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O VERDADEIRO EU Ian não nasceu Ian. A sua camiseta rosa não esbanja feminilidade, afinal, é somente uma cor. Seu cabelo é curto, mas comprimento não define gênero, nem sequer orientação sexual. O seu jeito de sentar é o oposto aos infinitos "senta que nem menina", que mulheres escutam por uma vida inteira. Desde a infância até a turbulenta adolescência, sofria bullying por se vestir como um menino e gostar de brincadeiras masculinas. Mas Ian não se sentia incluído no grupo dos garotos e muito menos, no das meninas. A felicidade não era algo presente na vida dele. Sempre sentia que não se encaixava nos lugares. Sempre se sentia como um não-lugar. Sentado perto do gramado verde da PUCRS, Ian Biagini conta que aos 17 anos entrou no mesmo local onde compartilha a sua história comigo, para estudar Psicologia. Através do curso, começou a entender mais o que se passava dentro de si. A família de Ian sempre pensou na possibilidade de o filho ser homossexual, mas ele afirma que nunca falou sobre isso. "Era uma coisa que não conseguia falar, porque sabia que, de alguma forma, não era verdade". Giane Schmaedecke, graduada em Psicologia pela PUCRS, afirma que é necessário destacar que ser uma pessoa transgênero não influencia diretamente em uma orientação sexual - ser hétero, homo ou bi. Visto que, gênero e orientação são duas coisas distintas. "Não devemos generalizar e muito menos julgar, mas sim procurar conhecer melhor, pois cada caso é um caso. Todos devem ser respeitados", declara a psicóloga. Sobre o acompanhamento psicológico, a profissional diz que durante o processo procura-se tirar dúvidas, anseios, saber o que aflige a pessoa e a forma como ela se vê, perante a si mesmo e a sociedade. E que, na verdade, não há diferença de outro tratamento psicológico entre o de transgêneros, apenas tem que ser levada em conta a decisão da pessoa. Após seis meses olhando vídeos de youtubers e perceber que compartilhava da mesma experiência de homens transgêneros, Ian começou a entender o que se passava.


Com receio de conversar sobre o assunto com seus pais e amigos, esperou o momento certo para admitir e contar a verdade de uma vida inteira. Sou um homem transgênero. Através de uma carta, Ian revelou o que realmente era para seus pais, em um ato singelo e profundo. Afirma que abordou o assunto dessa forma graças à psicologia, caso fosse em outra situação da vida, teria sido agressivo no momento. "Tanto quanto foi difícil pra mim, para eles também. Receber essa notícia foi igualmente difícil" mas o jovem, com um olhar esperançoso, acredita que é um processo que ainda irá se desenrolar com o tempo. Ao anunciar que era um homem transgênero, seus amigos conseguiram imediatamente mudar os pronomes. Já na família, o pai de Ian tenta falar seu nome, porém a mãe não consegue: "é como se para ela nada tivesse mudado", desabafa. Os três irmãos aceitaram bem a transição de Ian: "acho que com irmãos é mais fácil". Se em casa a situação era razoavelmente aceita, o mundo lá fora era hostil. "O acesso ao mercado de trabalho é bem difícil" constata Ian, que viu isso de perto quando foi indicado para trabalhar em uma clínica de psicologia. Esperou ser chamado, mas recebeu uma notícia desagradável: as pessoas, do "futuro" local de trabalho, tinham medo do que os clientes pensariam caso descobrissem a transição. A busca por emprego ainda é um desafio para transgêneros, sendo que a inclusão dessas pessoas ainda é um tabu para as empresas brasileiras. Para auxiliar esse meio, há o Fórum de Empresas LGBT, criado em 2013 e que tenta ajudar a integração do público LGBT no mercado de trabalho. Existe também o site Transempregos, criado em 2014 e que reúne oportunidades de trabalho para transexuais e transgêneros. Há três meses Ian decidiu investir na hormonioterapia, com a supervisão de um endocrinologista. Já notando alterações: "ao ouvir áudios antigos, percebo a diferença da voz", diz, com um sorriso e vestígios de barba em seu rosto tímido e bochechas rosadas. Mesmo assim, o acesso aos procedimentos da transição ainda é complicado. "Eu nem entrei porque sei que a lista de espera é muito grande", declara Ian sobre o Programa de Identidade de Gênero


(PROTIG), que atua desde 1998 no Hospital de Clínicas. Sobre a cirurgia de mastectomia - retirada das mamas - Ian pensa em realizar pelo sistema privado, pois "o tempo que eu levaria para juntar dinheiro seria mais rápido do que o tempo da lista de espera". O angustiante tempo de espera para a realização da cirurgia de redesignação sexual serve para conhecer a história de vida da pessoa, observar com detalhes o contexto de vida, mas sempre respeitando a autonomia e as decisões de quem busca esse procedimento. Procurando auxiliar o indivíduo no convívio com as emoções e no processo de aceitação do gênero, com objetivo de proporcionar a mudança do paciente com afirmação. É válido ressaltar que cada pessoa trans tem seu próprio tempo, tanto na compreensão da identidade de gênero, quanto no momento de se aceitar como tal. Sendo a aceitação, um dos pontos mais delicados durante o procedimento. Por esse motivo, que para a realização da cirurgia, é necessário um acompanhamento psicológico por pelo menos dois anos, avaliação com psiquiatra e um acompanhamento com endocrinologista, para que seja direcionado o tratamento hormonal. "Acho que eu nunca estive tão bem assim, foi um renascimento". Ian conta que sua prima viu uma grande diferença em seu humor atualmente: "ela disse que eu era muito mais triste, fechado, só queria ficar dentro de casa e era muito mais recluso". Tratando-se de um processo de uma vida inteira, Ian se mostra confiante e admite que ainda precisa desconstruir muita coisa em si mesmo. Às vezes continuamos vivendo e não percebemos nossas mudanças. Hoje, com 23 anos, Ian percebe que se sente muito mais feliz após a transição para sua nova e verdadeira vida. Quem lhe vê com a maquiagem impecável, cabelos longos e castanhos, roupas femininas, unhas feitas, jeito charmoso e delicado de andar, não imagina que, antigamente, não era assim. Yggy sempre teve consciência de que era diferente e deixava-se ser. Os seus olhos brilhantes esbanjam felicidade e orgulho ao falar sobre a vida. Ela é uma mulher transgênera.


Logo no início me sinto próxima de Yggy Escobar, já que passou sua infância no interior, sendo natural de São Luiz Gonzaga, região das Missões. Sobre a pequena cidade, comenta com um sorriso no rosto a respeito da aceitação na pequena cidade: "me viram crescer". No ambiente pacato do município, a jovem nunca sofreu preconceito por ser quem era e em sua família não poderia ser diferente. "Tu sabe que teve duas filhas, né?", foi assim que a mãe soube a verdade. Yggy não conseguia juntar coragem suficiente para se abrir com os pais e falar o que sentia, o que realmente era. Com a ajuda de sua tia, a verdade foi revelada. O apoio da família foi surreal para a jovem, que no começo até se assustou com a aceitação dos familiares. De acordo com a Secretaria de Direitos Humanos, foram registradas 1.792 agressões contra LGBTs em 2014. Entre os crimes, um em cada seis foi cometido por parentes das vítimas - 79 pelos pais; 74 por irmãos; 70 por companheiros, tios ou cunhados; e 57 por outros familiares. Se com a família era aceita, no ambiente acadêmico foi diferente. Yggy cursa Design de Moda no SENAC, mas sentiu uma discriminação presente: "como que ela me olha e consegue ver fulano?". Uma de suas professoras continua chamando a jovem pelo nome antigo, sendo que Yggy já usufrui o nome social, instituído para travestis e transexuais no Rio Grande do Sul. A Carteira de Nome Social prepara locais públicos e privados para que tenham em seus cadastros gerais o nome social utilizado por essas pessoas. A lei foi assinada no dia 28 de abril de 2016, de acordo com o decreto nº 8.727. "Eu não conseguia entrar na sala de aula" desabafa sobre o desconforto causado por ser tratada como alguém que não é. A jovem chegou a perder um semestre da faculdade por causa do acontecimento. Atualmente, a faculdade SENAC conta com mais uma aluna transgênera. Yggy acha que com a presença de mais uma pessoa trans, quem sabe a aceitação seja mais presente no ambiente e mude o comportamento dos educadores. Como a aceitação sempre foi mais apresentada por parte de sua família, com outra geração não foi diferente. O primeiro contato com maquiagens de Yggy foi a partir de sua avó, que lhe emprestava os produtos sem questionar.


Maquiagens que confessa utilizar desde os 1 0 anos de idade, inclusive no espaço escolar. E ninguém mexia com ela: "sempre me impunha muito, mostrava que estava segura daquilo", o máximo que lhe pediam eram dicas de beleza. As avós da jovem já entendem que possuem mais uma neta, além da irmã mais nova, que inclusive o contato ficou muito mais próximo e as duas se dão muito bem. De acordo com Yggy, a irmã sempre percebeu que tinha uma irmã e não um irmão. Sobre a cirurgia de redesignação sexual, pretende juntar dinheiro suficiente para fazer a operação pela área particular, já que o tempo de espera é muito doloroso. A jovem sonha em realizá-la através do sistema operatório da Tailândia, o Hospital Kamol, que é a maior referência do mundo na cirurgia para transgêneros. Lá, os médicos efetuam de uma a três operações por dia. O dono do hospital, Kamol Pansritum, já fez mais de 3 mil cirurgias. Giane Schmaedecke explica a função do psicólogo antes da realização da cirurgia, que é ouvir o que a pessoa tem a dizer e observar se o transgênero possui certeza sobre a operação de redesignação sexual: "é algo que vai retirar um órgão ou recompor outro e isso é definitivo, tem que auxiliar psicologicamente o indivíduo essa parte". Yggy utiliza a hormonioterapia, sobre os efeitos colaterais afirma que no começo teve indícios de depressão. A presença de pessoas trans na internet, no mundo da moda e em campanhas publicitárias é muito importante para a sociedade: "quanto mais gente envolvida, mais as pessoas vão ver e entender", afirma Yggy. Youtubers transgêneros estão cada vez mais em evidência nas mídias sociais. No Brasil, Amanda Guimarães, mais conhecida como Mandy Candy, foi a primeira mulher transgênero a comentar sobre suas operações realizadas na Tailândia, seu dia a dia e debater questões de gênero no Youtube. No mundo da moda, temos a modelo brasileira Valentina Sampaio, que coleciona capas de revistas desde que posou para as famosas Vogue, L'officiel e Elle. Assim como Mandy Candy e Valentina, o objetivo de Yggy é dar maior visibilidade ao mundo LGBTQ, principalmente com foco em pessoas


transgênero. Sempre procura estar envolvida em causas, ensaios, vídeos e matérias sobre o assunto. Sobre o mercado de trabalho, Yggy diz que não sofreu com preconceito até então. Além disso, realizou uma entrevista de emprego para um shopping: "me trataram como Yggy mesmo". A jovem esbanja admiração quando vê transgêneros trabalhando em lugares normais, como restaurantes e até empresas. Como foi o caso da gaúcha Michelle Brea Soares de Castro, que fez sua transição dentro da empresa Dell. Após cinco anos trabalhando no ambiente corporativo, Michelle decidiu começar a mudança e comunicou seus colegas de trabalho, que logo apoiaram a decisão. Se na busca por emprego não sofreu discriminações, na internet Yggy acabou sofrendo um episódio ofensivo na rede social. Acordada com uma ligação telefônica, ficou sabendo que a conta do Facebook tinha sido hackeada, teve fotos e legendas trocadas por comentários desnecessários. Yggy não ficou abalada com a situação, mas acredita que, se fosse com alguma pessoa trans que está começando a transição, seria complicado e doloroso. A jovem de 20 anos, percebe que a transição só trouxe coisas boas para sua vida: "agora eu me sinto muito mais feliz, porque sou eu, sabe?" desabafa, com os olhos já marejados e voz trêmula, segurando a emoção. Yggy, assim como Ian, agora se sente livre para ser quem de fato é.

O verdadeiro eu  
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