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Nunca te esquecerei Hist贸rias da Vov贸

Selesta Puppim da Silva


Nunca te esquecerei Hist贸rias da Vov贸

Selesta Puppim da Silva


Expediente Nome do Livro : Nunca de Esquecerei - Histórias da Vovó Autora: Selesta Puppim da Silva Ano da Edição: 2014 - 1ª Edição Distribuição gratuita.

A realização desse livro não seria possível sem o trabalho e a dedicação da sensível designer Flávia Mattos. A Flávia nossos agradecimentos.


Dedicat贸ria Dedico este livro ao meu amado e inesquec铆vel neto: Andrey Gonzaga da Silva In memoriam.


Sumário Biografia

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A Motivação Para Realizar O Livro

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Depoimentos Dos Filhos, Genro, Netos E Bisnetos

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O Menino Linha

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As Duas Irmãs: Maria E Letícia

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A Mulher Burra

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José, O Malandro

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Outra De José, O Malandro!

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História Do Índio

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O Menino José

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História De Duzolina E Fioravante

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Selesta Puppim da Silva

Biografia Selesta Puppim, nasceu em 28 de agosto de 1916, em Araguaia, Espírito Santo. Seus pais e avós vieram da Itália como imigrantes, da Região/Estado de Friuli Venezia Giulia, da Província/Município de Pordenone, da Comuna/Distrito de Polcenigo, em 1883, com destino a Benevente (Anchieta), Espírito Santo. Filha e irmã amantíssima de seus pais Luigi Puppin e Angela da Roz e de seus irmãos: Santo Puppim, João Puppim, Maria Puppim, Antônio Taumaturgo Puppim, Cecília Puppim, Aurélio Puppim e Maurício Puppim, sempre manteve laços muito fortes com todos e todas. Passou a sua infância em Araguaia, no Espírito Santo. Nos primeiros anos de vida, falava italiano e só depois de ser alfabetizada por Tia Dina, esposa de seu Tio Ângelo, começou a falar fluentemente o português. Com 22 ou 23 anos partiu de Araguaia-ES com destino a São Gonçalo, no Rio de Janeiro, por convite de um casal amigo para trabalhar como costureira. Ela era costureira de alta costura, profissão que aprendeu com sua mãe Angelina (apelido de Angela da Roz). Logo após se instalar no bairro de Neves, São Gonçalo-RJ, conheceu Francisco Gonzaga da Silva Junior, filho de comerciantes e dono de um grande armazém da localidade. Chiquinho (apelido carinhoso de Francisco Gonzaga) logo se apaixonou pela linda mulher, de olhos muito azuis, encantadora, educada e muito dedicada à arte de costurar. Aceitando o pedido de casamento de Chiquinho, os dois viajaram para Araguaia-ES, onde foi formalizado o pedido a sua mãe Angelina, na presença de seus irmãos. No retorno ao Rio de Janeiro, ela casou-se em 27 de junho de 1941 com Francisco Gonzaga da Silva Junior, oficializando a união que durou mais de 60 anos. Dessa união nascerem: Francisco Luiz Gonzaga da Silva (1942), Márcia Regina Puppim da Silva (1949) e Angela Maria Puppim da Silva (1951). Selesta, logo após o nascimento de sua filha caçula Angela, em 1951, contraiu tuberculose e teve que ficar internada, em isolamento, numa instituição de saúde situada em Nova Friburgo-RJ, cidade serrana cujo clima

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ajudava na recuperação da doença, àquela época uma enfermidade fatal. Ela passou três anos naquela cidade, onde lutou bravamente contra a morte, se recuperou totalmente e retornou ao convívio familiar, vivendo saudável até hoje. Essa foi uma fase de grande sofrimento, que ela superou por sua grande fé católica e amor a toda a sua família, especialmente ao seu filho e filhas, aos quais dedicou grande carinho por toda a sua vida. Seus filhos lhe deram os seguintes netos: Alessandra Pimentel da Silva, Andrey Pimentel da Silva (filhos de Francisco com Vera Lúcia Pimentel); Elmo da Silva Siqueira Junior, Márcia da Silva Siqueira, Michele da Silva Siqueira (filhos de Márcia com Elmo Siqueira); Maria Puppim Buzanovsky, Julio Puppim Buzanovsky, Lia Puppim Buzanovsky (filhos de Angela com Maurício Buzanovsky). Alguns netos lhe deram bisnetos, a saber: Thayanna, Gabriela, Fabiano Junior (filhos de Michele com Fabiano); Samuel (filho de Elmo Junior com Ana Paula) e Gabriel (filho de Márcia com Licon). Selesta sempre foi uma mulher à frente de seu tempo, além de ser uma mulher de fibra e forte personalidade, sempre manteve a ternura ao lidar com todas as pessoas. Sua educação formal foi apenas até o primeiro grau, mas, como adorava ler, sua cultura e sabedoria foram muito além do aprendizado formal. Como costureira de alta costura, fazia ternos, vestidos de casamento, dentre outros. Mas como o marido não permitiu que continuasse a trabalhar, passou a costurar para a família e esmeravase em acompanhar os ditames da moda. Seus vestidos eram um luxo para a época e localidade onde morava. Seus filhos vestiam-se com bom gosto e lançavam moda, sendo motivo de admiração por todas as pessoas. Também ensinava corte e costura às suas sobrinhas, às sobrinhas de seu marido, às amigas das sobrinhas. Aulas criativas, muito avançadas para a época. O ambiente do curso, apesar do rigor com o ensino, era de grande descontração, trocas de confidências entre as participantes e bolos com chá ao final. Uma verdadeira alegria! Como filha, irmã, nora, cunhada, tia e sogra sempre foi presente e agregadora da família. Sempre esteve ao lado de todos, apesar da distância dos que moravam no Espírito Santo. É querida por toda a família, madrinha de batismo e de vários casamentos dos Puppins e


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dos Gonzaga. Fez o vestido de casamento de Anny (apelido Didi, filha de sua Tia Dina), o de Aracy (filha de sua irmã Maria) e o de Maria Celeste (filha de Helinha, irmã de Chiquinho). Também acolheu em sua casa as sobrinhas Aracy e Mercedes (filhas de sua irmã Maria) que vieram estudar no Rio de Janeiro e moraram com ela até se casarem. Não há quem não ame a Celeste, como é conhecida! Como mãe, educava com rigor e muito afeto. Incentivava todos os filhos a estudarem muito e a se tornarem independentes. Sempre os ajudou, colocando-se à disposição para qualquer coisa: uma ajuda financeira, um ombro amigo, cuidando dos netos, bisnetos, fazendo quitutes, etc. Não havia quem resistisse às suas macarronadas e, especialmente, aos seus bifes acebolados. Delícias sem igual! Já como avó e bisavó, ela foi e é maravilhosa, extraordinária! Brincava demais com os netos e bisnetos, divertia-se muito, cuidava, amava, deseducava, inventava brincadeiras e para cada um tinha um carinho especial. Mas foi como contadora de histórias que ela se superou! Os netos e bisnetos, sem exceção, ficavam encantados quando ouviam as suas histórias, viajavam com ela e com suas narrativas pelo mundo da fantasia, riam demasiadamente, tinham medo, perguntavam muito, tinham curiosidade e viviam intensamente aqueles momentos mágicos que só ela sabia lhes proporcionar. Todas as noites, tinha contação de histórias e uma briga incansável contra o sono que os afastava daquele lugar lúdico, alegre e de muita felicidade. Não é à toa que ela é a mais querida “Vovó Celeste” ou “Bisa do Coração”! Esta sábia mulher saúda a todos os familiares até hoje com a expressão maior de seu carinho e apreço: “Vida de minha vida! Alma de minha alma!” Assim, hoje todos a chamam merecidamente de minha “Deusa”!

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A motivação para realizar o livro Estas histórias foram escritas por minha mãe Selesta Puppim da Silva, em 1997, ano de grande sofrimento para ela e toda a nossa família. Neste ano falecera, meu pai Chiquinho, com 85 anos, e meu querido sobrinho Andrey Pimentel da Silva, filho de meu irmão Francisco Luiz, com 21 anos. Seu grande sofrimento estava se transformando numa forte depressão e para animá-la sugeri que ela escrevesse as histórias infantis que ela contava para os filhos, netos e bisnetos. Que eu providenciaria a edição de um livro, impresso, ilustrado. Ficaria lindo o livro das Histórias da Vovó! Falei que Andrey iria adorar, que todos iriam amar, que os netos e bisnetos poderiam contar as suas histórias para os seus filhos futuramente. Que seria um grande presente para todos eles e para todos nós! Lembrei-lhe da loucura dos netos e bisnetos pela contação das histórias da Vovó Selesta, de como eles adoravam ouvir as narrativas feitas por ela, de como viajavam nelas, riam demasiadamente, pediam para repetir inúmeras vezes e se deliciavam com as vozes e caretas que a vovó fazia. Assim o livro cumpriria uma tripla função: não deixaria que se esquecessem das suas histórias; possibilitaria que todos sempre se lembrassem dela e dos momentos maravilhosos que viveram juntos; e, especialmente, estimulá-los-ia a adquirir o hábito de leitura, sendo que esse último sempre foi o maior objetivo dela ao se esmerar em sua contação de histórias. Ela convenceu-se da importância de ter um livro com as suas histórias e animou-se, começando a escrever, escrever, escrever. Passou tudo a limpo, redigindo manualmente tudo novamente, agora de forma mais esmerada. Entregou-me as duas versões manuscritas para que eu providenciasse a elaboração de seu livro. Ocorre que próximo àquela data eu fiz uma grande reforma em meu apartamento e tudo foi encaixotado, inclusive os cadernos com as histórias de mamãe. Durante anos e anos eu procurei pelos cadernos perdidos na reforma. Chequei a pensar que os havia jogado fora junto com os cadernos antigos de meus filhos. Que horror! Somente agora, finalmente, eu encontrei os manuscritos de minha mãe que hoje se encontra com 98 anos de idade.


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Chorei muito ao reler as histórias, chorei de emoção por ter recuperado tão preciosa joia rara, chorei novamente por ter reencontrado as lembranças do imaginário das histórias contadas por nossa mãe em nossa infância, na infância de nossos filhos, netos e bisnetos. Um verdadeiro presente de Deus! Após o impacto inicial, desencadeou-se uma corrida contra o tempo. Editei todas as histórias, pedi ajuda de amigos e familiares, pois não sabia como fazer um livro, o percurso a seguir, os custos a serem incorridos, etc. Resolvi fazer um projeto colaborativo, envolvendo, vários familiares em sua elaboração, a saber: Os bisnetos Fabiano Junior, Gabriel e Gabriela na elaboração das ilustrações. Como o livro é especialmente para as crianças, pensei na alegria delas em verem os seus desenhos ilustrando o livro da Bisa Querida! A grande empolgação em serem coautores de uma obra literária. Minha querida prima Walkyria Puppim, filha do amado Tio Thaumaturgo, que gentilmente se ofereceu para fazer a correção ortográfica e adaptações necessárias. A minha filha Maria Puppim Buzanovsky, que é fotógrafa, fez grande parte das fotografias incluídas no livro. Ela me ajudou fotografando fotos antigas que também foram incorporadas. Os filhos foram envolvidos, na elaboração de depoimentos sobre mamãe e na escolha de fotos. Os netos também adoraram participar com depoimentos emocionantes sobre a Vovó Selesta do coração! Amigos me indicaram editoras, etc. Meu marido, Maurício Buzanovsky, como um dos genros mais queridos de mamãe, dedicou seu tempo, ajudando-me com críticas construtivas, com correções gramaticais e com o seu depoimento emocionado sobre a sua amada Selestrina. Bem, com todos envolvidos e colaborando, foi fácil e muito prazerosa a tarefa de cumprir a palavra empenhada com minha mãe. Fazer um livro bem lindo com as suas maravilhosas histórias. Agradeço a todos e a todas que colaboraram tão intensamente para o alcance desse sonho de minha mãe Selesta. Por fim, brindo a minha mãe com o seu lindo livro. Espero que você goste e fique muito feliz! Perdoe-me pela demora, mas como já dizia o ditado: “Antes tarde, do que nunca!”

Angela Maria Puppim Buzanovsky

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Depoimentos

dos Filhos, Genro, Netos e Bisnetos

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inha mãe SELESTA, começa com S termina com A, é filha de italianos, assim eu dizia quando perguntavam o nome dela. Hoje eu chamo carinhosamente de Selestrina. Ela nos criou com amor e disciplina. Um fato que marcou a minha lembrança foi em um natal, em que ela falou para mim que não tinha muito dinheiro para o Papai Noel, tinha que comprar presentes para minhas irmãs e eu, e me perguntou: Você se importa de ganhar um presente menor? Eu disse que não. Fomos comprar os presentes. Para minhas irmãs, ela comprou duas pequenas bonecas iguais, eu indaguei: Iguais? e ela respondeu: Assim não haverá disputa. Para mim, uma barca com seis carrinhos dentro. Eu adorei, pois na minha cabeça ganhei sete presentes. Ela é sábia. Filho - Francisco Luiz Gonzaga da Silva – 72 anos

A

minha amada mãe Selesta Puppim da Silva, Mãe, o que falar de uma magnífica mulher? O que falar de uma mãe exemplar? Tentarei, mas será difícil falar de você que convive comigo esses longos anos, pois, tudo que eu fale ou escreva será pequeno diante de tantos momentos de amor e aprendizagem que tive com você. Você, Mãe, é o mais perfeito significado de Amor, Paz e União. Mulher sábia, mulher que por onde esteve ou viveu deixou sua marca, marca essa da Fraternidade e do Amor. Quero que saiba, Mãe, que quando você me agradece por algo que faço por você é muito pouco diante do que você fez por mim. E se faço bem é porque você foi quem me ensinou tudo ao longo dessa nossa vida. Agradeço todos dias a Deus por ter sido gerada no seu ventre, cujo principal alimento foi o Amor. Obrigada, Mãe, por tudo e que Deus te abençoe sempre e lhe dê muitos anos de vida. Te amo muito, Mãe. Filha – Márcia Regina Puppim – 64 anos


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elestrina de Jesus! Cantando e plagiando a cantiga de roda Terezinha de Jesus. Assim me dirijo a ela sempre que nos encontramos. Mãe, você me brindou colocando o nome de sua mãe em mim. Sua mãe, Angela da Roz, foi minha mãe também, por pelo menos uns três anos, quando você se afastou de mim, quando eu tinha apenas 3 (três) meses de idade, ocasião em que você contraiu tuberculose e ficou longe do nosso convívio por uns dolosos três anos. Não é à toa que tenho a língua presa e falo 33 (tlinta e tlês), 3 (três meses) e 3 (três anos) sem você, sem mamar o seu peito, sem te olhar com os meus pequenos olhos, sem te tocar com minhas pequeninas mãos. Mas você voltou sã e salva para mim e para a nossa família! E eu feliz da vida fiquei tendo duas mães! A xará Angelina e você Selestrina de Jesus! Quanta Emoção! Você sempre será uma das pessoas mais importantes de minha vida! Por tudo o que vivemos juntas, por nosso convívio sempre alegre, sempre afetuoso, sempre repleto de cumplicidade, de incentivos mútuos e de grande Amor! Alma de minha alma! Vida de minha vida! Te amarei para sempre, minha Deusa! Filha – Angela Maria Puppim Buzanovsky – 63 anos.

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u sou Maurício, um de seus dois genros queridos. Elmo, o outro, já se foi, mas, tanto quanto eu, era também querido e respeitado por Selesta. Aliás, quem não desfrutou de seu amor? Quanto eu saiba, não há quem não tenha sido atingido por sua energia amorosa. Sejam filhos, marido, irmãos, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos e até mesmo genros! E daí a minha perplexidade primeira com esta incrível mulher: de onde veio tanto amor? Angelina foi a fonte primária, é certo, mas talvez não a única, já que tantos outros avos de afeto, com certeza, eram divididos entre a prole. Pouco se fala de seu pai, mas a sua parcela de amorosidade não deve ser desprezada na formação afetiva de Selesta. Então, de onde mais Selesta teria agregado tanto amor? De sua ingenuidade interiorana? De seus amores fugazes? De sua religiosidade? Da constituição de sua família? Do nascimento de seus filhos? Do milagre da sobrevivência de sua quase morte pela tuberculose? Da aceitação da dor pela perda de seu neto? Sabe-se lá! Simplesmente, o fato é que o seu amor se traduzia sempre em acolhimento e cuidado. Numa palavra, em generosidade. A minha segunda perplexidade com Selesta refere-se à sua imensa e inesgotável sabedoria. Não a proveniente de estudos formais ou de cultura erudita, pois a sua origem campesina de subsistência não lhe proporcionou oportunidades na infância e adolescência. Refiro-me à sabedoria instintiva do corpo e da alma. Sabedoria que todos procuram avidamente para a resolução de seus conflitos relacionais no âmbito social, profissional ou até mesmo familiar, e quando não a adquirem acabam por entrar em sofrimento emocional.

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Então, o que para muitos de nós é um esforço cotidiano para a manutenção de nossa saúde física, emocional e mental, com a ajuda de atividades físicas, medicamentos, terapias, fantasias, ilusões, etc., etc., para Selesta sempre foi um processo natural e espontâneo de seu próprio viver. Amor e sabedoria; corpo são e mente sã; valores morais simples e claros; senso de justiça cristã e pitadas de otimismo e esperança de que a vida vai melhorar. Assim construiu o seu castelo de paz e harmonia, onde pontes elevadiças estavam sempre baixadas para acolher amorosamente, mas eram rapidamente levantadas ao menor sinal da chegada do ódio, da cizânia, do pessimismo e da desesperança. Mas do que valeria tanto amor e sabedoria sem disponibilidade, sem presença? E isto se constitui na minha terceira perplexidade: como Selesta pôde estar sempre presente com amor e sabedoria? Coisas que levamos uma vida inteira para aprender, era em Selesta parte inerente de sua personalidade. Lembro-me que após o nascimento de cada um dos nossos três filhos, Selesta se dispunha a nos ajudar por um período de 15 a 20 dias. Presença orientadora, muitas vezes bastante próxima sem caracterizar invasão, e outras vezes à distância sem conotar abandono. Na medida certa amor, sabedoria e presença, nos propiciando, a mim e a Angela, confiança e segurança para exercermos a nossa indelegável condição de Pais. Quanto devo a Selesta por isso. Minha referência materna reatualizada com mais amor, mais disponibilidade e mais possibilidades até então desconhecidas para mim. A você, Selesta amada, muita gratidão não apenas por ser a Mãe do meu amor, mas por ser Minha também. Genro – Maurício Buzanovsky – 61 anos

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uerida Vovó, você sempre foi uma pessoa amiga e muito especial para mim. Por todo esse tempo que estamos vivendo. Espero que você viva por muito mais tempo ainda passando dos 100 anos. Se um dia você não chegar até lá vai ser uma perda muito grande na minha vida! Vou sentir muito a sua falta. Seu neto mais velho, Neto - Elmo Siqueira Junior (Elminho) – 46 anos


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urante a minha infância, uma das memórias mais marcantes e alegres eram os momentos que passávamos, eu, meu irmão e meus primos com vovó Celeste (Selesta de batismo). Exímia contadora de estórias! Curtíamos muito, gargalhando sem parar por causa da “mulher burra” e de Pedro Malasartes, lambendo os beiços com açúcar e canela dos bolinhos de chuva ou molhando o pão no café com leite. E na hora de dormir... ledo engano, ninguém queria saber de dormir!!!!! Kkkkkkkkkkkkkkkkkk. Neta – Alessandra Pimentel da Silva – 41 anos

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ou uma pessoa privilegiada, pois tenho uma avó que é simplesmente a “Vida da minha vida!”, como a maioria dos netos a chamam. Este lindo livro me faz recordar a fase mais gostosa de minha vida, minha infância e nela minha avó foi presente em todos os momentos com seu amor, carinho, suas histórias e principalmente sua orelha (rss...), pois eu só dormia ouvindo suas histórias e mexendo em sua orelha. Quando ela tentava sair eu dizia: Eu quero a orelha da minha avó e mais história!!!! Assim vivi minha infância com toda a dedicação de minha avó amada. Te amo, Vida!!! Neta – Márcia Siqueira de Melo Brito – 39 anos

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embro-me que, quando chegava da escola, perguntava a minha mãe: “Mãe, quem fez o bife?” E minha mãe dizia: “Sua avó, Michele!”. Um sentimento mágico invadia aquele momento. Sabe quando você come sua comida favorita? Esse mesmo! E só minha avó sabia fazer. Pois é, minha avó é assim, dedicada, amorosa, carinhosa em tudo e com todos. Minha eterna inspiração. Neta- Michele da Silva Siqueira – 37 anos

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embro-me de como gostava de ter a sua companhia, da sua deliciosa comidinha caseira, daquelas que até um ovo frito preparado por ela, era o melhor ovo frito que alguém poderia comer na vida! Ela sempre gostou de cantar e eu adoro cantar junto com ela, até hoje fazemos isso. Mas, bom mesmo era quando ela dormia com a gente, pois era à noite, antes de dormir, que ela nos contava as estórias que ouvira da sua mãe quando criança e outras verídicas, vividas por ela junto com seus irmãos no interior do Espírito Santo, ou as que ela mesma, mulher de imaginação fértil, inventava. Cresci sempre escutando dela elogios ou palavras de carinho, nunca uma ofensa, nunca. Ela tem cheiro de infância,

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gosto de ternura e uns olhos claros, da cor do dia, cheios de doçura, que toda vez que me olham, é como um abraço, um aconchego. Uma avó melhor do que contos de fadas, porque, sim, ela existe! E, pra minha sorte, é minha! Vida da minha vida, Alma de minh’alma, sou e serei feliz para sempre por ser sua neta! Amo-te! Neta – Maria Puppim Buzanovsky – 34 anos

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ida da minha vida! Assim a chamamos, eu e alguns primos, nossa doce avó Selesta – carinhosamente também apelidada como Selestrina. Poderia falar de vários momentos felizes que passamos juntos. De seu carinho incondicional, incessante cuidado e principalmente das incríveis histórias que costumava nos contar e que minha querida mãe Angela Maria, com grande sabedoria, eterniza neste livro e as tornam também acessíveis para outras crianças (de todas as idades). Certamente a vovó, além de grande contadora de histórias, sempre teve um quê de artista: sempre gostou de cantar, declamar poesias e até mesmo de atuar simulando “piripaques” homéricos quando eu e minhas irmãs começávamos a brigar. É claro que as brigas rapidamente terminavam e no fim todos dávamos boas gargalhadas. Outra lembrança marcante em minha infância é do grande zelo com que minha avó cuidou de seu eterno companheiro Chiquinho, meu querido avô, ainda que tivessem eventuais e cômicos desentendimentos. Minha avó mostrou-se incansável, uma verdadeira leoa, amparando-o até os últimos instantes. Isso, de certa forma, moldou o meu caráter e é algo que trago em mim até hoje. Por esses e outros motivos, tenho imensa gratidão e me sinto privilegiado por ter convivido que essa figura tão especial, minha avó Selesta, Vida da minha vida. Neto – Julio Puppim Buzanovsky – 33 anos

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ovó Selesta para mim é um grande exemplo de vida: uma mulher linda, elegante, de educação exemplar, destemida, alegre, sorridente, poetisa, cantante, sempre disposta a alegrar a todos com seu carinho, suas gargalhadas, suas palavras de conforto, suas dicas de beleza e elegância, suas músicas e versos. É aquela avó que toda criança deseja ter, aquela que deita na cama juntinho de noite, para fazer coceirinha e contar estórias maravilhosas que fazem a imaginação de uma criança criar asas e voar para um mundo encantado e cheio de diversão. Fico feliz em saber que muitas outras gerações poderão viajar com esses contos contados e talvez criados por essa pessoa tão especial. O sonho da minha vida é


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ser uma avó tão maravilhosa para os meus netos quanto ela foi para mim e um dia poder inspirar esse carinho em minha família que ela inspira a todos em sua volta. Ela é minha Deusa, minha Musa Inspiradora! Dedico a ela minha admiração e amor eterno. Neta – Lia Puppim Buzanovsky – 27 anos

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ida da minha vida é ela! Minha Bisa. Vovó Bisa. Minha infância, minha adolescência, minha juventude, toda minha vida é marcada pela Vida da minha vida. Ainda que hoje haja um pouco menos de convivência devido ao “crescer”, cresci com ela. Ela me fez. Em cada parte de mim tem um pouco (muito) dela. Suas histórias embelezaram meus momentos antes de dormir. Sua risada me alimenta a alma com uma dose de juventude nunca vista por meus olhos em outra pessoa. E seu bife acebolado alimenta meu corpo como nenhum outro! Ninguém faz bife como ela! Era inevitável não ficar com água na boca quando o cheiro do bife da Vovó Bisa infestava a casa! Vida da minha vida, pra sempre. Bisneta – Thayana da Silva Siqueira Blois – 20 anos

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elesta, esse é o nome da minha bisa que eu tanto amo e de quem tenho muito orgulho. Suas histórias fizeram parte da minha infância. Também suas canções. Te amo demais, um beijão!!! Bisneto – Samuel dos Passos Siqueira – 15 anos

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Hist贸rias da Vov贸 Selesta Puppim da Silva


O menino linha Ilustração: Gabriel


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O menino linha N

uma casa de dois andares morava um casal e um filho. O nome dele era Pedro, o pai Antônio e a mãe Maria.

Pedro era muito teimoso, não obedecia aos pais, era pirracento e se divertia com isso. Comia muito pouco, era muito magrinho, os colegas o empurravam e ele caía muito. Os pais ficavam preocupados com isso. Um dia, o pai teve uma ideia e falou com a mulher: - Maria, se você concordar, eu pretendo viajar, pois ando muito nervoso com a teimosia de Pedro. Maria concordou.

Antônio viajou e Maria sentou numa cadeira para costurar. Quando ia pegar a linha para enfiar na agulha, ela, muito distraída, não viu que Pedro estava sentado ao lado da máquina de costura e pegou o seu dedinho para tentar enfiar na agulha. Quando ela percebeu que era o dedinho de Pedro que ela tentava enfiar na agulha, riu muito e saiu para contar para as amigas. As amigas riram muito e a notícia se espalhou. Os colegas de Pedro começaram a chamá-lo de o Menino Linha. Pedro não gostou da brincadeira, resolveu mudar de ideia e pensou: - Eu agora vou comer muito, vou ficar forte, vou jogar bola e dar umas rasteiras nos meus colegas. Chamou sua mãe e disse que de agora em diante iria comer tudo o que a mãe fizesse para ele. A mãe ficou tão feliz com a notícia, que foi logo ao supermercado, comprou frutas e doces e encheu a geladeira. Pedro começou a comer e sempre repetia. Começou a engordar e ficar corado. Quase ninguém o reconhecia mais de tão gordo e forte que ficou.

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Passaram-se mais ou menos uns seis meses e o pai de Pedro escreveu para Maria contando que iria voltar. Maria ficou muito feliz e Pedro também. Maria recebeu um telegrama de Antônio dizendo que chegaria em casa no dia seguinte. Pedro, muito eufórico com a chegada do pai, desceu para o pátio para jogar bola com os colegas. Antônio chegou em casa, beijou Maria e perguntou por Pedro. Maria não falou nada para Antônio, pois queria fazerlhe surpresa e disse: - Procure Pedro por aí. E Antônio começou a procurar Pedro até dentro das gavetas, onde ele costumava esconder-se. Eis que abre a porta e Pedro entra. Quando viu o pai, pulou no colo dele e exclamou: - Oh! Paizão! Mas o pai não o reconheceu, tirando Pedro do colo disse: - Você é filho da vizinha. Mas Pedro, muito levado, pulou novamente no colo do pai e exclamou: - Oh! Paizão! Então, Maria disse: - É o nosso filho Pedro. Ele na sua ausência resolveu se alimentar e ficou assim forte e corado. O pai, feliz da vida, disse: - Vamos comemorar! Convidou os colegas, entraram numa Van e rumaram para um restaurante. Comeram o que queriam, depois o pai comprou um lindo bolo para levar pra casa e festejar com os vizinhos. Todos beberam e comeram à vontade. Despediram-se e foram embora muito felizes. Os pais de Pedro ficaram muito contentes e Pedro também.

fim


As duas irmãs: Maria e Letícia Ilustração: Gabriela


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As duas irmãs: Maria e Letícia M

aria era uma menina muito comportada, mas Letícia era levada da breca e Maria passava por vários vexames por causa das peraltices de Letícia. A mãe era bordadeira e tinha muitas freguesas que encomendavam os lindos bordados. Suas filhas entregavam as encomendas. Um dia, elas foram entregar uma linda toalha. Chegando à casa da freguesa, bateram palmas, pois não havia campainha. A dona da casa estava ocupada na cozinha e disse: - Podem entrar, que já vou atender. As meninas entraram na sala e, quando a mulher apareceu, viram que ela era muito gorda, pois estava esperando neném. Letícia deu uma enorme gargalhada ao ver a mulherona e foi para a varanda para rir à vontade. Maria, muito envergonhada, pediu desculpas e disse: - Letícia não tem educação. Mas a mulher, muito boa, disse: - Não tem importância. Eu gosto de menina que é alegre. Pegou a toalha bordada, gostou muito, pagou direitinho e disse: - Agora vou fazer café para tomarmos com bolo.


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E passou a mão carinhosamente na cabeça de Letícia. A mulher colocou o bolo na mesa e foi fazer o café. Letícia e Maria sentaram-se à mesa à espera do café. Letícia, muito levada disse: - Oba! Vou me empanturrar! Pegou a faca, partiu o bolo e começou a comer. Maria disse muito envergonhada: - Você vai ver quando chegar em casa. Vou falar tudo pra mamãe. Mas Letícia não estava nem aí. A mulher se aproximou da mesa e colocou o café. Quando viu o bolo cortado, passou a mão na cabeça de Letícia e sorriu. Serviu o café, o bolo e ainda mandou um pedaço para a mãe. As duas meninas se despediram da mulher e foram embora. Maria disse pra Letícia: - Vou contar tudo pra mamãe! No caminho de volta pra casa havia uma casinha com as janelas bem baixinhas. Letícia sabia que ali morava uma mulher pequenina. Correu, abaixou-se embaixo da janela e gritou: - Dona! Dona! E a mulher respondeu: - Já vou! Letícia ouviu a mulher se aproximando em direção à janela em que ela estava abaixada e saiu correndo. Foi para outra janela e novamente exclamou: - Dona! Dona! A mulher, meio atordoada, disse: - Será um fantasma? Não vejo ninguém aí.

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Letícia saiu correndo sem ser vista pela mulher. Lá longe, encontrou Maria com a cara zangada, pois não aprovava as maluquices de Letícia, que disse: - Ninguém me viu. Eis que surge na curva da estrada o marido da mulher da casa, que conhecia a mãe das meninas. Ao aproximar-se falou: - Vocês são filhas da bordadeira. Dê um abraço em sua mãe. Nós gostamos muito dos bordados dela. As duas continuaram a caminhada e Maria disse a Letícia: - Agora, quando ele chegar em casa, a mulher vai contar a ele o que você fez. Mas Letícia disse: - Ela não me viu, e daí? Não pode provar. Enfim, chegaram em casa. Letícia estava com os olhos arregalados, esperando que Maria contasse para a mãe. Maria contou tudo para a mãe e Letícia já estava na porta preparada para correr, esperando a reação da mãe. Mas a mãe, como amava as duas, e sabia que eram diferentes, chamou Letícia para perto dela e disse que esse comportamento era muito errado e pediu para ela não fazer mais isso, pois estava ficando uma mocinha e era feio proceder dessa maneira. Letícia com a cabeça baixa disse: - Está bem, mamãe. E deu um beijo na mãe e pediu desculpas.

fim


A mulher burra Ilustração: Fabiano Junior


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A mulher burra M

artinha era uma mulher muito bonita, mas era muito burra. Antônio, um rapaz trabalhador, se apaixonou por Martinha. Não percebia nada, nem a sua burrice, assim como todos os apaixonados... Casou-se com Martinha e foram morar numa modesta casa, na rua das Goiabeiras. Antônio fez umas compras e colocou em casa. Foi ao açougue e comprou um leitão inteiro, pois lá fazia muito frio e, como não havia geladeira naquele tempo, pendurava-se a carne. Antônio dividiu o leitão e pendurou as duas partes. Chamou Martinha e disse: - Mulher, uma parte do leitão e para durar até o Natal e a outra parte até a Páscoa. Mas Martinha, como não prestava atenção em nada, entendeu tudo errado. Quando o marido foi trabalhar, ela foi para a janela e para todos os homens que passavam na rua ela perguntava: - Desculpe, moço, seu nome é Natal? Um moço estranhou a pergunta, mas prosseguiu o caminho. Passou outro e outro, e Martinha fazia a mesma pergunta. Um homem achou estranho e pensou: - Vou passar novamente em frente à casa da mulher e vou dizer que meu nome é Natal. Passou em frente à casa da mulher e ela estava na janela e fez a mesma pergunta ao rapaz. Ele respondeu: - Sim, meu nome é Natal! Ela disse: - Entre aqui, por favor. Meu marido disse que eu desse essa parte do porco para o homem que tem o nome de Natal,


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e o outro é para a mulher que se chame Páscoa. O rapaz agradeceu e foi embora levando a metade do porco. Chegando em casa, a mulher dele estranhou, e quando ia perguntar alguma coisa, ele disse: - Não faça perguntas. Vá por esta rua. No número 34, tem uma mulher na janela, que vai te perguntar se o seu nome é Páscoa. Você diz que sim e ela vai te dar a outra parte do porco. A mulher fez direitinho o que o marido havia recomendado. Passou em frente à casa de número 34. Eis a mulher na janela. Fez a mesma pergunta, se ela se chamava Páscoa. A mulher disse: - Sim. Meu nome é Páscoa. Martinha disse: - Entre que tenho uma encomenda pra você. A mulher entrou e ouviu a mesma coisa que o marido havia dito. Agradeceu a Martinha e foi para casa com a outra metade do porco. Ela e o marido riram a valer da burrice de Martinha. Antônio a noite chegou em casa, beijou a mulher e ela disse: - Fiz tudo o que você me recomendou. Mas o marido não entendeu nada e disse: - Fale, mulher! Então ela prosseguiu: - Você falou para eu dar a metade do porco para um homem que se chamasse Natal e o outro para a mulher que se chamasse Páscoa! Antônio começou a perceber a burrice da mulher e disse: - Da próxima vez, preste mais atenção no que eu falo para não fazer outra burrada! No dia seguinte, o marido disse:

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- Mulher, faça para o jantar repolho com toucinho. Ela respondeu: - Está bem, marido. Farei com muito carinho. E então o marido foi trabalhar. Quando eram mais ou menos cinco horas da tarde, ela fez a polenta em formato de bolo, colocou em cima da tábua e foi na horta colocar uns pedaços de toucinho cru em cima de uns quatro repolhos e voltou para casa a espera do marido. O marido chegou e perguntou: - Vamos jantar? Então, Martinha pegou a tábua com a polenta e disse: - Acompanhe-me. O marido estranhou, mas acompanhou a mulher. Quando chegou na horta e viu o toucinho em cima dos repolhos não se conteve, agarrou a tábua com a polenta, virou na cabeça da mulher e disse: - Você não tem jeito mesmo! É burra, burra! Voltaram para casa, improvisaram um lanche e dormiram. O marido, durante a noite, pensou muito e viu que não tinha condições de viver com Martinha. De manhã, ele chamou Martinha e falou para ela que não dava mais para continuarem juntos, que ele iria embora e que ela voltasse para a casa do pai. Martinha começou a chorar, mas Antônio não deu muita atenção ao choro dela. Estava resolvido mesmo a ir embora. Foi andando, andando e, ao olhar para trás, Martinha continuava a chamar pelo marido: - Volta, Antônio! Volta, Antônio! Antônio ficou com pena de Martinha e disse: - Venha e feche a porta!


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Martinha não entendeu, começou a puxar a porta, tentando arrancá-la. Conseguiu, colocou a porta na cabeça e foi ao encontro do marido. Antônio, quando viu a porta na cabeça da mulher ficou irritado e disse: - Agora tu vais carregar esta porta, pra ver se cura esta cabeça desmiolada! Aí, os dois se embrenharam mata adentro e, de repente, deram de cara com um esconderijo de bandidos. O marido exclamou: - Estamos perdidos! Qualquer rumo que tomarmos, poderemos encontrar os bandidos. A mulher disse: - Eu nunca vi bandidos. Gostaria de conhecê-los. O marido não deu atenção às bobagens que a mulher falava e se pôs a pensar no que fazer. Imediatamente teve uma ideia: - Vamos subir nesta árvore. Teremos que levar a porta para não deixar vestígios. Martinha subiu primeiro e Antônio a seguiu. Ele colocou a porta em cima dos galhos, que eram resistentes, e ficaram em silêncio à espera dos bandidos que, naturalmente, deveriam voltar para o esconderijo. Eis que os bandidos chegaram e começou um enorme falatório. Um deles jogou uma sacola cheia de joias e disse: - Vejam o que consegui. Assaltei uma joalheria. O outro disse: - Eu assaltei um banco. Consegui bastante dinheiro, e jogou a bolsa cheia de dólares no chão. O chefe disse: - Agora vamos fazer comida! Quero linguiça, feijão e toucinho. E foi lavar as mãos. Um dos bandidos colocou a panela no fogo com feijão e bastante linguiça e toucinho. Enquanto isso, a mulher burra

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disse baixinho para o marido: - Ai, marido, estou com vontade de fazer xixi! O marido, apavorado, disse: - Segura, mulher! Mas ela estava com muita vontade e começou a fazer xixi. O xixi escorreu pelas folhas e caiu na boca de um bandido. Ele disse: - Caiu água na minha boca. Interessante... Tinha um gosto de xixi. O outro bandido disse: - Estás acostumado a beber xixi? Deve ter sido água da chuva que caiu de alguma folha. Riram muito e continuaram contando suas façanhas. Então, Martinha fala para o marido: - Ai, marido, estou com vontade de fazer cocô! O marido bem que tentou falar pra mulher segurar, mas já era tarde, e o cocô caiu justamente na panela onde estava o feijão fervendo e respingou na cara de um dos bandidos, que falou: - Pare de jogar linguiça! Caiu na minha cara e me queimou! Tomara que caia um raio e te parta a cabeça! Aí, o chefe falou: - Vamos parar com isso! Não mexas com as coisas lá de cima. Eu sou bandido, mas temo a Deus! Neste momento, a mulher burra disse: - Ai, marido, não aguento mais segurar a porta. Estou muito cansada! O marido não aguentou segurar a porta sozinho e a porta caiu lá de cima da árvore, fazendo um barulho enorme entre os galhos e as folhas. Os bandidos assustados gritaram:


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- Vamos debandar! É o castigo do céu! E saíram correndo, deixando tudo que roubaram para trás. O marido falou para a mulher: - Até que enfim fizeste uma coisa boa! Desceram da árvore e pegaram as sacolas com as joias, os dólares e foram embora pelo mesmo caminho que tinham vindo. Chegaram em casa e o marido feliz da vida disse para a mulher: - Estás satisfeita agora? Ela respondeu: - Não, pois queria aquela panela de barro, que deixei lá. No dia seguinte, quando o marido estava se preparando para ir trabalhar, colocou os dólares no bolso, as joias na pasta e deixou em casa umas moedas de ouro para a mulher fazer compras. Para a mulher não gastar as moedas, falou que elas não eram valiosas. Nesse mesmo dia a mulher ficou debruçada na janela olhando a rua pra se distrair. Aí passou um vendedor de pratos de madeira coloridos que perguntou para a mulher. - Está interessada em comprar, senhora? Ela achou muito bonitos os pratos e disse: - Entra, gostei muito, mas meu marido não deixou dinheiro em casa. Só deixou umas moedas douradas e disse que não valem nada. Ela foi pegar a lata com as moedas e mostrou ao vendedor. Ele, muito esperto, percebeu a burrice da mulher e disse: - A senhora me dá estas moedas que não valem nada e eu lhe dou esta sacola com os utensílios todos. Ela ficou muito feliz e disse: - Tudo bem! Estou muito contente de ter comprado uma mercadoria tão bonita!

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O homem se despediu e foi embora. Aí Martinha começou a cantarolar e pendurar os pratos coloridos na parede, a farinheira na mesa, preparou o jantar e ficou à espera do marido. Estava feliz com o seu amor e queria agradá-lo. O marido chegou e estranhou a arrumação da casa e perguntou: - Onde arranjastes todas essas coisas? - Você me disse que aquelas moedas amarelas não valiam nada, então eu comprei todas essas coisas de um vendedor que passou aqui na porta hoje. Veja como fiz um excelente negócio! Eu fiquei muito contente, mas o vendedor quase morreu de tanta alegria, coitado, não entende nada de negócios, mas é um bom homem, um homem trabalhador. O marido sorriu e pensou em quanto amava aquela mulher! Como ela era ingênua, pura, pura e como encontrava felicidade na simplicidade da vida, no seu amor pelo marido, no seu amor ao próximo. E aí exclamou: - Sábia Mulher! De burra não tem nada! Ela é linda! Ela é o amor de minha vida!

fim


José, o malandro Ilustração: Gabriela


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osé costumava dizer para os colegas:

- Vocês são burros, se acabam de trabalhar, enquanto eu penso sempre em arrumar dinheiro, sem trabalhar. Aí os colegas diziam para ele: “O trabalho dignifica o homem”. José ficava muito tempo parado, pensando em como arranjar dinheiro para a sua sobrevivência.

Certo dia, ele foi para a casa de um fazendeiro e pediu emprego. O fazendeiro disse que José teria que obedecer a todas as suas ordens. José respondeu que certamente iria obedecer a tudo, tudinho que o fazendeiro ordenasse. O fazendeiro então falou que tinha uma cachorrinha e que o horário de trabalho de José iria ser determinado pela vontade da cachorrinha. José estranhou, mas a fome apertava e ele, sem dinheiro nem casa pra morar, aceitou a condição do fazendeiro. - Presta atenção, disse o fazendeiro, quando a cachorrinha for para o trabalho você deverá acompanhá-la e, quando ela voltar, você também voltará. Estamos entendidos? - Tudo bem, retrucou José. Na hora do almoço, o fazendeiro ordenou que José fosse ao refeitório e fizesse a sua primeira refeição do dia.


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José entrou no restaurante, sentou-se à mesa e aguardou ser atendido pelas garçonetes. A garçonete informou a José que o cardápio do dia era “pão com ovo”. Começou a servir o pão, quando José perguntou se não tinha mais alguma coisa, como salada, feijão, arroz, etc.etc. A moça repetiu que o cardápio era somente pão com ovo. Enquanto perguntava, José se aproveitou da distração da garçonete e comeu o pão que ela havia servido. Logo em seguida reclamou: - A senhorita não serviu meu pão. A garçonete desculpou-se e colocou outro pão no prato de José. A outra garçonete trazia uma bandeja com os ovos estrelados e colocava um em cada prato dos fregueses. José novamente chamou a garçonete e disse-lhe: - A senhorita esqueceu de colocar o ovo no meu prato. Aproveitando-se novamente de uma distração da garçonete ele comeu rapidamente o ovo que ela havia colocado em seu prato. A moça muito atenciosa pediu desculpas a José e serviu-lhe com um ovo bem grande. Sendo assim, José comeu dois pães e dois ovos naquela refeição. Terminado o dia de trabalho, José foi descansar e dormir. No dia seguinte bem cedo, a cachorrinha começou a latir na porta do quarto de José. Ele acordou sonolento, se arrumou conforme o trato feito com o patrão. A cachorrinha voltou à noite para buscar José, que estava muito cansado, pois não estava acostumado com tanto trabalho. No jantar, comeu pão com ovo e foi logo em seguida dormir. No dia seguinte, bem cedo, a cachorrinha novamente ficou latindo sem parar para levá-lo para trabalhar. José acordou irritado e foi trabalhar, indo depois ao restaurante para a primeira refeição, pão com ovo novamente. Ao fim do dia, quando a cachorrinha foi buscá-lo no caminho de volta, começou a pensar e a bolar alguma estratégia para mudar aquela situação. De repente, veio-lhe uma ideia genial. Pegou uma varinha e deu umas lambadinhas nas costas da cachorrinha ....caim...caim (latindo muito) saiu correndo assustada e voltou para casa. José acompanhou a cachorrinha, conforme o trato com o fazendeiro.

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No outro dia, a cachorrinha muito assustada latiu em frente ao quarto de José, muito amedrontada e José acordou com a mesma intenção de no meio do caminho dar as lambadinhas do dia anterior e assim o fez. A cachorrinha muito assustada voltou logo para casa e José também. No outro dia, a cachorrinha assustada não saiu para trabalhar e José dormiu até tarde, acordou dançando e foi para o restaurante para fazer a refeição costumeira. Passaram-se dias e o fazendeiro viu José em casa no horário de trabalho, ficou intrigado e foi logo perguntando a José o que ele estava fazendo ali, sentado no horário de trabalho. José disse: - Nós fizemos um trato de eu obedecer a vontade da cachorrinha e ela não veio mais ao trabalho e eu também. Estamos entendidos? O fazendeiro teve uma ideia. Chamou os homens de sua confiança, relatou os fatos, pois não poderia manter um malandro sustentado por ele. Aí combinaram o seguinte: colocariam uma enorme pedra sobre o telhado do quarto de José e à noite desligariam a luz, além de não darem fósforos para ninguém. Todos iriam dormir, cada um em seus aposentos. O fazendeiro pediu a todos para se recolherem mais cedo, devido à falta de luz. Todos se recolheram e José também, mas José sempre tinha uma caixa de fósforos no bolso, pois tinha o vício de fumar. Como ele era muito esperto, acendeu um fósforo e viu a enorme pedra pendurada no teto bem em cima da cama dele. Ele, muito sabido, ficou encostado na porta de saída do quarto e não dormia, mantendo-se acordado. Mais ou menos à meia noite, ouviu-se um enorme barulho, a pedra caiu bem em cima da cama de José. Todos os empregados ouviram o barulho, mas todos se mantiveram em seus quartos. No outro dia, todos acordaram bem cedo e começou um enorme falatório sobre se tinham escutado um enorme barulho. Todos disseram que sim, quando chega um empregado da confiança do fazendeiro e disse que a vistoria identificou que havia caído uma enorme pedra em cima da cama de José. Todos imediatamente perguntaram: - E o José morreu? Logo, logo a notícia da morte de José se espalhou por toda a redondeza, chegando ao refeitório que já estava todo


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arrumado pra começar a servir as primeiras refeições. José ouvia tudo, pois falavam alto. Aí José resolveu sair do quarto e viu duas garçonetes chorando em frente à porta do seu quarto. José sai de casa e imediatamente todos que o vêm exclamam: - É a alma de José, e começou uma correria em toda parte. No refeitório, todas as cadeiras foram derrubadas, mesas despencaram, num enorme alvoroço. José compreendeu que o fazendeiro e seus comparsas queriam matá-lo. Daí, ele pegou um enorme saco e encheu de bebidas, comidas e tudo o que interessava a ele e foi embora, com o bolso cheio de dinheiro do contrato que fez com o fazendeiro.

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Outra de José, o malandro! Ilustração: Fabiano Junior


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osé descansou uns tempos e, como o dinheiro estava acabando, saiu para procurar emprego, já pensando em se empregar e bolar uma nova estratégia para se dar bem. Entrou numa outra fazenda, pediu licença ao capataz e disse que precisava trabalhar, pois estava desempregado e passando necessidade. Como o fazendeiro sempre estava precisando de mão de obra, o capataz apresentou José a ele, que foi logo perguntando o que José sabia fazer. José disse que fazia de tudo um pouco. O fazendeiro deu a José a incumbência de tomar conta de mais ou menos uns cinquenta porcos e conduzi-los a outra fazenda próxima, onde havia uma enorme plantação de bananas e batatas. José tinha a missão de levá-los pela manhã e trazê-los à noite, depois de bem alimentados. José fez isso por uns dias, ficando logo cansado, e começou a bolar alguma coisa a seu favor. Passou em frente a outra fazenda e encontrou o outro fazendeiro. O fazendeiro estava a cavalo e perguntou: - Onde você vai com esta porcada toda? José respondeu que estava vendendo os porcos e indagou: - Quer comprar? O homem perguntou logo: - Quantos queres, rapaz?

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José fez o seu preço, o fazendeiro achou razoável e fechou negócio com José. Aí José disse: - Tem uma condição: o senhor me permite cortar todos os rabos dos porcos e deixá-los comigo. Isso é uma tradição familiar. O fazendeiro, achando que havia fechado um bom negócio, concordou e ali mesmo na estrada fecharam a transação de compra e venda. José cortou os rabos dos porcos e o fazendeiro com seus empregados levaram os porcos sem rabos para a sua fazenda. Assim José ficou com todos os rabinhos em sua sacola. José pôs a cabeça a funcionar como de costume e lembrou que na estrada que ele percorria havia um enorme lamaçal. Dirigindo-se para lá, enfiou todos os rabinhos no pântano e se encaminhou para a casa do fazendeiro, dono dos porquinhos. Logo que chegou, o fazendeiro estranhou ele chegar sem os porcos e foi logo perguntando: - Onde estão os meus porcos? José contou que foi uma tragédia, que no caminho tinha um lamaçal, pois naquelas bandas chove muito, e que, quando os porcos atravessaram o pântano, todos, todos ficaram atolados. O fazendeiro quis logo ir ao local para verificar o que aconteceu. Quando o fazendeiro viu só os rabinhos dos porcos atolados teve uma ideia. Os porcos morreram hoje, assim vamos retirá-los, pois ainda dá para recuperar as carnes. José, meio atordoado, teve imediatamente uma nova ideia. Entrou no pantanal, e começou a puxar os rabinhos fingindo que estava fazendo muita força, mas cada vez enfiava-os mais para dentro do lamaçal. O fazendeiro ficou com pena de José, pois concluiu que ele estava fazendo um esforço enorme para recuperar os porcos atolados. Então o fazendeiro falou para José para irem embora, para largar todos os porcos ali mesmo e deixar pra lá o acontecido. José, como era malandro, queria descansar um pouco e, com o bolso cheio do dinheiro da venda dos porcos, falou para o patrão: - Não fique triste, o senhor é muito rico, não vai lhe fazer falta. Quanto a mim, fiz o meu trabalho e tudo direitinho como o combinado, indo embora feliz!

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História do Índio Ilustração: Gabriel


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História do Índio H

avia um sítio muito bonito e bem cuidado, pois seu dono era um índio muito esquisito, pois não queria intimidade com os vizinhos. Vivia sozinho, tinha um lindo cavalo branco, um periquito e uma varinha mágica, assim acreditava ele. Perto do seu sítio morava uma estranha senhora. Seu nome era Ambrósia e, com ela, moravam dois irmãos que eram órfãos que ela pegara para criar, sendo um menino e uma menina. O nome da menina era Rícia e do menino José. Ambrósia não queria intimidade com ninguém, vivia muito isolada em sua fazenda, mas era muito ambiciosa. Passaram-se alguns anos e Rícia ficou uma moça muito bonita e Ambrósia se orgulhava dela. José ficou com ciúmes da irmã, andava revoltado com a preferência de Ambrósia pela irmã e inventava mentiras para prejudicar Rícia. Um dia, José inventou uma mentira para prejudicar Rícia, dizendo para Ambrósia que Rícia lhe disse que seria capaz de roubar o periquito do Índio. Ambrósia, muito ambiciosa, chamou Rícia e perguntou-lhe: - Você disse para o José que seria capaz de roubar o periquito do Índio? Rícia ficou indignada e disse que não falou nada daquilo, que era mentira de José, mas Ambrósia, muito ambiciosa, disse-lhe: - “Palavra de rei não volta atrás”, você, para mim, é uma Rainha, terá que cumprir a palavra. Rícia começou a chorar e pediu-lhe para dar-lhe uns dias para pensar. Ambrósia concordou. Rícia começou a pensar em como iria fazer. Teve uma ideia e falou para Ambrósia:


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- Dê-me uma sacola com nozes descascadas. Imediatamente teve o seu pedido atendido. Ao entregar a Rícia todo o material solicitado, a tia gritava: - Rícia, riciosa, quando retornarás, o periquito trarás. Numa noite escura, Rícia foi ao sítio do Índio e se aproximou da gaiola do periquito. O pássaro ficou assustado e começou a cantar (cri, cri, cri...). O Índio abriu a janela e falou: - Estás com fome? Estás com sede? Nada havendo, vou dormir. A Rícia estava escondida atrás de um galpão e, como o índio dissera que iria dormir, ela aproveitou e se aproximou da gaiola e colocou as nozes picadinhas. O periquito começou a comer sem parar. Então Rícia pegou a gaiola e foi embora. Quando chegou em casa, Ambrósia ficou muito feliz, beijou Rícia, pegou a gaiola e pendurou-a em seu esconderijo. José ficou muito irritado e com raiva de Rícia, por ela ter se saído bem da incumbência e continuou a pensar em outra mentira para prejudicar Rícia. Aí, logo inventou outra mentira. Chamou a Tia e disse: - Sabes o que Rícia me contou? Que é capaz de roubar o cavalo branco do Índio. Ambrósia acreditou em José novamente e chamou Rícia. E, como sempre, fez as mesmas perguntas e Rícia tentando provar que José mentira, mas a Tia continuava a insistir que “palavra de rei não volta atrás, e você é uma rainha, tem que cumprir o que disse”. Rícia, chorando sempre, pedia alguns dias para pensar e Ambrósia concedia. Rícia, por vários dias, ficou sentada chorando e pensando em como roubar o cavalo branco do Índio. Aí, teve uma ideia: pediu a Ambrósia um saco de algodão e uma sacola com milho e umas cordinhas. Imediatamente Ambrósia providenciou tudo. Ao entregar a Rícia todo o material solicitado, a tia gritava: - Rícia, riciosa, quando retornarás, o cavalo branco trarás. Rícia sempre esperava uma noite bem escura para fazer o seu trabalho. Rícia foi então naquela noite ao sítio do Índio. Aproximou-se do cavalo branco que estava no estábulo, deu umas palmadinhas nas costas do cavalo e o acariciou. O cabalo estranhou um pouco e relinchou. Então o Índio levantou e foi até a janela e perguntou: - Estás com fome? Estás com sede? Nada tu tens. Passaram-se alguns minutos e novamente o cavalo relinchou. O Índio levantou novamente e foi até a janela e com

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voz irritada perguntou: - Estás com fome? Estás com sede? Nada tu tens e eu vou dormir, fechando a janela logo a seguir. Aí Rícia, carinhosamente, pendurou a sacola com milho na boca do cavalo e amarrou entre as orelhas. O cavalo começou a comer o milho e não relinchou mais. Aí, Rícia deu umas palmadinhas na pata do cavalo e ele levantou o pé, onde Rícia colocou um pouco de algodão e amarrou com as cordinhas nas quatro patas do cavalo. Saiu, puxando-o pelo cabresto. O cavalo, com o algodão nas patas, não fazia barulho, o que possibilitou que Rícia o levasse até a sua casa tranquilamente. Ambrósia, quando viu o cavalo branco, ficou muito contente, abraçou e beijou Rícia, e José, de longe, ficou roendo as unhas de tanta inveja e raiva. Passaram-se uns meses e José novamente se aproximou da tia falando que Rícia era corajosa. Ambrósia falou: - Rícia é corajosa, por que você está fazendo esse elogio a sua irmã? - É porque ela disse que é capaz até de roubar o Índio. Ambrósia, cega de ambição, pensou que, com o índio preso em seu esconderijo, ela poderia se apoderar do sítio dele: “Ele será meu prisioneiro”. José se aproximou de Ambrósia, novamente falando: - A Rícia é fogo mesmo! Sabe o que disse? Que tem condição de roubar também a varinha mágica do Índio. Ambrósia, ambiciosa e radiante de alegria com as ideias de Rícia e a sua inteligência e competência, chamou Rícia e, como de costume perguntou: - Como tu disseste ao José que és capaz de roubar a varinha mágica do índio e o próprio Índio? Rícia, atordoada, disse que não aguentava mais, que tudo era mentira de José e que iria enlouquecer com tanta injustiça. Ambrósia voltou a falar: palavra de rei não volta atrás e você é uma rainha e tem que honrar a sua palavra. - Além do mais, você não pode fraquejar, é valente e corajosa, terá que aproveitar este dom que tem. Faça por partes, primeiro quero a varinha mágica e depois o próprio Índio. Rícia, muito nervosa, sempre pedia um tempo para pensar e a tia concedia. Rícia se retirou e se pôs a pensar e uns cinco dias após estava pronta para executar o plano, pedindo a tia um saco de nozes. Ambrósia prontamente arranjou as nozes a as colocou num saco bem grande.


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Ao entregar a Rícia todo o material solicitado, a tia gritava: - Rícia, riciosa, quando retornarás, a varinha mágica trarás. Numa noite bem escura e com promessa de chuva, Rícia se dirigiu para o sítio do Índio. Subiu no telhado e começou a jogar muitas nozes lá em cima. O telhado da casa era de zinco e fazia um barulho enorme. O índio levantou-se da cama e foi para a janela e, na escuridão da noite, não via as nozes no chão, o que o levou a pensar que se tratava de um enorme temporal. Imediatamente pegou a varinha de mágica e deu um comando para que esta parasse a chuva. Pare esta chuva, dizia, batendo a varinha três vezes. Rícia jogava cada vez mais nozes em cima do telhado, fazendo com que o barulho aumentasse. O índio, muito assustado, vendo que a varinha não obedecia, jogou a varinha no quintal e disse: - Obedeça-me, varinha mágica. Aí Rícia começou a diminuir a quantidade de nozes, foi diminuindo, diminuindo, até parar. O Índio, satisfeito, fechou a janela e foi dormir. Aí Rícia desceu do telhado, pegou a varinha mágica e foi embora. Chegando em casa, entregou-a a tia Ambrósia. Ambrósia ficou radiante de alegria e disse: - Estou de posse da varinha mágica, agora ninguém me vencerá. José, como sempre, roendo as unhas de raiva e triste com as proezas de Rícia, sentou-se no chão e começou a pensar, pensar, e veio a ideia de dizer que Rícia falara que já estava pronta para roubar o próprio Índio: “Esta é boa, ela vai se ferrar e perder o prestígio que tem com a tia Ambrósia”. Imediatamente foi falar com a tia o que Rícia teria lhe falado. Ambrósia ficou com os olhos arregalados e perguntou: - A Rícia falou isso mesmo? Você está falando a verdade garoto? José confirmou e Ambrósia, como sempre, não perdeu tempo e chamou Rícia e fez as mesmas perguntas de sempre. - Rícia, você disse que é capaz de roubar o próprio Índio? Rícia negou tudo, disse que era um tamanho absurdo e muito difícil de ser cumprido e exclamou: - É impossível fazer tamanha loucura! Mas Ambrósia voltou a repetir “palavra de rei não volta atrás e tu és uma rainha”. Além disso, você para mim é rainha e terá que cumprir a palavra.

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Então Rícia pediu uns dias para pensar. Ambrósia disse que daria dois dias apenas. Rícia ficou horas e noites sem dormir pensando, pensando em como fazer e arquitetar um plano tão complexo e ambicioso. Ao final dos dois dias, Rícia pediu à tia uma farda de polícia. Ambrósia prontamente costurou uma farda igualzinha à da polícia e deu-a a Rícia. Ao entregar a Rícia todo o material solicitado, a tia gritava: - Rícia, riciosa, quando retornarás, o Índio trarás. Rícia foi a uma funerária e comprou um caixão de defunto e mandou entregar no endereço da tia. Rícia então vestiu a farda, prendeu os cabelos, colocou o capacete e se dirigiu à casa do Índio. Quando estava passando em frente à casa do Índio, fez uma parada e colocou o caixão no chão e fingiu que estava cansado, bateu palmas e o Índio chegou à janela. Rícia o cumprimentou e perguntou ao Índio: - Estou com uma tarefa muito difícil para cumprir, mas a polícia tem que cumprir ordens. O Índio respondeu: - Certamente. Rícia falou que precisava de algumas informações. - Estou com esse caixão para prender uma tal de Rícia, que, segundo nossos arquivos, constam muitas queixas contra ela. Vou prendê-la e colocá-la neste caixão, porque dizem que é muito esperta e se eu der ordem de prisão, naturalmente ela escapará. O índio nada retrucou e se aproximou de Rícia e ficou tão contente com a notícia que não teve tempo para raciocinar. Rícia perguntou: - O senhor poderia me ajudar? O Índio colocou-se à disposição para ajudar no que fosse preciso. Rícia falou: - Por favor, entre aqui neste caixão, pois fui informado de que a moça deve ser do seu tamanho. Se o caixão não for do


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tamanho certo, terei que ir novamente à funerária providenciar um outro. O Índio, feliz por ajudar a policial e também se vingar de Rícia por tudo que ela havia lhe roubado, entrou no caixão e começou a acomodar-se. Antes que ele percebesse e tivesse alguma reação, Rícia colocou a tampa no caixão e Pô...Pô....Pô... trancou o Índio dentro dele. Rícia colocou então o caixão nas costas e foi embora com ele para casa. O Índio ia gritando: - Socorro, tire-me daqui... Rícia, apressada, entregou logo o Índio preso dentro do caixão a sua tia Ambrósia. Quando Ambrósia viu o caixão, foi logo perguntando: - O que é isso? Rícia respondeu: - É o Índio. A tia disse: - Vamos para o esconderijo, onde abriram o caixão. O esconderijo tinha um enorme portão que dava para um quarto com janelas gradeadas e com cadeados. Ao sair do caixão, o Índio atordoado viu que estava preso naquele local. Ambrósia queria o Índio vivo. Ele será bem alimentado e ficará trancado com sete chaves. A tia chamou José e disse-lhe: Você ficará incumbido de servir-lhe as refeições. José, irritado com o êxito de Rícia ficou sentado no chão pensando em como se vingar. Aí ele pensou em se vingar no índio, comendo toda a sua comida. - Não, toda a comida, não. Comerei a metade e ele ficará magrinho e fraco até morrer. Então todos os dias José levava a comida para o Índio, e na frente da janela gradeada onde o índio ficava à espera da comida, José comia o bife e outras partes gostosas e só dava para ele feijão com arroz. O Índio, enfurecido, gritava: - Quero carne, ovo, malvado garoto.

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Um belo dia, José estava tranquilo, despreocupado e sentou-se debaixo da janela do Índio. O índio, quando viu José sentado ali pensou: - É agora! Meteu as mãos através das grades e começou a puxar os cabelos de José. O índio disse que iria amarrar o cabelo até arrancar o seu couro cabeludo. José gritava, gritava, pedindo socorro, socorro. O índio puxou com tanta força e raiva que arrancou parte do couro cabeludo de José, que saiu correndo todo ensanguentado pedindo ajuda. Ambrósia foi imediatamente verificar o que estava acontecendo e se inteirar dos fatos, através dos outros empregados da fazenda. A tia mandou José até a farmácia para fazer um curativo. Ela não repreendeu o Índio. José disse baixinho que queria o Índio fora dali. José teve a ideia de denunciar à polícia para prejudicar Ambrósia e Rícia. Sendo assim, ele foi até a delegacia e fez a denúncia. A polícia já sabia do sumiço do Índio e José deu o endereço da tia e o local onde o índio estava preso. A polícia imediatamente foi até o local, para verificar a veracidade dos fatos denunciados por José. Bateu palmas e Ambrósia atendeu. Os policiais disseram que tinham ordens superiores para vistoriar a casa, segundo denúncia de um elemento da própria família. Ambrósia tentou impedir a busca, mas foi logo imobilizada pelos policiais e eles realizaram a vistoria com José acompanhando e mostrando o local onde o índio estava preso, junto com o cavalo branco e o periquito. Ambrósia se debatia para ver se arrebentava as algemas, para poder pegar a varinha mágica e se livrar da polícia. Mas foi tudo em vão. Os policiais soltaram o Índio e prenderam Rícia também e as levaram para a delegacia para depor. Ambrósia foi presa em flagrante. Na delegacia, Rícia confirmou tudo e disse que fez aquilo tudo por imposição da tia Ambrósia, que a ameaçava e ela, com medo, fez aquilo tudo. Rícia foi liberada sob a condição de cuidar durante dois anos dos jardins da praça pública da cidade. A tia ficou presa e José foi internado pelo juizado de menores numa casa de reabilitação para menores até a sua recuperação. A polícia devolveu ao índio tudo que lhe haviam roubado.


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O índio no caminho de volta para casa passou pela praça e viu Rícia cuidando do canteiro das rosas e ficou olhando e admirando como ela cuidava com carinho da flores e como todos os canteiros estavam lindos e muito floridos. Ao avistar o Índio, Rícia o chamou e falou que estava pensando e tomando coragem para ir ao seu encontro para pedir-lhe desculpas por todo o sofrimento causado, que sempre sofria muito com as mentiras do irmão e as maldades da tia. Que ela tinha um enorme sofrimento em seu coração e que achava que só seria novamente feliz quando o Índio a perdoasse. O Índio, encantado com a beleza de Rícia e a verdade que ele percebia ao olhar no fundo daqueles olhos cobertos de lágrimas, perdoou-a. O Índio passou a passear na praça e constantemente levava para Rícia mudas de plantas lindíssimas, que ele cultivava em seu pequeno sítio. Rícia, com a ajuda do Índio, transformou a praça num jardim maravilhoso, que atraía por sua exuberante beleza uma multidão de visitantes, principalmente as crianças que adoravam as aulas de educação ambiental dadas pelo Índio com a colaboração de Rícia. Essa grande amizade entre Rícia e o Índio foi se transformando em um grande amor, até o dia em que se declararam e se casaram num grande altar construído na praça com a presença de todos os moradores da cidade numa enorme festa de casamento. O índio chegou ao casamento montado no cavalo branco, o periquito ficou pousado todo prosa em cima do bolo de casamento. Rícia recebeu de presente do Índio a varinha mágica e ela fez então o seu primeiro e único pedido: - Faça, varinha mágica, que sejamos felizes para sempre!

fim

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O menino José Ilustração: Gabriel


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O menino José J

osé vivia com os pais numa casa em frente da rua. José era muito curioso, tinha vontade de atravessar a rua, mas a mãe sempre recomendava: - Brinque dentro do quintal, não atravesse a rua que é muito perigoso. José muito curioso não quis ouvir a mãe e disse: - Não é tão perigoso assim, pois todos atravessam. Aí tentou atravessar e, quando estava no meio da rua, imediatamente um carro parou, quase atropelando José. O motorista, muito zangado, falou: - Menino, quase atropelei você, mais atenção ao atravessar, olhe bem para um lado e para o outro, antes de atravessar. José saiu correndo meio atordoado olhando para trás e não viu um enorme buraco na calçada, caindo bem dentro dele. O buraco era tão profundo que José custou a chegar ao chão. Ele caiu em cima de muita folhagem e não se machucou. José, muito atordoado e assustado, começou a andar lá em baixo e avistou uma casa e logo foi em sua direção. Aí avistou uma velhinha que vinha ao seu encontro. A velhinha falou: - Como vieste parar aqui, menino?

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José respondeu: - Caí num enorme buraco e aqui estou. Por favor, me tire daqui. A velhinha falou: - Meu menino, aqui é a casa de um gigante e ele come carne humana. A velhinha, muito bondosa, passou a mão na cabeça de José e disse: - Vou ver o que posso fazer para te ajudar. Sabes, meu menino, o gigante não me come, porque eu sou útil a ele. Olha, no momento ele está caçando e vai demorar. Vou ver como faço para te ajudar a sair daqui. José disse que estava com muita fome e a velhinha deu a José um bom lanche e disse: - Olha, meu menino, estás vendo aquela mesa com uma toalha até o chão? Esconde-te aí embaixo que o gigante não irá te ver. José escondeu-se e ficou quietinho à espera do gigante e logo começou a ouvir passos muito fortes. Era o gigante que estava voltando. O gigante chegou e disse para a velhinha: - Quero comer! Quero comer! Estou com uma fome de cão. A velhinha imediatamente começou a colocar na mesa: quatro frangos, dois pedaços enormes de carne assada e um garrafão de vinho. O gigante então falou: - Estou sentindo cheiro de gente! Estou sentindo cheiro de carne humana! A velhinha começou a servir mais delícias para o almoço e o gigante começou a devorar tudo e tomar muito vinho. Ele se acomodou numa poltrona enorme e dormiu e roncou muito alto. A velhinha chamou José e disse: - Abre a mão. E colocou três ovos de codorna na mão de José dizendo:


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Quebra esses ovos na testa do gigante, que ele irá dormir por três dias. José muito assustado perguntou: - E se ele acordar? A velhinha falou para José confiar nela. José se acalmou e quebrou os três ovos na testa do gigante. O gigante começou a roncar mais forte ainda e José percebeu que ele estava dormindo um sono muito pesado e profundo. Aí a velhinha disse para José: - Vai no galpão, que tem muita carne estocada, e você corta uns pedaços bem grandes e coloque tudo nesta saco. No galpão, vive uma águia enorme que te levará lá para cima e para fora do buraco. Assim, José colocou o saco com as carnes em suas costas e montou na águia que começou a voar em direção à saída do buraco lá em cima. José gritou: - Adeus, vovó, muito obrigado, eu nunca vou esquecer de você. A velhinha, muito contente por ajudar, despediu-se de José dizendo: - Vai com Deus, meu menino! A águia começou a subir voando para cima com muita força e pedia: - Carne! Quero carne! Carne! Quero carne! José pegava um pedaço de carne do saco e colocava no bico da águia e ela voava com mais força ainda. De vez em quando, ela pedia: - Carne! Carne! Quero carne! Carne! Quero carne! José pegava outro pedaço e servia a águia que colocava mais força em seu voo.

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A carne já estava acabando e José começou a ficar nervoso, pois estava tudo muito escuro e nem sinal de que estavam chegando à saída do buraco. De repente, José viu uma claridade, que o deixou quase cego de tão brilhante. Era a saída do buraco e o final de sua viagem de volta. José saltou das costas da águia, fez um enorme carinho em suas asas e ela feliz retornou para dentro do buraco. José viu que estava na rua próxima de sua casa e correu, correu, correu, até que encontrou a sua mãe no portão. Sua mãe estava aflita com o seu desaparecimento e já havia um grupo de amigos que o estavam procurando pelas redondezas e em todos os lugares. Quando os colegas o viram ficaram felizes e todos gritavam: - José voltou! José voltou! A mãe, feliz da vida, perguntou: - Por que você me desobedeceu, meu filho? O que aconteceu com você? Todos ficamos em pânico com o seu desaparecimento. José abraçou muito a sua mãe e pediu-lhe desculpas por sua desobediência. Ele lhe disse que teria muitas histórias para lhe contar sobre um gigante, uma velhinha e uma águia, mas agora só queria ficar em casa curtindo tudo e principalmente brincando com todos aqueles amigos que tanto se preocuparam com ele. A mãe lhe disse que o amava muito e que já estava na hora de ele aprender a atravessar a rua, pois daquele dia em diante ele iria sozinho à escola e também poderia ir até a pracinha brincar com os amiguinhos. José ficou muito contente e feliz falou para a mãe: - Eu aprendi que devo ter muita atenção quando vou atravessar uma rua. Tenho que olhar de um lado e do outro para ver se vem carros, só atravessar nas faixas de pedestres e com o sinal verde para mim. Prestar mais atenção nas calçadas e observar se tem buracos, etc.

fim


História de Duzolina e Fioravante Ilustração: Gabriela


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História de Duzolina e Fioravante D

ois países entraram em guerra – Monte Verde e Monte Dourado.

Nas lutas que travavam entre si eram feitos muitos prisioneiros.

O pai de Duzolina era general. Ao lado do palacete do general tinha um enorme presídio e para lá eram conduzidos os prisioneiros do outro país em conflito. Na casa de Duzolina, vivia uma prima chamada Mafalda. As duas ficavam na janela, que dava para o pátio do presídio, olhando para os rapazes presos. Os rapazes ficavam olhando para elas e fazendo sinais que estavam com fome. Elas entenderam e, no outro dia de madrugada, elas levaram uma cesta com enlatados, vinhos e pães. Logo que chegaram ao presídio, elas se apresentaram aos rapazes e eles para elas, dizendo os seus nomes. Através das grades, os rapazes pegaram os alimentos e agradeceram a bondade e generosidade delas. As duas moças foram para casa apaixonadas pelo rapaz que se identificou como capitão e cujo nome era Fioravante. As duas conversaram sobre a paixão por Fioravante e se questionavam sobre de qual das duas ele havia gostado mais. Aí fizeram um trato: - Vamos pedir a Fioravante que ele escreva o nome de uma de nós, aquela de que ele mais gosta e prefere. Assim ficaremos sabendo.


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No outro dia, elas novamente desceram para o pátio levando a mesma cesta de alimentos e fizeram a proposta ao capitão Fioravante. A ele disseram: - Nós duas estamos apaixonadas por você e queremos uma resposta sua. Qual das duas você prefere? Fioravante disse que se não estivesse preso seria o homem mais feliz do mundo. Elas insistiram e queriam saber logo a resposta. Duzolina então disse: - Qual a sua resposta? Nós acataremos com muito prazer a sua escolha. Você pode escrever o nome de sua preferida e nos entregar num envelope fechado que nós só abriremos em casa. Aí Fioravante tirou um cartão do bolso e escreveu o nome de Duzolina, fechou o envelope e entregou a Mafalda. Quando chegaram em casa, elas, muito curiosas, foram imediatamente para o quarto e abriram o envelope e lá estava escrito o nome de Duzolina. Mafalda ficou com tanta raiva que começou a espancar Duzolina, puxando-lhe os cabelos. Duzolina se defendia e pedia: - Calma, calma, calma. Eu não tenho culpa, fizemos tudo como combinamos. Mafalda ficou em frente à janela espancando Duzolina. Mafalda se desequilibrou e caiu no pátio, morrendo logo em seguida. Duzolina começou a gritar, gritar, gritar, até que seus pais assustados correram para o quarto da filha que, chorando muito, disse: - Mafalda estava distraída, de costas para a janela e caiu. Será que ela morreu? E chorava desesperadamente. Os pais correram até o pátio e constataram a morte de Mafalda e, no outro dia, enterraram-na num jardim muito lindo.

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Passaram mais ou menos uns cinco dias e Duzolina não apareceu mais na janela para ver Fioravante. Fioravante, preocupado com a ausência das duas, não sabia o que estava acontecendo. No sexto dia, Duzolina foi ver Fioravante e notificá-lo dos acontecimentos. Fioravante ficou muito triste e disse: - Eu não tive culpa. A ideia partiu de vocês. Duzolina disse que sabia que nem ele nem ela tinham culpa, pois as duas haviam combinado tudo juntas e de comum acordo. - Ela é que não quis aceitar e entender a sua escolha, infelizmente, coitadinha! Duzolina falou para Fioravante que o amava muito. - Eu não quero perdê-lo! E aí eles se beijaram através das grades e prometeram eterno amor. Duzolina tinha uma chave do presídio e várias vezes o abriu para se encontrar com Fioravante e fazer amor. Nos encontros que tiveram, Duzolina ficou grávida de Fioravante. Dois dias depois, teve um levante no presídio e fugiram muitos prisioneiros, dentre eles Fioravante, que voltou a lutar por seu país. Duzolina não se conformava com a fuga de Fioravante e chorava escondida. Ela percebeu que estava grávida e ficou enlouquecida de tanta angústia e tristeza. Aí o desespero foi aumentando, pois Duzolina não sabia o que fazer quando seus pais soubessem que ela havia ficado grávida de um prisioneiro, inimigo de seu país. Duzolina exclamava: - Meu Deus! Meu Deus, me ajuda! Eles vão achar que estou traindo a minha pátria. E chorava convulsivamente. Os pais de Duzolina logo descobriram a sua gravidez e pediram explicações e queriam saber quem seria o pai da criança. Duzolina contou toda a verdade. Os pais ficaram revoltados com o comportamento da filha e, como eram muito austeros, expulsaram Duzolina de casa.


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Duzolina fez uma trouxa de roupa e foi embora chorando de desespero. Duzolina começou a procurar emprego e conseguiu um emprego numa casa de família, onde fazia todo o serviço, e assim foi passando o tempo, mas, quando os patrões perceberam que sua barriga estava crescendo e que ela estava grávida, despediram-na imediatamente. Já estava próximo de completar nove meses de gravidez e ela resolveu pedir asilo numa Instituição de Caridade para ter o filho. A diretora aceitou-a até ela ter o filho. Passaram-se uns meses e as crianças nasceram, eram gêmeos, dois meninos lindos! A diretora ficou com Duzolina mais ou menos uns três meses. Então Duzolina foi embora com as crianças, levando algum alimento que a Diretora havia lhe dado. Ela foi andando, com os filhinhos no colo, parava para beijá-los e os rostos das criancinhas ficavam molhados com as lágrimas de Duzolina. Duzolina caminhou, caminhou, caminhou procurando uma casa para pedir emprego. Ela estava muito cansada e resolveu sentar debaixo de uma árvore, onde amamentou as duas crianças que logo adormeceram. Ela então aproveitou e adormeceu também. Quando Duzolina acordou e olhou para as crianças que haviam adormecido ao seu lado, qual foi a sua surpresa, só viu um dos bebês. Desesperada começou a chorar. Aí ela viu deitado à sua frente um leão. Ela pensou então: - O leão devorou meu filhinho e irá devorar o outro também, e, depois, a mim e dessa forma acabar com todo esse sofrimento. Mas o leão parecia dócil e passou a defender Duzolina que, por ser muito bonita, chamava a atenção de todos os homens, os quais, quando a viam, passavam a dirigir-lhe gracejos. O leão rosnava e não deixava que se aproximassem de Duzolina.

Duzolina continuou a sua caminhada à procura de emprego e o leão acompanhou-a por toda parte.

A criança que Duzolina pensava que o leão teria devorado, ele havia levado pela boca e deixado no jardim de uma casa no limite do outro país.

Os donos da casa resolveram ficar com a criança e a criaram com todo o carinho, como se fosse seu próprio filho.

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Duzolina continuava a sua caminhada e encontrou outra árvore à beira do caminho, parou para descansar e amamentar o filho. O leão se afastou mais ou menos umas duas horas e ela pensou que o leão teria ido embora, mas ele voltou com um pedaço de carne de caça na boca. Deitou ao lado de Duzolina e adormeceu.

Duzolina ao acordar teve uma ideia e falou baixinho consigo mesma:

- Eu vou me descabelar e tapar meu rosto e vou pedir emprego na casa de meus pais. Com estas roupas, eles jamais me reconhecerão.

Os pais de Duzolina andavam muito tristes por terem expulsado sua única filha.

Duzolina levantou-se e começou a caminhar em direção à casa de seus pais e o leão a acompanhou. Chegando à casa dos pais, bateu palmas e veio a empregada atender. Duzolina falou que queria falar com a dona da casa e se ela poderia fazer o favor de chamá-la. A mãe de Duzolina caminhava no jardim e se aproximou do portão e viu a mulher com uma criança no colo, mas não a reconheceu e perguntou se ela estava à procura de emprego.

- Sim, estou à procura de emprego, respondeu Duzolina. Preciso criar meu filho.

A mãe de Duzolina, triste por ter expulsado sua única filha de casa, pensou que ali estava na sua frente uma mãe aflita, à procura de emprego para criar seu filho. Ela ficou penalizada e, vendo a criança que poderia ser seu neto, disse: - Entre, como é seu nome? - Isabela, falou Duzolina inventando um nome para que a mãe não a reconhecesse. Senhora, tenho que lhe fazer um pedido. Esse leão me acompanha e não se separa de mim, a senhora terá algum abrigo para ele, que é manso, muito mansinho e bom. A mãe de Duzolina disse que já havia escutado rumores pela cidade sobre uma mulher com uma criança que andava pelas redondezas, acompanhada de um leão. - Pode deixar, Isabela, eu vou acolher o leão também, pois estou desesperada com a ausência de minha filha e preciso fazer algo para continuar a viver e ser feliz.

A mulher chamou os criados para abrigarem o leão em sua chácara.


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Duzolina disse:

- Este leão não ataca ninguém, parece que foi mandado por Deus para me proteger, ele me acompanha há muito tempo e só ataca quando alguém se aproxima de mim para fazer maldade.

A mãe de Duzolina mandou-a entrar e mostrou, seus aposentos e disse:

- Agora acredito que minha vida pode mudar com a sua presença e de seu filho, ele é tão lindo! Duzolina (Isabela) com os seus cabelos desarrumados e com o rosto coberto para não ser reconhecida ficou contente de ser tão bem acolhida pela mãe e ver que ela estava feliz com a sua estada na casa e que ela já estava gostando de seu filho. A guerra continuava e eram tantas mortes nos combates e tantas baixas dos dois lados que só sobraram dois capitães. Um do país Monte Verde e outro do país Monte Dourado.

Foi então marcado para o dia seguinte o combate final com uma luta entre os dois capitães.

O povo de ambos os países não conseguia encontrar uma razão para o fato de só terem ficado vivos os dois capitães, pois os exércitos dos dois países eram enormes. No dia da luta final, compareceu uma multidão de ambos os países e foi concedido ao leão entrar também no local, acompanhando Duzolina Finalmente começou a luta e os dois capitães começaram a se ferir. Levemente, a princípio, mas já sangravam muito.

Aí o leão pulou na arena e separou os dois e exclamou:

-Parem com esta luta! Vocês são pai e filho! O pai era o Capitão Fioravante e o filho, Luiz, era aquele que o leão havia colocado em frente à casa de uma família do outro país e foi criado como se fosse nascido naquele país. Era o filho gêmeo de Duzolina que estava lutando com o seu pai e grande amor de sua mãe, Fioravante.

O leão disse:

- E sou São Marcos, desaparecendo logo em seguida numa nuvem branca!

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Então as autoridades dos dois países se reuniram e fizeram um tratado de paz e a guerra terminou.

Fioravante se aproximou de Duzolina e os dois se abraçaram e beijaram.

Duzolina e Fioravante constataram que Deus os havia reunido e foram ao encontro dos dois filhos e ficaram os quatro abraçados e felizes.

Só um verdadeiro amor consegue milagres!

fim


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Nunca te Esquecerei - Histórias de Vovó  

Livro de autoria de Selesta Puppim da Silva

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