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ARTECH 2010­05­06 5 TH INTERNATIONAL  CONFERENCE ON DIGITAL ARTS www.artech­international.com

       Criando no escuro tátil das moléculas     Anna Barros           Artista, doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São  Paulo, professora universitária, São Paulo, SP. Brasil, Rua Harmonia 457, ap. 54, 05435­000  Brasil.        Abstract   ­­  The author discuss the difficulties of 

creating art works in nanoart. Goes over the specificities  of that kind of art; how little documentations we can find  on New Media Art   History on this subject. Proposes an  art   installation   that   could   be   more   face   full   to   the  perception   qualities   founded   in   this   Lilliputian   realm  where   we   live   a   shift   from   visual   to   tactile   sense.  Emphasizes on the molecules qualities and ambiguity and  how we could make the public aware of them. The cells  digital   animation   and   the  sound  could   maybe   be   a   link  between the world we live and the nano one.                      Index Terms  ­­ Art, animation, nanotechnology,  microscopy, trees.                                         1. Introdução

  Estamos   vivendo   um   momento   em   que   o   mundo  nano,   recém   descoberto,   aciona   a   imaginação   e   a  pesquisa  científica,  em  inúmeros  campos  do saber.  O  mundo imagético da arte foi enriquecido com o mini e o  maxi de aparelhos ópticos, microscópios e telescópios,  que contribuíram para ampliar a vivência perceptiva do  mundo.   A   conscientização   da   existência   do   mundo   nano,  invisível  aos  nossos  olhos, advém  do Microscópio  de  Tunelamento   por   Varredura   (STM),   em   1981,   que  introduz um novo paradigma na microscopia eletrônica,  por sondagem.                                                                 As   revelações   dos   microscópios   eletrônicos  introduziram toda uma nova maneira de percepção, pois  o   grau   de   magnificação   nos   conduz   a   um   ambiente,  impossível   de   ser   contatado   diretamente   pelo   ser  humano.  Nesse ambiente, o sentido da visão em que nos temos  baseado para dar forma ao universo é substituído pelo  sentido   do   tato,   que   codifica   o   rastreamento   de  moléculas   de   uma   maneira   topográfica.   As   imagens 

advindas   do   microscópio   eletrônico   precisam   de   uma  transducção   pelo   computador,   que   lhes   dá   saída   para  nosso contato visual. O mundo nano está no limiar do  mundo   da   física   tradicional,   newtoniana,   em   que  percebemos   as   coisas   como   compactas;   a   dança   das  moléculas   em   constante   movimento   não   pode   ser  visualizada   por   nós,   só   intuída   pela   imaginação.  As  partículas  nanométricas  escapam  à percepção  visual  e  se situam em um horizonte onde o material e o imaterial  se encontram. Só com a imaginação podemos perceber  a imperceptível dança dos átomos que se passa ao nosso  redor. A escala  é abstrata demais  em  relação  à nossa  experiência, o que faz com  que a conexão intelectual  seja extremamente difícil.   A   arte   está   associada   à   ciência   para   a   percepção  desse universo situado nos espaços misteriosos regidos  pela   física   quântica.   Com   isso   cria­se   uma   disciplina  híbrida  onde   duas   categorias   do   saber   passam   a   ser  vividas pela transformação mutua.    A arte digital  está mais  capacitada a registrar esse  universo, não só por se utilizar, assim como a ciência,  da linguagem computacional, como também por trazer  à percepção a desmaterialização e a mutação perenes,  próprias a uma arte de evento.   Outra característica importante a ser considerada na  nano   ciência   é   que   o   modelo   de   captação   de  conhecimento está baseado na complexidade, partindo  do menor para o mais complexo.  A arte, até o início deste século, tem se baseado na  redução,  visando   uma   desconstrução   em   direção   aos  elementos mais simples e universais.   Para o artista se expressar dentro desses parâmetros  atuais deve se utilizar de pesquisas profundas, a fim de  encontrar   novas   formas   de   percepção,   principalmente  por   pertencer   a   um   mundo   invisível,   onde   impera   o  sentido   do   tato.     A   expressão   arte   visual  não   pode  denominar uma arte que busca sair da preponderância  da visão.


2. Nano Arte          Algumas formas distintas de nano arte estão sendo  desenvolvidas   pelos   artistas   e/ou   em   conjunto   com  cientistas: 1­ O uso estético de imagens rastreadas no microscópio  de força atômica, ou no STM, tem contribuído para o  maior entendimento dessas imagens, além de que elas  terminam   por   constituir   um   rico   manancial   de  inspiração   para   a   arte.   Cris   Orfescu   [1]   é   um   ótimo  exemplo;   ele   também   cria   esculturas   a   partir   das  imagens.  2­   A  artista   Victoria  Vesna   e  o  nano   cientista   James  Gimzewski   [2]   usam   metáforas   visuais   para   traduzir  propriedades   perceptivas   do   mundo   nano.   Procuram  transportar   o   fruidor   para   o   ambiente   nano,   onde  poderiam vivenciar o comportamento das moléculas. 3­ Christa Sommerer,  [3] em  NanoScape, 2002, busca  traduzir intuitivamente o mundo nano desvendado pelo  microscópio eletrônico. A instalação consiste em uma  mesa   equipada   com   uma   interface   que   permite   aos  interatores  tocar  partículas   nano,   invisíveis,   assim  sentindo sua topografia.  4.  O   laboratório   de  Nanotecnologia   UNESP   UFSCar  USP IPEN CMDMC [4] tem gerado imagens advindas  dos microscópios eletrônicos, que são retrabalhadas por  artistas que as colorem e estetizam, melhorando­lhes a  compreensão   entre   os   leigos   ou   para   exibi­las   em  eventos de arte. 5.   O  NISE   Network   Visualization   Laboratory   at   the  Exploratorium,   San   Francisco   [5],   une   artistas   e  cientistas  para  imaginarem  como  seria criar  na escala  nano.

                                   3. Pesquisa     A criação em arte nanotecnologia ainda se apresenta  difícil   para   os   artistas.   Primeiro,   por   estar   em   seus  primórdios, não tendo parâmetros históricos; cada obra  é   um   passo   além.   A   condição   de   invisibilidade   no  mundo   nano   e   a   apresentação   em   suas   imagens  resultantes   de   rastreamento   em   tunelamento,   pelos  microscópios   eletrônicos,   traduzidas   por   um  levantamento   topográfico   eleva   o   sentido   do   tato   à  primeira   ordem   de   importância.   Mesmo   que   a   arte,  desde   a   Vanguarda   histórica,   busque   a   integração   de  todos os sentidos, isto tem sido feito de uma maneira  que não satisfaz na nano arte pois aqui, não existe uma  condição física para tatear a matéria.   Segundo, pela dificuldade em se obter imagens de  materiais   que   nos   interessam   para   projetos   de   arte  pessoais.   Como   as   pesquisas   cientificas   estão  concentradas   em   laboratórios   das   universidades,   é  necessário   que   esses   laboratórios   se   interessem   pelo  projeto de arte. Por enquanto, o que está acontecendo, é  apenas o uso, pelos artistas, de imagens já rastreadas. 

A presente pesquisa baseia­se  numa busca de algo  além do tato de objetos físicos e tem por   campo meu  interesse pessoal pela natureza, aqui representada pelas  árvores. O desejo é constatar  como as  moléculas,  em  diferentes   estados   arbóreos,   semente,   árvore   adulta   e  árvore petrificada,  organizam­se.  A   informação   que   obtive   em   conversa   com   um  nano  cientista,  Prof.  Dr.  Ricardo   Azevedo,  diretor  do  INCT Biotecnologia, da Universidade de Brasília, UnB,  foi   de   que   ainda   não   existem   pesquisas   sobre   as  alterações   moleculares   presentes   nesse   processo.  Portanto, minha proposta poderia ser de muita utilidade  para essa constatação. A percepção de como interferimos nas moléculas,  tão­só por  nossa  aproximação,  alimenta  a imaginação  do  artista  que  há  um  século  vem  buscando   meios   de  interagir com o mundo, em seu trabalho. Será possível  tornar   isso   sensível   ao   interator?   De   que   maneira?  Metaforicamente, mecânica  ou tecnicamente? Ou essa  percepção     será   ainda   impossível   com   as   técnicas   e  aparelhos   hoje disponíveis? Entre as obras realizadas  dentro   dessa   perspectiva,   destaca­se   a   já   citada  NanoScape,   2002,   de   Christa   Sommerer.   Vesna   e  Gimzewski   tentam   algo   semelhante   em   outra  abordagem   em  Nanomandala  quando   o   vídeo   da  criação   de   uma   mandala   por   monges   tibetanos   é  projetado em areia, a qual somos convidados a tocar e  manusear.   Lembremos   que   o   vídeo   se   inicia   com   a  imagem de um grão de areia no microscópio eletrônico.                               4. História da Arte Digital          Quanto ao que consta da História da Arte Digital,  onde esta pesquisa se enquadra, pois o material nano é  revelado   pelo   microscópio   mediante   um   programa  computacional   e   retrabalhado   por   outros,   ela   está   se  formando   pelos   trabalhos   dos   artistas,   pelos   textos  teóricos   que   os   acompanham   e   pelo   de   curadores.   A  crítica ainda está incipiente demais.          A mais completa publicação sobre o assunto   que  conheço é Media Art History, de Oliver Grau, publicada  pela MIT Press,  2007.  Nela  o autor  chama a atenção  para a necessidade de sua inserção na História Geral da  Arte,   como   outro   segmento   técnico,   já   que   o   uso   da  ciência e da tecnologia sempre fez parte do processo de  criação  artística.  A   Arte   em  Nanotecnologia  não   está  nela representada.            Dentre   as   poucas   publicações   sobre   o   assunto,  destaco  Nanoculture.  Implications   of   the   New   Technoscience,   organizado   por   Katherine   Hayles,  publicado   por Intellect Books, UK, Bristol, em 2004.  Igualmente   importante   é   o   artigo   de   Vitoria   Vesna  “Seeing the World in a Grain of Sand:  The Database  Aesthetic of Everything” constante do  livro organizado  por   ela,  Database   Aesthetics.   Art   in   the   Age   of   Information Overflow, University of Minnesota Press,  2007.  A   publicação   homônima   que   acompanha   a 


exposição  Nano:   Poética   de   um   Mundo   Novo,   2008,  Museu   de   Arte   Brasileira­   MAB   FAAP,   São   Paulo,  pode ser considerada importante dentro da História da  Nano Arte, principalmente por ser a primeira e única,  até o momento, publicada no Brasil, e é bilíngüe, e foi  organizada pela curadora, autora desta pesquisa.

                                  5.  A Instalação      A instalação proposta parte de três imagens  a serem  rastreadas   no   STM:   de   uma   semente,   de   uma   árvore  adulta e de uma árvore petrificada com 200 milhões de  anos.   O   resultado   intencionado   seria   poder  ver  (tateando) a topografia das moléculas das amostras.       O som terá a participação do compositor brasileiro  Wilson Sukorski  e ele tenta a possibilidade de unir o  tátil ao sonoro.          A originalidade do projeto reside em ir além das  imagens, animando­as, pois sabemos que o mundo das  partículas   está   em   um   constante   movimento,   e   as  representações   geradas   nos   microscópios   eletrônicos  ainda são, na maioria, estáticas. Depende da imaginação  do artista  torná­las  vivas,  i.é,  dar  uma  idéia  de  como  seria se pudéssemos adentrar esse nano mundo com leis  diferentes   das   da   física   tradicional.     Nele,   um   objeto  amassado,   fica   assim   se   não   exercemos   uma   força  direcionada e localizada para desamassá­lo; no da nano,  as moléculas podem ou não se recompor por si.                                           6. O Processo        Esse processo deverá ser longo até ser obtida uma  resposta   satisfatória;  considera­se   possível   usar   o   3D  Max  para   as  animações,   uma  vez   que  as  imagens  de  microscopia   eletrônica   são   em   3D.   A   dificuldade   é  tornar interativo o resultado de um programa fechado.  Nós   artistas  estamos  navegando  em   um   mundo  cego,  mas fervilhante de informações.      Como tornar uma imagem tátil sem recorrer ao que  sempre se fez: relevo ou escultura? Existem luvas com  sensores que já têm sido usadas em obras de realidade  virtual,   principalmente   na   CAVE.     Sommerer,   em  NanoScape,  equipa os interatores com uma interface de  anéis   magnéticos,   para   interagir   com   uma   mesa  sensorial,   onde   atua   uma   força   atômica   simplificada,  simulando  topografias   em  movimento   constante.   Será  possível   a   percepção   tátil   sem   interfaces   dessa  natureza?      Em arte, sempre foram usados métodos alternativos  para ampliar a imaginação, na Bauhaus, Johannes Itten,  em   suas   aulas   de   desenho,   introduziu   o   toque   cego  como   ferramenta   de   percepção   visual.   A   modelagem  com   os   olhos   vendados   era   parte   importante   da  escultura de Degas.           Tento   buscar   algo   de   inovador,   penetrando   em  minhas vivencias e memórias pessoais, nas décadas de  70,   80,  em  Los   Angeles   quando   se  estava   vivendo  a 

febre   da  New   Age,   o   corpo   sendo   considerado   um  valioso e indispensável componente do espírito. Gurus  faziam experiências com um som muito alto, para fazer  vibrar o corpo e entrar em Samadhi.      Os tanques de flutuação, onde se permanecia por um  longo tempo fechado boiando, em solidão e silêncio, ao  mesmo tempo visavam tornar possível experimentar as  sondas alfa do cérebro e aguçar o sentir o corpo de uma  maneira nova.       O projeto dos artistas Robert Irwin e James Turrell  [6],   na   Câmara   Anecoica   da   UCLA,   o   qual   foi  apresentado   como   sua   obra   de   arte   para   o  Art   and   Technology   Program  do   LACMA,   1970,   consistia   na  experiência de novas percepções corporais. Após horas  dentro  desse  recinto,  completamente  isolados  de  todo  som e vibração da Terra, era possível perceber o sangue  fluindo   e   a   respiração   como   algo   muito   vivo;   o   som  torna­se   tátil.   No   Brasil   contemporâneo   desses  acontecimentos, podemos lembrar toda a obra de Lygia  Clark.              Não   é   sem   razão   que   Victoria   Vesna   e   James  Gimzewski se posicionam no budismo para buscar um  correlato  da  construção  do universo  do menor  para  o  mais complexo, em Nanomandala. A obra conjunta dos  dois   propicia   um   encontro   com   nosso   corpo  transportado para os mistérios da física quântica.      Percebo que é nesse campo não acadêmico que será  possível  encontrar um meio diferente de se expressar o  mundo tátil da nano.                                     7 . Conclusões      A vivência científica do mundo nano no dia a dia do  uso dos microscópios eletrônicos altera a percepção do  mundo da física tradicional, newtoniana, onde vivemos.  Passar   horas   a   fio   dentro   dessa   vivência   seria   uma  experiência a ser vivida pelos artistas.    Na minha maneira de perceber, o   uso estético de  imagens   desses   microscópios   equivale   ao   que   era  desvelado   pelos   microscópios   óticos   no   século   XIX.  Toda  a  cultura,   cientifica  e  artística,  estava  voltada   à  redução   de   elementos   mínimos   constitutivos   do   todo  como processo de formação de conhecimento.    Se, o microscópio acromático levou á percepção de  formas   novas   que   inspiraram   os   artistas,   a   escala  revelada pelo STM ­ microscópio de tunelamento por  varredura   demanda   uma   arte   de   experimentação   de  novos   modelos   comportamentais.   Neste   século,   a  complexidade   passa   a   ser   a   base   da   estrutura   do  conhecimento, a busca do mais complexo vai partir do  mínimo, do mundo nano.    A   procura   dos   artistas   se   amplia   para   apresentar  experiências   poéticas   com   base   em   dados   científicos  que   nos   permitam   perceber   como   se   comportam   os  átomos   e   moléculas   em   seu   próprio   mundo   sem   que  sejam uma ilustração ou permaneçam só no visual.                  


8.  Referências [1]   Home > Nanotechnology Art Gallery > Cris Orfescu, ,  Available in  http://www.nanotech­now.com/Art_Gallery/Cris­ Orfescu.htm [2]  A. Barros, “Nano: Poética de um Mundo Novo. Arte,  Ciência e Tecnologia”, Nano: Poética de um Mundo Novo.   Arte, Ciência e Tecnologia, org. Anna Barros, pp. 15­27  catálogo, São Paulo: MAB­FAAP,  2008. [3]  2002, Christa Sommerer & Laurent Mignonneau.  Nano­Scape, an invisible interactive sculpture, Available in http://www.interface.ufg.ac.at/christa­ laurent/WORKS/FRAMES/FrameSet.html [4]  CMDMC Videos, Available in http://www.youtube.com/ watch?v=5lRgmTOcm0o Link Nanoart http://www.youtube.com/watch? v=4jxmDMVDcgA  [5]   NISE Informal Science Education.  Home  ∕  Visualization Lab: Size and Scale, Available in 

http://www.nisenet.org/viz_lab/size­scale  [6]   A. Barros, A Arte da Percepção. Um Namoro   entre a Luz e o Espaço. São Paulo: Annablume Editora,  1999, 2ª edição 2010.  


CRIANDO NO ESCURO TATIL DAS MOLECULAS