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inscrições do rio pinheiros

Anna Rossi


inscrições do rio pinheiros


TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO

requisito parcial para obtenção do título de Arquiteto e Urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie.

Anna Luisa Siqueira Rossi

orientação Prof. Dr. Igor Guatelli Prof. M.e Angelo Cecco banca final Prof. Dr. Luciano Margotto Prof. Dr. Eugenio Fernandes Queiroga

são paulo, 2015


aos

professores

e

amigos

Angelo

e

Igor

aos eternos chefes Miguel, Dimitri e Murilo por todo conhecimento à Caroline, Gabriela, Thais, Luna, Daniela, Hingrid e Gabriel pela companhia e paciência à Solange, Carlos e toda família, por tudo em memória de Helcio Rossi e Flavio Siqueira obrigada.


ÍNDICE

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RECONHECIMENTO contextualização histórica

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DOMESTICAÇÃO submissão da geografia

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TERRITÓRIO E TÉCNICA o rio como território compossibilidades

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INSCRIÇÕES reescrevendo o rio

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APROXIMAÇÃO intervenção projetual

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A TRAVESSIA O RECORTE A INTERVENÇÃO

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BIBLIOGRAFIA


“É a água, grande e vaga melancolia nativa, essa linfa que corre entre os lagartos. E, no entanto, essa Natureza, contaminando as pedras dessa cidade impossível, contaminou a si mesma; Ela deixou de ser Natureza” SARTRE, Jean Paul. La reine Albermale ou le dernier touriste. Paris, Gallimard, 1991, p. 80.


reconhecimento


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Um conjunto de ações deliberadas transformou o sítio original da Bacia de São Paulo em um território na condição de metrópole. Ações e motivações do contexto histórico sustentaram um propósito coincidente quanto ao uso e ocupação desse espaço compreendido entre as planícies fluviais da bacia, inicialmente usadas como linha guia de ocupação, como elemento estruturador da cidade, perfil violentamente alterado quando analisado na era contemporânea. Os passos da colonização foram trilhados a partir da percepção dos cursos d’agua como vias naturais de comunicação. Os caminhos fluviais, em especial o do rio Tietê com a importante característica de caminhar para o interior e não para o litoral se tornaram instrumentos auxiliares não só de ocupação como de aproximação também dos colonos com as tribos indígenas. Aproveitar destas virtudes geográficas foi uma atitude que se diferenciou no sentido de terem sido poucas as províncias que conferiram a possibilidade de assentamentos distantes do litoral. Os ocupantes da cidade combinaram a acessibilidade exterior, oferecida pelo mar, e a acessibilidade interior, propiciada pelos caminhos que partiam à curta distância do litoral, na cota do planalto. Entre esses caminhos destacavam-se os rios, alguns cujas águas correm em direção ao interior. A eleição da Bacia de São Paulo como área de implantação do que viria a ser a cidade de São

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Paulo deveu-se ao valor de sua localização com relação ao acesso às regiões que se desejava explorar e conquistar, ação permitida graças a base técnica indígena da constituição de uma rede de caminhos pré-cabralianos. As origens de toda a metrópole como conhecemos hoje existe, portanto como um fluir contínuo da onde partiu um ponto de fuga, uma ação de mover-se para além de si mesma (SEVCENKO, 2001 p. 6.); o destino de São Paulo, portanto foi assinalado pelo reconhecimento de um espaço geográfico, os cursos hídricos. Porém, a relação da Cidade com suas águas vai além da importância dos rios como balizadores da conquista e criação do embrião de São Paulo.

figura 01: Rio Pinheiros dez. 1930, Arquivo Clube Pinheiros figur a 02: Esquema dos caminhos paulistas. Caio Prado Jr. ,PRADO Jr, 1983:30

Mesmo que interpretada de diferentes pontos de vista, a relação da cidade com a água sempre ocorreu de forma intensa, podendo ser analisada em diferentes contextos e situações referentes à própria história da metrópole. Em meados do século XIX, com a intensa conurbação de pessoas em direção à cidade surgem diversas evidências de disputas legais por bicas e nascentes em busca de água para

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consumo, já em situação de escassez. Assim foram iniciadas a construção e planejamento de reservatórios construídos nas cotas mais altas da região, alertando a uma incoerência, a qual hoje se observa mais atual do que nunca, de como uma cidade nascida de rios e planícies fluviais sofre para condicionar essa mesma água para o consumo. De certa forma, até o princípio de 1800, ainda era possível observar uma relação de proximidade entre São Paulo e sua água: Os Rios Tamanduateí e Anhangabaú ainda abraçavam e faziam parte do centro. Porém, essa relação começa a se perder a partir do momento que o Rio, até então interpretado como guia e limite territorial se torna um problema de transposição: se inicia a conquista do território além-rio. Entre 1800 e 1900 inicia um movimento das classes mais ricas em direção de uma nova área de fixação, considerando o grande fluxo de imigrantes que se instalavam nos bairros da planície do leste do Tietê, dessa forma subindo os morros do Oeste próximos ao que hoje é a Sé. Entre este ponto e os morros, porém, estava exatamente o Anhangabaú, agora observado como obstáculo. Dessa forma, sob pressão da elite cafeicultora, se constrói o Viaduto do Chá ligando as duas áreas altas do centro velho sobre as águas do rio, rompendo, mesmo que simbolicamente, a primeira relação de proximidade entre território e rio. Com o processo de urbanização “além-rio”, logo foi construído também o viaduto Santa Efigênia para nutrir o fluxo de crescimento e reorganização espacial da metrópole.

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figura 03: Esquema teórico do Plano de Avenidas. Francisco Prestes Maia, 1930 Fonte: MAIA, 1930

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Apesar da dificuldade da transposição ter sido vencida pela construção dos viadutos, logo se percebe que a densidade ainda continuava baixa pela grande quantidade de vazios urbanos derivados das inúmeras áreas alagadiças e de charcos, ou seja, a cidade começava a sentir necessidade de se apropriar o espaço natural do rio, agora além de uma transposição uma espécie de “incômodo” espacial para a cidade. “a cidade cresceu por “saltação”, de colina para colina, (...) fugindo dos terrenos brejosos, alagadiços e malsãos dos fundos dos vales. Poupavam-se os vales por incapacidade tecnológica de conquistá-los para o espaço urbano de uma cidade em pleno surto de desenvolvimento.” (AB’SABER, 1956 p.25) Com o desenvolvimento da cidade, outro problema também de raiz espacial surge: com o adensamento populacional se observa o congestionamento de praças, vias, ruas e calçadas, um dos fatores dos quais, na década de 20 levaram à elaboração do Plano de Avenidas, estruturando a cidade agora a partir de vias, e não dos seus elementos geográficos e hídricos. Oficialmente acionado em 1930 o plano tinha como principais objetivos propagandear uma imagem de modernidade e desenvolvimento industrial à cidade, ao mesmo tempo em que permitisse sua expansão de forma máxima: assim o automóvel se torna o símbolo máximo deste modelo. O traçado inicial do plano reforçada a situação já conhecida pelo centro da Cidade; eixos radiais ligando essa área ao restante. Porém, mesmo que

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em uma situação já existente algumas mudanças como a execução dos anéis perimetrais começam a demonstrar um comportamento que só se agravaria: a dominação da geografia e da natureza. A última perimetral, prevista para se alocar às margens do Tietê já se tornava uma realidade, e apesar da intenção de aproveitamento das Margens como grandes espaços parque paisagística, o esforço projetual se distanciou dessa ideia para que pudesse investir na construção da Avenida 23 de maio, primeira que seguia o conceito de expressa em São Paulo, representando uma quebra de paradigma, sendo o marco inicial do rompimento da relação entre projeto de vias e projeto do espaço urbano como conjunto; o interesse se tornou somente espalhar a infecção automobilística na febre da expansão sem medidas da cidade. Dessa forma, às várzeas dos rios, por sua geografia plana, foram sendo agora ocupadas não só como lotes oriundos de uma expansão urbana, e sim como as grandes veias de um sistema vascular automobilístico. Os rios deixavam de ser guias ou limites e se tornavam incômodos; os rios deixavam de existir.

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figura 04: As várzeas da Bacia de São Paulo Base: SEMPLA, Carta Geomorfológica do Planalto


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domesticação


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O processo de ocupação do espaço das várzeas do Rio Pinheiros, no qual a partir desse ponto é denominado como elemento estruturante das relações da metrópole, sendo estas espaciais, funcionais, físicas ou simbólicas, foi resultado de diversas ações, tanto deliberadas como impostas, com propósito de viabilização a base espacial do desenvolvimento econômico da metrópole. Nesse contexto, as áreas originalmente consideradas impróprias para o uso, as planícies fluviais e várzeas, passaram por diversos processos de domesticação territorial a fim de tornar possível sua ocupação e uma vez domesticado, foi configurado para o território um programa prioritário a partir das necessidades de implantação dos setores econômicos. O território ao ser domesticado perde sua autonomia de quando na condição selvagem: é o processo de dominação do homem sobre a natureza, esta se descaracterizando e passando a servir às necessidades estabelecidas pela sociedade e em especial às demandas do sistema econômico. “[...] a cidade é objeto de um processo incessante de transformações que atingem aquelas áreas necessárias à realização das atividades modernas de produção e de circulação” (SANTOS, Milton 1999 p.114). O processo de expansão do setor agrícola resultou na transformação de um modelo de subsistência para um modelo agroexportador, o qual demandava um aumento das atividades de suporte relativas às etapas do setor. Dentre estas

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atividades de suporte, o transporte e exportação requereram um novo padrão de serviço, somente viável com a implantação da São Paulo Railway, responsável pela ligação da cidade com os pontos de escoamento de mercadoria. Porém, para a implantação da ferrovia era necessária à disponibilidade de terrenos disponíveis, planos e principalmente baratos, necessidades as quais acabaram elegendo os trajetos em paralelo aos rios, assim dando início ao processo de construção das várzeas como espaço urbano habitável. A instalação de ferrovias nas áreas de várzea acabou estimulando a aproximação da indústria pela necessidade relativa ao uso do trem, e uma vez instalada levou consigo os bairros operários, configurando, portanto assentamentos do setor habitacional agora também nas áreas marginais. Foi também nesse contexto que no início do século XX, a empresa canadense São Paulo Tramway Light and Power Company Limited, a fim de responder a necessidade energética da crescente metrópole e indústria interviu radicalmente no sistema hídrico, enquadrado e revertendo o Rio Pinheiros, obras de profundo impacto na paisagem e dinâmica do território em relação ao rio. Com a geração de energia em escala industrial através do aproveitamento hidroelétrico, a indústria, em especial a fabril, alavancou seus negócios, e consequentemente os negócios da Cia Light, a qual inaugurou uma nova fase do processo de canalização e drenagem das várzeas, não se restringindo só aos projetos de infraestrutura, mas abrangendo também

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figura 05 e 06: Desmatamento do traçado do canal do Pinheiros. (anterior); Retificação do rio e ferrovia 1930 Fonte: Arquivo Eletropaulo


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INSCRIÇÕES DO RIO PINHEIROS figura 07: Enchente do rio, 1929 . Fonte: Arquivo Eletropaulo

o processo de urbanização destas áreas agora drenadas. “A Light e a Cia. City foram os principais agentes de urbanização da cidade, responsáveis por projetos rigorosos e qualificados, apesar da perversidade dos meios empregados para atingir os seus propósitos.“ ( FRANCO,2005 p.12). A partir da década de 40, com o desenvolvimento da cidade, aos poucos, a linha ferroviária como meio de escoamento de produção foi sendo gradativamente substituída pelo uso rodoviário, estimulado pela indústria automotiva e pelas políticas de suporte desta, mas mesmo a implantação das rodovias foi planejada a partir do uso das margens dos rios. Com exceção da Anchieta, as rodovias convergem e se articulam a partir do sistema de vias expressas conhecidas como Avenidas Marginais, paralelas aos rios Tietê e Pinheiros, mantendo ainda assim o valor de locação estratégica das várzeas, as quais até hoje em dia são as principais vias de escoamento tanto de produção quanto de passageiros, e passagem obrigatório para os principais fluxos de deslocamento urbano. O investimento nesse sistema rodoviário contribuiu para a atração de serviços, que se afastando do já ocupado espigão central transferiram-se para as terras mais baixas em busca de áreas com melhor acessibilidade e mobilidade.

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Dessa maneira, sedes empresariais, setor atacadista, indústria do entretenimento e lazer migraram para as áreas de várzea, situação que ainda permanece na atualidade. Todo este processo concretizou a construção da Várzea, não como várzea natural, mas como um novo conceito espacial o qual denominaremos a partir deste momento de território.

figura 08: Vista aérea do rio na altura do atual Cebolão, 1933;. Fonte: Arquivo Clube Pinheiros

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territ贸rio e t茅cnica


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De acordo com Milton Santos[1], o território como espaço geográfico (território usado) pode ser interpretado como a mediação entre mundo e sociedade local, assumido como conceito indispensável para a compreensão do funcionamento do mundo presente. O funcionamento deste território se dá pelas horizontalizades - lugares vizinhos que formam as continuidades territoriais, e verticalidades pontos distantes unidos por processos sociais, sendo a expressão da verticalidade justificada pelo sistema de redes, as quais suportadas pelo território transportam regras e normas. Com base em tudo isso, a construção das várzeas como território se dá pela concentração de incorporações sistêmicas, ou seja, relações socioeconômicas, que compõem um território estruturante das inter-relações físicas, espaciais, funcionais e simbólicas da metrópole. Qualquer mudança sobre esse território tem um poder de reverberação sobre toda a metrópole, pois possui um poder de reestruturar as relações existentes. O território é também uma estrutura espacial organizadora. Porém, a alteração da condição de um espaço para um território e toda sua construção será aqui analisada através de um conjunto de técnicas sistêmicas e o programa e ele destinado. “na medida em que são representativas das épocas históricas, as técnicas, funcionando solidariamente em sistemas, apresentam-se assim como base para uma proposta de método”. (SANTOS, 2001 p.20)

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figura 09: Time de remo do clube Germânia nas margens do rio Pinheiros meados de 1930. Fonte Arquivo Clube Pinheiros figura 10/11/12: Levantamento fotográfico dos elementos existentes na configuração atual do território. Fotos da Autora.

[1] Texto compilado do livro Território, Globalização e Fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994 [2] “Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou como arranjos. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho. “ (SANTOS, 1999 p.113)

Os sistemas técnicos se incorporam a parcelas do território e ao se fixarem instituem um conjunto de atributos relacionados não só ao lugar como aos elementos coexistentes. Esses sistemas quando implantados deixam registros valiosos no território. As sobreposições e o acumulo destes registros criam rugosidades[2]: texturas que se sobrepõem e adicionam novas configurações e interpretações ao antes espaço reconhecido como potencial de construção, e são justamente os sistemas técnicos a matéria prima dessa rugosidade; transformações físicas e registros temporais. Dessa maneira, o processo pelo qual o território passa de seu estado natural à condição de elemento estruturante, se vê pela ótica da dinâmica dos sistemas técnicos. E estes sistemas técnicos que durante anos foram aplicados ao Rio Pinheiros e suas margens foram os modeladores das características que podem ser atribuídas à configuração atual de percepção deste território. A questão da técnica levantada por Heidegger em “Ensaios e Conferências” permite ver a técnica como uma atividade humana e como um meio para se chegar o fim, o que de fato, também é uma atividade essencialmente humana. Ao observarmos a técnica como um fim para o meio é relativamente fácil domina-la, e ainda, relaciona-la a causalidade. A causalidade por sua vez, se relaciona com o conceito de produção, não só no sentido de se produzir em outro (como na Causa Efficiens da filosofia[3] ) e sim

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no sentido de elementos capazes de produzir em si mesmos, elevar a si mesmo.

figura 13: Construção Usina de Traição. 1927 Arquivo Eletropaulo.

“A pro-dução conduz do encobrimento para o desencobrimento. Só se dá no sentido próprio de uma pro-dução, enquanto e na medida em que alguma coisa encoberta chega ao des-encobrirse. Este chegar repousa e oscila no processo que chamamos de desencobrimento.” (HEIDEGGER, 2001 p.16) Dessa maneira, a técnica se torna um meio para um fim que não é explícito- os fins de sua aplicação são desviados de sua essência ou sua autenticidade. Assim, a técnica moderna, é uma espécie de exploração. O desencobrimento que domina a técnica moderna possui como característica o pôr, no sentido de explorar: extrair, transformar, estocar, distribuir e reprocessar são modos desse desencobrimento, já que ocorre um desmonte do determinado elemento para que seja qualificado à passar por esse processo com a essência de um produto. E esses modos buscam controle, que somado com a busca da segurança constituem o próprio desencobrimento do explorador, desencobrindo o real como disponibilidade. “A natureza ou elemento natural se torna portando um dispositivo:” A usina hidroelétrica não está instalada no Reno, como a velha ponte de madeira que, durante séculos, ligava uma margem à outra. A situação se inverteu. Agora é o rio que está instalado na usina.” (HEIDEGGER, 2001 p.19)

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[1] Texto compilado do livro Território, Globalização e Fragmentação. São Paulo: Hucitec, 1994 [2] “Chamemos rugosidade ao que fica do passado como forma, espaço construído, paisagem, o que resta do processo de supressão, acumulação, superposição, com que as coisas se substituem e acumulam em todos os lugares. As rugosidades se apresentam como formas isoladas ou como arranjos. É dessa forma que elas são uma parte desse espaço-fator. Ainda que sem tradução imediata, as rugosidades nos trazem os restos de divisões do trabalho já passadas (todas as escalas da divisão do trabalho), os restos dos tipos de capital utilizados e suas combinações técnicas e sociais com o trabalho. “ (SANTOS, 1999 p.113)


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O exemplo de Heidegger não poderia ser mais claro para a compreensão de como os sistemas técnicos e a técnica constroem esse território não mais natural das várzeas do Rio Pinheiros: o processo de retificação, ocorrido de 1928 até meados da década de 1950 em muito se deve à aplicação de uma necessidade técnica de canalizar e direcionar as águas do rio para a Represa Billings, tendo a construção da usina elevatória de Traição para a inversão de seu curso. Tais alterações deram condições necessárias para a instalação da Usina Hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, alimentada das águas do rio Tietê através do rio pinheiros e Billings, usando do desnível da serra do mar para a geração de energia elétrica. Dessa forma a técnica domestica, domina e disponibiliza o rio à seu favor. Enquanto meio, se desvia de seu fim de servir o homem (homem inclusive quem aplica esta técnica ao território) para servir as lógicas econômicas e mercadológicas. O rio se descaracteriza a fim de servir às demandas produtivas, se descobrindo como a natureza que entra em um processo de disposição, nos quais seu produto se dispõe para subprodutos que se dispõem para funções. Assim em contraste com o momento de reconhecimento onde o embrião da cidade e os caminhos trilhados para a ocupação se instalavam em relação aos cursos hídricos, o que se observa atualmente é exatamente o inverso: o rio está instalado na cidade, afogado entre sistemas viários e consolidações territoriais de

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figura 14: montagem skyline região da Marginal Pinheiros. Créditos: Autora

[3] “A filosofia ensina há séculos que existem quatro causas: 1) a causa materialis, o material, a matéria de que se faz um cálice de prata; 2) a causa formalis, a forma, a figura em que se insere o material; 3) a causa finalis, o fim, por exemplo, o culto do sacrifício que determina a forma e a matéria do cálice usado; 4) a causa efficiens, o ourives que produz o efeito, o cálice realizado, pronto. Descobre-se a técnica concebida como meio, wreconduzindo-se a instrumentalidade às quatro causas. “ HEIDEGGER, Martin, Questão da Técnica -tradução Marco Aurélio Werle. Texto Original Publicado em: Conferências e ensaios (Vorträge und Aufsätze), 2a. ed. Tübingen, Günther Neske Pfullingen, 1959.

[4] “Observa-se um sistema platônico hegeliano -, examinase como foi construído, as suas pedras fundamentais, o ângulo de visão que lhe dá sustentação e então, o modificamos e nos libertamos da autoridade do sistema. Creio, porém que não é esta a essência da desconstrução. Não se trata simplesmente da técnica de um arquiteto que sabe como desconstruir aquilo que foi construído, mas de uma investigação que se refere diretamente à própria técnica, à autoridade da metáfora arquitetônica, e que, portanto, institui sua própria retórica arquitetônica.” (DERRIDA, 2006, p. 168)


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ocupação que limitam seu espaço de existência. Essa construção do espaço da várzea como território rugoso trabalhado a partir de inúmeros sistemas técnicos teve, portanto, seu significado natural suprimido, o que ao mesmo tempo abriu a possibilidade de tantas novas interpretações e interações possíveis para esse território. Sua retificação acabou por consolidar sua reificação, desatrelando-se de seu significado natural se tornando “coisa” possível de interpretações e significações. Mas quais seriam estas e ainda como utilizar de sua interpretação para entender o território contemporâneo? A desconstrução pretendida para essa análise do território não se trata somente da reversão do processo de construção; um desmonte segmentado. Trata-se de uma investigação livre de todas as interpretações, significados e valoração, a priori instituidoras de senso comum, lineares ou não que nos são possíveis a partir da observação, vivência e análise do território. Esse desmonte se torna um processo humano de observação, interação e acima de tudo percepção de significados de construção de outros sentidos do rio, da Várzea e de todos outros elementos que compõe essa paisagem, em conjunto também com as diretrizes projetuais trabalhadas na idealização da ressignificação do rio no contexto urbano da metrópole.

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inscrições


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Ao percorrer a marginal do Rio Pinheiros de forma um pouco mais observadora do que o habitual, são pequenos detalhes, imperceptíveis aos olhos mais desinteressados, que desvendam frágeis relações, inconstâncias, contradições e significados que criam a questão: quem é esse território? Traído por seu próprio êxito como conexão urbana viária, o eixo de vias, trilhos e pontes monumentais nos fez transformar em coadjuvante a personagem principal deste sistema, resgatada em nosso imaginário somente por seu cheiro – única característica que, mesmo que negativamente, ainda nos faz lembrar que ali costuma existir um rio. Hoje, biologicamente quase morto, pode ser um cadáver exposto que corta a cidade, ou uma cicatriz nascida mesmo antes do tecido o qual segrega; um grande segredo ocultado por anos de exclusão ou até mesmo a promessa de novas conexões. O próprio termo “Marginal” explicita como a visão virtualizada, de interpretação literal, evidencia outra interpretação ao território: por definição – Marginal: às margens de algo; em deriva moral, desocupado – ás margens da sociedade. Ainda, o termo marginalização se refere à cisão de um elemento em relação ao resto da sociedade e território; portando, o próprio substantivo atribuído à Marginal Pinheiros quando estudado etimologicamente explicita a condição territorial atual: um território às margens do rio e marginalizado em relação às dinâmicas da cidade.

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Mas essa condição da marginal e do rio como cicatriz nasceu posterior à consolidação do tecido urbano qual fere: o histórico de apropriação da área e criação das pistas marginais está intimamente ligado com o homicídio do rio pinheiros; foi necessário subordinar um rio para que nascessem pistas. Este rio deixou de ser rio, apesar de ser também mais que somente um rio. Este rio é um outro; o subjectum [5]. Ao perder seu significado mais óbvio como curso d’água é natural que outros significados se destaquem em sua existência, porém quais seriam estes? E ainda, em um panorama mais amplo, quais significados e possibilidades do rio e de outros elementos que tecem este território podem coexistir e serem desvendados? A convivência e coexistência de significados – estes por sua vez interpretados como “mundos”, permitem uma desconstrução muito mais cirúrgica de um elemento do que a simples consideração que diferentes características, índoles e continuidades não possam se relacionar em um único elemento.

[5] Em suma, o “Subjectum”, apoio de algo, além e aquém de algo ao mesmo tempo. O que jaz como sujeito e o que subjaz como suporte tornando-se questão neste trabalho. – conforme diálogos e discussões com professor orientador.

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figura 15: Marginal Pinheiros à noite. Autor Desconhecido in Pinterest. figura 16: Intervenção artística com escultura de Eduardo Srur na Ponte Cidade Universitária. 2014 Autoria:Kevin David/Brazil Photo Press in Estadão Conteúdo

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C O M P O S S I B I L I D A D E S A filosofia Leibniziana considera um mundo possível – aqui entendido como elemento que possa ser existir- como a amarração entre sequência, continuidade e articulação: a série. Estas séries se relacionam ou não convivendo em um único mundo desde que com uma mesma história e uma mesma reflexão; quando não, se tornam convergentes e perdem sua continuidade e articulação criando incoerências existenciais. Para Leibniz, essa convergência de relações resulta em diferentes séries que ao se inserirem excluem umas às outras por incluir diferentes sistemas – um hiato em seu continuumdisparidade ou quebra de sequência no espaço temporal e causal, implicando na impossibilidade de coexistência. Essa relação impossível entre mundos e suas diferentes séries tece o conceito de incompossibilidade, na qual um elemento não pode ser outrem: sua contradição não permite sua existência. Porém, faria sentido analisar um elemento com significados tão emaranhados como o Rio Pinheiros a partir da premissa de que ele não pode se contradizer, e se o fizer tem sua existência censurada? Para Deleuze, mundos incompossíveis[6] na verdade pertencem a uma mesma realidade, onde as diferentes séries não só existem simultaneamente como também se misturam criando um novo conceito– o caosmos[7] ; no qual o jogo dinâmico e instável passa a ser presente na ordenação do mundo, deixando

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[6] “Para Whitehead [...] as bifurcações, as divergências, as incompossibilidades e os desacordos pertencem ao mesmo mundo variegado. Num mesmo mundo caótico, as séries divergentes traçam veredas sempre bifurcantes; é um “caosmos”, como se encontra em Joyce, mas também em Maurice Leblanc, Borges ou Gombrowicz. Trata-se do desfraldar de séries divergentes no mesmo mundo, com sua irrupção de incompossibilidades na mesma cena, ali onde Sexto viola e não viola Lucrécia, onde César atravessa e não atravessa o Rubicão, onde Fang mata, é morto, e não mata nem e morto.” (DELEUZE, G, A Dobra - Leibniz e o Barroco 1991, p.125) [7] “[E]very person, place and thing in the chaosmos of Alle anyway connected was moving and changing every part of the time” (JOYCE, J. Finnegans Wake, p. 118). “ Toda pessoa, lugar e coisa no caosmos de todos de qualquer forma conectados estavam movendo-se e alterando-se toda parte do tempo” Tradução Anna Rossi


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[8] Trecho de Lettre du Voyant/ Carta do Vidente (Arthur Rimbaud à Paul Demeny, 15 de maio de 1871).

de ser um encontro primordial entre duas instâncias ( Caos e Eros) para se tornar um único conceito – o caos moderno no sentido interno do ser como unidade e não como ruptura. Rimbaud interpretou sua condição de existência como poeta afirmando que “Eu é um outro – assim como o poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos[8] , a (e)vidência dos possíveis e impossíveis significados de um mundo, um elemento se dá através deste desregramento: seu caos, seu eros, sua ruptura e cisão com sua união e miscelânea para enfim começar a compreender a condição do ser e de ser. Por definição etimológica, a palavra Rio é atribuída a massa de líquido corrente contínua de água que deságua noutra. Então seria o rio somente se pode correr? O conceito subconsciente de rio está de fato atrelado ao movimento, às mudanças, à inconsistência física do momento. Mas pela aplicação de sistemas técnicos de controle da geografia, o Rio Pinheiros não mais corre e nem desagua em qualquer outro curso d’agua. E é por isso que se limitados A termos técnicos o Pinheiros tem mais a condição de um canal do que de um rio propriamente dito no contexto atual. Eis que temos um rio que acabou imóvel, tornando-se o contrário do conceito de movimentação e mudança: o rio estagnado. Porém, essa sua estagnação que dá a possibilidade de refletir fielmente a cidade e suas interações

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ao redor: a falta de movimento e sua turvidão transformam a linha d’agua em um grande espelho na cidade, mostrando muitas vezes o revés do que enxergamos, abrindo interpretação para uma ótica, literalmente, a partir do reflexo da cidade no rio, e não só do rio na cidade. Essa nova ótica permite transpor além do discurso de como a cidade aprisionou, alterou e renegou o rio para uma abordagem de qual é a influência deste rio na configuração atual do território. O rio pode estar estagnado, mas essa condição permitiu que tudo ao seu redor se movimentasse: o trem, os carros nas pistas, as pessoas nas estações e calçadas. Sendo o rio mais que somente água, este ainda se movimenta, ainda é curso, ainda é mudança. O rio parece condenado a um estar-sendo fora de sí-próprio. Não ser mais rio o torna mais que rio, transborda sua condição normal. Em “La reine Albermale ou le dernier touriste”, Jean Paul Sartre, apesar de seu conhecido desinteresse pela natureza, flerta com o estudo do significado e impressão do elemento água, especialmente com relação à cidade em um estudo sobre Veneza:

figura 17: “Frames” Marginal em movimento, x rio estagnado. 2015 Autoria:Gabriel Negri Nilson [8] Trecho de Lettre du Voyant/ Carta do Vidente (Arthur Rimbaud à Paul Demeny, 15 de maio de 1871).

“a água [...] não é água, é mil coisas ao mesmo tempo.” (SARTRE, 1991 p.77) O reconhecimento da multiplicidade desse elemento que é estabilidade e morte, posto que, ao mesmo tempo em que protege ,arruína as suas construções no exemplo da cidade de Veneza, reafirma este elemento como incompreensível

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e inapreensível; é simultaneamente natural e sobrenatural. Os múltiplos seres da água e dos rios; natureza, ser, tempo, movimento, feitiçaria[9] ou qualquer outro elemento evoca a origem destas interpretações (nada próximas a uma conclusão definitiva) da água como em-si, ou seja, fenômeno desprovido de consciência, contingente, desnecessário e supérfluo. Sendo “um isto” se torna uma rede de qualidades superspostas, sendo ainda cada qualidade uma totalidade, expondo a dependência do em-si com o para-si, já que só é possível apreender o significado do primeiro a partir da consciência de impressão do segundo. “pois a água é o símbolo da consciência: seu movimento, sua fluidez, esta solidariedade não solidária de seu ser, sua fuga perpétua etc., tudo nela me recorda o para-si, a tal ponto que os primeiros psicólogos que sublinharam o caráter de duração da consciência compararam-na muito frequentemente a um rio”. (SARTRE, 1997 p.740) Dessa forma, independente dos múltiplos “seres” da agua, a apreensão destes se define a partir da interpretação do observador. E são essas interpretações dos observadores que tangenciam essa busca por uma tentativa de situar o rio Pinheiros no contexto metropolitano. E neste contexto, observamos o rio como um incômodo na cidade. Ao ter se descaracterizado através da aplicação da técnica, se tornou excedente da produção pela qual passou a servir: se tornou resíduo, espaço lixo.

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[9] “A água é feitiçaria. O espírito invertido. Uma inércia que tem poderes” SARTRE, Jean Paul. La reine Albermale ou le dernier touriste. Paris, Gallimard, 1991, p. 79.


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Estes espaços residuais, de acordo com Koolhaas em seus estudos do livro “Junkspaces”, se denominam “Junkspace”, traduzido por “espaço residual, lixo” que superficialmente entendese como que restou depois que a modernidade correu seu curso, mais precisamente o que já coagulou enquanto a modernidade progride – seu “resto”. Enquanto a modernidade tem uma racionalização programática de pulverizar universalmente as conquistas científicas, o Junkspace é o “meltdown”, derretimento. E é essa progressão científica da modernidade, por sua vez, que nos leva novamente à discussão da técnica. Conforme já introduzida a ideia, o incômodo do rio é resultado das técnicas aplicadas sobre ele, desde a simbólica construção de um viaduto para transpor os limites geográficos até sua total retificação; o rio na sua configuração atual foi o que restou, os “leftovers” de todo esse processo de modernização urbana. Mas esse “resto” é possibilidade; possibilidade de pensar pelo incômodo, sendo ele mais latente ao subconsciente humano. O objetivo nunca deve ser o acômodo; este um prelúdio da imobilidade, e sim nutrir sempre o que se manifesta na interferência do conforto social, urbano ou em qualquer outra esfera- o rio, riot – profusão, distúrbio turbulento da paz por um propósito comum.

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“[...]se você tornar água em espaço, o que é uma mudança dramática de percepção, existe todo um novo mundo de possibilidades.” (Koen Olthuis, 2005 in “Ted Talks”) Assim o rio incômodo se torna possível como espaço, intervenção urbana, suporte para “movimentos de desterritorializações e reterritorializações, incentivando o nomadismo, as conexões momentâneas extrínsecas, ou seja, fora da natureza lugar, entre margens, nas bordas [...]” (GUATELLI, 2008 p.18) Este entre margens, o resto, o “vazio” urbano, se torna latente quando reconhecido como espaço, como palco do inesperado, espontâneo. Mas não basta ser somente uma representação tridimensional desta gama de possibilidades de apropriação: o espaço é algo sentido, as ações o influenciam. A articulação entre o espaço sentido e o espaço desprogramado, ao movimento gerado da vivência deste: “a representação do espaço e o espaço da representação” (TSCHUMI, 1996 p.36). A representação do espaço do rio é seu ser como imóvel impregnado de valoração, sobrevaloração, pré-significação. A priori é sua imagem estereotipada ligada ao senso comum e ao inconsciente coletivo. Já seu espaço da representação é tudo que se permite ser nesse espaço; o evento da travessia, do mergulho, do descobrimento dos possíveis e impossíveis. Dessa forma, o espaço não se desassocia dos

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eventos que nele ocorrem, escapa da sua redução á um sistema de signos indiferentes aos espaços aonde ocorrem os eventos.

[10] “O homem é uma corda estendida entre o animal e o alémdo-homem – uma corda sobre um abismo. É o perigo de transpô-lo, o perigo de estar a caminho, o perigo de olhar para trás, o perigo de tremer e parar. O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um ocaso.” NIETZSCHE, F. Assim Falou Zaratustra. Um livro para todos e para ninguém. 8. ed. Tradução de Mário da Silva. RJ: Bertrand Brasil, 1995. figura 18: Exposição Sebastião Salgado - Gênesis - Na região da bacia do Xingu, estado de Mato Grosso, um grupo de indígenas waurá pesca na lagoa Piyulaga, perto de sua aldeia. Mato Grosso, Brasil, 2005. in Folha de São Paulo.

Pensar no rio como espaço é pensa-lo como passível de interações e eventos, mas que eventos podem ocorrer nesse novo espaço? E ainda, nos é possível pensar no rio como espaço para estes possíveis eventos? Sua travessia – etimologia menos técnica do que “transposição”, se torna um evento de descoberta no sentido que o rio lhe dá a possibilidade de experiência do percurso, de desvelação do oculto, desnudamento do não obvio. A técnica nos condicionou a transpor, por baixo ou por cima, resultando em um relacionamento distanciado do rio. As linhas não se cruzam, o rio e a transposição estão em diferentes eixos que jamais se tocam ou se encontram: a transposição se dá, o rio permanece emocionalmente intocável. Já na possibilidade de travessia entramos na discussão da experiência: tudo se dá no mesmo eixo tridimensional, na mesma cota da linha d’agua. É a descoberta enquanto travessia: ser-sendo. Guimarães Rosa, em “Grande Sertão: Veredas” põe a saga de seu Jagunço Riobaldo como um estado de vir a ser na travessia do sertão, a jornada do “além-do-homem”[10] ,que se permite criar e recriar a si mesmo a todo instante de travessia. A travessia do rio é também um processo de conhecimento mútuo. des-encobrimento

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do sujeito que atravessa refletindo descobrimento do objeto atravessado.

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Uma descoberta, portanto desnuda a outra, um percurso existencial: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia” (ROSA, 1956 p 34) E esta é destituída de estabilidade, como todo processo de des-enconbrimento: a criação e recriação de qualquer elemento permite sua constante reinterpretação, admitindo a superficialidade de nos limitarmos a qualquer definição- um processo de que não possui uma conclusão e sim todas as possíveis e impossíveis conclusões. Mas mesmo dada sua mutabilidade e imprevisibilidade, também suportar as relações que se estabelecem durante sua execução; a travessia acompanha, incorpora e favorece a interação entre objeto-sujeito, não se definindo quem é o sujeito e quem é objeto: o rio ou quem faz a travessia. Dentro dessa conceituação, a intervenção projetual trabalhada neste ensaio experimenta exatamente esse momento da travessia, essa como evento. Ao criar portos na extensão do rio Pinheiros, a conexão entre margens se dá não mais por pontes, passarelas ou túneis: a experiência de travessia é no eixo do próprio rio; em uma recuperação de contato com a água através do uso de diferentes tipos de balsa para esse processo de transposição. As balsas por sua vez, representações físicas dos “tempos do rio”, são pensadas como três

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diferentes protótipos em diferentes intervalos. A primeira, de transposição acusa um funcionalismo extremo, reduz a experiência da travessia à necessidade, é uma infraestrutura de conexão com horário e destino previamente demarcados. Já o segundo protótipo começa a se desprender de uma prévia programação espacial permitindo eventos durante a travessia, essa com a duração que demanda sua programação, podendo ser desde um filme à uma apresentação teatral ou até mesmo uma feira flutuante. O terceiro protótipo, o mais representativo da travessia como experiência consiste em um espaço voltado ao desconhecido e à curiosidade. Não possui nenhum tipo de programação ou temporalidade definido, é somente uma possibilidade de experiência, que quando aportada convida o expectador à se permitir experienciar um destino desconhecido. Dessa forma a travessia do rio se torna seu maior evento, e assim como este, não se define em significações cartesianas; a travessia potencializa o durante, e o durante é a experimentação outra da travessia. “Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.” (NIETZSCHE, 1883 p.54)

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fiigura 19: “Sertão ão ao Central Al” Autoria: Tarcísio Filho, Quixeramobim, CE 2001. figura 20: Imagem renderizada do projeto apresentado neste trabalho Balsas e portos ao longo do rio. Autoria Própria. 2015


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Nessa interpretação, a perda de sí-mesmo é na verdade o desprendimento da esfera de definição de sí próprio como uma única coisa. E assim se constroem as relações e experiências, os descobrimentos e por fim o significado do rio como espaço de abrangência quase que infinita de programações e reprogramações.

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aproximação


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Tendo toda a reflexão não só sobre a apreensão do ser do rio, mas também sobre as relações que estabelecemos com este foi pensada uma intervenção projetual que conseguisse articular todas as possibilidades que esse território oferece à metrópole e vice versa. A base de toda a conceituação projetual foi a de imaginar possibilidades para uma realidade. Apesar do constante flerte com a utopia, o objetivo sempre foi trabalhar com duas características reais do território: a poluição do rio e a presença das pistas locais e expressas da marginal. Muito se discute sobre a extinção das pistas quando se trata do assunto de revitalizar o rio Pinheiros, em especial por conta da causalidade que a locação destas teve na história da retificação e transformação do rio em “rio”. Porém neste trabalho optou-se pelo desafio de trabalhar a paisagem existente e compreender o território não como negativo ou positivo e sim como uma interação de elementos resultante de um processo: aceitar o caos metropolitano enxergá-lo como passível. E não seria diferente em relação à poluição do rio: o trabalho com a realidade continua- anos de falta de saneamento básico e planejamento urbano resultaram em dejetos de 290 indústrias e mais de 400 mil residências tornando o rio biologicamente morto, mesmo com diversos programas de despoluição iniciados desde a década de 70, mas que até hoje não surtiram efeitos consideráveis.

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Dos diversos motivos pelos quais tais programas não tiveram êxito é visível a constante lacuna entre cidade e rio; essa falta de aproximação entre ambos é que impede que seja compreendida a necessidade de um projeto efetivo de despoluição.

figura 21: Implantação da área de intervenção projetual. MDC, 2014 Autoria Própria, sem escala. figura 22: montagem feita com imagens de satélite de toda extensão de interesse do território para análise projetual. 2014. Autoria própria. Imagens base> Google Earth.

Portanto, seria o uso e o contato com a água que gradualmente permitiriam que a despoluição se tornasse uma necessidade latente para o cotidiano da metrópole. Somente através do uso que é possível perceber a necessidade de cuidado e preservação[11]. Posta essa conceituação e após um levantamento de todos os 22,5 km de extensão da Marginal Pinheiros, com possíveis pontos de interesse e intervenção percebeu-se que existiria uma fraqueza na definição de uma única megaestrutura pontual; seria necessário o pensamento a partir de múltiplas intervenções menores que costurassem uma rede de conexões entre cidade e rio por diversos pontos. Assim se definia o esqueleto projetual: pontos de conexão entre cidade e rio e também entre rio e o próprio rio.

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[11] “É preciso navegar para despoluir, quem usa cuida.” Alexandre Delijaicov, responsável pelo Grupo Metrópole Fluvial da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU)de possibilidades, em entrevista durante São Paulo Boat Show, 2014 como convidado para passeio no protótipo anfíbio navegável no rio Tiete. (São Paulo, 2014)


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O caráter essencial do território das marginais é no dia a dia essencialmente de passagem; o ritmo, tempo e velocidade da metrópole neste recorte urbano impede qualquer interação entre quem passa e o território existente. Conectando latitudinalmente grande parte da Zona Oeste com a Zona Sul, mais de 180 mil carros circulam nas mais de 18 pistas, locais e expressas; norte e sul ;além das 600 mil pessoas que utilizam diariamente a linha ferroviária lindeira ao Rio Pinheiros, ligando Osasco ao Grajaú. O triunfo da conexão latitudinal também se dissipa quando comparada às conexões longitudinais: numa extensão geral de 25 km de marginal (cebolão à represa Billings) existem 15 pontes de travessia, das quais somente algumas possuem passagem para o pedestre, esta não passando de 1m de extensão em ambas laterais, além de possuírem inclinações não confortáveis para o passeio a pé, tornando a transposição necessidade e não convivência. Essa dificuldade de transposição acaba por desestruturar iniciativas positivas de apropriação do Rio, como a ciclovia implantada em fevereiro de 2010, com extensão de 22 km acompanhando quase todo o percurso do rio Pinheiros e do rio Jurubatuba. Neste contexto surgem duas inquietações: Como transpor as pistas e em especial como atravessar o rio?

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Na questão da transposição das pistas, a primeira premissa foi pensa-la não só como passagem, mas também como permanência. Esta se desenvolveria a partir da definição da transposição do rio, sendo inicialmente o principal foco de conceituação projetual. A transposição do rio ressalta a importância de se tornar mais que o transpor; se torna uma experiência sensorial de reconhecimento dos significados da essência do rio (sejam esses quais forem). Dessa maneira, foram pensadas as conexões latitudinais existentes (como as estações de trem e a ciclovia) para guiar os acessos às novas proposições de conexão longitudinal. A priori, como solução de conexão entre as margens foram pensadas tipos de soluções já existentes, repetidas em diversos casos inclusive ao longo da Marginal Pinheiros. As 15 pontes de travessia existentes pouco se adequam a escala do pedestre, além de não conectarem margem com margem, e sim as calçadas externas às pistas, dessa forma não criando qualquer de interação que não a de somente transpor o rio e as pistas. Diferente de casos como o Rio Sena, em Paris, ou o Tâmisa em Londres, onde a configuração de pistas e calçadas permite passarelas com inclinações confortáveis ao passeio, pela dimensão do comprimento a ser atravessado as pontes sob o rio Pinheiros foram pensadas através de lógicas rodoviaristas, com uma inclinação ideal para o carro, e não pedestre.

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A travessia deveria ser parte da experiência de relacionamento com o rio, e para tal deveria ocorrer sob ele próprio, e ao mesmo tempo ser pensada como passível de programação, ou seja, além de passagem se tornando um espaço de permanência.

figura 23/24: Imagens Pavilhão da Croácia, 2011. Fonte: Archdaily Brasil.

Ambos partidos projetuais somados à intenção de trabalhar com a realidade de um rio poluído levaram a pensar em arquiteturas flutuantes como elementos de travessia, permanência e eventos sob as águas do rio. Como referência imediata, especialmente nas questões estruturais, essas arquiteturas foram Inspiradas pelo conceito criado pelo Pavilhão da Croácia, exibido na Bienal de Veneza no ano de 2010. Projetado em colaboração por 14 arquitetos croatas para a Bienal de Veneza de 2010, organizado pelo Museu de Arte Moderna e Contemporâneo de Rijeka, Croácia. Com intenção de representar o contato da Croácia com a indústria marinha, o pavilhão é formado de basicamente duas partes: uma base flutuante semelhante à uma balsa de 10m x 20m x 3m e um sistema de 40 camadas sobreposições e amarrações contendo 30 toneladas de malha metálica Q385, projetado criando um volume sólido de aproximadamente 19m x 9m x 5,5m. O pavilhão fez um percurso com diversas paradas pelo mar Adriático, até ser ancorado por um dia nas proximidades da Bienal de Veneza para depois continuar sua rota itinerante pelo oceano. Sua área interna foi esculpida através da variação de tamanho e densidade dos elementos metálicos, formando tanto externa quanto

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[11] “É preciso navegar para despoluir, quem usa cuida.” Alexandre Delijaicov, responsável pelo Grupo Metrópole Fluvial da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU)de possibilidades, em entrevista durante São Paulo Boat Show, 2014 como convidado para passeio no protótipo anfíbio navegável no rio Tiete. (São Paulo, 2014)


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internamente um espaço irregular e lúdico. E exatamente nesse espaço que se permitiam todo e qualquer tipo de apropriação e evento. A mobilidade conferida à balsa como elemento flutuante também permite que ao mesmo tempo em que permanecendo no espaço o expectador se encontra em constante movimento, em percurso. Nessa intenção de mobilidade e permanência em compossibilidade para reconfigurar interações territoriais, é latente que se discuta talvez o projeto mais expressivo desta condição: o Teatro Del Mondo, de Aldo Rossi, exibido na Bienal de Veneza em 1979. Nascido do binômio entre “fato urbano” e “construção analógica”[12], ele dialoga, recompõe e reinventa a cidade. E é nesta reinvenção do espaço que também se reinventa a cidade; um corpo estranho na paisagem que se integra à sua transformação se tornando parte dela. Dessa forma as balsas foram pensadas como elementos de reinvenção do rio como espaço urbano, com uma conceituação programática também capaz de se reinventar ao mesmo tempo em que funciona como elemento técnico de transposição. A água permite com sua fluidez uma facilidade de movimento que dificilmente ocorre desta maneira em qualquer outro meio; essa sua flexibilidade permite conexões, articulações. Portanto, como experiência projetual foram criados três protótipos de travessia utilizandose dessa facilidade permitida pelo meio,cada um com um tipo de intervalo e com um grau de

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[12] Para Rossi, Fato urbano se divide em duas categorias: núcleos de agregação marcados pela permanência (pontos de referência da dinâmica urbana) e conjunto de partes que influenciam cada um na forma urbana quanto à evolução física e social. Já Construção analógica por sua vez enquanto exercício imaginativo entre memoria individual e coletiva. figura 25/26: Teatro Del Mondo, Aldo Rossi 1979. Fonte: Archdaily


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abertura diferente em relação à apropriação de diferentes programas e eventos. A primeira balsa, com um programa mais restrito seria voltada à necessidade técnica de travessia: com um intervalo controlado a fim somente de percorrer a distância entre os portos em margens opostas, horários sincronizados aos do transporte público próximo e aportamentos pré-definidos. A segunda balsa, por sua vez, começa a se descolar dessa rigidez técnica, e apesar de possuir intervalos e horários de aportamento definidos é voltada para eventos mais livres tais como apresentações de teatro, cinema, feiras e mercados flutuantes. Já a terceira balsa é a que mais se aproxima da conceituação da travessia como experiência. Esta, não se limita e não se define em nenhum momento; seu aportamento, trajeto, evento e intervalo trabalham com a expectativa, o aleatório e o desconhecido; sua única intenção é de ser um convite à experiência do rio como espaço urbano. R

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Tendo sido conceituada a travessia como experiência territorial, após a compreensão do território como tal foi necessário um recorte deste a fim de se desenvolver o detalhamento necessário para a execução de uma possibilidade projetual. A interação de diferentes tipologias, programas, relações e situações socioeconômicas do tecido urbano lindeiras à marginal acabaram por possibilitar diversos pontos de interesse para o desenvolvimento dos projetos de

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figura 27: Montagem tipologia das balsas em seus três “intervalos” sobreposta sobre render projetual. Autoria própria, 2015.


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conexão das margens, escolhidos também a partir das conexões latitudinais existentes: as estações de trem e conexões com os bairros.

Ainda nesse sentido, é possível observar um aumento considerável de tipologias comerciais de edifícios de grande porte, hotéis de alto padrão, shoppings e edifícios residenciais voltados às classes mais altas, infraestruturas públicas de lazer como o Parque do Povo e privadas como o Clube Hebraica e o Jóquei Clube entre muitas outras tipologias que misturam programações, usos, funções e classes socioeconômicas. Com essa configuração mista do território, foram escolhidos três pontos de interesse para o trabalho, fiel a intenção projetual de criar diferentes pontos de conexão entre margens em toda a extensão da marginal, permitindo essa conexão em diferentes e entre diferentes portos.

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ÃO DR PA TO AL L IA NC DE SI RE

Seguindo em direção Sul, percebemos uma nova configuração com a Cidade Universitária da Universidade de São Paulo em uma margem e o Parque Vila Lobos do outro, com uma grande massa residencial de classe médio-alta no entorno destas duas infraestruturas urbanas.

cdhu+cingapura+ comunidade

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Neste recorte, o território da Marginal Pinheiros, no sentido Norte a Sul se configura inicialmente pela forte presença de indústrias remanescentes e galpões, favelas e comércio e distribuição como o CEAGESP.

usina de retiro

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O recorte inicial da área se deu pela extensão da marginal compreendida entre ao Norte, a Estrutura de Retiro e ao sul a Usina Elevatória de Traição, ambas responsáveis pelo controle das cheias e secas do rio além do controle de sua vazão e direção de fluxo.

figura 28: Diagrama do recorte projetual e configuração tipológica do território. 2014, Autoria própria. [12] Para Rossi, Fato urbano se divide em duas categorias: núcleos de agregação marcados pela permanência (pontos de referência da dinâmica urbana) e conjunto de partes que influenciam cada um na forma urbana quanto à evolução física e social. Já Construção analógica por sua vez enquanto exercício imaginativo entre memoria individual e coletiva.


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Os primeiros dois pontos, pensados como diretriz, foram locados entre a Cidade Universitária e o Parque Vila Lobos e entre o Parque do Povo, o Jóquei Clube e o clube Hebraica. Contida em um espaço entre 3 equipamentos de lazer privados e um público, a intenção deste porto seria de criar uma costura urbana convidando a população que já usa esses elementos de lazer privados a se apropriarem agora de um espaço público que se conecta com outras ancoragens e situações, afirmando o contato com o rio e unindo as margens aos novos programas de lazer e eventos e estes à cidade e ao Rio Pinheiros. Já no caso USP e Parque Vila Lobos, ambas as infraestruturas possuem certa apropriação em relação à cidade com eventos direcionados à cultura e lazer. A intenção deste porto seria, portanto além de alterar a situação de segregação do rio com esses dois elementos por conta de muros (USP) e diferenças topográficas (Parque Vila Lobos), criar um novo espaço urbano no rio e suas margens para diferentes eventos e apropriações culturais. Tendo definido essas diretrizes, o terceiro ponto de interesse seria escolhido a fim de um maior detalhamento projetual, tornando-se o produto final deste trabalho de graduação. Localizado dentro do distrito de Jaguaré, o bairro industrial de Jaguaré, lindeiro à margem Oeste do rio pinheiros apesar de em sua totalidade ser ocupado por indústrias possui uma pequena “ilha” residencial, contendo além de complexos de CDHU e Cingapura uma das maiores favelas da cidade de São Paulo, a Vila Nova Jaguaré. Os 12 mil habitantes e 3.619 domicílios

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cadastrados que habitam essa área sofrem com a falta de conexão com a cidade não só por estarem inseridos em um meio industrial, mas também por estarem às margens das pistas marginais além do próprio rio Pinheiros – o qual possui somente na margem oposta linha de transporte público (CPTM) entre outros equipamentos urbanos. A ausência de equipamentos de infra-estrutura também é latente, existindo somente um CEI a margem das pistas expressas da marginal. Portanto, a escolha deste local exprime não só a necessidade de trazer conexão entre margens (Estação – Comunidade) como também a necessidade de elementos de infraestrutura, cultura e lazer em ambas margens e no próprio rio, fazendo com que a população que já habita às margens agora a se apropriem também do rio e do outro lado da cidade. I

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Tendo escolhido o trecho entre a Vila Nova Jaguaré e a área da estação Ceagesp como território a ser trabalhado, a primeira grande questão desta parte do projeto foi como combinar transposição das pistas com um programa que atendesse as necessidades locais do entorno ao mesmo tempo que funcionasse como acesso para as margens e balsas de conexão intermargem. Ao observar a diferença entre as cotas de acesso (Estação Ceagesp e Favela Billings) em relação a cota das margens, percebeu-se uma potencialidade de combinar essa diferença topográfica para que a transposição se desse no subsolo, sob as pistas, chegando em nível à linha d’água para o embarque nas balsas. O

trabalho

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com

arquitetura

subterrânea


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permitiu também a apropriação de um novo caráter espacial na cidade: assim como no caso do rio, aproveitou-se o resto, os “leftovers” urbanos, agora espaço passível de eventos, fluxos e programações. Importante ressaltar também para compreensão da localização das margens que a definição de margem esquerda e direita se dá a partir da referência da jusante e montante natural do rio pinheiros, com o fluxo Sul-Norte, nascendo do encontro do Rio Guarapiranga com o Rio Grande e deságuando no Rio Tietê. Assim, o acesso da margem esquerda para a transposição subterrânea foi implantado no terreno da atual “favela Billings”, prevendo uma realocação dos 650 moradores ali em habitações de interesse social em local próximo com qualidade de moradia. Na questão plástica e estrutural estes acessos buscam não se tornar um elemento monumental na paisagem – a atenção se volta para margem, o acesso se torna somente o portal, conceito expresso pela escolha de revestimentos translúcidos e leves e uma estruturação metálica pré-moldada que se dobra em direção ao subsolo. Na questão programática este acesso acaba por revitalizar toda área de calçada na pista local da marginal, afastando o fluxo de pedestres da agressividade das pistas , criando novas áreas de respiro, permanência e permitindo apropriação de pequenos programas efêmeros (feiras, exposições e etc.) A área subterrânea, por sua vez possui um leque programático de apoio ás necessidades do entorno de seu acesso: uma biblioteca de

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extensão ciclovia

pistas marginal pinheiros

ceagesp

linha CPTM

estação ceagesp

acesso subsolo

figura 29: Implantação Projetual, sem escala, 2014, Autoria própria.


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rio pinheiro

acesso subsol

comunidade vila nova jaguar

pistas marginal

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apoio ao CEI , combinando outras pequenas infraestruturas polvilhadas internamente, e no lado externo, no nível da margem um espaço livre sem uma pretensão programática, funcionando como embarque e área de contato e vivência entre cidadão ,margem e rio. Na margem direita, o acesso se dá por dentro da própria estação Ceagesp, dessa maneira combinando os dois equipamentos e facilitando a necessidade de transposição e mobilidade do usuário do transporte público com a travessia do rio. A base programática para o espaço subterrâneo neste lado se torna uma extensão do Feirão já existente no Ceagesp, permitindo também a possibilidade de mercados flutuantes, feiras e etc. Assim como na margem esquerda, o modo no qual o programa foi distribuído no subsolo permite que o espaço não seja delimitado por sua função, ou seja, pontos de passagem e permanência não se delimitam espacialmente; funcionam em conjunto, ao mesmo tempo, no mesmo espaço. Ainda na margem direita ocorre a mesma intenção programática projetada na oposta. Porém, por ser a margem que já abriga a ciclovia existente na Marginal Pinheiros se propõe sua extensão, atualmente com início após a ponte Jaguaré e com diversas dificuldade de acesso. Esta extensão acaba por levar a ciclovia em nível para este novo espaço de passeio na margem, facilitando assim o acesso para o ciclista e potencializando a interação da cidade com a ciclovia. Uma das questões importantes também foi como

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se daria o embarque nas balsas e a adequação deste espaço para as possíveis cheias do rio, mesmo que este recorte espacial entre a estrutura de Retiro e a usina de Traição possua uma variação muito bem limitada do nível da água, variando somente dois metros na época de cheia. Assim, o re-desenho da margem em diversos platôs triangulares permite reconfigurações do espaço de acordo com o nível da agua, este escondendo e revelando novos espaços com o movimento do próprio rio . Cria-se uma nova configuração de infraestrutura para área através da conexão entre ambas as margens, o projeto busca, enfim reafirmar possibilidades de interação entre a cidade, e o rio, aproximando não só a população da outra margem como a população do rio, e consequentemente do rio com a cidade. Essa interação existente entre portos, áreas de lazer e o rio Pinheiros também não deixa de ser uma recuperação de proposta que, antes da transformação do rio em mercadoria, podia ser observada em clubes como o Sport Clube Germânia, atual Clube Pinheiros, com competições de remo e natação entre outras atividades, na década de 1910-1930. Porém, o projeto não intenciona recuperar a exata relação existente no passado, pois compreende que a cidade encontra-se em uma nova configuração de relação; independente da qualidade de interação que possa ocorrer entre a cidade e o rio, o projeto pretende somente permitir que a interação seja possível.

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figura30-34:Levantamento fotográfico da área escolhida para o projeto, compreendida entre a estação Ceagesp e a Favela na margem oposta. 2014, Autoria própria.


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figura 35: projeto margem

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imagem do representando reconfigurada.


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figura 36: Extensão Ceagesp, programa subterrâneo.

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figura 37: Vista interna biblioteca.

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figura 37: Vista interna nível inferior da biblioteca: acervo.

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figura 38: Corte urbano, sem escala.

figura 39: Planta subsolo margem CEAGESP, sem Escala.

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figura 40,41: Planta subsolo e subsolo inferior margem JAGUARÉ, sem Escala.

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Por fim, a essência deste ensaio é a de não trabalhar com predicações, e sim com o deslocamento identitário do que seja e do que possa ser o rio, a ponte- sua travessia. A ponte é a ponte. A ponte é o rio. “Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada... Viver nem não é muito perigoso?” (ROSA, 1956, p.26)

figura 42: Levantamento fotográfico área. Autoria própria. 2014.

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Inscrições do rio Pinheiros  

Anna Rossi_Monografia FAU-Mackenzie 2015

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