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poético" (2). Para Dias-Pino, o simbolista opera somente sobre o plano da língua, enquanto o intensivista visa alcançar outras dimensões imagéticas. Familiarizado com o relevo dos clichés tipográficos e contrário ao sentido essencialmente frontal do código alfabético, Dias-Pino declara: "A escrita é frontal! A escrita é perfil! (...) O simbolista é um desenhista e o intensivista é um escultor. A escultura é um desenho de todos os lados" (3). Em sua obra, o código semiótico é indissociável do código linguístico e requer uma leitura ativa, pautada por deslocamentos. Os planos (topográficos) ganham destaque como elementos articuladores: "(...) interessante é o choque de palavras. Para os simbolistas as letras tinham cores, para nós as palavras valem devido à experiência e o espírito de sínteses-poemas (...) As palavras unidas por uma ligação aérea e subterrânea". Surge, já no Intensivismo, o vínculo entre as linguagens verbal e matemática: "Essas repetem / sobre si mesma / palavras e números; / números de letras, / números de sílabas" (4). A palavra é uma unidade numérica inserida na estatística do texto. Torna-se referencial em seus poemas concretos, o procedimento de situar a palavra e a letra fora do verbal e dentro do campo semiótico, o que possibilitaria permutações entre diversos códigos. No livro-poema A Ave, os processos de recodificação da palavra ganham evidência. O livro foi produzido entre os anos 1948 e 1956, período em que Dias-Pino integra o movimento Intensivista em Cuiabá, e, retornando ao Rio de Janeiro em 1952, inicia o diálogo com os integrantes do movimento da poesia concreta — o qual passaria a integrar, mas mantendo uma vertente própria. Os exemplares, produzidos em processo artesanal, apresentavam registros gráficos diferenciados, o que, para o poeta, revelam a intenção de caracterizar o livro como instalação. A Ave inaugura uma interatividade diversa entre leitor e poema e nos convida a elaborar novas versões da obra, uma vez apreendida sua lógica de funcionamento. O livro-poema exige a exploração das propriedades físicas do livro — as texturas e transparências das páginas, o formato, a relação entre uma página e outra, a sucessão de códigos analógicos e digitais, etc. "Eu nunca fiz questão de lançar outra edição (de A Ave), porque o interessante para mim não era que a pessoa encontrasse o livro pronto, (...) é preferível que ela leia a estrutura do livro e reconstrua o processo" \95\0, afirma o poeta. A concepção de A Ave envolve diversas linguagens e tecnologias ligadas ao processo de produção de textos — como nas máquinas de linotipia, as letras digitadas no teclado são recodificadas em uma fita que, através de


Wlademir Dias-Pino