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SUMÁRIO

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CAPÍTULO UM – CONSTRUÇÕES ..................................................................................................................... 16 1.1 PRIMEIROS ESBOÇOS ........................................................................................................................................ 17 1.2 PRINCIPAIS REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 23

1.2.1 Livros-Objeto .......................................................................................................................................... 25 1.2.2 Palavra/Forma ......................................................................................................................................... 43 1.2.3 Arranjo Estrutural .................................................................................................................................... 49 1.3 IDÉIA SELECIONADA .......................................................................................................................................... 54

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CAPÍTULO DOIS – PRODUÇÃO......................................................................................................................... 76 2.1 ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS ............................................................................................................................... 77 2.2 DIAGRAMAÇÃO E GRAFISMOS ............................................................................................................................ 84 2.3 PROCESSO DE PRODUÇÃO ................................................................................................................................. 87 CAPÍTULO TRÊS – LIVRO-OBJETO-QUE-DESEJA ............................................................................................. 93

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CAPÍTULO

UM

– CONSTRUÇÕES

16


1.1 Primeiros Esboços Os

primeiros

esboços

do

livro

objeto

surgiram

no

planejamento do projeto, quando algumas ideias soltas do que poderia ser o “Livro-Objeto-de-Desejo”, o que, na verdade, poderia ser qualquer objeto, desde que fosse livro-referente. Entretanto, começou-se a perceber que o tema de não-senso adotado pela pesquisa estava sendo pouco explorado entre os esboços, por isso a alteração para “LivroObjeto-que-Deseja”. Na sequência são apresentados alguns esboços iniciais ainda rasamente pensados no contexto do projeto (Figuras 02, 03, 04, 05 e 06).

Figuras 02, 03, 04, 05 e 06 – Esboços Iniciais

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Como o projeto de pesquisa mal havia iniciado, as idéias estavam ainda com pouca referência e desdobramento conceitual, todavia serviram de base para a compreensão do projeto e para o desdobramento da alternativa selecionada, apresentada adiante. O esboço à direita (Figura 07), por exemplo,

Figura 07 – Esboço Inicial

serviria de início para alguma alternativa em que algum elemento do livro fosse anexado de maneira a ser exposto como um porta-retrato, sendo que o leitor pudesse modificar esse elemento anexando outro. Já, o esboço à esquerda (Figura 08) surgiu de uma idéia em que o contexto 1 e o contexto 2 fossem acontecendo separadamente com a leitura, então, em determinada ocasião, os dois contextos se encontrariam, o que faria surgir um terceiro contexto, apontado no esboço como 1/2. Vale pontuar que as páginas dos livros poderiam ser preenchidas com quaisquer elementos: fotos, texturas, textos, Figura 08 – Esboço Inicial

desenhos etc. 18


Algumas idéias, como esta do “poema mola” (Figura 09), foram aproveitadas em outras idéias que serão apresentadas ainda neste documento, pois interessou um anexo ao Livro-Objeto-que-Deseja algum outro elemento, como neste caso uma mola, que pode estar escrita ou desenhada como no esboço acima ou na própria superfície da mola.

Figura 09 – Esboço Inicial

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Também em relação à idéia-mola, foi pensado em um livro com cortes que pudessem ocasionar esse efeito, como esboçado a seguir (Figuras 10 e 11):

Figura 10 e 11 – Esboços Iniciais

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“Saudade de grosseria e leveza.“ Esta idéia (Figura 12) seria uma forma aleatória de brincar com as palavras e contextos, que estão representados nas palavras

distribuídas

Funcionaria

com

um

no

círculo

mecanismo

do de

esboço. relógio,

apontando a leitura com o passar do tempo. Pensouse que cada tipo de ponteiro deveria ser combinado com uma estrutura (que poderia ser indicada por cor), por exemplo, o ponteiro que seria amarelo sugeriria a leitura de um sujeito, o que seria vermelho de um verbo e o que seria amarelo de um substantivo, facilitando a relação das palavras para formar a frase. Figura 12 – Esboço Inicial

Poderiam também ser dispostos versos em vez de palavras, ou desenhos, etc.

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Neste último esboço inicial (Figura 13), a idéia era vinculada com um conceito de coleção juntamente com um conceito de paisagem, que seriam

ambos

pesquisados

caso

ela

fosse

escolhida para ser desdobrada. Seria um objeto para colecionar outros Figura 13 – Esboço Inicial

objetos

(ou

textos,

desenhos

etc),

achados/procurados/produzidos em lugares ou contextos que pudessem ser correlacionados com a idéia de coleção. Por exemplo: a primeira paisagem poderia ser a “paisagem idosa”, sugerindo a coleção de objetos idosos (como uma pedra ou uma dobradiça enferrujada), a segunda poderia ser a “paisagem amarela”, sugerindo uma coleção de objetos amarelos, e nesta lógica o livro iria se formando. Talvez estivesse preenchido com alguns dos objetos colecionáveis, ou então já viria com alguns textos, ilustrações, fotografias, enfim, alguma pista de seu funcionamento.

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1.2 Principais Referências “O ‘livro de artista’ é criado como um objeto de design, visto que o autor se preocupa tanto com o ‘conteúdo’ quanto com a forma e faz desta uma forma-significante.” (PLAZA, 2010, s/p). Plaza defende que o autor de textos tem uma atitude passiva em relação ao livro, já o artista de livros tem uma atitude ativa, por ser ele responsável por todo o processo de produção do livro. Uma vez que este projeto está inserido na área de design de produto, o livro deve ser tratado integralmente, pois cada elemento é significante para o entendimento global do produto. Se livros são objetos de linguagem, também são matrizes de sensibilidade. O fazer-construir-processar-transformar e criar livros implica em determinar relações com outros códigos e sobretudo apela para uma leitura sinestésica com o leitor: desta forma, livros não são mais lidos, mas cheirados, tocados, vistos, jogados e também destruídos. O peso, o tamanho seu desdobramento espacial-escultural são levados em conta: o livro dialoga com outros códigos. (PLAZA, 2010, s/p)

Quando o autor sugere que “os livros não são mais lidos”, acredita-se que a leitura não é mais a prioridade dos livros, que ela pode ser sugerida também, mas deve ser relacionada com todos os 23


outros códigos para ser espaço-temporal coerentemente com o que propõe, sendo que os códigos podem ser aleatórios, dependendo de cada leitor. Como estão em jogo todos os códigos relacionados ao livro a ser projetado, também se tomou como referência aspectos experimentais para este projeto, como o não-senso na literatura de Carroll e de Lear, expoentes da literatura nonsense. Leite (1977) expõe que Deleuze concede a Carroll o lugar de primeiro inventor da literatura de superfície, pois por meio dos paradoxos, a profundidade se destitui, e as coisas se mostram na superfície: “o humor é esta arte da superfície, contra a velha ironia, arte das profundidades ou das alturas” (DELEUZE, apud LEITE, 1977, p. 23). Seguem, portanto, as principais referências para este projeto, sendo que algumas, como as de “poema-objeto”, servem como base de entendimento geral de como uma coisa pode tomar o lugar de outra, dependendo de como é sugerida.

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1.2.1 Livros-Objeto Segundo Sousa (2008), os livros de artista são obras que consideram a forma como geradora de conteúdo, a forma “livro” como inseparável da obra. Pode-se considerar que tanto os aspectos textuais e imagéticos quanto os aspectos olfativos, sonoros, táteis e psicológicos só funcionam na proposta do livro quando estão juntos, a não ser que a proposta seja justamente separá-los. A autora afirma que todas as características da forma escolhida para o livro-objeto funcionam como espaços ativos para sua construção, “sua estrutura física é parte integrante do processo poético”. Ainda coloca: “apresentam-se como estruturas cuja materialidade está relacionada às imagens/textos/conteúdos, e podem ser sentidos como corpos, como lugares táteis para o exercício de sensações” (SOUSA, 2008, p. 1878).

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Como primeira referência a ser explorada, apresenta-se o “Manual da Ciência Popular” de Waltercio Caldas (Figura 14), o qual foi seu primeiro livro-objeto de grande tiragem. Explica o autor: O senso comum, negligente com suas dúvidas, exorbita desconfianças sem dar atenção aos benefícios das situações inesperadas. Por isso confunde os materiais com os objetos que foram construídos deliberadamente com a intenção de apresentar sem rodeios uma “casualidade natural das superfícies”. O teor de evidência destas imagens é, portanto, sua poética explícita. (CALDAS, 2007, p. 4)

Ressalta ainda que o melhor das dúvidas é quando

elas

submetem

a

expectativa

a

dimensões improváveis. Figura 14 – Manual da Ciência Popular, CALDAS, 2007

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O livro segue este formato interno, sendo o texto à esquerda deste primeiro procedimento (Figura 15): “A imagem é cega – Aplicação de mertiolate incolor, com a ajuda de uma seringa hipodérmica, no interior de uma bola de pingue-pongue”.

Figura 15 – Primeiro Procedimento, Manual da Ciência Popular, CALDAS, 2007

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No 19º procedimento (Figura 16), o artista coloca: “Algodão negativo – A desinvenção das imagens nos custaria uma pele”.

Figura 16 – 19º Procedimento, Manual da Ciência Popular, CALDAS, 2007

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E como último exemplo desta obra (Figura 17), o artista questiona apresentando esta imagem de uma jarra com um copo dentro para encher outro copo: “Como funciona a máquina fotográfica?” O artista também comenta no prefácio que é na superfície dos campos do sentido, nesta obra, que as dúvidas jamais serão esclarecidas, pois gostaria que o leitor estivesse em um “livro sem fundo”.

Figura 17 – 29º Procedimento, Manual da Ciência Popular, CALDAS, 2007

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A segunda obra de referência é o livro-objeto Pepperminta Homo sapiens sapiens - boxa ludens de Pipilotti Rist, artista suíça. O livro é composto por múltiplos soltos dentro de uma caixa. Acima a capa e a contracapa do livro/caixa (Figuras 18 e 19) e em seguida algumas imagens dos impressos (Figuras 20, 21 e 22).

Figura 18 e 19 – Pepperminta Homo sapiens sapiens - boxa ludens, RIST, 2005 Fotografias: Raquel Stolf

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Figura 20 – Pepperminta Homo sapiens sapiens - boxa ludens, RIST, 2005 Fotografia: Raquel Stolf

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Figura 21 – Pepperminta Homo sapiens sapiens - boxa ludens, RIST, 2005 Fotografia: Raquel Stolf

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Figura 22 – Pepperminta Homo sapiens sapiens - boxa ludens, RIST, 2005 Fotografia: Raquel Stolf

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O terceiro livro é anônimo (Figura 23), sendo que o autor pode até constar nas palavras impressas, entretanto

seria

necessário

desvendá-las

com

insistência. Segundo o site de sua Editora Éditions Incertain

Sens, “Edições de Sentidos Incertos”: “Uma parte do livro foi decifrada em março de 2009 por um estudante numa escola de arte auxiliado por uma pessoa que trabalha com informática” (tradução de Raquel Stolf, 2010). Este livro como referência deste projeto se apresenta também de maneira incógnita com relação ao não-senso, parecendo ele o cúmulo do conceito, provavelmente beirando ao absurdo (o que se difere do Figura 23 – AAMCQ AIYCI IAOSA QIEIQ MAOSC OIGOO QIMWI WIAGI YAQA, Livro Anônimo, 2005

não-senso como explorado no caderno A, cap. 1). 34


Ao lado, duas páginas do conteúdo do livro (Figura 24), e abaixo, a última página impressa do livro (Figura 25), onde estariam os

dados

técnicos

entre

as

demais

informações sobre sua edição.

Figura 24 – AAMCQ AIYCI IAOSA QIEIQ MAOSC OIGOO QIMWI WIAGI YAQA, Livro Anônimo, 2005

Figura 25 – AAMCQ AIYCI IAOSA QIEIQ MAOSC OIGOO QIMWI WIAGI YAQA, Livro Anônimo, 2005

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Outra referência é a obra Doble Faz, de Nicolas Paris Vélez (Figuras 26 e 27), que trabalha com a relação passado-futuro das coisas. Seguem algumas imagens:

Figuras 26 e 27 – Doble Faz, VÉLEZ, 2007

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À esquerda, a última página do livro (Figura

28).

Abaixo,

a

página

dobrada,

transformando a ilustração na própria página dobrada (Figura 29).

Figura 28 – Doble Faz, VÉLEZ, 2007

O livro é formado de uma grande quantidade de ilustrações trabalhadas com o mesmo princípio passado-futuro. Seguem duas ilustrações/transformações (Figuras 30, 31, 32 e 33).

Figura 29 – Doble Faz, VÉLEZ, 2007

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Figuras 30 e 31 – Doble Faz, VÉLEZ, 2007

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Figuras 32 e 33 – Doble Faz, VÉLEZ, 2007

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“Dois Palitos” é um livro formado por 50 microcontos, de Samir Mesquita (Figuras 34, 35 e 36). Na caixinha, a sua “composição”:

Contos feitos com até 50 letras (sem contar título e pontuação), idéias soltas, experiências roubadas e alguns exageros. Indicados para pessoas impacientes ou sem tempo. Perfeito para serem transportados para todos os lugares e lidos em uma paulada só. Mantenha fora do alcance dos chatos de plantão. (MESQUITA, 2009, s/p)

Figuras 34, 35 e 36 – Dois Palitos, MESQUITA, 2009

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“Notorium Magnificus® 132mg – Droga de Artista”, de Michel Zózimo (Figura 37 e 38), pode ser referente ao livro ao usar o espaço de uma bula para a possibilidade de doenças fictícias causadas na/pela arte, utilizando de um cruzamento entre a linguagem farmacêutica e a linguagem artística em itens contidos em

bulas

de

remédios

como:

indicações,

interações

medicamentosas, composição, fórmula, informações ao usuário, reações adversas, medidas de precaução, etc. Segue a descrição Figura 37 – Notorim Magnificus, ZÓZIMO, 2008

do item “Fórmula”:

Para reunir em uma fórmula a passagem de uma realidade a outra, poderíamos propor duas definições: estética é um termo que convém ao domínio de atividade onde são julgadas as obras, os artistas e os comentários que suscitam. A estética insiste em valores ditos “reais”, substanciais ou ainda essenciais da arte. Por outro lado, artística delimita o campo das atividades. O termo insiste na denominação: será considerada artística qualquer obra que seja exibida no campo definido como domínio da arte e que siga o seu coeficiente AC=CA [Arte contemporânea=Coeficiente Artística] AC=HO³’’’’’’’’’’’’ [Arte contemporânea = Hidróxido de Ar III]

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Figura 38 – Notorim Magnificus, ZÓZIMO, 2008

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1.2.2 Palavra/Forma Assim como um livro pode se tornar um objeto, uma palavra também pode tornar-se, e também um poema ou proposição. Os Poemas Visuais e os Poemas-Objeto, retirados da obra “Poesia Vista”, de Joan Brossa, foram também tomados como referência por instigarem o leitor de maneira similar ao livro-objeto. Os

poemas

visuais

à

esquerda (Figura 39) chamam-se “Desmontagem”,

de

1974,

e

“Poema Visual”, de 1990. “A linguagem literária deixou de ser o único

veículo

apto

a

incluir

conteúdos e formas poéticas”, expõe Brossa (2005, p. 17) sobre seus poemas visuais. Figura 39 – Poemas Visuais, BROSSA, 2005

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À esquerda, “Poema Visual”, de 1970/78, seguido de “Elegia a Che”, de 1969/78. Abaixo, à esquerda, “Poema Visual”, de 1970/82 seguido de outro “Poema Visual”, de 1970/78. E abaixo, à direita, “Íma”, de 1970 e “Poema Visual”, de 1971/82 (Figuras 40, 41 e 42).

Figuras 40, 41 e 42 – Poemas Visuais, BROSSA, 2005

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Sobre os Poemas-Objeto, Brossa (2005, p. 105) afirma que “Queria fazer poemas que não gerassem linguagem, mas que a suprimissem”. À esquerda, “Nupcial” e “Roda”, de 1984/88 e 1969/89; abaixo, à esquerda, “Luva-Carta” e “Insetário”, de 1967 e 1985/89; e abaixo, à direita, “Contos” e “Poema-Objeto”, de 1986 e 1969 (Figuras 43, 44 e 45).

Figuras 43, 44 e 45 – Poemas Visuais, BROSSA, 2005

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Ainda sugerindo a palavra/letra enquanto forma/enquanto volume no espaço/enquanto

objeto,

toma-se

como referência o trabalho “Pilha”, de Angela Detanico e Rafael Lain (Figuras 46, 47 e 48). Segundo Beiguelman (2010, s/p), Angela Detanico e Rafael Lain operam por desconstrução. Elaboram universos temporários que desafiam as formas de identificação dos limites entre visível e invisível e dos horizontes de legibilidade, independentemente da plataforma e/ou interface que escolham.

Figuras 46 e 47 – Pilha, DETANICO e LAIN Fonte: http://www.detanicolain.com/

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A autora cita Derrida, lembrando que a conjunção das práticas da informação, da cibernética das ciências humanas conduz a uma subversão. Explica que o texto não revela a mensagem, mas se comporta como um processo interrogatório da possibilidade de mensagem, explica, portanto, “Pilha”: um sistema de escritura por objetos (re)traduz o que nos circunda em enunciados visuais que implodem a letra para dar volume à quebra da horizontalidade da linha. Funciona, basicamente, a partir de empilhamentos de objetos idênticos que, numa escala de 1 a 26, relacionam quantidades a valores fonéticos. Assim, 1 batata = a, 2 batatas = b, 26 batatas = z. O espaço se dilui em possibilidades combinatórias, entre frases de cubos de açúcar, de livros, de vasos, soprando Deleuze, mais uma vez, entre diferenças e repetições, produzindo uma vertigem essencial que se efetua pela desestabilização da forma (relativizada pelo número) que se transforma em letra, desaparece no objeto e se apaga na sua especificidade para voltar como interrogação sobre não mais a possibilidade de mensagem, mas os possíveis da linguagem. (BEIGUELMAN, 2010, s/p)

E conclui o texto, questionando: “O que é que você vê quando você vê? Como é que você lê o que você vê? Você lê?

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Figura 48 – Pilha, DETANICO e LAIN Fonte: http://www.detanicolain.com/

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1.2.3 Arranjo Estrutural

O estrutura pensada para este projeto tem origem na estrutura do livro

Animalario Revillod

Universal (Figura

49),

del de

Profesor Miguel

Murugarren, que joga com as ilustrações de animais de maneira semelhante ao que se pretende com as palavras e/ou textos no Livro-Objeto-que-Deseja. O esquema funciona com a mistura entre as cabeças-corpos-rabos dos bichos, numa analogia começoFigura 49 –Animalario Universal del Profesor Revillod, MURUGARREN, 2008

meio-fim para este projeto. Seguem algumas

combinações

de

páginas

(Figuras 50, 51, 52 e 53). 49


Figuras 50 e 51 –Animalario Universal del Profesor Revillod, MURUGARREN, 2008

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Figuras 52 e 53 – Animalario Universal del Profesor Revillod, MURUGARREN, 2008

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Outra referência é a obra de Raymond Queneau,

Cent Mille milliards de poèmes (Figuras 54, 55 e 56), Cem mil bilhões de poemas, na qual o poeta francês sugere 100.000.000.000.000

de

poemas

formados

pelas

combinações entre os versos, no mesmo esquema que a referência anterior, por meio de cortes nas páginas.

Figura 54 – Cent milliards de poems, QUENEAU, 2006 Fotografia: Raquel Stolf

Figura 55 – Cent milliards de poems, QUENEAU, 2006 Fotografia: Raquel Stolf

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Morais (2010) adquiriu o livro e postou em seu blog: São dez sonetos, cada verso numa filipeta cortada. Podem-se combinar os versos da forma que quiser, de modo que, matematicamente, tem-se em mãos um livro com 100.000. 000.000.000 de sonetos. Perto disso, taquicardia é comichão. [...] No prólogo, Queneau diz que, lendo todas as possibilidades combinatórias entre os versos, 24 horas por dia pelos 365 dias do ano, levaríamos em torno de 190 milhões de anos para esgotar o livro. Segurar nas mãos essa edição é segurar a possibilidade de 190 milhões de anos. Taquicardia.

Figura 56 – Cent milliards de poems, QUENEAU, 2006 Fotografia: Raquel Stolf

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1.3 Idéia Selecionada A ideia selecionada para o desdobramento deste projeto iniciou na estrutura esboçada ao lado (Figura 57), em uma proposta de começos-meios-fins que possam ser combinados aleatoriamente sem preocupação com o sentido em que o livro possa percorrer. Vale sublinhar que este arranjo é somente um esquemabase para início da construção do Livro-Objeto-que-Deseja, sendo

Figura 57 – Esboço

que a partir dele foi gerado ainda um segundo esquema, onde os começos-meios-fins podem ser separados fisicamente uns dos outros, permitindo uma continuação qualquer da proposição-começo, da proposição-meio ou da proposição-fim. A proposta é que o indivíduo possa adquirir só o livro dos começos (ou dos meios ou dos fins), e o restante ficaria por conta de sua imaginação. Separar os começos-meios-fins foi pensado no sentido de que a relação entre os aspectos do livro seja dada também quando eles estão separados, isto é, a falta que remete à relação, assim como na lógica do não-senso, na qual a aparente falta de sentido remete ao seu excesso. 54


O primeiro esboço ilustra a idéia com todos os livros montados, sendo o restante respectivamente o “Livro dos Começos”, o “Livro dos Meios” e o “Livro dos Fins”, os quais não necessariamente apresentarão esses títulos, mas estão aqui tratados desta maneira para melhor entendimento do processo de desdobramento do conceito (Figuras, 58, 59, 60 e 61).

Figuras 58, 59, 60 e 61 – Esboços

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Para esclarecer estes primeiros esboços esquemáticos, segue mais um dos possíveis arranjos dos livros para formar o Livro-Objeto-que-Deseja, em que o segundo desenho deve ser o “Livro dos Fins”, e o “Livro dos Meios” deve ser o último desenho, livro que se encaixaria no meio do LivroObjeto-que-Deseja (Figuras 62, 63, 64 e 65).

Figuras 62, 63, 64 e 65 – Esboços

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A seguir apresentam-se algumas idéias de formas físicas para o livro, uma vez que o conteúdo interno das páginas foi apresentado por meio de alguns recortes na sequência do documento. Estes dois primeiros esboços (Figuras 66 e 67) possuem como um dos livros o arranjo-mola, apresentado nas páginas 16-17, no qual o esboço que está na escada utilizaria a mola escrita ou desenhada nas suas laterais, e o esboço abaixo à direta utilizaria qualquer uma das duas propostas de arranjo-mola.

Figuras 66 e 67 – Esboços

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A proposta à esquerda (Figura 68) seria de que o livro quando completo teria uma forma que se fecharia, neste caso na letra “O”. O livro separado seriam dois “U’s”, Figura 68 – Esboço

sendo

que

em

um

possível

desdobramento três livros poderiam formar a palavra “ou”, enfatizando a multiplicidade de

leituras que o livro propõe. A proposta à direita (Figura 69) diz respeito à conformação de todo o livro, dando a ele esta forma circular tridimensional, podendo ainda trabalhar-se em sua forma bidimensional com recortes, dependendo do conteúdo final do livro.

Figura 69 – Esboço

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A idéia à esquerda (Figura 70) sugere que os três livros sejam unidos por algum elemento que possa ser utilizado de alguma maneira no livro e sirva como eixo para a leitura sequencial dos textos. A sugestão apresentada é a de um lápis, uma vez que o livro poderia ou ter espaços vazios a serem preenchidos ou, então, que algum dos livros (dos começos, dos meios ou dos fins) fosse em branco para poder ser preenchido com quaisquer pensamentos. Essa idéia surgiu do livro estruturado como um quebra-cabeça, o que pode ser pensado com diversas formas, como nos três esboços abaixo (Figuras 71, 72 e 73).

Figuras 70, 71, 72 e 73 – Esboços

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Portanto, a estrutura física do produto livro é basicamente a separação/união de três livros, misturando o conceito de não-senso, no que diz respeito à liberdade para invenções de outras proposições a partir da proposição-começo, meio ou fim; o conceito de desejo do livro por ele mesmo, propondo a investigação da sua linguagem poética; e o conceito de livro-objeto, em que o livro é proposto como um todo, trabalhando-se seus variados aspectos físicos e gráficos, em uma tradução criativa, como coloca Plaza (2010, s/p): “A criação do livro como forma de arte comporta um distanciamento crítico em relação ao livro tradicional; contestando-o recria-se a tradição em tradução criativa, fazendo surgir novas configurações e formas de leitura.” Partindo dos estudos esboçados, foram criadas duas alternativas, sendo tomada como a primeira o próprio esquema-base do livro (Figura 74), uma vez que este esquema propõe claramente o desdobramento dos conceitos do projeto e facilita a utilização de diferentes tipos de papel, impressão, costura etc.

60


Figura 74 – Primeira Alternativa Final: Esquema-Base

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Foi, então, construído um modelo de estudo tridimensional (Figuras 75 e 76), julgado indispensável para as últimas decisões. Neste modelo foi utilizado um papelão similar ao papelão Ólean, geralmente empregado em capas de livros, também para o miolo, pois se pensou que seria melhor para que os livros fossem encaixados. Vale pontuar que neste modelo está faltando o Livro dos Fins, uma vez que com os dois primeiros livros já foi possível ter uma Figura 75 – Estudo 3D

noção espacial da idéia.

Nesta primeira alternativa, nota-se a forte relação formal de cada livro com o outro livro, entretanto, a relação formal entre cada livro consigo mesmo é enfraquecida, isto é, o Livro dos Começos, por exemplo, não possui uma forma que remeta aos começos, e o mesmo acontece com os outros dois livros. Figura 76 – Estudo 3D Desmontado

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Partindo desse pressuposto, foi gerada a segunda alternativa final, cuja intenção foi a de estabelecer três relações formais distintas no Livro-Objeto-que-Deseja, composto pelos três livros, cada um independente, a não ser pelos textos que continuam no livro seguinte. O primeiro dos livros desta alternativa, o Livro dos Começos (Figura 77), seria uma caixa onde caberiam os outros dois livros, sugerindo a idéia de que os meios e os fins surgem de um começo, ou seja, o começo engloba os outros dois livros. Esta caixa estaria com os começos dos textos impressos na parte interna, sendo que para melhor leitura seria proposto, provavelmente na parte externa da caixa, que ela fosse desmontada, transformando-se em uma espécie de cartaz. Por esse motivo, foram estudadas e modeladas diversas planificações desta mesma caixa, uma vez que sua forma precisava ser pensada tanto tridimensionalmente quanto bidimensionalmente.

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Figura 77 – Segunda Alternativa Final: Livro dos Começos

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Para o próximo livro, o Livro dos Meios (Figura 78), foi escolhido um esboço do início do projeto (Figura 11), que localiza os meios dos textos na parte central/no meio do livro.

Figura 78 – Segunda Alternativa Final: Livro dos Meios

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Para este livro, foi também construído um modelo tridimensional (Figuras 79 e 80), o que ajudou a perceber que ele não seria confortavelmente manuseado.

Figura 79 e 80 – Estudo 3D

Por fim, o último livro desta alternativa utilizaria furos no decorrer do texto no lugar dos pontos finais das frases (Figura 81), em uma relação direta com a proposta do Livro dos Fins (Figura 82). Cada ponto final, que seriam “pontos-quadrados”, seria um furo na página, ou seja, a página seria cheia de mini-furos. 66


Jogou-se com a relação entre um “fim-furado”, um fim que não necessariamente é um fim e também com a liberdade de o leitor de ver além da página, pontualmente onde o furo daria na página seguinte. Esta

idéia

envolveria

ainda um pacote onde estariam os pontos finais físicos, que poderiam

ser

de

qualquer

material rígido e da cor do texto. Como se os pontos tivessem sido retirados do livro, mas acompanhassem o produto.

Figura 81 – Furos ao invés de pontos finais

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Figura 82 – Segunda Alternativa Final: Livro dos Fins

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Foram criadas as duas alternativas apresentadas que convergiram entre algumas adaptações para a idéia final, que iniciou com a terceira alternativa esboçada, na qual se tentou fazer o LivroObjeto-que-Deseja estar em relação como um todo (como a primeira alternativa, o esquema-base) e também separadamente (como a segunda alternativa), isto é, cada livro teria relação explícita com os outros livros e consigo ao mesmo tempo. A alternativa utilizou da idéia dos furos no lugar dos pontos finais (Figura 81) em todos os três livros, sendo que o Livro dos Começos (Figura 83) possuiria ainda o recorte para encaixar o Livro dos Meios (Figura 84) que, da mesma maneira, possuiria um recorte para encaixar o Livro dos Fins (Figura 85) que, por sua vez, seria uma pequena caixa com os textos impresso na parte interna contendo os pontos finais físicos fabricados de material rígido.

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Figura 83 – Terceira Alternativa Final: Livro dos Começos

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Figura 84 – Terceira Alternativa Final: Livro dos Meios

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Figura 85 – Terceira Alternativa Final: Livro dos Fins

72


Até este momento do processo, tentou-se percorrer ao máximo as leituras e os conceitos para a construção do livro, no entanto ainda foi necessário repensar alguns limites, assim como estudar a melhor forma física para que ele estivesse coerente como um todo. As adaptações e a construção efetiva do Livro-Objeto-que-Deseja finalmente são expostas no segundo capítulo deste caderno. Arrisca-se ainda a apresentar o projeto gráfico e a estrutura textual do livro, pois esses aspectos estão intrínsecos na formação do conceito do projeto. “O engajamento literário com o livro como forma oferece possibilidades conceituais e formais tanto para o campo da poesia como para o campo das artes visuais” (PANEK, 2006, p. 26). Este projeto une algumas áreas, mas o foco permanece na área de design de produto, por isso tanto a estrutura textual como o projeto gráfico deste livro são considerados aspectos experimentais. Para John Cage (2007), “experimental” contextualiza um não-julgamento em termos de fracasso ou êxito, mas deve ser percebido como um ato em que o resultado é desconhecido: "a arte é uma espécie de estação experimental na qual colocamos a vida à prova” (CAGE, 2007, tradução de Raquel Stolf). A forma do Livro-Objeto-que-Deseja segue justamente a lógica da estrutura gráfica do produto. Vale a colocação de Panek (2006, p. 27) sobre a obra de Mallarmé: 73


Os escritos de Mallarmé colaboram para a compreensão do livro como forma, como uma idéia a ser trabalhada poeticamente. Mallarmé vê o livro como um projeto metafísico, elabora o conceito do ato de escrever como uma forma de ação. O livro funciona como uma investigação metafísica que foca sobre a possibilidade de que a forma deve ser realizada partindo da estrutura do próprio livro.

O produto deste projeto correlaciona esses pontos ao trabalhar o texto inserido em um contexto poético e nonsense, seguido de uma estrutura envolvida também pelo conceito. O livro foi construído com textos que possuem linguagem poética e jogos de palavras e de sentidos, os quais foram repartidos em duas partes, uma parte para o Livro dos Começos e uma parte para o Livro dos Meios, pois foram retirados os textos do Livro dos Fins, devido à estrutura de acrílico da caixa dificultar a impressão. Voltando à estrutura textual, vale sublinhar que cada pedaço de texto contém um ponto em comum para sua continuação, da proposição-começo para a proposição-meio, possibilitando a combinação entre eles. Entretanto, mesmo sendo lidos separadamente, foram trabalhados para estarem coerentes com a proposta do projeto, que funciona resumidamente da seguinte maneira:

74


Figura 86 – Possibilidades de Leitura entre Dois Textos

Desse modo, o produto final é composto por quarenta textos, dos quais podem ser feitas análises combinatórias como a exemplificada entre dois textos na Figura 86, com a lógica de correlacionar assuntos e permitir jogos de linguagem e de sentido (não confundir com significado). 75


CAPÍTULO

DOIS

– PRODUÇÃO

76


2.1 Adaptações Necessárias O Livro-Objeto-que-Deseja foi adaptado formalmente/esteticamente, adequando-se melhor ao conceito do projeto e também possibilitando sua produção em série sem elevar excessivamente seu custo de fabricação e, consequentemente, o valor de sua venda. A primeira restrição de custo envolve os cortes dos pontos finais (Figura 81), uma vez que cada página, sendo um total de oitenta páginas (quarenta do Livro dos Começos e quarenta do Livro dos Fins), necessitaria de uma faca especial que tem custo elevado e, por isso, inviabilizaria o projeto. Foram, então, pensadas alternativas viáveis para a idéia dos pontos finais vazados, entre elas a de esconder (com um quadrado preto, por exemplo) algumas letras dos textos, sendo que, sem a letra escondida, a palavra pudesse ter seu significado alterado ( “

eio” poderia significar “meio”, “leio”,

“veio”, “feio”, “seio”...) e estas letras ausentes, por sua vez, estariam gravadas em pequenos quadrados de material rígido, formando o Livro dos Fins (Figura 85). Contudo, esta alternativa não condiz com o conceito do não senso, pois lida mais com o significado e não tanto com o sentido das palavras/contexto, como explicado na página 13 do caderno A. Por esse motivo, retornou-se à idéia dos pontos finais, que trabalha com o sentido porque sugere 77


declaradamente a negação dos fins nos livros que antecedem o Livro dos Fins, além de manter coerente o último livro consigo mesmo, que conteria todos os fins dos textos. A alteração dos pontos vazados, portanto, ocorreu somente na substituição dos pontos finais de todos os textos por um espaço em branco, em vez de um recorte, não precisando, assim, utilizar nenhuma faca especial para a fabricação. Outra alteração diz respeito ao Livro dos Meios (Figura 84), no qual houve um deslocamento do recorte passante do livro, que em vez de ficar localizado no canto direito, foi para o centro. Segue o modelo tridimensional do produto (Figuras 87, 88, 89 e 90) enquanto ainda seria fabricado com papelão Órlean nas capas e contracapas e teria uma lombada reta.

Figura 87 – Estudos 3D

78


Figuras 88, 89 e 90 – Estudos 3D: acima à esquerda, Livro dos Começos; acima à direita, Livro dos Meios e à esquerda, Livro dos Fins

79


Na visita à empresa, foi decidido que o livro não teria lombada, para poder ser encaixado mais facilmente um dentro do outro. A partir dessa decisão, surgiu a idéia de fabricar a capa e a contracapa dos dois primeiros livros e a caixa do terceiro em acrílico transparente, já que sem a lombada isso seria possível sem gastos excessivos. Em uma progressão de idéias transparentes, foi decidido também que o livro seria fabricado com papel translúcido (selecionado o papel vegetal branco), ou seja, o livro fechado mostraria a sobreposição de todos os textos, inclusive dos títulos gravados nas capas e na tampa da caixa. A leitura seria possível por meio de um marca-página feito com papel opaco, referência de um dos livros projetado pela Editora Parêntesis. A encadernação sem lombada que foi aprendida para a confecção do protótipo denomina-se “Encadernação Copta” (Figuras 91, 92 e 93) e exige que o papel possua entre 150g/m² e 300g/m², sendo que de 150g/m² a 200g/m² devem ser utilizadas quatro folhas por caderno e de 300g/m² devem ser utilizadas três folhas por caderno.

Figura 91 – Encadernação Copta, encadernação de estudo

80


Figuras 92 e 93 – Encadernação Copta, encadernação de estudo

81


Para o Livro-Objeto-que-Deseja optou-se por um papel vegetal de 180g/m², ou seja, quatro folhas por caderno, sendo que o total de cada livro são vinte folhas, o equivalente a oitenta páginas, uma vez que as páginas são dobradas ao meio para a montagem dos cadernos (cada folha é equivalente a quatro páginas). Tomando nota que são quarenta textos em cada livro e que a impressão em papel transparente não deve ser feita no verso da página, pois inviabilizaria a leitura dos textos, cada livro é formado de cinco cadernos (e não seis, como apresentado na encadernação de estudo). Como a estrutura não seguiu o papelão como material e sim o acrílico, a caixa do Livro dos Fins também sofreu alterações, pois não seria possível curvar o acrílico em ângulos de 90º. Pensou-se, assim, em uma estrutura de encaixes (Figura 94) reforçada com clorofórmio (líquido utilizado para junção de peças em acrílico por não deixar marcas).

No entanto, para o protótipo deste projeto, foi

utilizada cuidadosamente a cola “Super Bonder”, pois o clorofórmio só é vendido com autorização da Polícia Federal e para pessoas jurídicas, por ser um produto altamente tóxico. Figura 94 – Estudo 3D, Livro dos Fins, estrutura de encaixes

82


Por fim, foram alteradas também as medidas do Livro dos Meios, que passou de retangular para quadrado, seguindo a leitura formal dos demais livros e dos pontos finais rígidos, como pode ser visualizado na Figura 95. As dimensões e as demais especificações do produto podem ser conferidas no Memorial Descritivo (Apêndice D).

Figura 95 – Configuração Final do Livro-Objeto-que-Deseja

83


2.2 Diagramação e Grafismos O Livro-Objeto-que-Deseja foi intitulado “Mandíbula

mandíbula

Sonâmbula Perambula”, sendo uma palavra-título para cada um dos livros, isto é, o “Livro dos Começos” é chamado de “Mandíbula”, o “Livro dos Meios” de

sonâmbula

“Sonâmbula” e o “Livro dos Fins” de “Perambula”. Uma vez que muitos dos textos foram reescritos a partir

do

blog

de

<www.quasefala.blogspot.com>,

autoria eles

própria

podem

perambula (caixa)

ser

considerados um reflexo dessa mesma trajetória. O Mandíbula Sonâmbula Perambula é talvez outra tradução da fala/mandíbula que perambula sonâmbula, dormida, isto

Figura 96 – Layout das páginas

é, quase. Quanto à diagramação, foram concentrados os textos principalmente na parte superior das páginas de cada livro, tanto do Mandíbula quanto do Sonâmbula, devido ao recorte para encaixar o 84


outro livro. No entanto, o fato de o livro Sonâmbula ter o espaço superior reduzido com relação ao Mandíbula, porque o recorte se localiza no centro do livro, alguns textos tiveram que ser divididos entre a parte superior e a parte inferior das páginas (Figura 96). A tipografia utilizada foi a Univers, que, segundo

Figura 97 – Esboços

Lupton (2006), foi projetada por Adrian Frutiger em 1957, e todos os textos foram formatados de modo justificado. Figura 98 – Esboços

85


Foram feitos também alguns desenhos de mandíbulas (Figuras 97 e 98) para incluir no layout das páginas do “Livro dos Começos” e no interior do “Livro dos Fins”, sendo vetorizadas seis posições da mandíbula em momentos (alguns fictícios) da fala (Figuras 99, 100, 101, 102, 103 e 104). A primeira mandíbula foi impressa em um cartão 50x50cm também em papel vegetal 180g/m² e armazenada junto dos pontos finais, sugerindo o momento da fala em que se cala, e as demais foram impressas nas páginas do Mandíbula, sugerindo a própria fala.

Figuras 99, 100, 101, 102, 103 e 104 – Mandíbulas

Após os estudos da estrutura física, a construção dos textos, a delimitação do layout e o desenvolvimento dos vetores-mandíbula, iniciou-se a confecção do protótipo final do projeto, explicado na sequência. 86


2.3 Processo de Produção Quanto à impressão dos textos nos cadernos, os arquivos foram encaminhados para uma gráfica digital, a qual fez o trabalho com impressão a laser. Contudo, para o caso da fabricação em série, seria utilizada a serigrafia (caderno A, p. 98). Os títulos nas capas de acrílico foram feitos espelhados em vinil e colados nas superfícies

internas

(Figura

105),

mas

também poderiam ser jateados ou em baixo relevo.

Figura 105 – Títulos de vinil colados na parte interna

87


Quanto ao “Livro dos Fins”, os

pontos

finais

(que

podem

perambular livremente fora dos fins) foram impressos no mesmo papel vegetal 180g/m² das páginas (Figuras 106 e 107). Para a montagem da caixa

foi

usada

a

cola

“Super

Bonder”, porém, industrialmente, ela seria montada com uma cola à base de clorofórmio. E sua tampa foi costurada na lateral esquerda, assim como os outros dois livros (Figuras Figuras 106 e 107 – Pontos finais impressos em papel vegetal 180g/m²

108, 109 e 110).

Figuras 108, 109 e 110 – Livro dos Fins, Perambula

88


Foram, então, dobradas todas as folhas do Mandíbula e do Sonâmbula ao meio, já impressas, e organizadas em cadernos, somando um total de dez cadernos. Então, foram refilados os topos, as

bases

e

as

laterais

direita

dos

cadernos, utilizando um estilete. Ainda

com

o

estilete,

foram

calmamente feitos os recortes internos no Mandíbula e no Sonâmbula (Figura 111), sendo que na indústria editorial seriam utilizadas facas para esse processo, uma

Figura 111 – Recortes no Livro dos Meios, Sonâmbula

para cada recorte (uma para o Mandíbula e uma para o Sonâmbula). Para a encadernação, foi elaborado um gabarito de furação baseado nos furos das capas e das contracapas, uma vez que ele garantiu que as distâncias entre os furos fossem idênticas para todos os 89


cadernos. Foram feitos os furos nos cadernos com uma agulha e, na sequência, foi iniciada a Encadernação Copta (Figuras 112, 113 e 114), confeccionada com fio encerado branco e agulha #2.

Figura 112 – Encadernação Copta

90


Figura 113 – Encadernação Copta

91


Figura 114 – Encadernação Copta

92


CAPÍTULO

TRÊS

– LIVRO-OBJETO-QUE-DESEJA

93


O Livro-Objeto-que-Deseja (Figuras 115-142) é separado em três partes, propondo tanto um uso contínuo quanto interrompido dessas partes. “Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho” (LISPECTOR, 1998, p.11).

Figura 115 – Livro-Objeto-que-Deseja

94


Figura 116 – Livro dos Começos, Mandíbula

95


Figura 117 – Livro dos Começos, Mandíbula, detalhe texto

96


Figura 118 – Livro dos Começos, Mandíbula, vista geral, aberto

97


Figuras 119 e 120 – Livro dos Meios, Sonâmbula, capa e detalhe encadernação

98


Figuras 121 e 122 – Livro dos Meios, Sonâmbula, frente e verso (marca-página)

99


Figura 123 – Livro dos Meios, Sonâmbula, detalhe manipulação

100


Figuras 124, 125, 126 e 127 – Livro dos Meios, Sonâmbula, detalhe verso marca-página (esquerda superior), detalhe frente marca-página (esquerda inferior), geral aberto (direita superior), detalhe texto (direita inferior)

101


Figuras 128 e 129 â&#x20AC;&#x201C; Livro dos Fins, Perambula, frente e verso (marca-pĂĄgina)

102


Figura 130 – Livro dos Fins, Perambula, detalhe manipulação

103


Figura 131 â&#x20AC;&#x201C; Livro dos Fins, Perambula, aberto

104


Figuras 132 e 133 â&#x20AC;&#x201C; Livro-Objeto-que-Deseja, detalhes

105


Figura 134 â&#x20AC;&#x201C; Livro-Objeto-que-Deseja, detalhe

106


Figuras 135 e 136 – Da esquerda para a direita: Mandíbula Perambula e Mandíbula

107


108 Figura 137 – Mandíbula Sonâmbula Perambula


109 Figura 138 â&#x20AC;&#x201C; Livro-Objeto-que-Deseja descansando sobre a mesa e sob a luminĂĄria


O Mandíbula Sonâmbula Perambula pode também ser comercializado separadamente, uma vez que interessa ao projeto o incompleto/inacabado, pois isso permite o livre preenchimento de seus recortes ou, até mesmo, uma incógnita nonsense, pois se encaixam nestes espaços/buracos qualquer coisa que for desejada (e isso pode incluir nada). Vale sublinhar, ainda, as palavras de Ponge (2000, p. 43) acerca de “depositar-se” no objeto, no vazio e no preenchimento dele, estar acessível a qualquer argumento que possa surgir dessa relação: As qualidades que se descobrem nas coisas tornam-se rapidamente argumentos a favor dos sentimentos do homem. Ora, numerosos são os sentimentos que não existem (socialmente) por falta de argumentos. Por isso raciocino que poderíamos fazer uma revolução nos sentimentos do homem simplesmente aplicando-nos às coisas, que logo diriam muito mais do que aquilo que os homens costumam fazê-las significar. Isso seria a fonte de muitos sentimentos desconhecidos ainda. Os quais querer destacar do interior do homem me parece impossível ou bem mais difícil. Porém desejável. (Progresso das “luzes” tanto naquilo que concerne às coisas quanto ao próprio homem. – harmonia entre o homem novo e a natureza que ele conhece e possui cada vez melhor.) Tais são os recursos morais (bem como estéticos) do visível. Sem falar das virtudes próprias da própria atenção. 110


E, por fim, tomando como referência o paradoxo da regressão ou da proliferação indefinida, explicado por Deleuze (caderno A, p. 20), no qual para cada sentido existe outro sentido, acredita-se que o Livro-Objeto-que-Deseja possa ser resumido com as seguintes questões:

 O que o livro é? Um objeto que deseja.  Como o livro é? Três meios.  Qual seu nome? Começos-Meios-Fins.  Como o nome é chamado? Mandíbula Sonâmbula Perambula.

O livro é livre.

Figura 139 – Assim como a legenda/Assim, como a legenda

111


Figuras 140 e 141 â&#x20AC;&#x201C; Livro-Objeto-que-Deseja entre outros

112

Profile for Anna Stolf

Livro-Objeto-que-Deseja (caderno B)  

Este projeto trata do desenvolvimento de um "Livro-Objeto-que-Deseja" que envolve, resumidamente, o conceito de não-senso e de desejo, além...

Livro-Objeto-que-Deseja (caderno B)  

Este projeto trata do desenvolvimento de um "Livro-Objeto-que-Deseja" que envolve, resumidamente, o conceito de não-senso e de desejo, além...

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