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António de Cértima

Os que sentem E os quE pEnsam contos

INÉDITO Edição póstuma


Título: Os Que Sentem e os Que Pensam Autor: António de Cértima (Giesta, Oiã, Oliveira do Bairro, 27-07-1894/Caramulo, 20-10-1983) Edição: 1ª, do original do seu espólio entregue a Arsénio Mota Texto: digitação e revisão por A. M. Capa: Data: Maio, 2012 Esta publicação serve só fins privados. É proibida qualquer utilização comercial.


DO AUTOR Combate Epopeia Maldita - libelo de uma derrota militar, esg. Legenda Dolorosa do Soldado Desconhecido de África, esg. O Ditador, esg. As Ideias Discurso à Geração Lusitana, esg. Colóquio com a Morte - ensaio sobre um cantar andaluz Notícias de Anto e de Purinha - vida e paixão de António Nobre O Primeiro Dia do Homem Fora do Paraíso - estudo e visão O Carisma de Fátima e a Teologia Islâmica - sentido e fim das duas religiões monoteístas O Esplendor da Terra I Sortilégio Senegalês II Sevilha, Noiva de Portugal - 2000 anos de história e de emoção III Doce França IV Sobre as Pedras de Bizâncio, a publicar Vária Volúpia do Mar - novela curta, esg. Alma Encantadora do Chiado - crónicas, esg. Vida Voluptuosa - contos, esg. Escandalosamente Pura - romance, 2ª ed. Nono, Não Desejar a Mulher do Próximo - seis temas dramáticos Poesia Bodas Helénicas, 2ª ed. Jardim das Delícias, esg. Caminho de Siegrefied, esg. Tu e o Teu Corpo, esg. Trópico de Câncer - poemas africanos Trajectória Sem Fim - antologia Poesia musicada Canção das Estradas no Estio - música da Condessa de Proença-a-Velha Epígrafe de os ojos de oro - música de Luis Lerate Canción del alma triste de Susona - música de Ernesto Bacharach Eternelle présence - música de Monique Urdarianu Petite chanson du départ - música de Monique Urdarianu Em língua espanhola Itinerário de los portugueses en Sevilla - crónica emotiva, esg. Baladas de Sevilla en Primavera - poemas, esg. Para o Grande Crepúsculo (trilogia) I Não Quero Ser Herói - romance


II Que Importa a Vitória? - a publicar III O Nada e o Amanhã - a publicar A publicar Ela e o Homem - teatro Divina Canção (Os Sinos de Fátima) Riso e Contra-Riso (Sátira lírica) Trilogia Contra o Espanto I Soldado, Volta! - uma apóstrofe de combate, 3º milhar II Epístola a Job, 1º milhar III Tu Enganaste-te, Rússia! - a publicar


UMA IMAGEM NO ESPELHO

Em casa do engenheiro Carlos Sousel. Após um jantar de aniversário. Num living amplíssimo, a roda de convidados e amigos íntimos toma o café. O ar, espesso e quente, aromatizava-se das emanações dos licores e do olor dos cigarros americanos, animando deste modo o sistema nervoso dos palradores, já excitados pelas suculências da mesa. Ora, se no circuito cronológico do dia há uma hora que, segundo os psiconeurologistas, predispõe aos automatismos da loquacidade ou do irracionalismo indiscreto, isto é, da falácia ou da asneira, essa hora não poderá deixar de ser aquela que sucede à ivresse expansiva dos grandes repastos. Carlos Sousel, saboreando lentamente o seu predilecto pearson-gin entre as almofadas de um divã, procurava com insistência o olhar de Maria Berta, tipo magricela de túlipa por florir, fenecendo em mutismo e elegância, a quem o unia o afecto cordial votado por sua mulher à querida companheira e confidente das horas longas, exacerbadas de excitação e mutismos nevróticos, do mesmo internato colegial. Acabou por encontrá-lo e, parecendo apressado, disparou: - Então, Berta, sempre é verdade o que corre por aí…? Maria Berta, encarando-o com vivacidade: - E o que é que corre?! - Corre… o que toda a gente sabe! - Mas eu não sei o que toda a gente sabe! - Dissimulas? - Eu? Que ideia…! - Então ouve, é só isto: que vais casar com o Homem de Luto. Todos os assistentes interromperam a secreta cadeia de mal-dizer em que entretinham o seu afã e, com evidente estupefacção, exclamaram em uníssono: - Com o Homem de Luto? Berta, não pode ser!

Mas este Homem de Luto, assim às primeiras, no insólito simbolismo da sua alcunha, de que caprichosa toca social nos chegava? De um conto de Pöe ou de qualquer patética realidade? Expliquemo-nos. O Homem de Luto era, há anos, uma figura inconfundível no dandismo indígena do Chiado. Por ali passeava, em aparições fugazes, o seu vulto enroupado de negro, de cabeleira intratada e uma espécie de orgulho triste, que particularmente se expressava na gelidez branca da gardénia que sempre exibia na lapela. Olhando-o num soslaio de curiosidade, a tribo recalcitrante e guedelhuda que se pavoneia pelas portas da Marques e da Bertrand, envelhecendo sem graça e sem


espírito, outorgava-lhe os mais bizarros apelativos desde o «lunático exibicionista» ao «toxicómano» disfarçado num pré-rafaelismo dessueto. E assim este homem se entronizou em catapulta na perspectiva das imaginações, convertendo-se a sua máscara numa esfinge indecifrável, embora amável, entre o espantoso cortejo de máscaras sem história da conhecida artéria lisboeta. Provinha, porém, de outro mistério o augúrio merencório que a sua estranha silhueta induzia. Respondendo, pois, à pergunta que tão forte sensação tinha produzido na sala, Maria Berta, sorvendo um último gole de café, exclamou, ao mesmo tempo que fitava os assistentes com um ar cansado, dubitativo: - Valerá a pena falar…? Creio só haver aqui duas pessoas que conhecem o segredo do indigitado. Por conseguinte, tanto você, Carlos, como os seus amigos nada sabem da biografia íntima desse homem cuja gravidade, que ele procurou num comportamento muito pessoal e também na maneira de vestir, é mais o resumo de um drama que qualquer desvio espectacular. - Óptimo! Vamos saber tudo desse novo hippie disfarçado! Outras vozes: - Decerto que vale a pena! - Conte… Conte! Maria Berta: - Vou dar-lhes a todos, acerca do que esperam, uma formidável decepção… Acendeu um cigarro. Carlos Sousel: - Eu também devo considerar-me incluído nesse número de «todos»? Maria Berta, fitando-o com intenção: - Talvez não… e talvez sim! Um novo trago desceu nas gorjas saturadas. As atenções tinham-se tornado tensas, no gáudio que antecede as confidências escandalosas. Um silêncio pairou, no qual pareciam flutuar, errando ao sabor das ressacas, cabeças e corações. Berta, dissimulando a emoção, num crispamento de pétala que se desgarra: - Na verdade, para alguns dos nossos amigos mais próximos eu era, com efeito, a noiva do Homem de Luto. Razões? Estas: a minha solidão… a sua solidão; algumas viagens juntos; parceiros nos cinemas, nos teatros e cocktails, e noutras reuniões de má língua legalizada… Claro, facilitando os elementos próprios para uma conclusão justificativa acerca do que corria sobre nós. (Um silêncio.) Precisamente hoje, ou melhor, desde a tarde de hoje que já não sou. Logo, deixou também de ser válido tudo quanto se aventava a nosso respeito. Não é assim? Decorreu uma pausa decepcionante, como que uma espectação abortiva perante a surpresa de uma notícia que parecia desconsolar a todos como a mais banal estupidez. Maria Berta, querendo compensar a fraude de que todos os ouvintes da sua narrativa se sentiam vítimas, animou a sua figura pálida de um sorriso insinuante e retomou a palavra. - Bem, vou dar-vos uma notícia rápida acerca da pessoa em questão; uns traços do seu passado, a fim de poderem entender de algum modo a singularidade de seu presente. – E, sorridente, num desafio jocoso: -Atenção! Todos a postos? As vozes: - Todos a postos! - Então oiçam. Este homem foi, há uns sete anos atrás, o acontecimento mundano mais «bestial» das recepções de Lisboa. Com uma atracção física que era evidente, culto, endinheirado, o «partido» que tinha entre as mulheres derrotava o


concorrente mais atrevido. Para cúmulo da boa fortuna, a posição de que desfrutava em certo Ministério punha-o em comunicação com as sucessivas camadas de estrangeiras que, com os seus familiares, nos visitavam ou aqui residiam. E estas disputavam-no à compita. Em resumo: um êxito. Um êxito que ele fazia o possível por dissimular, pois ao contrário do palrador que se vangloria até à ignomínia, ele preferia colher em silêncio o que, na ufania dos profissionais do galanteio, se torna quase sempre, e muitas vezes sem motivo, objecto de escândalo público. Dizia de si, num ar de garotice, que queria ser «uma certeza e não um espectáculo». E conseguia-o, de mais a mais auxiliado por um temperamento de reflexivo, de concentrado, que o levava a isolamentos em que ele, de resto, se comprazia e a que chamava, com certo orgulho, o seu estado de inefabilidade. Aparecia pouco, visto encontrar-se muito tempo fora de Portugal, mas por onde passava, deixava rasto, abria sulcos no coração de todas aquelas que se lhe aproximavam. O seu trato com outras civilizações criara nele aquela finura indefinível, aquela masculinidade feminilizante que caracterizam o homem cosmopolita e de que nós, mulheres, facilmente nos apercebemos desde a suave entonação de certas frases até ao arranjo das unhas e ao nó da gravata. E as letras, as ideias, as reflexõs. Na sua mala de viajante encontravam-se sempre um livro de Matemática e os sonetos de Antero. E um dia apareceu casado. Foi um espanto. Justificando-se ao contrário do que a todos se afigurava, ele respondia sempre com uma tremenda revindicta: que amava loucamente a sua mulher. Esta, mergulhada num amor, ou numa lascívia, que a deslumbrava, pagava em igual moeda a embriaguez de que era, com efeito, objecto. Os anos foram passando e o fervoroso casal, amputado de filhos, preenchia a crueza desta esterilidade imprevista com os mais ousados desvarios da empresa conjugal. Viviam numa permanente e inquietante lua-de-mel. Vinham pouco a Lisboa: ela, só quando muito acossada pelas saudades da terra; ele, para fugir ao laço de qualquer aventura perigosa nos arredores do lar… Esvaziou uma nova chávena de café. Depois continuou: - Um dia, esta mulher, em quem a elegância parecia eternizar os anos, adoeceu de súbito, inesperadamente, gravemente, sem que a medicina, esta medicina científica de que hoje tanto nos envaidecemos, chamada a socorrê-la com todos os seus meios, desse esperança de salvá-la. Após algumas semanas de luta encarniçada contra o mal, a morte fechou-lhe os olhos. E agora, que dizer do marido? Um desesperado, um suicida, une épave? Quase tudo isso. Tomou um ar demente, fechou-se em casa a respirar as últimas rescendências daquele corpo que tanto o entontecera e, ao fim de largos meses de um recolhimento de túmulo, apareceu a frequentar o Chiado, fazendo uma espécie de via-sacra ao entrar em todas as lojas e boutiques em que ela costumava entrar ou de que era cliente, fazendo as mesmas estações numa mesa da Bénard ou no andar da Dior, e exibindo sempre, sobre o negro do trajo, aquela fria gardénia que todos conhecem – e que era, para ele, uma homenagem devota àquelas outras que sua mulher, apaixonada desta flor, trazia sempre para Lisboa quando regressava de Itália. Falando directamente para o dono da casa: - Passaram alguns anos. E eu, Carlos, que tinha sido, com sua mulher, a amiga mais íntima da morta, comecei então a aproximar-me mais deste infeliz marido que, às duas, se nos afigurava exilar-se demasiado na sua dor. Nasceu desta aproximação um sentimento mais vivo, mesmo uma certa ternura, que eu repartia pelo homem que carecia dela e pelo outro que em si próprio representava para mim a presença de uma amiga muito querida e prematuramente desaparecida. Ora, exactamente no dia em que você celebrou o seu casamento com a Zézé, ele mandou-me chamar a sua casa e, numa galantaria mais de mágoa que de paixão, fez-me uma proposta de matrimónio. Não me surpreendi. Mas embora o esperasse, este desfecho súbito não deixou de me produzir


um choque emocional. Respondi-lhe, por conseguinte, com o maior enternecimento, com a maior cordura, para não ferir o seu amor próprio já tão dolorido, fiz-lhe mesmo sentir o desvanecimento com que acolhia uma tal possibilidade, mas desloquei para mais tarde, dando-lhe assim tempo de reflectir vagarosamente, a pretendida realização do acto que me propunha. Depois de uma pausa, dirige-se agora a todos os presentes: - Está assim explicado o papel de noiva que, para muitas pessoas, comecei a representar junto do vosso já célebre Homem de Luto e que eu por nenhuma atitude quis desmentir, visto não querer causar-lhe uma decepção cujas consequências me fariam sofrer. E esclarecendo: - Porém, determinadas circunstâncias obrigaram-me a pôr um ponto final nesta atitude. E foi precisamente na tarde de hoje – que ficará como a mais «marcada» da minha vida – que, impelida por incidentes que não necessito de explicar (dizendo isto, olha na direcção de Zézé), me vi forçada a convencê-lo a que desistisse dos seus propósitos e, muito pior ainda, a confessar-lhe, finalmente, a razão que tinha para lhe impor esta desistência. Viva espectação. Todos parecem querer interrogá-la. Maria Berta: - Neste momento, sinto que devo acusar-me do que fiz… Arrisquei tudo o que queria ganhar por tudo o que perdi! Agora a curiosidade explodia em todos os lábios. As palavras estavam prestes a soltar-se ou soltavam-se mesmo: - Conte… - Conte! - Berta, não faça «caixinha»… - Estamos todos a ferver! - Não se cale! Maria Berta baixou os olhos, travando consigo uma luta de sentimentos que a fazia hesitar. Acendeu um cigarro e, circulando o olhar por toda a assembleia como se quisesse apoiar nesse exame as razões de uma decisão de consciência, iniciou o epílogo da sua narrativa: - Começarei. No entanto, e previamente, uma advertência. Não é sem constrangimento que lhes vou abrir o capítulo secreto de uma história que bem poderia ser o eloquente resumo de uma novela dramática, e se lhes peço que me escutem sem a mofa de quem escutasse um conto inverosímil, também não lhes prometo um desfecho de grande efeito. Sousel, cordialmente irónico: - Escaldamos, Berta! Ela, com um sorriso enigmático: - Não se apresse. – Calou-se por momentos e depois prosseguiu. - Entrei hoje naquela casa mais descontrolada que nunca. Fosse dos meus nervos, arrasados de lassitude, ou das recordações da morta, cujo aniversário fúnebre passa nestes dias, ao entrar ali tinha a sensação de caminhar sobre o tablado dos grandes artistas teatrais – com menos arte e mais realismo. Ele, no seu alto perfil a negro, patético, estilizado de plangência, naquele propósito de tirar efeitos sedutores de todos os seus gestos, esperava-me com mais ansiedade, decerto com mais esperanças do que nunca. Eu sabia-o; eu pressentia-o. São sempre desarmantes os contrastes entre o que se espera e o que sobrevém. Ele não podia adivinhar em que rumos de angústia a minha presença iria sepultar a sua confiante expectativa. A sala em que quis que eu entrasse –


coincidência a preparar o caminho aos seus intuitos – era precisamente aquela em cuja parede vermelho-Goya se ostenta, desde o dia do decesso de sua mulher, um espelho oval partido, de que restam alguns pedaços apenas ligados à moldura. Foi ali, naquele ambiente saturado de vozes e sombras evocativas, que eu o esclareci acerca das causas que levaram à morte sua mulher – causas mantidas secretas por mim e pelos médicos em fidelidade a uma promessa que a luz de uma vida, prestes a apagar-se, tornou inviolável como num juramento. Outra vez a narradora pareceu querer abster-se. Depois prosseguiu: - Contei-lhe então o que ele ignorava do seu próprio lar. E disse-lhe mais ou menos o que vão ouvir. Que sua mulher, fortemente sensitiva, vivera num mundo de êxtases, de embriaguez quase alucinante, servindo uma obra de amor de que ele não se dava conta. Sem muito se explicar, ela amava-o numa admiração e submissão de escrava e exigia dele o mesmo amor exclusivo. Logo, é fácil imaginar os cuidados a que recorria para manter acesa a fogueira excitante da sua beleza física, que de forma alguma ela queria deixar apagar. O seu corpo fino de manequim temia a deformação e a fealdade. Com verdadeiro terror, ela reflectia sobre o crepúsculo das suas formas harmoniosas. Neste ponto, o delírio que a devorava chegou até à anomalia de alterar nela o conceito da maternidade. E foi assim que chegou um dia em que, de súbito, se viu às portas da catástrofe. Estava ali o irremediável: anunciaram-se os indícios de que ia ser mãe. Sem perder um minuto recorreu ao velho processo que a moral reprova mas que a medicina aceita. Foi um desastre. Colhida ao revés pelas próprias armas que tinha buscado, a morte começou a amolecer as alvuras do seu corpo sem que ela arrefecesse no desejo de continuar a ser formosa, de se libertar daquele embaraço para se oferecer aos olhos do homem que tanto amava e, nesta contingência, por quem se perdia. Apenas eu e a Zézé conhecíamos a causa da doença. A crise alongou-se durante algumas semanas e entretanto o médico diagnosticou um outro sinal grave para a sua saúde. Ora, sobreveio nesses dias um acontecimento que levou a minha amiga, num acerbo desespero, a mandar partir o espelho que ainda ali permanece, no mesmo lugar, e cujas causas o marido sempre quis atribuir a qualquer impulso febril da enferma. Mandou-me chamar – foi o último dia da sua vida – e com a voz já a sumir-se-lhe na garganta, pediu-me, suplicou-me que defendesse o marido de todas as mulheres e, sobretudo, que o não deixasse casar com ninguém! Foram estas as suas últimas palavras – que naquela suave tarde tinham o arquejo de ave expirando. Todos os ouvintes permaneceram sem palavra. Zézé, com os olhos muito abertos, parecia perturbadíssima. Maria Berta acrescentou: - As revelações que eu acabava de fazer tinham impressionado profundamente o homem que me escutava. Vi estamparem-se-lhe no rosto desfigurado máscaras de assombro mais cruciais que tenho contemplado. Reúni ainda as minhas forças para lhe dizer: «Como vê, meu amigo, fiel à promessa com que respondi à súplica daquela que foi sua mulher, - não posso, não poderei nunca ser sua esposa! Tenho que o defender, mesmo contra mim própria… E sinto-o, creia!» (e falando para ela: e é verdade que o sinto!) Após uma pausa breve, as vozes irromperam, frenéticas: - E o espelho? Qual foi o motivo que a levou a mandá-lo partir? Maria Berta levantou-se e, numa atitude hirta, fria, que tanto poderia ter de beleza como de inexorável retaliação, procurando os olhos que para ela se abriam cheios de espanto, da mulher de Carlos Sousel, terminou assim o seu inesperado relato: - Meus amigos, vou repetir-lhes o que respondi esta tarde à mesma pergunta que o vosso Homem de Luto, num tremor de abismos, me dirigiu. A resposta é esta: - É que


a minha amiga, da cama onde se encontrava, vira nesse dia, reflectindo-se no espelho, o marido a beijar… ou a ser beijado por outra mulher! Algumas vozes: - Diabo, que azar! E essa mulher, pode dizer-nos quem era? Não houve tempo para a resposta. Um grito ecoou na sala e todos viram, estupefactos, a mulher do engenheiro Sousel cair no chão, em estado de choque. Fez-se uma atmosfera de quinto acto de tragédia que, por um momento, grudou as almas ao seu vil esqueleto de impurezas…

No dia seguinte, os jornais da tarde, entre um humorismo desprevenido e estólido, davam a notícia: «O Homem de Negro que todo o Chiado conhecia pela sua pecha de se vestir aparatosamente de negro apareceu morto esta manhã na sua casa da Rua do Salitre, caído diante de um espelho oval de que restavam no chão alguns fragmentos ensanguentados. Com certeza, tratar-se-á ainda de qualquer nova singularidade do famoso excêntrico.»


TINHA OS OLHOS COR DE OIRO

Tinha os olhos cor de oiro. Um oiro esverdeado como uma esmeralda ao anoitecer. A meiguice e a inteligência brilhavam nas áscuas luminosas que por vezes desferiam num fulgor e fixidez liquescentes. Era nessas ocasiões que um reflexo de melancolia parecia sobrevir e inundá-los. Vinha-me então a ideia de que os mistérios do cérebro se lhe abriam e o seu pensamento, desejando estabelecer contacto com o meu pensamento, sentia a amargura do meu silêncio e do seu silêncio. O volume fino das formas, a elegância e viveza dos movimentos, a acuidade sensorial ao eclodir de qualquer acto percuciente, faziam realçar naquele corpo a jóia dos olhos de oiro. Toda a gente lhe tributava admiração e pânico – o pânico que é, como todos sabem, um sentimento produzido pelo que em demasia nos fascina ou em demasia nos intimida. À parte de uns tais predicados, era bem um ser comum, nada irritante ou de índole quase subserviente com as pessoas do seu convívio. Estou a falar do meu cão Zartor. Eu amo os cães. A partir das sub-espécies exóticas e ridículas, engendradas num morfismo zoológico que os apresenta escalvados até ao escorchamento ou metidos dentro de ornamentos pilosos que parece não lhes pertencerem – espécies em geral só para consumo mundano-feminino, como os bassets, os pékinois e os lulus da Pomerânia -, a minha simpatia é imensa. Gosto deles indiscriminadamente. São leais companheiros sem palavras – afonia verbal que, em muitos casos, é um bem de Deus! Para serem úteis ou nos amarem, não recorrem ao estratagema nem ao drama. Pressentem os perigos, guardam-nos os passos e, de coração alanceado, choram muitas vezes sobre o nosso fim. No prestamento de serviços, são trabalhadores operosos e comunitários, sem número de horas nem reivindicações de salário. Inteligentes, probos, generosos. Na crónica dos dias que passam, eles surgem-me em alguns capítulos, abrindoos ou fechando-os, numa dupla cumplicidade com as minhas decisões e o seu próprio instinto. Por exemplo, o corpulento Bouguy, recebido tamaninho como carinhosa oferta de um capitão flibusteiro do país de Hamlet. Comigo percorreu milhares de quilómetros na floresta africana, viu os hipopótamos de Niger e estremeceu ao farejar inimigos: os ferozes quadrúpedes das matas do Mali. Era menos inteligente que os das outras raças, mas mais doce e concentrado. Dormia pouco e passava horas calado, abstracto, preso a certas preocupações de contemplativo. Daqui os laivos de melancolia que por vezes embaciava os seus olhos – arquivadores de imagens que ele, por certo, se punha a repassar durante os seus silêncios. Quando as não entendia, entendia-as eu, de tal sorte ele tinha «supervisionado» os sucessos mais em destaque desse período. Terminou os seus dias voando nos espaços azuis com o comandante da aviação militar, a quem o confiei quando abandonei o país. Este era o marido de Nila, já algumas vezes referida noutras das minhas páginas. Do meu inesquecível danois guardo a sua memória na fotografia que permanece aqui, sobre a minha mesa. Segue os meus pensamentos


olhando-me com uma imensa doçura – uma doçura que lhe vinha do seu bravo coração de romântico. Tive ainda um galgo branco com que o capitão francês Isembert quis homenagear a minha simpatia pelo autor do Forse che si force che no, com quem tinha voado nos combates aéreos sobre o Isonzo, na Primeira Grande Guerra. Um desenho recortado numa folha de prata, fino, laminado, sugerindo as gravuras sobre a pedra de certos mausoléus arcaicos. Belíssimo mas muito estúpido. Não cheguei a dar-lhe um nome. Uma amiga bonita o levou. A este sucedeu a série dos misto-lobos de alsácia, a minha raça preferida. Ágeis, espertos, dedicados, sem obstar a um bom risco anatómico, com economia de carnes e boa forma muscular. Foi no porto de Gibraltar, a bordo de um paquete da carreira das Índias. Tinha sido adquirido na escala de Marselha. O dono pretendia desfazer-se dele e procurava comprador. Era ainda pequeno, mas buliçoso, inquietante. Seduziu-me. Abri a negociação. E houve uma surpresa. Ao saber a minha nacionalidade, o proprietário desta jóia vivente quis oferecer-ma: era um goês, empregado nos serviços da copa. Deixei este homem vendo correr nele, emocionado, algumas lágrimas e trocando os dois algumas palavras iguais às que vêm nas páginas dos Lusíadas. A pessoa que eu tinha ido esperar a bordo do mesmo barco teve um grito de júbilo e, acariciando-o, exclamou: Darling! E este ficou sendo o seu nome. Seguiu-se-lhe a Flecha, cinzenta, altiva, animal de convicções femininas, exibindo a cor taupe do seu pêlo como um casaco rico nas vitrinas de Paris. Passar-lhe a mão ao longo do dorso era ter a mesma sensação de palpar a suavidade de um artigo de luxo. Um dia escapou-se de casa precisamente (desgraçadamente!) quando um conflito das ruas estalava em diversos bairros da cidade. Foi o seu fim. Depois de muito vadiar (exibicionista como era), encontrou-se numa praça onde, além da fúria dos populares, em combate impiedoso, foi atacada por um bando de cães famélicos e sujos de que ela, vexada, se vingava num ódio de que os seus dentes deixaram um tremendo testemunho. De súbito foi prostrada por uma bala perdida dos contendores. A sua morte equivaleu bem a um suicídio, que o seu instinto nobre teria decerto procurado, como os homens, como todos aqueles que amam o seu brio ou se vêem perdidos nas funduras de um lodaçal.

O último, o Zartor, emergiu da série envolvendo-se num acontecimento que o seu rompante inconsiderado provocou. Um acto que foi mais uma vez a consequência de certo inconformismo a que não se eximia, alterando por decisões súbitas o comportamento que lhe era fixado. Nisto se aproximava profundamente dos seres humanos: fazendo com rancor o contrário do que, com um sorriso, galantemente prometem. Era um concentrado e, por reacção, um falso pueril. Se tivesse faculdades para tal, seria um leitor impenitente de Hegel, com o sr. Sartre e Mark Twain, misturando os dois últimos na sua pecha de reduzir a sínteses o que o instinto crítico lhe sugeria. - Vale a pena amar assim os animais? Interrompendo o gesto da mão com que, de joelhos, lhe acariciava o focinho depois de o ter beijado sobre os olhos, Murana Khedhi replicou: - Valera mais a pena amar os homens? Era um humorismo com acidez. Não foi deixado sem resposta. - Depende da natureza dos instintos que a mulher põe no amor.


Murana, levantando-se: - Que são os mesmos do homem desde que ele se encontre no nível próprio a uma tão grande experiência. - Ah! Por exemplo? - O de um acto físico sem deixar de ser profundamente religioso. - Isso vem no Livro dos Mortos das velhas monarquias hieráticas do teu país? - Não. Vem no conceito que possuem certas raças do transe que se abisma em prazer para realizar os limites do vivencial. Murana, nascida em Alexandria, era filha de um italiano dos arredores de Veneza casado com uma egípcia. Terminou assim a resposta: - Espero não ter sido muito confusa nem muito bas-bleu… Presentemente, as raparigas dos colégios da minha língua são já influenciadas pelo espírito científico da cultura americana, ao mesmo tempo que permanece nelas o culto daquilo que vocês, europeus, poderiam chamar «metafísica» e que nos liga a formas sagradas de coisas e animais. Daqui certas possibilidades destes últimos nos entenderem e ser entendidos por nós. - Estou quase de acordo… - Se estás, então escuta: Quem pôs o nome ao Zartor? - Adquiri-o por um anúncio na imprensa. O nome vinha na coleira com um pedido do ignorado proprietário de que fosse mantido. Achei o nome e o pedido singulares e desisti do esforço de qualquer alteração. - Nesse caso terás interesse em saber que Zartor me parece a deformação do nome Sartor, um dos lados do Quadrado Mágico, continuado por Arepo, Tenet e Rotas. Dei um salto de surpresa: - Que ideia! E a ser verosímil o que me estás dizendo, o animal seria portador de um significado criptogramático? - Exacto. Fiquei por momentos pensativo. Murana interrompeu-me os pensamentos com uma declaração estrondosa: - Sendo tão feroz como dizes, sabes por que foi que ele não me mordeu? Porque eu estava a pensar nele com amor. Logo que as últimas palavras foram pronunciadas, Zartor, como se de facto as tivesse entendido, levantou-se a prumo com a minha amiga e acariciou-a com a língua na face e nos braços, que estavam nus. Um agradecimento.

Terminadas as semanas da sua visita, Murana regressou a Alexandria. Logo após a sua partida, Zartor começou a dar sinais de irritação – uma amargura exacerbada. Sempre que podia fazê-lo, vinha sentar-se junto de mim e ficava a fitar-me com os olhos muito abertos e tristes, nos quais parecia reflectir-se a imagem de Murana. E decerto eram tão vivos os pensamentos com que a evocava que nos seus olhos de oiro eu julgava ver as pupilas ónix dela. Abríamos então uma conversa secreta sobre a ausente, que se prolongava por tempo largo. Eu baixava-me e pronunciava-lhe ao ouvido o nome dela. Era então que ele se levantava e ia retomar as suas fainas com um visível ar comprazido. Não será o seu instinto afectivo a sub-alma dos animais? O meu amigo, que era poeta e administrava uns jardins imensos que invasores orientais tinham criado e as autoridades actuais mantêm ainda, ciosas do privilégio de um tal património, adorava o meu cão. Parecia até que mantinha com ele um pacto


secreto que o preservava das suas crises de violência e mau humor. Em troca desta cordialidade não mantida com nenhum outro dos meus amigos, Zartor desfrutava do direito de correr nas direcções que mais lhe apetecessem, de rebolar-se com gáudio nos tapetes de relvas vivas e devastar maciços de murtas e alfazemas. Sentia-se ali como um grande senhor e, como um grande senhor das ilustrações dos livros persas, amava os aromas e as cores vivas. Nas estações próprias, os seus regozijos manifestavam-se com preferência entre os gladíolos vermelhos e as massas odorantes dos nardos. O meu amigo escreveu sobre ele a Kásida do Farejador de Aromas, que nos deu indícios de o ter desvanecido. Ou melhor, exaltado. E o facto teve consequências… Parecia-nos ter-se apoderado dele um delírio apolínico. Num grande vozeio, percorria em galope as centenas de metros dos caminhos e áleas dos jardins. Mas o estridular dos gritos era menos de fúria que de proclamação vitoriosa. O eco repercutia-se fortemente nos arredores e, ante ele, fugiam aterrados todos os gatos e outros bichos que por ali bivacassem. As minhas visitas aos Grandes Jardins eram mais frequentes nos fins das tardes dos longos dias estivais. E quase sempre quando lhes sucedia uma noite de plena lua. Tomavam-se algumas bebidas na fresquidão de uma pérgola coberta de jasmineiros e duas glicínias centenárias e entrávamos depois para o jantar, numa sala medieva. Uma refeição onde tinha mais lugar o espírito que a cozinha. Poetas, artistas do bailado e do teatro, um jovem toureiro e alguma celebridade feminina de passagem na cidade. Seguia-se a sessão dos Deslumbramentos. Na imensidade dos jardins, cercados de altos muros dentelados, esperava-nos uma ampla esplanada, forrada de tapetes trazidos das salas do Palácio contíguo. Ao centro, a silhueta de um piano que, em tal lugar, não podia deixar de avultar como insólita e enigmática. Abriam-se os jactos de água e as luzes das iluminações rasteiras. O luar impregnava de brancuras fluidas, palpitantes, tudo o que tinha forma e volume aéreo. A recebê-lo, subiam para o espaço as emanações odoríferas dos mirtos, dos cravos, das rosas nocturnas, e as balsaminas das cidras e das magnólias. Todos sentados em postura de zen sobre os tapetes, conversavase, diziam-se poemas e serviam-se sumos leitosos, feitos de macerações anisadas. Uma noite, ao piano, sentou-se um grande artista espanhol – Cubiles. Meio deitado junto de mim, a cabeça erguida, as orelhas retesas em auscultador, Zartor realizava em si uma imagem atentiva como daquele em quem mais profundamente a música fizesse bossa. Tocava-se a «Serenata melancólica», de Tchaikovsky. Estávamos já na madrugada quando a progressão deste êxtase foi interrompida por uma inesperada intromissão. Ao fundo da álea dos ciprestes que conduzia directamente à Esplanada alguém apareceu chamando alto, portador de uma notícia grave para um dos assistentes. O piano calou-se. Zartor fitou-me com uma expressão reprovativa, parecendo querer consultar a minha opinião, e afastou-se na direcção do intruso. Chegando junto deste, baixou a cabeça e, em silêncio, mordeu-o ferozmente acima do artelho. Foi o seu primeiro mau acto.

Outras violências reprováveis e inesperadas se sucederam a esta. Dir-se-ia que um sopro de insânia lhe entrara no meandro das circunvoluções. Amigos acautelaramme: «Qualquer dia vais ter um desgosto sério», diziam-me. E impressionei-me. Uma impressão de ordem porventura mais plástica que afectiva. Como no risco de um basalto sepulcral, à ideia de perdê-lo sobrepunha-se a beleza do inquieto animal inscrevendo no ar onde se movia a pureza de certas imagens de Donatello. Os avisos tornavam-se prementes: «Quando procedem assim (atacava sempre em silêncio, sem advertências


escusadas), são perigosíssimos.» Pois sim, mas as razões não se me afiguravam suficientes para o votar à expulsão ou ao massacre. Os seus olhos de oiro, poderia eu eliminá-los da minha memória? Murana assemelhava-os aos de um falcão sagrado, num hipogeu do Cairo, fundido em bloco aurífero. Para mim, eram duas pinceladas fulvas de Veroneso sobre um veludo verde dos Médicis. Os meus raciocínios não se desembaraçavam das suas proezas nem das suas aptidões. Estas donde provinham? Talvez como resquício biológico de longínquos reinos animais permeáveis ao pensamento dos homens. Espantei-me quando, uma noite, ao chegar próximo do portão das altas grades de ferro que ladeavam a avenida em muitos côvados de comprimento, deparei com o animal sentado no último lanço da escadaria de pedra que antecedia a entrada principal do grande edifício da minha residência. Observei-o de longe, interessado em descobrir o porquê daquela posição e por que se encontrava ali, àquela hora. Exibia-se numa atitude de alerta, erguido sobre as patas dianteiras, a cabeça em contínuos movimentos, a perscrutar a rua. Então aproximei-me para entrar. Olfacteou o ar e, tendo-me reconhecido, partiu a galope por um lado dos jardins, dando volta à casa e aparecendome do lado oposto. Numa manifestação de júbilo, lançou-se sobre mim como se quisesse dizer-me (compreendi-o mais tarde), «que podia entrar, que tudo estava tranquilo»! Maravilhoso Zartor. Que voz lhe tinha chegado ao instinto sugerindo-lhe um acto de vigilância para a minha segurança pessoal e executado com tal precisão de efeitos? E todas as noites, quando eu regressava tarde, o mesmo «dispositivo» se verificava, prolongando-se até às primeiras horas da manhã, com a chegada do jardineiro para as fainas do dia. O arranjo decorativo dos jardins, ou empedramentos e, a destacar nestes, as motivações artísticas atinentes à historicidade do país, concitavam no público um interesse de grande efeito. Através dos largos espaços entre as barras moldadas em ferro fundido do gradeamento, as cabeças assomavam, curiosas ou ávidas de aromas das espécies em florescência. Uma tal curiosidade chegava à impertinência de visitas espontâneas, surpreendidas por vezes sob a umbela das frondes. Era durante a noite e no bónus dos dias festivos que o fiel servidor desfrutava dos direitos à liberdade. Para evitar fugas e graves propósitos, disciplina e desconfiança prévia. A excepcionalidade do seu préstimo valia o castigo. Fora destas exclusões, as leis da espécie obrigavam a colocá-lo sob o regime de liberdade condicionada pela cadeia metálica. Ora, foi num desses dias em que lhe era concedida a regalia de dispor de si próprio que, por compensação desastrosa, a «coisa» aconteceu. Todo o pessoal dos serviços tinha saído. Como era domingo, Zartor regalava-se correndo através das áleas que cercavam o edifício ou perseguindo algum melro que se retardava a exumar um verme dos canteiros. Nesse dia, a tarde estava quentíssima e poucos passeantes se aventuravam à cresta canicular. De súbito, fui sobressaltado por um grito estridente, seguido de outros menos vivos, vindos do jardim. Desci a correr a escadaria interior e logo que cheguei ao hall do rés-do-chão, ouvi a costumada chamada de Zartor: raspando violentamente na porta e emitindo uns uivos queixosos. Saí para o exterior e olhei-o com certa ansiedade, como a perguntar-lhe: «O que há?» Baixou a cauda e as orelhas e, descendo os dois lanços da escada granítica de acesso à parte posterior do edifício, conduziu-me para um sítio do jardim onde havia uma arcada de ciprestes. A cena que se me deparou estarreceu-me. Lembram-se da figura de Greta Garbo em alguns dos seus filmes mais voluptuosos, os cabelos caindo de um lado do rosto marcado de palidez e que ela estava sempre a afastar dos olhos no gesto dormente dos dedos afilados? Pois era uma figura assim, mais «adolescente», mais fina (lembrando uma que a copiasse), que eu encontrei estendida no chão, inerte, com a parte


superior dos vestidos rasgada, os seios riscados por fios de sangue, muito pálida, sem dar acordo de si. – Ele tinha feito aquilo! Fitei-o com irada estupefacção. Mantendo o mesmo silêncio, Zartor baixou os olhos e foi acariciá-la no rosto. Nem sequer me interroguei para saber quem era ou por que estava ali. Pensei unicamente em socorrê-la. Encontrei-me seriamente embaraçado. Chamar um médico? Levá-la no carro para uma clínica? Mas o tempo poderia ser curto para resoluções demoradas. Subi-a nos braços para os aposentos do primeiro andar e ali, rapidamente, procedi a uma limpeza anti-séptica e tentei reanimá-la com um scotch aguado. Tinhame visto algumas vezes perante a morte. Mas perante este corpo inanimado, que parecia esperar a morte e que não era a minha, o trágico mudava de sinal e, ao fim, para a minha sensibilidade, não era menos trágico. Contemplava-a com angústia e amor. Esta pequena ternura plástica e humana que estava ali, diante de mim, isolada do mundo, sozinha comigo, fazia-me sentir mais que nunca o valor da vida humana, da palpitação da beleza que exclui o aniquilamento, que protesta contra o Nada. Vi que se agitava. Estremeci de júbilo. Felizmente, ela ia voltar ao meu universo, participar da ventura daquela tarde de domingo, dos seus ruídos e dos seus perfumes, encher-se de sol, falar, mover-se e viver, viver! Sentindo-me de repente cheio de responsabilidades, sofria de angústia, sofria de ansiedade como Marta sobre o corpo de Lázaro ante o olhar de Jesus. Abriu os olhos. Ainda inconsciente para realizar o que se tinha passado, contemplou com assombro as coisas que a cercavam e, num grito agónico, saltou do sofá onde tinha sido colocada e veio agarrar-se, alucinada, ao meu pescoço. Era um refúgio contra a visão do animal que a tinha atacado. Mas os sentidos normais recuperaram-na. Num gesto brusco, afastou-se de mim observando-me com um espanto agressivo. Ao mesmo tempo, vendo-se descomposta, levou as mãos ao peito para o ocultar. - Porque estou aqui? – gritou-me, amedrontada. Contei-lhe em poucas palavras o sucedido. Disse-lhe onde se encontrava. E, por minha vez, querendo esclarecer a minha perplexidade, também lhe perguntei: - E quem é a pessoa com quem estou falando? - Que importa isso? – respondeu. Olhou depois o relógio de pulso e, nervosíssima, explodiu. – Que horror! Meus pais já devem ter regressado. Por favor, leve-me ao hotel. – E iniciou uma fuga, procurando a todo o transe uma saída para o exterior. Parado a meio do salão, a seguir-lhe os movimentos, adverti-a: - Assim?! – E apontei-lhe o peito semi-nu. Ela, reparando em si: - É verdade. Começou a caminhar para mim. Entretanto abria muito os olhos para tudo o que a rodeada: pinturas, mármores, candelabros, tapeçarias, dimensões. E intrigada: - Vive aqui? - Sim. Contou-me depois o que tinha ocorrido. Estava de passagem na cidade. Os pais, grandes aficionados, tinham saído para a tourada dessa tarde e ela aproveitara a ocasião para conhecer os jardins situados próximos do hotel e de que tanto ouvira falar. A linha arquitectónica do edifício e a espessura do arvoredo fizeram-lhe crer que o recinto onde entrou fazia já parte desse património público. Viu uma pequena entrada acolhedora, empurrou a cancela (que estava aberta por descuido da última serviçal que saiu) e entrou. O que depois aconteceu é já sabido.


- Por favor, leve-me imediatamente ao hotel. Quero arranjar-me antes que os meus pais regressem. Não lhes direi nada. Não desejo que se assustem. Os cabelos eram claros; os olhos, azul fulvo, pareciam tremer como pervincas. Recorri a uma gabardina de verão, na qual ela se embrulhou, cinturando-se muito. Entregá-la-ia no hotel a um empregado meu conhecido. Ao ajudá-la a vestir esta nova peça do vestuário, detive-me a reparar nos riscos sangrentos das feridas que agora se dilatavam sobre as curvas da pele branca. Interceptando o meu olhar, teve uma frase inesperada: - Gosta do meu corpo? – E, sem dar tempo a que eu respondesse, afastou com as duas mãos o que, naquele lugar, ainda restava da blusa. Em seguida, pôs-me os braços em volta do pescoço e beijou-me com tanto exagero que me deixou branco. Desprendeu-se a correr, pronunciando quase sem fôlego: - Muito obrigado por tudo! Quando saímos, Zartor acompanhou-nos até à cancela, dirigindo para ela um olhar muito doce, talvez de arrependimento. A minha companheira correspondeu, baixando-se um pouco para ele e despedindo-se com uma reprimenda afectuosa. - Besta adorável! – E, considerando-o por momentos: - Os olhos são de oiro. Gostaria de levá-lo comigo… Respirei de alívio quando voltei a casa. Nem queria pensar no que poderia ter sucedido naquela tarde! E acendi um cigarro.

Embora dominando alguns sentimentos e escrúpulos, a decisão foi tomada. Talvez um outro dono mais apto a praticar a reeducação dos seus impulsos de violência o pudesse corrigir e salvar. Seria então o ídolo perfeito sem os graves delitos a punir. Optei, pois, por um estratagema que surtiria os efeitos em vista. Não queria diminuí-lo nem muito me penalizar. Numa cidade da província vizinha realizava-se uma festividade de grande estrondo, a que acorriam todos os anos multidões de forasteiros. Um regabofe folclórico de quatro dias sem noite. Depois de uma comida lauta, para despedida, meti-o no automóvel com o jardineiro e largámos para a tal cidade. Uma vez chegados ao local propício, fiz que o jardineiro executasse as instruções recebidas. Este afastou-se com o bravo animal e internou-se onde a multidão era mais compacta. Quando já estava longe, desprendeu-o da correia que o ligava à coleira e deixou que ele se perdesse, saltando alegre como um gamo entre a multidão. Regressei desolado, tristíssimo. Como se viesse de praticar um acto nefando. Senti-me algumas vezes chicoteado por um desejo forte de voltar atrás para o procurar, para o reaver. Mas tudo ficou ali, naquele acto, - talvez na minha impiedade.

Com o inverno, a silenciosa extensão das noites fazia-me sentir a sua falta. Era seu costume, sempre que uma janela se iluminava, responder com uns latidos suaves, como se quisesse fazer compreender que a sua presença estava ali, fiel e vigilante. Só isso. E nunca destoava na voz, a fim de que o seu alerta não se tornasse incómodo. Eu pressentia agora com uma extrema evidência quanto a sua vida animal estava ligada à minha de homem. Punha-me por isso a somar, embora desamparado no peso da solidariedade e prevenções de que eu tinha beneficiado sem me aperceber do seu efeito.


Voltou o verão e com ele o apelo da terra renovada, a vontade de circular através de paisagens novas e distantes. Sempre que me deslocava, era constante em mim a ideia de o reencontrar, sem saber ao certo dentro de que possibilidades ou por que meios. Muitas vezes me detivera em ruas, praças e até em caminhos solitários, seguindo o eco de um latido ou de uma forma corporal semelhante à sua. Muito longe, próximo da fronteira, por onde vadiava num fim de tarde caloroso, o carro ultrapassava os cento e vinte sobre um recta em campo raso, despovoado, quando, ao entrar numa curva que coincidia com uma vivenda escondida entre ramarias e muros gradeados, fui surpreendido pelo vozeio de um cão que ladrava muito alto. Voltei atrás, saltei do carro e qual não foi o meu arrebatamento ao deparar com o Zartor gritando desesperadamente, depois uivando com meiguice, do outro lado do gradeamento que dava para a estrada. Parecia, por sua vez, ter enlouquecido de alegria. Procurava chegar aos meus ombros com as patas, acariciando-me as mãos, e encheu-me a cara de traços salivares. Antes de me afastar para arrumar convenientemente o automóvel, examinei por momentos a propriedade, que me intrigava pelo aspecto de solidão em que parecia envolver-se, a casa um pouco recuada ao fundo de uma alameda e sem que ninguém aparecesse a informar-se do que ocorria. Por detrás da vivenda, com certos traços senhoriais, apercebia-se um renque de eucaliptos e ciprestes que, na planura das messes que se estendiam até ao horizonte, acentuavam ainda mais o isolamento da moradia. E, imediatamente, pensei nos meios a engendrar para a libertação do querido prisioneiro. Mas ao fazer o ponto sobre o lugar onde me encontrava, fiquei de súbito com o coração apertado.Tinha-me detido precisamente num troço de paisagem que me era particularmente grato pelas recordações que o ligavam a uma fase da minha vida de alguns anos atrás. Colher o fruto das sementes que se espalharam no tempo é, às vezes, um acto de funda melancolia e isto quando, não se referindo aquele encontro de alegrias vivas em pessoas ou coisas, apenas nos resta colher nele a sombra dos gestos ou dos sentimentos passados. Assim, por instantes, sozinho ante a solidão das searas que, em áscuas bronzeadas, uniam a lezíria onubense, salpicada de riachos ferruginosos, aos campos azeitonados do Gades, voltavam ao meu espírito as tiradas dos poemas de Alberti e Juan Ramón, e as hastilhas metálicas, transfundidas em imagens siderais, de José Maria Morón, vate de Nerva, autor de Minério de Estrelas, antinómico de outro minério com que os braços do homem pretendem aqui enegrecer e destruir a epiderme florida da terra. Por aqui passávamos – grupos ladinos, presos à ambrósia do prazer – em tardes ou madrugadas de abalada para o mar ou regressando à paz gorda das residências campestres, a desfrutar o jogo dos rocinantes ante o negro e temível minotauro. E sonhei um pouco. Quando voltei para junto do prédio, fui surpreendido com a presença de alguém que, por detrás do portão entreaberto, me aguardava. Vestia uma calça branca, esticada até ao artelho, e os cabelos loiros caíam-lhe sobre um blusão de homem cor de salmão. E sorrindo: – Há muitos meses que o esperava… De súbito identifiquei a aparição. E, estupefacto, procurando com dificuldade as palavras,: – Mas é espantoso!... Vive aqui? Abriu de todo o portão e estendeu-me as mãos com uma expressão de afecto a que eu não sabia bem como corresponder. Sorrindo muito: – Creio que sim… - E pediu-me para que entrasse.


Era a mesma girl Greta Garbo que, um ano antes, eu tinha encontrado caída no jardim da minha casa. Estava mais mulher, mais bonita, mais gaiata. Dizia para mim próprio se estava sonhando. Mas talvez não. Olhava o lugar, olhava-a a ela e ao mesmo tempo tentava descobrir o paradeiro do algoz daquela engraçadíssima «vítima». Apercebendo-se do que eu procurava: – Para evitar embaraços afectuosos, já o isolei na parte traseira da casa, onde dispõe de um parque para correr. Descanse. Vê-lo-à na partida. De resto, fi-lo acompanhar da minha criada para o fazer calar. E a propósito: sabe que continua a ser feroz? – Outro atentado contra si? – Não. Contra todos menos comigo.

O tempo dizima as horas das grandes surpresas incomuns. Estas passam como relâmpagos. A tarde tinha avançado bastante e eu encontrava-me longe de regressar ao meu domicílio. Tínhamos bebido e falado, visto que ela quisera que eu entrasse, conhecesse a casa e a conhecesse a ela. Não sei se há vantagens nesta espécie de conhecimentos forçados ou inesperados. Não estará o senhor Diabo por detrás destes impulsos a fazer desviar para os seus terrenos o caminho direito das gentes? É esta convicção que me afasta das apresentações «sociais» imprevistas, pondo à conta do meu bem só aquilo que eu pessoalmente procuro. E creio não ter cometido erros de que me arrependa. Disse-me ter nascido em Maiorca, próximo de Valdemosa, ainda povoada das sombras de George Sand e Ruben Darío. Sua mãe era natural daquela ilha e o pai, um divertido inglês com minas de cobre na mesma região da vivenda onde eu agora me encontrava e de quem ela, descrevendo-o, me contava os ditos humorísticos e a morte, em França, havia quatro anos, num acidente de automóvel. Educada em Londres, sentia uma fortíssima atracção pelos costumes do país onde viviam os seus familiares. (Sua mãe tinha voltado a casar com um homem do país.) Foi por esta razão que os azares da sua traquinice deambulatória a levaram à espectacular aventura com o Zartor. – …que me foi providencial! – esclareceu, na altura própria do nosso diálogo. E Mónica (como se chamava) historiou o porquê de tal afirmação. O padrasto sempre a tratara com uma afeição deslocada. Era de temperamento vivo, comunicativo até certos exageros que a mãe, intervindo, cortava por imoderados. Posta de parte esta circunstância, a vida era-lhe fácil, divertida, com longas férias aqui e o resto do ano em Inglaterra, onde as relações com os familiares do ramo paterno lhe proporcionavam um clima de independência moral que lhe agradava. Entretanto veio intrometer-se a «besta adorável» dos olhos de oiro… – Como veio parar aqui? – Se está intrigado, também eu fiquei intrigada quando deparei com ele, sem saber como, num local tão despropositado. Expus o esquema do meu procedimento e as razões por que assim procedi e de que ela fora a primeira razão! Não hesitou também em esclarecer-me, estimulada pelo desvanecimento – desnecessariamente pueril – de ir referir-se a uma posse do que tinha sido meu. A família tinha resolvido assistir aos festejos daquela mesma cidade para não perder as quatro grandes «corridas de outono», que seriam as últimas do ano tauromáquico. Uma manhã, ao passear entre as casetas da Feira, espantou-se ao ver


correr para ela o meu cão. Julgou sonhar, pensou rapidamente que eu estaria próximo, mas olhando em redor e não me vendo, assustou-se e quis fugir. Ao mesmo tempo, muito dócil, parecendo exprimir uma grande alegria, o animal acercou-se de Mónica e começou a saudá-la com uns uivos muito ternos e carinhosos. Imediatamente se entenderam e ela, cheia de entusiasmo, ali mesmo decidiu de o considerar sua propriedade. Não foi difícil convencer a mãe e o padrasto, ocultando-lhe os antecedentes e pondo em destaque o valor do exemplar, a esbeltez anatómica e os olhos de oiro. – Não foi um roubo. Apropriei-me de alguma coisa que desejava devolver-lhe. Eu, rejubilando: – Vou poder levá-lo?1 – Não se trata disso. – Não compreendo… – Sim, talvez compreenda. Quero devolver-lhe o preço da amizade com que me tratou em sua casa! Fiquei a pensar sempre nos seus gestos. Depois, o aparecimento ocasional do Zartor (nunca me esqueci do seu nome, que mantenho na coleira) trouxeme a presença das coisas que o rodeavam a si, o seu jardim, o ambiente pessoal, o seu mundo, e vi-me de repente sem me poder desligar dessas realidades. Raciocinava: que uma perda de tamanho preço não poderia a si deixá-lo indiferente e que, trazendo-o para minha casa, um dia, procurando-o, o Carlos (já lhe tinha dito o meu nome) aqui o viria encontrar, aqui me viria encontrar… Fiquei por muito tempo calado, a olhá-la até à raiz dos seus pensamentos. Ela pareceu não se perturbar com o meu exame e, enchendo de novo os copos, pronunciou: – Sim, preciso de si. Ando cheia de pânico. – Cheia de pânico? – Desatei numa gargalhada. Depois: - Não percebo. E é por medo que precisa de mim? Levantou-se com o copo na mão. Com expressão grave, baixou os olhos: – Explicar-lhe-ei melhor. Vamos para outra sala. Quis fixar melhor o valor dos arranjos decorativos que me cercavam e demoreime junto de um móvel, de um quadro, de um jarrão. Um estilo sóbrio, muito inglês, com predomínio de madeiras escuras nos móveis e lambris. A casa parecia deserta. Não entrava nem saía ninguém, o que aumentava em mim a sensação de me encontrar numa situação um tanto equívoca. - «Bizarria dos costumes britânicos», pensava comigo. Ao fim de um amplo corredor decorado com episódios da batalha de Trafalgar, entrámos numa sala, também ampla, que ela disse ser o seu quarto de vestir. O pandemónio de uma vitrina de Paris num dia de rabais: diversas peças de roupa interior, saias e blusas diversas, um roupão vermelho, botas de montar, um casaco curto de pele de leopardo e outros infinitos acessórios femininos. A ladear uma biblioteca de autores moderníssimos, destacavam-se dois mármores escandalosamente realistas. Mas o que mais me surpreendeu foi o deparar sobre a mesa do toucador, entre uma bateria de frascos de perfume, reflectindo-se num espelho enorme, com o tomo quarto da Sexologia de Havelock Ellis. Detive-me a folheá-lo. Mónica, aproximando-se e pondo-me o copo próximo dos lábios: – Beba comigo! Não estranhe o que está vendo: leio tudo para conhecer tudo. – Com uma parte do seu sangue de um país do meio-dia e outra parte das etnias da Mancha, o seu temperamento deve ser… – Já sei o que vai dizer: um cocktail de arrebatamentos impuros! – Perdão. Tanto não pensava eu. – Pois engana-se. Sinto-me toda do Sul e menos impura do que crê. De resto, odeio os ingleses.


Ao ouvir isto, quase ia deixando cair o copo e tive vontade de a apertar num grande abraço de satisfação. – Bravo! – gritei. – Compreendo-o… Nesse mesmo momento, um latido insólito de Zartor chamou-nos a atenção. Eu conhecia aquele sinal. Era a sua maneira de chamar. Mónica puxou-me pelo braço até à janela-sacada que, ao fundo do aposento, dava sobre o parque. – É ele. Venha vê-lo. Com efeito. Rodeado pelo arvoredo cujas ramarias se avistavam da rua, exibiase uma clareira de relvados e ruelas ajardinadas por onde o animal saltava sob a vigilância de uma criada. Agora mesmo, estava parado sob a nossa janela, olhando para cima, à espera que assomássemos. – Passou a adorar-me – monologou Mónica. – Sem o saber, fez-me a melhor oferta que poderia fazer-me. – Sabe que eu deveria estar furioso consigo! Tendo-o reconhecido, por que não mo levou a casa? – Esperava a pergunta. Claro que essa era a obrigação mais lógica. Mas esquece que, para assim proceder, teria de explicar que tinha conhecido o dono? Já me fora difícil explicar a razão pela qual ele me seguia com tanto carinho. E, para mim, eu também não sabia explicar como era possível que, passando meses sem voltar a encontrar-me, ele tão depressa me reconhecesse, se lembrasse de mim… Esclarecia sobre este ponto. – Não lhe foi difícil. Esta espécie de animais é dotada de extrema sensibilidade aos cheiros. As suas finas faculdades olfactivas guardam-lhe na memória, em classificações odoríferas, o que nós aprendemos em imagens com os olhos. E vou darlhe uma novidade: dispa-se junto de um cão e ele não esquecerá jamais o olor peculiar à sua pele, e é por este elemento que a sua presença será sempre identificada por ele. O faro é o seu poderoso instrumento sinalético. Compreende agora, por conseguinte, a facilidade com que o Zartor a distinguiu dos outros forasteiros. Tendo-a ferido, recebeu por contacto directo o sinal olfactivo da sua pessoa. – Tudo isso é maravilhoso. E por que não continuou ele a ser feroz comigo? – O coração dos cães é o que está mais próximo do coração dos homens. Participa das suas penas, dos seus anseios e das suas truculências como nenhum outro animal. O seu caso, recebendo agora carinho e fidelidade de quem lhe fez mal, é o espelho de um coração contrito perante a lembrança de uma violência. Mónica, cerrando-se contra o peitoril da janela: – Estou sensibilizada. Poucas vezes se encontram dois seres tão suaves. Tenho sido tão mal amada…! – Voltou para dentro e indicou-me para me sentar o sofá onde ela parecia ter-se deixado cair, num cansaço. – Afinal, ainda não me perguntou nada pelo resultado dos meus ferimentos. – É verdade. Cicatrizaram depressa? – Veja… - Mónica abriu de todo o blusão e, num jeito dos braços, deixou-o cair para as costas. Inesperadamente, como nos acidentes de um sonho, surgiu puro, acabado, um colo ebúrneo, a espirrar volúpia.

– Agora já sabe as razões do meu pânico. – Sei.


Mónica encontrava-se a braços com a luta dramática de certos lares onde falta a coragem de delatar a ignomínia dos padrastos incestuosos. Pouco depois da morte da mãe, ocorrido, num transe insólito, logo após o encontro de Mónica com o Zartor, o vúvo, liberto de cominações maritais, tinha redobrado o assédio insidioso em volta daqueles vinte anos juvenis que a sua gula ambicionava devastar por um vendaval de delitos inconfessados. Ela, sem a muralha maternal da defesa, esgrimia quanto podia sem querer dar a entender que se apercebia do jogo. Este começou a tornar-se mais ostensivo, a perder a medida e o pejo, até que o homem, uma noite, decidiu entrar subrepticiamente no quarto da enteada, eivado de infames intenções. Mónica partiu-lhe na cabeça um frasco de água de colónia e passou a fazer-se vigiar à porta, durante o sono, pelo seu fiel amigo dos «olhos de oiro». Mónica, reatando: – Também sabe já que me foi providencial o encontro com Zartor. É o meu guardião furioso. Estávamos agora à saída do portão. Ia retomar o meu carro. Era tarde para chegar a casa. Jantaria num dos aubergues do caminho. Mónica estendeu-me as duas mãos, num adeus que a fazia estremecer: – Seremos amigos? – Creio que sim. – Então ver-nos-emos em sua casa, no dia dos meus anos… dos meus vinte e um anos! Jurámos que sim. Diante da imensa planura dos trigos próximos a dar pão, houve um augúrio vital – e dois beijos estalaram, delirantes, promissores!

Algumas semanas decorreram. Talvez não me decidisse ao constrangimento de resumir aqui o contexto destes episódios pessoais, fingindo que é ficção, se os jornais desta manhã não me abalassem de mágoa com a seguinte notícia em normando, que li com os olhos húmidos de lágrimas e de ternura: A vivenda Great Garden, na estrada do Sul, foi ontem à noite teatro de um drama ainda não de todo esclarecido. O dono do solar foi encontrado com uma pistola na mão, a poucos passos do corpo da enteada Mónica, que, num lago de sangue e em roupas de dormir, estava caída junto da porta dos seus aposentos. Ao lado desta jazia um belíssimo cão, também varado por uma bala. Um pormenor a fixar: os dois tinham os olhos abertos e as pupilas cor de oiro fulgente.


ERA UMA VEZ… SABE-SE LÁ QUEM?

I

Quem diria que ele era um gravato, um espúreo, um nada? Pois toda a gentuça que o rodeava, desde os próprios companheiros, com bochechas alvares de ardinas suspiciosos, até aos capatazes adultos, deletérios na mordedura do escorpião da impiedade. Metido no seu calção às riscas, apertado, sob o qual descia o bibe azul dos internados, o instinto que prende as crianças a todos os impulsos iniciais de uma fisiologia que começa a pedir ao cérebro a explicação dos seus complementos abstractos, conduzia-o já para certas zonas do entendimento que, activando-se, o deixavam perplexo. Desamparado no desterro humano em que vivia, sem os tendões fortes que ligam moralmente as vidas que começam aos núcleos protectores de que precedem, o mundo que principiava a abrir-lhe as portas das suas perspectivas continha cantos obscuros, interrogações complicadas que, se o afligiam, lhe aumentavam em força e poder a desforra do seu constrangimento. Agora, todos os seus nervos ainda débeis flamejaram. Animado por um furacão insólito que lhe vinha de dentro, nascido numa fonte profunda, o seu pequeno corpo subitamente se retesou, anunciando que ele ia, finalmente, ripostar. Mas… ripostar? O que sucederia perante a desenfreada turbamulta de ganapões que o esperavam? Com mil raios, o menino foi um outro menino!

II

Ela tinha nascido dentro daquela série biológica em que os tipos zodiacais não saem da categoria comum: nem bons, nem maus. Um tipo sem hierarquia, embora moldado nas ascendências sociais de um pai diplomata e uma mãe eslava. Esta circunstância dera origem a que ela crescesse e se educasse ao acaso de povos e de civilizações diferentes, vítima involuntária dessa fascinante profissão de mundanismo e frivolidade com que o governo dos Estados lisonjeia os seus chefes de missão deteriorando-lhe o futuro dos lares. No entanto, se tal acaso não lhe assegurou um sentido de unidade no rumo dos conhecimentos em que a sua idade se ia organizando, serviu-lhe, sim, para retirar de cada povo que frequentou aquelas peculiaridades


essenciais que iriam produzir nela um sedimento de culturas rico de experiências e reacções morais. Assemelhando-se de certo modo ao caminhante pobre jornadeando até ao esfalfamento por montes e vales, o caminhante rico que é o diplomata, jornadeando de avião e transatlânticos de luxo, estagiando nos grandes hotéis e custosos palácios das ex-monarquias, estabelece, sem querer, com o primeiro, as mesmas coordenadas de um labor errante e de vacuidade sem remissão. No brilhante espectáculo do caminho de um entra o mesmo acerbo angustioso e a fraude deprimente dos sonhos do outro. E nenhum chega mais depressa nem enriquecido de maiores bens ao topo do caminho. Ela ia, por conseguinte, fazer-se mulher ao sabor dos altos e baixos da vida espectacular dos seus pais. Sem grandes finuras de inteligência mas também sem a boçalidade das burguesas enriquecidas, à falta de uma determinante intelectual que prevalecesse sobre as suas indecisões, a resultante do repetido contacto com gentes de diverso tipo de cultura e de aspirações sociais deu ao seu próprio espírito uma característica dominante: a da curiosidade, de avidez, de recurso à experiência como formação do conhecimento. E aqui a temos metendo o nariz em tudo, escutando às portas, metendo o olho através do orifício das fechaduras, encavalitando-se para surpreender segredos, perdendo-se nos museus para decifrar o enigma de certas anatomias, regalando-se nas piscinas, indo sozinha para as salas de cinema no fito de se instruir rapidamente acerca da vida dos adultos. Um dia, estando com os pais em Nápoles, quis ir ao museu da cidade para ver a sala dos bronzes gregos de que tanto tinha ouvido falar. E, durante uma semana inteira, correu todos os dias ao museu, unindo-se, medrosa, aos turistas que, desprevenidos, se encontravam de chofre ante o bronze indiscreto cujo detalhe anatómico se ostenta reveladoramente puído pela homenagem labial das devotas pagãs. A seguir, numa excursão a Capri, enquanto os pais subiam até à residência deixada por Axel Munthe, na mais bela cenografia do mundo, ela desceu a correr (de novo até à baía) e foi meter-se na Grotta Azzurra onde, muito no fundo, num recanto discreto, alguns corpos harmoniosos se atiram, nus, à água gelada.

Mas este período da adolescência, cheio de satisfações e de reticências, chegou abruptamente ao seu fim. Abruptamente porque não fora como ela tinha ambicionado que fosse, como seria mais ou menos natural que fosse. Foi o Senhor Diabo que se interpôs e desmanchou com os seus impiedosos caprichos os vagos projectos em que ela envolvia o acontecimento da sua erupção na vida de mulher. Habitavam agora em Madrid. Uma vivenda confortável, isolada num jardim oloroso, no bairro de Chamartin de la Rosa. Na casa respirava-se uma atmosfera excitante: para eles, tudo ali rescendia a cravo espanhol. Uma embriaguez e uma desgraça! (A Espanha é culpada do crime muito doce das seduções inenarráveis.) Uma criada rubicunda, com os olhos cor de azeitona e a pele a estalar no estio, dirigia a vida doméstica deste lar estrangeiro. Era viva, desembaraçada, cumpridora, o que tornava excepcionalmente rentável a validade dos seus serviços. Talvez por isso, os novos inquilinos da vivenda de Chamartin de la Rosa não se demoravam a reconhecer na jovem e apocalíptica servidora um tipo feminino em que entravam os máximos ingredientes da cozinha apimentada de Castela. No enredo capitoso destes sabores, a indefesa adolescente, de sentidos em alerta e estimulados, sentia-se soçobrar. Por sua vez, os tentáculos cupidíneos da criada distendiam as suas trompas vesiculares captando a sua vítima para projectos inominados.


E o nefando chegou. A roliça servidora costumava gastar os excessos da sua energia vital com um aciganado homem da rua com quem ela vivia em regime de concubinato nocturno sempre que os donos da casa se ausentavam. Este, mostrando já indícios de cansaço, provocava nela exasperos lascivos que a destroçavam. Por isso, na sua fraca imaginação, congeminava motivos que prendessem o amante às suas possibilidades amorosas. A conselho de amigas, percorria as alfurjas dos alfarrabistas baratos do erótico procurando sugestões e receitas, recorria à farmacopeia mágica dos feitiços e às lavagens de alúmen. Mas tudo lhe pareceu debalde, todas as iniciativas a que tinha deitado mão haviam resultado num fracasso quando subitamente uma ideia tenebrosa lhe borbulhou no cérebro pegajoso: viva, fulminante. Como um relâmpago. Na palpitação azulínea das noites de Madrid, a atracção da rua é evidente. Da Gran Via à Castellana, passando pelo Retiro, as fragâncias do ar, o palrar idiomático e as fosforescências dos letreiros luminosos são um apelo e um prazer. De mais a mais, estava-se na estação estival e havia corrida de cartel na arena da Monumental. O casal para ali se dirigiu. Alterando as normas em que as obrigações do seu serviço se confinavam, naquela noite a criada apresentou ao namorado a «menina da casa». O seu criminoso propósito começava a concretizar-se. Tinham sede. Quiseram uma orchata ou qualquer golada de Jerez fresco. A apresentada lembrou a vodka gelada, de grande consumo na família. E todos beberam vodka. Depois, no salão, retirados os tapetes, o intruso cantou uns «aires» flamencos, seguidos de uma dança correlativa. E todos dançaram, beberam e alucinaram-se. O resto já foi fácil. Sob o apoio impudico e os olhares regalados da criada, no cubículo onde esta dormia, cometeu-se o vil estupro que a perturbada adolescente tolerou, nevrosada pelo transe, num misto de aceitação e de pavor. Secretamente, o jogo do homem continuou. Acossada pela ameaça da criada de tudo revelar aos pais, ela teve que suportar ainda por algumas vezes mais a brutalidade da aventura que, apesar de ser aceite com hostilidade, começava a ter para ela a atracção perturbadora de um terrível fio de volúpia vindo de uma obscura fonte fisiológica que o estranho acto do homem lhe tinha revelado. Mas a sensação era demasiado curta e a náusea ligada à pureza sobrepunha-se ao prazer.

Foi num período próximo a estes sucessos que os azares da minha vida errante me puseram em contacto com ela. Era alta e direita com um fuste grego, de ancas e peito estreitos, a pela branca, os cabelos muito escuros e os olhos dolentes, de um cinzento melancólico. Sob as pálpebras inferiores, um pequeno círculo bistrado de escuro como se quisesse estampar-lhe no rosto os indícios da sua secreta mágoa de viver. Ou outros indícios.

III

Casou com um americano, desses que procuram descobrir o amor nos braços de uma europeia. Adido militar do seu país junto dos estados estrangeiros, o seu género de vida, nas transferências periódicas a que obedecia, coincidia, num acaso a assinalar, com a mobilidade de domicílios em que ela gastara a sua infância e juventude. Os dois


começaram, pois, uma carreira pelo mundo em que cada um transportava consigo sentimentos de sinal diferente: ele, com o ardor novo de descobrir cidades e paisagens; ela, rebatida de tédio de rever lugares e gentes a que a ligava mais o seu cansaço que a sua curiosidade. Porque colocar-se no espectáculo do mundo a rever o que já foi visto, pode não ser uma novidade ou um prazer, chegando por vezes a produzir um estado de alma em que se infundem tristeza ou uma decepção inenarrável. Os aspectos da terra variam segundo os nossos olhos e, sobretudo, segundo o estado do nosso coração. E nela o coração recusava-se às pulsações excitantes. Batia sereno, medido, alimentado secretamente pelas recordações do cérebro, que constantemente lhe falavam do seu hediondo mal interior. Ela não era feliz. Cheia de recordações que eram nela, pior que uma chaga física, uma chaga moral, casou-se precipitadamente com o primeiro homem em que os seus pais se compraziam, mas muito mais para fugir do que ela, consigo própria, chamava «o vespeiro de Espanha», do que por um impulso exuberante do seu coração de rapariga. Ora, a sensibilidade da mulher é uma substância frágil em que mordem fundo, à maneira de roedores esfaimados, as faltas graves da carne. No seu caso, a túrbida violência de que fora vítima tornou-se um mal secreto que a moía por dentro gritando o seu horror ao homem e considerando-se mais como objecto de repulsa que de paixão. O próprio marido não escapava ao flagelamento de um tal conceito e, sem atinar com as causas dos seus repúdios, estava sempre pronto a estender-lhe os braços, no afã incansável de reconquistá-la. - Não és feliz comigo? - Decerto. Mas porque não será feliz o homem consigo próprio? - O que dizes parece uma fuga ao nosso amor! - Só isso é pouco. - Mas há mais! É uma fuga ao acto para o qual nos casámos… - Nesse caso, dás-me um argumento. - Qual? - O da esterilidade desse acto, entre nós… - E será minha a culpa? - Eu ponho toda a minha vontade nesse acto! Deste diálogo inquietante passavam muitas vezes a uma discussão frenética, vigorosa, que somente se acalmavam no entusiasmo neutro das recepções e jantares diplomáticos a que, obrigatoriamente, eram convidados. E alguns anos decorreram. Madura de corpo e de espírito, os sentimentos desordenados da juventude foram tomando coesão. E o que era até ali, perante a simples vista do homem, uma obsessão destruidora, converteu-se num objectivo lúcido que totalmente a empolgava: ter um filho! Ele, o varão, o inimigo, o aniquilador insensível da sua castidade, tinha que pagar-lhe o débito em aberto e a forma que ela encontrava mais coerente e menos comprometida era a de dar-lhe um filho. Nessa carne da sua carne ela mataria a sua sede de amar, faria calar a sofreguidão dos arrebatamentos apaixonados que a devoravam e que nunca tinham encontrado ocasião para se saciar. Fora muitas vezes surpreendida pelo marido a observar-se, nua, diante do grande espelho do quarto de vestir, examinando as ancas, palpando o ventre, a arder na ansiedade de prognosticar a possibilidade de uma maternidade que tanto, tanto desejava! Não procurava os médicos porque não admitia que as mãos do homem tocassem a intimidade do seu corpo, mas teimava sempre em concluir, num raio de esperança que a deslumbrava: - Mas eu posso ser mãe. A culpa não é minha, a culpa não é minha!


Constantemente trabalhada por esta ideia fixa, um propósito obscuro, excitante, se lhe instalou no cérebro. Em sociedade, o seu comportamento era normal, diga-se até sedutor. Jovem, bonita, atraente no falar, facilmente captava amizade, simpatia, que ela, sem explicação para os que a frequentavam, se apressava em diminuir. Em casa, a sua atitude era outra. Pouco comunicativa, fechava-se em si própria, passando a empregar todo o seu tempo encerrada no escritório do marido, desde que este estivesse ausente. Foi ali que começou a forragear toda a espécie de conhecimentos que se lhe afiguravam mais úteis ao seu caso privado. Lia tudo, desde a sexologia aos estudos anatómicos e tratados de ginecologia, que ela carreava para casa depois de buscas exaustivas por tugúrios de alfarrabistas e livreiros da especialidade, fazendo-se passar por estudante de medicina. Deste encharcamento de leituras sem uma estrutura básica nem preparação pedagógica, resultou um agregado caótico de ideias díspares, perdendo em arrumo científico ou meramente racional o que ganhara numa assimilação patológica mal digerida. Nesta desordem, a amálgama de conhecimentos sem realidade em que ela mergulhou pretendendo esclarecer-se sobre o oculto propósito, se não foi um fiasco – poderá dizer-se –, foi um impulso. Logo justificada ou não, a ideia tinha tomado um arranque definitivo: «Um filho!» Ah, mas que fosse só dela, que nenhum homem se apoderasse dele, do seu nome, da sua vida, que seria, em exclusivo, a projecção da vida dela. - Mas como? – interrogou-se a si própria algumas vezes.

A lua tinha nascido projectando no ar, ainda saturado pela fornalha de um dia quente, silhuetas fantasmagóricas de clarões e sombras. Tendo deixado o carro a uma pequena distância do parque em que se encontrava, fumando nervosamente, a ocultas, um cigarro, ela esperava… um homem. - Não me pergunte nada… E tomou-o nos braços, esmagando-o contra o peito.

O ousado e lamentável processo a que decidira recorrer, resultara a seu favor. Na época própria, com o pretexto de passar umas férias de descanso, partiu sozinha para Lisboa, onde conservava algumas amizades desde o tempo, ainda recente, em que o seu marido aqui passara alguns anos em missão oficial do seu país. Tomou, na emergência, algumas medidas de segurança. Para despiste da sua presença aqui, evitou todo o contacto com pessoas das suas antigas relações. Refugiouse no Algarve, no Minho e demorou-se nas neves da Serra da Estrela. Quando voltou a Lisboa, procurou uma clínica num bairro pobre, que começou a frequentar procurando estabelecer relações amigáveis com a enfermeira principal, o que não lhe foi difícil. Deste modo, no momento do seu internamento, as coisas encontravam-se praticamente facilitadas. Completou as precauções queimando o passaporte e outros documentos de identidade e deu na clínica um nome que não era o seu. Mas é sempre o destino que é mestre do destino. Jovem, vigorosa no querer e no pensar, escapou-lhe um pormenor que, inesperadamente, iria derrubar o castelo altaneiro dos seus sonhos. (Ou não lhe escapou mas dominou com a confiança cega dos seus anos.) Teria, com efeito, pensado nisso? A interrogação estava ali, implícita na dúvida e na esperança: - E se para dar a vida àquela vida que fremia já no seu ventre, a sua se perdesse em holocausto à outra que tanto esperava?


Nos seus projectos, assentes desde a origem numa realidade tenebrosa contra o humano, as linhas inverteram-se e o imprevisto surgiu como um ladrão na madrugada, como um pecado na hora do prodígio… e tudo destruiu, tudo o que era a forma externa de um grande sonho. Mas o que era essência e fruto desse sonho – sobreviveu, fez-se homem! Em suma: encerrando as contas no livro de uma vida curta, um «haver» prometedor, embora sem nome na coluna respectiva, se transportava para a folha seguinte; o menino, como qualquer outro menino, tomava o seu lugar entre a sociedade dos homens.

IV

Naquela manhã, sem saber bem porquê, atravessei o pequeno jardim onde, uma vez por semana, um grupo de crianças internadas num hospício vizinho, vinha dar largas à sua traquinice gozando de uma restrita liberdade sob o olhar fiscalizador mas distraído de um velho empregado, negligente nas passadas e na limpeza do arremedo de fardamento que envergava, luzindo de remendos sebentos. Já quase à saída, matutei qualquer coisa e voltei para trás, desejoso de me regalar entre aquele viveiro de pequenas flores humanas. Sempre adorei crianças, separando-as das contingências que lhes sobrevirão com as consequências etiológicas dos anos. Sentei-me num banco disponível, acendi um cigarro e fui imediatamente atraído por um grupo mais denso, entregue ao cândido simulacro de luta greco-romana. Já a abrir caminho para o instinto dos maiores. E logo, a propósito, algumas conexões acorreram. Foi esta a primeira pergunta: - Por que forças biológicas ou ancestrais estavam a ser dirigidos os impulsos lúdicos daquelas crianças? E surgiu, em corolário, a segunda interrogação: - E que direcção ou com que finalidade se projectava no exterior a complexidade e novidade daqueles movimentos decididos, originados no dinamismo irresponsável de um turbilhão fisiológico oculto onde nada se previa ainda antes da sua imediata irrupção? A reflexão era baseada no exemplo no qual era ainda evidente a imobilidade do espírito com relação às determinantes dos gestos e da expressão vocálica. Aquelas crianças não poderiam colocar-se dentro de um período que, em idade, excedesse os quatro e seis anos. Os elementos nativos estavam, pois, nelas disseminados e infusos, sem as distorções impostas pelo crescimento e as dosagens do saber. Tornavam-se assim, aos meus olhos, um exemplo vivo dos primórdios da pureza a preparar nos seus limites a futura aventura do adulto. Cogitando, pensando, comecei a compreender que a minha observação não era vã. A que origens profundas da sua natureza aqueles seres iam buscar os seus propósitos, as suas intenções, desenvolvendo-os num plano já previamente programado como nas decisões mais conscientes dos homens? Corresponderiam eles, legitimamente, aos princípios da doutrina chamada evolucionista, não sendo nada mais, por conseguinte, que o desenvolvimento vegetativo de simples forças bio-físicas entregues aos seus estágios de enriquecimento e expansão? Se essa era a verdade que tinha que


aceitar-se como estando na base das fontes da vida, estas fontes estavam muito próximas e o homem poderia alterá-las e conduzi-las a seu belo prazer para os fins que mais lhe interessassem. E teríamos criaturas como temos cenouras ou frondosos báobás! Pensei no néscio orgulho dos homens e não pude deixar de sorrir… Enquanto sorria, pus-me a desenhar no chão um cão famélico ladrando à lua que corajosos cientistas lhe roubavam – uma fraude e um prodígio. E fiquei hesitante, sem saber dar ao cão a intenção pela qual ele ladrava: se pelo primeiro asserto ou pelo segundo. Entretanto o meu sorriso desvanecia-se, contrariado por um grupo de internados que irrompia de uma álea do jardim numa gritaria de pequenos suínos, perseguindo um deles que, à frente, se esforçava por escapar-lhes. Quando me viu, parou a uma pequena distância, decerto confiante na protecção que eu poderia dar-lhe. De repente todos o rodearam. Percebi que, naquele momento, ele era a vítima do grupo. Uns do mesmo tamanho, outros maiores do que ele, mais possantes, todos o apupavam, beliscavam, massacrando-o com palavrinhas sujas, vindas vindas do calão infantil que se empregaria no hospício. O perseguido respondia mas sem usar palavras viscosas, parecendo orientar a sua conduta mais pela natureza do carácter do que por amedrontamento. Tal passividade exasperava o ímpeto do bando. Cercavam-no como felinos. Alguns mais atrevidos começaram a esbofeteá-lo. Vi-o vermelho, as faces pálidas a afoguearem-se, num galope do seu sangue infantil. Levantei-me para intervir. O grupo afastou-se. Caminhando devagar, com os olhos no chão, envergonhado mas digno, o pequeno rapaz veio sentar-se num banco próximo do meu. Ali se deixou ficar muito calado, recolhido, indiferente à ameaça dos outros. De novo sentado, a seguir com interesse o desenrolar da escaramuça, comecei a observá-lo, a olhá-lo com curiosidade, com amor. Pequeno homem muito metido em si. Em que pensaria ele, com que sonharia ele? O seu futuro estava a nascer naquele momento, a tomar forma, directizes, num rebuliço de forças em embrião que lhe escaldavam o cérebro. Ai dele se, por qualquer desvio, não soubesse entender as vozes que lhe vinham de longe e seladas até então nas camadas misteriosas da sua carne onde o seu destino se inscrevia! Notei que estremecia e que mudava de cor: do afogueado para o branco glácido. Em que mundo cristalino ou obscuro se mergulhavam as raízes do seu pensamento incipiente? Meditando nisso, acompanhei-o então numa longa viagem através do infinito do tempo até às fontes do ser, onde os princípios da origem determinam o risco geométrico e irreversível do que vai existir. Alguma coisa estava a modificar-se nele. Decerto. A pouco e pouco pareceu-me sentir que tudo o que nele era obscuridade e indecisão se animava, falava. Muito dentro dele, não por nenhum impulso mecânico e racional, mas por uma ruptura inesperada daquilo que jazia no depósito misterioso da sua alma, uma forte explosão o abalava, criando nele as reacções imediatas com que devia restabelecer o prestígio da sua ainda mal definida honradez humana. Os companheiros, encorajados pela sua inércia, tinham-se aproximado de novo, a desafiá-lo com impropérios vexatórios: - Diz quem é o teu pai… - Diz! - E como se chama a tua mãe… Foi então que os seus nervos se retesaram. Muitas vezes as chufas dos outros rapazes o tinham conduzido a esse escuro caminho onde o seu coração abafava sem resposta. Sabia bem que não era como os outros, que tinham pais, irmãos, família, que vinham vê-los, falar com eles e dar-lhes o calor dos abraços e dos beijos – dádivas que ele ignorava, que nunca tinha recebido. O amor não se aprende, nasce. E nasce com o


fim de se dar em troca do que se recebe. Ele não tinha a quem dar amor e também de ninguém o tinha recebido. Choraria, pois, se fosse a tristeza que o fizesse chorar. Porém, era ainda muito cedo para que nele tomasse consciência o sentimento de «estar triste». Um trovão estalou-lhe nas entranhas. Fechou os olhos, quis ver para dentro, quis sobretudo ouvir o que estava a acontecer. E, com efeito, qualquer coisa tinha acontecido. Todas as forças secretas que se reuniam nele para fazerem dele o homem em futuras virtudes, em carácter, em heroísmo, irromperam, precipitadamente, modificando-lhe o ânimo, acelerando-lhe o ânimo, acelerando-lhe a vontade. Abriu os olhos. Qual seria, pois, esse ímpeto que brotava de fontes ainda indefinidas do seu ser e lhe dava um rumo certo para além da sua natureza física, orientando já o seu pensamento no fogacho instantâneo de maturidade? Deslumbrei-me ao captar ali o fenómeno divino da criação erguendo no mistério daquela pequena alma o imperativo irredutível da justiça, da coesão e da verdade das verdades. «Anda, defende-te! – clamava dentro dele uma voz irreconhecível - , chegou o momento de te reconheceres a ti próprio!» Então levantou-se, soberbo. Cerrou os punhos e investiu, resoluto, contra os seus insultadores. Derrubou uns, inutilizou outros, feriu, flagelou, pisou, - tudo num ápice vertiginoso, demolidor, incompreensível. Embasbacada de surpresa, a chusma recuou, sem poder acreditar no que estava a passar-se. Deteve-se depois a admirá-lo, estonteada, a tremer de medo, de respeito. O menino parara, cansado e triunfante. Sozinho sobre a placa do jardins, ficou, por segundos, a olhar com estranheza o seu êxito, sem poder explicá-lo. Sentia-se grande, descomunal! Como tinha acontecido aquilo? Tinha-me esquecido de mim a contemplá-lo, ao mesmo tempo que via, maravilhado, passar-me diante dos olhos a figura débil de David perante a queda do gigante Golias, - David, que para o rei Saúl, que mal considerara o seu valor, era também um «menino»… Levantei-me. Não resisti ao prazer de apertá-lo nos braços. Respondeu-me com timidez, quase envergonhado, mas numa precisão de palavras que me surpreendeu. Pensei esclarecer-me acerca das razões por que se encontrava no internato, de onde era natural e como se chamava, quando a minha atenção se prendeu a um pormenor que poderia não ter importância alguma: sobre o peito nu, entre as bandas da camisa desabotoada, pendia uma medalha de oiro, recortada na forma da cruz ortodoxa dos russos, na qual estava gravada uma frase latina minha conhecida. Voltei-a entre os dedos durante momentos, como se praticasse uma simples curiosidade. A custo abafei uma exclamação de espanto. Aquela frase era a mesma que, muitas vezes, eu vira inscrita numa chapa de bracelete usada pela estrangeira falecida numa clínica de um bairro pobre de Lisboa. Esta criança era, pois, aquele menino que, para nascer, lhe tinha roubado a vida. Era seu filho! Retive todos os gestos. Agora era eu que estava sufocado. Olhando-me muito, interrogou-me, usando uma forte entoação de adulto: - O que é que tem?...

Passaram já alguns anos. Quase já duas dezenas. O menino que conheci um dia brincando num jardim de Lisboa tornou-se um homem, rijo, de carácter forte, indomável. Num pulo do destino, em contínua escaramuça contra todas as mentiras, criou um nome – o seu nome sem antepassados! -, sozinho, pelos meios próprios, sem família nem bens pessoais, mas tornando-se por isso mesmo mais elevado, embora mais duro.


Fui ontem vê-lo ao quartel onde a lista dos seus feitos nas frentes militares de combate abrasa de altivez humana o retângulo negro afixado no átrio.

Falámos muito. Terminando o corolário dos nossos cepticismos, interroguei: - E agora, que pensas fazer? - Mudar de arma. Quero voar! - Voar? Isso para quê? Ele, numa firmeza de espanto: - Para me encontrar muito alto, longe das imundícies deste mundo! E tornando-se rapidamente conhecido, começou a cruzar os ares com a perícia e a valentia de um dominador de nuvens! Era, pois, uma vez um menino…


NAQUELE NOITE HOUVE UM SINAL

Ai da nação pecadora, do povo sobrecarregado de iniquidade, da raça malvada, dos filhos desgarrados… Isaías, I - 4º

O vai-vem constante das bagagens dos viajantes que saíam e chegavam animava o átrio do hotel, criando uma projecção colorida de formas e colagens turísticas que constituem hoje o material moderníssimo que acompanha, sintético e aerodinâmico, o homem vertiginoso, quase impessoal, da vida extra-doméstica das carruagens-camas e aeronaves intercontinentais. A corroborar esta sensação de uma geografia alucinante, os ouvidos eram arrasados pela algaraviada dos idiomas que se cruzavam – nobres ou bárbaros na linha espúrea das etimologias sem conexão. Sobre as mesas do grande salão, os copos de um vodka-laranja, de um portobranco, de um bloody Mary: os últimos aperitivos. Ainda mal repousado da longa viagem, o Espectador, denotando um total alheamento às circunstâncias do ambiente, desceu do elevador e cortou direito para o restaurante do hotel. A porta abriu-se, movida pelo gesto apressado do pequeno chasseur, e todos os criados espalhados pela sala, firmes nas suas posições de obediência às regras comerciais da civilidade, saudaram o recém-chegado com um bem simulado sorriso de satisfação. Entrava o primeiro cliente da noite. (E a praxe ordenava que lhes sorrissem.) Este, num relance rápido do olhar, dirigiu-se para a mesa que mais pareceu agradar-lhe, o que suscitou em todo o pessoal uma contracção reprovadora. Só passados alguns instantes, o Chefe se resolveu a ir apresentar-lhe a lista dos pratos do dia. Esta demora seria o sinal do seu melindre por aquela fuga aos princípios de uma autoridade que só a ele pertencia, ou fosse o de colocá-lo onde lhe aprouvesse fazê-lo. Curvado agora sobre a mesa, o Chefe ia enumerando – num timbre de voz onde continuava a vibrar um certo despeito – as especialidades ribeirinhas, os frutos de mar, o primor dos assados, os corpos das aves inundados em geleias e molhos aromáticos, enfim, toda uma gama de riquezas sápidas a fazer delirar o mais insensível glutão. O Espectador, de ouvidos fechados às sugestões apresentadas, consultava a carta remetendo-se à singularidade das suas preferências. Vem aqui a propósito mencionar uma das curiosidades da marcada individualidade do nosso personagem. Na selecção das excentricidades que a natureza parecia ter-se comprazido em implantar nos seus hábitos e condicionamentos pessoais, uma estranha vocação lhe marcava o ponto nos domínios da vulgarmente enxundiosa e tentadora gastronomia. Ali pontificava não com a gulodice de Lúculo mas com a parcidade de um cenobita do requinte. Por isso, à gama tradicional das ementas onde se


arquiva o quadro das imensas espécies comestíveis do país, destinadas no comum a uma exclusiva secreção de glândulas, ele opunha a sua regra de procurar no prazer da mesa uma satisfação mais estética e psicológica que a que lhe adviria da pura química dos sucos. Tinha um paladar «seu» - como ele dizia -, como se o tivesse organizado de acordo com certas sensações olfactivas. Já no tempo da sua infância, sua Mãe, sempre desvelada, tendo descoberto o seu apetite «poético» por certas pétalas de flores, empenhava-se em procurar-lhe (às escondidas dos familiares para se subtrair à jocosidade dos comentários) os primeiros botões que desabrochavam no jardim da casa, as corolas das rosas, dos lírios frescos e, no seu tempo, a carnalidade branca e inebriante das magnólias. Era este pendor anómalo do paladar que o levava ainda agora a estudar a lista do jantar com os cuidados de certos catadores de insectos nas brenhas onde a humidade engendra teias cintilantes. Por fim levantou os olhos e indicou uma ementa sóbria, apetitosa e exótica. Completou-a com um vinho rubi, de sabor denso, apertado, de boa colheita. Surpreendido com o valor gustativo da escolha, o Chefe teve um oh! de admiração e encerrou o entusiasmo numa grande vénia, exclamando: - Perfeito! O Espectador, devolvendo-lhe a carta e esboçando um sorriso de forçada adesão: - Exacto. Perfeito. A sala tinha-se enchido de comilões. Esvaziavam-se os copos, tilintavam os talheres, as louças finas espelhavam. Estava ali a cota humana de uma civilização: revelada no exercício da primeira das cominações animais – ou seja, a de reabastecer-se. A segunda é a de reproduzir-se. Nas duas, a obra a realizar é uma obra específica dos sentidos. Em certos movimentos dos garfos e das facas, no afogueado das invectivas, ressaltava por vezes a visão da fisiologia do homem primitivo, prestes a abater a vítima que lhe iria entrar, saborosa, na goela. A mulher, criadora de espiritualidade, é sempre o elemento que tira a qualquer mesa onde se come o seu aspecto deplorável de estar a ser ocupada por deglutinadores das cavernas. O instinto da coquetaria, exaltado pelo prestígio das jóias e dos vestidos, reduz os gestos e obriga a certas preciosidades verbais. A sala ressentia-se da sua presença, sem obstar, no entanto, a que o linguarar masculino subisse algumas vezes para notas imprudentes, animadas pela fúria pessoal e excelência dos licores. No hiato dos silêncios, o silêncio tornava-se incómodo devido ao ruído das mandíbulas devorando. O Espectador, que sabia que não mudava o mundo mas que desejava viver num mundo melhor, não se eximiu a este pensamento indelicado, como algumas vezes lhe sucedia ante espectáculo semelhante: - Então o homem é só isto, esta besta?

Afluíam ainda alguns retardatários que o cinema, as reuniões de negócios ou de prazer tinham esfomeado. Uma gíria idiomática ressoava na sala, resumindo-se, em forma nacional, no habitual cumprimento: - Buena sera! - Dobri vetchê! - Buenas noches! - Good night!


- Gute Nacht! - Boas noites! - Msalkher! - Bonsoir! Entretanto, um grupo chegou à porta e começou a descer os degraus de acesso à sala, articulando uma dicção gentílica, ininteligível. Imediatamente outro grupo se levantou de uma mesa próxima e, barrando-lhes o caminha, gritou com furor: - Não! Todas as cabeças se voltaram. Os dois grupos permaneceram hirtos, bloqueados por uma expectativa dramática, ameaçadora. Com um vigor tremendo, foi o Espectador quem quebrou a ameaça levantando-se e gritando, ao mesmo tempo que batia com os punhos sobre a mesa: - Sim! Desatou-se a cobardia e de um lado, de outro lado, de todas as mesas, uma voz, muitas vozes gritaram em uníssono: - Sim! Sim! Sim!... Num fechar de olhos, tudo se reconduziu ao primeiro estado e os novos clientes procuraram uma mesa. Eram negros. Ao passarem diante do Espectador, dedicaram-lhe uma reverência. O grupo que se lhes tinha oposto era constituído por americanos do Texas. O acontecimento, sem quase surpreender o Espectador, aumentara na sua mente a série das reflexões. Embora não fosse muito dado a pensar, tinha ideias particulares sobre as ideias gerais e hábitos próprios no concerto dos hábitos comuns. Qualquer atitude que assumisse, levava-a até ao esgotamento, fazia dela um sacerdócio – palavra de compromisso com a qual André Gide, comentando um dia Malraux, solenemente embicava. O protesto que acabava de manifestar era um reflexo dessa verticalidade mental a que não fugia nunca, praticando-a mais pelos actos do que pelas palavras. Costumava dizer que estas eram muitas vezes uma ilusão – uma anti-vida. - Mas a sua obra? – tinha-lhe retorquido alguém, ouvindo-o em certa ocasião defender a compacta eficacidade dos actos. E ele respondia assim: - A minha obra é o trabalho de um homem que vê, que observa e actua. Com sandice ou sem ela, a minha declaração aqui está: não me sirvo do raciocínio mas do papel químico aplicado às imagens do meu campo visual – de que a minha acção é o motor. Movo-me, inspecciono, sou um espectador. As cartas geográficas, as fotografias dos novos achados da cosmonáutica, as concepções monstruosas da técnica sobre o que dantes se chamava o espírito, são o meu regalo. Bem examinada a questão, a faculdade insólita de pensar degeneraria numa liquescência aberrativa ao pretender ensaiar-se num ambiente tão pouco apto como o desta sala de um restaurante. Não imagino Camus a pensar o texto de Les Justes ou das Noces num acampamento argelino de borrachos. Uma ideia vale um cristal e este é fácil embaciar-se. Um casal de jovens tinha ocupado uma mesa ao lado. O cliente referido pareceu interessar-se pela sua presença. Tinham o grande cartão da ementa aberto sobre a toalha e debruçavam-se sobre ele com vivo alvoroço. Apontavam com o dedo, cochichavam e olhavam em redor, medrosos dos seus gestos serem observados. Positivamente tratavase de inexpertos recém-casados. Hirto, refreando já uma visível irritação, o Chefe aguardava a resposta às várias sugestões que lhes ia fazendo, insistindo sobretudo nos picantes – fino psicólogo na oportunidade de certos condimentos graves. Os dois escutavam a indicação, depois procuravam na lista e desistiam. Reparavam nas refeições dos vizinhos, designavam um prato que parecia agradar-lhes e, dada a


classificação, consultavam de novo a lista e voltavam a desistir. Impaciente até ao rubro, o Chefe afastou-se deixando-os entregues à escolha. Mas esta não se lhes apresentava fácil. Os dois tomaram uma posição de imaginativos ou perplexos. Espiavam com atenção as mesas bem servidas e trocavam depois entre eles um olhar triste de decepção. Entretanto, o Chefe voltou e o pedido foi imediato (e melancólico): uma salada de anchovas com agriões e um spaghetti simples. Sorriram e entrelaçam as mãos com felicidade. Esquecido da comida, o Espectador tinha seguido e avaliado bem o problema defrontado pelos dois jovens. O coração apertou-se-lhe ao reviver a amargura de momentos idênticos em tantas situações da sua vida de rapaz a quem o êxito das paixões retirava o direito das munificências. O acto do amor cria fomes suja saciedade não iguala em delícias nenhuma outra saciedade. Não é gula, é uma consolação de outra natureza, na qual as sensações cerebrais dão um sabor poético ao sabor dos alimentos. O acesso a esse prazer estava bem patente nos gestos do casal, mas frustrado pelas circunstâncias da precariedade dos meios de que pareciam dispor. A sala animava-se do palrar desconexo que acompanhava o declínio dos repastos abundantes, regados de «marcas» especiosas. O capitalismo, a política e os calvos directores de empresas estadeavam insolências rapaces. Passou um criado conduzindo com arrogância um assado envolto em chamas azuladas do Armagnac. Uma fama da gastronomia. O Espectador teve uma ideia estranha. Sentia-se de espírito ligado a todos os esfomeados do Universo. Não se dominou. Levantou-se célere e, com voz imperiosa, cortou o passo ao criado, chamando-o: - Faz favor… Boquiaberto, o homem deteve-se, depois aproximou-se, intrigado. - Esse serviço é para aqui. - E apontando a mesa do lado: - Sirva estes senhores. Aparvalhado, o criado estava prestes a deixar cair a travessa e voltava a cabeça buscando o socorro do Chefe. Este, crescendo desmesuradamente a meio da sala, flagelava o criado com um olhar de recriminação. Toda a assistência, deixando cair os garfos, começou a seguir a cena. Uma segunda ordem, ribombando agora como um trovão, repetiu: - Sirva estes senhores, disse! Um ciclone de protestos irrompeu na sala, uma algazarra inane e violenta de assembleia da ONU num hotel incaracterístico do «quartier»! Não havia razões. Só o despeito das estirpes. - Não pode ser! - Ofende-nos a todos! - É contra as normas! Um pandemónio de feira. As loiças e os cristais ressoavam, batidos com violência furibunda. Lívido de cólera mas calmo, o Chefe, num relance genial de bom senso, gritou para todos do lugar estratégico onde tinha permanecido: - Aqui quem impõe as normas sou eu! – E voltando-se em seguida para o criado, num ar de lisonjeado com a sua própria autoridade: - Pode servir! Imediatamente, tudo se acalmou. O jovem casal que tinha motivado a cena dirigiu os olhos, cheios de júbilo, para o Espectador, exclamando: - Obrigado. O senhor já se apercebeu do nosso «caso». Somos casados há pouco tempo mas não dispomos dos meios – e apontando os comilões que enchiam a sala – desses que estão aí… Amamos os dois as coisas do espírito. E eu tenho começado a


dizer à minha mulher que nada há que se assemelhe tanto ao casamento como a poesia. Decerto que o senhor é poeta! - Certíssimo na primeira proposição mas errado na segunda. Estou de acordo com a figuração poética que atribui ao acto matrimonial. Deverá mesmo considerar-se como a única soldagem das fracturas conjugais. E a poesia, como toda a faculdade essencial, cria necessidades. Daqui a minha convicção: de que nestes dois estágios culminantes da existência – nascimento e casamento – nunca deve faltar aquilo que apetece… Quanto a mim, sou apenas um observador de perplexidades. Calaram-se. Na sala todos estavam calados. De súbito, no aparelho de rádio do salão, que gaguejava em surdina uns ritmos atáxicos de yé-yé, estalou a voz potente de uma emissora desconhecida: - «O RELATÓRIO SECRETO DOS ÚLTIMOS NAUTAS INTERESTELARES ANUNCIA A APROXIMAÇÃO DO FIM DOS TEMPOS. PREPARAI-VOS. OS TRÊS PRIMORDIAIS – ÁGUA, AR E FOGO – SUCUMBIRÃO. TUDO SUCUMBIRÁ.

ELEMENTOS

O efeito foi o mesmo que aquele produzido pelas cenas fictícias do teatro grego nos espectadores desprevenidos. A consciência de um fatalismo iminente gelou de pânico toda a assembleia de comedores. Ninguém gosta que qualquer acidente inesperado lhe desarrume as comodidades habituais. Mesmo o cientista mais seguro da sua dialéctica inconformista se deixa corroer de temor ante o sobrenatural, força inenarrável que ele não domina. A jovem da mesa vizinha, em voz baixa, como se quisesse revelar um segredo: - Eu creio… O Espectador, com um sorriso de aquiescência: - Eu adivinhava que fosse assim… Ensimesmou-se em seguida noutro sistema de observações que o fortaleciam. Ao seu espírito acorriam as lutas cegas dos homens sem esperança, o drama incoerente dos devastadores, dos aniquiladores da sua própria alma. O que começava por baixo como uma flor na aurora, vinha agora de cima, bistrado de negrumes iconoclastas. A terra estava perdida. O mito do ouro tinha suplantado o mito do inefável, da justiça, da bondade. A redenção estava no regresso à linha primitiva dos elementos naturais, à igualdade no pão, no amor e nas recompensas. Porquê este desequilíbrio feroz de uns que se saciavam até ao supérfluo e de outros que rangiam os dentes, abandonados à penúria monstruosa? [o original acrescenta: de um autosito?] Passou o olhar reconcentrado pela sala. Todos os clãs estavam ali representados, ligados pelo espírito comum de um artificiosa sociedade. Teve vontade de falar a todos, de abrir uma peroração que fosse castigo e advertência. Espiando-lhe todos os gestos, o Chefe, que continuava atento ao estranho e também incómodo cliente, aproximou-se dele ao vê-lo na intenção de querer falar: - Deseja alguma coisa? O Espectador, num movimento, como se retomasse o sentido da realidade: - Alguma coisa? – E vindo-lhe, sem saber como, um tom profético: - Ah, sim! Alguma coisa está para acontecer…! O Chefe, numa voz estertória, para toda a sala: - Alguma coisa está para acontecer! Todos os criados, num impulso inconsciente, repetiram: - Alguma coisa está para acontecer! Os dois jovens, sensíveis aos augúrios secretos, segredaram a meia voz, algo impressionados: - Nós também sentimos que alguma coisa está para acontecer…


Todos os comilões se levantaram a protestar (cheios de terror!) contra aqueles pressentimentos que tinham uma origem nas fontes puras do espírito. As mulheres tinam empalidecido. Os gritos, escandecidos, esforçavam-se por justificar no humor o drama das faltas que não tinham remédio: - Não acontecerá nada! - Não somos réus de nenhum crime grave! - Não queremos assassinar o Chefe do Estado! - Não vendemos nações! - Nem borregos… - Nem melões… - Não vendemos a alma ao diabo! - Nem enganámos as nossas mulheres! Uma ruidosa gargalhada respondeu à mentirosa alusão do último grito: - Ah! Ah! Ah!... Neste mesmo momento, todas as luzes se apagaram e a sala mergulhou em escuridão.

E foi então que, da espessura das trevas, onde todos os gritos se tinham afogado, uma voz incomparável e perturbadora irrompeu, acompanhada de setas de fogo que divergiam de um núcleo onde uma boca maravilhosa, sensacional, se desenhava. - No princípio toda a Esperança estava certa. Porque fugis à minha Lei e pretendeis atraiçoar o povo do meu povo? - !!

Foi dito mais tarde que aquela noite ficou inscrita nos sinais dos dias do Mundo. E talvez ficasse…


A CIDADE DA VIDA SEM MORTE

As agências noticiosas, na insipidez dos assuntos massacrados sob a correria agónica das linotypes, ávidas de fixarem a vertigem do quotidiano, espalharam recentemente nas colunas dos jornais um comunicado informativo que teria decerto um relevo na curiosidade das gentes se os massiços acontecimentos dos nossos tempos de catástrofe não arrastassem para as delícias mórbidas de todos os novismos espectaculares a atenção dessas mesmas gentes. E, num curto parêntese, virá a propósito perguntar se não redundará repreensível que estas mesmas tendências, induzidas por paixões colectivas não essenciais, se formem no espírito impreparado e desprevenido de todas as classes sociais, mais dispostas à fuga de si próprias que à consciência das resoluções a tomar. Por isso, a fácil abalada para todos os ritos e todas as sugestões da mitologia dramática deste fim de século abre um abismo negro às agradáveis reflexões das pequenas contingências cósmicas e humanas. E o facto significativo, a circunstância obscura mas fascinante, ficam sem olhos para os contemplar, sem ouvidos para lhes auscultar a palpitação ou o sonho. A notícia referida chamava a atenção do leitor sob a mesma epígrafe que dá o título a esta narrativa, - epígrafe cujo significado tinha um valor já num passado que, embora próximo, invalidava os intuitos sensacionalistas que o seu autor tinha querido atribuir-lhe. Para mim, em poder do fio enigmático da história insólita que ali se inculcava sem se definir, o interesse foi vivo. E, uma vez mais, posto ante uma realidade a assombrar a imaginação, só encontrei uma maneira de cortar o circuito à excitação obsidiante: a de repetir, sem epanáfora de dicção, o conto oral do prodígio em perspectiva.

Foi há uns anos recentes, nas margens do Bósforo. Claro, em Istambul. Burgo raso de história, multi-milenário, berço e encruzilhada de povos geradores de povos, desde os Hititas aos Otomanos. Posição geográfica sabida: mais ou menos, 36 e 42º de latitude norte e 26 e 45º de longitude este. Ex-cabeça (Kemal deslocou para Ankara a capital política) de um território saturada de datas aguerridas, religiosas e culturais, dissipador de energias indomáveis, esta velha Bizâncio, introvertida nas ânsias mutiladas do seu epos racial, olha hoje com inquietação os confrontos das suas fronteiras: a norte e a nordeste, o Mar Negro e o Cáucaso russo; a oeste, a Grécia e o Mar Egeu; a este, o Irão; e, a noroeste, a Bulgária. Chamado à pressa para passar umas férias de orientalidade na cidade das quatrocentas mesquitas, mal tivera tempo (quase sem bagagens, sem livros e sem projectos) de deixar o aeroporto de Lisboa, contemplar em Atenas, à luz do sol-posto, o


mar da batalha de Salamina e, já com as estrelas desmaiando a anunciar uma madrugada estival, descer no campo adormecido de Yesilkoy. Naquele momento, depois de ter já vadiado durante jornadas diurnas e nocturnas até às lonjuras evocativas de Konya (onde Paulo de Tarsos instruiu no dogma a futura Santa Tecla), regressando por Bursa, Uludag e o pequeno e emocionante paraíso de Yolova – necrópoles de tantos sonhos, de tanta beleza arqueológica, de tantos acontecimentos inesquecíveis! – ali me encontrava entre os convidados da anfitriã, captando nas malhas de um ambiente que me transportava a séculos de luz da charra civilização da velha Europa. O estilo do interior correspondia à hierarquia arquitectónica do edifício, situado sobre a pequena colina de Gálata, próximo da famosa torre e à entrada da mais longa e tortuosa via de Istambul, - a Perchembê Pazar, ao longo da qual surgem velhas moradias dos antigos mercadores genoveses, pórticos solenes, cones de fruta doirada, botequins no pitoresco local, oficinas de batedores de ferro e artífices da prata e do oiro, intercaladas na linha bizarra de fachadas em brique da renascença e na pedra armoriada da idade-média. Uma vida museu, relíquia dos séculos, de que os olhos não se separam até ao ponto longínquo do seu término, na apoteose da fonte de Azab-Kapi – florão de domos em mármore branco -, onde, ao olor apetitoso da carne grelhada dos vendedores ambulantes, se sobrepõe o aroma denso do saboroso café turco. Das arcarias geminadas do terraço em que se prolongava a sala em que nos encontrávamos, via-se em baixo o fosforejar das luzes sobre o estuário do Corne d’Or. Coração da cidade antiga. E muita história. Nesta casa, sobre a padieira moída da fachada, eram ainda visíveis os traços com o signo do Basileus. Era a casa de DjanireAzaym. Fora aqui que esta nascera, embora as árvores dos familiares enraizassem em Damasco, onde a sua residência secular abriga ainda nos seus domínios a celebérrima Janela de S. Paulo. Seu pai, já então desaparecido, prócer de actos culminantes, da linhagem dos Ómadas, e amigo pessoal de Mustapha Kemal, acompanhou Ataturk na sua entrada triunfante na Primeira Grande Assembleia Nacional. Foi por essa ocasião que adquiriu, neste bairro de Istambul, o que restava de um velho palácio construído no tempo do sultão Mahamut I, ficando a servir-lhe para estadias de descanso e de interesse político. Djanire só viera aqui para me receber.

Sobre uma imensa bandeja redonda, colocada a trinta centímetros do solo, onde cabiam as soucoupes de sessenta acepipes variados, foi-nos servida a «entrada» de um repasto que iria ser longo e saborosíssimo, iniciado por um cálice ritual do imprencindível raki nacional. Seguiu-se-lhe uma ementa de pratos locais: a chorbasi, sopa de carne com limão e ovos; um midye dolmasi, mexilhões recheados de arroz e cozidos em azeite com pimentos; e um riquíssimo kadm budu (coxa de mulher), constituído por grossas bolas de carne frita salpicadas de canela. Iogurte, doces, queijos, figos secos, nozes, romãs. Servidos: vinhos gregos e turcos. No grupo de convidados encontravam-se, além da irrequieta Karyé-Azaym, prima de Djanire e estudante de arqueologia hitita na universidade de Ancara, Fuad Chabah, jovem professor de Direito na universidade de Beirute, o arquitecto-decorador Mahamud, autor do arranjo das salas turcas do Hilton, e o pintor Fawzi, retratista de mulheres insolitamente atraentes, tomadas em atitudes a que eles as submetia pela hipnose. Uma sensibilidade extrema de nevropata, imaginando com a exuberância de mentecapto e utilizando o talento para elocuções pueris. Habitava um cubículo (em aparência, o de um alquimista) em Eyub entre nuvens de pombos negros e tinha um


estúdio em Paris, numa minúscula vivenda ensombrada de acácias, à entrada de Neuilly. (Ali o encontrei mais tarde.) Foi ele que começou por abrir os seus arcanos: - Ando à procura do homem! O café já aromava nas chávenas, e todos suspenderam o gesto e olharam Fawzi. - Mas o meu amigo encontra-se entre eles… não?! - Bom, não é desses… Trata-se daquele que eu pretendo criar. Perplexidade de todos. Depois, alguém do grupo exclamou: - Ah!... Mas nós estávamos convencidos de que esse sagrado privilégio só pertencia hoje à ONU ou melhor, à UNESCO, seu feto cultural. - Poupem-me ao vosso bom humor. Trata-se, já lhes disse, do «meu» homem, e tenho razões para lhes falar assim. Reparem com atenção nos meus quadros (nas paredes da casa exibia o seu esotérico enigma uma colecção de seis). Homens e mulheres estão ali como esquema da nova fisiologia que procuro. Os movimentos, os traços dissecados que fixei neles são propositadamente a imagem de uma anatomia já em evolução. O prof. Chabah: - Ah, mas então não é o homem biológico, antrópico, aquele que pretende criar, mas sim o da sua pintura… do seu clã imaginário, não é verdade? Djarine (alta, magra, talhada no loiro dos linhos bíblicos, cem por cento europeizada) circulava entre o grupo distribuindo licores opalescentes e aquele sorriso espiritualizado que tem a mulher árabe das culturas elevadas. Encarou Fawzi com uma indulgência admirativa. Este retomou a sua paleta de visionário e começou pintando apocalipses: - Tudo está no fim, - para um novo princípio. O conhecimento dos quasares destruiu os limites do finito, possibilitando talvez uma metempsicose astral. Na província lacustre dos Álamos, a cisão do átomo está próxima a realizar os sonhos de Paracelso, - e talvez mais do que isso. E tudo ruirá para renascer. É a hora do meu Homem! Mas deixemos as preocupações fantasmáticas do pintor e vamos concentrar a nossa atenção num personagem ainda ignorado e sobre quem recai todo o peso e responsabilidade desta narrativa. É um homem de meia idade, simpático mas grave, apurado no vestir e a pele do rosto curtida pelo sol de muitos climas inclementes. Com delicadeza, mantém-se sempre a distância de qualquer palavra que não seja a sua, talvez devido ao mundo repleto de palavras e de imagens que transportava com ele e que esconde de todos mesmo com as pálpebras descerradas e a boca falando. (Os que muito vêem ou aprendem têm uma tendência invencível para o mutismo.) Chamemos-lhe o Homem Enigmático. Iremos escutá-lo. Transportemo-nos a Bursa.

Regressávamos de Konya Bursa por Kutahya, atravessando uma daquelas planuras nuas, amareladas, numa solidão de estepa, de que a Anatólia é fértil, e rolando sobre a aspereza do saibro rubro de uma via ampla mas pouco amável. Em breve fomos absorvidos por um túnel de poeira avermelhada que se levantava da estrada, produzida por outros carros que marchavam à nossa frente, e tão espessa que, embora estivéssemos a meio de uma tarde de sol fundente, tínhamos sido obrigados a acender os faróis. Mesmo assim, o acidente surgiu com um carro ligeiro que circulava na mesma direcção. A avaria imobilizou o pequeno automóvel e o seu ocupante foi convidado a continuar a viagem connosco, isto apesar da desaprovação mal contida do nosso


motorista, - um velho sírio de rara perícia ao volante mas sempre a protestar contra a presença de intrusos. Desculpámo-nos mutuamente acerca do que acabara de suceder e ficámos a espiar-nos durante o resto do percurso sem obter grão de conversa que pusesse sobre o prato o esclarecimento das nossas origens. À entrada da cidade pediu para descer e, sopesando duas maletas avantajadas, desapareceu numa ruela triste, antipática, a fingir bocarra de ghetto. Era o Homem Enigmático. Dois dias mais tarde, dispusémo-nos a conquistar a crista nevada da montanha de Uludag, antigo Monte Olímpico de Misia. A uns bonitos 2500 metros de altura. Esta montanha é uma sentinela e um tesouro para Bursa, mandando-lhe jorros de água quente e cabazes de frutas saborosas. Já perto das pistas dos esquiadores, eu quis que parássemos a fim de repor o cérebro no seu centro, um pouco deslocado pelo volteio de setecentas curvas apertadas! Entre um bosquedo fragrante – unido em certas zonas por largas faixas que, sobre a nossa cabeça, exprimiam a cortesia desta advertência tocante: «Por favor, não toquem nestas árvores: elas são Vossas!» -, não resisti a colher um «raminho» de lavanda turca que Djarine me apontava e que ainda conservo. Nisto, um carro sport, em grande velocidade, passa por nós e alguém, de dentro, dirige-nos um gesto de cumprimento. Era o nosso homem, ao lado de uma linda rapariga que ia ao volante. (Entre as raparigas turcas, as loiras de corpo de vime, olhos de limão verde e seios de maçã são o sabor do mundo!) Cada cidade dá ao espírito uma maneira de estar. Assim se compreende a força de Sodoma instaurando no ânimo do estrangeiro que a visitava um estado de aderência ao contamínio da sua corrupção. Em Florença, o fluido secreto da cidade conduz o sentimento para um fulcro de excitações plásticas de que o mais relapso sente a influência magnetizadora. E Paris, dotada de uma poderosa energia catalíptica, imediatamente nos coloca em ebulição, sugados pelos polos extremos do grave e do frívolo. Em Bursa criamos uma maneira de estar dentro de uma certa particularidade, inesperada e suave: a de um contacto sensível e aceite com o tempo e a morte. É uma cidade-panteão. Os inúmeros mausoléus que ali permanecem, impressionantes de magnificência e solidão, esforçam-se por tornar presente a grandeza da vida morta. Sob o silêncio de um céu muito azul e acompanhados pelo antifonário de duzentas fontes que repetiam as mil kássidas da sua poesia corânica. Tínhamos abandonado a Mesquita Verde e atravessávamos os jardins para entrarmos no Mausoléu Verde, túmulo de Meheet I, a quem se deve a construção destes dois majestosos monumentos da arte turco-otomana, quando de novo a surpresa surgiu: apressado, levando pelo braço a linda rapariga do automóvel, o Homem Enigmático cruzou-se connosco. Djarine deteve-se, dirigiu-me um olhar compreensivo e estabelecemos os dois a mesma interrogação: - quem era este homem, afinal, e porque nos estava perseguindo com tal obstinação a sua presença? Talismã ou jettatore? Perturbação. Tínhamos que sabê-lo.

Estávamos ainda em Bursa. Sob a grande pérgola enramalhada do Çelik P., aberto em colunatas sobre a planície verdejante onde, em lonjuras, aos cedros e ciprestes da cidade sucediam filas ascéticas de choupos que me faziam recordar o vale do Mondego nos campos de Montemor, fazíamos o inventário das sensações de uma semana de excursão pelas antigas regiões dos selêucidas. Sorvíamos umas goladas de chá do país, acompanhadas de troços de lokume e de uma gostosa massa folhada manipulada com queijo e erva cidreira.


Vindo da rua, apareceu o Enigmático. Desta vez vinha sozinho, ensimesmado, havendo retomado o seu peso de mistério. Falámos-lhe, quisemos fazê-lo falar, revelarse. Aceitou estar connosco. Mas que só falaria em turco. Djarine aceitou e convidou-o para jantar em Istambul, na sua casa de Galata. E era por isso que ele ali se encontrava então. De tudo o que nos expôs, está redigido o capítulo seguinte.


II Parte

Afinal, a incrível realidade existia. Ou mais cronologicamente, - tinha existido. A cidade da vida sem morte, a cidade mítica existiu, embora o facto da sua existência nos pareça inscrito entre os caprichos poéticos do senhor Zeus, para lá das realidades terrestres, ou nos prodígios da exclusiva sobrenaturalidade das páginas bíblicas. E ainda que o segredo geográfico a mantenha fora da tangibilidade do domínio público, algumas fontes informativas existem – secretas, é verdade – que dão conta da sua permanência nos mistérios quase esgotados do planeta. O pobre homem deste mundo procura por todos os meios científicos e filosóficos libertar-se da morte – terrível e irremediável sucesso onde agonizam todas as suas ambições terrenas. Foi assim que certo déspota do agnosticismo racional, abeberado de bens materiais e de sub-ciência, ocultista ou não, que vai desde os obscuros ritos astrológicos chineses, do «xamanismo» mongólico e tibetano, e do ioga hindu até aos transes modernos da psiquiatria analítica, ao vuduísmo do Haiti e à criação de estados extáticos nas furnas laboratoriais de Paris; foi assim que um tal obcecado pelo poderio de fenómenos não controlados se entregou à ilusão de criar uma mini-sociedade onde o homem pudesse viver sem o pesadelo da sua aniquilação final. Movido pelo impulso demente que o exaltava, estudou, viajou, associou-se a todos os cultos, despojou da poeira dos séculos todos os livros sibilinos, deixou-se psicanalisar, interrogou todos os pretensos manipuladores do sobrenatural, e por fim instalou-se no ponto escolhido, num sumptuoso edifício de linhas anti-arquitectónicas, abstrusas. No interior, salas de estudos experimentais de biologia, colecções antropológicas, bibliotecas, apetrechos de alquimia, laboratórios. E em salas contíguas, um luxo de sátrapa intelectualizado. Mas onde esse ponto? É aqui também que encontramos vedado o caminho à curiosidade do pensamento. Resta-nos o recurso à imaginação, se bem que certas precisões geográficas (inlocalizáveis) nos sejam fornecidas. Acontece mesmo que algumas das referências que mais deixam penetrar a verosimilhança das hipóteses insistem na possibilidade de se encontrar aquele ponto colocado no píncaro inacessível de uma misteriosa montanha deste país, em qualquer parte, na Anatólia, próximo da zona, ainda mais inacessível, onde repousam os restos da Arca bíblica. Para cumular de um complemento excitante o interesse que se possa ter do que se vem narrando, deverá dizer-se que, sem fábula, é conhecido um largo escorço descritivo até onde foi lícito fazê-lo, sobre paisagem, orografia e urbanismo da enigmática urbe, A singularidade e o fenomenal sintetizam o aspecto bizarro ali assumido pela natureza e imposto às coisas pela vontade alucinante da mão humana. A cidade está fechada numa fortaleza natural de altíssimas escarpas de longa extensão, formando um imenso cinturão rochoso, sinuando em profundas anfractuosidades e fortes protuberâncias, e a que inimagináveis tempestades astrais deram uma patine fulgurante de violeta e rosa que causa estupefacção. Esta massa montanhosa, bicromática, que, vista de baixo, se perfila no espaço como uma silhueta saída da paleta de um pintor ciclópico, emerge de um grupo de lagos que a rodeia e isola e lhe reflectem a altura e os coloridos. Transmutação do cenário colossal, dos morros para a languidez da água, -


esta servindo, decerto, para embevecimento dos habitantes-poetas do alto e estabelecendo, ainda, uma nova cintura de defesa contra qualquer veleidade de emigração forçada. Fenómenos de grandes lagos em altura, poucas vezes verificado. A placa da escarpa em que se encontram é invisível do nível terrestre. Mas aqueles lagos são também assinaláveis devido à insólita flora que povoa as diversas ilhotas que lhes asseguram o adorno e são ao mesmo tempo, para o espírito, um refúgio verdadeiramente edénico, de que cá em baixo, no conjunto das cansadas decorações vegetais da superfície, o homem não encontra um fácil arremedo. (E o homem das dissecações estruturais da nossa era vive cada vez mais com saudades das rosas do Paraíso!) Sobressaindo das plantas lacustres que já por si formam o encanto e o exotismo das ilhotas, erguem-se renques de caules, de fustes, de troncos, que alteram espantosamente, no seu comportamento ilógico, a morfologia tradicional da botânica. Aqui, surge uma árvore de tronco desgrenhado, limpo, rebentando no alto em campânulas lilases; ali, um exemplar agressivo, de fuste e ramos eriçados de espinhos longuíssimos, com um grupo de folhas em forma de fetos em cada extremidade dos ramos a servir de invólucro a um cacho de nozes amarelas e arredondadas; mais além, outra de espécie rara sem flores nem frutos, mas revestida de enormes folhas em forma de palma, denteladas e de uma cor seca de cobre, como se de dentro dela saísse um caule fino de uma flor; depois outra, de casca avermelhada, terminando numa copa espessa, em guarda-sol, donde pendem grandes cones lenhosos com alguns já abertos, a mostrarem-nos grossas glandes escarlates. E, finalmente, estabelecemos contacto com um exemplar que nos embasbaca, para não dizer que nos aterroriza. É um espectáculo e uma perplexidade. Não tem folhas, não tem ramos, não tem frutos. A um metro do solo, o tronco e os braços em que esta se multiplica são formados por secções em forma de cunhas que se sobrepõem, saindo o bico de cada uma da parte rasa daquela que a precede como um enxerto monstruoso onde cada garfo brotasse do topo de outro garfo. Não é uma árvore, é uma espectralização demoníaca, um desenho cabalístico, um sinal tremendo da natureza. Mas os olhos dirigem-se para o alto, para aquele mole de solitárias penedias, para lá das quais se oculta uma cidade de mistério. Através da fina poeira liliácea que perenemente as matiza de um irrealismo romântico, descortinam-se, num ténue esfumado, as abóbadas e terraços dos edifícios principais, destacando-se entre estes, guardados por quatro minaretes silenciosos, o zimbório flamejante da sumptuosa residência do Grande Déspota, senhor da urbe. A definição ocorria por acréscimo: aquilo lá em cima seria bem uma espécie de Olimpo jupiteriano adaptado à medida das mitologias actuais…

Travava, pois, o Grande Déspota (título que a si próprio se tinha outorgado) uma luta surda contra a morte, tendo para isso estabelecido ali o que ele chamava o seu «campo experimental». Para chegar a esta finalidade, os trabalhos, os estudos, as iniciativas, as decepções e os dispêndios tinham sido incontáveis e pesados. Por outro lado, não se sabia em que balança se deveria pôr a sua boa-fé ou a seriedade dos seus planeamentos mentais. Seria um iluminado ou um charlatão? Era pelo menos um caso típico de egocentrista, perturbado pela ideia do super-homem cósmico, isto é, de promoção a uma chefia suprema em que ele aparecesse individualmente como um dominador social, político ou religioso do seu tempo. Auxiliava-o, como elemento incandescente desta combustão ideativa, a lembrança de circunstâncias ainda próximas


que fizeram de personalidades triviais poderosos condutores de povos; e, na actualidade, o progresso enlouquecente da ciência tecnológica, os «milagres» no campo da física, da química ou da biologia, e cuja fácil compreensão e arrebatamento lhe eram facultados pela sua preparação universitária em diversos ramos científicos e filosóficos. (Passou do estudo do pensamento helenístico-asiático às seduções da electrónica e genética celular.) E foi assim que, depois de muitos quebra-cabeças mentais, de se inscrever em diversos institutos onde se ministra o ensino das ciências estruturais do homem, de escutar lições sobre temas de psicofisiologia e das ultíssimas gerontologia e cibernética, de entrar nos laboratórios dos investigadores soviéticos e de examinar as estufas de congelação humana do mundo avançado de Mao Tse-Tung (este tinha escrito no Livro da Guarda Vermelha uma frase que o fazia sonhar: «O homem terá certamente uma morte»; frase que implicava a corroboração da sua dúvida!), um dia, num momento de sublimidade, concebeu uma ideia que se lhe afigurou ser a chave filosofal do empreendimento que o atormentava. A descoberta continha uma dimensão fervilhante de sugestões. Ele duvidava ainda que uma tal lucidez lhe tivesse ocorrido. E repetia em voz alta para se convencer do seu achado: COMO SE COMPORTARIA O HOMEM SEM CONSCIÊNCIA DO SEU FIM? Exacto. Aqui estava o problema. E a sua solução enchia-o de esperanças e arrebatamentos. Seria um estágio para chegar ao grau último: o da não-Morte! Então, depois de alguns momentos de reflexão, rebentou numa euforia incontrolável e começou a rir, a rir, deslocando-se, de mãos no ventre rotundo, para junto do nicho incrustado na parede do chamado Salão das Pesquisas Mestras, onde, num cofre metálico com porta de vidro soldada a oiro para que nunca se abrisse, se exibia um exemplar riquíssimo da Bíblia – que ele venerava mas que temia e se recusa, por isso, a consultar! Queria, pois, com aquela hilariante e destemperada anomalia, patentear o seu desafio ao Livro Sagrado da humanidade. Sabia bem que nos textos agrupados naquele Livro se agitava uma força tremenda, vigorosa, cósmica, de que ele ressentia algumas vezes o abalo, mas a que desejava furtar-se, sonhando com a criação de outra que se lhe opusesse ou a diminuísse. Extasiado, não quis perder tempo e entrou rapidamente no fundo da sua deliberação. Ainda alguns raciocínios, mas nenhum raciocínio o poderia fazer esmorecer. Reuniu, pois, apressadamente, o seu grupo de assessores, largamente esclarecidos nos domínios da ultra-ciência, e expôs-lhes, em palavras acaloradas mas graves de sentido hermético, a loucura do seu plano arrojadíssimo. A selecta equipa de maníacos mitificados entrou num estado de irreprimível exaltação, desvanecida perante esta oportunidade de poder oferecer ao mundo os prodígios da sua gnose do irreal. Eles sabiam bem que possuíam nos arcanos do seu bestunto ubérrimo todas as possibilidades para corresponderem ao que deles se exigisse. Sentado na alta tribuna da câmara mais secreta do edifício, a Sala Selada, onde o reduzido areópago se reunia exclusivamente para as discussões dos novíssimos achados no campo do ocultismo científico, o Grande Déspota, envolvido nas vestes do ritual secreto a que obedeciam e por ele próprio criado, desenvolveu com uma dialéctica aliás confusa e entrecortada de nervosismo, o plano que uma imaginação fogosa lhe tinha elaborado na mente. Já sabemos que a ideia ocorrida se consubstanciava neste tema: COMO SE COMPORTARIA O HOMEM SEM A CONSCIÊNCIA DO SEU FIM? Tratava-se agora de buscar as condições em que esse tal estado de consciência se formasse. Tinha sido este o objecto do apressado conclave.


Os convocados (biologistas, físicos, psiquiatras, atomistas e farmacólogos), uma vez devidamente instruídos do problema a resolver, retiraram-se ordenadamente em fila hierática e entraram nas respectivas Celas de Meditação, como era de uso sempre que se apresentava para solução qualquer grave problema fora das bases naturais. Decorreram três pesados dias de isolamento monástico, durante os quais a imaginação galopante dos magos mergulhou a fundo em todos os domínios das investigações bioquímicas e se adentrou mesmo nas margens escaldantes da ciência que pretende esclarecer as fontes da vida (onde levanta espantos a descoberta do famoso ADN, o ácido desoxirribonucleico, gerador de cromossomas transmissores permanentes das correntes tipológicas vitais); após estes três dias longos de transe inventivo e experiências tenebrosas, os sábios do palácio puderam, enfim, sair das suas injunções com uma declaração unânime de triunfo. A chave do sucesso estava numa fórmula que tinha sido encontrada! Toda a horda dos cientistas do palácio se deixou contagiar pelo júbilo delirante provocado pela descoberta. Estes homens, com a alma já amassada nos sonhos luciferinos de Fausto, viviam num estado de ânimo que os irradiava da participação nas puras alegrias e sensações do quotidiano exterior. O Déspota, à maneira irrecusável dos antigos Grandes Inquisidores, tinha sabido submetê-los ao gosto da servidão pelo gosto da ciência, elevando esta a um culto tal de desumanização que, aqueles que dentro dela mais se relevavam, eram aqueles que mais cegamente praticamente o holocausto da sua total personalidade. Foi difícil acalmar o entusiasmo desatado pelo estrondoso acontecimento. O próprio Déspota fora ultrapassado por um êxito que não esperava tão rápido. E fez subir até à tribuna (onde a transcendência do acto que se celebrava o tinha levado, mais uma vez, agora em extraordinária sessão de grande gala) os esquálidos eremitas, esgotados de energia, que com um tão sólido sucesso tinham sabido dar resposta ao problema proposto e ao qual ficavam devendo as suas setenta e duas horas de reclusão. Beijou um por um, rápido, arrebatado, possuído de um frenesim que era mais de revindicta que de gratulação cordial. A descoberta tinha já passado do campo experimental. Fora escolhido um dos mordomos do Palácio. O resultado afirmou-se inteiramente positivo. Era esse triunfo o que naquela sessão se tinha festejado. Consistia, afinal, num soro injectável cujo efeitos actuavam imediatamente na reestruturação do mecanismo cerebral, originando ali a supressão ou direcção da memória. Desta forma, o conhecimento do tempo passado seria suprimido ou orientado no sentido do fim que se tivesse em vista. Logo, o fulcro a atingir no plano do Grande Déspota, havia sido encontrado. Uma sociedade nova iria ser criada. E nela, uma vez atingidos os seus fins, ele levantar-se-ia, retendo em suas mãos as fontes secretas de um poder que lhe abriria caminho para o maior desafio do homem, realizado até hoje, à ordem natural pré-estabelecida. E prelibando os efeitos fenomenais deste sucesso, ele delirava de orgulho. Os seus colaboradores deliravam também.


III Parte

Na cidade artificial que ele tinha construído – casa de paredes transparentes, hialinas, ruas em espessos relvados onde os veículos não circulavam, expulsos para as vias periféricas – uma população bizarra passava os dias sincronizando o ritmo das suas aspirações interiores como uma espécie de automatismo circulatório em que se condensava, afinal, a forma mecânica assumida pela sua vitalidade. A inoculação forçada do soro da fórmula científica Z (assim o classificaram os sapientes ocultistas do Palácio) havia produzido os efeitos esperados e o homem social, liberto dos raciocínios inibitivos acerca do seu princípio e fim, comia, bebia e rejubilava na mesma cadência e efeitos de uma peça de relojoaria em que a continuidade do movimento e a alegria das campainhas se exerciam dentro de uma regularidade pendular desde que lhe dessem corda. Este homem, transformado numa peça desmontável, mediante a sincronização do «eu» a que tinha sido submetido, entrava no lar, saía para o emprego ou entregava-se ao coito biológico com uma pontualidade de uma razão empírica que derrotava todas as excelências dos sistemas que cá em baixo consumiam a mente dos sociólogos e monitores de maior engenho das civilizações centenárias. Era evidente que na anulação da ideia da morte, levada à consciência dos habitantes da Cidade pela acção de um reagente fisiológico, sobrava um obstáculo, como facilmente nos apercebemos: revelava-se implícito na visão irremediável de um corpo morto. Mas, como também não poderia deixar de acontecer, esta circunstância derrotante tinha sido concomitantemente excluída. Incumbia aos serviços de Saúde Pública exercer na Cidade, através de cada porta, de cada casa ou de cada cama de doente, uma vigilância cerrada, constante, policial, com o objecto de detectar todos os casos de iminência ao desaparecimento da vida. A título de emigração dirigida ou de cura clínica, o indigitado era conduzido para países salutares (imagináveis) – anunciavam as autoridades competentes – donde nunca mais regressava. As águas profundas dos lagos misteriosos, um tanto místicos, que rodeavam o sopé da montanha, eram a solução prática deste rude problema.

Mais que um sátrapa do poder e da impiedade, o Déspota, como já foi assinalado, era dado ao gosto da informção intelectiva, um triturador de filosofias. Queria descobrir a razão das coisas e a faculdade de a ultrapassar e dominar. Estimulado pelo êxito da conquista em que se tinha empenhado, as suas vistas iam já até mais longe. Após ter furtado o homem à angústia do problema da morte, criar nele uma consciência de super-vida sem a intervenção do sobrenatural era o sonho em que colocava a segunda etapa da sua descoberta. Seria ele capaz de imitar a obra de Deus e criar o homem? – perguntava a si próprio. A euforia pseudo-científica que se levantava no mundo (para deslumbramento dos macacos da jungla contestatária) anunciando, entre outras libertinagens mentais, a captação da estrutura química dos «genes» e a técnica correlativa da manipulação in vitro da semente reprodutora da vida; o todo dessa argumentação arrojada e publicitária era uma rampa tentadora por onde os seus raciocínios escorregavam facilmente. E soliloquiava: ele, o homem forte, já experimentado, isolando-se no mistério da sua Cidade Laboratório, da sua Cidade


Fantasma, por que não ter o orgulho e ilusão dos outros? Decerto, decerto que os teria, e marchando, até, por caminhos mais curtos e mais seguros, - mais próximos da vitória. Quando um homem se põe a sonhar demais, ou acaba num pobre diabo, menosprezado no convívio social dos seus pares, ou é elevado às mais altas promoções com o aplauso irritado e secretamente vingador desses mesmos «seus pares». Entre uma e outra posição acontece o confortável lance, alheio às discussões críticas e às mortes na rua, do pequeno existir burguês. As tentativas de fuga a este último estado de ventura estéril começa no exame de instrução primária. O Déspota, havia já algumas dezenas de anos que sofria as consequências daquele exame. Mesmo assim, o seu fácil desequilíbrio na apreciação dos factos denunciava a dificuldade em se isentar das influências de que fugia. Com efeito, na dialéctica interior, revelava-se desprevenido, frágil, inconsequente. E falhava. Falhava muito. Agora mesmo, nas ousadas dimensões universais das suas últimas aspirações, havia rupturas a que a fuga apressada do pensamento que o guiava não dava tempo para que nelas reparasse. Daqui o inesperado das surpresas que viriam minar este primeiro estágio da fabulosa concepção. Uma soma pequena de anos tinha decorrido. O tempo, no calendário de hoje, concentra mais vida: torna-se a síntese de um período muito mais dilatado. O tempo hoje está incluído na experiência imediata. Assim acontecia na Cidade Enigma. Apenas com uma diferença: de que ali o tempo não era utilizado em relação ao que este proporcionava e ao curto período de que o homem dispõe para o desfrute das consequentes possibilidades. A população, isolada das condições peculiares ao mundo geográfico, moral e político da superfície planetária; poderá mesmo dizer-se alegre, feliz, realizada, usava em plena posse os bens que lhe eram ministrados pelas suas faculdades. Enfim, bastava-se a si própria. Não tinha saudades nem recordações de nada porque a sua memória não tinha passado. A vida era aquele esplendor: nascer, produzir e reproduzir-se. O homem emergia na vida como uma árvore emergia do solo e cobriase de enfebrecimentos e de sensações como o tronco se cobria de flores e frutos. Quanto à exterioridade urbanística e estética em que se movia, esta encontrava-se planificada em cânones de um progressismo tão estridente que a sua concepção só poderia ser atribuída a uma imaginação de mitólogos. Bastou, porém, um curto período experimental para que ao entusiasmo e ao júbilo começasse a suceder um sentimento de inanidade e de frustração. E a raiz negra, corrosiva, de uma misantropia deletéria, não especificada, surgiu facilmente e enclavinhou-se no coração dos habitantes. Era um mal amarelo. Para cada cidadão da singular Comunidade, os dias foram-se transformando numa longa solidão sem assunto e as noites haviam-se convertido num insone pesadelo provocado, ao inverso da regra, pela tranquilidade pantanosa que começava a amolecer os espíritos. A ausência de certas ideias mestras, como o culto dos antepassados criando a razão histórica e moral do lar, e o sentimento religioso como forma de uma conduta disciplinar entre a natureza e a sobrenaturalidade, concorriam certamente para o enfraquecimento de toda a razão ideal, e a tal ponto que as bases da consciência, para a sua manutenção, só encontravam apoio na escalvada munificência dos agentes físicos. Ora, a despeito da heterogeneidade e arrojo das diversões individuais e colectivas, dos auditórios musicais, dos anfiteatros olímpicos, do palácio da Dança, das piscinas suspensas, das moradias de vidro multicolor e até dos inumeráveis parques fechados, onde, sobre arrelvados aromatizados, se praticavam todos os jogos doces de carícia-sem-pílula, as energias criadoras amorteciam-se, a viveza dos sentimentos abastardava-se, o próprio prazer se antevia como uma turpitude. Em resumo, a ausência do estímulo da luta contra a morte roía no cerne todas as iniciativas, todos os sonhos


daquele cidadão feliz, - feliz de uma felicidade de laboratório, dirigida, preparada, oriunda dos sedimentos de uma retorta. Logo um terrível fenómeno surgiu e começou a lacerar a actividade estrutural da urbe: as funções produtoras, económicas, artísticas, culturais, desciam a índices alarmantes, baixando mesmo, em alguns casos, ao zero impassível e estéril. Tinha aparecido ali o primeiro tipo integral da chamada Sociedade de Consumo, - só de consumo. Tudo se encaminhava, pois, para um fim catastrófico que o Grande Déspota não tinha previsto. Nas salas secretas do Palácio, as reuniões dos sapientes tecnocratas sucediam-se sem resultado algum. Nenhuma congeminação, por mais árdua que fosse, encontrava solução eficaz para a gravidade do problema. Pelo menos, dentro das premissas pré-estabelecidas no programa da inédita batalha pela vida sem morte. E como cá em baixo, nas pugnas das ideias incapazes (sem lugar entre as ideias), uma arma trágica e viscosa começou a impor-se: a do terror. A população insurgia-se contra o mal-estar da forma de vida de que desfrutava e que para os mais cultos tinha a sua origem no erro de uma filosofia imposta sem qualquer caução de conteúdo precedente que a revalidasse. A autoridade do policiamento estatal ia aparentemente mantendo a ordem provocando clandestinamente a desordem para, a seu coberto, se entregar a retaliações sangrentas. A crise estava aberta.

E foi então que um evento desastroso se produziu. Escapando a todas as vigilâncias e sagacidades dos regulamentos policiais e seus agentes executivos, um homem foi surpreendido jazendo numa imobilidade absoluta, clinicamente irremediável. Estava rígido, ceroso, de olhos abertos, com as pupilas paradas numa contemplação anormal, a fisionomia incrivelmente demudada. Não respirava, não se movia, não emitia qualquer sinal de reacção aos propósitos altissonantes das pessoas que se agrupavam em volta do seu corpo, convertido num bloco rígido, desumanizado. E isto provocava em todos uma vozearia de exclamações, de perguntas, de espantos, de pavor – e de fuga! Embora a aparição deste caso único – um homem inerte! – fosse cuidadosamente guardada, colocada em rigoroso regime de «clandestinidade», a notícia correu célere, levada por vedetas secretas aos habitantes da cidadela que, em imediato, vencendo todos os obstáculos que as condições do sigilo lhes impunham, vieram em compita verificar o «fenómeno». E daqui resultou que ainda antes que o furor do Palácio se desencadeasse descobrindo o dolo de que estava sendo objecto e interviesse para fazer desaparecer o «fenómeno» comprometedor, a parte mais viva e capacitada da população teve ainda tempo para vir inteirar-se do que ocorria. Chegavam, pois, numa vaga de curiosidade e de terror e, de olhos esbugalhados de incredulidade, entregavam-se a um exame inútil e delirante: tocavam o cadáver, dirigiam-lhe perguntas, experimentavam-lhe os movimentos dos braços e das pernas, pretendiam descerrar-lhe os lábios… e desapareciam em seguida com o espírito traumatizado pelos efeitos da inconcebível realidade que acabavam de enfrentar. O relato dos acontecimentos violentos que logo sobrevieram e perturbaram fundamentalmente o sistema social (e ontológico) que prevalecia no estranho burgo da Vida-sem-Morte já não comoverá ninguém neste momento do calendário do orbe em que os mais variados cataclismos nos enchem de espantos o fermento do nosso pão quotidiano. Sufocados de estupefacção, o inopinado espectáculo com que haviam deparado, inculcando-lhes o ludíbrio dos conceitos que lhes tinham sido sugeridos ou impostos, estes felizes cidadãos sem história mas também sem problemas encontravam-se, afinal,


a si próprios. Depois de reuniões escaldantes, durante as quais foram examinadas, fio a fio, as consequências humanas que reconheciam agora prendê-los e desprendê-los ao tempo, isto é, a um decorrer de dias, de actos e de hábitos em que tinham vivido até ali sem noção de limites, como palhaços refestelados na ignorância do seu destino; depois da aceitação e recusa de vários alvitres, decidiram-se, afinal, a resolver o ponto trágico da situação com as mesmas armas do homem «clássico» e actualíssimo: as do recurso à sublevação da rua. O desespero assumiu em grandeza as proporções do logro de que se consideravam vítimas – ou cobaias. A revolta rapidamente alastrou. Abertos os alçapões da ira, uma massa feroz de incendiários, a pedir desforra, entrou no Palácio do Grande Déspota. Este foi massacrado à frente de todos os seus colaboradores, e todas as dependências do edifício, incluindo os misteriosos laboratórios e salas espectaculares da chamada «ficção científica» foram reduzidos a escombros e calcinados até à última pedra dos fundamentos. O mesmo sucedeu com todos os estabelecimentos de ensino e com os seus corpos docentes. E fez-se a paz e o silêncio na cidade. Como na primeira manhã após a noite de Gomorra, um mito tinha morrido. Profunda transformação psicológica se operou na população. No cérebro de cada homem tomou um vulto indelével aquela imagem desconhecida de um corpo sem vida. E tal imagem, reflectindo a cessação de toda a actividade orgânica, criou um pensamento lúcido que iria produzir inesperadas consequências. Pela primeira vez aquele homem se contemplava perante o seu Nada! E sem demorar muito, a reacção começou a manifestar-se, vigorosa, intrépida, apressada. À morte, àquele cenário nefando da destruição da energia humana, haveria que opor a vida inquieta e frutuosa, altiva, movediça, criadora. O tempo começou a parecer curto. E ele não hesitou. Entregou-se, pois, apressadamente, à busca de formas de actividade que o afastassem daquela forma negativa da existência de que desfrutara. E, insolitamente, o homem começou a criar vida, trabalho, acção. Imaginou, inventou, foi procurar em fontes secretas do seu espírito novas formas de se servir dos elementos maravilhosos que a terra, o ar e a água lhe ofereciam. Enfim, tinha aderido ao mundo de que um hibridismo despótico, de sinal contrário a todas as leis naturais, o haviam separado.

Por conseguinte, e em resumo, naquela alta, fechada e aberrativa cidadela coisas prodigiosas se passaram. Com história e sem história. Uma pequena nova civilização brotou das cinzas de uma monstruosa experiência. Com uma frescura inventiva deslumbradora e um sopro potente de tecnicidade, ali surgiu uma concepção inédita aplicada tanto aos acessórios da vida doméstica como à arte, à ciência, à indústria, de que resultou, no engenho e na graça, tornar-se o burgo enigmático um centro de abastecimento para o conforto, para o progresso e para o bom gosto do homem. Na missão de proceder ao escoamento dos produtos singularíssimos que provinham das realizações inimagináveis daquela concepção, um Síndico Económico descia às vezes por caminhos não revelados até ao mundo dos outros homens que, cá em baixo, e decerto com menores virtudes e maiores proveitos, mourejam na tradição das civilizações milenárias – isto é, rapaces. O Homem Enigmático suspendeu aqui a sua narrativa. Ele era um desses síndicos.


Era quase manhã. Saímos todos. Já na rua, pisando as pedras da antiga Bizâncio, eu interrogava-me: - se eu próprio não seria também um personagem já integrado na magia das lendas que são uma força absorvente do país. E foi por isso que fiquei a olhar aquele homem com um espanto supersticioso…


ÍNDICE

5 Uma imagem no espelho 11 Tinha os olhos cor de oiro 23 Era uma vez… sabe-se lá quem? 32 Naquela noite houve um sinal 38 A Cidade da vida sem morte


Os Que Sentem e os Que Pensam