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ntre todos os animais expostos para adoção – e nem eram tantos assim -, o papagaio era certamente o mais feio. Ele julgou o adjetivo cruel, ainda mais em se tratando de bichos que, após terem tido a sarjeta como berço, não conheceram outra realidade além da fome e dos maus tratos. Mesmo assim, não conseguia pensar em termo melhor para definir o papagaio: era um papagaio feio. Contribuíam para isso o olho direito esbranquiçado, a indisfarçável ausência de penas no peito, sinal inequívoco de que o bicho, além de tudo, devia ser velho, e uma asa que parecia se arrastar pelo espaço exíguo da gaiola. - Não se preocupe com isso -, disse a proprietária do petshop ao notar a atenção que ele dedicava à ave. – O tempo costuma ser generoso com os papagaios, é provável que ele ainda esteja na metade da vida. Ele sorriu para a proprietária e, como resposta, voltou os olhos para um cercado revestido de jornal no qual quatro cãezinhos exibiam uma alegria incompreensível para quem tem futuro incerto e, na sequência, para a gaiola dos gatos, onde seis bichanos demonstravam que, ao contrário do senso comum, elegância e pobreza podiam andar juntas. “Vou levar”, disse. A dona do petshop sorriu emocionada e precipitou suas mãos gordas sobre a ninhada de gatos. “Qual deles?”, indagou, enquanto um dos gatinhos arranhava seu punho e os demais aninhavam-se embolados num canto da gaiola. “O papagaio”. Enquanto voltava para casa, já imaginava onde colocaria a gaiola, que a proprietária, entre surpresa e agradecida, lhe dera de presente: ela ficaria na área de serviço, num vão morto entre a janela e a máquina de lavar. Ao

chegar, pendurou a gaiola em um prego que, em outros tempos, servira de suporte para uma samambaia. Encheu com sementes de girassol uma tigelinha japonesa que nunca tinha usada para nada e, para fazer as vezes de bebedouro, uma taça rasa de sorvete. Afastou-se dois passos da gaiola e concluiu que era isso: ele finalmente tinha um bicho, alimentado e, na medida do possível, bem instalado. Naquela noite, como em praticamente todas as anteriores, ficou em casa. Leu, reviu um antigo seriado inglês em DVD e foi dormir depois de libertar a pata direita da ave da correntinha prateada que a ligava à gaiola, e de preparar um misto quente com queijo minas. O queijo havia sido uma recomendação do médico, o colesterol andava alto. O bicho de estimação também. Suaviza os sintomas de depressão, disse o doutor. Ele não se lembrava de alguém que tivesse o sono mais leve que o seu. Não foi, portanto, novidade alguma que acordasse com aquele ruído estranho e ritmado. Levantou-se, caminhou até a sala e viu, surpreso, o papagaio, desajeitado, tentando escalar sua mesa de centro. O barulho do bico do papagaio contra uma das pernas de madeira da mesa lembrava a ação de um picapau em câmera lenta. Examinou o esforço inútil do animal, mas decidiu não interferir. Após vários minutos de tentativa, a ave, com ar derrotado, desistiu da empreitada e,

ANTRO POSITIVO ED.05  

revista trimestral, com acesso livre, sobre teatro e políticas culturais. Editores: Ruy Filho e Patricia Cividanes

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