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Tantinhas coisas por saber

Ana Pedrosa

É coisa antiga a paixão por Trás-os-Montes, amor à primeira vista já lá vão mais de duas décadas. Foi afeição outonal que amadureceu durante longas férias, visitas de fim de semana e natais roubados à família. Cativou-me a beleza das paisagens, sim, mas também as portas abertas e o sorriso franco das gentes, o humor tão peculiar e uma das maneiras mais bonitas de falar português: melódica, com a suavidade das primaveras em que garotos e burricos brincam nos lameiros, e esse modo sibilante de perguntar ajoras e dizer ojolhos (fosse Eugénio de Andrade transmontano diria “os teujolhos são peixes verdes”). Quando finalmente nos mudámos, há dois anos e meio, pensei reconhecer todas as sinuosidades e asperezas do linguajar nordestino. Bastou pousar armas e bagagens para me dar conta como estava enganada: uma semana depois já me debatia com quiproquós e conversas sem nexo, como estrangeira numa terra estranha. Sempre que nos viam as vizinhas perguntavam se as crianças estavam afeitas, mas isso foi fácil entender sem recorrer ao dicionário. Mais complicado foi perceber o técnico dos telefones quando afirmou que regressaria “manhã ou passado” para terminar o serviço. Pensei ter escutado mal, tentei determinar a hora certa, porém ele continuava a insistir, repetindo a fórmula cada vez mais alto como se o meu problema fosse ser dura de ouvido. Apareceu dois dias mais tarde, com o ar mais normal deste mundo e eu esqueci. Até que a professora do meu filho me informou de uma reunião “passado manhã”, que reconheci como uma variante do castelhano pasado mañana para indicar o dia depois de amanhã. Depois foi a mãe de uma colega da minha filha a queixar-se de que estava tão mal das costas que nem se conseguia amarrar. Como a conhecia há pouco calculei que não estivesse a confessar alguma atividade íntima, mas escusei-me a saber mais detalhes (hoje, sem sombra de dúvida, teria pensado que a senhora era uma ávida leitora das sombras eróticas do senhor Grey). Mais tarde alguém me falou de uma ponte de madeira, tão precária que até um cão, amedrontado, a cruzou todo amarradinho. Perdida a imaginar o animal a ser amarrado e puxado por cordas, mais uma vez deixei passar a oportunidade de esclarecer a questão. Entretanto, da escola os miúdos traziam novos vocábulos: andar às cavalitas era ser levado às “carrintchas” e uma “carotcha” uma côdea de pão. Ouvi e aprendi que “Idejapé?” não é nome de arbusto brasileiro, mas forma de perguntar se os colegas vão a pé para casa. Um dia o professor de Educação Física mandou a turma amarrar-se e a minha filha ficou a ver o que acontecia. Agacharam-se todos até ela compreender. Fez-se então luz em muitos diálogos estranhos. Cá em casa até o jardim ganhou uma nova dimensão. As cerejeiras-bravas são cerdeiros, os tufos de rosmaninho são de arçã e são núncios as amarelas primaveras, primeiras flores da estação. O último outono trouxe-me aquela que passou a ser a minha palavra favorita, quando as vizinhas à cata de castanhas me ofereceram tantinhas, vocábulo delicioso que fica entre a abundância de tanta e a avareza de um bocadinho. De repente, parecia-me ouvi-la de todas as bocas. Aqui as pessoas pedem tantinha água quando têm sede, confessam estar um tantinho tristes, dão-nos tantinhas sementes para o prado. Cada vez me sinto mais da terra mas sei que tenho ainda muito para aprender. Talvez a ocasião surja no próximo Carnaval, num almoço à roda de um prato de butelo com casulas. Ou numa destas manhãs geladas, quando levar o cão a passear numa rodeira. Como uma maçã caída, vou apanhar cada nova palavra e saborear o seu travo agridoce, até que se torne parte de mim.


Corre-me um rio sob a pele Ana Pedrosa

Mais de dois anos passados, há quem ainda duvide que eu seja feliz aqui. “E o mar, não tens saudades do mar?”. A verdade é que não lhe sinto a falta, talvez por não ser muito dada a nostalgias. O passado é um sítio que revisito de vez em quando e ao futuro vou depositar sonhos e alguns planos a curto prazo, mas não me demoro por lá. O presente é o lugar onde me sinto bem, e tento tratá-lo com o maior carinho. Mais do que das ondas, das horas passadas em esplanadas crepusculares e das manhãs de bruma, lembro-me da maresia. Daqueles (raros) dias em que o vento trazia até à janela do 5º andar o cheiro a algas e profundezas marinhas. Com o ar salgado enredado nos cabelos, fechava os olhos e deixava o mar entranhar-se na memória. Depois mudei. De casa e de vista, mas não de vida. Comigo vieram alguns haveres, a família e um verso de João Miguel Fernandes Jorge: “O mar já não era para mim suficiente./Fazia-me falta um rio/um rio sob sombra das árvores”. E como eu gosto de rios, dos mistérios que guardam nas margens sombrias. Riachos irrequietos a saltitar entre pedras, rios lentos que dão guarida a patos e garças, ribeiros cristalinos, de águas gélidas que se abrem em poças alimentadas por cascatas. Margens onde estamos sós, apenas acompanhados por pássaros e libélulas que nos pousam nos ombros. É esta a minha praia. São estas as minhas praias de agora. Mais do que tudo, gosto de mergulhar em rios, da sensação de nadar da próxima curva até à seguinte e mais além ainda, se a força dos braços chegar para isso. Gosto do prazer de descobrir ilhas inesperadas, de ver os saltos das rãs e de seguir os mergulhões até desaparecem debaixo de água. Gosto até desse receio de estar ali sozinha, de não saber se toco num pau ou num bicho aquático, com os pés enfiados no veludo do lodo. E desse cheiro maduro que se infiltra na pele e nas toalhas, e se desprende da água quando a seguramos com as mãos em concha. Um perfume a vida em constante renovação. Confesso, porém, que me falta um limoeiro. Nos meus sonhos antigos havia sempre um momento em que saía da cozinha para ir apanhar limões, rodando os frutos até se desprenderem da árvore. A casa enchia-se então de aromas cítricos, transformados em sorvetes, tartes e raspas para a salada mais fresca. Amor, uma cabana e um limoeiro, é uma fantasia que aqui as geadas impedem de cumprir mas, enfim, já não é mau poder contar com 2/3 de um ideal. Para compensar, enchi parte do jardim de rosmaninho, alecrim e tomilho, que colho na hora para dar outro sabor às refeições. Sobre o tomilho, que se encontra nas vertentes mais soalheiras, um amigo botânico ditou: “deste, nunca vais esquecer o nome, chama-se bela-luz”. Segundo ele, este endemismo ibérico é o mais fantástico de todos os tomilhos. Os meus assados não o dispensam. Se formos com os sentidos bem despertos, estes montes e vales acabam por revelar um outro mundo, só percetível se tivermos um nariz apurado. Orégãos que se desvendam quando damos um toque distraído na berma do caminho, a fragância das hortelãs a distingui-las entre o verde de outras ervas nos lameiros, o acre cheiro a bicho a denunciar a passagem recente de um animal selvagem. Quando chega o verão, as estevas lançam ao vento o odor a mel atraindo enxames de abelhas atarefadas. Junto aos muros, quando anoitece, as figueiras exalam um odor intenso que me inebria. Em setembro, os dias mais curtos anunciam a despedida das andorinhas, que nos prados ganham alento para a partida. É então que as lareiras são ateadas. As castanhas estalam nas brasas, embrulhadas em folhas de couve, tal como as mulheres se enredam em xailes retirados de velhas arcas. Ao café, os homens juntam um “cheirinho” de aguardente, que aquece o estômago e reconforta a alma. Com o frio os aromas recolhem-se à cozinha. Louro e alho para o salpicão, uma pitada de colorau nas chouriças, potes de ferro onde fervilham as carnes para as alheiras. Enchidos com desvelo, pendurados em traves escuras, fumo de carvalho e castanheiro a curar durante dias – o fumeiro é isto, um misto de tradição e arte, combinado com a hospitalidade de quem enceta um presunto para receber um amigo. A maresia? Sim, está-me gravada na memória mas não lhe sinto a falta. Basta-me um rio, uma figueira, uma lareira. São estes os perfumes do meu presente.


Fast forward Ana Pedrosa

Habituada à paz e ao silêncio destes montes - à noite só quebrado pelos pios das corujas e o ocasional regougar das raposas; de dia pelas rodas pouco oleadas do carro de bois de um vizinho -, estranho agora o ritmo das grandes cidades, a agitação e a pressa com que todos se movem, mesmo que seja para ir a lugar nenhum. Logo a seguir ao Natal, tive de passar por um centro comercial nos arredores do Porto, para trocar uma prenda. Ainda sob a influência do frenesim natalício, o parque de estacionamento subterrâneo era uma pista onde os condutores disputavam a vaga mais perto da entrada, apesar de haver muitos lugares livres uns metros adiante. Um carro passou por mim três vezes: motor esforçado, curvas cortadas, travagens bruscas. Puxei a mim os meus filhos, e continuámos em direção às escadas rolantes. Alguém terá, um dia, de fazer uma tese sobre o efeito soporífero que as escadas ou passadeiras rolantes têm sobre os portugueses. Aí os mais obstinados fittipaldis sofrem uma mutação qualquer e, num instante, transfiguram-se no velhinho que vai a 30 kms/h na faixa mais à esquerda da autoestrada. Embalados pela cadência das escadas, apreciam a paisagem, encostam-se ao corrimão, debruçam-se, recostam-se. Apetece perguntar se não querem tomar um cafezinho ou um gin tónico. Em vez disso, peço em voz baixa se me dão licença para passar. Então afastam-se a contragosto, lançando olhares furibundos que interrogam: “onde é que esta pensa que vai, às urgências?”, ou então fingem que não ouvem e fincam os pés, assumindo a pose de soldado em defesa do quartel. Chegados ao último degrau ganham lanço outra vez, em passo estugado para a loja onde vão experimentar o último modelo do gadget do momento, para o fast food com a fila mais longa, para a fila do cinema com pipocas. (As filas são, aliás, o Everest do Homo urbanus, um desafio que tenta vencer “porque estão lá”. Conheço alguém que se pôs numa longa fila de um centro comercial, por ter achado que “deviam estar a dar alguma coisa”. Não tentou saber o quê, limitou-se a estar ali. Quarenta minutos depois descobriu, consternado, que a bicha era para um casting de uma série de adolescentes. Logo ele, que da adolescência já só retinha a inanidade.) Ultrapassada a Passadeira Lounge, surgem as montras faiscantes (mesas brancas postas com louça prateada, talheres reluzentes, ao lado de candeeiros em forma de diamante que iluminam sofás de napa brilhante), as lojas de marcas que prometem o nirvana numa chávena de café, as de look etno com cheiro a incenso, e as que vendem pijamas (outro enigma que me apoquenta, quem compra tantos pijamas?). É então que a música me começa a fazer confusão. Música pop nos corredores, instrumental no WC, rock, house, pimba, em todos os outros lugares. Dizem os sociólogos do consumo que a música estimula a vontade de comprar, a mim só dá vontade de fugir. A prenda por trocar continua no saco, não me consigo concentrar, onde é mesmo a livraria que procuro, em que andar. Sinto-me perdida num labirinto de pechisbeque: tantas coisas, tantas luzes (“fundamentais para induzir boa disposição”, continuam os sociólogos), tanta música... (De repente tenho vontade de fazer como outro conhecido, que escolheu viver numa pequenina aldeia do Barroso. Disse-me ele que, de quando em vez, a família lhe pede para ir às compras a Braga. Uma hora a ziguezaguear em estradas ladeadas de bosques, ribeiros, serras afiadas ao fundo. Depois o horizonte de prédios, semáforos, a primeira rotunda. Que ele circunda uma, duas, três vezes, até se decidir regressar a casa, de automóvel vazio e os filhos a gritarem atrás: “Oh pai!”.) A mim perguntam-me como consigo viver aqui. Se os pios aziagos dos mochos não me fazem impressão, se não tenho medo da escuridão, se não me faz falta um café onde espantar a solidão. Não, não e não. Quem muda para o campo por opção, dificilmente muda de ideias. Além disso, daqui vejo as luzes da cidade pequena, tenho tudo o que preciso à distância de dez minutos de automóvel, e trinados foi a música que escolhi para despertar. A cada um o seu habitat, o meu é o dos dias lentos, tão grandes por isso mesmo.


Não são rosas, senhor! Ana Pedrosa

Sei que estou perante alguém sensato quando, ao fim de um dia ou dias de estadia em minha casa, essa pessoa olha para a paisagem e diz: “Isto é muito bonito, mas não é para mim”. O mais comum, porém, é amigos e familiares ficarem entusiasmados com o dito cenário, a tranquilidade, e a proximidade de uma cidade que, afinal, tem mais ofertas do que julgavam. Inevitavelmente, vem a pergunta do costume: “O terreno aqui ao lado está à venda?”. Logo a seguir confessam sonhos de se dedicarem à agricultura biológica, ao turismo rural, à apicultura, à confecção de compotas e licores. Os planos de negócio desenhados no ar são sempre fantásticos e as ideias apresentadas têm sempre tudo para dar certo. É essa a natureza dos sonhos, revelarem sempre o lado solar. E é natural que estes venham à superfície nas férias ou durante um fim de semana relaxado. Por isso, agora que o slogan Emigrar é Glorioso vem sendo substituído por “agricultura é fashion” (Paulo Portas dixit) e no parlamento se discute o regresso do programa TV Rural para formar agricultores de sofá, convém explicar que nem tudo da vida no campo são rosas. Para começar, há que partilhar uma lapalissada. No campo há bichos. Muitos. De todos os tamanhos e feitios. Em primeiro lugar, os domésticos: galos que nos acordam a horas impróprias, cães a ladrar noite dentro, vacas que forram os caminhos com bosta escorregadia, porcos cujos odores não são aqueles que imaginamos quando pensamos em aromas campestres. Tal fauna está sempre acompanhada por batalhões de moscas, que invertem a ordem do ditado para “Três meses de inverno e nove de inferno”. Tivesse Sartre vivido no campo e saberia que l’enfer c’est les mouches. Essa praga alada é capaz de arruinar qualquer plano idílico. Almoço na varanda? Talvez, se não se importar de passar a refeição a abanar as mãos em movimentos histéricos. Tarte acabada de fazer a arrefecer no parapeito da cozinha? Só nas histórias da vovó Donalda. Janelas abertas de par em par para deixar entrar a brisa fresca? Sim... em janeiro e fevereiro. Claro que é possível colocar mosquiteiros em todas as janelas, mas basta entreabrir uma porta para ter de passar o resto do dia a praticar a caça à mosca. No entanto, não há proteção que impeça a entrada de aranhas. Multiplicai-vos e crescei é mandamento que cumprem religiosamente. Distraia-se na limpeza e em pouco tempo o seu lar doce lar ficará semelhante ao da família Addams. Curiosamente, nessas teias nunca encontrei uma só mosca. Não é teoria da conspiração, mas acho que as duas espécies fizeram um pacto de não-agressão com validade só para minha casa. Em outubro, quando as moscas já ensaiam a despedida chegam então os percevejos para nos darem cabo das noites com os seus zumbidos irritantes. Cobras e lagartos também os há, em abundância de espécies. Seja em versão lagartixa ou em tamanho XXL, como os lagartos-de água. Os répteis com pernas são inofensivos e têm a grande vantagem de serem grandes devoradores de moscas. As cobras também são pacíficas, embora sinta calafrios quando encontro uma muda de pele abandonada no jardim. Subindo na escala, aparecem as raposas e ginetas que dizimam galinheiros, javalis que se nos atravessam ao caminho quando fazemos o passeio diário (para ser exata aconteceu uma única vez) e veados com tendência para saltarem para a estrada no preciso momento que vamos a passar. Se repararmos bem, a paisagem mais inocente esconde um verdadeiro Serengeti à escala lusa. No campo, seja onde for, mesmo no monte mais isolado do Alentejo, há outra ameaça que poderá não estar disposto a enfrentar: vizinhos. Se é daquelas pessoas que só cumprimenta os seus quando não o pode evitar - no elevador ou na reunião de condomínio -, pense duas vezes antes de se mudar. Ali haverá pessoas verdadeiramente interessadas na sua saúde, que lhe irão encher o frigorífico e a despensa com o que têm de melhor e estarão sempre dispostas a ensinar-lhe tudo o que sabem, seja a fazer pão ou a pegar numa enxada. Mas prepare-se para que lhe digam a que horas chegaram e partiram as suas visitas, lhe apontem a noite que chegou a casa bem mais tarde do que o habitual e conheçam todos os cantos da sua casa (porque a visitaram quando estava em obras). E eu tenho os melhores vizinhos do mundo – como eles não se cansam de me lembrar. continua >>


Se a ideia é dedicar-se à agricultura, e antes que vá comprar galochas e jardineiras, convém saber que a nova profissão de futuro não é pera doce. Os horários são péssimos, as férias reduzidas, os fins de semana uma miragem, e ainda por cima tem de se haver com os humores de S. Pedro. Isso já para não falar na terra que se entranha nas unhas, nos braços arranhados, no cabelo desalinhado, no suor. Muito a sério, desconfie quando vir as palavras agricultura e fashion na mesma frase. A vida no campo pode ser maravilhosa, mas uma mudança de vida radical não deve ser feita porque está na moda. Caso contrário, arrisca-se a que seja uma escolha primavera/verão que não resiste aos rigores do primeiro inverno.


Elefantes sonhadores Ana Pedrosa

Tenho uma relação complicada com Espanha. Basta atravessar a fronteira para começar com a arenga habitual, aquela que faz o resto da família revirar os olhos, enquanto lamentam ter de me aturar nisto durante uns dias. Reclamo contra o sistema de portagens que parece ter sido atualizado pela última vez nos anos 80, reclamo contra os cafés que têm sempre o chão pejado de beatas e saquetas de açúcar (uma impressão confirmada por vários artigos espanhóis a elogiar a cortesia e limpeza dos portugueses), reclamo contra os nacos desenxabidos que colocam em cima da mesa e que lá chamam de pão, contra os pequenos-almoços, invariavelmente constituídos por uma fatia de pão de forma tipo Bimbo, servido com um retângulo de manteiga e uma embalagem de plástico com mermelada de melocotón. E continuo com a ladainha sempre que peço um bife grelhado e lhe espetam em cima com uma fatia gigantesca de pimento de conserva (logo eu, que detesto pimentos), ou quando descubro que uma sopa de fideos não passa de uma tigela de água a ferver, onde metem um cubo de caldo Knorr e um punhado de massa de aletria. Não me quero alongar, mas há uma série de coisas no país de nuestros hermanos que me exasperam, tornando-me (mesmo sem querer) na patriota mais bacoca, a exaltar as virtudes da pátria lusa. E, no entanto, é nas praias fabulosas da Galiza que todos os anos passo férias (e que saudades, deus meu!), é com lugares espanhóis que sonho quando penso em fins de semana prolongados, fico com água na boca sempre que penso em fabada asturiana, em pulpo a la feria, nas empanadas de atum compradas ainda quentes. Já para não falar nas divinais tapas de Burgos. A lista daquilo que gosto em Espanha poderia estender-se para lá do que os carateres deste texto permitem, porque por cada embirração minha, há cinco coisas que me encantam. A rádio espanhola é uma delas. Não imagino melhor companhia para conduzir naquelas estradas intermináveis, que associo sempre a evasão e bem-estar. Poder ouvir sempre a rádio espanhola seria o único argumento que me faria alinhar numa nova união ibérica. Infelizmente, quando faço zapping radiofónico deste lado da raia, a única estação que consigo captar é a Radio Maria - Emisora exclusivamente religiosa y católica para el anuncio del evangelio. Um valente soporífero pouco adequado à condução, mais perigoso do que beber três copos de vinho com uma aguardente para rematar. “Se ouvir a Radio Maria não conduza”, devia ser slogan obrigatório, anunciado em placares gigantes à saída de cada localidade. De resto, tirando aquelas com doses maciças de flamenco, é bom ouvir qualquer programa. Claro que ser português ajuda a apreciar as peculiaridades espanholas. Como a mania de traduzir tudo, desde o nome das bandas – conhecem os U Dos? – ao nome das músicas. É assim que I’ve got a little something for you se transforma numa promessa pouco viril (mas honesta, há que reconhecer) quando o apresentador anuncia Tengo una cosa pequeñita para ti. Ouvir um espanhol a enrolar a língua até sair algo levemente parecido com inglês é garantia de momentos bem passados, mas o prazer de navegar pelo éter espanhol vai além disso. As intervenções dos ouvintes são quase sempre divertidas e descomplexadas, as críticas fazem-se sem censura (as mais ácidas piadas sobre a família real ouvia-as na rádio), e muitos programas dão-nos informações curiosas sobre a origem das canções e o percurso dos seus autores. É o caso de Saltamontes, na Radio 3, sessenta minutos dedicados ao jazz, soul e blues, em que a cada faixa corresponde a uma história, contada pela voz pausada de Ángel Lobo. Uma delícia. Mas o programa que me fazia dar o salto, ir ali ao lado meter gasolina barata e ficar, quem sabe até pensar em converter-me à monarquia, é Cuando los elefantes sueñan con la música, também na Radio 3. Carlos Galilea, a quem já chamaram domador de tímpanos, é o guia que nos pega na mão e com a voz colada ao ouvido nos leva por universos da latinidad y negritud para, a partir de la música brasileña, acercarse a ritmos antillanos, sonidos africanos o el arte del jazz. continua >>


Sim, muito boa música brasileira, com emissões temáticas que tanto podem ir da chanson française aos Beatles, frequentemente em versões bossa nova: Milton Nascimento a cantar Norwegian wood, Caetano Veloso dedilhando Eleanor Rigby, Astrud Gilberto a sussurrar Here, there and everywhere. O panorama estende-se até Cabo Verde (foi aqui que os espanhóis ouviram Cesária Évora pela primeira vez), Angola (idem para Wyza), Portugal (é frequente ouvir-se Luísa Sobral e Maria João) e todos os outros países onde haja música que nos leve no dorso de paquidermes até um lugar onde o corpo se abandona aos sons mais etéreos. Agora dê-me a mão e siga-me: http://www.rtve.es/alacarta/audios/cuando-los-elefantes-suenan-con-la-musica/


Há festa na aldeia Ana Pedrosa

São quatro, as festas religiosas que animam a minha aldeia. Há quem diga que são demasiadas para um lugarejo de 70 pessoas que, apesar de ficar às portas de Bragança, poucos conhecem. O normal nas localidades vizinhas é haver uma grande celebração anual, com missa, procissão, jogos tradicionais e baile noturno animado por banda das redondezas. Nas últimas décadas, essas festas, seja qual for o santo da devoção, mudaram-se para os meses de verão, para que a igreja e as ruas se encham com os emigrantes em peregrinação de saudade. Cada uma tem as suas particularidades: numas há bancas de rifas, noutras montam-se postos de venda das especialidades da região, outras ainda são conhecidas pelas missas campais, frequentadas por muitas centenas de pessoas. Há até aldeias onde palcos descomunais, colocados frente-afrente, se digladiam em excesso de decibéis de manhã até altas horas da noite, provocando o êxodo daqueles que vivem nas imediações e têm alguma afeição pela saúde dos seus ouvidos. Na aldeia que adotei fazem tudo ao contrário do que é suposto. Em vez de uma folia de arromba, multiplicam-se em festejos, convívios, festins, salpicando o calendário com eventos. Tudo feito de uma forma tão singela que mal se dá por isso. Não há foguetes, e as decorações limitam-se a umas fitas de plástico colorido, colocadas entre duas árvores sobre a rua principal, que ficam ali até perderem a cor e serem arrastadas pelo vento e pela chuva. Na verdade, os meus vizinhos são os verdadeiros foliões, porque não estão para aguardar um ano inteiro para se juntarem a comer, beber e bailar. Para não perder o balanço do Natal, começam logo nos primeiros dias de janeiro, com a festa de S. Sebastião, sem dúvida a nossa preferida. O santo não passa de um pretexto para dar a provar os enchidos feitos por cada família nessa altura. Logo a seguir à missa todos abalam para junto da lareira do único café existente –cujos lucros revertem para a comissão de festas. Com cavaletes e pranchas monta-se uma mesa comprida, que em breve estará coberta por travessas fumegantes com costeletas de porco, postas de vitela, alheiras, chouriças, linguiça - tudo grelhado na brasa e comido com nacos de pão caseiro. Dos garrafões jorra um vinho levemente ácido, que naquelas ocasiões sabe tão bem. Segue-se uma pausa para a sesta, mas às sete da tarde já o caldo verde prepara os estômagos para mais uma rodada de enchidos, carne e vinho que darão energia para o bailarico. Num piscar de olhos estamos no Carnaval: reunião no mesmo lugar, sobremesas trazidas de casa, cantigas da ocasião, disfarces para quem quiser. Por volta da meia-noite chegam caretos em via-sacra pagã, já animados por copos bebidos noutras paragens, com atrevimentos permitidos pelo anonimato. Ninguém leva a mal. No sábado de Aleluia (véspera da Páscoa) reserva-se o direito de admissão num jantar exclusivamente masculino. Menina não entra, nem sequer para dar uma ajuda na cozinha. Contrata-se um chef, a ementa refina-se, as mesas são postas sem luxos mas com cuidado. Enfim, tratam-se bem, pelo que me conta o homem cá de casa. As mulheres mais novas, por seu turno, nessa noite desforram-se num jantar na cidade. Em maio, o clima já permite que padroeira Senhora da Lapa seja celebrada na rua. A tarde é passada em torneios de jogo do pau, regados por minis bebidas à sombra. À noite, o baile no terreiro é animado por conjunto musical em palco exterior. Em julho e outubro, os rituais repetem-se com pequenas diferenças, sejam organizados pelo Mordomo do Sino ou em homenagem a Nossa Senhora de Fátima. O resto do ano é passado em banquetes mais informais, sujeitos à agenda de cada casa, porque não faltam motivos para juntar os amigos numa jantarada. É preciso ajuda para trazer a lenha cortada nos campos? No fim do dia assa-se um cordeiro para quem trabalhou arduamente. São necessários vários braços para recolher o feno no início do verão? Para repor as forças, um leitão assado no forno a lenha vem mesmo a calhar. Dia passado a fazer alheiras? Jantar de carnes e couves cozidas no pote. Às vezes basta algo tão simples como assistir a um jogo crucial no café. Aquando de um dos últimos Benfica/ Porto vários vizinhos juntaram-se, cada um trazendo de casa o que de melhor lá tinha. As brasas da lareira trataram do resto, fazendo estalar a pele dos enchidos. Quando se partilha a mesa com os oponentes, quem se atreve a lamentar uma derrota ou a celebrá-la em excesso? Dizem-se umas larachas, bate-se nas costas do perdedor, passa-se a travessa antes que arrefeça. No jogo seguinte será ao contrário, e há tragédias maiores na vida: um copo vazio, ninguém com quem rir, viver ao lado de quem nos desconhece o nome.


Passeio numa noite amável Ana Pedrosa

Esperam-me às oito em ponto, tal como combinado, em frente à casa branca, a última daquele lado da aldeia. Jantar servido, cozinha arrumada, maridos deixados em frente à televisão, a mãe entrevada de uma delas já posta a dormir. Três mulheres de meia-idade, com colesterol e peso a mais, que o médico manda baixar. E a partir de então uma hora de liberdade por sua conta, caminhos percorridos com um cajado na mão para ajudar nas descidas, maleitas e confidências trazidas na alma prontas para o desabafo. Tempo também para partilhar as alegrias do dia a dia: o telefonema de um filho que está em França, notícias de outra que em Inglaterra faz pela vida, anedotas para desanuviar, cantigas de outros tempos, memórias de infância. Perdem-se quilos, ganha-se uma agilidade que as pernas há muito não conheciam, mas o importante acaba por ser este final do dia que é só delas, o hábito saudável que se instala para abanar outras rotinas e, acima de tudo, os laços reforçados por esta intimidade feminina. Hoje acompanho-as. Fernanda integra-me no grupo para me mostrar o lugar onde apanha orégãos, na vereda que várias vezes me indicou mas nunca cheguei a encontrar. Estamos no início de junho, temperatura amena, há uma brisa leve a afagar-nos a pele, e então comento como é agradável passear a esta hora. Com um aceno, Fernanda acrescenta: “É uma noite amável”. Vou ainda com a poesia das palavras a bailar-me na cabeça, quando Gracinda me chama à atenção, apontando para uma planta trepadeira, “... e esta comemos com ovos. Põe-se na sertã com um pouco de azeite e alho e depois deitamos os ovos batidos por cima.”. Começa a lição. Elas, mestras sem o saberem, a partilharem conhecimentos antigos, eu aluna ávida, a absorver tudo o que dizem, com consciência de que muita informação se irá perder, entre conversas cruzadas e tanta coisa para aprender. À trepadeira, cujos rebentos lhes serve de petisco primaveril, aqui chama-se “zango” (saberei mais tarde que se trata de norsa). Vi-a vezes sem conta a escalar pelos valados, sem imaginar que era comestível. Dizem-me que tem um leve sabor a espargos, hei de querer experimentar. Incentivadas pelo meu entusiasmo, cada uma colhe uma planta que encontra na bordadura do caminho e explica para que serve. Erva-de-são-Roberto, excelente para infusões que ajudam à digestão. Fiolho ou funcho, também conhecida como “erva dos ciganos” porque estes enriquecem as sopas com ela. O tomilho sou eu quem aponto, num despique bem-humorado, para provar que vou aprendendo algumas coisas. “E a cavalinha, conhece?”, pergunta uma. “Essa está à beira do ribeiro, hoje não passamos por lá”, contrapõe outra. Como confesso não conhecer os usos da cavalinha, sou informada das suas múltiplas virtudes para atenuar “doenças de mulheres” e aliviar “problemas da próstata”, comprovadas por vários exemplos da sua eficácia. Aos poucos vou recolhendo um pequeno herbário nas mãos, mas o que queria mesmo era guardar comigo o entusiasmo destas mulheres, a sua sabedoria telúrica, a forma como espantam a melancolia com gargalhadas sem pejo, que ficam a ecoar nos vales como em tempos ecoaram os seus gritos de criança. Dali a nada tufos de orégãos, num talude de um dos meus caminhos favoritos. Tantas vezes por ali passei... Orgulhosa de conhecer bem árvores e arbustos, descubro-me cega em relação às ervas, emaranhados de folhas que mal diferencio, miscelânea de verdes que me confundem. Fernanda adianta-se às minhas perguntas, mostra-me como distinguir os orégãos de outras ervas ao lado, tão parecidas. Isto para que os possa reconhecer quando os quiser apanhar na véspera de S. João, como manda a tradição.

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O passeio continua, agora por trilhos que são novos para mim. Vejo a minha aldeia de perspetivas novas, fico a saber a quem pertence este souto e aquele lameiro lá ao fundo, espreito o pomar onde posso vir apanhar cerejas, descubro que aquele caminho a ondular entre searas vai dar a outra ponta do povo, e que é por ali que elas vagueiam, quando lhes apetece mudar de paisagem. Anoitece devagar, há ainda uma réstia de luz rosa no céu. As minhas companheiras resolvem levar-me até à porta de casa, com o desvelo de quem entrega uma encomenda que não se pode extraviar. Extraordinárias, amáveis mulheres que fiquei a admirar ainda mais nesta caminhada crepuscular. Quis-lhes falar da alegria que trouxe comigo, misturada nas braçadas de plantas, mas não me ouviram. Pudesse eu fazê-la florir, para mais tarde a oferecer em ramos agradecidos.


Georges Dussaud, o fotógrafo que revelou a alma de Trás-os-Montes Ana Pedrosa | fotos © Georges Dussaud

Em França, onde é representado pela prestigiada agência Rapho, é o “fotógrafo de Portugal”, aqui, o homem que captou como ninguém o último suspiro da ruralidade lusa. Em 1980, quando Trás-os-Montes era um país distante e agreste, que poucos se orgulhavam de conhecer, Georges Dussaud descobriu o Barroso.

Fê-lo no final de uma viagem de férias estivais no Alentejo, com a mulher e os três filhos, num regresso à Bretanha pelas estradas mais longas e improváveis. “É quando nos perdemos, que encontramos as coisas mais interessantes”, há de dizer-me nesta primavera instável de 2013, 86 regressos depois da viagem inaugural. Naquele agosto soalheiro, ao passar pelas aldeias de pedra recolhidas entre as fragas graníticas, ao deparar com pessoas que preservavam um modo de vida ancestral mas feliz, soube que tinha de voltar. Passados poucos meses, no pico do inverno, instalou-se na aldeia de Negrões, situada a poucos quilómetros de Montalegre, “numa casa modesta, sem eletricidade, muito fria”. Seria a partir daí que, ao longo das estações, haveria de documentar rituais que se vão tornando raros: ceifas e debulhas em reuniões alegres, o uso de fornos comunitários, a matança do porco. Isto numa altura em que as escolas ainda se enchiam com as brincadeiras das crianças, protegidas da neve por capas de burel e croças de palha. Aí começou “um compromisso a longo prazo, uma descoberta, uma aventura humana que nos levou muito longe” – é Christine Dussaud, quem o escreve, no prefácio ao livro Crónicas Portuguesas, editado pela Assírio & Alvim. Centro de Fotografia em Bragança O resultado dessa aventura pode ser apreciado no Centro de Fotografia Georges Dussaud, recentemente inaugurado em Bragança, cidade a que o fotógrafo decidiu doar cerca de uma centena e meia de imagens, considerando-a “a cidade mais dinâmica de Trás-os-Montes”. Foi ali, a 25 de Abril, que o encontrei pela primeira vez, depois de anos a seguir o seu trabalho em livros e exposições. Rodeado por políticos, artistas, amigos e jornalistas, deu-nos um pouco da sua atenção, prometendo que nos faria uma visita. A promessa, cumprida pouco depois, deu origem a muitas horas de conversa à mesa, caminhadas pelo monte, um piquenique num lugar maravilhoso. Ao longo desses dias pude observar a forma discreta como fotografava aqueles que ia encontrando. Com a Leica de objetiva fixa (35 mm) pendurada ao pescoço, deixava que se esquecessem da sua presença antes de apontar a câmara, que utiliza como uma extensão de si mesmo. continua >>


Não surpreende que muitas das suas imagens mostrem o interior de casas que se lhe abrem sem pudor. Tal como os sorrisos, mesmo que tímidos, se abrem para este homem sem pose nem arrogância, que poderia bem ser um desses lavradores “pobres mas não miseráveis” que ele capta com tanto respeito, porque “a sua condição modesta, a sua simplicidade” o emocionam. Pois, se a alma está muitas vezes presente nas suas fotografias, Georges Dussaud não rouba os instantes, aceita-os como “presentes” oferecidos por aqueles que se deixam fotografar. Mulheres a abrirem janelas para que a claridade inunde as casas sombrias. Olhares diretos de gente que aprecia a atenção da câmara virada para si. Uma mãe dobrada para confortar a filha pequena, mãos enfarinhadas pelo pão acabado de amassar, à “luz de uma pintura holandesa”, que tantas vezes encontra na região transmontana. Outras vezes, as imagens são o resultado de um enquadramento preciso, de uma espera paciente, para que aconteça, não o momento decisivo de Cartier-Bresson, mas o “momento instintivo”, aquele em que o fotógrafo sente que guardou o gesto mais terno, o olhar mais nostálgico, a gargalhada solta.

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Encontros felizes Há um mundo de histórias atrás de cada imagem, que Georges e Christine vão desfiando ao correr dos dias. “De Portugal só temos boas memórias, nenhuma má experiência.” Como aquela senhora que pegou nas mãos geladas de Christine para as aquecer entre as suas, ou a guardiã da chave de uma capelinha no cimo de um monte, que os recebeu com abraços, como se os esperasse desde há muito. Sempre esses encontros felizes a traçar-lhes o destino e os regressos. Miguel Torga acolheu-os na sua casa natal em S. Martinho de Anta e revelou-lhes o Douro, com entusiasmo apaixonado. António José Rosas, “um homem excepcional”, guiou-os até à Quinta de Ervamoira, onde assistiram à plantação das primeiras vinhas. Manoel de Oliveira recebeu-os com o bom humor habitual, Mário Soares e Jorge Sampaio, no ofício das suas funções como chefes de Estado, revelaram uma amabilidade “impossível noutro país”. E depois há todos aqueles - transmontanos, mais uma vez – que partilham o fruto do seu trabalho nas horas livres. São recordações que conservam com carinho: azeite produzido pela artista plástica de renome, frascos de mel dos apiários do diretor de um museu, vinho vindo das quintas de um outro diretor de um museu à beira-Douro. “É extraordinário como têm tempo para tudo”, comentam com assombro.

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Uma curiosidade infinita Ao lado de Georges está sempre Christine. Mulher, companheira, assistente, autora de muitos dos textos que acompanham as imagens do marido, quase diria sombra permanente, se não fosse tão luminosa: um brilho nos olhos azuis que acompanha o sorriso fácil, as frases cheias de humor e um incrível entusiasmo por tudo que vê. Tem uma memória extraordinária, parece saber o nome de todos com quem se cruzou ao longo da vida, conhece as datas precisas, os detalhes de cada encontro. Se as imagens são feitas por Georges, agora sei que Christine está também em cada uma delas. Imagino-a a encetar uma conversa (foi aprendendo algum português), a proteger o marido da chuva, a afastar-se do enquadramento na altura certa, a chamar-lhe a atenção para um pormenor, ela também artista por direito próprio, quando agarra nos pincéis para retratar os outros à sua maneira. Em qualquer dos casos, as pessoas sempre presentes. Mesmo quando Georges Dussaud fotografa paisagens é a geografia humana que desvenda: um trilho numa seara, campos murados, largas panorâmicas do Alentejo rasgadas por caminhos, o nevoeiro do mar da Apúlia a esconder uma silhueta distante. E sempre uma imensa melancolia a evolar-se das imagens, que nos retratam sem máscaras. Ali vemos um povo simultaneamente nostálgico e alegre, capaz do mais árduo trabalho e de uma solidariedade infinita, que estende toalhas no chão com a mesma generosidade com que abre os braços e o coração. Na despedida, um abraço apertado a selar uma intensa afinidade e a certeza de um reencontro em breve, em Trás-os-Montes, onde há sempre algo novo a fotografar, a descobrir. Até porque, “nós mantemos sempre a curiosidade”, dirá Christine com esse olhar de eterna menina. Ao lado, Georges sorri, no seu modo sereno de olhar o mundo.

© António Sá

O Centro de Fotografia Georges Dussaud situa-se em Bragança, na rua Abílio Beça nº 75/77. Com entrada gratuita, está aberto todos os dias das 09h00 às 17h30. Tel.: 273 324 092

Uma urbana no campo  

Crónicas publicadas por Ana Pedrosa na revista online Papel, entre janeiro e outubro de 2013.

Uma urbana no campo  

Crónicas publicadas por Ana Pedrosa na revista online Papel, entre janeiro e outubro de 2013.

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