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Nascido em 1927 no Rio de Janeiro, mudou-se com a família para Cuiabá em 1939. Filho de tipógrafo, o contato precoce com o universo da produção gráfica foi determinante em seu trabalho. Cedo se habituou a observar a forma das letras antes da palavra, o significante antes do significado. À compreensão da letra como objeto escultórico, o conhecimento e a execução de diferentes técnicas de impressão e suas características visuais configuramse em informação tátil/visual a ser aproveitada. Compreendendo a multiplicidade de escrituras e, sobretudo, as inscrições operadas na cidade, o poeta assinala que este organismo de vivências transcende o sistema da língua: "O veio e o aluvião: as sucessivas camadas de todos os lados / A cidade é um livro 'matriz' em permanência" — e prossegue por um universo relacional no qual se encontram o texto, a máquina que o recodifica e a cidade na qual o sujeito se inscreve e se põe à deriva — "O labirinto, como prelo de espelhos, girando a roda gigante das imagens / A máquina que é gráfico estatístico de ferro e, ao mesmo tempo, planta da cidade / A cidade participando do sonho; desordem emocional / (...) / A cidade e o registro do inesperado / (...) / A cidade, em indiferença de nuvem alta, / só se mostra a quem sabe decifrá-la.(1)"' Dias-Pino publicou seu primeiro livro, A Fome dos fados (1940), em Cuiabá. Neste poema e em outros produzidos ao longo da década de 1940 - A Máquina que Ri (1941) e Dia da Cidade (1948) —, a linguagem aparece como questão central e os avanços tecnológicos da época como temática recorrente. Produzidos em tipografia, estes livros revelam, por seu tratamento gráfico, que já em suas primeiras obras Dias-Pino lança mão da visualidade e do uso do espaço como elemento estruturador — o que só viria a caracterizar a produção de outros poetas no Brasil a partir dos anos 1950. No poema Dia da cidade, o grafismo criado pelas linhas ortogonais combinadas aos versos sugere deslocamentos urbanos nos quais se conectam, na ambiência fluida, imagens e textos — universo em que a linearidade da língua se desestrutura. As linhas verticais e horizontais desenham um mapa que, mais do que dispor geograficamente as palavras no espaço, visa operacionalizar as opções de leitura do texto. Em junho de 1951, Dias-Pino lança com Silva Freire o movimento Intensivista em Cuiabá. Em manifesto publicado pelo grupo no jornal 5arâ, toma como parâmetro a poesia simbolista, mas sob nova perspectiva. Os simbolistas estariam presos a uma única dimensão da imagem, enquanto os intensivistas propunham um simbolismo duplo: "Além da imagem está outro significado

Wlademir Dias-Pino  

E-book do livro “A AVE”, poema concreto de Wlademir Dias-Pinto, publicado originalmente em 1956 durante a 1ª. Exposição Nacional de Arte Con...

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