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Ousadia - Harlequin Flor da Pele Ed. 04 Tawny Weber

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– Então... – disse Nick, a voz esmorecendo quando se aproximou ainda mais. O calor irradiava do peito dele, fazendo uma chama queimar no baixo-ventre de Delaney. – O que me diz? Um caso sem compromisso. Sexo quente e selvagem. Ele deu um último passo, roçando o corpo no dela. Delaney conteve um gemido diante da doce pressão do peito dele de encontro aos seus mamilos ávidos, a coxa cálida e rígida entre as pernas dela. Ele pôs as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, e baixou o rosto até suas bocas ficarem separadas por poucos centímetros. Delaney engoliu em seco, incapaz de desviar o olhar das profundezas azuis dos olhos dele. Como se sob um feitiço irresistível, ela simplesmente esperou, tanto ansiosa quanto apavorada, para ver se ele prosseguiria. A boca de Nick mergulhou na sua, agora a arrebatando com uma ferocidade que refletiu bem em seu ventre. Ela cedeu ao poder furioso do beijo dele. O calor inflamou quando Nick arrastou a mão pela lateral do pescoço dela, então trilhou pela seda macia da blusa. Pela clavícula, pelo ombro, roçando muito sutilmente a lateral do seio. Delaney estremeceu quando os dedos passaram pela cintura, a mão lhe agarrando a coxa. Com o corpo assumindo a liderança, já que era a primeira vez na vida que o cérebro dela sofria um apagão, Delaney levantou a perna para envolver a cintura musculosa dele e lhe dar mais acesso. Então já não conseguia pensar, mal conseguia reagir, quando ele se afastou. Não apenas a boca, mas o corpo inteiro. Nick deu um passo para trás, deixando-a agitada, ofegante e com frio nos pontos onde a carne havia sentido seu calor. – Um mês – disse Nick, com um sussurro rouco. – Vamos nos dar um mês totalmente focados em prazer físico. No fim, você vai admitir que estou certo. Querida leitora, Amo transformações. São como adultos brincando de se arrumar, e eu sempre fui do tipo de garota que adorava se arrumar. Mesmo agora, não tem nada que eu adore mais do que experimentar um novo penteado, uma nova maquiagem, ou mesmo inventar um visual para minha casa inteira. Pintura, almofadas, qualquer coisa. Estou dentro. Mas uma transformação total na vida? Uau, isso é um pouquinho demais até mesmo para mim... Delaney Conner, porém, arrisca tudo, e os resultados vão além de qualquer coisa com a qual ela poderia ter sonhado. Principalmente quando os benefícios 4


incluem a proposta irrecusável de um escritor de suspense erótico incrivelmente sexy. Nick Angel definitivamente provoca Delaney a sair de sua zona de conforto. Contudo, quanto mais íntimos ficam, mais ela se preocupa que ele enxergue seu eu verdadeiro sob sua figura impecável. Espero que goste da história de Nick e Delaney. Eu com certeza gostei. Não deixe de dar uma passada em meu site www.tawnyweber.com e me conte o que achou. E quanto estiver navegando por lá, visite meu blog, participe do concurso mais recente ou vote no bonitão deste mês. Adoraria saber sua opinião. Boa Leitura! Tawny Weber

Tawny Weber

OUSADIA Tradução Fernanda Lizardo 2013 Capítulo Um SEU ARFAR quente, desesperado, ecoava pelo corredor longo e escuro. O terror aglutinava em um redemoinho sombrio de paixão enquanto a boca dele deslizava pelo côncavo sedoso da barriga dela. Os dedos dele lhe agarraram as nádegas, erguendo-a para o seu prazer, totalmente sob seu controle. Ele a dominava completamente. 5


Um calor úmido empoçava entre as pernas dela, fazendo-a se contorcer em uma súplica silenciosa. Os dedos dele aumentaram a pressão, mantendo-a como prisioneira, exigindo que ela aguardasse seu comando. Delaney Conner bufou quando as palavras ficaram borradas na página. Deus, quem dera ser aquela mulher! Ela já havia lido a mesma cena três vezes desde que adquirira o último livro de suspense erótico de Nick Angel, e continuava fascinada. Fascinada, diabos! Havia tido dois orgasmos graças àquele único capítulo. Três, se considerasse a lembrança evocada por ele durante o banho. Ela trilhou um dedo sobre o rosto estampado na contracapa. Os olhos do autor, vívidos e penetrantes, prometiam uma habilidade de fazer jus ao calor entre as páginas. Ela se perguntava quanto do apelo sexual era causado pelas palavras em si, e quanto era por saber que haviam sido 6


escritas pelo sujeito com o rosto mais sensual que ela já vira embelezando a contracapa de um livro. – Professora Conner? Engasgando, Delaney atirou o livro em sua bolsa de lona como se estivesse em chamas. Com as bochechas queimando, estampou um olhar de questionamento ingênuo. Esperava que o rápido esvoaçar de cílios transmitisse inocência, e que também ajudasse a resfriar suas bochechas. – Sr. Sims, olá – saudou Delaney, o tom leve e firme, adequado para uma professora da Universidade Rosewood. As mulheres como as heroínas dos livros de Nick Angel, quando flagradas fazendo sexo em locais públicos, davam um sorriso malicioso de fazer inveja pela audácia delas. E Delaney? Ela nem mesmo conseguia ler os romances sensuais em público sem corar e ficar preocupada em ser delatada por suas escolhas literárias imprudentes. Afinal de contas, a leitura deveria ser uma atividade educativa, nunca um entretenimento de mau gosto. – Eu só queria dizer o quanto a palestra de hoje foi proveitosa. A evolução dos arquétipos dos personagens me fascina. O desconforto se dissipou quando Delaney voltou para o modo professora. Os dois entraram em uma discussão sobre o assunto, Delaney ficando cada vez 7


mais animada e empolgada conforme debatiam. Ela adorava quando um aluno absorvia seus conceitos, e adorava ainda mais ver a centelha de empolgação no olhar dele. Delaney não era uma professora fácil em nenhum sentido. Ela exigia muito de seus estudantes por meio de um programa de estudos dinâmico e desafiador. Mas se orgulhava por deter a menor taxa de reprovação em relação a qualquer outro professor do Departamento de Literatura. E o sucesso só ajudaria em sua tentativa de se tornar diretora assistente do departamento. Uma promoção e tanto, que a deixaria em posição de assumir a direção geral da seção dentro dos próximos dez anos. Exatamente como havia planejado. E talvez, apenas talvez, aquilo lhe desse um bônus: atrair de fato a atenção de seu pai. – Com licença – disse alguém com uma voz rouca. Delaney e Sims deram passagem a uma morena linda. Era maravilhosa, desde seu cabelo perfeitamente liso até os saltos altos pretos lustrosos. Até mesmo seu terninho vermelho gritava poder. Ela era a heroína perfeita de Nick Angel. Sensual, ousada e confiante. Ambos observaram a mulher passar, Delaney invejando seu senso de presença e Sims obviamente admirando o traseiro dela. Enquanto ele recuperava a compostura, Delaney olhou para seu relógio de pulso. Droga. Atrasada outra vez. Despedindo-se brevemente de seu aluno, ela se apressou pelo corredor em direção ao gabinete do reitor.

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Entrou voando na recepção. A loura baixinha à mesa parecia uma bonequinha. Os cachinhos louros, os olhos azuis imensos e o rosto redondo e sardento escondiam um raciocínio mordaz e um senso de humor malicioso. Era a melhor amiga de Delaney, e as duas tinham a mesma obsessão por Johnny Depp, rock da década de 1980 e romances, um assunto de caráter confidencial ali na faculdade. A Universidade Rosewood era um ambiente austero e formado por mentes fechadas. Só no ano anterior Delaney finalmente tinha confiado a Mindy Adams seu segredo mais profundo e sombrio. Ela não apenas amava ler ficção popular, como, secretamente, também ganhava uma renda considerável escrevendo resenhas de tais obras para diversas revistas e jornais. Delaney ouvira rumores de que, dois anos antes, a faculdade demitira uma professora de história da arte quando descobrira que ela trabalhara como modelo. O fato de ela ter posado usando trajes históricos em uma revista não pareceu fazer qualquer diferença para o reitor. Delaney só podia presumir que ele e seus curadores consideraram o ato frívolo e zombeteiro. Então ela mantinha as resenhas sob total sigilo e usava seu nome do meio, Madison. Seria louca se não o fizesse. – Cheguei muito atrasada? Meu pai ainda está aqui? – perguntou ela, tomando fôlego. – Ele ainda está aqui – respondeu Mindy lentamente. – O que houve? – perguntou Delaney, ainda ofegando um pouco. – Eu só achei que você gostaria de saber, bem... – Mindy hesitou, então suspirou. – Você notou a morena que saiu daqui há alguns minutos? – Carregava uma pasta para laptop enorme, com bastante espaço para livros e papéis. – Ela olhou para a própria bolsa de lona surrada e desgastada. Odiava fazer compras, mas cobiçava bolsas práticas, especialmente as de couro. Talvez, depois 9


que conseguisse a promoção, ela se presenteasse com uma daquelas. – Ela estava aqui por causa do cargo no seu departamento. Franzindo a testa, confusa, Delaney ficou encarando Mindy. – Meu cargo? Ela não havia nem mesmo cogitado que haveria concorrência. Inclinou a cabeça em um questionamento silencioso, e Mindy sacudiu um papel diante dela. Delaney deu uma olhada no currículo da mulher. – É bom, mas não tanto quanto o meu. Mindy fez uma careta. – Eu ouvi dizer que o professor Belkin quer alguém que tenha o poder de despertar atenção – falou a garota, se referindo ao diretor do Departamento de Literatura. ∗∗∗

A frequência no departamento anda baixa, e ele está levando para o lado pessoal. Aparentemente, ele acha que uma assistente mais atraente vai ajudar a impulsionar os números. – Um programa de estudos dinâmico e uma forte reputação no ensino não são o suficiente?

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Ambas sabiam que era uma pergunta retórica. Enquanto Delaney era do tipo que escondia um romance policial atrás de seu livro didático, Belkin era do tipo que escondia uma revista masculina atrás do seu.

O homem era completamente focado em aparência: quanto mais sensual, melhor. E, embora o cargo fosse concedido por um comitê, ele o chefiava, o que significava que detinha grande influência. – Eu soube que Belkin disse ao reitor que desejava alguém com bastante carisma e boa aparência, que fosse capaz não só de lidar com o lado acadêmico da função, mas também com a parte de relações públicas que ele está planejando inserir – disse Mindy com o olhar direcionado para o tampo de sua mesa. Ela obviamente não era capaz de encarar a amiga. Delaney cerrou o maxilar para evitar gritar de frustração. Perder a cabeça nunca ajudava, mas imaginar o quanto seria bom atirar sua bolsa esfarrapada do outro lado da sala certamente ajudava. Mindy suspirou profundamente e lhe lançou um olhar demorado e cuidadoso, provavelmente para se certificar de que Delaney não teria um ataque. Tranquilizada, ela bateu na revista sobre a mesa, diante de si.

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– Talvez, se você cogitasse uma transformação... – sugeriu ela de maneira hesitante, e não era a primeira vez. Delaney já estava balançando a cabeça antes mesmo de a amiga prosseguir: – Você sabe, algo para mudar o visual, então talvez as pessoas lhe deem a atenção que você merece. – Delaney suspirou. Palavras da verdadeira mulherzinha superfeminina. Mindy nunca saía de casa sem batom; como poderia ser considerada imparcial? Delaney imaginava que o fato de ter crescido sem a presença da mãe era o fator responsável por ela nunca ter sido apresentada ao universo feminino. – Por que me dar o trabalho? Sou quem sou. Por acaso o rímel e o sutiã com enchimento vão me transformar em outra pessoa? – Tal ideia a fez estremecer. Maquiagem, roupas chiques, aquilo a desorientava. – Não, mas vão fazer com que você seja notada. – Mindy sacudiu a revista. Risqué. Delaney revirou os olhos. Que nome. Ela leu a chamada principal. “Você é tão autoconfiante quanto aparenta.” Até parece. – Quem precisa desse tipo de atenção? – resmungou Delaney. Ela puxou a bainha desgastada de seu casaquinho de lã e franziu o cenho. – E aquele papo todo sobre “beleza interior ser mais importante que beleza exterior”? 12


– É um mito reconfortante, tipo o Papai Noel – brincou Mindy. Delaney bufou. – Você é bonita debaixo dessa lã. Você definitivamente tem cérebro, e é uma pessoa legal – ponderou Mindy. – Só precisa aprender a tirar o máximo proveito de tudo isso. Aceite meu conselho, leia esta revista. Vai colocá-la no caminho da satisfação. Melhor ainda, acho até que você vai conseguir tirar o atraso. Delaney bufou novamente. – Ao contrário de algumas pessoas, eu não acho que sexo resolva tudo. – Bem, ela estava assustadoramente viciada nos livros de certo autor. Mas aquilo não tinha nada a ver com a vida real. Eles só serviam para criar excitação. Tinham o mesmo nível de realismo do desenho do Bob Esponja, e até menos profundidade emocional. – Como você pode saber? Qual foi a última vez que fez sexo? Quando Delaney abriu a boca para retrucar, Mindy balançou a cabeça. – Com uma pessoa de verdade, que realmente estivesse no quarto com você. Droga. Ela calou a boca. – Qual é a vantagem de mais um fiasco em uma loja de roupas? – perguntou, em vez disso. Ela havia tentado mudar uma vez, durante a adolescência, e descobrira que era preferível ser invisível do que virar alvo de chacota. – Não, você precisa de algo muito maior. – Mindy se inclinou para enfiar a revista nas mãos da amiga. Delaney olhou para a capa, e então para a página marcada. Risqué? – Um concurso de transformação de visual? Você está brincando, certo? – De jeito nenhum. É um negócio de louco. Transformação completa. Cabelo, maquiagem, guarda-roupa completamente novo. Também não é nenhum 13


negócio brega. É tudo personalizado, criado para você. Eles até mesmo ensinam as vencedoras a manterem o novo visual. – Por que, diabos, eu iria querer fazer um negócio desses? – É sua chance. Se ganhar, vai ver a diferença que isso vai fazer. Delaney jogou a revista de volta à mesa, revirando os olhos. – Qual é o objetivo? Dificilmente acho que algo tão superficial como sombra e laquê vão resolver meus problemas. Mindy fez uma careta, então deu de ombros. Delaney se sentia mal por magoar os sentimentos da amiga. Antes que pudesse pedir desculpas, Mindy enfiou a revista em sua gaveta. O despertador sobre a mesa tocou, com um lembrete. – Ele está saindo em dez minutos. Se quiser vê-lo, é melhor entrar agora – avisou Mindy. Franzindo a testa, Delaney assentiu para agradecer, pegou sua bolsa e aprumou os ombros. Ela caminhou a passos largos pelas portas pesadas, empinou o queixo e respirou fundo. Originalmente, pretendia insinuar que ficaria grata pelo apoio dele à sua candidatura. Agora teria de ser mais direta. Pela primeira vez, precisaria se impor. É claro, ajudaria se o pai realmente olhasse para ela. Delaney pigarreou, mas mesmo assim ele não tirou os olhos dos papéis que estava assinando. – Preciso de sua ajuda – começou Delaney baixinho. Ele ergueu um dedo, gesticulando para que ela esperasse. Preferencialmente em silêncio. Ela agarrou a alça da bolsa com tanta força que a lona lhe feriu os dedos. 14


Desejava ter coragem de atirá-la do outro lado da sala, mas anos de sermões dizendo que perder o controle nunca valia a pena lampejaram por sua cabeça. Paciência, paciência. Talvez, se recitasse o mantra com frequência suficiente, pararia de imaginar o quanto seria bom se deixar levar e dizer a ele exatamente como se sentia. Entretanto, assim como na maioria dos casos não acadêmicos, imaginar era o único modo que ela possuía de experimentar tal prazer. A mãe sempre fora capaz de acalmar seu gênio forte, mas, depois que ela se foi, Delaney ficou sozinha. Uma vez, só uma vez, ela deixara seu gênio explodir diante do pai. Estava com 10 anos à época. Como consequência, ele a enviara para um internato. Delaney olhou para a cabeça calva dele. Tufos de cabelo ruivo como penugem de galinha. E não é que ela não apenas herdara a mente brilhante dele, mas também o corpo desengonçado e esguio, além do cabelo horroroso? Enquanto ele soava erudito e autoritário, Delaney parecia apenas uma Olívia Palito com uma cabeleira cor de cenoura. Só que, a julgar pelo azar dela com os homens, em vez de lutar por ela, provavelmente Popeye e Brutus fugiriam juntos. – Que tipo de ajuda? – Randolph Conner, reitor da Universidade Rosewood e único parente vivo de Delaney, perguntou em um tom distraído, quando finalmente a vislumbrou ali. – Apoio – informou a ele. – Você sabe que me candidatei para o cargo de assistente. Aparentemente, o professor Belkin está mudando os requisitos para a função. – Ele está meramente expandindo a descrição do cargo – disse o reitor Conner, modo como preferia que todos se dirigissem a ele, inclusive sua única filha. Ele ainda não havia se dado o trabalho de olhar direito para ela, então Delaney não se deu o trabalho de esconder sua expressão raivosa. – Como diretor do Departamento de Literatura, o professor Belkin acha que precisamos de uma pessoa forte e dinâmica no cargo. Delaney foi tomada pela frustração. 15


Para todo o corpo docente, seu pai incluído, ela realmente era invisível. Delaney empinou o queixo e fez o impensável: questionou as razões dele. – Isso é porque ela é muito atraente? – perguntou ela. – O qu...? – O reitor Conner exibiu um rosto franzido, as sobrancelhas unidas como um par de lagartas de um tom vermelho vivo. Finalmente, uma reação: – Quem? A professora Tate? Como a aparência dela pode influenciar em alguma coisa? Quem se importa com todo aquele empetecamento? E ele falava seriamente. Como pai solteiro, Randolph Conner havia criado Delaney para valorizar a inteligência. O intelecto, julgava ele, era muito mais significativo do que algo tão efêmero e nebuloso quanto a definição vigente de beleza por parte da sociedade. Claro, como a maioria da sociedade não tinha sido criada sob o mesmo padrão, aquilo deixava Delaney sob leve desvantagem. Ela cerrou os dentes por causa da frustração. E agora parecia que o intelecto também não era suficiente. – A professora Tate era aquela mulher que estava aqui agora, certo? – Delaney suspirou profundamente e, apesar do aperto no estômago, o confrontou: – Minhas qualificações, isso sem mencionar minha experiência, são mais fortes. O pai suspirou, e o suspiro demorado e marcante a informava de que ela estava perdendo seu precioso tempo. Ele dera o mesmo tipo de suspiro quando ela quisera aprender a andar de bicicleta, pedira permissão para frequentar as atividades extracurriculares da escola ou desejara um bichinho de estimação. Aquele suspiro era tão eficiente que Delaney ainda não sabia andar de bicicleta e possuía as habilidades sociais de uma garota espinhenta de 12 anos que fora privada do amor de um cãozinho. 16


– Delaney, você está ignorando o ponto principal. Precisamos de sangue novo no Departamento de Literatura. De ideias novas e um programa de aulas forte. Ela só ficou encarando. Ele, obviamente, não ia apoiar a proposta dela. Mas Delaney precisava ouvir aquilo claramente. – Você vai apoiar minha candidatura? – perguntou ela, com um aperto na garganta. – Conforme falei, precisamos de sangue novo. Pessoas brilhantes e enérgicas que tragam empolgação ao conteúdo programático. Você é uma de nossas professoras mais brilhantes, Delaney. Uma enorme vantagem para o departamento. – Ele remexeu em alguns papéis sobre sua mesa, então encarou os olhos da filha. Ele ostentava aquele olhar irritado no estilo “é para o seu bem”. O estômago dela deu uma cambalhota. ∗∗∗ Na verdade, por recomendação do professor Belkin, no semestre que vem vamos experimentar dar algumas aulas pela internet. Gostaríamos que você fosse responsável por elas. Ele lhe entregou o plano de curso para o semestre seguinte. Ela não possuía nenhuma aula agendada que não fosse virtual. Delaney sentiu o ar travado em seus pulmões e afundou em uma cadeira. 17


Lágrimas, as quais mal tinham permissão para chegar à superfície, inundaram seus olhos. Ela levou os poucos segundos necessários para retomar o controle, sabendo que o pai preferiria que ela adiasse sua resposta em vez de demonstrar qualquer forma de emoção que ele tivesse de validar. – Se sou tão benéfica assim, por que acabei de ser rebaixada? – Não que fosse sua intenção dizer aquilo, mas ela descobriu que não se arrependia de sua explosão. Afinal, talvez, se falasse em alto e bom som ao menos uma vez, ele a escutasse. Antes que o pai pudesse verbalizar a irritação evidente em seu rosto, Delaney se pôs de pé para passear pela sala, segurando com força a papelada. – Ah, claro, você pode alegar que não é um rebaixamento oficial. Mas como, diabos, você chamaria isto, quando todas as minhas aulas de repente são via internet? Se não fosse por sua inteligência, ninguém jamais a notaria. E agora tinham encontrado um jeito de absorver seu cérebro sem necessidade de haver sua presença física de fato. Ela resistiu à urgência de verificar se estava cheirando mal. Aparentemente, essa era a premissa de sua vida: Delaney Conner, a Mulher Invisível. Ela inspirou de maneira trêmula e passou uma das mãos pelo cabelo. Os dedos se emaranharam no nó que tinha se esquecido que havia feito utilizando um lápis. Encolhendo o corpo, Delaney desfez o nó e jogou o lápis, juntamente a alguns fios ruivos que arrancara também, sobre a mesa do pai. Ele olhou para o lápis, e então para ela. Daí suspirou. – Não tenho tempo para discutir isso, Delaney. Tenho uma reunião daqui a alguns minutos e gostaria de revisar minhas anotações. Por favor – fez sinal em direção à porta –, vamos 18


conversar sobre isso outra hora. Ela cerrou os punhos junto às laterais do corpo, observando-o retornar à sua papelada. E, simples assim, ele a dispensou. Como sempre. Delaney abriu a boca para dizer exatamente onde ele podia enfiar a reunião e exigir que enfrentasse seus questionamentos e a escutasse de verdade. Aquelas malditas lágrimas surgiram outra vez, agora por frustração pelo fato de o pai não se dispor a compreendê-la. Valorizá-la. Ao menos uma vez. No entanto, ela piscou para conter as lágrimas, e as palavras. Que diferença faria? Ele nunca havia prestado atenção nela. Suas conquistas intelectuais eram esperadas, jamais comemoradas. E, para Randolph Conner, o intelecto era a única coisa que importava. Com a visão agora borrada de raiva, Delaney agarrou sua bolsa e irrompeu gabinete afora. Ela captou um lampejo da própria imagem na janela de vidro laminado. Esguia, magrela e... sem graça. Era um desastre desleixado. A lã pesada de seu terninho largo estava esgarçada, as ombreiras, caídas. Só porque a família Conner não valorizava os apelos físicos não significava que o restante do mundo não o fazia. Franzindo a testa de forma pensativa, puxou o cós do casaco para ajustá-lo melhor. Tirou as mechas de cabelo do rosto, enfiando-as atrás das orelhas. Os ombros estavam caídos. Ainda um desastre. Definitivamente, não era o que Belkin tinha em mente para uma assistente visualmente mais interessante. Delaney cerrou os dentes. O que deveria fazer, então? Desistir? Lecionar em uma escola diferente? Resignar-se à invisibilidade? Diabos, não. Ela saiu pisando duro pelo corredor e se plantou em frente à mesa de Mindy. – Transformação, hein? – perguntou ela. Os olhos azuis de Mindy se arregalaram tanto que 19


ela ficou parecendo uma boneca Barbie. – Sério? – A amiga pegou a revista de forma atabalhoada, rasgando as páginas em meio à pressa para colocá-la nas mãos de Delaney. A imagem reluzente prometendo uma mudança sensual e sofisticada fez Delaney parar por um instante. Então ela empinou o queixo. Era hora de parar de permitir que seu pai decidisse o que deveria ser valorizado ou não. Afinal de contas, provavelmente aquele era o único jeito de ela aprender a se valorizar.

A avaliação dele definitivamente não era a favor dela. – Em vez de uma promoção bem remunerada, fui convidada a dar aulas no conforto da minha própria casa – disse Delaney, com escárnio. – Hein?! – Vou assumir o programa de aulas via internet. – Eu não sabia que tínhamos um programa de aulas via internet. – Agora temos. E é todo meu. Melhor ainda para me manter invisível. Delaney sabia que tinha soado amarga, mas não pôde evitar. Ela estava amarga. E furiosa. E, ainda que não quisesse admitir, só um pouquinho desesperada. Afinal, sua carreira a definia, e tal definição tinha acabado de dar uma guinada para pior. Ela olhou para a revista outra vez. Risqué. Aquilo não tinha nada a ver com ela. Quais as chances de vencer? Realmente iria ajudar? Belkin desejava apelo visual e carisma. Algumas pinceladas de rímel e de blush não lhe dariam isso. – Cheguei a comentar que o comitê de admissão não vai sequer olhar os currículos até o semestre que vem? – perguntou Mindy. – Embora Belkin tenha feito sua escolha, a decisão ainda precisa passar pelo restante da banca. 20


Delaney comprimiu os lábios. Aquilo lhe daria seis meses. Ela pensou no assunto por três segundos inteiros. Mudança? Ou invisibilidade? Resumindo… A invisibilidade era uma droga. – Estou dentro – declarou ela, ignorando a advertência que vociferava em sua cabeça, berrando que não compensava tomar decisões em momentos de raiva. – Como faço para me tornar visível? Capítulo Dois – VOCÊ TEM que admitir, sexo vende – declarou Nick Angel, se recostando na cadeira macia e entrelaçando os dedos atrás da cabeça. – E eu vendo mais que a maioria. – Claro, claro – concordou Gary Masters, agente literário de Nick, assentindo lentamente. – Ninguém está dizendo que você não escreve muito bem sobre sexo, Nick. O fato é que o editor quer mais. Nick bufou. Aquela era a terceira reunião em dois meses a respeito de mudanças editoriais. Ele queria um relacionamento sólido com seu novo editor. Afinal de contas, creditava boa parte de seu sucesso profissional à sua editora antiga. Mas não importava o fato de ele não gostar de ela ter se aposentado. – Mais sexo? – Ele franziu a testa, então deu de ombros. Contanto que não comprometesse o nível de suspense em seus livros, ele não se importava em incluir mais sexo. Tinha acabado de cortar as bobagens de preliminares, golpeando-as com força com uma pegada mais quente e selvagem. – Posso fazer isso. – Não, mais sexo não – disse Gary, a voz um ribombar baixinho em contraste ao escritório reluzente e sofisticado. – Mais emoção. Nick pôs os pés no chão e franziu a testa. Ele havia ido até Nova York para encontrar Gary, assinar a próxima rodada de contratos de publicação e acertar algumas coisas sobre suas funções e obrigações antes de retornar para São Francisco. Pelo modo como Gary estava batendo a caneta na pilha de contratos sobre a mesa, havia um probleminha 21


ou cinco enterrados naqueles papéis. – Ele está sugerindo mais emoção? – Na verdade, “exigindo”. Filho da mãe. – Três livros na lista dos mais vendidos do The New York Times e ele quer mudar a essência do meu trabalho? Você está brincando, não é? – Olhe, você não precisa aceitar a exigência. Podemos contrariar a cláusula do contrato. Ou podemos argumentar sobre sua qualidade e nível de vendas. Mas... – Mas o quê? – Bem, ele realmente está insistindo. Ele se apoiou em uma série de fatos e dados do setor, e até mesmo em alguns pedidos de fãs. Você está começando a perder sua base feminina de fãs, a qual, de acordo com os dados, compõe 30 por cento de suas vendas. Nick fez uma careta mal-humorada. Ele escrevia suspense erótico, não suspense romântico. As únicas emoções em seus livros eram medo, empolgação e luxúria. Com o maxilar cerrado, bateu o punho no joelho. – Olhe, esses números vieram do editor. Como você sabe que não estão distorcidos em favor dele? Gary ergueu

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uma sobrancelha espessa. – Em primeiro lugar, não sou um novato imaturo e sem noção... verifiquei com minhas fontes. Em segundo lugar, eu recebi ainda mais mensagens pedindo a você para abaixar o tom do sexo sem sentido e dar a John Savage um lado mais brando. As fãs desejam emoção. Até mesmo seus críticos estão começando a concordar a respeito disso. Um deles acabou de censurá-lo severamente em uma publicação nacional. Nick deu de ombros 23


com desinteresse. Críticos tinham seu lugar, mas não era atrás do teclado de um computador. Para começo de conversa, ele escrevia principalmente para si mesmo. Se tivesse cedido a todas as pessoas que desejavam que escrevesse de um jeito diferente, que ele fosse diferente, diabos, já teria desistido há muito tempo. – Não ridicularize – advertiu Gary. – Eu sei que críticos não significam nada para você, mas esse se tornou assunto na internet. E seu editor está surtando. Ele tem certeza de que seu próximo lançamento vai fracassar. Na verdade, ele até mesmo me enviou uma cópia da revista com os comentários do crítico em destaque. Nick franziu a testa. – Quem, diabos, é esse cara? – Garota. Ele revirou os olhos. Já devia imaginar. Um crítico do sexo feminino, fãs do sexo feminino. Deixe a cargo das mulheres pedir por mais emoção. Por que tinham tanto essa necessidade de falar a respeito, e até mesmo de acreditar em contos de fadas no amor? Nick zombou. Ele havia experimentado dor, manipulação e drama suficientes em nome daquela coisa nebulosa chamada amor para conhecer a realidade. Emoções eram simplesmente um rótulo para escolhas feitas no momento. Era o que as pessoas utilizavam para justificar o que quer que desejassem fazer. Ele se orgulhava de sua honestidade brutal, apesar do que os outros pudessem pensar; logo no começo de todo relacionamento físico, sempre declarava que não fazia o jogo das emoções. E, além disso, tal como seu personagem John Savage, as mulheres sempre achavam que poderiam mudá-lo. As únicas que não tentavam, eram aquelas interessadas em usá-lo. Exatamente como aquela crítica literária desgraçada. Provavelmente pensava que faria seu nome detonando o trabalho dele, pensando que, se Nick cedesse aos apelos 24


da resenha, ela estaria feita na vida. – Então alguma crítica bocuda quer usar meus livros como trampolim – resumiu Nick, dando de ombros. – Deixe que tente. Para mim, não importa, não vou mudar. John Savage é um personagem sólido. Ele é intenso, é um homem de verdade. A última coisa da qual as histórias precisam é de coisinhas amorosas fofinhas espirrando para todos os lados para estragá-lo. – Na verdade, ela tem uma reputação sólida nos círculos de publicação. Ganhou um pouco de notoriedade nos últimos dois meses. – Detonado meus livros – zombou Nick. – Não, detonar você foi acidental. Ela atingiu a fama através de um concurso que acabou de vencer. A revista Risqué publicou a entrevista com ela no mês passado. Quando Nick ergueu uma sobrancelha, Gary pegou uma pasta em sua mesa e lhe entregou. Nick folheou seu conteúdo. Risqué. Uma das maiores revistas femininas do país, abordava de tudo, desde aventuras sexuais a saúde e moda. Olhos de corça enormes emoldurados por uma cabeleira ruiva sedosa captaram a atenção dele. Havia alguma coisa naqueles olhos cuidadosamente maquiados, uma vulnerabilidade que o atraiu. Mas, em vez de se deter naquilo, Nick ignorou as fotos reluzentes e foi diretamente para o texto. Srta. Madison, você não acha que a ficção moderna deixa um pouco a desejar? Ah, não. Há tantas obras fabulosas nas livrarias 25


atualmente. Os autores de hoje estão para os leitores assim como as irmãs Brontë estavam para os seus. Inspirados, divertidos, talentosos. O estilo das Brontë poderia ser considerado como “o” romance? Com certeza. Mas os outros gêneros também fazem jus ao termo. O que você acha de, digamos, literatura erótica ou suspense? Para quem gosta, um dos melhores autores para ler é Nick Angel. Ele tem feito um trabalho louvável ao combinar erotismo e suspense. É impossível ler os livros dele sem ter uma reação física. Definitivamente, é de acelerar o coração. Nick sorriu. Ele se perguntou quantas vezes havia acelerado o coração dela. Então, como especialista literária, você recomenda Nick Angel? Se quiser uma leitura sem compromisso, definitivamente sim. Nick franziu a testa. Sem compromisso? Bem, os livros dele são ótimos, mas não do tipo com os quais você se envolve

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emocionalmente. Ao mesmo tempo em que o sexo é um dos mais quentes dentro da literatura atual, é sempre dotado de distância. Não estabelece muita empatia ou envolvimento com o leitor. É como assistir a um programa de televisão com a tecla de aceleração apertada. Muito impacto em pouco tempo, mas sem profundidade suficiente para fazer o leitor se importar com os personagens. É similar a uma pornografia bem-feita. Quente e sensual, sim... Sou a primeira a levantar a bandeira de que ele atrai o leitor totalmente para o desfecho sexual. Mas é só isso. Sexo só por prazer. É uma pena que Angel seja medroso em relação às emoções. Se ele ganhasse alguma profundidade, seus livros seriam fantásticos. Medroso?, zombou Nick. Quem era medroso? Só porque abrir a porta para as emoções era o equivalente a ser empurrado para um poço cheio de piranhas comedoras de carne... – Ela comparou meu livro à pornografia? – questionou ele, sem querer pensar nas outras acusações irritantes, para não mencionar evidentemente mentirosas. Não era a primeira vez que alguém comparava seu trabalho à pornografia. Mas era a primeira vez que aquilo o incomodava.

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Provavelmente por causa daqueles imensos olhos castanhos dela. – Esta é a parte na qual todo mundo se fixou. – Os dedos magros de Gary tamborilavam ritmadamente sobre a pilha de contratos. Nick analisou o rosto do homem. Anguloso, quase erudito, o agente de cabelo grisalho se assemelhava a um monge sábio. Ele tinha o coração de um tubarão e conhecia o ramo como um mago. Era graças a ele que Nick estava onde estava, profissionalmente falando. O sujeito conhecia bem seu meio. Ele também fazia um belo churrasco, mantinha a mãe de Nick longe de seu pé e havia tirado Nick do inferno terrível que fora sua vida depois que sua esposa o humilhara publicamente durante o divórcio. Nick devia muito a ele. Mais importante ainda, Nick confiava nele. – Olhe, eu sei que você evita emoções. E tem bons motivos para isso, considerando seu passado – disse Gary, em um tom cuidadosamente calculado. Nick apenas o encarou. Ele não queria falar sobre Angelina. A mulher que o seduzira e então destruíra sua vida. Mesmo depois de descobrir sobre o caso dela com outro, ele desejara acertar as coisas entre eles. Angelina, porém, não, conforme havia provado depois, quando dera uma série de entrevistas para compartilhar com o mundo os segredos mais profundos e sombrios do casamento deles. E, mais especificamente, sobre a vida sexual deles. Graças a ela, as vendas dos livros subiram em velocidade diretamente proporcional à deflação do ego dele. E esse era certamente o objetivo dela, Nick tinha certeza, visto que Angelina conseguira uma boa fatia nos direitos autorais das vendas. Aquilo fora o necessário para Nick se assegurar de que se render às emoções era uma viagem só de ida rumo à desgraça. – Eu não evito nada – negou ele veementemente. – Só acho que esse tipo de golpe publicitário é uma grande bobagem. – Nick, apenas pense no assunto. Você sabe, crie um interesse amoroso para Savage. Deixe seu editor feliz. Satisfaça suas fãs. Resolva isso antes que o problema cresça.

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– Meu personagem já está construído, Gary. Eu já escrevi oito livros. Está óbvio que ele não é um tipo emotivo. Ele funciona, as histórias funcionam. Você não pode simplesmente chegar no meio da série e rescrever sua história inteira e suas motivações. Eu perderia meus leitores principais. – Acho que você precisa cogitar algumas mudanças, então. Mesmo que não sejam com o personagem principal. Talvez uma trama paralela? Nick conteve o pânico furioso que lhe revolvia o âmago. Para criar um personagem, precisava entrar em sua cabeça. A última coisa da qual precisava era mergulhar em um poço emocional. Ele olhou para a pasta e folheou o amontoado de recortes de jornal. Em vez de uma foto ao lado de sua assinatura, a tal Delaney Madison exibia o desenho de um livro. Estranho. A maioria das mulheres que conhecia ansiava por atenção tanto quanto por ar para respirar. Era uma necessidade. Talvez aquilo fosse uma espécie de manobra para aumentar a fama em cima da transformação. – Dê-me uma chance de cuidar disso – disse ele, ficando de pé. Pairando sobre a mesa do agente do alto de seus 1,88m, Nick enrolou a pasta e a enfiou no bolso traseiro da calça jeans. – O que você vai fazer? Nick andou até a porta. Com a mão na maçaneta, olhou para trás. – Vou ensinar a srta. Madison a pensar duas vezes antes de mexer comigo. Assim que eu acabar com ela, vai admitir publicamente que meu jeito de lidar com o sexo é simplesmente perfeito. – SABE, VOCÊ deveria tentar uma tonalidade de sombra diferente – ponderou Delaney, o queixo apoiado na mão enquanto olhava para Mindy, do outro lado da mesa do restaurante. – Talvez alguma em tons de cinza em vez de marrom. Acho que destacaria mais seus olhos. Com o copo de chá gelado a meio caminho da boca, Mindy a encarou, o choque nítido nos olhos pintados com sombra marrom. Então ela explodiu em uma risada. – Você está adorando isso, não é? – Na verdade, estou – confirmou Delaney, erguendo o próprio copo para brindar com a amiga. Isso era o resultado da transformação, é claro. Ela olhou para seu reflexo na janela de vidro laminado do restaurante. Mesmo embotada naquele espelho improvisado, a mudança ainda era incrível. Seu antigo cabelo 29


rebelde cor de cenoura agora fluía em um corte suave e volumoso, alguns centímetros acima dos ombros. As maçãs do rosto proeminentes que ela não tinha percebido possuir destacavam seus olhos, agora grandes e misteriosos por causa das maravilhas cosméticas. Delaney tinha vencido mesmo! Claro, ela imaginara que seu texto sobre “A mulher Risqué interior” lhe daria uma vantagem. Mas, depois daquela primeira rodada, todo o concurso dependia de sorte. Graças à combinação de seu texto, de sua necessidade óbvia de transformação e de uma sorte incrível, ali estava ela. Toda produzida. Logo depois do sorteio, no início de abril, começaram a fazer a transformação em etapas, entrevistando-a brevemente e publicando uma foto do “antes” na edição de maio da Risqué. Daí para a edição de junho, passaram duas semanas mostrando a ela os “certos” e “errados” da maquiagem e ensinando-a a arrumar o cabelo para ficar do mesmo jeito que tinham penteado. E, o melhor de tudo, pensava ela enquanto corria um dedo sobre a alça de couro macio da bolsa, era seu novo guarda-roupa. O choque por vencer o concurso da Risqué estava começando a passar, mas o choque provocado pela própria transformação ainda estava fresquinho. 30


– Eu não fazia ideia de que algo tão supérfluo como maquiagem e roupas chiques poderia ser tão, bem... – Sensual? – concluiu Mindy, sorrindo como uma fada madrinha orgulhosa. Delaney começou a negar. Nunca em sua vida ela aspirara se tornar sensual. Ah, claro, ela deveria ter desejado ser como as heroínas de Nick Angel. Do tipo que tinha um corpo digno de ser usado como arma internacional. Mas aquilo sempre parecera impossível, como beber chá com Frodo na Terra Média. Agora, porém... – Senhoritas, a salada já está quase pronta. Mais chá? Ambas olharam para cima. Delaney sentiu o rosto aquecer quando percebeu que a atenção do garçom estava totalmente voltada para ela. Ou, mais especialmente, para seu decote turbinado por um sutiã com enchimento de gel. De novo. Aquele restaurante ficava a uma quadra da universidade, e o sujeito tinha servido Delaney pelo menos uma dezena de vezes. Ele não a olhara antes. Estaria tentando descobrir se ela havia comprado um par de seios novos? Delaney se contorceu enquanto Mindy o enxotava. – Sim, talvez eu esteja me sentindo um pouco sensual – admitiu ela quando ele saiu. – Mas é uma sensação esquisita. Desconfortável. Como usar uma fantasia de Dia das Bruxas ou fingir ser quem não sou. Mindy sacudiu a cabeça com tanta convicção que seus cachinhos de boneca balançaram. – Ah, não, isso é totalmente você. É uma mulher linda, eu já lhe disse. Agora precisa admitir isso para si, porque é algo que está bem na sua cara. – Contanto que me ajude a conseguir minha promoção – murmurou Delaney, sem notar a presença do garçom no momento em que fez um gesto de desinteresse que acabou colidindo no prato de salada na mão dele. O garçom se atrapalhou para tentar segurá-lo, mas metade da salada terminou no chão. Com um olhar de desaprovação, ele saiu, provavelmente para pegar uma vassoura. Aparentemente os seios novos não eram o suficiente para justificar a falta de jeito. Delaney olhou para Mindy, que não se deu o trabalho de disfarçar sua risada. – Eu lhe disse, não estou acostumada com isso. 31


Mindy empinou o queixo como se para dizer “observe só”, e então deu um sorriso caloroso para o garçom a duas mesas de distância, que correu até elas imediatamente. – Você poderia, por favor, trocar esta salada por uma nova? O sol está batendo bem na nossa mesa… Poderia baixar as persianas só um pouquinho? Delaney observava, impressionada como sempre, enquanto Mindy manipulava o sujeito com um sorriso meigo e um leve esvoaçar de cílios. Sorrindo abertamente para ambas, ele pisou no almoço derramado e correu para atender o pedido de Mindy para puxar a persiana. – Obediência instantânea – cochichou Delaney. – Sempre. Como você faz isso? Pensei que fosse uma coisa de mulherzinha. Mas estou usando coisas de mulherzinha agora, inclusive minha calcinha em tons pastéis, e não consigo esse tipo de atenção. – É melhor você descobrir como fazer isso – advertiu Mindy, franzindo a testa sutilmente. – Sabe que a transformação é apenas uma parte do que você precisa para conseguir a promoção. Belkin não pode alegar estar contratando com base na aparência, mesmo que esteja. Ele vai usar o argumento de que precisa de uma assistente carismática e imponente. Delaney cerrou o maxilar. Não. Ela já havia ido longe demais, passado um mês tendo seu rosto e corpo analisados como se fosse um quebra-cabeça bizarro. Ela quase estragara seu anonimato quando se equivocara em uma entrevista para o “depois” e dissera à equipe da Risqué que era uma crítica literária. A discussão se voltara para os autores do momento e, quando vira, havia aberto sua boca grande e criticado os livros de Nick Angel. Desde que entrara no concurso usando seu pseudônimo, ficara preocupada se a exposição de seu rosto iria acabar com seu disfarce. Mas a Risqué não era parte da leitura típica dos alunos ou do corpo docente da Rosewood. Ora bolas, não era nem mesmo vendida nas livrarias ou bancas da região de Santa Rosa. Poderia até ser uma falsa crença, mas Delaney imaginava que seu segredo sobre as resenhas de livros estava a salvo.

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Ela queria aquela promoção. Era mais que um emprego agora. Era um símbolo de seu valor. Para si, para a universidade e para seu pai. – Sabe – disse Mindy, cutucando suas unhas do jeito que sempre fazia quando estava nervosa. – Talvez eu tenha uma sugestão que a ajudaria com isso. – O quê? – perguntou Delaney lentamente, espiando as unhas da amiga. Contanto que ficassem longe da boca de Mindy, a ideia provavelmente não era muito maluca. Se ela começasse a roêlas, aí Delaney teria motivos para se preocupar. – Meu irmão é diretor na emissora de TV local. Ele mencionou na semana passada que está pensando em expandir sua programação de verão para incluir um espaço para críticos literários no programa matinal. – Delaney sentiu um aperto no estômago quando Mindy levou a mão à boca, colocando a unha do polegar entre os lábios. – Quando mencionei seu nome, Mike disse que aguardaria para divulgar a vaga até eu falar com você. – Comigo? – Eles estão procurando alguém com um bom conhecimento literário para fazer resenhas e debates sobre livros, esse tipo de coisa – concluiu Mindy rapidamente, as palavras cercando a unha do dedo que ela agora roía minuciosamente. – Fica perto da sua rua. Você já escreve resenhas, ama ler, e seria um jeito ótimo de aprender a se tornar visível. – Um programa de TV? – Ela não pôde evitar, e começou a rir. – Você está brincando, certo? Eu, na TV? Delaney hiperventilava diante da ideia de tirar uma foto para a carteira de motorista. Por que, diabos, iria querer estar na TV? Ela faria completo papel de idiota. – É uma ótima ideia – argumentou Mindy. – Não, é uma ideia maluca. E se alguém me visse? Estou tentando esconder que sou crítica literária, lembra-se? – É uma emissora de São Francisco, nem pega aqui – Mindy lhe assegurou. – Além disso, é um programa matinal, que fica no ar durante o horário de aula. Quem assistiria? – Meu pai? – Ele tem televisão? 33


Não, mas aquele não era o ponto da questão. – Cof, cof. Ambas se viraram para olhar para o sujeito alto e magro parado à mesa delas, encarando a bagunça que o garçom ainda tinha que limpar. Ele voltou seu olhar para Delaney. Arregalou os olhos brevemente, então os semicerrou em ponderação. Delaney fez uma careta. Professor Belkin. Então olhou além dele e se sentiu empalidecer. Seu pai. Ela o estava evitando, e era uma tarefa fácil, já que o semestre letivo havia acabado. Aquele não era bem o jeito pelo qual pretendia lhe contar sobre a transformação. Ela se obrigou a sorrir com os lábios repentinamente rijos, mas ele não correspondeu. Ele nem mesmo olhou para Delaney, de tão absorto que estava em uma discussão com um professor de Física. A 500m de distância, e ela era invisível ao próprio pai. Como sempre. – Srta. Adams, professora. Talvez eles possam lhes trazer um babador – disse Belkin, o tom duro e perturbado enquanto ele passava por sobre os croutons espalhados. Ele obviamente não estava impressionado com a transformação dela, e menos ainda com suas habilidades para jantar. Delaney queria pegar um tomate e atirar naquela cabeça dividida pela careca. Apostava que 34


assim chamaria atenção. Mas aquilo também acabaria com suas já escassas chances de ser promovida. Então ela controlou seu gênio respirando profundamente. – Você estava falando sobre TV, certo? – perguntou a Mindy, contendo as lágrimas de frustração enquanto observava o pai sair. – Continue usando seu pseudônimo – aconselhou Mindy. – Deixe Delaney Madison se tornar a mulher que você sempre quis ser. Imagine o choque quando entrar valsando na entrevista de emprego e surpreender a todos com seu carisma e postura altiva recém— adquiridos. A mulher que ela sempre quisera ser? Sua fantasia principal era ser uma mulher como aquelas dos livros que adorava ler. Sensual, poderosa, confiante. O tipo capaz de lidar com os esnobes mais arrogantes e com os caras mais quentes com o mesmo brio. Delaney sabia que havia milhões de razões para justificar o fato de a ideia da TV ser uma 35


loucura. Mas serviria para melhorar suas chances de conseguir a promoção. Ela havia pensado que a maquiagem seria o suficiente, que a faria se destacar. Obviamente precisava de um pouco mais do que um figurino. Precisava aprender a dominar a atenção. Então ela entraria na TV e seria Delaney Madison.

A supercrítica literária. Astuta, sensual e imponente. Nada poderia atrapalhá-la. De jeito nenhum, não tinha como. – SEXO É secundário – insistia Delaney para Sean Logan, apresentador do programa matinal Wake up California. Apesar do fato de estar quase hiperventilando de nervosismo, deu um jeito de ostentar um sorriso breve e um tom firme e seguro. Nada como uma boa discussão literária para deixá-la à vontade. Após três semanas em um segmento semanal de 15 minutos no “Cantinho da crítica”, ela ainda não havia superado o pavor por estar diante das câmeras. – Sim, quero mergulhar em uma cena quente e selvagem de amor – prosseguiu. – Quero me sentir tão excitada quanto o casal quando ler as ações dos personagens. Mas, a menos que eu me importe com eles, a menos que eu já tenha desenvolvido uma conexão com eles, são apenas... bem, corpos. Muitas vezes confusos, raramente atraentes. – Então você está dizendo que quer cenas de amor emocionalmente guiadas quando estiver lendo? – perguntou Sean, a epítome de todos os adultos do sexo masculino, enquanto se remexia na cadeira. – Estou dizendo que todas as histórias, para realmente atraírem o leitor, devem se beneficiar de uma profundidade emocional com a qual o leitor possa ter empatia – esclareceu Delaney. Enquanto Sean mordia o lábio e assentia, ela se remexia na cadeira dura de madeira, desejando poder dar um longo suspiro. Ela assegurou a si que não era nervosismo – depois de três programas, já devia ser capaz de superar isso, certo? –, mas apenas uma fisgada do couro do cinto em sua cintura. Por que moda e conforto não podiam ser sinônimos? De acordo com Mindy, a saia dela era a “última moda”, o que

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aparentemente significava desconfortavelmente curta e apertada. – Diga a verdade, Delaney – incitou Sean com um sorriso casual, se inclinando em direção a ela como um velho amigo prestes a compartilhar um segredo. – Você realmente compra esses... romances? Delaney sorriu diante da correção de última hora. No meio do primeiro bloco, ela e Sean saíram do esquema formal de perguntas e respostas e relaxaram rumo a um bate-papo casual. Acostumada a essa técnica agora, ela sabia que aquele era o sinal para abraçar o tema escolhido para o segmento da semana: o gênero romance. – O romance faz o mundo girar – parafraseou ela. – A empolgação por se apaixonar em todas as suas formas, a busca pelo “felizes para sempre”. – Você realmente acredita nisso? Que o romance tenha todo esse impacto sobre o mundo? – Relacionamentos, em qualquer definição, são o fio condutor da literatura. Tanto a antiga quanto a moderna – disse Delaney, se aquecendo para entrar no assunto. – Jane Eyre, Romeu e Julieta, O Morro dos Ventos Uivantes, todos são exemplos de romances que impactaram fortemente a história de nossa literatura. Atraído por algo nos bastidores, Sean arregalou os olhos. Delaney notou a explosão muda de murmúrios e sussurros. Acostumada a alunos impacientes, ela continuou seu discurso sobre romances ao longo dos séculos, sem problemas, até que seu olhar pousou sobre o tumulto no estúdio principal. Ai. Meu. Deus. Seria possível uma mulher ter um orgasmo só de olhar para um homem? Delaney tentava recuperar o fôlego, mas não conseguia conter seus pensamentos acelerados a ponto de se lembrar exatamente de como respirar direito. Lindo. A pura perfeição masculina. Cabelo escuro, tão negro que emitia reflexos azulados sob as luzes fortes do estúdio, ondulado para trás, exibindo um rosto que deixaria qualquer escritor de romances orgulhoso. Olhos penetrantes, de um azul cristalino que a fazia sentir como se ele fosse capaz de enxergar sua alma trêmula e insegura através do rímel cuidadosamente aplicado, semicerrando-os no instante em que encontraram os dela. Delaney engoliu em seco. Tinha certeza de que o choque de energia sexual era apenas uma reação estranha às câmeras e luzes. Ou talvez uma reação alérgica à maquiagem. Será que os sutiãs com enchimento de gel tinham efeito tóxico quando a pele ficava superaquecida?

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– Ora, ora. – Com uma olhadela para o produtor, Sean assentiu levemente, então disse: – Temos um convidado inesperado para se juntar a nós hoje. Com vocês, Nick Angel. Delaney mal conseguiu evitar ficar de queixo caído. O olhar dela se voltou para o galã que se juntava a eles no palco. Sufocou um pequeno arfar quando os olhos dele encontraram os dela, a energia zunindo entre eles como um raio. Não, se assegurou. Não entre eles. Devia ser só a reação dela. Homens nunca ficavam mexidos quando estavam perto dela. Quando ele se juntou aos dois, o estômago de Delaney revirou. Toda aquela energia, fosse só da parte dela ou não, a apavorava mesmo assim. Não fazia ideia de como canalizar aqueles níveis de atração sexual. Então recorreu ao método já testado e aprovado, e fingiu que seu corpo não existia. Mudando para o modo intelectual, ela processou a aparência dele, que consistia em calça jeans, camisa e jaqueta de couro preta, postura, provocação envolta em charme, e linguagem corporal que sugeria “cuidado, alguém vai levar uma dose de mim hoje”. Se Delaney não desejava ser a felizarda, isso não seria um problema. Capítulo Três DELANEY RECITAVA mentalmente as obras de poetas americanos de épocas anteriores para evitar babar diante da visão de Nick Angel, mestre do suspense erótico, a poucos centímetros de distância. Se ela o havia considerado quente quando ele estava do outro lado da sala, agora era um incêndio. A sexualidade masculina pura a chamava, diferente de tudo que já havia sentido. Queria arrancar as roupas dele com os dentes. Uma imagem surgiu na cabeça dela: os dois, 38


alguns metros de corda e uma banheira cheia de sorvete de chocolate. – Nick, eu gostaria que você conhecesse o mais novo membro do Wake Up California, Delaney Madison. Delaney, creio que você já leu as obras de Nick. As visões do sorvete derretiam enquanto Delaney encarava o olhar azul penetrante de Nick. Ela congelou ao captar aquelas profundezas intensas, então lembrou a si de que aquela era a nova Delaney. A Delaney transformada, sofisticada, que merecia atenção. Mesmo que o olhar dele dissesse que sabia como ela ficava nua, Delaney só estava imaginando que Nick percebia seu nervosismo. Não deixe que notem que você está suando, ensinara Mindy. Quando estava no ar, Delaney se recordava de todos os conselhos da amiga para controlar o nervosismo, e descobriu que eram ainda mais adequados agora. Contanto que mantivesse sua expressão impassível no lugar, ela ficaria bem. Para uma mulher que adorava a palavra escrita, conhecer um autor sempre era um prazer. Conhecer o autor responsável por seu último orgasmo era tão fabuloso quanto um pouco constrangedor. Especialmente 39


considerando que o olhar dele, aquela análise sombria e sensual, a fazia se perguntar se ele tinha ciência de que lhe dera tal prazer. Provavelmente. Nick tinha muita autoconfiança. A velha Delaney teria se sentido humilhada ao encarar aquele olhar analítico. Teria fugido, sem dúvida. Mas a nova Delaney? A Delaney Madison, supercrítica literária? Ela aprumou os ombros, exibindo seus seios inflados pelo sutiã com enchimento para ficar em sua melhor posição sob a blusa vermelha de seda, e ergueu uma sobrancelha em desafio. – É um prazer – disse ela, orgulhosa por seu tom suave. – Li todos os seus livros. ∗∗∗ Leu? ∗∗∗ Ele arqueou uma sobrancelha perfeita, o sorriso predatório. Como um tubarão charmoso e sensual... pronto para dar uma enorme mordida no traseiro dela. – E o que achou deles? Ah, espere, acho que já li sua opinião, não li? Sem ter muita certeza de como responder, Delaney lambeu os lábios, desconcertada ao notar os olhos de Nick semicerrando enquanto seguiam o movimento de sua língua. Após um segundo, ele levantou o olhar para encontrar o dela outra vez. O calor sombrio emanado pela beleza dele a deixava nervosa. – Pelo seu olhar, Nick, você não é um grande fã de críticas... – comentou ela, retornando para sua prática em debates a fim de esconder o nervosismo. – Ou seu problema é apenas com os críticos que dizem coisas que você não quer ouvir? 40


Ela o observava com fascinação, as expressões mudando no belo rosto de Nick, primeiro choque, depois graça, e finalmente estima. – Não tenho problemas com críticos, ou com resenhas – disse Nick, a voz grave e retumbante. Delaney sabia que ouviria aquela voz durante o sono. – O problema é quando inserem seus preconceitos infundados na resenha. – Tais como pedir por envolvimento emocional em suas histórias? – Este seria um bom exemplo. – Mas é isto que seus leitores estão pedindo. – Eles não estavam, até você incitálos – observou ele. – Ah, por favor – zombou ela, deixando o nervosismo de lado. – Você está me responsabilizando por seus leitores exigirem emoções em seus livros? Acha que meu único comentário mudou a opinião de milhares de leitores? – Milhares? – Eu recebo e-mails sobre esse assunto. – Eu também. – Quer comparar volumes? Sean reprimiu visivelmente uma risada. Delaney percebeu que ele e o produtor estavam acenando sutilmente para a frente e para trás. Sean sacudia a mão para indicar calor, o produtor indicava que era para esquentar mais as coisas. Delaney sufocou sua risada cheia de pânico. Esquentar uma ova! Se as coisas esquentassem mais ali, ela derreteria sobre as coxas musculosas de Nick Angel. Nick captou a atenção dela novamente, que não conseguiu conter um sorriso em resposta. – Falando sério – disse Delaney, se inclinando para a frente a fim de enfatizar seu ponto de vista. 41


O olhar dele baixou, apenas por um segundo, em direção ao decote em “V” da blusa dela. Delaney agradeceu silenciosamente pelo reforço do sutiã em gel e fingiu não estar excitada quando o olhar dele retornou ao dela. – Você não sente que tem uma obrigação com seus leitores? Ouvi tanto que eles estão clamando por emoções nessa aventura selvagem à qual você os leva. Isso não o influencia de jeito algum? – Eu já transmito muitas emoções. Medo, adrenalina, luxúria. Até você estimular esse comentário, meus fãs estavam bastante satisfeitos. Principalmente com o sexo – declarou Nick. Ele fez uma pausa, pensou um pouco, então acrescentou: – Uma crítica anterior a você disse certa vez que o único jeito de alguém ficar insatisfeito com meu trabalho seria se tivesse alguma disfunção sexual. – Então você está alegando que o único motivo de alguém odiar seu trabalho seria no caso de ter uma disfunção sexual? – Delaney soltou uma risada perplexa. – Você está brincando, certo? – É claro que não. Eu nunca brinco quando se trata de sexo. – As palavras dele foram provocantes, no entanto, a intensidade nas entrelinhas proclamava que Nick, de fato, levava o sexo muito, muito a sério. Delaney se remexeu na cadeira dura, tentando ignorar o calor úmido em sua calcinha. – É por isso que estou aqui – continuou Nick. – Como eu discordo fortemente de sua visão sobre o modo como lido com o sexo, imaginei que poderíamos discutir a questão. – Quer dizer que está aqui para me fazer mudar de ideia? – Ou você pode me fazer mudar de ideia. Ela comprimiu os lábios, tentando enxergar a armadilha. Havia uma, Delaney tinha certeza disso. – Está com medo? – murmurou ele, em um tom grave e rouco. Diabos, sim. Delaney encarou o rosto pretensioso. Nick sabia que ela ficaria intimidada. Tinha ido até ali com sua figura sensual, postura arrogante e disposta a desafiá-la. Intimidá-la, fazêla parecer estúpida. Ela semicerrou os 42


olhos. Ele provavelmente achava que, se a fizesse parecer burra, seria capaz de refutar seus comentários na entrevista da Risqué. – Na verdade, não – disse ela lentamente. – Confio plenamente em minhas avaliações. Após anos resenhando, acredito que as opiniões que compartilho geralmente refletem o consenso público. – Você está alegando ser a voz do leitor médio? Ela pensou no assunto. Nunca tinha sido “média” em nada, então o conceito era intrigante. Mas sempre vira suas resenhas refletirem consistentemente nas vendas, e isso sem mencionar os emails recebidos. Após alguns segundos, ela assentiu lentamente. – Se você usa a definição de médio como o consenso de leitores de um determinado gênero, então sim. Estou segura em afirmar que minhas resenhas tendem a se encaixar na norma. Ele franziu o cenho. Delaney se perguntava se havia ido longe demais na terra da intelectualidade. Ela umedeceu os lábios subitamente secos e esperava não ter estragado seu disfarce. Definitivamente, não seria aceitável se qualquer um associasse Delaney Madison, vencedora de um concurso de transformação e crítica literária de ficções populares, à Doutora em Literatura D. M. Conner, professora adjunta, conhecida como a Mulher Invisível. Delaney tinha a sensação de que, qualquer que fosse o jogo que Nick estivesse fazendo, ele poderia comprometer seriamente seu anonimato e muito possivelmente arruinar suas chances de ser promovida. Mas ela não iria recuar. Havia algo naquele sujeito que exigia que ela mantivesse a firmeza, desse tudo de si.

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Ela gostaria de ser capaz de descobrir o que era. Assim, poderia descobrir como ignorá-lo. – Se você tem tanta certeza – falou Nick afetadamente, com um sorriso satisfeito que dizia a Delaney que, em vez de pisar na terra da intelectualidade, ela havia, na verdade, pisado na armadilha dele: – Que tal se fizermos uma pequena aposta? NICK SE recostou na cadeira, ignorando o calor dos refletores, e sorriu. Por mais que as luzes estivessem quentes, não eram nada se comparadas ao olhar de Delaney Madison. O olhar furioso combinava com o cabelo ruivo flamejante, conferindo um rubor delicado à pele de porcelana. Olhos imensos de corça dominavam um rosto todo formado por ângulos e planos, bem-definido em vez de arredondado. Sendo um sujeito que se orgulhava por suas pesquisas, Nick ficara surpreso por seu equívoco a respeito da criticazinha sensual. Ele havia lido todas as resenhas dela, assim como a entrevista para a Risqué e a reportagem sobre a transformação. Aparentemente, deixara de enxergar alguns detalhes. Primeiro, a mulher era afiada. Segundo, e definitivamente mais importante, era muito sexy. Nas fotos do “antes” ela era uma tímida, mas aquilo obviamente era parte da estratégia da revista para valorizar a transformação. A srta. Madison claramente era uma daquelas mulheres über sexy que tinham feito a tal transformação apenas para chamar a atenção. Ele conhecia muitas como ela... Sempre entediadas e buscando mudanças. Mudanças no visual, mudanças de emprego, mudanças de parceiro. – Que tipo de aposta você tem em mente? – perguntou o engenhoso coapresentador louro. Nick conseguia enxergar as engrenagens na mente do sujeito se movendo, tentando encontrar um jeito de transformar a situação em um evento explosivo. Por ele, tudo bem: quanto mais pessoas assistissem ao seu triunfo, mais fácil seria para Gary convencer o editorial a disistir da pressão por causa da tal baboseira emocional. – Minha opinião é que, apesar de seu apelo óbvio, a srta. Madison não fala para o telespectador 44


médio – reafirmou Nick. Ele não entendeu a surpresa no olhar de Delaney, porém as sobrancelhas contraídas, deixaram claro que ela discordava de algo que ele dissera. – Nas últimas semanas, fizemos enquetes com os telespectadores do Wake Up California através de nosso maravilhoso site, e lamento informar que eles não parecem concordar com sua avaliação. Delaney tem uma base crescente de fãs ∗∗∗ desafiou o coapresentador Sean “sei lá o quê” dando um sorrisinho exultante. Nick lançou um olhar demorado e sombrio que fez o sujeito engolir em seco visivelmente. Lembrando a si o motivo de estar ali, ele mal conseguia refrear sua impaciência. A última coisa que havia planejado fazer era dar mais munição para a crítica literária gostosa dos infernos respaldar sua opinião sobre o trabalho dele. – Dentro dos critérios que vocês estabeleceram, tudo se encaixa – falou Nick, em um tom que deixava claro o quanto considerava a tal enquetezinha deles inútil. – Compreendo seu desconforto com meus comentários sobre seu livro – observou Delaney, os lábios reflitindo as luzes intensas do estúdio. O olhar dele trilhou pelo lábio inferior dela, seu volume era um convite a mordiscadas. – Ninguém gosta de ter seus problemas de intimidade devassados publicamente. Mas você não parece ser o tipo de sujeito inseguro que se preocuparia com isso. Ela se remexeu na cadeira, seu corpo berrava desafio. As curvas delicadas dos seios acentuadas pela blusa de seda, revelando a renda do sutiã. Mas era a expressão nos olhos dela, aqueles olhos de curiosidade inteligente, o que mais o excitava. O corpo de Nick não mentia, e o desejo 45


se espalhava. Espere... Problemas de intimidade? – Eu não tenho problemas de intimidade. ∗∗∗ Não? Você está em um relacionamento emocionalmente maduro, comprometido? O brilho naqueles olhos escuros deixou claro que ela o considerava encurralado. – É a isso que você equipara a intimidade? A compromisso? Eu penso um pouco diferente. Ela passou a língua, só a pontinha, sobre o lábio inferior. Os olhos de Nick seguiram o movimento, enquanto se perguntava se Delaney havia aceitado o desafio. Ela deu um suspiro ínfimo. Obviamente sabia que precisava aceitar, no entanto, não estava entusiasmada. – A definição do dicionário para intimidade é “uma relação pessoal íntima, ou conhecimento resultante de uma relação estreita ou do estudo de um assunto” – afirmou ela. – O dicionário também define intimidade como um ato sexual – retrucou Nick, calando-a com um sorriso malicioso.

A careta dela, tão sutil que

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provavelmente as câmeras não captaram, demonstrou que ela havia imaginado que ele daria tal resposta. Droga, Nick não tinha certeza do que era mais atraente. O corpo curvilíneo dela e o lábio inferior sensual ou sua inteligência. Ele não queria nada além de debater semântica com ela. Desde que estivessem nus, é claro. ∗∗∗ Você alega, então, que relacionamentos sexuais desprovidos de emoção estão no mesmo nível de relacionamentos sexuais com comprometimento emocional? – Você está comparando laranja com banana – declarou ele, dando de ombros. – Mas perceba que ambas são frutas. – E você está a fim só da banana, aparentemente. Fato que está bem claro em seus livros. O foco único na luxúria, sobrepondo-se ao amor, parece destacar um aspecto unidimensional da intimidade. – Eu não tenho a pretensão de escrever sobre intimidade – rebateu Nick. – Eu escrevo suspenses eróticos.

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Empolgação para fazer o coração acelerar, tanto no enredo quanto nas cenas de sexo explicitamente detalhadas. Dificilmente pode ser considerado unidimensional. Delaney mordiscou o lábio com os dentes brancos perolados, obviamente pensando o quanto desejava levar aquela conversa mais adiante. Nick estava obcecado pela sua boca. – Odeio discordar de um autor cujo trabalho sinceramente admiro muito – falou ela lentamente. Então meneou um dos ombros para informá-lo de que não era o tipo de mulher que evitava confrontos, por mais que os odiasse. – Mas se você analisar seus últimos... ah, digamos, três livros, só para nos determos aos recentes, então vai notar que as cenas de sexo são, de fato, unidimensionais. Ela lançou o que quase podia ser tomado como um olhar de desculpas e prosseguiu: – Até mesmo previsível. Se Delaney o tivesse acusado de ter um pênis pequeno, ele não teria ficado mais chocado. – Óbvio que são – rosnou Nick. – Eu faço sexo de primeira. É quente, é selvagem. Nunca ninguém se queixou. – Na verdade, estamos falando de escrever, não de transar. Embora ambos aparentemente sejam semelhantes no seu mundo, eu não critiquei suas proezas sexuais. – Quando quiser uma chance para fa ze r essa crítica, é só me avisar – ofereceu ele, com seu sorriso mais malicioso. Seu humor, sempre explosivo, se acalmou.

O produtor estava praticamente dançando no lugar, a empolgação óbvia enquanto ele fazia mímica dizendo bobagens como “ótima tensão sexual” 48


para o apresentador louro. Nick o ignorou, ao passo que Delaney de fato parecia completamente alheia à equipe e à atmosfera carregada do estúdio. Ou ela estava fingindo?, pensou ele quando o olhar caiu sobre os dedos dela, cujos nós estavam brancos enquanto agarravam a beirada da cadeira. A mulher era um mistério. Havia algo de intrigante na combinação entre o olhar inocente e a aparência sofisticada. Um suspiro trêmulo assegurou a Nick que Delaney não estava indiferente. Um plano maléfico até dizer chega se formou no fundinho da mente dele. Aquela gostosa com olhos de corça havia causado um monte de problemas. Ah, claro, ele percebia que ela só queria criticar seus livros; não era nada pessoal. Mas, na verdade, para ele era a mesma coisa. E toda aquela baboseira emocional tinha ultrapassado os limites para ambos. Nick analisou seu plano em busca de falhas, mas não encontrou nenhuma. Perfeito. Ele poderia acabar com a credibilidade dela e se divertir ao mesmo tempo. Nick sorriu. Ao notar os olhos dela observando em volta nervosamente, sorriu ainda mais. Ah, sim. Aquela pequena aventura definitivamente iria valer a pena. ENQUANTO SEAN e Nick debatiam fora do ar os detalhes de algum tipo de competição para ela provar seu valor como crítica literária, e a garota do tempo surpreendia o público com sua bem-dotada reserva de massa densa, Delaney tentava recuperar o fôlego. Não importava a direção para a qual ela tentasse levar o debate, Nick Angel, escritor extraordinário, bloqueava suas tentativas e a reorientava. Se não fosse o fato de as cenas de sexo dos últimos livros dele ficarem lampejando em sua mente como uma apresentação de slides, talvez tivesse mais controle sobre a situação. Em

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vez disso, ficava imaginando Nick sobre o corpo dela fazendo coisas excitantes e selvagens. Era quase o suficiente para fazer uma mulher ansiar por erotismo em vez de romance. Quase. Ela não parava de amassar a barra da saia. Suspirando, notou o tecido claro todo amarrotado. Entre comer o batom dos lábios e amassar a saia, ela obviamente não estava lidando muito bem com essa coisa de “nova Delaney”. Olhou para os dois homens debatendo meios de provar seus pontos de vista. Mais uma vez, embora ela fosse o verdadeiro assunto em discussão, Delaney estava invisível. A frustração fez seus dedos nervosos aquietarem. Droga, aquela transformação deveria lhe render autonomia, e não simplesmente mudá-la de completamente invisível para bonitinha, mas ignorável. Inspirando irritadamente, Delaney aprumou os ombros e pousou as mãos abertas sobre as coxas. Se quisesse ser mais parecida com uma das heroínas de Nick Angel e agarrar sua promoção, não podia desaparecer no cenário. Sendo assim, ela ia falar. Mesmo que aquilo significasse a possibilidade de expor a “antiga Delaney”. – Cavalheiros, acho que vocês estão complicando tudo. Bem, o que vocês sabem, afinal? As palavras dela, pronunciadas baixinho, mas com aquele tom subjacente de autoridade que usava com seus alunos, captou a atenção dos homens. – O que disse? – perguntou Sean. – Sua pergunta seria muito mais abrangente se simplesmente abordasse o assunto em questão. O sr. Angel questiona minha habilidade de me comunicar com o leitor médio, correto? Ambos assentiram, Sean franzindo a testa, Nick com um brilho nos olhos. Delaney desvencilhou o olhar daquele calor de laser azul e respirou fundo para se concentrar. – O esquema mais fácil para mim é resenhar uma série de livros e publicar as críticas no site do 50


programa. Criar uma enquete com proteção encriptada para assegurar que não haverá trapaças e convidar os leitores a votar. Poderíamos ainda acrescentar mais duas resenhas, apenas para garantir anonimato e um voto imparcial. E aí saberemos se o público concorda com a minha análise ou não. – Levar a decisão ao público – pensou Sean, o tom contemplativo. Ele esfregou o queixo, como que visualizando os desdobramentos, mas o fato de estar praticamente saltitando em seu assento indicava a Delaney que ela atingira o ponto de satisfação dele. – Acho que esse seria um ótimo meio de provar a solidez... – Ele olhou para Nick. – Ou a falta de consistência nas opiniões de Delaney. – Sei... Vocês consideram que será uma avaliação justa – zombou Nick. – Ah, mas será – disse Delaney, com doçura. – Contanto que você escolha os livros. Ele semicerrou os olhos. – Eu tenho que escolher? – Claro. Precisamos de parâmetros sólidos, certamente. Você sabe, livros ainda em catálogo, assim os telespectadores podem adquiri-los, algo assim. Mas não tenho objeção se você escolher o 51


assunto.

O sorriso dele, maliciosamente satisfeito, garantiu a ela que haveria bastante literatura erótica a caminho. – E quando eu terminar – assegurou Delaney –, terei provado que os leitores buscam emoção. Eles querem se excitar a cada página, sim. Mas querem ler sabendo que há sentimentos reais em jogo. – É bem o contrário – disse Nick, estendendo a mão para firmar o acordo. – Tenho certeza de que você vai provar que os leitores são astutos o bastante para absorver emoções fortes sem precisar de água com açúcar. Arqueando a sobrancelha, Delaney segurou a mão grande dele. Tragada pela força rija, ela se perguntou se tinha acabado de cometer um erro enorme. Ou se simplesmente havia acabado de garantir bastante visibilidade. De um modo ou de outro, as coisas não estavam nada entediantes. Isso era uma certeza. – O que está em jogo? – perguntou ele, o brilho no olhar deixando claro que o acordo já estava selado. Ela meneou a cabeça, indicando que ele poderia definir o prêmio. – Se suas resenhas não vencerem, você vai admitir que estou certo – exigiu Nick. – E vai admitir aqui, na televisão. Ahhhh, um golpe publicitário. Ele devia estar sofrendo uma pressão e tanta por causa dos comentários dela. Delaney assentiu lentamente. – Fechado. E se minhas resenhas vencerem...? – Não vão vencer. Ela ergueu uma sobrancelha. – Que bom, você está bastante confiante de que não vou vencer, então não vai ter problemas em concordar em incluir em seu próximo livro um relacionamento verdadeiramente íntimo para John 52


Savage. Ela não sabia de onde aquela ideia havia surgido – talvez Delaney estivesse mesmo canalizando uma das heroínas dele –, mas se inclinou para a frente e, com o que esperava ser um sorriso malicioso e um adejar de cílios, ela deu um tapinha no joelho dele. – Ficarei feliz em ajudar você a escrever aquelas cenas de amor enfadonhas, é claro. Capítulo Quatro APÓS UM intervalo comercial, o acordo estava selado. O produtor esfregava as mãos de satisfação, Sean havia informado aos telespectadores e Delaney estava abatida de exaustão. Ela deixou o estúdio repleto de testosterona e seguiu pelo corredor estreito. Chegou à porta de seu camarim e girou a maçaneta, apenas para descobrir que estava trancada. Com um gemido, se apoiou na parede oposta e jogou a cabeça para trás. Estava com tanta pressa de fugir de Nick Angel e de seu carisma sexual arrasador que propusera as condições da aposta sem analisá-las. Ela não sabia o que a preocupava mais, o fato de ele ter aceitado ou o sorriso malicioso de Nick quando concordou. De um jeito ou de outro, Delaney estava encrencada. – Esqueceu-se de alguma coisa? Ela nem mesmo se sobressaltou. No entanto, suspirou antes de abrir os olhos. O sujeito ficava ainda mais lindo à luz natural. Parado ali no corredor deserto, ele ostentava um olhar de expectativa. Antes que Delaney pudesse se perguntar o motivo, ela notou sua bolsa, que ostentava toda sua sedução feminina, pendurada nos dedos dele. – Obrigada – murmurou pegando a bolsa. Mas, em vez de procurar sua chave, ela simplesmente 53


ficou segurando a bolsa. A ideia de convidá-lo para seu camarim era simplesmente demais para ser cogitada. Delaney lançou um olhar para Nick, que estava parado ali em toda sua beleza masculina. Será que já havia conhecido homem mais sensual que aquele? Ela vira muitos homens lindos ao longo dos anos, mas nenhum exalava o nível de energia sexual de Nick. Definitivamente, nenhum homem que ela namorara chegara nem perto dos atrativos dele. Ela se recordou de uma cena no livro mais recente dele. O herói havia encurralado a heroína em um corredor escuro. Após prendê-la de encontro à parede, ele descreveu para ela, em detalhes visuais, as muitas maneiras nas quais desejava transar com ela. Então a possuiu ali no corredor mesmo, bem em frente a uma janela de vidro laminado, as pernas dela enroscadas na cintura dele. Delaney espiou a cintura de Nick e se perguntou se sua perna conseguiria alcançar aquela altura. Os saltos altos definitivamente ajudariam. Sentiu uma respiração trêmula presa na garganta enquanto o calor espiralava pelo corpo. Um calor úmido se acumulava entre suas coxas, deixando-a chocada. Ela nunca tinha ficado tão excitada. Tampouco por um estranho, especialmente um com problemas tão óbvios ligados a relacionamentos e intimidade. A culpa era dos livros dele, Delaney tinha certeza. Eram como preliminares, já haviam despertado o desejo na cabeça dela. E, afinal, a mente era o maior órgão sexual, e o mais importante. Lado a lado com o coração, é claro. – Eu vim trazer isto para você – disse ele, apontando a bolsa. – E confirmar se a aposta está de pé. Ela afastou as teias de seus pensamentos e se concentrou. A aposta. As resenhas. E sua reputação, um tanto pública agora, em jogo. – Estou de acordo tal como delineamos – disse ela lentamente. Pelo olhar dele, no entanto, havia algo além da simples aposta com a qual ela concordara. – Alguma coisa mudou? – Não. Logan a anunciou no ar, está selado. Você vai resenhar meia dúzia de livros à minha 54


escolha para a enquete on-line e veremos com quem os leitores concordam. A segurança presunçosa nos olhos de Nick deixava Delaney ainda mais determinada a vencer. Deus, até mesmo a ideia de tentar dar mais um passo adiante a deixava nervosa. Mas ela o faria. Essa era a proposta da transformação. Ser notada. Aprender a ser visível. Convicta de seu objetivo, Delaney lançou um olhar questionador para Nick, apesar da tensão. Ela sentia como se ele estivesse aguardando para dar o bote. – Você está de acordo com a aposta? – perguntou ela. Ele se inclinou para mais perto, o hálito mentolado quente no rosto dela. – Estou de acordo. Mas eu gostaria de incrementá-la um pouco. Você sabe, torná-la um pouco mais... pessoal. O modo como ele pronunciou, como se fosse algo que envolvesse rolar nus sobre lençóis de seda, fez o coração dela disparar. – Como o quê? – arfou. E, mais importante, alertou a parte outrora alerta do cérebro dela: por quê? – Eu estava pensando em uma aposta à parte. Você sabe, algo particular, só entre nós dois. – Pensou nisso agora? Por que eu ia querer fazer uma coisa dessas? – Porque você gosta de estar certa? Ponto para ele. Delaney poderia ter sido fisicamente invisível, mas

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definitivamente não estava acostumava a ter suas opiniões ignoradas. Não que quisesse que Nick soubesse disso. Pela primeira vez, um homem olhava para ela como se quisesse devorá-la de forma demorada, lenta e prazerosa. Mas aquilo não era motivo suficiente para Delaney fazer alguma aposta estúpida. Ou era? Ela passou a língua pelo lábio inferior. O olhar dele semicerrou diante do gesto, como chamas azuladas flechando de desejo o corpo dela. E talvez fosse isso mesmo. A torrente de energia sexual e o poder por ter um homem fisicamente atraído por ela, especialmente um sujeito como Nick, faziam Delaney perceber que ela seria uma idiota se recusasse a oportunidade. A mulher ideal, forte e sensual que ela estava tentando se tornar não ignoraria aquilo, e sim agarraria com as duas mãos e tomaria posse. – A pergunta é – disse ele baixinho, quando começou a contornar o lábio inferior dela com o polegar –: até que ponto você pretende ir para provar que está certa? Era impossível ignorar aquele desafio. Mas Nick não estava prestes a convidá-la a tomar parte em uma aposta baseada em intelecto. Ele estava tentando adentrar em um campo completamente diferente. Uma área na qual ela nunca jogara. Quem diria que o medo poderia conferir contornos tão irregulares à expectativa? – Eu sei que estou certa. O fato de você estar disposto ou não a admitir isso não altera minha certeza sobre esse fato. – Adoro quando você fala desse jeito intelectual – comentou ele, com o corpo tão perto que Delaney conseguia sentir o calor do peito dele penetrando a seda macia de sua blusa. – Você fica com um tom irritado e esnobe que nada tem a ver com o brilho sexy nos seus olhos.

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– Como sabe que não sou uma intelectual irritada e esnobe? ∗∗∗ perguntou ela, dando uma risadinha. Em vez da negação direta e loquaz pela qual ela esperava, Nick assumiu uma expressão séria. Ele deu um passo para trás e lhe deu uma olhada lenta e intensa de cima a baixo. Desde seus pés pesarosamente doloridos no salto bicolor de 7cm, passando pelas pernas depiladas e hidratadas, até a saia estilo “ai meu Deus, é muito curta”. Os olhos dele passearam pelos quadris, deixando Delaney ciente das curvas que nunca tivera consciência que possuía até começar a vestir roupas mais cinturadas. Ele deslizou o olhar pelo cinto largo de crocodilo e se deteve sobre os seios contornados pela seda vermelha macia da blusa. O olhar dele não se demorou a ponto de deixá-la desconfortável, mas definitivamente transmitiu calor suficiente para aquecer o corpo dela. Examinou seu rosto. Delaney se perguntou se aquilo era coisa de escritor, um modo de catalogar traços. – Você é inteligente, admito. Mas não tem nada de esnobe ou afetada. – Ele franziu as sobrancelhas e deu uma risadinha desconcertada. – Se muito, debaixo de toda essa sofisticação, eu diria que há um ar de inocência. – Talvez eu seja inocente. Talvez a sofisticação seja uma fraude. Ele balançou a cabeça. – Não, já convivi com muitas mulheres. O suficiente para saber quando estão fingindo e quando 57


são autênticas. Delaney gargalhou; ela devia ser melhor nessa coisa de fingir do que havia percebido. Ser considerada uma sofisticada nata era tão bizarro quanto novo. Mas Nick ficaria atordoado se soubesse que, na verdade, ela era uma geek cerebral incapaz de chamar a atenção das pessoas nem se estivesse cantando o hino nacional a plenos pulmões enquanto sapateava nua. Empolgada com a avaliação dele, Delaney suspirou e permitiu que seu corpo relaxasse, na medida do possível, enquanto estava tão próxima do homem mais sexy sobre a face da Terra. – Então... qual é a aposta paralela? – perguntou ela, incapaz de conter sua curiosidade. Não que fosse aceitá-la. Isso seria loucura. Mas, Delaney tinha de admitir na privacidade de sua mente, Nick Angel era o tipo de sujeito que fazia uma mulher querer ver como era bom se sentir “louca”. – Provar que o sexo bom carece de emoções... – Ele fez uma pausa, a voz era puro calor líquido. – Ou admitir que o melhor sexo do mundo é puramente físico. – Como? O olhar dele dizia tudo. Delaney arfou. Claro, ela se sentia atraída por ele. Qual mulher viva não se sentiria? E ele lhe dera alguns olhares muito quentes que, se fossem de qualquer cara para qualquer outra garota, ela teria interpretado como interesse. Mas ela? E o homem mais sexy vivo? – Espera que eu vá dormir com você? – sussurrou ela, a frase soando mais como uma declaração do que uma pergunta. Ela já havia feito sexo com aquele sujeito em sua mente pelo menos uma dúzia de vezes desde que ele adentrara no estúdio. Mas fazer sexo com ele de fato? Ela precisaria ficar nua. Realmente nua, e assim ele veria a verdadeira Delaney sob a maquiagem e o sutiã com enchimento. Diabos, não. – Você tem alguma ideia melhor para provar seu argumento? – perguntou ele, com uma risada maliciosa. O olhar de Nick deixava claro que ele estava excitado com a ideia. Delaney semicerrou os olhos. Tinha que ser um truque. Os caras normalmente não lhe lançavam olhares demorados e sensuais.

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A menos que quisessem alguma coisa. Ou, no caso de Nick, quisessem distraíla. Pior: fazê-la parecer uma idiota. Os ombros de Delaney ficaram tensos. – Poupe-me – disse ela, fungando. – Não vou ter relações sexuais com você só para vencer uma aposta idiota. – Não está interessada em aprender em primeira mão qual é a minha versão de intimidade? ∗∗∗ Tanto quanto você deseja experimentar uma relação amorosa cheia de compromisso – apontou ela, sendo tomada pela irritação. – E você realmente acredita que para fazer sexo bom é preciso haver a presença de algo emocional? – Acredito. Paixão é mais forte que luxúria – insistiu ela. Abanando a mão, ela gesticulou entre os dois. – Como seria fácil dizer “claro, vamos lá”. Aí poderíamos entrar por aquela porta ali e rasgar as roupas um do outro. Seria quente, selvagem e cheio de suor. Gritos de satisfação ecoariam pelo corredor. – Ela espiou o olhar presunçoso dele e arqueou uma sobrancelha antes de completar: – Seus gritos. O sorriso dele foi breve e agradecido. Delaney prendeu a respiração diante da imagem, mas não permitiu que a paixão anuviasse seu argumento. – Mas isso não ia fazer diferença. Seria apenas passageiro. Rápido, sem sentido e, uma vez que estivesse terminado, você iria embora sem pensar duas vezes. Isso – declarou ela – é luxúria. O que só serviria para provar que estou certa. Os olhos dele escureceram para um tom azul-cobalto, a avidez queimando, nítida e brilhante. Pela intensidade de seu olhar, ele gostava da imagem que as palavras dela evocavam. 59


Nick deu um passo adiante e os mamilos de Delaney se arrepiaram. Ela empinou o queixo, tentando esconder o fato de que não estava apenas excitada, mas também intimidada ao extremo. – E se eu prometesse que, se você destrancar a porta, o sexo seria tão bom que faria você esquecer todo esse mito sobre o amor? Delaney engoliu em seco, mas não recuou. Não quando todas as suas crenças estavam em jogo. ∗∗∗ Eu posso esquecer momentaneamente. O sexo bom causa isso. – Pelo menos ela imaginava que causava. Pessoalmente, nunca tinha feito sexo bom o suficiente para esquecer o jeito como se sentira quando lera O amante de lady Chatterley pela primeira vez, muito menos esquecer algo tão importante quanto seus sentimentos. – Mas não é disso que estou falando. Estou dizendo que a verdadeira intimidade é mais do que “pá, pá, pá, obrigado, moça”. – E eu estou dizendo que se o “pá, pá, pá” é feito do jeito certo, a moça é quem vai agradecer. Delaney revirou os olhos. – Você está fazendo jogo de palavras – falou para ele. – Palavras são minha especialidade. No entanto, não são a única coisa na qual sou bom – retrucou, com um sorriso pretensioso. – Obviamente – murmurou Delaney, sem a intenção de discutir as proezas sexuais dele. Afinal, o sujeito a deixava excitada e úmida só por estar ali parado. 60


Se ele realmente fizesse alguma coisa, ela provavelmente derreteria em uma poça de gemidos. – Então... – disse Nick, a voz esmorecendo quando se aproximou ainda mais. O calor irradiava do peito dele, fazendo uma chama queimar no baixo-ventre de Delaney. – O que me diz? Um caso sem compromisso. Sexo quente e selvagem. Ele deu um último passo, roçando o corpo no dela. Delaney conteve um gemido diante da doce pressão do peito dele de encontro aos seus mamilos ávidos, a coxa cálida e rígida entre as pernas dela. Nick pôs as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, e baixou o rosto até suas bocas ficarem separadas por poucos centímetros. Delaney engoliu em seco, incapaz de desviar o olhar das profundezas azuis dos olhos dele. Como se sob um feitiço irresistível, ela simplesmente esperou, tanto ansiosa quanto apavorada, para ver se ele prosseguiria. Quando Nick o fez, não foi o beijo profundo e selvagem que ela estava esperando. Em vez disso, foi mais como uma provocação. Um roçar suave dos lábios, cálido, úmido e gentil. Se fosse qualquer outro cara ali, ela teria definido o beijo como meigo. Com o olhar ainda prendendo o dela, Nick recuou só um pouquinho, o hálito aquecendo a boca de Delaney. O que fora aquilo? O sujeito mais quente que já grudara o corpo no dela, e aquele era o tipo de beijo que ela inspirava? Delaney queria agarrar o cabelo dele e puxá-lo para si, saquear a boca dele com a sua. Beijá-lo com uma paixão profunda e intensa que nem mesmo ela sabia existir. – Apenas pense no assunto – murmurou ele. Delaney semicerrou os olhos, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a boca de Nick mergulhou na sua outra vez, agora a arrebatando com uma ferocidade que refletiu bem em seu ventre. Ela cedeu ao poder furioso do beijo dele. O calor inflamou quando Nick arrastou a mão pela lateral do pescoço dela, então trilhou pela seda macia da blusa. Pela clavícula, pelo ombro, roçando muito sutilmente a lateral do seio. Delaney estremeceu quando os dedos passaram pela cintura, a mão lhe agarrando a coxa. Um desejo inédito surgiu, e então ela puxou a saia, somente o suficiente para que a mão dele pudesse tocar a pele nua. Se a própria ousadia já estava deixando Delaney chocada, ficou fora de si com a reação dele. Os dedos de Nick apertaram uma vez, então ele deslizou a mão pela coxa, contornando até agarrarem a curva das nádegas. Com o corpo assumindo a liderança, já que era a primeira vez na 61


vida que o cérebro dela sofria um apagão, Delaney levantou a perna para envolver a cintura musculosa dele e lhe dar mais acesso. O gemido dele veio grave e gutural de encontro à sua boca. Ele se reposicionou, só um pouquinho, de modo que a perna ficou pressionando aquele ponto latejante que estava umedecendo a calcinha. O beijo ficou mais intenso, os dedos abarcando, apertando o traseiro dela no mesmo ritmo da dança da língua dele. A pressão virou um nozinho apertado, forte e exigente. Era tudo que Delaney podia fazer para não se deixar pulverizar de encontro a ele em busca de alívio. A intensidade da reação dela, a perda veloz de controle, deixou-a assustada. Não o suficiente para parar, no entanto. Nem perto disso. Então já não conseguia pensar, mal conseguia reagir, quando ele se afastou. Não apenas a boca, mas o corpo inteiro. Nick deu um passo para trás, deixando-a agitada, ofegante e com frio nos pontos onde a carne havia sentido seu calor. – Um mês – disse Nick, com um sussurro rouco. – Vamos nos dar um mês totalmente focados em prazer físico. No fim, você vai admitir que estou certo. Ainda capturada por uma névoa de prazer, ela quase concordou... Na verdade, estava no meio do processo de concordar... quando absorveu as últimas palavras dele. Claro, até parece. Tudo que aquele beijo tinha conseguido provar era que ele sabia como usar a boca. Ela fechou os olhos para evitar a imagem que aquela percepção em particular projetava em sua mente, então balançou a cabeça. – Você acha que vou me apaixonar por você ou coisa parecida? – acusou ela. Pela reação de seu corpo, seria fácil acreditar nisso. Mas aquilo foi algo puramente físico. Delaney se conhecia muito bem. Nick Angel estava tão longe de fazer seu tipo que não havia possibilidade de seu subconsciente abrir seus portões emocionais para que ele pudesse entrar.

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– Deus, não – disse ele, com uma risada que ricocheteou pelo corredor vazio. – Você é esperta demais para isso, e definitivamente não sou nada digno de ser amado. Acredite, eu ouvi isso de muitas mulheres para ter certeza. Ainda excitada, porém determinada a agir de modo tão blasé quanto ele, Delaney semicerrou os olhos. Por que não havia amargura nas palavras dele? Apesar de o pai tê-la ignorado, seu amor nunca fora questionado. Apenas suas prioridades. Ser chamado de indigno de ser amado seria, bem, basicamente uma desgraça. Mas Nick não parecia se importar nada com isso. Talvez realmente não acreditasse que as emoções fossem uma fantasia indulgente. E talvez ela devesse isso a si, e a todos os leitores que estavam clamando por mais profundidade nos livros dele, para provar que estava errado. Delaney quase riu. Era como se fosse a própria versão de um serviço público. E se o acordo lhe rendesse o sexo mais incrível de sua vida? Bem, algumas vezes uma garota simplesmente tinha que fazer o serviço. – Luxúria versus intimidade. Qual deles é de fato mais poderoso? Você sabe que está intrigada – atestou ele, correndo o dedo na lateral do pescoço dela. Só restava a ela não arquear e ronronar. – Pense nisso. Vamos sair na sexta-feira e aí você pode me dizer o que decidiu. Talvez tivesse sido o tom arrogante dele... Nick tinha tanta certeza de que ela iria recuar. Ou sua postura confiante, o quadril inclinado para um lado enquanto ele exibia aquele meio-sorriso que berrava “homem sensual no comando”. Ou tivesse sido aquela vozinha dentro de Delaney, exigindo que ela abraçasse totalmente seu novo “eu”, a transformação de visual e tudo mais. Ela havia desejado deixar de ser invisível... bem, ele definitivamente a enxergava agora. Era quase como se ela fosse o tipo de mulher sobre a qual ele escrevia. Quente, sexy e autoritária. Sem quaisquer restrições a beijar grudada na parede no meio de um corredor. Poderia também ter sido simplesmente por causa da natureza esmagadora daquela experiência toda, mas, finalmente, ela 63


assentiu, devagar. – Só estou concordando em jantar na sexta-feira – informou ela. Os olhos de Nick se iluminaram em triunfo, mas ele apenas assentiu. – E se você aceitar a aposta? Quais serão as condições? – questionou ele. – Você quer dizer que ainda não foram definidas? – Que tal se eu lhe der este prazer...? A mente de Delaney estava vazia. Ela não conseguia pensar em uma única coisa que não soasse estúpida. Mas estava tão confiante em sua posição sobre romance que isso realmente não tinha importância, então tomou emprestada a postura presunçosa dele e deu de ombros. – Vamos deixar isso em aberto, certo? O vencedor determina o prêmio, dentro dos limites razoáveis. – Ela percebeu que tinha soado como se já tivesse concordado, então emendou rapidamente: – Se eu aceitar a aposta, é claro. – É você quem manda. Seus nervos se debatiam em expectativa enquanto Delaney observava o rosto dele. O sorriso de Nick escorria satisfação, como se alguém tivesse acabado de lhe prometer um orgasmo de ordem mundial.

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E, disse Delaney a si, se prosseguissem com aquilo, ela com certeza teria um.

ENQUANTO CAMINHAVA até seu carro, Nick percebeu que não se lembrava de quando se divertira tanto com uma mulher. Considerando que ambos estavam completamente vestidos, ele tinha certeza de que era a primeira vez. Mesmo Angelina, com toda influência em sua vida, só tinha sido capaz de animá-lo fisicamente. Delaney o estimulava a pensar, a querer, a rir. Era uma combinação potente. Por mais que estivesse ansioso com a coisa toda, não acreditava realmente que Delaney fosse aceitar qualquer uma das apostas. O máximo que esperava era mexer um pouco com ela, perturbá-la de leve para que pensasse duas vezes antes de mexer com ele. Nick tinha certeza de que venceria a aposta das resenhas. Não porque não a considerasse uma boa crítica literária... Ele havia pesquisado e tinha de admitir, ela era boa. Mas ele havia escolhido os livros mais controversos, o que tornaria impossível para Delaney angariar votos suficientes para vencer.

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Uma vez que a conhecera, percebera que ela era dona de uma veia competitiva muito grande. Mas também havia uma camada reservada ali. Nick não conseguia decifrá-la. Mas planejava fazê-lo. Ah, sim, ele planejava dedicar bastante tempo decifrando todos os segredos deliciosos da srta. Madison. Fora por isso que ele se rendera ao impulso e a encurralara para fazer aquela outra aposta. Mas se a concordância dela tinha sido uma surpresa, as condições foram um choque. Ela as havia deixado em aberto, escancaradas. Nick sabia o que desejava reivindicar. O empresário experiente dentro de si exigia que ele a obrigasse a refutar publicamente suas opiniões anteriores. O escritor sempre curioso dentro dele queria uma entrevista profunda, prometendo total honestidade. Nick queria mergulhar no cérebro dela, saber tudo que fazia aquela mulher enigmática funcionar. Entretanto, Nick, o homem, não desejava nada além do prazer de ter o corpo de Delaney embaixo do seu. Em cima. Recebendo-o em seu calor úmido glorioso. O corpo dele enrijeceu diante da lembrança daquele traseiro lindo em sua mão. Dadas as opções, o homem excitado sempre vencia. Capítulo Cinco – ONDE FUI me meter – resmungou Delaney, sem nem mesmo tentar disfarçar a irritação em seu tom. Ele encurralara, beijara até incitar um monte de hormônios dolorosos e agira como um especialista. Mas que droga, o sujeito a deixara úmida e desesperada, colocara a mão no traseiro dela uma hora depois de terem se conhecido. Nick Angel era um adversário perigoso. – Em um sonho que está se realizando? ∗∗∗ respondeu Mindy 66


distraidamente. Delaney interrompeu seu passeio agitado pelo cômodo para encarar a amiga, que estava toda segura e confortável no sofá, cercada por um monte de livros de bolso. Mindy não notou, é claro, afinal estava absorta analisando a foto sensual de Nick na contracapa de um livro. – Você chama isso de sonho? – quis saber Delaney, enfiando as mãos no cabelo. O fato de seus dedos deslizarem por fios macios como seda ainda a chocava, mas não o suficiente a ponto de impedi-la de surtar. Mindy suspirou e largou o livro que estava cobiçando. Tal como Delaney, ela ainda estava com a roupa de ioga depois da aula semanal de ambas. – Deixe-me perguntar algumas coisas, está bem? E Delaney tinha escolha? Sem querer contrariar a amiga, sob o risco de chateá-la, ela abanou a mão em concordância. – Quando você conheceu a equipe da revista Risqué, eles perguntaram coisas sobre seu ponto de vista, sobre quem ou o quê você queria ser, lembra-se? – Sim, eu disse que queria me tornar visível. Ficar tão segura, forte e... – E sexy. Como uma heroína de romance. O tipo de mulher que poderia dominar um sujeito e fazê-lo implorar. Delaney franziu o nariz e decidiu parar de compartilhar tantas coisas com Mindy. A amiga tinha o péssimo hábito de jogar as coisas na cara dela. – Tudo bem, sim, essa era minha visão da coisa. Mas isso era algo que eu queria para minha aparência. “Parecer” não se traduz instantaneamente em “ser”, sabe. Mindy levou o dedo indicador ao lábio. Mas, em vez de roê-lo, ela balançou a cabeça, baixou a mão, sem mordiscar a unha, e aprumou os ombros. – Essa é sua chance, Delaney. Você fica dando passos em direção ao seu objetivo, mas nunca faz a volta para a linha de chegada. Você adorou a transformação, mas nem estava cogitando fazê-la até eu a obrigar por causa da sua carreira. Você é uma crítica literária incrível, mas não queria nem mesmo que as pessoas soubessem disso, até deixar escapar acidentalmente 67


durante a entrevista para a Risqué. Aonde aquilo ia chegar? Delaney não tinha certeza, mas sabia que não estava gostando. Esforçando-se para não franzir a testa, ela se jogou em sua poltrona favorita e colocou uma almofada no colo. Apertandoa de encontro à barriga como um cobertorzinho inseparável de uma criança, ela meneou a cabeça para indicar que Mindy podia prosseguir. – Você sempre teve uma quedinha por esse escritor, certo? Delaney enrijeceu os ombros. Droga. Ela não era a professora mais jovem da equipe da Rosewood à toa. Sabia exatamente aonde Mindy pretendia chegar. – Você quer que as coisas aconteçam, mas não é proativa, você é reativa. Ai. – Você está assistindo a aulas de psicologia demais – murmurou Delaney. – Bem, dã, sou graduada em psicologia. Isso não muda o fato de que você tem uma oportunidade de ouro para satisfazer sua maior fantasia. Você quer provar que é uma mulher forte e sexy? Aceite o desafio desse cara. Depois, coloque-o no devido lugar.

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– Ah, claro, como se eu tivesse uma chance de fazer isso. – Por que não? Olhe-se no espelho, Delaney. A sua aparência é de uma mulher que poderia deixar um sujeito de quatro. Você é sensual. E Nick Angel obviamente a deseja. A velha Delaney teria revirado os olhos e zombado da insolência de ao me no s imaginar que Nick Angel a queria em sua cama por qualquer razão que não fosse vencer a aposta. Mas a nova Delaney, aquela que pressionara seu centro ávido e úmido contras os músculos rijos da coxa dele em uma tentativa desesperada de obter alívio, acreditava que ele a desejava de fato, e estava totalmente atraído por ela. Ah, ela sabia que a atração era puramente física, baseada apenas na máscara da transformação que ele vira. Não importava. Aquela era a mais louca das sensações. Intensa, sólida e só um pouquinho assustadora. – Você queria ser visível, agora você é. A hora é essa. Então... O que vai fazer a respeito? – desafiou Mindy. – Só porque ele sente atração por mim não quer dizer que o poder seja meu, sabe. Ele está baseando toda essa competição em uma premissa de luxúria versus intimidade. ∗∗∗ Você acredita em seu posicionamento? – É claro. Sexo sem intimidade é vazio. Pode ser rápido e sensual, mas não vai durar. Não há um terreno comum, nada além de instintos primitivos. Mindy assentiu, então pegou a obra mais recente de Nick, a foto no livro encarando Delaney. Aqueles olhos azuis perversos encararam de volta, fazendo o estômago de Delaney se contrair de luxúria. Ela se lembrou da voz dele, grave e rouca, enquanto a seduzia verbalmente. Do sabor 69


dele, quente e inebriante na língua dela. Do toque das mãos dele enquanto explorava seu corpo.

O desejo sexual surgiu, incitando-a a fazer o que fosse necessário para que pudesse sentir o calor úmido da boca dele outra vez. – Você acha que tem coisas em comum o suficiente com esse sujeito para construir intimidade? – Eu... – A negação automática esmoreceu. Intimidade requeria um laço além do sexo. Será que eles tinham alguma coisa em comum para poder construir isso? Ambos amavam livros, obviamente. Ela havia adorado discutir literatura com ele, ouvir mais sobre seu processo de criação. E ele não ficara intimidado pelo intelecto dela. Se Delaney causara alguma coisa, fora atração. – Pelo seu silêncio, vou considerar que vocês têm o suficiente para construir alguma coisa – disse Mindy, com uma risadinha. – Então o único problema real são as consequências. – Tipo o quê? – Tipo se apaixonar. Delaney ficou de queixo caído e, pelo que podia se lembrar, era a primeira vez que sua mente ficava vazia por causa do choque. – Você acha que ele poderia se apaixonar por mim? – Ela finalmente encontrou voz para perguntar. Mindy franziu a testa, então suas bochechas de boneca ficaram coradas. – Eu quis dizer, você se apaixonar por ele – murmurou ela. Delaney explodiu em gargalhadas. – Tudo bem, obviamente você acha que é uma ideia maluca – disse Mindy, em um tom irritado. – Eu não sei como você pode ter certeza de que não aconteceria, no entanto. Ah, claro, talvez, 70


se Delaney acreditasse em contos de fadas, ela acharia possível. Mas era esperta demais para isso. – Por mais que Nick seja sensual e talentoso – disse ela, entre risadinhas –, ele definitivamente não é do tipo por quem você deve se apaixonar. Juro, isso não vai ser um problema. Mindy bufou, então deu de ombros. – Então a única pergunta que falta é: você consegue entrar em um relacionamento puramente sexual com esse sujeito sabendo que é apenas físico? Isso não respalda a opinião dele sobre luxúria? – É claro que não – protestou Delaney. – A luxúria é para encontros de uma noite só. Ele já condenou o próprio argumento ao propor um caso com duração de um mês. – Então não tem como você perder? Delaney pensou no assunto. Vencer a aposta, consolidar sua carreira como crítica literária e se tornar autoconfiante o suficiente para garantir que conseguiria sua promoção no trabalho. E potencialmente o sexo mais incrível do mundo com o homem mais lindo que já conhecera. – Definitivamente não tem como eu perder – concordou ela. Era como o Natal, seu aniversário e o Dia dos Namorados, tudo transformado em um presente sexualmente carregado. Como ela seria capaz de resistir? Meia hora depois, Mindy foi embora e Delaney resistiu à ânsia de bater no peito e dar um grito 71


de Tarzan. Delaney Madison, supercrítica literária. Capaz de seduzir um escritor sensual com uma única aposta. Ela sentia como se pudesse enfrentar Nick Angel, garantir orgasmos múltiplos para si e pular sobre altas pilhas de livros com um único salto. Flutuando naquela sensação, ignorou facilmente a vozinha de escárnio em sua cabeça e seguiu corredor abaixo rumo ao seu escritório. Ao contrário do restante de seu apartamento, que era mobiliado com artesanato estilo kitsch e achados de mercados de pulgas, o escritório era puro profissionalismo. As curvas elegantes e sensuais de sua mesa de cromo e vidro se refletiam nas curvas da escultura sobre a prateleira flutuante e as estantes arredondadas de ébano. Havia uma poltrona estofada baixa de seda vermelha no canto, que captava a luz matinal. Perfeita para leitura. Ali, ela sabia, era onde leria os livros que Nick escolhesse para a aposta. Quando lia por prazer, inevitavelmente escolhia o sofá enfeitado com almofadas ou sua cama. Mas, não importando quais histórias Nick escolhesse, a leitura delas seria completamente profissional. Afinal, sua reputação estava em jogo. E, ela percebeu enquanto sentava na cadeira de couro do escritório para ligar o laptop, se seus instintos femininos pouco usados estivessem certos, sua moral também estava em jogo. Ela não iria arriscar nenhum deles sem fazer o dever de casa. Qualquer bom aluno sabia que o conhecimento estava na pesquisa. E se, durante o processo para tentar descobrir que tipo de livro Nick escolheria, ela encontrasse pistas de como lidar com ele e vencer com sua argumentação, isso seria ótimo. Mas, principalmente, ela queria ter muita certeza de que, se e quando, eles acabassem fazendo sexo, ela estaria munida com o máximo de informações que pudesse encontrar para mostrar um 72


desempenho nota 10. Porque, após anos obcecada com os homens dos livros, ela seria uma idiota completa se perdesse a chance de realmente se transformar em uma das mulheres que fantasiara ser. NA SEXTA-FEIRA, Delaney se sentia uma esquizofrênica. Ela se alternara tanto entre empolgação e pavor naquele início de noite que seus nervos estavam estalando. A única coisa que a impedia de cancelar era a confiança no próprio sucesso. Delaney não sabia o quanto de seu desejo de vencer tinha a ver com ego e o quanto era causado pela crença em seu posicionamento. Ela só sabia que precisava vencer. Havia passado toda a vida aprimorando seu intelecto. E aquela era sua arma secreta. Porque, ao passo que tinha pesquisado e aprendido tudo que fosse possível saber sobre Nick Angel, graças à transformação e à sua personagem sexy, Nick não faria ideia de quem ela realmente era. Ele só enxergaria a máscara. E que máscara! Ainda sem acreditar que ela era mesma, Delaney olhou para o espelho, que Mindy havia insistido para ela instalar na porta do guarda-roupa para conferidas de última hora no visual, e expirou. Nick não era o único ignorante. Delaney mesmo estava tendo dificuldades incalculáveis para aceitar que ela era aquela ruiva esguia e sexy com cachos volumosos. A sombra esfumada contornava seus olhos castanhos, e um toque de iluminador nos cantinhos lhes conferia um brilho extra. Apenas ela reconheceria o brilho neles como pavor, em vez de expectativa. Passou a língua pela boca reluzente pintada com batom bordô, e precisou se esforçar para não morder o lábio, temendo arruinar o visual molhado que Mindy criara usando gloss. Com sua maquiagem estilo “me leve para a cama” e o cabelo sensualmente desalinhado, ela realmente fazia jus ao minúsculo vestido de seda verde-garrafa com recorte baby-doll e corpete bordado. Queria usar preto, achando que ficaria sofisticado, porém Mindy a demovera da ideia. A loura de fala rápida insistira que a tonalidade verde intensa a faria se destacar. 73


Aquilo fora mais eficiente para convencer Delaney do que qualquer argumentação sobre as tonalidades da temporada ou dizer que o preto não ia combinar com ela. Se ia vencer aquela aposta, teria de dominar todos os segundos da atenção de Nick, disse a si assim que a campainha tocou. Delaney pôs a mão sobre a barriga e respirou profundamente. Usando o mesmo método que Sean lhe ensinara na TV, ela se concentrou na respiração, deixando que os blocos de gelo de medo derretessem. Hum. Quem diria: o “Cantinho da crítica” já estava valendo a pena. Talvez ela fosse se dar bem, afinal. Com uma risadinha, Delaney abriu a porta e esqueceu todo o medo, inquietação e preocupação. No entanto, sua cabeça foi tomada por pensamentos sobre “se dar bem”. Ai. Meu. Deus. O sujeito estava delicioso. Delaney teve vontade de mordiscá-lo. Ela corou diante da ideia, tão sexy e ousada, tão diferente dela. – Olá, Delaney. – Oi – respondeu rapidamente, esperando distraí-lo antes que ele pudesse fazer algum comentário sobre as bochechas vermelhas dela. Delaney não precisou se preocupar, no entanto, uma vez que Nick estava ocupado analisando o restante de seu visual. Aparentemente, as pernas longas e desnudadas até a metade da coxa atingiram o topo da lista de inspeção dele. Uma sensação de vaidade que Delaney nunca tinha sentido a invadiu. E com certeza ela gostava disso também. Resistiu à urgência de puxar a bainha do vestido; em vez disso, deu o mesmo tratamento a Nick. Ele já estava sexy o bastante no estúdio, mas vestido para seduzir? Deus do céu, se ela havia achado que ele pegaria leve com ela, iria com calma, ela se iludira. O sujeito só tinha uma coisa em mente, apenas uma coisa. Vencer. Graças aos ensinamentos durante a transformação, ela reconhecia as roupas dele como sendo de grife. Lembrou-se da explicação do figurinista da revista sobre como funcionava o corte e caimento do material no caso das roupas mais caras. Considerando o jeito como o tecido preto estava acariciando seus ombros, e como o jeans envolvia seu... suas coxas, ela imaginou que os trajes tivessem custado uma pequena fortuna. Os olhos dela encontraram os dele. Em vez de parecer confuso por causa da avaliação óbvia da parte dela, Nick ostentava um

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imenso sorriso de agradecimento. – Você está linda – comentou Nick, a voz um ronronar rouco que a deixou arrepiada. Ela empinou o queixo e se lembrou de manter o foco na competição. – Estou ansioso por esta noite – disse ele a ela. – Espero que você goste de tudo que planejei tanto quanto espero que vá gostar. Definitivamente, concentrar-se na competição. Era uma disputa que ele aparentemente pensava estar dominando com tranquilidade. Será que ele tinha tanta fé assim em sua hipótese? Ou apenas tinha certeza de que era capaz de subjugá-la com seu charme e carisma? Delaney franziu a testa e inclinou a cabeça para o lado, os cachos balançando sobre o rosto durante o movimento. Os olhos de Nick deslizaram pelo cabelo dela, quase como uma carícia. Suave, leve, gentil. Dessa vez era mais fácil ignorar a reação de seu corpo. Claro, os mamilos dela ficaram intumescidos e o estômago dera um nó. Talvez a respiração tivesse se acelerado um pouquinho diante da ideia de tê-lo correndo os dedos por seu cabelo. Mas os anos de invisibilidade física estavam prestes a valer a pena. Tudo que ela precisava fazer era se lembrar de que ele estava atraído por sua personagem póstransformação, e não pela Delaney de verdade. Se mantivesse isso em mente, bancasse a mulher fatal e colocasse em prática alguns dos truques que havia pesquisado nos livros de paquera e sedução, ela ficaria bem. Bem uma ova.

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Ela venceria. Arqueando uma sobrancelha, Delaney deu um passo à frente, ficando perto o suficiente de Nick para tocar a lapela do casaco dele. O coração dela acelerou ao sentir o peito esculpido sob seus dedos, mas ela manteve o olhar divertido e levemente distante e fez um tsc. – Se está tentando me influenciar, não vai funcionar. Ainda tenho certeza de que vou vencer a aposta das resenhas – disse ela, com um sorriso. – Mas definitivamente estou ansiosa por esta noite... e para ver o que você pensa ser suficiente para me convencer a aceitar sua aposta paralela. Nick gargalhou. – Não posso dizer que não pensei em convencer você quando planejei a noite. Para ser sincero, tem sido um desafio intrigante. Fiquei pensando em uma série de ideias para provar que o sexo bom é totalmente físico. Ele colocou a mão sobre a dela, mantendo-a presa entre seus dedos grandes e os contornos rijos de seu peito. O sorriso de Delaney endureceu, mas ela se obrigou a mantê-lo, assim como manter a mão onde estava. – A aposta verdadeira, se é que você se lembra, é para provar que as emoções deixam o sexo melhor. – Paráfrase interessante – refletiu ele, os dedos se entrelaçando aos dela agora. – Meu conceito nessa aposta, é claro, é que o sexo não precisa do verniz bonitinho das emoções para ser incrível. Delaney deu de ombros e, necessitando de distância, removeu os dedos do aperto dele. – Tudo é discutível, a menos que você me convença a aceitar o desafio, é claro – contestou. Afinal, ela ainda não havia concordado, não totalmente. Porém, se o corpo dela tivesse algum direito de se manifestar, ela já estaria jogando Nick no chão e mandando ver antes mesmo de a noite começar. Mas ele não sabia disso. Ela se sentiu reconfortada ao percebê-lo franzir a testa 76


sutilmente. Delaney tinha esperanças de estar deixando-o confuso. – Pronto? – perguntou ela, erguendo a capa pesada das costas do sofá. A lã preta e densa era forrada de cetim, criando uma silhueta elegante. Melhor ainda, seria quente. Parecia perfeita, afinal as noites de São Francisco eram frias, mesmo no verão. ∗∗∗ Pronto ∗∗∗ concordou ele, posicionando a capa nos ombros dela. Delaney enrijeceu, mas ele não fez mais do que ajeitar o tecido, e então se afastou. Nick lhe entregou um envelope. Delaney apertou a cartolina grossa entre os dedos e lançou um olhar questionador. – Sua lista de leitura – informou ele, com um sorriso malicioso. – Eu quis deixar você dar uma espiadinha antes de enviá-la para o produtor do programa. Delaney correu o polegar sob a aba e a mão de Nick disparou para detê-la. Ela arfou quando o calor intenso de seus dedos fez seu estômago revirar. Ele exibiu um olhar travesso e balançou a cabeça. – Depois – disse Nick. Ela passou a língua no lábio inferior, provando o gosto doce do gloss reluzente. Depois? 77


Depois do quê? Imagens dos dois juntos se contorcendo em êxtase, os gemidos de prazer preenchendo o ambiente, passaram pela mente dela. Se o cérebro era o órgão sexual mais potente, ela já a estava a meio caminho de ter um orgasmo enlouquecedor com Nick. E isso só de olhá-lo. Controle-se, Delaney. Ela precisava manter a cabeça fria. Ele obviamente lhe entregaria a lista com instruções para não ler, como parte de sua estratégia para deixá-la confusa. Provavelmente supusera que, se fizesse desse jeito, ela ficaria mais suscetível aos jogos travessos dele. Com isso em mente, ela mandou um olhar do tipo “eu vou vencer” outra vez e inclinou a cabeça. – Tenho certeza de que terei outras coisas em mente... depois. Mas vou deixar isso para mais tarde. Ele arregalou os olhos azuis, que brilharam com um calor agradecido logo em seguida. Antes que ele pudesse fazer algo a respeito da promessa latente, Delaney gesticulou para a porta: – Vamos começar, certo? Eu detestaria me atrasar. NICK SUFOCOU seu sorriso diante do desafio nos olhos da ruiva sexy. Pela postura dela, Delaney realmente pensava ter alguma chance de fazê-lo mudar de ideia a respeito das emoções. Aha, tão provável quanto ver a “ex” dele oferecendo amor incondicional a alguém um dia. Era como tirar doce de criança. A aposta estava no papo. A lista de livros que ele escolhera garantia que ela ficaria mexida, tanto sexual quanto emocionalmente. Ele tinha certeza de que Delaney ia ficar toda moralista na hora de escrever as resenhas, desanimando os leitores. Especialmente os leitores dele, que conheceriam a situação na semana seguinte, quando ele anunciasse a disputa de resenhas em seu site. Nick tinha certeza de que sua base de fãs iria se juntar e, depois de ler as resenhas arrumadinhas e emocionalmente exigentes de Delaney, votaria contra ela. – Certamente, vamos começar – concordou ele, ansioso para dar início à noite. Afinal, com a aposta das resenhas já acertada, ele poderia se concentrar na aposta que realmente queria vencer.

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Aquela que iria colocar a mulher mais intrigantemente sensual que ele já conhecera em sua cama. Ele gesticulou para a porta. – Tenho um carro aguardando por nós. Delaney franziu a testa de leve, como se de repente tivesse percebido que ele estava armando alguma coisa. Passou a língua rosada sobre os lábios fartos e desfrutáveis. Nick queria fazer o mesmo para ver se a carne densa e reluzente tinha um sabor tão bom quanto aparentava. – Um carro? – Imaginei que você gostaria de um jantar com vinho. Mais tarde, pensei em pararmos em uma boate da qual gosto, mas eles só trabalham com consumação mínima. Tenho uma política restrita em relação a beber e dirigir. É mais simples ter um motorista e um carro à disposição. Assim podemos fazer o que quisermos sem nos limitar. O olhar demorado e entorpecido que ela arremessou daqueles olhos imensos o fez desejar poder se ajoelhar apenas pelo prazer de beijar o corpo dela, começando de baixo até em cima. Longe de ser um monge, ele havia desfrutado da companhia de uma série de mulheres ao longo dos anos. Mas nenhuma, nunca, o intrigara e desafiara igualmente, ao mesmo tempo em que o deixava tão excitando quanto um adolescente de 16 anos com passe livre para o esconderijo das revistas Playboy do pai. Controle-se, Angel. Fique firme. – Provavelmente eu deveria avisar – disse ele a Delaney, dando sua advertência padrão do primeiro encontro quando saíram do apartamento – que, de algum modo, tudo na minha vida acaba indo parar nos meus livros. Há uma boa chance de essas apostas acabarem lá também. Ele aguardou pela reação dela. Uma empolgação bajuladora ou indignação eram típicas. Mas Delaney era tudo, menos típica. Ela deu um olhar espantado, então riu. Não uma risada feminina, contida. Uma gargalhada profunda, rouca, que o fez pensar em lençóis de seda negros, luz da lua e champanhe.

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Nick semicerrou os olhos enquanto fitava o rosto dela. Delaney era linda, é claro. Mas, quando ria, perdia aquele ar de sofisticação cheio de “não me toques”. – Suponho então que você não tenha objeções? – perguntou ele, segurando a porta do elevador aberta. Delaney entrou, então aguardou que ele se juntasse a ela antes de balançar a cabeça, um sorriso ainda brincando sobre aqueles lábios macios dignos de serem beijados. – Objeção? Só se acabarmos sendo perseguidos por malfeitores nefastos que querem nos machucar. Ou... – Ela veio com mais um olhar entorpecido. – Se você me transformar na heroína e o sexo do nosso livro for impessoal, cansativo e desprovido de emoção, usado apenas para excitar em vez de aprofundar a trama. Ele precisou de meio segundo para decifrar aquilo. Para uma mulher que parecia uma das gatas mais sensuais que ele já conhecera, ela certamente se expressava como alguém bem cerebral. Não que Nick tivesse alguma coisa contra mulheres inteligentes. Era que a maioria das mulheres inteligentes tinha alguma coisa contra ele. Nick não tinha certeza se era uma reação ao seu gênero ou ao seu cinismo. – Duvido que sejamos perseguidos – respondeu, se apoiando na parede de metal do elevador. – E quanto ao sexo? Nick percorreu o olhar sobre as formas sedosas do corpo dela. A pele, tão exposta pelo corte simples do vestido verde, reluzia, convidativa. Os dedos dele coçavam para trilhar um caminho pela clavícula, descendo até o limite do corpete, rumo aos seios. Nick encontrou os olhos dela. Havia um traço de desconforto nas profundezas castanhas. Ótimo. – Bem, coloquei limites na minha perseguição a você por isso – disse ele, e ficou apavorado ao perceber que não estava falando sério. Capítulo Seis NICK IA enlouquecer. Mesmo. Enlouquecer ao nível “pronto para agarrar Delaney, jogá-la em seu ombro e levá-la para um canto escuro”. Talvez fosse a atmosfera do SupperClub, um restaurante chique que contava com uma equipe atraente e que apresentava a novidade de servir os clientes em camas em vez de mesas. Ou talvez fosse o fato de a mulher com ele estar interessada nele apenas como escritor, não como homem. A meia-luz vinda das luminárias esculpidas nas paredes lançava um brilho suave sobre o cabelo de Delaney enquanto ela 80


se recostava nos travesseiros. Os pés, descalços, exceto pela camada de esmalte bordô nos dedos que Nick queria mordiscar, balançavam em um ritmo lento sobre a coberta de seda azul. Nick olhou para a cabeceira de aço escovado. Ele tinha passado a última hora fantasiando com Delaney agarrando aquelas barras de ferro enquanto ele a fazia gritar de prazer usando apenas a língua. Durante a preparação para aquele encontro, ele percebera que nunca tinha se preparado de fato para seduzir uma mulher. Deu uma olhada pelo ambiente e sorriu. Aparentemente, não era muito bom nisso. Ele achava que um restaurante repleto de camas iria lhe dar alguma vantagem para convencer Delaney a aceitar a aposta. Afinal, o que era mais sedutor que beliscar tira-gostos sobre um colchão coberto de seda para fazer uma garota pensar em outras delícias para fazer na cama? Mas ele parecia ser o único dentre os dois com fixação na cama... e no sexo. Ele se remexeu, feliz por a bandeja estar em seu colo. Delaney, no entanto, parecia alheia à tensão sexual que ondulava pelo corpo dele. – Você escreve histórias sexualmente carregadas, algumas vezes assustadoramente brutais que abraçam a proposta de viver a vida ao máximo. Por que não consegue se abrir à ideia de que outros gêneros também têm muito a oferecer aos leitores? – perguntou ela, meneando a cabeça para agradecer ao garçom que havia trazido a bandeja de sobremesas e enchido novamente as taças de vinho. – Não sou contra os outros gêneros – disse Nick, fazendo uma careta. – Mas não acha que a maioria deles é um pouco... estereotipada? Delaney levou um doce à boca e deu uma mordida. O recheio espesso de creme escorreu pelos dedos dela, deixando Nick com água na boca para lamber. Ela removeu o creme dos lábios com uma lambidinha maliciosa. 81


– Então você é um deles, hein? Um literário esnobe? – questionou ela. – Conheci muito poucos em minha vida, mas ainda estou surpresa. As histórias falam do que realmente interessa, são fiéis aos seus personagens. Sério, não é essa uma das funções da ficção? Criar mundos, lições na forma de histórias para atrair as pessoas e fazê-las pensar? As suas definitivamente fazem tudo isso. Nick abriu a boca para retrucar, mas não conseguiu organizar um argumento, excitado e fascinado demais enquanto a observava comer o bolinho, pelo modo como ela saboreava cada mordida sensual. Ele apostava que Delaney devia ser o diabo na terra na equipe de debates na escola. Uma risada surgiu, primeiro baixinha, depois crescente, enquanto ele reprisava a argumentação dela em sua mente. – Você venceu – reconheceu ele. Ela recuou só um pouquinho, como se chocada pela resposta dele. Então seus lábios gloriosamente melados e convidativos se entreabriram, formando algo que ele só podia classificar como sendo um sorriso tímido. Ele balançou a cabeça. Quanto mais tempo passava com Delaney, mais confuso ficava. No início do encontro... diabos, apenas uma hora atrás, quando eles tinham se sentado para jantar, ele pensara ter conseguido categorizá-la. Sensual, sofisticada e mundana, ele descobrira que ela vivia por sua carreira. No entanto, achava que finalmente estava tateando sua verdadeira personalidade. Uma intelectual

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embrulhada em seda, ela obviamente estava acostumada a embalar as pessoas rumo à complacência com seu visual. Enquanto um sujeito estava perdido na profundeza dos olhos de corça ou se perguntando se o cabelo dela teria um toque tão macio nas coxas dele quanto entre os dedos, a mente dela já estava três passos adiante. Era fascinante. Então ela mandou aquele sorrisinho tímido, jogando todas as hipóteses dele pela janela. Com medo de enlouquecer se não colocasse as mãos nela logo, mesmo que apenas para dançar, Nick jogou seu guardanapo sobre a bandeja e ergueu uma sobrancelha. – Estou pronto, e você? DELANEY PRECISOU engolir em seco duas vezes para umedecer a garganta a ponto de conseguir falar. Estava tão absorta na emoção de conversar sobre livros com Nick que havia se esquecido dos reais motivos pelos quais estava ali. – Pronto? – Ela esperava que a textura rala de sua voz se passasse por sedutora em vez de apavorada. Ela havia se esquecido completamente de seus temores na última hora ou algo assim. E Nick merecia o crédito, pois a reação inicial ao entrar no restaurante tinha sido arfar e fugir. Ela pisou firme, é claro. Sabia que ele havia armado aquele plano para intimidá-la com sua aposta paralela, para mantê-la confusa e distraída, de modo que suas resenhas ficassem comprometidas durante a disputa. E ele poderia até ter se dado bem. Afinal, ele mesmo era a distração mais incrível que ela conseguia imaginar. Quente, intensamente sexual e, o melhor de tudo, um escritor incrível. Mas Delaney tinha um plano. Contanto que ela mantivesse em mente que agora era o tipo de mulher sobre quem Nick escrevia, sua fantasia em pessoa, ela ficaria bem. Afinal, ela estava nessa para ganhar. A aposta das resenhas, a aposta paralela e a rendição de Nick. Então, em vez de fugir ao ver o ambiente cheio de camas, ela revirou os olhos e perguntou a ele se era assim que costumava seduzir as mulheres. Porque o restaurante era isso. Um salão imenso cheio de camas. Levava as conversas íntimas a 83


um nível totalmente novo. Mas, em vez de ser um ambiente desprezível como ela esperava, a atmosfera era exuberantemente sensual. Provavelmente auxiliada pelo desfile de lingerie em curso no palco bem no centro do lugar. Nada como ficar deitada na cama assistindo a um bando de mulheres pavoneando de roupas íntimas para manter o foco no sexo. Ela gostaria de não ser tão facilmente influenciável. Mas, como era, resolveu então debater sobre os méritos da ficção popular em um esforço para manter a aparência controlada. Não servira para tirar de sua cabeça as imagens de Nick subindo na cama e nem das pernas abertas dela, mas pelo menos a impedia de tomar uma atitude. – Gosta de dançar? – perguntou ele. – Há uma boate da qual acho que você vai gostar. Ótima música, um ambiente muito... único. Delaney só conseguiu ouvir a palavra dançar. Suas mãos, escondidas sob a bandeja em seu colo, amassaram o guardanapo de linho. Ela nunca dançava. Pelo menos, não em público. Em particular, sozinha, ela adorava e achava que não havia nada melhor que colocar música a todo volume e se entregar ao ritmo. Ela começou a folhear um resumo mental dos prováveis resultados caso recusasse. Cerrando o maxilar brevemente, percebeu que não tinha escolha. A recusa a faria parecer covarde. E, pior, a faria perder qualquer vantagem que já houvesse ganhado no caminho à vitória da aposta. Que era o motivo, afinal, de ela estar sentada naquela cama com Nick. Precisava manter isso em mente em vez de se perder no tom azul vívido dos olhos dele. – Não quer dançar? – supôs Nick, o olhar semicerrado e pensativo. Ele não iria pressioná-la, Delaney percebeu. Nem iria tripudiar. Considerando todo seu charme e carisma, até que ele era notavelmente tranquilo. – Não sou muito fã de música contemporânea – salvaguardou-se ela, em vez de tomar a rota de fuga que ele oferecera. – Que tipo de música você prefere? Delaney esperava que a meia-luz fosse capaz de esconder a cor que lhe tomava as bochechas. Na faculdade, sua resposta pronta teria sido música clássica, é claro. Ela ouvira o suficiente para 84


conseguir debater a respeito e, até certo grau, bem que gostava. Mas não era sua preferência. – Rock pesado – murmurou ela, aguardando a gargalhada dele. Em vez disso, ele sorriu lentamente. Ela balançou a cabeça e lhe deu um tapinha brincalhão no braço. Mas, se estava tentada a deixar os dedos se demorarem ali, a acariciar o músculo rijo sob a camisa preta, ela guardou para si.– Rock pesado, como o daquelas bandas dos cabeludos dos anos 1980. Não sou uma subversiva por gostar de rock; não pense bobagens. – Eu não disse nada – defendeu-se ele. – Mas pensou. Ele simplesmente sorriu. Então ergueu uma das mãos. O garçom chegou imediatamente para recolher as bandejas e o cartão de crédito de Nick. Delaney lançou um olhar surpreso para o funcionário, então jogou o guardanapo na bandeja com um sorriso de agradecimento. – Você vai gostar desse lugar – prometeu ele. – É rock das antigas, então tenho certeza de que vai tocar muitas coisas das quais você gosta. Que bom. Ela ofereceu o que esperava ser um sorriso, mas sentiu como se estivesse fazendo uma careta de doente, e segurou na mão de Nick para poder descer da cama. Então continuou a segurar a mão dele para se equilibrar enquanto voltava a calçar seu sapato de salto agulha que a deixava quase da altura de Nick. – Eu sei que você me trouxe aqui para me estimular, e provavelmente para definir a cena sexual que já tem traçada em mente – disse Delaney a ele –, mas preciso admitir, este foi o jantar mais confortável que já experimentei. Pelo franzir de testa dele, Delaney acertara suas motivações. Enquanto Nick assinava o recibo do cartão, ela não se deu o trabalho de revirar os olhos para a expressão surpresa dele. Era quase tão desconcertante ser tratada como um objeto sexual desejável como era ter sua inteligência subestimada. – Admito que tinha nossa aposta em mente quando fiz as reservas. A atmosfera aqui... – Ele abanou a mão para indicar as cores intensas, as camas decadentemente confortáveis e as mulheres seminuas no palco. – É

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inquestionavelmente sexual. Mas não quero que você ache que pensei em manipulá-la para seguir um enredo. – Mesmo? – Mesmo – respondeu ele, com um sorriso. – Quando você for para a cama comigo, será uma escolha sua. Eu posso até ter deitado ao seu lado naquela cama e fantasiado sobre como seria, sobre os movimentos que você faria, os que eu faria. Mas não tenho um roteiro. Além disso, você tem uma cabeça incrível. O sexo entre nós seria muito melhor com suas contribuições. Algo derreteu no coração de Delaney. Um muro que ela não sabia estar ali abriu passagem quando ela percebeu o quanto ele respeitava a inteligência dela de fato. Nick a enxergava como uma mulher desejável, mas, para ele, aquela feminilidade não era exclusiva do intelecto. Os olhos dele encontraram os dela, o calor daquela olhada fazendo Delaney queimar por dentro. Imagens já conhecidas dos dois, nus e suados, lampejaram na mente dela. Há apenas alguns dias, ela teria negado tomar a iniciativa a respeito de qualquer coisa, mas sua pesquisa havia compensado. Agora possuía uma lista bem grande de coisas que adoraria tentar. Quem imaginaria que aquilo tinha sido o estopim para fazê-la chegar ao ponto de cogitar aceitar a aposta de Nick?

E tudo porque ele não subestimara seu intelecto. Na verdade, ele agia como se fosse um afrodisíaco.

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Que... romântico. Um sujeito que queria o pacote completo, aparência e cérebro. Só que ela sabia que a aparência era uma máscara temporária. Precisava manter isso em mente para não se permitir achar que poderia se apaixonar por ele. O conceito, tão extenso de modo que ela não conseguia absorvê-lo por completo, fez Delaney engolir em seco. Ao ver Nick aguardando por uma resposta, ela murmurou: – Bem, veremos, não é? Vinte minutos depois, Delaney quase desejava ter ido de encontro ao seu primeiro instinto e ter dito a Nick para levá-la para casa para que ela pudesse tirar sua roupa e fazer o que desejasse com o corpo dele. Não poderia ter sido pior do que adentrar naquela boate. – Qual é mesmo o nome deste lugar? – berrou ela ao ouvido de Nick, assim que passaram pela multidão. Corpos quentes, exacerbadamente perfumados, todos se contorcendo. A música era uma coisa física, as batidas ressoando no piso, o ritmo ecoando nas luzes de néon. Escuro, intenso, ousado, parecia propício para... alguma coisa. Delaney não conseguia distinguir muito bem para o quê, no entanto, exceto que aquilo a deixava muito tensa. Nick lhe lançou um sorriso. – Clube da Fantasia – esclareceu ele. Delaney estava feliz por Nick estar lhe segurando a mão, pois tinha certeza de que, se ele a soltasse, ela nunca mais conseguiria encontrá-lo ali. Quando tentaram passar, a pressão dos corpos esbarrando foi tão intensa que se viram empurrados para a pista de dança. – Vamos? – perguntou ele com uma risada, puxando-a de encontro a si. Não! Ela queria gritar e fugir, mas Nick estava com as mãos firmemente postadas em seus quadris, o corpo se movimentando tranquilamente no ritmo da música.

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Estava tão lotado que Delaney não conseguiria ter se afastado sem causar um alvoroço. Além disso, com as mãos de Nick a guiando, ela não precisava se preocupar com nada, senão seguir o ritmo dele. Mexendo, roçando, deslizando. Quadril contra quadril, coxa contra coxa. O corpo dela estava duro, mal se movimentando além dos comandos dele. Delaney não sabia o que fazer com as mãos, então agarrou os bíceps dele. – Relaxe – disse ele, puxando-a para ainda mais perto. O ritmo mudou, ficando mais lento, mais pesado. Soltando os quadris dela, Nick pegou as mãos dela e as colocou sobre o próprio ombro, então trilhou os dedos em seus braços, indo tão delicadamente até a cintura que ela quase riu, e então voltou aos quadris. Delaney sentia-se uma idiota. Não houvera aulas de dança durante sua transformação, e graças a Deus elas não eram necessárias para atuar no “Cantinho da crítica”. Sem querer encontrar desdém nos olhos de Nick, ela olhou para os outros dançarinos, certa de que a observavam. Mas ninguém estava olhando para ela. Pela atenção que os outros estavam dando, era quase como se ela e Nick estivessem a sós. – Qual é a semelhança entre o vibrador e a soja? – perguntou ele. – Hein?! – O olhar de Delaney encontrou o dele. – Ambos substituem a carne – brincou ele. Ela ficou boquiaberta. Ele sorriu. Ela não pôde evitar e começou a gargalhar. – Essa foi péssima – disse a ele, balançando a cabeça. – Fez você relaxar – retrucou ele, a satisfação reluzindo em seus olhos. – Apenas deixe a música 88


fluir, mexa seu corpo. Não é um teste, não é um concurso. Somos só eu e você, nos divertindo um pouco. Diversão. Delaney suspirou profundamente, obrigando seu corpo a relaxar. Diversão, ela e Nick, os corpos juntinhos. Pela primeira vez desde que tinham pisado na pista de dança, ela ficou ciente do quão próximos estavam. Do quanto era bom. As coxas dele, tão rijas e sólidas, deslizando contra as dela, de um jeito que sugeria outros tipos de ritmo. Os tórax de ambos não estavam se tocando, mas ainda assim ela sentia o ardor dele. Um calor em reação atingiu o baixo-ventre dela, formigando, ficando mais forte. Delaney se concentrou naquela sensação. O olhar dela se prendeu ao azul vívido do dele. Ali, debaixo do tom divertido, ela conseguia enxergar uma centelha de desejo. Quando ele chegou mais perto, o quadril roçou o dela, e Delaney sentiu a prova de seu interesse. Perceber que ele estava ficando excitado com ela e com suas péssimas habilidades de dança a fez relaxar, na verdade. Pela primeira vez, ela se dedicou a ouvir a música, se deixando levar pelas sensações, pelo ritmo e pela pulsação que corriam dentro do seu corpo. Ela remexeu os quadris, uma leve ondulação, e as pupilas dele se dilataram. Ela pôs as mãos no pescoço dele, os dedos deslizando pelo cabelo sedoso, e Delaney se aproximou um pouquinho mais. Ela queria prová-lo. Encarou os lábios dele, desejando senti-los de encontro aos dela com paixão. Paixão. Ela desviou o olhar quando a realidade a atingiu. A aposta. Eles estavam ali por um motivo, e, caso ela fizesse um exame de amígdalas nele ali na pista de dança, aquilo só iria favorecê-lo, e não a ela. Afastando os gritos de apelo do próprio corpo, Delaney recuou e deu de ombros levemente. Abanou uma das mãos diante do rosto e disse: – Está muito quente aqui. Podemos pegar alguma coisa para beber? 89


Nick lhe lançou um olhar demorado, mas não pressionou. – Claro. Vamos para o andar de cima. Fiz reservas. O progresso deles até lá foi lento. Quando finalmente chegaram ao balcão do bar, ela notou as alcovas nas laterais. Cada uma tinha uma espécie de cortina diáfana para fechar a área, porém a iluminação vinda do fundo deixava as silhuetas das pessoas lá dentro bem nítidas. Graficamente nítidas, percebeu ela quando uma delas tirou a blusa e pressionou os seios contra o rosto de um sujeito. Delaney sentiu o rosto queimar, um zunindo soando em seus ouvidos. Ela nunca havia se considerado uma voyeur. Contudo, não conseguia desviar o olhar da exibição sexual. A mulher empurrou o sujeito para que ele se inclinasse para trás, ficou de pé e requebrou um pouquinho para poder erguer a saia. Então, sentou-se no colo dele. Delaney piscou, então arfou e puxou a mão de Nick. – Eles não sabem que estão sendo vistos por todos? – perguntou ela, sem se importar se soava como uma bobinha ingênua. – Aquela cortina não esconde nada. Ele olhou para ela, então seguiu o olhar dela até as alcovas exibindo silhuetas de casais em diversas posições um tanto íntimas. – Tenho certeza de que sabem. Eles provavelmente não se importam. – Nick semicerrou os olhos em tom de especulação. – Por quê? Isso incomoda você? – Não sou eu que estou com o traseiro nu reluzindo assim – disse ela, com um dar de ombros casual fingido. – Se eles não se incomodam, então definitivamente não é problema meu. Incapaz de se conter, ela olhou para o casal mais uma vez, os movimentos sincronizados à pulsação da música e das luzes. Era quase como uma performance. 90


– Isso é parte da excitação – comentou ela. – Saber que estão sendo vistos. – Isso – concordou ele, depois de fornecer seu nome ao grandalhão que estava aos pés de uma escada fechada – e a emoção de saber que estão burlando a lei. Atentado ao pudor, essas coisas. O segurança, um sujeito tão grande que Delaney queria lhe cutucar os bíceps só para ver se eram de verdade, abriu o portão para eles. Delaney se sentia como Alice no país proibido das maravilhas. Nada ali era como ela estava acostumada a ver em seu mundo real. O olhar demorado de Nick para ela a fez sentir como se fosse ela a pessoa com o traseiro nu atrás da cortina. Foi um olhar além de toda a maquiagem que ela usava, a fachada cuidadosamente construída, e que mergulhou diretamente em sua alma. Ele se abaixou, levando a boca aos ouvidos dela. O calor suave de seu hálito lhe enviou arrepios pela espinha. – Isso é luxúria – disse ele. As palavras foram suaves, mas ela conseguiu ouvi-las facilmente por cima música ressonante, da cacofonia de vozes. Mais ainda, ela as sentiu penetrar seu corpo com um dedinho brincalhão, incitando um desejo desesperado, arrebatador. ∗∗∗ Luxúria crua, 91


desenfreada, do tipo “não ligo a mínima para quem está nos assistindo”, do tipo “faça sexo comigo agora”. É sobre isso que eu escrevo. A dança erótica entre homem e mulher. A exploração para ver até onde um pode levar o outro, para ver até onde os sentidos podem enlouquecêlos. Ignorando o segurança imenso, Nick inclinou a cabeça para um lado e lançou a ela mais um daqueles olhares demorados, sensuais, capazes de derreter até os ossos. – Pode admitir agora, se quiser. Sem a aventura, não há como existir sexo real entre nós. Apenas admita que o sexo bom tem a ver apenas com luxúria. Delaney estava tão excitada que foi preciso uns bons dez segundos para as palavras dele ao menos penetrarem na névoa de luxúria no cérebro dela. Então aquilo tudo era por causa da aposta? – Você só pode estar brincando, não é? – perguntou ela, chocada. Ela nunca cedera na vida. Raramente perdia, então o conceito de simplesmente desistir e ir embora não fazia sentido algum. É claro, todos os desafios que ela enfrentara tinham sido no meio acadêmico, então ela estava reconhecidamente fora de sua zona de conforto ali. Olhou para a alcova outra vez, a cabeça da mulher agora estava jogada para trás enquanto ela se movimentava rápida e freneticamente no próprio ritmo, e não no da música. Nick seguiu o olhar dela. – Tem certeza? Sinceramente, não vejo como você vai encontrar uma argumentação melhor que a minha. Nem Delaney. Mas ela encontraria uma refutação. Em algum momento. Por enquanto, simplesmente se agarraria ao seu argumento de sempre. E, é claro, se seguraria para não pular 92


em cima de Nick implorando a ele para lhe aliviar a tensão sexual que se revolvia em seu baixoventre. – Estou muito segura da minha opinião ∗∗∗ disse ela lentamente, encontrando os olhos dele. Mais uma vez, não havia nenhum regozijo ou alegria no olhar cristalino dele, só um questionamento, e talvez um respeito oculto. – E, ao mesmo tempo em que estou lhe dando crédito por ter encontrado um lugar repleto de luxúria, como você sabe que aquele casal simplesmente não é adepto do sexo em público? Eu não acho que eles iam gostar se interrompêssemos para perguntar se é o primeiro encontro deles. – Argumento interessante. – O sorriso dele veio lento, malicioso e tentador. Com um meneio de cabeça, Nick indicou o portão que o segurança ainda estava mantendo aberto e disse: – Sendo assim, vamos continuar a aproveitar nosso encontro, não é? NICK SEGUIU Delaney pela escadaria acarpetada, o olhar traçando os contornos da curva sedutora de suas costas, que estavam nuas naquele vestidinho de seda, descendo até o requebrar dos quadris, digno de fazer a boca encher d’água. O olhar dela quando vira o casal mandando ver na alcova fora impagável. Nick não tinha planejado que aquele tipo de coisa fosse ocorrer, mas sabia que era uma forte possibilidade. Aquela boate tinha a reputação de fazer vista grossa para as inclinações dos clientes, contanto 93


que houvesse uma pseudossaída para o gerente, como a alegação de que as alcovas eram para conversas e que as cortinas garantiam privacidade. Ele, honestamente, não tinha a intenção de oferecer a ela uma oportunidade de cancelar a aposta, mas se sentia tão canalha, arrastando uma ovelhinha inocente para um bando de lobos excitados, que dissera aquilo sem pensar. – O sobrenome é Angel – disse Nick à recepcionista, quando chegaram ao topo da escadaria. Assim que ele pôs a mão sobre a curva suave do quadril de Delaney enquanto seguiam a recepcionista, ficou muito feliz por ela ter jogado a oferta na cara dele. Não que ele sentisse que intimidade ou qualquer um dos disparates pretendidos por ela fossem tão vitais. Mas tinha de admitir, apenas para si, que ele estava mais interessado em Delaney do que estivera por qualquer mulher de seu passado. Ambos murmuraram um agradecimento à recepcionista quando ela indicou a mesa deles. Nick olhou ao redor e assentiu. Perfeito. Ambos estavam isolados, nos fundos de uma varanda envidraçada, com uma visão clara da pista de dança. O vidro bloqueava o barulho, então era como assistir a uma orgia virtual de corpos emaranhados em um rito sexual. Ele olhou para Delaney para ver se ela havia notado, mas ela estava olhando, boquiaberta, 94


para as dançarinas dentro das gaiolas naquele mesmo piso. Quatro mulheres, todas bem untadas com óleos e flexíveis, esfregando suas partes em mastros de aço cromado. Diferentemente dos homens em geral, que demonstrariam apreciação automática por aquela pele feminina tonalizada pelo óleo, Nick estava bem alheio ao espetáculo. Mas Delaney não. Ela parecia corada e seus olhos estavam arregalados enquanto ela adentrava na cabine mal-iluminada. Nick a notou requebrando levemente, como se estivesse se imaginando em volta de um daqueles mastros, deslizando para cima e para baixo. Ele imaginou como ela ficaria ali, aquelas longas pernas maravilhosas, nuas e escorregadias, e se remexeu na cadeira. Droga. Um ambiente cheio de mulheres seminuas e ele não tinha qualquer reação, e o simples pensamento das pernas nuas de Delaney e ele estava excitado. Depois de tanto esforço para demonstrar indiferença. – Você vem sempre aqui? – perguntou Delaney, numa tentativa óbvia de aparar as arestas de tensão sexual se projetando ao redor. Assim que as palavras saíram, ela lhe lançou um olhar arrependido e revirou os olhos. – Isso é uma cantada pronta, não é? Deve ser a atmosfera, colocando clichês na minha cabeça. Sentando ao lado dela no banco, Nick olhou para o verdadeiro açougue lá embaixo e deu uma risada. Ela estava certa. – Só estive aqui uma vez – admitiu ele. – Foi para pesquisa. Esperemos que a atmosfera não tenha jorrado clichês no meu livro. Ela olhou ao redor, umas ruguinhas bonitinhas lhe enfeitando a testa. Então a boca ficou em formato de “O”, o movimento dando uma pontada de luxúria bem no meio do peito de Nick. O

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que era mais fascinante? A boca ou a mente de Delaney? – Laço de carrasco, certo? – Ela largou o cardápio e se inclinou para a frente, um movimento que ele viera a reconhecer como sua pose para discussões. – Um livro brilhante. Você usou o ambiente de um jeito tão eficaz, criando drama e... bem, terror repentino. Não tem nada de clichê naquele livro. Ah, sim, Nick sorriu de prazer. A mente dela era mais fascinante. Muito mais. É claro, não era nada mau também o fato de ela vir em uma embalagem tão linda, com aquela boca deliciosa incluída. Ele esticou a mão para tocar o contorno da mão dela, notando as unhas benfeitas. Delaney obviamente era uma mulher que sabia como se portar. – E, mesmo assim, você alegou que as cenas de amor eram... como foi mesmo que você disse? Emocionalmente rasas? Ela comprimiu os lábios por um segundo. Ele pensou ter sido de vergonha, até perceber o humor oscilando em seus olhos. – Para ser exata, eu disse que eram eroticamente carregadas, mas emocionalmente rasas. Você poderia diminuir esse beicinho 96


caso se lembrasse da primeira parte também. Beicinho? Nick se sentiu tateando o próprio tórax para ver se tinha desenvolvido seios. – Não sou uma garota, não faço beicinho. – Do quê chama isso, então? Você obviamente ficou chateado com minhas resenhas, embora eu fique perplexa com o fato de elas terem captado mais atenção de sua parte do que as resenhas dos grandes jornais e revistas. Você ficou tão fora de si que viajou até a costa leste só para me confrontar na TV. – Ela arqueou uma sobrancelha. – Você até mesmo arquitetou toda a coisa da aposta antes mesmo de colocar os pés no estúdio. – Nem toda – admitiu ele, enquanto seu dedo trilhava na pele macia do braço dela até o ombro, nu sob a alça fininha de seda. – Se você se recorda, foi você que estipulou os parâmetros da aposta, os critérios para definir o vencedor e tudo o mais. – Exatamente como você queria que eu fizesse. Mais um ponto para ela. Nick não se deu o trabalho de discordar, afinal ambos sabiam que ela estava certa. Em vez disso, deslizou sua mão errante pela curva do pescoço dela, deslizando os dedos pelos cachos. – Há muitas outras coisas que quero que você faça – murmurou ele. – Que tal se a gente verificar se você está aberta a alguma delas? O calor lampejou nas profundezas castanhas dos olhos dela, como chocolate derretido. Ele aguardou para ver se ela recuaria. Em vez de disso, Delaney lambeu os lábios e inclinou a cabeça para um lado, como se decifrando um quebra-cabeça. Ele conseguia enxergar sua pulsação, que batia claramente sob 97


a pele deliciosamente aveludada do pescoço. – Por que não me mostra algumas? – falou ela finalmente, num sussurro rouco e delicado. Nick mal conseguia escutá-la acima do barulho da boate, porém o corpo dele reagiu instantaneamente. Sem uma palavra, a boca dele tomou a dela, um deslizar escorregadio nos lábios doces pintados de gloss. O sabor dela era... perfeito. Ele nunca sentira nada tão perfeito. Enquanto ele ainda estava absorvendo o choque, ela se tornou voraz. Colocando uma das mãos atrás da cabeça dele, e a outra em seu peito, a boca de Delaney assumiu o controle, levando Nick a um passeio ousado, selvagem e repleto de prazer. Nick a agarrou com as duas mãos e tirou o máximo proveito da paixão dela. As mãos dele mergulharam fundo no cabelo de Delaney antes de ele deslizar uma delas pelo seu corpo, lenta e gentilmente. Os dedos roçaram no seio, se deleitando em seus arfares acelerados. Uma das palmas se fechou sobre o recuo delicado da cintura, então desceu mais além, até a maravilha luxuriosa da perna longa e macia. Nick gemia de encontro à boca de Delaney enquanto a mão agarrava uma coxa nua. Ela se contorceu, de modo que uma das pernas ficou inclinada para ele, e a outra se posicionou ao longo da panturrilha de Nick. Ele a puxou para mais perto, mudando de posição para protegê-los dos olhares do restante das pessoas. Delaney agarrou os ombros dele, massageando-lhe a pele como um gato satisfeito. Ele queria ver se era capaz de fazê-la exibir aquelas garras, deixá-la louca até a paixão dominar aquele cérebro sexy dela. Repentinamente obcecado em fazê-la desejá-lo tanto quanto ele a desejava, Nick aprofundou o beijo. Enquanto ele explorava as profundezas delicadas de sua boca, a mão lhe acariciava a perna. O tecido pesado do vestido bordado foi um contraste intenso à pele sedosa quando os dedos dele mergulharam por baixo, buscando o calor úmido garantido para levá-lo ao limite. Os dedos acariciaram uma vez, então duas, no cós de renda que arrematava a calcinha de seda. 98


Os dedos de Delaney apunhalavam os ombros dele, e uma das mãos desceu rapidamente para agarrar o pulso de Nick em protesto. Quando o membro dele fez uma pressão exigente e dolorosa de encontro à braguilha de sua calça, Nick passou a língua nos contornos dos lábios de Delaney, acalmando-a com beijos suaves até ela o soltar. Lentamente, tão lentamente que estava acabando com ele, Nick deslizou os dedos para debaixo da renda elástica da calcinha dela. Delaney suspirou profundamente de prazer quando ele encontrou os cachos úmidos aguardando por ele, o calor oferecendo uma recepção erótica. Ele a sentiu ofegar de encontro à sua boca, o corpo enrijecendo, mesmo quando ela chegou mais perto dos dedos curiosos dele. Nick molhou o dedo, só a pontinha, no calor suculento e o rodopiou sobre a carne intumescida e hipersensível que sua boca ansiava para provar. O gemido dela fez o membro dele inflar em resposta. Ele precisava possuí-la. Agora. Mas não ali. Infelizmente, Nick recuou a mão devagar e agarrou a coxa dela outra vez. Línguas se enredavam, lábios provocavam, dentes mordiscavam. Os sentidos dele a preenchiam. A mão dele se embolava no cabelo dela. O lado são e domesticado do cérebro dele avisava que estavam em público, e na iminência de apresentar um showzinho similar àquele na alcova do andar de baixo. O lado excitado e selvagem dele berrava que não dava a mínima. Nick precisava sentir o corpo dela de encontro ao dele, ver como se encaixava, como ela era. Ele iria enlouquecer se não o fizesse. Logo. Sabendo que, se não fizesse aquilo agora, ele não conseguiria mais, Nick se afastou de Delaney. O gemido suave em protesto o fez querer dar um tiro naquela voz sensata e buscar o prazer.

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– Vamos sair daqui – disse ele. Os enormes olhos castanhos o encararam, uma emoção indefinível à espreita sob o desejo. Então ela piscou e foi como observar uma janela aberta. Ele conseguiu enxergar o segundo exato em que o cérebro dela voltou a funcionar, afastando o desejo e raciocinando sobre o que havia acabado de acontecer. Não era surpresa alguma ser ele a pessoa a argumentar a favor da luxúria. Aquela mulher era o controle em pessoa, o que só o deixou mais ávido pelo momento em que a fizera relaxar completamente. – Não precisamos pedir bebidas? Você mencionou alguma coisa sobre consumação mínima – perguntou ela suavemente, a voz estridente e rouca, como se ela precisasse pigarrear, mas se recusasse a lhe dar tal satisfação. Ele estava satisfeito, de qualquer modo, e sabia que seu sorriso triunfante demonstrava isso. Afastar-se era difícil, mas ele soltou a coxa dela e procurou sua carteira. Tirando uma nota para cobrir o valor das bebidas que não pediram, ele a jogou na mesa e saiu da baia. – Vamos, vamos sair daqui – disse Nick. Ele estendeu a mão, aguardando a decisão dela. Ambos sabiam que aquilo era mais do que uma pergunta sobre ela estar pronta para ir embora da boate. A aposta, a única com a qual ele se importava no momento, pairava entre eles. Ele não ia implorar, mas estava apavorado por desejar fazê-lo. Então observou Delaney inspirar profundamente. Ela pegou a mão dele e saiu da baia também. – Você está certo – concordou ela. – Está na hora. Capítulo Sete SE NICK tinha desejado colocar em prática a fantasia do sexo-no-banco-de-trás-da-limusine, ele escondeu sua decepção. Delaney não estava nem de longe lidando tão bem com suas emoções. 100


Ela preferia ficar furiosa. Diabos, ela estava furiosa. Ele a apalpara em um local público. Então se afastara, os dedos ainda úmidos com as secreções dela, como se interromper o ato não o tivesse afetado em nada. Bem, afetava a ela. E agora ela queria provar, para si e para Nick, que ele fora afetado, sim. Mas, mesmo enquanto tentava se convencer a ficar com raiva, ela só conseguia pensar no beijo dele. A sensação, a textura, o poder. Ela passou a língua no lábio superior, desejando provar Nick novamente, ansiando pelo sabor. Mas estava com medo, apavorada. Caso se rendesse a um beijo, ou a um toque, ela não seria capaz de parar. O que iria provar o argumento dele, não é? A luxúria iria vencer? Ela quase gargalhou quando percebeu que a única coisa que a impedia de fazer sexo quase público no banco traseiro do veículo em movimento não era o senso de decoro ou pudor. Era seu ego, sua recusa em perder a aposta tão facilmente. Isso e uma preocupação extrema de que, apesar de toda sua pesquisa, ela pudesse falhar em seu primeiro teste prático. – Consigo enxergar sua mente trabalhando daqui – murmurou Nick, ao lado dela. – O que está havendo? Delaney abriu a boca, com a intenção de repelir a pergunta. Então deu de ombros. – Para você – respondeu lentamente –, isso se resume à aposta. – Ele balançou a cabeça, obviamente se preparando para protestar, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, ela continuou: – Mesmo que essa aposta não seja o motivo principal por trás de seu interesse, ela ainda existe. Será que você não está dando esse passo simplesmente para provar seu argumento de que a luxúria é mais forte que a intimidade? Pelo menos aí, dentro da sua cabeça? – Aceitar a aposta – corrigiu ele – não tem a ver só com provar um argumento. Tem a ver com a exploração dessa atração explosiva entre nós. Ele lhe ofereceu um segundo para negar caso ela quisesse fazê-lo, mas Delaney não ia mentir. Ela simplesmente ergueu uma sobrancelha, desafiando-o a prosseguir. Nick sorriu e, quebrando o pacto silencioso de manterem as mãos longe um do outro durante o trajeto no carro, se esticou para enredar os dedos aos dela. Foi como ser ligada em um aquecedor de alta voltagem, faíscas 101


se acendendo em sua palma antes de começarem a zunir pelo restante do corpo. – Eu não teria criado a aposta, Delaney, se não estivesse intrigado com você. Atração não é o suficiente. Pelo menos não para me deixar interessado por uma mulher a ponto de acuá-la em um canto e usar uma aposta para fazê-la dormir comigo. – Você é um homem esperto e, como você mesmo já disse, palavras são sua especialidade. Eu duvido que já tenha recorrido a uma cantada banal. – Para uma mulher que alega acreditar no poder das emoções, você é terrivelmente hesitante na hora de confiar em si – rebateu ele. – Estou supondo que você esteja com medo. É medo de eu estar certo? Ou do sexo em si? Antes que ela pudesse responder, o carro parou em frente ao seu prédio. Sempre um cavalheiro, Nick saiu e então estendeu o braço para dar a mão a ela. Nick pediu ao motorista para aguardar, então pôs a mão no quadril de Delaney para guiá-la até o prédio. Ela aproveitou o silêncio, quebrado apenas pelo ressoar de seus saltos enquanto cruzavam o salão, para organizar os pensamentos. Medo de sexo uma ova. A hesitação dela em dar vantagem a Nick na aposta original saiu pela janela quando a determinação a preencheu. Ele achava que venceria? Que ela iria fugir do sexo? Aha. Ela mostraria a ele. Agora que havia tomado uma decisão, sua mente girava em um milhão de direções. Será que o peito dele era lisinho ou levemente salpicado com pelos? Será que ele gostava de fazer com força, rápido e selvagem, ou de forma lenta e meiga? Diabos, de que jeito ela gostava? Delaney não sabia, mas tinha certeza de que seria incrível dos dois jeitos. Ela aguardou até chegarem no elevador, ficou observando as portas se fecharem e então se virou para encarálo. Os lindos olhos azuis estavam cálidos, mas debaixo da tepidez havia traços de perturbação. Ele obviamente era um homem versado em enterrar suas emoções. Ou possivelmente estava acostumado a ser decepcionado. Ela arquivou aquela dúvida para explorá-la em outro momento.

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Então mergulhou em direção a ele. Os olhos de Nick brilharam de surpresa antes de a boca delicada se fechar sobre a dele. Um calor intenso flamejou, quente e alto. A mão dele foi vigorosa na cintura dela quando a puxou para mais perto, a outra enterrada nos cachos ruivos para arquear a cabeça dela e expor mais os lábios para ele. Delaney gemeu de prazer quando a língua de Nick enterrou fundo para dançar junto à dela. Recebeu os movimentos, investida a investida. As mãos dela estavam sobre o peito dele, pressionando, acariciando. Ela precisava de mais. Queria tudo. Os dedos agarraram o bíceps dele, a luxúria se derramando dela como um mel quente e pegajoso ao sentir o músculo sólido como rocha. O desejo desesperado, impaciente, exigia alívio. Delaney se aproximou mais, os seios colidindo contra o peito dele. Não era o suficiente. Ela enrolou uma perna em torno da coxa rija dele, esfregando em leves ondulações, tentando encontrar alívio para aquela pressão que espiralava com força dentro dela. A paixão deles chegou a um limite que Delaney nunca havia sentido. Com Nick, ela era livre. Poderia exigir o que quisesse e ele não fugiria dela. Não iria mandá-la embora. Em vez disso, ele encararia as exigências dela, apresentando algumas das suas também. O beijo dele chegou a um ponto mais rude, com mordiscadas. Os dedos envolveram os ombros dela, afastando-a gentilmente antes de abaixar e capturar um seio. Delaney soltou um gemido agudo de aprovação quando ele afastou o tecido para encontrar o mamilo ávido. Os dedos puxavam e apertavam, fazendo-a latejar. – Mais – arfou ela, de encontro à boca dele.

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– Em breve – prometeu ele. Então se afastou. Ofegante, ele retirou a perna dela de sua coxa e assentiu para a porta do elevador, que estava aberta e esperando. Delaney não conseguiu nem mesmo olhar para ver se alguém poderia tê-los visto. Ela só queria entrar no apartamento o mais rápido possível. Ela pegou a bolsa do lugar no elevador onde a havia jogado, caçando as chaves enquanto se apressava pelo corredor. Podia sentir Nick logo atrás de si, mas não o encarou. Não podia, ou seu cérebro poderia voltar a engrenar. Ela não queria arriscar a, possivelmente, arruinar o clima. À porta, deixou as chaves caírem. Abaixou-se para pegá-las e deixou cair outra vez. A mão de Nick se fechou sobre a dela quando Delaney se abaixou outra vez. Ela deixou que ele pegasse o chaveiro. Levantou-se e, de olhos fechados, se recostou contra a parede enquanto ele destrancava a porta. Assim que a porta foi aberta, Delaney suspirou profundamente e encarou Nick. Pelo olhar dele, teimoso e desafiador, ele queria tudo. Rendição física e verbal. – Entre – convidou ela, baixinho.

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– Tem certeza? O medo, intenso e mordaz, cortou a paixão que enevoava seu organismo. Mas não foi o suficiente para impedi-la. – Entre. – Desta vez ela exigiu. Sem aguardar pela resposta dele, passou pela porta e jogou a bolsa e a capa sobre a poltrona mais próxima. Virando-se, ela o observou retirar o celular do bolso e discar um número. Enquanto ele dispensava o motorista, ela o encarava. Recordando tudo que havia lido sobre sedução, todos os manuais de sexo, os romances apaixonados e eróticos, isso sem mencionar os livros do próprio Nick, ela sabia que precisava assumir o comando. E assim o fez. Enterrando o pavor sob seu verniz frágil de sofisticação, ela passou os braços na frente do corpo e então enganchou os dedos nas delicadas tirinhas do vestido, deslizando-as pelos ombros. O tecido sedoso passou pelo peito, desnudando os seios sem sutiã para Nick ver. Os olhos dele, sombrios e de um azul intenso, observavam, como se ele estivesse enfeitiçado. Ela terminou de soltar as tiras, deixando que a gravidade fizesse o restante. O vestido desceu como uma cachoeira pelo corpo dela, deixando Delaney de pé diante de Nick usando apenas uma calcinha sumária de renda preta e os saltos altos. Sem se despedir, ele desligou o celular, jogou-o no chão e fechou a porta. Dois passos depois, e ele estava diante dela. O fôlego de Delaney retornou aos pulmões quando ele se pôs de joelhos. Os dedos de Nick envolveram os tornozelos dela. Quando ela começou a tirar os sapatos, ele a impediu com um leve meneio de cabeça. Nick passou os dedos 105


pelas panturrilhas, tão delicada e gentilmente que ela quase choramingou diante do gesto. Quando chegou à parte de trás dos joelhos, encostou o rosto em sua barriga. Realmente grata por seu corpo de Olívia Palito, com seus contornos esguios e nenhum sinal de gordura, Delaney fechou os olhos e jogou a cabeça para trás, os dedos envolvendo o cabelo dele enquanto Nick lhe beijava a barriga com os lábios entreabertos. Ela era pura sensação. A sensação dos dedos dele, agora alisando a traseira de suas coxas, para então lhe agarrar o traseiro, o calor úmido dos lábios de Nick enquanto desenhava padrões no baixo-ventre. Quando ele passou a língua ao longo do cós elástico da calcinha, os dedos deslizando sob a seda para lhe agarrar o traseiro e puxála para mais perto, Delaney gemeu baixinho. – Gosta? – murmurou ele, de encontro à pele dela. Delaney assentiu. Então suas pernas bambearam quando a língua de Nick viajou pela parte interna da coxa, subindo e descendo. Ela tentou se recostar no sofá, mas os dedos dele lhe agarraram o traseiro, obrigando-a a se manter de pé. Obrigando-a a se concentrar. A respiração de Delaney se transformou em arfares suaves, o calor rodopiando em seu ventre. Ela não fazia ideia de que o prazer poderia ser tão intenso, tão ousado. Tudo que ela queria, precisava, era que Nick desse fim ao tormento, fizesse algo a respeito do desejo que espiralava dentro dela. – Mais – exigiu ela, num sussurro rouco. – Você está me deixando louca. Eu quero mais. Preciso que você me leve às alturas. – Com prazer – prometeu ele, enquanto seus dedos baixavam a calcinha pelas coxas, as unhas curtas arranhando em um contraponto erótico ao deslizar macio da seda. De olhos fechados, Delaney sentia, a cada vez, a reação dele à sua nudez. O corpo dela, já aquecido e pronto, esquentou ainda mais. Os pelos entre suas pernas foram de úmidos a encharcados. Os mamilos, já arrepiados, alcançaram uma rigidez dolorosa, ansiando pela atenção dele. Será que ele iria lhe tocar os seios? Será que iria provar seu centro úmido? Ela sabia que ele faria tudo isso, mas o que viria primeiro? A curiosidade e impaciência a faziam querer gritar, mas ela não abriu os olhos. Então ele a tocou outra vez. O toque leve como um sussurro quando o hálito dele lhe aqueceu a 106


barriga e os dedos trilharam pelos quadris, até a cintura e então mais alto ainda, para lhe abarcar os seios. Os dedos dele trabalhavam magicamente, tanto acariciando quanto torturando os mamilos. Delaney não conseguiu conter o gemido. Ela se contorceu, a pressão crescendo entre as pernas. Ignorando seu pedido silencioso, Nick roçou delicadamente, dando-lhe beijos provocantes na barriga, então desceu até uma das coxas. Abandonando os seios, ele lhe entreabriu as pernas. Ela reposicionou os pés, oscilando um pouco nos saltos altos. Colocando cada mão atrás de cada joelho dela, Nick continuou a lhe beijar as coxas. Delaney não conseguiu aguentar, e teve de olhar. Entreabrindo os olhos, ela olhava para Nick enquanto ele a observava. Os olhos dele estava de um azul-vítreo, brilhante, lampejando pelo rosto dela enquanto sua mão traçava uma linha pela coxa, acariciando e provocando ao mesmo tempo. Quando ele tocou seu centro feminino, fixou o olhar ao dela e trilhou um dedo pelas camadas, circundando a carne úmida. Um raio de desejo a atingiu, fazendo-a arfar. A satisfação reluziu nos olhos dele. Aquele olhar, o triunfo silencioso que dizia que ele detinha o controle sobre o corpo dela, ligou um interruptor em Delaney. – Quer que eu prove você? – perguntou ele. – Quer que eu lamba você, que eu lhe dê prazer com 107


minha boca? Delaney não tinha problemas em lhe ceder poder naquele joguinho, mas maldita fosse se não quisesse aquilo também. Anos de opressão à paixão, ao seu temperamento, foram jogados fora. Delaney assumiu o controle. Ela deu um passo para trás, agarrou os ombros de Nick e eles mudaram de posição. Ainda no chão, ele ficou contra o sofá enquanto ela assomava acima dele. – Quero que você me enlouqueça – disse, de forma arrastada. – Desafio você a me fazer perder a cabeça. A parar de pensar. Você é bom o suficiente para fazer meu corpo anular meu cérebro? O sorriso dele veio rápido e malicioso. Obviamente adorando o desafio, ele se reposicionou. Segurando o tornozelo dela, Nick o ergueu de modo que ficasse apoiado no respaldo do sofá, bem acima do ombro dele. O olhar, e os dedos dele, viajaram em um deslizar lento e delicioso pela perna de Delaney. Ele deu vários beijinhos na panturrilha. Quando respirou o ar úmido e quente de encontro à traseira do joelho dela, Delaney teria perdido o equilíbrio se não estivesse se segurando no ombro dele. – Prove-me – arquejou Delaney. Ela não queria a corte bonitinha das preliminares. Queria um passeio quente e intenso. E queria agora. – Use sua língua, Nick. Deixe-me louca. Se conseguir. Fim da brincadeira. Os olhos de Nick ficaram cor de cobalto, e ele soltou a perna dela, de modo que ficasse apoiada em seu ombro. Sem mais delicadezas, roçou o dente na coxa dela. Os dedos e a língua, quentes e habilidosos, rumaram ao clitóris. Lambendo, sugando, mordiscando. Aqueles fogos de artifícios tão míticos brilharam detrás das pálpebras fechadas de Delaney quando ela envolveu o joelho mais fortemente em torno do ombro dele para manter o 108


equilíbrio. Girando e golpeando, o dedo e a língua trabalhavam em conjunto para levá-la mais longe, deixá-la louca. Mais. Ela precisava de mais. Com uma das mãos segurando o cabelo dele, usava a outra para beliscar o próprio mamilo ávido. A pressão cresceu, mais intensa. Nick desacelerou a língua, os dedos ainda rodopiando dentro dela, pressionando mais fundo. Então, sem aviso, ele lhe mordiscou o lugar mais sensível. O choque, a dor maravilhosa, a atingiram feito um furacão. Ela gritou chorosamente quando seu corpo inteiro convulsionou, o prazer invadindo tudo, levando-a para longe. O orgasmo não parou. Nem a língua dele. Movimentos curtos, voltas suaves. A mão de Nick havia substituído a dela no mamilo, pois Delaney estava se firmando com as duas mãos atrás da cabeça dele. – Ai, meu Deus – arfou ela. – Ainda consegue pensar? – perguntou ele, a respiração quente e ofegante de encontro à coxa úmida dela. Delaney deu uma risadinha. – Estou pensando no quanto isto foi bom – confirmou ela. – Não está bom o suficiente. Quero você insana de tanto prazer. Ela estremeceu, deixando os dedos trilharem os traços severos do rosto de Nick. Ele era tão quente, tão sensual. Tão lindo. E por enquanto era todo dela. 109


Do jeito que ela quisesse. – Quero sentir você dentro de mim – disse a ele. – Quero tudo, e depois quero de novo. Em um instante, ele estava de pé e tirando a roupa. As roupas voaram para os lados, Delaney o ajudando com puxões e rasgões no tecido. Ela precisava senti-lo, provar sua carne rija e macia. Antes que pudesse fazê-lo, no entanto, ele a colocou no chão. Ajoelhados, Nick ergueu uma sobrancelha fazendo a pergunta óbvia. O poder e a escolha eram dela. Droga, ela adorou aquilo. Delaney o empurrou, de modo que ele se deitou de costas no chão. Então, após um breve chicotear da língua sobre a ponta rija como pedra, ela deslizou para cima do corpo dele. A boca tomou a dele com um desejo voraz, línguas brigando por controle. Sempre que Nick parecia pensar ter vencido, Delaney mudava as posições. Com um deslizar breve, ela recebeu o membro rijo e latejante dentro de si. Gemeu de encontro à boca dele com o prazer do ato. Nick estremeceu, as mãos agarrando a cintura dela. Delaney se ajeitou, olhando para ele. Lentamente no início, ela cavalgou. Para cima. Para baixo. Ele colocou as mãos nos seios dela, os dedos brincando com os mamilos túrgidos no mesmo ritmo dos movimentos de Delaney. Com a respiração ofegante, o orgasmo simplesmente fora de alcance, Delaney sacudiu, ondulou, necessitando de libertação. Sentindo que ela estava chegando lá, as investidas de Nick se intensificaram. As pernas dela o agarraram, como se ela pudesse ordenhar o prazer dele com suas coxas. Assim, no limite, Delaney estava prestes a chegar ao ápice. Nick se movimentou, rápida e intensamente, e a tirou de cima dele. Com Delaney tendo espasmos de prazer entre as pernas, ele sorveu as secreções, a língua e dedos fazendo-a gritar. E a mente de Delaney apagou. 110


MESMO CONHECENDO o poder do sexo como conhecia, Nick ficou chocado com a intensidade com que reagiu ao prazer de Delaney. Seu membro, já rígido e úmido por causa das secreções dela, estava dolorosamente inflado. Ele precisava possuí-la. Agora. Ele levou a mão à boca, lambendo a essência dela de seu dedo. – Deliciosa – murmurou ele, quando os olhos dela turvaram. Torturando a ambos, ele ficou de pé. Precisava provar-se capaz de se afastar antes que perdesse a cabeça. Num movimento fluido, ele ergueu o corpo nu dela, úmido e suado, colocando-o na beira do sofá. Era a vez de ele tomar o controle. Nick não teve pressa, deleitando-se no comprimento maravilhoso da perna dela enquanto acariciava desde a coxa úmida até a curva delicada do tornozelo. Ele ficaria sonhando com as pernas de Delaney durante anos. Ele segurou um tornozelo, então o outro, e os colocou sobre seus ombros. A visão por si só quase o fez chegar ao clímax ali mesmo, no sofá. Intumescidos e reluzentes, os lábios dela faziam um beicinho de boas-vindas. Com as mãos sob os quadris dela, Nick a ergueu, dando um último beijo naqueles lábios.

O calor almiscarado, o sabor maravilhoso que era exclusivamente dela, preencheram os sentidos de Nick. O gemidinho de satisfação dela foi tudo que ele conseguiu suportar. Nick pegou o pacote de preservativos que havia deixado no sofá quando se despiu e o vestiu. Então, soltando Delaney até que apenas os tornozelos ficassem apoiados nos ombros dele, deslizou para dentro dela em 111


uma única e poderosa investida. O grito arfante dela preencheu o cômodo. Necessitando se movimentar, ir mais depressa, Nick impôs um ritmo veloz. Com as mãos nos quadris dela, segurava-a quietinha enquanto investia e saía, voltando a entrar. Ele observava a reação dela com olhos semicerrados. Não podia atingir o clímax antes dela, e estava chegando mais perto a cada investida. Os seios dela, tão pequenos e perfeitos, inflavam e baixavam a cada arfada. Ele queria tocá-los, envolver os mamilos com a boca, mas estava muito longe. Como se ouvindo os pensamentos dele, Delaney se impulsionou de encontro às mãos dele. Quando Nick mostrou que não iria soltá-la, mantendo-a prisioneira de seu ritmo, ela agarrou as almofadas e então levou as mãos aos próprios seios, girando os longos dedos em volta das pontas rosadas. Nick desacelerou, perdendo o ritmo. Os olhos dela se abriram e se fixaram nos dele. Delaney os estreitou, observando-o atentamente enquanto pinçava os mamilos entre os dedos. Ele gemeu. Ela deu um sorrisinho, então ergueu um dedo para enfiá-lo na própria boca e sugá-lo. Ele engoliu em seco quando ela retornou o dedo molhado para o mamilo, pincelando e girando cada vez mais rápido. Incapaz de fazer de outro modo, ele acompanhou o ritmo dela. Mais rápido, entrando e saindo. A respiração dela vinha em espasmos agora, os tornozelos pressionando os ombros dele com força enquanto ela arqueava as costas. Quando ela apertou os seios juntos, exprimindo seu prazer, ele se rendeu ao próprio prazer. As paredes internas dela se contraíram em torno do membro quando ele chegou ao ápice, derramando-se dentro dela. A intensidade de sua libertação arrancou um berro dele. 112


Droga. Nick mal conseguia respirar, soltando os quadris de Delaney para desabar no sofá com ela. Com um movimento, ele reposicionou os dois, de modo que ficou deitado esticado nas almofadas, com Delaney encolhida em cima dele, os braços envolvendo o corpo trêmulo dela. Nick navegou pela onda após o prazer, o corpo relaxando. Ele havia perdido o controle. Totalmente. Ela o havia desafiado a fazê-la parar de pensar, mas ele conseguira? Ah, ele sabia que ela havia se descontrolado. Mas, sem dúvida, tinha sido ela quem comandara. A respiração de Nick desacelerou para o ritmo normal, porém os batimentos levaram um pouco mais de tempo para se estabilizar. Provavelmente porque sua mente continuava a reproduzir as imagens de Delaney quando ela alcançou o êxtase. Ele queria mais. Queria vê-la chegar lá, queria sentir a própria explosão dentro dela. De novo, e de novo, e de novo. Delaney engasgou quando o membro de Nick, pronto para brincar novamente, roçou na perna dela. – Ah, sim – prometeu ele, baixinho. – Vou passar a noite inteira fazendo você enlouquecer. DELANEY SE sentia maravilhosa. Seu corpo estava quente, extravagantemente desejoso e seriamente saciado. Os membros estavam pesados demais para se mexer. Nebulosa por causa do sono, sua mente estava muito mais lenta para despertar. O prazer a inundava, uma satisfação emocional intensa em desacordo com sua irritação normal das manhãs. 113


Ela foi acordada pela mão pouco familiar lhe abarcando um seio. Confusa, tateou a mão, notando os pelos salpicados no braço, o perfume masculino almiscarado preenchendo seus sentidos. Nick. Então tudo voltou à sua mente como uma onda. Nick e o sexo mais incrível de sua vida. Delaney corou até o ponto onde a mão dele estava posicionada, em sua pseudoinocência. O mamilo dela se arrepiou, cutucando a palma dele como se estivesse tentando acordá-lo. Se ele acordasse, faria algo com aquela mão. E ela sabia em primeira mão que as coisas que ele fazia eram maravilhosas. Lembranças da noite lampejaram detrás das pálpebras cerradas, um sorriso malicioso curvando seus lábios. Emoções, doces e ternas, se misturavam à satisfação sexual. Ela queria abraçar o sentimento íntimo e rir. Ela iria se levantar e preparar o café da manhã. Talvez algo doce para que pudessem colocar na boca um do outro. Perguntava-se se tinha alguma frutinha vermelha. Algo que fosse saudável e sensual. Com um suspiro profundo, Delaney se imaginou servindo café na cama. Uma manhã perfeita depois de uma noite perfeita. Meu Deus, 114


eles tinham sido fantásticos juntos. Ela não fazia ideia de onde saíra aquela devassa selvagem, mas adorara. Se os braços de Nick não estivessem em volta dela agora, ela teria se espreguiçado e estremecido de satisfação. Aquilo havia sido, ela percebeu, como algo saído de um dos livros dele. Delaney abriu os olhos de repente. Droga. Tinha sido exatamente como algo dos livros dele. Selvagem, erótico, intenso. Até mesmo luxurioso. O que provava totalmente o argumento dele. E lá estava ela, rindo e pensando em preparar o café da manhã para o sujeito. Como se a luxúria levasse a trocas de olhares sonhadoras por cima dos copos de suco de laranja. Aquilo tinha a ver apenas com a aposta. Ele não havia disfarçado suas intenções, e enquanto, sim, fora sensacional na cama, tinha sido apenas para provar seu argumento. No entanto, saber daquilo não impediu que as lágrimas fizessem os olhos de Delaney arderem. Como ela foi idiota, caindo diretamente na armadilha e provando o argumento de ambos em apenas uma noite. Ele era todo luxúria, e ela automaticamente havia começado a tecer corações e flores na experiência deles, tentando deixar tudo bonitinho. Delaney engoliu em seco, subitamente muito ciente de sua nudez. E, pensou ela enquanto esfregava um dedo no rosto, estava sem sua máscara. Se Nick acordasse agora, ele veria a verdadeira Delaney.

A Delaney de cabelo desgrenhado, rosto limpo, emocionalmente carente e cerebral. Ou, pior, ele não a veria. Afinal, ela tivera anos de invisibilidade por trás de si. Nenhuma delas era aceitável. E 115


ambas eram, tinha certeza, inevitáveis. Ela daria qualquer coisa para ser desejada, desejada de verdade. Ela inteira; o lado cerebral, o lado sensual recém-descoberto e, ela percebia, a garotinha insegura... ela só queria abraços e confirmação de que era importante. Assim que Delaney saiu da cama, com cuidado para não perturbar Nick, ela disse a si que era por causa da aposta que estava escapando para tomar um banho e colocar sua máscara bonita. Mas seu coração sabia que, na verdade, era por medo de que, quando ele desse de cara com seu “eu” verdadeiro, simplesmente olharia através dela, como se fosse invisível. Capítulo Oito TRINTA MINUTOS, uma ducha e uma aplicação de maquiagem completa depois, Nick a encontrou na cozinha. Hora do show. Delaney reuniu a coragem em torno de si como se fosse um escudo e fingiu estar tranquila. Enquanto quebrava ovos em uma tigela, ele pôs as mãos em seus quadris e lhe deu um beijo com a boca entreaberta na lateral do pescoço. Sua ereção pressionou, insistente e pronta, contra a seda fina do roupão, mas ela se obrigou a não o tocar ou lhe dar a atenção merecida. – Café da manhã? – perguntou em um tom jovial, que deveria mandá-la para a cadeia por usá-lo assim tão cedo. – Minha receita secreta de panquecas. Aprendi a fazê-las no internato. Na verdade, são minha única pretensão para a fama culinária, mas acho que você vai gostar. A hesitação dele foi física. Na verdade, ela de fato conseguiu sentir Nick se afastando, repensando seu plano matinal. Então ele deu de ombros, roçando nas costas dela, e se afastou. – Claro. Sempre estou no clima para comer panquecas. – Ela deu uma olhadela quando ele puxou uma cadeira e se sentou, quase babando quando se deu conta da aparência dele. Usando apenas uma cueca boxer, o peito que ela explorara tão meticulosamente na noite anterior estava nu e tentador. Os dedos dela coçavam para sentir o espaço em “V” macio de pelos outra vez, para seguir a trilha, descendo até o abdome rijo e para 116


o cós da roupa íntima. – Também estou no clima para outras coisas – disse ele, num tom rouco. O olhar dela voou para o dele. O azul hipnótico dos olhos de Nick a atraiu, lembrando-a o quanto tinha sido incrível deslizar pelo corpo dele, senti-lo dentro de si, ceder à paixão. Como ela queria muito aceitar o convite sensual, suas palavras saíram mais ásperas do que ela pretendera. – Panquecas é tudo que teremos no cardápio desta manhã, figurão. Você fez a sua jogada, agora é a minha vez. Assim que disse aquilo, Delaney estremeceu mentalmente. Por que ela simplesmente não lhe entregava a calça, lhe dava um tapinha no traseiro e o mandava embora com um “belo trabalho, garanhão”? Nick semicerrou os olhos. O cálculo frio neles deu arrepios em Delaney. – Sua vez? Como assim? Indelicada ou não, ela fez jus às próprias palavras. Precisava fazê-lo. Se não o fizesse, perderia a aposta. Ela não era estúpida o suficiente para pensar que ele se apaixonaria por ela, mas pela primeira vez precisava provar para si que era forte o suficiente para controlar um relacionamento. Que, mascarada ou não, era o suficiente para despertar a atenção de um homem como Nick Angel. – Seu argumento é que o sexo ótimo é baseado em luxúria apenas. Você tem de admitir, o sexo entre nós foi ótimo. Os olhos azuis descongelaram só um pouquinho. – Eu estava começando a me perguntar se você iria alegar que foi unilateral. ∗∗∗ Sério? ∗∗∗ Delaney ficou 117


verdadeiramente chocada. Afinal, fatos eram fatos. Ela franziu a testa enquanto virava a última panqueca em um prato e o levava até onde Nick estava sentado, todo amarfanhado em frustração masculina diante da mesinha aconchegante estilo de bistrô. – Está vendo, isso de fato respalda minha defesa. Fizemos sexo... um sexo ótimo – acrescentou ela rapidamente, quando os olhos dele ficaram gélidos outra vez –, mas, tirando o prazer físico, nós não nos conhecemos. E é por isso que não vou tomar sua alusão como ofensa. Delaney pegou calmamente manteiga e geleia, sem saber de qual ele gostaria, e colocou tudo na mesa. Então se sentou diante de Nick e cruzou os braços. – Mas eu não minto. Nem sou ingênua. Duas características claras em minhas resenhas, que afinal deram início a isso tudo. Você vai perceber isso depois que eu provar meu argumento em nossa pequena aposta paralela. Nick lhe ofereceu um olhar demorado, ainda mais sensual que o de costume, com suas bochechas com barba por fazer e irritação de olhos sonolentos. – O que nos leva à sua vez de jogar, certo? – Certo. – Como você planeja provar seu argumento, então? Vencer a aposta? – A impossibilidade óbvia, para ele, restaurou sua afabilidade de sempre. Ele ofereceu um sorriso a ela e começou a espalhar manteiga e calda sobre suas panquecas. 118


Delaney aguardou até que ele desse a primeira mordida, observando para ver se ele gostava da comida. Seu olhar dizia claramente que sim, o que lhe rendeu uma sensação desconcertante de prazer. – Para o restante de nossa aventura de um mês, vamos apenas sair – disse ela para ele, esperando que seu tom tenha soado mais implacável do que como um pedido de desculpas. – Não vamos fazer sexo. A EXPLOSÃO chocada da gargalhada o atingiu com tanta força e tão depressa que Nick quase expeliu migalhas de panqueca pela mesa. Ele precisou tossir, piscando para clarear seus olhos cheios d’água. – Você está brincando, certo? O sexo entre nós foi incrível, e você acha que, deixando-o de lado, vai vencer a aposta? Ou está apostando em minha morte por frustração sexual para obter uma vitória à revelia? Delaney tinha de estar brincando. Ninguém fugia de um sexo tão bom como aquele. Uma sensação estranha, que ele finalmente identificou como pânico, atingiu Nick no estômago. Ele não estava pronto para dar fim àquilo, não queria abrir mão do sabor dela, de senti-la em seus braços. Ou de ter seu corpo dentro dela. Nick sorriu, porém ela balançou a cabeça. – Meu argumento é que a emoção torna o sexo melhor. Nós já fizemos um sexo ótimo como... como você nos chamaria... conhecidos? A raiva tomou o lugar do pânico. Nick não gostava daquele termo. Ela fazia soar como se eles mal se conhecessem. O que era uma besteira. Ele a conhecia, droga. Conhecia o barulho que Delaney fazia quando chegava ao clímax. Sabia como era quando o corpo dela o agarrava, ordenhando a última gota de prazer de seu orgasmo. Nick conhecia seu sorriso, sua risada e, graças à observação enquanto ela dormira, sabia como era quando todas suas defesas estavam baixadas. Além do físico, ele sabia que Delaney encararia qualquer desafio que Nick lançasse usando de inteligência e prudência. Que ela provavelmente era mais inteligente que ele, mas tão doce ao expor isso que Nick a admirava, em vez de se ressentir de seu supercérebro. Ele sabia que Delaney gostava de música e de chocolate e que, embora certamente fosse discordar, ela necessitava de mimos e de apreço. Nick não entendeu de onde veio aquele impulso, já que ele raramente escolhia passar algum tempo com as mulheres fora da cama, mas queria ser aquele a mimar e dar atenção a ela. Trazer-lhe flores sem motivo, senão para vê-la sorrir. Levá-la à livraria e observar seu contentamento, levá-la para uma peça teatral e, então, ouvi-la analisar 119


o espetáculo depois. Preferencialmente na cama. Ele simplesmente queria ficar com ela. E aquela ideia o assustou ao extremo. As panquecas começaram a revirar de forma nauseante em seu estômago. Nick era propositadamente um solitário. Porque as pessoas o decepcionavam, porque não podia depender delas. Especialmente das mulheres. Como se tivesse levado um balde de água fria, seu cinismo cuidadosamente afiado acordou. Então Delaney não era tão diferente assim de Angelina, afinal. Atraí-lo, prendê-lo e então começar o jogo. Sua “ex” tinha usado o sexo para conseguir uma aliança de casamento. Diabos, ela o utilizava para conseguir absolutamente tudo que queria. Só que chamava de amor. Nick deveria estar agradecendo a Delaney por puxar o freio, em vez de ficar enchendo o saco. Afinal, uma noite apenas com ela e ele começara a pensar coisas malucas, todas pegajosas e emotivas. Aquela pausa era perfeita. Ele nunca tinha passado algum tempo fora da cama com uma mulher sem ficar irritado com suas exigências. Dessa vez não seria diferente. – Tudo bem, então estamos só saindo – concordou ele. Com o estômago restabelecido, ele pegou o último pedaço de panqueca. – Preciso ir para Nova York dentro de alguns dias, então que tal nos vermos na quarta-feira à noite? Eu irei buscá-la às 20h, e vamos para um show. O olhar de choque dela diante da rendição fácil dele foi impagável. Melhor ainda, revigorou seu apetite. Nick gesticulou para seu prato vazio e lançou seu olhar faminto, digno de pena. – Enquanto isso, posso comer mais uma leva de panquecas? São as melhores que já comi. O mesmo valia para a mocinha que as havia preparado. Um fato que ele percebeu que não teria problema nenhum em ignorar... depois de se servir mais uma vez. – ACHO QUE a tensão sexual é quase um personagem nos livros da srta. Duffy – insistiu 120


Delaney, se inclinando para a frente para reforçar seu argumento. – Não apenas movimenta a trama, como mantém o leitor e os personagens no limite. Quatro semanas no “Cantinho da crítica” tinham lhe rendido confiança o suficiente para ignorar a luz vermelha da câmera e se deixar envolver no debate. Ela ainda odiava aquilo, mas pelo menos agora conseguia ignorar. Era quase como estar de volta à sala de aula. Exceto, é claro, pela saia curta, a atenção masculina e o fato de que todo mundo ali parecia supor que ela oferecia algo mais do que seu cérebro. – Não acha que é frustrante ter essa tensão rondando tão intensamente? Não apenas para os personagens, mas para os pobres leitores que querem que eles simplesmente mandem ver logo? – perguntou Sean, com uma carranca em desacordo com o tema. Delaney comprimiu os lábios para conter um sorriso, pois sabia que ele estava tentando segurar uma risada. – Acho que ambos concordamos que, em geral, segurar a culminação do sexo faz o leitor continuar a virar as páginas. É claro, como você diz, precisa ser feito do jeito certo, para que os leitores não fiquem frustrados a ponto de perder o interesse ∗∗∗ explicou ela. Então, segurando o livro de capa dura virado para que a câmera pudesse captá-lo, ela prosseguiu: – Na minha opinião, a srta. Duffy faz um trabalho maravilhoso. Eu adoraria saber qual é a opinião dos leitores, no entanto. Visitem o site e compartilhem sua opinião na discussão do livro de hoje. A luz da câmera se apagou, informando a Delaney que o bloco tinha acabado. Afundando na poltrona, ela deixou o livro cair no colo e abandonou o sorriso falso que sustentava. – Você está melhorando – comentou o louro de visual sóbrio, enquanto retirava o microfone da lapela. – Preciso admitir, eu não tinha muita certeza de como você lidaria com os meandros de um quadro regular. Principalmente porque ficava muito nervosa no ar. Mas você conseguiu mantê-lo interessante e segurar a atenção dos espectadores. Mais algumas semanas e você vai detonar todo mundo. Delaney o encarou. Ela? Detonando todo mundo? Estava mais para ser detonada. Embora não 121


ficasse mais enjoada antes de cada programa, ela sabia que não estava no controle. Não do jeito que ficava na sala de aula. – A propósito, o produtor quer aumentar o espaço do “Cantinho da crítica” para duas vezes por semana, a partir de segunda-feira. Ele imagina que, com a aposta de Nick Angel atraindo tanta atenção, mais o salto na audiência quando seu quadro está no ar, nossos índices vão subir ainda mais. Duas vezes por semana? Delaney engoliu em seco. Porém, as palavras salto na audiência ficaram ressoando em sua cabeça; então, em vez de protestar, ela assentiu em concordância. Será que os níveis de audiência eram uma tradução do carisma ou do que quer que fosse que o professor Belkin desejava em sua assistente? Aquilo significava que ela estava progredindo. Delaney sorriu tão intensamente que até doeu, agradeceu a Sean e, depois de retirar o próprio microfone, foi bater papo com a equipe no camarim. Quando chegou lá, Delaney olhou para seu reflexo no espelho. Então aquilo era detonar, hein? Aparentemente, a imagem concordava com ela, já que, se falava por si só, nunca estivera melhor. O que a fez gargalhar. Delaney, que nunca se importara com aparência, estava avaliando seu visual. É claro, o crédito por seu sorriso, radiância e estranho hábito de irromper em risadinhas era de Nick. Ou, pelo menos, do sexo incrível que eles tinham feito. Uma onda de empolgação a atingiu quando o telefone tocou. Uma olhada breve no visor reprimiu as vibrações de esperança em seu estômago, mas não arruinou seu bom humor. – Mindy, oi – disse ela, enquanto tirava a saia. Por mais que estivesse começando a gostar de seu visual profissional extravagante, ela se sentia muito mais confortável usando o visual casual que ela e Mindy tinham criado, combinando o seu estilo antigo, ou o que quer que houvesse de estiloso ali, com seu novo estilo sexy. Jeans ajustados, sapatilhas bonitinhas e blusas justas que se aproveitavam do novo acessório favorito de Delaney: os sutiãs que valorizavam os seios. 122


– Ei, como foi a gravação? Elas conversaram enquanto Delaney trocava de roupa, e então tirava sua maquiagem de TV e a refazia com a mão surpreendentemente hábil. Ela estava ficando boa naquele negócio, percebeu. – Então... Vejo você na sexta à noite? – perguntou Mindy. – O que vai ter na sexta à noite? O silêncio da amiga a fez franzir a testa. Ela havia se esquecido de alguma coisa? – Sarau da faculdade. Você não esqueceu, esqueceu? – perguntou Mindy, de maneira hesitante. A voz dela estava abafada, um sinal de que havia começado a roer as unhas. – Essa é a motivação por trás da transformação, lembra-se? Mostrar ao reitor e ao professor Belkin que você é perfeita para o cargo de assistente, e não aquela garota. Delaney se jogou na cadeira. Droga. Estava tão envolvida no programa de TV e em seus joguinhos com Nick que quase tinha se esquecido de que tudo aquilo tinha sido por causa da promoção no trabalho. Havia se passado uma semana e meia desde que ela lhe servira panquecas e determinara algumas condições para os encontros entre eles. Nick havia tido um problema profissional em Nova York e o encontro deles fora adiado para essa sexta-feira agora. Como uma criança emburrada, ela fez um beicinho e suspirou. Sentia como se tivesse acabado de ouvir que não podia brincar com seu brinquedo favorito. Ou, usando os termos de uma mulher adulta, com seu bonequinho favorito. Delaney estremeceu diante daquele pensamento, pois aquela ideia, mais o estado constante de consciência sexual no qual ela se encontrava desde aquela noite com Nick, respaldavam a teoria idiota dele sobre luxúria. – Você vai comparecer? – As palavras de Mindy saíram tão truncadas que Delaney imaginou que ela provavelmente estivesse roendo pelo menos duas unhas a essa altura. – É claro. – Afinal, o sarau da faculdade era o que importava. Seu cargo de professor, sua 123


carreira, sua promoção. Aquilo representava a verdadeira Delaney, aquilo seria perene. Todo o restante, ainda que fosse maravilhoso, duraria apenas um verão. Ao fim do semestre, ela voltaria ao seu mundo real. Embora, definitivamente, atraindo mais atenção. – Como você disse, essa foi a motivação por trás de tudo. E era, ela assegurou a si alguns minutos depois, quando desligou. A transformação, a vaga na TV, até mesmo as apostas com Nick, era tudo por um motivo. Para lhe dar a ousadia necessária para refutar a avaliação do professor Belkin, e, mais importante, a de seu pai, em relação à habilidade dela de comandar uma turma lotada de um modo capaz de aumentar os rendimentos e o prestígio do Departamento de Literatura. Isso – ela olhou em volta do camarim minúsculo – era apenas temporário. Precisava se lembrar disso. Delaney olhou para o livro em cima de sua bolsa, uma das obras escolhidas por Nick para serem resenhadas. As apostas, o relacionamento entre eles – se sexo ótimo e de outro mundo baseado em uma aposta pudesse ser chamado de relacionamento –, tudo era temporário. Apenas degraus para ela alcançar seu verdadeiro objetivo. Ela pensou em Nick, no jeito como ele sorria enquanto acariciava o corpo dela até o auge das chamas, o jeito como os olhos dele ficaram nebulosos quando ele chegou ao clímax. O lugar dele na vida dela era tão real quanto seu decote. Ela precisava manter isso em mente. Se o fizesse, talvez fosse ficar mais fácil quebrar seu vínculo com ele. NICK OLHAVA para a tela de seu laptop, tentado fechá-la raivosamente. Mas quebrar o 124


computador não iria ajudar. Não durante sua crise hedionda de bloqueio criativo, ou de sua frustração sexual, que provavelmente era a causa do bloqueio criativo. Ele olhou ao redor, pelo quarto do hotel, tentando encontrar uma distração. Mas, além de quadros horríveis e da cama, não havia nada. Deliberadamente nada. Como sempre, ele pedira para a TV ser retirada antes de fazer o check-in e também solicitara o bloqueio da internet. O celular tocou. Ele ficou tão grato por aquela distração que nem mesmo verificou o identificador de chamadas antes de atender. – Nicky? Mas que droga. Era isso que ele ganhava por ceder à frustração. Sentiu a raiva e o ressentimento automáticos dando um nó apertado em seu estômago. – Oi, mãe. – Querido, preciso de sua ajuda. É claro que precisava. Ela não teria telefonado se o motivo fosse outro. – Eu vou me casar... – Ela fez uma pausa para aguardar a reação dele. Nick permaneceu em silêncio. Não porque estivesse preocupado com a possibilidade de dizer algo muito feio. Não, simplesmente porque não havia mais nada a dizer. A mulher tinha mais casamentos no currículo do que Nick tinha livros publicados. E os casamentos dela duravam mais ou menos o mesmo tempo que Nick levava para escrever um livro. – Jeremy é tão gentil, Nicky. Ele é o homem perfeito para mim. – Traduzindo: ele era rico. – Tem só uma coisinha. Ele é escritor. Escreveu um original maravilhoso. Bem, presumo que seja. Na verdade eu não li, claro. Quero dizer, foi como eu disse a ele, tolinho, eu não leio nem mesmo os seus. Alheia ao insulto e, como sempre, desinteressada pela vida dele, a mãe começou a matraquear sobre seu futuro marido, seus planos e suas muitas novas aquisições. Uma dor que ele recusava a reconhecer cortou Nick. Ele engoliu em seco e cerrou o maxilar, sabendo que era inútil censurá-la. Ele nunca era procurado pela mãe, a menos que ela quisesse alguma coisa. Quando era criança, ele era usado para bancar o órfão de pai desamparado para que sua dramática mãe solteira desse o golpe para agarrar um novo marido. Agora, eram o dinheiro e os favores. Como ela o manipulava com a mesma facilidade com que o fazia com os 125


homens que perseguia, Nick sabia que lhe daria o que quer que ela desejasse. O que só o irritava ainda mais. Prova de que as emoções só existiam para favorecer as mulheres. Os homens sempre se davam mal. Nick espiou seu laptop e cerrou os dentes. Aquele era o preço pela procrastinação. O bloqueio criativo sobre o qual estivera se lamentando se dissipou de repente. Como sempre, dois minutos de conversa com a mãe e ele começava a desejar desesperadamente se perder na segurança e sanidade de seu mundo literário. – Nicky – disse a mãe, ao fim do monólogo. – Preciso de um favorzinho. Finalmente, o objetivo. Ele esperava muito que fosse um favor que requeresse sua assinatura em um cheque, e acabasse logo com aquilo. – Quero que você arrume um contrato de publicação para Jeremy. Talvez um igual a esses que você tem. Você sabe, com um adiantamento bem grande. Para fazermos aparições públicas, televisão, eventos midiáticos. Vai ser tão divertido. Um escritor e sua esposa em turnê. Não parece perfeito? Ganharei… Ganharemos uma fortuna. – Não sou agente ou editor, Lori. – O te r mo mãe só era usado quando ele estava desempenhando algum papel. Do contrário, ele preferia seu nome de batismo. – Eu sei disso, Nicholas. Eu só queria uma ajuda. Parte meu coração saber que Jeremy não vai realizar seu sonho. Eu nunca realizei o meu, você sabe. Tive de abrir mão do meu maior desejo, que era ser dançarina, por, você sabe, por sua causa. – Seu suspiro foi trágico. Muito mais por causa de um preservativo furado, mas que se danasse. Os dedos de Nick coçavam para pegar o talão de cheques. Por que ela não podia simplesmente querer dinheiro? Assim teria sido um favor simples, sem derramamento de sangue. Sabendo que protestar serviria apenas para incitar mais chantagem emocional, ele suspirou. – Envie-me os originais e as informações de contato. Vou encaminhar ao meu agente. Tendo conseguido o que desejava, a mãe dele agradeceu superficialmente, se adiantou para as 126


despedidas e desligou. Nick precisava escrever do mesmo jeito que um alcoólico precisava de uma bebida. Desesperadamente, loucamente, irracionalmente. Mas, em vez disso, ele cedeu à necessidade de afastar os sentimentos negativos deixados pelo telefonema. Pegou o celular outra vez. Mesmo enquanto dizia a si estar sendo ridículo, ele discou um número da agenda. – Alô. – Delaney – disse ele em saudação, ajeitando as almofadas detrás de si e se recostando na colcha horrorosa com estampas florais. – Como estão as coisas? – Nick? Ele fez uma careta por causa do choque dela. O quê? Ele não podia telefonar? Remexendo-se sobre as almofadas, ele teve de lhe dar algum crédito. Via de regra, ele não telefonava para as mulheres. – Recebi seu e-mail sobre a mudança de nosso encontro para sexta-feira à noite. Que tal no sábado, em vez disso? – Sábado está bom – concordou ela lentamente. Ele captou a incerteza em sua voz e disse a si que era por ela não compreender por que ele simplesmente não tinha mandado um e-mail sugerindo a nova data. Não era porque ela não queria vê-lo, não podia ser. Ele não pensava ser capaz de tolerar mais golpes sobre seu já fragilizado ego. – Eu também queria saber como você está se saindo com suas resenhas – mentiu ele, não muito certo de por que precisava ouvir a voz dela. – Não é amanhã o dia de publicar a primeira delas no site? A hesitação de Delaney era quase palpável, como se ela soubesse que ele estava de enrolação e não tivesse certeza se queria receber ligações dele ou não. Por sorte, como ele não tinha nenhum outro pretexto, ela simplesmente respondeu com um “Aham”. Aquele sonzinho arfante fez a libido já tensa de Nick ir às alturas. Foi o mesmo som que ela fez quando ele lambeu seu corpo. – Terminei a resenha de O efeito Michelangelo – informou Delaney. – Na verdade, eu estava fazendo uma leitura final antes de enviar. ∗∗∗ Você

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se importaria em compartilhar? – Leia no site de manhã. – Tem certeza? Eu poderia lhe dar algumas dicas, talvez algumas sugestões sob a perspectiva de um escritor – provocou ele. – Certo. Porque nossas opiniões sobre o que faz uma boa história são tão parecidas – rebateu ela. Nick pensou no assunto por um instante. – Você sabe, tirando sua visão romantizada de intimidade... – A qual a mãe dele provara consistentemente ser um pesadelo. – Elas provavelmente são. – Minhas visões não são romantizadas – protestou ela. Ele sorriu. Perfeito. Acomodou-se nas almofadas e se permitir deixar levar na conversa. Depois de 45 minutos de debate sobre o assunto, ela finalmente admitiu que ele estava certo. Eles tinham de fato ideias semelhantes sobre o que fazia uma boa história emplacar. Nick não tinha certeza de como se sentia agora, no entanto. Empolgado e entusiasmado para escrever, definitivamente. Mas só um pouquinho preocupado. Justificar seu ponto de vista tinha sido um desafio. As opiniões dela eram bem elaboradas e solidamente amparadas por argumentações suficientemente respaldadas. Era difícil refutá-las. O que não significava um bom sinal para a aposta deles. – Você já resolveu seus negócios aí em Nova York? – perguntou Delaney, depois que ele ficou em silêncio. – Quase. – Nick hesitou, então, sem saber muito bem por que, admitiu: – Preciso resolver algumas coisas para minha mãe, o que, no mínimo, vai exigir um almoço doloroso e, na pior das 128


hipóteses, alguns jantares desagradáveis. – Lamento – disse ela, a palavra soando delicada e, bem, doce. Sem nenhum traço de julgamento ou mesmo de surpresa. – Problemas com os pais são complicados, não é mesmo? Nick deu uma risada amarga. – Você tem problemas com seus pais? – perguntou ele, sem desejar admitir o quão facilmente sua mãe conseguia manipulá-lo emocionalmente. Afinal, ele alegava não acreditar em emoções. – Creio que não poderiam ser chamados de problemas, embora, definitivamente, seja algo unilateral. – Do seu lado ou do deles? – Do meu. Perdi minha mãe quando era pequena. Meu pai… – Ela parou de falar. O suspiro foi pesado o suficiente para fazer Nick desejar se enfiar na linha telefônica e abraçar Delaney. – Na maior parte do tempo, eu duvido muito que ele esteja ciente da minha existência. Ele ficaria chocado se percebesse que tenho problemas com isso. – Então vocês não se veem muito, suponho. O que ele não daria para poder dizer o mesmo sobre sua mãe. Ou para não se sentir tão culpado por desejar esse tipo de coisa. – Na verdade, normalmente nos vemos no mínimo algumas vezes por semana – contou Delaney, tirando Nick de sua reflexão sombria a respeito do próprio drama familiar e de volta à conversa. – Ou, eu deveria dizer, estamos nas imediações um do outro. Meu pai não é muito conhecido por enxergar muita coisa. Para ele, sou um tanto ou quanto invisível. Invisível? Delaney? Aquele conceito confundiu a cabeça dele. Como uma mulher tão vibrante 129


poderia não ser notada? – Ele deve ser cego – disse Nick. Percebendo a ironia das situações de ambos, ele riu de maneira amarga. – Sabe, eu daria muita coisa para ser invisível para minha mãe. Mesmo que por alguns meses. Eu aproveitaria essa folga. – Não consigo nem mesmo imaginar você como alguém invisível – respondeu ela baixinho. Havia um tom estranho na voz dela, aflito e triste. – Algumas pessoas têm uma qualidade indefinível que atrai atenção. Outras… nem tanto. Nick não entendeu. Delaney definitivamente atraía atenção, especialmente a dele. Devia estar falando de outra pessoa. Mas questionar aquilo o mergulharia em um campo emocional que ele estava determinado a evitar. Assim, ele se calou. – Suas qualidades definitivamente atraem minha atenção – provocou Nick, depois que o silêncio começou a ficar desconfortável. Ele disse aquilo para aliviar a tensão, mas percebeu que não estava brincando. – Por que não falamos disso um pouco? Salve minha noite, Delaney. Conte-me o que está vestindo. Capítulo Nove DISTRAÍDA DE sua autopiedade por causa de seu relacionamento com o pai, Delaney riu. Ela nunca havia tido uma conversa telefônica safadinha com um sujeito. Olhou para sua calça esgarçada de moletom vermelho e para a camiseta da banda AC/CD. Sentia-se como uma fraude conversando com ele em seu visual desmazelado, normal, mas ela consideraria aquilo um teste para ver o quão profunda tinha sido 130


sua transformação. Afinal, ele havia gostado da nudez dela, e talvez fosse ficar tão interessado quanto por telefone se não fizesse ideia de que a calça tinha um furinho nos fundilhos puídos. – Não estou vestindo muita coisa – disse, com uma risadinha ofegante. – Você está na cama? – Antes que ela pudesse responder, ele emitiu um som e disse: – Ah, é claro que não está. Você disse que estava revisando a resenha. Ela sentiu uma pontada de culpa lhe ferroando a nuca. Delaney tinha planejado ler o primeiro livro escolhido por ele em seu escritório, assim poderia manter o assunto estritamente profissional. Mas não conseguira parar de pensar em Nick a ponto de sossegar e ler seriamente. Finalmente, já correndo contra o prazo, ela voltara à fórmula do testado e aprovado e levara o livro, o laptop e uma lata de refrigerante para a cama. Delaney olhou para o livro que havia terminado de ler. Com uma capa de cores ricas, com a imagem de uma estátua famosa, estava na lista dos mais vendidos. Era uma escolha interessante para a primeira resenha, e sim, ela ficara um pouco distraída demais pensando em Nick para lhe dar atenção total. No entanto, ela já havia lido o tal livro quando fora lançado, por isso estava completamente confortável com a resenha. Dando uma olhadela para a tela do laptop, Delaney apertou “enviar”. Agora poderia se concentrar em problemas mais importantes... ou seja, naquele debate intrigante. Se o sexo por telefone poderia ser classificado como um passo além para Nick reconhecer o poder das emoções

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em um relacionamento sexual, ela deixaria para descobrir depois. – Para falar a verdade – disse ela lentamente, enquanto fechava o laptop e o colocava no chão antes de se deitar encolhida de lado –, estou na cama. – E o quão pouco está vestindo exatamente? – A voz dele assumiu um timbre rouco que enviou calafrios para o âmago de Delaney. Ele soara daquele mesmo jeito quando descrevera para ela o jeito como iria beijar seu corpo e onde iria beijá-lo. Ele usara do mesmo tom quando dissera a ela como lhe dar prazer. Aquele tom deixava Delaney úmida. – O quão pouco você gostaria que eu estivesse vestindo? – perguntou ela. – Tenha em mente que está um pouco frio aqui. Preciso de algo para me aquecer. Delaney riu da própria resposta idiota, mas, oras, ela nunca havia tido aquele tipo de conversa. Como Nick também riu, ela imaginou que estivesse se saindo bem. – E você? – questionou ela. – O que está vestindo? – Estou de roupa – admitiu ele. – Eu estava tentando escrever e enfrentando um bloqueio criativo. – Isso parece... duro – disse ela, com uma risadinha. – Talvez eu possa ajudar...? – Você quer me ajudar? – Não fique tão chocado. Poderia ser útil, se você me desse uma oportunidade. A risada dele foi de pura malícia. – Você ficaria surpresa com o quanto poderia ser útil. Estou preso em uma cena de sexo. Quer ter uma conversinha safada comigo? 132


Delaney corou. Não pôde evitar. O sujeito havia colocado o rosto entre as pernas dela e a levado ao êxtase, mas a ideia de ter uma conversinha devassa a constrangia. Que loucura. – Você pode querer ficar mais à vontade – sugeriu ela, para ganhar tempo enquanto tentava descobrir exatamente como era uma conversinha travessa ao telefone. – Nunca fico à vontade perto de você – admitiu ele. – Principalmente quando há chance de ocorrer sexo, mesmo que apenas verbal. Ela gemeu levemente, então estremeceu. Mas ele ouviu e riu. – Simplesmente imagine que estou aí, deitado ao seu lado – sugeriu ele. – Finja que estou observando você. Tensa, porém já excitada com a ideia, Delaney deitou de costas e fechou os olhos para visualizar a cena. – Você está passando os dedos no meu cabelo. Estou observando o brilho que reluz das mechas sedosas. – Ele aguardou, claramente esperando que ela fizesse o gesto. Delaney lambeu os lábios e então, dando um suspiro, soltou o cabelo e passou os dedos por eles. Quando o fez, imaginou Nick ao seu lado. Fingiu que os dedos dele estavam ali também. – Seus dedos estão descendo pelo pescoço e suas costas estão arqueadas. – Era como se ele estivesse lendo para ela, a voz de escritor em alto e bom som. Aquilo fez Delaney sentir como se estivesse escutando, encenando, um dos livros dele. – Segure os seios usando as duas mãos. Erga-os, Delaney. Erga-os para que eu possa vê-los. Como se em transe, ela fez o que ele pediu. Sua respiração estremeceu e ela gemeu assim que seus dedos aqueceram seus seios através da camiseta de algodão velha, roçando sobre os mamilos rijos. – Isso, linda – murmurou ele, num tom rouco. – Estou imaginando você, sua pele alva, quente e macia. Estou me imaginando deitado aí, observando enquanto você passa a unha pelo mamilo, circundando com cada vez mais intensidade até chegar à ponta rija. Estou pensando em você me dando aquela olhada com seus olhos castanhos imensos, aquela que implora para que eu toque você, prove você. 133


Delaney se contorceu, pressionando as pernas apertadamente uma contra a outra, e soltou um gemido ao pensar naquelas imagens. – É uma tortura maravilhosa – continuou Nick – observar, saber qual seria o gosto de seu mamilo, mas sem me permitir tocar você. – O que você está fazendo? – perguntou ela, num sussurro. – Enquanto me imagina, sabendo que estou me tocando, o que você está fazendo? – O que você quer que eu faça? – Quero que você faça a mesma coisa. – Com as cenas que ele pintara vivas em sua mente, Delaney pinçou seus mamilos rígidos e doloridos entre os dedos, aproveitando a textura de sua camiseta para incrementar a tortura maravilhosa. Sua respiração começou a ficar ofegante quando ela imaginou que eram os dedos de Nick tocando ali. Que ele estava ali, observando. – Quero que você fique excitado ao pensar em mim – disse ela, num sussurro rouco. Precisava que ele ficasse tão excitado quanto ela. Precisava saber que era capaz de enlouquecê-lo igualmente. – Quero que você fique tão excitado que precise se libertar. Nick gemeu. – Deixe-me excitado, linda. – Eu preciso me tocar – gemeu ela. – Estou imaginando que é você, sua mão, seus dedos dentro de mim. ∗∗∗ Desesperada para conseguir alguma forma de alívio, ela passou uma das mãos pela barriga até chegar ao cós da calça, então afastou o elástico frouxo e passou os dedos entre os cachos. Quando a umidade envolveu sua mão, ela gemeu baixinho. ∗∗∗ 134


Conte-me ∗∗∗ implorou ele roucamente. – Leve-me com você. Delaney engoliu em seco duas vezes antes de conseguiu falar. – Estou deslizando um dedo para dentro de mim. Dois, agora – disse a ele. – Estou úmida, quente. Inchada.

O gemido de Nick desfez completamente as inibições dela. Delaney pincelava os dedos por seu calor intumescido, mordendo o lábio. – Estou fingindo que você está aqui ao meu lado – disse ela, a voz tensa. – Estou imaginando você, grosso, quente e duro. E é tão excitante saber que isso é para mim. – Estou duro – admitiu ele, a voz baixa e rouca. – Queria que fosse sua mão em volta de mim, se movimentando cada vez mais depressa. – Quero você, preciso de você. Meus dedos não são o suficiente, eu quero sentir você. Conte-me o que deseja fazer comigo – implorou ela. As frases foram ficando mais curtas, as palavras, mais entrecortadas. Delaney mal conseguia manter a concentração para falar mais. Com uma das mãos acariciando os mamilos, ela usava a outra para estimular seu centro feminino úmido, deslizando os dedos por cima, em volta, dentro, sempre imaginando ser Nick. 135


Quando ele deu um gemido demorado de prazer, ela chegou ao limite. Os dedos, escorregadios por causa das próprias secreções, pincelaram seu clitóris uma vez, duas, então ela flutuou. Cores explodiram detrás de seus olhos fechados, seus arfares se transformaram em gemidinhos de prazer. Ao longe, ela ouvia a voz de Nick lhe dizendo o quanto ela era boa. Finalmente, como se flutuando em uma nuvem macia de exaustão, ela desabou. – Você é incrível – disse ele. Ela se sentia incrível. Fortalecida, poderosa, como se pudesse fazer qualquer coisa. Nunca havia ficado tão ciente de seu “eu” físico antes disso, antes da transformação e de Nick. E, não, ela disse a si, só porque o sexo era ótimo. Ela poderia ter feito aquilo sozinha, embora a ajuda de Nick obviamente tivesse sido uma coisa boa. – Você também não é tão ruim assim – provocou ela, com uma risadinha sonolenta. – E tenho de perguntar: ajudei em alguma coisa? A gargalhada dele foi densa e maliciosa. – Linda, ajudou mais do que você imagina. – Eu me refiro à sua história. Ele fez uma pausa, gemeu baixinho e então disse: – Sim. Na verdade, ajudou. Eu vou escrever, você vai dormir. Ela já estava a meio caminho de adormecer, então simplesmente murmurou em concordância. – Doces sonhos – disse Nick suavemente, a satisfação clara em sua voz. – Boa noite – murmurou ela, quando desligou o telefone. Delaney se acomodou sobre o travesseiro, exibindo um sorriso. Com o corpo saciado e quente, ela sabia que sonharia com o que havia acabado de acontecer. Sem parar, durante a noite toda... o que era muito bom, na verdade. NICK OBSERVAVA o rosto de Gary em busca de alguma pista sobre o que o agente pensava, obcecado de um jeito que não ficava desde seu primeiro livro. Deus. O que ele estava pensando ao tentar escrever aquele tipo de porcaria? 136


Ele era mais esperto que isso. No entanto, depois de conversar com Delaney, de escutá-la, ele teve esse sentimento insano de esperança. Aquilo provavelmente iria arruiná-lo. – Bem? – perguntou ele, incapaz de suportar mais um minuto. – Calma – instruiu o agente. O sujeito mais velho apontou para o frigobar no canto do escritório, sem tirar os olhos dos originais. – Está cru ainda – explicou Nick. – Não editei nem nada. Pensei em pedir sua opinião antes de ir longe demais com isso. Ele tinha ficado muito desesperado para escrever quando desligara o telefone com Delaney. O desespero viera do fato de ser inspirado por ela, diferentemente da frustração que ele normalmente sentia quando conversava com a mãe. Ele ficara surpreso quando terminara de redigir a cena. Aquilo, amigo, era emoção. Pelo menos o mais perto que ele já havia chegado dela. Talvez ele pudesse fazer aquilo? Conciliar tudo? Fazer seu editor feliz, acalmar os fãs e ainda manter Delaney por perto, então que se danassem as apostas. Era um pouco assustador perceber o quanto aquela ideia o atraía. Quando Gary nem sequer o reconhecia. Nick se levantou e caminhou até o frigobar. Vasculhou seu conteúdo e então bateu a porta. Abriu o armário de guloseimas disfarçado de gaveta de arquivo e fuçou até encontrar uma barra de chocolate. Mas ele estava empolgado demais para comer. Jogou a barra de doce no armário e começou a passear pela sala. – Cara, qual é o seu problema? – perguntou Gary finalmente, quando jogou as páginas impressas sobre a mesa. – Você está mais nervoso que uma virgem na noite de núpcias. Nick fez uma careta. – Alerta vermelho do clichê. – Certo, e é por isso que eu não sou o escritor aqui. – Gary cutucou a pilha de papéis com um dedo carnudo e ergueu uma sobrancelha grisalha espessa. – Quer conversar a respeito? 137


– Não. Só quero saber o que você acha. Gary se recostou na cadeira e olhou para Nick por cima das mãos unidas, como se estivesse rezando. Era sua pose típica de reflexão. – Eu acho... Nick queria bater na cabeça do sujeito com o mata-borrão. Mas ele sabia, por experiência própria, que não seria bom, então simplesmente resmungou. – Acho que você está no caminho certo – disse Gary finalmente. – É isso? No caminho certo? Eu escrevi… – Nick cutucou os originais e fez uma careta. – Coloquei emoção aqui. Isso é mais do que o caminho certo. – Não, Nick. Você escreveu uma das cenas de amor mais quentes que já li aqui. E, devo dizer, provavelmente a primeira cena já escrita por você que pode ser de fato chamada de cena de amor, em vez de cena de sexo. – Gary balançou a cabeça e deu de ombros. – É ótimo. É mais profunda que tudo que você já fez, é forte. Você criou uma ponte até aquela distância típica que costumava manter nas cenas de intimidade, o que leva sua escrita a um nível totalmente novo. – Mas...? – Mas é uma cena. A emoção, a promessa de emoção, não aparece no restante do livro. Ainda não. Coloque emoção aí e estamos no páreo. Nick então se sentiu tão confiante em seu sucesso em colocar emoção ali quanto teria sentido se Gary tivesse pedido a ele para fazer o parto de uma ninhada de cães raivosos. 138


FASCINADO PELO movimento da luz da vela brincando sobre o rosto dela num brilho dourado, Nick observava Delaney rindo do outro lado da mesa. Um tipo estranho de alegria o preencheu ao constatar a satisfação dela. Era tão diferente das mulheres que ele conhecera. Honesta, sem joguinhos, você levava o que comprava. Era estimulante e sedutor. Talvez ele fosse ter mais facilidade para tecer emoções, pelo menos as superficiais, em sua história do que tinha pensado. – Você tem fãs que o perseguem, como os artistas de cinema? – perguntou ela. Estavam falando sobre uma convidada do Wake Up California que tinha o hábito de perseguir seus astros de TV favoritos até conseguir o autógrafo deles. – Perseguindo? – refletiu Nick. – Não. Tive alguns que mandavam e-mails regularmente, esse tipo de coisa. Uma vez, em uma convenção literária, uma mulher ficou esperando na porta do hotel. Mas ela só queria que eu lesse seus originais. Delaney lançou um olhar demorado e contemplativo, então balançou a cabeça. – Não, não acredito que isso tenha sido tudo. Deve ter sido um pretexto, mas aposto que ela queria mais do que sua opinião. Queria mesmo, mas Nick não era do tipo que se gabava, então simplesmente deu de ombros. Ele meneou a cabeça em direção à pista de dança, onde casais estavam agarradinhos à meia-luz. – Quer dançar? – perguntou ele. O olhar de Delaney varreu os casais e a banda, e então se voltou para ele. – Nunca terminamos aquela última dança, não é? Acho que lhe devo uma. – Não sei se me deve uma, mas eu adoraria ter você em meus braços. E, já que você pareceu de fato querer sobremesa, esse é o único jeito de isso acontecer nos próximos minutos. Delaney sorriu e piscou quando colocou seu guardanapo sobre a toalha branca, ao lado do prato. 139


– O melhor dos mundos. Boa comida, chocolate clássico e você. Nick se levantou e estendeu a mão. Quando ela se ergueu, ele deu um passo adiante, ínfimo, de modo que ela roçou no peito dele quando se pôs de pé. Ele lhe ofereceu um sorriso malicioso bem lento, para informá-la de que tinha sido um gesto proposital. – Esse não é um daqueles gestos de cortejo pré-sexo? – perguntou ela, em tom de improviso. Ele sabia que Delaney havia sido afetada, no entanto, por causa do subir e descer daqueles seios deliciosos. – É? Isso significa que vai ter sexo se eu fizer direitinho? – Com a mão de Delaney na sua, Nick a guiou para a pista de dança. Ela riu quando se posicionou nos braços de Nick. Ele quase gemeu quando percebeu o quanto Delaney se encaixava perfeitamente. Aquilo era insano. Ela, o livro, Gary, toda a emoção exigida. E Nick, desejando se render a ela. Insano. – Eu quis dizer que é o tipo de coisa que, se você crê que a luxúria leva a relacionamentos, cairiam no esquecimento depois do primeiro encontro sexual. Não acha? – Acho que fico excitado quando você fala deste jeito todo intelectual. – Ahhh, então a luxúria ainda está guiando este relacionamento – brincou ela. Algo lampejou nos olhos dela, no entanto, derrubando o sorriso de Nick. – Você fala como se fosse uma coisa ruim – protestou ele, verdadeiramente confuso. – Por quê? Pensei que você tivesse problemas apenas com meus livros. Mas agora que nos conhecemos vejo que não é isso. Você realmente é tão contra a luxúria assim? – Você é realmente tão contra as emoções assim? – Emoções inevitavelmente levam à dor – observou ele.

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– Essa opinião é baseada em experiência pessoal? – perguntou ela suavemente, a mão acariciando o ombro dele de forma reconfortante, num gesto que ele interpretara como provavelmente inconsciente. Proposital ou não, aquilo o fez sentir-se bem. Seguro era a palavra que lhe vinha à mente, por mais bobo que soasse. Ele tentou afastar aquele sentimento estranho. – É claro que não – mentiu ele. – Eu lhe disse. Não lido com emoções. – Nunca? – O olhar que ela lhe lançou o perfurou até a alma, tornando impossível mentir mais. Nick bufou e meneou um ombro. – Digamos que não lido mais. Delaney parecia querer perguntar o motivo. Nick enrijeceu, sem desejar entrar em detalhes, mas sem ter certeza se iria responder a qualquer pergunta que ela fizesse. Porém, Delaney apenas comprimiu os lábios e assentiu, então aconchegou a cabeça no peito dele quando a música os inundou. Que bom. Assunto encerrado, com cutucadas mínimas na psique ferida dele. Abraçando a cintura dela com mais intensidade, Nick continuava a franzir a testa. Por que ela não insistira no assunto? Porque estava perfeitamente satisfeita com o sexo, sexo incrível, e não se importava o suficiente com ele como pessoa para querer saber mais? Ele iria ignorar o fato de ela ter colocado aquele sexo incrível em espera. Seu frágil ego masculino proclamava que aquela era uma manobra para vencer a aposta. Ou ela não o estava pressionando porque, apesar de ele se sentir mais íntimo dela do que qualquer mulher que conhecera, ela achava que ele tinha a profundidade emocional de uma poça de lama. Nick revirou os olhos. Droga, fora só abrir a porta para as emoções e ele estava péssimo, se preocupando como um adolescente no auge dramático de sua primeira paixão. Estúpido, inútil e, considerando a mulher sensual se movimentando tão sedutoramente em seus braços, completamente louco. Assim, em vez disso, ele começou a se concentrar na sensação de ter Delaney nos braços, enquanto seu corpo esguio se moldava de encontro ao dele.

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Os dedos dele alisaram o tecido diáfano do vestido dela bem no ponto onde o caimento formava uma cachoeira plissada sobre os quadris. Ele ergueu a mão dela, a qual estava segurando, e levou à boca, dando uma série de beijos delicados nos nós dos dedos. Quando ela recuou para lhe oferecer um sorriso, ele deslizou a língua por entre os dedos. Delaney arfou, os olhos se arregalando, e então se anuviando. O desejo naquelas profundezas castanhas enviou o desejo dele a outro patamar. Nick os conduziu até a beirada da pista de dança, onde as luzes estavam mais fracas, apertando Delaney contra si com uma das mãos. A música mudou, ficando mais sombria, mais triste. Ainda segurando a mão dela junto à boca, Nick sugou um dedo, brincando com a língua em seu comprimento. Ao mesmo tempo, afrouxou um pouco o contato com ela, para deixar um espaço bem pequeno entre os corpos. Enquanto se movimentavam, eles se roçavam em contraponto um contra o outro. Quando os mamilos de Delaney, rijos e afiados, deslizaram sobre o peito dele, Nick teve vontade de gemer. Sim, ela estava tão excitada quanto ele. Remexendo-se só um pouco, ele deslizou a perna por entre as dela e agradeceu por ela ser tão alta. Incapaz de evitar, ele pôs a mão dela em seu ombro, então levou ambas as mãos aos quadris de Delaney. Ele enterrou o rosto nos cachos de Delaney, aninhando o nariz no cabelo até chegar à lateral do pescoço e na orelha. O perfume dela, um tempero sutil, preencheu os sentidos de Nick quando ele beijou a pele sedosa. DELANEY ESTAVA sem fôlego. Ela sabia que precisava ser esperta, se agarrar a qualquer coisa semelhante a controle. Mas era quase impossível, pelo jeito como Nick a fazia se sentir: o corpo dele roçando contra o dela, o peito pressionando seus mamilos, a perna dele fazendo uma fricção deliciosa contra seu centro feminino úmido... – Saindo – arfou ela, quando ele lhe deu mais beijos quentes e úmidos na orelha. – Hein?! – Nós deveríamos estar apenas saindo. Conhecendo-nos. Provando... alguma coisa. Deus a ajudasse, ela mal conseguia se lembrar do próprio nome, muito menos do argumento que estava tentando provar.

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∗∗∗ Luxúria versus intimidade – respondeu ele. Havia humor na voz dele apenas o suficiente para suplantar a frustração que também havia ali e evitar fazer Delaney se sentir culpada. Ela engoliu em seco, encontrando os olhos dele quando Nick levantou a cabeça. Ela deu um sorriso débil, aliviada quando Nick retribuiu. – Certo – concordou ela. – Em minha defesa, definitivamente estou me sentindo passional agora. Ele riu e então se afastou. Assim que o fez, o corpo dela ansiou pelo calor dele assim como um viciado ansiava por uma dose. Com uma necessidade desesperada, mordaz. Sem fôlego, quase imprudente, ela ficou feliz ao sentir a mão de Nick guiando-os de volta à mesa. Assim que ele a pôs na cadeira, o garçom chegou com a sobremesa. Necessitando de algum tipo de satisfação, Delaney mergulhou o dedo na mousse cremosa que decorava o bolo de chocolate e levou à boca. O sabor explodiu em sua língua, quase tão delicioso quanto Nick tinha sido. Ela ergueu o olhar e flagrou o dele. Gargalhadas explodiram. – Parece que você está prestes a chorar – provocou ela. – Quer provar? – Quero provar você, definitivamente. O bolo, nem tanto. Ela riu. Então cavucou o bolo, dessa vez com o garfo. Delaney se concentrou na sobremesa de propósito, precisando daquele tempinho para limpar a mente. Ou melhor, para recuperar seu bom senso. Sem querer pensar no que quase havia acontecido na pista de dança ou decifrar como aquilo influenciava a aposta deles, isso sem mencionar em seu sistema de crença pessoal, ela olhou ao redor do restaurante. O olhar pousou sobre um casal, provavelmente alguns anos mais jovem que ela e Nick. Eles estavam sentados, de mãos dadas e encostando suas cabeças. A alegria em ambos era óbvia. Ela apostava que eles nunca haviam cogitado uma escolha entre amor e luxúria. Era óbvio que 143


simplesmente tinham adotado os dois. Ela suspirou, chupando o chocolate do garfo enquanto observava o sujeito beijar a mão da loura bonita. Parecia meigo quando ele o fazia; porém, quando Nick beijara a mão dela, fora apenas um estímulo erótico. – Meigo – disse Nick, ecoando o pensando dela inconscientemente. Ele havia seguido o olhar dela. Delaney franziu a testa para ele, sem ter muita certeza se Nick ele estava sendo sarcástico ou não, dadas suas opiniões sobre as emoções mais sutis. Mas ele pareceu sincero. Ele captou a especulação nos olhos semicerrados dela e riu. – Eu sei apreciar o romance, mesmo quando escolho não fazer parte dele. Delaney pegou mais um bocado de chocolate para apontar que um encontro que englobava jantar, dança e nenhuma possibilidade de sexo poderia ser considerado romance em alguns meios. Houve um gritinho empolgado e então uma explosão de risadas. Delaney e Nick se viraram para olhar para o casal que estiveram observando, e que agora estava abraçado. A loura olhava para a própria mão, por cima do ombro do rapaz, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. – Ahhhh, eles acabaram de ficar noivos – disse Delaney, emocionada, afirmando o óbvio. – Agora isso é meigo. Nick riu. Com um gesto, chamou o garçom. Delaney não conseguiu ouvir o que ele murmurou, mas o garçom sorriu e assentiu. – Meigo. Louco, mas meigo – concordou Nick. – Você é realmente tão cínico? – desafiou ela. – Não conhece nenhum casal que tenha um relacionamento sólido e duradouro? Ele esfregou o queixo, como se pensando na pergunta. Então balançou a cabeça. – Não, desculpe. Não consigo pensar em ninguém que conheço pessoalmente que tenha escapado incólume do campo minado emocional. – Não foi isso que perguntei – observou ela, apontando o garfo em direção a ele para reforçar seu argumento. – Conhece alguém, em qualquer circunstância, que seja feliz em um relacionamento? – Defina feliz. Delaney revirou os olhos. Antes que pudesse começar seu sermão, no entanto, o garçom se aproximou do casal que comemorava com uma garrafa de champanhe. Pelo

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modo como arregalaram os olhos, deveria ter sido um champanhe muito caro. Quando o garçom apontou para a mesa deles, as desconfianças de Delaney foram confirmadas. O casal articulou um “obrigado” para Nick, que simplesmente sorriu e assentiu antes de voltar a olhar para Delaney. Ele arregalou os olhos ao flagrar o olhar dela. – O quê? – perguntou ele, o tom defensivo. – Você é uma fraude. – A alegria borbulhava dentro dela como o champanhe com o qual o casal agora brindava o futuro. – Perdão? – Seu falso. Você alega ser antirromance, no entanto mandou para completos estranhos uma garrafa do que suponho ser o melhor champanhe da casa? Uma pessoa totalmente desprovida de sentimentos simplesmente não faz isso – declarou ela, colocando as mãos sobre a mesa e se inclinando para a frente para frisar seu ponto. Nick cruzou os braços, o movimento esticando o casaco sobre os ombros largos. O olhar dele combinava com o empinar teimoso do queixo dela. – Bobagem. – Eloquente, sr. Escritor. – Bobagem completa – esclareceu ele.

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– Não me diga. Dava para ver que ele de fato estava rangendo os dentes. – Só porque sou um cara legal e gosto de ver outras pessoas felizes, mesmo que por um motivo totalmente condenado, não significa que sou sentimental. ∗∗∗ Tudo bem ∗∗∗ disse ela agradavelmente. Ele a encarou. – Talvez eu simplesmente estivesse tentando impressionar você – ofereceu ele. Ela não conseguiu conter a gargalhada. Rindo, simplesmente 146


balançou a cabeça e ergueu as sobrancelhas, com se dissesse “até parece”. Após alguns segundos, a teimosia de Nick pareceu derreter em meio a risadas. – Tudo bem. Pense o que quiser. – Pensarei. – Eu poderia usar isso como trama nas histórias, sabe. Assim que Delaney terminou de comer a sobremesa, Nick começou a criar uma história sobre uma garrafa de champanhe envenenada enviada para o casal errado. Quanto mais ele falava, mais animada a história ficava. Quando parou para respirar, deu um sorriso tímido. – Você quer escrever isso enquanto está fresco em sua mente? – perguntou ela, fascinada com sua invenção improvisada. – Não, já está tudo na minha cabeça. – Ele lançou um olhar para o casal, que estava com as mãos entrelaçadas enquanto se fitava nos olhos. Então Nick deu uma piscadela para Delaney. – Você estava correta, de certo modo. Mesmo que eu não me abra pessoalmente para minas terrestres emocionais, ainda sou capaz de apreciar a beleza da ideia. Antes que ela pudesse responder, o casal recém-noivado se aproximou para se apresentar e agradecer. A beleza na atitude de Nick mexeu com Delaney. Não apenas seu gesto gentil, mas a maneira amigável e encorajadora com que estava agindo para com o casal. Ele podia até desprezar a expressão de emoções em suas histórias, mas tinha tanto dentro de si! Ela comprimiu os lábios para conter as lágrimas. Porque ali dentro era o lugar onde ele continuaria a mantê-las. Não havia nada de belo no que ela estava sentindo enquanto o observava aceitar a gratidão do casal e papear com eles. Para eles, apaixonar-se deveria ter sido meigo e divertido. Para ela, Delaney percebeu quando seu coração deu uma cambalhota, era o inferno total. O olhar de Delaney trilhou pelos traços de Nick: a linha firme do queixo, o sorriso devastador. A intensidade azul de um laser de seus olhos. Ele era lindo. Mas era o som da risada dele que a cativava. Não era horrível o fato de o homem por quem ela estava se apaixonando apresentar uma garantia fidedigna de nunca amar, ou aceitar amar a si mesmo? Capítulo Dez – MAS… MAS, isso não pode estar certo – gaguejou Delaney. Ela encarava o banco de dados do computador, os olhos voando de um monitor a outro, como se os resultados fossem aparecer diferente em algum deles.

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– Estou surpreso, para ser sincero – disse Sean. – Pensei que você teria uma vitória esmagadora. Quero dizer, sua resenha de O efeito Michelangelo teve 70 por cento de aprovação. Sua resenha de Verão da Magnolia tem menos de 30 por cento. – Não posso acreditar. – Delaney desabou na cadeira e ficou olhando para o vazio. Curiosamente, tal livro fora aquele sobre o qual ela e Nick concordaram depois que ela enviara a primeira resenha. Delaney ficara originalmente encantada com a escolha dele. De um escritor altamente engenhoso de ficção sulista, o livro deveria ter sido garantia de oferta de profundidade emocional e de um enredo intrigante. Mas, quando Delaney conseguira um exemplar, fora uma triste decepção. A emoção estava lá, claro. Mas era afobada e artificial. E, embora ela odiasse escrever resenhas negativas, precisava ser honesta. A resenha fora publicada no domingo, um dia depois de o livro chegar às prateleiras. Hoje era sexta-feira e estava bem claro que os fãs do escritor eram furiosamente leais a ele. – Olhe, não leve tão a sério – consolou Sean. – O alto escalão está surpreso com seu quadro, para falar a verdade. Você está atraindo 148


espectadores, recebendo toneladas de e-mails. Eu soube ontem que eles provavelmente vão oferecer a vaga a você permanentemente. A preocupação dela a respeito do fracasso da resenha esmoreceu juntamente às palavras de Sean. Delaney irrompeu em uma gargalhada levemente histérica. – Você está brincando? – Não. E isso também nem tem a ver com o ponto de vista de Nick Angel. Quero dizer, foi assim que você manteve o trabalho originalmente, foi baseado no poder de atração. Mas está se saindo muito bem sozinha, apesar da aposta. Delaney balançou a cabeça, perplexa. Televisão? Ela, em tempo integral? Claro que estava começando a gostar do trabalho. Por que não gostaria? Ela finalmente podia focar em sua verdadeira paixão: ficção comercial. – Isso é lisonjeiro, Sean, mas só vou ficar aqui durante o verão. – Por quê? Se eles oferecerem, seria um excelente contrato. O programa tem chances sólidas de começar a ser exibido regionalmente no ano que vem. – Preciso voltar à minha vida de verdade – disse ela, dando de ombros. Uma pontada de pesar lhe atingiu, forte e inesperada. Ela realmente sentiria saudade de fazer o quadro. É claro, antes de começar a sentir saudade, ou de voltar ao seu emprego antigo, ela precisava vencer naquela resenha. 149


Ela podia até considerar sua aposta particular com Nick um jogo puramente selvagem, mas e a aposta original? As resenhas? Ela faria aquilo com total confiança em suas habilidades. Delaney se recordou de sua opinião inicial, de que Nick havia criado a aposta paralela a fim de distraí-la da aposta feita no ar. Fosse esse o motivo ou não, aparentemente tinha funcionado. Tinha como sendo a palavra de ordem. Não mais. Tinha muita coisa em jogo para perder. Mesmo para o homem por quem estava se apaixonando. A NOITE negra se fechava em torno deles como um sudário. Os únicos sons eram as alegres sentenças de morte dos grilos e a respiração ofegante dele. – Mas eu amo você – disse ele, a voz vibrando com as emoções que ele finalmente se permitira libertar daquela abóbora escura em seu coração. – Eu sei que ama – disse ela, afastando uma mecha de cabelo sedoso do ombro e oferecendo a ele aquele sorriso que prometia o paraíso. – Mas não posso permitir que isso mude as coisas. – Mude as coisas? Eu me abri para você. Compartilhei meu mundo, meus segredos. – Meu coração , gritou a mente dele. Mas ele não disse em voz alta. Ela já detinha muito poder. Mesmo quando ele vacilou por causa da dor ao perceber quem, o quê, ela era, seu condicionamento ajudou. Os olhos desviaram para a esquerda. Para a direita. A floresta se fechou ao redor deles. A rota de fuga estava ali, era decisão dele encontrá-la. Libertar-se da armadilha na qual ele adentrara conscientemente. – Você foi ótimo também – disse ela a ele, com uma espécie de risada perversa. – Fiquei sabendo que você era um grande leigo, mas de fato superou a própria pressão. E os segredos, bem, é por isso que estou terminando com você. Tenho tudo de que preciso e agora vamos acabar com você. – Você é a viúva-negra? – Já que seria eliminado, que pelo menos fosse nas mãos de uma das criminosas mais famosas do país. Seu chefe gostaria disso. Dessa vez a risada dela foi puro deleite. Aquela risada rouca de prazer pela qual ele se 150


encantara. Diversão e satisfação se misturavam naqueles olhos castanhos de corça enquanto ela balançava a cabeça para ele. – Não. Sou apenas uma mulher. – Eu amo você – disse ele a ela. – Eu sei – respondeu ela. E então atirou nele. NICK BAIXOU a tela do laptop. Deus, ele tinha sido reduzido a um escritor de pura porcaria. Lixo. Odiou aquilo. Odiava a história, odiava a banalidade emocional bobinha vomitando em sua tela. Ele se levantou e começou a caminhar pelo escritório. Os tons de cinza-estanho do cômodo falharam em acalmá-lo, bem como a vista do janelão que dava para o bosque. Normalmente a visão da folhagem densa o confortava. Era seu santuário. Agora era uma chatice. Ele cogitou descer até a cozinha para beber ou comer alguma coisa. Para pegar a enorme faca de açougueiro. Mas seria apenas um pretexto para evitar lidar com o lixo que ele tentara passar como obra literária. Nick se jogou no sofá preto de couro e colocou um dos braços sobre os olhos. O que deveria fazer? Gary o estava perturbando para distribuir as emoções que havia colocado na cena de sexo ao longo da história. O sujeito tinha enviado o material para o novo editor dar uma olhadinha e ele adorara. Delirara mesmo. Nick não tinha certeza de como se sentia a respeito. Um elogio era sempre bom, mas isso significava que ia querer mais. Será que ele era capaz de fazer mais? Não se aquela porcaria em seu computador servisse de parâmetro. Ele nunca ficara tão grato por ouvir o telefone tocando como naquele instante. E estava desesperado a ponto de atender mesmo depois de ter visto

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o identificador de chamadas. – Angel – respondeu ele. – Nicky? Ligue para seu agente e diga a ele que pode jogar fora os originais de Jeremy – pediu a mãe dele. – O casamento está cancelado. – Você está brincando, certo? Foi como abrir uma torneira no jato máximo. Ela começou a verter lágrimas, lamentando a indiferença insensível de seu mais novo amor, sobre a ruína de sua vida, sobre o futuro horrendo que a aguardava por causa do coração partido que provavelmente a mataria. Nick suspirou e seguiu para o andar de baixo. Ele sabia que tinha tempo para pegar uma maçã, talvez até mesmo para preparar um sanduíche, antes de ela se cansar. Exatamente sete minutos depois, Nick pôs um prato de frutas e um sanduíche de carne assada com pão de centeio em sua mesa, se jogou na cadeira e pegou o telefone. – O que vou fazer? – choramingou ela, bem na hora. Aquela era, Nick sabia, sua deixa para oferecer alguns murmúrios patéticos de compaixão. Só que ele estava cansado daquilo. Cansado da montanha-russa emocional, cansado de tocar a mesma música. – Pare de fazer joguinhos e vá conversar com ele. Aguente firme pelo menos uma vez na vida e dê uma chance ao homem. – Ai, droga. Por acaso ele estava bêbado? Ele sabia que não era prudente oferecer opinião. Nick olhou para seu refrigerante. Não, ele estava bem sóbrio e, obviamente, burro. Não era sua função se envolver no drama emocional da mãe. Ele deveria escutar, emitir um som aqui e ali, e não se meter. – Olhe – disse ele, incapaz de recuar agora que havia aberto sua boca grande –, você amava o sujeito o suficiente para querer se casar com ele, e ele não pode ter mudado tanto assim nos últimos dias. Quando fomos almoçar, ficou óbvio que ele beija o chão que você pisa. Se ele quer que você 152


saia com ele e com a filha para almoçar uma vez por mês, eu não acho que isso seja motivo para dispensá-lo. – Mas... – Pare de tratar relacionamentos como se eles fossem pratos descartáveis, Lori. Se quer que esse funcione, desfaça suas malas, pare de de chorar e faça o que ele deseja de vez em quando. Ele faz por você, então é simplesmente justo. Silêncio. Nick deu uma mordida em seu sanduíche, a mostarda picante tirando o amargor de sua boca. – Como você sabe que arrumei as malas? – murmurou ela finalmente. – Você sempre faz isso. Desde que eu era criança e seu segundo marido gritou por você ter batido o carro na porta da garagem. Você arrumou as malas e fomos embora. – A mala dela. Não a dele. Nick teve de abandonar todos os seus brinquedos, roupas e seu primeiro melhor amigo. – Eu não telefonei para receber um sermão – disse ela, depois de fungar algumas vezes. Pelo seu tom ofendido, ela estava superando o choque. – Eu ia para São Francisco na semana que vem e queria te ver. Você consegue arrumar tempo para mim? Ótimo. Mais baboseira emocional. Nick quase respondeu que, se ela precisava de dinheiro, era só pedir e poupar o tempo dos dois. Mas aquilo seria desagradável. – Que tal um almoço? – perguntou ele, em vez disso. Cinco minutos e todos os beicinhos que ele conseguia tolerar depois, Nick desligou e suspirou. Apoiando a cabeça nas mãos, ele se perguntava se meio-dia e meia era cedo demais para beber. A mãe sempre o deixava daquele jeito. Extenuado, chateado e, pior de tudo, vulnerável. Nick franziu a testa, abriu seu laptop e leu a cena de morte outra vez. Vulnerável era uma boa palavra para descrevê-la. Ele se abriu para emoções e o que recebeu? 153


Um tiro na barriga. Com um sorriso de escárnio, apertou a tecla “delete”. Se perdesse a aposta com Delaney, teria de escrever aquele tipo de porcaria. Não, obrigado. Ter colocado emoção nas cenas de sexo já havia sido o suficiente. Teria de sê-lo. Ele tateou os ingressos para o baile Exótico Erótico na beirada de sua mesa. Estava pensando em não ir. Afinal, definitivamente não era o tipo de coisa que Delaney apreciava. Mas tinha muita coisa em jogo. Precisava vencer. Com um suspiro determinado, ele abriu o e-mail e enviou uma mensagem para Delaney, dizendo a ela para não marcar nada naquela noite. Tinha uma surpresa para ela. – TEM CERTEZA de que estou bem? – perguntou Delaney, puxando a saia outra vez. – Acha que está curta demais para o sarau da faculdade? Mindy suspirou, porém recuou e ofereceu uma olhadinha de cima a baixo à amiga. Desde seu cabelo com caimento suave, arrumado para trás com uma faixa de couro preta acolchoada, passando pela blusa de seda azul-real abotoada até o pescoço, à saia preta de linho que batia exatamente três centímetros acima dos joelhos trêmulos. Quando os olhos de Mindy chegaram aos pés de Delaney, calçados com sapatos boneca de couro preto, ela suspirou. – Você está ótima e esses sapatos são demais. Delaney olhou para baixo e sorriu. Tinha descoberto, para a própria surpresa, que amava sapatos. As roupas chiques, maquiagem e acessórios eram normais. Ela já havia se acostumado a eles e passara a gostar de seu efeito. Mas os sapatos ela realmente passou a comprar por prazer. Para si, pelo único motivo de terem o poder de fazê-la sorrir. Então ela franziu a testa. – Tem certeza? Quero dizer, este visual diz “professora séria”? Ou diz “idiota toda arrumada”?

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Mindy revirou os olhos e agarrou o braço de Delaney. – Já chega. Vamos. Você quer aquele cargo e vai chegar lá e convencer a banca de que é capaz de atrair atenção do jeito que eles desejam. Delaney suspirou profundamente, então, com o queixo empinado, adentrou o salão. Foi como entrar em um mundo diferente. Um que, ela percebeu de repente, não tinha deixado saudade. Os painéis de madeira eram de cerejeira, o piso, de mármore, a atmosfera, rarefeita e nobre. Em outros momentos teria sido um refúgio. Agora era como um dos velhos terninhos marrons dela, desajeitado, desconfortável e não muito atraente. Ela devia estar tensa, é claro. Aquela era sua vida e, assim que retornasse para ela, voltaria a se encaixar. Tinha esperanças disso. A quantidade de olhares chocados para ela não foi muito reconfortante. – Estou tão diferente assim? – perguntou ela a Mindy discretamente. – Você está ótima. Definitivamente nada invisível. Mantenha o foco. Foco. Certo. Ela estava lá para impressionar, para provar seu valor aos colegas e à banca. Com aquilo em mente, Delaney pôs um sorriso confiante no rosto e caminhou pelo cômodo. Era algo que ela havia feito centenas de vezes antes, mas nunca daquele jeito. As pessoas queriam conversar com ela. Vinham para fazer perguntas, elogiar seu novo visual. Ela era, Delaney percebeu depois de uma hora tentando chegar à tigela de ponche, a atração de festa. – Sua proposta é intrigante – disse a professora Mohs, depois que ela encurralou Delaney em um canto. Elas haviam passado os cinco primeiros minutos falando sobre os sapatos de Delaney e os cinco minutos seguintes falando sobre suas ideias para o Departamento de Literatura. A mulher era uma socióloga brilhante e tinha o jeitinho de uma tia querida. Os cachos negros criavam um halo delicado em torno de seu rosto angelical enquanto ela sorria beatificamente. – É exatamente disso que o departamento precisa, se quer saber. Com isso e suas qualificações, eu diria que você teria chances excelentes perante o comitê. 155


Tudo que Delaney pôde fazer foi se conter para não se abaixar e abraçar a mulher. Como um dos membros do comitê, a opinião dela era fundamental. Cinco minutos depois, as mulheres se separaram. Delaney encontrou Mindy perto do bufê e ofereceu um sorriso satisfeito. – Estou rouca – admitiu Delaney. – Acho que falei mais nessa última hora do que falo em um dia inteiro de aula. – É um tipo diferente de performance – declarou Mindy, enfiando um cogumelo recheado na boca. – Você fica mais confortável na sala. Agora, está em exibição. – Conforme eu esperava, todo mundo está perguntando o que eu fiz. Eu só disse que passei por uma pequena transformação, sem entrar em detalhes. – Delaney encheu seu prato de aperitivos, então felizmente pegou um copo de ponche servido por um aluno. Ela e Mindy seguiram para uma mesa desocupada e afundaram em suas cadeiras. – Não tenho certeza sobre como responder ao “o que tenho feito”, no entanto. Aparentemente todos pensam que dar aulas pela internet quase não pode ser classificado como trabalho. – Você disse a mesma coisa a respeito – apontou Mindy. – Porque isso quase não pode mesmo ser classificado como trabalho. Quero dizer, a interação é muito menor. Eu me sinto inútil. Um programa de 156


computador poderia atribuir o material a ser lido e as notas dos trabalhos. – Ela se remexeu no assento, puxando a barra da saia para cobrir um centímetro extra de pele nua. – Graças a você e a essa transformação, porém, existe pouquíssima possibilidade de isso se tornar uma coisa permanente. – Precisamos sair para comemorar – concluiu Mindy, com a boca cheia de queijo brie. – E, ei, agora que impressionou a banca, há um homem que você realmente precisa impressionar. Delaney não precisou se virar para ver quem era. Ela percebeu, pelos cochichos que tomaram conta do ambiente. Sempre que seu pai entrava, as pessoas ficavam caladas. Quase desconfortáveis. Ou talvez ela fosse a única desconcertada, o que era uma pena, considerando todo o panorama da coisa. Contudo, não mais. Ou, pelo menos, foi isso que ela disse a si. E, tal como a transformação, se ela fingisse externamente, talvez começasse a sentir aquilo internamente. Então ela respirou fundo, empinou o queixo e se virou para examinar o salão. O pai estava parado, cumprimentando as pessoas lá do outro lado. – Vá – incentivou Mindy, como se lendo a mente de Delaney. – Tudo bem. – Delaney inspirou outra vez e ficou de pé, cruzando o salão. A multidão se abria como o mar Vermelho para dar passagem ao reitor. Quando Delaney chegou até ele, que ainda estava conversando com o diretor do departamento de história, ele não pareceu notar que ela estava ali. A professora Hail notou, no entanto. Ela lançou um olhar de reconhecimento a Delaney e tentou interromper a conversa com o reitor. Mas, absorto como sempre, ele continuava a falar. Sem parar. Delaney percebeu pela primeira vez que a falta de sensibilidade de seu pai não se restringia a ela. Ele não prestava atenção às necessidade de ninguém. Não era

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uma descoberta fortalecedora? Firmando-se nela, Delaney sorriu para a professora Hail e pigarreou educadamente. Nada. Há alguns meses, o olhar de compaixão dessa mulher teria alimentado seu complexo de inferioridade. Agora não. Ela simplesmente revirou os olhos e, com um meneio de desculpas à professora, bateu no braço do pai. – O q... – O reitor Conner se virou, um franzir de testa vincando suas sobrancelhas ruivas. – Perdão? – Pai, você tem um minuto? – Com licença – disse a professora Hail, e saiu rapidamente. – Delaney? – Ele franziu a testa ainda mais quando absorveu a aparência dela. 158


Pelo olhar de desaprovação, ele não estava impressionado. Delaney não se surpreendeu. – O que, diabos, você fez consigo? É por isso que não tenho visto você ultimamente? Ela ficou surpresa por ele ao menos ter notado sua ausência. – Você não tem me visto porque transferiu todo meu curso para aulas on-line, lembra-se? – perguntou ela. – Certo. – O franzir do cenho diminuiu e ele pousou o olhar sobre o ombro esquerdo dela. Durante os cinco minutos seguintes, começou a discutir os resultados das aulas dela, as notas e a possibilidade de criar novos cursos. Era isso? Mais nenhum comentário sobre a transformação? Nada? Ela olhou para baixo para se certificar de que realmente estava vestindo sua roupa elegantemente ajustada em vez dos terninhos folgados de lã do passado. Sim, lá estavam seus saltos matadores. – Espere – interrompeu ela. – Perdão? – Você está falando como se já estivesse determinado que minha carga horária permanecerá sendo on-line no próximo semestre. – Ele deu seu olhar característico “não me amole com detalhes”. – Você disse que seria uma experiência temporária – insistiu ela. Pelo olhar das pessoas e o vincar do rosto do pai, Delaney utilizara um volume mais alto do que pretendera. Após os resultados desastrosos de sua crise com o pai, ela sempre fora cuidadosa para ser a filha perfeita. Para moldar sua personalidade de acordo com as expectativas dele. Atitudes temperamentais o constrangiam e perda de controle era algo a ser evitado a qualquer custo. Ela foi tomada pela vergonha por ter atraído atenção para a discórdia entre eles. Mas então, para a própria surpresa, a raiva afastou a vergonha. Ele não teria como mandá-la para o internato desta vez. – Você disse que precisava de alguém para trazer empolgação ao departamento – insistiu, sentindo-se como uma borboleta se libertando do casulo. Uma borboleta muito furiosa e extenuada. – Eu sou essa pessoa. Minha proposta é de vanguarda. É dinâmica, está à frente de seu tempo e iria revitalizar nosso Departamento de Literatura. – Agora, Delaney... 159


– Não. – Ela cerrou o maxilar, e pela primeira vez enfrentou de fato o pai. – Não, você não pode falar “agora, Delaney” para mim desta vez. Eu já lhe disse, estou cansada de ser tratada como se fosse insignificante. Cansada de ser dispensada com um tapinha na cabeça e um pseudoelogio. Anos de prática mantiveram sua voz em tom moderado; as palavras, agradáveis. Afinal, seu pai simplesmente desligava tudo que considerasse emocional. Ocorreu-lhe a ironia por aquela ter sido a origem das suas apostas com Nick, mas ela afastou o pensamento para analisá-lo em outra ocasião. – Falei com a professora Mohs mais cedo. Ela acha que minha proposta é intrigante. E que é perfeita para os rumos que a banca tem vislumbrado. Ela acha que posso fazer esse trabalho. – Eu nunca disse que não a achava capaz de fazer o trabalho, Delaney. Mas para conquistar a promoção será necessário mais do que a opinião de um membro da banca. E ele obviamente achava que ela não seria capaz de consegui-las. Delaney sabia que ele não iria se oferecer para dar referências. Mas, então, ela não tinha aceitado nada assim antes. Incapaz de manter o tom contido que seu pai exigia, ela simplesmente assentiu e se retirou. Não porque não desejasse constrangê-lo, mas porque não queria constranger a si. Quase sem conseguir enxergar entre as lágrimas que lhe borravam a visão, Delaney atravessou o salão. Então os últimos quatro meses não tinham servido para nada? Mesmo com a transformação, ela ainda não era importante. O olhar de Delaney pousou sobre o professor Belkin, que havia 160


acabado de chegar. E, ao lado dele, estava a concorrente de Delaney, a tal morena. Ela encarou os olhos do professor Belkin e viu o recado ali. A escolha estava feita e Delaney não tinha chance. Ela enfiava as unhas nas palmas enquanto tentava reprimir a raiva amarga que surgia dentro de si. Não aguentava mais. Anos controlando seu temperamento foram jogados pela janela quando ela imaginou o prazer de chutar o joelho do diretor presunçoso do departamento com seu sapato de bico fino. Ou talvez mirar um pouco mais alto e desinchar o ego dele. Pronta para explodir, Delaney começou a cruzar o salão. Antes que pudesse dar mais de três passos, no entanto, alguém lhe deu um tapinha no braço. Ela olhou então, vendo quem era, e abrandou sua fúria com muito esforço. – Professor Ekco. – Ela saudou o ex-presidente da banca e membro mais recente do comitê de admissão. – Professora Conner – respondeu ele. – Gostaria de parabenizá-la por sua proposta inovadora. Ahhhh. Delaney lhe ofereceu um sorriso hesitante, as palavras dele mais eficientes para aplacar sua raiva do que todos os seus exercícios de respiração. Eles passaram os minutos seguintes discutindo suas ideias, Delaney ficando mais animada e empolgada conforme explicada as inúmeras opções para inserir mais obras 161


de ficção contemporânea na faculdade. Finalmente, o ex-presidente assentiu. – Você está certa, professora Conner. É uma proposta fabulosa. Uma que vai acrescentar muita coisa ao lado de outras que recebemos. Claro, o professor Belkin apoiou uma candidata diferente, mas tenho certeza de que você pode ver que ela tem uma bagagem imensa. Delaney cerrou os dentes para evitar rosnar de frustração. – Porém... – Ele arqueou uma sobrancelha e chegou mais perto. Ela enrijeceu. O velho não iria passar uma cantada nela, iria? Ela ouvira histórias sobre tais acontecimentos, mas nunca em Rosewood. E nunca, nunca, com ela. – Bem, tenho um segredinho para contar. Ela congelou. – Sou um grande fã do Wake Up California ∗∗∗ disse o velho, cochichando. – O quê? Como? – Ele não dava aulas de manhã? E como estava conseguindo sintonizar uma emissora local de São Francisco ali? – Minha filha grava para mim – comentou ele. Os olhos dela se arregalaram. Ai, droga. Quem, diabos, fazia esse tipo de coisa? 162


Ela nunca cogitara tal possibilidade. Tanto esforço para o plano funcionar. Ela nem mesmo se deu o trabalho de suspirar. Simplesmente esperou. – Depois de descobrir que seu alter ego é uma crítica literária, fui correr atrás para ler seu trabalho. Impressionante. E, embora eu nem sempre concorde com seu ponto de vista, você o apresenta de maneira muito eficiente. Delaney teve vontade de perguntar se aquilo significava a diferença entre um 9 e um 10. Porém, se manteve calada enquanto ele prosseguia: – Agora, essa aposta com Nick Angel tem sido fascinante. Não apenas a base de sua argumentação, mas o fato de você ter tomado uma atitude tão arriscada. É disso – disse ele, com um breve meneio de cabeça – que precisamos no Departamento de Literatura. Alguém propenso a correr riscos, a assumir um currículo no qual acredita. Delaney ficou boquiaberta, porém nenhuma palavra saiu. Ela foi tomada de empolgação e não conseguiu esconder o sorriso de contentamento. Interpretando a reação, ele balançou a cabeça rapidamente. – Não, não – corrigiu. – Não vou apoiar sua candidatura, professora. Pelo menos não agora. A empolgação murchou como um balão com vazamento. – Não agora? Ele mostrou um sorriso paternal, deu um tapinha no braço dela e disse: – Vença aquela aposta contra Nick Angel e eu lhe darei meu apoio. 163


Principalmente se você conseguir com que o sr. Angel venha fazer uma palestra na faculdade. Isso definitivamente iria impressionar os alunos. – Ele assentiu de maneira decisiva. – Sim, tenho confiança de que a presença dele, junto à sua proposta e à sua reputação acadêmica, vão garantir o cargo a você. Delaney sorriu fracamente em agradecimento. Que irônico. Ela, que era virtualmente invisível há alguns meses, poderia conseguir sua cobiçada promoção vencendo uma simples aposta de alto nível. É claro que, para vencer, tudo que ela precisava fazer era acertar com suas resenhas, evitar que Nick a distraísse usando de seus poderes luxuriosos e tentar não ser magoada. Ela poderia muito bem tentar convencer seu pai a participar de um baile de pai e filha com ela no Dia dos Namorados. EM CASA, naquela noite, Delaney estava sentada à sua escrivaninha, navegando no site do Wake Up California. Ficou olhando para a segunda enquete, desamparada. Ainda perdendo. Droga, ela não podia perder. Antes, vencer Nick tinha sido uma questão de orgulho. Algo somente entre os dois, ainda que a enquete altamente divulgada fosse parte integrante da aposta. Mas agora seu futuro dependia disso. 164


Ela havia aceitado o trabalho na TV para melhorar sua capacidade de apresentação, para expandir sua transformação. Pretendia usar a competência construída ali para ajudá-la a se vender ao comitê. Não para que seu cargo no “Cantinho da crítica”, e principalmente sua aposta com Nick, se tornassem fatores decisivos no futuro de sua carreira. Vencer a aposta era vital agora. Tendo isso em mente, ela pegou o terceiro livro a ser resenhado em uma pilha sobre a mesa e, ainda usando a saia e os saltos altos, sentou-se na poltrona do escritório, a saia vermelha de seda texturizada lhe conferindo uma sensação de poder. Com bloco de notas e caneta ao lado, ela se acomodou para ler o livro, apagando deliberadamente todos os pensamentos sobre Nick. Em vez de beber um refrigerante, optou por um copo de água gelada, que repousava na mesinha ao lado. Em vez de rock como pano de fundo, ouvia música clássica, como um lembrete do que estava em jogo. Três horas e meia depois, ela terminava de digitar as últimas anotações e lia a resenha. Será que era o suficiente para angariar os votos dos leitores? Nick havia escolhido um clássico para ser o terceiro livro criticado. Provavelmente apostando no leitor médio do gênero, se distanciando da obra da Jane Austen. Muitos leriam e recorreriam às suas análises típicas das aulas de literatura do colegial, em vez 165


de simplesmente enxergar a mensagem complexa na história. A resenha dela desafiava os leitores a cavarem mais fundo. Era mais que um artigo opinativo, era o ápice de tudo que ela representava como professora. Uma ode à obra, escrita de forma a encorajar o leitor a decidir por si só sobre o que a história abordava. Mas será que era o suficiente? Pela primeira vez, ela estava cercada de dúvidas sobre sua habilidade como crítica literária. E como professora. Finalmente, incapaz de tolerar a dúvida em uma área de sua vida na qual sempre se sentira confiante, Delaney fechou os olhos e apertou o botão “enviar”. Pronto. Terceira resenha enviada. E ela precisaria vencer dessa vez para ganhar a aposta. Exausta, Delaney ficou olhando para a tela do computador. Também não estava mais perto de vencer sua aposta particular com Nick do que estava de vencer a aposta pública. Hora de mudar isso. Empinando o queixo, ela abriu o navegador de internet para pesquisar. Era hora de descobrir como convencer Nick de que emoção, intimidade, era fundamental. Afinal, Delaney tinha tudo para vencer. Capítulo Onze – UM PIQUENIQUE – repetiu Nick inexpressivamente. Ele devia ter ouvido mal as palavras de Delaney. O objetivo de sua insistência em apenas saírem era para provar que emoções eram mais satisfatórias que luxúria. O que um piquenique iria provar? Como intensificar a frustração dele por não conseguir luxúria? ∗∗∗ Você está brincando, certo? Delaney lançou um olhar irônico e continuou a guardar as coisas. Cesta de vime, cobertor, uma bolsa do que pareciam

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ser... brinquedos? Nick semicerrou os olhos para ver melhor, mas não conseguiu distinguir. Ela realmente estava falando sério. O olhar incrédulo dele se voltou para encontrar os olhos castanhos divertidos dela. – Um piquenique vai ser legal – assegurou ela, enquanto seguia para a porta de seu apartamento, ignorando abertamente a consternação dele. – Ar fresco, atmosfera relaxante. Vamos lá, vai ser divertido. Com porta aberta, ela se virou para olhar por sobre o ombro e revirou os olhos. – O que foi? Você odeia piqueniques ou coisa assim? Nick fez uma busca em seu cérebro por opiniões sobre piqueniques, mas não encontrou nada, então simplesmente deu de ombros. – Você já esteve em um piquenique? – perguntou ela. – Não – respondeu ele, não muito certo de por que soou, ou se sentiu, acanhado. – Então venha, é uma experiência nova. Pensei que você fosse do tipo que gostasse de novidades. – Claro. Quando elas envolvem sexo ou aventura. Não ficar sentado em um gramado úmido espantando insetos do meu almoço. Os olhos dela brilharam à menção do sexo. Nick ficou feliz por ver o calor latente ali, assegurando que ele não era o único sofrendo ao longo daqueles encontros estúpidos para que ela pudesse tentar provar sua argumentação. Uma argumentação da qual havia se aproximado muito mais durante o jantar e a dança torturante do que com a ideia de piquenique. Então o calor se dissipou e ela lhe ofereceu um sorriso amigável. Nick teve vontade de gemer. Mais ainda, ele queria jogá-la no sofá e reviver as lembranças incríveis que eles tinham criado há poucas semanas. Ter de seguir as regras dela estava acabando com ele. – Vou proteger você – prometeu ela, indiferente à agitação dele. Esticou-se para trás e agarrou o pulso de Nick, então o puxou porta afora rumo à segurança nebulosa do piquenique. Uma hora depois, Nick admitia: – Isto é legal. Eu não chamaria de divertido, mas não é ruim.

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Ele se reclinou sobre o cobertor, a grama espessa criando um colchão confortável sob as costas dele. Uma amoreira imensa oferecia sombra para eles, bem como um padrão intrigante de luz salpicada sobre o cabelo de Delaney. Diabos, ela estava linda. – Não é ruim, hein? Grande elogio, de fato – retrucou Delaney, com uma gargalhada. Os sons do parque, pássaros e risadas de crianças preenchiam o ar com uma felicidade despreocupada. Era esquisito como aquilo fazia Nick se sentir mais leve. Não passional, no entanto, então ele ainda não conseguia enxergar como aquilo trabalhava a favor da argumentação de Delaney. Daí ele se tocou. Talvez fosse apenas o que aparentava. Um passeio confortável e relaxante entre duas pessoas que eram... o quê? Nick franziu a testa enquanto observava Delaney pegar os vasilhames com comida e organizá-los novamente na cesta. Eles eram amigos? Ele podia conversar com ela sobre qualquer coisa, na verdade; ficava ansioso pelos debates desde que ela o obrigara a pensar além da zona de conforto. Eles riam juntos, tinham interesses mútuos, gostos similares. Todos os itens relacionados a amigos. Que tal amantes? Aquilo implicava uma intimidade além de sexo vigoroso, não é? No entanto, por mais que ele gostasse de afirmar o contrário, queria que fossem amantes. Uma noite de sexo incrível e alucinante não tinha sido o suficiente. O olhar de Nick trilhou pelo contorno nítido do maxilar dela, a curva doce dos lábios. Ele a desejava. Mais do que conseguia se lembrar de ter desejado qualquer outra mulher. Ele havia 168


sugerido que a aposta fosse uma aventura com um mês de duração, em parte porque um mês era seu limite para relacionamentos. Embora Delaney definitivamente tivesse inserido um friso na linha do tempo dele, Nick sabia que queria ficar com ela por muito tempo além daquele mês. Ele poderia passar todas as noites do ano seguinte com ela e ainda assim não conseguiria fazer todas as coisas que vinha sonhando em fazer. Delaney pegou um pacote de biscoitos, distraindo-o da outra fome que o corroía. Ele gemeu e pôs a mão sobre a barriga. Como aquele era o único apetite que Delaney concordava em satisfazer por ora, ele prometeu a si que acrescentaria mais um quilômetro à sua corrida matinal, e pegou três biscoitinhos. – Você come assim em todos os piqueniques? – perguntou ele. O olhar dela foi ao mesmo tempo tímido e triste. Ele queria largar os biscoitos e lhe dar um abraço, porém o empinar do queixo dela desafiou a piedade. – Sinceramente? Este também é meu primeiro piquenique. – Ela desprezou o olhar chocado dele. – Eu normalmente caminho neste parque para me exercitar, sabe? Sempre vejo as pessoas fazendo piqueniques. Famílias, casais. Parecia algo… especial. Ignorando o ar de “não sinta pena de mim” dela, Nick esticou o braço e pegou sua mão. – Se você tinha vontade de comer em um parque, por que simplesmente não o fez? Você me parece ser uma mulher que sempre corre atrás do que deseja, mesmo que seja algo tão simples como comer sobre um gramado. Ela começou a dizer alguma coisa, então balançou a cabeça. – Quando eu era criança, meu pai estava sempre ocupado demais. Mesmo que tivesse tempo para fazer as coisas, o reitor... Quero dizer, 169


papai definitivamente não era o tipo de sujeito amante das atividades ao ar livre. Ele era mais adepto a passeios em bibliotecas. O reitor. Belo apelido para o pai. Nick se perguntava que tipo de sujeito travado acabava ganhando essa alcunha da única filha. – Minha família também não era adepta de piqueniques – admitiu Nick, observando a brincadeira entre os dedos deles em vez de encarar Delaney enquanto conversava seu segredo profundo e sombrio. – Meu pai foi embora antes de eu nascer, e minha mãe... Bem, ela não gostava de passar o tempo comigo, a menos que houvesse um objetivo por trás disso. Você sabe, impressionar um marido em potencial com suas habilidades maternais. Mas ela sempre escolhia programas como sorveterias e pizzarias. Coisas que mantivessem minha boca ocupada para que eu não a delatasse. Talvez essa seja, de fato, minha primeira incursão em um parque público. Ele encontrou os olhos dela, buscando por pena, mas vendo apenas aceitação. Delaney realmente era diferente das outras mulheres. Uma tensão que ele nem mesmo havia notado tinha se depositado em seus ombros. Culpando a insalubridade do ar fresco por sua urgência de compartilhar coisas, Nick se abriu pela primeira vez na vida. Conversaram sobre a infância de ambos. Compararam a infância com pais ausentes, as expectativas de encontros e as formas particulares de rebeldia. – Então escrever foi seu meio de se vingar da sua mãe? – perguntou ela, os olhos arregalados de surpresa. – Como? Quero dizer, acho que rebeldia é fugir, quebrar regras, fazer coisas para constranger seus pais... A voz dela esmoreceu e Delaney franziu a testa. Seu olhar baixou para o cobertor e ela piscou 170


algumas vezes, então olhou para ele outra vez. Nick não tinha muita certeza de por que aquele pensamento a atingiu com tanta força. Ele não sabia se era por causa do olhar triste dela ou da serenidade ímpar do parque em geral, mas se ouviu sendo alarmantemente honesto: – É um pouco complicado constranger alguém que não percebe sua presença ali – explicou ele. – Escrever estava mais para uma fuga. Um jeito de fugir do drama emocional constante que minha mãe fazia. Uma vez que comecei a vender livros, tornou-se um troféu, de certa forma. Você sabe, um sinal de que eu era... bem, especial. Nick estremeceu. Que coisa mais piegas de se dizer. Ele esperou a risada de Delaney, que não veio. Em vez disso, ela fechou os dedos sobre os dele e levou a mão dele à boca. Um beijo delicado nos nós dos dedos e Nick derreteu por dentro. – Fico feliz por você ter encontrado essa afirmação – disse ela. Os olhos deixavam claro que ela não estava feliz. – Você é incrivelmente talentoso e merece saber disso. Ele queria dizer a Delaney que ela era talentosa e especial também. Mostrar o quando a considerava incrível. Nick não fazia ideia de como lidar com as emoções que se debatiam dentro dele, exigindo que compartilhasse mais coisas. Aquilo o assustava muito. E era só o que ele podia fazer para não se levantar e fugir. – Você sentia vontade de escrever? – perguntou ele, mudando de assunto de forma típica. – Definitivamente não. Sou uma leitora – disse ela, o tom inflexível. – Admiro, até mesmo reverencio a palavra escrita e fico surpresa com a criatividade necessária para levar uma história da imaginação até o papel. Mas meu pai enxerga 171


a ficção comercial com o equivalente ao crack para o cérebro. – Ele deve estar em êxtase por ver você escrevendo resenhas como ganha-pão, então – gargalhou Nick. O olhar dela, culpa misturada a uma rebeldia teimosa, assegurou a Nick que seu pai não fazia ideia da existência daquele trabalho. Nick riu outra vez. Que bom para ela. Sua audácia era uma das coisas que a tornavam tão fascinante. – Assim como não escrevo minhas resenhas buscando aprovação, também não escolho meu material de leitura me baseando no que ele, ou qualquer pessoa, pensa ser adequado. Sou tão propensa a ler os suspenses eróticos de Nick Angel quanto as obras de Homero, Jane Austen ou J. K. Rowling. – Fico honrado por você me colocar ao lado desses autores – disse ele, com sinceridade. A imagem de um de seus livros empilhados no balcão do caixa ao lado das obras deles era humilhante. – Bem – começou ela, com uma honestidade brutal –, eu não diria que você está no mesmo nível deles. Afinal, todas as obras deles se concentram naquela única coisa que você está tão determinado a evitar. – Emoção – disseram juntos. Ela riu, a tristeza longe de seus olhos. Nick foi tomado pelo alívio. – Suas histórias fornecem uma fuga – assegurou Delaney a ele. – Elas definitivamente preenchem um nicho. Mas... – Ela meneou o ombro sedoso e ofereceu um sorriso que fez Nick querer saltar sobre prédios altos e carregar trens acima da cabeça. – Você é tão mais que isso. Seu talento é extraordinário, então por que você não tiraria partido dele? – Por que pressionar por emoções, já que elas são parte das mazelas do mundo da qual a maioria 172


das pessoas está tentando se esconder? – Mas é exatamente isso, eu não creio que as pessoas leiam para fugir das emoções, elas estão lendo para ver o triunfo das emoções. Pelo menos – corrigiu ela, se inclinando para a frente para roubar um pedaço do biscoito dele – as emoções positivas. Enquanto ele refletia, quebrou mais um pedaço do biscoito e deu a ela. Os lábios de Delaney envolveram as pontas dos dedos dele. Havia uma migalha, bem pequenininha, no cantinho da boca de Delaney que Nick queria lamber para tirar. Mas ele não o faria. Não porque estava sendo uma espécie de rapaz bonzinho seguindo as regras dela. Mas porque achou que as crianças na caixa de areia não precisavam de uma aula gráfica sobre como dar prazer a uma mulher. Percebendo que Delaney ainda estava falando, ele se obrigou a escutar suas palavras. – O romance pode se focar no amor, mas há outros gêneros que puxam pelas emoções do mesmo jeito. Leia um romance de guerra: eles se concentram nos terrores da batalha, nos triunfos. O horror se concentra no medo, mas os melhores usam nossas emoções para aumentar o medo, constroem o medo a partir delas. Verdade. Pela primeira vez, Nick pensou, de verdade, em sua colocação para acrescentar emoção ao trabalho. Ele sempre igualara aquilo a colocar catchup em um filé. Inútil. Mas talvez, apenas talvez, sempre existissem meios de trazer emoções à escrita sem fazer disso uma traição. Ou uma desgraça. Sem perceber que já havia feito um avanço, Delaney esticou a mão para tocar o quadril dele. Nick seguiu o meneio do queixo dela e viu um casal mais velho caminhando, de mãos dadas. Ele voltou a olhar para ela, certo de que olhava para a coisa errada. Não, ela estava olhando para o casal, um olhar sentimental em seu rosto. Captando o ceticismo dele, Delaney revirou os olhos. – Não estou sugerindo a você escrever sobre amores octogenários. Só estou apontando o quanto as emoções são duradouras. Ele lançou mais um olhar duvidoso para o casal de cabelo branco, que agora estava sentado em um banco a poucos metros de distância. O velho ali merece crédito, pensou Nick, enquanto o galã ancião se inclinava e beijava sua mocinha. – Um ponto para a intimidade – disse Delaney, com uma risada. – Não há jeito de você os descrever sem citar a luxúria. Aposto que eles já se beijaram pelo menos mil vezes, mas ele ainda utiliza a língua. Delaney riu quando ele desviou o olhar. – Você vai para boates e observa estranhos fazendo isso encostados na parede – observou ela. – 173


Provavelmente já assistiu a mais atos mais depravados do que sequer consigo imaginar em nome da pesquisa. No entanto, vê uma prova de que a intimidade, e emoção, é meiga e duradoura, e aí desvia o olhar? Ela o fitou demoradamente com as sobrancelhas arqueadas e perguntou: – Por quê? Boa pergunta. Em vez de tentar respondê-la, Nick fez o que fazia de melhor. Aproveitou a oportunidade. Sustentando o olhar dela, chegou mais perto, até conseguir sentir o chocolate no hálito de Delaney, notar os olhos dela se arregalando. Um calor, ousado e intenso, lampejou naquelas profundezas escuras. Os olhos de Delaney se focaram além do ombro dele e ela franziu a testa. – Confie em mim – disse ele, enquanto passava a mão pelo cabelo dela, levando sua boca até a dele. Provocando a ambos, Nick manteve o beijo suave e tranquilo. Um roçar suave dos lábios nos dela, a carícia mais delicada dos dedos. O gosto dela o tentava a mergulhar mais fundo, a tomar a boca de Delaney com toda a paixão que percorria seu corpo. Mas Nick se obrigou a se conter. Ele apenas trilhou os lábios dela com a pontinha da língua em vez de investi-la fundo na boca delicada. Simplesmente roçou os dedos sobre a pele sedosa em vez de agarrá-la. Aquilo quase o matou, mas ele se segurou. Com um suspiro trêmulo, Nick afastou a boca e, encostando a testa na dela, a encarou. Emoções, estranhas e não muito bem-vindas, giravam dentro dele. Tudo que ele queria fazer era abraçar Delaney enquanto tentava descobrir o que tais emoções significavam. Ela piscou, três piscadelas lentas com aqueles cílios espessos. Então comprimiu os lábios. – Eu diria que você lida com a paixão de um jeito bem sólido – falou ela baixinho. – Mesmo que ainda não seja capaz de admitir, você já provou o poder da intimidade sobre a luxúria. O prazer se foi quando o estômago de Nick deu um nó. Será que ela estava certa? Nick olhou para as profundezas risonhas dos olhos de Delaney. Ele teria de segurar as pontas mais um pouquinho para ver. A PERGUNTA de Delaney martelava Nick mais tarde naquela noite, quando ele se sentou para escrever. Ele era capaz de recitar, cantar e versar todos os seus motivos para evitar aquela besteira emocional em suas obras. 174


Mas eram motivos, ou pretextos? Aquilo fazia diferença? Gostasse ele ou não, Delaney havia aberto uma porta. Agora a história que estivera tão sólida e viável em sua cabeça girava em um milhão de direções, e ele sabia que o único jeito de recuperar o controle seria simplesmente se sentando e escrevendo. Conforme seus dedos voavam pelo teclado, a cena se solidificava em sua mente. Aparentemente ele estava prestes a ver, de uma vez por todas, se a pressão de Delaney por emoções em seu trabalho iria aprimorar sua escrita. Ou arruiná-la de uma vez por todas. – ACHO QUE estou encrencada – disse Delaney, enquanto cavoucava seu bolo de chocolate com o garfo. – Se você não parar de brincar com esse bolo e comê-lo, o chef provavelmente vai vir aqui e realmente lhe mostrar o que é encrenca – advertiu Mindy, com um gesto para o balcão do restaurante de sobremesas. Delaney deu uma olhada e captou a carranca no rosto do dono. Ops. Ela acenou com o garfo e pegou uma boa quantidade da sobremesa classicamente saborosa. Porém, a meio caminho da boca, ela suspirou e retornou tudo para o prato. – Então Nick é quente, meigo e mais do que sexy na cama – disse Mindy impacientemente. – Essas não são consideradas coisas ruins em um cara. – Podem muito bem ser – disse Delaney. Ela encarou as espirais e linhas que havia feito no bolo confeitado, então encontrou o olhar de Mindy. ∗∗∗ Acho que estou

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me apaixonando por ele. – Droga. – Eloquentemente falando – disse Delaney. – Mas isso é loucura. – Aí está a encrenca que mencionei. Mindy fez uma careta. Ao contrário de Delaney, ela lidava com suas preocupações do jeito consagrado: estava comendo o chocolate. Em mordidas imensas e contemplativas. Delaney foi esperta o suficiente para permitir que ela terminasse seu doce com recheio de musse sem interrupções. Voltou a fazer arte culinária em seu bolo enquanto aguardava. – Tudo bem, talvez seja simplesmente sexo ótimo – disse Mindy, comendo o último pedaço. – Melhor que ótimo, mas não é isso. Mindy balançou a cabeça e, afastando seu prato, tão limpo que ela poderia têlo lambido, apoiou os cotovelos na mesa. – Não, você nunca fez sexo do tipo “Ai, meu Deus” antes. Isso mexe com seu cérebro. Faz você pensar maluquices, tipo fazer pedidos ao arcoíris e besteiras do gênero. Delaney fez uma pausa 176


na transformação da cobertura em uma flor para olhar para a amiga, boquiaberta. – Arco-íris e besteiras do gênero? – Você entendeu. Sexo ótimo, do tipo que faz você ficar acordada a noite inteira se lembrando de como foi, revivendo, esse o tipo de coisa que faz você pensar em “felizes para sempre”. – Ou talvez em simplesmente fazer de novo, com algumas novidades e atualizações. – Dava para melhorar e atualizar o sexo com ele? – A boca de Mindy formou um “O”, os olhos azuis ficaram reluzentes com o choque. – Mas... mas você disse que foi incrível. Como se melhora isso? – Referi-me a melhorias de minha parte – admitiu Delaney. – Você sabe, brinquedos, acessórios, coisinhas pervertidas de fetiches. Mindy abriu e fechou a boca algumas vezes, mas não fez nada além de emitir chiados. Aquilo divertiu Delaney o suficiente para fazê-la finalmente garfar um bocado da cobertura do bolo. – Bem, então – disse Mindy finalmente. Ela bufou, daí deu de ombros. – Se é isso que você quer, o que a está impedindo de fazer? A aposta? – Não sei. Talvez, no começo, a aposta tenha sido para provar meu argumento. Agora minha carreira depende dela. – Sorrindo, Delaney cutucou a cobertura ferozmente com o garfo. – Não essa aposta. A particular. Você está preocupada de que vá perder se ceder e for para a cama com ele outra vez? Estava? Luxúria versus intimidade. O limite, outrora tão claramente definido em sua cabeça, borrara até ficar imperceptível. Ao se abster, será que ela estava provando seu ponto de vista conforme pretendia? 177


Ou aquilo simplesmente só servia para enlouquecer a ambos? – Vamos fazer de novo – defendeu ela. – Quero dizer, quando insisti para nos segurarmos e fazermos a coisa de ficar só saindo, foi para frisar meu argumento, sabe? Para provar que a conexão, a coisa de se conhecer, acrescentaria um elemento emocional ao encontro sexual. No entanto, eu não percebi que seria tão complicado prosseguir sem o sexo. Como Mindy atualmente estava nessa mesma situação, ela simplesmente revirou os olhos. – Com vocês vão saber quem venceu? Antes que Delaney pudesse dar uma resposta, o dono da confeitaria retirou o prato dela, resmungando. Ops. Ela fez uma careta para Mindy, que estava tentando segurar uma risada. – Não sei – disse Delaney finalmente. Ela pôs os cotovelos na mesa, apoiou o queixo nas mãos e começou a cogitar a ideia de perder. – Acho que vai ser uma decisão difícil. Quanto mais penso no assunto, menos penso ser possível haver um vencedor claro. – Então por que vocês não estão transando feito coelhos? – perguntou Mindy, jogando as mãos para o alto em exasperação. Delaney lambeu os lábios, baixou o olhar para a mesa e então encarou Mindy. – Não tenho medo de perder a aposta – disse ela lentamente – tanto quanto tenho medo de Nick enxergar meu “eu” verdadeiro. Sem essa transformação, essa máscara, ele não teria interesse nenhum por mim. Mindy exibiu aquele olhar “que idiota”, mas Delaney simplesmente balançou a cabeça. – Sério, será que ele teria tido qualquer interesse por mim, por nossa aposta paralela, se não por causa da transformação? – Você não pode perguntar isso – insistiu Mindy. – É como perguntar quem veio primeiro, o ovo 178


ou a galinha. – Hein? – Ele conheceu você, deu em cima de você porque se sentiu atraído, certo? – Delaney assentiu, mas, antes que pudesse retrucar, Mindy prosseguiu: – Ele veio para o programa especificamente para conhecer você, por causa das suas resenhas sobre os livros dele, certo? – Delaney assentiu outra vez, abrindo a boca para esclarecer, mas Mindy balançou a cabeça. – Você ofereceu a resenha como parte da sua entrevista sobre a transformação de visual, do mesmo modo que foi fazer o programa de TV por causa da transformação. – Delaney nem mesmo se deu o trabalho de tentar dizer algo dessa vez, então simplesmente assentiu. – Você passou pela transformação porque queria sua parcela de atenção por direito, assim poderia conseguir o cargo que merece, certo? – Delaney apenas ergueu as sobrancelhas, a cabeça começando a doer. – E seu emprego é algo que você ama, certo? Você é uma ótima professora, manda bem nos cursos de literatura. Então, realmente – resumiu Mindy, sem fôlego por falar tão depressa –, Nick sente atração por você pela pessoa que você é, e não por causa da cor da sombra nos seus olhos. Delaney contou até dez. Então, com a cabeça ainda girando, contou até 20. Finalmente, balançou a cabeça. – Talvez queira considerar refazer as disciplinas de pensamento lógico e desenvolvimento de argumentação racional. Acho que você me perdeu na primeira rodada. – Você só não quer admitir que estou certa – disse Mindy, impávida. – Não poderia nem se quisesse. Eu ainda não estou entendendo o que você quer dizer. A loura deu um suspiro demorado e sofrido. – O que quero dizer é, você é quem você é. Tudo que trouxe até este ponto, até esta mesa, a esta conversa comigo, é parte do todo. Nick está atraído pelo todo. Não apenas pela embalagem. 179


Delaney ouviu as palavras, mas eram apenas sons sem significado algum. Ela havia passado 27 anos sentindo-se invisível. Sendo ignorada. Até mesmo seu pai a considerava insignificante demais para prestar alguma atenção a ela. Toda sua carga atual de popularidade, de atenção, tudo resultava da transformação de visual. Claro, ela era inteligente o suficiente para perceber que nenhuma quantidade de maquiagem ou produtos para cabelo, ou mesmo um maravilhoso sutiã com enchimento, poderia transformá-la em uma mulher forte, confiante... Mas... bem... transformou. – Delaney? – Entendi o que você disse. – Mas não acredita em mim? – Mindy sacudiu a cabeça, a confusão enrugando seu rosto. – Como uma mulher tão inteligente como você pode pensar que o valor de uma pessoa na verdade é baseado na aparência física? – Não questiono meu valor – defendeu Delaney. – Mas você não pode desprezar os resultados da transformação, a qual você sugeriu. Eles são diretamente responsáveis por todas as mudanças que estão acontecendo na minha vida agora. – Você faz tão pouco dele também – desafiou Mindy –, ou só de si mesma? – Nenhum dos dois, é claro. – Delaney havia feito muitos cursos de psicologia para cair tão facilmente na armadilha. 180


– Por que então simplesmente não deixa que ele enxergue seu “eu” verdadeiro? Você é a mesma pessoa, com ou sem maquiagem, vestindo aquele terninho medonho de lã ou roupas elegantes de linho. E arriscar arruinar a última rodada de sexo quente, selvagem e provador de argumentos? Diabos, não. – Acho que aí desaba o verdadeiro alicerce da nossa aposta – disse Delaney, em vez disso. – A luxúria é baseada em aparência, em atração explosiva e desejo ardente. Intimidade é mais, são todas essas coisas que você citou. É conversa na cama e mau hálito de manhã. É aquela chama que queima lentamente, que dura depois do fogo da atração inicial. São as emoções. – Delaney exibiu um sorriso triste e deu de ombros. – O fato é: Nick não acredita em nada disso. Por bons motivos, considerando a infância dele. E, assim que ela voltasse a ser a verdadeira Delaney e Nick descobrisse que ela era uma farsa, ele iria embora. Então, apesar de a frustração sexual a manter acordada à noite, eles poderiam muito bem dormir juntos mais uma vez, em nome da comprovação do argumento dela, e então Delaney retornaria ao seu mundo real e Nick continuaria no dele. Delaney tinha certeza de que, por melhor que fosse ser o sexo com conexão emocional, ela daria qualquer coisa por um encontro guiado pela luxúria, o ato pela simples diversão. Afinal de contas, o próximo iria deixar seu coração em frangalhos. Capítulo Doze – ISSO AÍ – urrou Sean, quando Delaney deixou o palco. – Sua última resenha está arrasando. – É? O alívio se digladiou contra a surpresa quando Delaney examinou a folha impressa que ele havia lhe entregado.

A enquete on-line definitivamente estava a favor dela. – O produtor quer trazer Angel de volta na semana que vem – disse Sean, para ela. – Ele está pensando em fazer um sorteio ao fim desse último bloco de votação, escolhendo duas ou três pessoas que comentam no blog para vir como convidadas. Você e Nick podem fazer toda a coisa do debate outra vez, vamos ouvir a opinião de alguns leitores, encerrar a aposta e declarar você 181


a vencedora. Você realmente deveria repensar a oferta do produtor, Delaney. O quadro está crescendo, os telespectadores adoram.

A última notícia que ouvi é que eles querem aumentar para três transmissões na semana. Delaney estava apavorada com o quanto se sentia tentada. Ela começou a adorar seu quadro “Cantinho da crítica”. Eram apenas 15 minutos de tempo real no ar, mas o empenho que ela colocava nas resenhas, as entrevistas com os autores e a interação com os leitores eram muito gratificantes. Era como ser uma criança em uma loja de brinquedos ouvindo que ela poderia brincar com o que desejasse. Só que precisava continuar a lembrar a si mesma de que era a analista dos brinquedos, a professora do ofício. Não uma criança. Então ela suspirou e se concentrou no restante das notícias dadas por Sean. – Nick concordou em voltar? – Não tenho certeza. Acho que é algo que esperam que você resolva. Aparentemente ele não está retornando as ligações. O agente disse que ele está ocupado, escrevendo. Escrevendo? Ela sabia que ele estaria ocupado, pois tinha dito a ela que ficaria enrolado por uma semana ou coisa assim, por isso ela não se preocupara com o fato de não estar tendo notícias dele. Mas ele estava escrevendo? Delaney prendeu a respiração. Em que ele estava trabalhando? Ele tinha dito que ela o fizera pensar. Será que ela realmente fizera diferença? Mais uma semana e a aposta entre Nick e ela estaria finalizada. E a aposta paralela? Eles tinham acertado isso também. Ele enviara uma mensagem dizendo a ela para manter a noite de sábado livre. Ela sabia como a noite iria terminar. 182


Terminar era a palavra-chave. Como ela e Nick terminariam. Como é que as mulheres faziam isso? Entrar em um relacionamento sabendo que tinha vida útil limitada? – Delaney? Cheguei em um momento ruim? Ela e Sean se viraram para olhar para Mindy. Obviamente gostando do que via, Sean inflou o peito e se apresentou. – Bela entrada – disse Delaney a Mindy, depois que elas abandonaram o apresentador babão. – Você sabe que ele vai chamá-la para sair, certo? – Você acha? – perguntou Mindy, olhando por sobre o ombro. – Acho que este vestido novo valeu a pena. Elas riram e seguiram para o camarim. Delaney ficou boquiaberta quando passaram pela porta. Ali, na mesa, havia um buquê de rosas imenso. Com um ohhh baixinho de satisfação, ela tocou os botões viçosos e aveludados. As flores não estavam ali antes. Ela espiou o cartão enfiado entre os botões e o pegou. Talvez você estivesse mesmo certa... Nick. Certa a respeito do quê? Franzindo a testa, Delaney virou o cartão, mas o verso estava em branco. Certa sobre suas habilidades como crítica literária? Sobre as emoções? ∗∗∗ Bem? ∗∗∗ 183


perguntou Mindy, acotovelando a cintura de Delaney de maneira impaciente. – De quem são? Ela arrancou o cartão dos dedos de Delaney e franziu a testa. – Certa sobre o quê? – Não faço ideia – admitiu Delaney, enquanto olhava para as rosas, o sorriso tão largo que suas bochechas doíam. Um risinho lhe escapou quando ela abraçou o buquê com cuidado. Segurando o cartão junto ao peito, ela dançou pelo cômodo apertado, rindo alto. Mindy lhe ofereceu um olhar perplexo de interrogação. – Eu nunca recebi rosas. Nunca – explicou Delaney, enquanto olhava o cartão outra vez. – Ninguém nunca me enviou flores de nenhum tipo, muito menos... – Ela contou. – Três dúzias de lindas rosas vermelhas. – Já que suas mãos estão ocupadas, acho que este é o momento perfeito para dizer “eu avisei” – anunciou Mindy orgulhosamente, quando se sentou em uma cadeira. Delaney simplesmente deu de ombros. Sentia-se bem demais para discutir, principalmente quando o seu lado do debate a deprimia ao extremo. – Um sujeito não manda flores por causa de luxúria – apontou Mindy. – Talvez você precise dar a si um pouco de crédito, Delaney. Olhe ao redor, reconheça onde está e o que conquistou. Depois de recolocar o vaso de rosas cuidadosamente sobre a mesa, Delaney olhou para a cadeira oposta a Mindy e inspirou fundo. Em outra época, ela teria rido se qualquer pessoa sugerisse que um dia ela estaria em um lugar como aquele. Na TV, publicamente aclamada por sua inteligência e ainda por cima atraindo atenção. Recebendo dezenas de rosas de um sujeito sexy que não estava interessado em apenas ir para a cama com ela, mas que também respeitava sua inteligência. Ela. A filha insignificante do reitor Conner. Talvez Mindy estivesse certa. Talvez fosse tudo parte do todo. E, droga, talvez a atração de Nick por ela, seu interesse nela, fosse mais do que apenas uma coisa superficial. Delaney tinha esperanças de que sim. Estava tão louca pelo sujeito que estava ficando estúpida. – Bem? – Talvez – disse Delaney vagamente. 184


– O que você quer? Quer de verdade? Ela queria tudo, confessou Delaney para si. Encontrou o olhar de Mindy, quase com medo de dizer em voz alta, de tornar o fato real. Como se o ato de fazê-lo fosse exterminar aquele último mês, deixar tudo tão efêmero quanto um sonho. – Tudo bem – admitiu Delaney, em voz alta. – Eu quero tudo. Quero Nick, quero aquela promoção. Ela queria poder manter o programa de TV. Mas não disse isso em voz alta. Assim como ter Nick, era um sonho impossível. Ou, no mínimo, improvável. – Então vá pegar. Delaney conteve uma gargalhada histérica. Quais eram as chances? Será que havia algum jeito de fisgar Nick? Não apenas segurar a atenção dele por mais uma semana ou algo assim, enquanto encerravam as apostas, mas realmente fisgá-lo. Tipo, para sempre? Se tentasse, ela estaria apostando tudo. Porque perder significava não apenas ter sua autoconfiança pisoteada ao extremo, mas também seu coração. Mas algumas coisas, algumas pessoas, valiam o risco. – Como? – perguntou ela baixinho. – Para começar, pare de se preocupar com o quê é você e o que é fruto da transformação. Simplesmente seja você mesma. Passe algum tempo com o sujeito. E – disse Mindy, mordiscando a unha do dedão – talvez você queira usar lã em seu próximo encontro. Delaney riu, embora soubesse que Mindy estava falando sério. Ela definitivamente queria Nick. E em algum momento teria de contar a ele sobre seu emprego verdadeiro. Mas de jeito nenhum ele precisava saber que por dentro ela era uma geek que usava terninhos de lã. Não, ela manteria esse seu lado bem trancado, escondido.

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Porque, não importava o que Mindy dissesse, Delaney tinha certeza de que Nick fugiria se um dia enxergasse a Delaney verdadeira. NICK FRANZIU a testa, a visão borrando enquanto imaginava a cena em sua cabeça. A cena, ao contrário da tela diante de si, era clara como água. E depois? Será que o sujeito deveria aceitar o risco emocional e apostar tudo, ou deveria continuar a fazer o que os heróis de Nick sempre faziam, e matar o bandido? Assim como fizera em todas as vezes que se flagrara em uma encruzilhada nessa semana, Nick imaginou o rosto de Delaney e se perguntou o que ela faria. Então piscou algumas vezes, baixou a cabeça e mergulhou de volta na digitação, deixando sua visão se aglutinar em palavras na tela. COM UM gemido de frustração, Delaney jogou o livro contra a parede e se levantou da poltrona para caminhar pelo escritório. Ela deveria entrevistar um escritor por telefone no próximo segmento do “Cantinho da crítica”, porém estava odiando o livro dele. Um suspense que não causava efeito algum nela. Deveria. As emoções eram abundantes. Tão abundantes que pareciam extenuantes, na verdade. O protagonista enfrentava altos e baixos emocionais com velocidade suficiente para deixar o leitor desgastado. Depois de ler três quartos do livro, ela estava totalmente cansada de emoções. Onde estava a ação, a movimentação, a empolgação? Bastava fazer alguma coisa, pelo amor de Deus, sem a choradeira e a introspecção. Será que era assim que Nick enxergava a emoção nos livros? Na vida? Quando havia tantas emoções atacando o leitor, ele simplesmente se fechava em autodefesa. Será que Nick fizera o mesmo? Para uma mulher que sempre buscara os sentimentos nas histórias, foi uma bofetada perceber que, às vezes, o que fazia uma história funcionar para ela poderia ser exatamente o oposto. Será que ela nunca percebera isso? Ou, ela se perguntou, dando um suspiro, quando se jogou na poltrona, Nick a estava ensinando um jeito completamente novo de enxergar os livros, e a vida?

NICK 186


RELEU sua última cena e estremeceu. Não porque estava uma porcaria. Se fosse isso, tudo bem. Ele poderia consertar a porcaria. Mas aquilo… aquilo o fazia sentir-se nu. Para um sujeito que nunca tinha hesitado em se despir fisicamente, era uma sensação muito bizarra. Ele se afastou de sua mesa, necessitando se espreguiçar e se movimentar. Precisava de uma distração. O sexo lhe veio à mente, o que automaticamente trouxe Delaney aos seus pensamentos. Não que ela houvesse estado longe em algum momento. Ele sentia como se aquela história tivesse sido escrita com ela sentada junto ao seu ombro, reprovando toda vez que ele fugia daquele poço profundo de emoções que ela queria tanto que ele explorasse. A rigidez do corpo dele o fez olhar para o relógio. Já era meia-noite? Bastava de sexo. Melhor assim; ele precisava de um banho e cama. Olhou para monitor reluzente, a história gritando para que retornasse. Faria uma pausa para jogar uma água gelada no rosto e comer um sanduíche de presunto. DELANEY ENCARAVA a desgraça que havia escrito. Ela precisava mandar bem na resenha e nas perguntas da entrevista, e aquele lixo evasivo e insosso certamente não garantiria isso. Com um suspiro frustrado, ela apertou a tecla “delete”. Distração. Talvez,

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se ela se concentrasse em outra coisa por um tempinho, descobriria um jeito de organizar em palavras sua reação caótica ao livro. Ela abriu a página do curso on-line da faculdade e fez o login. Poderia dar notas aos trabalhos. Depois de meia hora lendo os trabalhos da turma do primeiro ano sobre a temática característica dos livros de Ernest Hemingway, chegou um e-mail interno da faculdade. Delaney clicou para abri-lo, então resmungou. Nada como um pouco de pressão. Para: Professora D. M. Conner De: Professor Ekco Para sua informação: o comitê de admissão vai se reunir uma semana antes do planejado. Conforme prometido, apoiarei sua candidatura contanto que você conquiste os objetivos listados. 1) Prove que suas resenhas são um sucesso através do programa de televisão e da enquete on-line. 2) Garanta um acordo com Nick Angel para que ele ministre uma palestra na Universidade Rosewood, como parte de sua proposta de plano de curso de literatura moderna. Desejo-lhe o melhor, a meu ver um grande benefício para nós todos nessa nova empreitada. Garantir uma palestra de Nick? Aquilo não era parte do acordo. Claro, ela não negara quando Ecko sugerira, mas só porque tinha 188


ficado em choque durante o restante da conversa. Sua premissa era esperada, no entanto, mas não, ela sabia, algo ao qual ele poderia obrigá-la a cumprir. Droga. Ela abriu o site do programa e clicou na enquete. Sim, ela estava vencendo, mas sua segunda resenha horrorosa definitivamente deixara a competição acirrada. O olhar dela pousou no e-mail outra vez e ela suspirou. Não tinha tempo para aquilo. Tinha prioridades e, nesse momento, arrasar em suas últimas edições do “Cantinho da crítica” era a maior delas. Precisava realizar uma ótima entrevista; seus telespectadores estavam contando com ela para garantir um olhar focado e perspicaz sobre o autor e seus livros. Ela queria telefonar para Nick. Debater a história com ele, ouvir suas ideias. Ouvir a voz dele. E, talvez, se tivesse sorte, eles pudessem até mesmo brincar de alguns joguinhos sexuais por telefone. Mas ele não estava disponível. Ela havia enviado e-mails, todos sem resposta, em quantidade suficiente para começar a se sentir um pouco carente e desesperada. Delaney chegara ao ponto, ela sabia, de dizer dane-se a aposta; ela não se importava em provar mais nada. Só queria ficar com ele. De todos os jeitos possíveis. Mas primeiro ela precisava escrever a resenha. Já que seus métodos atuais não estavam funcionando e havia tanto em jogo, ela teria de sacar suas maiores armas. A velha Delaney. Geek, sem graça e esquisita, mas o diabo de salto alto quando o assunto era leitura analítica. Ela seguiu para o banheiro para limpar o rosto, tentando se lembrar se sua calça de moletom vermelha folgada e puída estava suja. Hora de deixar a dra. Conner retornar uma última vez, pois mais tarde Delaney planejava enfiá-la no fundo de um armário e escondê-la para sempre. Afinal de contas – ela sorriu enquanto juntava o cabelo em um nó e prendia com um lápis –, ela havia resolvido ficar com Nick Angel.

NICK ESFREGOU os olhos, então se espreguiçou, braços acima da cabeça. Suas costas emitiram uma série de estalos satisfatórios, relaxando. Pronto. Ele havia terminado. Ah, ele sabia que era apenas um primeiro rascunho, escrito em apenas uma semana. Precisaria de mais uns dois meses para completá-lo, para adicionar camadas e detalhes.

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Mas o esqueleto estava ali. E era sólido. Pelo menos ele achava que era. Nick foi tomado pela exaustão se arrastando pelo seu corpo. Mas a mente dele girava em milhões de direções. Ele precisava dormir. Precisava de comida decente. Mais, ele precisava de um banho. Não, tudo de que precisava era Delaney. Vê-la, tocá-la. Ele mataria para prová-la. No entanto, mais que tudo, ele queria que ela lesse seu trabalho. Que dissesse se ele havia atingido aquela barreira emocional que ela estipulara. Para ver se ela estava certa. Com uma olhada para o relógio, ele calculou quanto tempo levaria para se arrumar e chegar à casa dela. Será que 22h era muito tarde para aparecer? Nick pensou no assunto, então apertou o botão da impressora antes de se arrastar para o chuveiro. A promessa de ver Delaney acabou com o último bocado da fadiga dele. Ele não podia esperar.

ELE MORDISCOU as coxas dela, fazendo-a se contorcer com um desejo desesperado. As correntes em seus pulsos beliscavam sua carne, lembrando a ela de que era prisioneira dele. Sua escrava sexual. Franzindo o cenho, Delaney despertou da história para descobrir o que havia captado sua atenção. Levou alguns segundos para se desligar da batida aleatória da música do Aerosmith ressoando em seu aparelho de som. Seu cérebro ainda estava mergulhado na cena da escrava sexual de um dos livros mais antigos de Nick. Ela levou mais dez segundos para perceber que a batida era em sua porta da frente. Companhia? Ela olhou para o rádio-relógio no criado-mudo ao lado da cama e franziu a testa. Mais de 22h? Provavelmente a sra. Johnson, que morava ao fim do corredor, tivera alguma emergência. Ela jogou as cobertas para o lado e ajeitou os óculos sobre o nariz. Correndo até a porta, viu seu reflexo no espelho e fez uma careta. Parte de seu cabelo estava presa ao redor do lápis no topo de cabeça, o restante estava arrepiado em volta do rosto. Um 190


rosto que, graças ao hidratante, brilhava tanto que suas sardas refletiam as luzes acima. Calça larga e uma camiseta maltrapilha completavam o visual. Ah, bem, sua vizinha idosa não iria se importar. Deixando a correntinha de segurança travada, por via das dúvidas, Delaney abriu a porta. Droga. Ela olhou horrorizada para o homem parado à sua porta. E foi só o que conseguiu fazer para não bater a porta na cara dele. – Nick? – A visão dela começou a rodopiar em uma névoa negra de pânico. – Vai me deixar entrar? Precisava? Será que ela poderia pedir a ele para retornar dentro de dez minutos? Cinco, se ela só fizesse a maquiagem e ficasse nua em vez de encontrar roupas decentes. – Delaney? – perguntou ele, o olhar azul brilhando, divertido. – Eu acordei você? – Não, eu estava… – Ficando excitada e com desejo lendo o livro dele? Em vez de compartilhar aquela notícia, ela fechou os olhos e tentou encontrar uma saída. Nada. Com um suspiro, fechou a porta, deslizou a corrente de segurança e reabriu a porta para deixá-lo entrar. Medo, veloz e furioso, corria dentro dela. Seus dedos agarraram o tecido puído da calça enquanto ela mordia o lábio. Ela não queria que Nick a visse daquele jeito. Nunca. Ela até mesmo tinha feito uma lista de roupas e lingeries casuais e bonitinhas para comprar se eles acabassem ficando juntos, e bolou um plano sobre como fazer para estar sempre arrumada e estilosa. – O que você está fazendo aqui? – Ela podia ouvir o pavor no próprio tom, mas ele, aparentemente, não, pois simplesmente deu de ombros e lhe deu um beijinho breve na bochecha antes de cruzar a soleira para adentrar a sala de estar. Ele deu uma olhada rápida na direção dela, mas então afastou o olhar tão depressa que Delaney não conseguiu ler a expressão em seus olhos. Ela cerrou os dentes, passando um dedo nas linhas penduradas de sua camiseta. Ai, meu Deus, ela devia estar pior do que tinha imaginado. Sentindo-se em carne viva e exposta, ela respirou fundo algumas vezes enquanto aguardava que ele explicasse o motivo de estar ali. 191


Mas ele simplesmente ficou andando pela sala, em silêncio. – Hum, você pode me dar um segundo? – perguntou ela, espiando o quarto. Será que era possível salvar a situação? Fim do plano “facilite para ele enxergar seu eu verdadeiro e veja se ele ainda está interessado”. – Eu preciso da sua ajuda – disse ele, em vez de responder a ela. Seu tom era tenso e só um pouquinho desesperado. – Tudo bem – concordou ela imediatamente. Não se sentia menos nua, mas não podia deixá-lo na mão. – O que posso fazer? – Eu... – Ele olhou ao redor, então olhou para o maço grosso de papéis presos por um elástico que segurava. Estendeu a ela exibindo um olhar tão vulnerável que o coração de Delaney disparou. – Pode ler isto? Preciso saber o que você acha. – É claro. – Com a paranoia da autoimagem esquecida, Delaney se apressou em pegar os papéis. Incapaz de se conter, ela abraçou Nick. Assim que seus braços o envolveram, ele gemeu e a apertou com mais força. De olhos fechados, ele a beijou na boca, um beijo violento e desesperado. Carente e selvagem. Delaney estremeceu quando sua língua encontrou a dele. Os dedos infalíveis de Nick encontraram os mamilos rijos dela sob o tecido puído da camiseta. Delaney gemeu e chegou mais perto. Mais. Ela queria mais. Então Nick se afastou e, dando a ela uma olhada breve, sorriu e balançou a cabeça. – Não. Eu preciso que você leia isto para mim, está bem? A preocupação na expressão dele dizia a ela para não tomar a rejeição como algo pessoal. Ele obviamente tinha algo mais importante lhe corroendo naquele instante. – Vá em frente e sente-se – disse Delaney para ele. – Eu só vou, bem... você quer beber alguma coisa ou algo assim? – Preciso que você leia do mesmo jeito que faria com um trabalho – falou Nick para ela. Delaney franziu a testa diante da intransigência do tom dele. – O que quer dizer? – Não como minha amante, mas como crítica literária.

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O calor queimou bem fundo no ventre dela perante a referência como sua amante. O olhar se voltou para o sofá onde ele lhe proporcionara aquele primeiro orgasmo. Talvez, se lesse depressa, ela poderia ter mais um esta noite? – Para o meu escritório? – Perfeito. DROGA. NICK seguiu Delaney pelo corredor em direção ao escritório. Quando passaram pela porta aberta do quarto, ele ficou tentado a agarrá-la e levá-la para uma rápida contenda suada na cama bagunçada. Os cobertores embolados e travesseiros espalhados fizeram Nick sorrir. Bom saber que ela não era totalmente organizada; ele estava começando a ficar paranoico. O requebrar doce dos quadris dela, quase imperceptível sob o tecido da calça vermelha drapeada de moletom, o distraía. Normalmente, quando finalizava um rascunho, Nick precisava de um alívio físico para toda a energia reprimida que tinha acumulado durante sua jornada mental. Em outras palavras: sexo. Agora não era diferente. Exceto pelo fato de ele, pela primeira vez, desejar algo mais. Ele queria a aprovação de Delaney. Já havia encarado editores, seu agente, até mesmo os críticos mais rígidos com menos tensão do que enfrentava em suas entranhas agora. – Posso pegar alguma coisa para você? – perguntou ela, assim que entraram no escritório. – Uma bebida, um lanche? Ele quase pediu um uísque com gelo, porém balançou a cabeça. Entorpecer seu cérebro não iria facilitar as coisas. A contração de testa dela, tão linda e confusa, fez Nick sorrir um pouquinho. Sabia que estava sendo todo furtivo e insistente, mas não tinha palavras para descrever o quanto

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aquilo era importante para ele.

O quanto significava saber o que ela achava. De suas palavras, de sua obra. De suas emoções. – Você pode simplesmente, sabe... – ele apontou para os originais – …ler para mim. Agora, por favor. – É claro. Você quer uma opinião ou uma crítica de verdade? – O que você faz normalmente quando analisa? – Faço anotações. – Anotações então – disse ele, meneando a cabeça. Delaney lançou um olhar demorado, então assentiu e se acomodou na poltrona. Uma parte da mente dele tinha notado como o tecido vermelho e grosso do moletom combinava com ela, forte e intenso. Outra parte notava como ela ficava jovial e bonitinha sem maquiagem. O cabelo, todo desgrenhado e despenteado, o fazia pensar em noites longas e sensuais roçando nos lençóis. Ele permitiu que aquela cena o entretivesse por um minuto. Então Delaney pegou um bloco de notas e uma caneta na mesinha ao lado e começou a escrever. Nick sentiu um aperto no estômago.

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– Esse é o primeiro rascunho, só para você saber – defendeu-se ele. Delaney nem mesmo olhou para ele. Simplesmente acenou com a cabeça e continuou a fazer anotações. Cinco minutos se passaram. Dez. Ele caminhava. Não conseguia se concentrar nem mesmo por tempo suficiente para olhar os livros reunidos na estante, exceto para perceber que a maioria dos títulos lançados por ele parecia estar ali. Ele tentou se distrair olhando para o ambiente. Sensual e eficaz, concluiu. Linhas lascivas, texturas atraentes e superfícies regulares. Tudo bem típico de Delaney. Ele passou uma das mãos no cabelo e reconsiderou a oferta dela para um drinque. Considerando toda a atenção que ela estava dispensando a ele naquele instante, duvidava que ela fosse oferecer outra vez. O olhar de Nick se voltou para o laptop dela. Aberto, monitor apagado. Mas ele sabia que estava ligado por causa da luzinha de stand by. – Você se importa se eu entrar na internet para verificar meu e-mail? – perguntou ele. – Tenho estado atolado na última semana e não o me dei ao trabalho de parar para vê-los. Ela sequer olhou para cima. Simplesmente acenou em concordância e continuou a fazer as anotações. Nick reprimiu o pânico. Familiarizado com o modelo do computador, ele apertou a tecla prateada de stand by e aguardou o monitor se acender. Delaney já estava conectada. Ele pegou o mouse para abrir uma nova janela, mas, antes que pudesse clicar, o e-mail na tela captou sua atenção. Professora? Nick franziu a testa, porém continuou a ler. Nossa senhora. A traição o atingiu como um caminhão de duas toneladas, deixando-o sem ar. Pontos pretos tomaram sua visão, já contornada por uma fúria rubra. 195


Ela o usara? Ecos das meias verdades e mentiras de sua ex-esposa e de sua mãe cochicharam em sua cabeça. Ela o usara sem cerimônias. E ele permitira. Diabos, ele facilitara para ela. Delaney não o queria. Ela só queria usar a carreira dele. Era tudo por causa de uma promoção em um emprego que ele, que abrira sua alma para ela ao lhe entregar seus originais crus, cheios de emoção, nem mesmo percebera que ela possuía. Nick sentiu o estômago se apertar, o maxilar latejando diante do ódio. Era tudo que ele podia fazer para não atirar o computador na parede. Ela não se importava com ele. Nick não era nada para ela, exceto um meio para um fim. Ele se levantou tão depressa que a cadeira elegante deslizou e bateu contra a parede. O olhar de Delaney se ergueu para o dele. – Você está bem? – perguntou ela. Apesar da testa contraída, o tom dela deixava bem claro que ela só estava parcialmente focada nele. O restante de si encontrava-se concentrado nos malditos originais. Diabos, não. Ele não estava bem. Mas seria uma desgraça se ele lhe desse a satisfação de expor sua frustração. O que significava que ele precisava sair dali. Agora. – Preciso ir – disse ele, seguindo em direção à porta. – O que houve? – Delaney se levantou depressa, o bloco de anotações e a caneta caindo no chão. As páginas que ela já havia lido caíram também, flutuando feito confete. Ela ficou vermelha, como se estivesse constrangida. Como poderia, no entanto? 196


Qualquer pessoa capaz de mentir tão friamente na cara dele dificilmente ficaria constrangida por ser desajeitada. – Preciso ir – repetiu ele, ignorando a pergunta dela. – Voltarei amanhã à noite para buscar você para o baile. – Baile? – questionou Delaney, a confusão óbvia no rosto dela. Seu olhar saltava entre ele e as páginas dos originais ainda em suas mãos, como se ela não soubesse em qual deles se concentrar. – Espere, você está indo embora? Não quer saber o que acho da história? – Tenho ingressos para um baile erótico – rebateu Nick, ignorando a pergunta dela do mesmo jeito que ignorava as páginas que ela lhe estendia. Como se ele as quisesse agora. Ela havia acabado de provar a ele que era tudo uma grande bobagem. – Venho buscá-la às 19h. Não se esqueça de levar a máscara. Capítulo Treze – EU LHE disse. Eu não lhe disse que ele iria surtar quando visse meu “eu” de verdade? ∗∗∗ esbravejava Delaney, enquanto andava pelo escritório de Mindy às 8h da manhã seguinte. Ela não conseguiu esperar até a hora do almoço para encontrar a amiga, e aquela certamente não era uma conversa para ser travada por telefone. Não, uma queixa daquele nível requeria que fosse pessoalmente, cara a cara. Então ela limpou as lágrimas, se dando o trabalho apenas de passar rímel e colocar o cabelo para trás com uma faixa de couro. A calça jeans era pura provocação, pois ela sabia que iria para o escritório do pai. – Talvez tenha sido outra coisa – disse Mindy, mordiscando o polegar. A pobre loura estava tentando comer um pãozinho, quando Delaney irrompeu pela sala. Mastigar as unhas era um substituto nutricional um tanto pobre. – Talvez ele estivesse nervoso porque você estava fazendo anotações sobre o trabalho dele. Talvez ele tivesse achado que você simplesmente, sabe, leria e lhe faria afagos na cabeça ou coisa assim. – Talvez ele tenha ficado sem palavras ao ver minha calça larga, meu suéter e minha cara oleosa. O revirar de olhos de Mindy obrigou Delaney a desacelerar, a esquecer a dor e pensar. – Talvez seja porque minhas resenhas estão vencendo, por isso ele está bravo.

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Quero dizer, ele declarou publicamente que, se eu vencesse, ele teria de acrescentar emoção às suas histórias. – Mesmo tendo dito em voz alta, no fundo Delaney sabia que não era por isso. Ela havia lido os originais de Nick depois de ele ter ido embora, três vezes, esperando se perder na história e se esquecer da dor por causa de sua partida abrupta. Ele havia chamado de rascunho cru. Ela chamava de brilhantismo puro. As emoções jorravam das páginas, entoavam uma mistura perfeita de ação e intensidade. – Não – murmurou ela. – Não teve nada a ver com a aposta. Teve a ver comigo. – Ai, meu Deus, você precisa parar com isso – gritou Mindy, batendo as mãos na mesa. – Sério, por que você faz isso consigo? Chocada, Delaney parou de andar para encarar a amiga. – Está tão paranoica com essa máscara, essa porção falsa de você, que não vai aceitar que foi tudo por sua causa. A professora Delaney Conner, crítica literária sensual da televisão. – As palavras furiosas de Mindy atingiram Delaney como explosões. – Você não é essa impostora com meia dúzia de personalidades compartimentadas. Você é uma mulher inteligente que finalmente se permitiu utilizar as ferramentas, as vantagens que a maioria das mulheres usa. Maquiagem, produtos para cabelo, roupas decentes e ajustadas. – Não estou paranoica... – Delaney começou a dizer, mas Mindy a interrompeu. – Bobagem. Você acha que, só porque Nick viu você sem maquiagem, ele ficou todo grosseiro e fugiu? Não funciona assim, Delaney. Se ele foi embora, foi por causa de outras coisas. Desculpe, mas foi. – A voz de Mindy estava mais branda agora, quase reconfortante. – Você está dando crédito demais à transformação de visual. Tudo que ela fez por você foi lhe dar algumas ferramentas. Não mudou quem você é. – Se não fosse pela transformação, Nick Angel nunca teria me notado. Nunca teria me procurando, nunca teria dormido comigo. – Nunca a teria feito se apaixonar por ele. – Nick nunca tinha visto você antes daquele programa de TV, Delaney. Ele respondeu à sua resenha. À sua crítica ao trabalho dele. – Ele flertou, provocou, me desafiou. 198


Ele criou aquelas apostas. Não teria feito isso se não fosse pela transformação – argumentou Delaney, usando de seus piores medos para reforçar sua opinião. – Nick não teria tido a oportunidade se não fosse pela transformação – concordou Mindy. – A transformação deu a você a confiança para aceitar aquele trabalho na TV, para debater com ele e para se manter firme quando confrontada por um sujeito sensual por quem tinha uma quedinha de fã há anos. – Você faz soar como se ele fosse ficar atraído por mim mesmo se me conhecesse como a Delaney desarrumada no terninho de lã. – Ela revirou os olhos diante daquela ideia. Até parece. Nick Angel, o homem mais quente e sensual da Terra, atraído pelo desastre horrendo que ela era. – Está certa. Ele não teria olhado duas vezes para você em sua versão desarrumada. – A concordância sem resistências de Mindy surpreendeu Delaney, considerando o rumo que ela pensava que a discussão estava tomando. Aquela não era para ser uma conversa para melhorar a autoestima dela? – Mas só porque você não se julgava digna de ser olhada. – Hein? – Delaney cruzou os braços, batendo o pé em agitação. 199


– Delaney, você se escondia atrás de seu terno de lã. Você se destacava nos estudos porque esse era o esperado de você, só isso. Qualquer outra coisa teria sido um risco. A loura levou o dedo à boca, então o deixou cair no colo. Ofereceu um olhar de solidariedade a Delaney e deu de ombros. – Talvez seja mais fácil ser invisível do que arriscar ser, bem... rejeitada? Seu impulso imediato foi zombar e sugerir a Mindy para voltar às aulas de psicologia. Em seguida ela estaria diagnosticando complexo de Édipo e recomendaria a Delaney se reconectar à sua criança interior. Mas ela não conseguia falar em meio ao aperto que sentia no peito. Lágrimas – aparentemente ela ainda possuía algumas – inundaram seus olhos. Antes que ela pudesse surgir com uma resposta, o reitor entrou no escritório. Ela nunca havia ficado tão grata por ver o pai. Delaney abriu a boca para cumprimentá-lo, porém ele simplesmente assentiu de forma distraída e continuou a seguir para seu escritório. Invisível, mais uma vez. – Não – disse ela, em voz alta. Ela olhou para Mindy, que ostentava um olhar do tipo “bem, o que, diabos, você está esperando”. O que ela estava esperando? Por um milagre? – Segure todas as ligações – disse à loura, quando seguiu o pai até seu refúgio sagrado. – Você tem um minuto? – perguntou ela, por força do hábito, quando adentrou o escritório dele. O olhar surpreso do reitor mudou rapidamente para impaciência. – Delaney? O que você está fazendo aqui? Algum problema? O tom dele deixava bem claro que, se houvesse um problema, ele preferiria que ela resolvesse sozinha. Certo, tudo bem. Ela estava resolvendo. Embora seu lado muito bem-treinado quisesse se manter em paz com seu pai, afinal era o único jeito de conseguir a aprovação dele, o lado 200


recém-capacitado se recusava a baixar a guarda. – Preciso conversar com você – disse ela. – Você verificou minha agenda com minha assistente? – Estou aqui para conversar com você agora – corrigiu ela cautelosamente. O suspiro dele foi pesado e carregado. Mas, em vez de se sentir culpada como de costume, ela só estava irritava. Ele era seu pai, droga. E, mais ainda, ele era seu chefe e, como uma funcionária valorizada, ela merecia respeito. Empinando o queixo, Delaney se sentou na cadeira oposta à dele, cruzando as pernas. O olhar de desaprovação dele para a calça jeans dela nem mesmo a intimidou. – Muito bem – concordou ele. – O que posso fazer por você? – Estou aqui para avisar que vou procurar o comitê de admissão esta semana e pretendo conseguir o cargo. A surpresa aparentemente o deixou mudo, pois ele só a ficou encarando durante dez segundos inteiros. Será que ela nunca havia se imposto diante dele antes? Delaney ficou envergonhada por constatar que, talvez, nunca houvesse mesmo. – Eu já fiz minha recomendação – disse ele finalmente. – E não sou eu. – Eu recomendei a pessoa que considerei a mais adequada para servir a faculdade – respondeu vagamente. Por que ele não depositava confiança nela? Delaney balançou a cabeça, seu pensamento negativo atingindo-a bem no meio da cara. Era exatamente disso que Mindy estava falando. Normalmente, quando suas opiniões ou qualificações eram questionadas, Delaney se empenhava e, alegremente, provava seu valor. Mas, quando suas emoções estavam envolvidas, como acontecia com seu pai ou com Nick, bastava o menor revés e ela assumia estar falhando. Ou, se não estivesse de fato à altura, ela dava a situação como perdida e renunciava. Afinal de contas, ela se deu conta, era mais fácil se rejeitar antes que alguém mais o fizesse.

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Mas não dessa vez. Com as palavras de Mindy ressoando em sua cabeça, Delaney vetou seu hábito automático de autorrejeição e se manteve firme. Se sua cabeça estava zunindo e sua boca estava seca, bem, ninguém mais precisava saber disso. – Eu gostaria que você repensasse – disse ela, as palavras suaves, porém determinadas. – Eu não apenas melhorei meu currículo, como adquiri um número de habilidades que vão se encaixar bem ao novo cargo. Se ela já o havia surpreendido, a nova afirmação ousada fez o pai ficar totalmente chocado. Os olhos castanhos, iguais aos dela, ficaram encarando. Então ele balançou a cabeça e soltou seu suspiro característico. – Delaney, você simplesmente não está pronta para o cargo. Tirando a experiência, sinto que é necessário certo nível de confiança para administrar o departamento. Idade, autoridade e autoconfiança, todos jogam contra você. – Mas... – Apresente sua candidatura esta semana e deixe o comitê decidir. Ela rangeu os dentes. Sem o apoio do pai, Delaney tinha apenas a aposta a seu favor. E, por mais que desejasse o cargo, ela o queria baseado em suas qualificações. Não por causa de um golpe publicitário bobo de Nick ou por causa de suas opiniões sobre alguns livros. – Faz algum sentido aparecer na reunião do comitê se você já se decidiu? – perguntou ela, caindo de novo em seu velho padrão de não perseguir nada em que pudesse falhar. – Talvez você devesse analisar por que fez essa pergunta – disse ele lentamente, as palavras obviamente escolhidas com cuidado. Aquilo fez Delaney se lembrar de sua infância, do hábito do pai de ensinar uma lição fazendo perguntas de um modo que a obrigava a pensar na resposta. – O fato de ter perguntado reflete exatamente os motivos pelos quais não recomendei você para o cargo. Com aquele olhar demorado e perscrutador, ele encerrou a conversa. – Tenho uma reunião dentro de alguns minutos. Talvez possamos conversar sobre isso depois...? Delaney 202


comprimiu os lábios trêmulos e assentiu. Remoendo as palavras do pai, ela saiu do escritório lentamente e voltou à recepção. – Como foi? – perguntou Mindy, obviamente tentando não se encolher. – Ele já se comprometeu a apoiar outro candidato, então nada mudou de fato. – Mindy expressou decepção. Delaney deu de ombros como se não estivesse arrasada com o fato de o pai não ter fé nela. – Ele disse o mesmo que você, porém usando palavras diferentes. Mindy aguardou, dando a Delaney tempo para conter as lágrimas e, assim, conseguir falar. – Ele não acha que eu tenha confiança suficiente em mim para ser assistente adjunta. Ele quer alguém com personalidade mais autoritária para o cargo. – Eu não queria magoar você – disse Mindy baixinho. – Desculpe pelo que eu disse antes, está bem? – Você se refere àquela coisa sobre rejeição? Mindy assentiu. ∗∗∗ Não se lamente. Enquanto conversava com meu pai, percebi que você estava certa. Essa transformação de visual me tirou 203


da minha zona de conforto, me obrigou a enfrentar alguns problemas de autoconfiança. – Com uma careta, Delaney se jogou na cadeira oposta a Mindy. – Isso, porém, envolve mais do que fazer uma embalagem bonitinha. Eu preciso acreditar em mim também. Mindy abriu sua gaveta e, com um olhar furtivo para a porta do reitor, pegou um pacote de chocolate com nozes. Jogou bem no centro da mesa. As duas ficaram olhando o pacote por dez minutos. Delaney pensava na gravidade daquela descoberta quando, com um suspiro, pegou três barrinhas. – Dá para acreditar nisso? – perguntou Mindy, enquanto abria uma barrinha. – O fato é, acho que já acredito – respondeu Delaney, com a boca cheia de paraíso em forma de chocolate. – Entendo a opinião do meu pai. Vou achar um jeito de corrigir esses problemas. – Você ainda vai se candidatar ao cargo? Um lado dela queria gritar “não”. Quem em estado de sã consciência o faria sabendo que não tinha chance? Mas quando ela ia sair da zona de conforto? Agora, aparentemente. – Preciso – percebeu Delaney. – Mesmo sabendo que eles não me consideram preparada, preciso me candidatar para ter chance. Eu sempre corri atrás do que já estava garantido. Sempre busquei o que era certo que conseguiria. É como você disse, eu preciso me arriscar a sofrer rejeição. A ideia a apavorava tanto que ela pegou mais um chocolate. Será que sua frágil autoconfiança era forte o suficiente para aguentar? Enquanto Delaney deixava o chocolate derreter em sua língua, ela percebia que, confiante ou não, precisava tomar uma posição. – Então, a pergunta é – disse Mindy alegremente, obviamente mudando de assunto enquanto limpava restos de chocolate dos dedos –, e Nick? Agora que você está pronta para assumir riscos e sabe que não tem a ver com o fato de você ser invisível, vai deixar essa pseudorrejeição abalá-la? – Não, dane-se isso. Não sou invisível e ele não vai se livrar de mim tão facilmente. – Delaney 204


lambeu o chocolate do nó do dedo e pensou: – Vou precisar de algo supersexy para vestir. E uma máscara, acho. Mindy engasgou. – Você vai mesmo para um baile erótico. E por acaso havia um jeito menos visível de provar seu ponto de vista? Delaney não conseguia pensar em mais nada. E, além disso, ela queria vencer a aposta paralela. Não por causa de seu espírito de competitividade, mas porque sabia que era sua única chance de conquistar o verdadeiro prêmio. O coração de Nick. – Com certeza vou. Tenho uma aposta para vencer. E no processo vou mostrar a ele, em termos muito gráficos, exatamente tudo de que ele está fugindo. Se ele não aceitar meu “eu” verdadeiro, tudo bem. – Seria uma droga, ela ficaria emocionalmente arrasada, mas que assim fosse. Se ela perdesse, o faria sabendo que dera o melhor de si. – Mas, antes de pormos um fim nisso, ele vai saber o quanto a verdadeira Delaney é incrível. – MESMO SENTINDO-SE poderosa em sua pele, um tanto visível por sinal, Delaney ainda estava grata por ter a mão de Nick guiando-a pela entrada lotada do Cow Palace. Estava se provando uma imensa dificuldade mostrar a ele o quanto ela era forte, considerando que ele mal dissera uma palavra desde que a buscara. Ele havia ignorado sua conversa tola, resmungando quando ela desfiara fatos sobre a variedade de bailes eróticos sendo organizados no norte da Califórnia nessa época do ano, e oferecera respostas monossilábicas a todas as perguntas. Ela não conseguira penetrar o muro que ele erguera, então ainda não fazia ideia do que o chateara naquela outra noite. Contudo, os olhares quentes, devoradores, que ele lançava para ela a afetavam mais que seu silêncio. Eles subiram as escadas e Delaney arregalou os olhos para os outros convidados. Ela mordeu o lábio, sem saber para onde olhar primeiro. Ou, em alguns casos, percebeu, quando desviou o olhar de um sujeito particularmente assustador, muito pelo e quase nu, sem saber para onde não olhar. Mesmo que sua lista de filmes do Netflix não contivesse nada além de pornografia, ela apostava que nunca veria algo como aquilo. Ai, ele estava atirando para todos os lados para provar seus argumentos na aposta. Seria bom ela superar suas inseguranças e inibições, assim poderia provar os seus. – Ah – arfou Delaney, quando entrou no enorme salão. O choque a atingiu como uma pequena marreta. Havia excentricidades de parede a parede. Como um circo para adultos. Louco, atrevido e colorido. O ambiente estava tomado pelo 205


barulho. Ela precisou de alguns minutos para decifrar tudo. Vozes, altas e estridentes. Música metalizada saía dos alto-falantes e um rugido sombrio parecia vir por detrás das paredes. O imenso cômodo estava abarrotado de expositores. Havia de tudo à venda, desde brinquedos sexuais, passando por lingerie, até doces pornográficos. Os vendedores eram ainda mais intrigantes que as mercadorias que ofereciam. A maioria usava lingerie ou equipamentos sadomasoquistas. Alguns tinham optado pela pintura corporal no lugar do vestuário. Delaney amaldiçoou sua pele clara, pois, apesar da tentativa de parecer indiferente, estava da cor de uma beterraba. Pelo menos boa parte de seu rosto estava coberto pela máscara de couro cravejada com tachinhas que ela havia comprado em uma loja de fetiches. – A nudez pública é permitida aqui? – sussurrou ela, se inclinando para Nick enquanto ficava boquiaberta diante dos seios pintados de uma mulher muito bem-dotada guiando um homem muito bem-dotado usando capa de couro pela... coleira. – A pintura corporal contorna as leis sobre nudez – disse Nick, sorrindo para o casal que, agora, soprava beijos para Delaney. – Ela está em ótima forma. Eu não fazia ideia de que... – As palavras morreram enquanto ela observava a mulher caminhar, um chicote de couro encaixado no vão das nádegas. Aparentemente ela não tinha bolsos onde guardá-lo. – Vai ficar mais interessante ainda quando entrarmos. Entrar? Ela havia planejado provar seu ponto de vista a Nick com detalhes gráficos, porém estava começando a se considerar um peixe fora d’água ali. Como poderia argumentar em favor da paixão quando eles estavam cercados pelo epítome da luxúria? Tudo que ela podia fazer era seguir suas emoções. Tendo aquilo em mente, Delaney engoliu em seco para controlar os nervos e aprumou seus ombros excessivamente cobertos. – Vamos lá, então. A ATENÇÃO de Nick estava fixada em Delaney quando eles entraram no salão de baile. Apesar 206


da distância cautelosa que ele estava mantendo para se controlar, não conseguia deixar de olhála desde que fora buscá-la. Afinal de contas, ela parecia a personalização de sua fantasia mais quente. O couro preto envolvia os seios como um amante, seu corpete bordado baixo o suficiente para fazê-lo gemer. A saia, de algum tecido preto sedoso, farfalhava e deslizava sobre os quadris esguios. Os dedos dele ansiavam para experimentar o contraste das texturas. Era como se ela soubesse que ele havia cansado de brincar, e então, para tentá-lo, tivesse entrado em sua mente para encontrar sua fantasia mais sombria e, literalmente, se transformado nela. Luxúria, lembrou-se Nick. Aquilo era para atestar luxúria. Ele tinha chegado a oscilar na beiradinha, pronto para acreditar no ponto de vista de Delaney. Mas ela era exatamente como sua ex-esposa e sua mãe. Uma aproveitadora que manipulava as emoções como as peças de um jogo. Agora tudo que ele precisava fazer era se convencer disso também. Nick se inclinou para mais perto, o braço envolvendo o quadril de Delaney para abraçá-la com mais força. O cabelo dela roçou na boca dele, a textura sedosa era uma tentação com perfume floral. – Só a luxúria interessa – disse ele baixinho. Delaney lhe lançou um olhar surpreso. Primeiro a confusão, depois a determinação estava clara naqueles olhos emoldurados pela máscara de couro que cobria a metade superior do rosto dela. Delaney fez uma varredura no ambiente, observando a banda no palco principal, o desfile de moda em outro palco e, no terceiro palco, um concurso que aparentemente envolvia uma variedade de vibradores. Então os olhos dela encontraram os dele 207


novamente. – Isso de fato promove a luxúria – concordou ela. Então fez um meneio para a pista de dança. – Mas nada aqui é tão simples, é? Vamos dançar? Ele tinha pensado que ela não gostasse de dançar em público. Nick franziu a testa, mas a seguiu até a pista onde casais e solteiros rodopiavam em um abandono selvagem sob uma batida pesada. Luzes e couros reluziam em peles nuas, e o conjunto de couro de Delaney parecia sóbrio perto do restante da multidão. – Defina simples – desafiou ele, agarrando os quadris dela para manter seu corpo junto ao de Delaney. Havia uma política de não apalpar no baile, mas ele não confiava que os bêbados usando sungas de rede de pesca iriam manter as mãos afastadas do traseiro de Delaney. Ele lançou um olhar tipo “fique longe da minha mulher” para um sujeito. – Luxúria é simples. Todo o restante é menos simples – rebateu Delaney. Talvez ela estivesse certa. O sorriso dela, o requebrar maliciosamente sedutor de seus quadris e o jeito como ela acariciava o tecido da camisa dele... eram tudo, menos simples. As mulheres ao redor, a maioria nua, não causavam nenhuma reação nele, porém o tato de Delaney roçando seus mamilos deixava seu membro em alerta total. Um fato do qual ela estava muito ciente, considerando que ele roçava nela enquanto dançavam. Ela ofereceu um sorriso travesso, os olhos ficando quentes e intensos. Então colocou as mãos no peito dele, passou pelo abdome até chegar ao cinto. Nick prendeu a respiração, esperando para ver até onde ela iria. Os dedos de Delaney deslizaram sob o cós da calça, usando-a como alavanca quando o puxou para mais perto, os saltos deixando-a alta o suficiente para a ereção se encaixar perfeitamente entre a junção das pernas dela. Colidir, roçar, deslizar. Ela 208


desacelerou o ritmo. As mãos de Nick foram dos quadris à curva do traseiro, almejando controlar os movimentos. Mas Delaney não queria nada daquilo. Sendo assim, ela se afastou. Com os braços levantados, começou a dançar encostando nele, indo até o chão. Droga, os músculos das coxas da mulher eram incríveis. Descendo, subindo, voltando a descer. O cérebro de Nick apagou toda a razão, todas as lembranças de por que ele estava furioso se foram quando ele começou a se movimentar. Subindo e descendo, ela dançava. Entrando e saindo, implorava o cérebro dele. Bem quando ele pensou que iria enlouquecer, Delaney passou os braços ao redor do pescoço dele e usou os quadris para manter o ritmo de encontro à ereção de Nick. – Lembre-se de como foi – disse ela, a voz rouca, as palavras uma carícia úmida nos ouvidos dele. – Lembre-se de como foi quando estávamos juntos. O calor, a umidade, a intensidade selvagem quando você chegou ao clímax dentro de mim? Nick quase chegou ao clímax outra vez diante das palavras dela. Surpreso por ela ter dito algo tão ousado, ele só conseguiu gemer e agarrar o quadril escorregadio, coberto de seda com uma das mãos enquanto passava a outra pelo decote baixo do corpete de couro. – Quero explodir dentro de você agora – disse ele a ela. – Quero sentir você em volta de mim, seu calor úmido me tomando. Ela deu um sorriso lento e malicioso, e olhou ao redor. – Aqui? Com medo de ter entendido mal, Nick precisou fechar os olhos antes de sair completamente do controle. – Você está tentando me enlouquecer? – perguntou ele, desesperadamente temeroso de haver um lampejo de gemido em suas palavras. Ele devia ser a pessoa sob controle ali. Não ela.

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Aquilo envolvia provar um ponto de vista, e não sucumbir às malditas emoções que ela incitara nele. – Você me quer? – perguntou ela, a boca dando beijos quentes com lábios entreabertos pelo queixo e pescoço de Nick. – Você me quer do mesmo jeito que eu o quero? – Como você me quer? – perguntou ele, rouco. – Quero muito. Quero sentir você dentro de mim. Com força, rápido e intenso. Quero que você me lamba, me prove, me deixe louca. Quero você e só você, Nick. Ele começou a ofegar, a pulsação acelerando. Nick olhou ao redor, se perguntando para onde poderia levá-la. – Mas... O olhar dele retornou para o dela. Os olhos castanhos, repletos de desejo ardente, questionavam. – Mas o quê? – Mas você está em um salão cheio de mulheres excitadas e seminuas. Será que nenhuma delas serviria para você do mesmo jeito? Ele sabia que era uma armadilha. O sorriso dela, divertido e autodepreciativo, dizia a ele que Delaney sabia que ele sabia. Nick riu e balançou a cabeça. Não importava o que ela havia feito, por que havia feito, ele não conseguia mentir para ela. – Eu quero você. Só você – admitiu ele. Para sempre, percebeu. Mesmo enquanto amaldiçoava o próprio coração por ter se apaixonado, ele sabia que era verdade. – Então venha – disse ela, segurando a mão dele e puxando-o para sair da pista de dança. Foram necessários dez minutos e uma gorjeta de cem pratas para conseguir um canto privado 210


atrás das cortinas do palco. A busca não abrandou o fervor dele – se muito, o amplificou ainda mais. Protegidos da visão da banda apenas pelo tecido espesso, a música emudeceu, se tornando mais uma sensação do que um som enquanto vibrava pelas paredes. Sem esperar a opinião de Delaney, Nick agarrou as mãos dela e a pressionou contra a parede. Prendendo-a ali com seu corpo, ele sentia as batidas que reverberavam através dela. A boca de Nick tomou a de Delaney com um abandono selvagem. Ela se entregou tanto quanto ele, pressionando por mais, exigindo que ele lhe desse tudo. O desespero o rasgava por dentro. Nick precisava possuí-la. Agora. Sem preliminares, ele levantou a saia dela e rasgou a calcinha de renda minúscula. Nick ergueu uma sobrancelha quando Delaney arfou, então jogou a peça por sobre o ombro. – Você não vai precisar dela – falou ele. Nick investiu um dedo dentro dela, gemendo quando a umidade quente o recebeu. Ela estava ofegante agora, as mãos agarrando os ombros dele. – Diga-me o que você quer – disse ele, com a voz rouca de encontro ao pescoço dela enquanto erguia uma de suas coxas para colocá-la em torno da própria cintura e ter mais acesso ao seu clitóris suculento. – Do que você precisa? – Você – gemeu ela. – Faça amor comigo agora, Nick. Por favor, agora. Em um movimento rápido, ele os mudou de posição, de forma que passou a ficar de costas para a parede. Abrindo o zíper da calça, ele mal se lembrou de colocar um preservativo antes de puxar Delaney para si. Ele a ergueu, as mãos no traseiro nu enquanto a posicionava sobre seu membro latejante. Uma investida breve e ela estava cavalgando. As mãos levantadas, os corpos tensos. Rápido, quente, desesperado. Não houve nada de meigo, nada de gentil quando chegaram ao ápice juntos. Foi violento e rápido. Nick não conseguiu se controlar, mas Delaney não pareceu se importar. Com as mãos apoiadas na parede, uma de cada lado da cabeça dele, tomou a boca de Nick com a dela, sinalizando seu orgasmo com pequenos arquejos. O som dela atingindo o clímax e a sensação de ter seu corpo em espasmos ao redor dele foram o necessário para levar Nick ao limite. Com os dedos cravados no traseiro dela, ele a puxou contra si, e seu corpo ficou rígido diante do poder do orgasmo. – Delaney – berrou ele, a voz um grito gutural de triunfo. Ela. Só ela importava. Ele nunca sentira algo tão intenso, tão incrível, como o que ela lhe oferecia. Porque não era só alívio físico. Sexo, por si só, não era tão bom assim. Era mais que isso, era o jeito como ela se entregava, a confiança, o poder que ela exigia que ele compartilhasse. 211


Droga, aquilo era a coisa mais incrível que ele já sentira. E sabia que só iria sentir com ela. Com um suspiro trêmulo, Delaney baixou a perna que estava ao redor de Nick. Ele, mal conseguindo respirar, recostou a cabeça na parede detrás de si. – Isso – disse Delaney, a voz suave e rouca de prazer – foi baseado em intimidade. A luxúria nunca seria tão boa assim. Aquelas palavras tiraram Nick de sua névoa sexual num estalo. A aposta. Enquanto ele estava sendo todo poético sobre o modo como Delaney o fazia se sentir, o foco dela estava voltado para a vitória da aposta. Ele conteve uma risada irônica. Ao passo que ele estava ali, pensando em toda essa baboseira emocional, ela ainda estava concentrada no que poderia conseguir. Aquilo foi a deixa para ele. Nick abriu os olhos e a encarou. – Intimidade? Para mim pareceu luxúria. Professora. Capítulo Catorze PROFESSORA? Como ele descobrira? E por que, diabos, ele estava tão bravo por causa disso? Delaney baixou a saia para cobrir seu traseiro nu. Vendo a raiva fria no rosto dele, ela desejava desesperadamente recuperar sua calcinha. De repente, a multidão, tão distante minutos antes, pareceu estar pressionando-os do outro lado da cortina do palco. Quando eles tinham chegado ali, ela estava 212


segura de si, pronta para abraçar a sensualidade do evento e para mostrar a Nick a paixão entre eles. Agora só estava confusa. – Percebo que é uma questão de semântica, mas eu não escondi minha profissão, eu simplesmente a omiti. – Semântica uma ova. Você sabe tudo a meu respeito. Os altos e baixos de minha carreira, minha família, minha vida. Tudo que você contou sobre si era uma farsa cuidadosamente apresentada para conseguir alguma promoção. – Ele conteve as palavras em um rosnado baixo. – Farsa? Delaney sabia que sua risada tinha sido amarga, mas não se importava. Seu choque estava esmorecendo, deixando para trás a percepção de que ele havia feito aquilo de propósito. Nick tentara deliberadamente transformar o que havia entre eles em algo feio. A raiva estalou em sua cabeça. – Eu não procurei o sr. Escritor querendo provar meu ponto de vista. Você veio atrás de mim. Você propôs não apenas a primeira aposta, como a segunda também. Não alegue que eu usei você, pois foi você quem veio atrás de mim com sua pauta egoísta. – Ah, não – disse Nick, o rosto uma rígida máscara de gelo. – Você não vai virar o jogo. Foi você quem pressionou por emoções, para todos os lados. Insistindo sobre como elas fazem um relacionamento, sobre como são importantes. Que monte de bobagem, considerando que está me usando o tempo todo. Usando sua aposta, nosso relacionamento, para alavancar sua carreira. Não vamos nem mencionar o que fez com meu estilo de escrita... – Ah, não, nem vem – interrompeu ela. – Quaisquer mudanças que tenham ocorrido em seu estilo são provenientes das descobertas que você fez. Não tem nada a ver com o fato de eu ser professora de Literatura. – Descobertas? Você quer dizer “mentiras”, não é? A raiva, que cintilava faíscas instantes antes, se transformou em uma chama. – Mentiras? Você não conseguiria escrever uma mentira nem se alguém colocasse uma arma na sua cabeça.

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Você escreveu a história. Minhas resenhas, nosso período juntos, até mesmo o sexo que fizemos, incrível como foi, não tinham nada a ver com o que colocou naquelas páginas. Uma fúria moralista revestia as palavras dela, mas Nick não estava escutando. Ele a encarou e estendeu a mão. – Eu não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre meu estilo literário. Esqueça minha menção a ele. Esqueça que você já leu meu trabalho. Eu me recuso a ouvir mais uma palavra de um desses apelos por emoção de alguém que não consegue nem mesmo ser honesta a respeito de si mesma. Ela queria refutar as palavras dele. Jogá-las na cara dele. Mas não conseguiu. Porque, mesmo estando errado sobre tudo a respeito da honestidade dela em relação a emoções ou sobre o próprio estilo literário, ele ainda estava certo. Ela havia se escondido atrás da transformação de visual, tentado manipular a situação para manter o interesse dele. Para evitar perdê-lo. E agora? Delaney percebia que tentar convencê-lo do contrário era inútil. Ao contrário de seu pai, que era simplesmente desacostumado a expressar emoções, Nick se recusava a abrir seu coração. Ele estava usando o emprego dela como pretexto para destruir qualquer possibilidade de existir algo mais entre eles. Delaney poderia até ter usado uma máscara, mas pelo menos tinha percebido quem era debaixo dela. Nick não conseguiria esquecer isso. – Talvez você esteja certo – cedeu ela pesarosamente, se abaixando para pegar a bolsa onde havia caído, sobre o piso de cimento. – Eu não contei sobre meu emprego. Mas não pelos motivos que você pensa, embora você provavelmente não vá acreditar nisso. Ela o encarou, o coração doendo diante da raiva nas profundezas azuis dos olhos dele. 214


– Para ser sincera, não sei se faria diferente. Porque eu tinha medo. Não de sua reação ao meu emprego, mas de sua reação em relação a mim. Eu tinha medo de você me enxergar realmente. De eu não estar à altura, de não ser mulher suficiente para segurar seu interesse. Ela estava nua agora. Sem máscara, as emoções nuas e escancaradas para a avaliação dele. Pela primeira vez, Delaney desejava até mesmo uma porção daquela invisibilidade que ela passara a vida odiando. Mas ela pedira aquilo. Seu estômago revirava. Ela queria ser vista, o que significava permitir a ele enxergar. E aceitar sua reação. Só que ele não disse nada. Nick só ficou encarando, o rosto petrificado, as mãos enfiadas nos bolsos dianteiros da calça jeans. – Por mais que eu tenha pressionado por emoções, eu tinha medo de confiar nelas – admitiu ela. – Mas estou disposta a tentar agora. E você? O olhar dele foi resposta suficiente. – Que pena – murmurou ela, tentando impedir que o som de seu coração partido se refletisse em suas palavras. – Você tem tanto a oferecer, e eu acrescentaria mais à sua vida do que você pode imaginar. Se conseguir superar esse seu medo, me procure. – Delaney assumiu o risco, apostou tudo, embora soubesse que a rejeição era inevitável. – Sou a melhor coisa que poderia acontecer a você, Nick. E sabe do que mais? Aposto que, se você nos desse uma chance, ficaria surpreso com o quanto somos fantásticos juntos. – Outra aposta? – Ele estava boquiaberto com ela, claramente chocado. – Você está de brincadeira comigo. O quão estúpido eu pareço para você? – Daqui deste ângulo? – Delaney lançou um olhar de pena. – Você realmente não vai querer ouvir minha resposta. O desprezo dele acertou o coração dela, mas Delaney empinou o queixo mesmo assim. – Desde que conheci você, comecei a perceber que eu costumava ter medo – disse ela suavemente. – Não de sexo, mas de rejeição. De me abrir, abrir meu “ e u ” verdadeiro para você e ser rejeitada. Contudo, por mais que tenha sido difícil lidar com isso, é ainda mais difícil perceber que você prefere rejeitar a emoção por si só do que arriscar e ver o que poderíamos representar um para o outro. Ela verificou sua bolsa para ter certeza de que tinha dinheiro, então ofereceu a Nick seu melhor sorriso televisivo. O sorriso plástico que dizia que ela sabia que ele não tinha dado a mínima para o que ela dissera, e que ela não se importava com isso. 215


– Bem, foi ótimo então. Obrigada pela noite. Eu diria que provei meu ponto de vista aqui e venci nossa aposta paralela, mas estou vendo que você é um covarde emocional muito grande para admitir isso, então eu diria que houve um empate. Ela ignorou o resmungar dele e se virou para ir embora. Sabia que seu coração estava em seus olhos quando se virou para olhar sobre o ombro, mas ela não ligava. Se ele não era esperto o suficiente para valorizar o amor no olhar dela, então ele não valia a pena. – Vou pegar um táxi para casa. Ligue-me se estiver disposto para minha aposta. Ela afastou a cortina, as luzes pulsantes cegando-a momentaneamente. Delaney piscou e continuou andando. Seguiu em meio à multidão de corpos, contornando vibradores imensos no caminho, e correu para a saída. Foi necessária toda sua coragem, e um fluxo constante de palestras mentais sobre sua autoestima, para Delaney conseguir sair do Cow Palace e chegar à fila do táxi. Só quando o taxista lhe lançou um olhar questionador é que ela percebeu que seu rosto estava coberto de lágrimas. E que tinha perdido sua máscara em algum lugar lá dentro. DOIS DIAS depois e Nick ainda estava se recuperando da intensidade do encontro deles, além da despedida audaciosa de Delaney. Ele estava saltando da raiva para o desprezo e depois de volta à raiva tão frequentemente que se sentia como uma bolinha de pingue-pongue. Covarde emocional uma ova. Só porque ele confrontara suas mentiras e se recusara a continuar fazendo jogo, aquilo não significava que ele tinha medo. – Nick, o que vai pedir? Ele olhou para sua mãe do outro lado da mesa, e então para o garçom. – O frango frito – pediu ele, com um sorriso irônico. A última coisa que queria fazer hoje era encontrar Lori para almoçar. Mas ele imaginara que os dramas dela poderiam ajudar a banir de sua memória aquele olhar de partir o coração dado por Delaney antes de ir embora. – Nick, você continua se distanciando – acusou Lori, franzindo a testa. – Está pensando em uma de suas histórias outra vez? Ele deu de ombros e tentou se concentrar na mulher à sua frente. Ela parecia bem. Longe de se parecer a mãe de alguém, ela era magra, bronzeada e ostentava cachos louros platinados que iam até os ombros cobertos de seda. 216


Endinheirada e mimada, ela definitivamente não parecia ter idade suficiente para ter um filho da idade dele. Mas adoraria ouvir esse tipo de coisa, então Nick guardou as impressões para si. – Você está bem diferente daquela chorona com quem falei ao telefone há algumas semanas – disse ele, em vez disso. Lori o olhou feio. – Só porque uma traição e um divórcio litigioso não perturbam você não significa que não ferem pessoas de verdade, que têm coração. Eu estava passando por um momento difícil, mas já superei tudo. Nick zombou do comentário dela sobre sua falta de sensibilidade. Ele não queria que fosse verdade? – Claro que superou. – Não seja um grosseirão, Nicholas. – O olhar amuado no rosto da mãe o informava de que ela começaria a chorar em seguida. – Tudo bem – murmurou ele, uma palavra vazia simplesmente para impedi-la de dar um ataque à mesa. – Eu estava errado. Tenho certeza de que você está muito bem e que não tem nenhum problema de relacionamento para superar. Até parece. – Não. – Lori olhou para o próprio colo, então lançou um 217


olhar envergonhado para Nick. – Você estava certo. Eu tenho problemas, é claro. Mas quando telefonei eu estava sendo irracional. Eu estava com medo de a filha de Jeremy influenciá-lo, de que ele resolvesse me preterir por ela. Mas eu amo Jeremy. Não quero estragar tudo. Aceitei seu conselho e desfiz as malas. Nós conversamos. As coisas estão bem. Nick só podia encará-la. Será que todas as mulheres do mundo tinham ficado malucas? A mãe dele tomando decisões afetivas maduras? Delaney atacando a inteligência dele em público, e então o desafiando a crescer e enfrentar suas emoções? Será que 11h30 era cedo para um uísque? – Quando foi que você ficou tão esperto em relação a assuntos emocionais, Nicky? Para um sujeito que não tem coração, você definitivamente sabe do que está falando. – Não sou sem coração – disse ele, incapaz de se conter. Dois meses atrás, Nick teria dado de ombros para o comentário, concordando vagamente. Mas agora a ideia de ter a própria mãe considerando-o insensível era dolorosa. Ele revirou os olhos. Mais um ponto para Delaney... agora ele era um menininho chorão com sentimentos feridos. – Eu não quis dizer “sem coração” – disse Lori distraidamente, sua atenção voltada para o almoço que o garçom estava servindo. – Quis dizer que você não permite que as coisas o magoem. Você sempre foi fechado. Não fica emotivo nem investe em relacionamentos. Eu ficaria louca se fosse tão solitária assim. Tenho medo de ficar sozinha, é 218


claro. Mas você? Você abraça sua vida solitária. Nick mal a ouviu, concentrado apenas na frase medo de ficar sozinha. Era por isso que ela pulava de relacionamento em relacionamento? Ele franziu a testa quando Lori cravou o garfo em seu macarrão. Por que não tinha enxergado isso antes? Estava tão ocupado culpando-a por suas cicatrizes emocionais que não se dera o trabalho de perceber que ela exibia as suas. A percepção não ajudou a abrandar a frustração dele em nada, embora tivesse anestesiado sua raiva. Sentia-se vazio sem Delaney, mas não podia arriscar procurá-la. Ele se abrira e acabara se dando mal. Por que aquilo só o deixava triste agora, em vez de furioso? Se estivesse furioso, seria muito mais fácil de lidar. AINDA REMOENDO suas epifanias na hora do almoço, Nick chegou em casa e foi diretamente para o escritório. Lá, jogou o imenso envelope que havia encontrado à porta sobre a mesa e abriu seu e-mail. Nada. Verificou sua secretária eletrônica. Nenhuma ligação. Para uma mulher tão dedicada às emoções, era de se esperar que ela se empenhasse mais para obrigá-lo a enfrentar as dele. Claro, ele a afastara. E, se ela tivesse tentado procurá-lo no dia anterior, ele provavelmente teria desligado o telefone na cara dela. Mas, droga, por que ela não estava telefonando? Nick revirou os olhos e recostou a cabeça nas costas da cadeira de couro. Deus, aquela baboseira emocional o estava transformando

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em um adolescente. Ele espiou o envelope que tinha trazido consigo. Sem remetente. Rasgou o pacote e leu o bilhete anexado ao que ele reconhecera ser o original deixado com Delaney. Você pediu que eu lesse como se estivesse fazendo uma crítica literária. Achei que gostaria de saber o resultado. Ele encarou a letra dela. Era surpreendentemente simples para uma mulher tão sensual e feminina. Ele traçou o dedo sobre o “D” cursivo que ela usara como assinatura. Percebendo o que tinha feito, Nick bufou. Ah, sim, total adolescente. Se não tomasse cuidado, estaria assinando a r e v i s ta Seventeen e assistindo aos filmes do Orlando Bloom. Para se torturar, ele tirou o elástico do original e começou a ler. Deixou as anotações dos papeizinhos vermelhos por último, se concentrando nos comentários que ela havia feito nas próprias páginas. Uma hora depois, Nick lia a última página e percebia que era um completo idiota. Quaisquer que fossem os motivos de Delaney para não contar sobre seu emprego, eles não tinham absolutamente nada a ver com a aposta dela para inserir profundidade emocional nas obras dele. Havia ficado tão paranoico, tão preocupado que suas emoções e palavras pudessem ser consideradas inadequadas, que fizera exatamente o que Delaney o acusara de fazer. Ele a rejeitara antes que ela pudesse rejeitálo. Muito triste. Ele olhou para as anotações que ela havia rabiscado nas margens, cada página repleta de percepções, comentários, reflexões. Delaney tinha encontrado a profundidade nas palavras dele. Intercaladas entre as análises havia propostas sensuais, sugestões de coisas que ela gostaria de experimentar com ele, e uma ou duas vezes ela até mesmo oferecera maneiras de deixar uma cena ainda mais quente. Era de admirar que ele a amasse? 220


Amor. Nick bufou e aceitou a verdade. Uma percepção que, em vez de fazê-lo se sentir sufocado, era libertadora. Toda a raiva, as dúvidas, se foram. Delaney, assim como seus sentimentos por ela, o faziam se sentir como capaz de qualquer coisa. Nick folheou até a última página de anotações dela. Em vez de comentários, havia um exemplar da revista Risqué com a história da transformação que ele lera um mês atrás. Um papelzinho caiu no chão. Ele o pegou e encarou. Uma cópia de seu crachá de professor. Dra. D. M. Conner, PhD, Universidade Rosewood. Ele olhou a data de admissão e ergueu uma sobrancelha. Pelo visto ela colocava aquela tendência cerebral em bom uso, para ter se tornado uma professora totalmente credenciada tão jovem. Ele franziu a testa para a fotografia. Com certeza tinham usado uma iluminação péssima. A pele dela estava pálida, o cabelo, desbotado. No entanto, o humor em seus lindos olhos castanhos parecia óbvio. O olhar dele trilhou pela curva sensual do lábio inferior, se lembrando de como era passar a língua naquela carne macia. A boca de Delaney o fascinava, estando reluzente por causa daquele batom melado que ela usava, ou nua e tentadora como naquela foto. Nick queria, necessitava, sentir o gosto dos lábios dela. 221


Ela era linda. Ela era inteligente. Ela era sincera. Dolorosamente sincera. Se ele não estivesse tão ocupado fugindo, teria admitido isso antes. Independentemente do conteúdo do tal e-mail, Delaney não o teria manipulado. Ela poderia até ter usado a aposta deles para obter vantagem, mas ele não tinha feito o mesmo? Ou, reconheceu Nick quando olhou para seus originais, ele não teria feito se tivesse vencido? Só que Delaney vencera em ambos os casos, na aposta das resenhas e no debate sobre luxúria versus paixão. Porque a paixão o tomara cem por cento. Nick pegou seu laptop e, com algumas pancadas rápidas no teclado, escreveu uma mensagem para Gary: Perdi a aposta, inseri as emoções. É um rascunho inicial. Deve funcionar, mas, se não, vou ainda mais fundo. Ele anexou o arquivo contendo as mesmas páginas que Delaney tinha lido. Tendo terminado, ele acariciou o crachá de Delaney outra vez. Universidade Rosewood, não é? Talvez fosse hora de lhe fazer uma visita. DELANEY ESTAVA sentada diante do reitor e do chefe do Departamento de Literatura, aguardando pelo veredito. Suas mãos sob a mesa estavam quietas, embora ela quisesse contorcê-las desesperadamente. No entanto, havia aprendido, em sua passagem pela TV, a demonstrar calma, e a lição estava valendo a pena. Ela dera o seu melhor, colocando em vigor toda a presença e carisma que aprendera na televisão. Pelo olhar deles, não tinha adiantado muita coisa. – Bem – começou o pai dela. Então suspirou e remexeu em alguns papéis sobre sua mesa. Delaney estava com vontade de gritar de tanta impaciência. – Bem – disse ele outra vez, dessa vez fitando-a nos olhos. – Devo dizer que realmente estou surpreso. O professor Ekco tinha certeza de que você apresentaria algo mais que influenciaria o comitê. 222


Delaney mordeu o lábio e contestou. Então deu de ombros. – Ele havia sugerido que eu tomasse um rumo diferente em minha proposta. Achava que eu deveria incluir minha experiência mais recente e um novo contato como possível orador convidado. – E você escolheu não o fazer – disse o pai dela, declarando o óbvio. – Por quê? Era uma falha querer vencer pelos próprios méritos? Não na opinião dela. Mas e na do pai? Ela olhou para o professor Belkin. Não sabia por que ele estava com cara de quem tinha chupado limão. – Achei que minhas qualificações e proposta fossem fortes o suficiente para se sustentar sozinhas. Se eu conseguir o cargo, quero que seja unicamente por meus méritos. – Boa escolha – disse o pai dela, assentindo. As palavras dele, ainda que elogios sutis, fizeram Delaney ficar radiante. – É claro que é uma boa escolha – cuspiu Belkin, acabando com o brilho dela. Delaney e o reitor franziram a testa diante do tom odioso dele. – Livros de baixa qualidade não teriam influência alguma sobre o comitê de admissão. Delaney ficou de queixo caído. Teve dificuldade para decidir se foi por causa das palavras furiosas de Belkin ou do revirar de olhos de seu honrado pai. O pai dela não disse nada, no entanto. Ele simplesmente ofereceu a ela um olhar demorado, cheio de expectativa. Delaney conhecia aquele olhar e, com um suspiro profundo, assumiu o 223


comando silencioso e subiu no pedestal. – Poderia definir o que quer dizer com “livros de baixa qualidade”, professor? – Ah, por favor, não banque a recatada. Ficção comercial? Principalmente aqueles romances e coisas eróticas? Você tem promovido o mais puro lixo. Todo mundo na universidade sabe o que você faz, srta. Conner. Delaney gelou. Todo mundo? Os olhos dela seguiram para seu pai. O olhar dele era firme, a expressão, contemplativa. Ah, sim. Ele sabia. E agora? A velha Delaney teria se encolhido e tentado apaziguar as pessoas que a encaravam. Mas... ela franziu a testa e suspirou. Não agora. Ela estava orgulhosa do quão longe havia chegado. – Estou ciente do esnobismo que cega muitos círculos literários às possibilidades da ficção moderna – falou ela lentamente. Belkin ficou boquiaberto diante das palavras livres de remorso, e o pai dela só ergueu as sobrancelhas ruivas. – Não foi por esse motivo que excluí meus empreendimentos recentes de minha proposta. Meu período no Wake Up California foi, em minha estimada opinião, uma ótima ferramenta de trabalho que apenas melhorou o conjunto de habilidades que emprego em minha função aqui. – Promovendo ficção de baixa qualidade? – Promovendo a arte da leitura – disse 224


ela, jogando o lema do Departamento de Literatura na cara dele. Belkin ficou vermelho e cuspiu algo rude, porém se calou quando o reitor fez um gesto. – Delaney, não vamos fazer juízo sobre suas decisões profissionais extracurriculares. – Ela arqueou uma sobrancelha para Belkin. O reitor sorriu e deu de ombros de maneira muito discreta. – Estamos aqui para discutir a promoção e seu futuro no departamento. Ela sentiu um aperto no estômago. Futuro? Ai, diabos. Será que aquilo tudo tinha sido um erro? Ela engoliu o medo que bloqueava sua garganta e respirou fundo. Mais duas respiradas e estaria de volta ao controle. Não. A transformação fora a melhor coisa que acontecera a ela. O programa de TV tinha sido a melhor coisa que ela já havia feito acontecer. E Nick? Não trocaria Nick, o relacionamento deles – mesmo que já tivesse terminado – e, sim, as apostas, por nada nesse mundo. Tinha aprendido a se valorizar. A se impor e ser notada. A ser visível, de um jeito mais do que simplesmente físico. – Você, pessoalmente, tem algum problema com meu trabalho como crítica literária? – questionou Delaney. O pai dela enrugou o cenho ao vê-la tomando o controle da conversa. Encarou-a, o respeito se enraizando em seus olhos vagarosamente. 225


Então balançou a cabeça. – Não. Conforme você sabe, eu não assisto à TV, mas um dos professores costumava usar... como é mesmo o nome?... o sistema HD digital para gravar alguns programas. Assim como quando você leciona em sala de aula, fiquei impressionado com sua paixão e habilidade para atrair o aluno, ou, nesse caso, o telespectador, à sua empolgação pelo assunto. Ele estava orgulhoso dela? O choque deixou Delaney em silêncio por cinco segundos. – Qual é sua opinião sobre esse tópico em particular? – ousou perguntar. – Ficção comercial popular? Ela assentiu. – Como você disse, ela atende ao que se propõe. E você provou esse ponto com habilidade. Infelizmente, seu nome é muito conhecido no campo comercial agora, e o professor Belkin está preocupado que isso vá prejudicar sua habilidade para lecionar em sala de aula. Claro que estava. Delaney deu uma olhadela para o sujeitinho esnobe. – Você concorda com ele? Delaney percebeu que, embora a opinião de seu pai importasse, não afetaria o modo como ela se sentia. Estava orgulhosa de si. – Na verdade, não. Sou da opinião de que sua atividade paralela não traz problemas. Mas a decisão não é minha. Será sua, no entanto. – A irritação era clara no rosto dele quando olhou para o professor Belkin. Então, com um sorriso orgulhoso, ele assentiu para Delaney. – O comitê de admissão escolheu lhe oferecer o cargo como diretora assistente do 226


Departamento de Literatura. Um triunfo chocado oscilou dentro dela quando reprimiu um grito de empolgação. O pai dela levantou uma sobrancelha, então continuou: – Sob a condição de que você concorde em desistir de qualquer trabalho como crítica literária, em programas de TV ou afins. O estômago de Delaney revirou. Desistir de tudo? Das resenhas, de tudo? Ela olhou para o homem a quem passara a vida inteira tentando agradar. Pela primeira vez, ele estava lhe dando total atenção. E não era por causa da transformação de visual ou das resenhas. Era porque ele simplesmente acreditava que ela merecia. Ela havia atraído aquela atenção. Pela primeira vez, Delaney estava no controle. Era a sensação mais louca. Ela engoliu uma risada triunfante e lançou um olhar de desprezo para o professor Belkin. Não precisava dele. Mas e do pai? Eles estavam prestes a chegar a um entendimento. Um que ela sempre desejara, e agora sabia que teria. Era hora de ser proativa e transformar sua vida exatamente no que ela desejava. – É uma honra ser agraciada com esta promoção – disse Delaney, ao pai. – Não há decisão a ser tomada. Minha escolha é clara. Capítulo Quinze NA MANHÃ de segunda-feira, Delaney se sentou diante da luz vermelha piscante e sorriu para Sean. – Delaney, estamos todos empolgados por ter você como membro definitivo do Wake Up California – disse Sean. Ele olhou para a câmera e ofereceu seu sorriso de vizinho atraente aos telespectadores: – Não apenas Delaney vai ficar conosco permanentemente, como vamos aumentar o “Cantinho da crítica” para cinco dias por semana.

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Fiquem ligados depois dos comerciais para conferir o resultado da aposta entre Delaney Conner e Nick Angel. A luz se apagou e Sean deu um tapinha no joelho de Delaney, antes de correr para atender ao chamado do produtor. Sentada em seu lugar, agora permanente, Delaney alisou a saia, o xadrez cinza-claro formando uma curva delicada em seus quadris. Ela a combinou com uma blusa branca abotoada clássica, porém com renda nos punhos e na camisete exposta na altura do último botão de cima. Botas de camurça pretas envolviam suas panturrilhas, conferindo a ela um senso de moda e controle. Bem diferente dos terninhos marrons de lã, mas ainda era ela. Exatamente como aquele emprego. Ela ficara maravilhada com a reação do pai à sua decisão. Ele de fato sorrira. Seis meses atrás, ela teria dito a si que, na verdade, ele estava feliz por se livrar dela. Mas Delaney não seguia mais o caminho da autopiedade e sabia que o sorriso dele tinha sido de orgulho, puro e simples. Agora ela possuía tudo. Ou, ela olhou para o livro mais recente de Nick sobre a mesinha ao seu lado, quase tudo. A única coisa que faltava era Nick. E a culpa tinha sido toda dela. Finalmente admitira para si, quando chegara ao estúdio naquela manhã, que usara a raiva de Nick, a dor dele, como pretexto para fugir. Claro, tinha feito uma grande demonstração de bravata, mas a verdade era que ela havia descoberto que era melhor ir embora do que esperar que ele rompesse tudo hoje, quando anunciariam oficialmente os resultados da aposta. Mas isso era antes. E agora? Agora ela era Delaney Conner, supercrítica literária. Ousada, sexy e imponente, ela iria atrás de seu homem assim que a gravação terminasse. Sentindo-se como se pudesse dominar o mundo, Delaney sorriu para a luz vermelha piscante e saudou os

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telespectadores. Três minutos de discurso e de repente houve uma onda de cochichos e farfalhares no estúdio. – O que impulsiona a mudança, na vida e na ficção. Vemos exemplos poderosos disso tanto na literatura clássica quanto na moderna – continuou Delaney, sem problemas. – Peguemos O Morro dos Ventos Uivantes, por exemplo. Foi o amor de Heathcliff e a perda de Cathy que o transformaram em um homem de atitude. Atitudes sombrias, claro. Mas atitudes, do mesmo jeito. Sua resposta inicial à morte dela estimula o leitor a explorar sua psique, a compartilhar sua dor com ele. E mostra, melhor que um monólogo interior que a autora poderia ter elaborado, a profundidade de suas emoções. Sem quebrar o ritmo de seu discurso, Delaney examinou o estúdio. Bem, bem. Um sorriso lento curvou os lábios dela quando Delaney captou a imagem mais bemvinda que poderia imaginar. Ela respirou fundo, mas sabia que isso não impediria sua pulsação de acelerar. Não quando estava encarando ao homem mais sensual que já conhecera. Lindo. Pura perfeição 229


masculina. Nick Angel. Seu cabelo escuro ondulava ao redor daquele rosto que ela via em seus sonhos. Os olhos penetrantes, de um azul vívido, que enxergavam através do coração dela, semicerraram quando encontraram os dela. Ele arqueou a sobrancelha em desafio, informando a ela que podia estar ali, mas ela não iria se safar. Ele tinha vindo, seu olhar dizia, pronto para brigar. Delaney engoliu em seco. Então empinou o queixo, a mensagem clara. Pode vir. – Fico satisfeita por anunciar que temos um convidado especial hoje – disse ela, quando ele se aproximou. O cinegrafista abriu o plano para captar os dois. – Nick Angel, autor na lista dos mais vendidos do The New York Times. Vamos ver se podemos obter sua opinião sobre o assunto. O olhar dele assegurara a ela que ele tinha muito mais para discutir. A expectativa a fez sorrir, quando ele se sentou e prendeu o microfone na lapela. – Você se importa se eu fizer uma pergunta primeiro? – quis saber Nick, o tom deixando claro que ele perguntaria de qualquer jeito. Ele se recostou na poltrona, um sorriso malicioso, um braço esticado no encosto como se não tivesse nenhuma preocupação no mundo. Delaney sabia que não era bem assim. O azul intenso do olhar dele dizia que era melhor que ela ficasse na ponta dos pés. Tudo bem para ela; era por isso que usava os saltos matadores. – Pergunte – disse Delaney, para ele. – Você fala sobre essas atitudes sombrias como se não houvesse escolha. Não concorda que nós, como humanos, sempre somos livres para aceitar ou rejeitar esses impulsos desagradáveis? – Com um sorriso de provocação, ele acrescentou: – Ou, para simplificar, aceitar ou rejeitar qualquer emoção? Delaney semicerrou os olhos. Ela iria perguntar o que ele sabia sobre emoções, mas as coisas profundas que ele colocara em seus últimos originais diziam que sabia bastante. Mesmo assim, ele ainda fugia delas. ∗∗∗ 230


Concordo que há escolhas. Normalmente. Mas não sempre. O medo poderia ser considerado uma emoção mais obscura, não é? E nossa reação a ele é instintiva. – Lutar ou lutar – concordou Nick, com um meneio de cabeça. – No entanto, mesmo assim, há uma escolha clara. Fugir ou ficar firme. Delaney comprimiu os lábios. Do que, exatamente, ele a estava acusando? – Então, na sua opinião, sempre há uma escolha? – perguntou ela. – A maioria das pessoas diria que ninguém escolhe se apaixonar, simplesmente acontece. Normalmente, em um momento muito inoportuno. Um sorrisinho brincava nos cantos da boca de Nick, sensual e provocante. – Mais uma vez, há uma escolha. Um personagem pode fugir do amor. – Concordo nesse ponto – disse ela lentamente. Os olhos buscavam uma pista no rosto de Nick. Será que ele estava ali para dizer a ela que estava escolhendo fugir ou encarar o amor? Havia tanta coisa acontecendo naquele debate que o cérebro dela tropeçava nas palavras. – Escolhas são obrigatórias na ficção. Um personagem que se recusa a agir é um personagem que rapidamente perde a empatia do leitor. – Devolvendo o exemplo a você, e se o personagem tem medo de agir? – A maturidade vem do ato de encarar os medos, de superar nossos conflitos pessoais – apontou Delaney. – Ou, é claro, da aceitação de que somos fracos demais para encará-lo – disse ela, também exibindo um sorriso cheio de provocação. O produtor saltitava, praticamente dançando enquanto apontava para seu relógio de pulso. Eles estavam quase estourando o tempo. Ele articulou a palavra aposta e Delaney assentiu. – Você fala como se fosse uma especialista – comentou Nick. – Uma especialista sobre o que funciona na

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ficção, sim. Inquestionavelmente. – Suponho que você vá dizer que suas resenhas respaldam essa alegação – disse ele, depois de uma olhadela para o produtor. – Acho que já me foi mostrado que isso é verdade, não é? – perguntou Delaney. Um lado dela se preocupava com o fato de ele estar irritado por perder. Mas ela não podia recuar. Não podia nunca ser menos do que era, menos do que importante. Nem mesmo para Nick. Delaney fez uma pausa enquanto o produtor indicava que eles estavam mostrando os resultados das enquetes para os leitores. Os votantes no site do Wake Up California tinham concordado com quatro das seis resenhas que ela publicara. Não fora uma vitória de lavada, mas definitivamente provara que ela, de fato, falava com o leitor médio. Ou, pelo menos, 66,6 por cento deles. Os olhos dela encontraram os de Nick, tentando decifrar a reação dele. Mas ele era um especialista em esconder suas emoções, e seu rosto estava indiferente. Delaney suspirou quando o produtor apontou para ela, indicando que estavam ao vivo outra vez. Ela adorava vencer, mas não à custa de Nick. – Tenho certeza de que todos vocês acompanharam minha aposta com o sr. Angel, para saber se minhas resenhas influenciam os leitores ou não – declarou ela, olhando para a câmera como se estivesse conversando com um grupo de amigos. O estúdio inteiro estava silencioso, todos prestando muita atenção ao drama que se desenrolava adiante. Delaney percebeu alguns olhares sarcásticos direcionados para Nick, mas também muitos olhares luxuriosos, babões. – E, como a enquete mostra, os telespectadores concordaram com quatro das seis resenhas. O que, de acordo com os parâmetros do sr. Angel, deveria confirmar que meu ponto de vista representa o leitor médio. Os olhos de Nick brilhavam e um sorrisinho brincava no canto de sua boca, porém ele permaneceu calado. – O que vocês não conhecem – disse ela lentamente – é a minha conclusão a partir desse exercício. 232


Todos os olhares estavam focados nela outra vez, inclusive o de Nick. – Ao passo que as resenhas eram a base da aposta, o verdadeiro tema do debate era emoção versus luxúria. – Ela encontrou o olhar de Nick. – Ao analisar o ponto de vista do sr. Angel em relação ao assunto, vim a perceber que, apesar do chamariz óbvio das emoções, a luxúria é tão poderosa quanto elas. Nick franziu a testa. Delaney não tirava os olhos dos dele. – A luxúria, principalmente no modo retratado pelo estilo literário do sr. Angel, requer um princípio de honestidade. A luxúria verdadeira não é simplesmente uma ânsia simples e breve. Não é facilmente saciada e nem é algo que acaba rapidamente.

A verdadeira luxúria tem poder. Requer intimidade. É obscura, verdadeira, intensa. É, como vim a descobrir, uma emoção tão real quanto o amor, sempre tão aclamado. Delaney hesitou quando Nick enrugou a testa. Mas, incapaz de desistir agora, ela continuou: – As emoções... especialmente as mais grandiosas, como amor e intimidade, fazem a gente se sentir bem. 233


Como humanos, somos programados para buscar conexões, para encontrar reflexos de nós mesmos nos outros. E é recompensador dar nomes agradáveis a tais reflexos. Luxúria, obviamente, não é um nome bonito. Queremos enfeitar, fazer soar bonito, mas, às vezes, na vida e na ficção, luxúria é a resposta. Graças ao sr. Angel, aprendi sobre o poder da luxúria nesse mês que passou. Na literatura, é claro – acrescentou ela. – E na vida real? – perguntou ele. O tom foi despretensioso, como se fosse apenas mais uma pergunta do debate. Mas a intensidade naqueles olhos azuis, o maxilar contraído, diziam a Delaney que a resposta era crucial. Delaney o encarou, o coração batendo violentamente. Ela levou cinco segundos para perceber que o produtor estava gesticulando para cortar. – E, com isso – disse ela para a câmera –, vamos para os comerciais. – Corta. Sem uma palavra, ela e Nick tiraram seus microfones e ele a seguiu silenciosamente quando ela se dirigiu ao camarim. Seu camarim permanente, Delaney notou quando viu seu nome na porta. Ela havia percorrido um longo caminho. Assim que abriu a porta, olhou por sobre o ombro e perguntou: – Então? Você está aqui para avaliar aquela aposta?

O sorriso dele foi breve e compreensivo. Seus passos no cômodo foram curtos e calculados. Delaney sentia como se estivesse sendo perseguida por um felino muito sensual e muito poderoso. Um que planejava devorá-la 234


em mordidas lentas, saboreando. – Por que não concluímos nossa aposta anterior antes, hein? – Luxúria versus intimidade? – Essa mesma. Delaney engoliu em seco quando ele parou à distância de um toque. Tudo que ela podia fazer era manter seus dedos quietos, em vez de permitir que trilhassem a insinuação de uma barba que sombreava as linhas da mandíbula dele. – Eu já compartilhei minhas opiniões a respeito dessa aposta – disse ela lentamente, tentando acalmar o nervosismo em seu estômago. Tudo, ela sabia, dependia daquele confronto. Mais cedo, ficara impaciente para caçá-lo e obrigá-lo a abordar o assunto, mas, agora que ele estava ali, desejava ter tido mais tempo para se preparar. – Então é minha vez de opinar e sua vez de escutar, não é? – disse ele, dando o último passo para fechar aquele vão entre eles. A madeira dura da bancada de maquiagem enterrou em suas costas quando Delaney tomou fôlego. Se ela se movesse para qualquer um dos lados, seus seios roçariam no peito dele. Pura tentação. Mas uma tentação que sabia que precisava ignorar. Pelo menos até Nick apresentar suas conclusões. Então Delaney manteve o corpo parado enquanto seus olhos encontravam os dele. – Você estava certa – disse ele. Então parou, ou para ela assumir, ou para ele mesmo organizar suas ideias. Ela levantou uma 235


sobrancelha, aguardando. Ele fez uma careta e deu de ombros, e Delaney sentiu calafrios de desejo quando o peito dele roçou em seus seios. – Eu fui um covarde. Tive medo de aceitar as emoções entre nós, de confiar nelas ou em você. Ou, na verdade, em mim. Delaney ficou boquiaberta. Minha nossa. Quando ele admitira que ela estava certa, ela havia imaginado ter sido a respeito da resenha de seus originais. O estômago de Delaney escalou até a garganta, seu nervosismo causando calafrios pela espinha. – E agora? – perguntou ela, num sussurro. – Agora, continuo com medo – admitiu ele, esticando um dedo para tocar a gola da blusa dela. Os olhos dele encontraram os de Delaney e ele fez uma careta. – Como você mesma disse, abrirse significa a possibilidade de ser rejeitado. Uma coisa é expor minhas palavras, minhas histórias. Mas expor meu coração é mais complicado, sabe? Delaney prendeu a respiração diante da confissão dele. O que aquilo significava? Que o coração dele estava envolvido? Com ela? Um pouco ou muito? Existia alguma regra de etiqueta sobre pedir mais esclarecimentos a alguém quando essa pessoa estava derramando suas emoções? Ela quase gargalhou. Apesar de toda sua pressão diante do conceito, ela não fazia ideia de como lidar com aquilo. – A rejeição me assusta também – admitiu ela. Então o encarou, os olhos contornando os traços dele. Nick era tão lindo... Será que ele sequer se dava conta disso? Fazia diferença? Ela precisava ser honesta. – Você estava certo. Eu estava escondendo coisas de você. Não queria que fosse embora. Não sabia como reagiria se conhecesse a verdadeira Delaney. – Como você pôde achar que não estaria à altura, Delaney? Você não apenas é uma das mulheres mais inteligentes que já conheci, como também a mais linda. Não consigo acreditar que pensou que eu iria me importar se você era uma professora em vez de uma personalidade da TV. – A questão é um pouco mais profunda que isso – admitiu ela. – Sinceramente, depois que a raiva por me sentir usado passou, eu não fiquei surpreso ao descobrir seu trabalho – prosseguiu ele. – Seu cérebro é uma das coisas mais lindas em você. É muito excitante debater com você, observá-la pensar. Ela queria sorrir por causa da sensação calorosa e terna causada pelas palavras dele, mas ficou presa na primeira declaração de Nick. – Achou que eu estivesse usando você? Como? – Para ser promovida. – Nick explicou como acabara lendo o e-mail dela naquela noite. A percepção do fato clareou na cabeça de Delaney como uma explosão. Ele tinha ficado furioso 236


por ter se sentido usado, e não surtado por tê-la visto usando moletom vermelho e com a pele oleosa. Delaney não conseguiu conter uma risada levemente histérica. – Eu não usei você – explicou a ele. – Pelo menos não desse jeito. As únicas coisas que apresentei diante da banca foram minhas qualificações como professora. Eu não citei nossa aposta nem minha passagem pelo Wake Up California. Ele assentiu, a expressão deixando claro que aquilo não era um problema de fato. – Tínhamos uma aposta um tanto pública, que você poderia ter utilizado sem escrúpulos – disse Nick a ela. – Agarrei-me a isso como um pretexto para justificar meus temores, para afastar você e renegar meus sentimentos. Então, como se incapaz de se segurar mais, ele deslizou as mãos para a cintura dela e agarrou seus quadris para puxá-la para si. Nick deu um sorriso malicioso e perguntou: – Então, se não foi desse jeito, com foi que você me usou? – Usei você para conseguir um sexo ótimo, claro. A risada de Nick a encheu de alegria. Delaney pôs as mãos nos ombros dele, adorando senti-lo em seus braços outra vez. Antes que pudesse se permitir afundar naquela sensação, no entanto, ela precisava saber: – Eu estava preocupada... – Ela respirou fundo e se abriu completamente. – Estou preocupada com sua reação a respeito da minha aparência antes da transformação feita pela revista Risqué. Ela 237


sentia como se estivesse aguardando pela queda da lâmina da guilhotina para fatiá-la enquanto observava o rosto dele em busca de sinais de desgosto. – Aquela coisa da revista? – Ele deu de ombros de forma desinteressada. – Por que isso iria ter alguma importância? Ela apertou os olhos, tentando discernir se Nick estava sendo bonzinho. Mas ele só parecia confuso. – Eu lhe dei minha foto – falou Delaney, devagar. Foi necessário muito sangue frio para fazer aquilo também. Especialmente aquela foto, mas ela não tivera muita escolha. Era proposital que tivesse tão poucas fotos de si. Sua foto da faculdade era horrível, um desleixo de cara lavada. – Você não recebeu? – A cópia do crachá? Sim, recebi. – Ele deu de ombros, então lançou um olhar acanhado. – Eu a emoldurei e coloquei na minha mesa. Nunca entendi esse tipo de coisa, mas agora entendo. Só de ver seu rosto, eu me sinto bem. Passei os últimos dias trabalhando no meu livro. Utilizando suas anotações, suas sugestões, para 238


fazer dar certo. Eu gosto de imaginar que você está me observando escrever, me incentivando a ir mais fundo, a ir além. Delaney fechou a boca de súbito. – Você emoldurou? Aquela foto? Mas… está horrorosa. O olhar vago dele dizia tudo. Ele não enxergava a maquiagem, o cabelo. Ele enxergava Delaney. – Eu amo você – soltou ela. Assim que as palavras escaparam, ela quis levar as mãos à boca e empurrá-las para dentro outra vez. Mas não o fez. Porque, pela primeira vez, estava expondo tudo. Que se danasse a rejeição; ela estava fazendo uma escolha. Agora era a vez dele. Nick poderia ser um covarde e fugir, ou ser honesto e admitir que também a amava. Delaney sentia os ombros tensos enquanto aguardava para ver o que ele iria fazer. NICK DEU um imenso suspiro de alívio quando as palavras de Delaney o invadiram. Incapaz de se conter, ele a tomou nos braços. – Eu amo tudo em você. Sua inteligência, seu visual, aquele barulhinho sexy que você faz quando tem um orgasmo. Eu amo o fato de você não ter medo de se impor para mim, de você não ter medo de se impor pelo que acredita. – Com a boca de encontro à dela, ele murmurou: ∗∗∗ Amo principalmente o fato de você me amar também. Graças a Deus, foi tudo em que ele conseguiu pensar. Tinha esperanças de que ela se importasse. Nick ficava deitado acordado à noite se lembrando do olhar de Delaney quando ela fora embora do baile, esperando que o que via ali fosse amor. Para um sujeito que desprezara o conceito por 239


tanto tempo, ele estava em terreno instável. Desacostumado às emoções, muito menos à confiança de que elas durariam enquanto ele resolvia suas questões, Nick ficara apavorado com a possibilidade de Delaney ter mudado de ideia. Ou, no mínimo, tivesse passado os dias em que estiveram separados construindo um sórdido caso de raiva contra ele. Como sempre, Delaney o surpreendera. Em vez de raiva, ela argumentara publicamente sobre luxúria para favorecê-lo. Em vez de se regozijar por sua vitória, ela fora sensual, apaixonada e justa. Ela entendera os textos dele, enxergara nos originais, e nele, mais do que Nick jamais esperara. Ela o levara de feliz para excitado com apenas um sorriso. E lhe dera seu coração, simples assim. Era de admirar que ele amasse aquela mulher? – Então acertamos nossas apostas, certo? – disse ele, se afastando com relutância. O franzir de testa pensativo dela o fez gargalhar. Até mesmo agora, no meio daquela declaração de amor, tudo transpassava por aquele 240


supercérebro dela. – Sim, acho que estamos acertados. – Tudo bem. Você venceu a aposta das resenhas, e seu prêmio é minha obrigação de inserir mais emoção em meus livros. Prêmio que, na verdade, eu já comecei a pagar. Ela assentiu, a cabeça inclinada como se estivesse tentando pensar alguns passos à frente dele e ver aonde ele iria chegar. – A aposta luxúria versus intimidade foi um pouco mais difícil, pois estou dizendo que intimidade ganha de longe, no entanto você acabou de argumentar a favor da luxúria aqui, diante de todos aqueles espectadores influenciáveis. O rosto de Delaney se iluminou diante da confissão dele, então ela fez uma careta e riu. – Eu passei uma mensagem truncada lá, não passei? Que tal dizermos que eu estava bancando o advogado do diabo, já que nós dois sabemos que intimidade supera a luxúria? – Tudo bem. Mas aí eu teria de dizer que você venceu – refletiu Nick. Ele assentiu, o rosto o mais sério possível, mesmo enquanto o nervosismo tilintava em seu organismo. Droga, aquilo não era fácil. – Como deixamos o prêmio dessa aposta em aberto, imagino que tenha de pedir você em casamento. Se você tivesse perdido, teria de fazer o pedido a mim. O queixo de Delaney caiu, o choque nítido em seu belo rosto. Ela piscou três vezes, tentando se obrigar a falar alguma coisa. Nick gargalhou. De repente, era tão fácil. Até mesmo simples. – O quê? – guinchou ela finalmente. – Eu quero um compromisso. É aquela coisa da escolha. Eu amo você. Você me ama. Eu acredito nas emoções entre nós, e acredito que elas são fortes o suficiente para durar. Eu quero tudo. E quero provar a você que acredito que é verdadeiro. A risada dela foi um gorgolejo entre as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Nick esperava que fossem lágrimas de alegria. Quando ela se jogou nos braços dele, envolvendo-lhe o pescoço com força, ele supôs que eram, definitivamente, de alegria. – Isso é um “sim”? – perguntou ele, inspirando o perfume floral do cabelo dela quando foi tomado pelo alívio. Ele não tinha percebido o quanto estava preocupado com a reação dela até a tensão derreter de seus ombros. – Sim – disse ela, erguendo o rosto para cegá-lo com o brilho de seu sorriso. Alegria, pura e simples, preencheu Nick. – Sim, quero passar nossa vida explorando luxúria, paixão, amor e até mesmo aqueles temores. Sim, eu quero ficar com você, para aproveitar as oportunidades e crescer em conjunto. 241


Sim... Para tudo, sim. As bocas se encontraram em um beijo repleto de tudo que ela dissera. Paixão, luxúria e amor... tudo misturado, enquanto os lábios e línguas dançavam juntos. O corpo de Nick o lembrou, em detalhes rijos e gráficos, quanto tempo fazia desde que ele tivera Delaney em seus braços pela última vez. – Quero tanto você. Preciso senti-la você em volta do meu corpo, ouvi-la gemer meu nome. – Nick enterrou o rosto na curva do pescoço dela e gemeu. – Você já terminou tudo aqui no estúdio? Podemos ir? Ela obrigou seus olhos a se abrirem para olhar o enorme relógio redondo na parede. – Minha porta tem uma tranca – disse ela suavemente. – Já fez em cima de uma bancada de maquiagem? Nick sorriu, amando aquele lado devasso dela. E ele tinha pensado que a luxúria a afugentaria? Diabos, fora um estúpido. – Sexo no trabalho? – provocou ele. – Você não é a travessa da relação… – Pretendo ser – respondeu ela, com um sorriso tão pervertido que o membro dele latejou em uma resposta desesperada. – Afinal, você vai precisar de mim para a pesquisa. – Você é minha mulher perfeita – sussurrou ele, em gratidão. – Sim – concordou ela, com uma risada. O humor iluminou os olhos dela com luzes flamejantes de prazer. Nick a encarou, maravilhado ao perceber que ela era simplesmente aquilo ali. Perfeita e toda dele. Delaney conhecia o verdadeiro Nick, e o desejava assim mesmo. Não pelo seu sucesso, não por seus contatos. Simplesmente porque ele era ele. Com livros devassos, bagagem 242


emocional e tudo o mais. – Você é como minha heroína particular – disse Nick baixinho, enquanto passava um dedo no ombro dela. Os olhos de Delaney se arregalaram, cheios de lágrimas, fazendo-o se sentir um idiota. Mas ele precisava dizer: – Você é fantástica. Forte o suficiente para me aceitar como sou, e cuidadosa o suficiente para me obrigar a me abrir, para ser mais do que sou. – Esta fala é minha – disse ela, com um sorriso trêmulo. Delaney piscou depressa para desanuviar os olhos. – O fato de você me enxergar inteira e me amar é fantástico. É quase tão excitante quanto as coisas que faz com meu corpo. Com uma risada, Nick captou a dica. Tomou a boca de Delaney com a sua em uma viagem intensa de prazer. Aquilo era intimidade. O prazer de ter o corpo dela sob o dele e os olhos dela o encarando de volta, amorosamente. Seis meses atrás ele teria dito que aquilo era impossível. Mas, graças a Delaney, ele finalmente acreditava no “felizes para sempre”. E com certeza o final feliz dele iria ser fantástico e cheio de luxúria.

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EMOÇÃO

LESLIE KELLY Chicago, 23 de dezembro de 2011. Espiando o céu acinzentado através das imensas janelas, ela começou a guardar seu equipamento fotográfico. A festa estava acabando, havia apenas poucas pessoas no andar, uma área antes dividida por baias de escritório e salas de reuniões que deram lugar para um ambiente natalino divertido. Ela sorriu para as pessoas mais próximas. Notou os olhares para o chapéu de elfo em sua cabeça, por isso tratou logo de retirá-lo. Antes de tirar o chapéu, ouviu uma voz. Masculina, grave, suave, sexy… Bem diferente da voz do Papai Noel contratado. – Eu soube que você fez um ótimo trabalho. Lucy não respondeu. Deixou seu cérebro processar aquela voz. Seu corpo inteiro enrijecera, os pelinhos na nuca se eriçaram, a pele ficou arrepiada. Aquela voz soava familiar. Terrivelmente familiar. Não pode ser. – Parece que as crianças se divertiram muito. Incapaz de se conter, ela começou a se virar devagarinho, se perguntando se seus ouvidos, e todos os outros sentidos, estavam processando os 244


sinais corretamente. Afinal, seis anos era muito tempo. A mente podia pregar peças. Quais eram as chances de ela trombar com ele ali? E logo nesse dia. Vinte e três de dezembro. Exatamente seis anos. Era realmente possível? Depois de um rápido olhar, com o coração palpitando freneticamente, ela soube que seus sentidos e suas faculdades mentais estavam funcionando perfeitamente bem. Porque era ele de fato. Ross Marshall. – Ai, meu Deus – sussurrou ele, chocado, congelado, olhando para ela tão fixamente quanto ela para ele. – Lucy? Ela assentiu lentamente, sem tirar os olhos de Ross, se perguntando por que os anos o haviam deixado ainda mais atraente. Não parecia justo. Lucy havia passado os últimos seis anos pensando que ele já devia ter começado a perder fios do denso cabelo castanho-dourado, ganhado um pneuzinho nas formas belas e musculosas, ou perdido um pouco do brilho nos olhos verdes. A-hã. O sujeito era lindo. Verdadeira e indubitavelmente lindo de morrer, cada pedacinho tão sensual quanto da primeira vez em que ela pusera os olhos nele. Mas Ross não era mais aquele rapaz jovem, esguio e ávido. Agora era um homem completamente realizado, poderoso, forte, arrasador e atraente. Ela estava com 22 anos e ele com 24 quando se conheceram. Durante o breve tempo que passaram juntos, Ross derrubara todo o planejamento de Lucy para sua vida. Quem ela era, o que queria e o que faria quando o sujeito certo aparecesse. Ele tinha sido o primeiro amante dela. Juntos, passaram um tempo incrível. Mas depois do Natal, nunca mais haviam se encontrado. Até agora. Bem, isso não é terrível? – Olá, Ross – murmurou Lucy, se perguntando quando sua vida havia se transformado em um filme de comédia. Não era desse modo que a história começava? A heroína destemida, porém azarada no amor, ficando cara a cara com o único homem que ela jamais fora capaz de esquecer justamente no momento em que está trajando uma fantasia ridícula.

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Aquecidos no inverno...

Seis anos haviam se passado desde que Ross Mitchell e Lucy Fleming tiveram um Natal muito quente em Manhattan. Nessa época, ele era apenas um cara com corpo definido e um cinto de ferramentas, e ela, uma estudante de fotografia ousada. Alguns Natais depois, Ross e Lucy se encontram de novo na festa da empresa cujo dono é ele! Quando o último convidado vai embora, deixando-os sozinhos e presos no escritório por conta de uma nevasca, não demoram a buscar calor no corpo do outro. Sendo que desta vez o sexo é muito mais hot! Será apenas outra transa casual, ou a emoção da surpresa será mais forte do que tudo? Siga nossas redes sociais, conheça nossos lançamentos e participe de nossas promoções em tempo real! Twitter.com/harlequinbrasil Facebook.com/HarlequinBooksBrasil www.harlequinbooks.com.br

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todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: RISQUÉ BUSINESS Copyright © 2008 by Tawny Weber Originalmente publicado em 2008 por Harlequin Blaze Arte-final de capa: Ô de casa © Elisanth – Fotolia.com Arquivo ePub produzido pela Ranna Studio ISBN: 978-85-398-1072-7 Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171, 4º andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ – 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br Capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo um Capítulo dois Capítulo três Capítulo quatro Capítulo cinco Capítulo seis Capítulo sete Capítulo oito Capítulo nove 247


Capítulo dez Capítulo onze Capítulo doze Capítulo treze Capítulo catorze Capítulo quinze Próximos lançamentos Créditos

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Tawny weber flor da pele 04 ousadia