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subiu em suas mãos e bicou de leve o seu braço, com a alegria de quem encontra um velho conhecido. “É melhor deixá-lo no chão”, o homem disse. “Eu acho que ele ficará mais confortável para...para...”. Ciente de que estava prestes a dizer algo que beirava à insensatez, deixou a frase pela metade. A mulher pôs o papagaio no chão e, durante as próximas três horas, não se ouviu naquela sala nada que não fossem os pedidos de desculpa do homem. O homem estava constrangido e a mulher, embriagada de sono; já o papagaio, alheio à presença dos dois, parecia encontrar prazer unicamente em inspecionar com o bico sua plumagem comprometida. Perto de três da manhã o homem, derrotado, pediu desculpas à proprietária e disse que, caso quisesse, ela estava livre para ir embora. Ele a acompanhou até o elevador e se desculpou pela, no mínimo, décima vez naquela noite. Voltou para a sala, envolveu o papagaio suavemente com as duas mãos e o devolveu à gaiola. Permaneceram quietos por alguns segundos. O papagaio, então, olhou bem nos olhos do homem e, com uma voz triste que só os papagaios parecem possuir, declarou. “Dormir, dormir, talvez sonhar. O resto é silêncio”. O homem deu de ombros e apagou a luz da área de serviço. Naquela noite, não houve outra sessão na casa. Homem e papagaio dormiram profundamente.

ANTRO POSITIVO ED.05  

revista trimestral, com acesso livre, sobre teatro e políticas culturais. Editores: Ruy Filho e Patricia Cividanes

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