sujeito. O que muda política qual representa. tudo. Mas, se por um lado Tal distinção é fundamental a ideia de sujeito cada vez para compreender o quanto o mais se coloca em xeque, entrabalho de Dimitris é difetão também se faz necessário renciado sobre as bases que considerar igual desconfiança sustentam boa parte da teao corpo sujeito, ou onde se oria da dança contemporâpode recolocar o sujeito na nea. “Não saberia separar concepção de um corpo ama pessoa da política”, afir-


“Só Se entende a arte, quando compreende-Se aS fiSSuraS do tempo”

2

3


“a arte aJuda a preencHer o tempo do VaZio. faZ companHia a eLe”

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sua montagem de “Medea”, em 2008, fotografada por René Habermacher.


2

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ma, já que as manifestações, tanto políticas quanto pessoais, são, antes, assuntos construídos por experiências no corpo. Por isso, dançar também significa em suas criações construir relações entre os corpos. Dimitris explica não estar a política representada em cada um dos participantes, a coisa toda não é tão direta e previsível assim. Está na leitura das relações provocadas; na observação de como as relações são compreendidas, o gerar resultados políticos. Portanto, se o sujeito configurado na dança de Dimitris é a manifestação de um sujeito amplo e não necessariamente midiático, por outro lado, reaproxima-se à base da teoria do corpomídia, na qual defende-se o olhar como uma forma de poder pelo qual se constitui o outro. Dimitris redireciona a dicotomia e traz para a observação a constituição do corpo como um outro, não mais o observador como o outro, portanto. Então é preciso recriar o corpo e o reapresentar, seja como estrutura, seja como narrativa. Pode-se dizer que para com ele a dança é, antes, a anunciação de um processo de construção de


uma possível percepção política do ser. O que inverte e paradoxalmente confirma a teoria do corpomídia ao trazer o corpo não mais como representação de algo, mas como artificio de construção de representações possíveis de si mesmo, a partir de suas percepções. A mídia, aqui, deixa de ser o corpo, passa a ser a própria dança. E o sujeito, a totalidade daquilo que se faz existir. Para Dimitris, a comunicação se torna fundamental ao processo. Não necessariamente em sua qualidade informativa. Talvez por isso não veja dificuldade em comunicar sem palavras. E afirma, assim como a pintura, a dança também pode construir pensamentos sem o uso direto da fala. Desenvolver mecanismos de gerar cada vez mais interesses. Esse é o ponto. É preciso gerar um certo suspense sobre o procedimento, sem se preocupar em relativizar a questão por sua expectativa utilitarista. Conquistou a possibilidade de não mais

“Medea”, em foto de René Habermacher.

3

8


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o olhar de René Habermacher sobre “Medea”.


“a arte é um inútiL materiaL eSSenciaL para a aLma”

2

3


86

esperar a reação do público, o que tem sido cada mais raro, mesmo entre grandes nomes. O espetáculo Inside, por exemplo, tem outro tempo, explica. Podendo entrar e sair do teatro a qualquer momento, o trabalho chegava a alcançar seis horas ininterrupta de performance. A proposta, diz, era induzir o espectador a sair da cidade e adentrar em um espécie de bolha, o teatro. Agir sobre a percepção temporal e o convívio com o tempo tem uma dimensão maior, ao seu ver. A arte ajuda a preencher o tempo vazio que todos possuímos no convívio com nós mesmos. Ou seja, faz-lhe companhia. Ao seu ver, a arte apenas pode ser verdadeiramente entendida quando se compreende as fissuras do tempo. A complexidade nesse argumento, todavia, aumenta ao se reconhecer haver para cada pessoa um tempo próprio. Essa particularização da percepção exige ao artista pensá-lo como matéria escultórica, e moldar o tempo passa a ser função dos interpretes, conclui. E como tudo aquilo que se revela é em si imagem, Dimitris estrutura o tempo


imagético decompondo sua manifestação em criação, exibição e fixação. Todo humano é capaz de criar coisas, explica, a arte explora esse mistério, e através dela se busca chegar a uma espécie de entendimento do que é e como se deve lidar com a vida. Dentre as possibilidades dessa construção, está a capacidade de gerar discursos mediante a utilização de coreografias. Abstratas ou formais, são escolhas. Para ele, porém, simplicidades absurdas viram imagens excessivamente abstratas. Prefere incluir em seu trabalho a forma, a ilusão

o espetáculo “Primal Matter”, de 2012, em clique de Maria Petinaraki.

7

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o olhar de nikos nikolopoulos sobre o espetáculo “Primal Matter”.

2

3


“não Saberia faZer poeSia Sem o corpo”

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de ótica, a indução de ser a imagem pertencente a um discurso, enquanto o que nela se revela é a ampliação potencial de uma outra observação do ser. Perguntado se esse movimento é capaz de construir uma outra mitologia sobre o contemporâneo, Dimitris concorda, explicando ainda que a recorrência do uso de mitos clássicos em seus trabalhos é quase uma obrigação cultural, uma espécie de neurose dos gregos. O que reconhece permanecer desde sempre é a condição trágica do sujeito, também ampliada para a mitologia em formação. Evidente que ambos os aspectos, mitologização do sujeito contemporâneo e sua condição trágica, refletem igualmente a situação socioeconômica de seu país. Também por isso, seria impossível


que tais reflexões não permeassem suas obras mais recentes. A presença do trágico, de certo modo, encontra-se também no seu existir em estado de solidão. A solidão que assola o indivíduo, Dimitris denomina como uma espécie de erotismo triste, que só pode ser revertido se trocado o sentido da divisão que origina a solidão e sua erotização pelo da multiplicação, e isso se faz na esfera do amar. Da dimensão da mitologia contemporânea certamente não teremos qualquer acesso. Pelo contrário. Toda investida sobre seu reconhecimento é farsesco. Não se pode reconhecer uma mitologia durante a manifestação de suas formulações básicas. Percebe-se, apenas, seu iniciar. E nosso tempo ambiciona a isso. A um existir modificado pela ampliação do humano, pela dissolução do sujeito, das esferas tradicionais daquilo que se reconhece por sociedade e economia. Evidentemente, um processo que se inicia séculos

“Primal Matter”, em foto de Miltos athanasiou.

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Cenas de nowhere, de 2009, em foto de Marilena stafylidou e alekos Yiannaros, respectivamente.


atrás, e que agora se potencializa como estrutura mítica sobre as condições especificas do viver. Ao permitir que a desconfiança circule suas obras, Dimitris amplia a linguagem da dança ao território do provável. Não são afirmações, mas experienciações de certas qualidades de energia em forma de discurso e estética. Processo esse que descobriu na criação de HQs de sua autoria. A linguagem dos quadrinhos o influencia muito, revela. E a energia que é expressa nos quadrinhos, é a que gostaria de fazer com as pessoas. Isso explica em parte, em seu trabalho os corpos desenhados, os ambientes arquitetônicos, as estruturas utilizadas como intervenções tridimensionais sobre a narrativa do espaço.

A obra de Dimitris nos oferece pequenos quadros de imagens, porções especificas de demonstração de um discurso cujo corpo se revela experiência de encontro com o existir e o tempo. Dançam os desenhos, portanto. Enquanto assistimos e coexistimos aos universos, absorvidos que permanecemos em suas realidades, frente à inesgotável criatividade de um artista singular e fundamental.

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Espetรกculo nowhere, em foto de Marilena stafylidou.


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teatro em papel

A CENA quE CAbE NA IMAGEM os olhares necessários sobre a produção recente da cena brasileira

São duas, as possibilidades para lidarmos com a permanência do teatro, superando seu estado inerente de efemeridade. A primeira, refere-se ao interesse em sustentar a experiência como memória, seja feito acontecimento, seja emoção. Mas a memória possui seus próprios interesses, então muito se esvai frente a outras lembranças. A segunda, mais generosa ao tempo, dá-se pelo registro. Contudo, ainda não se construiu uma eficiente maneira de filmar espetáculos e sustentar as especificidades das experiências. Portanto, a fotografia, faz-se meio mais próximo ao recolhimento dos detalhes. Aqui, indicamos livros de grandes fotógrafos do palco, João Caldas, Lenise Pinheiro, Emídio Luisi, Bob Souza e Vânia Toledo, cujos percursos guardam parte do que de melhor permeia nossas lembranças.


obs

por ruy filho

rolê zi nho ChEGoU A horA DE DAr UM

EM BrASíliA


o

shopping center foi invadido pelo jovem da periferia que não possui espaço para seu entretenimento e requer ser incluído à massa de consumidores da classe média. Calma. Essa visão distorcida consegue dissolver por interesses ideológicos todas as possibilidades, a do jovem, da cidade, do shopping, das diferenças de classes. A simplificação, no entanto, é resultante mais da preguiça do que de conclusão. E, o talvez seja realmente a palavra a ser agregada a qualquer forma de julgamento unilateral, defesa ou ataque. Talvez o jovem não seja apenas da periferia. Talvez o jovem não queira outro espaço de entretenimento. Talvez a grande diversão seja essa mesma, ocupar o shopping. Talvez ele nem esteja preocupado com comprar ou não algo. Mas, como as sentenças indicam, certezas não explicam o rolezinho. É preciso se provocar a pensar por outros ângulos. Então vou a eles. É da face juvenil desdobrar-se sobre as regras. Sendo poucas as possibilidades, por falta de espaços e pela violência crescente nas cidades, restam os espaços seguros para existir. É como um animal expulso da floresta e que você encontrará na porta de sua casa. Se parece absurda a comparação, pense como você lida com as pessoas não pertencentes ao seu habitat, ao seu círculo, à sua classe social e econômica. Enquanto elas se limitavam a existirem distantes, atravessar a rua parecia ser suficiente. Agora, perderam os medos das avenidas e calçadas. Deixaram os esconderijos e tomaram as vias urbanas, como pessoas reais, transeuntes e cidadão. E, se você insiste em atravessar a rua, elas percebem o quanto deixaram de ser meros inconveniente para exercerem poder sobre você. O que mais quer o jovem que isso? Bagunçar a ordem, no bom sentido da expressão, significa aqui se colocar em estado de desordem, desobediência. E isso cabe a quaisquer classes econômicas e sociais. Então o shopping passa

a exercer dois fascínios: quebrar os códigos e agregar ao divertimento segurança também ao grupo que se diverte. Porque não se trata de serem todos bandidos, ladrões, arruaceiros. Isso é um completo absurdo. São jovens. E, como tais, falam alto sim, correm sim, namoram sim, existem. E é a imposição desse existir que toma o entorno de medo. Se antes, os jovens existiam por aí, longe das famílias, responsáveis e da comunidade, camuflados pelas cidades, agora, as cidades não os comportam mais, foi preciso trazer ao privado. Isso, ao mesmo tempo, aterroriza e é necessário. O problema em defender o rolezinho está no saldo revelado ao final de cada um. Alguma loja assaltada, alguém furtado, coisas destruídas, bagunça, sujeira e tudo mais. Sim, isso realmente ocorreu. E deverá acontecer toda vez que um rolezinho se der. As multidões são incontroláveis. Por mais que se tenha duzentas pessoas, e somente vinte tenham causado os estragos, ainda existem os vinte. E torná-los parâmetro é tão preconceituoso quanto ignorá-los. A pergunta a ser feita, portanto, é outra: por que essa falta de apreço por tudo e todos ao seu redor? Não se trata de mera vontade de destruição. Tal vontade surge como consequente a algo, como toda vontade. Trata-se de desrespeito. Ou melhor, reflete o desrespeito que sofremos diariamente pelo próprio país. Compreende-se e limita-se o brasileiro a servir como mecanismo de financiamento da máquina de sustentação do Governo, ou em outras palavras, do poder estabelecido, ou, ainda, da ordem. Temos uma carga de impostos absolutamente desumana e improdutiva, sobretudo quando comparada ao resultado oferecido pelas políticas públicas. Como respeitar quem não se importa com você? Como lidar com uma corrupção inerente ao Estado? Se os políticos se dão ao direito de ignorar as leis, plenários, judiciários, aos


Não se pode esperar condescendência depois de décadas de desrespeito

seus interesses, porque o brasileiro seria trouxa de não agir igual? Cada um, dentro do seu alcance, age desrespeitosamente com o que consegue. O político com a nação; o jovem com a lojinha na esquina. A baderna que eventualmente pode surgir no rolezinho não é ideológica, nem política, muito menos estrutural. É moral. O desrespeito, a ausência de entendimento dos limites próprios são consequências de uma baderna que se faz exemplo, por décadas construindo nosso imaginário. E toda imaginação um dia assume sua forma. Nesse sentido, o rolezinho é muito parecido ao espetáculo promovido pelos Black Blocs. Mas espere, não estou dizendo que o rolezinho é perigoso e violento como o outro. Estou afirmando o contrário. Que os encapuzados são tão alienadamente reprodutores da falta de respeito do país, quanto os bagunceiros que se divertem junto aos rolezinhos. A diferença está no alcance, novamente. Os Black Blocs explicitam seu desrespeito pelas estruturas públicas, fazendo surgir outro dilema. O que entendem por público. Um salão de cabeleireiro na rua Augusta, por exemplo, como o que foi atacado por eles, é uma estrutura particular. Ou deveria ser compreendido desse modo. Não é. E pelo mero fato de existir e pertencer ao que visualmente se reconhece por cidade. A estrutura social, em suas diversidades e manifestações, tornou-se a materialidade de um subproduto dos poderes, ainda que a lógica esteja torta, mas dá-se assim ao que se impôs ao imaginário. Então, o salão destruído passa a ser simbolicamente o poder de manifestar concretamente seu desrespeito sobre o atual estado de existir. Na mesma noite, as vidraças do Club Noir, teatro experimental dos mais relevantes, sediado na mesma Augusta, também foram atacadas e quebradas. Não por ser um teatro. Certamente não sabiam que

ali era um. Mas por estar ali. O que torna tudo pior é exatamente o desconhecimento de ser ali um teatro. Não há interesse pela descoberta dos ambientes culturais da cidade. Também da cultura o individuo passou a se sentir distanciado por outra espécie de imposição e desrespeito, a de ser a Cultura uma dinâmica de serviço ao entretenimento do poder. Quando se ataca a frente de um teatro, se ataca a estrutura cultural posta e representada por ele. Quando se ataca, sem nem sequer saber ser ali um teatro, se ataca pela cultura do desrespeito, pela distância assumida da participação cultural de seu tempo, da construção da cidade e da estrutura política. A cultura, vista assim, passou a ser a imagem do inimigo em estado e ambiente de prazer. O rolezinho, os Black Blocs, e o que mais derivar do desrespeito pelas estruturas sociais, políticas, econômica e cultural, refletem a falta de vergonha de nossos governantes corruptos e desinteressados de suas funções. Enquanto nos Black Blocs os manifestantes escondem suas faces para cometerem suas ações, no rolezinho, mesmo aqueles que badernam, agem de cara limpa, tornando-se celebridades em suas comunidades. A face daqueles que nasceram com camadas nacionalistas de tintas verde-amarela, para bradar democracia, passou, aos poucos, para rostos melancólicos e conformados. Agora, a mudança se faz rápida. Da alegria de se expor por um país, ao prazer em se esconder e atacar o país, ao reconhecimento que torna celebridade aquele que lá está. Ninguém busca uma conversa, pois não se trata de acordos, e parece que o governo não entendeu isso. Não há o que conversar. O desrespeito se tornou natural. E só poderá ser revertido, quando os políticos de fato tirarem suas máscaras e voltarem a ser pessoas comuns à serviço de um país.


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saia já do foco a luz do celular Na plateia te coloca em ceNa. respeite o público e o artista. dEsliguE.

POr

Juliana Galdino

fOTO patrícia cividanes

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circunferências

Ron Mueck A construção de uma lente de aumento sobre as perspectivas de nossos esconderijos


circunferências

detalhe da escultura “Máscara ii”, com as dimensões de 77cm x 118cm x 85cm.

G

rande parte da historiografia da arte pode ser dedicada ao estudo das esculturas. Não apenas ocidental, e em todas as épocas. Esculpir significa

apropriar-se do espaço pela construção de volumes. Com o tempo, assim como ocorrera com a pintura, a representação deu espaço a movimentos aonde esculpir não necessariamente significaria retratar. A escultura passou a ser uma espécie de representação de sensações e conceitos. A figuração perdeu espaço a outras possibilidades. reunir materiais, colecionar, incluir o próprio objeto sem que esse necessitasse de qualquer ação do artista. A escultura se ampliou pelo discurso do ocupar a espacialidade. Contrapor-se é, todavia, face natural da arte. E o figuratismo retornou às exposições, pelas relação de outras qualidades e buscas. Ron Mueck poderia ser lembrado nesse ponto. Mas seria pouco. Seu trabalho reúne uma inigualável capacidade de construção hiperrealista do homem com a proposição de agigantar ao nível de monumentos os corpos e seus estados. São faces de um individuo em seus momentos e sentimentos mais particulares ampliados ao ponto de tornar a própria escultura a consolidação da sensação. Se o fazer recupera a ação moderna de atribuir pela técnica valor conceitual, seu hiperrealismo cabe ao entendimento de vivenciarmos um estado de hipermodernidade, como demonstrara Gilles Lipovetsky. Encontrar as escultura de ron é como ampliar a dimensão humana ao mais íntimo possível de nossos mais recônditos detalhes. E não tem como sair de uma exposição sua sem ter a certeza de que, no fundo, não passamos mesmos mesmo o homem é maior do que ele mesmo acredita ser. Só não temos a capacidade para perceber isso. Não tínhamos. Ron Mueck resolveu isso para nós.

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ron Mueck MaM rio - av. infante dom Henrique, 85, pq. do flamengo, rJ. telefone: (21) 2240-4899 de 19/03 a 01/06/2014

fotos: divulgação

de pequenos liliputianos. Tudo é maior. Até


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saia já do foco A luz do celulAr nA plAteiA te colocA em cenA. respeite o público e o ArtistA. dEsliguE.

por

Otávio Müller

foto patrícia cividanes

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circunferências

curadoria

1 06

em xeque É

detalhe da obra de gregório soares.

como organizar uma festa

ma exposição, se a estrutura fosse

maior. ocupar partes de um edifí-

em casa. Um chama o ou-

a habitual das nossas instituições.

cio, onde um pouco de tudo existe,

tro que chama mais um, e

Coloca em xeque o funcionamento

um pouco de todos existe. E, ago-

assim a coisa segue até lo-

interno do meio das artes visuais, e

ra, no próximo mês, um pouco dos

tar a possibilidade de convidados.

conduz para uma contundente ob-

caminhos que ligam os artistas aos

Então é preciso dois elementos

servação de como o mercado pode

reconhecimentos de suas propos-

principais: o primeiro convidado e

e acaba se estruturando mais pelas

tas. Uma curadoria emotiva pode

a casa em si. parece simples, mas

proximidades do que pelas impor-

apresentar seu limites aos senti-

não é. Quem chamar, quem deixar

tâncias. Se faltava a casa para a

mentos. Mas está mesmo na hora

de fora? Imagine fazer isso como

festa, uma vez que a proposição

das curadorias assumirem por aqui

preceito para organizar uma cura-

pode se tornar uma saudável e

não serem completos blocos

doria. Foi o que Pedro Caetano fez.

necessária provocação, agora não

de gelos. Aproveite, vá de

Sendo ele mesmo o primeiro artis-

falta mais. E nenhum espaço em

metrô, e doe alguns minu-

ta, convidou outro, e este outro,

São Paulo é mais aberto ao expe-

tos para olhar ao lado.

até que reunisse 20. Essa espécie

rimento de olhares curatoriais do

de curadoria emotiva acabou por

que a Galeria Pivô. Ali, no centro

juntar uma série de artistas con-

da megalópole, ocupando alguns

temporâneos brasileiros que difi-

andares do icônico Edifício Coplan,

cilmente estariam dividindo a mes-

a exposição assume sua coerência

Brazil: arBeit und freundscHaft galeria pivÔ - edifício copan, loja 54. avenida ipiranga, 200, são paulo. tel: (11) 3255 8703 de 15/02 a 15/03/2014


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saia já do foco A luz do celulAr nA plAteiA te colocA em cenA. respeite o público e o ArtistA. dEsliguE.

por

Daniel Alvim

foto patrícia cividanes

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circunferĂŞncias


bowiE e

le nasce em 1947. E nada mais pode ser igual. Imagine alguém capaz de passear por estilos musicais, compor e representar, muitas vezes, o melhor de cada um. Rock, hard rock, folk psicoldélico, soul,

funk, glam rock, punk, minimalismo, novo romantismo, música industrial, drum and bass... Ele o fez. A boa história da música passa infinitas vezes por ele ou por seu legado. E, evidentemente, não estava sozinho. Surgiam parceiros para suas composições. Apenas nomes como John Lennon, Brian Eno, Queen..., pra citarmos os mais conhecidos de todos nós. O inglês que mudara para os Estados Unidos, foi se tornar também ator de filmes experimentais que marcaram décadas e de espetáculos teatrais. Isso, antes de se transferir para a Alemanha e assumir sua vocação para colecionador de arte contemporânea. David Bowie ou Ziggy Stardent ou Thin White Duke, não importa o nome, é conhecido pela maneira como fez da música um rasgo sobre os modismos de cada época, e da moda uma musicalidade visual sempre inesperada e forte. Agora, retorna em novo disco. E já explodem em todos os cantos indicações a prêmios de toda ordem. E também chega a nós. Em roupas, sons, fotografias e a amplitude dos universos de suas fases e egos. Chega pela mãos do MIS em São Paulo, em forma de exposição. Que outro lugar poderia ser mais adequado para receber um artista cuja imagem e som se confundem ao próprio sentido do que venha a ser arte? A partir desse instante, passaremos a viver e reviver o mais íntimo e profundo de Bowie. E isso é no mínimo histórico. Valeu, MIS. david Bowie Mis sp - avenida europa, 158, são paulo. telefone: (11)2117-4777 de 31/01 a 20/04/2014


circunferências

pablo picasso andy warhol robErt rauschEnbErg roy lichtEnstEin jEff Koons jEanmichEl basquiat josEph bEuys gErhardt richtEr ansElm KiEfEr gEorgE basElitz

a

+

s últimas décadas foram orientadas ao con-

contrapostos. Obras o suficiente para dar conta do mu-

sumo. fato. Entre adeptos e opositores ao

seu que leva o seu sobrenome. São obras de impacto

modelo, nem tudo pode ser radicalmente

e relevância. Artistas dos mais significativos do século

condenado. É preciso agir com um tanto

xx, do moderno ao contemporâneo. E como as novas

de bom senso. E está em cada um, a maneira como

décadas são orientadas pelo convívio entre as culturas,

pode orientar o consumo que permeará sua vida. Al-

o acervo russo do proprietário alemão tem um recorte

guns preferem roupas, outros enchem os armários de

curatorial trazido a São Paulo. 74 obras. Uma exposição

sapatos. Há os apaixonados por livros. E também os

singular, excelente para que possa encontrar muitos

viciados em toda sorte de absurdos colecionáveis.

dos mais importantes nomes que representaram nossa

o primeiro passo é olhar para si mesmo e entender

época. E igualmente excelente argumento para aque-

como esta época te perpassa. Acredite, ela está

le que faz do encontro com a arte, uma espécie de

em você. O segundo, tornar relevante tudo isso. Se

consumo de experiências, conhecimentos e reflexões.

ao coletivo, melhor ainda. peter Ludwig, alemão, fez fortuna, e se tornou dono da maior coleção de obras de Pablo Picasso. E não só dele. São diver-

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sos artistas, linguagens distintas, posicionamentos

visões na coleção ludwig ccBB sp - rua Álvares penteado, 112, centro, sp. telefone: (11) 3113-3651/3652 de 25/01 a 21/04/2014


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saia já do foco A luz do celulAr nA plAteiA te colocA em cenA. respeite o público e o ArtistA. dEsliguE.

por

Arieta Corrêa

foto patrícia cividanes

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vertical

a crĂ­tica cOMO perfOrMance por ruy filho


início

o crítico

Tudo começa por algum moTivo ou alguma moTivação.

é menos uma função

Mas tudo, inevitavelmente, começa.

de disponibilidade

então,

Não lhe cabe o julgaMeNto

o artista tem uma ideia então, ele decide então, produz então, realiza e divide com mais alguém. Do outro lado, são 3 os espectadores possíveis

Público, artista, crítico

e mais um estado

toda de forma de julgo se priva de amplitude Por se pautar por valores pessoais

não se pode dialogar com uma obra a parTir de valores pessoais não se dialoga pelo julgamenTo se dialoga pela disponibilidade à reflexão é preciso descobrir aberturar à reflexão

público

é preciso construir instrumento à reflexão

aquele que assiste

é preciso consequências à reflexão

resultando em uma experiência emotiva sobre a obra arTisTa

Dois são os problemas do julgamento

defesa e limiTe

aquele que observa

Dois são os proveitos do diálogo

resultando em uma experiência

abertura e contaminação

racional sobre a obra críTico

o crítico Necessita estar eM cheque

aquele que dialoga

a crítica eM DescoNfiaNça

resultando em uma experiência

a escrita eM Desafio

filosófica sobre a obra

a resPosta eM aberto


é preciso se fazer novas perguntas

O diálogo de uma crítica

ou novamente as perguntas certas

é proporcional à sua amplitude em ir além

o que Torna uma críTica necessária? o que Torna uma críTica um diálogo? o que Torna uma críTica especial ao seu Tempo? o que Torna uma críTica um objeTo independenTe? A necessidade de uma crítica

da expectativa de criação do artista porque todo artista oferece discursos porque é inerente ao movimento de criação alguma tentativa de oferecimento.

avançar o diálogo para além das quesTões ordinárias gerando enconTros, reflexos, desdobramenTos.

é proporcional à sua

A importância histórica

eficiência

de uma crítica

em ir além da

é proporcional à

capacidade

sua capacidade de

de conclusão

atemporalidade

do espectador

comparativa

porque qualquer um conclui

porque toda obra explicita

porque é inerente ao processo

82

de observação alguma tentativa

o inconsciente do presente porque é inerente ao processo de realização

de conclusão.

alguma tentativa de deslocamento

avançar a conclusão para além das resposTas comuns.

avançar a percepção para além do insTanTe esTáTico

gerando conceiTos, pensamenTos, ângulos

gerando dobras, possibilidades, suspeiTas.


A independência como ação de uma crítica é proporcional à sua linguagem e singularidade da escrita porque toda escrita revela uma percepção porque é inerente ao escrever alguma tentativa de subversão

avançar a linguagem para além do descriTivo objeTivo

a crítica é a centralidade entre

iNforMar Não é eDucar. é trazer ao outro um percurso possível aonde o trajeto se revela apenas uma possibilidade

leitor, artista, registro e escrita. está na relação com o tempo está na relação com

a qualidade de ser também

o leitor a qualidade de

contextualização

ser também informação.

é preciso informar sem deTerminar o enTendimenTo

é preciso lidar com a hisTória sem limiTar ao linear dos faTos

oferecendo-lhe abertura.

revendo a estrutura

possibilitando

de narrativa histórica

contornos próprios.

restabelecendo

não sendo educativa.

novos paradigmas aos

sem atribuir

acontecimentos

conclusões definitivas.

não sendo restritiva.


a hisTória não é apenas o que se conhece é também a soma de interesses é preciso criar novos olhares a partir do interesse em desconfigurar as

Não é Dizer sobre é apropriar-se do dizer do artista para, por dentro dele, aplicar as desconfianças necessárias ao desenvolvimento de questões está na aproximação com a linguagem a qualidade de ser também autoria

é preciso gerar originalidade sem recriar a obra

certezas tanto na história da humanidade

entendo a escrita como processo performático.

quanto na história da arte

ampliando a cena do artista a uma espécie de desdobramento pela escrita.

está na aproximação com o artista

escrever não é apenas opinar mas um esTado

a qualidade de ser também diálogo

perfomaTivo de expressão, pelo qual a sensação se

é preciso gerar profundidade sem se afasTar do comum dialogando com a subjetividade e não com os recursos técnicos reconhecendo a narrativa na reunião entre estética e conceito

dialogar não é concordar

revela formae onde a forma amplifica o esTímulo.

críTica não é um processo limiTado opinaTivo é a expressão ampliada daquilo que lhe exige diálogo em conteúdo, forma e experiência oferecida ao leitor e ao artista ao poeta e ao teórico Às anotações que nunca serão públicas e aos jornais diários.

é só querer.


Antro Positivo AconselhA:

em mArço, estejA em são PAulo

participa do olhares críticos


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

por

Claudio Fontana

foto patrícia cividanes

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w eto ä p uiz s do l a ovo d i os n iva a conv t t n

ra se pre da nar idamos e r s nv ele igma d o co . ir o para l. entĂŁ constu r capaz a o f r a t r tea sta pa ene, se c ti o ar sĂ­vel. en s o imp


acesso

a

ntônio Fagundes realiza apresentações específicas do seu mais recente espetáculo, Tribos, para portadores de necessidades especiais. Todo último sábado do mês, o público pode assistir acompanhando a tradução das falas em libras ou, para os deficientes auditivos não adaptados a língua, tablets

com as legendas, e também audiodescrição para os deficientes visuais. Fagundes, que em sua juventude era reconhecido por abrir seus ensaios ao público interessado, mantém assim a coerência pelo apreço à inclusão. Dessa maneira, o teatro se torna mais abrangente e acessível. É importante dizer, ainda, tratar-se de uma escolha e não de uma contrapartida obrigatória. Por tudo isso, pelo respeito ao outro, pela ética no trato com o teatro,

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a revista apoia e aplaude a iniciativa.

Ensaio fotográfico para divulgação do espetáculo Tribos, com elenco original. O espetáculo está em cartaz no Teatro Tuca, em São Paulo.

FoTo Jairo GolDFlus

todas as tribos


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

Por

Bruno Fagundes

foto PaTrícia cividaneS

Esta é uma campanha


capa

D F

enise raga

A maturidade sem fronteira ao sonho por

fotos

ruy filho

fausto roim

make up

renatto

souza


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T

arde. Ali, parados na entrada do prédio, esperávamos ela chegar. Havia um certo clima diferente na espera. Não era a ansiedade normal. Estava mais para expectativa. Como seria o encontro? Como ela era? A sensação de ser aquele o momento certo oferecia um pouco de tranquilidade. Não o suficiente. Não, depois das inúmeras vezes ouvir de outras pessoas em comum que deveríamos conversar. Então, a tarde parecia mesmo uma eternidade. O que se resolveria em breve. Já no seu escritório, um charmoso canto com lugar discreto à sua dezena de prêmios, cartazes. Nada em exagero, porém um pouco de tudo o que de melhor realizara nos anos recentes. Até que o instante se deu. Denise Fraga entra sorrindo e cumprimenta cada um. Algumas palavras. Maquiagem. Fotos. Outras fotos. E, de repente, frente à frente, caderno de anotações aberto, sirvo-me de um copo d’agua. O gesto dissolve as expectativas. Rimos de minha naturalidade, de seu esquecimento. E descubro que, também para ela, o encontro potencializava a amplitude de um momento. Chamamos de visita, explico. E, a partir desse instante, Denise me fisgou com seu humor, carisma, inteligência, e a certeza de ser sim aquele o momento para uma boa conversa com a Antro+. Seus trabalhos na televisão redimensionaram sua carreira, trouxeram-lhe popularidade e reconhecimento nacional. Mas Denise também está pelos teatros e cinemas, e não é incomum encontrá-la em mais de um dos ambientes simultaneamente. Enquanto conversamos, chegava a nossas casas pela televisão, um recente e inesperado trabalho. A mulher do prefeito. Uma sátira sobre a construção do poder e da política no Brasil recente, na boca de eleições presidenciais, e enquanto grandes nomes da MPB discutem acirradamente a proibição de suas biografias. O pais é outro. A irreverência se desfaz nas ruas, as liberdades são confundidas como abusos. Tudo ainda é um mistério. Não mais como antes, quando misterioso era o entendimento do funcionamento da estrutura política. O mistério, agora, é sobre quem são os que sustentam a permanência. Então o inicio, ainda que obvio, é como lidar com a importância do dizer, seja pelo humor ou não, em tempos limitados ao politicamente correto, no paradoxo que tudo o que venha a ser político se tornara irrelevante popularmente. Denise surpreende confessando não achar mais graça em falar de político. Sua personagem na série, explica, igualmente abdica, não quer ser ou estar ali, no entanto se vê aprisionada por uma espécie de compromisso com outro. É como se pudesse, ao ser diferente, limpar o que

tudo aquilo representa e impõe a ela mesma. A aproximação com a ficção não ocorre meramente por uma semelhança moral. Denise não fala sobre esse aspecto. Mas, conclui, uma hora na carreira você quer dizer algo mais. Essa hora, ocorreu pela cumplicidade com o outro. Não qualquer um, ao acaso. Mas filho, diz, faz você pensar na vida, faz passar a duvidar. O aspecto de como o trabalho pode construir os caminhos para ampliar ao outro as reflexões e dúvidas implica também em uma rotina de envolvimento mais do que físico. Para ela, usamos muito pouco a criatividade para o prazer, destinando sua potência sobretudo ao dever. Por isso, caminhar por dentre linguagens e meios distintos é fundamental para suprir as lacunas pertinentes em cada uma. O teatro se move, afirma a partir de sua percepção como intérprete.

necessita A criAtividAde

que Ampliemos As relAções

com As linguAgens


De certo modo, o teatro qual Denise se constrói como discurso criativo ao outro, tem uma coerência corajosa, frente os paradigmas do que o mercado e o tal universo não-comercial (seja lá o que isso for) colocam por parâmetros. Dos textos de Bertold Brecht à jovens autores contemporâneos, a presença da narrativa revela ser seu maior interesse. Contar algo. Dizer. Não no sentido doutrinário, mas partindo da premissa de ser o ator veículo de algo que o outro precisa saber. Fofocar, finaliza, enquanto rimos e minhas memorias correm às fofocas que inevitavelmente se colecionam pelos corredores dos teatros. Mas há mais no contar, no narrativo. E Denise explica ser próprio do ator a capacidade em sofisticar uma espécie de angústia de seu tempo. Aquilo revelado no palco pode atingir o outro de muitas maneiras. E nem sempre esse encontro, o provocar a descoberta, é meramente saboroso. Há um processo

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Ensaio fotográfio em seu escritório para a revista Antro Positivo.

angustiante em toda possibilidade de conhecimento. Percebe-se no instante que se conhece ou descobre algo, o quanto se desconhecia ou não imaginava sobre. E angustia, esse estado de desdobramento que conduz o outro a se observar criticamente, a esse instante, Denise denomina como a boa decepção. Então o humor surge como transgressor a tudo isso. É a capacidade de conceber uma ideia fazendo rir. E só se pode rir, de fato, quando se entende verdadeiramente o que ali é coloca-


do. Este estado de reflexão, sustenta-se por trazer junto ao riso um tanto de melancolia. Se essa união se formar no outro como intimidade e compreensão, então rir é sobretudo um estado de se manter emocionado. Para Denise, a angústia também está do outro lado, no artista. Nos limites de suas ações, de suas escolhas, capacidades e possibilidades. É um jogo pela transferência entre as angústias e melancolias de ambos os polos. E o teatro é, certamente, o meio mais interessante à construção de boas e inesperadas partidas. Mas, como coloquei, os tempos são outros. Opinar não é mais um processo de externar as observações construídas solitariamente. A tecnologia mudou a maneira de jogar. E nada parece ser mais importante e paradoxalmente desnecessário que construir qualquer qualidade de opinião. Para ela, a internet multiplicou isso ainda mais. Hoje existe muita opinião sem fato. Virou uma necessidade violenta de externar, explica. No entanto, precisamos da história. Sem ela, não teremos como construir fatos e consequentemente não são possíveis opiniões. Todavia, o que se tem com a internet e esse novo modelo de se comunicar e se fazer reconhecer pela capacidade em comunicar é um despreparo ao contar. As histórias estão sem finais. Sem conclusões e opiniões, portanto. O que, ao ser ver, torna


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o entendimento irrelevante e improdutível. Movimento esse que atinge também a maneira de lidar com o dizer no teatro. Pode ser até hermético, mas é preciso se preocupar com o entendimento, resume. Denise entende a atuação como a melhor profissão do mundo. A vantagem única que o ator possui em acreditar que o outro quer o mesmo que ele. Contudo, para ela, o mais importante é o jogo capaz de gerar a necessidade da cena. Por isso assume sua preguiça em criar para si um espetáculo solo. Essa coerência no reconhecimento de seus desejos, talvez seja parte do respeito conquistado. Disse sim e disse nãos. Interpretar serve-lhe principalmente ao encontro, tanto dentro quanto fora do palco. E é para esse outro que estar ali justifica a presença. Ela costuma receber o público na porta de entrada da sala de espetáculo. Faz do gesto uma espécie de ritual, pelo qual acorda o espectador para a preciosidade do instante. É preciso querer e fazê-lo querer também. O palco, diferentemente da televisão e cinema, carrega a consciência do ao vivo. O problema está no empobrecimento da dicotomia necessária a essa consciência. O que não significa dizer que o outro chega e se apresenta completamente desprovido do contexto. Ao contrário. Ter acesso a tudo, ele tem, diz. Entretanto, é preciso também autoconhecimento. Sem o qual, o querer deixa de ser a construção de um estado de consciência para o limite de uma presença impenetrável. Querer talvez seja a maior das problemáticas ao artista atual. Quase sempre, não se pode reconhecer o querer como motivação ou argumento. Denise, explicita os seus, pela maneira como escolhe coerentemente às linguagens da televisão, teatro e cinema, narrativas e atributos específicos. Se na televisão são muitas vezes personagens mais próximos ao telespectador, histórias cotidianas de improváveis instantes cômicos ou emotivos, no teatro, ao contrário, sustenta uma lista de espetáculos mais pertinentes ao exercício do pensamento, histórias capazes de ampliar a percepção social, cultural e do presente, como contraponto a alienação que busca se iludir com superficialidades. No cinema, por fim, alcança a dimensão do humano com mais propriedade, em narrativas profundas e mais propicias ao deslocamento para o próprio interior e solidão de cada um. Essa escolha por conduzir e capacitar cada meio reflete a maturidade de uma atriz comprometida com o fazer e o encontro com o outro. O que torna assistir aos seus trabalhos sempre um dialogo aberto com cada instante, oferecida que está a dimensão da importância de cada um. Nosso tempo termina com a vontade de estender a conversa. Ela diz gostar de encontros como sentar em uma mesa e filosofar com amigos. E fora exatamente essa a sensação que tive, durante o tempo de nosso encontro. Ela

precisava ir a outro compromisso. Eu, correndo também para dar conta de outras tantas questões a serem resolvidas. Denise, cujo olhar transborda ternura, feito aquele jeito de olhar apenas existente nas pessoas apaixonadas pelo outro, pelo viver, pelo risco incontrolável do viver, abraça, agradece, volta a ser menina tal qual aquela que chegara para uma conversa, oferece-me mais água para se resguardar de qualquer esquecimento futuro, ri, diverte-se e, como quem não tem mais a obrigação de dizer, de responder, cochicha quase ao vento, o teatro é um lugar onde não se deve ter segurança. Qualquer coisa que se possa dizer depois disso, parece realmente pouco e demasiadamente ingênua. Então, sigo. E recrio pelo papel uma outra mesa de bar, onde a conversa continua sem perspectiva alguma de chegar e de querer o fim.

“teAtro é o lugAr onde

você pode

levAr A pessoA

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Ao sonho”


estar

“ser ArtistA é

de brAços dAdos

com A insAtisfAção”


ida / volta

por ana Carolina Marinho

São Paulo, 24 de janeiro de 2014 (9h) Todas as vezes que deixei São Paulo, ela parecia mais alegre e viva dos que as vezes em que aqui cheguei. Que seja apenas acaso infeliz. Tudo é possibilidade, o cinema e a cidade. ConfinS, 24 de janeiro de 2014 (12h) Quando se descobre que o ponto é só vírgula, é necessário se perguntar se já foi ao banheiro ou se tem reserva de comida no estômago. 50KM

Distância é ainda mais relativa pro mineiro. Os rostos são reconhecíveis, seguimos agora uma viagem juntos e com olhares de cumplicidade: Que se faça o destino, porque de percurso já estamos cansados. Mais algumas horas de trânsito e estrada, Tiradentes ainda é imaginação e desejo. TiradenTeS, 24 de janeiro de 2014 (20h) Abertura da Mostra. A cidade parece charmosa, mas firmarei a qualidade sob a luz do dia.

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Filas imensas. Uma juventude disposta a ver e discutir os filmes. Parece haver mais coisas entre o céu e a abertura... Escuto aos sussuros e gritos os moradores de Tiradentes dizerem que aquele é o pior evento para a cidade, segunda vez naquele dia que constato o incômodo.


TiradenTeS, 25 de janeiro de 2014 (11h)

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Quanta doçura em cada cor. As ruas são estreitas e é preciso equilíbrio pra se manter ereto sobre as pedras da rua. Ai o arcadismo e a vontade de sentar sob uma arvóre e observar o sol avermelhar as janelas verdes e amarelas... Conversa com Cléber Eduardo, Pedro Maciel, Cristiano Burlan e Denilson Lopes - processos audiovisuais de criação. Quanto é um baixo orçamento para se fazer um filme? Como os meios de produção ditam os modos de produção? Quando a própria conversa sobre uma possibilidade outra já não é agenciada pela própria ideia de possibilidade? Sobre a banalização e institucionalização do termo ‘coletivo’ a cidade de São Paulo é hostil às expressões coletivas (?) TiradenTeS, 25 de janeiro de 2014 (22h) Filme ‘Cidade de Deus 10 anos depois’ de Cavi Borges e Luciano Vidigal Sobre construir o sonho de um universo possível e ir embora. O que resta a quem fica? O que seria de Pixote 27 anos depois? TiradenTeS, 26 de janeiro de 2014 (12h) Visitar museus e igrejas. Colorir-se pelas janelas. Por que mesmo os comerciantes não gostam da Mostra de Cinema?


TiradenTeS, 26 de janeiro de 2014 (17h) Filme ‘Amador’ de Cristiano Burlan Sobre o ofício de amar a dor. Pode o emergente ser anacrônico?

V

Debate Quando não se faz algo, mas se pensa sobre isso é preciso um rigor com a inexatidão. Mediar é a arte de manter a discussão pulsante, não indigesta. São Paulo, 27 de janeiro de 2014 (16h) O nariz é o primeiro a perceber a pauliceia. Espirros. Vontade de permanecer em Tiradentes mais dias e acompanhar por mais tempo a Mostra. Espirros.

ana Carolina Marinho a atriz e resenhista de crítica teatral escreveu sobre sua experiência ao acompanhar o festival de Cinema de Tiradentes, à convite da revista antro Positivo.


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

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Roberta Koyama

FOTO PaTríCia CividaneS

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outros tempos por ruy filho

A Copa do Mundo chegou. O brasileiro mudou no meio do caminho e reagiu aos abusos da maneira mais inesperada possível. E o sistema reagiu através do inimaginável. As consequências, um país ao serviço da intervenção de artistas


Q 1 48

uando retornou para dentro do campo, as pessoas que lá estavam queriam enterrá-lo no centro do gramado. De preferência, naquele ponto em que o círculo marca a disposição inicial. Só que não podiam. Era quem era, e sendo quem era, não se poderia fazer nada além de obedecer, e, ainda, ele estava certo. Dos 26 bilhões investidos, seria ridículo não realizar os jogos pelo ocorrido. Não se desistira quando morreram os pedreiros durante as construções dos estádios. Muito menos, frente a mobilização popular que chamara atenção ao mundo de que se fabricava aqui a mais cara edição da história. Precisavam seguir. Ou Jérôme Valcke, o homem forte da Fifa, executaria o chute em nossos traseiros, como afirmava ser merecido. Por enquanto, as pala-

vras irritavam cartolas, políticos, empresários, investidores, patrocinadores, povo... Esse era seu talento maior. Fazer merda, falar merda. E Jérôme o executava muito bem. Agora, sem escolha, teriam que escutá-lo e obedecê-lo. Distúrbios pelo gramado, governador, prefeito e uma corja de anônimos burocratas haviam de escolher cancelar ou agir. Decidiu-se pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar. Não precisou muito a ser feito. Estavam organizadamente preparados para a ação. Em poucos minutos, as ruas ao entorno do Maracanã foram ocupadas por homens armados de cacetes, spray de pimenta, gás lacrimogênio, balas de borracha e de verdade. E traziam também muito prazer. Como se deve ser, quando se faz o que mais gosta em sua profissão. Os românticos idiotas que ocupavam a vias públicas eram uma massa im-


Na página anterior, imagens reais do ataque aos índios pela PM, durante protesto contra a desocupação da Aldeia Maracanã. Ao lado, Jérôme Valcke, representante da fifA, e a jornalista rachel Sherazade, conhecida por seus comentários inoportunos e conservadores.

precisa de ambientalistas, estudantes, transeuntes, desavisados, e aquele tipo que se chamava por índio. Foi simples e divertido, contou para a família, durante o jantar, o coronel, narrando a batalha de alguns dias. Eles correndo, colocando fogo em lixeiras, nós correndo e arrebentando ossos. Enquanto os familiares se orgulhavam da valentia heroica de sua sobrevivência ao canibalismo dos primitivos, o bandeirantes moderno batia no peito e gritava feito Tarzan, intercalando com vamos tornar essa selva um lugar de verdade, porra! A mulher aplaudia segurando as lágrimas. Corria aos braços do marido. Beijava-o. Rachel, ele disse, trouxe para você de presente, e lhe entrega a foto ampliada que fizera junto a amigos do jovem criminoso acorrentado em um poste por um cadeado de bicicleta. Essa é especial, ela diz, vai para nossa estante de porta-

-retratos, e pode deixar que trago a champanhe para esta noite, prometeu-lhe Sherazade, antes de sair para o estúdio onde gravaria seus mais profundos comentários em um telejornal. Os meses passaram. Tudo foi esquecido. Ou parecia, ao menos. A tranquilidade voltara a comandar as ruas, e os jogos se aproximavam. Até aquela reunião entre representantes das comunidades atacadas. É agora, berra um dos jovens aos demais, ou não fará sentido algum depois. Alguém tem alguma proposta efetiva?, diz o descabelado com ar de estudantes de ciências sociais. O silêncio era constrangedor, pois revelava a derrota como ação evidente. Se nada fosse feito e rapidamente, a Copa aconteceria, e isso seria o fim de qualquer tentativa futura de colocar um pouco de ordem no país por ações populares. Escuta, eles já gastaram tanto,


Os ataques se deram sem receios de punições. Dentro e fora de campo

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será um prejuízo de décadas se não tiverem os jogos. A roda formada sobretudo por jovens olhou em uníssono para a estudante de arte bem vestida. Você prefere se calar, então, deixar por isso mesmo? Os ânimos se alteraram. Gritos, ofensas, palavrões, e o primeiro empurrão. Assustada, a garota se levanta do chão, arruma a roupa, pega suas coisas e sai. O silêncio retorna ainda mais constrangedor. Agiam errado. Tornavam-se violentos como os que combatiam, tão destrutivos quanto. Foi o gordinho nerd quem deu a ideia. Haveriam de impedir os jogos sem causar estragos. Tornar as coisas impossíveis. Foram vinte minutos para os sorrisos aparecerem. Alguém ligou para a menina e convidou ela a voltar, mas preferiu seus amigos artistas. E, para fechar a genial proposta com medalha de ouro, o gordinho novamente, tenho alguns amigos que trabalham lá, podem abrir as portas hoje à noite para nós. E ligou. Desligou. Temos que passar entre meia-noite e duas. Madrugada anterior ao primeiro jogo. A seleção brasileira hospedada em São Paulo dividia a mesma ansiedade do dia seguinte com um grupo de jovens acampados no terreno inacabado do Itaquerão. Do outro lado da cidade, as portas de um gigantesco galpão com o símbolo da CBF eram guardadas por uma dúzia de policias. E essa foi a facilidade. Eram tantos que, verdadeiramente, nenhum prestava atenção ao serviço, acreditando que muitos ali estariam fazendo seus trabalhos, simples, não deixar entrar ou sair até o início da manhã. Mas eles conseguiram. Entregaram ironicamente aos amigos funcionários duas dúzia de cerveja da marca patrocinadora da Copa. Saíram


em menos de dez minutos. Ninguém viu. As câmeras estavam desligadas. Os empregados bêbados não poderiam ser acusados de nada, não lhes cabia a segurança ou o controle sobre elas. Foi apenas quando Jérôme Valcke chegou que se descobriu o desaparecimento. Faltam poucas horas para a primeira partida. A seleção já estava a caminho do estádio. Jornalistas e comentaristas testavam seus microfones e câmeras. As arquibancadas lotavam com apaixonados por futebol. O som ambiente explodia uma insuportável música especialmente criada para Cláudia Leite. As cervejas eram consumidas feito água. O mundo estava pronto. Só elas não estavam. Sentado na sarjeta, Jérôme, após um ataque histérico que quase o levara enfartar, liga para os políticos influentes que conhece em Brasília. Não vai ter jogo, porra, roubaram as brazucas. Caralho, as merdas das bolas oficias sumiram! Levou menos de 15 minutos para a mensagem no celular de Jérôme. Fique tranquilo, vou providenciar novas bolas. Vá para o Itaquerão. Vindo dele, mesmo sem saber como conseguiria resolver, achou-se melhor que entrassem nos carros fretados e protegidos por segurança militar, e irem ao estádio. No outro extremo do país, o homem das mensagens liga para outro homem que passará a mensagem a um terceiro e que fará chegar ao diretor de um presídio o pedido da encomenda e a urgência de sua realização. Como era preciso saber se as coisas correram satisfatoriamente, o diretor chamou o carcereiro e lhe entregou um aparelho novo de celular, de excelente modelo e câmera. Logo armou-se uma confusão entre os detentos. E três foram separados dos demais. Eram os escolhidos. Os que ninguém sentiria falta tão rapidamente. E seriam o símbolo da vitória máxima de nossa competência. Irismar tinha apenas 34 anos, Manoel, 46, e Diego, o preferido para ser o principal, apenas foto montagem, a partir de imagens reais, do torcedor que espancou outro, por serem de torcidas rivais, mesmo estando ele já desacordado. E corpos decepados no presídio de Pedrinhas, por outro detentos, em São luís, Maranhão.


Na página ao lado, frame do vídeo criado pelo coletivo holandês Aernout Mik, no qual uma lanchonete do Mc Donald’s é inundada e destruída. Nesta, vídeo montagem do mexicano Miguel Calderón, produzindo uma goleada contra a seleção brasileira. Na página seuinte, outrao vídeo de Aernout Mik.

21. A variedade era apenas para ampliar algumas possibilidades, como maciez e durabilidade. Agacha, filho da puta, gritou um dos presos ao trio, e fecha a porra da boca, enquanto os homens levavam porradas e chutes na cara. Vai destruir o produto assim, caralho, disse um comparsa. Eu sei o que tô fazendo, já fiz isso muitas vezes. De fato. O líder ganhara notoriedade meses antes, quando circulou sua imagem espancando um cara desacordado nos degraus de uma arquibancada. Liga a câmera, eles querem ter certeza. O magrelo obedeceu. Não, porra, tem que ajeitar o foco, cuspiu o líder. Então, tudo sumiu. Apenas os pés. E o chegar do sangue escorrendo e lavando o chão destruído da cela. A primeira. A segunda. Terceira. Estava feito. As três cabeças precisavam sair dali o quanto antes. Um avião particular da família Sarney aguardava para trazê-las direto a São Paulo. Está no voo, avisou o diretor do presidio à filha do senador. Papai, deu tudo certo. E, quando tocou o celular de Jérôme, ele leu a mensagem, deu um salto, beijou um assessor na testa e disse, é por isso que eu amo esse pais! No campo, Brasil e México. O pontapé inicial seria do excelentíssimo Ministro dos Esportes. Não porque tivesse esse narcisismo todo. Imagina se ligaria pra isso. A aproximação servia a outros propósitos. Recados, ele disse, disfarçando para não correr o risco das televisões conseguirem ler seus lábios. Um, hoje essa será nossa bola, amanhã estará normal. Dois, seria muito interessante que o Brasil vencesse o jogo de estreia. Chutou. Saiu. Passou por Pelé, que dava seu showzinho para o estádio. Passou por Ronaldinho, que negociava alguma coisa com alguém. Passou por Romário, que entregava seu telefone a uma transexual. E a partida começou. Os tor-

cedores, locutores e as pessoas em casa levaram segundos para perceber não ser a brazuca mas Diego. A cabeça raspada porcamente pela pressa, a pintura imitando a bola, não foram suficientes. E outro minuto para que o importante ali fosse a partida e não o garoto. Não houve mal estar. O importante era sermos campeão. E, se a moda pegasse, quem sabe, com a imensa quantidade de jogos durante o ano, as próximas não poderiam ser de alguns mensaleiros? Apenas os gandulas vomitavam enquanto eram obrigados a carregar Manoel e Irismar, de um lado a outro. Foram gols, um atrás do outro. Nunca um estádio ficara silencioso assim. Nem mais choravam. Os torcedores não conseguiam sequer sair. O México arrasava os canarinhos de forma histórica. Eram dezenas de gols. A partida nunca mais seria esquecida. A Copa começava como o pior dos infernos. Em casa, a garota que não participara do roubo, dividia a tela plana de sua televisão ainda endividada com seus amigos artistas holandeses, que se divertiam. Ver o Brasil dessa maneira poderia lhes dar a chance perfeita para seu mais novo trabalho. O Aernout Mik, como se denominavam, passaram a estimular as pessoas a reagiram. E logo conseguiram criar verdadeiras multidões. A população estava atordoada. Queria descontar em algo ou alguém. Malditos filhos da puta, gritavam para qualquer um. Até entrarem no Mc Donald’s, em plena Avenida Paulista. Expulsaram os clientes. Arrebentaram os canos d’agua e deixaram alagar o estabelecimento. Os lanches flutuavam entre copos e cadeiras. Mais ao lado, o boneco do palhaço se afogava sem perder o sorriso demoníaco. E foi então que a ação se espalhou. Porque alguém colocou imagens do alagamento na 53

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internet, a lanchonete sofreu ataques por todo o pais. Não havia uma, por menor que fosse, que não estivesse agora completamente alagada. Era a vingança contra os patrocinadores do evento. Mas também era preciso se vingar do próprio país. Qualquer porta aberta servia de endereço. Entrava-se e destruía o que houvesse. Os grandes supermercados foram ocupados, porém não para serem saqueados. As pessoas passaram a destruir produto por produto. Picar rolo por rolo de papel higiênico, quebrar em pequenos pedaços cada haste de macarrão, abrir os refrigerantes, as embalagens. Nada poderia ser aproveitado. No dia seguinte, o Brasil precisaria ser novo. O que o Aernout Mik não imaginava era o quanto a ação poderia avançar pelas estruturas. A mesma violência de destruição fez com que a Bolsa de Valores fosse atacada pelos próprios corretores. O país chegava ao fim. A Copa teria de ser cancelada. Não haveria um vencedor.

Mas a Fifa é quem é, e por ser quem é, as coisas não ficariam dessa maneira. No dia seguinte, pela manhã, as imagens dos presos sendo decapitados foram expostas pelas tevês como algo horrível. Jérôme anuncia que o jogo seria anulado, pois não havia sentido, já que a bola na verdade era a cabeça de Diego. As brazucas foram encontradas pela Policia Federal, os estudantes presos, a Policia Militar ocupou e afugentou as pessoas das ruas. E o Itaquerão ficou completamente lotado para ver o novo inicio da Copa. No final, rojões e festa. Mesmo que a partida tenha sido apenas 1 x 0 para o Brasil, e com gol contra dos Mexicanos que, ao verem faltar dois minutos para acabar o jogo, acharam melhor resolver o dilema e seguir a indicação que se mantinha do nosso especial e talentoso ministro. Tudo deu certo. Isso, até a final contra os insensíveis argentinos.


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saia jĂĄ do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o pĂşblico e o artista. desligue.

por

Frans Keppler

foto patrĂ­cia cividanes


por

Simone Zucato

esta ĂŠ uma campanha


Far todo ouvido

arthur de

Para conhecer uma das composições de Arthur de Faria, clique no botão acima

Foto eduArdo Aigner

A música como esfera de amplitude à cena


ria “C

omeça que o Arthur é inteligente, um super interlocutor pra pensar música. Então, com ele tem sempre contexto, tem sempre um mundo em volta, o mundo em volta, mil voltas ao mundo. E o sul sempre em volta. É uma mente cheia de procedimentos musicais, estética, ética, história e geografia, o conhecimento de diversos repertórios; e também fuleragem, instinto, toda aquela coisa demente e juvenil que o pop exige em seu rigor. Não é uma mix óbvia, né? É o antropólogo musical e pesquisador inquieto com o indie atrevido, bicho mundano do palco. E ainda tem essa característica particular que eu tanto admiro no trabalho dele: com o Arthur, não tem miserê melódico. É um compositor da melodia farta, da polifonia desbragada, instrumentos harmônicos a tiracolo à serviço de uma canção mais saborosa. Requintes que ele enfia na linguagem do pop. Eu acho que o Arthur inventou e pratica uma rara espécie de música popular, à qual eu chamaria pop de câmara: caixinhas de música com pitadas/patadas de rock’n’roll. e é assim que ele vai por aí fazendo a música enfurecer sem perder a leveza.”

MAurício PereirA 59

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diรกlogo. x2

por ana carolina marinho e luisa valente

vira-latas


de aluguel De dentro do submundo que se forma no esconder do outro, a sociedade se reconfigura e revela suas verdades.


luisa valente: vamos lá? ana carolina marinho: opa, vamos. Você já tinha ido a Heliópolis? lv: Ia te perguntar exatamente a mesma coisa! Sim, duas vezes. A primeira para ‘’resgatar’’ a irmã de um exnamorado, que pegou o ônibus ‘’heliópolis’’, dormiu e acordou no ponto final. acm: rs foi a primeira vez que fui que não pela imaginação.

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lv: A segunda para assistir a uma exibição no Cine Favela, onde boa parte da peça acontece. E como foi para você chegar em Heliópolis de van, com mais 14

espectadores e um ator? acm: tive a impressão que ônibus não chegavam ali próximo ao cine favela. lv: Ônibus passam por Heliópolis! Mas entendo sua sensação, as ruas são tão estreitas que às vezes um carro precisa esperar o outro para passar numa rua que teria duas mãos acm: Então, dentro da Van minha vontade era olhar pela janela, sabe? Ver a cidade se transformando. Talvez eu tenha me sentido tão segura que ali poderia ser qualquer lugar. Você acha que se não houvesse uma van pra buscar o público ele iria por conta a Heliópolis?

lv: Tenho certeza que não. Mas não acho que seja isso que justifique a van no espetáculo. A van nos dá justamente essa possibilidade de se sentir segura e poder olhar para fora, para o novo, o estranho. Ela vai numa velocidade extremamente lenta, o que permite observar cada detalhe. Além disso, dentro da van, estamos ligados na ‘’TV Pólis’’, uma paródia muito bem feita do Marcelo Rezende acm: Não tive essa sensação. Porque logo se liga a tv e inicia o jogo com a ficção. lv: Mas a ficção nesse caso é prenhe de realidade e a sincronia entre uma e outra não é pouca. Por exemplo:

a denúncia do lixo na TV, olho pela janela da van e vejo montes e montes de lixo. Ou ainda quando a TV anuncia uma reportagem sobre um marido bêbado que espanca sua mulher, olho pela janela e vejo boteco atrás de boteco. acm: Sim! Esse atrito entre a potência de real e a ficção permeia todo o espetáculo! E descer da Van e caminhar até o Cine Favela é, nesse sentido, a pulsão do espetáculo pra mim. Eu faço uma residência artística no Jardim Romano, que é extremo leste de São Paulo, e tanto quanto Heliópolis é a na rua que a vida é compartilhada. lv: Sem dúvida. O site specific ao qual o


CONCEPÇÃO E DirEÇÃO: Daniel Gaggini rOtEirO: criação coletiva com os atores selecionados na Comunidade de Heliópolis ElENCO: Aga Orimaf, Ana Carolina, Bruno Ribeiro, Cesar Filho, Diego renan, Eduardo Ferreira, James Calegari, Klaviany Cozy, Luciano José e PC Marciano e Donizete Bomfim.

espetáculo se propõe é muito bem construído e começa precisamente nesse momento em que descemos da van acm: É como se cada vizinho fosse extensão da vida privada - se é que há sentido pra essa palavra. lv: Eu trabalho muito com coletivos culturais do extremo da Zona Leste e tenho a mesma sensação, a vida privada se estende para além das portas, as ruas são, muitas vezes, extensões das casas acm: Exatamente. A periferia como esse paradigma de solidariedade. lv: E aí quando o ator que nos conduz pela

rua que leva ao Cine Favela nos coloca dentro de um bar e diz para não saírmos dele, fica evidente que não pertencemos aquele lugar. A rua não é nossa. acm: Exato! lv: Aquela sociabilidade não nos pertence, podemos apenas chegar perto dela, mas não vivela . Eu, com minha alma de antropóloga, tive vontade de desobedecer imediatamente o ator, mas logo a cena do bar me cativou. O jogo entre os atores na mesa de sinuca era muito bom e o público logo descontraiu com uma cervejinha na mão acm: Sim, e me parecia que eles atritavam esse olhar de estrangeiro

e de turista que vai a Heliópolis quase como uma fantasia de periferia, de distância. Qualquer lugar que não praticamos, vive na imaginação. E como espectadora, eles me conduziram pelas ruas mais como estrangeira, capaz de me espantar pelo que vejo e pela experiência e menos como turista que se distancia da realidade pelas fabulações. acm: Mas ainda insisto com a rua, parecia que todos jogavam o mesmo jogo, os moradores que estavam sentados nas calçadas e soltavam piadas, puxavam assuntos, falavam com os atores, os freqüentadores do bar que bebiam a cerveja e pareciam

olhar espantados pra quantidade de gente que ali estava... acm: E ai, chegamos ao Cine Favela. lv: Mas esse jogo é de quem? Me parece ser dos atores e dos moradores. Nós, obviamente, estamos na posição de quem assiste. Parece que ‘’estamos em casa’’, parece que em algum momento um morador vai se dirigir a nós com intimidade, mas só parece. Só parece porque no fundo, por mais que a relação entre espaço urbano e espaço cênico seja muito bem construída, o espetáculo não consegue fugir de certa feitichização da favela.


lv: E aí chegamos ao Cine Favela. Para mim, a experiência mais real com a comunidade que eu pude ter durante o espetáculo foi no corredor escuro que conduz à sala que faz as vezes de uma Igreja acm: É sobre isso que falo o quanto se sentir segura pode distanciar a experiência, porque fica no fetiche, na fábula. É, por quê? lv: Porque ali ficamos em silêncio e no escuro e o ouvido abre a escuta para o que faz parte do cotidiano da periferia: os cantos das igrejas evangélicas, o som alto do pancadão do funk ou do rap acm: Entendi. Senti isso na rua, no atravessar entre os carros e motos, na conversa entre os moradores na rua e em beber rápido a cerveja porque ninguém ia esperar. haha lv: Não que isso seja todo o cotidiano da periferia, obviamente. Mas do contato que pude ter com sua sociabilidade, foi o mais real acm: Bom, chegamos ao Cine Favela. E ali “não era Hollywood não” pra me

aproveitar do que ouvi na peça. lv: Rs. É, na rua me senti mesmo uma turista, quase uma gringa, precisei do corredor escuro para me ligar ao entorno. O enredo era! rs acm: Pois então! Estou até agora intrigada em no que implica tomar Tarantino como referência e ponto de partida, quando a rua, Heliópolis e os moradores estão ali, urgentes e sem mediação. Sabe? lv: Acho que a escolha pela referência do Cães de Aluguel funciona como uma paródia/ fábula para falar não só de Heliópolis, mas de outros aspectos da sociabilidade que estávamos falando anteriormente, aspectos esses que não podem ser apreendidos no ‘’tour’’ promovido da van até o Cine Favela acm: Não sei ao certo, porque a construção daquela fábula me assaltava mais pelo espanto com os barulhos de pistola, com as falas gritadas, com o sangue falso, do que com uma imersão naquela sociabilidade. Pelo contrário, o

hollywoodiano e alguns desses efeitos não me convocavam ao diálogo. Me senti convocada a existir e faiscar principalmente no contato com a rua, antes e depois do cine favela. lv: O sangue, os berros, a tortura, tudo isso me parece uma roupagem perversa dos conflitos e contradições entre poder púbico e o poder privado lv: Se na rua conseguimos ver o lado cordial dos limites entre o público e o privado, na encenação que se passa dentro do Cine Favela o universo do Tarantino é uma porta de entrada para olhar para a violência gerada pela indefinição dessas duas esferas da vida e pelas suas relações complexas com a igreja, que se coloca como uma mediadora confusa acm: Comigo não me vem esse tipo de reflexão pelo roteiro, eu me perco na escolha das formas e fico por isso mesmo, entende? Eu embarco nessas contradições quando os vejo mais desnudos desse roteiro de Caes de Aluguel. Quando a presença se faz fala e o silêncio grita. Quando o patrão entra - aquela figura trans -

eu sou capturada pelo espanto, eu preciso me reorganizar na cadeira até que novamente me assalto com o barulho de tiro. acm: E claro que junto ao espanto vem a reflexão ou a quebra de expectativas, vem a concretude de uma possibilidade. lv: Entendo. Mas o patrão, por exemplo, é uma figura muito mais presente nas falas das personagens capangas do que pela sua própria presença em si. Ele pode ser lido como uma alegoria do poder paralelo, do crime organizado que se instala onde o poder público não chega e faz sua própria lei lv: Ele é a autoridade suprema da peça, está acima do Pastor . O Pastor, por sua vez, se vê obrigado a negociar tanto com o crime quanto com a política para conseguir manter as portas de sua igreja abertas. Você não acha que isso deve ser algo que de fato acontece em comunidades como Heliópolis? acm: Com certeza. E que esses micropoderes são tão


efêmeros quanto a sua crueldade e o horror que aplicam. Porque até o patrão, é morto pela vereadora. Há também um olhar atento deles pra mídia. lv: Sim. Mas vejo a morte do patrão pela veradora mais como uma morte de ‘’bandido para bandido’’. Ela também é do crime! lv: Quando ela diz ao Marcelo Rezende da TV Pólis, ao final da peça, que foram apreendidos 30kg de cocaína, a pergunta que fica no ar é: onde foram parar os outros 70kg? Afinal, sabemos que a carga que gera a cena toda era de 100 kg de cocaína. Ela foi a única sobrevivente da chacina, logo... acm: Exato, mas ela é a ‘voz do povo’ e ser bandido, quando se faz o bem, deixa de ser uma questão... me lembro de muitos episódios com isso.

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lv: Sim. Ela ‘’faz o bem’’ para a comunidade, benfeitoria perversa, da mesma forma que o

traficante patrão ou o pastor o fazem acm: Exato! São esses micro-poderes que são sustentados tanto pela benfeitoria quanto pelo horror. Em tempos de rolezinho, há muita coisa também pra se dizer sobre a peça... lv: Os três são formas bizarras da grande confusão entre as esferas pública e privada que gera um híbrido social indefinido. Que ora protege, ora ataca. Ora presta assistência (de segurança à remédios, de moradia à ajuda espiritual), ora saca, rouba, tira. E sobre os rolezinhos? acm: falo sobre esse percurso inverso. sobre não passarmos desapercebidos naquele lugar, pela estranheza. falo desse lugar que precisa ser praticado, dessa Heliópolis que eu não pratico e que diz sobre mim s diz muito. Sabe? nossa, preciso correr Lu. Beijos. lv: beijo


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saia já do foco a luz DO CElular Na PlatEia tE COlOCa em CenA. Respeite O púBLiCO e O ARtistA. dEsliguE.

POR

Otávio Martins

FOTO patrícia cividanes

Esta é uma campanha


CONTAMINAçãO

por leandro nunes

MIME festival A descoberta do ver pela observacão de andarilho das ruas e palcos


H

á poucas semanas de embarcar

O que eu via?! Uma cidade enorme, apinhada

para Londres, eu andava a pes-

de gente do mundo inteiro. Uma cidade enorme

quisar espetáculos para assistir.

em que todo mundo se entendia. Uma cidade

Ao fim de quatro anos estudan-

enorme – fundada pelos romanos em torno de 43

do jornalismo, decidi engatar

d.C. – que pulsava. Londres, um organismo irri-

duas semanas na capital inglesa

tantemente saudável. Prédios, museus, praças,

para estudar o idioma. Era mi-

escolas, ruas, becos, avenidas, pessoas, comidas,

nha primeira viagem para fora do país e

bebidas e festas. E eu não tinha um minuto para

um bolo de inseguranças me servia à mesa.

pensar. Eu me afogava de tanto e tudo que via.

Na lista de espaços, o Shakespeare’s Globe estava

Logo, as aulas começaram, gente nova, novos

confirmado, mas por um infortúnio de datas, não

amigos, o Ano Novo e saudei 2014 em frente ao

havia nenhuma peça na programação.Aabundância

Big Ben com a London Eye. Jamais vou esque-

de musicais hollywoodianos me chateava um pou-

cer! No entanto, um silêncio interno e estranho

co, entre outras coisas que não me interessavam.

me acompanhava. Parecia que eu tinha dado

Era tudo. Será que eu procurava no lugar errado?

curto circuito, ou tinha reiniciado o sistema.

“O que ver? O que ver? O que ver?”, eu repetia. E

Eu estava sobrecarregado de imagens, e sem

o que parecia ser uma crise, tornou-se uma prece.

tempo para refletir. Era um grande desajuste.

Alguns dias depois, descobri o 37º London Interna-

Se em São Paulo, conseguia fugir para casa e ter uns

tional Mime Festival, o festival de teatro visual da

dias de sossego, seja pra desligar socialmente, ou

cidade. Tal qual uma oração atendida, eu me sen-

para preparar um texto, em Londres, a ordem era

ti um agraciado. Mais tarde percebi que o verbo

outra. Era andar como os que sonham. Mas tudo

“ver” tornara-se minha vereda durante viagem. Saí

bem, ironicamente eu iria a um festival de teatro

enviando e-mails para a assessoria do festival, me

visual. De fato, em alguns dias, eu iria explodir.

apresentando, o entusiasmo juvenil “Sou jornalis-

E o dia chegou. Ingresso na mão, tomei um ôni-

ta brasileiro recém-formado que gosta de escre-

bus até a University of the Arts London (UAL).

ver sobre teatro”. Obtive respostas e indicações.

Entrei, caminhei pelo espaço e a sensação fami-

O mundo parecia grande, e funcionava. E eu via.

liar de clima acadêmico já me pinicava de sau-

A data da viagem foi se aproximando, passou o Na-

dades. “Gente de teatro” é “gente de teatro”

tal, o dia 26 e 27. Na manhã seguinte eu embarca-

em todo lugar. Foi o lugar em que eu estive mais

va. O Sol rasgou o céu logo cedo, a mala já pronta

tranquilo (ao lado do Natural History Museum!).

e fiz meu último café da manhã. Algumas despedi-

Posicionados na fila, todos aguardavam a entrada

das, mil recomendações, abraços e muitos “Mãe,

no espaço. O espetáculo chamava-se “Vortex”, da

relaxa, vai ser rápido”, “Ok, quando eu chegar, avi-

companhia francesa Non Nova. Dirigido por Phia

so”, “Sim, vou dormir e me alimentar direito”. Sou

Ménard, o grupo foi fundado em 1977 partindo

um filho caçula profissional, em todos os quesitos.

do mote “Non nova, sed nove” ou “Not new thin-

Algumas muitas horas de voo e enfim, Londres.

gs, but in a new way” (algo como Não à novas


1 72

coisas, mas em um novo caminho/modo/jeito).

de um projeto no mesmo Natural History Museum.

Àquela noite era a segunda do Festival e da

A Cia foi convidada para “dar mais ação e movi-

Non Nova. No dia anterior, tratei de reunir no-

mento” ao museu. Desafio um tanto contundente

tícias sobre o assunto. O espetáculo nasceu

e provocador. Como representar movimento em

de uma pesquisa sobre a relação com elemen-

um lugar cheio de estátuas de animais, esqueletos

tos naturais – água, gelo, vapor e vento – e em

intocáveis e objetos frágeis? Segundo a diretora

“Vortex”, sacolinhas plásticas, acionadas por

do grupo, não era permitido tocar nos objetos. O

ventiladores, ganhavam vida e movimento no

que fazer, então? Nada. O projeto não vingou. No

palco. A maioria dos jornais começava seus

entanto, foi nessa natureza de formol e tropeçan-

textos com “Como a Non Nova faz aquilo?”.

do em proibições eternas que “Vortex” nasceu. No

Engoli mais essa questão e entrei na sala do espe-

local em que a brisa de um ventilador podia dissol-

táculo. Palco redondo, rodeado por ventiladores, e

ver bilhões de anos, a Non Nova concebeu a peça.

um sujeito encapuzado no centro. “O que ver? O que

De volta a sala do espetáculo, o sujeito encapuza-

ver? O que ver?” A tríplice pergunta me perseguia.

do recortava pedaços de sacolas plásticas e gru-

A criação de “Vortex” começou em 2008 a partir

dava-os com fita adesiva. Em instantes, formou


um bonequinho - cabeça, corpo e membros. De

e uns 20 bonecos-sacola dançavam no palco.

joelhos, pôs-se de pé e lançou o objeto ao chão.

A execução dos ventiladores permitia que os bo-

Os ventiladores foram ligados. Neste momento,

necos-sacola se movimentassem no chão, no ar

quem dera ter a coragem de Édipo, porque os meus

e interagissem com o sujeito encapuzado. Cha-

olhos sucumbiram. A sacola-boneco ergue-se e ca-

mo a pessoa no palco de “sujeito encapuzado”

minhou, inflada e ereta. A plateia mergulhou co-

pois não era possível saber. Ele vestia muitas

migo e eu mergulhei com a plateia. “Como a Non

camadas de plástico, e, aos poucos, retirava-

Nova faz aquilo?”, os jornais repetiram na minha

-as. E como uma metamorfose, as “cascas” tam-

cabeça. Os mais céticos (inclusive eu) olhavam

bém ganhavam vida pelo força dos ventiladores.

para cima e fora do palco. Tinha de haver cordas,

No momento seguinte, uma capa negra tocou o

linhas, controles. Era simplista demais acreditar

solo, ergueu-se e envenenou o arco-íris das sa-

que era só vento. Eu me recusava porque sentia

colas-boneco. O público lamentou com uma só

que ia ofender o trabalho do grupo. “Não pode ser

pessoa. Aquilo era instantaneamente catártico.

vento, eles colocam os ventiladores apenas para

Quando penso em uma plateia, fico observando

sugerir. Não é possível!”. Alguns segundos depois

as surpresas e reações dos colegas ao lado. Pos-


so estranhar, criar identificação ou, ainda, me aborrecer. Essa oportunidade cria uma rede sensitiva muito interessante. Frágil o bastante para fazer brotar lágrimas, e igualmente frágil para se desmantelar à luz de um celular que toca. Teatro é uma redoma anti-futuro e anti-passado. Teatro é presente. Teatro é comunhão. O sujeito soltava mais e mais camadas surgiram e o espetáculo ganhava outras imagens. Ao fim da última roupa, surgia a diretora Phia. “Grávida”, ela “dá à luz” a um último plástico e uma comprida fita vermelha sai flutuando. O efeito que o espetáculo atinge beira o pingar gotas de tinta em um copo com água. A reflexão era bastante universal e essencial. Segundo Phia, as questões “Quem sou eu?” e “Como materializar emoções com elementos naturais?” foram exploradas. Até aí, nada de novo. Mas como a Cia já propõe, a busca se dá no caminho. Ao fim dos aplausos, seguimos para um bate-papo com a diretora do grupo. Algumas perguntas, algumas respostas e eu, suspenso. Segui para casa, e organizei um texto para o meu blog. Ao fim da segunda semana, parti para Roma e lá descobri um novo “ver”. Na maior parte do tempo expresso por choros súbitos ao visitar certos lugares. Nada de cunho religioso, adianto. Talvez uma ressaca, talvez um alívio, mas certamente enlevo, deleite e prazer. Há muito mais em Roma, e eu precisaria de um outro texto para contar. De volta a São Paulo, volto aos poucos. Um dia desses, a pergunta “O que ver? O que ver? O que ver?”, que eu fazia antes da viagem, deu o ar da graça novamente. Eu ri. Nesse nosso verão, sol a pino desde cedo, vejo que precisarei de óculos escuros. E fico grato por não ter tido a coragem de Édipo. Acabo de descobrir dois belos presentes.


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saia já do foco A luz do celulAr nA plAteiA te colocA em cenA. respeite o público e o ArtistA. dEsliguE.

POR

Maria Carolina Dressler

FOTO patrícia cividanes

Esta é uma campanha


ca r t a a b e r t a remetente destinatário

Ruy Filho

Dilma Rousseff

O

i, Dilma, tudo bem? Melhorou? Fiquei preocupado. Vi as fotos de sua viagem e, nossa, que olheiras eram aquelas? Nunca imaginei que ir para a Suíça encontrar os pessoas mais importantes do planeta fosse tão desgastante. Ainda bem que a viagem terminou em Cuba. Gente bacana, praia, papos ótimos com os amigos do governo. Em Davos, não. Neve, frio e aquele bando de lideres. Não tenho ideia o quanto deve ser enfadonho conversar com eles. Cuba, ai sim, tenho vontade de conhecer. Mas, voltando às olheiras, se não fosse a parada em Portugal, talvez ninguém nem percebesse. E você poderia andar por Havana sem disfarce. Ah, perdoe. Não estou te chamando de senhora. Que distração a minha. É que, quando se tem uma relação direta com uma pessoa, como é a nossa, fica diferente. Eu diria até quase sexual, já que você faz parte da galera que anda me f... Bom... Enfim, deixa pra lá. Tudo bem. Eu entendo, é coisa do poder, e ele sobe na cabeça da gente. Senhora, então. Que seja. Portugal, heim? Taí outro lugar que um dia vou conhecer. É que agora ficou complicado sair do meu quarto. Mas se você for de novo, vou contigo. Pensa, que puta sonho pra um cara como eu. A senhora foi de Airbus particular, eu, praticamente só ando de bus mesmo e coletivo. A senhora foi jantar

no Eleven! Cacete, um dos melhores de lá. E eu aqui, fazendo boquinha no Seven Eleven. Achei fantástico quando você respondeu na coletiva que achava fantástica a manifestação contra a sua viagem. Quer dizer, na verdade, não sei se entendi bem. Mas entendi quando explicou não ter usado teu cartão corporativo. Perfeito. Cada um paga o seu. Aqui em casa também é assim, quando eu e meus amigos rachamos uma pizza de promoção. Acho justo. Se bem que 45 suítes pra acomodar a comitiva... Nem precisa do cartão corporativo. Acho que a senhora inventou o cartão camarada. Ok, o avião não tem autonomia de voo. Normal, todo mundo passa por isso. Eu mesmo passo. Outro dia, tentei chegar em um lugar aqui em SP, e precisei de 3 escalas no metrô, 1 trem e 2 ônibus, e não cheguei. Porque também não temos autonomia de locomoção pra chegar aonde queremos. É foda, né? Irrita a gente. Mas me fala aí, como foi em Davos? Vi o discurso. Bem legal. Acho que serviu pra convencer muitos empresários. Importante isso. Apesar de torcer para que os dados divulgados dias depois de tua fala não atrapalhem tudo outra vez. É que, por exemplo, pior saldo da balança comercial dos últimos 20 anos, não é muito animador pra um investidor experiente. Pior rendimento comercial para um único mês da história, também é bem assustador, não? Se bem que


agora, como diria o Lula, dá pra senhora usar o bordão “nunca antes na história desse pais. Maravilha, hein, tá deixando tua marca. Se cuida Lula! Sem querer me intrometer, talvez eu tenha um caminho pra equilibrar essa diferença de bilhões. Pensa comigo. O brasileiro tá viajando pra cacete, certo? É um dos turistas que mais gastam, quando estão em outros países, certo? Então, nossos gastos com importações não foram exatamente por conta do tanto que o brasileiro está gastando com eletrodomésticos? Tipo, boa parte, não é isso? Saca a proposta. Já aumentou o imposto na compra fora, aí faz assim, incentiva o brasileiro a comprar a televisão de tela plana em outro país, desde que ela seja produto saído daqui. Não é uma puta ideia? Ganha em imposto pra caralho, e o Brasil vai ter que computar as vendas como exportação. Show, hein? Se quiser, marcamos um café com o Mantega pra eu explicar direitinho pra ele. Tô livre na semana que vem. Desempregado tá sempre livre. Vida de artista é essa mesma. Mas não tô te escrevendo pra falar de mim. Vou deixar de chororô. Falávamos sobre o quê mesmo? Ah, Davos... É bem forte quando a senhora falou que o controle da inflação e equilíbrio das contas públicas são essenciais, e que a instabilidade da moeda é um valor central na política brasileira. Porra, deve ter pegado

bem pra caramba. Arrasou. Agora, só um toque, ok? Assim, de irmão. Caso um dia, um desses lideres aí pra quem a senhora discursou vier pra cá, não deixa ir ao supermercado duas vezes na semana, porque essa coisa da inflação tá pegando. E sobre as contas públicas, putz, essa é difícil. Tem gente pra caramba. Deu uma inflada no seu governo. Foi ou não foi? E, como tem mais uma reforma ministerial agora, tenta, por favor, não criar mais nenhum? 39 já tá bom, não? Porque, até agora, só entrou do partido. O que significa que vai ter partido berrando na porta, e, como o governo precisa de companhia pras eleições, agora que as vagas estão ocupadas, só vai te restar inventar outras por aí. Faz isso não. Tô pedindo de peito aberto. E sem pegadinha. Nada de fazer Secretaria nova com status de Ministério, porque a gente sabe, no fim das contas, dá na mesma. Conta, deve ser difícil pra dedéu tocar um país em que ninguém passa muito tempo no mesmo cargo. Não dá tempo de construir um projeto, assim. Fala a verdade, é por isso que você tá com essas olheiras todas? Joga a bomba nas mãos do Mercadante e sai pra vida. Aliás, talvez você saiba, aquela coisa aqui com ele, foi resolvida? Esse país é muito louco. Coisa de maluco mesmo, não acha? Pensa... Como você explicaria pra um estrangeiro que o cara se meteu num es-


cândalo enquanto tentava denunciar outro? Oi? Dilminha, a galera é muito sem noção. Poxa, fala pro partido contratar uns assessores decentes. Fica difícil assim. Depois vocês reclamam que tudo gera uma piada e coisa e tal. Mas, saca a frase, os aloprados surgiram para denunciar as sanguessugas? E a Copa, hein? Vixe... deixa pra lá. Vamos falar de outras coisas. Escuta, seguinte, ano eleitora e tal, e muita coisa que não vai mais acontecer por conta disso. E a senhora deve ganhar. Pelo menos é o que mostram as pesquisas de opinião feitas por aí. Mais quatro anos. Vai ser bem surtado, sabe, né? O Lula apontou que vai querer voltar também, então o teu governo vai ter que seguir a cartilha do cara pra ele poder desenhar o retorno dos que não foram. E aí? Como vai ser? Tem alguma sugestão pra esse começo de ano? Serve até simpatia. Tá batendo desespero mesmo. Ou é esse maldito calor. São Paulo está um horror. Não dá nem pra sair na rua. É passar o dia trancado com ar-condicionado ou grudado em um ventilador. Parece até trocadilho pensado mesmo, isso. Afinal, acho que é difícil encontrar um país onde os ares estejam tão condicionados como aqui. Bom, se cuida. Tem que se hidratar. Brasília tem uma coisa estranha que parece que vai tomando o país inteiro. Sei lá. Dá um medo. Mas não tem escolha, não é? São sempre os mesmos caras, as mesmas promessas. Só os escândalos são diferentes.

Ah, antes de terminar... Viu, né? O Vale Cultura, puta fiasco. Avisei. Fala pra Marta super poderosa. Tudo bem que, como disse um aí, a ideia foi do Lula... ahã, sei, foi sim, no meio de uma corridinha na esteira, no quarto, Marisa fazendo palavra cruzada, e ele, porra, tive uma ideia, liga pra Martita. E outra coisa, prometo que já acabo. O que foi a arrecadação pra salvar o Genuíno? Carai, não tem projeto no catarse que consiga nem dez por cento disso. Porra, você deve ter ficado feliz pra caramba, não? Vai ver essas olheiras são de comemoração. Diz pra mim... Enfim, preciso ir agora. Depois te escrevo mais. Pode ter certeza disso. Não vou te esquecer, fica tranquila. Até porque, agora com essa nova equipe na Comunicação, ligando o governo aos interesses do partido diretamente, criando propagandas que unam os dois focos, a senhora vai aparecer mais. Certeza. Vocês curtem um povo, uma coisa corpo à corpo. Vai mudar, vai ver. Mas realmente preciso ir. Chegou o cara que vai instalar o ar-condicionado aqui em casa. Nesse calor, não tem escolha. Ainda bem que falei isso, quase me esqueci. Quando estava parcelando em 36 vezes o ar, ela passou e te mandou o seguinte recado. Nas palavras dela, ok? Igualzinho, sem tirar nem por... Diz pra Dilma que a Luiza pediu pra ela ligar. Fiquei de mandar umas informações pro Diogo Mainardi, e queria que ela revisasse antes de enviar. Falou, prési. Se cuida e bebe água. Não vai na conversa do Lula, não.


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

Por

Felipe Hintze

foto patrícia cividanes

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foto.palco

andré

Mantelli A capacidade em tornar uma aproximação a poética do registro de um instante


Na dupla anterior, cena de “As Próximas horas serão definitivas”, com direção de Gilberto Gawronski, com Guta Stresser e Sacha Bali. Aqui, ensaio de “Coelho Branco sobre Branco”, de Alessandra Colasanti.


1 84

Cenas de “Pão com Mortadela”, com direção de João Fonseca.


Espetáculo “Till”, do Grupo Galpão.


Cenas de “Ô Lili”, da Cia. Marginal.

89

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Ensaio de “Eu sou a bailarina de vermelho”, com Fabrício Belsoff.


“Mundo Grampeado, Uma ópera tecnotosca”, da Cia Monte de Gente.


Cena de “Qual é a nossa cara”, da Cia. Marginal.


1 96

Cliques de “Adeus a carne”, com direção de Michel Mellamed.


“Adeus a carne”, com direção de Michel Mellamed.


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saia já do foco a luz do celular na plateia te coloca em cena. respeite o público e o artista. dEsliguE.

Por

Ruy Filho

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PatrĂ­cia Cividanes

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2 02

:)

por priscila rodrigues + yuri neto


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Eduardo Coutinho 1967 1933


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ANTRO POSITIVO ED. 09