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(poiesofia)

PoexĂ­lio


Leio e releio Popper há décadas, principalmente por causa de sua teoria do conhecimento objetivo, dos três mundos: físico, metafísico e o do registro do conhecimento humano como “coisa”; defendendo-se da pecha de positivista, assumindo o liberalismo. Eu sou um “pessimista ativo”, mas ele é assumidamente, a partir da crença da evolução da ciência, um otimista “em busca de um mundo melhor”. Crítico acérrimo de Habermas, nunca deu ouvidos a Marcuse — autor que eu lia naqueles anos pré e pós 68... — e sempre acreditou que o papel da ciência é resolver problemas, quando a filosofia se torna útil e prática. Poiesofia. Tem quem pretenda separar a filosofia da poesia... apesar da origem comum. Existe o poeta filósofo? E o filósofo poeta? Tem quem considere haver poesia apenas na literatura. Apesar de haver uma tese inteira sobre isso, não me convenci. Refuto e luto por outra visão da questão... Qual a diferença entre um filósofo e um cientista? Todo filósofo é cientista? Todo cientista é filósofo? Nenhum interesse, no momento, pelas respostas. Mil hipóteses em questão. Uma certeza: Popper era um praticante — e criador — de uma Filosofia da Ciência. Este livro é uma provocação. Um delírio de verão. Um arroubo, um exercício parafrásico a partir da releitura de Popper, de suas próprias releituras sobre a filosofia como forma de modelar o pensamento e resolver questões pertinentes, em busca de uma verdade que só existe no processo de conjecturas e refutações, ou seja, inatingível. Mas em que o estado do conhecimento é sempre útil...


A “Herrar é umano” RUBENS JARDIM Aprendendo e errando. A linha reta, sem surpresa, leva sempre ao mesmo lugar: “eu não busco, eu encontro” (Picasso) — tentar, errar, aprender. Perder-se é um mandato libertário! Perversão assumida, discurso controvertido, marginal por vocação. “seja marginal / seja herói” (Hélio Oiticica) sem ser radical... à margem, por trilha lateral. Tudo que dá certo vira problema; certeza, eu não tenho, sou mesmo provisório. Entre o verdadeiro e o certo, fico com a dúvida: Verdade inconstante, duvidosa. “Vamos devagar que eu estou com pressa”.


B Não dá para viver no relativismo! Nos extremos, Desta margem à outra há a intensidade: cresce e decresce, some e aparece. Relativismo, não! “É uma traição à razão”, garante Popper, de seu pedestal, em outro astral. Mais ou menos, parece que sim, talvez, quem sabe... Quem sabe — dizem — aposta na claridade, cuja intensidade ofusca ou esclarece.


C Dogmas, não! “I do not bilieve in belief” desde E. M. Foster. Mais ético do que estético! Cético, sim. Sem ser hermético — hermenêutica do ser. Crítica, não, sem prever as provas (sempre em questão).] Que distância entre o sim e o não, objetivo e subjetivo na contestação? Se é assim ou é assado, deixar de lado: quem, entre uma teoria e outra, fica dividido ou calado? Conhecer é assumir, formar sua realidade, busca uma verdade enquanto, durante e tal e qual ...até aqui, vou bem ou vou mal?


D Bem sucedidas: células, umas sucederam as outras. Ter sucessor, ter sucessão, continuidade! As células são descontínuas, vão se dividindo, multiplicando-se a partir da originária. Amor plural: dividir-se, multiplicar-se é natural. Vou continuar depois de mim! — não em reencarnações, não — em partículas, descendências, associando-se indeterminadamente. Percepção de determinada – mente: ideacionalmente. Infinitude numérica, sim: os números não têm fim. Ao poeta Salomão Sousa eu confidencio o que já é público: “não é uma invenção, é uma descoberta” (Karl Popper).


E “Que se conheça o que une o mundo em seu íntimo”. (Fausto, de Goethe) Extraímos do pensamento o que não está na natureza: naturalmente, não. Ação impositiva (Kant), Sujeição. É como construímos e moldamos o mundo. Íntimo do mundo, em nós. Vós, eles, mas nem todos. Em benefício/malefício de todos. A ciência também mata. Nós a tornamos assassina. Sina maligna. Ensina: da teoria da relatividade à bomba atômica.


F “Nossas teorias são criações livres do nosso intelecto”, disse Kant. Com elas queremos entender o mundo, dominar, transformá-lo para o bem e para o mal. Afinal, nem a nós mesmos dominamos. Tentamos. Tentáculos, obstáculos, espetáculos sobre-humanos. Levianos. Livres? Livros. Realidades exossomáticas.


G “A (real X idade) refutação mediante exemplos práticos” (Platão) Dialética da conjectura, tessitura da poética. Só o bom é belo? A feiura do objeto, a beleza do abjeto. Incesto, feto. O execrável, o cruel na arte e na literatura, na poesia. Haveria outro lugar para o horrível? Falso, verdadeiro, crível ou incrível?


H Tudo se resume em (entre) portas e janelas. Portas: Auto-ridades investidas de poder usurpado: “arrogante presunção do saber” (Popper) do cientista a soldo, do político profissional, do professor de frases feitas, do religioso que troca pensamento por paramento e homilias. Janelas: em busca de um “critério objetivo e não-ideológico de progresso”. Sigo com Popper: “torna a luta contra o pensamento dogmático um dever”. Ser modesto como Newton, menino, catando conchas diante do oceano imenso: dimensões por conhecer, espaços por ocupar sem perverter. Portas: da soberba de quem se julga capaz de falar em nome de Deus, de Zeus, como seus. Como dizia um fariseu “Deus não existe, mas o diabo persiste.”


I Juruna perguntou: “prá quê tanto papé?”, a tudo que ele sabia dava prá ir a pé. O conhecimento tem árvore genealógica? Tem origem, ascendência? No pensamento complexo de Morin existe uma anterioridade que sustenta a posteridade. Longe de mim achar que é só assim, nem ele pretendeu que a autoridade era a mãe de toda herdade. Validade da verdade na fonte primeva, original? Escrita-código – DNA: a inscrição no gene, do cromossoma. Só vamos até onde podemos? Como alterar e ampliar nossos limite É química ou alquimia? Fisicalismos?


J Derivados do espaço que habitamos, em que nos desenvolvemos — um darwinismo atávico — traçando nosso percurso — homeostasia > sinergia > mutação > próteses! Aonde chegaremos? Existe um “destino” nas pessoas: gravado, em adaptação... Longevidade e rejuvenescimento. (Estatisticamente eu já morri!)


K Xenófanes separava doxa de episteme: “Os deuses não revelaram tudo aos mortais desde o início. Mas no correr do tempo encontramos, procurando, o melhor”. Melhor buscar “o caminho para descobrir e eliminar erros”, Popper conclui. Certo: o caminho reto — direto — já dissemos: só vê o óbvio, só encontra o que busca; o tortuoso é incestuoso: frutifica ou não justifica.


L “Assim é, se os parece”, lembrando Pirandello. É apenas o começo. As fontes do conhecimento — que alicerçam o discurso acadêmico — estão em crise permanente. Permanente, só a crise. “Fontes autoritárias do conhecimento”, questiona Popper. Que discerne, se governe — o pensamento fossilizado. É presente ou é passado? Percebemos ou conhecemos? De que fonte beberemos? Levam ao erro e ao desterro? Ave César! Ave Maria! Avestruz.


M “Só sei que não sei” é um chavão. Tem quem tenha certeza disso — o sábio. Mas o ignorante sabe tudo: viu na TV. Ignorância rima com arrogância. Eu ignoro, tu ignoras, o político tem certeza, o vendedor garante. Na religião, virou dogma. O político não é sábio, é esperto. “Sem expertise”, afirma o Barão de Pindaré Jr. Mas o político convence outros ignorantes. Antes e depois: a mentira repetida, dizem, vira verdade, quem diria! “Em nada saí do rol dos ignorantes”. (Goethe)


N “Jamais devemos fingir saber, e jamais devemos usar grandes palavras”, Popper O libelo: — contra o palavrório do que posa como erudito: fingimento de uma sabedoria, trivialidade empolada, de bajulador do leitor. Raso pensamento retorcido, pomposo, da moda dominante — afogar-se no mar do discurso. Alguém reconhece alguém no retrato, ou é apenas um viés caricato?


O Contra o autoritarismo e o dogmatismo resumidos em leis impostas e mandamentos. “torrente de palavras no lugar de argumentos” (Popper) — exprimindo o simples de maneira rebuscada; — o trivial de maneira difícil. Difícil é ser simples, fácil, Sem ser banal. “Em geral o homem crê tão logo ouve palavras Mas por trás delas deve haver em que pensar” (Goethe) E o Direito no lugar da Justiça? Como poder e retórica. Eloquência no lugar da consciência. Bazófia. Valores morais: costumes dominantes, direito reinante impede diferenciar o “normativo” do factual, o lenitivo do real. Tempo e lugar. Universal e o circunstancial.


P TEMPORAL. “Infinitude do espaço, do tempo”, indaga Kant. “Universo finito, mas sem limite”, responde Einstein. A sequência de anos não tem fim mas, quando teve início? De algum momento até agora. “O mundo não pode ter um começo no tempo”. Kant. Fim no tempo ou no espaço? Se não tem começo, pode ter fim? Para mim, sim. (Em algum momento).


Q Observadores ativos, impomos ordem e leis ao nosso entendimento do mundo. Não depende de nós, no centro que não tem centro. As respostas que temos não bastam. Ideias e ideais: tudo e jamais. “Kant privou o homem de sua posição central no universo.” (Popper) No entanto, o mundo gira em torno de nós. O mundo a partir de nossa posição espaço-temporal. Ideal.


R A vida não tem valor por ser finita — que seja eterna enquanto dure como Vinicius empreendeu, viveu e amou intensamente, obstinadamente. Quem diz o contrário, mente. Padres-nossos, manhãs tardias, noites nas entranhas passageiras. Juras e pecados transitórios. “Reclusos em varizes de libido” Jorge de Lima. Viver é perigoso, garante Guimarães Rosa, no gozo, sufoco e pasmaceira. Faz-de-conta.


S Gambiarras, fios descampados, inter-relação ou curto-circuito. 3 ”mundos” em articulação: 1. Físico. 2. Metafísico. 3. Conhecimento objetivo:

Semiose. Poiesis. Animaverbivocovisualidade. Corpo, mente, e criação — construção e desconstrução consequente.

Poesia: registro do conhecimento combinando razão e sentimento, carne e memento. “Lede além / do que existe / E daquilo /

na impressão.

que está aquém / da expressão.” Jorge de Lima


T Nada de catastrofismos!!! “Por um mundo melhor” (Popper) Popper era um otimista, eu sou um pessimista ativo, Outros são passivos e alienados na antese da hipermodernidade. (Bispo do Rosário, engalana teu estandarte!) Vamos em procissão na contramão da História. Até que as máquinas governem o mundo no pós-humano. Pois, pois. E depois?


U Só sei que não sei. Sei não! Miscigenação, multirracialidade. Uma nova humanidade. Nissei, sansei, não sei mais. Tanto faz. Cafuzo, confuso. Contra o racismo! Pela diversidade. Fim do nacionalismo. Darwin redivivo: não vence o mais forte, sobrevive o mais inteligente. “Nem Black, nem White. Nóis é mestiço.” Barão de Pindaré Jr. Daí a “Filosofia Mestiça” de Michel Sèrres. Saí da senzala, o globo de cabeça para baixo: não há encima nem embaixo. Não sou capacho. Macho, sim, pero no mucho. Sexo e igualdade. Sexo vai de A a Z, você vai ver! Iguais, mas diferentes, divergentes não...”Tempos melhores virão” (Cacá Diegues).


V SAPERE AUDE Enlightenment! Éclaircissement! Augklärung! “Tem coragem de usar teu próprio entendimento” (Kant). “O caminho da auto-emancipação pelo conhecimento”, proclamava Popper. O entendimento impõe leis e molda nossa percepção, se não, imitaremos: “os traços de Eduardo me disfarçam, as máscaras de Carlos me acomodam, sou modelo de tristes e de freires, busco modelo para ser os outros.” (Jorge Lima)


W E que (não) baste a simples razão. Existem leis ou são hipóteses? — apenas conjecturas e refutações? (Xenófanes e Popper) A única verdade é não ser verdadeira, ou é, até ser refutada. Mas há um critério para o progresso científico na visão de Popper: “A ciência é uma atividade crítica”. Superando erros, e errando sempre.


X Não existem fontes últimas do conhecimento. Epistemologia nada tem a ver com fontes. E o conhecimento inato? De fato, há o saber registrado em nosso fonte. “O conhecimento não parte do nada”. “A clareza é um valor intelectual, — a exatidão e a razão não.” Popper, sempre Popper, até o final. O conhecimento é limitado, a ignorância é ilimitada — e a burrice, invencível? Superável?


Y Kant e o “princípio da autonomia”: “jamais podemos aceitar a ordem de uma autoridade como fundamento da ética”! Ser responsável de si mesmo. Religião, política, ciência — uma questão de consciência? Opinião? Mas, se Newton era irrefutável! Se Deus é onipotente! Einstein duvidou de tudo mas — dizem — invocou Deus ao morrer... Quem pode nos socorrer?!!! Humano, deveras humano, apenas.


Z E daí, e daí? Estórias. Descobertas não têm dono. Têm autoria? Autoridade? Alteridade? E a verdade?!!!

Refutar! É a palavra de ordem. E a História, é incontroversa ou cabem versos adversos?

“... podemos ser bastante diferentes uns dos outros no pouco que sabemos, mas somos todos iguais em nossa ignorância infinita.”

Karl R. Popper (1902-1994)



SEI NÃO