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a. a. de assis

Microcrônicas

Maringá Edição do autor Primavera de 2011 © Copyleft 2011 Antonio Augusto de Assis (Autorizo cópia do todo ou de partes, desde que citem o autor e a fonte)


1 Cedinho saudou-me na janela um bem-te-vi. “Igualmente”, eu disse. 2 Balé de andorinhas em volta da catedral. As aves Marias. 3 Zelosa vizinha serve água fresca à roseira. Regá-la é um regalo. 4 Sujaram meu rio. Ele, que lavava as gentes, não lavou as mentes. 5 Na folha de amora nutre-se o bicho-da-seda. A quem vestirá? 6 Chocados os ovos, há o choque dos seres novos. E a vida prossegue. 7 Meninos de rua. Vem de madrugada lhes dar colo a lua. 8 Um quase milagre. Há quem de graça diga ainda: “Amo você”.


09 Bolsa de valores. Nem só de ações morre o homem, mas também de infarto. 10 Gato faz barulho. No telhado ao lado, ao som do arrulho, pombo e pomba amam. 11 Passa o avião logo atrás do gavião. Discípulo e mestre. 12 Um homem ao relento no gelado chão. Passantes passamos. 13 Semente na mão, lavrador de sol a sol engravida o chão. 14 Pinheiro em pedaços para a fábrica é levado. Será livro um dia? 15 Poema na praça. Menininha joga um beijo à flor. 16 Balança o palanque. O peso na consciência do nobre orador.


17 Já não posso vê-la. Some a gaivota no azul. Foi virar estrela. 18 Cocô da andorinha cai justo em cima da rosa. Lesa-majestade. 19 Dá-me aí, poeta, uma rima para míssil. – Difícil, difícil. 20 Nasci na montanha. Supunha coubesse a Terra toda em meu olhar. 21 Aguinha da bica. Pousa o melro, beberica. Louva a vida. Canta. 22 O amor sempre tem razão. Mesmo quando, às vezes, erra. 23 Quem nada... tem tudo. Somente os peixes puderam dispensar a Arca. 24 Banho de rio, bola de gude, bola de meia. Terra natal.


25 Pião da saudade. Roda e pousa numa era em que era bela a vida. 26 Sofrida goteira, gota a gota a noite inteira. Chorará por quem? 27 Cantam parabéns. Sopro mais uma velinha... Mais velhinho estou. 28 Um ato de fé. Lavrador, olhando o céu, abana o café. 29 Amar é bom à beça. Bastante e sem pressa. De preferência ao luar. 30 Iça... iça... iça... Devagar vai indo ao longe o bicho-preguiça. 31 Tá podendo o joão-de-barro. Só ele, entre a passarada, vive em mansão. 32 Deixa o beija-flor um "selinho" em cada rosa. E elas gostam... ahhhh.


33 Cada mês que passa vai passando a ser passado. Nós também, que pena... 34 Um vaso de avenca. Minimíssima floresta. Mas é verde, é festa. 35 Vai dormir o Sol. Na cabeça da montanha pendura a coroa. 36 Minhoca e minhoco. Será como que eles fazem quando estão no choco? 37 Um impasse e tanto: se trabalho, o canto atrapalho. Nesse caso, canto. 38 Ante o Pão-de-Açúcar, dá as costas a Lua ao mar. A lei do mais doce. 39 Bem-te-vi faz um rasante, fere ao peito o gavião. Davi um, Golias zero. 40 Veja a parasita: parece gente que a gente acha até bonita...


41 Teste de audição. Canta ao longe um sabiá... e eu posso escutar. 42 Caminhão de lixo. O derradeiro passeio da gula e do luxo. 43 Tímida peroba. Dá-lhe a orquídea um leve toque de namoradeira. 44 Passam tartarugas. Passo... a passo... a passo... 45 Tomara que caia. Ante a malta salta sobre a poça a moça. 46 Lua nova e meia. Tão crescente, logo casa, vira lua cheia. 47 Um gato no muro. Vacila entre o gordo rato e a gatinha enxuta. 48 Um par de rolinhas horas a fio no fio. Namoro ou fofoca?


49 Chovem meteoritos. Enxame de pirilampos de noite na roça. 50 De pernas pro ar... Domingo pé de cachimbo ou pede um sofá? 51 Rua das Palmeiras. Magras, altas, belas, quais moças nas passarelas. 52. Na foto antiga, a saudade vestida de azul e branco. Normalistas, lembra-se? 53. Asinha quebrada, cata a pombinha na grama a sobrevivência. 54. Na agitada esquina o guarda priprila o apito. Bem-te-vi responde. 55 O tempo soprou e eu de mim em mim sumi. Ficou-me o não eu. 56 Um cisco no chão. Mas não era um cisco não, era uma esperança.


57 Levantar cedinho. Mens sana in corpore sano. Ouvir passarinho. 58 Que coisa gostosa o abraço quando com saudade é dado... 59 Quem foi que tantas matas neste mundo derrubou? O pica-pau?... 60 E agora, vovô? – Agora, nas mãos dos netos, sou que nem ioiô. 61 Rosna a motosserra pondo o verde ao chão. Planeta morrente. 62 Súbita rajada. Um vento espalhafatoso alvoroça as saias. 63 Abre e fecha, qual se um livro fosse. Uma borboleta. 64 Matuto, matuto... chego à sábia conclusão: que matuto eu sou...


65 Chuva, chuva, chuva. Dá tristeza quando falta; quando farta, assusta. 66 Nós e os nossos rios, cada qual segue o seu curso. Reencontro na foz. 67 Morantes na Lua: São Jorge e o fiel cavalo, mais a solidão. 68 Manhêêê – diz o piá –, trouxe uma flor pra você. Troco por um beijo. 69 Tinha um pé de pinha no quintal vizinho. Tinha. Nem quintal tem mais. 70 Na fila de idosos, troca-troca de sintomas. Quem não tem inventa. 71 Era um frango assado, e além de assado era assim. Teve à mesa um fim. 72 Luar no sertão. Que falta nos faz Catulo com seu violão.


73 Goleiro do Galo distrai-se olhando a perua. Come um baita frango. 74 Tudo bem, poeta. Minha terra tem Palmeiras, mas sou são-paulino. 75 Falta de aviso não foi. Brincamos de serra-serra, e o clima endoidou. 76 “Por que não te calas?”, diz a arara ao papagaio. – Se calo, me peias. 77 Vão-se os amigos... Cada um que a gente chora deixa mais sozinho a gente. 78 Pai é pai. Para ver Adão contente, deu-lhe o máximo: a mulher! 79 Infinda é a esperança. Os galos cantam ainda na aurora de cada dia. 80 Bem-aventurados os que sonham. Chama-os Deus poetas.


Microcrônicas de A. A. de Assis