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Literatura e Internet – A produção literária nos tempos de Internet Sobre o Autor:

Marcos Lemos é formado em Teologia pela PUC-Minas e atualmente estuda Letras na FUNEDI/UEMG. É editor do Blog www.FerramentasBlog.com e autor de um E-book voltado para a produção de conteúdo para internet via Blogs (Blogar: O processo de criação de Blogs)

Introdução: A evolução na troca de informações Indiscutivelmente a internet ofereceu ao mundo um sistema simples e completo na troca de conhecimento e informações. Isso gerou uma integração sem precedentes na história da humanidade e em um curto espaço de tempo. A internet, como a conhecemos hoje, nesse modelo de acesso e controle civil, não tem mais do que 18 anos e já sofreu uma grande revolução quando passou a ser usada de maneira mais relacional na virada do milênio. Uma história bem objetiva sobre os meios de comunicação que conhecemos: do toque de tambores e gritos, passando por sinais de fogo e fumaça ainda num tempo bem primitivo; chegando à utilização das estradas e o correio dos Romanos. Daí vão séculos até que surge a prensa capaz de multiplicar os textos e popularizar a escrita e a leitura, que mesmo assim não pode atingir a todos por falta do ensino formal e sistemas de educação universais (ainda é assim até os dias atuais). É criado o telégrafo na década de 1840 que usa um sistema de códigos para passar informações curtas. Para ultrapassar essa barreira do acesso e também do tamanho das mensagens, vê-se surgir o rádio na era pós-industrial, esse sim capaz de chegar às massas e universalizar a informação. Com o advento do rádio no final do século XIX e o telégrafo sem fio, aparece no final da década de 1930 a televisão, que não precisa de apresentações. Até o final da década de 1980, temos três grandes mecanismos de comunicação: o rádio, a imprensa e a televisão. O fato é que todos esses meios são lineares, funcionando em uma única via: enviando informações de quem a produz para um receptor passivo. Nesses modelos não há interação e a produção do conhecimento e da informação está restrito a um grupo limitado, que são os produtores de conteúdo para esses meios. Desde que Johannes Gutenberg inventou o sistema mecânico da prensa em 1445 e fez-se possível a multiplicação de livros, jornais e folhetos, sem depender de alguém que o faça manual e artesanalmente cada texto, o livro pôde se popularizar, mesmo que o acesso à leitura fosse (ainda é) muito restrito. A produção literária dá um salto significativo desde as eras antigas, como na Grécia, e saído do âmbito meramente religioso para ganhar contornos mais universais. Se antes o livro eram pergaminhos frágeis e caros, quase sempre objetos de culto – como para os judeus e cristãos – agora tem ampla aceitação e penetração no mundo e difunde conhecimento. Esses passos são significativos para a evolução do conhecimento humano e mais ainda para a difusão desse conhecimento. O que vemos é que todos os meios de comunicação servem para ampliar as relações humanas e universalizar a ciência e a história. Somamos aqui outras tecnologias como o telefone e o fax, bem como o poder dos satélites que fizeram surgir uma nova expressão, as telecomunicações. Mas insuperável parecer ser o papel e a forma impressa do texto e da escrita, da linguagem humanas. Provavelmente esta seja a forma mais eficiente de comunicação e de propagação do conhecimento.

Qual a proposta da literatura A expressão humana pela literatura é uma das formas da arte mais complexas e elaboradas. O uso pleno da linguagem humana e a comunicação de idéias, imagens, culturas e sonhos usando-se apenas da palavra escrita é um artifício de raro domínio. Para classificarmos um texto como “literátrio” é preciso observar seu caráter estético e justamente seu empenho artístico, mas isso dificulta ainda mais na hora de definir o que seja “artístico” e “estético”. Numa definição mais ampla, porém tentando uma solução, encontramos o seguinte verbete:


“Literatura pode ser definida como a arte de criar e recriar textos, de compor ou estudar escritos artísticos; o exercício da eloquência e da poesia; o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época; a carreira das letras. (...) Por extensão, se refere especificamente à arte ou ofício de escrever de forma artística.” (Verbete: “literatura” in Wikipedia.org) Aqui para este trabalho queremos destacar apenas um aspecto de tudo isso que envolve e define a literatura: seu caráter comunicacional. Não podemos tirar, mesmo de uma obra ficcional, seu objetivo de inter-relação e comunicação de um conhecimento ou história, mas também de uma experiência. Oferecer ao leitor a mesma experiência do vivenciar um dado momento e fazer-se presente, mesmo sendo apenas em sua imaginação, mas que torna sentimentos e sensações em algo real. Essa capacidade de comunicação cabe apenas à obra literária e, volto a repetir, tem um caráter de arte. Podemos por assim dizer que a interesse e o empenho da arte literária é comunicar e ampliar as experiências humanas, pela escrita. “O texto literário é, portanto, aquele que pretende emocionar e que, para isso, emprega a língua com liberdade e beleza, utilizando-se, muitas vezes, do sentido metafórico das palavras” (verbete: literatura). Independente da forma e gêneros literários, o texto consegue interligar pessoas, fatos e personagens, transcendendo a experiência do texto meramente informativo e/ou de entretenimento.

Interligando conteúdos e propagando conhecimentos – A Internet e na internet. Depois do que vimos na introdução deste trabalho sobre a evolução dos mecanismos de comunicação e troca de informações, é importante destacar o quanto todos esses sistemas seriam afetados com o advento da internet civil. Em um primeiro momento, a chamada “Internet 1.0” passou-se por uma depositária de informação textual, como uma grande biblioteca digital. Seus serviços eram limitados de recursos e mesmo a linguagem HTML parecia estranha à maioria dos usuários. Até o final da década de 1980 e início da de 1990, os computadores ainda eram bens de consumo caros, voltados para um público mais profissional e grandes empresas. Com a criação dos PCs (computadores pessoais) e aplicativos com interfaces mais amigáveis, gráficas, a internet pôde ganhar a aceitação de um público mais amplo. Mesmo assim, produzir conteúdo e disponibilizar informações na internet era algo complexo, exigia conhecimentos técnicos e teóricos estranhos para a maioria das pessoas. Nesse ponto a internet ainda seguia o modelo unilateral e linear dos outros tradicionais meios de comunicação. A revolução vem quando a internet passa a ser usada de forma mais pessoal e multiforme, mais centrada no usuário final, colocando nas mãos deles e não de desenvolvedores, a possibilidade de oferecer conteúdo e relacionar-se pela rede, além do simples e ultrapassado e-mail. Surgem as redes-sociais, weblogs, mecanismos de indexação de conteúdo mais eficientes (não manipuláveis), entre outros tantos modelos que dão ao usuário o poder de escolher. Por todas essas evoluções as mais significativas são: a capacidade que a internet tem de interligar pessoas e informações, muito além do chamado “hipertexto”; bem como oferece a possibilidade de escolha real e classificação do que é relevante para si ou não. Só para ilustrar: Ao ligar a televisão o máximo que nos é oferecido é a possibilidade de escolher um canal. O conteúdo disponibilizado é produzido arbitrariamente e não há a mínima participação do telespectador. Se você gostar de algo que passa na TV, só resta assistir passivamente, no exato instante em que passa, sem a liberdade de interromper ou rever nada. Com a internet esse modelo “de cima para baixo” deixa de existir. Não há uma programação nem canais específicos e podemos buscar pelos mecanismos de busca o que é de nosso interesse naquele instante, selecionar o que queremos ver, ler ou ouvir, descartar, comentar e interagir com o conteúdo disponibilizado e até mesmo produzir por si mesmo outra possibilidade para aquele tema/assunto em questão, oferecendo a sua visão. Mais ainda, é possível retornar aos conteúdos, replicar e distribuir para que outros usem aquilo e, se houver interesse, repetir todo o mesmo processo de escolhas. A produção de conteúdo e interligação nunca para e cresce ou some em proporções que não podem ser calculadas nem comparadas com nenhum outro modelo precedente, muito menos é possível fazer previsões de onde isso irá parar.


Enfim, o que isso tem a ver com a literatura e a produção literária? Vemos que todos têm potencial para oferecer informações, conteúdo e produzir arte, história, bem como relacionar-se e ir além daquilo que os meios tradicionais de comunicação nos ofereciam antes da internet. Todo esse processo descrito acima oferece às pessoas, não só coletivamente, mas também individualmente, uma possibilidade de expressar-se como não era possível. Nem todos podiam publicar um livro e entrar no mercado sem o crivo das editoras e gráficas, seja do ponto de vista financeiro – pelo alto custo de produção de um artigo impresso – seja pelas rigorosas seleções dos editores. Sem contar na dificuldade logística da distribuição, busca do público, publicidade, entre outros insumos. E nem é preciso comentar quão difícil e caro é fazer uso e ter um espaço nos outros meios de comunicação como jornais/revistas, rádio e televisão. A internet abre uma porta para cada indivíduo buscar por si mesmo o espaço desejado e dá a todos o mesmo nível de igualdade, pois não há dinheiro ou sistema de produção, marca e renome que determine o que terá a aceitação do público via rede mundial de computadores. Na internet a “audiência” de algo ou alguém é determinada por escolhas pessoais e não pela imposição do que está na grade de programação. Vamos onde queremos, como queremos e interagimos com isso, concordando, discordando, replicando e somando. Todos são potenciais produtores de conteúdo e cada pessoa conquistada para um determinado conteúdo é um potencial replicador multiplicador, que poderá fazer aquilo chegar ou não a outras milhares de pessoas. A produção intelectual, literária ou de mero entretenimento tem o alcance mundial, sem a limitação do idioma ou mesmo o espaço geográfico. Podemos ser lidos, assistidos e ouvidos em qualquer parte do mundo, por qualquer pessoa e a qualquer instante. Tudo isso dá aos modelos literários o verdadeiro sentido de ser a arte de criar e recriar o texto.

Livro impresso VS. Livro digital Nesse momento temos um novo debate que coloca dois modelos de distribuição de informação em confronto (ou não): os modelos tradicionais, físicos, analógicos e impressos, contra os modelos virtuais, modernos e digitais. Pensando apenas no livro como conhecemos hoje, em sua forma de papel e páginas sobrepostas lineares, tem resistido ao tempo há séculos. Mas agora com o advento dos computadores e outros eletrônicos com acesso à internet, o formato digital dos livros parece bem mais promissor, até com uma roupagem mais democrática. Se pensarmos apenas nos custos de produção de um livro impresso e todo o seu processo até a distribuição e venda nas lojas, é um caminho logo e complicado, que não está acessível para todos que se quiserem fazer autores/escritores. A grande dificuldade nem mesmo poderia ser o custo financeiro da impressão de um livro, mas passar pelo crivo das editoras que estão cada vez mais focadas no lucro (perfeitamente justo, se estão no mercado) e acabam privilegiando o que é comercialmente viável. O cenário fica ainda pior se buscamos dados da venda de livros em países como o Brasil, com clara aversão à leitura, mesmo a mais básica e cotidiana, que sobre com um grave analfabetismo funcional. Os desafios de produzir mais leitores, e melhores leitores, cabe sempre ao Estado com o processo de educação formal e não há outro meio de vencer o descaso pela leitura que não seja produzindo mais e mais livros. Assim, volto a repetir, os custos de produção dos livros são altos e o modelo editorial meramente comercial acaba por dificultar o acesso. Até para livros didáticos o Estado precisa intervir com medidas subsidiárias, bancando boa parte dos custos e comprando praticamente toda a produção para distribuição nas escolas públicas. De forma bem objetivas, os computadores e a internet com a capacidade de multiplicação e distribuição praticamente irrestrita poderia solucionar boa parte do problema. Os livros digitais, por outro lado, são de um custo praticamente zero para produção, muitas vezes cabendo ao próprio escritor a elaboração do modelo visual que terá o “e-book” (livro eletrônico). A portabilidade é outro ponto crucial que tem tronado esse modelo de comércio mais eficiente e aceito pelo público em geral. Pesquisas recentes e informações das próprias empresas, como a famosa Amazon.com (http://www.amazon.com/) que vende livros tanto impressos quanto digitais, mostra que a venda de ebooks em seu site superou a de livros tradicionais no ano de 2009. Para os autores a versão digital e a venda pela internet permitem maior autonomia e menor dependência de terceiros. A internet é uma plataforma democrática onde todos podem encontrar seu público alvo, publicar e divulgar seus trabalhos de forma direta, sem intermediários (ou poucos), contando coma a rápida propagação e a qualificação de interesse determinada apenas pelo público. As escolhas do


que vale ou não ser publicado não está a cargo de um grupo seleto e dependerá apenas da capacidade de cada um e fazer-se ouvir.

Os novos gadgets e os novos meios de publicação e comércio de livros O único meio físico de que depende um livro digital (e-book) é de um computador ou eletrônico capaz de ler o arquivo do texto. Hoje existem milhares de modelos dos mais variados formatos e tamanhos e com tecnologias bem simples. Desde um simples celular hoje é possível acessar a internet, carregar arquivos, e-mails, interagir nas redes-sociais digitais e, até mesmo, fazer compras. Esse celulares são chamados de “smartphones” (telefones inteligentes) que fazem muito mais do que simples ligações. Os computadores estão cada vez mais portáteis, como os já conhecidos notebooks (laptops) ou os mais novos e menores netbooks, destinados quase que unicamente para o uso da internet mais facilitado. Além desses sistemas convencionais, que têm um preço cada vez menor e estão sempre mais popularizados, surgem os E-Readers – leitores eletrônicos. São aplicativos, aparelhos conhecidos como “Gadgets”, altamente portáteis, leves e baratos, que cumprem o simples objetivo de acessar a internet e servirem como leitores de e-books e e-journals (jornais e revistas eletrônicos/digitais). Ainda não há um modelo padrão ou sistema que integre todos esses aparelhos eletrônicos e que os torne mais inter-relacionados, mais compatíveis. Tudo isso ainda é muito novo e levará um tempo até que um modelo prevaleça sobre o outro e os usuários e o mercado faça suas preferências. De qualquer forma, esses têm conquistado mais e mais usuários e leitores que adotam a leitura digital. Aqui destaco a portabilidade desses aplicativos como o grande diferencial, mas o preço, por mais barato que possa ser, acaba por tornar esses eletrônicos menos acessíveis. Por fim, a grande melhoria é que os livros e textos digitais são mais adaptados à velocidade na troca de informação, especialmente na adaptação dos hipertextos que podem interligar um único texto ou palavra a outras milhares de fontes. A experiência do leitor é amplificada infinitamente. A interação com o texto é mais direta e o leitor não está passivo ou inerte diante do que lê, mas tem ação, tem escolha de como ampliar seu conhecimento e como replicará ou irá interagir com outros que lêem o mesmo que ele. Os textos digitais não nos isolam nem nos prendem no modelo hermético das páginas físicas impressas.

Perspectivas Tudo isso é ainda muito recente e novo para todos e tem muita coisa por se definir. Aos poucos o usuário/leitor vai se adaptando aos novos modelos de leitura e interação com o texto literário. Estes são o alvo de tudo o que é produzido e publicado, mas também não podemos esquecer que aqueles que produzem a informação fazem suas escolhas e podem definir os rumos comerciais da literatura no mundo moderno. Uns podem apostar mais nos caminhos que o lucro apontar para definir as escolhas e definições que virão, mas os mais otimistas dirão que o padrão será sempre o público e a isso a internet presta um serviço muito forte: joga nas mãos do grande público a capacidade de decidir o que é relevante e útil, o que considera informação e como quer interagir e passar adiante. Ninguém consegue controlar as vontades individuais e suas escolhas legítimas. Mesmo assim só somos capazes de escolhas legítimas e livres quando temos acesso ao conhecimento, à educação efetiva. Os rumos mesmo parecem apontar mais para um integração entre papel e digital e não há necessidade de um vencer e subjugar o outro. Os meios de comunicação e troca de informações podem evoluir e se descobrir novas formas mais eficientes, mas para todas ainda há lugar. Essa diversidade é que garantirá a capacidade do homem de continuar evoluindo e crescendo.


Fontes: - Venda de livros digitais supera a de livros físicos, pela primeira vez na Amazon http://www.partidopirata.org/node/233 (Partido Pirata 27/12/2009) - Livros digitais podem mudar hábitos de leitura http://portalamazonia.globo.com/pscript/noticias/noticias.php?idN=106954 (Portal Amazônia 14/06/2010) - O preço do livro no Brasil e o PNLL http://www.comciencia.br/comciencia/index.php?section=8&edicao=40&id=489 (Revista Eletrônica Com Ciência) - Digital Revolution? Kindle Ebooks Outsell Real Books on Christmas http://mashable.com/2009/12/26/kindle-ebook-sales/ (Mashble 26/12/2009) - Venda online nos EUA crescerá 60% em 4 anos http://info.abril.com.br/noticias/mercado/venda-onlinenos-eua-crescera-60-em-4-anos-09032010-5.shl (Info Plantão 09/03/2010) - Publicação independente ontem e hoje http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/1707203 (Recanto das Letras 19/07/2009) - http://pt.wikipedia.org/ (verbetes citados ao longo do texto) - LEMOS, Marcos. Blogar: O processo de criação de Blogs. Divinópolis, 2010. Edição digital. - SILVA, Ezequiel Theodoro da (org.). A leitura nos oceanos da internet. São Paulo: Cortez, 2003. - REDMOND, William Valentine. Literatura e Textualidade Digital; in Literatura & Mídia: percursos perversos. Rio de Janeiro: Edições galo Branco, 2004.


Literatura e Internet - a produção literária nos tempos da internet