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perfurações, orienta a fundidora de tipos a liberar as matrizes das letras, regulando a composição tipográfica. Dias-Pino questiona: "O que se coloca no lugar do código (verbal) quando este é destruído?" (6). O poeta implode os códigos regulares de leitura para propor permutações numéricas e visuais. Ele se relaciona fenomenologicamente com a máquina e opera um gesto negativo contra o objeto, inscrevendo-se dentro do processo e tornando-o evidente. Assim, rompe com o mundo da interface final (o texto impresso), secciona a máquina revelando o seu mecanismo e, mais do que isto, sobrepõe linguagens (códigos e imagens) em operações que envolvem o processo. Seus poemas potencializam a informação na medida em que se movem na (im)probabilidade. A Ave se apresenta como um programa. A partir da contínua metamorfose do código verbal/visual, perde-se a referência inicial da palavra, transformando-se o poema em elemento plástico. No primeiro par de páginas, a folha translúcida vem impressa com a frase espacializada: "A AVE VOA dEnTRO de sua COr", deixando transparecer na folha seguinte o gráfico composto de linhas retas que roteirizam a leitura e estabelecem ligações sintáticas. Palavra e desenho se integram através da transparência do papel, fazendo com que duas páginas correspondam a uma unidade, o que caracteriza, segundo o poeta, um poema de camadas: "quando se leva a transparência à radicalidade do vazamento". Na página é projetada a perspectiva do livro, definindo-se como unidade e /('n/c para as demais páginas. A espessura e o manuseio são elementos de expressão, enquanto, diz Dias-Pino, "os vazamentos atravessam as páginas quando um nível de comunicação e significado instantaneamente está presente em diversas páginas no mesmo nível em que apresenta o uso da potencialidade característica da matemática". Os gráficos servem como norteadores de uma leitura contínua e angular. As letras maiúsculas não têm como principal objetivo efeitos expressivos visuais e muito menos vocais. A poesia de DiasPino não interessa a oralidade: "Um poema escrito é antes de tudo visual, e não sonoro, ele não é um instrumento musical... A poesia silenciosa, a poesia espacional é contra o herói". Se as linhas se fazem presentes como "índices direcionais de leitura", as letras maiúsculas intercaladas com as minúsculas permitem que os textos recombinados entre eles e os vértices dos gráficos conquistem novos significados poéticos. Para o poeta, as maiúsculas indicam que, no curso da leitura, as letras serão reutilizadas: "Assim quando começamos A Ave, estávamos participando do movimento Intensivista em Cuiabá e muito nos preocupava o problema da colocação da palavra nos vértices (dobradiças) do espaço (o nível ou a altura da palavra no suporte do papel significava a potencialidade)".


Wlademir Dias-Pino