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Maringá, Quarta-feira, 19 de junho de 2013

O DIÁRIO DO NORTE DO PARANÁ

ZOOM

A3

O que vai resultar de todas essa mobilização nós ainda não sabemos José Aparecido Pereira - professor da PUC e doutor em Filosofia

I PAÍS MOBILIZADO

Mais de 10 mil vão às ruas para protestar em Maringá Manifestantes partiram do Centro e percorreram vários pontos da cidade. Câmara foi invadida e houve ataques ao Paço Municipal e Terminal Urbano. Protesto durou cerca de 5h Rafael Silva

Multidão na esquina das avenidas Colombo e Duque de Caxias: tráfego de veículos interrompido

Rubia Pimenta rubia@odiario.com

Desde o movimento “Fora Collor”, há 21 anos, Maringá não via uma manifestação de tamanha grandeza. Mais de 10 mil pessoas tomaram as principais ruas da cidade e percorreram, de forma pacífica, cerca de 7 km. O que se viu foi uma proliferação de cartazes demonstrando a indignação da população contra diversos problemas, passando pela Copa do Mundo, transporte público, precariedade da educação e saúde pública. “O Brasil passou muito tempo dormindo. Existem vários problemas acumulados; não dá pra se indignar com apenas um”, disse a estudante Rebeca Marx, 18 anos.

A concentração ocorreu por volta das 17h e terminou por volta das 22h. Logo no início houve um princípio de tumulto, com empurrões e xingamentos entre grupos contrários e favoráveis às bandeiras de partidos políticos na manifestação. Venceu os sem bandeiras, que abandonaram o trajeto proposto pelos que discursavam sobre o caminhão de som, viraram as costas, e seguiram em direção à Avenida Herval. Cantando palavras de ordem contra tudo e todos, incluindo prefeito, presidente, impostos, transporte público, eles seguiram, sem liderança, decidindo o trajeto na hora. O corretor de imóveis Rafael Gonçalves, 26, nunca havia participado de

Manifestantes bloqueiam trânsito da Av. Colombo no cruzamento com a 5 Av. Duque de Caxias 19h25

4 19h10 Um grupo permanece na praça da Catedral, outro segue em direção à Av. Colombo

Motorista herói

19h50

6

Novos bloqueios são realizados no centro

17h

20h35

Início do protesto

1

TERMINAL URBANO

7

Av. Horácio Racanello

Av. Tamandaré R. Ver. Basílio Sautchuk CENTRO

Av. Paraná R. Neo Alves Martins Manifestantes gritam palavras de ordem em frente ao Paço Municipal

Av. Duque de Caxias

3 19h00

Um grupo toma plenário da Câmara e conversa com os vereadores

Av. São Paulo

PREFEITURA MUNICIPAL

Av. Papa João XXIII

18h40

2

Av. Tiradentes

CÂMARA MUNICIPAL

Tensão

Av. Brasil

Novo bloqueio é realizado

VILA OLÍMPICA

Av. Colombo

uma manifestação antes e esteve à frente da passeata em alguns trechos. “Nós paramos em alguns pontos e, de repente, alguém começava a gritar uma direção”, conta. A passeata bloqueou o trânsito no Centro e Zona 7. Apesar dos transtornos, todos os motoristas entrevistados pela reportagem afirmaram não ligarem por passar mais de 1h presos no congestionamento. Muitos buzinavam em apoio. O empresário Diego Azevedo, 23, estava voltando de São Paulo e ficou parado entre as avenidas Colombo e Morangueira. “Estou cansado da viagem, mas a manifestação é correta”, diz.

Av. Herval

Av. Morangueira UEM

Manifestante com microfone durante sessão da Câmara. Centenas invadiram o Legislativo

Após saírem da Avenida Brasil, os manifestantes seguiram até a Avenida Tiradentes. Um grupo de aproximadamente 200 pessoas se dirigiu à Câmara e lotou o plenário. Um manifestante identificado apenas como Natan pegou o microfone e chamou os vereadores de corruptos, deixando os parlamentares com um “sorriso amarelo” no rosto. O grupo retornou ao Paço Municipal. Gritando palavras de ordem contra o prefeito Carlos Roberto Pupin (PP), eles chegaram a quebrar quatro vidros da prefeitura e pichar as paredes. O prédio foi cercado por milhares de manifestantes, que subiram até na marquise da entrada principal.

T MAPA

Os manifestantes chegam novamente ao 8 Terminal Urbano, dando sequência ao protesto

21h25

INFOGRAFIA O DIÁRIO

João Cláudio Fragoso

Após a prefeitura, os manifestantes desceram a Avenida Duque de Caxias, viraram na Avenida Colombo e ficaram cerca de 1h parados no cruzamento com a Morangueira. Um ônibus da empresa Cidade Verde, que seguia pela Avenida São Paulo, foi tomado por manifestantes. Quando alguns jovens subiram no ônibus, um grande número de manifestantes vaiaram

a atitude e começaram a gritar novamente “vandalismo não”. O jovem, constrangido, desceu sem danificar o veículo. O motorista do coletivo foi convidado pelos manifestantes a participar do movimento. Ele colocou uma máscara do grupo ativista de hackers “Anonymous” sobre o rosto, a bandeira do Brasil nas costas e entrou no protesto. Aplaudido, ele foi colocado sobre o ombro dos manifestantes, que gritavam “motorista herói”. Por volta das 21h30, um grupo de manifestantes tentou incendiar dois ônibus que estavam do lado de fora do Terminal Urbano. O bando ateou fogo em um monte de lixo que

T OPINIÃO Clóvis Augusto Melo Editor em O Diário

Manifestação pé no chão Eles sabem sim o que querem. Durante o protesto em Maringá, os manifestantes – jovens, idosos, estudantes, skatistas, cadeirantes, crianças, casais - mostraram que é possível arregimentar milhares de pessoas e, sem a presença de polícia ou Guarda Municipal, externar sua indignação sem vandalismo ou quebra-quebra. Acompanhei o protesto desde o início e, todas as vezes que algum participante mais exaltado tentava partir para a truculência, seja contra pessoas, bens públicos ou particulares, os próprios manifestantes o faziam parar gritando “sem violência”. Afora incidentes isolados, a manifestação foi pacífica, um exemplo de cidadania. Com os pés no chão.

foi jogado sob os veículos. Outros manifestantes usaram extintores para apagar as chamas antes que os ônibus fossem danificados. Após 5h de protesto, um pe-

queno grupo dava prosseguimento ao protesto no Terminal Urbano e impediu a entrada de ônibus. Veículos foram pichados ao final da mobilização no terminal.

T OPINIÃO Ângelo Priori

José Aparecido Pereira

Professor da UEM, doutor em História

Professor da PUC, doutor em Filosofia

Sem objetivo

Insatisfação popular

Esse tipo de mobilização não tem um objetivo claro, não é um movimento contra alguém, é uma ação que representa uma impaciência social. São pessoas cansadas de desmandos. Podemos citar três coisas que vêm acontecendo no Brasil, que acho que têm afetado: primeiro, a questão econômica, a alta da inflação. O segundo ponto está ligado à qualidade dos serviços públicos de forma geral. Não apenas aumento dos ônibus, mas os telefones que não funcionam bem, além das deficiências na educação, saúde e Previdência. E o terceiro ponto são esses descalabros dos gastos públicos, como os estádios para a Copa do Mundo que não vieram com uma contrapartida para a sociedade. Falaram que a Copa iria melhorar a infraestrutura, os transportes, mas não foi o que aconteceu. Esse movimento pode não resultar em nada, porque é horizontal, sem lideranças. É um movimento novo, mas ao mesmo tempo pode não ter uma sequência e acabar. Não dá para saber, não dá para comparar com o movimento dos caras pintadas ou a Primavera Árabe, porque nesses casos houve um objetivo claro.

Avaliando neste primeiro momento, o que vemos é que que muitas pessoas, de diversos segmentos sociais, estão insatisfeitas com a situação do País. Acredito que estamos observando nessas manifestações uma reação a como tem sido abordadas temáticas cruciais para a sociedade brasileira. Alguns exemplos de temas que podem ter gerado essa onda de protestos são as discussões em torno do passe livre para o transporte coletivo, a PEC 37 (que retira do Ministério Público o poder de investigação, centralizando esse trabalho nas polícias Federal e Civil), além dos valores gastos pelos governos com a Copa do Mundo. Talvez a insatisfação popular tenha chegado a um nível tão elevado, que acabou culminando em tudo isso que estamos vendo, essa onda de manifestações. A gente sabe que a manifestação pacífica, reivindicando direitos para o cidadão, é sempre bem-vinda, é ótimo que se faça isso. O que a gente lamenta é que nessas manifestações, algumas vezes, grupos acabem apelando e promovendo atos de violência. O que vai resultar de todas essa mobilização nós ainda não sabemos. O que eu espero é mude o País para melhor.

T HISTÓRIA O professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e escritor Reginaldo Dias lembra que Maringá já foi palco de grandes manifestações. “Há dois contextos. A participação de Maringá em atos de repercussão nacional e a pauta local.”

1968 Manifestações de sindicatos para cobrar melhores condições de trabalho e também contra a imposição do regime militar.

Década de 80 Diretas Já Movimentos pediam a gratuidade do ensino. “Nesta época, pagava-se para estudar na UEM e isso gerou muitos movimentos.”

Apoio ao projeto de lei para a realização de eleições diretas para presidente.

1985-86

1991

1991-1992

Movimentos pela constituinte. Em Maringá, a Manifestações Período antes da Constituição possibilidade de uma favoráveis ao de 1988 foi marcado por “terceirização” de alguns impeachment do diversos atos. Sindicatos serviços em escolas presidente Fernando colocaram placares pela cidade municipais gerou revolta Color de Mello. Vários como forma de monitorar o na população. Movimento jovens com rotos trabalho em Brasília. durou até o ano seguinte. pintadas foram às ruas.

2011 Estudantes da UEM fizeram manifestações por melhorias no Restaurante Universitário. INFOGRAFIA O DIÁRIO

O Diário 19-6-2013  
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