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A AVE poema concreto de wlademir dias-pino

poexĂ­lio 2015


poesia/poema Texto (fragmentos) de

ROGÉRIO CAMARA extraído de WLADEMIR DIAS-PINO: poesia/poema. Organização Rogério Camara e Priscilla Martins. Tradução: Ana Teresa de Castro Lima. Brasília, DF: Estereográfica, 2015. 204 p. ilus. col. 23x21 cm. Apoio Funarte. ISBN 978-85-68809-01-3

EM SUA OBRA POÉTICA, Wlademir Dias-Pino formula conceitos de linguagem que contrapõem o termo poesia ao de poema, discussão que seria potencializada na transição entre os movimentos da poesia concreta e do poema//processo. Em constante confronto com a hegemonia do alfabeto, o poeta propõe algo para além da associação do pensamento à língua e estabelece novas formas de inscrição a partir do uso exploratório do meio e da justaposição de elementos textuais e imagéticos. Segundo essas formulações, o poema se fundaria na ampliação criativa do universo da linguagem, não se restringindo ao uso da palavra e tornando-a, até mesmo, dispensável. Já a poesia, se daria no campo da língua. O poema, em sua concepção, permitiria, ao contrário da poesia, o acesso a uma nova imaginação desvinculada da escrita alfabética e da oralidade. Como exercício de criação de linguagem, o poema estaria afinado com a programação dos meios e aparelhos de seu tempo. Dias-Pino define sua produção como processos de inscrição; a escrita obedece ao código, já a inscrita, lhe possibilitaria explorar o trânsito inesperado das imagens em liberdade. Além de poeta, Dias-Pino atuou como designer gráfico, ilustrador e pintor. Durante os anos 1950 e 1960, esteve à frente de publicações de movimentos de vanguarda. Editou a revista Movimento da UNE, produziu vitrines e decorações de carnaval. O cerne de toda sua produção está na incessante busca por um pensamento gráfico através do qual explora as imagens em suas dimensões poéticas.


Nascido em 1927 no Rio de Janeiro, mudou-se com a família para Cuiabá em 1939. Filho de tipógrafo, o contato precoce com o universo da produção gráfica foi determinante em seu trabalho. Cedo se habituou a observar a forma das letras antes da palavra, o significante antes do significado. À compreensão da letra como objeto escultórico, o conhecimento e a execução de diferentes técnicas de impressão e suas características visuais configuramse em informação tátil/visual a ser aproveitada. Compreendendo a multiplicidade de escrituras e, sobretudo, as inscrições operadas na cidade, o poeta assinala que este organismo de vivências transcende o sistema da língua: "O veio e o aluvião: as sucessivas camadas de todos os lados / A cidade é um livro 'matriz' em permanência" — e prossegue por um universo relacional no qual se encontram o texto, a máquina que o recodifica e a cidade na qual o sujeito se inscreve e se põe à deriva — "O labirinto, como prelo de espelhos, girando a roda gigante das imagens / A máquina que é gráfico estatístico de ferro e, ao mesmo tempo, planta da cidade / A cidade participando do sonho; desordem emocional / (...) / A cidade e o registro do inesperado / (...) / A cidade, em indiferença de nuvem alta, / só se mostra a quem sabe decifrá-la.(1)"' Dias-Pino publicou seu primeiro livro, A Fome dos fados (1940), em Cuiabá. Neste poema e em outros produzidos ao longo da década de 1940 - A Máquina que Ri (1941) e Dia da Cidade (1948) —, a linguagem aparece como questão central e os avanços tecnológicos da época como temática recorrente. Produzidos em tipografia, estes livros revelam, por seu tratamento gráfico, que já em suas primeiras obras Dias-Pino lança mão da visualidade e do uso do espaço como elemento estruturador — o que só viria a caracterizar a produção de outros poetas no Brasil a partir dos anos 1950. No poema Dia da cidade, o grafismo criado pelas linhas ortogonais combinadas aos versos sugere deslocamentos urbanos nos quais se conectam, na ambiência fluida, imagens e textos — universo em que a linearidade da língua se desestrutura. As linhas verticais e horizontais desenham um mapa que, mais do que dispor geograficamente as palavras no espaço, visa operacionalizar as opções de leitura do texto. Em junho de 1951, Dias-Pino lança com Silva Freire o movimento Intensivista em Cuiabá. Em manifesto publicado pelo grupo no jornal 5arâ, toma como parâmetro a poesia simbolista, mas sob nova perspectiva. Os simbolistas estariam presos a uma única dimensão da imagem, enquanto os intensivistas propunham um simbolismo duplo: "Além da imagem está outro significado


poético" (2). Para Dias-Pino, o simbolista opera somente sobre o plano da língua, enquanto o intensivista visa alcançar outras dimensões imagéticas. Familiarizado com o relevo dos clichés tipográficos e contrário ao sentido essencialmente frontal do código alfabético, Dias-Pino declara: "A escrita é frontal! A escrita é perfil! (...) O simbolista é um desenhista e o intensivista é um escultor. A escultura é um desenho de todos os lados" (3). Em sua obra, o código semiótico é indissociável do código linguístico e requer uma leitura ativa, pautada por deslocamentos. Os planos (topográficos) ganham destaque como elementos articuladores: "(...) interessante é o choque de palavras. Para os simbolistas as letras tinham cores, para nós as palavras valem devido à experiência e o espírito de sínteses-poemas (...) As palavras unidas por uma ligação aérea e subterrânea". Surge, já no Intensivismo, o vínculo entre as linguagens verbal e matemática: "Essas repetem / sobre si mesma / palavras e números; / números de letras, / números de sílabas" (4). A palavra é uma unidade numérica inserida na estatística do texto. Torna-se referencial em seus poemas concretos, o procedimento de situar a palavra e a letra fora do verbal e dentro do campo semiótico, o que possibilitaria permutações entre diversos códigos. No livro-poema A Ave, os processos de recodificação da palavra ganham evidência. O livro foi produzido entre os anos 1948 e 1956, período em que Dias-Pino integra o movimento Intensivista em Cuiabá, e, retornando ao Rio de Janeiro em 1952, inicia o diálogo com os integrantes do movimento da poesia concreta — o qual passaria a integrar, mas mantendo uma vertente própria. Os exemplares, produzidos em processo artesanal, apresentavam registros gráficos diferenciados, o que, para o poeta, revelam a intenção de caracterizar o livro como instalação. A Ave inaugura uma interatividade diversa entre leitor e poema e nos convida a elaborar novas versões da obra, uma vez apreendida sua lógica de funcionamento. O livro-poema exige a exploração das propriedades físicas do livro — as texturas e transparências das páginas, o formato, a relação entre uma página e outra, a sucessão de códigos analógicos e digitais, etc. "Eu nunca fiz questão de lançar outra edição (de A Ave), porque o interessante para mim não era que a pessoa encontrasse o livro pronto, (...) é preferível que ela leia a estrutura do livro e reconstrua o processo" \95\0, afirma o poeta. A concepção de A Ave envolve diversas linguagens e tecnologias ligadas ao processo de produção de textos — como nas máquinas de linotipia, as letras digitadas no teclado são recodificadas em uma fita que, através de


perfurações, orienta a fundidora de tipos a liberar as matrizes das letras, regulando a composição tipográfica. Dias-Pino questiona: "O que se coloca no lugar do código (verbal) quando este é destruído?" (6). O poeta implode os códigos regulares de leitura para propor permutações numéricas e visuais. Ele se relaciona fenomenologicamente com a máquina e opera um gesto negativo contra o objeto, inscrevendo-se dentro do processo e tornando-o evidente. Assim, rompe com o mundo da interface final (o texto impresso), secciona a máquina revelando o seu mecanismo e, mais do que isto, sobrepõe linguagens (códigos e imagens) em operações que envolvem o processo. Seus poemas potencializam a informação na medida em que se movem na (im)probabilidade. A Ave se apresenta como um programa. A partir da contínua metamorfose do código verbal/visual, perde-se a referência inicial da palavra, transformando-se o poema em elemento plástico. No primeiro par de páginas, a folha translúcida vem impressa com a frase espacializada: "A AVE VOA dEnTRO de sua COr", deixando transparecer na folha seguinte o gráfico composto de linhas retas que roteirizam a leitura e estabelecem ligações sintáticas. Palavra e desenho se integram através da transparência do papel, fazendo com que duas páginas correspondam a uma unidade, o que caracteriza, segundo o poeta, um poema de camadas: "quando se leva a transparência à radicalidade do vazamento". Na página é projetada a perspectiva do livro, definindo-se como unidade e /('n/c para as demais páginas. A espessura e o manuseio são elementos de expressão, enquanto, diz Dias-Pino, "os vazamentos atravessam as páginas quando um nível de comunicação e significado instantaneamente está presente em diversas páginas no mesmo nível em que apresenta o uso da potencialidade característica da matemática". Os gráficos servem como norteadores de uma leitura contínua e angular. As letras maiúsculas não têm como principal objetivo efeitos expressivos visuais e muito menos vocais. A poesia de DiasPino não interessa a oralidade: "Um poema escrito é antes de tudo visual, e não sonoro, ele não é um instrumento musical... A poesia silenciosa, a poesia espacional é contra o herói". Se as linhas se fazem presentes como "índices direcionais de leitura", as letras maiúsculas intercaladas com as minúsculas permitem que os textos recombinados entre eles e os vértices dos gráficos conquistem novos significados poéticos. Para o poeta, as maiúsculas indicam que, no curso da leitura, as letras serão reutilizadas: "Assim quando começamos A Ave, estávamos participando do movimento Intensivista em Cuiabá e muito nos preocupava o problema da colocação da palavra nos vértices (dobradiças) do espaço (o nível ou a altura da palavra no suporte do papel significava a potencialidade)".


Em 1956, Dias-Pino participa da 1a Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com outros cinco poetas: Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azeredo (que integravam o grupo Nolgandres) e Ferreira Gullar. A exposição contava ainda com a participação de artistas plásticos ligados ao movimento concreto do Rio de Janeiro e de São Paulo. Poesia, pintura e escultura foram apresentadas conjuntamente, reafirmando a correspondência estabelecida pelo concretismo entre as diversas formas de manifestação artística, entre o verbal e o visual como elementos indissociáveis na construção de sentido do objeto artístico. Dos seis poetas revelados, Dias-Pino era o que apresentava uma proposta formal (/visual) mais radical. (...)

Notas 1. DIAS-PINO, Wlademir. A cidade. In: D1AS-PINO, Wlademir. Wlademir Dias- Pino; a separação entre inscrever e escrever. Cuiabá: Edições do meio, 1982, p. 145. 2. DIAS-PINO, Wlademir. Intensivismo. In: Sara, no III, ano l,jun. 1951, p. 5. 3. Ibid. In: 5arâ, n° IV, ano 1, jul. 1951, p. 1. 4. DIAS-PINO, Wlademir. As palavras, 1952. 5. Nesta e em outras citações que estão sem nota ao longo do texto, transcrevem-se partes de diversas entrevistas realizadas com o poeta pelos organizadores, entre os anos 2007 e 2015. 6. O alfabeto da poesia escrito na língua "A". Correio Brazitiense, sexta-feira, 24 de setembro de 1993.


Fac-simile da capa da edição de A AVE, de Wlademir Dias-Pino, de 1956.


COLOFÃO E-book do livro “A AVE”, poema concreto de Wlademir Dias-Pinto, publicado originalmente em 1956 durante a 1ª. Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna do São Paulo. O texto da apresentação (de Rogério Camara) e as imagens da presente edição foram extraídos de uma nova versão do referido poema preparada para o livro ”WLADEMIR DIASPINO: poesia/poema. Organização Rogério Camara e Priscilla Martins” (Brasília, DF: Estereográfica, 2015); e-book preparado em agosto de 2015 para o Portal de Poesia Iberoamericana (www.antoniomiranda.com.br), organizado por Antonio Miranda. Editora Poexílio.



Wlademir Dias-Pino