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educação ] por Anna Carolina Neto ] fotos divulgação

Cuidado! Agenda cheia pode sobrecarregar seu filho Início do ano. É hora de programar as atividades extras do seu filho. Mas cuidado para não transformar a diversão e o conhecimento em momentos de estresse Pedrinho tem dez anos. Ele acorda às sete da manhã para ir à escola. Retorna para casa por volta do meio dia, almoça, vai para a natação e, ainda, para o inglês, duas vezes por semana. Os outros dias são divididos entre aulas de judô, artes e computação. Seu desempenho escolar está caindo, o sono está mais agitado. Ele quer brincar, mas não tem ânimo. A história desse Pedrinho é fictícia, mas poderia ser confundida com qualquer outra história de crianças que vivem a mesma rotina puxada e exagerada ao longo do ano. Não que praticar atividades extracurriculares seja algo negativo, pelo contrário. Segundo Maria Cristina Natel, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia 16 ] atitude

Um dos sintomas da sobrecarga de atividades é a irritabilidade

(ABPp – seção São Paulo), o desenvolvimento linguístico, corporal e intelectual das crianças é favorecido pelas atividades extracurriculares. A psicopedagoga Cynthia Alves Pinto também acredita que atividades ligadas ao esporte, à música, às artes, línguas e a tantas outras são importantes no sentido de desenvolver as aptidões e habilidades que já existem na criança, além de enriquecê-la culturalmente. Mas se o seu filho está apresentando sinais de irritabilidade, cansaço e desatenção, por exemplo, ele pode estar sentindo uma sobrecarga com o excesso dessas atividades. E tudo isso pode acontecer por culpa das pessoas que mais amam e querem o bem dessas crianças: a mãe e o pai. Para Maria Cristina Natel, quando a

escolha está a serviço das projeções dos pais, que transferem seus desejos não realizados a seus filhos, há o risco de que, para atender à expectativa familiar, os filhos cumpram com uma rotina intensa de atividades ficando, muitas vezes, submetidos a pressões que levam ao desinteresse e ao estresse, manifestados por reações físicas e psicológicas. Mas calma papais e mamães, não se culpem tanto assim! Às vezes, para suprir a falta de tempo com os filhos, devido ao acúmulo de trabalho, essas horas são preenchidas com atividades. “É uma forma de manifestar o afeto e uma preocupação com as crianças de não ficarem ociosas”, diz a psicopedagoga Cynthia Alves, que ainda complementa: “a gente sabe que os pais sempre querem o melhor para

os filhos, esperam que eles sejam grandiosos no futuro”. E assim fez Aline Leone, 29, mãe de Isabella, 8, e Giovanna, 4. Desde o ano passado Isabella estuda inglês e pratica jazz, e em 2011 a mãe Aline pretende incluir, ainda, a natação ou o tênis na agenda da filha mais velha, em dias diferentes da semana para não sobrecarregá-la. Já a pequena Giovanna vai iniciar neste ano a prática da natação e do ballet. Com foco no bem-estar das filhas, Aline Leone, que mora no bairro da Vila Mariana, explica por que escolheu tais atividades: “O esporte, foi pensando na saúde, para desenvolver a coordenação e até mesmo para a socialização. Já o inglês foi pensando mesmo no futuro delas, para que o quanto antes elas tenham fluência nessa língua. Para não sobrecarregar tanto a agenda do seu filho, pense bem em como essas atividades serão distribuídas ao longo da semana. E mais, para a presidente da ABPp (SP), Maria Cristina Natel, a escolha de uma ou outra atividade extracurri-

cular deve levar em conta a idade, a aptidão, personalidade, a vontade e necessidade da criança. Já Cynthia Alves baseia-se em estudos do psicólogo Howard Gardner, autor da Teoria das Inteligências Múltiplas, para explicar a inserção de atividades na vida da criança. Para a psicopedagoga, cada criança é um conjunto dessas inteligências (linguística-verbal, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista), que até os cinco anos de idade vão se desenvolvendo. A partir de então, algumas habilidades começam a se sobressair mais do que outras. “A partir dessa idade, a criança começa a ter os gostos pessoais dela, que vêm de acordo tanto com a cultura em que ela está inserida quanto da própria herança genética dela. Então a gente aconselha que a partir dos cinco anos a criança seja respeitada nas suas opiniões”, complementa Cynthia. E é por meio dessas aptidões manifestadas na criança que o instinto materno e paterno pode ser colocado em prática e a observação também, além de um bom diálogo. Às vezes, é

observando a criança no brincar que se descobre seus gostos. Falando em brincar, não podemos nos esquecer de que essa etapa não pode ser quebrada de forma alguma. A arte de brincar funciona como um peso na gangorra de um parquinho e do outro lado do brinquedo está a atividade extracurricular. A criança precisa tanto do brincar quanto das atividades para se tornar um cidadão capaz de se comunicar de forma eficaz e de se integrar socialmente. Assim como a psicopedagoga Maria Cristina Natel acredita que uma atividade extracurricular não é uma sobrecarga na vida acadêmica das crianças e jovens quando tem por prioridade o aprender a aprender, o aprender a fazer e o aprender a conviver, o psicólogo D.W. Winnicott encerra essa matéria dizendo ao Pedrinho e a todos os pais que “é no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral. E é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o “EU”. atitude ] 17


Atitude Revista do Bairro 2ª edição