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Os 500 anos do pais em uma obra completa, ilustrada e atualizada

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Edição exclusiva para o assinante da Folha de S.Paulo


® 1997 Empresa Folha da Manhã e Zero Hora/RBS Jornal

Esta edição de História do Brasil se baseia integralmente

T edição

no texto de Eduardo Bueno e no projeto gráfico original da Adams Design para a obra do mesmo nome produzida pela Zero Hora/RBS Jornal. Trabalharam na edição da Publifolha: Redação Editor: Carlos Mendes Rosa Editora Assistente: Roberta De Lucca Consultora: Mary Lucy Murray del Priore Revisão: Carla Cristina C. S. Moreira, Elvio Svergnini, Magna Reimberg Teobaldo e Paulo Sá

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H i s t ó r i a d o B r .\s il


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presentação

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sta nova coleção de fascículos publicada pela Folha de S.Paulo acrescenta mais um título de referência

imprescindível à biblioteca do leitor. História do

Brasil é uma obra atualizada e ilustrada que conta a história do país de uma maneira clara, objetiva, dinâmica e até bemhumorada. 0 enfoque dos temas, apresentados em ordem cronológica, vai além da abordagem política e econômica e explora também o campo social e cultural. Abrangendo desde a Pré-História até a atualidade, a obra está organizada cronologicamente, com o objetivo de facilitar o estudo e a consulta. Em cada página se desenvolve um assunto completo, em uma análise que procura estabelecer sempre a conexão entre passado, presente e futuro nos fatos apresentados. As mais de 700 imagens que ilustram estas 320 páginas foram captadas nos principais museus do país. Os textos são complementados ainda por gráficos, mapas, fotos de satélite e ilustrações especialmente produzidas para este projeto. História do Brasil atende as necessidades de consulta e pesquisa de estudantes e vestibulandos e é uma leitura interessante também para todos os que quiserem rever os principais conceitos e episódios da história do Brasil em busca de um melhor entendimento do momento presente.


F o r m a ç ã o G e o l ó g ic a

2 0 0 M il h õ e s

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A t r á s : Pa n g éia

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palco geológico no qual se desenro­ la a história do Brasil é cons­ tituído por um extenso m osaico no qual se alternam ter­ renos de origem antiquíssim a — rem anescentes da Pangéia, o supercontinente ancestral— com am plas bacias sedim enta­ res c u ja o rig e m é m u i­ to mais recente. Quan­ do a Pangéia com eçou a se partir, há cerca de 180 m ilhões de anos, a m assa terrestre se dividiu em duas grandes porções continentais: a L aurásia (que englobava os atuais territórios da A m érica do N orte, a Europa e da Á sia) e a G ondw ana (que reunia a A m érica do Sul, a Á frica, a índia, a A us­ trália e a A ntártida). É interessante perceber que, em tem ­ pos históricos, os navegadores portugueses restabeleceriam , por mar, a conexão que, em eras rem otas, unira o Brasil à Á frica e à índia. Em tomo de 36% do território brasi­ CENOZOICO leiro (algo f)erto de 3 m ilhões de quilô­ MESOZÓICO m etros quadrados) é constituído por m aciços antigos que fizeram parte da p a leo z ó ic o G ondw ana. Eles form am a ossatura PRÉCA^^BRIANO rochosa do país. São antiquíssim os es­ cudos cristalinos, rem anescentes da Era PréCam briana. cjtija idade varia entre 1 e 3 bilhões de anos (área verde-ctara). O escudo das G uianas, por exem plo, form ou-se há 2.5 bilhões de anos. Os outros 64% do território brasileiro (cerca de 6 m ilhões de quilô­ m etros quadrados) estão recobertos pelos sedim entos e detritos resultan­ tes da ação erosiva das águas e dos ventos sobre as antigas e suntuosas m ontanhas graníticas da Gondw ana: vento rápido e água mole se chocan­ do sem cessar contra pedra dura ao longo de 2 bilhões de anos. Nessas

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H is tó r ia d o B ra sil

1 3 5 M il h õ e s

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A n o s A trá s:

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áreas sedim entares surgiram as chapadas e chapadões tipicam ente brasileiros. Vários deles estão recobertos pela lava resultante dos estupendos derram es basálticos ocorridos no Período Triássico, há cerca de 220 m ilhões de anos (área amarela), quando o Brasil foi palco de grandes atividades vulcânicas. Já os ^ terrenos formados durante a Era Cenozóica, iniciada há 66 m ilhões de anos {área roxa), são de pequena espe.ssura, m as ypossuem am pla distribuição horizontal. São áreas que estiveram anteriorm ente cobertas pelo mar y (leia o quadro abaixo) e se concentraram basicam ente na região am azônica e no Pantanal. Por fim, o mais recente capí­ tulo da história geológica brasileira desenrolou-se há cerca de 1 m ilhão de anos, no Período Quaternário, durante o qual se form aram as planícies costeiras, constituídas pelo lento depósito da areia jogada pelo oceano Atlântico sobre a granmassa granítica que forma a plataform a continental brasileira, ao longo de todo o litoral.

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0 M A R IN T E R IO R Um dos mais dramáticos episódios da história geoló­ gica do Brasil foi o surgimento de um vasto mar interior na região da bacia Amazônica e nas bacias do Pamaíba e do Paraná, Esse mar raso penetrou na região durante o Período Siluriano. há 430 milhões de anos. Antes do surgimento dos Andes, o mar que iKupava a Amazônia era uma espécie de canal entre os atuais oceanos Atlântico e Pacífico. Já a união entre as bacia.s do Paraná e do Pamaíba se esiabelecíu através de um braço de mar que ocupava a região dos atuais rios Ara­ guaia e líK antins. Um quarto da superfície do Brasil esteve ocupada pelo mar (área azul).


P r é - H ist ó r ia ontinua sendo quase im possível estabelecer um quadro global e coerente da pré-história brasileira. O desafio tem -se revelado frustrante para os pesquisadores porque, além de com preender um período de tem po que, talvez, seja de cerca de 500 séculos, a área de pesquisa — da A m azônia ao pam pa, do N ordeste ao Pantanal— possui vastidão continen­ tal. Com o se não bastasse a am plitude do tem po e do espaço — e as enorm es m odifi­ cações clim áticas ocorridas na região— , pouquíssim as pesquisas foram realizadas no Brasil antes de 1965. E nessa época, com o acontece ainda hoje, m ilhares de sítios a r­ queológicos já haviam sido destruídos. Não se sabe com certeza desde quando o hom em está na Am érica, em bora a es­ tim ativa e a via de penetração oficialm ente aceitas — 12 mil anos atrás, através do estreito que em épocas glaciais unia a Á sia ao Alasca— estejam sob o ataque cons­ tante de novas datações e novas teorias. Há indícios (ainda não inteiram ente com ­ provados) de que os prim eiros paleoíndios chegaram ao Brasil há pelo m enos 50 mil anos e teriam vindo por via m arítim a, depois de cruzar o Pací­ fico. Seja com o for, é certo que por volta de 12 mil anos antes do presente (AP) — com o dizem os arqueólogos— , durante a transição entre os períodos Pleistoceno e H oloceno, todo o território brasileiro já estava ocupado por grupos de caçadores e coletores pré-históricos. Tais grupos são di­ vididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de acordo com os resquícios de sua cultura m aterial essencialm ente instrum entos de pedra e pinturas ru­ pestres. G rande parte do N ordeste e CentroOeste do Brasil era ocupada p or m em bros da cham ada tradição N ordeste, que possuía indústria lítica refinada e fazia belas pin­ turas rupestres. Ao redor de 7 .0 0 0 anos atrás, esse grupo foi substituí­ do pelas tribos da trad ição A greste, que não dom inava as artes, exceto a da guerra. No Sul, a tradição mais antiga é a Ibicuí, estabelecida na bacia do rio Uruguai há cerca de 13 mil anos. Eram caçadores que enfrentavam os anim ais da m egafauna, com o a preguiça gigante m egatério (na gravu­ ra ao lado). Entre 65(X) e 2000 AP surgiu, de São Paulo para o Sul, a tradição Humaitá. A a g ri­ c u ltu ra desenvolveu-se a partir de 3500 A P e a c erâm ica pouco depois. É difícil estabelecer um vínculo entre as tribos pré-históricas e as encontradas pelos portugueses. O certo é que, quanto m ais se ilum inarem as trevas do passado, mais o Brasil conhecerá o próprio futuro.

O SENHOR DAS OSSADAS oi um encontro fortuito e desconcertante, mas. acima de tudo, foi uma coincidência decisiva. Em outubro de 1834, Peter Lund, naturalista dinamarquês —homem refinado, culto e rico, amigo pessoal do filósofo Sõren Kierkegaard— , cavalgava pelo mar de morros areentos e cha­ padões requentados do cerrado de Minas Gerais. No vilarejo de Curvelo, parou para descansar numa taberna imunda à beira da estrada. Lá, acabou deparando com o também dinamarquês Peter Claussen, um sujeito em tudo diferente dele: brutal, ganancioso e rústico. Ainda assim, aquele seria um momento fundamental não só para o próprio dr. Lund, mas para a história da ciência. Foi Claussen quem conduziu Lund às grutas repletas de ossadas de animais antediluvianos dispersas por todo o vale do rio das Velhas. Aqueles eram os primeiros fósseis encontra­ dos no trópico, e a eles Peter Lund dedicaria o resto de sua vida. Durante meio século, passados nas mais árduas condições, Lund se entregou às páginas de pedra do grande livro que, ao longo dos milênios, a natureza havia composto nas reentrâncias encantadas das grutas calcárias de Minas Gerais. Penetrou em mais de 200 cavernas e identificou as ossadas de 115 mamíferos pré-históricos. Em 1843, depois de descobrir fós­ seis como os do megatério e de visitar intimeras vezes a soberba gruta de Maquiné, Lund fez a mais espantosa de suas descobertas: os ossos do Homem da Lagoa Santa — os mais antigos vestígios humanos até então encontrados no Novo Mundo. Apesar de nunca mais ter saído de Minas Gerais. Lund — cujo trabalho era financiado pela Sociedade de Ciências de Copenhague— tomou-se famoso na Europa, sendo citado por Charles Darwin (de quem discordava), no clássico “A Origem das Espécies”. Lund escreveu mais de 40 livros sobre a fauna e a flora pré-históricas do Brasil a maior parte deles ainda inédita em português. Morreu em maio de 1880 e está enterrado na sua amada Lagoa Santa.

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Geologia e Pré-História

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Os S e n h o r e s d o L i t o r a l

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Porto dos C asais (Porto A legre)

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H i s t ó r i a d o B r .\s il

A lagoas (M aceió)

os baixios lam acentos do M aranhão C aeté: Os deglutidores do bispo Sardinha viviam desde a ilha de Itam aracá até as m ar­ às lo n g as e x te n sõ e s aren o sa s da costa do Rio Grande do Sul, pratica­ gens do rio São Francisco. Depois de com e­ m ente todo o litoral brasileiro estava ocupa­ rem o bispo, foram considerados “inim igos do por tribos do grupo tupi-guarani quando, da civilização” . Em 1562, M em de Sá deterem abril de 1500, Pedro Á lvares Cabral de­ , minou que fossem “escravizados todos, sem sem barcou nas areias faiscantes de Porto exceção” . Assim se fez. Seriam 75 mil. Seguro. Havia cerca de 500 anos, tupinam T u p in a m b á : veja o texto abaixo. bás e tupiniquins tinham assegurado a posse A im oré: G rupo não-tupi. tam bém cham ado dessa longa e recortada costa, expulsando de botocudo, vivia do sul da Bahia ao norte para os rigores do agreste as tribos “bárba­ do Espírito Santo. Grandes corredores e guer­ ras”, que cham avam de tapuias. reiros tem íveis, foram os responsáveis pelo O que os conduzira até lá não fora ape­ fracasso das capitanias de Ilhéus, Porto Se­ nas um im pulso nôm ade: partindo do atual guro e E spírito Santo. Só foram vencidos no território do Paraguai, na bacia do rio Paraná início do século 20. Eram apenas 30 mil. (ainda que alguns estudiosos acreditem que o T up in iq u im : Foram os índios vistos por C a­ m ovim ento talvez tenha com eçado na A m a­ bral. Viviam no sul da Bahia e em São Paulo, zônia), os tupis-guaranis deram início, ao re­ entre Santos e Bertioga. Eram 85 mil. dor do ano 10(X) da Era Cristã, a um a am pla T em im inó: O cupavam a ilha do G ovem ador, m igração religiosa, em busca da Terra Sem na baía de G uanabara, e o sul do E spírito M ales. Ao invés do paraíso, depararam , cin­ Santo. Inim igos dos tam oios, aliaram -se aos co séculos depois, com estranhos hom ens portugueses. Sob a liderança de Araribóia, barbudos e pálidos, vindos do Leste. A his­ foram decisivos na conquista do Rio. Eram tória desse encontro é a história de um geno­ 8.(X)0 na ilha e 10 mil no Espírito Santo. cídio. As seguintes tribos ocupavam as praias G o ita c á : O cupavam a foz do rio Paraíba. brasileiras, de norte a sul: Tidos com o os índios mais selvagens e cruéis P o tig u ar: Senhoreavam a costa desde São do Brasil, encheram os portugueses de terror. Luís até as m argens do Pam aíba, e das mar- ' G randes canibais e intrépidos pescadores de gens do rio Acaraú, no Ceará, até a cidade de tubarão, eram cerca de 12 mil. João Pessoa, na Paraíba. E xím ios canoeiros, Tam oio: Os verdadeiros senhores da baía de inim igos dos portugueses, seriam uns 90 mil. G uanabara, aliados dos franceses e liderados T rem em bé: G rupo não-tupi, que vivia do sul pelos caciques C unham bebe e A im berê, lu­ do M aranhão ao norte do Ceará, entre os dois taram até o últim o hom em . Eram 70 mil. territórios potiguares. G randes nadadores e C a rijó : Seu território ia de C ananéia (SP) até m ergulhadores, foram , altem adam ente, ini­ a lagoa dos Patos (RS). Vistos com o “o m e­ m igos e aliados dos portugueses. Eram cerca lhor gentio da costa” , foram receptivos à ca­ de 20 mil. tequese. Lsso não im pediu sua escravização T a b a ja ra : Viviam entre a foz do rio Paraíba em m assa por parte dos colonos de São Vi­ e a ilha de Itam aracá. A liaram -se aos portu­ cente. Em 1554. participaram do ataque a gueses. Deviam ser uns 40 mil. São Paulo. Eram cerca de 100 mil.

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O S T U P IN A M B A S Os rupinamhás constituíam o povo tupi por excelência — o pai de todos, por assim dizer. A.ç demais tribos tupis eram, de certa forma, suas descendentes, embora o que de fato as unisse fosse a teia de uniu inimizade crônica. Os tupinambá.s propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é o mais conhecido. A gravura ao lado mostra dois guerreiros tupinambás ( “muito belicoso.'), amigos de novidades e demasiadamente liLxuriosos ”) ladeando um dos .seis índio.s que, em I6Í2, capuchinhos franceses levaram do Maranhão para Paris.


O B a n q u e t e A n t r o p o f á g ic o e todos os “costum es bárbaros” que professavam os índios bra­ sileiros quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou mais espantoso aos olhares europeus do que a antropofagia. Ainda que o canibalism o não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro de casos ocorridos em épocas de crise, nada conhecido até então se comparava aos requintes tétricos do ban­ quete antropofágico tal com o realizado por quase todos os tupis e tapuias. A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos represen­ tavam o ponto culm inante de um a cerim ônia cujo sacram ento maior, e o objetivo quase único, era a vingança. O festim canibal foi m inuciosam ente descrito por cronistas coloniais, entre os quais os padres franceses Jean de Léry, André Thevet e Claude d ’Abbeville. A narrativa mais impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden, prisioneiro dos tupinam bás entre 1554 e 1557. Graças a eles é possível reconstituir, passo a passo, as etapas do banquete. A vítima era capturada no cam po de batalha e pertencia àquele que prim eiro a houvesse tocado. Triunfalm ente conduzido à aldeia do inimigo, era insultado e m altratado por m ulheres e crianças. Tinha de gritar: “Eu, vossa com ida, cheguei” . A pós essas agressões, porém , era bem tratado, recebia como com panheira uma irmã ou filha de seu captor e podia andar livrem ente — fugir era uma ignomínia impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução, o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos). Quando a data fatídica se aproxim ava, os guerreiros preparavam ritual­ m ente a clava com a qual a vítim a seria abatida. A seguir, com eçava o ritual, que se estendia por quase uma sem ana e do qual participava toda a tribo, das m ulheres aos guerreiros, dos mais velhos aos recém-nascidos.

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Na véspera da execução, ao am anhecer, o prisioneiro era banhado e depilado. Depois, deixavam -no “fugir” , apenas para recapturá-lo em segui­ da. M ais tarde, o corpo da vítim a era pintado de preto, untado de mel e recoberto por plum as e cascas de ovos. Ao pôr-do-sol iniciava-se uma grande beberagem de cauim — um ferm entado de mandioca. No dia seguinte, pela manhã, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: “Não pertences à nação... [tal ou qual], nossa inim iga? Não m ataste e devoraste, tu mesmo, nossos parentes?” Altiva, a vítima respondia: “Sim. sou muito valente, matei e devorei muitos...” Replicava então o e.xecutor: “Agora es­ tás em nosso poder; logo serás morto por mim e devorado por todos” . Para a vítima, aquele era um momento glorioso, já que os índios brasileiros consideravam o estôm ago do inim igo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca da vítima. Velhas recolhiam, numa cuia, o sangue e os miolos: o sangue devia ser bebido ainda quente. A seguir, o cadáver era assado e es­ caldado, para permitir a raspagem da pele. Introduzia-.se um bastão no ânus, para im pedir a excreção. Os membros eram esquartejados e. depois de fei­ ta uma incisão na barriga do cadáver, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A seguir, retalhava-se o tronco, pelo dorso. Língua e miolos eram destinados aos jovens. Os adultos ficavam com a pele do crânio e as mulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam o bico dos .seios em sangue e amam entavam os bebês. As crianças eram encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e celebrar a consum ação da vingança. Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado numa estaca, tlcava exposto em frente da casa do vencedor; os dentes eram usados com o colar e as tíbias transform avam -se em flautas e apitos.

O Brasil Indígena

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profundo im pacto que os índios brasi­ leiros provocaram nos \ iajanies euro­ peus ao serem vistos — desnudos pinta­ dos, dançando (e eventualm ente com endo uns aos outros)— nas praias do Novo M undo, seria largam ente am plificado assim que alguns deles foram levados para a Europa e exibidos na corte. O prim eiro em barcaria já na caravela que Cabral fez retornar a Portugal com a notícia da des­ coberta do Brasil. "E foi recebido com ale­ gria do Rei e do Reino. Não se fartavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o gesto, a falia, os m eneios daquelle novo individuo da geração hum ana. H uns o vinhão a ter por um Sem icapro, outros por um Fauno, ou por alguns daquelles m onstros antiguos, entre poetas celebra­ d o s", escreveu o padre Sim ão de Vasconcellos em 1658. A surpre.sa não foi exclusividade por­ tuguesa; já em 1504, o francês Paulm ier de Goneville levou para a França o filho de um cacique carijó, cham ado Essom eriq. Seria ape­ nas o prim eiro de uma longa série de nativos conduzidos a Paris. Rouen e Lyon durante as seis décadas em que os franceses freqüentaram as costas brasileiras, traficando pau-brasil e per­ m anentem ente dispostos a estabelecer um a co­ lônia em pleno coração do território luso. fosse no Rio. fos.se no M aranhão.

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Mas nenhum a iniciativa dos franceses e n ­ volvendo os índios brasileiros pode ser com pa­ rada. em assom bro e m agnificência, à cham ada Festa B rasileira em R ouen. D ispostos a im ­ pressionar o rei Henrique 2° e a rainha Catarina de Mediei — e convencê-los a investir mais nas expedições ao Brasil— , os arm adores e com er­ ciantes de Rouen prepararam um a impressionante celebração quando da visita real à cidade, no dia 1° de outubro de 1550. j Em um a área às margens do rio Sena. m ontaram um a autêntica maquete ^ das terras brasileiras: as árvores foram e n ­ feitadas com flores e frutos trazidos do B ra­ sil, as m atas repletas de m icos, saguis e p ap a­ gaios. E ntre as m alocas in d íg en as, d e sn u d o s e bronzeados, andavam 300 hom ens e m u­ lheres. Pelo m enos 50 eram tupinam bás genuínos, trazidos da B ahia ou do M aranhão especialm ente para a c o m e ­ m oração. Os dem ais eram m arinheiros n or­ m andes que conheciam bem o B rasil, fluentes em tupi e no trato com os índios. As m ulheres foram recrutadas entre as prostitutas locais.

Era m ais do que um a exibição: era um quadro vivo. E, desde o início, havia ação: indí­ genas e figurantes c aç a\a m . pe.scavam. nam o­ ravam nas redes, colhiam frutas e carregavam o pau-brasil. E então, subitam ente, no clím ax do espetáculo, a aldeia tupinam bá foi assaltada por um bando de tabajaras — índios que. no Brasil, eram aliados dos portugue.ses. Ocas foram incendiadas, canoas vi­ radas. árvores derrubadas. Houve um . com bate sim ulado, ainda que feroz, ao fim do qual os tabajaras haviam sido am plam ente derrotados. N a pla­ téia. além do rei e da rainha france­ ses. estavam também a rainha Mary Stuart. da Escócia, duques, condes e barões, os em baixadores da Espanha, da Alem anha, de Portugal e da In­ glaterra. bispos, prelados, cardeais e inúm eros príncipes, além de N icolas Villegaignon — todos assom brados com aquela espetaculosa representação da vida nos trópicos: o prim eiro show brasileiro na Europa. Durante anos os índios brasileiros continua­ riam causando sen.sação na França. Em 1613 três deles tocaram m aracas na com posição que Gautier, um m úsico da corte, fez para hom e­ nagear os tupinam bás (gravura ao lado). Mais tarde, acabariam sendo usados num outro tipo de hom enagem — desta vez, filosófica.


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principal legado da tu­ m ultuada relação entre Brasil e França durante 0 período colonial não foi po­ lítico nem econôm ico: foi no cam po das idéias. É provável que tenha sido a frequente pre­ sença de índios brasileiros na corte francesa a principal res­ ponsável pelo surgim ento do m ito do bom selvagem — tese que, dois séculos depois de seu aparecim ento, adquiriria contor­ nos re v o lu c io n á rio s e se trans­ form aria num dos m otores da R evolução Francesa. Tudo com eçou com M ichel de M ontaigne (1533-1592). que não apenas tinha um criado que c o n v iv era com os índios do Brasil durante a m alfadada ex­ periência da França A ntártica entre 1556 e 1558. no Rio. co­ m o m anteve co n ta to pessoal com três tupinam bás. na Fran­ ça, em 1562. A partir desses dois episódios, e da leitura aten­ ta que fez dos livros de André T hevet e Jean de Léry, M on­ taigne com pôs seu clássico e n ­ saio “Os C anibais” — texto que está na origem do m ito do bom selvagem e cujos efeitos seriam duradouros.

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B o m S elvagem

Com o fulgor e radicalism o típicos. M ontaigne traça um pai­ nel idílico e vigoroso da vida selvagem , da qual se serve, co­ mo num espelho convexo, para atacar os "m alefícios da civiliza­ ção” . Ainda assim , ao final do texto, não esquece de ironizar os índios que idealizou: “Está tudo m uito bem, mas. bom Deus. eles não usam cuecas!” “ Des C aniballes” teria pro­ funda e duradoura influência e n ­ tre filósofos do século 17. com o Locke e Spinoza, e, mais espe­ cialm ente, entre os hum anistas do .século 18. Em “O E spírito das L e is ”, que redigiu em 1748, M ontesquieu louva o am or à li­ berdade e o igualitarism o entre os índios. No verbete “S e lv a ­ gen s" de sua m onum ental “E n­ ciclopédia” . publicada em 1761, D iderot tam bém apresenta uma versão idealista e altam ente e lo ­ giosa dos povos indígenas. N a­ da se com para, porém, é claro, ao clam or revolucionário e à pai­ xão incandescente com a qual Jean-Jacques R ousseau e scre­ veu. entre 1753 e 1760. “D iscur­ so sobre a Origem da D esigual­ dade entre os H om ens” e “O Contrato Social".

Am bos os textos foram m e­ ditados em seus devaneios de cam inhante solitário pela flores­ ta, em Saint-G erm ain. Am bos defendem a idéia da bondade natural do homem e de sua cor­ rupção pela civilização. A m bos serviram para estim ular os revolto.sos de julho de 1789. Voltaire, uma espécie de ver­ são bizarra de Rousseau, tam ­ bém abordaria o tema. Com o lhe convinha, porém, o fez com es­ cárnio e escracho no rom ance “C andide” , de 1759. Além do ataque frontal aos jesuítas, o herói de Voltaire, que viaja, em com panhia de sua am ante, pelo Paraguai. Brasil e G uianas, de­ plora os costum es canibais. N es­ se sentido. Voltaire ecoa o ceti­ cism o cínico de Shakespeare que. dois séculos antes, zom bara do idealism o de M ontaigne ao criar, na peça “The Tempest", o personagem Caliban — um .sel­ vagem rude c cruel. A inda assim , as idéias de­ fendidas por M ontaigne em "Os Canibais" prevaleceram, e até ho­ je são elas que parecem pautar — para o bem e para o mal— a visão dos europeus sobre os na­ tivos am ericanos.

T R IS T E S T R Ó P IC O S O etnólogo C laude Lévi-Strauss perpetuou, no século 20, a ligação que desde o século 17 uniu intelectuais franceses aos índios brasileiros. Pai do eslruturalism o e um dos maiores antropólogos de todos os tempos, Lévi-Strauss veio para o Brasil em 1935, para se ju n ta r ao grupo de professores franceses que lecionava na recém -inaugurada USP. D isposto a ultrapassar os limites da vida acadêm ica. Lévi-Strauss logo partiu para uma grande viagem pelo interior do Brasil. Nela. manteve contato, estudou e apaixonou-se pelos cadiueus e bororos de M ato G rosso e pelos nham biquaras, de Rondônia. A pesquisa profunda que fez de suas estruturas de parentesco, de suas tatuagens e de sua riqueza linguística ajudou a rom per com o evolucionism o linear e a dar um a nova dim ensão para a etnologia. A pesar de dizer-se avesso aos livros de viagem , Lévi-Strauss narrou sua jornada — que incluiu incursões ao Paraná, Santa C atarina e G oiás— no clássico "Tristes T rópicos”, no qual descreve o Brasil urbano por uma ótica crítica e ferina, lam entando a form a com o o país tratava suas florestas e seus

V o l t a i r e , M o n t a i g n e e R o h s s e .\ u ;

indígenas. A profecia de Lévi-Sü-auss se tomou

Os 1res g ra n d es filó s o fo s fr a n c e s e s que idealizaram o mito do bom selvagem

conheceu são indigentes à beira da estrada.

uma realidade bratal, e as tribos que ele

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Os B r a n c o s d e A l m a I n d í g e n a

'"ão foi apenas um a árdua jornada de dez anos por __ territórios jam ais percor­ ridos por gente civilizada. Não foi só uma expedição científica irretocável, na qual astrônom os, etnólogos, botânicos, zoólogos e geólogos realizaram um trabalho exemplar. Foi, acim a de tudo, um a m issão hum anitária e um a via­ gem de autodescobrim ento. D urante dez anos, de 1907 a 1917, a C om issão de Linhas Te­ legráficas E stratég ic as de M ato G rosso ao A m azonas construiu 2.000 quilôm etros de linhas tele­ gráficas unindo M ato G rosso ao Acre, percorreu cerca de 10 mil quilôm etros e botou no m apa mais 15 rios até então desconhecidos. M uito m ais im portante que a obra geográfica e científica, no entanto, foi seu legado hum anis­ ta. C om andada pelo então te ­ nente C ândido M ariano da Silva R ondon, a m issão contatou e pa­ cificou as m ais hostis e tem idas tribos do Brasil Central e da A m a­ zônia. N u m a é p o c a em q u e os ín d io s eram abatidos a tiros ao prim eiro en co n tro , a C o m issão R ondon abriu novas perspectivas Descendente de índios terenas, o m arechal Rondon nasceu em M ato para a dram ática relação entre os Grosso em 1865. Sua carreira indigenista teve início em 1900, quando, for­ dois povos. m ado pela A cadem ia M ilitar do Rio. voltou a M ato G rosso para ajudar na Ao substituir o ódio pela ter­ construção da linha telegráfica que ligaria C uiabá ao Araguaia. Participou en­ nura, a suspeita pela confiança e tão do processo de pacificação dos bororos. Em 1907. foi incum bido de es­ as carabinas por m içangas, R on­ tender a linha telegráfica até o Acre, cruzando 3.000 quilôm etros de selvas e don se tornou o m aior dos hum a­ sertões desconhecidos. D urante essa jornada épica, Rondon cunharia a frase nistas brasileiros e o mais res­ que se tom ou o sím bolo de sua relação com os índios, a m arca de sua vida e peitado defensor dos índios em obra: "M orrer se preciso for, m atar nunca” . Em 1910, Rondon fundou o todo o continente. M éritos que as Serviço de Proteção ao índio (SPI), prim eiro órgão do governo a tratar da tragédias que se seguiram não questão indígena, criado quatro séculos após o descobrim ento do Brasil. puderam apagar.

C U R T N IM U E N D A JU Nimuendaju, em tupi-guarani, quer dizer “aquele que fe z seu próprio lar". Era uma definição tão perfeita que, em 1906, Curt Unkel decidiu adotá-la como nome. Fazia apena.s três anos, ele desembarcara no porto de Santos, vindo de Jena, Alemanha, onde nasceu em 1883. A o contrário de seus companheiros de viagem, que seguiram para o sul, decidiu embrenhar-se nas matas do Oeste de São Paulo. Lá. encontrou os guaranisapinacauás, fo i adotado pela tribo e trocou de nome. Estava começando a carreira do maior etnólogo brasileiro de todos os tempos. Durante os 40 anos seguintes, Curt Nimuendaju percorreria o Brasil de norte a sul, estudando e vivendo com os caingangues, terenas, xavantes, caiapós, xetas, txucarramães, araras, parintintins, m acus e várias outras tribos. Deixou mais de 50 livros, quase nenhum traduzido para o português. Morreu em 1945, às margens do Amazonas, sem jam ais ter retom ado ao convívio com os brancos. Foi enterrado como o índio que de fato havia se tomado.

IRMAOS VILLAS BOAS rlando. Cláudio e Leonardo, os irmãos Villas Boas, foram os continuadores naturais da obra de Rondon. com quem começaram a trabalhar durante a expedição Roncador-Xingu. em 1945, feita sob a super­ visão do SPI. Quando essa expedição partiu em direção ao centro geográfico do país, os sertões do Brasil Cen­ tral eram praticam ente “terra incógnita” . A pesar das viagens de reconhecim ento feitas por Von Spix e Von Martius (1875), Cari von Steiden (1884) e pelo próprio Rondon, em companhia do então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, a região nunca fora explorada. Fartos da vida de escriturários que levavam na cidade grande, os irmãos Villas Boas partiram de São Paulo dispostos a se engajar na aventura. Planejada pela Fundação Brasil Central para impedir que as vastas ex­ tensões desabitadas do país fossem ocupadas “por po­ tências estrangeiras”, a expedição só recrutava mateiros experientes. Como jam ais haviam estado na selva. Orlando, Cláudio e Leonardo foram vetados.

O

De tanto insistir, acabaram sendo aceitos e, no dia 12 de junho de 1945, faziam parte do grupo que cruza­ va o rio das Mortes, entrando no território ainda intoca­ do dos índios xavantes. Depois de três anos de marcha. Orlando foi nomeado chefe da expedição por determi­ nação do próprio Rondon (que não participou da jorna­ da). Nos dois anos seguintes, construiu 18 campos de pouso e pacificou os xavantes, os jurunas e os caiabis. Em 1951, terminada a expedição. Orlando iniciou uma campanha pela criação de um parque nacional no Xin­ gu, no qual a vida selvagem — e especialmente as üibos indígenas— pudesse sobreviver. Dez anos mais tarde quando o parque, enfim, foi criado. Orlando Villas Boa: tomou-se seu primeiro diretor. O Xingu se transformarii então no modelo idílico para todas as reservas indígena do planeta. A pesar das constantes ameaças, o Xingi — fruto da dedicação e do esforço de Orlando, Cláudii e Leonardo— segue como um refúgio e um santuáríi encravado no coração do Brasil.


istória d(

Edição exclusiva para o assinante da Folha de S.Paulo


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Esta edição de História do Brasil se baseia integralmente

T edição

no texto de Eduardo Bueno e no projeto gráfico original da Adams Design para a obra do mesmo nome produzida pela Zero Hora/RBS Jomal. Trabalharam na edição da Publifolha: Redação Editor: Carlos Mendes Rosa Editora Assistente: Roberta De Lucca Consultora: Mary Lucy Murray del Priore Revisão: Carla Cristina C. S. Moreira, Élvio Svergnini, Magna Reimberg Teobaldo e Paulo Sá

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2

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H ist ó r ia d o B r.^sil


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presentação

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sta nova coleção de fascículos publicada pela Folha

de S.Paulo acrescenta mais um título de referência

imprescindível à biblioteca do leitor. História do

Brasil é uma obra atualizada e ilustrada que conta a história do país de uma maneira clara, objetiva, dinâmica e até bemhumorada. 0 enfoque dos temas, apresentados em ordem cronológica, vai além da abordagem política e econômica e explora também o campo social e cultural. Abrangendo desde a Pré-História até a atualidade, a obra está organizada cronologicamente, com o objetivo de facilitar o estudo e a consulta. Em cada página se desenvolve um assunto completo, em uma análise que procura estabelecer sempre a conexão entre passado, presente e futuro nos fatos apresentados. As mais de 700 imagens que ilustram estas 320 páginas foram captadas nos principais museus do país. Os textos são complementados ainda por gráficos, mapas, fotos de satélite e ilustrações especialmente produzidas para este projeto. História do Brasil atende as necessidades de consulta e pesquisa de estudantes e vestibulandos e é uma leitura interessante também para todos os que quiserem rever os principais conceitos e episódios da história do Brasil em busca de um melhor entendimento do momento presente.


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............................................................................................ 4 9

O B rasil H o l a n d ê s ............................................................................................ 5 7 O C iclo

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M i n e r a ç ã o ...................................................................................6 5

A Es c r a v i d ã o .........................................................................................................7 3 A I n c o n f id ê n c ia M i n e i r a ............................................................................... 8 1 A Famíll\ R eal

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O B r a s il d o s V l \ . j a n t e s ......................................................................... 9 7 A A m a z ô n ia

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............................................................ 2 8 9

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C r o n o l o g i a ......................................................................................................3 1 3

Sumário

5


F o r m a ç Ao G e o l ó g i c a

200

M il h õ e s

de

A n o s A t r á s : Pa n g éia

a in d a está un ida

palco geológico no qual se desenro­ la a história do Brasil é cons­ tituído por um extenso m osaico no qual se alternam ter­ renos de origem antiquíssim a — rem anescentes da Pangéia, o supercontinente ancestral— com am plas bacias sedim enta­ res c u ja o rig e m é m u i­ to m ais recente. Quan­ do a Pangéia com eçou a se partir, há cerca de 180 m ilhões de anos, a m assa terrestre se dividiu em duas grandes porções continentais: a Laurásia (que englobava os atuais territó rio s da A m érica do N orte, a Europa e da Ásia) e a G ondw ana (que reunia a A m érica do Sul, a Á frica, a índia, a A us­ trália e a A ntártida). É interessante perceber que, em tem ­ pos históricos, os navegadores portugueses restabeleceriam , por mar, a conexão que, em eras rem otas, unira o Brasil à Á frica e à índia. Em tom o de 36% do território brasi­ CENOZÓICO leiro (algo perto de 3 m ilhões de quilô­ m e s o z ó ic o m etros quadrados) é constituído por m aciços antigos que fizeram parte da PALEOZÓICO G ondw ana. E les form am a ossatura PRÉ-CAMBRIANO rochosa do país. São antiquíssim os e s­ cudos cristalinos, rem anescentes da Era PréCam briana, c,uja idade varia entre 1 e 3 bilhões de anos (área verde-clara). O escudo das Guianas, por exem plo, form ou-se há 2,5 bilhões de anos. Os outros 64% do território brasileiro (cerca de 6 m ilhões de quilô­ m etros quadrados) estão recobertos pelos sedim entos e detritos resultan­ tes da ação erosiva das águas e dos ventos sobre as antigas e suntuosas m ontanhas graníticas da Gondw ana: vento rápido e água m ole se chocan­ do sem cessar contra pedra dura ao longo de 2 bilhões de anos. Nessas

O

6

H is tó r ia d o B ra sil

1 3 5 M il h õ e s

de

A n o s A trá s;

o s co n tin en tes iniciam sua m archa

áreas sedim entares surgiram as chapadas e chapadões tipicam ente brasileiros. Vários deles estão recobertos pela lava resultante dos estupendos derram es basálticos ocorridos no Período Triássico, há cerca de 220 m ilhões de anos (área amarela), quando o Brasil foi palco de grandes atividades vulcânicas. Já os ^ terrenos formados durante a Era Cenozóica, ini­ ciada há 66 milhões de anos (área roxa), são de pequena espessura, m as possuem am pla d istrib u i­ ção horizontal. São áreas que estiveram anterior­ m ente cobertas pelo m ar (leia o quadro abaixo) e se concentraram basicam ente na região am azônica e no Pantanal. Por fim, o mais recente capí­ tulo da história geológica brasileira desenrolou-se há cerca de 1 m ilhão de anos, no Período Quaternário, durante o qual se form aram as planícies costeiras, constituídas pelo lento depósito da areia jogada pelo oceano Atlântico sobre a granmassa granítica que form a a plataform a continental brasileira, ao longo de todo o litoral.

O MAR i n t e r i o r Um dos mais dramáticos episódio.s da história geoló­ gica do Brasil foi o surgimento de um vasto mar interior na região da bacia Amazônica e nas bacias do Pamaíba e do Paraná. Esse mar raso penetrou na região durante o Período Siluriano, há 430 milhões de anos. Antes do surgimento dos Andes, o mar que ocupa­ va a Amazônia era uma espécie de canal entre os aluais oceanos Atlântico e Pacífico. Já a união entre as bacias do Paraná e do Pamaíba se esíabeiecíü através de um braço de mar que ocupava a região dos atuais rios Ara­ guaia e Tocantins. Um quarto da superfície do Brasil esteve ocupada pelo mar (área azul).


P r é - H ist ó r ia ontinua sendo quase im possível estabelecer um quadro global e coerente da pré-história brasileira. O desafio tem -se revelado frustrante para os pesquisadores porque, além de com preender um período de tem po que, talvez, seja de cerca de 500 séculos, a área de pesquisa — da A m azônia ao pam pa, do N ordeste ao Pantanal— possui vastidão continen­ tal. C om o se não bastasse a am plitude do tem po e do espaço — e as enorm es m odifi­ cações clim áticas ocorridas na região— , pouquíssim as pesquisas foram realizadas no Brasil antes de 1965. E nessa época, com o acontece ainda hoje, m ilhares de sítios a r­ queológicos já haviam sido destruídos. Não se sabe com certeza desde quando o hom em está na Am érica, em bora a es­ tim ativa e a via de penetração oficialm ente aceitas — 12 mil anos atrás, através do estreito que em épocas glaciais unia a Ásia ao Alasca— estejam sob o ataque cons­ tante de novas datações e novas teorias. Há indícios (ainda não inteiram ente com ­ provados) de que os prim eiros paleoíndios chegaram ao Brasil há pelo m enos 50 mil anos e teriam vindo por via m arítim a, depois de cruzar o Pacífico. Seja com o for, é certo que por volta de 12 mil anos antes do presente (AP) — com o dizem os arqueólogos— , durante a transição entre os períodos Pleistoceno e H oloceno, todo o território brasileiro já estava ocupado por grupos de caçadores e coletores pré-históricos. Tais grupos são di­ vididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de acordo com os resquícios de sua cultura m aterial ssencialm ente instrum entos de pedra e pinturas ru­ pestres. Grande parte do N ordeste e C entroOeste do Brasil era ocupada por m em bros da cham ada tradição N ordeste, que possuía indústria lítica refinada e fazia belas pin­ turas rupestres. Ao redor de 7 .0 0 0 anos atrás, es.se grupo foi su bstituí­ do pelas tribos da trad ição A greste, que não dom inava as artes, exceto a da guerra. No Sul, a tradição mais antiga é a Ibicuí, estabelecida na bacia do rio U ruguai há cerca de 13 mil anos. Eram caçadores que enfrentavam os anim ais da m egafauna, com o a preguiça gigante m egatério (na gravu­ ra ao lado). Entre 65(X) e 2CKX) AP surgiu, de São Paulo para o Sul, a tradição Humaitá. A a g ri­ cu ltu ra desenvolveu-se a partir de 3500 A P e a cerâm ica pouco depois. É difícil estabelecer um vínculo entre as tribos pré-históricas e as encontradas pelos portugueses. O certo é que, quanto m ais se ilum inarem as trevas do passado, mais o Brasil conhecerá o próprio futuro.

O SENHOR DAS OSSADAS oi um encontro fortuito e desconcertante, mas, acima de tudo, foi uma coincidência decisiva. Em outubro de 1834, Peter Lund, naturalista dinamarquês — homem refinado, culto e rico, amigo pessoal do filósofo Sõren Kierkegaard— , cavalgava pelo mar de morros areentos e cha­ padões requentados do cerrado de Minas Gerais. No vilarejo de Curvelo, parou para descansar numa taberna imunda à beira da estrada. Lá, acabou deparando com o também dinamarquês Peter Claussen, um sujeito em tudo diferente dele: brutal, ganancioso e rústico. Ainda assim, aquele seria um momento fundamental não só para o próprio dr. Lund, mas para a história da ciência. Foi Claussen quem conduziu Lund às grutas repletas de ossadas de animais antediluvianos dispersas por todo o vale do rio das Velhas. Aqueles eram os primeiros fósseis encontra­ dos no trópico, e a eles Peter Lund dedicaria o resto de sua vida. Durante meio século, passados nas mais árduas condições, Lund se entregou às páginas de pedra do grande livro que, ao longo dos milênios, a natureza havia composto nas reentrâncias encantadas das grutas calcárias de Minas Gerais. Penetrou em mais de 200 cavernas e identificou as ossadas de 115 mamíferos pré-históricos. Em 1843, depois de descobrir fós­ seis como os do megatério e de visitar inúmeras vezes a soberba gruta de Maquiné, Lund fez a mais espantosa de suas descobertas: os ossos do Homem da Lagoa Santa — os mais antigos vestígios humanos até então encontrados no Novo Mundo. Apesar de nunca mais ter saído de Minas Gerais, Lund — cujo trabalho era financiado pela Sociedade de Ciências de Copenhague— tomou-se famoso na Europa, sendo citado por Charles Darwin (de quem discordava), no clássico “A Origem das Espécies”. Lund escreveu mais de 40 livros sobre a fauna e a flora pré-históricas do Brasil a maior parte deles ainda inédita em português. Morreu em maio de 1880 e está enterrado na sua amada Lagoa Santa.

F

Geologia e Pré-História 7


Os P r i m e i r o s B r a s i l e i r o s ^ rata-se do sítio arqueológico mais polêm ico do m undo, e um dos mais agrestes e deslum brantes tam bém. A Pedra Furada é um bloco rochoso averm elhado de 150 metros de altura que se ergue em meio à vastidão desolada da caatinga, no m unicípio de São Raim undo Nonato, sudoeste do Piauí. Foi ao pé desse paredão arenítico, numa gruta adornada por centenas de pinturas rupestres cham ada de Toca do Boqueirão, que a pesqui­ sadora Niéde Guidon encontrou os vestígios arqueológicos mais controversos deste final de século. São apenas pedaços de carvão, com o tantos outros achados em cavernas pré-históricas. A dife­ rença é que as cinzas desenterradas da Toca do Boqueirão podem pertencer a fogueiras acesas há m ais de 50 mil anos. De acordo com a teoria mais plausível e m ais aceita, a A m é­ rica teria sido povoada por caçadores nôm ades que m igraram da Ásia, cruzando pela ponte de gelo que, duram e as eras glaciais, unia a Sibéria ao Alasca, através do estreito de Bering. Esse m ovim ento m igratório teria com eçado há cerca de 11 mil anos, data dos vestígios m ais antigos descobertos até agora. Se os carvões encontrados por Niéde Guidon de fato forem indícios de fogueiras acesas por seres hum anos, toda a teoria da ocupação da A m érica terá de ser revista — e, com ela, vários conceitos nos quais se fundam entam a arqueologia e a antropologia dos povos do Novo M undo.

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É natural, portanto, que exista grande resistência por parte da com unidade científica internacional em aceitar as datações obti­ das por Guidon. Quem lidera a oposição é Betty M eggers, do Sm ithsonian Institute, de W ashington, uma das arqueólogas mais respeitadas do mundo. A datação dos pedaços de carvão recolhi­ dos por Guidon foi feita na França pela técnica do carbono 14. em 1981. N inguém duvida de que os carvões da Toca do Boqueirão tenham , de fato. 48 mil anos — a questão é que. segundo M eggers e seus aliados, eles são fruto de queim adas naturais, e não de fo­ gueiras feitas por caçadores prim itivos. De todo o modo, para além de qualquer polêm ica, a Pedra Furada, a Toca do B oqueirão e a região adjacente form am um deslum brante conjunto natural. Toda a área faz parte do Parque Nacional da Serra da Capivara, criado em junho de 1995 e desde 1986 tom bado com o Patrim ônio C ultural da Hum anidade pela Unesco. No parque, de mais de 1.300 km^, há 400 sítios arqueo­ lógicos. dos quais 260 com pinturas rupestres. Só na Pedra Fura­ da. são mais de mil. Pintadas com um a m istura de óxido de fer­ ro. cera de ouvido e esperm a diluídos em água. elas registram , com requinte visual e vigor narrativo, o cotidiano, o m undo natu­ ral e o universo espiritual do povo que as concebeu e realizou. Tais pinturas, porém, foram feitas há cerca de 12 mil anos — qua­ se 30 mil anos depois de terem ardido as fogueiras da discórdia.

A M U L H E R DAS CAVESNAS

la percorre thfeis peds^isas en meioàs xçetOÊS da catting oinio se estnsesse nas cafcadas da a\enida Pautista ou m>s corredOTes dia Sorbonne. Dirige jips e furgões, naas poderia estar numa Irniusinc. Enfrentou uma avalanche de críticas da co­ munidade cienu'tica intemdaial. mas. para queiújá sobreviveu à üiría assassina de umeaxame deabelhas não foi dtfiícil es:;^jar ifcsá. Kiéde Guidon. nascidaem 1933. c um “cabra-macho". Feio moms é o que direm deia ns cabock>s e matuh^ áe São Raimundo Nooato. onde essa aiqucdlosa fornada na frança é conhertda que o {xeíeiioou o pacfae. Guidooréa príncipa! respoasávcl peta«xi9líacía do Psque Nac&nri da Sena da 0 ^i\ ara. oodechegouem !97Dede^oude poêcaramte não saiumais. HofCLsoola em criar tatus e tamandoás e we- imi e^^ioácuio de^MMDe itiz auntado aa Pedra Furada, com umcofal canfaxio as "BadHaDas BtSSeires", <le;^^B»^Lobo5^ein frieno sertão. Segue fmae em suas pequisas e acha ã recosa dbs atqaeâk)gos amerkanos es aceitar descobenas c fhao éo “comodismo, da iaedeiÉBCto e do pnïvùieiansnio ciend&co’'. "Atunna de WashãBjgjt» que acàbmacãmaáa <faeo madeto codveocÍDaalpaaaocupjição^^^wiica—profKisiD pnechia tmidar. diz.

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H i s t ó r i a d o B r .\s il


o uem são. de onde vieram, para onde vão? C inco sécu­ los depois do prim eiro en­ contro, os índios brasileiros perm a­ necem um m istério para o hom em branco. Não se pode afirm ar com certeza de onde vieram , em bora a teoria da m igração via estreito de Bering continue sendo a m ais pro­ vável — m esm o tendo p e rd id o a prim azia e, principalm ente, a exclu­ sividade. Q uando teriam chegado à A m érica tam bém é assunto ainda polêm ico; 12 mil. 38 mil ou 53 mil anos atrás? N inguém sabe ao certo. Sabe-se apenas que aqui estavam . De qualquer torm a. sua sim ples presença já era um enigm a. Quem seriam aqueles hom ens ‘‘nus. par­ dos. de bons narizes e bons corpos”, que negros não eram . nem mouros, nem hindus? Descenderiam de qual das dez tribos de Israel? Ou de qual dos três filh o s de N oé? Teriam alma? Em ca.so afirm ativo, com o poderiam ter v ivido tanto tem po à m argem de D eus?

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B r a sil I n d íg e n a

C ristó v ã o C o lo m b o d e cid ira cham á-los de índios — m as índios os portugueses sabiam que não eram . O que seriam então esses "negros da terra'’? Bons selvagens, com o sugeriu Pero Vaz de Cam inha (e os filósofos R ousseau. M ontaigne e Diderot ecoaram ), ou antropófagos b estiais, co m o q u is e ra m outros cronistas? D efini-los de que form a se alguns eram brutais e intratáveis, com o os aim orés — que com iam carne hum ana “ por m antim ento e não por vingança ou pela a n tig u i­ dade de seus ó dios”— , e outros tão m ansos e pacíficos, com o os carijós. “o m elhor gentio da costa” ? Passados 500 anos de convivên­ cia .sempre conflituada. o índio con­ tinua sendo pouco mais do que um m ito brasileiro. A final, são d e fen ­ sores da ecologia, com o o caiapó Paulinho Paiakan. ou ape­ nas selvagens e "estupra^ dores” ... com o Pauli­ nho Paiakan? São pessim istas incu­ rá v e is, que se su ic id a m po r puro desespero.

A P O P U L A Ç Ã O NATIVA com o os guaranis-caiovas. ou em ­ presários bem -sucedidos, com o os c aiap ó s?.P o d e m ser três. com o os xetás, ou 23 m il. com o os ticunas. Para onde vão? A resposta não d e ­ pende deles. A história b rasileira não re g is­ tra um único herói indígena — nem aqueles que ajudaram os p o rtu g u e­ ses a co n q u istar a terra, com o Tibiriçá. que salvou São Paulo: A ra ­ ribóia, que venceu os franceses, ou Felipe C am arão, que bateu os ho­ landeses. N ão há um só atleta ou escritor nativo. H ouve um político indígena, o cacique M ário Juruna. m as ele foi ab andonado em B ra­ sília. Raoni é um herói, mas não no Brasil — é um herói de Sting, o “pop-star” cheio de boas intenções e má consciência. Raoni se tornou só um a im agem . U m a im agein tão in congruente quan to a do quadro “ O Ú ltim o T am oio” . reproduzido nesta página. N enhum je s u íta j a ­ m ais chorou a m orte do últim o ta ­ m oio. que eram aliad o s dos fra n ­ ceses e foram traídos pelos padres. H averá a lguém p ara c h o rar pelo últim o ianom âm i?

Jam ais se saberá com certeza, m as quando os portugueses chegaram à Bahia os índios brasileiros .somavam mais de 2 milhões — quase três, segundo a lguns autores. Agora, dizim ados p o r gripe, saram po e varíola, escravizados aos m ilhares e e.xterminados pelas guerras tribais e p e lo avanço da civilização, não passani de 325.652 — m enos do que dois M aracanãs lotados. A inda assim, são 215 nações e 170 línguas diferentes. A s tribos m ais am eaçadas de e.xtinção são os .xetás, do Paraná (restam apenas três indivíduos), os junas, do A m azonas (sete) e os avás-canoeiros ( 14, dos cjuais .só .seis contatados). A j tribos tnais m une rosas são os ticunas (23 m il índios), os .xavantes e os caiapós. A idade m édia dos índios brasileiros é 17,5 anos, porque m ais da m etade da população tem m enos de 15 anos. A e.xpectativa de vida é de 45,6 anos, e a m ortalidade infantil é de 150 para cada m il na.scidos. Exi.stem pelo m enos 50 grupos que ja m a is m antiveram contato com o hom em branco, 41 dos quais nem sequer .se .sabe onde vivem, em bora seu destino j á pareça traçado: a e.xtinção os persegue e am eaça.

O Brasil Indígena 9


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Os S e n h o r e s d o L i t o r a l

Pernam buco (Recife)

C aeté: Os deglutidores do bispo Sardinha os baixios lam acentos do M aranhão às lon g as ex te n sõ e s aren o sa s da viviam desde a ilha de Itam aracá até as m ar­ costa do Rio G rande do Sul, pratica­ gens do rio São Francisco. Depois de com e­ m ente todo o litoral brasileiro estava ocupa­ rem o bispo, foram considerados “inim igos do jx)r tribos do grupo tupi-guarani quando, da civilização” . Em 1562, M em de Sá deter­ em abril de 1500, Pedro Á lvares Cabral de- , minou que fossem “escravizados todos, sem sem barcou nas areias faiscantes de Porto exceção” . Assim se fez. Seriam 75 mil. Seguro. Havia cerca de 500 anos, tupinam ­ T u p in a m b á : veja o texto abaixo. bás e tupiniquins tinham assegurado a posse A im oré: G rupo não-tupi, tam bém cham ado dessa longa e recortada costa, expulsando de botocudo, vivia do sul da Bahia ao norte para os rigores do agreste as tribos “bárba­ do Espírito Santo. Grandes corredores e guer­ ras” , que cham avam de tapuias. reiros tem íveis, foram os responsáveis pelo O que os conduzira até lá não fora ape­ fracasso das capitanias de Ilhéus, Porto Se­ nas um im pulso nôm ade: partindo do atual guro e E spírito Santo. Só foram vencidos no território do Paraguai, na bacia do rio Paraná início do século 20. Eram apenas 30 mil. (ainda que alguns estudiosos acreditem que o T up in iq u im : Foram os índios vistos por C a­ m ovim ento talvez tenha com eçado na A m a­ bral. Viviam no sul da Bahia e em São Paulo, zônia), os tupis-guaranis deram início, ao re­ entre Santos e Bertioga. Eram 85 mil. dor do ano 1000 da Era Cristã, a um a am pla T em im inó: O cupavam a ilha do G ovem ador, m igração religiosa, em busca da Terra Sem na baía de G uanabara, e o sul do E spírito M ales. Ao invés do paraíso, depararam , cin­ Santo. Inim igos dos tam oios, aliaram -se aos co séculos depois, com estranhos hom ens portugueses. Sob a liderança de .Araribóia, barbudos e pálidos, vindos do Leste. A his­ foram decisivos na conquista do Rio. Eram tória desse encontro é a história de um geno­ 8.000 na ilha e 10 mil no E spírito Santo. cídio. As seguintes tribos ocupavam as praias G o ita c á : O cupavam a foz do rio Paraíba. brasileiras, de norte a sul: Tidos com o os índios m ais selvagens e cruéis P o tig u a r; Senhoreavam a costa desde São do Brasil, encheram os portugueses de terror. Luís até as m argens do Pam aíba, e das mar- * G randes canibais e intrépidos pescadores de gens do rio Acaraú. no Ceará, até a cidade de tubarão, eram cerca de 12 mil. João Pessoa, na Paraíba. E xím ios canoeiros, Tam oio: Os verdadeiros senhores da baía de inim igos dos portugueses, seriam uns 90 mil. G uanabara, aliados dos franceses e liderados T rem em bé; G rupo não-tupi, que vivia do sul pelos caciques Cunham bebe e A im berê, lu­ do M aranhão ao norte do Ceará, entre os dois taram até o últim o hom em . Eram 70 mil. territórios potiguares. G randes nadadores e C a rijó : Seu território ia de Cananéia (SP) até m ergulhadores, foram , altem adam ente. ini­ a lagoa dos Patos (RS). Vistos com o ‘‘o m e­ m igos e aliados dos portugueses. Eram cerca lhor gentio da costa” , foram receptivos à ca­ de 20 mil. tequese. Isso não im pediu sua escravização T a b a ja ra : Viviam entre a foz do rio Paraíba em m assa por parte dos colonos de São Vi­ e a ilha de Itam aracá. Aliaram -se aos portu­ cente. Em 1554. participaram do ataque a gueses. Deviam ser uns 40 mil. São Paulo. Eram cerca de 100 mil.

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H i s t ó r i a d o B r .\s il

O S T U P IN A M B Á S Os tupinambás constituíam o povo tupi por e.xcelência —o pai de todos, por assim dizer. /4i' demais tribos tupis eram, de certa forma, suas descendentes, embora o que de fa to as unisse fosse a teia de uma inimizade crônica. Os tupinambás propriamente ditos ocupavam da margem direita do rio São Francisco até o Recôncavo Baiano. Seriam mais de 100 mil. De todos os povos indígenas litorâneos, é o mais conhecido. 4 gravura ao lado mostra dois guerreiros tupinambás ( “muito belicosos, amigos de novidades e demasiadamente luxuriosos") ladeando um dos seis índios que. em 1612, capuchinhos franceses levaram do Maranhão para Paris.


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B a n q u e t e A n t r o p o f á g ic o

e todos os “costum es bárbaros” que professavam os índios bra­ sileiros quando da chegada dos colonizadores ao Novo Mundo, nenhum se revelou mais espantoso aos olhares europeus do que a antropofagia. Ainda que o canibalism o não fosse prerrogativa dos indígenas e já houvesse, em plena Europa, o registro de casos ocorridos em épocas de crise, nada conhecido até então se com parava aos requintes tétricos do ban­ quete antropofágico tal com o realizado por quase todos os tupis e tapuias. A morte ritualizada e a deglutição eucarística dos cativos represen­ tavam o ponto culm inante de um a cerim ônia cujo sacram ento m aior, e o objetivo quase único, era a vingança. O festim canibal foi m inuciosam ente descrito por cronistas coloniais, entre os quais os padres franceses Jean de Léry, André Thevet e Claude d ’Abbeville. A narrativa mais impressionante, porém, foi feita pelo mercenário alemão Hans Staden, prisioneiro dos tupinam bás entre 1554 e 1557. Graças a eles é possível reconstituir, passo a passo, as etapas do banquete. A vítima era capturada no cam po de batalha e pertencia àquele que primeiro a houvesse tocado. Triunfalm ente conduzido à aldeia do inimigo, era insultado e m altratado por mulheres e crianças. Tinha de gritar: “Eu, vossa com ida, cheguei” . A pós essas agressões, porém , era bem tratado, recebia com o com panheira uma irmã ou filha de seu captor e podia andar livrem ente — fugir era uma ignomínia impensável. O cativo passava a usar uma corda presa ao pescoço: era o calendário que indicava o dia de sua execução, o qual podia prolongar-se por muitas luas (e até por vários anos). Quando a data fatídica se aproxim ava, os guerreiros preparavam ritual­ m ente a clava com a qual a vítim a seria abatida. A seguir, com eçava o ritual, que se estendia por quase uma sem ana e do qual participava toda a tribo, das m ulheres aos guerreiros, dos mais velhos aos recém-nascidos.

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Na véspera da execução, ao am anhecer, o prisioneiro era banhado e depilado. Depois, deixavam -no “ fugir”, apenas para recapturá-lo em segui­ da. M ais tarde, o corpo da vítim a era pintado de preto, untado de mel e recoberto por plum as e cascas de ovos. Ao pôr-do-sol iniciava-se uma grande beberagem de cauim — um ferm entado de mandioca. No dia seguinte, pela manhã, o carrasco avançava pelo pátio, dançando e revirando os olhos. Parava em frente ao prisioneiro e perguntava: “Não pertences à nação... [tal ou qual], nossa inimiga? Não mataste e devoraste, tu mesmo, nossos parentes?” Altiva, a vítima respondia: “Sim, .sou muito valente, matei e devorei m uitos...” Replicava então o executor: “Agora es­ tás em nosso poder; logo serás morto por mim e devorado por todos” . Para a vítima, aquele era um m omento glorioso, já que os índios brasileiros consideravam o estôm ago do inim igo a sepultura ideal. O carrasco desferia então um golpe de tacape na nuca da vítima. Velhas recolhiam, numa cuia. o sangue e os miolos: o sangue devia ser bebido ainda quente. A seguir, o cadáver era assado e es­ caldado, para permitir a raspagem da pele. Introduzia-se um bastão no ânus, para impedir a excreção. Os m em bros eram esquartejados e, depois de fei­ ta uma incisão na barriga do cadáver, as crianças eram convidadas a devorar os intestinos. A seguir, retalhava-se o tronco, pelo dorso. Língua e miolos eram destinados aos jovens. Os adultos ficavam com a pele do crânio e as m ulheres com os órgãos sexuais. As mães embebiam o bico dos seios em sangue e amam entavam os bebês. As crianças eram encorajadas a besuntar as mãos no sangue vertente e celebrar a consum ação da vingança. Os ossos do morto eram preservados: o crânio, fincado numa estaca, ficava exposto em frente da casa do vencedor; os dentes eram usados com o colar e as tíbias transform avam -se em flautas e apitos.

O Brasil Indígena

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U m a F esta B r a sil e ir a profundo im pacto que os índios brasi­ leiros provocaram nos viajantes euro­ peus ao serem vistos — desnudos pinta­ dos, dançando (e eventualm ente com endo uns aos outros)— nas praias do Novo M undo, seria largamente am plificado assim que alguns deies foram levados para a Europa e exibidos na corte. O prim eiro em barcaria já na caravela que Cabral fez retom ar a Portugal com a notícia da des­ coberta do Brasil. “E foi recebido com ale­ gria do Rei e do Reino. Não se fartavam os grandes e pequenos de ver e ouvir o ge.sto. a falia, os m eneios daquelle novo individuo da geração hum ana. H uns o vinhão a ter por um Sem icapro. outros por um Fauno, ou por alguns daquelles m onstros antiguos. entre poetas celebra­ d o s ”. escreveu o padre Sim ão de Vasconcellos em 1658. A surpresa não foi e.xclusividade por­ tuguesa: já em 1504. o francês Paulm ier de G oneville levou para a França o filho de um cacique carijó. cham ado Essom eriq. Seria ape­ nas o prim eiro de uma longa série de nativos conduzidos a Paris, Rouen e Lyon durante as seis décadas em que os franceses frequentaram as costas brasileiras, traficando pau-brasil e per­ m anentem ente dispostos a estabelecer uma co­ lônia em pleno coração do território luso, fosse no Rio. fosse no M aranhão.

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H is tó r ia d o B ra s il

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Era m ais do que um a exibição: era um Mas nenhum a iniciativa dos franceses en­ volvendo os índios brasileiros pode ser com pa­ quadro vivo. E. desde o início, havia ação: indí­ rada. em assom bro e m agnificência, à cham ada genas e figurantes caçavam , pescavam , nam o­ F esta B rasileira em R ouen. D isp o sto s a im ­ ravam nas redes, colhiam frutas e carregavam o pressionar o rei H enrique 2® e a rainha Catarina pau-brasil. E então, subitam ente, no clím ax do de M ediei — e convencê-los a investir mais nas espetáculo, a aldeia tupinam bá foi assaltada por expedições ao Brasil— . os arm adores e com er­ um bando de tabajaras — índios que, no Brasil, eram aliados dos portugueses. ciantes de Rouen prepararam uma im pressioOcas foram incendiadas, canoas vi­ nante celebração quando da visita real à radas. árvores derrubadas. Houve um cidade, no dia T de outubro de 1550. j . Em uma área às m argens 34^ ^ com bate sim ulado, ainda que feroz, do rio Sena. m ontaram ao fim do qual os tabajaras haviam um a autêntica m aquete sido am plam ente derrotados. Na pla­ téia. além do rei e da rainha france­ das terras brasileiras: as árvores foram e n ­ ses, estavam também a rainha Mary feitadas com flores e Stuart, da Escócia, duques, condes e frutos trazidos do B ra­ barões, os em baixadores da Espanha, sil, as m atas repletas de da Alem anha, de Portugal e da In­ m icos, saguis e papa­ glaterra. bispos, prelados, cardeais gaios. E ntre as m alocas e inúm eros príncipes, além de N icolas Villein d íg en as, d e sn u d o s e gaignon — todos assom brados com aquela espetaculosa representação da vida nos trópicos: 0 bronzeados, andavam 300 hom ens e m u­ prim eiro show brasileiro na Europa. Durante anos os índios brasileiros continua­ lheres. Pelo m enos 50 eram tupinam bás genuínos, trazidos da B ahia riam causando .sensação na França. Em 1613 três deles tocaram maracas na com posição que ou do M aranhão especialm ente para a com e­ m oração. Os dem ais eram m arinheiros n o r­ Gautier, um m úsico da corte, fez para hom e­ m andes que conheciam bem o B rasil, fluentes nagear os tupinam bás (gravura ao lado). M ais em tupi e no trato com os índios. As m ulheres tarde. acabariam sendo usados num outro tipo de hom enagem — desta vez, filosófica. foram recrutadas entre as prostitutas locais.

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principal legado da tu ­ m ultuada relação entre Brasil e França durante o período colonial não foi po­ lítico nem econôm ico; foi no cam po das idéias. E provável que tenha sido a frequente pre­ sença de índios brasileiros na corte francesa a principal res­ ponsável pelo surgim ento do m ito do bom selvagem — tese que. dois séculos depois de seu aparecim ento, adquiriria contor­ nos re v o lu c io n á rio s e se trans­ form aria num dos m otores da R evolução Francesa. Tudo com eçou com M ichel de M ontaigne (1533-1592), que não apenas tinha um criado que co n v iv e ra com os índios do Brasil durante a m alfadada ex­ p eriência da França A ntártica entre 1556 e 1558. no Rio. co­ m o m anteve co n ta to pessoal com três tupinam bás. na Fran­ ça, em 1562. A partir desses dois episódios, e da leitura aten­ ta que fez dos livros de André T hevet e Jean dc Léry, M on­ taigne com pôs seu clássico e n ­ saio “O s C anibais" — texto que e.stá na origem do m ito do bom .selvagem e cujos efeitos seriam duradouros.

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B om S elvagem

Com 0 fulgor e radicalism o típicos, M ontaigne traça um pai­ nel idílico e vigoroso da vida selvagem , da qual .se serve, co­ m o num espelho convexo, para atacar os "m alefícios da civiliza­ ção". Ainda assim , ao final do texto, não esquece de ironizar os índios que idealizou; “Está tudo m uito bem, mas. bom Deus, eles não usam cuecas!” “ Des C aniballes” teria pro­ funda e duradoura influência e n ­ tre filósofos do .século 17, com o L ocke e Spinoza, e, mais espe­ cialm ente. entre os hum anistas do .século 18. Em “O Espírito das L e is ”, que redigiu em 1748. M ontesquieu louva o am or à li­ berdade e o igualitarism o entre os índios. N o verbete “ S e lv a ­ g e n s ” de sua m onum ental “E n­ ciclopédia". publicada em 1761, D iderot tam bém apresenta um a versão idealista e altam ente e lo ­ giosa dos povos indígenas. N a­ da se com para, porém, é claro, ao clam or revolucionário e à pai­ xão incande.scente com a qual Jean-Jacques R ousseau e sc re ­ veu, entre 1753 e 1760. "D iscur­ so sobre a O rigem da D esigual­ dade entre os H om ens” e "O Contrato Social” .

A m bos os textos foram m e­ ditados em seus devaneios de cam inhante solitário pela flores­ ta, em Saint-G erm ain. Am bos defendem a idéia da bondade natural do hom em e de sua cor­ rupção pela civilização. Ambos serviram para estim ular os re­ voltosos de julho de 1789. Voltaire, uma espécie de ver­ são bizarra de Rousseau, tam ­ bém abordaria o tema. Com o lhe convinha, porém , o fez com es­ cárnio e e.scracho no rom ance “C andide” , de 1759. Além do ataque frontal aos jesu ítas, o herói de Voltaire, que viaja, em com panhia de sua am ante, pelo Paraguai. Brasil e G uianas. de­ plora os costum es canibais. N es­ se sentido. Voltaire ecoa o ceti­ cism o cínico de Shakespeare que. dois séculos antes, zom bara do idealism o de M ontaigne ao criar, na peça “The Tem pest”. o personagem Caliban — um sel­ vagem rude e cruel. Ainda assim , as idéias de­ fendidas por M ontaigne em "Os Canibais" prevaleceram, e até ho­ je são elas que parecem pautar — para o bem e para o mal— a visão dos europeus sobre os na­ tivos am ericanos.

T R IS T E S T R Ó P IC O S O etnólogo C laude Lévi-Strauss perpetuou, no século 20, a ligação que desde o século 17 uniu intelectuais franceses aos índios brasileiros. Pai do estruturaiism o e um dos m aiores antropólogos de todos os tempos, Lévi-Strauss veio para o Brasil em 1935. para se ju n tar ao grupo de professores franceses que lecionava na recém -inaugurada USP. Disposto a ultrapassai" os lim ites da vida acadêm ica. Lévi-Strauss logo partiu para uma grande viagem pelo interior do Brasil. Nela, m anteve contato, estudou e apaixonou-.se pelos cadiueus e bororos de M ato G rosso e pelos nham biquaras, de R ondônia. A pesqui.sa profunda que fez de suas estruturas de parentesco, de suas tatuagens e de sua riqueza linguística ajudou a rom per com o evolucionism o linear e a dar uma nova dim ensão para a etnologia. A pesar de dizer-se avesso aos livros de viagem. Lévi-Strauss narrou sua jornada — que incluiu incursões ao Paraná, Santa Catarina e G oiás— no clássico “Tristes Trópicos ”, no qual de.screve o Brasil urbano por uma ótica crítica e ferina, lam entando a form a com o o país tratava suas florestas e seus

V o l t a ir e , M o n t a ig n e e R o u s s e a u :

Os três g ra n d e s filó s o fo s fr a n c e s e s que idealizaram o mito do bom selvagem

indígenas. A profecia de Lévi-Strauss se tomou um a realidade brutal, e as tribos que ele conheceu .são indigentes à beira da estrada.

O Brasil Indígena

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^'ao foi apenas um a árdua jornada de dez anos por territórios jam ais percor­ ridos por gente civilizada. Não foi só uma expedição científica irretocável, na qual astrônom os, etnólogos, botânicos, zoólogos e geólogos realizaram um trabalho exemplar. Foi, acim a de tudo. uma m issão hum anitária e um a via­ gem de autodescobrim ento. D urante dez anos, de 1907 a 1917, a C om issão de L inhas Te­ legráficas E stratég ic as de M ato G rosso ao A m azonas construiu 2.000 quilôm etros de linhas tele­ gráficas unindo M ato G rosso ao A cre, percorreu cerca de 10 mil quilôm etros e botou no m apa mais 15 rios até então desconhecidos. M uito m ais im portante que a obra geográfica e científica, no entanto, foi seu legado hum anis­ ta. C om andada pelo en tão te­ nente C ândido M ariano da Silva Rondon, a m issão contatou e pa­ cificou as m ais hostis e tem idas tribos do Brasil Central e da A m a­ zônia. N u m a é p o c a em q u e os ín d io s eram abatidos a tiros ao prim eiro e n co n tro , a C o m issão R ondon abriu novas perspectivas para a dram ática relação entre os dois povos. Ao substituir o ódio pela ter­ nura, a su.speita pela confiança e as carabinas por m içangas, Ron­ don se tom ou o m aior dos hum a­ nistas brasileiros e o mais res­ peitado defensor dos índios em todo 0 continente. M éritos que as tragédias que .se seguiram não puderam apagar.

Os B r a n c o s d e A l m a I n d í g e n a

C U R T N IM U E N D A JU Nimuendaju, em tupi-guarani, quer dizer “aquele que fe z seu próprio lar". Era uma definição tão perfeita que, em 1906, Curt Unkel decidiu adotá-la como nome. Fazia apenas três anos, ele desembarcara no porto de Santos, vindo de Jena, Alemanha, onde nasceu em 1883. Ao contrário de seus companheiros de viagem, que seguiram para o sul, decidiu embrenhar-se nas matas do Oeste de São Paulo. Lá, encontrou os guaranisapinacauás, fo i adotado pela tribo e trocou de nome. Estava começando a carreira do maior etnólogo brasileiro de todos os tempos. Durante os 40 anos seguintes, Curt Nimuendaju percorreria o Brasil de norte a sul, estudando e vivendo com os caingangues, terenas, xavantes, caiapós, xetas, txucarramães, araras, parintintins, macus e várias outras tribos. Deixou mais de 50 livros, quase nenhum traduzido para o português. Morreu em 1945, às margens do Amazonas, sem jam ais ter retom ado ao convívio com os brancos. Foi enterrado com o o índio que de fa to havia se tomado.

D escendente de índios terenas, o m arechal Rondon nasceu em M ato G rosso em 1865. Sua carreira indigenista teve início em 1900, quando, for­ m ado pela A cadem ia M ilitar do Rio, voltou a M ato G rosso para ajudar na construção da linha telegráfica que ligaria Cuiabá ao A raguaia. Participou en­ tão do processo de pacificação dos bororos. Em 1907, foi incum bido de es­ tender a linha telegráfica até o Acre, cruzando 3.000 quilôm etros de selvas e sertões desconhecidos. D urante essa jo m ad a épica, Rondon cunharia a frase que se tom ou o sím bolo de sua relação com os índios, a m arca de sua vida e obra; “M orrer se preciso for, m atar nunca” . Em 1910, Rondon fundou o Serviço de Proteção ao índio (SPI), prim eiro órgão do govem o a tratar da questão indígena, criado quatro séculos após o descobrim ento do Brasil.

IRMAOS VILLAS BOAS

O

rlando, Cláudio e Leonardo, os irmãos Villas Boas, foram os continuadores naturais da obra de Rondon, com quem começaram a ü-abalhar durante a expedição Roncador-Xingu, em 1945, feita sob a super­ visão do SPI. Quando essa expedição partiu em direção ao centro geográfico do país. os sertões do Brasil Cen­ tral eram praticam ente “terra incógnita” . A pesar das viagens de reconhecim ento feitas por Von Spix e Von Martius (1875), Cari von Steiden (1884) e pelo próprio Rondon, em companhia do então presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, a região nunca fora explorada. Fartos da vida de escriturários que levavam na cidade grande, os irmãos Villas Boas partiram de São Paulo dispostos a se engajar na aventura. Planejada pela Fundação Brasil Central para impedir que as vastas ex­ tensões desabitadas do país fossem ocupadas “por po­ tências estrangeiras”, a expedição só recrutava mateiros experientes. Como jam ais haviam estado na selva. Orlando, Cláudio e Leonardo foram vetados.

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H i s t ó r i . \ DO B r .\s il

De tanto insistir, acabaram sendo aceitos e, no dia 12 de junho de 1945, faziam parte do grupo que cruza­ va o rio das Mortes, entrando no território ainda intoca­ do dos índios xavantes. Depois de três anos de marcha, Orlando foi nomeado chefe da expedição por determi­ nação do próprio Rondon (que não participou da jom a­ da). Nos dois anos seguintes, construiu 18 campos de pouso e pacificou os xavantes, os jurunas e os caiabis. Em 1951, terminada a expedição. Orlando iniciou uma campanha pela criação de um parque nacional no Xin­ gu, no qual a vida selvagem — e especialmente as tribos indígenas— pudesse sobreviver. Dez anos mais tarde, quando o parque, enfim, foi criado, Oriando Villas Boas tomou-se seu primeiro diretor. O Xingu se transformaria então no modelo idílico para todas as reservas indígenas do planeta. A pesar das constantes ameaças, o Xingu — fruto da dedicação e do esforço de Orlando, Cláudio e Leonardo— segue como um refúgio e um santuário encravado no coração do Brasil.


Os I a n o m â m i s

Os C a i a p ó s

tragédia dos ianom âm is é o primeiro genocídio anun­ ciado e docum entado do Brasil. D esde o início dos anos 70, an­ tropólogos e m issionários vêm alertando para o exterm ínio da­ quele que, talvez, seja o m ais prim itivo dos povos am erica­ nos. Restam hoje apenas 8.000 ianom âm is no Brasil (e 12 mil na Venezuela). São 20% a m e­ nos do que em 1975 — ano em que o Projeto Radam revelou que, sob o solo ocupado havia séculos pela tribo, existiam bi­ lhões de dólares em diam antes, bauxita, ouro, cassiterita, nióbio. tório, tântalo.

^ les se transform aram nos -/ín d io s mais polêm icos do Brasil. Explorando a riqueza existente nos 3.3 m ilhões de hectares de sua reserva no sul do Pará — especialm ente o m og­ no e o ouro— . os caiapós vira­ ram os índios mais ricos do Brasil. M ovim entam cerca de USS 15 m ilhões por ano. der­ rubando. em m édia, 20 árvores de mogno por dia e extraindo 6.000 litros anuais de óleo de castanha. Quem iniciou a ex­ pansão capitalista dos caiapós foi o c o n tro v e rtid o cacique Tutu Pom po (m orto em 1994). Para isso. destituiu o lendário Raoni e enfrentou a oposição de outro caiapó famoso. Pau­ linho Paiakan. G anhador do Prêm io Global 5(X) da ONU. espécie de O scar ecológico, adm irado pelo príncipe C har­ les e por Jim m y Carter, Paia­ kan foi acusado do estupro de uma jovem estudante branca, em junho de 1992. A absolvi­ ção, em novem bro de 94, não parece tê-lo livrado do peso da suspeita. Paiakan — m itificado na Europa, crim inoso no B ra­ sil— é um a contradição viva e um sím bolo da relação entre brancos e índios.

A

Em 1992, o então presiden­ te C ollor regulam entou os 9.4 m ilhões de hectares da reserva ianom âm i — área m aior do que a Holanda. M as invasões e garim pos ilegais prosseguiram e, em 13 de agosto dc 1993, pelo m enos 20 índios foram m as­ sacrados por invasores. Os cul­ pados nunca foram punidos. Os ianomâmis, vivendo há pelo m e­ nos mil anos na região, se con­ sideram o prim eiro povo criado por Deus. Segundo suas lendas imemoriais, quando o último pa­ jé ianom âm i m orrer, o m undo tam bém morrerá.

P obres índios ricos: os ianom âm is estão entre os p o r o s m ais p rim itiv o s do p la n eta

O cacique da grana: o ca ia p ó P aulinho P a ia ka n com seu bimotor, no P ará

J uruna ois caciques, dois destinos. O xavante Juruna e o txucarram ãe Raoni são os dois índios mais conheci­ dos do Brasil. De certa form a, vivem vidas opostas, em bora am bos tenham recorrido ao m undo dos brancos para resolver os problem as de suas tribos. Mário Juruna. filho do cacique xavante .A.poenã. nasceu na aldeia próxim a a Barra do Garças (M T) em 1942. Seis anos depois, sua tribo foi contatada pela prim eira vez. pela expedição do sertanista Chico M eirelles. Dez anos mais tarde. em 1959. Juruna resolveu deixar a aldeia e conhecer de perto a vida dos brancos. Trabalhou em fazen­ das, viajou de carona, passou fome e. anos depois, voltou para casa. Não fi­ cou m uito tem po lá: na década de 70. passou a percorrer os gabinetes da Funai. em Brasília, lutando pela de-

D

e

Raoni

m arcação da terra xavante. Foi então que sc tornou famoso: jam ais era visto sem seu gravador, "pra registrar tudo o que 0 branco diz” . Em 1981. Juruna foi eleito d e putado federal pelo PDT. Findo 0 mandato, e abandonado pela tribo, ficou na m iséria, em Brasília. Raoni tam bém perdeu uma eleição: foi destituído do cargo de cacique dos caiapós-txucarram ães por Tutu Pompo. Perdeu em casa. mas ganhou o mundo. A com panhando o cantor Sting. Raoni percorreu o planeta, foi recebido por al­ guns dos mais poderosos políticos do planeta e conseguiu atenção e dinheiro para a causa indígena no Xingu e na Amazônia. Raoni nasceu em 1942. Fi­ cou famoso em 1976. quando o francês Jean-Pierre Dieleux dirigiu um docu­ m entário sobre sua vida. Raoni encarna o mito do bom selvagem.

0 Brasil Indígena

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O Futuro

dos

I n d io s

no

B r a sil

M ais desesperador do que o caso dos avás-canoeiros é o dos xetás, do om o na história bíblica de Ló — o sobrinho de Paraná, tribo da qual só restam três m em bros. Do A braão que sobreviveu à destruição de SodoNhomundó/Mopuera descobrim ento até hoje. m ais de mil grupos étnicos ma e G om orra e te \e de praticar o incesto I ^I ^ , , Cuminopanema/Urucuriono já foram extintos no Brasil. Sobram 200 tribos e com as duas tllhas para evitar o fim da própria Roposo Serra do Sd Cochorro/ , ------ ------------------Cochorrinho | Tumucuinoque pouco mais de 300 mil índios. Suas reservas tribo— . apenas uma relação incestuosa lonomâmi (veja o m apa) ocupam 850 mil q u ilô ­ poderá salvar os índios avás-canoeiros Alto Rio Negro m etros quadrados, ou cerca de 10 % do da extinção. O utrora tem idos e nu­ Trombeta/Mopuero território nacional — área sob am eaça m erosos — eram mais de 3.000 em Uoimiri-Atroari L de invasores e posseiros. Às vés1750— . os avás-canoeiros não são

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agora mais do que dez. Entre essa única e últim a dezena de sobreviven­ tes. apenas o garoto Trumack (nasci­ do em 1987) e a m enina P otdjaw a (de 1989) podem ter filhos. Só que Potdjaw a e Trum ack (na foto, banhando-se no rio Tocantins) são irmãos. Com o entre m ui­ tos outros povos do mundo, entre os avás-canoeiros a pena para o incesto é a m orte. O dilem a dessa tribo é exem plar; haverá para os índios do Brasil futuro que não seja perverso?

terceiro m ilênio, o Brasil ainda trata seus wjoiNota ^ « n ativos com o m ero Pd o Joòo ressoa , • ^ PE,^Recife entrave ao avanço da •! S£ •■/iMace.ó civilização. Na aurora “Arocaju do século 2 1 . não é pos­ sível dizer ainda se haverá salv ação para os h ab itan tes originais de Pindoram a, a Terra das Palm eiras. Fortalezo

Vitória

e todos os dram as vividos pelas ■SõoPoulqjjr—^ Rio de Janeiro tribos brasileiras, o mais rum oroso tem sido o do suicídio coletivo dos li ritiba guaranis-caiovás. de M ato G rosso do Sul. Florianópolis A grupados em re s e n a s improdutivas, submetidos a um regime dc trabalho 'orto Alegre sem i-escravo e despojados de suas tradições. 236 caiovás (ou caiuás) se m ataram em menos de um a década. Só em 1995. foram 54 os que com eteram o dedui. o suicídio ritual — ou rito de "apagar o sol", como os próprios índios, trágica e poeticam ente, o denominam. Em dezem bro de 1995, o então m inistro da Justiça N élson Jobim foi a M ato G rosso e aum entou a área de uma das m enores reservas dos caiovás. No mesm o dia. porém, o jovem O dair Lescano, de 17 anos, enforcou-se no abacateiro em frente da sua choupana (mi fo to à esquerda, a inm l m ostra onde o encontrou: a ár\ ore fo i der­ rubada pela fam ília). Poucas sem anas antes da morte de Lescano. antropólogos da Funai ha\'iam contatado.em Rondônia, um casal de índios (« direita) de uin grupo desconhecido até então. De acordo com os dois sobreviventes, o restante da tribo já fora e.xterminado por fazendeiros. No Brasil, a Idade da Pedra ainda não acabou.

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H i s t ó r i a d o B r .\s il


O D

e sc o b r im e n t o

'"a terça-feira à tarde, foram às índias pela rota desco b erta por os grandes em aranhados de V asco da G am a perm aneceriam — “ervas com pridas a quereco os n h ecen d o a nova terra e seus m areantes dão o nom e de rabo-dehabitantes. asno” . Surgiram flutuando ao lado O prim eiro contato, am istoso das naus e sum iram no horizonte. com o os demais, deu-se já no dia se­ Na quarta-feira pela m anhã, o vôo guinte, quinta-feira, 23 de abril. O dos fura-buchos — uma espécie de capitão Nicolau Coelho, veterano gaivota— rom peu o silêncio dos das índias e com panheiro de Gam a, m ares e dos céus, reafirm ando a foi a terra, em um batei, e deparou certeza de que a terra se encontrava com 18 hom ens “pardos, nus, com próxim a. Ao entardecer, silhuetaarcos e setas nas m ãos” . C oelho dos contra o fulgor do crepúsculo, deu-lhes um gorro verm elho, um a delinearam -se os contornos carapuça de liarredondados de “um gran­ nho e um somde m onte” , cercado por breiro preto. Em troca, recebeu um terras planas, vestidas de um arvoredo denso cocar de plum as e um e m ajestoso. colar de contas brancas. Era 22 de abril O Brasil, batizado Ilha de de 1500. D epois de Vera Cruz, entrava, na­ 44 dias de v iagem , a quele instante, no curso frota de Pedro Á lvares da História. Cabral vislumbrava ter­ O descobrim ento ra — mais com aUvio e oficial do país está re­ prazer do que com sur­ gistrado com minúcia. presa ou espanto. Nos Poucas são as nações nove dias seguintes, nas que possuem um a “certi­ enseadas generosas do sul dão de n ascim en to ” tão precisa e fluente quanto a da Bahia, os 13 navios da maior armada já enviada carta que Pero Vaz de C a­

N

m inha enviou ao rei de Portugal, dom M anuel, relatando o “achamento” da nova terra. A inda assim , um a dúvida paira sobre o am plo desvio de rota que conduziu a arm ada de Cabral m uito m ais para oeste do que o necessário para chegar à índia. T eria sido o descobrim ento do Bra­ sil um m ero acaso? É provável que a questão jam ais venha a ser esclarecida. No entanto, a assinatura do Tratado de TordesiIhas, que, seis anos antes, dera a Por­ tugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em tom o de 2.000 qui­ lôm etros) a oeste de C abo Verde, naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecim ento preciso das correntes e das rotas, as condi­ ções clim áticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriorm ente parecem ser a garantia de que o de­ sem barque, naquela m anhã de abril de 1500, foi mera form alidade: C a­ bral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugue­ ses já conheciam , em bora superfi­ cialm ente. Um a terra pela qual ain­ da dem orariam cerca de m eio século para se interessarem de fato.

O S T U P IN IQ U IN S A o longo dos dez dias que passou no Brasil, a arm ada de C abral tomou contato com cerca de 500 nativos. Eram, se .saberia depois, tupiniquins — uma das tribos do g m p o tupi-guarani que, no início do século 16, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupis-guaranis tinham chegado à região num a série de m igrações de fu n d o religioso (em busca da "Terra sem M ales"), no com eço da Era Cristã. Os tupiniquins viviam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Bertioga. em São Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-.se aos portugueses na guerra contra os tupinam bás-tam oios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570 já estavam praticam ente extintos, m assacrados p o r M em de Sá. terceiro govem ador-geral do Brasil.

O Descobrimento 17


Japão 1S43

Oceano Pacífico

Oceano Pacífico BrasiP Porto Seguro

Oceano Atlântico

Oceano índi ,Cob»dolí^jhpttqwto

tfhod«Sòolourenço

(MoAjgoscof) I500(í

I ViOQem de Bíirlolomeu Dto>, M87/88 » Vtngrtn J c GtiiãMki Gilombo, 1492/93 I Viugem de Podro Alvaiot Cabrol, 1500 ' Viayem d t Goipor Con» l*ocJ, I WO Vkigim d* VoisoGunio. M97/7ÍÍ I VKjgwr dr ^amood» McifjuDiän I S I9/21

I Wiq*mik S*fcmí»oodn)Cooo

(apovo CTK»*v<V FcriMju dn MogcrihàfK l*)?l/>

U m I m p é r io U l t r a m a r in o grande im pulso que conduziu a frota de Pedro Álvares Cabral de L isboa a Calicute. na índia — e o levou a descobrir o B rasil no m eio do c am in h o — foi apenas um pequeno, ainda que relu zen te, m o v im ento na g ra n d e sin fo n ia que c o n fig u ra o p ro c esso de expansão ultram arina dos portugueses ao redor do planeta. Para m uitos historiadores, é ju s ta ­ m ente a “ ab ertu ra" do m undo desen cad ead a pelos navegadores de Portugal que estabelece, mais que o advento da im prensa ou a queda de C onstantinopla, o legítim o início da Era M o ­ derna. Ao se aventurarem “por m ares nunca dantes navegados” , os portugueses derrubaram os m itos da geo g rafia arcaica e provaram , com adorável arrogância, que o ciclo do saber não

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estava fechado a sete selos. Sua aventura m arí­ tim a foi 0 prim eiro processo hum ano de dim en­ sões planetárias. Sim ples pescadores até o crepúsculo do sé­ culo 13. os portugueses com eçaram a constituir sua M arinha no alvorecer do século 14, tendo por m estres os genoveses. Em 1415, sob o co­ m ando de d. João 1°, a frota portuguesa alçou-se em sua prim eira investida m ilitarista e conquis­ tou Ceuta, no M arrocos. Seria o m arco inicial de um a aventura expansionista que, pelos dois sé­ culos seguintes, estendeu o dom ínio português pelos sete m ares e pelos cinco continentes. A obra de d. João 1° teve continuidade com seu fi­ lho, o infante d. H enrique, que vislum brou nos oceanos o futuro de Portugal.

Em 1420. navegadores form ados na escola de d. H enrique (re)descobriram a ilha da M adei­ ra. Em 1434, Gil Eanes venceu o cabo Bojador, no Saara espanhol. Em 1455, foi descoberto o Cabo Verde e, ein 1488, Bartolom eu Dias atingiu o lim ite da África, dobrando o cabo das Torm en­ tas, rebatizado da Boa Esperança. Em 1498, Vas­ co da G am a, enfim , desvendou a rota da índia. M ais tarde os portugueses chegariam à C hina e ao Japão. Lisboa se tom ou, então, uma cidade cosm opolita, cujos estaleiros viviam em febril atividade e as ruas eram percorridas por astrô­ nom os judeus, banqueiros genoveses, cartógra­ fos catalães, m arinheiros italianos e m ercadores holandeses. A capital de Portugal se tom ava tam ­ bém a capital do mundo. o POETA DOS DF^COBRIMENTOS A odisséia dos navegadores portugue.ses pelos mares da Terra encontrou seu Homero na figura de um marujo caolho e temperamental de nome Lmís Vaz de Camões —o maior poeta da língua portuguesa de todos os tempos. Em 1569, depois de viajar pela índia e pela China. Camões chegou a Lisboa trazendo a versão original de "Os Lusíadas", o grande poema épico que concedeu aos descobrimentos portugueses a imortalidade só referendada pelas obras-primas.

o PRINCIPE DAS MARES Apesar dc os hiswriadores terem cada ICC mais dúvidas sobre a real existência da Escola de Sagres —que o infante d. Henrique 11394-1460) teria fundado no promontório mais ocidental da Europa—, é inegável o falo de que o principe, filho de d. João l° e membro da Ordem de Cristo, foi o maior responsável pelo avanço dos lusitanos em direção ao oceano ,\llãntico. o Mar Tenebroso cujo horizonte sombrio a obra de seus nautas ousou desvendar O infante é o patnmo do Novo Mundo.

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H is tó r i.a d ü B r .\s il

P orto

de

Partida : Lisboa se tornou a capital do expansionismo europeu no século 16


A V ia g e m

de

C abral

E

Pero de Auiide

Vasco de Alaide

Luis Pire.s

Simão de Pina

Sancho Tovar

l ra dom ingo, e Lisboa, capital ultram arina da E u­ oeste, para aproveitar m elhor as correntes do Atlântico, ropa, estava em festa. Os 13 navios da frota mais Gam a passara tão perto do Brasil que talvez tenha m esmo / poderosa já arm ada por Portugal balouçavam nas pres.sentido a presença de terra. Cabral se aventurou ainda águas reluzentes do Tejo. mais em direção ao poente “ E m uitos batéis rodeavam (tanto que, segundo seus as naus e ferviam todos com cálculos, julgava estar no suas librés de cores d iv e r­ local onde hoje é Brasília). sas, que não p a re c ia m ar, D escobriu a Terra dos Papa­ mas um cam po de flores, e gaios — a escala ideal para o que m ais elevava o e sp í­ as índias. rito eram as trom betas, a ta ­ Dez dias depois, ao zar­ baques, tam bores e gaitas", par de Porto Seguro, Cabral registrou um a testem unha parece ter deixado ali, além do dia m em orável. Oito m e­ de dois degredados e dois ses an te s, c h eg a ra àq u ele grum etes desertores, a por­ m esm o p orto a d im in u ta ção que lhe restava de sorte. fro ta de V asco da G am a. Na terceira sem ana de maio. Trazia a notícia que d u ra n ­ nas proxim idades do cabo te quase um .século fora a das Torm entas, depois de obsessão portuguesa: des­ um com eta ter luzido no céu vendara, entlm , a rota m a­ por dez noites, um a gigan­ rítim a que conduzia à índia. tesca tem pestade se abateu Agora, o rei d. M anuel que­ sobre a frota. Q uatro naus, ria que todos, especialm ente entre as quais a de Bartoloos espiões espanhóis, italia­ meu Dias, foram tragadas nos e franceses, vislum bras­ pelo mar. Não houve sobre­ sem a gloriosa partida de viventes. R eduzida a sele sua nova m issão — com er­ em b a rca ç õ es (um a havia cial e g u e rre ira — ao reino naufragado logo após a par­ das especiarias. tida e 0 navio de m antim entos seguira de volta a Portugal C elebrava-se a missa. No altar estava d. Diogo Ortiz, com a notícia da descoberta), a arm ada chegou à índia em um dos três hom ens que. uma década antes, vetara fi­ fins de agosto. Obteve perm issão para fundar um a feinanciam ento português ao projeto dc Colom bo de toria. mas. em 16 de dezem bro, o e.stabelecimento ch eg ar à ín d ia pelo rum o do oeste. Junto a ele. foi atacado. Cabral reagiu e bom bardeou Calicute Pedro Á lvares C abral, filho, neto e bisneto de por dois dias. provocando grandes estragos. Com conquistadores, mais m ilitar do que navegador, seis navios restantes repletos de especiarias, ini­ rezava, silente. Aos 32 anos, estava pronto para ciou a viagem de volta. Foi bem recebido pelo Cabral rei. A seguir, porém, caiu em desgraça na corte. sua prim eira m issão em além-mar. Os navios partiram na segunda-feira, 9 de m arço Retirou-se para Santarém. Lá morreu em 1520, qua.se de 1500. Cabral e Gam a haviam conversado longam ente. na obscuridade — virtualm ente sem saber que revelara ao m undo um país que era quase um continente. Dois anos antes, ao fazer um grande arco no rum o do

Nicolau Coelho

Gaspar de Lemos

Simão Miranda

Aires da Silva

Diogo Dias

Bariolomeu Dias

D lA R lO DE BO RDO D ata de p a rtid a : 9 de março de 1500. Local: do porto no rio Tejo, na praia do Restelo, em Lisboa. N úm ero de em barcações: 10 naus (cerca de 5(X) toneladas cada) e três caravelas T ripulação: aproximadamente 1.500 homens, entre os quais 1.200 homens de armas, pilotos portugueses, árabes e indianos, intérpretes, degredados, marujos, grumetes. além de oito frades e oito clérigos franciscanos. T ripulantes m ais conhecidos: Bartolomeu Dias (o primeiro a dobrar o cabo das Tormentas), seu irmão Diogo (escrivão da armada de Vasco da Gama), Nicolau Coe­ lho (um dos pilotos de Gama e personagem dos "Lusíadas” ). Duarte Pacheco (autor do célebre guia de navegação “Esmeraldo de Situ Orbe” ). Itin erário de ida: Lisboa — ilhas Canárias (14/3/1500) — Cabo Verde (22/3) — Porto Seguro (22/4) — cabo das Tormentas (24/5) — Sofala, em Moçambique (16/6) — Melinde, no Quênia ( 6/7) — Goa, índia (22/8) — Calicute, índia (13/9). Itin erário de volta: Cananor, índia (16/1/1501) — Moçambique (12/2) — cabo das Tormentas (19/4) — Cabo Verde (15/7). D ata de regresso: 23 de julho de 1501, novamente na praia do Restelo. em Lisboa. D uração d a viagem: 500 dias. Navios restantes: seis. Sobreviventes: em tomo de 500 homens.

O Descobrimento 19


A S emana s ordens eram claras: a portentosa esquadra de Pedro Álvares Cabral estava em missão rumo à índia. Deveria seguir pela rota des­ coberta por Vasco da Gam a, estabelecer relações com erciais e diplom áticas com o sam orim de C ali­ cute e, de imediato, fundar um a feitoria em pleno coração do reino das especiarias. Por isso, apesar da e x u b erâ n cia da paisagem , da com p lacên cia dos nativos e das benesses do clim a, os portugueses perm aneceram apenas dez dias nas paragens pa­ radisíacas da Ilha de Vera Cruz. No dia 2 de m aio de 1500, 11 navios partiram rum o à m alagueta, à canela e ao gengibre. O déci­ mo segundo, sob o com ando de G aspar de Lemos, zarpou na direção oposta, levando ao reino as car­ tas que anunciavam o acham ento da nova terra. Q uantas foram as m issivas que a nau dos m anti­ m entos conduziu em seu bojo é questão que jam ais se elucidará. O certo é que tanto C abral com o os demais capitães enviaram relatos ao rei. Ainda assim, apenas três cartas sobreviveram . De longe, a m elhor e m ais detalhista é a redigida pelo escrivão Pero Vaz de Cam inha. Graças a-ela, é possível reconsti­ tuir, passados cinco séculos, o período que alguns historiadores cham am de “Sem ana de Vera Cruz” . Assim foram os dias inaugurais do Brasil:

A

Q u a rta -fe ira . 22 de a b ril de 1500 — No fim da tarde, a frota de Cabral avistou o cum e do m onte Pa.scoal. Ao crepúsculo, a 24 quilôm etros da praia e a um a profundidade de 34 m etros, os navios lan­ çaram âncoras. Q u in ta -fe ira , 23 de a b ril — Às 10 horas da m a­

20

H

is t ó r ia d o

B r .\ sil

de

V era C ruz

nhã. os navios ancoraram defronte da foz do rio Caí. Nicolau Coelho, veterano das índias, foi até a praia, num bote. e lá fez o prim eiro contato com 18 nativos. S ex ta-feira, 24 de a b ril — Por conselho dos pilotos, a arm ada levantou âncora e

“Saímos em terra com a bandeira e fom os desembarcar acima do rio, contra o suí, onde nos pareceu que seria meífior an>orar a cruz, para meífior ser vista. ‘E a(i marcou 0 capitão 0 sítio (onde) haviam de fa z e r a cova para a fincar."

partiu em busca de m elhor porto. Encontraram -no, seguro. 70 quilôm etros mais ao norte. Ali. dois nati­ vos subiram a bordo. Pouco falaram e logo dorm i­ ram no tom badilho da nave de Cabral. S áb ad o , 25 de a b ril — Bartolom eu Dias. Nicolau Coelho e Pero Vaz de C am inha foram à praia e en­ contraram cerca de 200 indígenas. Houve troca de presentes de pouco valor. D om ingo, 26 de a b ril — Frei Henrique, franciscano que seria inquisidor, rezou a primeira m issa em solo brasileiro, na Coroa Vermelha. Houve grande confraternização entre nativos e estrangeiros ao lon­ go de todo 0 domingo. S egunda-feira, 27 de a b ril — Diogo Dias e dois de­ gredados visitaram a aldeia dos tupiniquins, erguida a uns 10 quilôm etros da praia. Não lhes foi permiti­ do dorm ir lá. T erça-feira, 28 de a b ri! — Os portugueses fizeram lenha, lavaram roupa e prepararam uma grande cruz. Q u a rta -fe ira , 29 de a b ril — Ao longo de todo o dia. 0 navio dos m antim entos, que seria enviado de volta a Portugal, foi esvaziado de sua carga. Q u in ta -fe ira , 30 de a b ril — Cabral e os capitães desem barcaram . Na praia, havia uns 400 nativos, com os quais eles passaram o dia dançando e can­ tando. S e x ta-fe ira . 1" de m aio — A tripulação deixou os navios e seguiu em procissão para o erguim ento da cruz. S ábado, 2 de m aio — A esquadra partiu para Calicu­ te. o navio dos m antim entos foi para Portugal. Dois grum etes desertaram da nau capitânia. Na praia, aos prantos, foram deixados dois degredados.


A C arta or m ais de três séculos, o principal e mais esplendoroso docum ento da descoberta do Brasil perm aneceu desconhecido — "prati­ cam ente sequestrado", de acordo com o historiador português Jaim e Cortesão— no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi redescoberto em feve­ reiro de 177.^ pelo guarda-m or do arquivo, José Seabra da Silva. A inda assim , quase m eio século se passaria antes de a carta de Pero Vaz de Cam inha ser publicada pela prim eira vez. pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua "C orografia Brasílica", edi­ tada em 1817. Som ente em 1900, porém, quando da com em o­ ração do quarto centenário do descobrim ento do Bra­ sil, a carta voltaria a receber a atenção dos eruditos. Oito anos mais tarde, C apistrano de Abreu lançou seu extraordinário estudo "Vaz de Cam inha e sua C arta”. Só então se revelou plenam ente a agudeza das observações, a fragrância dos retratos, a vivaci­ dade descritiva, a precisão etnológica e a acuidade histórica daquela que pode ser considerada a autên­ tica certidão dc nascim ento do Brasil. No instante em que C am inha escrevia a sua car­ ta em Porto Seguro, havia mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte de registrar os fatos de m aior relevo ocorridos em suas viagens m arítim as. Praticam ente nenhum desses relatos, no entanto, foi redigido por escri­ vães de ofício. Cam inha seguia na frota de Cabral com a m issão de tornar-se o escrivão da futura fei­ toria de Calicute. Mas era mais do que isso: era um escritor feito, homem de letras, requintado e perspi­ caz, em pleno dom ínio de sua arte. O texto que

de

N a sc im e n t o

P

“‘F íantada a cruz, com iis armas e a divisa de ‘Vossa i^íu za , armaram aítar ao pe defa. A li disse missa o padre fre i ‘M enrique, e aÜ estiveram conosco, assistindo a eía, perto de 50 ou 60 deíes (índios), assentados todos de joeílws assim como n ó s."

Cam inha legou à posteridade não apenas captura, com m inúcia e tluência. o alvorecer de uma nação com o constitui sua prim eira obra-prim a. A inda assim , a carta do m estre João — físicom or da arm ada de C a b ra l— e a ch am ad a " R e la ­ ção do Piloto A nônim o” (publicada já em 1507) ficaram , de início, m uito m ais fam osas que o rela­ to de Cam inha. Todos os docum entos relativos à prim eira viagem ao Brasil subm ergiram , porém , no m esm o ostracism o ao qual Cabral foi relegado, depois de se recusar a assum ir a subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para a índia. Após seu d e se m p e n h o na viagem de 1500. ele se ju l­ gava em condições de ser com andante de qu al­ quer m issão. O terrem oto que em 1755 abalou Lisboa tam ­ bém colaborou para o sum iço m om entâneo da do­ cum entação. Por cam inhos ainda m isteriosos, a carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real M arinha do Rio de Janeiro, provavelm ente quando da vinda da fam ília real para o B rasil, em 1808. Dez anos mais tarde, .seria enfim publicada pelo padre Aires do Casal. Pero Vaz de Cam inha nasceu na cidade do Por­ to na quinta década do .século 15. Filho de fam ília relativam ente nobre, fora cavaleiro das casas de d. A fonso 5°, de d. João 2° e de d. M anuel. D eve­ ria ter cerca de 50 anos quando se juntou à frota de Cabral. A carta que o im ortalizou viria a .ser um de seus últim os atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16 de dezem bro de 1500, entre os m ortos em com bate estava o profético cro­ nista do nascim ento do Brasil.

0 Descobrhnento 21


o

R ein o

do

1 m plena vertigem da índia, com a malagueta infla­ mando as imaginações, a notícia da descoberta de J Cabral seria recebida, em Lisboa, com decepção e fastio. A nova terra não possuía metais preciosos nem espe­ ciarias. O tédio e a desilusão, porém, não teriam sido imedia­ tos à chegada da nave de Gaspar de Lemos, que levava as cartas confirmando o “achamento” do Brasil (e, talvez, levas­ se também algumas toras de pau-brasil). Mas a expedição seguinte, feita em 1501 para reconhecer o país, da qual parti­ cipou, como cosmógrafo, o florentino Amerigo Vespucci (ou Américo Vespúcio), traçaria o destino do novo território, reduzindo-o, por quase meio século, à condição de mero coad­ juvante no grande painel das descobertas portuguesas. “(...) nessa costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de árvores de pau-brasil (...) e já tendo es­ tado na viagem bem dez meses, e visto que nessa terra não encontrávam os coisa de minério algum, acordamos nos despedirm os dela”, escreveu Vespúcio, em setem bro de 1504, ao magistrado de Florença Piero Soderini, repetindo o que já dissera ao rei de Portugal, d. Manuel. Durante as duas primeiras décadas, desinteressada de colonizar a terra descoberta por Cabral, a Coroa portugue­ sa acabou por transformá-la numa imensa fazenda de paubrasil. logo arrendada à iniciativa privada. Dessa forma, a árvore que ajudou a dar nome ao país começaria a se tom ar também a mais perfeita metáfora vegetal do Brasil — mais do que a borracha, o açúcar ou o café. O pau-brasil (Caesalpinia echincita) tingia linhos, sedas

E

P a u - B r a sil e algodões, concedendo-lhes um “suntuoso tom carmesim ou purpúreo” : a cor dos reis e dos nobres. Uma espécie semelhante, a Cae­ salpinia sappan, nativa de Sumatr já era conhecida na Europa desde os primórdios da Idade Média. A partir do século 17, porém, prati­ camente todos os tecidos produzido^ em Flandres e na Ingla­ terra passaram a ser coloridos pelo “paude-tinta” brasileiro. Nessa época, a in­ dústria têxtil já começara a se tomar o motor da eco­ nomia européia. Depois de anos de contrição ou andra­ jos, as mulheres do conti­ nente descobriam, enfim, o' requintes da moda. Abriase, assim, enorme mercado para as roupas realçadas pela polpa da árvore extraída aos milhões do litoral da Bahia e Pernambuco. A operação era realizada por centenas de traficantes espa­ nhóis, ingleses e, sobretudo, franceses. Eles foram os primeiros e genuínos “brasileiros” — e os únicos de fato merecedores desse nome.

O D O N O DO PAÍS

PAUS E JU R O S

urante d ez anos o B rasil teve um

o pau-brasil foi o prim eiro

dono. A o fechar um co n trato de

m on o p ó lio estatal do B rasil: só a

D

exclusivid ad e para a ex p lo ração do

m etrópole podia ex p lo rá -lo (ou

pau-brasil, em 1502, o cristão -n o v o

terceirizar o em preendim ento). Seria,

F em ão de N oronha arrendou o país

tam bém , o m ais d u ra d o u ro dos cartéis:

por três anos, à frente de um c o n só r­

a ex p lo ração só foi ab erta à iniciativa

cio de ju d e u s co nversos. O acordo

privada em 1872, qu an d o as reservas

teria sido renovado em três ocasiões.

já haviam e scasseado brutalm ente.

As obrigações do cartel eram : e x p lo ­

E xploração não é o term o: o que houve

rar o pau-brasil, d efen d er a terra c o n ­

foi um a devastação, com a derrubada

tra a cobiça de esp an h ó is e franceses,

dc 70 m ilhões de árvores. C om o que

estabelecer um a feitoria, ex p lo ta r 9(X)

“Q uanto ao meio de carregar essa mercadoria [o pau-brasiC}, direi

léguas (5.900 qu ilô m etro s) dc litoral

que ta n to por causa da dureza, e consequente dificuídade em

e pagar um q u in to do s lucros à C oroa. Bm 1503, N o ro n h a arm ou sua prim eira expedição, descobriu a ilha que hoje tem seu nom e e iniciou a ex ­

derru6á-Ca, como por não e^Qstirem (...) animais para transportá-ta, é eía arrastada por meio de m uitos Homens; e se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados peíos seívagens não poderiam

co n firm an d o a vocação sim bólica, o p au-brasil seria usado, em setem bro de 1826, para o pag am en to dos ju ro s do p rim eiro em p réstim o ex tern o tom ado pelo B rasil. A o de p arar com o T esouro N acional d esp ro v id o de ouro, d. P edro 1“

ploração do "pau -d e-tin ta". N oronha,

sequer em um ano carregar um navio de tam anho médio.

ou Loronha. agente dos ju d e u s ale­

Os seívagens, em troca de aígumas roupas, chapéus, facas, machados

m ães F u g g er (m o n o p o listas do c o ­

(...) cortam, serram, racham, atoram e desòastam o pau-Srasií,

bre), era um rico a rm ad o r n ascid o em

transportando - 0 nos ombros nus às vezes de duas a três íéguas

saldar a dív id a coin o “ p au -d e-tin ta”

A stú rias. na E sp an h a, q u e e n v iav a

fde 13 a 20 quiíômetros) por sítios escabrosos, até a costa ju n to

esbarrou n um a inovação tecnológica:

frotas à ín d ia e possuía um a rede in­

aos navios ancorados, onde os marinheiros o recebem."

ternacional de neg(KÍos. com sede em Londres. D urante um a década, foi o proprietário do B rasil.

22

H

is t ó r ia d o

Jean de Léry, ““Viagem à ‘Terra do 'Srasií", 1557

e nviou à Inglaterra 50 q u intais (3t) de toras de pau-brasil para leiloá-las em L ondres. A e sperança d o im p e ra d o r de

o a dvento da indústria de anilinas reduzira em m uito o valor da árv o re-sím b o lo do B rasil. O s ju ro s foram pagos com atraso. Em d m h eiro , não em paus.

B r .\ sil


A T erra

da

B e m -A v e n t u r a n ç a

Brasil se cham a assitn por causa do pau-brasil, certo? Em parte. A pesar de os livros didáticos e o senso com um estabelecerem um a relação direta entre o nom e do país e o da árvore, abundante no território descoberto por Cabral, a origem etim ológica da palavra “brasil” é m isteriosa e repleta de ressonâncias. Há m ais de 20 interpretações .sobre a origem do étim o e as discussões parecem longe do fim. O cer­ to é que a palavra ' é in u ito m ais antiga do que o costum e de se utilizar o “paude-tinta" para t colorir os te­ cidos. M ais certo ainda é que a lenda e a car­ tografia antigas assinalavam , em neio às névoas do M ar T enebroso (o A tlân­ tico). a existência de um a ilha m ítica cham ada Hy Brazil.

O

P or um lado, “brasil” vem do francês “ b ré sil” , que. por sua vez, é o riginário do toscano “ verzin o ” , com o era d e n o m in a ­ da, na Itália, a m adeira usada na tin tu ­ raria. Por outro, tam bém é correto a fir­ m ar que “ b ra sil” advém do celta “ b re ss” , o rig em do inglês “to b less” (abençoar), expressão que batizou a ilha da B em A venturança, Hy Brazil. Foi a incrível coincidência entre o vocábulo “bresail” (terra abençoada) e a palavra “brasil” que fez com que surgisse a confusão da qual resultou a certeza de que do nom e da m adeira nascera o nom e do país. Segundo “O B rasil na Lenda e na C artografia A ntigas” , estudo de G ustavo B arroso lançado em 1941, os hom ens le­ trados do século 16 não duvidavam que o nom e Brasil provinha da ilha lendária. “ Prevaleceu, porém , a opinião do vulgo, já que eram sim ples m arinheiros aqueles que traficavam a m adeira rubra.” O pau-brasil pode não ter dado seu nom e ao país. M as foi com certeza ele que batizou seu ptivo; eram cham ados de “brasileiros” aqueles que traficavam o “pau-de-tinta” . Se prevalecessem as regras gram aticais, os nativos do Brasil deveriam se cham ar brasilienses.

A ILHA PROM ETIDA A ilha do Brasil, ou ilha de São Brandão, ou ainda Brasil de São Brandão, povoava a imaginação

R A IZ E S NOME: Caesalpinia echinaia (faniília leguminosae) NOMES INDÍGENAS: ibirapitanga e arabutã DISTRIBUIÇÃO: do RJ até o RN ALTURA MÉDIA DE CADA ÁRVORE: entre lOm c 15m. TAMANHO E PF:S0 DAS TORAS: l.5m c 30kg. Cada navio levava em média 5.000 toras para a Europa. PARA DERRUBAR E PARTIR CADA ÁRVORE: em tomo de quatro hora.s, com machado de pedra. DISTÂNCIA DE ONDE ERAM TRAZIDAS; em 1558, de 18km da costa. Em 1890. a mais de ISOkm. ÁRVORES DERRUBADAS: 70 milhões de pés. Foram mais dc 3.000 toneladas por ano durante três séculos. QUANTO VALIA O PAU-BRASIL: um navio carregado com a madeira valia sete vezes menos do que um navio cheio de e.speciarias. Ainda a.ssim. dava um lucro de 300%.

e a cartografia européias desde o alvorecer do século 9°. Segundo a lenda, Hy Brazil era uma das ilhas "m ovediças", "ressoante de sirws sohre o velho m ar", que sumiu m aliciosamente no horizonte e.sfumado sempre que os nautas se aproximavam dela. Foi palco da lenda celta "Peregrinatio Sancti Brandani", escrita em latim no século 9". Brandão, nascido na Irlanda no ano de 460. partira para o oceano, na companhia de 14 monges, em 565 (aos 105 anos, portanto) para evangelizar terras e povos ignotos. Depois de inúmeras peripécias, que as lendas ecoam, teria chegado a Hy Brazil. ou Terra da Promissão, onde morreu aos IS I anos de idade. Desde 1351 até pelo menos 1721, o nome Hy Brazil podia ser visto em mapas e globos. Até 1624. expedições ainda eram enviadas à sua procura.

Mapa do Brasil, Terra dos Papagaios, feito p o r Cantino,1502

OS NOMES DO BRASIL P

i n d o r a m a (n o m e in d íg e n a )

I lha

T

de

V era C

T

erra

T erra

dos

r u z (1 5 0 0 )

N ova (1 5 0 1 ) P a p a g a i o s (1 5 0 1 )

T

e r r a da

V e r a C r u z (1 5 0 3 )

T

erra de

S anta C

erra

S anta C T

ruz do

erra do

r u z (1 5 0 3 )

B r a s i l (1 5 0 5 )

B r a s i l ( 1505 )

B r a s i l (a p a rtir de 1 5 2 7 )

O Descobrimento 23


P orto Seguro H

oje m ilhão de visitantes por ano. Algum as das mais graves devastações da m ata atlântica foram p erpetradas ju s ta ­ mente nessa região. Não apenas o pa­ trim ônio am biental, mas tam bém o patrim ônio histórico de Porto Seguro foram duram ente atingidos. Nos anos 70, o prefeito Valdívio C osta m andou derrubar alguns dos mais antigos prédios da cidade e er­ gueu m onum entos hediondos no lu­ gar (abaixo). O Parque N acional de M onte Pascoal (ao lado) perm anece abandonado e a ação dos carvoeiros arrasou as m atas ao seu redor. Só o projeto M useu A berto do D escobri­ m ento pode salvar Porto Seguro.

urante m ais de quatro séculos, os encantos tropicais do lito­ ral sul da Bahia se m antive­ ram virtualm ente intocados. A exube­ rância e o frescor das praias, matas e m angues ainda eram . no a lv o re ce r da sétim a década do século 20. os m esm os da paisagem vislum brada por Cabral e irretocavelm ente descrita por C am inha. Inacessíveis por terra. Por­ to Seguro. Prado. Trancoso e Arraial da A juda pareciam im unes aos vírus da civilização. Durante os anos do deslum bre, os hippies redescobriram a região. Mas foi a construção da BR-101. no fmal da década de 70, que levou ao palco do descobrim ento horrores que o restante do Brasil já conhecia. A devastação das florestas, a extinção das espécies nativas, a m arginalização das culturas indígenas, o cre.scimento populacional desordenado, a favelização. a preca­ riedade da infra-estrutura urbana, o aum ento e o tluxo incontrolável de veículos, o desm atam ento de parques e reservas, o turism o p red ató rio e a especulação im obiliária desenfreada abateram -se com o um a nuvem funes­ ta sobre os céus outrora lím pidos de Porto Seguro. A cidade onde o Brasil nasceu tom ou-se um dos pólos turísticos m ais procurados do país. recebendo m eio

D

I

/

Rota dos naus e caravelas da esquadra de Cabral Marco Oceânico Æ do Avistamento

24

H

is t ó r ia d o

B r ^asil

p esar do avanço perm anente da devastação, o c e ­ nário original da d escoberta do B rasil se m antém relativam ente im aculado. O s locais que a esquadra de Pedro Á lvares C abral visitou com põem um quadro de tal form a im pactante que o conju n to da obra sugere a idéia de um m useu a céu aberto. Em vez de p in ­ turas, praias, m angues e florestas. F alésias e m orretes no lugar de e sc u ltu ras. P áginas v ivas su b stitu in d o letras m ortas. O projeto já existe. O M useu A berto do D escobrim ento, idealizado pela F undação Q u a d rilá ­ tero do D escobrim ento, é um a área de mil q u ilô m e ­ tros q u adrados que abrange todo o territó rio onde o B rasil nasceu. T oda essa porção de terra seria to m b a ­ da com o "paisagem cu ltu ra l” . O s principais atrativos do parque seriam ; M a r c o O c e â n ic o ik ) A v is t a m e n t o — U m a escul­ tura em pleno oceano, encravada a 36km da costa. E s p a ç o d o P r im e ir o E n c o n t r o — N a foz do rio Caí. onde nativos e portugueses se viram pela prim eira vez. P a r q u e N a c io n a i . d o M o n t í : P a s c o a l — C riado em 1963, tem 22.500 hectares, mas está abandonado. P ó l o E c o l ó c íic o da M ata A t l â n t ic a — Á rea de preservação, às m argens do rio C araíva. M e m o r ia l d a P r im e ir a M iss a — Na C oroa V erm e­ lha. atualm ente o espaço m ais deteriorado do parque. O projeto é utópico. M as talvez seja justam ente de utopia que o Brasil precise para renascer onde nasceu.

A

MUSEU ABERTO DO DESCOBRIMENTO

0 )

2 3 4 Skni


A P r im e ir a E x p e d iç ã o m 2 de ju n h o de 1501, duran­ te sua viagem de retom o da índia, duas caravelas da frota de Cabral — velas rotas, m adeiram e desgastado— chegaram ao porto de B ezeguiche, hoje D acar, na costa africana. Ali, depararam com três navios da e xpedição de G onçalo C oelho, que partira de Lisboa havia duas sem anas para explorar a terra que, um ano antes, aquelas m esm as caravelas de C abral tinham desco­ berto. Foi um encontro histórico; nesse dia, os portugueses con­ cluíram que as terras recém achadas não eram um a ilha, m as parte de um novo con­ tinente. A bordo de um dos navios da frota de C oelho estava A m érico V espúcio, um dos personagens m ais contro­ versos dos descobrim entos, que acab aria se to rn an d o pad rin h o daquela nova terra. É provável que Vespúcio já

E

tivesse cruzado o A tlântico anterior­ m ente, em com panhia de A lonso de H ojeda, em 1499, em bora ele próprio tenha afirm ado, mais tarde, que havia participado tam bém de um a viagem ao Caribe em 1497, com o capitão Juan D íaz de Soiis. Foi justam ente essa viagem —jam ais confirm ada— que fez Vespúcio adquirir a fam a de m entiroso e charlatão. N ascido em berço de ouro em Florença, em 1454, num a fam ília bem -relacionada com os poderosos M ediei, Ves­ púcio m udou-se para a Es­ panha em 1491. C hegou a ajudar nos preparativos da terceira viagem de C olom ­ bo, em 1498, antes de ele próprio partir para o mar. M as, ao contrário de C olom ­ bo, teve certeza de que não estava na índia, m as em um novo mundo. A descrição detalh ista que Vespúcio fez de sua via­

gem ao B rasil em 1501, na carta cham ada “M undus N ovus” , virou um dos m aiores best sellers de sua ép>oca. Teve m ais de 40 edições em seis línguas, todas ilustradas (veja as g ra ­ vuras nesta página), e transform ou o autor num hom em fam oso nos cír­ culos cu lto s da E uropa. Em 1507, quando revia as obras de Ptolom eu e produzia um novo m apa-m úndi, o geógrafo alem ão M artin W aldssem üller decidiu batizar a quarta parte do m undo com o nom e de seu desco­ bridor, Am érico. A pesar do equívo­ co, o nom e pegou. Em 1513, pressionado por e s ­ panhóis, W aldssem üller retirou a proposta. M as era tarde; a d e sc ri­ ção que V espúcio deixou da terra, dos anim ais, das plantas e dos ín­ dios do B rasil caiu tanto no gosto do p úblico que, a pesar dos m éritos de C olom bo, o N ovo M undo p a s­ sou a ser defin itiv am en te cham ado de A m érica.

A U T O P IA O sucesso das cartas de Vespúcio fo i instantâneo e duradouro. Uma década depois, elas inspiraram o inglês Thomas Morus fabaixo) a escrever o clássico "A Utopia". Lançado em 1516, “A Utopia" se baseava em episódios narrados pela carta na qual Vespúcio descreve sua segunda viagem ao Brasil, em 1503, quando deixou 24 homens numa feitoria em Cabo Frio. Morus transportou a ação para uma ilha (talvez Fernando de Noronha) e imaginou que os exilados dariam início a uma sociedade perfeita. Na vida real, os homens de Vespúcio foram trucidados pelos índios.

O Descobrimento 25


o R ec o n h e c im e n t o

da

N ova T erra

s duas \ iagens ao Brasil realizadas por A m érico

A

Vespúcio. am bas p rova\elm ente com andadas

por G o n çalo C o elh o — a prim eira, de 10 de maio de 1501 a 7 de setem bro de 1502. e a segunda, de 10 de m aio de 1503 a 28 de junho de 1504— . foram tam bém as duas prim eiras grandes missões de reco­ nhecim ento à teixa descoberta por Cabral. E. por m eio século, traçaram -lhe um destino inglório: não ha\ ia ouro à tlor da terra, nem impérios a serem co n q u istad o s na região. A C o ro a p o rtuguesa d esinleressou-se de colo n izar o Brasil, em bora não deixasse de en \ lar tVequenles expedições ao país. m esm o porque, já em 1504. os franceses ch eg av am a Santa C atarin a, logo seg u id o s pelos espanhóis. Durante a prim eira década p ó s-d esc o b rin ien to . o B rasil p raticam en te pertenceu ao consórcio form ado para ex p lo ­ rar o m onopólio do pau-brasil, o qual a cada ano en \ ia\ a pelo menos três ex|x‘dições ao país. G raças ao diário de bordo de um a delas, : a nau Bretoa. sabe-se muito sobre essas via­ gens: a Bretoa esteve no Brasil de 6 de abril a 27 de ju lh o de 1511 e retornou a Portugal com 5.(M)8 toras de pau-brasil. 3.000 peles de onça, 6(K) araras e 35 escravos a bordo. Na segunda década do século 16. os franceses tam bém passaram a explorar o pau-brasil em grande escala ao longo da costa brasileira. Pa­ ra \ ig iá-lo s e p u n i-lo s foram en v ia d a s três grandes expedições guarda-costas, todas ch e­ fiadas por C ristóvão Jacques (em 1516, 1521 e 1527). Na prim eira delas, Jactiues prov(K‘Ou um grande incidente diplom ático entre Portugal e França ao entem ir \ i\o s 20 iraficantes franceses. Ao final dessas expedições, o Brasil não ficou liv re dos france.ses, mas seu extenso e esplêndido litoral esta\ a inteiram ente cartografado e reconhecido. Bmbora até hoje es.se seja um assunto controverso, pelo m enos duas exjx'diçôes podem ter visitado o litoral brasileiro antes de Cabral, am bas capitaneadas por es­ panhóis. A prim eira delas leve o com ando de A lonso de Hojeda e teria chegado ao cabo São Roque, no Rio G ratide do Norte, em fms de 1499. A m érico Vespúcio allrm ava 1er

Rotas das primeiras expedições ao Brasil ' Vincente Yánez Pinzón - janeiro de 1500 Pedro Álvares Cabral - abril de 1500 ' Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio - agosto de J50I ' Gonçalo Coelho e Américo Vespúcio - novembro de J503 ' Martim Afonso de Sousa - janeiro de I53J

participado dessa expedição, mas isso jam ais foi com provado. A segunda expedição a preceder Cabral é m enos nebulosa e parece, de falo. ter le\ ado o espanhol Vicente Yàiïez Pinzón (que fora capitão da Nina. caravela da prim eira frota de C olom bo) não apenas a descobrir o rio A m azonas, mas a navegar pelo cabo Santo Agostinho, em Pem am buco. Isso teria acontecido em janeiro de 15(K) três meses, portanto, antes da chegada de Cabral.


A E x p e d iç ã o

de

M a r t im A f o n s o

de

S ousa

o instante em que a cobiça dos navegadores e trafi­ A ex p ed ição de M artim A fonso tro u x e a lei e a ordem para cantes franceses pelo território b rasileiro to m o u -se o s­ o a m p lo te rritó rio b ra s ile iro , o n d e a p e n a s um p u n h a d o de tensiva, e seu conh ecim en to do litoral e a alian ça com p o rtu g u eses — deg red ad o s, n áu frag o s ou d eserto res— vivia de várias tribos indígenas, evidente, a C o ro a portu g u esa ab an d o ­ aco rd o co m “ a lei natural, co n ten tan d o -se com q u atro m ancenou a inércia e decidiu en v iar ao B rasil um a poderosa bas e os rpantim entos d a terra” . M artim A fo n so chegou ex p ed ição — d esta vez, não apenas um a m issão m ili­ co m plenos poderes, inclusive sobre a vida e a m orte tar, m as tam bém colonizadora. P ara com an d á-la foi daqueles que o aco m p an h av am e dos q u e v iesse a esco lh ido o fidalgo M artim A fonso de S ousa, de encontrar, com ex ceção dos fidalgos. P o d eria ta m ­ 30 anos, am igo de infância do rei d. João 3°, que, bém d istrib u ir terras em sesm arias, cria r e n o m ear além de ser guerreiro, era tam bém hom em de le­ tab eliães e d em ais o ficiais de ju stiça . Ju n to co m o tras e de ciência. irm ão, P ero L o p es, M artim A fonso seguiu n av e­ A frota com cinco em barcações — um galeão, g an d o até o C h u í, no R io G ra n d e d o S ul, o n d e duas naus e duas carav elas— partiu de L isboa a 3 naufragou. Seu irm ão p ro sseg u iu até o rio da P rata, de d ezem bro de 1530 levando m ais de 400 pessoas m as lá as m ed içõ es astro n ô m icas rev elaram tratar-se a bordo. A lém do com bate aos navios franceses — dos de territó rio espanhol. D urante a viagem de regresso, quais en controu e capturou três já nos seus M artim A fonso fundou São V icente (acim a) em C apitão-m or do "BrasU, prim eiros dias em águas brasileiras— , M artim ja n e ir o de 1532 — o p rim e iro n ú cleo e fe tiv o fM artim A fo n so de S o u sa era de A fonso vinha tam bém com a m issão de ex p lo ­ dos po rtu g u eses no B rasil. P artiu de volta para íinhagem tw ère e am igo do rei. rar o fabuloso rio da Prata, e esse p rovavelm en­ L isb o a e d aí p ara a ín d ia. Jam ais retornou ao J o i g o v e m a d o r da ín d ia te era o seu m aior e m ais im portante objetivo. B rasil. N as m em ó rias q u e red ig iu p ara a rain h a D escoberto cerca de 15 anos antes, o grande rio C a ta rin a , p e d in d o m e lh o r re c o m p e n sa p o r de 1541 a 1 5 4 5 e aparece nos seria a porta de entrada p ara um reino indígena seus serv iço s, cito u o n o m e do B rasil u m a ú n i­ " L u sía d a s", de Camões. ex trao rd in ariam en te rico — ainda que, naquela ca vez — e ap en as p ara d iz er q u e, aq u i, g astara Sem pre preferiu a Á s ia ao 'Brasií, época, os p o rtugueses n ão pudessem supor que “p erto de três anos, p a ssa n d o m u ito s tra b a ­ pa is ao q u a íja m a is se afeiçoou. se tratasse do Peru. lh o s, m u itas fo m es e m u itas to rm e n ta s” .

N

0 Descobrimento 27


As C a p i t a n i a s H e r e d i t á r i a s ^ oi em m arço de 1532, quando M artim Afonso de Sousa ainda estava em São Vicente, que o rei d. João 3° decidiu em pregar no Brasil o m esm o sistem a de colonização que já havia dado certo nos Açores, na ilha da M adeira e nas Canárias. A sugestão foi-lhe dada por Diogo de Gouveia, ilustre hum anista português, residente em Paris, onde dirigia o respei­ tado colégio Santa Bárbara. A pesar da experiência bem -su­ cedida nas ilhas, o im pério ultram arino português estava m ais preparado — e interessado— em descobrir, co n ­ quistar, com ercializar e, eventualm ente, em pilhar do que em colonizar. M as a am eaça francesa persistia e d. João 3” com preendeu que a única m aneira de pre­ servar o Brasil era dando início a sua povoação. Com o a C oroa já despendera fortunas na conquista da índia, o rei optou por dividir as terras brasileiras em 14 c a ­ pitanias hereditárias, to talizando 15 lotes, doadas a fi­ guras im portantes da corte, que seriam responsáveis por sua colonização. Pela ab.soluta falta de interesse da alta nobreza lusi­ tana, as cap itan ias brasileiras acabaram sendo co ncedidas a m em bros da burocracia estatal e a m ilitares e navegadores liga­ dos à conquista da índia. Além das vastas porções de terra (cada lote tinha, em média, 250 quilôm etros de largura, estendendo-se até o lim ite ainda não dem arcado de Tordesilhas, em algum lugar no interior do continente m isterioso), os donatários receberam tam ­ bém poderes verdadeiram ente m ajestáticos. Podiam legislar e con­ trolar tudo em suas terras, m enos a arrecadação de im postos reais. Em com pensação, deveriam arcar com todas as despesas da coloni­ zação. Os lotes foram repartidos aleatoriam ente, levando em conta apenas acidentes geográficos da costa, m as ignorando por com ple­ to a divisão territorial estabelecida há séculos pelas tribos indígenas — e, acim a de tudo, ignorando tam bém se eram tribos aliadas ou hostis aos portugueses. Tam anho descuido custaria caro aos portugueses. Dos 12 donatários, quatro jam ais estiveram no Brasil. Dos oito que vieram , três m orreram em circunstâncias dram áticas; um outro (Pero de C am pos Tourinho) foi acusado de heresia, preso e enviado aos tribunais da Inquisição em Portugal; três pouco se interessaram por suas propriedades e apenas Duarte C oelho — que fora o prim eiro navegador europeu a chegar à C hina— realizou um a adm inistração brilhante, em Pernam buco. Dos 15 lotes, quatro nunca foram ocupados (Rio de Janeiro, Ceará, Ilhéus e Santana); em quatro, as tentativas de colonização falha­ ram (Rio Grande, São Tomé e os dois do M aranhão); em cinco, a precariedade dos estabelecimentos facilitou sua destruição por índios hostis (Bahia. Porto Seguro. Espírito Santo, Itam aracá e Santo Am aro), e em apenas dois, São Vicente e Pem am buco, a colonização vingou desde os prim eiros anos. A pesar do balanço aparentem ente desfavorável — e de todos os vícios que legaram à estru­ tura fundiária do Brasil — , as capitanias representam a prim eira e decisiva incursão dos portugue­ ses no trópico e definem o em brião da futura ocupação do Brasil. Ainda assim, num a perspectiva em i­ nentem ente pessoal, a saga dos donatários foi-lhes terrivelm ente pesada. Tanto é que Duarte Coelho, o m ais bem -sucedido dos colonizadores, escreveu para o rei: “Som os obrigados a conquistar por pwlegadas as terras que Vossa M ajestade nos fez m ercê por léguas” . A parentem ente, porém , os problem as esm a­ gadores enfrentados pelos donatários não com overam os burocratas da corte, a ponto de um deles ter. em 1544. anotado secam ente em um relatório destinado ao rei: “O Brasil não som ente não rendeu nada de 20 anos até agora o que soía, mas tem custado a defender e povoar mais de 80 mil cm zados” . (.4 esquerda, m a­ pa das capitanias, Códice 5I/IV /38, B iblioteca da Ajuda, Lisboa, 1595; abaixo, brasões dos donatários.)

28

H i s t ó r i .\ d o B r a s i l


Os D

o n a t á r io s

GENROS

as reentrâncias m aranhenses aos bai­ litoral, ia da foz do São Francisco à foz do Jaguaxios arenosos da costa sulista, o litoral ripe, na ponta sul da ilha de Itaparica. Pertencia a brasileiro foi repartido em 14 capita­ Francisco Pereira Coutinho, que depois de lutar na nias, perfazendo 15 lotes, distribuídos índia vendeu o que tinha em Portugal e tudo per­ a 12 donatários. Do norte para o sul, eramdeu as no se­ Brasil — inclusive a vida: depois de um guintes as capitanias, seus donatários, seus limites naufrágio, foi m orto ritualm ente por um tupinam ­ e sua breve história: bá de 5 anos e devorado pela tribo. 1 ) P rim e ira C a p ita n ia do M a ra n h ã o : Foi doada 8) Ilhéus: D oada ao escrivão da fazenda Jorge de ao historiador e burocrata João de Barros e ao na­ Figueiredo C orreia, tinha 50 léguas, desde o rio vegador e cavaleiro-fidalgo Aires da Cunha. Tinha Jaguaripe até a foz do rio Coxim (hoje Poxim ), 20 50 léguas (ou 330 quilôm etros de extensão), desde quilôm etros ao sul de C om andatuba. O m ilioná­ rio C orreia nunca veio ao B rasil, mas sua capita­ a Abra de Diogo Leite (nas alturas do rio Gurupi, fronteira do Pará e M aranhão) até o cabo de Todos nia foi devastada pelos aim orés, inim igos dos os Santos (hoje baía de Cum ã. MA). portugueses. 2) S egunda C a p ita n ia do M a ran h ã o : Pertencia ao 9) P orto Seguro: Estabelecida onde o Brasil fora tcsoureiro-mor do reino, Fernando Álvares de An­ descoberto, a capitania do latifundiário e navegador drade, e possuía 75 léguas, desde o cabo até a foz do Pero de Campos Tourinho tinha 50 léguas, desde a rio Paraíba. João dc Barros (um gênio da língua, au­ foz do Poxim até a foz do Mucuri, na fronteira com tor do clássico “Décadas da Ásia” ), o rico Álvares o Espírito Santo. Foi destruída pelos aimorés, e de Andrade e o intrépido Aires da Cunha junta­ Tourinho acabou preso pela Inquisição. ‘D as ram fortunas e esforços, enviando uma frota 10) E spírito Santo: Ia da foz do Mucuri à de dez navios com 900 pessoas e cem cacapitanias, do Itapemirim, com 50 léguas de litovalos para colonizar o Maranhão, em apenas duas foram Pertencia ao m ilitar Fernando 1535. A aventura terminou em desbem-sucedidas. ‘Três Coutinho. Destruída pelos índios, graça: A ires da C unha m orreu nunca foram ocupadas e houve 11 ) S ão Tomé: Ia do Itapem irim num nau frág io e, depois de três tragédia nas à foz do M acaé, no atual Estado anos de lutas contra os índios, só 2(X) outras Rio. Tinha 30 léguas e pertencia a sobreviventes retom aram a Portugal. Pero de Góis, que acom panhara M artim 3) C e a rá : D oada ao cavaleiro-fidalgo AntôA fonso na expedição de 1530. Devastada nio C ardoso de Barros. Tinha 40 léguas, da foz pelos goitacás. do Paraíba à ponta do M ucuripe (próxim a de For12) C a p ita n ia do R io de Ja n e iro : O .segundo lote de M artim Afonso de Sousa tinha 55 léguas e ia taleza). Não houve ali tentativa de ocupação. desde a foz do M acaé até a foz do rio Juquerique4) Rio G ra n d e: Possuía 1(X) léguas, desde M ucu­ ripe até a baía da Traição, na Paraíba (uns 50 qui­ rê, que nasce na serra do m esm o nome e deságua na baía de C araguatatuba. Ficou abandonada, pra­ lômetros ao norte de João Pessoa). Era o segundo ticam ente entregue aos franceses. lote de João de Barros e Aires da Cunha e, logica­ 13) S a n to A m aro: O prim eiro lote de Pero Lopes mente, pennaneceu inteiramente despovoado. de Sousa tinha 55 léguas e ia do Juqueriquerê até 5) Ita m a ra c á : Com 30 léguas de costa, ia desde a Bertioga. A pesar da proxim idade de São Vicente, baía da Traição até a foz do rio Igaraçu, na ponta Pero Lopes fez m uito pouco por sua colonização. sul da ilha de Itamaracá. Era o terceiro lote de Pero 14) São V icente: O prim eiro lote de M artim A fon­ Lopes de Sousa, dado a ele pelo rei d. João 3° co­ mo prêm io por sua luta contra os franceses. Com o so tinha 45 léguas de costa e ia desde Bertioga até nas suas duas capitanias no Sul, tam bém em Itaa ilha do Mel (PR). Foi o prim eiro núcleo efetivo e oficial da colonização portuguesa não apenas no m acará, Pero Lopes pouco fez. Chegou a haver ocupação na ilha, mas os índios destruíram tudo. Brasil, mas no m undo. Apesar de o donatário ja ­ 6 ) P e rn a m b u c o ou N ova L u sitâ n ia: A mais bem- mais ter retom ado a suas terras, a capitania flores­ ceu e expandiu-se, determ inando, nos dois séculos sucedida das capitanias tinha 60 léguas de exten­ seguintes, a conquista de todo o Sul do Brasil, rom ­ são, desde o rio Iguaraçu até a foz do São Fran­ pendo a barreira de Tordesilhas. cisco. Pertencia a Duarte Coelho, navegador e sol­ 15) S a n ta n a : O segundo lote de Pero L opes ia da dado da Ásia. Filho do navegador G onçalo Coelho, ilha do M el até L aguna (SC ), com 40 léguas de Duarte realizou uma obra brilhante e eficiente em litoral. Perm aneceu abandonado até o século 17. Pernam buco por mais de um a década. 7) B a h ia de T odos os S antos: Com 50 léguas de Sua posse retom ou à Coroa.

DA

TERRA

D

O CARAM URU A o d e se m b a rc a r na Bahia, em 1532, M a rtim A fo n so de S o u sa d e parou com o n á u fra g o D io g o Á lva res C orreia, o C aram uru, vivendo ha via 22 a n o s entre o s índios. H istoriadores deb a tem sua origem , o sig n ific a d o de seu n o m e e a d a ta d o na u frá g io d e C aram uru. D io g o Á lva re s era n a tu ra l d e Viana, P ortugal, e d eve te r n a u fra g a d o na B a h ia em 1510. E m tupi, seu nom e sig n ifica m oréia, pois, com o o peixe, f o i achado entre a s pedras. A lenda d iz que era ch a m a d o d e H om em de F ogo porque, a o s e r visto p e lo s índios, teria disp a ra d o o m osquete. C asou-se com P araguaçu, filh a de um cacique, e virou líd er d o s tupinam bás. R e sp o n sá v e l p e ta fu n d a ç ã o d e Salvador, a ju d o u o d o n a tá rio F ra n cisco Pereira e o g o v e m a d o r Tom é de Sousa.

JO A O R A M A L H O Sem a n a s a p ó s o e ncontro com C aram uru, M artim A fo n so cheg o u a o q u e viria a se r S ã o Vicente e deparou com o utro n á u fra g o (ou desertor, ou degredado), c h a m a d o J o ã o R am alho. C om o C aram uru, este tam bém esta va c a sa d o co m a filh a d e um ca ciq u e (B artira, filh a d e Tibiriçá). N a sc id o em C oim bra, teria n a u fra g a d o em 1508. A o r e to m a r d o C huí, M artim A fo n so p a rec e ter fu n d a d o sua vila em S ã o Vicente e n ã o em C ananéia p o r causa da p resença de R am alho, q u e vivia em P iratininga, n o p la nalto, trafica n d o e sc ra vo s p a ra o litoral. R a m a lh o m orreu p o d e ro so e n o n a g e n á rio em 1581.

As Capitanias Hereditárias e o Governo Geral 29


o

A çúcar

longo e rendoso reinado do açúcar em terras brasileiras — inicia­ do em 1532 e ainda sem data para acabar— trouxe tam bém conse­ quências am argas para o país. Plantada com avidez e im paciência no luxuriante solo de aluvião do litoral nordestino, a cana-de-açúcar deu luz ao Brasil, colocando-o no m apa do com ércio planetário. Tom ou-se “o principal nervo e substância da riqueza da terra” , segundo um antigo cro­ nista. Junto com os dividendos — de qualquer form a logo em igrados para Portugal e H olanda— , seguiu-.se a devastação das matas, a escravização indígena em larga escala, os desatinos do m onopólio e da m onocultura, a infâm ia inom inável do tráfico negreiro, a vertigem do lucro fácil, o lati­ fúndio, a pirâm ide social exclusivista, a ganância desenfreada — vícios que o Brasil, ao invés de sanar, incorporou. Introduzido na Europa por árabes e cm za­ dos, o açúcar — originário da Ásia— fora, de início, um artigo can'ssimo, usado para presen­ tear reis e registrado em testam entos m onárquicos. Na Idade M édia, era vendido apenas em farm ácias, com o artigo m edicinal. E literalm ente a peso de ouro; em 1440, um a arroba (15 quilos) de açúcar valia 18,3 gra­ m as do metal. A inda que, em 1501, esse preço tivesse despencado para dois gram as por arroba, o plantio e esf>ecialmente o com ércio do açúcar eram ótim os negócios. N egócio que, desde a descoberta dos A çores e da M adeira, no século 15, passou a interessar aos portugueses, principal­ mente depois que d. Henrique im portou as prim eiras mudas da Sicília e m andou plantá-las nas ilhas. No Brasil, a cana foi introduzida por M artim A fonso de Sousa, tam ­ bém dono do prim eiro engenho erguido no país, em associação com o holandês Johann van Hielst (cham ado de João Vaniste), representante dos Schetz, ricos arm adores, com erciantes e banqueiros de Am sterdã.

O

30

H is tó ria d o B ra s il

A partir da chegada dos donatários, a cultura açucareira adquiriu estu­ pendo im pulso no Brasil. Im possibilitados por lei de explorar o pau-brasil (um m onopólio da Coroa), os donatários — Duarte Coelho à frente— trouxeram consigo colonos da ilha da M adeira, deram início à derm bada das m atas litorâneas e instalaram seus prim eiros engenhos. O aum ento da população na Europa, a relativa queda do preço dfo produto, a fertilidade do m assapé nordestino — tudo contribuiu para tom ar o açúcar um produ­ to cada vez mais consum ido nas cidades e disputado no mercado. Em 1628, havia já em tom o de 235 engenhos instalados no Nordeste brasileiro — “antes m ais do que m enos”, segundo frei Luís de Sousa. Em 1637, época do Brasil holandês, a produção de Pernam buco, Itam aracá. Paraíba e Rio Grande do Norte ultrapassou 1 m ilhão de arrobas. M as a pujança e grande lucratividade da lavoura de cana parecem ter passado longe da casa grande que abrigava os senhores de enge­ nho. O verdadeiro lucro ia para os que em barca­ vam o acúcar para a Europa. Lucros estes que eram utilizados para fazer novos em préstim os aos senhores de engenho, que viviam assim “em per­ pétua dívida, da qual periodicam ente clam avam por perdão” . De qualquer m aneira, após um a ou duas boas colheitas, vários proprietários vendiam tudo que tinham e regressavam a Portugal. Para os que ficavam , o quadro no Brasil seguia igual, e m uito sim ilar ao descrito pelo padre Antônio Vieira: “Q uem via na escuridade da noite aquelas fom alhas trem endas perpetuam ente ardentes (...) o ruído das ro­ das, das cadeias, da gente toda de cor da m esm a noite, e gem endo tudo, sem trégua nem descanso; quem vir enfim toda a m áquina e aparato con­ fuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é um a sem elhança do infem o” .


o

G overno

de

T omé

de

Sousa

1 m 12 de m aio de 1548, o co­

E

lonizador Luís de Góis, irJ m ão do d onatário de São Tomé, Pero de G óis, escreveu, de Santos, um a c arta d e se sp e ra d a ao rei d. João 3°. N ela, dizia; “ (...) se com tem po e brevidade Vossa Al­ teza não socorre a estas capitanias e costa do Brasil, ainda que nós per­ cam os as vidas e fazendas. Vossa Alteza perderá a terra (...) porque não está em m ais de serem os fran­ ceses senhores dela” . A m ensagem parece ter sido en­ tendida, já que, em 7 de janeiro de 1549, o fidalgo Tomé de Sousa, ve­ terano da Á frica e da índia, foi no­ m eado governador-geral do Brasil. M enos de um mês depois, em 1° de fevereiro, uma poderosa frota, com três naus, duas caravelas e um bergatim , transportando m ais de mil passageiros (cerca de 120 burocra­ tas e funcionários públicos, 200 sol­ dados, 300 c o lo n o s e 400 d egre­ dados), partia de L isboa rum o ao Brasil, sob o com ando do austero governador. Junto com Tomé de Sousa vinha tam bém um consistente corpo ad­ m inistrativo (um provedor-m or, um o u vidor-geral, um cap itão -m o r e m uitos funcionários do segundo es­ calão) para estabelecer a lei e a or­ dem na colônia. A esquadra chegou à Bahia em 29 de m arço de 1549. Foi recebida por Caram uru e pelos índios que ele arregim entara. Já a partir de 1° de m aio, Tomé de Sou.sa deu início à construção da vila que seria o em brião de Salvador — com ele próprio m etendo a m ão na m as­ sa e na cal. Em m eados de dezem ­ bro, a prim eira capital do Brasil se erguia num a colina à beira-m ar, em frente da baía de Todos os Santos.

Chegada de Tomé de Sousa à baía de Todos os Santos, em 29 de m arço de 1549 Apesar de ser filh o bastardo e ter tido uma infância difícil, Tomé de Sousa possuía importantes relações de parentesco que lhe asseguraram um htgar na corte. Na.scido em 1503, era neto do fidalgo Pedro de Sousa de Seabra e filho de João de Sousa, prior de Rates. Também era prim o não só de Martim Afonso e de Pero Lopes de Sousa, mas do conde de Castanheira, o principal conselheiro do rei d. João 3°. Por volta de 1540, em carta a Martim Afonso, o conde mencionou o primo comum: “Cada »e ; lhe vou achando mais qualidades boas, sobretudo a de ser sisudo

Apesar do parentesco bom, Tomé de Sousa fe z a si

mesmo — especialmente nos campos de batalha do Marrocos e nos mares da índia, como soldado e navegador Tornou-se fidalgo em julho de 1537. Enviado ao Brasil dez anos depois (sem a mulher e a filha), recebia o ótimo ordenado de 400 mil-réis anuais. Ainda assim, preferiu aband<mar o país, por achar que fun d a r tona nação com degredados equivalia a “jogar na terra a má semente".

A m issão que Tomé de Sousa vi­ nha cum prir no Brasil fora detalha­ dam ente definida pelos 41 artigos do regim ento real assinado em 17 de dezem bro de 1548 — espécie de “carta m agna” do Estado brasileiro. Além de centralizar o poder, cons­ truir um a fortaleza, visitar e proteger as dem ais capitanias, redistribuir ter­ ras, regulam entar a relação entre co­ lonos e índios e incentivar incursões ao interior, Tomé de Sousa deveria tam bém atacar e punir indígenas hos­ tis — especialm ente os tupinam bás de Ilhéus, que haviam matado o exdonatário da Bahia, Francisco Perei­ ra. Depois de destruir o m aior nú­ mero possível de aldeias tupinam bás, o governador-geral poderia, de acor­ do com 0 regim ento, conceder per­ dão aos índios que concordassem em se sujeitar ao dom ínio português, não sem antes “aprisionar alguns caci­ ques e enforcá-los diante dos habi­ tantes de suas aldeias” . Junto com Tomé de Sousa vieram os prim eiros jesuítas a desem barcar no Brasil, entre eles o padre M anuel da Nóbrega. O governador trouxe tam bém as prim eiras cabeças de ga­ do, direto de Cabo Verde. No ano seguinte, chegavam as prim eiras m ulheres “de boa qualidade” a colo­ car os pés no Brasil — eram órfãs re­ colhidas pela rainha d. Catarina, que deveriam casar com os colonos, re­ solvendo o mais grave problem a da cidade-capital; a anarquia sexual. Em julho de 1553, desiludido com o com portam ento dos degredados e depois de dois anos pedindo ao rei para retom ar à pátria, Tomé de Sousa enfim foi substituído por Duarte da Costa. Ao exportar para os trópicos o absolutism o da corte, lançara as ba­ ses da A m érica lusitana.

H A NS STA D EN

O

arcabuzeiro alemão Hans Staden é um dos personagens mais cativantes do Brasil colonial. Disposto a conhecer os mistérios de além-mar, partiu de Hesse, na Alemanha, para Portugal, com intenção de visitar a índia. Uma vez em Lisboa, acabou por

engajar-se, como artilheiro, num navio com destino a Pemambuco. Lá chegou em 1547, logo se envolvendo na luta contra os indí­ genas. Em 1548, de volta à Europa, alistou-se numa expedição espanhola ao rio da Prata. Depois de várias peripécias e naufrágios, foi parar em Bertioga na mesma época em que lá estava Tomé de Sousa. Empregou-se como arcabuzeiro na fortaleza que o gover­ nador mandara erguer na ilha de Santo Amaro. Em janeiro de 1554, Staden caiu prisioneiro dos tupinambás e foi levado para Ubatuba. Lá, viveu como cativo por nove meses e meio. E.scapou de ser devorado porque, além de se fazer passar por francês (alia­ dos dos tupinambás), chorava e gemia cada vez que se via ameaçado. Os índios o consideraram indigno de ser abatido. Em 1555, de volta à Europa, decidiu narrar suas aventuras em livro. Intitulado “Descrição Verdadeira de um País de Selvagens Nus, Ferozes e Canibais, Situado no Novo Mundo América, Desconhecido na Terra de Hessen, Antes e Depois do Nascimento de Cristo”, o livro virou best seller desde sua primeira edição, em Marburg, em 1557. Em 1925, foi traduzido para o português por Monteiro Lobato.

As Capitanias Hereditárias e o Governo Geral 31


o

E l

G overno

M

de

em d e

m 1568. aos quase 7Ü anos e hav ia

I m ais

am ealhou a m aio r fo rtu n a p essoal do

de um a décad a g o v e m a d o r-

B rasil, em fu n ção do p róprio tráfico de

J geral do B rasil. M em de Sá es-

escrav o s, de suas fazen d as de gado. de

creveu para o rei de P ortugal, d. S eb astião

seus e n g en h o s de a çú car e da exp o rtação

(segundo m onarca ao qual

sem

de pau-brasil.

c o n ta r dois regentes). D isse: “ Peço a Vos-

M em de Sá ganhou m uito, m as por

sa A lteza que em paga de m eus serv iço s

um preço terriv elm en te alto. N u m a e x p e -

m e m ande ir para o reino, e m ande vir

d içã o en v iad a ao E sp írito Santo, em abril

o utro governador, porque afian ço a V ossa

^

de 1558. p a ra c o m b a te r os a im o ré s, foi

A lteza que não sou para esta terra. Eu nela

m o rto seu filho Fernão. N ove anos m ais

gasto m uito m ais do que tenho de o rdena-

ta rd e . ta m b é m v ítim a d e u m a fle c h a ,

do. e não m e parece ju s to que. p or serv ir

m o rre ria o so b rin h o E s tá c io de S á, na

bem . a paga seja terem m e d eg red ad o em

luta co n tra franceses e tam oios p e la c o n -

terra de que tão pouco fu n d am en to fazem .

.4^.^

q u is ta d e f in itiv a d o R io de Ja n e iro . A

Q uanto tenho feito em todo o tem po que

filh a de 12 a n o s. B e a triz , e a m ulher,

no B rasil desfaz um fiIho da terra

^

Guiomar. já estavam mortas. É compreensível.

que em

de

Em dez anos. M em de Sá fizera m uito

red ig ir seu testam ento. M em de Sá en-

pelo Brasil — € tirara m uito dele. C uidado-

viasse nova carta ao rei se lam uriando:

sam ente escolhido pelo rei d. João 3°. de

“ Sou um h om em só” , E m 6 de fevereiro de 1570, o jo v e m

quem era am igo, para substituir o desastrado D uarte da C osta, o fidalgo, m em bro do co n se lh o real. d esem b ar-

rei d. S e b a stiã o e n fim n o m e o u um n o v o g o v e rn a d o r-g e ra l p ara o

g a d o r e p oeta diletante M em de Sá dese m b a rca ra em 28 de d ezem bro de 1557 num país conflagrado, à beira da guerra civil e da invasão. E x p erim en tad o nas artes da g u e rra e d a paz. letrad o

B rasil. M as a fro ta que traz ia d. L uís F ern a n d es de V asconcelos foi a tacad a e d e stm íd a pelos franceses. A ssim , M em de Sá viu-se

(POT

fo rçad o a p erm an ecer no cargo e no B rasil, onde tem ia a cab ar

c o ra jo so e cruel. M em de Sá aplicou de im ed iato um a política de ferro e fogo. e x te rm in a n d o m ilh ares de indígenas. d iz im a n d o c e n te n a s de a ld e ia s , c o m b a te n d o o s

e nterrado. P o r fim , em 2 de m arço de 1572, num do m in g o , ^ de Sá governou 0

às 10 h o ras da m anhã, M em de Sá. ho m em -fo rte do B rasil 15 anos. m orria em S alvador, m ilionário, m as fatiga-

fra n c e se s onde quer que os encontras.se e su b m e te n d o os SrasULom mão ^ esquecido. Sua vida inspiraria o poem a ép ico de 2.000 versos escrito p o r José de A nchieta, no qual o je s u íta achou lo u ­ co lo n o s po rtu g u eses aos rigores da lei e da ordem . Ju rista calede ferro. ja d o . solucionou inúm eras p endengas entre c o lonos, proibiu o jo g o . vável c an tar “os gestos h eróicos do C hefe / à frente dos soldados, na a v adiagem e a em briaguez, instalou vários e n g en h o s e botou outros a

im e n sa m ata / c e n to e se sse n ta as a ld e ia s in c e n d ia d a s / m il c a s a s

funcionar. C riou um a leg islação p ro teto ra dos índios c ristia n iz ad o s e

a rru in a d a s p e la c h a m a d e v o ra d o r a / a sso la d o s os c a m p o s / p a ssa d o

estim ulou o início do tráfico de escrav o s africanos. A o m esm o tem po.

tudo a fio de esp ad a".

ntre os dois governos rígidos e austeros impostos por Tomé de Sousa e Mem de Sá, o Brasil esteve entregue à incompetência, à anarquia e aos desmandos de Duarte da Costa, o segundo govemador-geral. Principal figura do Senado de Lisboa, d. Duarte chegou ao Brasil em maio de 1553 para substituir Tomé de Sousa. Veio com seu filho, d. Álvaro, e mais 260 pessoa.s, entre elas o noviço José de Anchieta. Um conflito entre d. Álvaro e 0 primeiro bispo do Brasil, d. Pero Femandes Sardinha, está na origem de toda a desordem que pelos cinco anos seguintes marcou o govemo de d. Duarte. Disposto a apresentar suas queixas ao rei, o bispo Sardinha partiu para Portugal em maio de 1556. O navio em que viajava naufragou em Alagoas e o bispo mais 91 náufragos foram devora­ dos pelos caetés (gravura à esquerda) , mais tarde exterminados por Mem de Sá. O conflito de d. Duarte com os jesuítas remanescentes era provocado pela oposição dos padres à escravização indiscriminada dos índios — especialmente os cristianizados. A uma administração nefasta e corrupta veio somar-se o dilema originado pela chegada de Nicolas Durand de Villegaignon e 80 franceses ao Rio de Janeiro. Duarte da Costa preferiu.a omissão ao confronto. Em 1556, em carta enviada ao rei. a Câmara da Bahia implorava por sua substituição. Ela não tardou. De volta ao reino, d. Duarte não foi punido nem sequer criticado. Depois dos três primeiros governos gerais, a corte concluiu que a tarefa de comandar o Brasil era pesada demais para um homem só e dividiu o país em dois. Com sede no Rio de Janeiro, o govemo do Sul administraria o território abaixo de Porto Seguro. O gover­ no do Norte continuou com sede em Salvador. Em 1578, o govemo foi novamente unifi­ cado e assim continuou até 1719.

E

32

H i . s t ó r i . \ d o B r .\S 1L


Os

J e s u í t a s

IG N A C IO DE L O Y O LA Soldado por herança e vocação,

e sp o jad o s ou a rg en tário s? E sc rav o c ratas ou liberais; lib ertin o s ou lib e rtário s? S antos ou santarrões? Passados quase cinco séculos, o pa­ pel d esem penhado pelos je su íta s no B rasil-colônia perm anece im erso em polêm ica. De 1549, quando de­ sem barcaram na Bahia, até 1759, quando, através das artim anhas do m arquês de Pom bal, foram expulsos de Portugal e de suas colônias, os jesuítas se revelaram uma das forças m ais ativas na conquista e civilização do Brasil. Sem eles, a em presa colonial teria outros rum os e outros destinos — quais, é quase im possível supor. Julgar a obra jesuítica à luz de conceitos atuais, porém , é incorrer num erro tão gritante quanto o dos pró­ prios padres quinhentistas em sua pretensão de avaliar a m entalidade e os costum es indígenas de acordo com as crenças e os dogm as da Europa do século 16 — um a época m arcada pela intolerância re­ ligiosa, pela reconquista e o etnocentrism o. Desde o início, a controvérsia esteve no âm ago da ação jesuítica, já que, em bora antagônicos, catequese e colonialism o andaram sem pre juntos. O s jesuítas lutaram contra a escravização dos indígenas, m as o plano de catequização que puseram em prática — e a consequente con­ centração dos índios em aldeam entos ou “m issões”— não apenas resultou em tragédia com o facilitou a ação dos escravagistas. O s próprios jesuítas, N óbrega à frente, tinham escravos e acreditavam na doutrina aristotélica da servidão natural de povos “inferiores” . Para defender os índios, estim ularam o tráfico de africanos. M as, quan­ do a paz que tinham firm ado com os tam oios foi rom pi­ da pelos colonos, os padres nada fizeram .

D

Os jesuítas se em penharam em subm eter os índios o espanhol Ignacio de Loyola, aos rigores do trabalho m etódico, aos horários rijos, ao nascido em 1491, abandonou a latim e à m onogam ia. C om bateram o canibalism o, a po­ carreira das armas quando, lig am ia e o nom adism o e acabaram re sp o n sá v eis pela convalescendo de um ferimento extinção de várias tribos. No entanto, graças à ação evan­ recebido na guerra entre Espanha e gélica, a língua e a gram ática tupi foram preservadas. Na França, teu uma “Vida de Cristo". verdade, nada reflete m elhor a incongruência que marcou Apesar de manco, tom ou-se um a obra dos jesuítas no Brasil do que a fundação de São peregrino incansável. Em 1539, Paulo {gravura acim a). D isposto a catequizar os guaranis depois de ter ido à Terra Santa do Paraguai, o padre N óbrega autorizou o e stab eleci­ e ser duas vezes preso pela m ento de um posto avançado no planalto. Mas São Paulo Inquisição, decidiu fundar a acabou virando um pólo escravagista. e dali os jesu í­ Companhia de Jesus. Estabeleceu tas cedo foram expulsos. N óbrega jam ais recebeu um modelo militarizado para a ordem, imaginado como um grupo autorização para enviar uma m issão ao Paraguai, de combate à Reforma. O Brasil onde a obra de cateque.se seria levada a cabo pe­ fo i a primeira província além-mar los jesuítas espanhóis e, a seguir, destroçada pelos da companhia. Morto em 1556. bandeirantes paulistas. O que m ais im pressiona no inventário dos feitos dos Loyola fo i canonizado em 1622. jesu ítas no B rasil, entretanto, é o núm ero extraordina­ riam ente pequeno de hom ens responsáveis por eles: de 1549 a 1604, apenas 174 padres estiveram no país. Entre eles, personagens com plexos com o M anuel da N óbrega, m itológicos com o José de A nchieta, incansáveis com o Leonardo N unes, o “Padre Voador” , e m isteriosos com o Pero Correa (rico escravocrata que largou tudo para se dedicar à ordem ). Acim a de todos, porém , paira a figura m ajestosa de A ntônio Vieira, o m aior dos oradores da língua portuguesa. Não fossem as cartas e relatórios m i­ nuciosos desses hom ens — os jesuítas praticam ente não davam um passo sem registrá-lo— , seria praticam ente im possível reconstituir a história do Brasil-colônia.

OsJesuítas 33


A E v a n g e l iz a ç ã o 'T 'm a d é ca d a d ep o is da fu n d ação da C o m p an h ia de Jesus, em R om a,

I

do

B r asil

A tragédia da B ahia não im pediu que N óbrega c o n ti­

e q u a se m e io séc u lo a p ó s a c a rta d e P ero Vaz d e C am in h a ao rei

nuasse m antendo excelentes relações com M em de Sá. nem

d. M an u e l, na q u al o c ro n is ta re s sa lta v a q u e o m e lh o r fru to que

q ue seu fiel com p an h eiro . A nchieta, d edicasse um longo

dessa terra se po d eria tirar era “ a salv ação do s ín d io s", os seis p rim eiros

pt)em a épico ao governador. Emb<ira praticam ente

je su ítas desem b arcav am no B rasil ju n to com o g o v em ad o r-g eral T om é de

autônom os, já que p recisavam se rep o rtar apenas a

S ousa, liderad o s pelo padre M anuel da N óbrega. P raticam en te d esd e o p ri­

R om a, os je su ítas prcK uravam p roxim idade com o

m eiro dia. 29 de m arço de 1549, padres e colo n o s entraram em choque, com o

p oder colonial, especialm ente porque, no B rasil, a

pastores lutan d o pt)r um a m anad a arredia. Para os co lo n o s, os índios eram

o rdem era suste n ta d a com fundos enviados

m ão-de-ob ra in d isp en sáv el, barata e .servil — m ero gad o hum ano. Para os

pelo rei de Portugal. Q uando os colonos d e s­

je su íta s, eram um reb an h o d esg arrad o q u e p recisav a ser co n d u zid o ao seio

c obriram que os je su ítas eram financiados

da cri,standade. T anto je su ítas c o m o c o lo n o s, porém , e x ig iam dos índios o

pelos im postos que eles pagavam — e

c u m p rim en to da m esm a tarefa: o cu ltiv o da terra. O s co lo n o s o faziam dc

que. além de p o ssu ir e scravos e vastas

form a brutal, im ed iatista e escrav o crata. O s je su ítas, cm troca do caiequis-

exten.sões de terra, a C o m p an h ia de

m o. esperav am trab alh o o rg an izad o e m etó d ico cm suas plantações. O e x ce ­

Jesus ainda esp e c u la v a no m ercado de

d en te da p ro d u ção ag ríco la seria fo rn ecid o aos co lo n o s no regim e de esc a m ­

a çú car— , a revolta contra os p adres e x ­

bo, sup erv isio n ad o pelos p ró p rio s padres. E ntre 1557 e 1561, no g o v e rn o de M em de Sá. os je su íta s ag ru p aram 34

plodiu de vez. De todo o m odo. a obra dos je su íta s — seus colégios e m issões—

mil índios em 11 ald eam en to s ao red o r de Salvador. M as, em 1562. q u an d o

ab riria novos territó rio s para a

M em de Sá d e creto u " g u e rra ju s ta " aos c ae té s — q u e. a n o s an tes, h aviam

co lo n iz aç ã o {m apa à direita).

d ev o rad o d. F ero F em an d es Sardinha, p rim eiro bispo do B rasil— , os c o lo ­

A lém d isso , n ã o fosse a

nos, sob pretex to de c ap tu ra r caetés c ateq u izad o s, atacaram os ald eam en to s

a tu ação dos padres, e s­

e escrav izaram 15 mil índios. O p io r e stav a p o r vir: em fins de 1562 iniciou-

p ecialm ente N óbrega e

se um a e p id e m ia d e v a río la q u e m ato u o u tro s 15 m il a ld e ad o s. M u ito s dos

A nchieta, no e p isó d io de

4 .0 0 0 índios restan tes en treg aram -se d e lib erad am en te aos co lo n o s p ara não

Ipcroig. a c iv iliz a çã o lusa tal­

m orrer de fom e. Foi o fracasso definitivo das “ m issões" cm terras brasileiras.

vez tivesse sido varrida de vez do

A experiência se repetiria, anos d epois, no P araguai, no Tape. no Itatim e no

país. a b rindo defin itiv am en te as portas

G uairá, trazen d o co n seq u ên cias ain d a m ais funestas.

para um B rasil francês.

34

H

lstó ria d o

B r a sií .

Laguna (1 Araranguá Embitibo

(1605)

/


N óbrega

e

A n c h ie t a

" " ü instante em que en tro u em sua cabana, na praia de Iperoig (hoje U batuba, litoral norte de S ão Paulo), o cacique P indobuçu deparou com o p róprio fi­ lho. P aran ap u çu , e cin co g u erreiro s tam oios o lhando, atônitos, para os dois h o m en s de p reto à fren te d eles. U m rezav a, a jo e lh a d o e trêm u lo . O ou tro d is­ cu rsav a. n erv o so e veem ente, em c la ro e bom tupi. Pindobuçu não p re ­ cisou im p ed ir que o filho m atasse os dois reféns: o c o m p o rta m e n to de N ó b rega e A nchieta já tinha co n v en cid o os tam oios a d e sistir do seu intento. A nchieta e N óbrega, os d o is líderes d o s je su ítas no B rasil, eram “ hósLOCALIZAÇÃO DAS PRINCIPAIS MISSÕES s u ít ic a s e s u a Á r e a DE INFLUÊNCIA

'

'

João Pessoa (1585) Olinda (1550)

(ledes” de P indobuçu d esde 23 de abril de 1563. T inham vindo de S ão V icente tentar um acordo de paz com os tam oiosxjue, me.ses antes, qua.se haviam d e stru íd o São Paulo. A lia­ do s com os franceses, os tam oios tinham agora

m ais de 2 00 canoas e 5.(KX) g u erreiro s e talvez p u d e s­ sem ate e x p u lsa r os p ortugueses d o Brasil. D e início, Pindobuçu fora c ontra a p resen ça de N óbrega e A nchieta em sua aldeia. D epois, decidiu aceitá-los. pois concluiu que "d ev iam m esm o ser santos, e m ais poderosos que n ossos pajcs. pois nos fazem c u sp ir sangue, ter tosse, do r de cab eça, febre e outras calam idade.s” . E nquanto em issário s indígenas neg o ciavam a paz em S ão V icente, A nchieta e N ó­ b reg a p erm an eceram em Iperoig. C erto dia, q u an d o cam in h a ­ vam pela praia, os do is je su ítas foram p e rseg u id o s p ela can o a do filh o de P in dobuçu, que voltava do R io de Janeiro. N óbrega, de 46 an o s, tentou correr, m as c om o co stu m av a se aço itar e sem ­ pre ou je ju a v a ou .só co m ia a bóboras, não con.seguiu. A nchieta q u is c a rre g á -lo , m as e ra c o rc u n d a e n ã o pô d e fa z ê-lo . A in d a assim , am b o s c h eg aram até a cab a n a de P indobuçu — só que o c aciq u e que ju ra ra p rotegê-los esta v a fora. Q u ando os inim igos os alcan çaram , ficaram surpresos com as rezas e p rantos e d e sis ­ tiram de m atá-los. p elo m enos no ato. Im possível im a g in a r o que teria a co n tecid o sc Pindobuçu não tivesse c h eg a d o — e m ais in v iá ­ vel ainda su p o r que ru m os tom aria a h istó ria d o B rasil se A nchieta e N óbrega tives.sem sido m ortos. N aquele 28 de m aio de 1563, os R e i^ -M a g o s

tam o io s -—co lig ad o s com os c arijós e com as tribos do Vale

É ^ l r i t o S a n to ( 1 5 5 1 )

Paraíba e te ndo ainda o apoio d o s franceses— estavam com todas as v antagens. P oderiam e sm a g a r a re sistência dos

portugue.ses. M as os c aciques o ptaram pela paz. soltaram N óbrega (A n ch ieta p erm an eceu co m o refém até 14 de .setem bro de 63 ) e, e m b o ra não sou­ bessem , decretaram o fim de sua tribo. A ssim q ue fortificaram suas defesas e e x p u l­

íJa tit^ ro

, (1 5 5 2-1560) ntos (1^49-1550)

saram os franceses do Rio. os p tirtugueses rom peram a trég u a e atacaram os tam oios de Iperoig, e scrav izan d o os que não foram m ortos. A nchieta e N óbrega não di.sseram um a única p alav ra em d efesa da trib o de P indobuçu. A m bos co n sid e ra v a m a q u ela um a g u erra ju s ta e. ta n to p ara N ó b re g a e A n c h ieta c o m o para os d e m a is je s u íta s , q u a n to m ais índios hostis fossem e scrav izad o s tanto m ais alm as para s a lv a r

O S A P Ó S T O L O S D O B R A S IL

6)

"Deus me pre/nirou para carregar fardos ”, escreveu Anchieta ao chegar ao Brasil em I55J. Não era figura de linguagem: ele era corcunda. O fa to de 1er as costas "dcsencadernadus " não o impediu de manter um ritmo incansável por mais de 40 anos. Falava lupi com fluência e. emhora tido por santo, dos índios disse: "Para es.se gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro".

Um desgosto levou Manuel da Nóhrega (1517-1570) a se fd ia r ò Companhia de Jesus. Filho da pequena nobreza e bacharel em Direito Canônico pela Universidade de Coimbra, não foi aceito no corpo docente por .1er gago. " Vendo que o mundo o desprezava, fez propósito de o de.iprezar a ele ", disse um contemporâneo. Diplímuitu o e comedido, emhora também "trôpego e rude". Nóbrega fo i o grande líder dos jesuítas no Brasil.

afc o

PO EM A NA A REIA

Embora seu legado não possa .ser comparado em ressonância e estilo ao do padre Antônio Vieira, a obra de José de Anchieta ( I5J41597) marca o início da criação literária no Brasil. Ao hmgo de quase meio século, Anchieta escreveu e versejou em latim, português, espanhol e tupi. Fez canções, hinos, numólogos, diálogos, sermões, poemas épicos e religiosos, autos e peças teatrais. Nascido nas Canárias, Jilho de pai basco, teria aprendido o lupi rapidamente pela .semelhança entre a sintaxe das duas línguas. Escreveu uma ""Gramática Tupi", utilizada anos a fio. Anchieta não usou apenas vários kliomas: usou duas linguagens. Ao fazer das letras um instrumento de catequese, submeteu seu estilo aos desígnios religiosos —rígidos, autoritários e didáticos. Ainda assim, eventualmente, deixou-se levar pelo di.scurso subjetivo e místico, cujo valor literário começa a ser redescoberto. Desses poemas religiosos, o mais fam oso é “De Beata Virgine Dei Matre M aria" (Poema da Bem-Aventurada Virgem Mãe de Deus Maria), de 5.7S6 ver.so.s, que Anchieta escreveu na areia da praia de Ubatuba, quando era refém dos tamoios e que “fe z voto de consagrar à Virgem se c<msegui.s.se suplantar incólume as tentações da carne ”. A lenda, preservada pelo padre .Simão de Vasctmcelos —biógrafo que mitificou episódios da vida de Anchieta— , diz que o jesuíta "saía-se à praia do mar. e ali. junto ao brando murmurar das águas, passeando com os olhos no céu. compunha os versos, e logo. virando-se à praia, fazia dela branco papel em que os escrevia com uma vara. para melhor metê-los na memória, pois que não tinha nem papel, nem tinta, nem pena". Já Manuel da Nóbrega fo i mais um político do que um literato, embora tenha escrito muitas cartas e um ríspido "Diálogo .sobre a Conversão do Gentio".

Os Jesuítas 35


As M i s s õ e s 1

ram cerca de 60 povoados, alguns com mais de 5.000 As prim eiras reduções — Loreto e San Ignacio, am bas habitantes, dispersos num a área de 450 mil km% cer­ às m argens do rio Paranapanem a— foram fundadas em c e a d o s por ervais frondosos e imensos rebanhos. A ta­ 1609. M arcam o início da prim eira fase das m issões guacados im placavelm ente por mais de uma década, de 1628 a raníticas, que se estenderia até 1641, quando os índios 1641, rena.sceram das cinzas com viço e vigor redobrados. foram autorizados pelos padres a enfrentar os bandeirantes Por volta de 1700, restavam apenas os Trinta Povos, mas lá paulistas, vencendo-os na batalha de M ’bororé. Ao longo viviam cerca de 150 mil almas. No auge de seu poderio ur­ dessas cinco prim eiras décadas, os jesuítas fundaram mais bano, econôm ico e artístico, porém, as fabulosas reduções de 50 reduções, no Guairá (entre os rios Paranapanem a e voltaram a ser arrasadas — e, então, para sempre. Iguaçu), no Itatim (à m argem esquerda do rio Paraguai), no Passados dois séculos e m eio, a experiência que, du­ Tape (oeste do Rio Grande do Sul) e entre os rios Uruguai rante 150 anos, os jesuítas realizaram com os guaranis, no e Paraná (no Rio G rande do Sul e na Argentina) Paraguai, Paraná, M ato Grosso, norte da A rgentina e oeste Das reduções criadas no alvorecer do século 17 não res­ do Rio G rande do Sul, ainda desperta a.ssombro e inflam a a tam vestígios — elas eram com o a de San Francisco Xavier, polêm ica. Foi assim desde o início: os filósofos Voltaire, que o padre alem ão Paucke descreveu em 1650: “As ca­ D iderot, M ontesquieu e Bacon deram opiniões sobre o pro­ banas de palha dos índios, de dois m etros e meio de altura, jeto m issioneiro. Reis, papas e generais o discutiram . Por são separadas por um trilho de lam a fedorenta. A igreja e fim. dois im périos se uniram para derrotá-lo. as habitações dos padres são de couro e parecem tendas de Qual. afinal, o significado das m issões jesuíticas do Pa­ ciganos. A igreja tem teto de palha, o sino é preso num raguai? Foram de fato um projeto com unista? Sua criação poste e o altar é de tijolos de barro cozidos ao sol” . baseou-se na “Utopia” , de Thom as M orus? Ou o m odelo Essa fase inicial das m issões encontrou na figura dos literário que inspirou os jesuítas teria sido a “República”, de padres Roque G onzález e R uiz de M ontoya .seus dois he­ Platão, ou a “C idade do Sol”, de Cam panela? Até que pon­ róis épicos. G onzález, desbravador do Tape, “pajé branco” , to a obra dos padres foi hum anitária? Não teria sido antes o agricultor, arquiteto, polem ista e orador, foi m orto num a cam inho m ais curto para o genocídio guarani? consp iração urdida pelo pajé d estronado N essu. R uiz de M ilhares de páginas já foram escritas, mas as missões M ontoya. o apóstolo por excelência, realizador incansável, se m antêm um enigm a — senão histórico, pelo m enos ideo­ foi o articulador do grande êxodo de 1630, quando condu­ lógico. Lajes escarlates e m uros hirtos, suas ruínas, carco­ ziu 10 mil índios em 700 barcos e balsas por 300 quilôm e­ m idas pelo tem po e pelos cipós, ainda hoje visitadas por tros, rio e selva abaixo, para além das cataratas do Iguaçu e guaranis, apenas acentuam os tons do mistério. para longe da am eaça dos “terríveis pauli.stas” .

E

Além da aptidão musical, cujo legado se perdeu, os guaranis das m issões revelaram, em m ais de 2.000 obras, um evidente talento para a escultura. Em bora a m aior parte das peças, talhadas em cedro, tenha sido destruída, roubada ou perdida, as três centenas de estátuas restantes são o testem unho eloquente do estilo que tem sido cham ado de “barroco-jesuitico-guarani ", desenvolvido pelo s índios m issioneiros sob a rígida batuta dos jesuítas.

56

H is tó r i.a d o B r a s i l


m archa épica de 10 mil índios pelas flores­ tas e corredeiras selvagens do Paraná e do Iguaçu — que co b raram pelo m enos 2.000 vidas, além dos 4.000 fugitivos que preferiram se em brenhar na m ata a continuar naquela jo rn ad a d e ­ sesperada— não foi 0 único preço que os jesuítas tiveram de pagar por um século de paz. Haveria ain­ da outro custo, em bora este viesse a ter o doce sabor da vingança. Em 11 de m arço de 1641. no arroio M ’bororé, um afluente da m argem direita do U ru­ guai (hoje em território argentino, m as nunca ple­ nam ente identificado), os guaranis depararam com m ais um a bandeira de paulistas. D esta vez, porém , arm ados com canhões de bam bu e com o apoio dos padres, venceram o confronto, m atando mais de 200 m am elucos (leia em "Os B andeirantes”, pág. 43). A quele viria a ser o últim o ataque dos tem íveis ca­ çadores de hom ens. Reagrupados na m esopotâm ia dos rios Paraná e Uruguai, os jesuítas, então, deram início ao restabelecim ento das m issões. Em 11 décadas de paz, o projeto atingi­ ria .seu ápice, e am plas cidadelas de basalto e m adeira nobre, basicam ente araucária, foram erguidas na verdejan­ te planície sulista. Em cada um dos cha­ m ados Trinta Povos G uaranis viviam de 1.500 a 12 mil índios. Havia apenas dois je.suítas em cada redução; o cura e seu vigário. Ainda assim , ali a vida cotidiana se assem elhava à de um quartel; o sino tocava antes de o sol raiar e a m issa era celebrada para todos. Depois da distribuição de papa de m ilho, as crianças a partir de 7 anos iam à escola. Ao redor do colégio se erguiam as oficinas dos artesãos. O s trabalhos com eçavam por volta das 7 da m anhã — m esmo horário no qual, cantando e portando piedosos estandartes, os lavradores partiam para a faina nos cam pos com unais, os Tupa'm hê (ou Terras de Deus). Por volta das 11 horas, descanso para o alm oço. As tardes, em geral, eram dedicadas ao cultivo na terra da fam ília, às aulas de m úsica e latim e, é claro, à catequese. Ao pôr-do-sol, todos .se recolhiam . O projeto arquitetônico refletia claram ente esse am biente m onástico e m ilitante; eram duas centenas de alojam entos dispostos num plano rigidam ente geom étrico ao redor de um a igreja im ponente. Não eram alojam entos coletivos; dentro deles, cada fa­

A

m ília tinha sua cela individual, já que um a das prin­ cipais lutas dos padres era contra a poligam ia. O cam panário, o cem itério e roças co m pletavam o quadro (com o na m aquete de São M iguel, abaixo) — “quem viu um a viu todas” , diria um visitante, em 1789. O projeto era um a reinvenção autoritária da paisagem e do espaço. Na própria e.scolha do nome que batizou a em presa, o plano dos jesuítas se es­ clarecia; em latim e em esp an h o l, “ red u çã o ” sig­ nifica reagrupar o que se encontra disperso. A idéia, portanto, era “reduzir [ou reunir] os guaranis à vi­ da cívica e à Igreja” . A experiência não foi pioneira; além da desas­ trada tentativa de Nóbrega e Anchieta na Bahia, os jesuítas espanhóis já haviam “reduzido” os mojos e chiquitos do Peru (para alguns autores, o “com unis­ m o” agrário e teocrático das m issões se baseou no m odelo inca). A questão que m ais diferenciou os Trinta Povos G uaranis — acentuando suas contradi­ ções e precipitando seu trágico desfecho— foi 0 fato de eles se localizarem na fronteira entre dois im périos em ex­ pansão. Eram quase um Estado-tam pão. Sua história está resum ida nos m apas à direita; em 1750, época da expansão m áxim a do espaço m issio­ neiro (mapa 1, área laranja), Portugal e Espanha assinaram um acordo trocando a Colônia de Sacram ento pelos Sete Povos que fica­ vam na margem esquerda do rio Uruguai (mapa 2). Padres e índios receberam um ultimato; deveriam cruzar o rio e abandonar suas terras em seis meses. Com o houve resistência, logo estourou uma guerra guaranítica. Em 2 de fevereiro de 1756, os e x érc i­ tos de Portugal (co m an d ad o p or G om es F reire de Andrada) e Espanha, unidos e com cerca de 3.000 hom ens, m assacraram 1.511 guaranis mal arm ados, na coxilha de Caiboaté (RS). Três dias antes fora m orto, num a em boscada. Sepe Tiaraju, líder e m ár­ tir guarani. Os Sete Povos foram abandonados, mas os aço­ rianos trazid o s para o cu p á-lo s não puderam fazêlo, já que em 1761 e 1777 haveria m ais guerras e novos tratados (m apas 3 e 4). D epois da guerra de 1801, os lim ites ficaram próxim os dos atuais (m a­ p a 5). M as os jesu ítas já tinham sido expulsos da A m érica, e dos Trinta Povos só restavam escom ­ bros cham uscados.

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Os Jesuítas 37


P e r se g u id o r e s

e

P e r se g u id o s

M ARQ UES DE PO M BAL o dia 26 dc fevereiro dc 1759, um panfleto cham ado "N o­ tícias Interessantes", publicado em Lisboa, anunciava: "Os jesuítas estão prestes a ser todos expul.sos deste reino. As outras potências poderiam bem im itar Portugal. Esses senhores levaram muito longe sua ambição e seu espírito subversivo. Eles pre­ tendiam dominar todas as consciências, e invadir o Império do Universo". Seis meses mais tarde, a "profecia" se realizava: 432 jesuítas eram deportadtis para Roma. onde foram relutantemente acolhidos pelo papa Clemente 13. O falo de “Notícias Interessantes” ter antecipado a infor­ mação não causou surpresa: a população sabia que, embora redi­ gidos por um abade que abandonara a batina, os libelos eram obra de Sebastião José de Carvalho e Melo. E ninguém desco­ nhecia que. além de ser a figura mais influente do reino, o futuro marquês de Pombal era também o mais ferrenho inimigo dos je ­ suítas. Filho da pequena nobreza. Pombal subira na vida depois de raptar e se casar com uma viúva rica. Em 1750. após anos co­ mo diplomata em Londres, virou ministro do rei d. Jo.sé 1°. Em bora despótico e cruel, logo a.ssumiu o controle da nação e. m esm o em pregando parentes e distribuindo propinas, foi um adm inistrador ativo. Incentivou a agricultura e a viticultura, e n ­ dureceu a política fiscal, criou monopólios, combateu os nobres e favoreceu os comerciantes e pôs no ptxler tecnocratas “estrangeirado.s” . Reconstruiu Lisboa após o terrem oto dc 1755 — com o ouro brasileiro. No Brasil, estabeleceu limites, em an­ cipou os índios (para afastá-los do controle dos jesuítas) e criou companhias de comércio. Acima de tudo. porém, manteve seu "propósito obsessor": destruir a Companhia de Jesus. Dois foram os pretextos encontrados por Pombal para con­ cretizar suas intenções: primeiro, o suposto estímulo dos jesuítas à resistência dos índios no episcxiio dos Sete Povos das M issões. Depois, um atentado ao rei d. José, no qual Pombal vislumbrou a influência dos jesuítas. No dia 16 de setembro de 1759, os inacianos foram expulsos de Portugal. Em 14 de março de 1760, os prim eiros 119 dos 550 padres que estavam no Brasil tam bém eram deportados. Uma vez em Lisboa, foram jogados nos cala­ bouços mais insalubres, juntando-se aos ex-confessores da fam í­ lia real e aos padres que tinham txrupado cargos públicos — pre­ sos sem julgam ento nem acusação formal. Em 1767, os jesuítas seriam expulsos também da França e da Espanha e, em julho de 1773, o papa Clemente 14 extinguiria a Com panhia de Jesus. Era a vitória definitiva de Pombal. M as ele teria apenas quatro anos para fe,stejá-la: em 1777, com a morte de d. José T, subiu ao tro­ no d. M aria I*, a rainha louca. Pombal caiu em desgraça. M orto e m ,1782, só foi enterrado em Lisboa em 1836: seu corp<i ficou mais de meio século abandonado na cripta da quinta onde vivera seu exílio. Em 1814, a Com panhia de Jesus renasceria.

N

o SANTO O FIC IO NO BRA SIL 1

m bora para algum as alm as mais Ao contrário do que houve no Peru, o crédulas os trópicos estivessem de tribunal nunca chegou a ser instalado no J tal form a im pregnados pelo mal que Brasil, onde houve só “ visitações” . Em sua "por obra do próprio dem ônio o nome de perm anência de quatro anos no país. Furtado Santa Cruz foi substituído pela voz bárbara percorreu as capitanias da Bahia, Pem am ­ de Brasil", a m aioria dos degredados e colo­ buco, Itam aracá e Paraíba. Ao desembarcar, nos com ungava da crença segundo a qual ele instaurava o “Édito da G raça” : um perío­ “não existia pecado ao sul do Equador” . De do de 30 dias durante o qual os fiéis podiam acordo com o relato estupefato do padre confessar esp<intaneamente suas culpas, es­ N óbrega, feito dez anos depois da chegada capando dos castigos corporais ou do con­ à Bahia, “se contarem todas as casas desta fisco de bens. A seguir, vinham as "denunterra, todas acharão cheias de pecados m or­ ciaçõcs” . Na Bahia, cm dois anos, houve tais, adultérios, fornicações, incestos e abo­ 133 “culpas, confessadas ou denunciadas” . m inações (...) não há obediências, nem .se Entre elas, 29 blasfêm ias. 19 sodom ias, qua­ tro “pactos com o diabo”, uma “defesa pú­ guarda um .só m andam ento de Deus e m uito m enos os da Igreja” . blica da fornicação" e um "fornecim ento de A libertinagem e a anarquia .sexual so­ armas a índios inimigo.s” . freriam, porém, um duro golpe em junho de A frouxidão que caracterizou a ação do 1591. Foi quando chegou ao país o desem ­ Santo O fício no Brasil, m uito mais do que bargador Heitor Furtado M endonça, o pri­ a “benevolência" da instituição, pode ser atribuída às circunstâncias com as quais o m eiro visitador do Santo Ofício. Um a das m ais fam igeradas instituições da hum anida­ tribunal deparou: a terra era vasta e inculta; de, a Inquisição se instalara em Portugal em o povo. analfabeto e m estiço. As sutilezas 1536, por exigência pessoal do rei d. João 3°. teológicas criadas pelo C onselho de Trento O prim eiro auto-de-fé e o prim eiro herege eram ignoradas no trópico. queim ado em praça pública vieram em se­ Na verdade, o principal m otivo para o guida. Em breve, a paranóia, as delações e as desem barque dos horrores persecutórios da torturas seriam exportadas para as colônias Inquisição num lugar onde “não existia pe­ portuguesas de além-mar. Ainda que o Bra­ cado” esteve diretam ente ligado ao aum en­ sil tenha assistido a manifestações de histe­ to da população de cristãos-novos no país. ria — com o a do padre Luís da Grã, que, em A m aioria deles m antinha relações com a 1591, denunciou um certo Fem ão Rodrigues Holanda, em guerra contra a Espanha, cuja C oroa havia absorvido a de Portugal. Por por ter, numa procissão, dado “consolações e cousas doces” aos figurantes que represen­ isso, em 1592, o maior crim e que se podia tavam os fariseus “e nada ao que representa­ com eter no Brasil seria praticado por aque­ va o Cristo”— . 0 Santo Ofício agiu com le que, aos sábados, ousasse trajar “o m e­ brandura no país. lhor vestido que tinha” .

E

38

H i s t ó r i a d o B r .\s il


As O u t r a s O r d e n s pesar de terem sido os m issio­ nários mais ativos e influentes da história do Brasil, os jesuí­ tas não foram os primeiros nem os úni­ cos a atuar no país. Na frota de Cabral vieram oito franciscanos, entre os quais frei d. Henrique, que rezou a primeira missa cm terras brasileiras. Ao longo dos primeiros séculos, os franciscanos continuaram sua obra no Brasil. Mas, com o sempre se mantiveram ao lado do poder colonial, não se envolveram em polêm icas com o os jesuítas. Benzendo engenhos e senzalas, perdoando, justi­ ficando e até prom ovendo a escravidão e o ataque aos índios “hostis”, forne­ cendo capelães que acom panhavam os bandeirantes ao sertão, os franci.scanos acabaram por constituir a ordem reli­ giosa mais afinada com os desígnios do colonialismo. Não se pode dizer o m esmo dos ca­ puchinhos — a dissidência radical dos franci.scanos que estabeleceu sua pró­ pria ordem em 1.584. Os dois capuchi­ nhos mais atuantes na história colonial do Brasil foram os franceses Claude d ’Abbeville e Yves d'E vreux. Ambos chegaram ao Brasil em 1612. na trilha aberta por André Thevet — o padrecosm ógrafo que acom panhou Ville­ gaignon ao Brasil, em 1555. e celebrou a prim eira mis.sa no Rio de Janeiro (re­ presentada na gravura ao lado. Leia mais sobre Thevet abaixo). No M ara­ nhão, meio século mais tarde. D 'A bbe­ ville desem penhou o m esm o papel de Thevet: foi o cronista de uma ousadia fracassada, a fundação da França Equinocinal (veja o capítulo "A A m eaça E xterna", pág. 49).

A

Além de jesuítas e franciscanos, as duas outras ordens religio.sas clá.ssicas tam bém atuaram no Brasil; os carm e­ litas e os beneditinos. Vieram a pedido dos próprios colonos, que traziam de Portugal as devoções predom inantes em suas regiões de origem. O s carm elitas se estabeleceram oficialm ente no Brasil em 1580; che­ garam acom panhando a expedição de Frutuoso Barbosa, que conquistou a Paraíba. Os beneditinos vieram no ano .seguinte e fundaram um a abadia na Bahia em 1584. Porém, a ordem nunca se interessou pela obra m issionária e seus integrantes em geral se dedica­ vam à vida contem plativa, vivendo em m osteiros opulentos. Um levantam ento feito em 1871 mostrou que. além de m uitos prédios urbanos e im ensas fazendas, os bene­ ditinos possuíam tam bém 4.(X)0 escra­ vos. Não eram os únicos; a prática fora inaugurada pelos próprios jesuítas já em 1549. N ão é nenhum a surpresa, portan­ to, que em 1883 Joaquim N abuco te­ nha escrito, em seu livro clássico “O A bolicionism o” ; “G rande núm ero de padres pos­ suem e.scravos sem que o celibato cle ­ rical o proíba. Esse contato, ou antes contágio, de escravidão deu à religião, entre nós. o caráter m aterialista que ela possui, destruiu-lhe a face ideal e tiroulhe toda a possibilidade de de.sempenhar na vida social do país o papel de um a força consciente. Nenhum padre nunca tentou im pedir um leilão de es­ cravos nem condenou o regim e reli­ gioso das senzalas” .

s martelada.s com as quais Martinho Lutero pregou, na por­

Publicado em 1557, o livro de Thevet foi o .segundo a trazer

ta da capela do castelo de Wittenberg, Alemanha, a.s "95 Tese.s” . que, em 1517, rach;iriam para sempre a unidade do cristia­

ilustrações, feitas pelo próprio autor, representando índios, ani­

A

mais e plantas do Brasil. O suces.so da obra ajudou Thevet a ficar

nismo. ecoaram, 50 anos depois, no esplendoroso anfiteatro da

famoso. Além de confessor da rainha Catarina, tomou-se também

baía de Guanabara no confronto entre o franciscano André Thevet

"guardião das curiosidades do rei” . Mas sua obra científica seria

e o calvinista Jean de Léry. Thevet e Léry foram os dois maiores cronistas da França Antártica, a de.sastrada aventura francesa de

turvada por uma grave acusação: ter incentivado, em agosto de

Villegaignon no Rio de Janeiro. Embora se tomassem inimigos

1572, o inas.sacre dos protestantes, na Noite de São Bartolomeu. Jean de Léry, simples sapateiro. na.scido em 1534, tomou-se

eternos, ambos escreveram livros extraordinários e pemianecerão unidos para sempre, num posto de absoluto destaque, na histo­

um dos discípulos de Cal vino e, em novembro de 1556, embarcou para o Rio na missão comandada pelo sobrinho de Villegaignon,

riografia brasileira. Esses dois irreconciliáveis inimigos de fé não

Bois-le-Comte. Chegou ao Brasil em 16 de março de 1557. Ficou um ano no país e interessou-se vivamente pelos tupinambás, que

se conheceram pessoalmente; desencontraram-se por apenas 13 meses. Thevet, cosmógrafo e religioso de origem humilde, nasceu em cerca de 1502 e chegou ao Rio em outubro de 1555, com o cro­ nista oficial da expedição de Villegaignon. No dia 31 de janeiro de 1556, desiludido com os rumos religiosos da colônia, retomou à França. Com sua mente minuciosa e detalhista, decidiu registrar os três meses de permanência no Brasil e.screvendo um texto mara­ vilhoso, que batizou de “As Singularidades da França Antártica”.

descreveu e retratou (desenho à direita) no seu “Viagem à Terra do Brasil”, lançado em 1578. No livro, que só saiu 20 anos depois da viagem (porque o original, perdido duas vezes, foi refeito de memória), Léry acusa duramente Thevet. O problema é que Léry só o fez depois que todos os personagens citados estavam mortos. Muitos acusam Léry de plagiar Thevet, o que ele talvez tenha feito. Mas não há dúvida de que fez também uma obra primorosa.

Os Jesuítas 39


A n t ô n io V ie ir a e todas as vozes que se ergueram não apenas em defesa dos índios do Brasil, mas tam bém contra os desatinos e os descam inhos da política brasileira, nenhum a foi m ais fluente, m ajestosa e exata que a do padre Antônio V ieira. E m bora tenha sido o m aior o rador da língua p o rtu ­ guesa e dedicasse boa parte de sua vida à obra m issionária. Vieira foi m uito além da retóri­ ca e da m era caridade. Foi pas­ tor, foi político, foi diplom ata. Pregou nas lonjuras do sertão, pregou no requinte dos salões. Pregou no Vaticano, pregou no deserto. Foi afrontado pelos co­ lonos boçais do M aranhão, foi vítim a dos juizes corruptos da Inquisição. Safou-se redigindo a prim o ro sa a utodefesa. Foi m issionário nas selvas am azô­ nicas. foi m inistro d 'e l rei em Paris, H aia e R om a. C om pôs catecism o em línguas indígenas e .sermões reais de admirável form osura. “Com o pregoeiro da palavra divina, anunciador do futuro, conselheiro dos negó­ cios hum anos, m issionário dos g entios bárbaros, c onsolador dos negros cativos, defensor dos judeus oprim idos”. Vieira foi louvado e desprezado, des­ denhado e aplaudido. Sua voz e seus conselhos encheram o reino, e Vieira se tornou um a das principais figuras da política portuguesa, que ajudou a form ular e a executar. Depois do golpe palaciano que derrubou seu protetor, d. João 4°, de quem fora conselheiro. Vieira caiu em desgraça na corte, foi preso pela Inquisição (1665-1668) e, depois de seis anos em Rom a. retornou ao Brasil, pratica­ mente exilado. Foi na Bahia que viveu os 16 anos finais de sua vida e onde deu o passo que lhe asseguraria a im ortalidade: tratou de editar seus 207 serm ões — um dos tesouros da língua portuguesa.

D

m 1681, ao retomar para a Bahia, depois do apogeu e da que­ da de sua carreira em Portugal, Antônio Vieira descobriu que estava ficando cego. Parecia a derrota final; conselheiro do rei. con­ fessor de rainhas, preceptor de príncipes, agora se via alijado dos jogos políticos do reino, esquecido e desprezado. Seus projetos ha­ viam todos fracassado, e a volta ao Brasil podia ser entendida como um melancólico auto-exílio. No entanto, embora a cegueira conti­ nuasse avançando até se tomar total. Vieira — austero e longevo— ainda teria 16 anos de vida pela frente. E seria justamente esse o f)eríodo que ele usou para dar forma final e editar os 15 volumes com seus 207 sermões. O projeto lhe asseguraria imortalidade lite­ rária e fama intemacional ainda em vida. Mesmo que relutasse em separar palavra e ação, vida e obra, a verdade é que Vieira era. aci­ ma de tudo, um homem de letras. Seu principal legado é literário e, por isso mesmo, transcende as mazelas da política, despreza os descaminhos da história e ignora as vilezas do dinheiro.

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40

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B ra sil

N ascido em L isboa, em 1608, Vieira veio com a família para o Brasil aos 6 anos, em 1614. Aos 15, entrou para a Com panhia de Jesus. Fez sua estréia na vida pública em 1626, aos 18 anos, redigindo uma carta ânua na qual critica­ va frontalmente a ingenuidade (com prom etida e com prom ete­ dora) dos jesuítas ante a voraci­ dade da em presa colonial. Em 1641, já ordenado sacerdote, viajou a Lisboa para prestar fi­ delidade ao rei d. João 4°. Iniciou-se aí uma longa e frutuosa relação. Vieira logo entrou em choque com os dom inicanos que dirigiam a Inquisição, ata­ cando “a cegueira de delírio e o desatino intolerável” de seu tri­ bunal. Saiu em defesa dos ju ­ deus, propondo que Portugal atraísse para o reino os que es­ tavam dispersos pela Europa. Era a favor da liberdade de co­ m ércio e contra o protecionis­ mo. Louvava as virtudes do tra­ balho e atacava o pecado da ociosidade. Quis ser o profeta do m ercantilism o luso e criou uma Com panhia das Índias Oci­ dentais. assentada em capitais judaicos e com o m esmo perfil de sua similar holandesa. Mas a sociedade ibérica não estava preparada para a hegem onia do pensam ento burguês, e Vieira pregava em clim a hostil ou suspeitoso. Seus projetos políticos tam bém falharam; ele não conseguiu uma aliança militar com a França, não conseguiu com prar Pem am buco dos invasores holan­ deses nem um acordo com o invasor. Por fim. não conseguiu casar a única filha do rei de Castela com o príncipe-herdeiro do trono de Portugal, um plano ambicioso que uniria de novo as duas coroas. O reino de Vieira não era o deste mundo. M as o malogro de seus projetos proféticos abriu cam i­ nho para o pleno florescimento do homem de letras.

SERM Õ 1

V .\R i o s .- ...

D . ' f i S i B ’V . t;o 'sS O STíNHOR.

c.

Os dois primeiros volumes dos “Sermões” de Vieira foram publicados em Madri em 1644. Mas era uma edição tão mutilada e cheia de erros que o autor a renegou. “Não são meus”, disse ele, “senão de quem os quis imprimir debaixo do meu nome, para me afrontar ou para ganhar dinheiro”. O primeiro volume sob sua su­ pervisão foi lançado em Lisboa em 1679. Todos os demais foram preparados no Brasil. Traduzidos para o holandês, o italiano e o francês, tomaram Vieira um autor mundialmente famoso. Nada mais justo: repletos de neologismos. impecáveis na forma e no conteúdo, ressoantes de citações das Escrituras e com abrangência prodigiosa no tema e no estilo, seus sermões configuram o apogeu da língua portuguesa. Vieira morreu em 18 de julho de 1697. Com os “óculos do espírito”, sabia “como o mundo e sua glória é uma farsa de comédia, que passa; um entremez, que se acaba com o riso; uma sombra, que desaparece; um vapor, que se desfaz; uma flor, que se murchou: um sonho, que não tem verdade”.


AS B A N D E IR A S

Os B a n d e i r a n t e s les foram os piratas do ser­ tão. Perambulavam pelos J atalhos, pelos planaltos e pelas planícies armados até os den­ tes, com seus sons de guerra e suas bandeiras desfraldadas. Eram gmpos paramilitares rasgando a mata e caçando homens — para além da lei e das fronteiras; para aquém da ética. A sua passagem, restava ape­ nas um rastro de cidades devasta­ das; velhos, mulheres e crianças passados a fio de espada; altares profanados, sangue, lágrimas e cha­ mas. incendiados pela ganância e em nome do avanço da civilização, escravizaram índios aos milhares. Foram chamados de “raça de gi­ gantes” —e. com certeza, eram su­ jeitos intrépidos e indomáveis. São tidos como os principais respon­ sáveis pela expansão territorial do Brasil —e não há dúvida que fo­ ram. Embora tenham sido heróis brasileiros, se tomaram também os maiores criminosos de seu tempo.

E

Em apenas três décadas — as primeiras do século 17— os ban­ deirantes e seus mamelucos ma­ taram ou e.scravizaram cerca de 500 mil índios, destruindo mais de 50 reduções jesuíticas nas regiões do Guairá, do Itatim e do Tape. D esafiaram as leis e os reis de Portugal e da Espanha. Blasfema-

ram contra Roma, foram exco­ mungados pelo papa. Ainda assim, ignoraram as ameaças e só foram contidos pela força das armas. Transform aram sua capital, São Paulo, num dos maiores centros do escravagismo indígena de todo o continente. Mais: fizeram dela uma cidade sem lei —reino de ter­ ror, ganância e miséria. E também o pólo a partir do qual todo o Sul do Brasil pôde, enfim, crescer, de­ senvolver-se e se endinheirar.

Por que justamente São Pau­ lo? Porque a cidade fundada pelos jesuítas estava no centro das rotas para o sertão, porque os carijós do litoral e os guaranis do Paraguai estavam próximos e eram presa fácil e, acima de tudo, porque São Paulo nascera pobre. “Buscar o re­ médio para sua pobreza” — assim os pauli.stas explicavam o motivo que os impelia aos rigores do ser­ tão em busca de “peças”. Nos anos 1940, dois devota­ dos historiadores, Afonso Taunay e Alfredo Ellis Jr., deram início à fabricação do mito bandeirante. Os documentos que acharam e publi­ caram revelam uma saga de horro­ res. Ainda assim, Taunay e Ellis Jr. preferiram foijar a imagem do ban­ deirante altivo e galhardo, como se esses caçadores de homens fossem os “Três M osqueteiros” . Mas am­ bos sabiam que muitos dos ban­ deirantes andavam descalços, mal falavam português e estavam trei­ nados para escravizar e matar.

O nom e: nasceu do costum e tupiniquim de levantar uma bandeira em sinal de guerra. Formação: um capitão-mor. com poder de vida e m orte sobre os com andados, duas a seis dezenas de brancos, duas a quatro centenas de m am elucos e alguns m ilhares de índios, dom ésticos e escravos. Armas: índios e mamelucos, só de arco e flecha. Os brancos usavam mosquetes, pistolas e facas. Roupas: índios e m am elucos m archavam nus ou de tanga. Os brancos iam descalços, de chapéu, calças largas e "coira de anta " — um colete acolchoado. Ritmo da marcha: de 10 a 12 quilô­ metros por dia. A s jornadas podiam durar de seis meses a três anos. Alim entação: farinha, mel. p alm i­ to, caça e pe.sca. Entradas: eram as expedições oficiais de e.xploração do sertão. A rm ações: eram as bandeiras financiadas po r um investidor, o armador, que não ia ao sertão. índios escravizados: 356.720 "peças " em 150 anos. segundo cálculos de Alfredo Ellis Jr Valor das “peças” : em 1628, 20 milréis, ou um quinto de um africano.

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Os C a ç a d o r e s d e H o m e n s 1

mbora o auge das bandeiras tenha A e.scravizaçào dos índios “reduzidos” coincidido com o alvorecer do sécuera rigorosamente ilegal. Mas, vivendo no J \o 17 e se prolongado por lodo ele. o topo do planalto, longe do Brasil litorâneo e apresam ento de índios sempre fez parte da das capitanias bem -sucedidas de história de São Paulo — na verdade, consti­ Pernambuco e da Bahia, os paulistas logo tuiu sua própria essência. Antes de Martim adquiriram uma m entalidade independente e Afonso fundar São Vicente, em 1532, o lugar anarquista. Julgando-se abandonados pela já era conhecido como “porto dos escravos” , m etrópole e se sentindo o refugo da colônia, devido ao tráfico promovido por João Rama­ criaram uma civilização própria, fundamen­ lho e pelo misterioso Bacharel de Cananéia tada em tem eridade e cobiça vertiginosas. — um degredado que teria sido o primeiro São Paulo forjou sua própria lei e transfor­ português a viver no Sul do Brasil. mou as demais cm letra morta. A captura de índios do sertão, porém, só Por mais de um século, a maioria da po­ se tornou negócio em alta escala — o maior e pulação de São Paulo (6.000 brancos em quase único a sustentar as 370 famílias de ! 7(M)) dedicou-se à captura de índios. O ban­ P iratininga— a partir de 1571. graças às deirism o tornou-se um negócio cuja técnica iniciativas do capitão-m or de São Vicente, era passada de pai para filho — inúmeros ado­ Jerônimo Leitão. Com algum cinismo, ou de­ lescentes iam para o sertão e muitas bandei­ liberada ingenuidade, certos estudiosos cha­ ras eram em presas fam iliares unindo pais, mam esse período inicial de “bandeirismo filhos, tios, cunhados e genros. Em bora pro­ defensivo” , já que foi quando os paulistas m ovidas por brancos, as bandeiras não te­ despovoaram os vales do Tietê e do Paraíba riam sobrevivido no sertão não fossem as para “garantir a segurança da cidade” . Em técnicas indígenas. Na verdade, mais pare­ 1591, com a chegada do sétim o govemadorciam tropa tupiniquim do que patrulha euro­ geral do Brasil, Francisco de Sousa, iniciapéia: avançavam em fila indiana, utilizavam se o ciclo cham ado de “bandeirism o ofensi­ canoas de tronco, sobreviviam à base de mel vo” . Sousa m ilitarizou as incursões ao e palm ito (quase extinguindo colm éias e palsertão, dando-lhes roteiros fixos, hierarquia m iteiros). O grosso da tropa era de índios, rígida e até escrivães e capelães. Ao partir, escravos ou não. As bandeiras se constituí­ em 1602. o govem ador tinha ajudado a criar ram. assim , uma cruel perversão dos costu­ m ilícias param ilitares que em breve desa­ mes guerreiros dos tupis-guaranis, cujos fiariam o poder colonial. Pouco depois, confiitos constantes não tinham por objetivo quando os jesuítas espanhóis fundaram as mais do que a captura de algum as vítim as reduções do Guairá. os paulistas viram nelas para a consumação do rito antropofágico. O u­ 0 alvo ideal para seus “saltos”. Afinal, "por tro aspecto psicológico perturbador das ban­ que aventurar-se entre gente boçal e rara. deiras se refere aos mam elucos (nome vindo falando línguas travadas e incompreensíveis, dos soldados de um a m ilícia turco-egípcia se perto demoravam aldeam entos num ero­ formada por escravos): filhos de pais bran­ sos. iniciados na arte da paz. afeitos ao jugo cos e de mães indígenas, eles atacavam os da autoridade?" índios com ódio redobrado.

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Entre 1610 e 1750. os jesuítas estabeleceram uma vasta rede de reduções na região dos rios Paraná. Uruguai. Iguaçu e Paranapanema. Elas acabariam .se tornando uma espécie de curral e.icravagisia para as bandeiras pauli.stas. O mapa acima identifica a localização dos 64 aldeam entos originais. G uairá (área laranja): A "florida cristandade", form ada p o r 13 reduções, criadas p o r Ruiz de M ontoya a partir de 1610. Ficavam iu> atual Paraná, sendo facilm ente alcançáveis a partir de São Paulo (40 a 60 dias de marcha). A destruição com eçou em 1628 e continuou com as expedições de 1629. 30. 31 e 32. M ais de 100 m il índios foram e.scravizados. Tape (área verde): A maioria das 18 reduções fo i obra de Roque González.. Erguidas no atual Rio Grande do Sul, foram destruídas a p a n ir de 1636. por iniciativa de Raposo Tavares. Cerca de 60 m il guaranis foram levados para São Paulo.

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LINHA DE TORDESILHAS

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PARANÀ-URUGUAI

□ ITATIM □

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■ PRINCIPAIS REDUÇÕES ATAQUES DOS BANDEIRANTES

Paraná-Uruguai (área begeU As reduções por excelência, também chamadas de Trinta Povos Guarani.s'. Erguidas após a devastação do Guairá. na me.sopotâniia dos rios Uruguai e Paraná, floresceram em paz até serem bruscamente aban­ donadas com a expulsão dos jesuítas, em 1759. Enquanto das primeiras reduções nada sobnnt. de Trinta Povos restam hoje ruínas monumentais Italini (área amarela): /l.v 13 reduções, localizadas na margem esquerda do Paraguai, no sul de Mato Grosso, foram erguidas em 1631. Atacadas no início de 1633, "con impiedad y crueldad nunca oída", cinco reduções foram destruídas e as demais abandonadas. O alaque rendeu aos bandeirantes 15 mil novos escravos.

m áquina escravagista aperfeiçoada pelos bandeirantes com eçou a operar em larga escala a partir de agosto de 1627, quando Manuel Preto e Raposo Tavares partiram rum o ao G uairá. Com sua espantosa tropa de 2.000 índios — talvez tem im inós— , 900 m am elucos e 69 pau­ listas, o jo v em R aposo e o se p tu ag e n ário Preto chegaram ao rio Tibagi no dia 8 de setem bro. De início, agiram com cautela já que, em bora estives­ sem acostum ados a prear índios na região, aquele seria o prim eiro ataque a um a redução. Um pretexto fútil foi a senha para invasão de San Antonio, em 30 de janeiro de 1629. Ali. 2.000 índios foram escravizados. Em março, caíram San Miguel e Jesús Maria. Em maio, quando a bandeira retom ou a São Paulo, nove outras reduções jaziam em cinzas. Os ataques foram cm tudo similares à invasão de San Francisco Xavier, no Tape. em 1637. Lá. depois de atearem fogo por três vezes à igreja, os bandeirantes abriram uma fenda na parede. Quando os índios tentaram escapar por ela “a mcxlo de rebanho de ovelhas que sai do curral”, os paulis­ tas “com espadas, machetes e alfanjes lhes derriba­ vam as cabeças, truncavam braços, de.sjarretavam pem as. atravessavam corpos. Provavam os aços de seus alfanjes em rachar os meninos em duas partes, abrir-lhes a cabeça e despedaçar-lhes os m em bros” . A cam inhada de volta a São Paulo reservava mais horrores, com o “ m atar enferm os, velhos, aleijados e crianças que im pediam os parentes de seguirem viagem ” . E com tanta crueldade que não pareciam “cristãos, matando crianças e velhos, dan­ do-os de com er a seus cachorros” , revelaram dois padres. Os cativos m archavam presos a grossas correntes dc quatro metros, com 30 colares cada uma. Junto com o chum bo e a pólvora, es.se era o artigo mais caro despendido pela bandeira — em geral, todos eram pagos pelo arm ador que finan­ ciava a expedição.

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Na chegada a São Paulo, os índios eram repar­ tidos entre os bandeirantes e seus financistas. Ao contrário do que afirm a a história oficial, poucos cativos seguiam para o Nordeste. A maioria ficava em São Paulo — Preto chegou a ter mil escravos em sua fazenda na Freguesia de Nossa Senhora do O. No que eram usados es.ses hom ens? No transporte de “harinas y comidas al puerto de Santos y asi con este trabajo en que .se sirven dellos com o de caballos, se mueren infinitos”. A ração dos escravos consistia numa espiga de milho por dia. Quanto às mulheres “de bueno parecer, casadas, solteras o gentiles, el duefio Ias encerra consigo en un aposento, con quien pas.sa Ias noches al modo que un cabron en un curral de cabras”. Esse estado de coisas se reverteu parcialm en­ te quando os jesuítas espanhóis foram autorizados a arm ar os índios das reduções. Em 1638, a ban­ deira de Leite Pais seria derrotada em C aazapaGuaçu. A grande vitória, porém , veio no dia 11 de m arço de 1641, quando, às m argens do M ’bororé, afluente do rio Uruguai, 3.000 guaranis, chefiados pelo cacique Ignacio Abiaru, .sob a orientação dos padres Pedro Rom ero e Pedro de M ola e com a ajuda de canhões feitos de bam bu, desbarataram a bandeira de Jerônim o de Barros, form ada por 130 canoas com 300 p aulistas e 600 tupis. Ao cabo de m ais de dez horas de feroz batalha aquática e terrestre, boa parte dos invasores — que por três vezes pediram trégua— estava morta. Os sobre­ viventes em brenharam -se na mata, onde a fom e e as doenças acabariam por dizim á-los. Apenas 20 retornaram a São Paulo. O “desastre” de M ’bororé m arcou o fim de uma época. O ciclo da caça ao índio seria gradual­ m ente substituído pelo ciclo da caça ao ouro. A aventura tinha acrescentado vários m ilhares de quilôm etros quadrados ao Brasil. Seu preço pode ser avaliado em m eio m ilhão de vidas.

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R a p o s o T avares ntônio Raposo Tavares foi o bandei­ rante por excelência. Em tomo dele se revolve o mar de celeuma e con­ trovérsia que sempre marcou a vida e a obra dos sertanistas de São Paulo. Apesar de ocu­ par os mais altos cargos públicos de sua ca­ pitania, Raposo Tavares passou boa parte da vida fora da lei, driblando mandados de pri­ são. Dizia-se cristão, mas foi excomungado. Desprezava os índios, embora a eles devesse seus conhecimentos do sertão. Foi o maior caçador de escravos de seu tempo, mas não teve mais do que 117 cativos, enquanto ou­ tros possuíam mais de mil. Tido como o mais audaz dos combatentes, fracassou na única guerra convencional da qual participou: a luta contra os holandeses, no Nordeste. Ampliou os lim ites do país e serviu devotadamente à Coroa, mas morreu praticamente abandonado, talvez ^ até pobre, em seu sítio perto de São Paulo. Ao longo de 60 7 anos. Raposo Tavares viveu tudo que se pode esperar de um bandeirante. Na.scido no Alentejo, em Portugal, em 1598, chegou ao Brasil aos 20 anos. em com­ panhia do pai, Femão Vieira, que. embora acusado de ter “fugido do reino com dinhei­ ro de Vossa Majestade”, assumiu o govemo da capitania de São Vicente, em nome do donatário, conde de Monsanto. Por toda a vida Raposo também .seria vassalo fiel de Monsanto. Alguns historiadores chegam a afirmar que ele destruiu as reduções do Guairá e do Tape por julgar que estariam dentro da área que pertencia ao donatário. Em 1627, Raposo Tavares organizou a primeira bandeira contra o Guairá. Aos pa­ dres, disse que agia assim pois tinha de expulsá-los “duma terra que é nossa, não de Castela” . Na volta a São Paulo, Monsanto o

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nomeou juiz ordinário da vila de São Paulo e ouvidor da capitania de São Vicente. Em 1633, porém. Raposo abusou de seus poderes e, ao invadir a fazenda dos jesuítas em Bameri, teve o mandato cassado. Em 35, um recurso lhe restituiu o cargo, mas o acu­ sado não se interessou: estava preparando a lucrativa invasão ao Tape. Em 1639, quando o govemo ofereceu perdão aos bandeirantes que lutas.sem contra os holandeses. Raposo se alistou e partiu para o Nordeste. Lá, teria participado da refrega imposta pelos bata­ vos à esquadra do conde da Torre, govema­ dor-geral do Brasil. Junto com mais de mil homens. Raposo, então, tomou parte na gran­ de marcha dos derrotados, a pé do cabo São Roque, no Rio Grande do Norte, até a Bahia: 2.700 quilômetros em quatro meses. Nada que se possa comparar à derradeira e monumental aventura do maior dos bandeirantes: em fins de — 1648. com 1.142 homens — brancos, m amelucos e índios— , Raposo Tavares partiu de São Paulo para atacar o Itatim. Embora duas reduções tenham sido destruídas, a empresa fracassou. Em abril de 1649, porém, em vez de ordenar o retomo. Raposo marchou rum o ao desconhecido. Em fevereiro de 1651,58 homens que “pareciam mais desenterrados do que vivos” chegaram ao forte de Gumpá, próxim o a Bélem, no Pará. Por dois anos, tinham feito um “grande rodeio” por terras jam ais percorridas: do Itatim (sul de Mato Grosso), a tropa chegara às cercanias dos Andes, na Bolívia. E então, descendo os rios G uaropé, M adeira e Mamoré, seguiram o Amazonas até Belém. Ao chegar a São Pau­ lo, em fins do mesmo ano, Raposo Tavares estava tão desfigurado que nem mesmo pa­ rentes e amigos puderam reconhecê-lo.

o C O N Q U ISTA D O R

A BAN D O N A D O

Do alquebrado retomo a São Paulo, em 1651, à morte solitária em 1658, o nome de Raposo Tavares virtualmente sumiu dos registros oficiais da vila de São Paulo — indicação clara de que o antigo “cabeça das bandeiras " se tomara carta fora do baralho. O obscurecimento fo i secular: até as primeiras décadas do século 20, praticamente nada se falou sobre o mais temerário dos sertanistas. Somente com os trabalhos de Basílio da Gama, em 1917, e de Afonso Taunay, em 26. é que os feitos de Raposo Tavares entraram para os livros de hi.stória. Da grande jornada de 1648. porém, pouco se sabe. Embora tenha sido descrita numa carta do jesuíta Antônio Vieira, .feu roteiro ainda é confuso. Raposo Tavares (à esquerda, num quadro que representa o momento em que partia para sua longa marcha e. ao lado, numa visão hipotética de seu rosto) apropriadamente não virou nome de rua: batizou uma estrada.

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As Bandeiras de Fernão Dias Ataque às reduções do Tape, junto com Raposo Tavares (1636-JHj Viagem em busca das esmeraldas: pelos vales dos rios São Francisco, das Velhas. Jequitinhonha e Pardo (1674-ló fil)

tf , ^ As Bandeiras de Raposo Tavares Ataque às reduções do Guairá f 1628-29} Ataque às reduções do Tape (I6J6-3S) Partiàpaçãít nas Guerras Holandesas: por mar. de São Paulo a Natal (1639). € por terra, de Natal à Bahia (1640) Ataque de Antônio Azevedo ao Itatim ( I64H) A Grande Marcha Amazônica ( !64H‘ 51):ataque a Santa Bárbara e navegação pelos rios Guaporé. Mamoré, Madeira e Amazonas, até Gurupá, no Pará.

trágica jornada de Fernão Dias rum o à m iragem de Sabarabuçu reprisou, em terras brasileiras, as patéticas viagens dos espanhóis em busca do Eldorado. Ao longo dos sete anos em que permaneceu no sertão à cata de esme­ raldas que não estavam lá, a expedição se defrontou com todas as turbulências: fome, peste, traição, assassinato, delações, misé­ ria e filicídio. A única concessão de um des­ tino de resto inclemente foi permitir que, ao morrer, num delírio febril, Femão Dias ti­ vesse certeza de que eram esm eraldas as turmalinas que arrancara da terra. Em 1672, quando o rei de Portugal o conclamou para ajudar na caça às pedras verdes, Femão Dias Pais era um dos mais experientes e bem-sucedidos sertani.stas de São Paulo — e um dos mais idosos. Aos 64 anos, já participara dos “saltos” às reduções do Tape, já investira contra o Itatim e caçara índios por todos os arredores de São Paulo. De uma só vez trouxe, de Apucarana (PR), 5.000 guaianás cativos. Possuía duas enormes fazendas, uma em Pamaíba, outra em Pinheiros (SP), nas quais seus escravos plantavam o trigo que o go­ vemo comprava para alimentar as tropas em luta contra os holandeses no Nordeste. Na.s­ cido dos “mais velhos clãs vicentinos”, filho e neto de pioneiros ilustres, Fernão Dias Pais Leme era um dos homens mais ricos e famosos da São Paulo .seiscentista. E um dos mais “piedosos” também: os padres não cansavam de elogiá-lo por ter erguido, à própria custa, o mosteiro de São Bento. Em 1674, porém, Femão Dias largou tudo — a mulher enferma, as seis filhas, as fazendas— , vendeu sua prata, seu ouro e seu gado e partiu em busca das “recônditas pedras verdes” . Tinha 66 anos.

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A lenda indígena de Sabarabuçu, a serra resplandescente, há muitos anos fazia parte da geografia fantástica que. desde sem pre, assom brara os colonos e fizera brotar uma coletânea de notícias fabulosas sobre tesouros opulentos e.scondidos no ser­ tão. Foi em dem anda dela que, orientado “pellas informaçõens dos antigos”, o velho Fernão Dias deixou São Paulo, a 21 de j u ­ lho de 1674. Partiu com 40 paulistas e 200 índios. Foi uma viagem de danação. Por sete longos anos, a bandeira vagou pelos ermos do rio Jequitinhonha e do rio das Velhas. Os meses passavam, as pedras não apareciam, o de.scontentamento crescia. Endividado com os com erciantes de São Paulo e Pamaíba, Femão Dias não hesitou em deixar a família na miséria — e mandou vender até “as jóias do adomo de suas pró­ prias filha.s”. Quando as deserÇões com eçaram , o velho bandeirante reuniu os rema^ nescentes da tropa e anunciou que iria “prosseguir a jomada até morrer e que em seu testamento havia de deixar ordem ao filho que, .sob pena de sua maldição, prosseguisse a busca, ainda que fo.sse .só com os seus índios e que nem trouxessem nem mandas.sem seus ossos a enterrar a povoado, sem que primeiro se descobrissem as esmeraldas”. Quando um motim estourou e Femão Dias soube que era liderado por Jo.sé Dias Pais, seu filho bastardo, não hesitou em mandar enforcar o mameluco, para espanto e terror do arraial. Em abril de 1681, pedras verdes surgem da lagoa de Vupabuçu. Aos 73 anos, o velho sertanista se .sente aliviado. Envia 147 pedras para serem examinadas em São Paulo. Em maio, devastado pela malária, Femão Dias morre no sertão do rio dâs Velhas sem saber que só achara turmalinas.

o GOVERNADOR DAS ESMERALDAS Emhora lenha sido tema de uma peça de teatro e de um famoso poema de Olavo Bilac, o nome de Femão Dias, assim como o de seu companheiro Raposo Tavares, permaneceu no obscurantismo por quase dois séculos após a morte inglória no sertão. Embora Pedro Taques, o primeiro historiador < São Paulo, fosse seu sohrinho-neto, da biografia de Fernão Dias restaram muitas lacunas. Nem .sequer .se sabe com certeza onde e quando ele nasceu (embora São Paulo e o ano de 1608 sejam a data e o local prováveis). As circunstâncias de sua morte .são mais conhecidas. Vitimado pela malária, seu corpo fo i "embalsamado ” à moda bandeirante: sohre a sepultura de dois palmos da terra, acenderam-se fogueiras que arderam por 20 dias. Então, os ossos de Femão Dias foram trazidos pelo filho para São Paulo —não sem antes terem afundado num naufrágio no rio das Velhas. Os ossos foram enterrados no mosteiro de São Bento e lá redescobertos em 1922.

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o 1 rata-se de uma das mais

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m itológicas cenas do ban­ deirism o, só co m p arad a com a volta para casa de R aposo Tavares, quando ninguém foi ca­ paz de reco n h ecê-lo , ou com o delírio que antecedeu a m orte de F ern ão D ias. A co isa se passou em 1682, em G oiás, e, diz a lenda, teria sido assim: Bartolom eu B ue­ no da Silva, .sertanista de terceira geração, partira de Paranaíba (SP) à caça de índios pelos sertões do A raguaia. Nas proxim idades do rio V erm elho, chegou a um a a l­ deia dos pacíficos índios goiás. Ao reparar que algum as m ulheres usavam peças de ouro, quis saber de onde vinha o m inério. C om o o segredo não lhe foi revelado, o bandeirante, então, ateou fogo na aguardente que depositara num a cabaça. A m eaçou fazer o m esm o com todos os rios e lagoas da re­ gião. Apavorados, os goiás o ape­ lidaram de Anhanguera — o Diabo V elho (ou E sp írito do M al). A lenda jam ais foi plenam en­ te com provada, e há estudio.sos que preferem atribuir a origem do apelido à tribo dos inhangueras, h abitantes do T ocantins que te ­ riam sido escravizados por B ar­ tolom eu Bueno. M esm o que o golpe de “pôr fogo na água” não tenha sido aplicado por B ueno, parece não haver dúvida de que, anos antes, o truque foi de fato utilizado, em M inas, por B ento Pires, um dos prim eiros descobri­ dores do ouro das G erais e um a das prim eiras vítim as da G uerra dos Em boabas.

A nhanguera Embora o caso da água arden­ te tenha tornado o A nhanguera um dos bandeirantes mais famo­ sos. seu filho homônimo, conhe­ cido com o 0 segundo Anhanguera. foi um personagem mais ativo e decisivo na história das bandeiras. Aos 15 anos, já estava no sertão em com panhia do pai — e, se o teatro da água incendiada de fato ocorreu, o jovem “D iabo Velho” o teria presenciado. Naquela expe­ dição, porém, os Bueno, m ais do que em m inério, estavam interes­ sados no “ouro verm elho” (“seu propósito real era capturar índios e sugar de suas veias o ouro ver­ m elho que sem pre foi a m ina des­ sa província” , escreveu o padre Vieira em 1656. referindo-.se às bandeiras). N os anos seguintes, logo de­ pois da m orte do pai, o segundo Anhanguera voltou ao sertão em busca de ouro e .se tom ou o pri­ meiro descobridor e m inerador de G oiás, cuja cidade fundou. E m ­ bora tenha ach ad o o m in ério e requerido “direito de passagem ” sobre os rios que conduziam à re­ gião, o segundo A nhanguera não só m orreu na m iséria com o nunca encontrou a fabulosa serra dos M artírios, “ pedem ais de cristal que, por obra da natureza, tinham um as sem elhanças da coroa e cra­ vos da paixão de C risto ” — m i­ ragem que o jovem A nhanguera ju lg a v a ter visto durante as a n ­ d an ças com o pai e que, com o Sabarabuçu, se tornou um a das v e rtig en s cuja busca arruinou m uitas vidas e fortunas.

O CRIME SEM CASTIGO DE BORBA GATO O caso de Manuel de Borba Gato, "tenente-general do matto e genro de Femão Dias. é exemplar da relação legal entre o govemo e os bandeirantes. Em 1681, logo após a morte do sogro. Gato matou Rodrigo Castelo Branco, administradorgeral das minas, enviado ao sertão a fim de averiguar as des­ cobertas de Femão Dias. Apesar de ser um crime de lesa-majestade, que forçou Gato a permanecer por 18 anos refugiado no sertão (onde viveu com uma tribo, no vale do rio Doce. da quíd se tomou o grande líder), em 1700, o govemador Arthur de Sá não apenas decidiu perdoá-lo como o promoveu a guar­ da-mor das minas. Em troca. Gato só precisou revelar a lo­ calização das minas de ouro que descobrira e deram origem a Sabará (à esquerda). Em 1962, Borba Gato fo i homenageado com uma estátua revestida por ladrilhos, posta numa avenida de São Paulo. Feita por Júlio Guerra, a obra é tida como “um tnonstrumento ao kit.sch ”.

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I oi um encontro breve, mas suficiente para que o bispo de Pernam buco. Francisco de Lima, concluísse: "Trata-se de um dos m aiores selvagens com quem tenho to p ad o ” , disse ele. Estava se referindo ao sertanista D om ingos Jorge Velho — um dos mais fam osos bandeirantes de seu tem po. O diálogo entre ambos, trav ad o em m arço de 1687. foi acom panhado por um intérprete: D om ingos Jorge Velho p ra tica ­ m ente não falava português; era fluente apenas em tupi-guarani, a "língua geral” . E aquela era uma da!> raras ocasiões nas quais Velho travava contato com a civilização: acostum ado às lonjuras do sertão, estava na cidade para tratar de ne­ gócios. Contratado pelo governo para destruir o quilom bo dos Pal­ mares, foi com binar qual seria sua parte no butim. Um contrato foi assinado em 3 de m arço de 1687, ratificado em 3 dc dezem bro de 1691 e confirm ado p o rc a ria régia de 7 de abril de 1693. A cam panha só com eçou no início de 1694. c a lula contra os negros levou qua.se um ano exalo. Foi "a mais traba­ lhosa. faminta, .sequio.sa c desam ­ parada que até hoje houve no dito sertão, ou quiçá haverá", co n fo r­ me diria o próprio Jorge Velho. E m bora o quilo m b o lenha sido devastado, e a cabeça de Z um bi, cortada, o Conselho Ultram arino diria que "os paulistas são piores que os m esmos negros dos Pal­ m ares". O governador Melo e C as­ tro concordou: "É gente bárbara, que vive do que rouba".

V elho Não se pode dizer que M elo e C astro exagerasse. N ascido em São Paulo em 1644, Jorge Velho era senhor de enorm es latifúndios nos .sertões do Piauí e do São Fran­ cisco, tom ados à força. O bandei­ rante possuía um temível exército particular: mais de mil índios oruazes, tabajaras e copinharaéns arm a­ dos de arco e flecha, e outros 200 com espingardas. Com eles, não apenas conquistou toda a região e venceu a resistência dos Palmares com o teria participação decisiva na terrível Guerra dos Bárbaros (leia no quadro abaixo). Não se sabe com o eram as fei­ ções de D om ingos Jorge Velho, as­ sim com o não se conhece o rosto de Raposo Tavares, de Fernão Dias e do Anhanguera. Pintado por Be­ nedito Calixto. o óleo que ilu.stra esta página é exem plar; feito nos anos 30 do .século 20. fez parte da .serie de quadros que A fonso Tau­ nay. diretor do M useu Paulista, en­ com endou para assegurar a "orna­ m entação" da casa. Tais quadros constituíram o braço pictórico da fabricação do mito bandeirante. Na vida real. os piratas do sertão não se pareciam nem um pouco com os heróis dc Alexandre Dumas. Ainda assim , basta uma visita ao próprio M useu Paulista para que fique claro o papel desses hom ens na ex­ pansão territorial do Brasil: na "es­ cadaria m onum ental", seis estátuas representam seis bandeirantes e as .seis "unidades da Federação" que eles conquistaram : M inas, M ato Grosso, Goiás. Santa Catarina. Pa­ raná e 0 Rio Grande do Sul.

A GUERRA DOS BARBAROS m novembro de 1688. quundo seu exército já estava próximo dos Palmares — depois de tenebrosa marcha de 2.()0() quilômetros, que matou 196 pessoas de fome— . Domingos Jorge Velho recebeu ordens do govemador-geral Matia.s da Cunha para “torcer o caminho". Deveria se dirigir a toda a pressa ao Rio Grande do Norte para combater a rebelião dos índios janduins. Em luta contra a expansão das fazendas, os janduins tinham trucidado mais de cem colonos e cerca de .30 mil cabeças de ga­ do. Era o início da Guerra dos Bárbaros ou Confederação dos Cariri (já que a ela .se juntaram os paiacus, caripus, icós, caratiús e cariris) — um dos mais terríveis conflitos da história do Brasil e um dos menos e.studados. Velho, que já exterminara os sucums, os calabaças, os pimenteiras e os coremas, foi à luta. E não fez prisioneiros: em 1688. Matias da Cunha lhe concedia “todas as glórias de degolar os bárbaros". Ainda assim, ele não conseguiu terminar com o conflito, que durou até 1713. É que Jorge Velho tinha outra missão: acabar com o Zumbi (à e.squerda). E essa ele cumpriu (leia "O Quilombo de Palmare.s", na página 80).

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onções

ais do que uma m era versão fluvial das m archas sertanistas, as m onções foram um desdobram ento — de certa form a um a evo­ lução— da expansão bandeirante. Suas principais característi­ cas e peculiaridades mais intrigantes estão resum idas a seguir: O que eram: As m onções eram grandes caravanas fluviais que partiam do vilarejo de A raritaguaba — hoje cidade de Porto Feliz— , na margem es­ querda do rio Tietê, a 155 quilôm etros de São Paulo, e, por um a estrada aquática “de mais de mil léguas de com prido”, seguiam até C uiabá (MT). O nom e: Palavra originária do árabe maiiasin (“época do ano em que se dá determ inado fato” ). Entre os m arinheiros de Portugal, passou a desig­ nar as estações com ventos propícios para as grandes viagens m arítim as. Roteiro: De início, as m onções se faziam sem roteiro fixo e sem época determ inada. A partir de 1720. as canoas seguiam o Tietê até a foz, des­ ciam o Paraná até a em bo­ cadura do Pardo, subiam o Pardo até o rio A nhanduí, que as levava até o rio M iran­ da, afluente do Paraguai. O Pa­ raguai conduzia o com boio até as m inas de Cuiabá, através dos afluentes São L ourenço e Cuiabá. A partir de 1725. os irm ãos L ou­ ren ço e Jo ã o L em e d e sc o b rira m que era m elhor continuar subindo o Pardo e. nas alturas do ribeirão San­ guessuga. levar as canoas e cargas por V terra, por um a distância de 15 km, e seguir pelos rios Coxim e Taquari. Neste varadou­ ro se fundou um pouso. C am apuã. no qual os viajantes descansavam e as canoas eram reabastecidas, antes de percorrer m ais mil quilôm etros. O percurso total era de 3.664 km.

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O rigem do m ovim ento: A descoberta do ouro em Bom Jesus do Cuiabá, em outubro de 1722, pelo sertanista M iguel Sutil, provocou uma louca corrida às novas minas. Dizia-se que. ali. o ouro estava à flor da terra. Duração do percurso: Na ida. com canoas carregadas e correntes con­ trárias, a jom ada durava cinco m eses — o m esm o que de Lisboa à índia. Na volta, cerca de dois m eses — o m esm o que do Rio a Portugal. Época da partida: Entre m arço e abril, quando os rios estavam cheios. Tam anho dos com boios: C ada expedição tinha entre 300 e 4(X) canoas. Em geral, partia um só com boio por ano, com até 3.000 pessoas. A s canoas: Eram feitas à m oda indígena, escavadas num tronco de árvore (peroba ou tim baúva). Tinham em m édia entre 12 e 13 m etros de com pri­ m ento e l,5 m de largura, em bora houvesse um a com 17,5m por 2.8m. Levavam até quatro toneladas de carga e 30 pessoas. Cargas cobertas por lona e as pessoas com m osquiteiro. í~ ' ~ Tripulação: Seis rem eiros (sem pre em pé), um piloto e um proeiro. O proeiro era a figura m ais im portante; tinha a chave do caixão de carnes salgadas e determ inava o ritm o das remadas. A lim entação durante a jornada: Um quilo de farinha, m eio de feijão e cem gram as de toucinho por dia por pessoa. P rincipais difícu ld ades: Além das 113 cachoeiras, saltos ou corredeiras, as e x ­ pedições tinham de enfrentar os caiapós SN O PN JVO das m argens do Paraná, os índios guai. cum s, que eram cavaleiros, e os tennveis paiaguás, canoeiros que viraram ^ piratas do rio Paraguai. P erigos len d ários: lara s, p itõ es e as canoas fantasm as dos m onçoneiros m ortos. Consequências: A povoação de M ato Grosso e 75 tone­ ladas de ouro. A últim a m onção partiu em 1838.


A CID A D E DOS SO N H O S

A A meaça E xterna o longo das duas prim eiras décadas do século 16, nin­ guém poderia afirm ar com certeza se o Brasil ficaria nas mãos dos portugueses ou nas dos france­ ses. Um século m ais tarde, durante 24 anos, o Brasil — ou pelo m enos parte dele, a m elhor de então— per­ tenceu à Holanda. Por 60 anos, de 1580 a 1640, o Brasil tam bém foi espanhol, ou quase: Portugal e Espa­ nha form avam unia só coroa, sob o com ando de Filipe 2°. O Brasil nun­ ca correu o risco de se to m a r inglês, mas, por anos a fio, foi assolado por piratas e corsários britânicos. Ao lon­ go de mais de 200 anos, esta foi uma das terras mais cobiçadas do mundo. Tendo chegado atrasadas à corri­ da ultram arina, iniciada e liderada por Portugal e pela Espanha, as alti­ vas França e Inglaterra voltaram-se para os mares com uma desvantagem de 50 anos — e com a determinação do mendigo que vasculha as m iga­ lhas de um banquete. Ainda assim, a alguns de seus m onarcas jam ais fal­ tou arrogância. “O sol nasceu para m im com o para todos. G ostaria de ver a cláusula do testam ento de Adão que me exclui da partilha do m un­ do” , disse, certa vez, F rancisco 1°, da França.

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O m onarca francês evidente­ m ente .se referia ao Tratado de Tor­ desilhas, o reparte planetário feito com bênção papal, em 1494, que não apenas dividiu o m undo entre Portugal e Espanha com o tom ou o A tlântico mare clausum — um ocea­ no vetado aos dem ais países. França e Inglaterra nunca reconheceram a validade legal do tratado. Assim , o ataque às possessões lusas e e sp a ­ nholas ao redor do globo, ainda que eventualm ente feito por contrabandi.stas, piratas e aventureiros inescrupulosos, em geral tinha apoio oficial de seus reis. De todas as colônias portugue­ sas, nenhum a atraiu mais os france­ ses do que o Brasil. Com seu imenso litoral repleto de portos naturais, des­ povoado de europeus e sem vigilân­ cia, o país passou a ser frequentado por franceses praticam ente desde sua descoberta. Já em 1504, o norm ando Paulm ier de Goneville aportou em Santa Catarina, onde permaneceu por seis meses entre os carijós, levando, ao regressar para a França, o jovem Essom eriq, filho de um cacique. A relação dos franceses com os índios sem pre foi m ais equilibrada do que a dos portugueses, e essa vantagem se­ ria am plam ente explorada.

Apesar dos acordos que d. João 3“ fez com Francisco T , em 1526, para afastar os franceses do Brasil, menos de meio século depois eles voltariam a investir contra o país — e dessa vez oficialm ente, com a fun­ dação da França Antártica, no Rio, em 1555. Ocorreriam outros ataques franceses ao país, entre eles o que re­ sultou na fundação da França Equi­ nocial, no M aranhão, em 1612, e as incursões corsárias ao Rio, em 1711. Embora tivesse problem as com os franceses e possuísse um império mais vasto que o da Espanha, Portu­ gal, graças a uma diplom acia eficien­ te, conseguiu manter-se afastado dos grandes conflitos intem acionais do século 16. Porém, ao ser anexado pe­ la Espanha, em 1580, o país virou ini­ migo da Holanda, da Inglaterra e da França — todas em luta contra o im ­ perialism o agressivo de Filipe 2°. A pesar de o período cham ado de “união ibérica” ter sido favorável ao Brasil, o país foi atacado por corsá­ rios ingleses e aventureiros franceses e invadido por negociantes holande­ ses (veja “O Brasil H olandês”, pág. 57). Foi a época em que o Brasil qua­ se se tom ou uma terra de todos, o que equivale a dizer que por pouco não se transformou numa terra de ninguém.

Rio de Janeiro {abaixo, em mapa do século 16) nunca fez parte das pretensões dos piratas ingleses e dos exércitos holandeses que invadiram o Brasil em 1624. A mais bela das baías brasileiras, no entanto, atraía os franceses com a força de uma obsessão. Em 1555, liderados por Villegaignon, calvinistas franceses fundaram o forte Coligny numa ilhota onde hoje se ergue o aeroporto Santos Dumont. Foi o início da França Antártica. No dia 20 de janeiro de 1567, po­ rém, tropas portuguesas lideradas por Mem de Sá. com o apoio dos te­ miminós, enfrentaram e venceram os franceses e .seus aliados tamoios num combate definitivo travado na praia do Flamengo {gravura acima).

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P iratas or mais de duas décadas, a apavo­ rante bandeira negra com o crânio e as duas tíbias trem ulou, pressaga e am edrontadoram ente, diante de várias ci­ dades da costa brasileira. Em bora a pre­ sença do sinistro pavilhão do Rei M orte — “the King Death Banner", com o seus sórdidos súditos o ch am av am — jam a is viesse a ser tão frequente e devastadora no Brasil quanto no Caribe, a pirataria ingle­ sa provocou prejuízo, devastação e morte na Bahia, no Rio e em São Paulo. O ataque mais famoso foi o de Thomas Cavendish a Santos, no dia de Natal de 1591. Os 300 m oradores da vila estavam na igreja no instante em que três dos cinco navios de Cavendish abriram fogo. Pouco depois, entre gritos e tiros, os piratas to­ maram o lugarejo, no qual perm aneceram por dois meses — até não haver mais o que saquear. Cavendish, marinheiro ousado, o terceiro a circu n av eg ar o globo, não era exatam ente um pirata, mas um corsário agindo sob as ordens da rainha Elizabeth. Depois de uma dram ática viagem até o es­ treito de M agalhães, ele voltou ao Brasil e atacou o Espírito Santo. Foi vencido. 80 ingle.ses morreram no com bate e a vila que o bateu passou a se cham ar Vitória.

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C o r sá rio s I ngleses

Cair n(4S m ãos cie p ira ta s sem pre fo i considerado tim destino p io r do qtie m orrer du ra n te o ataque. F.lei’atido o sadism o a tim a espécie de arte m eticulosam ente tétrica. esses fa cín o ra s dos m ares inventaram m ais m odalidades de tortura do q u e os inquisidores espanhóis. A gravura abaixo m ostra dois padres, capturados n u m navio q u e p a rtira da B ahia em H I S . sendo obrigados a carregar setts captores nas costas, antes de serem forçados a a n d a r na prancha e jogados ao m a r

O corsário pioneiro em águas brasi­ leiras foi W illiam Hawkins. notório trafi­ cante de escravos, m em bro do Parlam ento e am igo do rei H enrique 8°. Entre 1530 e 1532. ele fez três lucrativas viagens ao Brasil, levando numa delas, para Londres, um cacique — "um autêntico rei brasilei­ ro". Seu filho. John Hawkins. e seu neto. Richard, seguiram a tradição c tam bém fizeram vantajosas incursões nos m ercados negreiros da Guiné e do Brasil. O prim eiro ataque pirata ao litoral bra­ sileiro foi com andado pelos flibusteiros Robert W ithrington e Chri.stopher Lister. Por seis sem anas, de abril a junho de 1587, eles assolaram o R ecôncavo Baiano. Só foram rechaçados porque o govem ador Cristóvão de Barros teve ajuda de "índios flecheiros". Em 29 de m arço de 1595. Ja­ mes L ancaster tom ou o porto de Rccifc e lá piermaneceu por 31 dias, carregando seus três navios — e outros 12 que "alugou" de france.ses e holande.ses que ali encontrou— com tudo que pôde saquear. Foi a m ais lucrativa das pilhagens ao Brasil, supe­ rando até o butim que o infam e capitão Bartholom ew Roberts colheu em 1711 do galeão português que zarpara da B ahia abarrotado de jóias, ouro e açúcar.


A F rança A n tá rtica or volta de 1550. depois de meio século percorrendo o litoral brasileiro — o que os levara a conhecer os m elhores por­ tos e estab elecer com os índios uma relação mais harm ônica e ren­ tável do que os portugueses— . aos franceses faltava apenas o homem certü para liderar uma expedição colonizadora às lerras do Brasil. Q uem poderia supor que Nicolas Durand de Villegaignon era o ho­ mem errado? C avaleiro da Ordem de Malta, "hom em de toga e espada", univer­ sitário de form ação e m ilitar por temp)eramento. soldado, navegador, diplom ata, historiador, agricultor, erudito e até filólogo. Villegaignon tivera uma carreira brilhante. N as­ cido em 1510. fora colega de Calvino. form ara-se em Direito, par­ ticipara da tom ada de T rípoli. na África, junto com o im perador C ar­ los 5° e. acim a de tudo. quando a rainha Mary Stuart foi da Escócia à França para noivar com Fran­ cisco 2”. Villegaignon a conduzira, ludibriando os ingleses.

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N om eado v ice -alm ira n te da Bretanha, o cavaleiro de M alta .se indispôs com o governador local no início de 1555. Injuriado com a posição do rei H enrique 2°. que apoiou .seu desafeto, e disposto a provar seu valor, Villegaignon idea­ lizou um plano ousado: a fundação, no Rio de Janeiro, de uma colônia que lançasse os alicerces de um fu­ turo império ultramarino francês. Para concretizá-lo, buscou o apoio do alm irante Gaspard de Coligny. líder dos huguenotes — calvinistas franceses— . que já com eçavam a ser perseguidos. Villegaignon. porém, quis con­ tar também com a ajuda do cardeal de Lorena. o mais influente católico da França. A ambos prometeu que a liberdade religiosa na nova colônia seria total. Graças a eles. conseguiu que o rei liberasse mais de 10 mil francos e armasse dois navios para a aventura brasileira. Seiscentos ho­ mens — e nenhuma mulher— foram recrutados para embarcar na grande viagem. Desde o início, porém, tudo saiu errado.

Em 12 de julho de 1555 a ex­ pedição partiu do Havre. mas. co­ lhida por m edonha tem pestade, foi forçada a ancorar em Dieppe. Lá. quase todos os tripulantes de­ sertaram — sobraram apenas os degredados. Pelas ruas de D ieppe. entre "desclassificados, vagabun­ dos e mercenário.s'', recrutaram -se outros 80 homens. No dia 10 de novembro, após um a viagem ruim. os navios chegaram à baía de G ua­ nabara. O pior estava por vir Villegaignon decidiu se insta­ lar na ilhota de 1,5 quilôm etro de circunferência, cham ada de Serigipe pelos índios. .Ali. ergueu um ba­ luarte de m adeira, que batizou de forte Coligny. Na praia, em frente, pensava em construir, no futuro, a cidade de Henriville. Os proble­ mas com eçaram com a éscassez de víveres — raízes em vez de pão; água, em lugar de vinho— e a fal­ ta de m ulheres. Á cizânia instau­ rada na ilha, Villegaignon reagiu com despotism o e arrogância. Ao fazê-lo, apenas precipitou o trági­ co desfecho da França Antártica.

O PATROCINADOR Gaspard 2° de Coligny, seigneur de Châtillon, era cavaleiro da Ordem do Rei, foi govemador de Paris e almirante da Marinha francesa. Nascido em 1519, converteu-se ao calvinismo e tornou-se líder dos huguenotes, como eram chamados os protestantes franceses. Coligny era amigo pessoal de Henrique 2°, que, por sua insistência, apoiou o projeto de Villegaignon. Coligny investiu muito de sua fortuna na fundação da França Antártica. Foi morto em 24 de agosto de 1572, no massacre da Noite de São Bartomoleu, planejado pela rainha Catarina de Mediei, no qual morreram muitos huguenotes.

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A E xpulsão

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uando a frota arm ada pelo Após a chegada dos pastores de terceiro governador-geral do Calvino. tudo piorou. O confronto en­ Brasil. M em de Sá, chegou à tre católicos e calvinistas explodiu Guanabara, na m adrugada de 21dedevez. com Villegaignon assum indo fevereiro de 1560, para dar início à posições cada vez m ais ambíguas. luta contra os franceses, deparou, se­ Depois de dezenas de deserções, tor­ gundo o próprio Sá, “com uma das turas, prisões e conspirações, o autom ais fortes fortalezas da cristanda­ intitulado Rei do Brasil foi embora. de”, virtualm ente “insuperável às for­ Ao receber um ultim ato de Mem ças hum anas” . Os conflitos internos de Sá. Bois-le-Com te recusou a ren­ que grassavam na cidadela de Co­ dição. Apesar do apoio de mil índios ligny, porém, eram tais que a luta en­ tam oios para enfrentar apenas 120 tre lusos e franceses se prolongaria portugueses e 140 nativos, os 74 fran­ por apenas dois dias. ceses restantes na ilha estavam tão Já apelidado de Caim da América. desm oralizados que, quando Sá en­ Villegaignon partira do Rio em outu­ fim os atacou, na m anhã de 15 de bro de 1558. Em seu lugar ficara seu m arço de 1560 (após 20 dias de cer­ sobrinho. B ois-le-Com te. que tinha co), os com bates duraram m enos de vindo da França em m arço de 1557. 48 horas. Depois que um m arujo luso com três navios e 290 homens, entre conseguiu nadar até a ilha e explodir os quais 14 pastores enviados pelo re­ seu paiol, os franceses desistiram da formista Calvino. No instante em que luta e fugiram , a maioria para a Fran­ Le-Comte chegou, a situação era caó­ ça, uns 20 para o continente. A vitória tica na fortaleza. Os conflitos tinham veio quando os portugueses também com eçado já em fevereiro de 1556, já pensavam em desistir. Por isso, quando V illegaignon exigiu de um M em de Sá, Nóbrega e outros croni.sm arinheiro norm ando que se casasse tas da batalha a atribuíram ao “poder com a índia com quem vivia ou a divino”, que “não quis que nessa ter­ abandonasse. Injuriado, o m arujo ar­ ra se plantas.se gente de tão maus pen­ mou um a conspiração para matá-lo. O sam entos". Porém, aliados aos ta­ plano foi descoberto, cinco homens moios, os franceses restantes ainda foram executados e Villegaignon tor­ resistiriam. O Rio só seria definitiva­ nou-se paranóico e despótico. m ente conquistado em 1567.

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F ranceses ARARIBÓIA A ntigo senhor da ilha de Paranapuã, o tem im inó A raribóia era tão fiel aos portugueses que se batizou com o nome de Martim Afonso de Sousa. Por sua participação decisiva na conquista do Rio. foi feito cavaleiro da O rdem de C risto e ganhou uma vasta sesmaria em Niterói. M as. em 1574, repreendido pelo govem ador A ntônio Salem a por cruzar as pem as na presença dele. Araribóia se ofendeu, voltou para Niterói e não saiu mais de lá, até morrer, esquecido.


A S e g u n d a I nvasão D U G U A Y -T R O U IN O corsário {à direita), que precisou de apenas uma semana para tomar o Rio e cobrou um resgate milionário para devolvê-lo, não pôde desfrutar do butim: ao retornar para a França, sua frota (acima) foi atingida por uma torm enta, na altura dos Açores. D uguay-Trouin perdeu seus dois melhores navios, 1.200 homens e muito ouro e prata. Ainda assim, os nobres que financiaram a expedição obtiveram um lucro de 92% sobre o capital investido. O próprio Trouin, vingador de Villegaignon, foi prom ovido pelo rei Luís 14 a chefe de esquadra.

A FRANÇA EQ UINOCIAL A mais bem-sucedida tentativa francesa de estabelecer uma colônia no Brasil se deu no Maranhão, no início do século 17. A aventura começou em 1604, quando um náufrago francês, Charles des Vaia, retomou à França in­ formando que os tupinambás do Maranhão queriam converter-se ao cristia­ nismo e se aliar aos franceses. Por isso, em março de 1612, três navios e 500 homens, comandados por Daniel de la Touche, pariiram da França em expedi­ ção colonizadora. Em 26 de julho, chegaram à baía do Maranhão e logo er­ gueram a fortaleza que daria origem à cidade de São Luís (k esquerdaj. Da expedição faziam parte os capuchinhos Yves d ’Evreux e Claude d'Abeville, au­ tores de dois livros memoráveis. A.isim que a notícia da invasão se propagou, o rei Filipe 3", da Espanha e de Portugal —então unidos sob a mesma coroa—, determinou o ataque às posições francesas. Em novembro de 1614, o exército luso-brasileiro, comandado pelo mameluco Jerônimo de Albuquerque, venceu os franceses, que capitularam. Mas Filipe 3° exigiu rendição incondicional e, em novembro de 1615, De la Touche entregou São Luís e partiu para Usboa. a ferros e sem direito a indenização. Por três anos, permaneceria encarcerado na Torre de Belém. Foi o amargo fim da França Equinocial.

o panir do Rio, em fms de março de 1560, Mem de Sá deixou arruinado o forte C o­ ligny. Mas, com poucos homens e os navios avariados, não pôde se estabe­ lecer na Guanabara. Pagou caro por isso. Em 9 de fevereiro de 1565, quan­ do seu sobrinho Estácio de Sá chegou ao Rio, com 200 homens e nove na­ vios, os tam oios, orientados pelos franceses, já haviam construído três paliçadas e estavam preparados para um novo confronto. Em T de março de 1565, Estácio estabeleceu um ar­ raial no sopé do Pão de Açiícar — niicleo da cidade do Rio de Janeiro— e ali permaneceu por dois anos, com ba­ tendo o inimigo esporadicamente. Mem de Sá chegou ao Rio com reforços em 18 de janeiro de 1566. Dois dias depois comandou o ataque fmal às posições inimigas. Com a aju­ da dos temiminós de Araribóia, os lu­ sos atacaram Uruçumirim (hoje morro da G lória). A luta durou o dia todo. Ao entardecer, cerca de 600 tam oios e cinco franceses estavam mortos. No dia seguinte, dez franceses presos fo­ ram executados e, então, os portu­ gueses atacaram a ilha de Paranapuã (hoje do Govem ador), escravizando os quase mil tamoios que se rende­ ram. O Rio estava conquistado. A vitó­ ria seria com pleta se, um m ês depois, não m orresse E stácio de Sá. Fora

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atingido por um a seta envenenada. Porém, o Rio parecia ser uma ob•sessão francesa. M eio século mais tarde, em 1710, haveria nova investi­ da, desta vez capitaneada pelo corsário Jean-François Duclerc. Com o apoio do rei Luís 14, Duclerc chegou ao Rio com cinco navios e mil homens, no dia 6 de agosto de 1710. Depois de várias escaram uças, desem barcou na Barra da Tijuca e, entrando pela zona rural, atacou a cidade no dia 11. A u­ xiliado por estudantes, o govem ador Castro M orais resistiu. Mais de 300 franceses foram mortos e os demais, inclusive Duclerc e 41 oficiais, presos. Confinado numa das melhores casas do Rio, Duclerc foi assassinado em abril de 1711, "por dois homens em ­ buçados”, supostamente um filho e um sobrinho do govemador. M enos de seis meses depois, sob pretexto de vingar Duclerc, o cor­ sário René D uguay-Trouin, com 18 navios, 740 peças, dez m orteiros e 5.764 hom ens, atacou o Rio. Em 20 de setem bro de 1711, Castro M orais ordenou a evacuação da cidade. Duguay-Trouin pediu 600 mil cruzados, cem caixas de açúcar e 200 bois para não destruí-la. Em 4 de novem bro, o govem ador pagou o resgate; perdeu o cargo e ganhou um apelido: “Vaca” . Dez dias depois, Duguay-Trouin par­ tiu, vingado e vitorioso.

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A U n iã o I b érica poderoso Filipe 2° ainda esta­ va em Badajoz, aguardando a com pleta ocupação de Portu­ gal por suas tropas, com andadas pelo duque de Alba — capítulo fmal das ações que o levaram a se apoderar do trono luso e uni-lo ao da Espanha— , quando, em 25 de setem bro de 1580, alguém lhe sugeriu que seria prudente enviar um em issário ao Brasil para saber a posição da colônia ante a im i­ nente vitória espanhola. P or séculos, P ortugal não fora m ais do que um a extensão do reino de Castela. Em 1385, porém , d. João r , fundador da dinastia de Avis, deu início ao com bate contra os castelha­ nos e em 1411 obteve a independên­ cia portuguesa. Ao longo dos dois séculos seguintes, a dinastia de Avis tom aria Portugal o m aior im pério do m undo e o prim eiro a se expandir ao redor de todo o globo. U m a batalha fracassada, porém , travada em 1578 e na qual m orreu o rei d. Sebastião, faria sucum bir, em poucas horas, es­ forços de 200 anos (veja o quadro abaixo). A pós a m orte de d. Sebas­ tião, seu tio-avô, o cardeal d. H en­ rique, assum iu o trono. Mas 17 m eses depois, quando ele m orreu sem her­ deiros, a luta pelo poder tom ou-se feroz. H avia cinco candidatos ao trono. O am bicioso Filipe 2° {à direi­ ta) era o mais am iado e o m ais eficaz e logo suplantou seus adversários. A notícia levou quase um ano para chegar à B ahia, m as o B rasil, com o Portugal, acabou se sujeitando em relativa paz ao regim e de Filipe 2°. Foi um a decisão acertada: durante os 60 anos da união ibérica, o Brasil teria suas vantagens.

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O BRASIL FOI OFERECIDO DE PRESENTE À FRANÇA? O principal rival de Filipe 2° na luta pelo trono de Portugal era d. An­ tônio, prior do Crato, neto bastardo do rei d. Manuel. Em novembro de 1580, quando se tomou clara a vitória mili­ tar e política do rei da Espanha (que comprara a peso de ouro o apoio de boa parte da nobreza lusa), o prior do Crato (abaixo) teve de se refugiar no interior do país. Em julho de 1581, conseguiu exilar-se na Inglaterra e, pouco depois, chegou à França, em busca do apoio da rainha Catarina de Mediei, inimiga de Filipe 2“. Bem rece­ bido pela rainha-mãe, o prior do Cra­ to iniciou seu contra-ataque. Como os Açores eram a única possessão que ainda não abraçara a realeza de Fili­ pe, as ilhas estavam cercadas. Para lá, o prior conseguiu enviar, junto com poucos navios da Marinha lusa que ainda se mantinham fiéis a ele, uma frota armada por Catarina. Documentos publicados em 1608 revelam que. para obter o apoio da ardilosa rainha, o prior do Crato teria oferecido o Brasil de pre.sente a Ca­ tarina. Embora para alguns historiado­ res os documentos pareçam ser insufi­ cientes para comprovar que d. Antônio tivesse plena consciência das intenções da rainha, o fato é que, depois de ven­ cer a frota espanhola, a armada fran­ cesa. chefiada pelo almirante Philippe Strozzi, deveria seguir para o Brasil e tomar posse do país. Em 25 de julho de 1582. porém. Strozzi fo i vencido nos Açores, e a França perdeu, outra vez, a chance de conquistar o Brasil. Em 1595, só e derrotado, d. Antônio mor­ reu na França.

O TRÁGICO DESTINO DE D. SEBASTIÃO o dia 4 de agosto de 1578. no mesmo deserto, no mesmo país e a poucos quilôme­ tros do local onde. 163 anos antes, Portugal dera imcio à sua expansão planetária, o império luso começava a ruir. Em 1415, d. João 1“. que garantira anos antes a indepen­ dência de seu país. ordenou a conquista de Ceuta, no Marrocos. A vitória marcaria o im'cio glorioso do império luso. Quase dois séculos depois, o rei d. Sebastião (à esquerda), 24 anos. contrariando todos os conselhos que recebera na corte, armou uma esquadra com 800 embarcações e partiu para aquela que seria a última aventura cruzadista da Europa na África. Seria também uma das derrotas mais trágicas da cristandade: naquele dia de agos­ to. nas planícies de Alcácer-Quibir, o exército de d. Sebastião foi destroçado pela cavala­ ria muçulmana. O rei morreu na linha de frente, depois de perder o cavalo. Seu corpo ja ­ mais foi encontrado. Com d. Sebastião sucumbiu a fina flor da nobreza portuguesa, incluindo um filho de Martim Afonso de Sousa. O império luso desmoronaria em menos de dois anos. O cardeal d. Henrique sucedeu a seu sobrinho-neto. Tinha 66 anos e gover­ nou por apenas 17 meses. Morreu sem que Roma o liberasse do celibato. Com ele acabouse a dinastia de Avis e se iniciou a dominação espanhola. O sumiço do corpo do jovem rei daria início ao culto chamado de sebastianismo — crença messiânica cujos reflexos se prolongariam até o trágico episódio de Canudos, na Bahia, em 1896.

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A U n iã o I bérica ilipe 2°, filho da infanta portuguesa d. Isabel e do altivo Carlos 5°, líder da casa dos Habsburgos, foi um dos m ais am biciosos im peradores da Espanha. A inda assim , depois de conquistar Portugal, preferiu adotar uma política genero.sa e conciliatória; em vez de dom inar o país, manteve sua autonom ia, suas leis, sua língua c sua estrutura administrativa. Asse­ gurou grandes vantagens à alta nobreza lusitana, que o apoiara desde o início: deu-lhes o "asiento” (o direito de transportar os e.scravos da Á frica para a A m érica) e continuou com prando-lhes os navios que. já antes da "conquista” , faziam a grandeza da armada espanhola. Sob Filipe 2° — e, depois, no reinado de seu suces­ sor, Filipe 3° {() direita)— , o Brasil pôde sair de um a posição “regional", a de m ero coadjuvante no jo g o das trocas com erciais, para adquirir um novo e m ais hon­ roso papel geopolítico, integrando-se à tram a do im ­ pério “atlântico” concebido por Filipe 2°. De 1580 a 1615, o Brasil tam bém se expandiria internam ente: a Paraíba e o M aranhão foram definitivam ente conquis­ tados, fundaram -se duas dezenas de povoados, abri­ ram -se novas linhas de com ércio, criaram -se novos cargos públicos, estabeleceu-se definitivam ente a li­ gação entre o Sul do Brasil e a região do Prata. Além disso, o foco da atividade econôm ica desviou-se da agricultura e do extrativism o para voltar-se à busca de riquezas m inerais — c isso provocaria uma profunda guinada nos rum os e nos destinos da futura nação. Foi tam bém durante a época dos Filipes que os bandeirantes paulistas agiram com desenvoltura d ifi­ cilm ente conceb ív el fora de um p eríodo no qual os limites das possessões da Espanha e de Portugal não estivessem tão "m isturados". Quando a união ibérica se encerrou, com o frágil reinado de Filipe 4° e a restauração portuguesa, o im en­ so território tom ado (e devastado) pelos bandeirantes passou a pertencer ao Brasil. Em bora fundam ental na história do país. o período dos Filipes continua sendo um dos m enos estudados no Brasil. Volumosa docu­ m entação inédita segue esquecida no Arquivo Geral de Sim ancas, na Espanha.

A RESTAURAÇÃO PORTUGUESA

R

ei morto, rei posto, viva o rei. Assim reagiram as autori­ dades coloniais do Brasil no instante em que souberam que o duque de Bragança, descendente dos antigos reis portugueses, reconquistara a independência de Portugal, comandando a re v o lução de r de dezembro de 1640 e logo sendo aclamado como

Quando comunicaram a Montalvão as üunsfonnações polí­ ticas na corte, ele se reuniu com seus vereadores e, depois de breve votação, d. João 4® foi aclam ado tam bém no Brasil. As autoridades castelhanas (algumas vivendo havia mais de 30 anos no Brasil) foram encarceradas de imediato. No Rio, vivia aque­

d. João 4”, fundador da casa de Bragança. Bancarrota financeira,

le que talvez fosse o homem mais importante do país; o govem a­

equívocos políticos e a Guerra dos 30 Anos (travada contra Fran­

dor Salvador Correia de Sá e Benevides. Filho de mãe espanho­

ça e Suécia) haviam enfraquecido o grande império espanhol,

la e casado com uma castelhana, também ele acabaria aderindo ao novo regime, após alguma hesitação. As maiores complexi­ dades ocorreram em São Paulo: com o na cidade viviam milha­ res de espanhóis, parte da população decidiu rebelar-se contra o novo govemo português e proclamou a soberania de São Paulo, aclamando com o seu líder o paulista Amador Bueno, que passa­ ria à história com o o homem que não quis ser rei. Bueno jurou fidelidade a d. João 4° e mandou prender os conspiradores.

debilmente conduzido por Filipe 4“ (ò direita). As circunstâncias se revelaram favoráveis e a revolução desencadeada por d. João 4° foi rápida e incruenta. A notícia da restauração portuguesa che­ gou ao Brasil dois meses e meio depois, em 15 de fevereiro de 1641. O vice-rei do Brasil era o marquês de Montai vão — herói lusitano das guerras contra a H olanda, que, no entanto, havia sido escolhido para o cargo e nele empossado por Filipe 4“.

A Ameaça Externa 55


A C o lô nia

do

Sacramento

m nenhum outro lugar de seus im ensos impérios m undiais Portugal e Espanha travaram tão longos e / sangrentos com bates por questões de lim ites quan­ to na pequena C olônia do Sacram ento, plantada às margens do rio da Prata, bem defronte de Buenos Aires. Descoberto pelo português N uno M anuel em 1514, mas conquistado por Juan Díaz de Solis em 1516, o rio da Prata sem pre foi tido com o a porta de entrada para as riquezas do Peru — e, por isso m esmo, visto com o o ponto m ais im portante da costa m eridional da A m érica do Sul. Em bora, de acordo com 0 Tratado de Tordesilhas, a região ficasse dentro de território espanhol, os diplom atas lusos lutavam para im ­ por, em cortes internacionais, a teoria da “ilha B rasil” : a possessão portuguesa na A m érica deveria ser delim itada, ao norte, pela foz do Am azonas e, ao sul, pela do Prata (rios que, segundo a geografia m itológica da época, teriam sua nascente com um num lago localizado algures. no interior do continente). D urante os anos da união ibérica, intensas ligações e fortes interesses com erciais haviam aproxim ado o Sul do Brasil da região do Prata.

Q uando Portugal recuperou a independência, os paulis­ tas e dem ais habitantes das “capitanias de baixo” do Brasil não se sentiram dispostos a abrir mão de suas lucrativas conexões platinas: o contrabando de couro trocado pelo contrabando de prata. A cena conflitante estava armada. Em 1679, partiu de Santos uma expedição com andada por M anuel Lobo com ordens para fundar um povoam ento por­ tuguês às m argens do grande rio. No dia 20 de janeiro de 1680, num a pequena ilhota cham ada São Gabriel, surgia a pequena colônia batizada do Sacram ento. Os espanhóis não precisaram m ais que sete m eses para obter perm issão judicial a fim de atacar o estabelecim ento. Em 8 de agosto, depois de um terrível com bate, conhecido com o Noite Trágida. um exército hispano-guarani tom ou de assalto a pra­ ça. prendeu ou matou cerca de 80 portugueses e devastou a nascente povoação. Mas esse seria apenas o prim eiro dos sangrentos epi.sódios que m arcariam a história da colônia: por cerca de cem anos, espanhóis e lusos lutariam — nos tribunais e nos cam pos de batalha— pela posse da prim ei­ ra “zona franca” da A m érica do Sul.

I

A CAPITAL DO M ERCOSUL Com seus azulejos portugueses, suas silen­ ciosas ruas de pedra, suas torres, suas igrejas e suas palmeiras, a diminuta Colônia do Sacramen­ to é hoje uma sonolenta cidadezinha histórica erguida entre as muralhas que presenciaram inúmeras batalhas. Sitiada em 1704-5, em 173537, em 1763, em 1772-76, só passou definitiva­ mente à Espanha depois do Tratado de Santo Ildefonso, de 1777 —trocada pelos Sete Povos Orientais (as missões da margem esquerda do rio Uruguai). Ligada à história da Argentina, do Uru­ guai, do Paraguai e do Sul do Brasil, a Colônia do Sacramento é a capital histórica do Mercosul.

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H is tó r ia d o B ra s il


o

B ra sil H

olandês

erta noite de março de 1644, o conde Johann Mauritius van

Por 24 anos, os holandeses foram senhores de sete das 19 capi­

Nassau (ou João Maurício de Nassau) — govemador e me­

tanias em que se dividia o Brasil do século 17. Velhos parceiros co­ merciais de Portugal, só atacaram a maior das colônias lusas porque travavam com a Espanha a guerra por sua independência. Invadir o Brasil era unir o útil do lucro açucareiro ao agradável da vingança

C

cenas do Brasil holandês— conclamou o povo de Recife a as­ sistir a uma grande festa durante a qual, garantiu ele, um boi iria voar. Houve quem logo duvidasse, é claro. Até os mais céticos, porém, de­ vem ter pensado duas vezes antes de rir na cara do conde. Afinal, não estavam eles na cidade mais cosmopolita e avançada América? Um jardim não floria onde antes fora charco? 0

contra um inimigo ancestral. A tomada da zona produtora de açú­ car do Brasil foi plano minuciosamente articulado pela Com ­ panhia das índias Ocidentais — empresa de capital privado que obteve do govemo holandês o monopólio do comér­

porto não fervilhava repleto de navios e de mercadorias de todo o mundo? Não produziam a pleno os engenhos? cos, mascates escoceses, negociantes alemães e france­ ses às centenas não percorriam ruas impecavelmente pavimentadas? Além disso, naquela mesma tarde não fo­

cio com a América e a África. A invasão de Salvador, em 1624, durou apenas um ano e deu prejuízo à companhia. Mas, em março de 1630, os holandeses tomaram Recife, e lá ficaram até a sua expulsão, em janeiro de 1654. Ao longo desse quarto de século, os sete anos cha­

ra inaugurada a maior ponte da América, um prodígio

mados “tempo de Nassau” (1637 a 1644) marcaram o

Oficiais ingleses e investidores judeus, aventureiros sue­

apogeu do domínio holandês no Brasil, originando a arquitetônico de 318 metros de comprimento? Desde que crença segundo a qual o destino do país seria mais no­ assumira como “govemador, capitão e almirante-general bre caso o projeto colonial da Companhia das das terras conquistadas ou por conquistar pela O conde Johann íMauritiiis índias Ocidentais fosse mantido. No entanto, o fa­ Com panhia das índias Ocidentais no Brasil” , van 9{assau taívez tenha to é que, como o próprio Nassau previra, menos de N assau tinha tirado o país do chão. No dia da sido 0 mtChor administrador e um ano depois de sua partida — antes da qual o inauguração da ponte e da festa do boi voador, conde fez voar “um couro de boi cheio de palha 0 poCítico mais competente de porém, ao “príncipe” só restavam dois meses de Brasil. M esmo que um boi voasse, a obra de Nassau logo iria por água abaixo.

toda a história do ‘B rasií

preso por fios que a noite escondia”— , azedou-se de vez o doce Brasil holandês.

O Brasil Holandês 57


A I nvasão

N

^ o instante em que as primeiras velas holandesas apontaram em frente de Salvador, na m anhã de 8 de maio de 1624, o que estava a ponto de se con­ sum ar era um a invasão anunciada. M eses antes, espiões a serviço da Espanha sabiam que os holandeses estavam armando uma esquadra para atacar a Bahia. Ainda assim, o govemador-geral Diogo de Mendonça Furtado não pôde convencer a corte a fortificar a cidade. O bispo d. Marcos Teixeira persuadira o rei a investir na construção da Sé, e não de um forte. Salvador, “tesouro rico porém mal se­ guro”, continuou “uma cidade aberta, defendida 80 soldados pagos” . Não foi, portanto, nada difícil para a esquadra de 26 navios, 3.300 hom ens e 450 bocas-de-fogo, chefiada por Jacob W illekens, tomar Salvador {gravura acima). Na verdade, bastaram 24 horas; o bombardeio iniciou na manhã de 9 de maio. Na noite do m esmo dia. o povo abandonava a cidade às pressas. Na manhã do dia 10, ao entrarem na praça deserta, os holandeses depararam apenas com o govemador, “disposto a morrer de espada em punho”. Furtado foi preso e enviado para a Holanda, junto com o butim da vitória; 3.900 caixas de açúcar e muito pau-brasil. E mais: a pilhagem foi tal que um oficial holandês afirm ou que os soldados “m e­ diam prata e ouro nos chapéus cheios e apostavam 400 florins num lance de dados” . A orgia da soldadesca durou dois dias. O dom ínio holandês, um ano. Ao invadir a Bahia, os holandeses estavam concreti­ zando o plano minuciosamente estabelecido por um docu­ mento cham ado “Motivos por que a Com panhia das índias Ocidentais deve tentar tirar ao rei da Espanha a terra do Brasil e a Lista do que o Brasil pode produzir”. Estavam também atacando velhos parceiros comerciais.

58

H i s t ó r i a d o B r .a s il

da

B a h ia

Antes da União Ibérica, Portugal e Holanda mantinham intenso comércio. Em Lisboa, os batavos adquiriam vinho, sal e drogas do Oriente. Em troca, deixavam trigo, peixe, queijo, aparelhos náuticos, metais e tecidos. Com o início da lavoura de açúcar no Brasil, esses laços comerciais se estrei­ taram ainda mais; todo, ou quase, o açúcar feito no Brasil era refinado na Holanda e dali distribuído para o resto da Europa. O primeiro engenho do Brasil fora de um banqueiro holandês — e a maioria dos que vieram a seguir, financiada por eles. Por volta de 1621, só em Amsterdã havia 25 refi­ narias de açúcar. Desde 1568 a Holanda estava em guerra com a Espanha e obteve a independência nas sete colônias do Norte só em 1579, um ano antes de Portugal ser absorvido pelos espanhóis (a in d ep e n d ên c ia to tal só viria em 1648). A o capturar muitos navios holandeses em Lisboa, Filipe 2° acabou com as trocas entre lusos e batavos. Em 1609, espanhóis e holandeses fir­ maram uma trégua de 12 anos. Só nesse perío­ do, 50 mil caixas de açúcar saíram do Brasil para a Holanda — cada caixa tinha 525 quilos. Finda a trégua em 1621, os holandeses se recusaram a abrir m ão dessa fonte de renda. O ataque ao Brasil foi, en­ tão, proposto pela recém -fundada C om panhia das índias Ocidentais. M as o tiro saiu pela culatra. Em bora Salvador fosse tom ada em 24 horas, os ho­ landeses não puderam conquistar o interior da Bahia. A resistência de lusos e brasileiros — liderada por M atias de A lbuquerque {retrato o v a l)— foi feroz na zona rural e se baseou nas táticas da “guerra brasílica” , ou guerra de guerrilhas. Em 22 de m arço de 1625, os espanhóis en­ viaram a Salvador a m aior frota que já cruzara o Equador (52 navios com 12 mil hom ens). Em 1° de m aio, os holan­ deses capitularam . Mas logo retom ariam .

COMPANfflA DAS ÍNDIAS OCIDENTAIS A invasão do Brasil foi um plano articulado peta Companhia das índias Ocidentais (WIC, West Indische Compagnie), fundada em junho de J621 nos moldes de sua congênere, a Companhia das índias Orientais {criada em 1602). Com capital inicial de 7 milhões de florins, a WIC era uma sociedade de capital aberto que obteve o monopólio, por 24 anos. da exploração da América e da África. A maior parte dos acionistas eram pequenos investidores —calvinistas convictos fugidos do Sul dos Países Baixos para Amsterdã. O conselho administrativo da WIC era composto por 19 diretores: 18 escolhidos por conselhos regionais e um pelo govemo central. Ao contrário de sua antecessora, a WIC deu poucos lucros: só em 1628. com a captura da frota anual da prata da Espanha pelo corsário Pieter Heyn. a companhia pôde pagar dividendos aos acionistas. Foi esse o capital que permitiu a invasão de Pemambuco. depois que os holandeses foram expulsos da Bahia. Embora tenha conquistado em Angola os portos de onde vinham os escravos e levado o açúcar para as Antilhas. a WIC foi deficitária. Tanto que. em 1674. decidiu vender para os ingleses uma ilha chamada Manhattan.


r

o

T empo

invasão da Bahia só trouxe prejuízos para a jovem Com panhia das índias Ocidentais. Em 1628. porém, a com panhia capturou, ao lar­ go de Cuba, a frota anual da prata espanhola e obteve um butim de 14 milhões de florins (o dobro de seu capital inicial). Enriquecida, a W IC planejou nova invasão ao Brasil. O alvo escolhido desta vez foi a maior e mais rica região produtora de açúcar do mundo. Além de possuir 130 engenhos (responsáveis por mil toneladas de açúcar/ano), Pernambuco era uma capi­ tania particular, e não real. sendo, portanto, m al-aparelhada na sua defesa. No dia 15 de fevereiro de 1630, uma armada com 77 navios, 7.(X)0 homens e 170 peças de artilharia surgiu diante de Marim — mais tarde cham ada Olinda. Embora a resistência do govem ador M atias de Albuquerque (neto do velho donatário Duarte Coelho) fosse, mais uma vez, heróica — e, antes de partir, ele ainda conseguisse incendiar 24 navios fundeados no porto— , Recife foi tomada em março. Dessa vez. a ocupação duraria mais de 20 anos. O dom ínio holandês em Pernam buco (de onde se estendeu para sete das então 19 capitanias que constituíam o Brasil) divide-se em três fases. A prim eira, de 1630 a 1637, seria m arcada pela valorosa resistência lusa no interior. De 1637 a 1644, o Brasil holandês floresce em relativa paz: é o cham ado “período nassoviano". De 1645 a 1654, trava-se a guerra que resultaria na expulsão dos invasores. Três séculos e m eio depois, a expe­ riência holande.sa no Brasil continua associada ao tem po de Nassau.

A

oi nas terras baixas localizadas na confluência dos rios Capibaribe e Beberibe (zona alagadiça que lembrava a Holanda) que Nassau ergueu a Cidade Maurícia. símbolo de sua admini.stração. Ali. na ilha de Antônio Vaz (hoje bairro de Santo Antônio), construiu, à própria custa, o Vrijburg. sua residência oficial, também chamada Palácio Friburgo ou das Torres (à direita). “No meio daquele areal infrutuoso, plantou um jardim e todas as castas de árvores de fruto que dão no Brasil", escreveu frei Calado, padre luso que conheceu o lugar. Entre milhares de flores e frutos, Nassau plantou também 2.000 coqueiros. Fez um zoológico com todos os tipos de animais encontráveis no país. O conde adorava “que todos fossem ver suas curiosidades".

F

de

N assau

Johann M auritius van Nassau-Siegen nasceu em 17 de agosto de 1604, em D illenburg, na Alem anha. Foi neto do conde João 6°, que era irm ão do príncipe Guilherm e de Orange, fundador dos Países Baixos. Pelo lado da mãe. seu bisavô foi Cristiano 3°, rei da Dinamarca. Em bora ingressasse aos 14 anos na carreira militar. N assau teve form ação hum anista: na U ni­ versidade da Basiléia, estudou teologia, filosofia, m atemática, música, ciên­ cias de guerra, boas m aneiras, esgrim a e equitação. T om ou-se coronel aos 25 anos, lutou contra a Espanha, encom endou quadros de R em brandt e ini­ ciou a construção de uma m ansão em Haia. Em agosto de 1636, foi con­ vidado pela W IC para ser govem ador-geral do Brasil holandês. C om o o salário de 1.500 florins m ensais (m ais um adiantam ento de 15 mil florins e sobre o total das presas de guerra) fosse atraente — e os gastos com a nova casa, grandes— , N assau aceitou. Em 23 de janeiro de 1637, chegou a Recife com 3.000 soldados, 800 m arinheiros e 600 índios e negros. Tolerante, com petente, dedicado e ágil, Nassau fez um govem o brilhan­ te. Primeiro, tomou Porto Calvo, último foco da resistência lusa. Depois, atraiu os plantadores luso-brasileiros concedendo-lhes empréstimos para reerguer seus engenhos — e os defendeu da agiotagem dos negociantes holandeses e judeus, limitando os juros a 18% ao ano. Concedeu liberdade de culto, tratou bem os índios, aumentou a produção de açúcar, urbanizou Recife, protegeu os artistas, apaziguou o país. Foi um príncipe.

Nassau não agiu apenas em benefício próprio. Deu ao povo pão e circo: contrário à monocultura, obrigou senhores de engenho a plantar mandioca, “o pão do Brasil”. Por decre­ to, proibiu a derrubada dos cajueiros, já qua.se em extinção. Ladeou as ruas com mamoeiros, jenipapeiros e mangueiras. Proibiu, por edital, “o lançamento do bagaço de cana nos rios e açudes”, evitando mortandade de peixes que alimentavam os pobres. Promoveu cavalhadas, peças de teatro e a famosa farsa do boi voador. Convocou a primeira assembléia legis­ lativa democrática do continente. Permitiu a construção de sinagogas, aproximou calvinistas e católicos — só não fez concessões a jesuítas. O povo o comparava a Santo Antônio,“a quem ninguém recorria sem se ver atendido” .

O Brasil Holandês 59


U m T esouro H

Ainda assim , a obra de dois cientistas trazidos por N assau não encontra, até hoje, paralelo nos anais da

m aterializou no Brasil do século 17 estão pre­ servadas no am plo legado artístico e cultural produzido ao longo de sua perm anência de sete anos no país. Ao desem barcar em Recife, N assau trouxe em sua co m iti­ va 46 artistas, cientistas, artífices e sábios. D eslum bra­ do com o viço e o vigor da natureza tropical, encarregou seus protegidos de catalogar, pintar, estudar e preservar plantas e anim ais do Brasil. Transform ou o abacaxi e o caju em sím bolos desse “belo país do Brasil, que não tem igual sob o céu” . Tanto quanto a obra artística feita

erudição brasileira. Em 1648, Georg M arcgraf e W illem Piso publicaram , em Leiden, na Alem anha, sua soberba “H istoria N aturalis Brasiliae” . Piso, m édico de Nassau, realizou estudos sobre doenças tropicais e ervas m edici­ nais brasileiras. M arcgraf, nascido em Liebstad, na A le­ m anha, em 1610, e m orto em Angola, em 1644, estudou o clim a e classificou centenas de espécies da fauna e da flora brasileiras. Naturalista, astrônom o, m atemático, agrim ensor e cartógrafo, M arcgraf deixou m uitos tra­ balhos inacabados. C ientistas m odernos acreditam que,

sob seu m ecenato, destaca-se o trabalho científico reali­ zado em m enos de um a década. Entre os letrados ilustres da corte tropical de Nassau incluíam -se Johann Benning, professor de ética e física da U niversidade de Leiden; Elias Heckman, botânico; Constantin I’Empereur, espe­ cialista no Talmud; e o médico Servaes Carpentier. N as­

se tivesse vivido bastante, teria sido um dos m aiores

A FRANS PO ST

Primeiro europeu a pintar os esplendores naturais do trópico, Frans Post (1608-1669) foi um paisagista brilhante, cuja obra, requintada e minuciosa, ilustra esta e as páginas 57 e 59- /4s três pinturas mostradas aqui fazem parte das 18 únicas que R)St produziu a partir da observação direta da paisagem do Novo Mundo. Todas foram doadas por Nassau ao rei Luís 14, da França, em 1678. Onze estão desaparecidas. .Mas a obra de Post, que permaneceu no Brasil de 1637 a 1644, soma duas centenas de quadros: são paisagens imaginárias feitas na Holanda a partir do que ele vislumbrara no Brasil.

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H

is t ó r i a

do

B r a s il

u m a n is t a

evidências de que o conde João M aurício de N assau era um príncipe renascentista que se S

sau queria fundar em Recife uma universidade aberta.

naturalistas de todos os tem pos — talvez o m aior desde Aristóteles. Na casa onde morou em Recife, de 1637 a 1642, M arcgraf dispunha de um observatório astronô­ m ico que o próprio N assau m andara vir da Holanda. Ao ver a obra de M arcgraf, o padre A ntônio Vieira deixouse tom ar pela inveja e observou que ela despertaria co­

Partiu antes de consegui-lo.

biça sobre “as terras que tão pouco sabem os estim ar” .


Os

N

P

in t o r e s d e

"ão foi exatam ente com o se Rem brandt ou Rubens tivessem desem barcado nos trópicos. M as foi quase. Seis pintores faziam parte da com itiva que M aurício de N assau trouxe para Recife. Todos tinham casa e com ida, salário fixo e m uito trabalho pela frente; seriam os prim eiros pintores a registrar a exuberante natureza do Novo M undo. A obra e m esm o o nome de um deles se perderam na história. Pierre de G ondreville produziu pouco e C om elis Golijath era mais cartógrafo do que propriam ente um artista. Zacharias W agener, m ero soldado raso a serviço da C om pa­ nhia das índias Ocidentais, não constava da lista ofi­ cial. M as, desde sua chegada ao Brasil, em 1634, esse alem ão de Dre.sden dem onstrou m uita habili­ dade e um interesse perm anente pela natureza do país. Promovido a “despenseiro-escrevente” e a es­ crivão particular de Nassau. Wagener, simples “pin­ tor de dom ingo” , acabou produzindo centenas de aquarelas e litogravuras dos animais brasileiros. Ao retom ar para a Europa, em 1643. levava consigo os originais do “Tierebuch” , ou “Livro dos Anim ais”, uma espécie de versão popular da “Historia Naturalis Brasiliæ”, de M arcgraf Mais do que isso: a obra de Wagener teve grande influência sobre Albert Eckhout. E, junto com Frans Post. Eckhout foi um gênio da arte no Brasil.

N assau

Albert Eckhout nasceu em G roningen. na Holanda, em 1610. Viveu no Brasil dos 27 aos 34 anos de idade. Sentavase à mesa do jovem conde, que chegou ao país com 33 anos. em com panhia de Frans Post. dois anos mais m oço do que Nassau. Eckhout foi um pintor naturalista com excepcional dom ínio do d ese n h o de m odelos vivos, dono de um e stilo altam ente individual e detalhista, disposto a docum entar tipos hum anos, plantas e anim ais que os europeus jam ais haviam visto — e, portanto, nunca haviam retratado (veja as pinturas nesta página). Eckhout (assinatura à esquerda) era fa.scinado pelo exótico. Seus retratos em tam anho natural de índios, m am elucos e negros, porém , lhes concedem , além de rigor antropológico e etnográ­ fico, um a grande dose de altivez e dignidade; Eckhout pintou indivíduos, não meros exotism os tropicais. Sua obra foi m agnificam ente com plem en­ tada pela de Frans Jansz Post. cultor das paisagens brasileiras que se deixou fascinar pela lum inosidade e pelo viço dos trópicos — elem entos que tão bem soube c apturar em suas telas. Ao retom ar para a Europa. N assau doou os quadros de Post ao rei Luís 14, da França, e os de Eckhout a Frederico 3°, da Dinam arca. O encanto que eles despertaram então perm anece inalterado m ais de 350 anos depois.

O Brasil Holandês 61


A E xpulsão

dos

H

olandeses

m 6 de m aio de 1644, depois de vários meses em choque com os N o dia 19 de abril de 1648, os rivais se defrontaram nos montes Guararapes, nos arredores de Recife. M ais de 5.000 holandeses, com andados dirigentes da Com panhia das índias Ocidentais, João M aurício de pelo general alem ão S iegm undt von Schokoppe, foram vencidos por á Nassau renunciou ao govem o do Brasil holandês. Sua decisão cau­ cerca de 2.500 luso-brasileiros, chefiados por Fem andes Vieira, Vidal de sou com oção em Recife e dem ais zonas sob o dom ínio batavo (na época, mil quilôm etros de costa, desde São Luís do M aranhão até Sergipe). Numa N egreiros. Felipe C am arão e Henrique Dias. O com bate, conhecido com o prim eira batalha dos G uararapes, aum entou m uito o moral dos insurretos. últim a tentativa conciliatória, alguns dos mais proeminentes luso-brasileiros Quase um ano depois, e no m esm o lugar, os dois exércitos voltaram a se de Recife — entre os quais João Fem andes Vieira, o mais rico de todos e, enfrentar. Chefiados por Johann van den Brincken, os holandeses mais tarde, um dos grandes líderes da Insurreição de 1645— enviaram perderam mil homens. Entre os brasileiros, m orreram 47 brancos um a carta profética à W IC, na qual diziam : “ Se ele (N assau) se 60 índios e negros, entre os quais H enrique Dias. O cronista ausenta deste Estado, muito em breve se há de tom ar a aniquilar alem ão Johann N ieuhoff escreveu: "O dia 19 de fevereiro de tudo o que com sua presença floresceu e se alcançou” . Pois foi 1649 foi o pior de quantos no Brasil experim entam os em justam ente o que aconteceu. Antes do fim de maio, pranteado por índios, negros e europeus de muitos países, Nassau partiu. m uitos anos, pois, apesar da bravura com que o nosso exér­ Em menos de um ano. a guerra rebentou. cito atacou (...), o adversário, anim ado pelos últim os suces­ sos e confiante na sua superioridade num érica, conseguiu D esde ju n h o de 1641, lusos e holandeses viviam uma (...) [fa zer\ o E x é rc ito h o lan d ê s b a te r em re tira d a ” . O s trégua, assin ad a logo dep o is que P ortugal recuperou sua com andantes holandeses acabaram todos mortos. A segunda independência, separando-se da Espanha. A inda assim , sem a batalha dos G uararapes (acim a) foi um confronto decisivo. presença de Nassau, grandes senhores de engenho decidiram rebelar-se: m uitos deles estavam atolados em dívidas com a Com ­ M esm o assim , a capitulação dos holandeses levaria cinco anos. panhia das índias Ocidentais. Libertar o Brasil im plicava Sitiados em Recife, eles resistiram até 26 de janeiro de O ‘Lp(ército hoíandh que Cutou 1654. Mas, então, em guerra com a Inglaterra, em per­ libertar-se tam bém das dívidas. As últim as safras haviam sido m ins (houve inundações, seca, incêndios e epide­ manente confiito intem o com a Zelândia e precisando do no ‘^Brasií era form ado por m ias entre 1641 e 1644), o preço intem acional do açúcar sal de Setúbal para salgar seus peixes, a Holanda desistiu muitos mercenários escoceses, desabara, a tolerância religiosa dos tem pos de Nassau da G uerra do A çúcar e abandonou o B rasil. Em 1661, napoãtanos e cdemães depois de receber dos portugueses um a com pensação de acabara. Tudo isso levou à eclosão do prim eiro combate: (acima, um soCdado fwCandês) 4 m ilhões de cm zados, a H olanda abdicou of no dia 3 de agosto de 1645 foi travada a batalha de Tabo­ de suas pretensões no Brasil. A essa altura, os palácios e cas. Em bora no exército luso-brasileiro m uitos lutassem com foices e paus, os holandeses foram batidos. Em breve, estariam com ­ jardins de N assau já haviam sido “consum idos na voragem de fogo e san­ gue dos anos de guerra” . E o conde era governador da província de Kleve, pletam ente encurralados em Recife. A inda assim , a guerra logo entraria num longo impasse: os luso-brasileiros dom inavam o interior, mas Recife na Alem anha, onde, em 1679, m orreu aos 75 anos. em pobrecido, com sua perm anecia inabalável. Essa situação perm aneceria por três anos. m onum ental “ Brasiliana” dispersa por vários palácios da Europa. 1

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P pesar de articulada e em parte conduzida por m em bros da alta burguesia luso-brasileira. a guer­ ra contra os holandeses passou à história com o o confronto que lançou as bases do nacionalism o brasileiro porque o exército que enfrentou o invasor era ”o am álgam a das três raças” . De fato, além dos pe­ lotões chefiados por Fernandes Vieira e Vidal de Negreiros, a vitória brasileira .só se tornou possível graças ao batalhão de índios com andado pelo potiguar Felipe Cam arão e ao batalhão de negros che­ fiado por Henrique Dias. Os holandeses também tiveram aliados nativos; os ín­ dios polis, paraupabas e janduís mais o m ulato trânsfuga Dom ingos Calabar. A seguir, a biografia sucinta de algum as fi­ guras da Guerra do Açúcar: M atias de Albuquerque: O principal opositor dos holandeses não participou das lutas decisivas — estava injustam ente preso em Lisboa. Depois, foi anistiado. João Fernandes Vieira: Negociante no Recife, foi preso em 1635. Logo se aliou aos holandeses e adquiriu “a m aior fortu­ na da terra". Em dívida com a W IC, li­ derou a revolta após a saída de Nassau. André Vidal de Negreiros: Rico senhor de engenho, virou chefe das guerrilhas. Tomou Recife em 1654 e foi governador de Pernam buco e dc .Angola até 1666.

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ersonagens da

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G u e r r a B ra sílic a

m aior contribuição nacional à história m ilitar mundial fo i dado nos quase 30 anos durante os quais os exércitos Itiso-

hrasileiros combateram o invasor holandês: nas colinas e ala­

gadiços, nas matas e nos areais de Pernambuco, o Brasil pode ter inventado a guerra de guerrilhas. Conhecedores profundos do terreno e bem -adaptados à natureza tropical, portugueses como M atias de Albuquerque, índios como Felipe Camarão e negros como Henrique Dias idealizaram uma tática de luta que, .segun­ do o historiador G onsahes de Mello, fo i “uma antecipação do estilo brasileiro de jo g a r futebol". Para Gilberto Freyre, a guer­ ra brasílica era “um conjunto de qualidades de surpresa, de m a­ nha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de brilho e de espontaneidade individual... alguma coi.sa de dança e de capoei­ ra ”. Os adversários, mesmo derrotados, souberam reconhecer a e.xcelência das táticas nativas. Testemunha ocular da segunda batalha dos Guararapes, o holandês M ichiel von Goch escreveu que as tropas brasileiras eram “ligeiras e ágeis p or natureza, de modo que cruzam matos e brejos, sobem morros aqui tão nu ­ merosos e descem-nos tudo com rapidez e agilidade notáveis".

Felipe Cam arão: Potiguar nascido em 1591, Antônio Poti (’‘cam arão”, em tupi) se converteu ao cristianism o, tornou-se um dos mais fiéis aliados dos portugueses c o indígena mais respeitado do Brasil. C hefe de um batalhão com apenas 170 índios, obteve grandes vitórias. Em 1633. 0 rei Filipe 3° lhe deu brasão de armas e pensão de 40 mil-réis. Antônio Poti virou dom Felipe Camarão. Em 1635 ganhou com enda da Ordem de Cristo. Com batia ao lado da mulher. Clara. Depois da pri­ m eira batalha dos G uararapes. Cam arão adoeceu e m orreu em 24-8-1648. H enrique Dias: Filho de negros libertos, se apre.sentou a M atias de Albuquerque à frente de um batalhão de negros "de qua­ tro nações: Minas. Ardas. Angolas e Criou­ los". Ferido na batalha de Cam andituba. teve am putada metade do braço (acima). Tomou-.se governador dos Crioulos. N e­ gros e Mulatos. Dom ingos Calabar: Guerrilheiro m ula­ to. lutou ao lado de M atias de A lbuquer­ que. mas .se passou aos holandeses em abril de 1632. Deu m uito trabalho aos brasileiros. Capturado em julho de 1634, foi torturado, enforcado e esquartejado. Destino sim ilar ao dos caciques janduí. poti e paraupaba. À esquerda, estão os re­ tratos de Fernandes Vieira, Felipe C am a­ rão e Vidal de Negreiros.

O Brasil Holandês 6J


B ra sil H

olandês:

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retérito

N ão se trata de opinião solitária. “A idéia de que a colonização holan­ empre tão pródigo e eficiente na autodepreciação — cujo reflexo desa teria sido superior à portuguesa, pelo senso de organização, nível mais perv'erso e am bíguo talvez se m anifeste num a auto-indulgência cultural e grau de liberdade, se baseia num preconceito, num a ilusão de tão nefasta e enganosa quanto o desprezo que devota à própria im a­ ótica e num erro de infonnação” , escreveram os gem — . o Brasil enraizou em seu im aginário histohistoriadores A rno e M aria Jo.sé W ehling em “F or­ riográfico a idéia de que poderia ter-se transform ado m ação do Brasil C olonial” . “A ilusão de ótica (...) num paraíso eficiente e produtivo, luzindo ao sol do é adm itir a existência de colonizações ‘m elhores’ trópico, caso tivesse perm anecido sob o dom ínio ou ‘piores’, quando a natureza da instituição colo­ holandês, livrando-se da indolente herança lusitana. nial faz com que ela seja objeto — de lucro, em ge­ Além do quadro psicológico tão revelador, que ver­ ral, mas tam bém de populações excedentes— e não dades históricas poderiam se esconder por trás desse sujeito da relação." anseio tão frequentem ente apresentado com o fato? O mito de um esplêndido Brasil holandês surgiu Um suposto Brasil holandês seria realm ente um a graças ao govem o de Nassau, muito superior à rude­ alternativa m elhor do que o real Brasil português? Os dois aspectos tnais conflitantes entre os za lusa de até então. Porém, como notou o historiador N ada permite supor que sim — pelo contrário. modelos colonialistas estabelecidos Bóris Fausto, “Nassau representava apenas uma ten­ Em 1971, o historiador M ário Nem e debruçoupor Holanda e Portugal foram longamente estudados no BrasiLJá em 1907, Capistrano dência e a Com panhia das índias Ocidentais outra, se sobre a questão e, no seu adm iravelm ente bem de Abreu obsenmKi que o fato de os mais próxim a do estilo do em preendim ento colonial docum entado “Fórm ulas Políticas do Brasil H olan­ holandeses dominaretn facilmente as cidades luso” . Na verdade, basta analisar o que se passou nas dês” . concluiu que a tese de que os holandeses es­ do Nordeste e mmca terem conquistado o demais colônias holandesas — no Caribe, nas Guia­ tavam dispostos a fazer do Brasil uma nação dem o­ interior —e a ação inversa posterior: os lusos nas e na Ásia (como em Java, mostrada na gravura crática. igualitária e etlciente nasceu nos textos do reconquistavam as zonas rurais, nuis eram incapazes de tomar as cidades— acima no tempo do domínio batavo)— para concluir frade português M anuel Calado, “com ensal confesso reivlava que os primeiros eram homens que, sem Nassau. o Brasil holandês dificilmente teria do conde de N assau". urbanos e os lusos tinham vocação rural um destino fulgurante. Além do mais. com o obser­ Em sua monumental “H istória do B rasil” , lan­ Natural, portanto, que ao longo do período vou o professor Gonsalves de Mello, “os holandeses çada em 1854, Francisco Varnhagen ecoou Calado. holandês, estourasse um conflito entre os senhores de engenho luso^trasileiros e os M as, conform e Nem e, Varnhagen escreveu num a não se tinham apoderado do Brasil com a intenção de comerciantes holandeses (acima) e judeus. o colonizar (...) de para aqui se transferir com as época em que “a inteligência nacional está por in­ Na colônia portuguesa, predominavam famílias e estabelecer um renovo da pátria: movia-os teiro predisposta contra Portugal (...) m om ento em os interesses dos plantadores; na sobretudo o interesse m ercantil” . Quando os grandes que a reação da antiga colônia — tom ando consciên­ holandesa, o dos negociantes. lucros prom etidos pelo açúcar m inguaram, os holan­ cia plena das oportunidades perdidas— entra na fase deses preferiram abrir m ão de suas conquistas. Ao fazê-lo, abandonaram em ocional de racionalização de todos os ressentim entos, insuflados pelas inapelavelm ente tapuias e potiguares, seus aliados indígenas de mais de 20 lutas da independência, da abolição e da república” . Nada perm ite supor, anos. e jam ais m overam uma palha para defendê-los. segundo Nem e, que um Brasil holandês seria melhor.

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in er a ç ã o É im p o s sív e l q u a n tific a r o s n ú m e ro s d a c o rrid a d o o u ro de

m eia d ú z ia de o b ra s-p rim a s d a lite ra tu ra , n e m u m a in d ú stria

M in a s G e rais; o c o n tra b a n d o fo i, d e sd e o in íc io , u m a re g ra m ais

^ c o m o a d e H o lly w o o d p a ra tra n s fo rm á -la n u m m ito u n iv e r­

c o n sta n te e e fic ie n te d o q u e as n o rm a s p a ra im p e d i-lo . A in d a a ssim ,

sal, o fa to é q u e o B ra sil n ã o a p e n a s tev e a su a c o rrid a d o o u ro c o ­

sa b e -se c o m c e rte z a q u e as d e sc o b e rta s d e 1 6 9 3 -9 4 d e im e d ia to

m o e la foi, no m ín im o , tã o d ra m á tic a , v e rtig in o sa e re n tá v e l q u a n to

to m a ra m o B rasil o m a io r p ro d u to r m u n d ia l d e o u ro d a é p o ca . A s e s ­

a q u e la q u e , e m 1848, d e te rm in o u a o c u p a ç ã o d a C a lifó rn ia e a que,

ta tístic a s sã o m u ito v a riá v e is, m a s c a lc u la -se q u e se e x tra íra m c e rc a

m e io sé c u lo d e p o is , e x p o rto u p a ra as lo n ju ra s g e la d a s d o A la sc a to ­

de 8 4 0 to n e la d a s d o m eta l — se m a u x ílio m e c â n ic o — e n tre 1700 e

d o s o s h o rro re s d a c iv iliz a ç ã o . C o m o e m su a s e q u iv a le n te s n o rtea m e ric a n a s , a fe b re d o o u ro q u e to m o u c o n ta d o B ra sil, no

1799 (fo ra m 2 7 0 to n e la d a s e n tre 1752 e 1787; p a ra fin s c o m p a ­ ra tiv o s: n a d é c a d a d e 80, S e rra P e la d a p ro d u z iu 3 5 0 to n e la ­

c re p ú s c u lo d o sé c u lo 17, re v o lu c io n o u o p a ís d e to d a s as

d a s). A m a s s a h u m a n a q u e se d irig iu à s m in a s e n tre 17(X)

fo rm a s c o n c e b ív e is: p ro v o c o u um im e n so e d e so rd e n a d o

e 1720 foi su p e rio r a 150 m il p e sso a s, d a s q u a is m ais d e c em

ê x o d o p o p u la c io n a l q u e e sv a z io u as c id a d e s (g ra v u ra acim a)',

m il e ra m e sc ra v o s. A o lo n g o d o sé c u lo 18, c e rc a d e 4 3 0 m il p a u ­

c a u s o u e n lo u q u e c id o a u m e n to n o p re ç o d o s e sc ra v o s, d o s re b a ­

lista s, c a rio c a s, b a ia n o s, p o rtu g u e s e s , ín d io s e n e g ro s d a G u in é

n h o s e d o s v ív e re s; fo rç o u re fo rm a s p o lític a s de v u lto ; le v o u m i­

ou d e A n g o la p e rc o rre ra m as trilh a s e sc a b ro sa s q u e se p a ra v a m o

lh a re s d e ín d io s à e x tin ç ã o ; e a b riu n o v o s c a m in h o s de p e n e tra ç ã o ,

lito ral d o S u d e ste d o B ra sil d a s se rra s d a fo rtu n a e d a d a n a ç ã o .

in c o rp o ra n d o re g iõ e s a té e n tã o e rm a s e in e x p lo ra d a s . F e z m ais:

“T o d o s o s v íc io s tiv e ra m m o ra d a n a re g iã o d a s m in a s. T o d as as

a ju d o u a e sta b e le c e r a d e rro c a d a d o c ic lo d o a çú c ar, d e ix a n d o p la n ­

p a ix õ e s d e se n c a d e a ra m -se ali; ali se c o m e te ra m to d o s os c rim e s ” ,

ta ç õ e s e n tre g u e s às e rv a s d a n in h a s. E m b o ra su a re sso n â n c ia in te r­

e sc re v e u o v ia ja n te fra n c ê s A u g u s te d e S a in t-H ila ire , p a ra q u e m os

n a cio n al seja, h o je, p ra tic a m e n te n u la, e m seu a u g e a c o rrid a d o o u ro

q u e lá e sta v a m e ra m “ a e sc ó ria d o B ra sil e d e P o rtu g a l” . N a s m in a s,

b ra s ile ira re v o lu c io n o u o m u n d o . Qua.se to d o o m eta l a rra n c a d o d a s

m a ta v a -se p o r tu d o é p o r n a d a. N a s m in a s tra v o u -s e a terrív el G u e r­

e n tra n h a s d a s M in a s G e ra is c ru z o u L is b o a a p e n a s de p a ssa g e m : as

ra d o s E m b o a b a s. N a s m in a s, m a is tard e , q u a n d o o o u ro a in d a re in a ­

a rtim a n h a s d o T ra ta d o de M e th u e n , a ssin a d o e m 1703, fiz e ra m c o m

va, se d e sc o b riria m d ia m a n te s — e o c ic lo re in ic io u , tã o a lu c in a d o e

q u e o m in é rio b ra sile iro fo ss e p a ra r n a In g la te rra — e lá fin a n c ia ss e

v o ra z q u a n to an te s. N a s m in a s, n a sc e u u m g ê n io c u ja a rte e te m iz o u

a R e v o lu ç ã o In d u stria l d a m e sm a fo rm a c o m o , u m sé c u lo a n te s, o

— em a lta re s, e stá tu a s e c a p ité is— o e s p le n d o r d e u m a é p o c a d e e x ­

o u ro e a p ra ta s a q u e a d o s a o s a ste c a s e in ca s a ju d a ra m a in c re m e n ta r

c e s so s e e sp e ra n ç a . A o b ra d o A le ija d in h o é tu d o q u e re sto u d o s

a re v o lu ç ã o m e rc a n tilista .

á u re o s d ia s d o B ra sil.

0 Ciclo da Mineração 65


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A discussão acadêm ica sobre or 200 anos, mais do que qual o primeiro ouro descoberto nas uma obsessão, o ouro — ou G erais é tam anha que não restam a ausência dele— fora um a dúvidas de que os achados foram m aldição para os portugueses que sim ultâneos, o que indica tam bém viviam no Brasil. Ao contrário do que havia várias expedições per­ que acontecia nos territórios con­ correndo a serra da M antiqueira e quistados pela Espanha, não ha­ os vales dos rios das Velhas e das via, na terra do pau-brasil, “coisa M ortes em busca do metal. Borba de metal algum ”, com o diagnos­ G ato teria sido o prim eiro a achar ticara A m érico V espúcio já em ouro, mas, depois do crim e de le1502. O padrinho do N ovo M un­ sa-m ajestad e que com etera, fora do fora m ais cético do que o pri­ obrigado a se esconder em m atos m eiro cronista do Brasil. Em abril remotos. Em 1693, por sua vez, che­ de 1500, ao redigir sua carta para gava ao Espírito Santo o paulista o rei d. M anuel, Pero Vaz de C a­ A ntônio Ruiz de A rzão “com 50 e m inha revelava toda a esperança tantas pessoas, entre brancos e ca­ dos descobridores em achar o rijós dom ésticos de sua admini.s­ “fulvo m etal” na terra nova: o tração, todos nus e esfarrapados, sim ples fato de um indígena ter .sem pólvora ou chum bo” : vinham olhado para o colar de ouro que do sertão de Minas, onde, durante a ornam entava o peito de Cabral e, caça aos escravos, haviam sido du­ em seguida, apontar para as m on­ ram ente atacados por ferozes catanhas foi tom ado com o sinal ine­ taguás. A expedição, porém , fora q uívoco de que, naquelas se rra ­ vitoriosa: entre os trapos que o co­ rias, deveria hav er ouro, m uito briam , A rzão trazia dez gram as de ouro. A ilusão perduraria por dois ouro. Im possibilitado de voltar ao séculos — e reclam aria m uitas vi­ sertão, deu o mapa da m ina ao condas antes de se tornar um a espan­ cunhado, Bartolomeu Bueno de Si­ tosa realidade. queira, que, pouco antes, perdera Em bora algum as pepitas te­ toda sua herança no jogo. Siqueira nham sido encontradas no sopé do partiu no rum o indicado e em j a ­ pico do Jaraguá, em São Paulo, em 1590, e certos ribeiros do litoral do Paraná revelassem areia aurifera. é fa­ neiro de 1695 se viu o brigado a inform ar ao govem ador do Rio de Janei­ ro. Castro Caldas, que o ouro não era mais um a m iragem : a “grandeza das to que, até 1693, no Brasil qua.se nada do que refulgia era ouro — com ex­ lavras” e a “ fertilidade das m inas” eram evidentes. Em fins de 1696, já se ceção, é claro, da pedra conhecida com o “ouro dos tolos” , a pirita. No en­ contavam aos m ilhares os paulistas que saíam de Taubaté (ponto de parti­ tardecer do século 17, porém, Portugal e Brasil se encontravam num a crise fm anceira tão profunda que, em 1674, o próprio regente Pedro 2° (coroado da de A rzão e Siqueira) rum o ao “sertão dos cataguases”, do outro lado da M antiqueira. A jornada até as m inas durava cerca de dois meses e m eio rei em 1683) escrevera aos “hom ens bons” da vila de São Paulo encora­ jando-os a partir para o sertão em bu.sca de metais. Não dissera, em e o roteiro conduzia de Taubaté a Lorena (via G uaratinguetá). Do Ouro vale do rio Paraíba, cruzava-se a serra da M antiqueira pela gar­ 1519, o capitão H em án C ortez ao im perador asteca M ontezum a Branco! ganta do Embaú atingindo-se. então, os três principais pólos que os espanhóis sofriam de um a “doença do coração que só o ouro pode curar” ? Um século e m eio m ais tarde. Portugal e preto! Ouro po re! m ineradores: nas nascentes do rio das M ortes, tendo por o Brasil estavam de tal form a enferm os que só um Eldoribeirão trepidante centro São João dei Rei; na região de Ouro Preto e Marado poderia .salvá-los. Pois ele exisda e logo seria ^ de cada recosto da montanfia, o riana, na serra do Tripuí; e em Sabará e sua vizinha Caeté. Em 1699. G arcia Pais (filho de Fem ão D ias) achado, em bora trouxesse outras m oléstias. m etaí roíou na cascalhada abriu um cam inho bem m ais curto, que conduzia do Rio Alguns historiadores acham que não se devem despara fa u sto d ’‘E [-0^i, de Janeiro às m inas em 14 dias. considerar “os efeitos psicológicos” que as m issivas reais a gíória do teriam exercido sobre os 11 sertanistas que as receberam. Mas Nessa época, a região já populava com toda a espécie imposto. o fato é que aos bandeirantes de São Paulo não restava outra for­ de aventureiros: levas de peregrinos que partiam de todos os ma de m anter suas vidas nôm ades senão caçando ouro: seus currais cantos do Brasil, “os m ais pobres deles .só com suas pessoas e o seu íM^anueí 'Bandeira indígenas estavam esgotados. Ao rei também não sobrava outra opção: lim itado trem às costas” . De acordo com um cronista, eram “indi­ anos antes, enquanto perdurava a U nião Ibérica, foram enviados víduos tão a lu cin ad o s que, vindos de d istân c ia de 30 ou 40 dias da corte especialistas em minas para estudar as potencialidades minerais do de jornada, partiam .sem provim ento algum — assim , pelo cam inho, m uitos B rasil. O único deles que resistiu às agruras do sertão — o espanhol Ro­ acabaram de irrem ediável inanição e houve quem matasse o com panheiro para lhe tom ar um a pipoca de m ilho” . Um grande surto de fome as.solou drigo C astelo Branco— foi assassinado por Borba G ato, genro de Fem ão Dias, assim que chegou à mina que o “caçador de esm eraldas” acabara de as m inas em 1697-98. M uitos m ineiros, com os alforjes cheios de ouro, descobrir. Depois desse crim e sem castigo, quem não fosse bandeirante e m orreram sem encontrar um pedaço de m andioca, pelo qual dariam um a pepita. M as os horrores da fome seriam apenas os prim eiros a acom eter o paulista não se arriscaria a percorrer os erm os do Brasil. Aos paulistas cabe­ efervescente “sertão dos cataguás” e as fulgurantes “m inas de Taubaté” . ria a façanha de encontrar a m aior jazida de ouro já descoberta no mundo. Novas desgraças estavam sendo ferm entadas. Mas não seriam eles que lucrariam com ela.

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66

H is tó r ia d o B ra s il


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dos

E mboabas

pesar da fome que assolou as m inas em 1697-98 ter A G uerra dos Em boabas prolongou-se por quase três anos e deixou sido terrível, uma crise de desabastecim ento ainda duas centenas de m ortos. Seus episódios são confu.sos e contraditórios, e -mais devastadora se abateria sobre a região em os relatos da época foram redigidos por partidários ou inim igos de uma 1700. Três anos depois da descoberta das prim eiras jazidas, facção ou de outra. A seguir, o resum o do conflito e seus de.sdobramentos: cerca de 6.000 pessoas tinham chegado às minas. Na virada do O que foi: A G uerra dos Em boabas foi o confronto entre os paulistas século 18, esse núm ero quintuplicara: 30 mil m ineiros já — descobridores das m inas e dos cam inhos que levavam até eia.s— e os peram bulavam pela área. Sim plesm ente não havia o que "forasteiros" (especialm ente portugueses), que chegaram depois e se apo­ comer: qualquer anim al ou vegetal que pudesse ser con­ deraram (pela força das arm as ou do dinheiro) de algum as das m elhores sum ido já o fora. “Chegou a necessidade a tal extrem o que se aproveita­ lavras. Os paulistas queriam exclusividade na mineração. vam dos m ais im undos a nim ais, e. fa ltan d o -lh e s es.ses para poderem Q uanto durou: O prim eiro confronto deu-se em m aio de 1707. alim entar a vida. largaram as m inas e fugiram para os matos quando um paulista m atou o português dono de uma e.stalagem para com erem cascas e raízes", relatou o governador Artur de em Ponta do M orro (vilarejo próxim o a São João dei Rei). O Sá à corte, em 1701. Foram devorados cobras, içás. sapos e últim o com bate ocorreu a 22 de novem bro de 1709. quando, de­ “bichos mui alvos criados em paus podres", cuja ingestão às pois de oito dias de luta. os paulistas desistiram de tentar tomar vezes era fatal aos fam intos. Form igas tostadas viraram uma o arraial onde os em boabas estavam entrincheirados. iguaria com parada à "m elhor m anteiga de Flandres” . Os pre­ C om o com eçou: Depois do incidente em Ponta do M orro, três ços de qualquer com estível que chegava à região se tornaram . y. ^ episódios sem elhantes ocorreram em m enos de um sem estre. Em exorbitantes: quando os baianos abriram o cam inho que. pelas todos eles. um paulista m atou um "em boaba" por m otivo fútil. Sob a lide­ m argens do São Francisco, conduzia ao pólo m inerador. um boi. que em rança de Manuel N unes Viana, os em boabas reagiram , incendiaram Sabará e expulsaram boa parte dos paulistas das minas. Viana se tornou “gover­ Salvador valia 4 m il-réis. era ali revendido por 96 m il-réis. Em Caeté, uma galinha valia 14 gram as de ouro. nador" da região, no lugar do paulista Borba Gato. Diz a lenda que. ao che­ O pior estava por vir. “ M orreu m uita gente naquele tem po, de doença garem em casa derrotados, os paulistas foram forçados por suas m ulheres e necessidades e outros que m atavam para os roubar, na volta, que leva­ a retornar ao cam po de batalha. A pesar de m atarem 80 em boadas. durante vam ouro (...) m atavam uns aos outros pela am bição de ficarem com ele. o sítio ao Arraial N ovo. não conseguiram a vitória. com o aconteceu em m uitos casos” , relatou um contem porâneo. Em 1707, A palavra em boaba: Vem do tupi “am ô-abá” e significa "estrangeiro” . o previsível aconteceu: rebentou a guerra nas M inas Gerais. De um lado, C onsequências: Na prática, os paulistas perderam o controle das minas, os paulistas; de outro, os “forasteiros” , cham ados de em boabas. mas, em 1710, São Paulo acabou .se tornando uma capitania independente.

O Ciclo da Mineração 67


A F ebre inda que a literatura e o cinem a brasileiros pouco tenham utiliza­ do a corrida do ouro de M inas G erais com o m atéria-prim a para um rom ance ou film e, a "auri sacra fam es” que inflam ou os es­ píritos foi adm iravelm ente descrita pelo jesuíta italiano João Antônio A ndreoni em seu extraordinário “Cultura e O pulência do Brasil por suas D rogas e M inas” , escrito sob o pseudônim o de André João Antonil. Em bo­ ra não tratasse apenas das m inas (que só ocupam um quarto do livro e onde Antonil nunca esteve), o livro faz a mais vivida descrição delas. Lançado em 6 de março de 1711, foi proibido dez dias depois e teve sua prim eira edição destruída. O livro .só voltou a ser publicado em 1898, depois de C apistrano de Abreu ter descoberto que Antonil e Andreoni (nascido em Luca em 1649 e m orto em 1716) eram a m es^ m a pessoa. Q uando “C ultura e O pulência do iv; _ B rasil” foi lançado, as autoridades perceberam que o texto aum entaria o já incontrolável fluxo de m igrantes. Pelo que escreveu. Andreoni sabia disso; “A sede insaciável do ouro estim ulou a tantos a deixarem suas terras e a m eterem -se por cam inhos tão ásperos, com o são os das minas, que dificultosam ente se poderá dar conta do m ínim o das pessoas que atualmente lá estão. (...) Dizem que mais de 30 mil almas .se ocupam, umas em catar, ou­ tras em mandar catar nos ribeiros do ouro; outras em negociar, vendendo e com prando o que se há m ister não só para a vida. mas para regalo, mais que nos portos de mar. Cada ano vêm nas frotas quantidades de portugueses e es­ trangeiros. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: hom ens e mulheres, m oços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, padres e clérigos” .

A

68

H is tó r ia d o B ra s il

do

O

uro

Graças ao relato m inucioso de Andreoni/Antonil. sabe-se também com o eram exploradas e distribuídas as minas. O ouro descoberto estava, de fato. quase que ã flor da terra — em sua maior parte, foi explorado em aluviões, nas areias e cascalhos dos rios. “numa autêntica catagem, que só necessita­ va braço humano, sem jeito especial ou inteligência am estrada” . A legis­ lação real estabelecia que aos descobridores de cada jazida cabiam duas datas (pequenas extensões de terra aunfera à beira dos rios) de 900 braças (4.356m-). Um a data do mesmo tam anho .seria reservada à Coroa. Cada uma das demais datas, de dimensão igual àquela, seria repartida entre os m inera­ dores que possuíssem pelo menos 12 escravos. Aos m ineiros com m enor número de escravos eram entregues datas de 25 braças por escravo. D ispo­ sitivos legais posteriores dispunham sobre o direi­ to dos m ineradores ao corte de m adeira e à repar­ tição das águas. Q uando a exploração se iniciava, i os cursos dos rios eram desviados, trechos de seus leitos por uma ensecadeira (veja a gravura de Rugendas). Cavadeira e alm ocafre eram os utensílios mais uti­ lizados no desprendim ento do cascalho, mas eram as bateias. as gamelas e os pratos os instrumentos finais para a “apuração” do ouro. De início, o gros­ so dos escravos levados às minas era de índios “dom ésticos" capturados pe­ los paulistas. Eles logo se finaram. Em março de 1709. d. João 5° assinou um alvará “franqueando” o tráfico de africanos aos paulistas (até então li­ mitado a 200 por ano). Em 1738, já 101.477 escravos labutavam nas minas. “O trabalho da bateia e do carum bé. do alm ocafre e da pá foram ope­ rações que converteram o Brasil das m inas em um superinfem o de negros, perto do qual o dos engenhos e fom alhas de açúcar, por A ntonil apontado, não passou de indulgente purgatório” , escreveu Afonso Taunay.


C o b iç a

e

C ontrabando

om o aconteceria um século mais tarde na C alifórnia e, em segui­ da, no Alasca e na Á frica do Sul, a região das M inas G erais, logo após a descoberta do ouro. "constituía uma república onde o atrevi­ m ento im perava arm ado e o direito vivia inerm e". A lei e a ordem levaram seis anos para se estabelecer no reino da cobiça. Nesse período — de 1694 a 1700— . as fronteiras da civilização no Brasil eram percorridas “por ho­ m ens de toda a casta e de todas as partes, gente de cabedais e aventureiros sem vintém , em núm ero enorm e: os prim eiros, arrogantes e prepotentes, acom panhados por espingardeiros. violentos, vingativos, jogadores e de­ vassos; os dem ais, em geral, vadios e ladrões inveterados, traidores e as­ sassinos” . Q uando o poder con.stituído enfim se estabeleceu nas “m inas de Taubaté", a figura escolhida para representá-lo não poderia ser pior. Artur de Sá e M eneses, ex-capitão-general do M aranhão, fora em possado com o governador do Rio em abril de 1697. Em outubro do m es­ mo ano, foi a São Paulo (inflam ada por uma guerra civil entre dois clãs rivais). Lá, além de perdoar M anuel de Borba G ato do assassinato de Rodrigo Castelo Branco, nom eou-o guarda-m or dos sertões m ineiros (a nom eação só se tornou oficial três anos depois) e instigou os dem ais habitantes da cidade a “dar todo o calor à laboração das m inas". Entusiasm ado pelo ouro que teria re­ cebido de Borba Gato. Artur de Sá decidiu partir para M inas em agosto de 17(K) e lá ficou até junho do ano .seguinte. Em setem bro de 1701. resolveu passar mais dez meses na região. Quando retornou ao Rio, em 12 de julho de 1702, trazia consigo 40 arrobas de ouro (cerca de 580kg) “oferecidas” pelos m ineradores. Ao em barcar para Portugal, em 1705, “arqui-satisfeito com o resultado das jornadas a que .se abalançara” , o ex-capitão de infan­ taria tinha se tornado “um dos sujeitos m ais opulentos da m onarquia". As duas jornadas às minas, porém , haviam lhe debilitado de tal m odo a saúde que, quatro anos mais tarde, A rtur de Sá — chorado publicam ente com o uma “indeslem brável figura”— m orria em Lisboa, sem deixar herdeiros.

C

A herança de A rtur de Sá e M eneses fora a prim eira legislação m ineira aplicada aos fabulosos achados auríferos das M inas Gerais. Antes da des­ coberta. a disposição legal sobre a tributação do ouro se resum ia às O r­ denações M anuelinas. de 1532, e stipulando que um quinto do m inério extraído pertenceria à Coroa. Com a riqueza aflorando da terra e a dívida externa de Portugal sendo duas vezes superior a sua renda, as M inas se­ riam vitim adas por um a das mais absurdas e rigorosas taxas de tributação criadas até então. Aos m ineradores não eram cobrados apenas os quintos, mas tam bém “direitos de entradas” (sobre todos os produtos vindos de fo­ ra. em alguns casos até 75% do valor da m esm a m ercadoria no porto do Rio), “direitos de passagem " (espécie de pedágio cobrado nos rios), dízim os para a Igreja e o “subsídio voluntário” (criado pelo m arquês de Pombal para ajudar na reconstrução de Lisboa depois do terrem oto de 1755). Dos dízim os pagos pelos m inei­ ros ao receberem suas datas provinham os ordenados dos su p e ­ rintendentes, guardas-m ores, guardas-m enores, oficiais e poli­ ciais que patrulhavam furiosam ente a região das Minas. Todas as estradas, rios e passagens possuíam casas de registro e o ouro só podia circular em barras ou com uma guia. A inda assim , cal­ cula-se que pelo m enos 35% do metal (cerca de 300 toneladas) ex­ traído da terra foi contrabandeado. A legislação m udou várias vezes (em 1701, 1713, 1715, 1718, 1719, 1725, 1730 e 1750). Em 1713, os m inera­ dores ofereceram , em troca da suspensão do quinto, um a finta de 30 arro­ bas anuais à C oroa (baixada para 25 arrobas em 1718 e aum entada para 37 arrobas anuais em 1719). Mas em 1735, quando o governador Gom es de Freire quis estabelecer um im posto de 17 gram as por ano por escravo, os m ineradores ofereceram uma flnta de cem arrobas anuais para a Coroa. Mais do que o esgotam ento dos veios, foi a tributação abusiva que provo­ cou a decadência das m inas, não sem antes ter feito eclodir, em Vila Rica. a Inconfidência M ineira (págs. 81 a 88).

0 Ciclo da Mineração

69


A l e ija d in h o

e o

E splendor

do

Barroco

ila Rica não é Florença, pedra-sabão não

e era filho bastardo do "juiz do ofício de carpin­

ça que o acometeu, em 1777, Antônio Francisco,

é mármore e Aleijadinho não foi Miche-

teiro” Manuel Francisco Lisboa com a escrava de

além de artista maduro — cujo primeiro projeto fo­

langelo. Ainda assim, o esplendor e o re­

nome Isabel (embora documento algum o compro­

ra a igreja da Ordem Terceira de São Francisco— ,

quinte, as sutilezas e a suntuosidade das dezenas

ve). Quando nasceu? Em 1738. talvez, embora a

era também “grandemente dado aos vinhos, às

de estátuas, pias batismais, púlpitos, brasões, por­

"data oficial" .seja 29 de agosto de 1730. Quem

mulheres e aos folguedos”. Seu biógrafo sugere

tais, fontes e c rucifixos perm item supor que o

foram seus mestres? O pai e o tio. Antônio Fran-

que a enfennidade surgiu dos “excessos venéreos” .

Brasil teve um gênio renascentista desgarrado em

ci.sco Pombal, embora alguns prefiram filiá-lo à es­

Em fins de 77. o escultor já perdera os dedos

plena efervescência de M inas colonial, esculpindo

cola do desenhista João Gom es B atista e à do en-

dos pés, “do que resultou não poder andar .senão de

e talhando com o espírito, o fulgor e a grandiosi­

talhador José Coelho de Noronha, portugueses

joelhos”, e os dedos das mãos se atrofiaram de tal

dade dos artistas iluminados. O legado do Alei­

com “oficinas" em Vila Rica. Quais suas fontes

forma que o artista teria decidido “cortá-los. ser­

jadinho — eternizado no interior e nas fachadas de

de inspiração? Os livros da biblioteca do poeta

vindo-se do formão com que trabalhava” . Não foi

meia dúzia de igrejas de Minas Gerais— refulge

Cláudio Manuel da Costa e "gravuras bíblicas gó­

só; "perdeu quase todos os dentes e a boca entor­

mais que os minérios que saíram dali para fazer o

ticas e bizantinas" da “Biblia Pauperum".

tou-se como sucede ao estuporado; o queixo e o

V

fausto de nações além-mar. Na prática, foram elas

As dúvidas são muitas porque qua.se tudo que

lábio inferior abateram-se e o olhar do infeliz ad­

— estátuas, lavabos e esculturas— a herança que

se sabe sobre Aleijadinho provém dos “Traços Bio­

quiriu a expres.são sinistra de ferocidade (...) que o

restou para recordar o Brasil de seus tempos áu­

gráficos Relativos ao Finado Antônio Francisco

deixou de um aspecto asqueroso e medonho”.

reos. A obra monumental do Aleijadinho é um

Lisboa”, publicados por Rodrigo Bretas em 1858.

O A leijadinho passou a evitar o contato pú­

patrimônio superior a qualquer conforto que o

Embora os tenha escrito apenas 44 anos depois da

blico: ia para o trabalho de m adrugada e só vol­

morte do artista, os esboços de Bretas estão reple­

tava para casa com a noite alta. “Ia sem pre a

Embora tenha sido um dos maiores artistas do

tos de impropriedades. Apesar de a bibliografia re­

cavalo, em buçado em am pla capa. chapéu de­

Brasil, da vida do Aleijadinho restam apenas frag­

ferente ao Aleijadinho superar, atualmente, mil tí­

sabalado. fugindo a encontros e saudações” , e s­

mentos biográficos dispersos, a maioria deles en­

tulos (entre livros e artigos), o estofo da lenda

creveu M anuel B andeira. “No próprio sítio da

volta na sombra mitificadora das lendas baratas.

nasceu dos mitos foijados por Bretas. De qualquer

obra. ficava a coberto de uma espécie de tenda,

Sabe-se que se chamava Antônio Francisco Lisboa

forma, parece certo que, antes da misteriosa doen­

e não gostava de m irones. "

ouro possa comprar.

70

H is tó ria d o

B r .\s il


Não se conhecem as feições ivrdddeiras do hom em que a io u os m ais expw ssim s -^

\

rostos da estatuária brasileira. Apesar de um a absurda lei m unicipal ter deavtado, em ju lh o de /9 7 /, que o quadro à esquerclíi é o "tvtrafo oficial”do Aleijadinho, não existem provas concretas de que a obra seja autêntica. Achado em 1916, o retrato não condiz com descrições feilas m uito anteriormente.

P

assados mais de 150 anos da m orte do A leijadinho, pesquisadores ain­ da discutem qual a doença que acabou com a saúde e o hum or do

m aior dos escultores brasileiros. Nenhum , porém, teve iniciativa, dis­ posição ou verba para em preender uma investigação que incluísse a única possibilidade definitiva: a exum ação do cadáver do A leijadinho. Por en­

O O U R O NA BALANÇA Total de ouro extraído de Minas: 874 toneladas em 80 anos ( 1700 a 1780). O utras descobertas: Em Goiás, em 1727, pelo Anhanguera —essas minas renderam 160 toneladas— e em Mato Grosso, por Moreira Cabral, em 1729 —renderam 60 toneladas. Consequências no Brasil: A mudança da capital de Salvador para o Rio, a ocupação de Minas, Goiás e Mato Grosso e a fermentação da inde­ pendência. Consequências em Portugal: A Coroa deixou de depender dos favores da corte, aumentando seu poder e independência internos. Externamente, após o Tratado de Methuen (1703), Portugal se tomou totalmente depen­ dente da Inglaterra. Proibido de ter indústrias, o país cederia todo seu ouro em troca de bens manufaturados. Quem mais lucrou no Brasil: O padre Guilherme Fompeu, “que às mi­ nas jamais foi ter”, virou magnata ao se tomar fornecedor e banqueiro dos bandeirantes. Quem mais lucrou em Portugal: Embora a riqueza das minas fizesse com que d. João 5° fosse chamado de “Rei-Sol português”, foi depois da morte dele, em 1750, e a consequente ascensão de d. José 1°, que chegou ao poder o homem que, politicamente, mais se beneficiou com o ouro brasileiro: o todo-poderoso marquês de Pombal.

quanto, existem apenas hipóteses sobre a terrível enferm idade deform ante que, a partir de 1777, foi carcom endo pés e m ãos do gênio do barroco brasileiro. Em 1929, o m édico René Laclette optou por "lepra nervosa" com o diagnóstico "m enos im provável", visto que no quadro clínico de A ntônio Francisco se encontravam vários sintom as do mal de Hansen (atrofia dos m úsculos das m ãos, nevralgias, atrofia do orbicular das pálpebras, paralisia facial, queda dos dentes). O utra hipótese citada com frequência e a da zam parina (doença advinda de um surto gripai que irrom peu no Rio em 1780, responsável por alterações no sistem a ner­ voso). As dem ais especulações, citadas em mais de 30 estudos, incluem escorbuto. encefalite e sífilis. O fato é que. além da dor. a doença tornou o A leijadinho quase um m onstro. Diz a lenda que. depois de ser cham ado de "hom em feio" por José Rom ão. ajudante-de-ordens do governador B er­ nardo Lorena, o artista se vingou e.sculpindo uma estátua de são Jorge com a cara “bestificada" de seu desafeto (à direita).

1,2 gram a de ouro por dia e ele

randes artistas brasileiros escreveram sobre o m aior dos escultores

m ais ganhou muito: seu salário era de

do país. Mário de Andrade foi dos prim eiros a notar que a “doença

o dividia com sua equipe, além de ser pródigo em esm olas. Sua re ­

G

dividiu em duas fases nítidas a obra do Aleijadinho. A fase sã, de Ouro

volta contra os poderosos — a obra de C ongonhas foi iniciada quatro

Preto, se caracteriza pela serenidade equilibrada e pela clareza m agis­

anos após o m artírio de Tiradentes— parece evidente. As razões dela,

tral. Na fase do enferm o, desaparece aquele sentim ento renascente da

porém , não eram pessoais. “No A leijadinho, o ressentim ento tom ou a

fase sã, surge um sentim ento m uito mais gótico e expressionista” . De

expressão de revolta social, de vingança de sub-raça oprim ida” , e s­

fato, foi em Congonhas, no santuário de Bom Jesus de M atosinhos, já

creveu, em 1936, o sociólogo G ilberto Freyre. “Em sua escultura, as

doente e a partir de 1796, que o A leijadinho consagraria dez anos àquela

figuras de ‘brancos’, ‘senhores’ e ‘capitães rom anos’ parecem deform a­

(66 m onu­

das, m enos por devoção a Jesus C risto e sua raiva de ser m ulato e

que seria a m aior obra de sua vida: os “Pas.sos da Paixão”

mentais estátuas de cedro representando a paixão de C risto) e os 12 Pro­ fetas, que “m onum entalizam a paisagem ” e são um a “Bíblia de pedrasabão, banhada no ouro das M inas” , conform e Osw ald de Andrade.

doente [m a/í] por sua revolta contra os dom inadores da colônia” . Já houve quem diagnosticasse no orgulho despertado pela suntuo­ sidade das obras do A leijadinho as raízes da revolta da colônia contra

Essas inigualáveis obras-prim as do barroco teriam sido esculpidas

a exploração da m etrópole. O gênio cuja obra ainda inspira tantas in­

com os form ões atados às m ãos sem dedos do A leijadinho, com a aju­

terpretações, porém , nunca veria um Brasil independente. Depois de

da de seus auxiliares e de .seus três escravos (os fiéis M aurício, Januário

dois anos rolando, aos gritos, sobre um estrado de m adeira, com um

e A gostinho, que, em crises de dor e fúria, o artista espancava fre ­

dos lados do corpo “horrivelm ente chagado” , o A leijadinho foi, enfim ,

quentem ente). Em bora seus clientes fossem ricos, o A leijadinho ja ­

poupado da agonia no dia 18 de novem bro de 1814.

0 Ciclo da Mineração 71


o om o se todo o fausto e os favores que o ouro trouxera para a corte não fossem o bastante, em 1727 chegava a Portugal a notícia de que, nas fraldas do Serro Frio, num lu­ garejo conhecido por Arraial do Tijuco (hoje Diam antina), surgira um a grande lavra com os m ais reluzentes diam antes. Dom João 5° exultou. Pelo reino todo se celebraram “festas esplêndi­ das, e te-déuns e procissões inum eráveis que ex­ tasiaram o povo português, por quadrarem à sua religiosidade. Para R om a rem eteu o governo as prim eiras am ostras. A ções de graças solenes se deram ao Todo-Poderoso na capital do m undo católico. O santo papa, os cardeais e todos os mo­ narcas da E uropa felicitaram d. João 5°. Não se ocuparam os povos da terra com outro objeto e notícia. D ir-se-ia que se descobrira coisa que de­ via regenerar e felicitar o universo” . N o Tijuco, porém , a alegria duraria pouco. A política que Portugal instaurou no distrito dia­ m antino seria das m ais repressivas e opressoras da colonização européia na Am érica.

C

D

istr ito

D

ia m a n tin o

A notícia oficial da descoberta dos diam antes foi feita uns dez anos após os prim eiros achados. O lusitano B ernardo da Fonseca Lobo, que achou um a “faisqueira” em 1723, é tido com o o primei­ ro descobridor, mas desde 1714 havia notícias do surgim ento de diam antes e topázios. A ssim que a riqueza do veio ficou evidente, Lisboa anulou to­ das as cartas de datas concedidas na região e de­ clarou a extração de diam antes o mais absoluto m onopólio da Coroa, constituindo o Distrito D ia­ m antino, com sede no Tijuco. Por qua.se cem anos, a Coroa m anteve a zona diam antina na m ais absoluta clausura, proi­ bindo a presença de “negros e pardos livres, de desocupados ou pedintes” . Vendas e tabernas foram fechadas, com erciantes expulsos. Um es­ tado policial se instalou na região. A situação perm aneceu igual m esm o depois de 1740, quan­ do a Coroa decidiu “vender” o direito de explo­ ração a um contratante. O sistem a perdurou por 30 anos e revelou-se m ais eficiente: extraíram -se, então, 1.666.569 quilates das m inas.

O Brasil jogou tantos diam antes no m ercado europeu que o preço do quilate caiu 75%. Dos seis contratantes que detiveram o poder de ex­ plorar os diam antes, quatro caíram em desgraça depois que o m arquês de Pom bal assum iu o co­ m ando da corte em Lisboa. A o longo de sete dé­ cadas (de 1740 a 1810), o Brasil produziu cerca de 3 m ilhões de quilates. M ais de 10 mil escra­ vos trabalharam nas m inas — m uitos deles, bem com o vários “vadios” capturados na região, foram torturados até a m orte sob a acusação (às vezes irreal) de roubo de diam antes. A pesar da clausura m edieval im posta às m inas, em 1809 o viajante inglês John M aw e — geólogo diletante m as com petente— obteve perm issão para visitar o Arraial do Tijuco. Fez um relato detalhista e fluente. Junto com o clás­ sico “M em órias do D istrito D iam antino” , escrito em 1868 por Joaquim Felício dos Santos, a “Via­ gem ao Interior do B rasil”, de M aw e, perm anece com o fonte fundam ental para o estudo do relu­ zente e trágico periodo dos diam antes.

X IC A D O S D IA M A N T E S e todos os incríveis personagens forjados pela opulência diamantina, talvez nenhum tenha sido mais extraordinário do que a ex-escrava Xica da Silva, também conhecida como Xica que manda. Amante do desembargador João Femandes de Oliveira, sexto contratador dos diamantes — homem “rico como um nababo, poderoso como um príncipe e soberano do Tiju­ co”— , Francisca da Silva era filha de um português com uma africana e fora eScrava de José Silva Oliveira (pai do inconfi­ dente José Oliveira Rolim). Assim que foi libertada e se tomou amante do desembargador, Xica da Silva virou a pessoa mais in­ fluente do Tijuco. O marido mandava na cidade, e ela mandava no marido.

D

12

H

is t ó r m

do

B r a s il

Xica da Silva ia à missa coberta de diamantes, acompanha­ da por 12 mulatas esplendidamente trajadas. “O lugar mais dis­ tinto do templo era-lhe reservado”, diz Joaquim Felício dos Santos, segundo o qual Xica era “alta, corpulenta, de feições grosseiras e cabeça raspada; não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito”. O historiador nasceu 12 anos de­ pois da morte de Xica (ocorrida em 1796). Felício descreve tam­ bém o “magnífico edifício em forma de castelo, com teatro par­ ticular, delicioso jardim de plantas exóticas, cascatas artificiais e um vasto tanque, com um navio em miniatura para oito ou dez pessoas” que João Femandes —logo derrubado por Pombal— fez construir para a amada.

Xica da Siiva, interpretada p o r Zezé Motta, no film e de Cacá Diegues (1976)


A E scra vid ão erá sido o pior lugar do mundo, o ventre Castro Alves com pôs versos repletos de ful­ gor e fúria. R ugendas usou cores fortes e criou da besta e o bojo da fera, em bora para um retrato com rigor antropológico. A inda as­ aqueles que eram responsáveis por ele, e sim , am bos, poeta e ilustrador, talvez tenham não estavam lá, fosse tam bém o m ais lucrativo transm itido um a versão branda do espetáculo dos depósitos e o mais vendável dos estoques. hediondo que de fato se desenrolava no porão No porão dos navios negreiros que por m ais de dos negreiros. Os registros escritos por obser­ 300 anos cruzaram o Atlântico, desde a costa oeste vadores — a m aioria deles britânicos— revela da Á frica até a costa nordeste do Brasil, m ais de um quadro ainda m ais assustador do que aquele 3 m ilhões de africanos fizeram um a viagem sem que as rim as e as tintas puderam pintar. volta, cujos horrores geraram fortunas fabulosas, ergueram im périos fam iliares e construíram uma nação. O bojo dos navios da danação e da m orte foi o ventre da besta m ercantilista: um a m áquina de m oer carne hum ana, funcionando incessan­ tem ente para alim entar as plantações e os enge­ nhos, as m inas e as mesas, a casa e a cam a dos senhores — e, mais do que tudo, os cofres dos tra­ '^ra um soníio dantesco!... O tomèaddho, Que das íuzem as avermeCfia o brdfio, ficantes de hom ens. 'Em sangue a se banfiar. A cena foi m inuciosam ente descrita por cen­ Ttnir de ferros... estaCar do açoite... tenas de observadores. Q uantos mais são os de­ Legiões de homens negros como a noite, poim entos confrontados, m ais difícil é crer que 9íorrendos a dançar... (...) tam anhos horrores possam ter se prolongado por Senhor (Deus dos desgraçados! três séculos — e que tantos sobrenom es fam osos (Dizei-me vós, Senhor (Deus! tenham seu fausto e suas glórias vinculados a Se é Coucura... se é verdade tantas desgraças. M as assim foi, e assim teria 'Tanto horror perante os céus?" sido por mais tem po se, por circunstâncias m era­

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m ente econôm icas, a e.scravidão não deixasse de ser um negócio tão lucrativo.

Castro Mves

Um só exemplo. Em 1841, a belonave inglesa Fawn capturou, na costa brasileira, o navio Dois de Fevereiro. Desde 7 de novem bro de 1831 o tráfico era ilegal no Brasil e navios de guerra bri­ tânicos patrulhavam o litoral. Após a apreensão do negreiro, o capitão do Fawn anotou, no diário de bordo, o que viu nos porões: “Os vivos, os mori­ bundos e os mortos amontoados numa única m as­ sa. A lguns desafortunados no m ais lam entável estado de varíola, doentes com oftalmia, alguns completamente cegos; outros, esqueletos vivos, arrastando-se com dificuldade, incapazes de su­ portar o peso de seus corpos m iseráveis. M ães com crianças pequenas penduradas em seus peitos, incapazes de dar a elas uma gota de ali­ mento. Com o os tinham trazido até aquele ponto era surpreendente; todos estavam completamente nus. Seus membros tinham escoriações por terem estado deitados sobre o assoalho durante tanto tempo. No com partim ento inferior o mau cheiro era insuportável. Parecia inacreditável que seres humanos sobrevivessem naquela atm osfera” . Na verdade, um dentre cinco escravos em ­ barcados na Á frica não sobrevivia à viagem ao Brasil. Os dem ais não viviam m ais do que sete anos, em média. M as eram baratos e substituí­ veis. Esse é um país erguido sobre 3 m ilhões de cadáveres.

A Escravidão

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Esta figura de bronze do Benin (Africa Ocidental), mostra como os artistas nativos temiam os soldados portugueses: o arcahuz e a armadura aparecem com todos os detalhes; o rosto se resume a uma máscara. Os edos, povo do Benin, tinham um reino podero.so no delta do Niger quando foram descobertos pelos traficantes de escravos, por volta de 1600. No início do século 18. do império dos edos restavam apenas .seus bronzes soberbos.

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mbora a escravidão seja um a instituição quase tão ve­ A quem se deve o pioneirismo do tráfico na Europa do lha quanto a humanidade, jam ais o tráfico de escravos início da Era M oderna? Os historiadores ainda discutem o tema, embora muitos deles atribuam ao longo período de ^ fo ra um negócio tão organizado, permanente e vultoso quanto se tomou depois que os portugueses estabeleceram, no dom inação moura na Pensínsula Ibérica o hábito de escra­ início do século 16. uma vasta rota triangular que uniu a vizar outros povos e raças, logo adotado por lusos e castelha­ Europa, a África e a América e transformou milhões de negros nos. Os primeiros escravos negros parecem ter chegado a em lucrativa moeda de troca. Manufaturas européias eram le­ Portugal em 1441. a bordo da nau com a qual Antão G on­ vadas para a Guiné e cambiadas por escravos em entrepostos çalves retom ou da Guiné. De início, houve restrição real à costeiros. Os mesmos navios partiam em seguida conduzindo escravização de africanos — utilizados apenas em serviços em seus porões aldeias inteiras para trabalhar até a morte nas dom ésticos, e com m oderação. Com o início da lavoura plantações do Brasil. Uma vez no Novo Mundo, esses escra­ canavieira nos Açores e em Cabo Verde, a escravidão, mais vos em geral não eram vendidos, mas trocados por açúcar que tolerada, passou a ser incentivada. E não apenas além— revendido, a seguir, com grande lucro na Europa. A fórmu­ mar: “Os escravos pululam por toda parte”, escreveu o cro­ la cedo pôde incluir a Ásia, já que os panos coloridos feitos em nista Nicolau C lenardo. em 1502. “Tanto que. quero crer, Goa. na índia, passaram a ser a mercadoria oferecida nas feito­ são. cm Lisboa, mais que os portugueses dc condição livre.” rias da Guiné. Mas o pioneirismo luso foi logo ameaçado pela A mais antiga referência à importação de africanos para o concorrência de holandeses, ingleses e espanhóis. No século Brasil é encontrada num documento escrito em São Vicente, 17. .se já não eram os maiores traficantes de escravos, britâni­ em 3 de março de 1533, no qual Pero de Góis pede ao rei “ 17 cos e holandeses eram os que mais lucravam com ele. peças de escravos, forros de todos os direitos e frete que soem No século .seguinte, porém, brasileiros e lusos radicados pagar". Em 1539. Duane Coelho, donatário de Pemambuco, no Brasil se tomariam os maiores e mais eficientes traficantes repete o pedido, insistindo também na isenção de impostos. de escravos da história. Utilizando-se da cachaça e do tabaco Pelo alvará de 29 de março de 1559. o rei d. Sebastião deci­ de terceira — baratos e abundantes no Brasil e apreciadíssimos diu, enfim, “fazer mercê àqueles que tinham construído enge­ na África— . criaram um circuito comercial espantosamente nhos no Brasil”, permitindo-lhes “mandar resgatar ao rio e res­ eficiente e rendoso. Embora capturados cada vez mais no in­ gates do Congo e trazer de lá para cada um dos ditos engenhos terior do continente africano, os escravos iam ficando mais até 120 peças de escravos resgatadas à sua custa” . baratos ã medida que aumentava o interesse pelo fumo e pela Estava iniciado o tráfico em grande escala. Em breve se aguardente. Os postos de captura e troca de escravos logo se encerraria o cham ado ciclo da Guiné, iniciando-.sc o de An­ espalhavam por qua.se toda a África negra, incluindo M oçam­ gola. Em 1585. segundo uma infonnação do padre José de bique e outros portos do Índico. O mercado de came humana Anchieta. hoje considerada um exagero, já eram 120 mil os floresceu plenamente até 1815. quando, sentindo-se prejudi­ escravos africanos vivendo — e cedo m orrendo— em Per­ cada pelo tráfico, a Inglaterra decidiu proibi-lo. nambuco. De qualquer modo, era apenas o início.


Dos 12 milhões de africanos escravizados durante três séculos e meio ( veja as rotas do tráfico no m apa à esquerda), cerca de 4,5 milhões fo r a m trazidos p a ra cidades, minas e engenhos do BrasiL Camponeses eram aprisionados na África (acim a) e vendidos no Rio e em Salvador

Para o Brasil ÁREA DOS BANTOS ,

ÁREA DOS SUDANESES

reocupados com os índios, que m orriam com o m oscas não apenas por sua absoluta im possibilidade de adaptação ao regim e de tra­ balho forçado com o tam bém pelos surtos epidêm icos que gras­ savam nos aldeam entos, os jesu ítas foram os prim eiros a incentivar o trá­ fico de africanos para o Brasil. M ais bem adaptados ao m odo de produção agrícola e ao trabalho organizado, os negros se revelaram , de início, um a opção superior para os senhores de engenho. O negócio, porém , cedo se m ostrou m uito m elhor para os traficantes: trocados por fum o e cachaça, os escravos eram baratos na África. C om o o açúcar feito no N ordeste era levado para a E uropa nos* m esm os navios que traziam escravos da Á fri­ ca, os negreiros forçavam os engenhos a adquirir novos escravos sob pe­ na de não com prarem .seu açúcar. A ssim , os senhores de engenho logo se endividaram . De qualquer form a, um escravo se “pagava” em cinco anos. M elhor para seus .senhores: devido aos m aus-tratos frequentes, à jo rn ad a de tra­ balho nunca inferior a 18 horas diárias, às péssim as condições de aloja­ m ento e às rações crim inosam ente exíguas, os escravos, em m édia, não sobreviviam m ais do que sete anos no Brasil. M as com o um a “peça da Á frica” custava cerca de 50 mil réis. até m esm o portugueses pobres po­ diam ter pelo m enos uma. E de fato tinham : não ter escravos no Brasil era considerado algo tão hum ilhante que, dentre os raros adventícios que não conseguiam adquirir o .seu, m uitos preferiam voltar para o reino. O preço baixo e a facilidade de substituir as “peças” explicam por que. entre as duas opções que dividiam os senhores de escravos — “devese criá-los ou com prá-los?”— , os brasileiros sem pre optaram pela segun­ da. A m ortalidade infantil tam bém era assustadoram ente alta entre os e s ­ cravos — isso quando eles conseguiam “reproduzir em cativeiro” , já que o núm ero de m ulheres trazidas da Á frica foi cinco vezes m enor do que o dos hom ens. A m áquina escravocrata que se estabeleceu prim eiro nos e n ­ genhos (que “gastavam ” cerca de 200 escravos por ano, cada) e depois nas m inas das G erais, associada ao costum e de substituir o escravo m or­ to pelo m oribundo seguinte, transform ou o Brasil na m aior nação escra­ vagista do N ovo M undo — e a mais dependente de escravos. As conse­ quências econôm icas, políticas, m orais e sociais foram enorm es.

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N a Á frica, lavradores e aldeões eram capturados aos m ilhares por c açadores de hom ens, que, em geral, utilizavam os m esm os m étodos em pregados pelos traficantes berberes {alto da página, à direita). O s ca­ tivos eram então conduzidos às feitorias à beira-m ar e, a .seguir, em bar­ cados para o N ovo M undo. No século 17, encerrado o ciclo da Guiné, com eça o ciclo de A ngola, durante o qual cerca de 600 mil escravos foram trazidos para o Brasil. Eram bantos: congos (ou cabindas), benguelas e ovam bos (acim a) e foram introduzidos em P em am buco e no Rio de Janeiro, de onde partiram para M inas G erais e São Paulo. No alvorecer do século 18, Inicla-se o ciclo da C osta da M ina (hoje Benin e D aom é), durante o qual cerca de 1,3 m ilhão de escravos foram trazidos para o Brasil. Nesse período, os povos e.scravizados eram sudaneses: lorubas (ou nagôs), geges (ou daom eanos), m inas, hauçás, tapas e bornus (página anterior). Nessa época, os traficantes lusos, holandeses, espanhóis e ing!e.ses já haviam sido am plam ente superados pelos brasileiros. O ci­ clo da C osta da M ina perdurou até 1815, quando o tráfico de escravos no A tlântico passou a ser duram ente reprim ido pela Inglaterra. De 1815 até 1851, m esm o ilegal, o tráfico persistiu e, de acordo com alguns estudiosos, em quantidades e condições ainda mais am edrontadoras que antes (veja em “A A b o liçã o ”, pág. 145). Na terceira e quarta fases do tráfico, era o Rio e não mais Salvador o grande centro escravagista brasileiro. Os escravos eram desem barcados no porto (página anterior, no alto), pagavam im posto com o qualquer m er­ cadoria (cerca de 3 m il-réis, ou 5% de seu valor) e eram postos à venda nos m ercados na rua do Valongo (hoje C am erino, no centro da cidade). Lá perm aneciam “nus. cabelos raspados, parecendo objetos m edonhos (...) m arcados com ferro quente no peito (...) cobertos de feridas extensas e cor­ rosivas (...) com fisionomias estúpidas e pasm as”, esperando com prador Até m ulheres "iam às com pras” : “Vão enfeitadas”, escreveu o inglês Ro­ bert Walsh. em 1828. “sentam -se, m anipulam e exam inam suas com pras, e levam -nas em bora com a mais perfeita Indiferença, com o se estivessem com prando um cão ou um a m ula” . A preferência recaía nos negros “m i­ nas” : os bantos eram considerados mais fracos e suscetíveis a doenças. Poucos, porém, com pletariam um a década trabalhando no Brasil.

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Os

R e q u in tes de C ru e ld a d e

om o em todas as sociedades escravocratas, tam ­ bém no Brasil a variedade de suplícios e castigos estipulados pelos senhores para punir seus servos foi ampla, geral e irrestrita. A punição m ais com um era o açoite em praça pública, regulada pelo C ódigo Penal. Num de seus desenhos mais conhecidos, o francês JeanBaptiste Debret, que esteve no Brasil de 1816a 1831, re­ tratou esse suplício e escreveu sobre ele; “O povo adm i­ ra a habilidade do carrasco que, ao levantar o braço para aplicar o golpe, arranha de leve a epiderm e, deixando-a em cam e viva depois da terceira chicotada. Conserva ele 0 braço levantado durante o intervalo de alguns segun­ dos entre cada golpe, tanto para contá-los em voz alta com o para econom izar forças até o fmal da execução. O chicote, que ele m esm o fabrica, tem sete ou oito tiras de couro bastante espessas e bem retorcidas. Esse instru­ m ento contundente nunca deixa de produzir efeito quan­ do bem seco, mas. ao amolecer, pelo sangue, precisa o carrasco trocá-lo, m antendo para isso cinco ou seis a seu lado, no chão (...). Em bora fortem ente am arrado ao ‘pau de paciência', com o .se cham a o pelourinho, a dor dá-lhe tanta energia que a vítim a encontra forças para se erguer nas pontas dos pés a cada chicotada, m ovim ento convul­ sivo tantas vezes repetido que o suor da fricção do ven­ tre e das coxas da vítim a acaba polindo o pelourinho. Essa m arca sinistra se encontra em todos os pelourinhos das praças públicas. Entretanto, alguns condenados (e esses são tem íveis) dem onstram grande força de caráter, sofrendo em silêncio até a últim a chicotada. De volta à prisão, a vítim a é subm etida a uma segunda prova, não m enos dolorosa; a lavagem das chagas com vinagre e pim enta e grande quantidade de sal.

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A palm atória, o trom:o e os colares de fe r r o ( unindo dois ou m ais escravos p o r correntes) eram três dos instrum entos de castigo usados no Brasil

“Essas penas, de 50 a 200 chibatadas, são rigorosas, mas há outras bárbaras, com o a que condena à m orte o chefe de quilom bo; são 300 chibatadas ao longo de vários dias. No primeiro, ele recebe cem , à razão de 30 por vez. A últim a execução abre chagas já profundas e ataca as veias m ais im portantes, provocando um a tal hemorragia que o negro sucum be.” Faltas “m enos graves” eram punidas com a palm a­ tória {esquerda), cujas pancadas podiam chegar a 200; com o tronco {esquerda, no centro), que. segundo Debret. provocava “mais tédio do que dor” ; ou com a gargalhei­ ra. colar de ferro com vários ganchos que facilitava a captura de e.scravos fujões. A prim eira fuga era punida com a m arcação, por ferro em brasa, de um F no rosto ou no om bro do escravo. Na segunda tentativa, o fugitivo tinha um a orelha cortada e, na terceira, era chicoteado até a m one. Outras “faltas graves” , além da fuga, po­ diam ser punidas com a castração, a quebra dos dentes a m artelo, a am putação dos seios, o vazam ento dos olhos ou a queim adura com lacre ardente. Houve casos de es­ cravos lançados vivos nas caldeiras ou passados na m oenda, além daqueles que. besuntados de mel, foram atirados em grandes form igueiros. O estudo mais apro­ fundado dos castigos revela que não eram aplicados para “corrigir” o escravo (m esm o porque, m uitas vezes, não se sobrevivia a eles), mas para .semear o terror entre os que eram forçados a assistir aos suplícios. As punições eram , em geral, aplicadas por outros escravos — atrás deles, porém, ficava o feitor, sem pre pronto a punir qual­ quer brandura ou esm orecim ento por parte do carrasco. Durante 300 anos, o castigo foi uma peça básica para a m anutenção da engrenagem escravocrata.


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T rabalho

les eram plantadores e m oedores de cana, derrubadores de m ata e sem eadores de m udas; eram J vaqueiros, rem eiros, pescadores, m ineiros e la­ vradores; eram artífices, caldeireiros, m arceneiros, fer­ reiros, pedreiros e oleiros; eram dom ésticos e pajens, guarda-costas, capangas e capitães-do-m ato; feitores, capatazes e até carrascos de outros negros. Estavam em todos os lugares: nas cidades, nas lavouras, nas vilas, na mata, nas senzalas, nos portos, nos m ercados, nos palá­ cios. Carregavam baús, caixas, cestas, caixotes, lenha, cana, quitutes, ouro e pedras, terra e dejetos. Tam bém transportavam cadeirinhas, redes e liteiras onde, senta­ dos ou deitados, seus senhores passeavam (ou até via­ javam ). Eles eram . de acordo com o jesuíta A ntonil, “as m ãos e os pés do senhor de engenho” . Mas, no Brasil, os escravos foram ainda mais do que is.so: foram os olhos e os braços dos donos de m i­ nas; foram os pastores dos rebanhos e as bestas de car­ ga; foram os om bros, as costas e as pernas que fizeram o país andar. Foram o ventre que gerou im ensa popula­ ção m estiça e o seio que am am entou os filhos dos se­ nhores. Deixaram uma herança profunda; em 500 anos de história, o Brasil teve três séculos e m eio de regim e escravocrata contra apenas um de trabalho livre.

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ias Que consequências teve esse legado? Onde com eça e para onde conduz? Quais suas origens? Já houve quem arriscasse um a explicação: “Se há um povo dado à pre­ guiça, sem ser o português, então não sei eu onde ele exista... Esta gente tudo prefere suportar a aprender uma profissão qualquer”, e.screveu Nicolau Clenardo em 1502. É elucidativo que, em Portugal, o verbo “mourejar” ti­ vesse se tom ado sinônimo de “trabalhar” . Se no reino era assim, pior tlcou no trópico. Em 1808, ao visitar o Bra.sil, John Luccock, um in­ glês, comentou que. no país, os brancos se sentiam “fi­ dalgos demais para trabalhar em público” . Meio século depois, Thomas Ewbank, também britânico, dizia que, na colônia, “um jovem preferiria m orrer de fome a abraçar uma profissão manual” . Segundo ele. a escravidão torna­ ra “o trabalho desonroso — resultado superlativamente mau, pois inverte a ordem natural e destrói a harmonia da civilização” . As críticas não eram fleum a britânica: para Luís Vilhena. luso que ensinava grego na Bahia, o país era o “berço da preguiça” . Em pleno alvorecer do segundo m ilênio, o Brasil ainda parece com ungar da tese segundo a qual trabalho é escravidão. Por quanto tem po, nestes tristes trópicos, liberdade será sinônim o de ócio e inatividade?

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M

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A frica

' Y m dos m aiores países mestiços do m undo, o Brasil foi gerado em ventre escravo. Raras fo ­ ram as sociedades coloniais nas quais terá havido tam anho intercurso sexual entre senhores e escravas com o o que

Não era apenas o desejo, conscien­ te ou não, de fazer a escrava reproduzir um novo servo o que em purrava muitos senhores ao relacionam ento com as m ulheres da senzala. A perversão pura e sim ples foi um com ponente constante

aconteceu na lascívia dos trópicos bra­ sileiros. A partir do instante em que o núm ero de “fêm eas” vindas da África aum entou, e o trabalho forçado adqui­ riu feições tam bém dom ésticas, m uitas escravas foram transferidas da senzala para o seio da casa-grande. Eram amasde-leite e m ucam as, “escolhidas dentre as m ais lim pas, as mais bonitas, as m ais fortes” , com o observou G ilberto Freyre em “Casa-G rande & Senzala”, clássico da historiografia brasileira quase intei­ ramente dedicado ao assunto. No Brasil, com o em Portugal, m ãe que se prezasse jam ais am am entava o bebê. Por isso,

nessa relação. O que mais poderia ex­

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plicar o fato de ter surgido no Brasil a crença de que “para o sifilítico não há m elhor depurativo do que uma negri­ nha virgem ”, defendida, ainda em 1869. pelo dr. João de Azevedo M acedo Jr.? Ou a confissão que um “sacerdote de m issa” fez ao visitador inquisitorial. na Bahia, em 1591. revelando que. certa noite, levara para sua casa “um a negra, que seria da idade de 6 ou 7 anos", e "a penetrou pelo vaso traseiro” ? O que mais explicaria o fato de algum as se­ nhoras, cium entas com a relação, real ou suposta, de .seus m aridos com certas

inúm eros foram os filhos de senhores criados por m ães pretas. O próprio Frey­ re, no m esm o livro, atribui à am am en­

olhos de tais m oças “e trazê-los à pre-

tação em seio negro a paixão sexual

boiando dentro de uma com poteira"?

desenvolvida pelos herdeiros da casagrande por “m ulheres de cor” . Não parece ser apenas esse aspecto psicológico que explicaria o assédio às fêm eas da senzala. Afinal, com o obser­ va Freyre, “não existe escravidão sem

Ou o fato de que qualquer escravo que porventura caísse no erro de se deixar seduzir por sua senhora estivesse con­ denado a ser “castrado com um a faca m al-afiada, ter a ferida salgada e, aí. ser enterrado vivo” ? Desnecessário prolongar a lista. O panoram a de de.sregramento sexual no B rasil-colônia era tal que, na aurora do século 18, o bispo do Pará escreveu: “A m iséria dos costum es neste país me faz lem brar o fim das cinco cidades por me parecer que m oro nos subúrbios de Gom orra, mui próxim o, e na vizinhan­

m ucam as, terem m andado arrancar os .sença do marido, à hora da sobrem esa,

depravação sexual. Em prim eiro lugar, o próprio interesse econôm ico a favo­ rece, criando nos proprietários im ode­ rado desejo de possuir o m aior núm ero possível de crias (...). Joaquim Nabuco colheu num m anifesto escravocrata de fazendeiro as seguintes palavras, tão ri­ cas de significação: ‘a parte mais pro­ dutiva da propriedade escrava ainda é o ventre gerador’ ” .

ça de Sodom a” . O pecado chegara ao sul do Equador. O B R A SIL N E G R O apoeira, samba, feijoada, candomblé, vatapá. Que país seria o Brasil sem o legado da cultura africana? Certamente não o mesmo que hoje é —e dificilmente mais colori­ do, dinâmico, múltiplo e ruidoso. Falar na “influência cultural” que os negros tiveram no Brasil é quase um deboche: o que parece ter havido, em certas áreas do país, é quase tãosomente uma adaptação dos padrões de comportamento dos escravos às novas condições de vida a que foram submetidos. Depois que eles se estabeleceram e se expandiram, os demais povos é que absorveram e adotaram inúmeras tradições africanas. O Brasil não comeria o que come, não rezaria como reza, não dançaria e cantaria como agora canta, dança, reza e come não fosse a riquíssima herança deixada pelos 4,5 milhões de escravos trazidos da África sob as mais árduas condições e, por mais de três séculos, jogados nas praias, florestas, morros e cidades do Novo Mundo. Embora o Nordeste tenha sido a área que recebeu maior influência dos povos africanos, não há um só lugar do Brasil —nem mesmo os predominantemente europeus Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul— que não tenha sido transformado pelo legado do negro.

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historiografia brasileira, até cerca de 25 anos atrás, pre­ feriu adotar a tese segundo a qual os escravos “se adaptaram bem ” ao regime tirânico que lhes foi impos­ to no Brasil e que. neste país. a es­ cravidão teria sido relativamente bran­ da. O m ito do “ bom senhor” quase adquiriu força de lei depois do lança­ mento. em 1933. de “Casa-Grande & .Senzala", de Gilberto Freyre. No iní­ cio dos anos 60, surgiram os textos revisionistas da cham ada "escola pau­ lista" — liderada por Florestan Fernan­ des, Octavio lanni e Fernando Henri­ que Cardoso. Apesar de avessos à lese de Freyre, esses estudiosos — de for­ m ação esquerdista— preferiam estu­ dar a questão pelo lado da "coisificação" do escravo, quase ignorando as rebeliões da senzala. Cardoso chegou a escrever que os escravos foram “tes­ tem unhos mudos de uma história para a qual não existem a não .ser com o (...) in.strumento passivo". Estudos mais recentes e mais pro­ fundos. porém, revelam que a resis­ tência dos escravos foi feroz e cons­ tante: m ilhares de negros lutaram de todas as form as contra os horrores que o destino lhes reservava. A fuga. solitária ou coletiva, não era a única form a de rebelião: houve incontáveis casos de escravos que quebraram fer­ ram entas, incendiaram .senzalas, dis­ persaram os rebanhos ou atacaram seus feitores. M uitos outros optaram pelo suicídio (em geral provocado pela ingestão de terra), ou então se deixaram acom eter pelo banzo, o tor­ por mortal que levava ã m orte por inanição. O nde houve escravidão, houve resistência.

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E videntem ente, a form a m ais co­ mum de protesto contra a escravidão era a fuga. Apesar do rigor das puni­ ções (que incluíam a m arcação com ferro em brasa, o açoitam ento e até o corte do tendão de Aquiles), m ilhares de negros tentaram escapar da senza­ la — e muitos conseguiram. Ainda que grande parte fosse recapturada pelos capitães-do-m ato. terríveis caçadores de hom ens quase infalíveis (negros na m aioria), sem pre houve aqueles que. "estim ando mais a liberdade en­ tre as feras do que a sujeição entre os hom ens”, lograram se m eter na mata e lá fundar seus m ocam bos e quilom ­ bos (respectivam ente "esconderijo” e “povoação", em banto). Quantos foram os quilom bos e quantos negros neles viveram é algo impossível dc calcular Em 1930, o "Guia Postal do Brasil" registrava, .se­ gundo um pesquisador, 168 agências cujo nome derivava de quilom bo ou m ocam bo. Eles se espalhavam da Amazônia ao Rio Grande do Sul, e al­ guns chegaram a ter cerca de 10 mil habitantes, com o o quilom bo do Ambrósio. em Minas. Não eram só ne­ gros de todas as tribos e línguas que viviam nos quilombos: tam bém ín­ dios e brancos desajustados ou forada-lei podiam ser encontrados neles. Em bora as autoridades e os se­ nhores de escravos constantem ente se unissem para articular expedições repressivas, enviadas a todo e qual­ quer quilom bo, onde quer que se en­ contrassem . m uitos desses núcleos resistiram por anos a fio. O m aior e mais im portante deles — Palm arès, o berço de Z um bi— foi capaz de so­ breviver por quase um século.

A E S C R A V ID Ã O IN D ÍG E N A o descobrimento ao início efetivo da colonização, por volta de 1532, não houve escravidão indígena no Brasil: os portugueses conseguiam o que queriam —mantimentos e pau-brasil— através do escambo. Com a chegada da lavoura açucareira, a escravização começou e não poupou nem mesmo antigos aliados dos lusos. A partir da metade do século 16, porém, escravos africanos começaram a substituir os indígenas. Supostamente a troca se deu por causa da absoluta inadaptabilidade dos nativos ao trabalho agricola. Mas a verdade é que, enquanto a captura dos índios só trazia lucros para os colonos, a e.scravidão negra logo se tomaria um negócio complexo e alta­ mente rentável, gerando fortunas e trocas entre três continentes. Além di.s.so, não apenas a Coroa como também os jesuítas eram radicalmente contra a escravização dos índios —e grandes incentivadores do tráfico negreiro. Dezenas de leis foram feitas para proteger os nativos do Brasil —os colonos, de todo o modo, logo trataram de transformá-las em letra morta. Protegidos ou não, aos índios restou um destino ainda mais cruel do que aquele reservado aos africanos: a maior parte das tribos foi extinta. De qualquer forma. índios e negros raramente se aproximaram, nunca se uniram e jamais prix:uraram ver o pt)rtuguês como inimigo comum. Odiavam-se mutuamente.

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A Escravidão

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u ilo m bo d o s

P almares O quê: Palmarès não era apenas um. mas 12 quilombos, unidos por uma rede de trilhas na mata. No quilom bo do M a­ caco. de 2.000 habitantes, viveram o “rei” Ganga Zum ba e seu sobrinho Zum ­ bi. Palmarès pode ter tido 20 mil habi­ tantes e 6.000 casas. Q uando: O quilom bo com eçou a ser erguido em 1602 por 40 escravos fugi­ dos de engenhos em Pem am buco. Ten­ do sido destruído em fevereiro de 1694. durou quase um século. Onde: A serra da Barriga fica a cerca de 90 quilômetros a noroeste de Maceió, mas a área de influência do quilombo era muito maior: cerca de 200 quilômetros quadrados, em Pem am buco e Alagoas. Q uem viveu lá: N egros de todas as raças, m as tam bém índios e até brancos fora-da-lei. Não se sabe que língua se falava no quilom bo. De 1656 a 1678. o líder do quilom bo foi G anga Z um ba (grande senhor). Em novembro de 1678, Z um ba foi a Recife e firmou tratado de paz com o govem ador Sousa Castro: seriam livres os negros nascidos em Palm arès, os outros habitantes do qui­ lombo deveriam ser entregues às au­ toridades. Z um bi discordou, destituiu G anga Z um ba e liderou a resistência dos Palmarès. Como o quilombo foi destruído: Ao longo de sua luta secular. Palmarès foi atacado 25 vezes. As primeiras expedi­ ções foram as dos holandeses, em 1644 e 1645. Em 1692, Dom ingos Jorge Ve­ lho, bandeirante paulista, foi contratado para atacar o quilombo. Palmarès caiu em 6 de fevereiro de 1694, mas Zumbi escapou. Foi morto por André Furtado M endonça quase dois anos depois. Sua cabeça ficou exposta em praça pública “para satisfazer os ofendidos e ju sta ­ m ente queixosos e aterrorizar os negros, que o julgavam imortal” .

almares foi o mais significativo e o mais simbólico dos quilom ­ bos não apenas do Brasil, mas das Américas. Em nenhum outro lugar a resistência dos escravos fugidos foi tão bem-sucedida, organizada e longa com o nos doze mocambos erguidos na .serra da Barriga, no sertão das Alagoas, a 90 quilôm etros de M aceió. A inda assim, sua hi.stória permanece envolta em penum bra e m itificações e repleta de lacunas. Seu próprio líder. Zumbi, virou figura m ais m itológica do que histórica. Desde 1991, porém, um programa de escavações arqueológicas — financia­ do por entidades intemacionais, como a “N ational G eographic”— está sendo desenvolvido no mocambo do Macaco, a capital dos Palmares, e poderá eluci­ dar muito de um episódio interpretado de várias formas. Por ironia. Palmares entrou para a história pelas m ãos de um rico senhor de engenho. Sebastião da Rocha Pita. que, em 1724. em sua “História da América Portuguesa”, cele­ brou “o fim tão útil como glorioso \da\ guerra que fizemos aos negros dos Pal­ m ares” . As poucas fontes originais re­ latando a resistência épica e a trágica derrocada do quilombo foram redigidas pelas mesmas mãos que o destruíram. A partir da década de 50 do século 20. a história dos Palmares seria lida por um a ótica “esquerdista” . Embora historiadores com o Edison C am eiro e Décio Freitas tenham publicado docu­ m entos inéditos, o velho quilom bo de Zumbi continuou sendo utilizado como sím bolo e metáfora. A realidade — me­ nos em blem ática e glam ourosa. mais efetiva e complexa— com eça agora a em ergir das covas abertas na terra. Três séculos após sua destruição. Palmares está rena.scendo.

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O GUERRILHEIRO NEGRO umbi, cujo nome quer dizer “deus da guerra”, era sobrinho-neto da princesa Aqualtune. Envenenou seu tio. Ganga Zumba, “rei” de Palma­ res, e tomou o poder. Zumbi era casado com uma branca. Zumbi preferiu o

OSPAIMARES

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suicídio à rendição: jogou-se dum penhasco para não ser capturado pelos que atacaram seu quilombo. Zumbi era homossexual. Todas as afirmativas acim a estão erradas ou são improváveis. Pouco se sabe sobre o guerreiro dos Palmares. Documentos comprovam que. de 1676 a 1695. de fato exis­ tiu um “general” negro de nome Zumbi. Ele era baixo, coxo e valente: “ne­ gro de singular valor, grande ânimo e constância rara; aos nossos serve de embaraço, aos seus de exem plo”, disse um cronista. Contrário à paz fir­ mada por Ganga Zumba. Zumbi liderou a resistência final de Palmares. Delatado, foi morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça ficou expos­ ta na praça central de Recife, até se decom por por completo.

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AROTIRENE • T A B O C A S# Z U M fil# D A A t ó R A N G A » ,"

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A I n c o n fid ên c ia M 1 ncarcerado havia três anos,

O édito da rainha conclamara o povo do Rio a assistir à execu­ ção, e a praça estava repleta. À sombra da forca, o prisioneiro pe­ diu ao carrasco que “acabasse lo­ go” com aquilo. Mas faltavam os sermões. O frade Raimundo de Penaforte citou o Eclesiastes: “Nem por pensamento detraias do teu rei, porque as mesmas aves levarão a tua voz e manifestarão teus ju í­ zos”. Em seguida, quando o povo e o padecente rezavam o credo, de súbito, em meio a uma frase, hou­ ve um baque surdo, e o corpo do condenado balançava no a r Para apressar a morte, o carrasco pulou sobre os ombros do enforcado. Ambos dançaram um bailado té­ trico. Morria o Tiradentes. Mas a condenação ainda não estava completa: a sentença deter­ minava que o corpo fosse “espos­ tejado” — e o esquartejam ento começou em seguida. Dividido em quatro pedaços, bem salgados e postos dentro de grandes sacos de couro, o corpo de Tiradentes partiu para sua última viagem. O quarto superior esquerdo foi pendurado num poste em Paraíba do Sul. O quarto superior direito foi amarra­ do numa encruzilhada na saída de Barbacena. O quarto inferior direi­ to ficou na frente da estalagem de Varginha; o últim o foi espetado perto de Vila Rica, cidade à qual a cabeça de Tiradentes chegou em 20 de maio de 1792. Ficou enfiada num poste, defronte da sede do governo. Tiradentes saía da vida para entrar na história.

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o prisioneiro andava com J dificuldade e mal conseguia abrir os olhos. A alva (o tosco rou­ pão vestido pelos condenados) roçava-lhe os tornozelos. O baraço (a grossa corda da forca) rodeavalhe o pescoço e se estirava até as mãos do carrasco que o conduzia. Nas janelas, nas portas, nos beirais, pelas árvores, o povo acompanhava cada gesto do padecente. À frente ia a cavalaria, com suas fanfanras. Depois, o clero — os franciscanos e a Irmandade da M isericórdia, re­ zando salmos. A seguir, acorrentado e monologando com o crucifixo que trazia à altura dos olhos, ia o con­ denado. Às vezes, a procissão pa­ rava. O escrivão, então, lia o man­ dado: “Justiça que a rainha manda fazer a este infame, réu Joaquim José da Silva Xavier, pelo horro­ roso crime de rebelião e alta trai­ ção de que se constituiu chefe e cabeça na capitania de Minas Ge­ rais...” As 11 da manhã, sob um sol abrasador, o séquito chegou ao Campo de São Domingos, no Rio de Janeiro, local do patíbulo. Três horas antes, partira do pre­ sídio. Lá, quando o carrasco, o ne­ gro Capitania, se aproximou, com o baraço e a alva. o condenado adian­ tou-se e beijou-lhe as mãos e os pés. A seguir, quando lhe ordena­ ram que se despisse para vestir a al­ va, ele tirou a camisa e disse: “Meu Salvador morreu também assim, nu, por meus pecados”. Agora, a vítima subia os degraus do patíbu­ lo. Era sábado, 21 de abril de 1792. terrível sentença contra o alferes Joaquim José da Silva Xavier incluía ainda a difamação de seus descendentes até a terceira geração, a destruição de sua casa, em Vila Rica. o salgamento do chão e o erguimento de um marco no local, para preservar a memória infame do abominável réu. Conhecido por Tiradentes —devido à profissão que eventual­ mente exercia— , o alferes havia sido considerado líder da Conjuração (ou Inconfidência) Mineira e era o único dos im­ plicados condenado à morte. A sentença, lida às 2 da manhã de 19 de abril de 1792. foi pronunciada em nome da rainha de Portugal, d. Maria I*. Mas ela. com certeza, nada soube do caso; estava louca desde o início de 1792.

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in eira

A RA IN H A LOUCA

Dona Maria era casada com seu tio, o rei-consorte d. Pedro 3°. Em 1786. o rei morreu, vítima de embolia cerebral. Dois anos depois, a varíola levou-lhe o filho mais velho, José. Outro ano, estourou a Revolução Francesa. Esse parece ter sido o golpe fa­ tal para d. Maria: ela passou a acreditar que seria decapitada e, depois de morta, iria para o infemo. Alguns historiadores acham que foi o bispo José Maria de Melo, seu confessor, quem lhe des­ pertou a paranóia e a carolice ensandecida. Em 1792, d. João, se­ gundo filho de Maria 1“, tomou-se regente e em 1799 os médicos consideraram a rainha incurável. Dona Maria vivia trancada no palácio, gritando e quebrando o que visse pela frente. Morreu em 1816. no Brasil, para onde viera em 1808.

A Inconfidência Mineira 81


As desm andos do sistem a colonial — suas tributações, seus im postos, sua própria natureza espoliadora— foram responsá­ veis pela eclosão de uma série de revoltas contra a m etrópole. Eventualm ente, esses conflitos aca­ bavam se tornando ainda lutas cm prol da au­ tonom ia. unidade e independência do Brasil e, com frequência, se voltaram tam bém contra os reinóis ou "m arinheiros", com o os nativos ironi­ cam ente cham avam os portugueses (abaixo, as tropas que enfrentavam os rebeldes). A primeira dessas insurreições foi a cham a­ da Revolta de Beckm an, ocorrida em 1684 no M aranhão. As causas do protesto arm ado que o senhor de engenho Manuel Beckm an, o Bequimão. liderou estão claras num trecho do m ani­ festo que ele m esm o leu para seus com panhei­ ros: “A duas coisas devem os pôr term o — aos jesuítas e ao m onopólio— . a fim de que tenha­ mos as mãos livres quanto ao com ércio e quan­ to aos índios". O m onopólio a que Beckm an se referia era exercido, então, pela Com panhia de C om ércio do M aranhão. S

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R e v o lta s E co n ô m icas

Fundada em 1682, a com panhia detinha di­ reitos de im portação e exportação na região. Ao m esmo tempo, estava obrigada a introduzir 500 escravos negros por ano na província, já que os jesuítas tinham conseguido proibir a escravização dos índios. Quando a com panhia não .só aum en­ tou os preços dos importados (trigo, vinho, azeite e bacalhau) com o deixou de trazer os africanos, a revolta eclodiu. Em fevereiro de 1684. o grupo de Beckman fonnou um govem o provisório, expul­ sou os jesuítas, fechou a companhia e escravizou índios em massa. Em 15 de maio de 1685. apro­ veitando-se de brigas entre os rebeldes, o gover­ nador Gom es Freire de Andrade desferiu o ataque a São Luís. Apesar de refugiar-se no mato (gra­ vura acima). Beckman foi preso e enforcado. Mas a Com panhia de Com ércio do Maranhão acabou sendo extinta um ano depois e a própria Com panhia de Jesus seria expulsa do Brasil em 1759. Aos índios restou a escravização. Outra rebelião econôm ica, a cham ada Revol­ ta de Vila Rica. estourou em 1720. Foi uma ante­ cipação da Inconfidência Mineira, de 1789. Na

noite de 27 de junho de 1720. sete homens, acom ­ panhados por seus escravos annados, saíram às ruas de Vila Rica conclam ando o p o \o a rebelarse contra as medidas absurdas impostas pela Coroa. A criação das casas de fundição, que faci­ litariam a cobrança do quinto sobre o ouro. a proi­ bição da circulação do ouro em pó. os desm andos do ouvidor M artinho Vieira e do governador, conde de .Assumar, eram m otivos mais do que suficientes para a revolta. E ela explodiu, embora desorganizada demais para sobreviver. De início, o conde de Assum ar recebeu os rebeldes e até assinou um docum ento em que se com prom etia a cum prir os 18 tópicos propostos pelos revo­ lucionários. Era só uma manobra diversionista: assim que conseguiu reunir tropas fiéis, Assum ar prendeu os revoltosos. A penas um , Felipe dos Santos — foragido da justiça portuguesa por “abandono do lar" c figura m enor no levante— , foi condenado e, após julgam ento sumário, exe­ cutado com requintes de crueldade. Não seria uma m orte inúiil; em fins de 1720. M inas se tomou capitania independente da de São Paulo.

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A G uerra

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T "m (Jos mais violentos conflitos internos do Brasil eclodiu dez anos antes da Revolta de Vila Rica e 79 anos antes da Inconfidência M ineira. Foi a G uerra dos M ascates, ocorrida em Pernam buco, en­ tre Olinda e Recife. E ncarapitada no topo dum a colina em frente do mar. O linda era um a cidade de origem portuguesa. D urante a ocu­ pação holandesa, porém, os invasores ergueram , nos baixios da colina, a cidade de Recife (gravura acim a) — construída num local que lem brava os alagadiços da Holanda. Depois da Insur­ reição Pernam bucana, em 1645, Recife se m anteve mais ativa do que Olinda. Porto m ovim entado, local de grandes transações com erciais. Recife, no entanto, era tida com o m ero bairro co­ m ercial de Olinda, onde a aristocracia rural — constituída basi­ cam ente por senhores de engenho endividados— continuava vivendo em suas man,sões. Os com erciantes e burgueses recifenses, pejorativam ente cham ados de “ m ascates” pelos olindenses. queriam se livrar da tutela de Olinda e ver seu “bairro” elevado à condição de vila. Os falidos olindenses. em m eio à crescente cri.se das exportações de açúcar, lutavam pela m anu­ tenção de seus privilégios, cargos civis e eclesiásticos e não abriam mão de sua suprem acia sobre Recife. No dia 19 de novem bro de 1709, porém, o governador Sebastião de Castro e Caldas decidiu apoiar as reivindi­ cações dos m ascates e transform ou Recife em vila. Na noite de 14 de feve­ reiro de 1710. ergueu o pelourinho na praça central.

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M enos de um ano depois, em 10 de outubro, quando cam inhava pela rua das Á guas Verdes, Castro e C aldas foi baleado por um grupo de encapuzados que nunca chegou a .ser identificado. M esm o sem provas, o gover­ nador ordenou a prisão de vários senhores de engenho e do próprio ouvi­ dor de Olinda. Indignada, a elite olindense se insurgiu, atacou R ecife, d estru iu o p e lourinho e rasgou o foral da criação da vila. A ação foi feita por hom ens vestidos de penas e plumas, para sim ular um “ataque de índios” . O governador fugiu, m as os recifenses reagiram e os com bates se prolongaram por três me.ses. Na tentativa de apaziguar o conflito, o rei de Portugal, d. João 5° (ü esquerda), nom eou um novo governador para Pem am buco, Félix José M achado, em outubro de 1711. A “no­ breza de Pem am buco” (com o se auto-intitulavam os olinden­ ses) desarm ou-se. fatigada; os m ascates depuseram as armas, confiantes. Feilas as pazes, porém . M achado revelòu-se par­ tidário da causa de Recife e. alegando nova conspiração dos olindenses. prendeu 150 supostos im plicados, inclusive Ber­ nardo Vieira de Melo. ex-govem ador do Rio Grande do Norte e líder do m ovim ento, favorável à independência de Pem am buco e à pro­ clam ação da república. M uitos acusados foram executados em Lisboa. Em Pernam buco, vários nobres fugiram para o sertão. Em 7 de abril de 1714. d. João 5° assinou ato régio anistiando os envolvidos. Recife e Olinda pas­ saram a dividir a honra de sediar a casa do governador.

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^ m 1780. um século após a descoberta das minas. Vila Rica já Pelo menos algumas vantagens Vila Rica (acima, desenhada por havia muito deixara de ser um acampamento mineiro em bat­ Rugendas) conseguia auferir de sua opulência. Além de constituir ia rado e sem atrativos. Situada no sopé do grandioso penedo uma sociedade essencialmente urbana, possuía uma estrutura bem do Itacolomi, a cidade se constituía uma teia de ruas pavimentadas mais complexa do que aquela que se reduzia a senhores e escravos. percorrendo ladeiras íngremes, ladeadas por graciosas construções Havia uma “classe média”: comerciantes, mercadores, ourives, artis­ de dois pisos, muitas das quais possuíam terraços ajardinados e tas e, é claro, poetas. Outra possibilidade aberta pelo ouro foi a floridos. No topo das colinas, ou em frente de praças amplas e are­ chance concedida a alguns filhos da elite local de realizar seus estu­ dos na Europa. Muitos herdeiros de mineradores bem-sucedidos jadas, havia inúmeras igrejas barrocas, com altares reluzindo de foram enviados para a Universidade de Coimbra, em Portugal. ouro e paredes repletas de ornamentações suntuosas. Não era Lá, vários deles tomaram contato com idéias liberais e re­ uma cidade: era uma obra de arte urbana. Vila Rica. disse ‘E nfim publicanas, acom panhando o furor provocado pela Re­ um poeta, era “a pérola preciosa do Brasil” . Mas a ricantada, queza da cid ad e— .seu ouro preto, seus diamantes re/m volução Francesa e pela independência dos Estados / ^ Vxla ‘Ktca, /'Teu nome luzentes. suas mmas opulentas— era também a . , Unidos. Um desses estudantes. José da M aia e impresso nas memórias f i c a ; / ‘Teráí t, u lu u . -ru fonte de suas desgraças. Submetida a uma san­ ^ . . . Barbalho. chegou a .se encontrar com Thomas agforia de ter dado o berço / Jefferson. embaixador dos EUA na França, songria feroz, que se manifestava na forma de im­ A quem te f a z girar peío dando-o sobre um possível apoio norte-americano postos de entrada e impostos de saída (qualquer produto levado às minas era duramente taxado; cada ‘U niverso à independência do Brasil. Enquanto isso. em Vila grama de ouro que saía pagava um tributo oneroso), Rica, mudanças políticas tornaram insustentável o que Cfáudio ‘M anuel Vila Rica via sua fortuna se esvair. Levado para além-mar, já era ruim. Em outubro de 1783, o governador Rodrigo da Costa o ouro de Minas permitira a d. João 5° reinar numa luxuosa José de Meneses, homem de grande cultura, amigo do poeta ostentação, a ponto de se tornar conhecido como o “Roi-Soleil” Cláudio M anuel da Costa e liberal com os contrabandistas, foi português. O mais grave é que o “fulvo metal” nem sequer servia substituído por Luís da Cunha Meneses, um sujeito em tudo dife­ para enriquecer a metrppole: era apenas o ouro “que Portugal dis­ rente dele. Para atacar a elite descontente. Cunha fez uma aliança tribuía tão liberalmente para a Europa”, como observou o viajante populista com as classes inferiores de Vila Rica. Mas era um cor­ inglês Henry Fielding. Nada mais natural, portanto, que a jovem rupto que saqueava os cofres públicos e desfilava ostensivamente sociedade mineira — tão diferenciada da elite rural e latifundiária do pelas ruas de Vila Rica com suas muitas concubinas. Foi satirizado Nordeste— alimentasse um profundo estado de indignação e revol­ nas “Cartas Chilenas” , obra provavelmente escrita por Tomás Antô­ ta. E essa revolta não demoraria muito para eclodir. nio Gonzaga, na qual era chamado de “Fanfarrão Minésio” .

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Nesta casa os inconfidentes se reuniram em 26 de dezem bro de 1788

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N a Casa d o s Contos m o rreu o p o e ta C láudio M anuel da Costa

In c o n fid ên c ia

ublicadas entre ju lh o de 1788 e fevereiro de Cláudio M anuel da Costa nasceu em M ariana em 1789, as “Cartas Chilenas” m arcam o início da 1729. Estudou no C olégio dos Jesuítas, no Rio, e se luta dos pt-)etas de Vila Rica contra os desm an­ form ou em leis, em Coim bra. Advogado, m inerador e dos da colônia. Agrupados sob a denom inação geral de fazendeiro de gado bovino e suíno, senhor de m uitos E.scoIa Mineira, os poetas inconfidentes eram três — to­ escravos, logo se tom ou um dos hom ens m ais ricos de dos m embros da elite local e homens que tinham lu­ Minas. M em bro da O rdem de Cristo, seu prestígio crado muito com o ouro e com a ordem estabelecida, a era tal que foi secretário do governo entre 1762 e qual só passaram a contestar a partir do instante em que 1765. .sendo depois reeleito, para o período de 1769 deixaram de ser favorecidos por ela. Aos três poetas a 1773. Rico. influente, solteiro, dono de um a bela que mais tarde seriam presos devem -se juntar ainda m ansão, era figura respeitada e popular, que costu­ Silva Alvarenga (autor de "G laura". de 1799). Basílio m ava reunir am igos e intelectuais em m ovim entados da G am a (autor do poema épico "O Uraguai". de 1769) saraus. C om o poeta, dom inava a écloga (poesia de e Santa Rita Durão (autor de “Caram uru", de 1781). tem a pastoral), a epístola (poem a em form a de carta) Dentre os poetas inconfidentes, o menos fulgurante e os poem as épicos. foi o ct)ronel Inácio José de Alvarenga Peixoto. Tomás A ntônio Gonzaga, ou Dirceu, nas­ Nascido no Rio, em 1744, Alvarenga Peixoto ceu no Porto, em 1744. mas veio com os pais era um advogado que virou minerador. Foi para o Brasil aos 8 anos. Estudou no C olé­ “LiBerdade autor de apenas 30 poemas e não deixou gio dos Jesuítas, na Bahia. A os 16 anos. essa paíavra cjue livro publicado. Partiu dele a suges­ voltou para Portugal, onde, em 1768, 0 sonfio fiumano aíimenta tão de incluir na bandeira da In­ se form ou em leis na U niversidaque não há ninguém que^ e?çpíique Coim bra. Ao retornar para confidência um trecho de uma e ninguém que não q Brasil, foi nom eado ouvidor de écloga de Virgílio: “Libenas quíe entenda" sera tamen” ("Liberdade, ainda que Vila R ica e. com o C láudio M anuel tardia"). Os dois outros poetas inconfi­ da Costa, lucrou bastante com a política Cecília 'Meireíes dentes eram homens de gênio, autores de de vistas grossas do governador Rodrigo obras profícuas e densas. Com o Silva A lvaren­ José de M eneses ao contrabando de ouro e dia­ ga, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio m antes. Tomás Antônio G onzaga era discípulo Gonzaga faziam uma poesia influenciada pelo bu­ poético de C láudio M anuel da Costa e am bos eram colismo: uma exaltação da vida cam pesina, com sua centro de um grupo que reunia tam bém o intendente paisagem , seus pastores e seus rebanhos, de acordo de Vila Rica. Francisco Pires Bandeira, o contratante com as nom ias ditadas pelos modelos greco-romanos. João Rodrigues de M acedo, o ex-ouvidor de São João Era um arcadismo peculiar, no qual surgiam também dei Rei, Alvarenga Peixoto, o com andante m ilitar da c erto s traços do rococó e do pré-ro m an tism o , m a­ capitania. Francisco Freire de Andrade, o cônego Luís tizados por dim ensões nativistas e sátiras sociais. Vieira da Silva, dono de uma das mais notáveis bi­ Porém , nos m elhores m om entos de sua obra — e são bliotecas da colônia (cheia de livros "subversivos” ) e m uitos— , Cláudio Manuel da Costa e especialm ente os clérigos radicais Carlos C oireia de Toledo, José da Tomás Antônio Gonzaga, sem rom per com os modelos Silva e O liveira Rolim. Foram esses advogados, ju i­ neoclássicos, inovam e revelam um estilo luminoso, zes, m agistrados, com erciantes, fazendeiros, em presum lirism o com ovente e o dom ínio pleno do soneto tadores de dinheiro, padres, cônegos e m em bros de cam oniano. Am bos podem ter sido revolucionários .sociedades secretas e irm andades leigas que decidi­ fracassados, mas foram tam bém poetas maiores. ram desafiar o poder colonial.

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MARILIA DE DIRCEU Escrito por Tomás Antônio Gonzaga durante sua prisão no Rio, em 1789, "Marília de Dirceu ” é um dos mais belos poemas de amor da língua portuguesa. Foi dedicado à jovem Maria Dorotéia de Seixas Brandão, de 16 anos (abaixo), por quem o poeta, de 43 anos, se apaixonou e com quem se casaria se não tivesse .fido preso. Enviado para dez anos de degredo na Africa, em 1792, Tomás Antônio Gonzaga nunca mais veria sua amada. Mas parece não ter sofrido com a ausência dela: casou-se com Juliana de Sou.sa Mascarenhas. mulher “de muitas posses e poucas letras ”, da família mais opulenta de Moçambique, enriquecida pelo tráfico de escravos, ao qual o poeta passou a se dedicar, integrando-se à “melhor sociedade" local. Rico e ocioso, Tomás Antônio Gonzaga ficou em Moçambique até morrer, em 1810. “Marília de Dirceu" foipublicaáo em Lisboa, com grande sucesso, em ! 799.

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m 1788, sempre zelosa de sua mais opulen­ ta capitania, a Coroa substituiu o corrupto J govem ador Luís da Cunha Meneses por Luís A ntônio Furtado de M endonça, visconde de Bar­ bacena e sobrinho do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa. O visconde chegou a Vila Rica com o r­ dens expressas de aplicar o alvará de dezem bro de 1750, segundo o qual M inas precisava pagar cem arrobas (ou 1.500kg) de ouro por ano para a Coroa. Caso a arrecadação não atingisse essa cota. seria, então, cobrada a derram a — imposto extra tirado de toda a população até com pletar as cem arrobas. O visconde anunciou: a derrama, por mais odiada e temida, seria cobrada em fevereiro de 1789. No dia 26 de dezem bro de 1788, na casa do te­ nente-coronel Francisco de Paula Freire de A ndra­ de, chefe do R egim ento dos Dragões, alguns dos sujeitos m ais im portantes de M inas se encontraram para um a reunião conspiratória. Três tipos de ho­ m ens estavam na reunião: ideólogos, com o o filho do capitão-m or de Vila Rica, José Á lvares M aciel; ativistas revolucionários, com o o alferes Joaquim José da Silva X avier (que fora atraído pelas idéias em ancipacionistas de M aciel) e, em m aior núm ero e m uito mais voz de com ando, m ineradores e m ag­ or lei de dezembro de 1965, aprovada natas endividados, com o A lvarenga Peixoto e o durante o goi'emo militar, o alferesfoapadre O liveira Rolim , notório traficante de dia­ cjiiim fosé da Silva Xavier racima. envergan­ m antes e escravos. M ais tarde, na segunda reunião, do uniforme de sua patente, no quadro feito em 1940 pelo pintor positivista José Wasth no m esm o local, se juntaria ao gm po o negociante R(xlrigucs> fo i convertido em Patrono Cívi­ Joaquim Silvério dos Reis, talvez o hom em mais co da Nação Brasileira, título que mantém endividado da capitania, com um passivo oito ve­ após a redemocratização do país. zes superior aos ativos. Todos decidiram se rebelar contra a Coroa.

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Ficou resolvido que, no dia em que fosse de­ cretada a derram a, a revolução eclodiria. Os planos para o golpe eram tão vagos quanto os projetos do futuro govem o. Em tese, a revolta levaria à fun­ dação, em M inas, de um a república independente, cuja capital seria São João dei Rei. O Distrito D ia­ m antino seria liberado, assim com o a exploração do ferro e a industrialização. Seriam constm ídos hospitais, criada um a universidade e abolida a es­ cravidão. O govem o seria entregue a Tomás Antônio G onzaga, por três anos — a seguir, viriam eleições livres. Em suma. M inas seria o paraíso na Terra. Em bora a historiografia oficial considere a In­ confidência M ineira um a grande luta pela liberda­ de no Brasil, para o historiador Kenneth M axwell, autor am ericano de 'A Devassa da D evassa” — o m elhor livro atuai sobre o assunto— , “a conspira­ ção dos m ineiros era, basicam ente, um m ovim ento de oligarcas. no interesse da oligarquia, sendo o nom e do povo invocado apenas com o justificativa. (...) A derram a proporcionava aos m agnatas locais um subterfúgio pré-fabricado para alcançarem seus objetivos egoístas sob o disfarce de um levante po­ pular” . M as o plano gorou: em fevereiro de 1789, B arbacena suspendeu a derram a. Os inconfidentes se desarticularam . De acordo com M axwell, .só de­ pois da suspensão da derram a Silvério dos Reis de­ nunciou a tram a, para obter o perdão de suas dívi­ das. Em maio, os acusados com eçaram a ser presos. Em seguida, foram enviados para julgam ento no Rio {gravura na página ao lado). Na capital, fi­ cariam três anos aguardando as sentenças, acusando-se m utuam ente e clam ando por perdão.


O D cena foi m eticuiosam ente preparada, de m odo a ter o mais teatral dos efeitos. A leitura da sentença, iniciada no dia 18 de abril de 1792, na sala do tribunal do Rio, teve a incrível duração de 18 horas, prolongando-se das 8 da m anhã às 2 da m adrugada seguinte. E ocor­ reu em meio a grande confusão, com a presença dos 18 acusados acorrentados, dos 18 padres que os assistiam , dos nove juizes de alçada, do vicerei e de guardas com as arm as carregadas. Pela cidade, todos os prédios públicos estavam guar­ necidos. Depois de imensa tensão, com os réus tresnoitados, em ferros e ansiosos, o escrivão pas­ sou a ler as sentenças: sete inconfidentes foram condenados ao degredo e 11 condenados à morte. Vestidos em panos de algodão ordinário, bar­ budos, gri.salhos, com os olhos sensíveis à luz de­ pois de três anos de cárcere, os condenados pas­ saram a se acusar m utuam ente (“Cada um fazia por imputar a sua infelicidade ao excessivo de­ poim ento do outro", escreveu uma testem unha ocular). O acusado Vidal Barbosa ria com o lou­ co. urrando que não .seria enforcado. A penas Ti­ radentes permaneceu calado e altivo. Então, dra­ m aticamente com o planejada, iniciou-se a leitura da carta de clem ência enviada, vários dias antes, pela rainha d. M aria P. Os prisioneiros, que já haviam “sido lavados pelo mortal suor e tragado a últim a gota de fel", ergueram -se cm louca ale­ gria e. entre o retinir de seus fenos, com eçaram a dar vivas e hurras à rainha, que passou a ser cha­ mada de “clem entíssim a".

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estin o d o s

C o n spir a d o r es

Alvarenga Peixoto, José Álvares Maciel, Luís Vaz de Toledo Pisa, Francisco Antônio de Olivei­ ra Lopes. Francisco de Paula Freire de Andrade e Dom ingos de Abreu Vieira partiram para o exílio em Angola no dia 5 de maio. No dia 23, zarpou o navio que levou para M oçam bique Tomás A ntô­ nio Gonzaga. Vicente Vieira da Mota, José Aires Gomes. João da Costa Rodrigues. Vitoriano G on­ çalves e Salvador do Amaral Gurgel. Os padres im plicados foram julgados secretam ente em Lisboa. Cláudio Manuel da Costa fora encontra­ do morto na Casa dos Contos, em Vila Rica, no dia 4 de julho de 1789. A informação oficial foi de que ele se suicidara, mas m uitos historiadores acham que. na verdade, o poeta foi m orto — du­ rante uma sessão de tortura ou. então, pelos pró­ prios inconfidentes. De todas as sentenças originais, só uma foi mantida: aquela que condenava à morte e à in­ fâm ia 0 alferes Joaquim José da Silva Xavier. Tiradentes. órfão de pai e mãe desde os 10 anos. fracas.sara em tudo na vida: fora tropeiro, m ine­ rador e dentista. Em dezem bro de 1755, alistouse na Com panhia dos Dragões e passou a patru­ lhar as estradas de Minas Gerais. Em 14 anos de carreira, recebeu apenas uma prom oção, estacio­ nando no posto de alferes (equivalente, hoje. ao de tenente). Em 1787. desgostoso com sua situa­ ção. pediu licença da tropa e mudou-se para o Rio. onde voltou a trabalhar como dentista e onde conheceu José Álvares Maciel, que o influenciou com idéias republicanas e separatistas.

De volta a M inas, Tiradentes tornou-se o m ais entusiástico e tem erário propagandista do golpe. M as não há dúvida de que seu papel na tram a foi, e .seria, menor. A inda assim , era o bo­ de expiatório ideal — e a Coroa o e.scolheu para servir de exem plo. Tiradentes cum priu o papel com altivez espanto.sa. Desde a prisão no Rio, em m aio de 1789 {gravura na página ao lado) até o m om ento em que ouviu a leitura da senten­ ça, Tiradentes não vacilou, blasfem ou ou traiu. E era um a sentença terrível: “Pelo abom inável intento de conduzir os povos da capitania de M inas a um a rebelião, os juizes deste tribunal condenam o citado réu a que, com baraço e pre­ gão, seja conduzido pelas ruas públicas ao lugar da forca e nela m orra a morte natural para sem ­ pre, e que depois de m orto lhe seja cortada a ca­ beça e levada a Vila Rica, onde em o lugar m ais público dela será pregada, em poste alto até que o tem po a consum a; e o seu corpo será dividido em quatro quartos, e pregados em postes, pelo cam inho de M inas, onde o réu teve suas infam es práticas, até que o tem po tam bém os consum a; e declaram o réu infam e, e seus filhos e netos, e os .seus bens aplicam para o Fisco, e a casa em que vivia em Vila Rica será arrasada e .salgada, para que nunca mais no chão se edifique, e no m esm o chão se erguerá um padrão, pelo qual se con.serve a m em ória desse abom inável réu”. E assim se fez. O Brasil ganhou seu Cristo cívico. E um Judas: o traidor Silvério dos Reis. escorraçado pelo re.sto da vida.

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M ito d o T ira d e n te s Mas os caminhos da história esco­ lheram outras vias e, um século depois, Tiradentes seria transform ado no grande símbolo da República— independentemen­ te do papel que tivesse desempenhado na Inconfidência. Por anos a fio, a história da revolta subsistira apenas na m em ória po­ pular. A partir de 1873, e até 1893, a lite­ ratura e a historiografia começaram a trans­ form ar Tiradentes numa espécie de Cristo cívico. Ele renascera antes, no livro “Bra­ sil Pitoresco”, escrito em 1859 pelo francês Charles Ribeyrolles, na figura de um herói republicano “que se sacrificava por um a idéia” . Em 1873, porém, Joaquim Norberto de Souza lançou sua “História da Conju­ ração M ineira” . Descobridor dos “Autos da Devassa”, ele foi o primeiro a consultálos. Após 13 anos de pesquisa, concluiu que o papel do Tiradentes fora secundário e que, devido à lavagem cerebral a que o subm eteram na prisão os frades francis­ canos, substituíra o ardor patriótico pelo fervor religioso. “Prenderam um patriota, executaram um frade.” Os republicanos, já tentando alçar Tiradentes ao papel de sím ­ bolo do regime que estava para nascer, protestaram. Negavam ter Tiradentes bei­ jado a-s mãos e os pés do carra.sco; não aceitavam a versão de que ele se dirigira à forca com um crucifixo; não acreditavam que tivesse dito que, com o Cristo, também morreria nu. Mas o fato é que semelhanças entre a paixão de Cristo e o martírio de Tiradentes eram tão evidentes (não fal­ tavam nem Judas nem Pedros — e, agora, nem a ressurreição) que, depois de estabe­ lecida a República, até m esmo os pintores ligados ou contratados por ela pa.ssaram a representar Tiradentes com o se fosse Jesus no patíbulo. Com a passagem dos anos, a memória e as imagens de Tiradentes conti­ nuariam sendo esquartejadas.

tir a d e n te s pode ter sido m ero bode expiatório no trágico desfecho da Inconfidência M ineira. Mas a de­ cência com que se com portou ao longo do lento e tortuoso processo judicial e, acim a de tudo, a a ltiv ez com que enfrentou a m orte, o tom aram , no ato, não apenas a m aior figura do m ovim ento, m as um dos grandes heróis da história do Brasil. E n­ quanto a m aioria dos conjurados chorava, balbuciava e se m aldizia — trocando acu­ sações e blasfêm ias diante dos jurados— , T ira d en te s m anteve a d ig n id a d e , o se n ­ so de cam aradagem e um a tranquilidade despojada que, da m era leitura dos autos, sua presença refulge imponente e quase m ajestosa. D esde o início ele tentou atrair toda a culpa sobre si, praticam ente se apre­ sentando para o rhartírio ao proclam ar responsabilidade exclusiva p>ela Inconfi­ dência. Ao saber que, além dele, outros conjurados tinham sido condenados à m or­ te, Tiradentes declarou: “Se dez vidas eu tivesse, dez vidas daria para salvá-los” . N ão houve, por parte dos acusados, espécie algum a de retribuição. Com toda a confusão de seus depoim entos, nenhum negara a participação de Tiradentes nem seu entusiasm o fanático e às vezes im pru­ dente pela revolução. Para a Coroa, o alferes também des­ pontava como a vítim a ideal: primeiro, era alguém com todos os ressentim entos de um típico “revolucionário francês”. Depois, não era ninguém; “Quem é ele?”, pergun­ tara um a carta régia enviada de Lisboa ao desem bargador Torres, ju iz do processo. “Não é pessoa que tenha figura, nem vali­ mento, nem riqueza” . Além do mais, quem levaria a sério um m ovimento chefiado por um simples Tiradentes? Enforcá-lo, portan­ to, teria o efeito máximo com o advertência e o mínimo com o repercussão.

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UM s í m b o l o BRASILEIRO Não se sabe como eram as verdadeiras feições de Joaquim José da Silva Xavier. Todos os retratos são fictícios —embora nenhum tenha seguido duas informações vindas de fonte segura. Durante o julga­ mento dos inconfidentes, Alvarenga Peixoto descrevera Tiradentes como “feio e espantado”. O depoimento de frei Penaforte indicava também que, ao ser conduzido ao patíbulo, o réu estava “com a barba e a cabeça raspadas”. Tais fatos eram adversos ao processo de mitificação do Tiradentes —foram, portanto, solenemente ignorados. Na mais brilhante e definitiva anáJise ; da fabricação do mito de Tiradentes, feita por José Murilo de Carvalho no livro “A Formação das Almas — O Imaginário da República no Brasil” (no qual se baseiam as idéias discutidas nesta página), são analisadas todas as imagens de Tiradentes e de seu martírio (em especial os quadros “Tiradentes Esquartejado”, feito em 1893 por Pedro Américo e reproduzido na página 8 1. e “Martírio de Tiradentes”, de Aurélio de Figueiredo, reproduzido acima). Neles, como em quase todos os demais. Tiradentes surge como “o mártir ideal e imaculado na brancu­ ra de sua túnica de condenado”. Foi assim que ele se tomou aceito como símbolo nacional tanto por monarquistas e abolicionistas como pelos republicanos. O fenômeno se repetiria nos anos 60 do século 20, quando tanto os militares como grupos revolucionários de esquerda —e até mesmo o dinâmico rebelde Teatro de Arena— o usaram como símbolo de liberdade e luta. Após dois séculos, Tiradentes vive.

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A C

hegada da

dia nasceu radiante. Desde a madrugada, a multidão se aglomerava no cais do largo do Paço, fitando a esquadra fundeada na baía de Guanabara. O desembarque, porém, só começou por volta das 11 horas. Descontando-se os 45 dias passa­ dos na Bahia, a armada real estava em alto-mar havia dois meses. Ao longo dos 64 dias durante os quais aque­ las oito naus, cinco fragatas, três brigues e 30 navios m ercantes cruzaram o Atlântico, se uma tormenta porventura fizesse a frota ir a pique, submergiria não apenas toda a dinastia de Bragança, mas boa parte da nobreza, do clero e da corte de um reino que partira para o exílio. Mas, singrando a mesma rota que Cabral seguira 300 anos antes — e sob a escolta de quatro navios de guerra britânicos— , aquele pedaço flutuante de Portugal desfrutou de uma viagem relativamente tranquila. Agora, na luminosa manhã de 8 de março de 1808, mais de 10 mil nobres exilados se preparavam para pôr novamente os pés em terra e iniciar não só um novo período para a história de Portugal como, principalmente, uma nova era para o Brasil. Pelos 13 anos que se seguiriam, d. João e sua corte viveram no Rio de Janeiro — de início, fugindo da iconoclastia incontida de Napoleão; depois, tentando se e.squivar do jugo britânico. Dias antes do desembarque no Rio de Janeiro, o Brasil já começara a se livrar dos grilhões coloniais. Em breve, seria um reino unido a Portugal. A seguir, um país independente.

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F a m ília R eal O júbilo com que o povo do Rio se preparara para receber a família real não era, portanto, apenas fruto de devoção monárquica, mas uma antecipação genuí­ na pelas benesses que estavam por vir. E assim, no instante em que o futuro rei, sua mulher, Carlota Joaquina, príncipes, nobres, cortesãos e até a rainha lou­ ca, d. Maria, pisaram em solo carioca, o som dos clarins, o espocar dos rojões, o alarido do povaréu, o troar dos aplausos e dos hurras e o clamor dos sinos ecoaram pela Guanabara. A procissão real seguiu por ruas cobertas de areia branca, juncadas de folhas de mangueira e de canela, por entre as filas da soldadesca perfilada, com unifor­ mes de gala refulgindo ao sol, diante das casas enfestoadas de panos multicoloridos. A marcha a conduziu da rua Direita à do Ouvidor e dali à remodelada igreja do Rosário, onde se rezou a missa para dar graças pela chegada à nova sede do reino de Portugal. Embora sa­ tisfeita com o desembarque, a família real não pôde deixar de notar que, além de despojada, a cidade do Rio de Janeiro exalava “os odores mais pútridos” . A popu­ lação, ainda extasiada com a visão de tanto fausto, tam­ bém não foi capaz de ignorar a feiúra gritante de d. João 6° e d. Carlota, nem os gritos alucinados de d. Maria 1“ e as cabeças raspadas das cortesãs (devido à epidemia de piolhos ocorrida a bordo). Em poucos anos, o Brasil e a realeza se acostumariam com os próprios defeitos — embora só o país de fato se modificasse.

O V E L H O L IB E R A L Seis dias depois de desembarcar na Bahia, d. João 6° assinou um decreto, em 28 de janeiro de 1808, abrindo os portos do Brasil “a todas as nações amigas O decreto fo i uma sugestão de José da Siiva Lisboa, visconde de Cairu. discípulo baiano das idéias de A dam Smith, que "adaptara ” o liberalismo econômico aos moldes de uma sociedade escravocrata, substituindo “liberdade de mercado ” p o r “liberdade de câm bio". A utor de m ais de 70 livros, Cairu defendia o liberalismo econômico, mas não o político. “Opinião pública? Não conheço essa senhora ”, disse ele, ao saber que era criticado.

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A F uga dia nasceu chuvoso e frio. Desde a madrugada, a mul­ tidão se aglom erava no porto do Tejo, fitando a frota que balouçava nas águas barrentas do rio e as enormes pilhas de baús amontoados no cais. A chuva caía sobre móveis rebuscados e objetos de arte. sobre mais de 60 mil livros e manuscritos de bibliotecas reais, sobre quadros, pratarias e arquivos. A mesma chuva transform ara as ruas estreitas que serpenteavam das sete colinas de Lisboa até o porto em riachos ou atoleiros. Por elas, engarrafavam-se mais de 700 car­ ruagens e carroças. Quando os pertences da famí­ lia real começaram a ser em barca­ dos, um engalfinham ento enlou­ quecido de cortesãos dispostos a obter permissão para subir a bordo varreu o cais. Calado e ressentido, o povo lisboeta percebia que esta­ va prestes a ser abandonado pela monarquia. Era 27 de novembro de 1807.

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de

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ortugal

Por meses a fio. através de um intrincado jogo diplomático e à cus­ ta de muitas humilhações, d. João 6° havia conseguido manter uma apa­ rente neutralidade na luta travada por Napoleão para submeter a In­ glaterra à sua coroa imperial. No dia 12 de agosto de 1807, a França e sua aliada, a Espanha, deram um ultima­ to a Portugal: se até o dia 1° de se­ tembro d. João não fechasse seus portos a navios ingleses, confiscasse propriedades e prendesse todos os súditos britânicos residentes no país, a aliança franco-espanhola decla­ raria guerra a Portugal. Encurralado entre duas hipóte­ ses desastrosas — romper com um antigo e poderoso aliado ou desa­ fiar seus agueiridos vizinhos— , d. João 6°, com o auxílio e simulação dos ingleses, postergou a decisão até 20 de outubro, quando fingiu ter bloqueado seus portos aos britâni­ cos. Não foi ba.stante: em novem­ bro. o general Junot deu início à in­ vasão de Portugal.

O R E I DO M UNDO

Andoche Junot era um velho co­ nhecido de d. João 6°: fora embaixa­ dor da França em Lisboa. Agora, porém, à frente de um exército de 23 mil soldados, ele marchava para tomar a capital. Embora mal-armada, maltreinada. faminta e fatigada, a tropa de Junot era identificada com a máquina de guerra que es­ magara os exércitos da Áustria e da Rússia. Por is.so, entrou em Portu­ gal sem encontrar resistência e, em 25 de novembro, já estava nos ar­ redores de Lisboa. Desde o dia 20. chovia sem parar e a família real estava em ­ barcada já na tarde de 27. Só no dia 29. porém, o tempo mudou. 0 dia nasceu radioso, e o vento so­ prou do nordeste. O chamado “ven­ to espanhol” empurrou a esquadra real para a segurança do Brasil no instante em que Junot tom ava Lisboa e. da Torre de Belém, bom­ bardeava os navios em fuga. atin­ gindo apenas um e caindo em des­ graça com Napoleão.

Napoleão Bonaparíe (1769-1821) fo i um dos maiores generais da história. Assumiu o poder depois de liderar uma brilhante campanha militar no Egito. Seu regime autocrático foi bem aceito após o caos provocado pela Revolução Francesa. Em 1804, Napoleão proclamou-se imperador —e ele próprio se coroou. Entre 1805 e 1810, conquistou praticamente toda a Europa: só não venceu a Inglaterra, que bloqueou. Em 1807, enviou a d. João 6° um ultimato, forçando-o a declarar guerra aos britânicos. O Brasil lucraria duplamente com Napoleão: deve a ele, além da vinda da família real, o envio da mi.ssão artística francesa, em 1816.


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m bora desde o dia de sua descoberta o nário geográfico m onum ental que envol^ v e a baía dc G uanabara tenha encantado a navegadores, viajantes e poetas, o fato é que. em 1808. a cidade do Rio de Janeiro era precária e m alcheirosa, provinciana, suja e descuidada. Os m em bros da corte e da fam ília real não precisa­ ram mais do que dez m inutos para percebê-lo. “Que horror. Antes Luanda, M oçam bique ou Ti­ mor", teria dito a princesa Carlota Joaquina. A via­ gem fora incômoda: na pressa, os pertences de cada grupo foram postos em navios diferentes. Ve­ las foram cortadas para virar cam isas; a com ida não era suficiente, a água era pouca e ruim. Nos prim eiros dias no Rio de Janeiro, porém, a situa­ ção não melhorou muito.

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R io R em o d e la d o

ce­ A fam ília real e seus 350 lacaios ficaram , de início, instalados no paço do Vice-Rei, “m oradia m iserável para a realeza” , apenas “dignificada com 0 nom e de palácio” . Para alojar m ilhares de nobres e cortesãos, cerca de 2.0(X) casas foram requisitadas — e seus m oradores sim plesm ente desalojados. De início, m uitos cariocas ficaram felizes em ceder seus lares, mas, ao perceber que a espoliação era feita sem rodeios e parecia ser perm anente, m uitos se revoltaram . Casas confis­ cadas eram m arcadas com as letras P. R. (de “Príncipe Regente” ). O povo logo passou a tradu­ zi-las por “Ponha-se na rua” ou “Propriedade rou­ bada” . Ainda assim, a cidade ganhíiria, em breve, tantos m elhoram entos que poucos foram os que saíram perdendo.

A ceitando a oferta de Elias Antônio Lopes, um rico com erciante, d. João 6° se m udou para a Quinta da Boa Vista (abaixo). A seguir, determ i­ nou 0 início das obras de rem odelam ento do Rio: charcos foram drenados, ruas am pliadas e cal­ çadas, novos e suntuosos bairros, com o Glória, Flam engo e Botafogo, praticam ente criados, e a rua D ireita (acim a), toda m odernizada. A ntes disso, porém, horrorizado com o aspecto “bár­ baro” conferido à cidade pelos m uxarabis — gra­ des de m adeira ripada que cobriam as janela.s— , d. João baixou um decreto, em junho de 1809. obrigando todos os m oradores a retirá-los. Em m enos de cinco anos, o Rio já estava bastante m odificado. Com a chegada da m issão francesa, em 1816, a cidade adquiriria ares imperiais.

A Família Real no Brasil 91


A M l o i uma m issão civilizatória — e, com o iodas as dem ais, incom preendida pelos nativos. D isposto a declarar o Brasil um reino e a fazer do Rio de Janeiro uma cidade digna de um rei, d. João 6° decidiu trazer ao país um grupo de pintores, escultores, gravadores e arquitetos franceses. A obra deles daria à cidade um verniz de civilização. Quem se encarregou de selecionar os artistas foi Antônio de Araújo de Azevedo, o conde da Barca, intelectual francóíllo. Quem contratou a missão foi o marquês de Marialva, em baixador de Portugal em Paris. M arialva e Barca não tiveram dificuldade em encontrar mestres dispostos a trocar Paris pelo Rio: a m issão francesa seria form ada por artis­ tas que apoiaram Napoleão e. com a derrota do autoproclam ado imperador, tinham caído em desgraça na França. Era um time de primeira, indicado pelo barão de Humboldt: Joachim Lebreton (1760-1820) era o chefe da missão. Fora um dos organizadores do Louvre e, ao se recusar a devolver obras pilhadas nas cam ­ panhas de Napoleão, caiu no ostracismo. Trouxe 54 telas do Louvre. Elas apodreceram. N icolas-A ntoine Taunay (1755-1830), pintor histórico e subchefe da m issão, veio ao Brasil com os quatro filhos, entre os quais os pintores Félix-Ém ile e Aimé Adrien, mais o irmão. Auguste-M arie Taunay (1768-1824). escultor que fez vários bustos de bronze e lecionou es­ cultura na Academ ia de Belas-Artes. Grandjean de M ontigny (1766-1850). grande arquiteto, foi escolhido para fazer o prédio que abrigaria a E scola de Belas-A rtes. Poucos de seus projetos saíram do papel. Os que tiveram tal sorte foram derrubados mais tarde. C harles P radier (1768-1848). pintor, fez um dos m elhores retratos oficiais de d. João 6°. Marc e Zéphyrin Ferrez. irmãos escultores, gra­ varam a primeira moeda brasileira. Ao todo. eram 46 pes.soas (algumas vieram com família e criados), entre as quais .se incluíam m estres artífices, com o o serralheiro N icolas Enout. o carpinteiro Louis Roy. os curtidores de peles Fabre e Pilite. o ferreiro Levei e o maior de todos, o pintor Jean-Baptiste Debret. Apesar dos problem as que enfrentaram , esses hom ens con­ seguiram m udar a face do Rio de Janeiro.

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O p ro jeto do p alácio do Comércio (acim a) f o i um dos únicos do arquiteto Montigny que sa iu do p a p e l

O conde d a B arca e o m a rq u ês de . M arialva (a c im a ) tro u x e ra m a m issã o su b cb ejia d a p o r N icolas Taunay

O projeto inicial do marquês de Marialva propunha a instalação no Brasil de uma Escola de Ciências. Artes e Ofícios, na qual “as artes liberais e de luxo deviam ceder o passo às úteis e necessárias". Ao em barcar na fragata Calpe, em 22 de fevereiro de 1816. Lebreton já se de­ cidira a criar uma Academia de Belas-Artes. A chegada ao Rio se deu em 26 de março. De iní­ cio. o conde da Barca conseguiu contornar o con­ flito entre os políticos favoráveis às “artes úteis” e os defen.sores das “artes liberais” . Mas o prote­ tor da missão morreu no início de 1817. Então, vitimada por cam panhas difamatórias, inveja de artistas luso-brasileiros e brigas intemas, a mis­ são quase gorou. Vários artistas já chegaram ao Brasil brigados entre si. No Rio, foram duram en­ te atacados pelo cônsul francês Maler, que os considerava subversivos. Depois, revoltaram-se os artistas locais que, com "empeçonhada rivali­ dade contra os que julgavam intrusos protegidos por injustos e inadmissíveis privilégios”, ataca­ ram a missão. Quando, amargurado e desgostoso, Joachim Lebreton morreu, em 1820, o m undo m iu para os artistas franceses. Em bora continuassem a receber seu salário de 800 m il-réis anuais, mais as refeições, depois que H enrique José da Silva assum iu o com ando da escola real de Ciências. .Artes e Ofícios, os m issionários passaram a co­ m er 0 pão que o diabo am assou. Pintor m edío­ cre. pai de 12 filhos que mal podia sustentar, mas com am izades entre os políticos. Silva ar­ mou todos os entraves burocráticos para difi­ cultar 0 trabalho dos franceses. Determ inou que. antes de qualquer outro curso, todos os alunos da escola real deveriam fazer, por três anos. a cadeira de desenho. Quem era o professor de desenho? Ele próprio. Impedidos de lecionar na escola fundada para eles. alguns m issionários retom aram à França. Outros alugaram casas nos arredores da cidade e passaram a viver de aulas particulares. A inda assim — e em bora ainda hoje sejam acusados de ter destroçado o barro­ co brasileiro e retardado a chegada do m oder­ nismo ao Brasil— . o legado da missão francesa se im pôs em obras e quadros do Rio de Janeiro e perm anece m ais do que vivo nos traços de Jean-B aptiste D e b re t.


A O cima de liido. era um "tlaneur". Percorria, alene deslum brado, calçadas e cascatas, matas e morros, o cais e os cam inhos que dali partiam. Entrava em fazendas e favelas, frequentava palácios e paços. Não dava um passo sem o bloco no qual rabisca­ va esboços miuuciosos que. a seguir, no silêncio laborio­ so de seu ateliê, transform ava em quadros e pranchas. Sem as cerca de 2(K) gravuras que Jean-Baptiste Debret realizou do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Paraná, de Santa Catarina o do Rio Grande do Sul — seus nobres e seus escravos; seus costum es e seus anim ais; suas ruas e suas casas— . é quase impossível supor que imagem faríamos do Brasil de 1820. É provável que não fizésse­ mos imagem nenhuma — pelo menos não uma confiá­ vel. Debret registrt)u os avanços e as mazelas, os hoirores e os m ara\ ilham entos. a rudeza e os encantos do país com o rigor de um historiador preci.so e a finesse de um artista inspirado. Não fossem seus quadros, a maior parte dos livros didáticos .sobre a história do Bra­ sil seria mais maçante do que já é. Um único quadro de Debret vale por um tratado. Sua obra nos revela com o era — e por que viria a ficar com o está— um país que é quase um continente. Irônico e eventualm ente árduo, libertário e conservador num a só pincelada. Debret foi o profeta visual dos tristes trópicos. Jean-B aptiste Debret nasceu em Paris em 18 dc abril de 1768. lHho de funcionário público graduado e primo do pintor Jacques-Louis David. seu primeiro mes­ tre. Em 1791. ao eclodir a Revolução Francesa, teve de abandonar a Escola de Belas-Artes. Form ou-se. então, engenheiro na Escola Politécnica. Voltou a pintar em 1798 e foi prem iado no Salão de Paris com obras so­ bre as cam panhas de Napoleão. de quem era adm i­ rador. Em 1814. a derrota do im perador não abalou Debret apenas m oralm ente: acabou com sua carreira na França, além de surpreendê-lo num momento de crise financeira. Foi. portanto, com alívio e alegria que re­ cebeu o convite de Lebreton para juntar-se à m issão francesa que iria para o Brasil. Só não podia im aginar que perm aneceria aqui por 15 anos.

bra de

D

ebret

A

Jean-Bíiptiste Debret (aqui ivptvsentculo em dois n‘trcit()s:<> de baixo, feito jx»' Manuel de Araújo Porto Alegre, seu principal discípulo, e o de cima. Jeito p o r Thieny) tornou-se o m aior cronista risual do Brasil do século 19. Sua obra, centnula no Rio, antecipou a temática dos romances btagueses: transfonnou as ruas em teatros e as gentes —fossem ricos desembarg(ulo)vs, f(}S.wm pobres escravas— em atotvs sociais. í)eb>vt pintou um a história da vida privada no Brasil.

Ao longo da década e meia durante a qual esteve no Brasil. Jean-Baptiste Debret jam ais obteve as condições ideais para a realização de seu trabalho. Ainda assim, deixou uma obra extraordinária que, mais de um .século e meio após sua publicação, não encontra paralelo na iconografia brasileira. Ao desem barcar no Rio. em m ar­ ço de 1816. Debret já se envolvera nas polêmicas inter­ nas que abalavam a missão. Mas o am biente com o qual deparou transform aria aquelas meras discussões acadê­ micas em mexericos de comadres. Embora tenha sido nom eado pintor da Casa Im perial e lenha ajudado a decorar o Rio para a festa de aclam ação de d. João 6° (quando teve a idéia de ilum inar com lâmpadas de zinco e lustres de cristal os monumentos de Montigny. transfor­ mando o Rio numa cidade-luz tropical). Debret esbarrou na muralha de ignorância e inveja erguida por artistas e políticos locais. D ecidido a não voltar para a França, alugou uma casa no Catumbi e passou a viver de aulas particulares. Conseguiu fazer alguns retratos da família real. mas os "nobres" cariocas, acostum ados a viver em casas de paredes nuas, jam ais lhe encom endaram um só quadro. Debret tinha, assim, tempo de sobra para flanar pelo Rio. que se transfonnava rapidamente. Em 1827. tom ou a sua grande decisão e partiu ru­ mo ao Rio G rande do Sul. acom panhando um grupo de tropeiros. Praticam ente refez a trilha de A uguste de Saint-H ilaire. Ao retornar para o Rio. depois de passar por Rio Grande. Desterro. Curitiba. Sor(K‘aba e São Paulo, trazia o material para sua obra definitiva. Em 1831. voltou para a França e deu início à edição da "Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”, obra m o­ numental. lançada em très volumes, entre 1834 e 1839. na quai, em 151 pranchas, captou um país efervescente, que se civilizava com rapidez e brutalidade. O livro segue 0 "traçado lógico da civilização no Brasil” : o pri­ meiro volume é dedicado aos índios e às florestas; no se­ gundo. surgem escravos e artesãos; o terceiro investiga os usos e costumes urbanos e os acontecimentos políti­ cos. Constituem uma aula inesquecível, repleta de co­ res. sons e odores preservados no tem po e no espaço.

A Família Real no Brasil 93


o

I m pér io

o trazer cerca de 12 mil acom­ panhantes na sua transm igra­ ção para o B ra sil d. João, ao chegar ao Rio de Janeiro, não se viu forçado apenas a achar lugar para toda aquela gente morar. Também foi pre­ ciso dar-lhes um em prego — e um emprego público, é claro. Logo nos primeiros dias. d. João montou seu mi­ nistério, form ado por três secretarias: a dos Negócios do Reino, a da Guerra e dos Estrangeiros e a da M arinha e Ultramar. A prim eira, e mais im por­ tante delas, ficou sob o com ando de Fernando José Portugal, m arquês de Aguiar. "M inguado de faculdades cria­ doras para sacar da própria mente e da m editação fecunda as providên­ cias que as necessidades do país fos­ sem ditando, o marquês de Aguiar pa­ rece ter com eçado por consultar o alm anaque de Lisboa e. à vista dele, ter-se proposto a satisfazer a grande com issão que o príncipe lhe delegara, transplantando para o Brasil, com .seus próprios nom es e em pregados (para não falar de vícios e abusos), todas as instituições que lá havia, as quais

A

94

H is tó ria d o B ra s il

da

B u r o c r a c ia

.se reduziam a m uitas juntas e tribu­ nais, que mais serviam de peia do que de auxílio à adm inistração, sem m eter em conta o m uito que aum en­ tou as despesa.s públicas, e o ter-se vis­ to obrigado a em pregar um sem -núm ero de nulidades. pelas exigências da chusm a de fidalgos que haviam em igrado da m etrópole e que, não re­ cebendo dali recursos, não tinham o que com er", escreveu, em 1854, Fran­ cisco Adolfo Varnhagen. O pior para d. João 6° foi que, ao abrir os portos “às nações am igas” (que, ele sabia, era apenas e exclusi­ vamente a Inglaterra), privou o Esta­ do de sua única fonte de renda: os im­ postos extorsivos. A tributação dos produtos ingleses, os únicos dispo­ níveis. baixou para 24% já em 1808. Dois anos mais tarde. caiu para ape­ nas 15%. Dessa forma, a única m a­ neira que d. João encontrou para obter dinheiro foi fabricá-lo. Por isso criou 0 Banco do Brasil (leia o qua­ dro à direita). Ao im prim ir papelm oeda sem lastro, m ergulhou o país no poço sem fundo da inflação.

Embora desprezasse os traficantes de escravos, que eram os verdadeiros senhores do Rio da época (homens co­ mo Fernando Cam eiro Leão, o maior deles e um dos supostos amantes de C arlota Joaquina. e João Rodrigues Pereira de Alm eida), d. João aproxi­ m ou-se deles e obteve em préstim os em troca de com endas e de terras. Tais prêm ios asseguraram a esses ri­ cos párias rápida ascensão social. A vida .social do Rio tomou-.se intensa e as m alcuidadas e quase in­ salubres casas dos ricos locais tive­ ram de ser rem odeladas — não só elas com o seus guarda-roupas. Já os cor­ tesãos circulavam pelas ruas recémabertas esforçando-se o m áxim o para exibir trajes e m odos em tudo supe­ riores aos dos nativos. A cena não passou despercebida a D ebret, que a im ortalizou na prancha “Um Fun­ cionário a Passeio com sua Fam ília" (reproduzida nesta página), na qual “um a fam ília de fortuna m édia, cujo chefe é funcionário” , sai de casa para visitar a rua do Ouvidor, “repleta de lojas de m oda francesa” .

O BANCO DO BRASIL Quando d. João fundou o Banco do Brasil, em 12 outubro de 1H08, só havia três bancos emissores no mundo. A idéia era boa. Mas, criado com capital inicial de 1.200 contos e com o objetivo de gerar fundos para manter a corte no Brasil, o banco logo passou a emitir mais do que arrecadava. A seguir, começaram os desfalques, os desvios e o “extravio" do dinheiro. Em vez de "proceder a rigoroso inquérito, como aconselhava a .salvação da instituição ”, o governo “impôs o silêncio pela violência aos que davam curso àqueles boatos ”. Etn dezembro de 1829, o banco fo i fechado. "Belas moedas de ouro tinham sido sub.stituídas por pobres tiras de papel" (abaixo, a prim eira delas;.


C arlota J

o a q u in a

a m adrugada de 25 de

De certa forma. C arlota Joa­

abril de 1821, antes de o dia raiar, a rainha Carlota

quina e d. João eram mesmo ini­ migos. Fiel às origens espanholas, a

Joaquina — acom panhada de seu marido, o rei d. João 6". do filho d. 4.0()0 cortesãos (e de boa parte do Tesouro Real. mais 50 m ilhões de

rainha conspirou com frequência contra o trono português. Por isso, os historiadores luso-brasileiros gostam de descrevê-la com o uma bruxa: “A m ulher era quase hor­

cruzados sacados sorrateiram ente

renda, ossuda, com uma espádua

do Banco do Brasil)— em barcou na nau que. enfim , a levaria junto

acentuadam ente mais alta do que a outra, uns olhos m iúdos, a pele grossa que as m arcas da bexiga ainda faziam mais áspera, o nariz averm elhado. E pequena, quase anã, claudicante (...) uma alma ar­

N

M iguel, das seis princesas e de

com a corte de volta à Europa. Re­ za a lenda que. ao pôr os pés no navio. Carlota bateu um sapato contra o outro e disse; “Nem nos calçados quero com o lem brança a

dente. ambicio.sa. inquieta, sulcada

terra do maldito Brasil".

de paixões, sem escrúpulos, com

A rainha de fato odiava o país

os impulsos do sexo alvoroçados”,

— e os quase 5.(X)0 dias em que nele viveu não foram suficientes

João, com o qual estava casada ha­

escreveu Tarquínio de Sousa. U m a das m ais cruéis descri­ ções de C arlota, no entanto, foi feita pelo genial escritor inglês Wil­ liam Beckford. que a conheceu e deplorava “suas inces.santes intri­

via 36 anos, mas com quem não

gas de todos os m atizes, seus ca­

para fazê-la inudar de opinião. Mais do que ao Brasil, d. C arlota só odiava um a coisa: o m arido d.

prichos extravagantes, seus atos

convivia há 20. Ainda assim, tivera nove filhos. Prole tão numerosa

desum anos de crueldade” . A verdade é que a feia Carlota lutava pelos interesses da Espanha

num casal que mal podia se olhar logt) gerou suspeitas: dizia-se que pelo menos cinco dos nove reben­ tos não seriam fruio de d. João. De fato. talvez não tossem , em bora nem o rei nem a rainha dessem a menor importância para isso. Além desse desinteresse mútuo, uma ou­ tra coisa d. João e d. Carlota tinham em comum: eram ambos feíssimos. Carlota Joaquina de Bourbon, infanta de Espanha, rainha de Por­ tugal e im peratriz honorária do Brasil, nascera nos arredores de Madri em 22 de abril de 1775. Aos 10 anos de idade, casou-se por procuração com d. João. Realiza­

Carlota Joaquina era um a am azona audaz que gostai'a de se ivstir com roupas cbamativas. Quando criança, não era tão feia quanto se tornaria depois dos 15 anos. Ao deixar o país fabaix(U bateu os sapatos para "não levar nem o pó do maldito Brasil”.

— em especial quando estes a favo­ reciam. Quando Napoleão rompeu com Madri e entronou seu innão no lugar de Carlos 4°. pai de Carlota, ela quis ser rainha do Prata. Dom João bloqueou os planos. Carlota, então, fixou-.se na casa da praia de B otafogo, onde se banhava nua. Continuou colecionando amantes (mandando matar a mulher de um deles) e deu para fum ar a erva diamba (hoje chamada maconha). Am azona audaz, m ontava co ­ mo hom em . C antava e dançava o flam enco. Foi má mãe, especial­

da por uma questão de Estado, a

m ente depois que seu prim ogêni­

união foi vexatória desde o início: num dos prim eiros encontros, a

to, A ntônio, m orreu aos

noiva mordeu selvagemente a ore­

tido com o filho do m arquês de

6 anos.

Seu outro favorito era d. M iguel,

lha do noivo e jogou-lhe um casti­

M arialva. C arlota nunca deu aten­

çal no rosto. O casal só iniciou sua

ção para o príncipe herdeiro, d.

vida conjugal cinco anos depois do casamento, logo após a primeira menstruação da princesa. A chega­ da dos filhos não mudou em nada o relacionamento entre ambos. Na

Pedro. Ao sair pelas ruas do Rio, era precedida por um séquito de seguranças que forçavam todos os súditos a se ajoelhar. C arlota m or­ reu em Lisboa, aos 54 anos, sem

prática, comjx)rtavam-se como mo­ narcas inimigos.

jam ais ter retornado à sua am ada Espanha.

A Família Real no Brasil 95


P

erfil e

Legado

de

D.

JoAo

om João 6° passou à história vi­ tim ado pela própria aparência e por um a série de característi­ cas caricaturais. C abeça enorm e, corpo roliço, pem as curtas, mãos e pés m inús­ culos. rosto averm elhado surgindo de um conflito de volteios e papadas, o rei não apenas era muito feio (“fealdade que se reputa das m aiores ocorridas em pes­ soas de casa real de qualquer país da E u­ ropa". disse um cronista), com o também um glutão inveterado que ignorava as m ais prim árias norm as de higiene e asseio. É fato histórico que ele enfiava frangos assados inteiros nos bolsos de casacas engorduradas, sujas e puídas, que se recusava a trocar. Também é ver­ dade que odiava o contato com a água. “N ão havia m em ória na casa real. em Lisboa ou no Rio. de d. João ter tomado banho de corpo inteiro", escreveu o his­ toriador Tobias Barreto em 1927. Não é de estranhar, portanto, que o rei tivesse erupções e doenças de pele constantes e coçeiras permanentes. "C o­ çava-se por detrás e por diante, sendo que com essa mão dava assim m esmo a beijar” , anotou um cortesão. Não bas­ tasse. d. João 6° ainda era traído publi­ cam ente pela m ulher. C arlota Jo aq u i­ na. e. dizia-se. mantinha um caso com seu camareiro. Nascido em 13 de m aio de 1767. d. João 6° era o segundo filho de d. Pedro 3° e d. M aria P. Não fora criado para ser rei. nem o pretendia. M as em 1788 a varíola m atou seu irmão mais velho, o herdeiro d. José. e d. João tom ou-se o prim eiro na linha sucessória. Dom Pe­ dro 3° (tio e m arido de d. M aria 1“) m orrera em 1786. de embolia cerebral. Em 1792, d. M aria enlouqueceu e d. João assumiu o govem o. mas só aceitou o cargo de regente em 99. quando sua mãe foi declarada incurável. No trono. revelou-.se tím ido, distante, fleum ático, bucólico, calado, om isso e indeciso.

Detestado por m uitos de .seus bió­ grafos. atacado por vários de seus con­ tem porâneos — não só estadistas estran­ geiros. mas políticos lusos— . d. João 6° surge, em m uitos livros, com o um m o­ narca preguiçoso e bobalhão, vítim a de um bucolism o inconsequente. A final, reunia-se regular e longam ente com .seus m inistros e conselheiros, sopesava cuidadosam ente todas as questões e. sem pre que possível, não tom ava deci­ são algum a. M as o que era tom ado por covardia talvez devesse ser interpretado com o astúcia. E sprem ido entre um con­ tinente dom inado pelo Exército francês e um oceano controlado pela M arinha britânica, d. João 6° adotou o estilo mais apropriado para Portugal numa época em que qualquer ação ousada poderia levar o reino à ruína. Tom ou-se um ra­ dical da cautela. De qualquer forma, o d. João im un­ do e glutão que chegou ao Brasil revelou-se um governante com frequentes rasgos de bondade e m uitas ações práti­ cas. Além de abrir os portos, declarar o Brasil um reino e rem odelar o Rio. ele perm itiu a instalação de indústrias no país e aparelhou as Forças A rm adas, criando a A cadem ia de M arinha, a Academ ia M ilitar e um a fábrica de pól­ vora (assim com o outras obras, essa foi paga pelos traficantes de escravos do Rio). C onstruiu o Jardim Botânico, um obser\'atório astronôm ico e um museu m ineralógico. Fez o teatro, a biblioteca pública e a tipografia real, cuja prim ei­ ra publicação foi "A Riqueza das N a­ ções” . de Adam Smith. No Brasil, d. João não precisava .ser pouco mais que um súdito da Inglaterra e só partiu porque era inevitável. Ao fazê-lo. dis.se ao filho Pedro: “Se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiros” . M ais do que um con.selho. foi um a profecia.

D

o longo dos 13 anos em que ficou no Brasil, d. João

O conflito intem o mais grave ocorrido durante o

6° envolveu-se em três conflitos annados. O pri­

pen o d o de d. João 6® no B rasil foi a cham ada R evolu­

meiro foi a invasão da Guiana Francesa, colônia que o

ção Pernam bucana de 1817. M ovim ento autonom ista de inspiração republicana e m açônica, foi fruto do forte

A

país de N apoleão m antinha na A m érica do Sul. Foi uma ação rápida e tranqüila: com 7(X) homens e a ajuda naval

sentim ento nativista e separatista que grassava em Per­

inglesa. Caiena foi tom ada em janeiro de 1809. O ten itório seria devolvido à França em 1817. Em julho de

nambuco desde a expulsão dos holandeses em 1654. Em março de 1817, um grupo de revolucionários assumiu o

1821, depois de anos de escaram uças na fronteira su ­

poder na Província, declarando-a república separada do

lista, d. João incorporou ao Brasil a Banda Oriental do

resto do Brasil. O novo regim e só durou até maio, quan­

U ruguai, que seu exército havia tom ado em 1817. Reba­

do tropas portuguesas invadiram Recife e debelaram o

tizado de Província Cisplatina, o novo teiritório perm a­

movimento. Seus três principais líderes (entre eles o pa­

neceria sob controle do Brasil até 1825.

dre M iguelinho) foram fuzilados.

96

H i s t ó r i a d o B r .\s il

6”


o

B ra sil

ecididos a impedir que a exuberância dos recursos e da natureza brasileira despertasse a cobiça dos demais europeus, por três séculos os portugueses mantiveram o Brasil com pletamente fechado aos olhos es­ trangeiros. A clausura colonial só era rom pida eventual­ mente por traficantes, piratas e corsários franceses e ingle­ ses. Nesse caso, o bloqueio não apenas se justificava como permitia a Portugal assegurar as vantagens da posse sobre território tão vasto e rico. Uma pequena exceção foi aberta a Jam es Cook, que. durante sua viagem de circunavegação, pôde aportar no Rio de Janeiro para reabastecim ento. Mas não houve perm issão para que os cientistas que o acom pa­ nhavam de.sembarcassem. Mais grave ainda foi o fato de as autoridades portuguesas terem impedido a entrada no país, em 1800, do m aior de todos os .sábios naturalistas, o barão alem ão A lexander von Hum boldt. que estava na Venezue­ la. A partir de então, vários outros estudiosos seriam barra­ dos nos portos do país. Os prejuízos para o desenvolvim en­ to da ciência no Brasil foram im ensos — e irrem ediáveis. A situação com eçou a mudar em 1808. com a chegada da famí­ lia real ao Brasil e a abertura dos portos. A partir daí. um ávido enxam e de sábios, cientistas e naturalistas desem ­ barcou no país. E houve um efeito-cascata: cada trabalho publicado na Europa atraía novas levas de estudiosos.

D

dos

V ia ja n tes Ainda que a "abertura” oficial do Brasil ao olhar e s­ trangeiro se des.se em 1808. pouco antes Portugal já baixara a guarda, e em favor dos ingleses. É só o que explica a entra­ da no país. em 1802. do viajante Thomas Lindsey. Mais sur­ preendente ainda foi a pennissão que seu compatriota John Mawe obteve para visitar a fechadíssima região das minas em 1807 — e escrever minuciosamente sobre elas. Três ou­ tros ingle.ses logo viriam ao país: John Luccock. em 1808, e Henry Koster. no ano seguinte, ambos autores de relatos preciosos. O terceiro viajante era Richard Francis Burton (à escjiierdü), príncipe dos exploradores britânicos, tradutor de "As Mil e Uma Noites” e do "Kama-Sutra”. descobridor das na.scentes do Nilo e primeiro ocidental a entrar em Meca. Burton foi cônsul britânico em Santos (SP) e redigiu dois livros sobre o Brasil, um deles perdido para sempre. Na esteira dos ingle.ses — e muito influenciados pela obra de Humboldt— chegaram alem ães e austn^acos como o príncipe Maximiliano. Langsdorff. Spix e Martius. Todos trouxeram grandes artistas consigo e. assim, além de publi­ carem textos preciosos sobre o Brasil, foram responsáveis pela produção de belas obras de arte, com o o quadro "C a­ choeira de Paulo Afonso” , feito por E.F. Schute em 1850. Brilhantes e intrépidos, esses homens transform aram a pai­ sagem brasileira numa te.se e num poema.

O Brasil dos Viajantes 97


J a m e s Cook, Pigafetta, D artvin e M agalhães (^sentído horário, a partir da esquerda^

Os urante os anos de clausura, as autoridades portuguesas só permitiam que ancorassem no Brasil expedições de circunavegação — e apenas para reequiparem seus na­ vios com a maior brevidade possível. Desde a primeira viagem ao redor do globo, realizada, sob bandeira espa­ nhola, pelo navegador lusitano Fem ão de Magalhães, o Rio de Janeiro serviu de ponto de escala. Magalhães partiu da Espanha em 20 de setem bro de 1519, com cinco navios e 250 tripulantes, e chegou ao Rio em 13 de dezembro. Sua viagem foi narrada pelo italiano Fran­ cesco de Pigafetta. um nobre que con­ seguiu em barcar na nau Trinidad e se­ ria um dos únicos 18 sobreviventes a retom ar, três anos depois, ao ponto de partida. Pigafetta não se surpreendeu ape­ nas com a beleza da baía de Guanabara; também as fmtas, como o abacaxi, os animais, como a preguiça, e especial­ mente a franqueza sexual das nativas o espantaram. Os primeiros homens a na­ vegar em tom o do globo partiram da “Terra do Verzino” no dia 27 de dezem­ bro de 1519. Cerca de um ano depois, acharam o estreito que unia o Atlântico ao Pacífico e levou o nome de seu des­ cobridor. O feito abriu cam inho para os corsários Drake e Cavendish, os circunavegadores seguintes.

D

98

H i s t ó r i . a DO B r . \ s i l

CiRCUNAV EGADORES

O temível Francis Drake passou ao largo do Brasil antes de atacar o Peru em 1578. Treze anos depois, o país não teve a m esm a sorte; no dia de Natal de 1591, Thomas Cavendish atacou San­ tos, antes de .se arriscar pelo estreito de Magalhães. Impedidos de atracar no Rio, os holande.ses Olivier van Noort, em 1598, e Joris van Spilbergen, em 1614, usaram Ilhabela, em São Paulo, com o porto de reabastecim ento antes de cruzar o am edrontador estreito e completar a volta ao mundo. As viagens ao redor do globo ad­ quiririam nova dim ensão depois que o capitão Jam es C ook partiu de P ly­ m outh, Inglaterra, em agosto de 1768. Levando consigo botânicos, zoólogos e astrônomos — e financiado pela Royal Society— , Cook estava inaugurando a era das grandes expedições científi­ cas. Em bora seu navio tenha obtido pennissão para abastecer-se de água no Rio de Janeiro, seus tripulantes não puderam desembarcar. O botâni­ co Joseph Banks — um cienti.sta ge­ nial— ficou desolado. Teve de se con­ tentar com uma breve excursão pela quase deserta ilha Rasa, onde, ainda assim , foi capaz de recolher 320 esf)écies. entre as quais orquídeas e brom élias lindíssim as, logo retratadas pe­ lo artista Sidney Parkinson e depois levadas para Londres.

As viagens de Cook abriram ca­ m inho para o Jovem cientista Charies Darwin, cuja obra estava destinada a m udar os rum os da história natural. Em 27 de dezem bro de 1830, a bordo do Beagle, Darwin partiu da Inglaterra para um a viagem de cinco anos ao re­ dor do globo. Os estudos que realizou da fauna e flora de diversas partes do m undo lhe permitiram elaborar a ino­ vadora teoria da evolução das espé­ cies. E m bora as ilhas G alápagos te­ nham tido papel mais importante na elaboração da teoria. D arw in esteve duas vezes no Brasil - em Fernando de N oronha, em Salvador e no Rio - , na ida e na volta da viagem, e impressionou-.se profundamente com o país. Em 28 de fevereiro de 1831, vindo de Noronha. Darwin desem barcou na Ba­ hia. No dia seguinte, ele anotaria no diário; “O dia passou-se deliciosam en­ te. Mas ‘delícia’ é termo insuficiente para exprim ir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. A elegância da relva, a novidade dos parasitas, a bele­ za das flores, o verde luzidio das ra­ m agens e, acima de tudo, a exuberân­ cia da vegetação em geral, foram para m im motivos para uma contem plação m aravilhada. Jam ais poderei experi­ m entar tanto prazer” .

A b u g a n v íl ia

Em junho de 1767. o conde Louis Antoine de Bougainville aportou na ilha de Santa Catarina, onde passaria 15 dias reabasteceiulo os dois navios com os quais se tomaria o primeiro francês a dar a volta ao mundo. Em suas incursões às florestas da ilha. o conde —autêntico iluminista do século 18, aristocrata, militar, filósofo e amigo de Diderot— descobriu a belíssima trepadeira que leva seu nome: a Bougainvillea spectabilis, também chamada de primavera ou Irês-marias. .Alguns meses depois, a planta seria coletada no Rio de Janeiro pelo botânico Joseph Banks, que acompanhava a expedição de James Cook. e então desenhada (^gravura abaixo) por Sidney Parkinson, brilhante artista que o assessorava.


A V ia g em ficial hussardo mais afeito às plantas e aos ani­ mais do que às armas, o príncipe alemão Maxi­ milian von Wied esteve no Brasil de junho de 1815 a maio de 1817. Embora sua jom ada do Rio de Janeiro à Bahia, terrestre e fluvial, não tenha sido tão du­ radoura nem tão ampla, comparada à de outros viajantes, a quantidade de informações que o príncipe conseguiu coletar é impressionante. Melhor ainda é que seu livro. “ Reise nach Brasilien in den Jahren 1815 bis 1817” (“Viagem ao Brasil nos Anos de 1815 a 1817” ), publica­ do em dois volumes em 1820, em Frankfurt, foi e.scrito em estilo denso e direto, .sem as divagações frequentes em muitos viajantes. O príncipe viajou com o botânico Friedrich Sellow e o ornitologista Freyreiss —^juntos, fizeram a primeira expedição realmente científica ao Brasil, realizada sob a influência do barão Von H um ­ boldt — o maior de todos os naturalistas, que, em ju ­ nho de 1800, fora impedido de entrar no Brasil pelas autoridades lusas. Dedicado, austero, sereno e incansá­ vel. com o era de esperar de um oficial hussardo. M axi­ miliano realizou um trabalho exem plar no Brasil.

O

do

P r ín c ipe M ax im ilia n o Maximilian Alexander Philip von W ied-Neuwied era filho, neto, bi.sneto, tio e irm ão de .soldados. G eneral-de-divisão do Exército alem ão, ganhou a Cruz de Ferro em cam po de batalha e entrou em Paris, depois da derrota de Napoleão, em com panhia de Frederico G ui­ lherme 3°, da Prú.ssia. Tão logo pôde, trocou as batalhas pelas viagens científicas. No Brasil, sob o pseudônimo de Max von Braunsberg, percorreu a mata costeira do litoral leste do Rio de Janeiro, Espírito Santo, norte de Minas e sul da Bahia. Embora o legado zoológico, bo­ tânico e linguístico da exp>edição de Maximiliano seja grandioso, sua maior contribuição foi etnográfica. Os estudos que o príncipe fez dos puris, botocudos e pataxós foram pioneiros e inovadores. Maximiliano ligou-se aos botocudos, que etemizou na aquarela “Luta entre Botocudos” (acima). Virou grande amigo do botocudo Quack e o levou para a Europa (ambos m gravura ao lado). M axim iliano morreu em 1867, em Neuwied, aos 85 anos, tão enam orado de borboletas, índios, ár­ vores e plum as, fósseis e crânios com o nas prim eiras décadas de sua existência m ovim entada e intensa.

0 Brasil dos Viajantes 99


A V iagem

Q

uando a arquiduquesa M aria Leopoldi­ na Josefa C arolina de H absburgo veio de Viena para o Rio, em novem bro de 1817, já casada por procuração com d. Pedro 1°, trouxe consigo um grupo de 15 cientistas. Eram os integrantes da cham ada m issão austría­ ca. D ona L eopoldina ouvira dizer que d. Pedro era um am ante das ciências naturais e im aginou que ele adoraria a idéia. Em bora entre as várias paixões de d. Pedro não se incluíssem rochas, plantas e aves, a m issão austríaca foi um m arco na história da ciência no Brasil — especialm ente porque, entre seus m em bros, estavam o zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Carl Fried­ rich Phillip von Martius. A marcha de Spix e M ar­ tius pelo interior do Brasil se tom aria não só uma das m ais longas já realizadas no país com o tam ­ bém um a das m ais produtivas. Hom ens de form ação hum anista, herdeiros intelectuais de Hum boldt. dedicados e destem i­ dos, Spix e M artius devotaram os m elhores anos

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H i s t ó r i a d o B r a .s il

de

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M a rtius

de sua vida ao Brasil. C hegaram ao Rio em 15 de julho de 1817. D epois de quatros m eses de deslumbram ento e descobertas numa das mais be­ las cidades do m undo {leia na próxim a página), partiram para São Paulo no dia 8 de dezem bro, dando início à jom ada que os levaria a percorrer m ais de 20 mil quilôm etros ao longo de três anos. De São Paulo, foram para M inas (M ariana, Saba­ rá e Vila Rica, onde realizaram várias pesquisas geológicas), cruzaram o sudoeste da B ahia até G oiás e daí, pelo vale do rio São Francisco, se­ guiram até Salvador. Depois de um a excursão a Ilhéus, voltaram a Salvador, de onde partiram para Juazeiro, cm zando os sertões de Pem am ­ buco, Piauí e M aranhão. De São Luís, continua­ ram por m ar até Belém e daí subiram o A m azo­ nas até M anaus, onde se separaram : Spix seguiu pelo Solim ões até o Peru e M artius foi pelo Japurá até os Andes. Em m arço de 1820, os dois se reencontraram em M anaus. Três m eses depois, partiram do Rio para a Europa com um dos m aio­

res acervos já reunidos no país. O material botâ­ nico, zoológico e etnográfico que coletaram daria trabalho para uma vida inteira. E a ele ambos se dedicaram até a morte, sem poder encerrá-lo. Em 1826, Spix {acima, à esquerda) m orreu prematuramente, aos 46 anos, participando apenas da redação do primeiro dos três volumes da por­ tentosa “Reise nach Brasilien” (“Viagem ao Bra­ sil”), concluída por Martius. Ainda que inacabado, seu estudo sobre a fauna brasileira — especial­ mente os primatas— é exemplar. Nada. porém, que se possa comparar à monumental “Flora Brasiliensis ”, à qual M artius se dedicou pelo resto da vida. Durante meio século, de 1821 até sua morte, em 1868, Martius entregou-se de corpo e alma à tare­ fa de catalogar, classificar e desenhar magníficos exemplares da vegetação brasileira. Concluída em 1906, com o apoio de três monarcas, entre os quais d. Pedro 2°, “Flora Brasiliensis” tem 15 volumes, 20.773 páginas e 3.811 gravuras, classificando 8.000 espécies de plantas.


Acima, um a menina da tribo dos m iranhas e, abaixo, o fU bo do cacique dos juris, dois índios que Spix e Martius levaram p a ra a Europa

livro “Viagem ao Brasil”, de Spix e Martius, foi lançado em Munique, entre 1823 e 1831, em três volumes. A seguir, o lei­ tor encontrará o trecho no qual os dois viajantes narram sua ascensão ao Cor­ covado e, depois, a conclusão relativa­ mente sombria do livro: “Cortamos a rua principal que vai do bairro de Mata-Porcos à.s quintas de São Cristóvão e subimos (...). Mal deixamos atrás de nós o rumor das ruas e da gente, achamo-nos como que enfeitiçados no meio da pujante natu­ reza estranha. Ora passarinhos de di­ versas cores, ora deslumbrantes bor­ boletas, ora insetos de maravilhosas formas, ora plantas do mais lindo as­ pecto, espalhadas pelo estreito vale e pela rampa suave do morro, seduziam a ■ nossa vista. Cir­ cundados por al­ tas cássias, cecrópias de folhas

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largas, de troncos brancos, murtas de folhagem densa, begônias de grandes flores, moitas enredadas de paulínias com cheiro de mel, sarmentos de ma­ racujá e as flores-da-paixão, trepadei­ ras de rica tloração por entre as quais sobressaem as copas ondeantes da pal­ meira macaúba, parecíamos levados ao Jardim das Hespérides. Passando por diversos regatos (...) desenrolouse sob os nossos olhares uma vista ■maravilhosa da baía, as ilhas verdes, flutuantes, do porto com m astros e bandeiras sem núm ero, e da cidade estendida ao pé da mais garbosa mon­ tanha, cujas casas e torres reluziam ao sol. Longamente nos reteve presos o mágico espetáculo de uma grande cidade européia, surgida no meio de rica natureza tropical”. Embora fos.sem humanistas, dis­ cípulos de Humboldt e Goethe, Mar­ tius e Spix não revelam, ao fmal de seu livro, uma visão romântica dos índios brasileiros, que tão bem co­

nheceram e tão bem documentaram: "Há algo de con.solador na idéia de que, apesar de toda a miséria, o que o europeu trouxe de além do vasto oceano toma aqui possível certo bemestar neste estado primitivo da raça humana, nesta vida de natureza, da qual nós, na velha Europa hi.stórica e requintada, não temos mais vestígio, nem noção. Estes índios e mestiços fazem lembrar o provérbio da antiga índia, de que ‘a vida entre os homens é um fogo que queim a se dele tomar­ mos muito; mas, se tomarmos pouco, ele nos alumia’. Neste caminho dos di­ tames patriarcais, o gênio da raça hu­ mana não conduziu os povos que pre­ cisarão ser levados à humanidade pela civilização; por isso não encontramos paz nas cabanas, nem simplicidade e contentam ento na .senda das tribos, mas sangue e conflagração, pavorosas expiações que à dupla natureza do gê­ nero humano atraem a maldição ou a bênção de .sua origem".

Emhora sua grarule contribuição para a ciência brasileira tenha sido dada com a publicação dos 15 volumes da “Flora Brasiliensis”, Martius também foi um etnólogo dedicado, que não apenas propôs uma nova classificação das tribos do Brasil, baseada em famílias linguísticas, como tambétn estudou as leis e a tnediciiui indígenas, em livros como “O Estado de Direito entre os Autóctones do Brasil" e “NatureTja, Doenças, Medicina e Remédios dos índios Brasileiros ”. Martius também desenhou muitos dos índios que conheceu e, antes da “Flora ”, redigiu uma magnífica ''História Natural das Palmeiras do Brasil”, livro que encantou o poeta Goethe. Martius (abaixo) morreu em Munique, aos 74 anos.

0 Brasil dos Viajantes 101


A V ia g em im aginação mais rica. mais feliz e perfeita nem de longe pode dar conta dos tesouros dessa natureza. Quem quer que anseie por m otivos poéticos, que vá ao Brasil, pois ali a natureza respon­ de a seus pendores. Q ualquer pessoa, inclu­ sive a m enos sentim ental, se deseja descre­ ver as coisas com o são. ali se transform a num poeta.” O barão Georg Heinrich von Langsdorff era um apaixonado pelo Brasil e sua nature­ za exuberante. Ao descrevê-la fervorosam en­ te. em diários e cartas, tom ou-se um poeta, mas enlouqueceu. A expedição que ele con­ vencera o czar de todas as Rússias, Alexandre r , a fm anciar estava destinada a ser uma das m ais am biciosas que já percorrera o desco­ nhecido interior do Brasil. Três anos e meio mais tarde, ao retomar ao Rio de Janeiro, de onde partira, com apenas 12 de seus 34 inte­ grantes, ela se tomara a mais Uágica das mui­ tas missões científicas a penetrar nas florestas e rios brasileiros. Ainda assim e embora o ba­ rão nunca m ais recuperasse as faculdades m entais, o legado etnológico, botânico e ico­ nográfico da expedição L angsdorff é um dos m aiores tesouros científicos do Brasil.

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Georg Heinrich von L angsdorff ('esquerda) nasceu na Alemanha

em 1774. Em 1803 entrou para a Academia de Ciências da Rússia. Desenvolveu projetos de agricultura sustentável em sua fazenda, no Rio. Vitimado p or uma febre tropical, ficou louco em 1828, vivendo isolado até a morte em Freiburg, em 1852.

Alemão. Langsdorff era cônsul da Rússia no Brasil, onde esteve pela primeira vez em 1803, apaixonando-se pela ilha de Santa Ca­ tarina. Voltou ao país em 1820, para fixar re­ sidência no Rio. onde adquiriu a fazenda da Mandioca, que logo se tomou reduto de pes­ quisas agrícolas. Em pleno regime escravo­ crata. o barão contratou colonos alemães, e os pagava bem. Três anos depois de voltar da Europa. Langsdorff partiu em setembro de 1825 para sua grande expedição científica pe­ lo interior do Brasil; a aventura custaria 350 mil rublos ao czar e estava fadada ao fracas­ so. Ao longo de dois anos e 16 mil quilôm e­ tros, os 34 hom ens de L angsdorff — entre eles, os pintores Hercule Florence, autor do quadro acima, e Adrien Taunay. autor de “Bu­ ritis” {ao kido)— percorreram a rota das mon­ ções, coletando 1(X) mil amostras de plantas. A marcha foi marcada por doenças, febres, suicídio, paixões e lutas ardentes, delírios e descaminhos. Em abril de 1828, o barão en­ louqueceu e, em outubro, 12 debilitados ex­ pedicionários retom avam ao Rio. Por anos a fio, 0 esplendoroso legado científico da m is­ são ficaria jogado nos porões do museu de São Petersburgo. na Russia.


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m agnitude do trabalho de

ADRIEN TAUNAY

Johann M oritz Rugendas SÓ encontra paralelo, no B rasil, na obra de Jean-B aptiste Debret. As sem elhanças não são apenas históricas, mas estéticas:

De todas as tragédias ocorridas durante a expedição iMUgsdorjf. nenhuma fo i mais marcante do que a morte do jovem e talentoso pintor Aim é-Adrien Taunay. Filho do subchefe da mi s.são francesa. Nicolas-Antoine. Adrien chegou ao Brasil com o pai. Em 1818, com apenas J5 anos. embarcou numa longa viagem com Louis Freycinet, visitando a Africa do Sul. Austrália e Nova Zelândia, onde fe z muitos desenhos. Depois de um naufrágio no cabo Horn. voltou ao Rio e fo i contratado p or Lcmgsdorff. Em agosto de 1827. o barão dividiu seu grupo em dois. Taunay fa zia parte da equipe que deveria ir de Cuiabá ao Am azonas pelos rios Guaporé, M am oré e Madeira. No dia 5 de janeiro de 1828. o jovem aventureiro, confiando na sua perícia de nadador, jogou-se afoitamente às águas do revolto rio Guaporé. Morreu afogado e fo i enterrado em Vila Bela (MT).

há grande sim ilaridade estilística e conceituai entre o suntuoso regi.stro visual que Rugendas e Debret legaram ao Brasil. Eles estiveram no país na m esm a época, conhece­ ram-se e trocaram idéias e dese­ nhos. Rugendas (ahcüxo), filho de artistas, na.sceu na A lem anha em 20 de m arço de 1802. Veio para o Brasil com Langsdorff. em 1822. B rigou com o barão, desligou-se da expedição e foi substituído por Adrien Taunay e por Hercule Flo­ rence. Rugendas tlcou no Brasil até 1825. quando encontrou Debret. Seu esplêndido livro. “Voyage Pittoresque dans le B résil", ou “Maleri.sch Rei.se in Brasilien”, foi lançado em francês e alem ão entre 1827 e 1835. Não era um livro co­ mo os dos dem ais viajantes: o tex­ to (que não foi escrito por Ru­ gendas, mas pelo jo rn alista V.H. H uber) é m ero com entário sobre cem pranchas selecionadas. Os desenhos de Rugendas (à direita. “índio Flechando uma Onça") fa­ lam por si: sua visão da natureza do Brasil, seus índios e suas cidades com põem um conjunto orgânico, cosm ogônico e transcendente que revela um país na sua infância. Rugendas voltou à América do Sul entre 1831 e 1847, visitando de no­ vo o Brasil. M orreu na Baviera. em m aio de 1858.

H ERCU LE FLO REN CE "Naturalista preparando-se pa­ ra viagem através do Brasil procura um pintor. Às pessoas que preen­ cham as condições necessárias, ro­ ga-se que se dirijam ao consulado da Rússia. ” E.s\se anúncio, publicado num jom al do Rio de Janeiro, em 1825, fo i o pa.i.iaporte para o aven­ tureiro. naturalista e pintor Hercule Florence assegurar sua entrada na história da iconografia brasileira. Nascido em Nice, em 1804, chegou ao Rio em maio de 1824. O anúncio de Langsdorjf mudaria sua vida.

Florence não apenas produziu mais de 200 gravuras sobre a malfadcuia e.xpedição como também pu­ blicou o .seu diário, com o título de "Viagem Fluvial do Tietê ao Amazoruts”, e organizou a obra do finado Taunay. Ao retomar da viagem, em 1829, Antoine Hercule Romuald Flo­ rence se estabeleceu em Campinas, onde abriu uma loja de tecidos, ca­ sou-se e dedicou-se a pesquisas .sobre a "poligrafia” e o "papel inimitável", que o tomaram o precursor mundial da fotografia. Morreu em 1879.

O Brasil dos Viajantes

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A V ia g em ara m uitos estudiosos da his­ tória das expedições cientí­ ficas ao B rasil, o m aior dos viajantes a percorrer este país foi o francês A ugustin François C ésar Provençal de Saint-H ilaire (17741853). Apesar de a obra científica de Saint-H ilaire ter sido grandiosa, não foram seus estudos sobre a flo­ ra brasileira que o transform aram no mais cultuado entre todos os viajan­ tes que estiveram no Brasil no sécu­ lo 19. O bservador m inucioso, crí­ tico feroz dos costum es, generoso e ferino em um a só frase, iracundo e conform ado na seguinte. Saint-H ilaire traçou um retrato tão vivido, tão dinâm ico, tão hum ano do Brasil que, passado m ais de um século e m eio desde a publicação, os nove volum es nos quais ele narra sua am ­ pla jo m a d a pelo país continuam sendo um a leitura apaixonante — e deveras elucidativa. Saint-H ilaire percorreu m ais de 12 mil quilôm etros em lom bo de m ula. a pé ou em frágeis pirogas indígenas, coletando plantas e ob­ servando a inexorável marcha do pro­ gresso que transform ava florestas em d escam p ad o s, índios em indi­ gentes e negociantes desonestos em podero.sos oligarcas. Com o seu con­ terrâneo Lévi-Strauss concluiria um século mais tarde, Saint-H ilaire per­ cebeu que estes eram os tristes tró­ picos. Em seu único retrato conhe­ cido {à direita), Saint-H ilaire exibe um sorriso à G ioconda — m isterio­ so, debochado, gentil e m elancóli­ co. Foi com esse espírito que ele nos legou um a das mais profundas análises da alm a desta nação.

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ilaire Saint-Hilaire nasceu em Orleans, na França, em outubro de 1774. Filho da pequena nobreza rural, durante a revolução de 1789 foi levado para a Alemanha. Lá. conheceu Aimé Bonpland, amigo e colaborador de Hum ­ boldt, um apaixonado pelo Brasil. C onvencido por ele, Saint-H ilaire juntou-se à missão francesa que veio ao Brasil com o duque de Luxembur­ go, saindo de Brest em abril de 1816. Depois de alguns meses no Rio, Saint-Hilaire iniciou seu périplo pelo Brasil: primeiro, percorreu a região de Minas Gerais (descrita nos dois primeiros volumes do seu “Voyages dans l’intérieur du Brésil”). A seguir, penetrou no Distrito Diamantino (3° vol.), passando para o Espírito Santo (4° vol.), onde ficou até fins de 1818. Em janeiro de 1819, partiu do Rio mmo a Goiás (5° vol.), retomando para São Paulo pelo caminho dos boiadeiros (6° vol.). Percorreu essa provín­ cia, mais Paraná e Santa Catarina (7° vol.), entrando no Rio Grande do Sul em junho de 1820 ( 8° vol.), seguindo pelas Missões até M ontevidéu, daí re­ tomando ao Rio e, a seguir, para Pa­ ris. Saint-Hilaire levou dez anos para publicar sua obra — e o fez meticulo­ sam ente, enquanto preparava a es­ plêndida “R ora Brasiliæ Meridionalis” (inédita no Brasil). Em fevereiro de 1821, SaintHilaire fora envenenado pelo mel da abelha lechiguana. Os sintomas da doença o infemizaram pelo resto da vida, em 1853. Os dois últimos volu­ mes de sua viagem, inclusive o texto sobre o Rio Grande do Sul (abaixo), só foram publicados postumamente, completando um precioso legado.

TORRES "Segunda-feira, 5 de junho de 1820 Enquanto nos dias anteriores só avistávamos uma praia esbranquiçada que se confundia com o céu, hoje, ao menos, deparamos dois montes denominados Torres, porque realmente avançam m ar adentro, como duas torres arredondadas {...). O mais meridional dos dois montes principais entra bastante m ar adentro e, do lado do oceano, exibe uma chanfradura profunda, onde as ondas vêm quebrar-se contra as negras rochas. De seu topo, fru i o mais agradável panorama, pois dele se avistam o alto-m ar e uma lagoa doce. ”

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A A m a zô n ia e “intemo verde” a “rain forest”, de floresta sem fim a campo dos sonhos, de última fronteira da civilização a “pulmão do mundo” , a Amazônia percorreu uma longa trajetória no imaginário ocidental. Desde que o homem branco a penetrou pela primeira vez, há quase cinco séculos, a flo­ resta permanece praticamente a mesma — e o segundo maior rio do mundo também. O que se modificou foram a.s imagens que a mata majes­ tosa, seus habitantes (humanos ou não) e sua complexa ecologia passaram a adquirir na men­ te dos pesquisadores, dos cientistas e da popu­ lação urbana das maiores cidades do mundo. Desde a sua descoberta casual, em 1542, a Amazônia tem funcionado como uma espé­ cie de cabo-de-guerra entre fato e ficção, fan­ tasia e realidade. De imediato, a maior região selvagem do mundo se tomaria o novo palco de dois antigos mitos: a lenda das ferozes guer­ reiras amazonas e a vertigem de Xangrilá, a cidade perfeita (nos trópicos transfigurada em Eldorado), foram ambas transplantadas para o seio da imensa mata virgem. Esses dois mi­ tos fariam muita gente perder a cabeça — li­ teralmente.

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Gonzalo Pizarro, Lope de Aguirre e Wal­ ter Raleigh, exploradores que, por anos a fio, procuraram as amazonas e o Eldorado, foram decapitados ao retomar de mãos vazias para a Europa. Mas quem poderia duvidar que, nu­ ma região dominada pelos superlativos — on­ de as árvores tinham 50 metros, as cobras, oito e uma línica planta aquática (a vitóriarégia) chegava a dois metros de diâmetro— , não pudesse de fato existir uma cidade de ouro e um reino de mulheres guerreiras? Assim que os delirantes conquistadores do século 16 foram substituídos pelos meti­ culosos cientistas do século 19 — entre eles o francês La Condamine, o “descobridor” da bor­ racha— , ficou claro que o maior tesouro da Amazônia era vegetal. A borracha seria, en­ tão, responsável pela primeira corrida da his­ tória provocada não por um minério, mas por uma planta. Pouco antes, estudos feitos na Amazônia pelos precursores de Darwin estavam ajudan­ do o homem a entender seu papel no planeta. Infelizmente, porém, isso não seria suficiente para fazer com que o homem descobrisse qual, afinal, era o seu papel na Amazônia.

A Amazônia

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LOPE DE AGUIRRE Comparadas à delirante jomada de Lope de Aguirre pela Amazônia, as viagens pioneiras de Francisco de Orellana e Pedro Teixeira pelo segundo maior rio do mundo foram piqueniques de escoteiro. Um dos caudilhos mais ensandecidos da história, Aguirre era tenente na expedição liderada pelo govemador Pedro de Ursua, que partira de Lima em 1559 em busca do Eldorado. Após um ano de tormento e descaminhos pela selva, Aguirre amotinou-se, matou Ursua e assumiu o comando da expedição, em 1" de janeiro de 1561. "Deus está no céu, o rei está longe. Aqui mando eu ”, proclamou o líder rebelde, que pretendia futuJar um país independente na atual Venezuela, do qual seria rei. Antes de ser preso e decapitado, Aguirre descobriu a ligação entre o Orinoco e o Amazonas —perdida por 200 anos depois dele. Sua alucinada viagem virou filme de Werner Herzog (abaixo, Klaus Kinski no papei do tirano).

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ram mulheres muito alvas e altas, com cabelo zarro e Orellana enfim venceram a árida e gelada bar­ longo, entrançado e enrolado na cabeça. São reira dos A ndes, m ergulharam num am biente ainda J muito robustas e andam nuas em pêlo, tapadas mais ameaçador: a maior floresta jam ais vista por qual­ as suas vergonhas, com os arcos e flechas nas mãos. fa­ quer europeu. Lá havia canela, mas poucas árvores zendo tanta guerra quanto dez índios homens e, em ver­ esparsa.s, sem valor comercial. Indignado, Pizarro jo ­ dade, houve uma que enterrou uma flecha a um palmo gou aos cães metade dos índios e queim ou vivos os de profundidade no bergantim, e as outras pouco menos. restantes. Mas em breve não haveria mais cães, porcos de modo que, fmda a luta. nossos barcos pareciam porou cavalos para alimentar os espanhóis. Então, no dia cos-espinhos.” 26 de dezembro, Orellana foi autorizado a construir N aquele 24 de ju lh o de 1542, a alquebrada um barco e, com 57 hom ens, descer o rio que viria expedição de Francisco de Orellana já estava havia a se cham ar Coca para saquear as grandes aldeias meio ano navegando pelas águas intempestivas de indígenas que existiriam por lá. um rio tão largo, grande e forte quanto jam ais se vi­ Seria uma viagem sem volta: em seis dias a ra, quando o frade dom inicano Gaspar de Carvajal, corrente o empurraria quase mil quilômetros rio cronista oficial da desventura, sacou da pena para abaixo. Não havia aldeias: só mata e água. Os via­ registrar a prim eira aparição “factual” das mi­ jantes comeram seus cintos e botas fervidos com er­ tológicas amazonas na história das Am éricas. vas. O rio Coca deságua no Napo. que é afluente do Junto com O rellana e outros 21 hom ens, Carvajal Ucayali, o qual no Brasil se chama Solimões. um deixara Quito, no Equador, em fevereiro de 1541. A dos formadores do majestoso rio no qual a nau dos in­ expedição fora se juntar ao imenso grupo liderado por sensatos entrou em 11 de fevereiro de 1542. Na flo­ Gonzalo Pizarro, que partira da capital do império inca resta, Pizarro esperou por 40 dias antes de retom ar para em busca do reino da canela — localizado, em tese, Quito, am aldiçoando O rellana e acusando-o de trai­ além da cordilheira. Boa para o pulmão, anti-séptica e ção. Com 80 homens esmaecidos, chegou à cidade em digestiva, a canela era uma riqueza inestimável no sé­ 12 agosto de 1542 — sem canela, sem cães, sem cava­ culo 16. Tanto que poderia valer a vida de 200 cavalos, los. sem ouro. Exatas duas semanas mais tarde. em 26 mil cães (treinados para matar), 2.000 porcos, 4.000 ín­ de agosto, um mês depois de enfrentar 12 amazonas (e dios e 250 fidalgos espanhóis — o núm ero de sacrifica­ m atar sete delas) e de ter navegado 7.250 km. Orellana dos nessa viagem de danação, cujo único resultado prá­ e 48 sobreviventes chegaram ao Atlântico. Tomavamtico .seria a descoberta do segundo m aior rio do mundo. se os prim eiros hom ens a navegar no segundo m aior No Natal de 1541, quando, famintos e febri.s, Pie mais m isterioso rio do planeta.


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o chegar à ilha de Cubágua, a 2(X) quilôm etros de Trinidad. depois da inacreditável viagem em com ­ panhia de Orellana. frei Gaspar de Carvajal tratou de redigir na hora o relato da expedição — e o olho que um a flechada lhe roubara não o atrasou nessa missão. Fora o espan­ to com as dimensões do rio recém-percorrido, o que mais chamou a atenção em seu diário foi a menção às amazonas, com as quais os expedicionários teriam se confrontado ao chegar à confluência do rio que hoje se cham a Madeira. Era um mito antigo, de origem grega com o a própria palavra (aniazos, ou “sem seio” ). Embora Carvajal jam ais tenha afirm a­ do que as guerreiras que seu grupo enfrentou retiravam o seio para m anejar melhor o arco. resolveu chamá-las pelo m esmo nome que Ho­ m ero utilizara, no século 8° a.C„ para batizar as mulheres guerreiras da antiga Cítia. Carvajal seria criticado ainda em vida pelo cronista López de Gomara: “Dentre os dispa­ rates que disse, o m aior foi afirm ar que havia am azonas [já que] nunca tal .se viu nem tão pouco se verá neste rio” . Para o próprio Gomara, porém, “que mulheres andem com armas e pelejem , ali não é m uito pois es.se é seu costum e nas ín ­ dias” . Duzentos anos depois, Humboldt e La Condamine ofe­ receriam as m esm as explicações para a cena descrita por Carvajal: na Am érica, as m ulheres iam à luta ao lado dos maridos. Ainda assim , na terceira vez que o A m azonas foi navegado de uma ponta à outra, em 1639, nem o português Pedro Teixeira nem seu cronista, Cristóbal de Acufia, viram sinal das tais amazonas.

A

E ldorado Pouco antes de Pedro Teixeira .se tomar o primeiro homem a subir o Amazonas c de Cristóbal de Acufia vir a .ser o segun­ do cronista do rio. narrando a viagem de volta, de Quito a Belém (leia na página seguinte), o Amazonas generosamente se tomaria berço de outro mito — qua.se tão longevo quanto o das amazonas. El Dorado era o nome do rei do país dos omáguas e .senhor de sua reluzente capital. Manoa. cidade dos te­ lhados de ouro. Todas as manhãs, o Homem Dourado tinha seu 7corpo polvilhado de ouro (à esquerda), antes de m ergulhar num lago sagrado, no qual seus súditos jogavam jóias e adornos. Depois que um certo Juan Martinez chegou à ilha de Tri­ nidad afim iando que vivera sete meses como prisioneiro de El Dorado em Manoa. uma nova febre do ouro tomou çonta dos conquistadores espanhóis na América — e logo afetaria ingle­ ses. alemães e holandeses. Misturando elementos da "Utopia" de Tho­ mas M orus. da "N ova A tlântida". de Francis Bacon, e de rom ances de cavalaria, com o “Am adis de G au­ la". a lenda do Eldorado .se espalhou com o fogo na palha. A primeira expedição a meter-se na selva em busca do reino de ouro foi a de Pedro de Ursua e Lope de Aguirre {leia quadro na página anterior). As mais alucinadas aventuras em busca do Eldorado, porém, foram patrocinadas por sir Walter Ra­ leigh. Primeiro em 1595 e mais tarde em 1617 (depois de f>erm anecer 13 anos encarcerado na Torre de Londres). Raleigh navegou pelo Orinoco e percorreu o planalto das Guianas em busca de uma cidade que não estava lá. Na volta para L on­ dres, foi decapitado por ordem do rei James.

WALTER RALEIGH Favorito da rainha Elizabeth 1°, com quem teve um caso, Walter Raleigh foi uma das figura.s mais dinâmicas e controversas da colonização inglesa. Descobridor das Guianas e primeiro colonizador dos EUA (fundou a Virgínia e a Carolina do Norte), sir Walter, tido cotmi introdutor do tabaco na Inglaterra, ficou conhecido como o “homem que pesou a fumaça”. Para ganhar uma aposta, colocou um charuto numa balança, fumou-o e pesou as cinzas. A diferença entre uma medida e outra era “o peso da fumaça”. O mais romanesco dos ingleses se tornou um herói popular

A Amazônia

107


A J

ornada de

A lex a n d r e R o d r ig u e s F er r eir a

o retom ar para Lisboa, em ja ­ neiro de 1793, depois de dez anos percorrendo quase 40 mil quilômetros pela região amazônica, nas capitanias do G rão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. Alexandre Ro­

A

drigues Ferreira estava não apenas se tom ando o prim eiro brasileiro a realizar um a grande expedição científica pelo país com o tam bém coroando o breve ciclo de missões exploratórias prom ovi­ do por Portugal no fmal do século 18. Apesar de na.scido na Bahia, em 1756, R odrigues Ferreira era um cienti.sta de forniação lusitana. M embro da Acade­ mia de Coimbra, foi e.scolhido por Dom enico Vandelli para chefiar a grande expedição ao Brasil. Fundador do museu e do jardim botânico da universidade, o italiano Vandelli fora o grande renovador de Coimbra. Apesar de sua influência ser sensível na corte, a m issão am azônica que ele planejara jam ais seria aprovada não fosse ela parte do projeto lançado pelo poderoso m arquês de Pom bal de investigar as riquezas do Brasil. Com o 0 país estava fechado a cien­ tistas esü-angeiros, não havia outra opção senão os acadêm icos de Coimbra. Nin­ guém se arrependeria da decisão; o de­ sem penho de Rodrigues Ferreira à fren­

p r e c is a s obsert'açôes científicas de A lexandre R o d rigues Ferreira fo r a m co m plem entadas p e lo s d e senhos de J o a q u im Codina e J o s é Freire

te da expedição foi exemplar e, até hoje, sua “Viagem Filosófica” permanece um m odelo de investigação científica. Os méritos não cabem só a ele; acom panha­ do f)elos ilustradores José Freire e Joa­ quim Codina e pelo coletor Agostinho do Cabo, Ferreira legou à posteridade um estudo belo e profundo .sobre a m aior floresta do planeta, apesar do er­ rático destino de seu acervo.

m 5 de fevereiro de 1637, ao desem barcar em Belém, os frades Andrés de Toledo e Domi.ngo de Brieva. mais seis soldados espa­ nhóis, tomavam-se os primeiros homens a navegar toda a extensão do Amazonas, um século depois de Orellana e Carvajal. Ao ser informado da façanha desses oito homens e servindo-se do fato de Portugal e Espanha estarem unidos sob a mesma c o ro a o govemador do Pará, Jacomé Noronha, decidiu enviar uma expedição pelo mesmo caminho que trouxera os espanhóis. Para comandá-la, designou o capitão-mor Pedro Teixeira {à esquerda). Em 28 de outubro de 1637, Teixeira. 70 soldados e 1.200 índios partiram de Belém rio acima, com 47 canoas “de bom porte”. Em 24 de junho de 1638 — com menos da metade da tripulação (a maioria dos índios desertou ou morreu)— , Teixeira che­ gava a Quito realizando a prodigiosa tarefa de remar contra a c ontnte do Amazonas (cuja velocidade é de seis nós). Mais do que surpreso, o govem ador de Quito ficou alarmado com o feito — temia que o rio viesse a ser usado como via de acesso para a conquista do Peru. Tratou Teixeira com cortesia, mas mandou-o em seguida de volta a Belém.

E

108

H

lstóru

DO B

iu s il

A expedição partiu de Lisboa em 1° de setem bro de 1783 e chegou a Belém em 31 de outubro. Enquanto aguardava apoio logístico para realizar sua grande viagem pelos principais rios da bacia amazônica. Ferreira e sua equipe explo­ raram os arredores da cidade e o rio To­ cantins. Foi só depois de um ano, em se­ tembro de 1784, que a equipe pôde seguir para a capitania do Rio Negro, onde fez de B arcelos sua segunda cidade-base. Após cinco anos pesquisando a bacia do Negro, Ferreira partiu para M ato Grosso — acidentada viagem que lhe tomou exa­ tos 13 meses e 18 dias. Instalando-se em Cuiabá, estudou o Pantanal, suas chapa­ das e a bacia do rio Paraguai. Tendo per­ corrido 39.372 km, retom ou a Belém em janeiro de 1792. Por quase uma década, tinha feito re­ latórios sobre a situação urbana, dem o­ gráfica, adm inistrativa e econôm ica das povoações que percorrera; escrevera m e­ mórias sobre a fauna, a flora e os m ine­ rais dessas regiões, ao m esm o tempo que coletava e arm azenava m ilhares de espé­ cies anim ais, vegetais e minerais, des­ crevia as etnias indígenas e recolhia os objetos de m aior interesse etnográfico. Quando voltou a Lisboa, Ferreira ga­ nhou o hábito da Ordem de Cristo. Mas nada mais deu certo; bom no cam po, ele era fraco no gabinete. Não bastasse o fato de ter catalogado seu m aterial de form a confusa e dispersa. Ferreira ain­ da o viu saqueado por G eoffroy SaintHilaire. que, por ordem do general inva­ sor Junot, levou-o para Paris em 1808. Parte do espólio retom aria a Lisboa em 1814, mas até hoje o acervo recolhido por Ferreira no Brasil não foi plenam en­ te estudado.

Para acom panhar — e descrever— a longa jom ada de retomo, a Coroa espanhola escalou os jesuítas Cristóbal de Acufia e Andrés de Artieda. Teixeira e seus dois novos acompanhantes partiram em 16 de fevereiro de 1639. Dez meses mais tarde, em 12 de dezembro, estavam de volta ao porto de partida. Acufia seguiu imediatamente para a E spanha onde redigiu seu "N ovo Descobrimento do Grande Rio das Amazonas", livro em tudo superior ao que o dominicano e inquisidor Gaspar de Carvajal produzira um século antes. Em bora a viagem fos­ se atribulada e repleta de imprevistos e, .segundo Acufia, as margens do grande rio estivessem ocupadas por 2 milhões de indígenas, nem ele, nem Teixeira, nem ninguém viu sinal algum das fabulosas amazonas. De qualquer forma, não apenas a m issão se tom ou um marco na his­ tória das explorações como, graças ao padrão que Teixeira fincou, em 16 de agosto de 1639, na confluência dos rios A guarico e Napo, a m aior parte da Am azônia e praticam ente todo o rio que a percorre passariam a fazer parte do território brasileiro. C om o paga pelo feito, Teixeira ganhou 300 casais de escravos indígenas.


A V iagem F il o só fic a lex an d re R o d rig u e s F erreira foi um o b serv ad o r atento e um cronista m eticuloso. A princi­ pal função de sua viagem foi investigar a g e o g ra fia e c o n ô m ic a d a reg ião . N a interpretação de E m ílio G oeldi, ‘Tilo.s(> fic a ” q u e ria d iz e r ju s ta m e n te "d e e c o ­ n o m ia so cia l". Isso n ão im p e d iu Fer­ reira de fazer pesqui.sas etn o g ráficas e d enúncias ecológicas, c o m o revelam es­ tes dois trechos de seu livro:

A

tado. (...) Sem d ú vida, d e tantas utilida­

A ntes é um a ocu p ação .séria e im por­

d es qu an tas são as que deste m am ífero

tante que se e n volve em tcxlas as cir-

se tiram , n e n h u m p o lic ia m e n to é feito

cunstância.s de sua vida pública e priva­

de sua pesca. U m peixe-boi para ch eg ar ao seu d ev id o c rescim en to gasta anos e

da, e q u e d á p rin c íp io e fim a to d a s as suas deliberações. Se é necessário

t(xlos os q ue ap arecem são a rp o a d o s, m e sm o fê m e a s p re n h a s. A s fêm eas

e ntenderem -.se e n tre si d u a s a ld e ias,

não parem m ais de um até dois filhotes p o r ano. O s filh o tes tirados d o v entre

baixadores. Se se declara a guerra ao

d as m ães a rp o a d a s p a ra n a d a serv em .

parte a parte se principia a ex p rim ir o

N ão se c o n h e c e o te m p o d e criação e

re ssentim ento e vingança q ue se m edi­ ta (...). R ara é a d an ça que acaba sem

o arp o ad o r fica feliz de e n co n tra r um

Memória sobre o peixe-boi e do uso que ihe dão no Kstado do Pará:

LA CONDAMINE

filhote para m ais fácil a ip o a r a m ãe. A r­ p o am -n o s em to d o s os tam anhos, sem

d an çan d o é q ue se ap resentam os e m ­ inim igo, po r um a d an ça solene é que de

efusão de sangue. U ns investem às m u ­ lheres dos outros, pai não respeita a fi­

■‘H á certo s lugares nos lagos em

d istin ção de idade. Por isso não deve

lha. nem o im iã o a im iã. T oda a noite sc

que eles c o stu m am bo iar e b rin car uns

c au sa r e sp an to a su a raridade em alguns

passa nesta lida. e n q u an to não caem de

com os outros, e o n d e os a rp o ad o res fi­

lagos onde já não os en co n tram os há a l­

todo. N o dia seguinte a atitude de seus

cam à sua espera. Q u an d o arp o ad o . o

g uns anos.

c orpos é o em b lem a d o estado de suas

Barcelos, 2 de fevereiro de I786.''

puxam até a b o rd a d a can o a e lhe dão com um pau p an cad as fortes no f(X.'inho e na c ab e ç a . E n tão o p e ix e -b o i g em e d e m o d o que p ro v o c a c o m p a ix ã o de q u e m o u v e , p a re c e n d o .ser um g e m id o de criança. (...) E ste é um dos an im ais

alm as. D orm em a m aio r parte do dia ou d eitados .se deixam e sta r em um a ina­

Memória .sobre a dança e as festas do.s diversos gentios da Amazônia:

ç ã o e stú p id a e in síp id a . F az d ig n a de

"A d an ça é a paix ão favorita dos h ab itan tes d esta parte d o globo. Sendo

po r sem elhantes festas; outro reparo

reparo a ceg a paixão que tem o gentio m erece a circunstância de que. sendo

m ais u tiliz a d o s no E s ta d o d o Pará. C o m e m su a c a m e . q u e é m u ito p a re ­

eles uns verd ad eiro s q u ietistas. a m aior

naturalm ente hom ens tristes e pensa­

parte de .seu tem p o co n so m em em um

tivos. não carece que bebam , m as basta

cid a com a d o porco, cozida, assad a ou

e.stado de lan g u id ez e indolência, sem

a sim ples e sp eran ça de beberem para

frita. T am bém d ela se fazem lingüiças e

(K upação que os possa an im a r e e n ­

logo tra n sb o rd a r em seus rostos a ale­

das banhas se p rep aram as m anteigas.

treter. É v erdade q u e entre eles a dança

gria. a esperança, a vivacidade.

com n o táv el c o n su m o em to d o o E s­

não se d ev e ch am ar de divertim ento.

m junho de 1800, Lisboa enviou or­ dens expressas para o govemador do Pará. referindo-se a "um tal de barão Von

E

Humboldt, natural de Berlim”, determi­ nando que, se ousasse U'anspor as frontei­ ras brasileiras, ele, ou qualquer outro es­ trangeiro. fosse conduzido preso, tratado com toda a decência, mas expulso do país e impedido de fazer quai.squer. "indaga­ ções políticas ou filosóficas", já que tal

Barcelos.

de agosto de 1787."

Cientista, explorador e diplomata, amigo de Goethe e Schiller. Humboldt (1769-1859) era um humanista versado em botânica, astronomia e geologia. Entre 1799 e 1804. viajou pelo Equador, Vene­ zuela, Colômbia e México, em companhia de Aimé Bonpland. Ambos estudaram a bacia do Orinoco, mas não puderam entrar em seu tão sonhado rio Amazonas. A obra

que o Brasil perdeu a chance de ter .sua paisagem estudada pelo maior nsturali.sta de todos os tempos, o barão Alexander

visionária de Humboldt influenciou toda uma geração de cientistas, como Spix e Martius. Em 1845. o barão publicou “Ko.smos", monumental obra-prima, subintitulada “Ensaio de uma descrição física do mundo", da qual o Brasil, vergonhosa e

von Humboldt (à esquerda).

lastimavelmente. não pôde fazer parte.

atitude “seria sumamente prejudicial aos interesses políticos da Coroa”. Foi assim

Enviada para Quito para medir o raio equatorial da Terra —que, .segundo a polêmica teoria de Newton, deveria ser menor do que o raio polar (o que tomaria o planeta um “elipsóide achatado — a missão que o cosmógrafo francês Charles Marie de la Condamine fez à Amazônia, entre 1735 a 1746, inauguraria um novo período na história das viagens à América. Rico. ilustrado amigo de Voltaire, foi La Condamine quem abriu a era das grandes expedições científicas. Desembarcando no Equador em fm s de 1735, perambulou por oito anos pela cordilheira dos Andes. Em maio de 1743, decidiu descer o Amazonas da nascente até a foz —viagem que, surpreendentemente, foi autorizado afazer, tanto pelos espanhóis como pelos portugueses (que, meio século depois, proibiriam a entrada do barão Von Humboldt no Brasil). A jomada durou dez meses, consagrando La Condamine como “descobridor" da borracha, do quinino e da platina.

La Condamine f o i o prim eiro cientista a p e n orrer a Amazônia, influenciando homens como Humboldt e Ferreira

A Amazônia

109


H "Derrubei um tucano com um tiro e ele caiu num vale profundo onde me embrenhei para pegá-lo. Ele estava apenas ferido e fez uma tremenda algazarra. No mesmo instante, como num passe de mágica, o sombrio vale se encheu de seus companheiros, embora eu tivesse certeza de não haver ali nenhum pássaro quando entrei no mato. Vieram todos em minha direção, saltando de galho em galho, alguns balançando-se nos trapézios dos gro.ssos cipós, soltando seus gritos roufenhos e agitando as asas, como um hando de fúrias. ”

110

H iSl'ÔRl.A D O B r .ASII.

enry

W a lter B ates

or volta de 1845, os naturalistas ingleses Henry Walter Bates e A llred Russel Wallace podiam ser vistos caçando borboletas nos arredores da cidade de Leicester e trocando cartas sobre o assunto de interesse co­ mum. No dia 28 de m aio de 1848. os dois jovens cientis­ tas já estavam desem barcando em Belém para iniciar uma longa perm anência na A m azônia, durante a qual não ape­ nas capturaram dezenas de m ilhares de borboletas com o ajudaram a m udar os rumos da ciência. W allace queria que Bates o ajudasse a encontrar um a fam ília de borboletas com 0 maior número possível de espécies, de modo que eles pudessem estudar de que form a elas .se m odificavam . E s­ .ses estudos seriam a base da teoria da origem das espécies, mais tarde consagrada por D aruin. Filho de um operário tê.xtil. Bates não dispunha de capital para fm anciar suas explorações e se sustentava com a venda de espécim es, principalm ente insetos, para mu.seus ingleses. Desse m o­ do. perm aneceu 11 anos na A m azônia, de 1848 a 1859. re­ colhendo 14.712 espécies de m am íferos, aves, répteis e in­ setos. sendo que 8.000 delas eram novidade para a ciência. De início. Bates e W allace perm aneceram juntos em Be­ lém e arredores e percorrendo o Tocantins. Depois, Bates prosseguiu sozinho pelo Solim ões até a fronteira com o Peru. retom ando mais tarde para M anaus e daí para Londres. Em 1863. ganhou fam a com a publicação de “O N aturalista no Rio A m azonas". Ilustrado com de.senhos m inuciosos feitos por ele próprio e escrito num estilo pri­ m orosam ente vívido, o livro cativou a im aginação vitoria­ na (seria um favorito de George Orwell e D.H. Law rence. entre outros). Bates se tom ou o m aior especialista em m i­ m etism o e um dos grandes responsáveis pelo surgim ento da teoria que fez a fam a de Darwin.

P

Embora denso e cientificamente acurado, “O Naturalis­ ta no Rio Am azonas” pode ser lido com o um romance de aventuras, como fica claro nos dois trechos selecionados nes­ ta página; “ Uma aventura divertida” (no quadro à esquerda) e “Um incidente durante a pe.sca de tartarugas” (a seguir): “Em 6 de outubro [de ]H50] deixam os Ega [no Soli­ mões] para um a segunda excursão; desta vez o objetivo (...) era encontrar tartarugas nas lagoas da floresta. (...) D e­ pois que a rede estava arm ada em círculo e os hom ens ha­ viam m ergulhado (com a finalidade de orientar as tartaru­ gas). viu-se que havia um jacaré preso nas m alhas da rede. N ão houve pânico — apenas receio de que o bicho a ras­ gasse. Inicialm ente, alguém gritou; ‘Encostei na cabeça d ele’. A .seguir outro hom em disse: ‘Ele raspou na m inha p erna’. Um índio miranha perdeu o equilíbrio e ninguém mais conseguiu parar de rir e gritar. Finalm ente, atenden­ do às instruções que dei da m argem, um rapaz de uns 14 anos segurou o jacaré pelo rabo e o arrastou até a m ar­ gem... Eu havia cortado um grosso pedaço de pau e, assim que o jacaré foi trazido para terra, dei-lhe um a forte pan­ cada na cabeça, que o m atou instantaneam ente. Aquele era um caim ão grande, que os índios cham am de jacaré-açu. Suas m andíbulas de 50 centím etros eram perfeitam ente capazes de cortar ao m eio a perna de um hom em . (...) Não é exagero dizer que durante a estação seca há tantos jacarés nas águas do A m azonas quanto girinos nos regatos da Inglaterra. Durante um a viagem que fiz, certa vez, pelo Alto Am azonas, os jacarés podiam ser vistos ao longo da m argem durante todo o percurso, e os passageiros se di­ vertiam atirando neles da m anhã à noite. Quando o vapor passava, eles se am ontoavam uns sobre os outros, em gru­ pos com pactos, suas couraças se entrechocando” .


A lfred R ussel W allace ^'o dia r de julho de 1858. o natiirajista Alfred Russel Wallace apresentou para a Linnean Society, ein Londres, urn artigo cham ado "Sobre a tendência das es­ pécies de se afastarem indefinidam ente do tipo original” . Foi um m om ento histórico porque, naquela m esma tarde, outro cientista, de nome C harles Darwin. leu o m anuscrito do que viria a ser “A Origem das E spécies pela Seleção N atural" — um texto em tudo sim ilar ao de Wallace. Nenhum dos dois foi acusado de plágio, pois a academ ia sabia que am bos estavam desenvolvendo a m esm a teoria, paralela e sim ultaneam ente — e sem contato prévio. Wallace chegara às suas conclusões durante um forte ataque de m alária, nas ilhas M olucas, em 1857, enquanto m editava sobre a lese de M althus a respeito do crescim ento das populações. Mas não há dúvida de que ele jam ais teria inspiração para desen­ volver sua te.se se não tivesse perm anecido por quatro anos na Am azônia. Nascido em janeiro de 1823, Wallace chegou a Belém em com panhia de Bales. No dia 26 de março de 1850, os dois se separaram em Manaus. Wallace pros.seguiu pelas desconhe­ cidas regiões do Alto Rio Negro e pelo Uaupês. coletando bor­ boletas e estudando também a espantosa bicxliversidade dos peixes am azônicos, até chegar a território venezuelano. No dia 6 de agosto de 1852. depois de retornar a Belém. Wallace partiu para a Inglaterra. Mas o Helen, navio no qual viajava, .se incendiou em alto-mar, queim ando todas as coleções e diá­ rios que ele juntara. Depois de dez dias à deriva nos escale­ res, sedentos e famintos, Wallace e os dem ais sobreviventes do naufrágio foram resgatados a cerca de 200 milhas da cos­ ta das Bemiudas. Com ajuda da m em ória prcxligiosa e das coleções de plantas e animais que enviara antes para a Ingla­ terra. Wallace começou a redigir seu primeiro livro.

N

Em 1853, “Um a N arrativa das Viagens pelos Rios A m a­ zonas e N egro" foi lançado em Londres, com grande suces­ so. O livro agradou a comunidade científica e o público lei­ go. Lendo dois de seus trechos, não é difícil entender por quê: “Prosseguim os lentam ente rio acim a. Às vezes velejá­ vam os, mas geralm ente tínham os de usar os remos. A chu­ va incessante perturbava-nos bastante. Além disso, havia os torturantes m osquitos, todas as noites, conservando-nos num estado de exaltada irritação, pois não conseguíam os fechar os olhos por um m inuto sequer. Os índios sofriram tanto quanto nós. pois é um grande erro supor que os m osquitos não os piquem . Podíam os ouvi-los durante toda a noite dan­ do .sonoros tapas em .seu corpo sem inu, tentando m atar ou afugentar os infernais insetos. O torm ento era por vezes tão grande que eles preferiam enrolar-se no pano da vela. so­ frendo a aflição de ficarem semi-sufocados. a ter de aguentar aquele verdadeiro m artírio. (...) Já estávam os no fim de de­ zem bro quando chegam os à pequena povoação de Serpa. No dia de N atal, chegam os a um a casa cujos m oradores tinham acabado de fazer proveitosa pesca. Q uisem os com ­ prar uns peixes, mas eles se recusaram a vendê-los, não he­ sitando, porém , em dar-nos uma excelente posta para enri­ quecer nossa ceia. Com pram os alguns ovos e prosseguim os rio abaixo. Q uando fizemos a última parada do dia, prepara­ m os um pudim à base de farinha, fritam os o peixe e fize­ m os o café. Com isso, tivem os um a razoável ceia de Natal. Enquanto com íam os, deixam os que nossos pensam entos nos levassem para o lar distante e para os longínquos e queridos am igos que naquela hora. em torno de suas re­ quintadas m esas, possivelm ente estariam tam bém com os pensamentos voltados para nós, aqui tão longe nesta inco­ m ensurável A m azônia” .

“/i.ç copas das ár\'ores formavam um compacto dossel por cima das águas, impedindo a penetração dos raios de sol. A beleza da vegetação ultrapassava tudo o que eu já vira até então. A cada curva do regato surgia algo de novo e surpreendente. Aqui era um formidável cedro cujos galhos pendiam sohre as águas; ali uma enorme paineira, destacando-se como um gigante sobre as demais árvores da mata; a seguir, os majestosos coqueiros-muritis, com seus caules cilíndricos e retilíneos, quais colunas gregas, produzindo uma visão de fato imponente. ”

A Amazônia

111


o

C iclo

resina cham ada cautchu nas terras da província de Q uito, vizinhas ao mar, é tam bém m uito co­ mum nas m argens do Maraíión e se presta para os m esm os usos. Q uando fresca, pode ser m oldada na for­ m a desejada. É im perm eável à chuva, m as o que a tom a m ais notável é sua grande elasticidade. Fazem -se garra­ fas que não são frágeis, botas, bolas ocas, que se achatam quando apertadas mas retom am a form a original quando cessa a pressão.” No dia 28 de julho de 1743, a .seiva da seringueira — em breve batizada de látex— fazia sua entrada oficial no m undo da ciência, pela pena m eticulosa do francês C har­ les M arie de la C ondam ine. Em poucos anos se tom aria o produto vegetal m ais im portante e mais cobiçado do pla­ neta — provocando o boom econôm ico que faria M anaus .se transform ar, quase da noite para o dia, de aldeia indí­ gena em capital industrial e recolocando (depois do açú­ car e antes do café) o Brasil no mapa econôm ico mundial. O sonho, porém , não duraria m uito tem po. Os portugueses conheciam a borracha havia dois séculos e a utilizavam, como disse o próprio La Condamine, para fa­ zer “seringas”, “com a forma de uma pêra oca. com um ca­ nudo na ponta, que eles enchem d ’água e apertam quando estão cheias” . Por isso, batizaram a árvore de .seringueira, em bora jam ais tenham pensado em utilizá-la de outra ma­ neira. La Condam ine levou am ostras da “cao o ’chu” (ou “árvore que chora” ) para a Europa, e lá a borracha provou ser, senão a maior, f)elo m enos a prim eira das m aravilhas vegetais da era industrial. Tudo começou em 1770, quando Joseph Priestley descobriu que ela apagava os traços dei­ xados pelo grafite no papel.

A

112

H is tó r ia d o B ra s il

da

B orracha Em 1823, um escocês cham ado Charles M ackintosh infiltrou a borracha em tecidos, lã e couro, criando os pri­ m eiros “ im perm eáveis” (que ficavam duros no invem o e derretiam no verão). Em 1839, Charles G oodyear inven­ tou a vulcanização, adicionando enxofre à borracha quen­ te. Em 1888, John D unlop ajudou seu filho a ganhar um a corrida de bicicletas am arrando um a tira de borracha em cada roda e inflando-as. Três anos antes, Karl Benz criara o prim eiro autom óvel m ovido a gasolina, que logo teria pneus de borracha vulcanizada. Foi o com eço do boom. Em 1830, M anaus se cham ava Barra e era uma vila de 3.000 habitantes. Em 1880, a cidade tinha 50 mil habitantes e exportava 12 mil toneladas de borracha para a Europa. A terrível seca de 1877-79, no Ceará, provocara um fluxo mi­ gratório para o Amazonas e os retirantes viraram seringuei­ ros {á esquerda, embaixo), esvaindo a seiva de 8 milhões de árvores espalhadas por 3 milhões de km^ As ruas, os hotéis e os cafés de M anaus fervilhavam com banqueiros ingleses, investidores americanos e prostinjtas francesas. A cidade ti­ nha 300 telefones, 16 quilômetros de linhas de bondes elé­ tricos e três linhas de navegação que a ligavam à Europa e aos EUA. Em 1896, foi inaugurado o primeiro teatro do Brasil, o fabuloso Amazonas (acima), decorado com opu­ lência (veja o detalhe do teto, à esquerda, a citm ). Mas, em 1904, quando M anaus estava no zénite, exportando 80 mil toneladas de borracha por ano, as 7.OCX) sementes de serin­ gueira contrabandeadas 30 anos antes pelo inglês Henry W ickham, enfim, brotavam na Malásia. Em breve, fariam a produção brasileira ruir com o um castelo de cartas. Em 1906, M anaus virara quase um a cidade-fantasm a. O teatro fechou — e com ele acabou a farsa do lucro fácil.


A I n d e pe n d ên c ia príncipe não estava bem. Teria sido a água sa­ lobra de Santos ou algum prato condim entado do jantar da noite anterior? Não se sabe — nem ele sabia. O fato é que uma diarréia o atacara, e a ca­ valgada pela tortuosa estrada que conduzia da Baixada Santista ao platô de São Paulo não tinha ajudado em na­ da a recuperação do combalido ventre principesco. De São Paulo para Santos haviam partido o m ajor Antônio Ram os C ordeiro e o correio Paulo Bregaro, com um maço de cartas urgentes para d. Pedro. No ins­ tante em que chegaram às m argens do riacho cham a­ do Ipiranga, divisaram alguns m em bros da guarda de honra parados num a colina. Dom Pedro estava à beira do córrego, “quebrando o corpo” — agachado para “res­ ponder a mais um cham ado da natureza” . A corres­ pondência lhe foi entregue enquanto ele abotoava o uniforme. As circunstâncias não eram as mais indica­ das para a “perpetração da façanha m em orável” . Mas as notícias eram de tal forma definitivas e perturba­ doras que, depois de 1er, am assar e pisotear as cartas, d. Pedro m ontou “sua bela b esta baia” , cavalgou até o topo do outeiro e gritou à guarda de honra: “A m i­ gos, as Cortes de Lisboa nos oprimem e querem nos escravizar... Deste dia em diante, nossas relações estão rom pidas” . Depois de arrancar a insígnia portuguesa de seu uniforme, o príncipe sacou a espada e, às margens plá­ cidas do Ipiranga, bradou, heróico e retumbante: “Por meu sangue, por m inha honra e por Deus: farei do Brasil um país livre” . Em seguida, erguendo-se nos es­ tribos e alçando a espada, afirmou: “Brasileiros, de ho­ je em diante nosso lema será: Independência ou m orte” . Eram 4 da tarde de 7 de setem bro de 1822 e o sol, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante.

O

As cartas que d. Pedro rasgara tinham sido envia­ das pelas C ortes de Lisboa (onde o cham avam de “ra­ pazinho” ou “brasileiro”) e acintosam ente inform a­ vam que, em vez de regente do B rasil, o príncipe passava a ser m ero delegado das C ortes; que seus m i­ nistros seriam nom eados em Lisboa; e que aqueles que o haviam apoiado no episódio do “Fico” eram traidores. Em m eio às cartas, vinha um a de seu conse­ lheiro, José Bonifácio de A ndrada e Silva. “A sorte es­ tá lançada” , dizia Bonifácio, “nada tem os a esperar de Portugal, a não ser escravidão e horrores” . A diarréia estragara o dia de d. Pedro, mas, apesar da crise das Cortes e das dores de barriga, o príncipe vivia um período lum inoso. Dois dias antes, “numa viela |X)uco frequentada de Santos” , vira um a “m ulata de grande beleza” e, “com o gesto rápido de quem não quer perder a caça, em bargou-lhe o passo” e a beijou. A m oça o esbofeteou e fugiu. Em bora tenha tentado com prá-la, ao descobrir que era escrava, o príncipe ignorou a rejeição: fazia um a sem ana, estava apaixo­ nado. No dia 29 de agosto, em São Paulo, d. Pedro conhecera aquela que, entre incontáveis candidatas, seria a m ulher de sua vida: D om itila de Castro C anto e M elo, futura m arquesa de Santos. No dia 5 de se­ tem bro, quando partiu para um a inspeção a Santos, o príncipe e D om itila já eram am antes — e seriam por sete anos. Mas nem a diarréia nem as vertigens da paixão im pediriam d. Pedro, de 24 anos, de tom ar a m aior decisão de sua vida. O príncipe estava desde os 10 no Brasil. A qui, tivera seus prim eiros cavalos e suas prim eiras m ulheres; aqui, vencera seus prim eiros desafios, políticos e pessoais. Dom Pedro am ava o país. Parecia o hom em certo para torná-lo um a nação independente. Foi justam ente o que ele fez.

A Independência e o Primeiro Reinado

113


AS MULHERES

U

m

P r ín c ip e B ra sil eir o

o retom ar de uma audiência com o regente de Portugal, d. João 6°, o em baixador da França em Lisboa, Andoche Junot. anotou no diário: “M eu Deus! Com o é feio! M eu Deus! Com o é feia a princesa! M eu Deus! C om o são todos feios! Não há um só rosto gracioso entre eles, exceto o do príncipeherdeiro” . Junot. que dali a três anos invadiria o país. estava se referindo ao garoto Pedro de Alcântara Fran­ cisco Antônio João Carlos X avier de Paula M iguel Rafael Joaquim José G onzaga Pascoal C ipriano Se­ rafim de Bragança e Bourbon. O segundo tllho varão de d. João e C ariota Joaquina nascera no dia 12 de ou­ tubro de 1798, na sala Dom Q uixote do palácio de Queluz. Antônio, prim ogênito de d. João, m orreu aos 6 anos, em 1801, tornando d. Pedro o segundo na linha sucessória. Ajjesar disso, nem o regente nem d. C arlo­ ta se preocuparam com a educação do filho. Em 1808, depois que d. Pedro se m udou com os pais para o Brasil, esse desleixo assum iu proporções quase crim i­ nosas. Criado solto, na Quinta da Boa Vista ou na fa­ zenda Santa Cruz (propriedade tom ada dos jesuítas, a 80 quilôm etros do Rio), Pedro andava sozinho na m a­ ta. brigava a pau e soco com outras crianças, bolinava as escravas. Ali se tornou um exím io mas im prudente cavaleiro: caiu do cavalo 36 vezes.

A

A rudeza desses prim eiros anos pode ter agravado a epilep.sia congênita: aos 18 anos, d. Pedro já sofrerá seis ataques da doença. Alguns, durante cerim ônias ofi­ ciais. que o príncipe não tolerava (no beija-m ão. ele a estendia a adultos, mas, .se uma criança se aproxim ava, ele a socava no queixo). Porém, desde a infância, Pedro revelou ser um sujeito despojado e de bom coração. A ndava com roupas de algodão e chapéu de palha, tom ava banho nu na praia do Flam engo, ria, debochava e zom bava de quem quer que fos.se. Era mau poeta e mau latinista, mas bom escultor e excelente músico: tcx;ava clarinete, flauta, violino, fago­ te. trom bone e cravo. Também tocava um instrum ento e um ritmo malditos: o violão e o lundu, que aprendera em lugares m al-afam ados do Rio, com o a tavem a da Com eta, na m a das Violas, onde o príncipe conheceu aquele que viria a ser seu m elhor amigo. Francisco G o­ mes da Silva, o Chalaça. Deve ter sido lá tam bém que Pedro teve sua iniciação sexual. E, depois que começou, não parou mais: por toda a vida. d. Pedro foi um amante latino, dândi liberal que tomava o que gostava — cava­ los, m ulheres ou roupas. Mas quem convivera com ele concordava com algum as de suas últim as palavras: “Orgulho-m e de ser verdadeiro, hum ano e generoso e de ser capaz de esquecer as ofensas que me são feitas” .

AS AMANTES partir dos 16 anos, d. Pedro adquiriu fama de amante insaciável. Os nobres portugueses e ricos brasileiros escondiam as filhas quando o príncipe passava. A pri­

A

m eira da série de incontáveis am antes foi a bailarina francesa Noémi Thierry, com quem d. Pedro teve um filho (natimorto), antes que a corte enviasse a moça de volta a Paris. Em bora tenha tido relações sexuais — ou tentado 1er— com praticamente qual­ quer mulher que vis.se pela frente, a grande paixão de d. Pedro era D om itila de C astro, que ele fez m arquesa de Santos e que lhe deu quaü-o filhos.

114

H i.s tó r ia d o

B r a .s il

D om Pedro e Domitila (à direita), uma “sensual luso-brasileira de seios e quadris volumosos”, conheceram-se em São Paulo, dias antes de o príncipe proclamar a inde­ pendência. Dom Pedro a levou para m orar em firente do palácio. O caso tomou-se pú­ blico. Dona Leopoldina monreu — de des­ gosto, segundo o povo. Forçado a se casar de novo, d. Pedro dispensou a amante, em 1829. M as não sem escândalo: ao descobrir que o im perador tinha um caso com sua ir­ mã, M aria Bendita, Domitila tentou matála. A m arquesa voltou para São Paulo, casou e morreu aos 70 anos.

A primeira mulher de d. Pedro fo i d. Leopoldina, filha do imperador Francisco 1° de Habsburgo. Os noivos casaram sem se conhecer, em maio de 1817, mas d. Leopoldina (acim a) se apaixonara depois de ver uma imagem do marido. Ao vivo, a partir de novembro de 1817, a paixão aumentou. Nos dois primeiros anos, d. Pedro foi-lhe fiel. Dona Leopoldina lhe deu sete filhos, morrendo em 1826, em consequência de um pario. Em 1829, d. Pedro se casou com a princesa Amélia de Leuchtenberg (abaixo^ com quem teve uma filha. Viúva aos 22 anos, d. Amélia não nuiis casaria. Morreu aos 70 anos.


I n trig a

E 1

nas

C ortes

de

Lisboa

m bora o país tenha com eçado

Na verdade, não era difícil perce­ ber que o propósito básico das C ortes

a rom per os grilhões coloniais

J no instante em que d. João 6° abriu os portos “às nações am igas” , em jan eiro de 1808, os fatos que an­ tecederam a independência do Brasil

era “recolonizar” o Brasil. Em sessões tensas e trem endam ente tum ultuadas, com os deputados quase trocando sopapos (à esquerda), as C ortes deci­

estão diretam ente ligados à R evolu­

diram que o Brasil não apenas deixa­

ção Liberal do Porto, que eclodiu em agosto de 1820.

com o tam bém o vice-reinado, com .se­

ria de ser um reino unido a Portugal

Portugal era então governado pe­ lo m arechal inglês B eresford, que

de no Rio de Janeiro, não seria resta­

expulsara os franceses do país. In­ dignados com a situação — e com o

vem o central, o Brasil seria dividido em províncias autônom as, cujos g o ­

belecido. Em vez de possuir um go­

fato de custearem a perm anência de

vernadores (m ilitares) .seriam nom ea­

d. João 6° no B rasil— , os revoltosos

dos pelas próprias Cortes.

se aproveitaram da ida de Beresford

Foram elim inados tam bém todos os trib u n ais de ju stiç a , as agências

ao Rio de Janeiro para deflagrar o m ovim ento. Além dc forçar d. João a retornar a Portugal, a ju n ta provisó­ ria que a.ssumiu o controle do país traordinárias e C o n stituintes da N a­

e repartições públicas estabelecidos depois de 1807. Além disso, estavam sum ariam ente dem itidos todos os ju i­ zes, advogados, escreventes e buro­ cratas que ocupavam esses postos. E,

ção Portuguesa, que, noutros tempos,

com o se não bastasse, as C ortes ex i­

eram convocadas em épocas de cri­

giam o retom o im ediato a Lisboa do

se. E foi graças à intransigência das

príncipe regente, já que, na opinião

C ortes que os fatos se precipitaram , não deixando aos brasileiros outra

dos deputados, não tendo m ais o B ra­

decidiu reunir as C ortes G erais E x­

opção que não a luta pela indepen­ dência. C om o Portugal não tivesse

sil um govem o central, a presença de Cam 46 deputados brasileiros contra 109 íusos, as Cortes de Lisboa decidiram dissolfer o reino do Brasií f o i o estopim da independência

um a C onstituição, d. João 6 ° foi for­

d. Pedro no Rio passava a ser m era­ m ente figurativa. Porém , as Cortes decidiram ainda

çado a ju rar um a nova, baseada na

que não havia lugar para d. Pedro em

C onstituição espanhola de 1812.

Portugal: o pnncipe deveria fazer, in-

Pelas novas regras do jogo, o Bra­

cognitam ente, “um a viagem pela In­

sil — que, de.sde 1808, ocupava uma posição de suprem acia no im pério

glaterra, França e Espanha para apro­ fundar sua educação, de m odo que

português— perdia .seus privilégios

pudesse, algum dia, ocupar condigna-

e teria de voltar a .se subm eter intei­

m ente o trono” lusitano.

ram ente ao gov ern o da m etrópole.

Um a declaração de guerra não

M as o novo regim e, representativo,

teria efeito maior: enquanto o Brasil

perm itiria a participação brasileira

se preparava para entrar no século 19,

no governo de Lisboa. O problem a era que, de acordo com as novas leis,

as C ortes propunham um retom o ao “status quo” do século 17. Em bora as determ inações fossem absurdas e in­

as colônias eram sub-representadas e as eleições, indiretas. A ssim sendo, das 181 cadeiras das Cortes, apenas

ju stas, d. Pedro estava decidido a cum pri-las. A final, as tropas p o rtu ­ guesas estacionadas no Rio e os co­

72 poderiam ser ocupadas por de­ putados brasileiros — e, entre es.ses.

m erciantes lusitanos residentes no

havia os que eram francam ente fa­

país as.sim o exigiam . M as então, em

voráveis à m etrópole. A pesar dessas vantagens, as C or­

janeiro de 1822. o príncipe recebeu

os repre.sentantes do Brasil chegas­

um a petição escrita por José B onifá­ cio e assinada por toda a ju nta provin­ cial de São Paulo. Era um docum ento

sem a Lisboa para. cm 7 de m arço de 1821 — com som ente 46 dos 72 bra­

poderoso, que clam ava ao príncipe que desafiasse as C ortes e pem iane-

tes nem sequer esperaram que todos

sileiros presentes no plenário— , vo­ tar a em enda que sim plesm ente dis­ solvia o reino do Brasil.

Nas lutas que se seguiram âs determitutções das Cortes, d. Pedro desafiou o general luso AiHlez, com cuja mulher matttínha um caso

cesse no Brasil. O texto, com ovente, cnKK'ionou d. Pedro — e m udou o ru­ m o da história do Brasil.

A Independência e o Primeiro Reinado

115


Do

F ico a o G r ito

ano de 1822 começou dramaticam ente para d. Pedro. Foi no dia 1° de janeiro que ele re­ cebeu a petição escrita por José Bonifácio e assinada por toda a junta provincial da cidade. Até então, apesar de alguns cartazes espalhados pelas ruas do Rio e das m anifestações cada vez m ais entusiásticas que vinha recebendo nas ruas ou no teatro, d. Pedro não registrara nenhum sinal claro de apoio à sua perm anência no Brasil. Mas a carta de B onifácio era tocante. Segundo ela. as Cortes de Lisboa, baseadas “no despropósito e no despo­ tism o”. bu.scavam impor ao Brasil “um sistema de anarquia e escravidão” . M ovidos por uma “nobre indignação” , os paulistas estavam “prontos a derra­ mar a última gota do .seu sangue e a sacrificar todas as suas fx)sses para não perder o adorado príncipe”, em quem colocavam “suas bem-fundamentadas es­ peranças de felicidade e honra nacional” . O LORDE MERCENÁRIO Os cariocas, que pensavam da m esm a m anei­ Apelidado de “lobo-do-mar” p or Napoleão, ra, organizaram um abaixo-assinado com 8.000 lorde Cochrane era um dos mais brilhantes nom es e o entregaram ao príncipe um a sem ana de­ comandantes navais do mundo. Ao se pois, numa cerim ônia realizada ao m eio-dia de 9 de envolver num escândalo na Bolsa de Valores janeiro. Depois de ler o docum ento, d. Pedro de Londres, fo i demitido da Marinha britânica. “A lugou” seus serviços ao Peru anunciou solenem ente sua decisão: “ Se é para o e ao Chile, e fo i figura-chave na bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao independência desses dois países, até ser povo que fico ” . R eunido defronte do Paço contratado por d. Pedro como almirante da M unicipal, o povo saudou a decisão do príncipe. Marinha brasileira. Cochrane reprimiu os No dia 11. as tropas portuguesas tentaram obrigar rebeldes do M aranhão e de Pemambuco, o príncipe a em barcar para Lisboa. A poiado pelo tomando-se personagem polêmico na povo e por tropas leais. d. Pedro resistiu. A inde­ consolidação da independência. pendência, agora, era um a questão de tempo.

O

]16

H i s t ó r i a d o B r .^ s il

A petição de José Bonifácio e o abaixo-assi­ nado que resultou no “Dia do Fico" m arcaram a aproximação entre d. Pedro e a facção mais conser­ vadora da elite brasileira, form ada por hom ens que, na maioria, tinham freqüentado a Universidade de Coimbra e partilhavam da idéia de um império lusobrasileiro — a elite coimbrã. Cinco dias depois de expulsar do Rio as tropas lusas, comandadas pelo general Avilez (com cuja mulher tinha um caso), d. Pedro organizou um novo m inistério e. para liderálo, escolheu José Bonifácio de Andrada e Silva — o nome mais destacado da elite coimbrã. Em 1° de agosto, declarou inim igas todas as tropas enviadas de Portugal sem o seu con.sentimento. No dia 14. partiu para São Paulo para contornar uma cri.se na Província. No dia 2 de setem bro, no Rio, d. L eo­ poldina leu as cartas chegadas de Lisboa com as abusivas decisões das Cortes. Reuniu os ministros (acima) e enviou m ensageiros a d. Pedro. No dia 7 de setem bro, sofrendo com a dianréia. o príncipe recebeu as cartas às margens do Ipiranga e concluiu que era hora de rom per com a metró­ pole. No dia seguinte, já recuf>erado. após a noite com a nova amante, iniciou a viagem de retom o ao Rio de Janeiro, onde chegou no tem po recorde de cinco dias. deixando toda a tropa dez horas para trás. Na capital, foi saudado com o herói. Em 1° de dezem bro, aos 24 anos, foi coroado não rei. mas imperador, para m ostrar que. apesar do direito m o­ nárquico, tam bém fora eleito pelo “povo". O povo em breve se decepcionaria.


A C o n s t it u in t e o colocar no irono um rei português, o Brasil fez uma transição relativa­ m ente tranquila do regim e colonial para o monárquico. Mas, ao longo dos dois anos que se seguiram ao grito do Ipiranga, um con llito entre con.servadores e radicais eclodiria na Assem bléia C onstituinte, eleita para elaborar a Constituição da nova nação. A C onstituinte com eçou a se reunir no Rio em maio de 182.3. Na abertura dos trabalhos, d. Pedro citou uma frase colocada por Luís 17 na Carta Constitucional da França que defm ia bem seus propósitos: o im perador do Brasil juraria defender a futura Constituição “se ela fosse digna do Brasil e dele próprio". Era um sinal claro do que viria a acontecer. A posição da m aioria dos constituintes pode ser definida com o "liberal-deniocrata” : seu objetivo era instituir uma m onarquia cons­ tituinte que respeitas.se os direitos individuais e delim itasse claram ente o poder do monarca. Mas d. Pedro queria poder de veto e controle total sobre o Legislativo. Por isso. surgiram desavenças entre o im perador e os constituin­ tes. A disputa acabou com a vitória do mais forte: em 12 de novem bro de 1823, d. Pedro destituiu a C onstituinte e m andou o Exército invadir o plenário. M uitos deputados foram presos e exilados — entre eles o ex-todo-podero.so José Bonifácio. O Brasil independen­ te entrava na era do arbítrio e da exceção.

e a

C o n s t it u iç ã o

A

undada na Inglaterra em 1717, a maçonaria — uma sociedade “secreta” de pensamento e filantropia— foi um núcleo antiabsolutista no Brasil. Em seus clubes e “loja.s” tramou-se muito pela inde­ pendência do Brasil —desde antes da revolução de 1817, em Pemambuco, da qual participaram muitos maçons (“pedreiro”, em francês): José Bonifácio (acima) era maçom da linha monarquista; o deputado Gonçalves Ledo, da linha republicana. Em 1824, d. Pedro fechou todas as lojas maçônicas.

F

Um projeto de Constituição foi rapida­ mente elaborado e, em 25 de março de 1824. era prom ulgada a prim eira C arta M agna do Brasil — e ela perduraria, quase inalterada, até fevereiro de 1891. A Constituição de 1824 esta­ beleceu um govemo monárquico, hereditário e constitucional representativo. O imperador, in­ violável e sagrado, não estava sujeito a respon­ sabilidade legal alguma; exercia o Poder Exe­ cutivo com os ministros (escolhidos por ele) e 0 m oderador com seus conselheiros. Também podia escolher um entre os três senadores elei­ tos por Província e suspender ou convocar os Conselhos Provinciais e a Assembléia Geral. A eleição para a Câmara dos Deputados (eleitos pelo “povo”, por voto indireto) era tem­ porária; a eleição para o Senado era vitalícia (e, graças a manobras políticas, o imperador aca­ bava apontando não um. mas os três senadores de cada Província). Para votar era preciso ter 25 anos e 100 mil-réis (eleitores de paróquia) ou 200 mil-réis (eleitores de província) de ren­ da anual. Para ser deputado era preciso ter 2(X) m il-réis de renda anual; para senador, a renda necessária chegava a 8(X) mil-réis por ano. Os presidentes das Províncias eram diretamente escolhidos pelo imperador. Dom Pedro co m ­ pusera o "H ino da Independência” (acima). Agora, o país dançaria conform e sua música. O Brasil independente entrara na era do abso­ lutism o ilustrado.

A Independência e o Primeiro Reinado

117


J rnais ilustrado político bra­ sileiro de todos os tem pos, José Bonifácio de Andra­ da e Silva, nasceu em Santos em 13 de junho de 1763, filho de um dos com erciantes mais ricos da ci­ dade. Em 1783, foi para a Universi­ dade de C oim bra, onde se form ou em direito, filosofia e em ciências naturais. Em 1789. foi denunciado à Inquisição por negar a existên­ cia de Deus. A m igos e parentes in­ fluentes conseguiram tirar seu nome da lista, enviando-o para os clim as intelectualm ente mais am enos da Europa do Norte. Durante os anos revolucionários de 1790-91, ele es­ tava na França, estudando quím ica e geologia. Em 92, especializou-.se em m in e ralo g ia e m etalu rg ia em Freiburg. D urante a década que passou no exterior, conviveu com Hum boldt. Priestley, Volta e Lavoi­ sier. Na Suécia, descobriu e deu no­ me a quatro espécies e oito subes­ pécies m inerais. Era especialista em agricultura, ciências florestais, filosofia clássica, etnologia indí­ gena. econom ia e sociologia. Em 1800. B onifácio voltou a Li.sboa e foi nom eado intendente das M inas e Metais. Depois, par­ ticipou da luta contra o invasor francês. Só retom ou ao Brasil em 1819. Baixinho, curvado, gri.salho, de olhar m alicioso: vaidoso, enér­ gico, teim oso, ateu e m ulherengo. José B onifácio tornou-se o prin­ cipal arquiteto da Independência. Não era m açom convicto; vi­ rou Grande Irm ão do Oriente. Não era. em princípio, favorável à in­ dependência; foi m itificado com o seu patriarca. Não era absolutista; agiu com o tal. Era um liberal a fa­ vor de um E xecutivo forte. mas. por sua intransigência, a C onsti­ tuinte acabou fechada. Aos 65 anos. Bonifácio dan­ çava lundus e gerava filhos ilegíti­ mos. “As m ulheres”, diria, “foram a perdição de m inha existência. Eu as am o mas não as estim o” . Apesar dos conflitos políticos com d. Pe­ dro, foi o tratam ento hostil que Bo­ nifácio dispensava à m arquesa de Santos que levou o príncipe a afastar-se dele. A inda assim , d. Pedro e o Brasil devem m uito ao talento ríspido de Jo.sé Bonifácio.

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B o n if á c io

O

/18

H ls tó ru

D ü B ra s il

J o sé Bonifácio (1763-1838), filh o íie um a d a s fa m ília s ntais ricas de Santos ('abaixo^, tir o u P atriarca da Independência, em bora fo s s e a f a t o r da união de Brasil e Portugal

Não é fácil rotular o pensamen­ to de José Bonifácio de acordo com as divisões m aniqueístas da políti­ ca brasileira. No cam po social, de­ fendia idéias progressistas, como a gradativa extinção do tráfico de es­ cravos e da escravidão. Exigia um tratamento decente aos índios bra­ sileiros, sobre os quais publicara algumas teses. Era favorável à re­ forma agrária, à livre entrada de imigrantes no país e ao trabalho as­ salariado. No cam po estritamente político, Bonifácio foi um liberal con.servador. Adversário ferrenho das “esfarrapadas bandeiras da suja e caótica dem ocracia” , defendia um a m onarquia repre.sentativa. Queria uma assembléia constituída por deputados eleitos indiretamen­ te, pelas cam adas dom inantes e m ais ilustradas da população, mas com mandatos limitados. Os depu­ tados representariam o povo no m o­ m ento presente; o imperador repre­ sentaria os interesses permanentes da nação, do passado e do futuro. Ainda assim , Bonifácio era a favor de um Executivo indepen­ dente e forte. A poiava o im perador porque achava que poderia contar com seu apoio no caso de um pro­ vável conflito com a maioria parla­ mentar. E o conflito logo eclodiu, é claro: Bonifácio, com o m inistro todo-poderoso, e seus irmãos man­ daram prender, exilar, investigar e m o lestar inúm eros adversários políticos no Rio e em São Paulo — especialm ente os portugueses. Foi uma briga quase banal en­ tre soldados lusitanos e um boticá­ rio brasileiro que levou d. Pedro a dissolver a Constituinte e mandar para o exílio Bonifácio e seus ir­ mãos — ainda que tenha detenninado que os três recebessem polpuda pensão mensal, à custa do Erário. Por seis anos, Bonifácio viveria na Europa, sendo autorizado a voltar ao Brasil em julho de 1829. Ao abdicar do trono, em 1831. d. Pedro nomearia como tutor de seus “amados filhos o cidadão mui­ to honrado, íntegro e patriota José Bonifácio, meu amigo de verdade”. Foi a reconciliação entre velhos ca­ maradas. Bonifácio foi destituído em 1833. Preso, julgado e absolvi­ do, morreria em Niterói em 1838.


As

G u e rra s d a In d e p e n d ê n c ia

pesar de o processo de in d ependência ter sido relativam ente pacífico e o pais ter passado da fase colonial para o regim e m onárquico prati­ cam ente inalterado, com a m anu­ tenção de tcxlos os privilégios das elites — inclusive, e especialm en­ te, a escravidão— , uma série de contlitos arm ados espocaram pe­ lo pais após o grito do Ipiranga. Ainda assim , o Brasil desvencilhou-.se do ju g o de Portugal de uma form a m uito mais am ena do que os países da A m érica e sp a­ nhola e, além de ser o único a m anter o regim e m onárquico, foi também o único a permanecer uni­ do, sem esfacelar-se num a série de repúblicas. Os principais con­ flitos até a concretização plena da independência se deram na Ba­ hia, no M aranhão e na C isplatina (atual Uruguai, então território to­ m ado pelo Brasil). Neles se de.stacaram dois oficiais europeus: o alm irante britânico lorde C ochra­ ne e o francês Pedro Labatut. am ­ bos fiéis a d. Pedro 1°. O maior confiito entre tropas brasileiras e portuguesas se deu na Bahia e dele surgiram duas heroí­ nas: Joana Angélica, abadessa do convento da Lapa, morta a baio­ neta na porta do convento que sol­ dados portugueses decidiram in­ vadir. e Maria Quitéria de Jesus {à direita), que .se alistara no Exér­ cito patriota sob o nome de José Cordeiro. Ela lutou com bravura, fez dois prisioneiros portugueses e foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Morreu po­ bre. cega e esquecida.

C O N FE D E R A Ç Ã O DO EQ U A D O R

A

O quê: A Confederação do Equador foi um movimento republicano e sepa­ ratista que ecUxiiu em protesto contra o fechamento da Assembléia Legislati­ va Constituinte e contra a Constituição de 1824 (que centralizava o poder nas mãos do imperador, Pedro 1°, e nega­ va autonomia às Províncias). Foi basi­ camente um levante urbano e pt)pular. Onde: O movimento se iniciou em Pernambuco —a mais “nativista” das Províncias brasileiras e onde. já em 1817, estourara outra revolta igual­ mente separatista e republicana. Ade­ riram a Pemambuco as Províncias da Paraíba. Rio Grande do Norte e Ceará —Piauí e Pará se uniriam a seguir. Es­ sas Províncias formariam um Estado federativo independente do Brasil. Quando: Em 2 de julho de 1824. o chefe ostensivo do levante. Manuel de Carvalho Pais de Andrade (casado com uma americana e grande admi­ rador dos Estados Unidos), publicou um manifesto chamando d. Pedro 1° de traidor e proclamando a Cimfederação do Equador, cuja bandeira traria os dizeres: Religião. Indeftendência. União e Liberdade. Carvalho obteve o apoio do ptivo e da imprensa locais. Como a revolta foi debelada: As tropas comandadas pelo brigadeiro Lima e Silva e pelo almirante Co­ chrane sitiaram Recife em 28 de agosto de 1824. Em 11 de setembro, invadiram a cidade; no dia 17. a luta acabou. As punições vieram ”sem clemência e sem demora". Pais de An­ drade fugiu para a Europa; três outros líderes —entre eles frei Caneca {à es­ querda). que participara da revolução de 1817— foram condenados à mor­ te. Como não havia carrasco que se dispusesse a enforcá-lo. frei Caneca foi fuzilado, em 1825. Em 2 de julho Je 1823. as forças brasileiros, apoiadas por senhores de engenho do Recôncavo Baiano e pela frota liderada por Cochrane. e.xpiilsarant as tropas portuguesas do coronel Madeira de Melo. Para os haianos. 2 de julho pa.s.sou a .ser uma data tão sif^nifwativa quanto o 7 de Setembro e ainda é comemorada em Cachoeira, onde o levante pró-independência .se iniciara com o protesto de junho de 1822 (à esquerda;.

A Confederação do Equador foi .semelhante à revolução de 1817. A reação de d. Pedro que negou os inúmeros pedidos de clemência aos líderes do movimento, também se assemelhou à atitiule de d. João 6°. que reprimiu os revoltosos durante a rebelião de 18] 7. Na cena à direita. o pai do comandante rehelde José Peregrino convence o filho a se entregar às autoridades. Peregrino acabou fuzilado.

A Independência e o Primeiro Reinado

119


A b d ic a ç ã o '"o m esmo quarto de teto circu­ lar e côncavo, localizado na —. ala sudeste do palácio de luz, com paredes adornadas com ima­ gens do Dom Quixote, de Cervantes — no m esm o quarto onde, 36 anos antes, ele nascera, d. Pedro 1° morreu serenam ente, às 2 e m eia da tarde do dia 24 de setem bro de 1834. Não fora um príncipe quixotesco. Em três dé­ cadas e meia de vida, o folgado, m u­ lherengo e m ão-fechada d. Pedro tive­ ra três coroas, fundara o Im pério do Brasil, vencera os rancores da mãe e do irmão, d. Miguel, fizera seus suces­ sores de ambos os lados do Atlântico e. em bora tenha centralizado o poder em suas m ãos, sem pre agiu constitu­ cionalm ente. As duas C onstituições que criou (em 1824 no Brasil e em 1834 em Portugal) foram as primeiras a garantir os direitos básicos dos cida­ dãos luso-brasileiros. Dom Pedro não era perfeito — “nem aperfeiçoável” , segundo um de seus biógrafos, o am e­ ricano Neill Macaulay. Ele engravi­ dara freiras, desquitadas e viúvas; dis­ solvera m anifestações populares com baionetas e a Assem bléia com fuzis; exilara seus am igos e endividara o Brasil. A inda assim, seria o m elhor m onarca português do século 19.

N

120

H is tó r ia d o B ra s il

e

M

orte

Em m arço de 1824, d. Pedro 1° dom inava a cena política brasileira, tendo poderes para dissolver a C ons­ Que­ tituinte e baixar uma Constituição. Se­ te anos mais tarde, seria obrigado a abdicar do trono. O que houve nesse período? Dom Pedro meteu-se em crises in­ tem as e extem as. Incom patibilizou-se com o Exército, com o povo e com os políticos. Viu o Brasil se endividar e Portugal rebelar-se. D eclarou uma guerra desastrosa contra a Argentina, a partir de dezembro de 1825, sendo ven­ cido em Ituzaingó em 1827. O Exér­ cito afastou-se do imperador, indigna­ do com a derrota e com a presença de portugueses no comando. O povo, re­ crutado à força, passou a odiar d. Pe­ dro. Com o se não bastasse, o conflito deixou o Brasil ainda mais endividado. A crise financeira se iniciara em 1825, quando, para obter de Portugal o re­ conhecim ento de sua independência, o Brasil foi forçado a pagar 600 mil li­ bras à metrópole e assum ir o pagam en­ to de um empréstim o de 1,4 milhão de libras que Portugal tlzera em bancos ingleses. Assim sendo, no m esmo ano o Brasil negociaria seu primeiro em ­ préstimo externo: pegou 3,6 milhões de libras do banco de Nathan Roths-

O CHALAÇA child. com juros anuais de 5% e um desconto inicial de 18,33%. Em 1826, o dinheiro acabou e d. Pedro recorreu à emissão de m oedas de cobre, que, além de serem postas em circulação com um valor quatro vezes superior ao valor nominal, ainda seriam grande­ mente falsificadas. Em 1827, o deputa­ do mineiro Bernardo de Vasconcelos ia ao plenário fazer um alerta contra a “inchação” da economia. Não era só: surgiram no Rio e em São Paulo inúmeros e “violentíssimos” jom ais independentes — e os ataques a d. Pedro se tomaram um esporte nacio­ nal. Embora também atuasse como jo r­ nalista. o imperador fechou muitos dos pasquins. Mas, quando o jom alista Li­ bero Badaró foi assassinado em São Paulo, em novembro de 1830, ficou cla­ ro que ele não .se sustentaria por muito mais tempo no poder. O confronto en­ tre brasileiros e portugueses chegava ao auge. Em 7 de abril de 1831, d. Pedro abdicou em nom e de seu filho de 5 anos, d. Pedro 2° — nom eando com o seu tutor José Bonifácio. De volta a Portugal, d. Pedro ainda dermbaria seu irmão usurpador, d. Miguel, aliado dos absolutistas. Quando o imperador m or­ reu. em 1834. o Brasil, envolto nas tur­ bulências da Regência, mal percebeu.

Beberrão, mulherengo, violeiro, capoeirisla e ladino, Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, tomou-se o melhor amigo de d. Pedro, seu secretário particular e confessor. Ambos se conheceram, diz a lenda, na nuil-afamada tavema das Cometas, na rua das Violas, no Rio, e viraram inseparáveis. Chalaça estava às margens do Ipiranga em 7 de setembro de 1822. Filho adotivo de um ourives que veio para o Brasil com d. João. o amigo do rei tomou-se o alvo principal dos ataques de brasileiros contra lusos. Em ■1830. d. Pedro foi forçado a mandá-lo para fora do país e o fez embaixador em Nápoles, com salário de US$ 5.000 anuais. Quando d. Pedro morreu, seu “parente de espírito" estava ao lado.


A R eg ên c ia

e as

R evoluções

O JO V E M IM P E R A D O R

s n ove an o s d o p e n o d o reg en cial d e s­

A o s liberais m o d erad o s foi reservado o papel

v en d am todas as m azelas d a política b ra ­

d o m arisco: ficaram entre a re ssaca dos exaltados

sileira — m uitas das qu ais p e rm an ecem

e a d u re za de rocha d o s absolutistas. O s exaltados

inalteradas. Q u a n d o d. P ed ro 1° abdicou, em 7 de

d e fe n d ia m a a u to n o m ia d a s p ro v ín c ia s e as li­

abril de 1831, a m aio ria d o s se n ad o res e d e p u ta ­

b e rd a d e s in d iv id u a is. O s a b so lu tista s, o u c ara -

O

Embora no mesmo instante em que seu pai abdicou do trono, d. Pedro 2°, então com 5 anos, se tomasse o novo imperador do Brasil, a Constituição de 1824 afirmava que ele só poderia chefiar a nação a partir dos 18 anos

d o s n em se q u e r pôde ser avisada: o P a rlam en to

m u ru s, m u ito s d e le s b u ro c ra ta s p o rtu g u e s e s ,

de idade. Junto com d. Pedro 2°,

e stav a d e férias. C o m o o p aís não p o d ia fica r sem

q u e ria m a v o lta d e d. P e d ro . A s p ro v ín c ia s c o n ­

ficaram no Brasil suas irmãs, as

c o m a n d o , u m a R eg ên cia T rin a P ro v isó ria a ssu ­

tin u a v a m g o v e rn a d a s p e la s o lig a rq u ia s locais:

princesas d. Januária e d. Paula, de 9 e

m iu o poder: o s se n a d o re s C a rn eiro de C a m p o s

a q u e stã o e ra q u e , e n q u a n to a lg u m a s d e la s (R io

e C a m p o s V ergueiro e o b rig ad e iro F ra n c isco de

d e Ja n e iro , S ã o P a u lo e M in a s G e rais) tin h a m

8 anos (abaixo). José Bonifácio era o tutor da jovem família real. Acusado de planejar a volta de

L im a e S ilv a fo ram e le ito s p e lo s p o u c o s p a rla ­

re p re se n taç ão e in flu ê n cia no p o d e r cen tral, o u ­

m en ta re s q u e se a ch av am no R io de Janeiro.

tras (R io G ra n d e d o S u l, B a h ia e P e m a m b u c o )

D o is m e se s d e p o is, u m a d isp u tad a ele içã o

d. Pedro Bonifácio fo i destituído do cargo e preso em dezembro de 1833,

e sta v a m q u a se e x c lu íd a s d o j o g o p o lítico .

e sc o lh e ria o s três in te g ra n te s d a R e g ê n c ia T rin a

A c o n fu são aum en tav a po rq u e nem m esm o

P e rm a n e n te . F o ra m e le ito s o s d e p u ta d o s C o sta

e ntre os grupos dom in an tes hav ia co n sen so sobre

sendo absolvido um ano e meio depois. Em 1840, com o golpe

C a rv a lh o e B rá u lio M u n iz e, o u tra v ez, o b rig a ­

qual o arranjo institucional m ais co n v en ien te para

da maioridade, d. Pedro 2° assumiu o

d e iro L im a e S ilv a. O s três e ram lib erais m o ­

seus interesses, nem sobre o pai3e l do E stad o na

govemo do Brasil. Tinha 14 anos.

d erad o s. M as, a o c h e g a re m a o p o d e r (a cim a , a

e conom ia. C in co revoltas provinciais (C abana-

c e r im ô n ia d e p o s s e ), e sse s e x -o p o sic io n ista s d e

g em , B alaiada, Sabinada, F arroupilha e Praieira)

d. P e d ro 1° n ã o e n c o n tra ra m paz. O s a rra n jo s

a m e aç a ram a u nidade nacional. A C onstituição

q u e d. P e d ro fiz e ra p a ra g a ran tir u m a tran sição

foi a lterad a (com o A to A dicional de 1834), a re­

re la tiv a m e n te tran q ü ila e ram frág e is e artificiais

g ên cia passou de T rina a U n a e o país, co n v u lsio ­

e, sem ele, ru íram instantaneam ente. A s a co m o ­

nado, m ergulhou na “crise d a R egência” . Para

d a ç õ e s, c o m p o s iç õ e s e c o n c h a v o s d o p ro c e ss o

c o m p le ta r a v e rtig e m p o lític a d e s s e p e río d o , a

p o lítico arq u iteta d o p elo prín cip e fo ram substi­

R e g ên c ia term inou co m um golpe. E o g olpe da

tu íd o s p o r u m a tu rb u lê n cia g en era liz ad a e p ro ­

m aioridade foi, surpreendentem ente, articulado

fu n d a q u e q u a se ra ch o u a n^ção.

pelos liberais e não pelos conservadores.

A Regência e as Revoluções

121


A s R eg ên cia s T r íplic e pesar de terem ficado no poder por apenas dois meses, os três regentes provisórios agiram rapidam ente. Sua primeira ação foi reempossar, no ato, o m inistério que d. Pedro destituíra no dia 5 de abril — estopim da crise que resultou na abdicação. Em seguida, votaram a lei que re­ gulam entava seus próprios poderes. Ficou decidido que os regentes não poderiam dissolver a C âm ara nem conceder títulos nobiliárquicos, mas, com o o imperador, es­ colheriam os senadores, indicados em lis­ tas tríplices pelas Províncias. No dia 17 de junho de 1831, a Assembléia Geral elegeu a Regência Permanente. Embora os regentes tivessem nomeado como ministro da Justiça o enérgico deputa­ do Padre Diogo Antônio Feijó — dando-lhe grande autonomia de ação para “restabelecer a ordem pública”— , o fato é que os quatro anos durante os quais a Regência Trina Per­ manente ficou no poder estão entre os mais conturbados da história do Brasil. Motins, quarteladas e levantes (a Abrilada, a Setembrada. a Novembrada. a Revolta das Panelas etc.) revelavam um país em convulsão, di­ vidido entre chim angos (ou m oderados), caram urus (restauradores absolutistas) e ju rujubas (exaltados ou farroupilhas). Foi um período marcado por calúnias, assassinatos e escândalos políticos, no qual brotou o germe dos dois grandes partidos imperiais, o L ibe­ ral (form ado por padres e proprietários ru­ rais menos tradicionais de São Paulo, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, além da clas­ se média urbana) e o Conservador (dos ma­ gistrados, burocratas, comerciantes lusos e ruralistas nordestinos). Um ato institucional (ou adicional), de 12 de agosto de 1834, de­ cidiu que a Regência não .seria Trina, mas Una. Pior para o futuro regente uno.

e

U

na

A

122

H is tó r ia d o B ra s il

GALERIA DE REGENTES O p a d r e D iogo A ntônio Feijó facim a^ f o i o p rim e iro regente único, sen d o su b s titu íd o p o r A ra ú jo Lim a ('abaixo, n a e x tre m a direita^. A n tes deles, fo r a m regentes, entre outro s, J o s é Costa Carvalho, C arneiro de C am pos e Lim a e Silva (a p a rtir da esquerda^

No dia 7 de abril de 1835, Diogo Antô­ nio Feijó — padre taciturno e sombrio, fi­ lósofo cultor de Kant e clérigo ein luta com Roma por ser contra o celibato— venceu a eleição contra o rico senador Holanda C a­ valcanti por m enos de 600 votos (2.828 a 2.251) e se tomou regente uno. Foi, basica­ m ente, uma vitória de M inas Gerais, pois Feijó tinha m uitos adversários no Rio de Janeiro e em São Paulo, e Cavalcanti, fazen­ deiro em Pemambuco, era o canditado do Nordeste. Com a saúde abalada, Feijó não era mais o ministro enérgico de outros anos. Em minoria no Parlamento, tentou formar um ministério de conciliação, mas seus ini­ m igos 0 rechaçaram. Quando a Guerra dos Farrapos estourou, em 1835, Feijó estava isolado no poder. Renunciou em setembro de 1837, em favor do menos radical de seus inim igos, o senador A raújo Lim a. A inda assim, após vencer o eterno candidato Ho­ landa Cavalcanti por 4.308 votos a 1.981, Araújo Lima deu início ao período chamado de “regresso” (quase “retrocesso”). “ Regressistas” eram os conservadores, favoráveis à centralização e ao “regresso” da autoridade. A dotaram esse nom e em reação à tentativa de Feijó de form ar um partido que se cham aria Progressista. De qualquer m odo, o gm po ligado a Feijó da­ ria origem ao Partido L iberal, e a turm a de Araújo Lim a fundaria o Partido C onserva­ dor. Eleito em abril de 1838, o senhor de engenho A raújo Lim a tlcaria no poder até 23 de julho de 1840. Em m aio desse ano. o regente ba.seou-se num a “interpretação” do Ato Adicional para m ergulhar o país num estado policialesco. Dois meses de­ pois, os liberais articularam uma “reinterpretação” do m esm o ato para dar o golpe da m aioridade e em possar d. Pedro 2°.


A C abanagem O quê: Apesar de ter eclodido devido aos de­ sentendimentos entre os dois grupos da elite local a respeito da nomeação do presidente da Província, a Cabanagem foi, na verdade, um levante popular — talvez o maior ocorrido no Brasil— , que uniu cerca de 3.000 mestiços, ín­ dios e negros, os chamados “cabanos”, em fran­ ca ofensiva contra a ordem estabelecida. Onde: A rebelião ocorreu basicamente na ci­ dade de Belém, mas a febre revolucionária espalhou-se pelo Baixo Tocantins, Santarém. Óbidos e até pelo Amazonas. Q uando: Os conflitos mais sangrentos se de­ ram entre janeiro de 1835 e abril de 1836. Mas as origens da Cabanagem podem recuar até 1831 (quando 256 revoltosos morreram asfi­ xiados no porão do brigue Palhaço) e seu fmal só se deu em fins de 1840. Por quê; Supostamente os cabanos lutavam contra a nomeação do presidente da Província feita pelo poder central. Mas na verdade a Cabanagem foi revolta econômica e social. Como transcorreu a luta: Os cabanos mata­ ram o presidente e o comandante militar do Pará. Durante um ano, mandaram em Belém. Foram duramente reprimidos em 1836. Cerca de 30 mil pessoas morreram.

A

e a

Sabin a d a

p e s a r de to d a s e la s terem se desetirolado m a is ou tnenos m) m esnio p e r ío ­ do — e íeretn e n co n tra d o na d e so rg a ­

nização social e política do p e río d o regencial um so lo fé r ti l p a ra g e n n in a r —, o f a to é que as revoltas e rebeliões que eclodiram em q u a ­ se to d a s a s P ro vín cia s do B ra sil entre 1830 e 1850

não p o d e m e n ã o d evem s e r e n q u a ­

d ra d a s n u m a m o ld u ra itnica. N e m

to d a s

fo r a m revoltas p o lític a s — e m h o ra pra tica m ente todas tivessem com o estopim o conflito e ntre o lig a rq u ia s locais. N e m to d a s fo r a m re­ b e liõ e s e c o tu m ic a s — tnas os in te re sses c o ­ m ercia is em jo g o ttunca deixaratn de fa z e r p a r le de se u s e n to r n o s. N em to d a s fo r a m re b e liõ es so c ia is —p o ré m , a s incertez.as e d i­ fic u ld a d e s a q u e as ca tn a d a s tnais p o b re s da p o p id a ç ã o se m p re fo r a m s u b m e tid a s em g e ­ ra l lev a ra m o s reb eld es a c o n ta r co m o apoio de ttegros, ex-escravos, índios, ja g u n ç o s e d e s ­ validos em geral. EiU retanto, c om o se vê nesta e n a s p á g i­ n a s seguintes, cada um a d a s revoltas o c o rri­ d a s d u ra n te a “crise da R e g ê n c ia " m a n teve c a ra c te rística s pró p ria s, re su lta n tes d e um a realidade local, fo s s e em S a lva d o r facim a)

O quê: A Sabinada foi uma revolta separatista e republicana, que pretendia transformar a Pro­ víncia da Bahia em república provisória, inde­ pendente do Império do Brasil, pelo menos até a maioridade de d. Pedro 2°. Onde: Apesar das pretensões provinciais, a Sabinada restringiu-se à cidade de Salvador, já que as forças rebeldes não só foram incapazes de conquistar as cidades do Recôncavo Baiano como ainda foram sitiadas pelos exércitos ar­ mados pelos senhores de engenho dessa região —e vencidas por eles, com o apoio do Exérci­ to imperial. Quando: A rebelião teve início em 7 de no­ vembro de 1837 e só foi inteiramente sufocada em março de 1838. Por quê: Embora tenha se levantado contra o poder central, a Sabinada foi um conflito da clas.se média baiana contra a supremacia dos se­ nhores de engenho. Contou com apoio popular, mas foi liderada pelo médico Francisco Sabino (acusado de matar a mulher). Como: Os “sabinos” tomaram Salvador em 7 de novembro de 37, e foram cercados por terra e mar pelos legalistas. Em 13 de março puseram fogo na cidade, mas se renderam no dia se­ guinte. Quatro mil pessoas morreram.

f o s s e em B elétn fabaixo).

A Regência e as Revoluções

123


A B ala ia d a O quê: Ainda que tivesse ligação com os desman­ dos da política local e quisesse derrubar o presi­ dente da Província, a Balaiada perdeu o rumo polí­ tico e se tomou a mais desenfreada manifestação de banditismo sertanejo a assolar o Brasil na Re­ gência. Os saques e as pilhagens feitos por bandos de marginais e desvalidos —jagunços, vaqueiros e escravos libertos— caracterizaram o movimento. Onde: A anarquia espalhou-se por toda a Pro­ víncia do Maranhão, mas os principais combates ocorreram no sul da Província, na fronteira do Piauí, em São Luís e Caxias. Quando: A insurreição começou em 13 de de­ zembro de 1838, quando o vaqueiro cafíizo Rai­ mundo Gomes, o Cara Preta, invadiu a cadeia para libertar o irmão. Juntaram-se a ele Manuel Fran­ cisco dos Anjos Ferreira, apelidado de Balaio (o que deu nome à revolta) —cuja filha fora violen­ tada por um policial— e o negro Cosme, líder de 3.000 escravos libertos. Em agosto de 1839, os re­ voltosos tomaram a cidade de Caxias, liberada no mesmo mês pelo coronel Luís Alves de Lima e Silva, que se tomou duque de Caxias. Os rebel­ des foram anistiados, menos Cosme, enforcado. O movimento só se encerrou em janeiro de 1841. P or quê: Foi uma revolta social que descambou para o saque puro e simples.

E

1

J

H

l s t ó r ia

do

B

r a s il

P

ra ieira

m b o ra os c o n flito s m a is co n h ec id o s O quê: Apesar de ter eclodido durante o Se­

do p e río d o regencial seja m as rebeliõ e s regionais, o f a to é que os nove

tu rb u len to s a n o s da R eg ê n cia tam bém fo r a m

m a rca d o s p o r m o tin s e p ro te sto s o c o rrid o s n o centro do p a ís. S o m e n te n o R io, entre 1831 e 1832, houve cinco levantes. O prim eiro se deu a 12 de ju lh o de 1831, quando o 26° B atalhão de Infantaria se am otinou. 0 m in is­ tro da fu stiç a , D io g o F eijó, su fo co u o m o v i­ m e n to e pre n d e u os rebeldes. E m 7 de outubro de 31, o B a ta lh ã o de A rtilh a ria da M a rin h a tam bém f e z um m otim . O re g en te-b rig a d eiro L im a e Silva inva d iu o q u a rte l da ilha d a s C obras e d eb elo u o levante. E m 3 d e a b ril de 1832, f o i a vez d e a s g u a rn iç õ e s d a s f o r ­ ta leza s de V illegaignon e Sa n ta C ru z se reb e­ larem. O m a jo r L u ís A lv e s d e L im a e Silva (futuro d u q u e de C axias) d e sfe z a rebelião. D u a s se m a n a s depois, no dia 17, os c a ra m u ­ rus (ou conservadores) tentaram d a r um g o lp e e d e stitu ir a R egência. F oram vencidos p e lo m esm o m a jo r A n o s depois, C axias esrtava no M a ra n h ã o fa b aix o ) su fo c a n d o a B alaiada. A R eb e liã o P ra ieira eclo d iu em R ecife facim a) a p ó s a R egência, m a s f o i m u ito se m e lh a n te às revoltas anteriores.

124

e a

gundo Reinado, a Praieira se assemelha em tu­ do aos conflitos do período regencial. Foi uma revolta política deflagrada pelos liberais contra os conservadores. Sob a liderança do capitão Pedro Ivo Veloso da Silveira, de Antônio Bor­ ges da Fonseca e Nunes Machado, os rebeldes tinham como principal objetivo a convocação de uma Constituinte para redigir outra Cons­ tituição, que acabasse com o mandato vitalício dos senadores e determinasse que apenas brasi­ leiros natos fossem juizes, parlamentares e mi­ nistros, além de propor nova divisão territorial para o Brasil. O nde: Começou em Olinda e Recife, onde os re­ beldes tinham uma gráfica na rua da Praia (daí o nome da rebelião), mas espalhou-se por toda a Província de Pemambuco. Q uando: De 7 de novembro de 1848 até o fra­ cassado ataque dos rebeldes a Recife, em feve­ reiro de 1849, que os arruinou. Por quê: Desde a queda de Feijó, os chimangos (liberais) estavam em desvantagem em relação aos baronistas, guabims ou trapicheiros (conser­ vadores). As famílias Cavalcanti e Barros for­ mavam um govemo oligárquico em Pemambuco e a revolta eclodiu.


A G uerra e todas as rebeliões pro­ vinciais que abalaram a Regência, nenhum a foi mais duradoura, complexa, violen­ ta e efetiva do que a Guerra dos Farrapos, o conflito que por qua­ se uma década ensanguentou o pampa gaiícho. Embora tenha se prolongado tanto e apresentado intimeras reviravoltas políticas e táticas, a verdade é que, para o es­ tudioso que se debruça sobre a vas­ ta bibliografia originada por essa luta fragorosa, a sensação é a de es­ tar lidando não com uma, mas com várias guerras distintas — apresen­ tadas em versões absolutam ente divergentes. Comandantes que lutavam de um lado de repente surgem do outro. Batalhas épicas tomam-se massacres cometidos à traição. Grandes feitos militares viram um embuste sem resultados práticos. Heróis são vilões e vilões são he­ róis. A razão só está do lado dos vivos. E mortos não falam.

D

dos

Farrapos

O que foi, afmal, a Guerra dos Farrapos? Uma revolta econôm i­ ca provocada pelo “centralismo rapinante” do Império, que .sobretaxava o principal produto gaiícho, o charque? Uma revolução sepa­ ratista e republicana — ou seja, uma guerra com um ideai? Uma guerra de guerrilhas conduzida por caudilhos, “semibárbaros egressos do regime pastoril”? Uma luta li­ bertária travada por cavaleiros he­ róicos e altivos, embora “esfarra­ pados”? Há versões para todos os gostos e tendências — basta esco­ lher o livro certo. No terreno sólido dos núme­ ros, a Guerra dos Farrapos prolon­ gou-se por 3.466 dias, teve “56 encontros bélicos” e custou a vida de 3.(XX) homens — cifra que pode ter chegado a 5.(XX). O conflito co­ meçou no dia 20 de setembro de 1835, com a tomada de Porto Ale­ gre pelos rebeldes, e terminou em 28 de fevereiro de 1845, com um “honroso” tratado de paz.

GENERAL NETTO

As singularidades da Guerra dos Farrapos são as próprias sin­ gularidades da mais meridional das Províncias do império: uma fronteira em armas, quase uma terra de ninguém, conflituosa já 150 anos antes da eclosão da luta contra o poder imperial. Cada estancieiro gaiícho era dono de um exército; cada peão, um soldado — esfarrapado ou não. Nenhuma Província brasileira tinha o know­ how guerreiro do Rio Grande do Sul, e isso o império logo desco­ briria. O conflito iniciou-se quan­ do, sob o comando de Bento Gon­ çalves — general monarquista— , o Rio Grande do Sul se levantou contra os desmandos do presiden­ te da Província, Femando Braga (indicado para o cargo pelo pró­ prio Bento Gonçalves). Vários res.sentimentos dos gaúchos eclodi­ ram a seguir. E, então, assim sem mais, um general, Netto, procla­ mou a “independência” da Repú­ blica Rio-Grandense.

O “causo ” nunca fo i bem explicado e talvez nunca venha a ser. O fato é que, em II de setembro de 1836. depois de vencer a batalha do Seival. o general Antônio de Sousa Netto entusiasmou-se e disse às tropas: “Camaradas! Nós (...) devemos ser os primeiros a proclamar, como proclamamos, a independência desta Província, a qual fica desligada das demais do império e form a um Estado livre e independente, com o título de República Rio-Grandense ”. Os farrapos viravam, quase sem querer, separatistas.

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B en to G onçalves

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stancieiro de nascença, exím io cavaleiro por herança e estilo. J m ilitar por vocação e necessida­ de, guerrilheiro na prática, contraban­ dista de gado por feitio e determ inis­ m o. bailarino por vaidade e paixão. O que faltaria para tom ar Bento G onçal­ ves da Silva o protótipo do caudilho gaúcho senão se m eter num a revolução? Nascido em setem bro de 1788. nas proxim idades de Porto A legre, Bento G onçalves entrou na luta aos 21 anos; foi soldado nas guerrilhas do Uruguai em 1811, lutou na cam panha cisplatina e na G uerra das Províncias do Prata, em 1825, e. a seguir, contra o caudilho R i­ vera. Em 1833. já coronel, foi cham ado ao Rio de Janeiro, acusado de contra­ bando de gado. Foi absolvido e ainda in­ dicou Fernando Braga para a presidên­ cia do Rio Grande do Sul. Em 1835, no entanto, além de pro­ blem as com o irmão de Braga, os futu­ ros farrapos foram surpreendidos com a criação dc um im posto territorial rural e com a dem issão dos dois com andantes da fro n teira. B ento G o n çalv es e B en­ to Manuel Ribeiro — em bora devessem com bater o contrabando, am bos tinham fazendas no Rio G rande do Sul e no U ruguai e. com o todos, ignoravam a fronteira. Foi a gota d'agua: em 20 de setem bro de 1835. os rebeldes invadi­ Á maior derrota militar de Bento Gonçalws se deu no ram Porto Alegre. x J L combate da ilha de Fanfa, no rio Jaaií, em outubro de Bento Gonçalves era liberal mode­ 1836. E o pior é que ele foi i^ncido por seu ex<ompanheiro. rado e monarquista convicto. Bento Ma­ nuel Ribeiro, idem. Ambos queriam ape­ Bento Manuel Ribeiro, que, logo após o início da reiK>lução, nas a destituição do presidente e a criação abancUmou os farrapos e se passou para os imperiais. de um regime federalista. No início de Auxiliado pela flotilha do inglês John Greenfell, Manuel cercou 1836. o regente Feijó colocou José Araú­ Bento Gonçalijes na ilha. Ctmto e vinte rebeldes morreram jo Ribeiro na presidência do Rio Grande —muitos deles afogados. Bento Gonçali>es se tendeu e do Sul — e a guerra quase acabou. Primo de Bento Gonçalves. Araújo Bento Manuel prometeu que, se jurasse lealdade ao império, era respeitado e poderia ter posto fim ao nem ele nem seus 900 seguidores seriam presos. A promessa conflito se anistia.sse os rebeldes. Mas não se cumpriu e Gonçali^s foi enviado a ferros para dem orou para fazê-lo e. em setem bro de o Rio de Janeiro. Na prisão, rvcebeu a visita de Giuseppe 1836, precipitadam ente e sem ordens Garibaldi, c{ue aderiu aos farrapos Após uma tentativa superiores, o general N etto proclam ou a República Rio-Grandense. de fuga, transferiram Gonçalves para o forie do Mar, na Bahia Em 2 de outubro, Gonçalves foi pre­ —de onde escapou em setembro de 1837, retomando para so por Bento Manuel — que trocara de la­ o Rio Grande do Sul e assumindo a presidência da do, como voltaria a fazer mais duas vezes República Rio-Grandense (ou República de Piratini), para a {leia o quadro, à direita). M esm o pre­ qtuil tinha sido eleito em novembro de 1836. De 36 ao fim so. B ento Gonçalves foi eleito presiden­ te da nova república. A ssum iu o cargo da guerra. Bento Gonçalves administrou a república e o assim que escapou da prisão, em 1837. exército fatrapo. Em 1844, exonerou-se do cargo para evitar Só então se tornou separatista, apesar de conflitos internos entre os rebeldes Ainda assim, tei>e de matar, adm irar o imperador. “ Bento Gonçalves em duelo, o imlho amigo Onofre Pires Morreu dois anos foi fiel a todos, m enos a si próprio” , es­ creveu um cronista do conflito. após o fim da guerra, só, empobrecido e amargurado.

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O VIRA-CASACA Bento M anuel Ribeiro, paulista de Sorocaba, é, de lon­ ge, a figura mais polêmica de uma guerra repleta de sujei­ tos controversos. Simplesmen­ te trocou de lado quatro vezes ao longo do conflito: começou como farrapo, aderiu aos "im­ periais” em dezembro de 1835, venceu Bento Gonçalves em Fanfa (e fo i forçado pelo presi­ dente da Província a descump rir a prom essa de soltá-lo). Depois de se to m a r líder m ilitar do exército legalista. Bento M anuel se iruiignou com a nom eação de A ntero de B rito para a presidência do Rio Grande do Sul e, em março de 1837, prendeu o pre­ sidente e se passou p ara os farrapos, com os quais esteve entre abril de 38 a meados de 39. Em julho de 1839, alegan­ do que um de seus desafetos fo ra nomeado coronel, afas­ tou-se dos rebeldes. Em julho de 1840, fo i anistiado pelo go­ vem o imperial e mudou-se p a ­ ra o Uruguai. Dois anos de­ pois, Caxias o convidou para integrar o Estado-Maior do Exército que deu início á ofen­ siva final contra os farrapos. Aceitou e tom ou-se uma f i ­ gura-chave para a vitória le­ galista. Em 1845, fo i prom o­ vido a marechal-de-campo. Morreu em Porto Alegre em maio de 1855, aos 72 anos. “Ao contrário de Bento Gonçalves, Bento M anuel Ri­ beiro traiu a todos, menos a si mesmo”, diz Tabajara Ruas, autor de dois romances sobre Farrapos. Também M anuel Osório começou do lado dos farrapos e se passou para os imperiais: apesar de republi­ cano, assim que o Rio Gran­ de se declarou independente abandonou a luta p or se dizer “antes de tudo, brasileiro ”.


G omo sua vida foi brilhantemente ro­ manceada por Alexandre Dumas, em “Memórias de um Camisa-Verme­ lha”. Giuseppe Garibaldi é tido. ainda hoje, com o um grande herói libertário. Mas a ver­ dade é que sua participação na Guerra dos Farrapos, embora cheia de cenas épicas e dc um romance clássico, foi um fiasco. Na.scido em Nice, em 1807. deixou a Europa fugindo da condenação à morte na Itália (onde se tornara revolucionário) e da peste em Mar.selha. Exilou-se no Rio de Janeiro, onde conheceu o conde italiano e revolucionário Tito Livio Zam becari e seu c o m p a n h e iro Bento G onçalves — am bos “farroupilhas” presos. Garibaldi falhou na tentativa de resgatá-los do cárcere. Mas em breve já estava no Rio Grande do Sul, portando uma carta de corso: com um lanchão, percorria a lagoa dos Patos saqueando os barcos imperiais. V ários ataques fracassaram . A m ais gran­ diloquente participação de G aribaldi na G uerra dos Farrapos foi a condução por terra dos lanchões Seival e Rio Pardo {leia o quadro alxii.xo). .Apesar disso, o ataque a Laguna, com os lanchões, não teve grandes resultados práticos. Pelo menos não para a guerra. Para o mercenário Garibaldi. signi­ ficou o encontro com a mulher de sua vida. Anita (leia no quadro à direita). Em 1845. Garibaldi renegou sua ligação com os farra­ pos. Em 48. com Anita, voltou para a Itália. Participou das lutas nacionalistas, enfrentou os austríacos, esteve nos EUA. no Peru e na China — sempre em combate. Morreu em 1882. Em seguida, foi eternizado pelo criador de “Os Três Mosqueteiros”.

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ANITA Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva era uma costureirinha de -Laguna que se apaixonou pelo aventureiro loiro e mercenário Garibaldi, largou o marido, pegou em armas, teve seu batismo de fogo em muitos combates, foi várias vezes abandonada pelo amante, sempre o reencontrou e se tornou um símbolo de paixão e desprendimento. Anita e Garibaldi casaram-se em 1842 (ela se fez passar por .solteira), em Montevidéu. Em 1847, com três filhos, partiu para a Itália, onde foi recebida como heroína. Lá, lutou por dois anos junto com o marido. Fugindo dos austríacos, morreu de pneumonia em 4 de agosto de 1849.

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pampa é o mar dos gaúchos. Por conhecerem tão pouco o oceano real, os farroupilhas nunca pude­ ram estabelecer de fato sua República: ela não ptissuía saída para o mar (Rio Grande foi logo bloqueada pelos imperiais). Numa tentativa desesperada, os farrapos aventuraram-se a conquistar Laguna (SC). Assim, entra­ ram com dois lanchões (de 18 e 12 toneladas) pelo rio Capivari (um dos formadores da lagoa dos Patos), che­ garam até a praia. Com o auxílio de 200 bois, levaram os lanchões, numa marcha épica, por quase cem quilôme­ tros, até a foz do Tramandaí, onde entraram no mar e atacaram a desprotegida Laguna, auxiliados pelas tropas terrestres comandadas por Davi Canabarro. Os saques que se seguiram à tomada da cidade, em 22 de julho de 1839, porém, irritaram a população local, que suspendeu o apoio aos rebeldes. A “República Juliana” teria vida efêmera: em novembro de 39, os imperiais retomaram a cidade e os farroupilhas iniciaram sua penosa retirada por terra. Era o começo do fim da guerra. (Ao lado. cena do filme “Anahy de Ias Misiones", de 1997, dirigi­ do por Sérgio Silva e estrelado por Marcos Palmeira e Giovanna Gold.)

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onflito ideológico, econômico e político, a Guerra dos Farrapos foi basicamente uma guerra de guerrilhas típica dos pampas, lutada a cavalo, repleta de atos vãos de heroís­ mo, guinadas táticas e políticas, com ­ bates sangrentos e heróis controversos. Alguns historiadores dividem a guerra em três fases: a primeira, de setembro de 1835 a setembro de 36, a da separação; a segunda, de 36 a 43, a fase da rebelião; e a fase da “reintegração” do Rio Gran­ de do Sul ao império, de 43 à paz de Ponche Verde, assinada em 28 de feve­ reiro de 1845. Assinada, não: acordada. Apesar de concessões e da anistia aos rebeldes. Caxias não firmou o tratado de paz. Sabia que não estava lidando com “esfarrapados”, mas com a elite estancieira local —indignada com o fato de o charque uruguaio pagar 4% de imposto no Rio de Janeiro, e o charque gaúcho, 25%. A paz foi “honrosa”. O único pon­ to controverso, a liberdade dos escravos que lutaram com os rebeldes, foi resolvi­ do pragmática e cruelmente: o batalhão dos chamados Lanceiros Negros, desar­ mado por seu comandante, Davi Cana­ barro, foi massacrado em novembro de 1844, em Porongos. Sem o empecilho dos ex-escravos, a paz veio naturalmente.

C CAX IAS Veterano na repressão às rebeliões provinciais. Caxias fo i nomeado presidente do Rio Grande do Sul em setembro de 1842. Na verdade, seria o chefe militar cuja missão era vencer os farrapos. E fo i o que ele fez: revelando “grande percepção da natureza da guerra ”, Caxias adotou as táticas do inimigo, travou uma guerra de guerrilhas, venceu combates decisivos e ofereceu aos rebeldes uma “paz honrosa Teve dijiculdades de encontrar o chefe real dos farrapos — e optou por Canabarro, com quem fez o acordo de paz. O general Netto não aceitou o acordo, preferindo o exílio no Prata.

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G uerra O conflito durara quase dez anos — em bora as lutas tivessem sido sus­ pensas durante o invemo rigoroso do pampa. O exército rebelde teria 1.700 homens quando da proclamação da Re­ pública Rio-Grandense e 3.000 no auge da luta. As forças imperiais resumiam-se a 270 homens no início do conflito. Mas, sob o comando de Caxias, o Exército legalista chegou a ter mais de 11 mil sol­ dados (dois terços do Exército brasileiro de então). Apesar dessa diferença numé­ rica, Caxias só venceu a guerra por utili­ zar as mesmas táticas do inimigo — e ter a ajuda de Bento Manuel e do terrível guerrilheiro Chico Preto. Entre muitas vítimas da guerra — os guerreiros negros, os imigrantes alemães recrutados à força pelos farrapos, os mi­ lhares de bois que tiveram a língua cor­ tada para não ser utilizados pelo inimi­ go— , uma das principais foi a verdade. Durante anos, a guerra foi tem a tabu: era proibido escrever sobre ela. Só em 1870 surgiu no Brasil o primeiro livro sobre o conflito: as “Memórias” de Ga­ ribaldi, escritas por Alexandre Dumas. A maior parte dos textos foi escrita no Sul por autores gaúchos e inverte uma tendência da historiografia mundial: faz a apologia dos vencidos.

CA N A B A R R O Ainda que descrito como “rude, extravagante e descuidado de filigranas m orais", Davi Canabarro (1796-1867) era um gênio militar. Assutniu o comando do exército farrapo depois de Bento Gonçalves se retirar da luta. Negociou a paz com Caxias. Em II de novembro de 1844, mandou desarm ar os 600 negros que lutavam com ele. Na mesma noite, esse regimento fo i atacado e massacrado pelo Exército imperial. Canabarro jam ais se defendeu da acusação de ter traído o grupo. Em 1865, no início da Guerra do Paraguai, não defendeu Uruguaiana da invasão inimiga e fo i levado à corte marcial. Morreu antes de ser julgado.

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o assados o Prim eiro Reinado e a Regência, o Brasil ingressou na terceira fase de sua vida política independente sob o signo da inconstitucionalidade. A C onstituição de 1824 nascera sob o m anto do arbítrio. Dez anos mais tarde, tivera sua “pureza” institucional corrom ­ pida pelo Ato Adicional de 1834. As duas ações haviam sido m aquinadas em tram as palacianas sem i-secretas. O G olpe da M aioridade tam bém teria desvãos e desvelos urdidos à som bra da lei. Mas dessa vez, pelo menos, seus próprios articuladores adm itiam que se tratava de um golpe. D errubados todos os projetos apresentados (em 1835, em 37 e em 39) pelos deputados libe­ rais para alterar o artigo 121 da C onstituição (se­ gundo o qual só aos 18 anos d. Pedro 2° poderia assum ir a chefia da nação), o deputado C lem en­ te Pereira foi a plenário dizer que a m aioridade não seria alcançada por uma reform a constitu­ cional, m as “só por um ato revolucionário, em ­ bora [/.v.vo] seja um golpe de Estado” . Achava que golpes eram “ lam entáveis” , mas “adm issí­ veis em casos extrem os” . Já para o deputado Rocha Galvão, era “legal todo o ato que satisfaz a vontade do povo” . E o povo — pelo m enos as 8.000 pessoas que, num a .segunda-feira, 23 de junho de 1840, se reuniram para saudar o jovem de 14 anos que assum iria a chefia da nação— parecia estar com a vontade satisfeita.

Seg u n d o R ein a d o

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D om P edro 2" aos 14 anos ("acima, pintado p o r Rugendas), e aos 5 e 7 anos de i€iade

Desde a abdicação forçada de seu pai, em abril de 1831, d. Pedro 2° era formalmente o im­ perador do Brasil — fora aclamado dois dias de­ pois (acima). O próprio d. Pedro 1°, nos momen­ tos de crise que antecederam sua queda, ouvira gritos de “Viva d. Pedro 2°” . Em abril de 1840, quando o regente uno (e escravagista) Araújo Li­ ma fez a Câm ara (de m aioria conservadora) aprovar a Lei Interpretativa do Ato Adicional, os liberais iniciaram a cam panha “m aioridade-já” . O projeto dos “m aioristas” quase adquiriu um verniz de legalidade; por apenas dois votos (18 a 16), a Câm ara deixou de aprovar a moção do senador José de A lencar que tomaria d. Pedro 2° apto a assum ir o com ando da nação. Então, o Clube da M aioridade não parou mais de conspirar. Em 22 de junho de 40, os liberais, liderados por Antônio Carlos de Andrada (irm ão de José Bo­ nifácio), abandonaram a “C âm ara prostituída” e foram ao paço de São Cristóvão oferecer o go­ vem o a d. Pedro 2°. Que outra opção restava ao garoto de 14 anos senão aceitá-lo? Reunido no Cam po de Santana, o povo cantava; “Q uerem os d. Pedro 2° Em bora não tenha idade A nação dispensa a lei E viva a M aioridade.” M uitas nações já dispensaram a lei. Poucas o fi­ zeram tão alegre e explicitam ente.

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o ''o início de 1837, em conversa informal na Câmara, o deputado li­ beral José de Alencar (pai do e.scritor) diria: “Julgo político irm os arranhando nos ânim os dos povos o amor a esse sujeitinho, porque só a essa âncora poderemos nos agarrar” . O “sujeitinho” era Pedro de Alcânta­ ra João Carlos Leopoldo Salva­ dor Bibiano Franci.sco Xavier de Paula M iguel Gabriel Ra­ fael Gonzaga, filho de Pedro 1° e d. Leopoldina. nascido em 2 de dezembro de 1825 e sobre o qual seria, de fato. jogado o pe­ so de uma nação. De “constituição débil e temperamento nervoso”, d. Pe­ dro 2° perderia a mãe dez dias depois de com pletar um ano. O pai partiu quando ele tinha 5 — e, apesar da correspon­ dência assídua, jam ais voltou a vê-lo. Teve a infância m ar­ cada por solidão e austeridade — que viriam a se tom ar ca­ racterísticas marcantes ao lon­ go de seus 66 anos de vida. Afastado dos turbilhões da Re­ gência. d. Pedro 2° foi logo mergulhado nos estudos. “Queriam -no sábio e inofensivo” , escreveu o biógrafo Pedro Calmon, “com a timidez dos ‘pn'ncipes filósofos’ e a ilustração virtuosa do frade, mas incli­ nado à contem plação e à hu­ m ildade” . Seu tutor foi o enciclope­ dista tropical José Bonifácio (derrubado em 1833), e seu principal professor, o pintor Félix É m ile Taunay. C ada passo da vida do im perador era controlado: do m om ento de acordar à hora de se reco­ lher, d. Pedro 2° obedecia .sem­ pre à m esm a rotina. Segundo G ilberto Freyre. “a juventude fugira dele a galope” . Impera­ dor aos 5 anos. chefe da nação aos 14, fazia “a triste figura de um menino amadurecido antes do tempo [que] aos 20 e tantos era já um velho com barbas e aspectos de um avô” . O “sujeitinho” velho antes da hora governou o país por 50 anos.

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Segundo Imperador Um dos prim eiros atos de d. Pedro 2° com o im perador foi decretar anistia aos envol­ vidos nas revoltas intem as da Regência. E ssa seria uma das m arcas de seu m eio século de govem o: perdão aos rebeldes vencidos. Por isso, o apelida­ ram ‘o M agnânim o” . Um a de suas ações seguintes foi a dis­ solução da C âm ara e a derru­ bada do “gabinete m aiorista” que lhe dera o poder, ato que prom oveu nova ascensão dos conservadores. E essa viria a ser outra característica do go­ vem o daquele que certos his­ toriadores chamam de “o maior dos brasileiros” : o perm anen­ te rodízio no poder entre libe­ rais e conservadores (foram 36 gabinetes em 50 anos de govem o — um a cada ano e três meses). A prática se tornaria ainda mais regular a partir de 1847, quando Pedro 2° recriou o car­ go de presidente do Conselho de Mini.stros (extinto pelo Ato Adicional de 1834) — insta­ lando no país um a espécie de parlam entarism o. Dom Pedro parece ter percebido a verda­ de contida na frase do senador Holanda Cavalcanti: “Nada se as.semelha mais a um 'saquarem a’ do que um ‘luzia' no poder”. “Luzias” eram os libe­ rais, e “saquaremas”, os conser­ vadores: em bora em tese fos­ sem adversários inconciliáveis, eram farinha do m esm o saco. Em 1850, o barão de Cotegipe, conservador, lam entaria que “ nossos negócios [políti­ cos] infelizm ente andam em contínua ação e reação” . Entretanto, em 1853, o m arquês do Paraná. Honório Herm eto C am eiro Leão. líder dos conservadores, form ou o cham ado M inistério da C on­ ciliação, enfim unindo as duas forças políticas do país. Co­ m eçaria então um período de paz interna e prosperidade econôm ica e cultural que o historiador Capistrano de Abreu denom inou de “o apogeu do fulgor im perial” .


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O Café inda hoje há quem lamente o fato de o inglês Henry Wickman ter surrupiado da Amazônia as sementes de seringueira que vingaram na Malásia e encerraram melanco­ licamente o ciclo da borracha no Brasil. No en­ tanto, não foi muito diferente a maneira como o café — uma riqueza vegetal de potencial ainda mais espetacular— chegou ao país. Em 1727, o oficial português Francisco de Mello Palheta re­ tomou da Guiana Francesa trazendo as primei­ ras mudas da mbiácea que mudaria a história do Brasil — econômica, política, social e ecologica­ mente. Palheta não roubara as mudas: ganhou-as de presente de madame d’Orvilliers, mulher do govemador de Caiena. Como a saída de mudas ou sementes de café estava proibida, há os que considerem “lícito pensar que o aventureiro por­ tuguês recebeu não só os frutos, mas favores mais doces de madame”. De qualquer modo, não seria a partir do Pará — onde germinaram sem dificuldade— que as plantas se espalhariam pelo resto do Brasil. Em 1781, o funcionário João Alberto de Castello Branco foi transferido de Belém para o Rio e trouxe sementes consigo. A planta — introduzida na América pelo francês Gabriel de Clieu, em fins do século 15, na Martinica— chegava então ao lugar a partir do qual teria sua notável expansão.

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Originário da Abissínia, hoje Etiópia, o café (acima, em desenho de Debret) é a baga do cafeeiro (Coffea arabicaj, planta da família das rubiáceas que os árabes levaram para a índia e os italianos introduziram na Europa. Além do gosto peculiar, o café logo se popularizou mundialmente por ser um poderoso excitante. Lorde Bacon o definiu como a bebiba que “dá espírito a quem não o tem ”.

O mundo descobriu as delícias do café na se­ gunda metade do século 19. Só aí o Brasil f)erceberia o quão doce lhe poderia ser o amargo grão. O centro de irradiação da cultura cafeeira foi a Baixada Fluminense, de onde a lavoura subiu a serra, atingindo as matas do rio Paraíba do Sul. Depois da libertação das 13 colônias norte-ameri­ canas, os EUA — sequiosos por café e dispostos a se afastar dos mercados dominados pela Ingla­ terra— passaram a importar o produto brasileiro. As florestas foram implacavelmente derrubadas, quase 1 milhão de escravos foram trazidos da África ou do Nordeste, os grandes capitais (imo­ bilizados desde a proibição do tráfico de escravos em 1850) encontraram nova ocupação; novas cidades, novas fortunas e novos latifúndios foram criados — quase que da noite para o dia. Entre 1821 e 1830, o café respondia por apenas 18% do total das exportações brasileiras. De 1831 a 1870, passou a ser responsável por 50%. A partir de 1871 , o Brasil começou a colher cerca de 5 mi­ lhões de sacas por ano — a metade da produção mundial. O café gerou uma nova classe social — e a seguir, política. Fez o país criar ferrovias e aparelhar os portos do Rio de Janeiro e de Santos. Mais tarde, incentivaria a vinda dos trabalhadores assalariados —e derrubaria o império que ajudara a tomar fulgurante.

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V isco n d e rineu E vangelista de Sousa, barão e visconde de Mauá, foi o primeiro “self-made m an” urbano do Brasil. Tentou introduzir o país no m undo do ca­ pitalism o m oderno, prom over a indústria pesada, es­ tabelecer de vez o trabalho assalariado, a econom ia de m ercado e o liberalismo. Foi incompreendido, des­ prezado, perseguido, humilhado, ofendido — e faliu. M auá fez qua.se tudo certo: apenas esqueceu que vi­ via num país ruralista, escravocrata e latifundiário, cuja econom ia era controlada pelo Estado. Ainda as­ sim, a obra de M auá foi grandiosa e — apesar dos lu­ cros trazidos aos borbotões pelo café— é quase ex­ clusivamente graças a ela que se pode falar no boom econôm ico do Segundo Reinado. O orçam ento das em presas de M auá era m aior que o próprio orçamento do império. O barão criou a primeira multinacional brasileira; foi o precursor do Mercosul (tinha m uitos negócios no Uruguai e na A rgentina); foi pioneiro da globalização da econo­ mia; foi o primeiro (e até hoje um dos únicos) empre­ sário brasileiro respeitado e adm irado no exterior. Virou verbete da “Encyclopaedia Britannica” e perso­ nagem citado por Júlio Veme. Tinha apoio e respei­ to do barão Rothschild e dos irm ãos Barings — os m aiores banqueiros de seu tem po. M as era despreza­ do (e talvez invejado) por d. Pedro 2° — o m onarca “ilum inista” , que só adm irava as letras quando não eram prom issórias e os núm eros se fossem abstratos. O im perador e o barão jam ais tiveram algum a discussão pública, m as, em bora fossem vizinhos, sua incom patibilidade de gênios era notória. M auá com etia o suprem o pecado de ser devotado ao lucro — e isso o arqueólogo diletante. lingui.sta e filólogo. astrônom o amador, antropólogo iniciante e botânico de fim -de-sem ana d. Pedro 2° não podia tolerar. O desprezo p>elas idéias e propostas de M auá — e o torpedeam ento de .seus projetos feito pelos políticos fiéis ao im perador — configura um dos mais desas­ trados e lam entáveis episódios da pobre história eco­ nôm ica do Brasil.

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/fão de pai aos 5 anos —João Evangelista fo i assassinado—, Irineu Evangelista de Sousa, nasci­ do em Arroio Grande (RS), em de­ zembro de 1813, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1823. Aos II anos, era contínuo. Aos 15, o homem de confiança do patrão. Aos 23, sócio de um escocês excêntrico. Aos 30, um dos comerciantes mais ricos do BrasiL Era pouco: aos 32, Irineu decidiu se tom ar industrial — o pri­ meiro do Brasil. A crise de 1875 e a má vontade do govemo o levaram à falência, em 78. Mas Mauá pagou tudo que devia. Ao morrer, em ou­ tubro de 1889, perdera seu império industrial. No entanto, não devia na­ da a ninguém.

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De acordo com seu m ais recente e m elhor bió­ grafo, Jorge Caldeira, autor de “Mauá, Em presário do Im pério” , o barão controlava seu vasto im pério in­ dustrial e econôm ico sozinho. N ão procurava ajuda nem m esmo para m anter a ampla correspondência diá­ ria, em bora — ou talvez por isso mesmo— soubesse que “de seu punho podiam nascer leis no U ruguai, m ovim entos de tropas na Argentina, um novo mi­ nistro no Brasil, uma grande tacada na Bolsa de Lon­ dres” . De sua escrivaninha, M auá com andava um império “que envolvia meio mundo”, e o fazia “consul­ tando apenas a.s próprias idéias” . Não parecia razoável, mas era assim que ele achava que funcionava. “De sua mesa saíam ordens para os diretores de 17 em presas instaladas em seis paí.ses e inform ações para um com plexo grupo de sócios, no qual despon­ tavam m ilionários ingleses, nobres franceses, espe­ culadores norte-am ericanos, com erciantes do Pará, fazendeiros do Rio Grande do Sul. Por m eio da cor­ respondência com esses sócios e colaboradores, o barão geria bancos no Brasil, Uruguai, Argentina, Es­ tados U nidos, Inglaterra e França; estaleiros no B ra­ sil e no Uruguai; três estradas de ferro no interior do Brasil; a m aior fábrica do país, uma fundição que ocupava 700 operários; uma grande com panhia de navegação; em presas de com ércio exterior; m ineradoras; usinas de gás; fazendas de criação de gado; fábricas variadas. Todas as noites, além de adm inis­ trar esse império, ele ainda m ovim entava sua fortu­ na pessoal, aplicada nos m elhores títulos financeiros do planeta. Graças a seu m étodo de controle soli­ tário, só ele sabia o valor total do conjunto de suas empresas (...). Só mais tarde o público teria uma idéia das dim ensões de sua riqueza. Q uando o barão resol­ veu, em 1867, reunir a m aior parte das empresas num único conglom erado, o valor total dos ativos chegou aos 115 mil contos de réis, Só havia um núm ero no país com parável a esse: o orçam ento do Im pério, que consignava todos os gastos do govem o (...) com 97 mil contos de réis naquele m esm o ano.”


A D pesar de ser em presário m ultinacional, com m uitos negócios no Uruguai e na A rgentina e bastante dinheiro aplicado em Londres, Irineu E vangelista de Sousa, barão e visconde de M auá, era apaixonado pelo Brasil e Fez m uito pelo desenvolvim ento do país. com o revelam trechos do livro de Jorge Caldeira: “Seus negócios se espalhavam do A m azonas ao Rio Grande do Sul. A fronteira norte de sua presença econôm ica ficava no perdido vilarejo de Tabatinga, na divisa entre Brasil, Peru e Nova G ranada (hoje Colôm bia). Ali, a cada dois m e­ ses, com a pontualidade britânica que convém à em presa de um barão que praguejava em inglês, um vapor interrom pia a pasm aceira do vilarejo com duas centenas de almas (...). C om pletada a troca da carga, o navio partia para Rio Negro, ho­ je M anaus, onde a sua Com panhia de Navegação do A m azonas possuía uma gleba de quase 4(X) mil hectares, que com eçava a ocupar com agri­ cultores trazidos da China. Depois seguia para Belém, onde ficava a sede da com panhia e uma agência da casa bancária do barão, que funciona­ va com o centro financeiro de toda a região am a­ zônica. Ainda no Norte do Brasil, engenheiros in­ gleses e escravos brasileiros alugados iniciavam a exploração de jazidas de m inérios no M aranhão (...). Em Pemambuco. a estrada de ferro Recife— São Francisco finalmente se tomava realidade. (...) Já a fronteira sul de seus em preendim entos fica­ va em Rio Grande, quase na divisa com o U ru­ guai, onde o com ércio local girava em tom o da agência de ,seu banco. Um pouco m ais ao norte, em São Paulo, M auá iniciava seu m aior em pre­ endim ento nas províncias brasileiras. Para tocálo, teve que m ontar três agências bancárias [m« 5] conseguiu viabilizar aquela que era a m enina de seus olhos: uma estrada de ferro ligando Santos a Jundiaí.

A

errocada do

V isio n á r io

“Mas a verdadeira fonte de sua reputação de pioneiro vinha dos empreendim entos já montados no Rio de Janeiro, a capital do país e de .seu im ­ pério. O vilarejo colonial transfom iara-se em metrópole, e todos os signos dessa transform ação tinham a marca do barão. Os navios a vela davam lugar aos vapores — fabricados por Mauá nos es­ taleiros e oficinas da Com panhia Ponta de Areia. Os trilhos da Estrada de Ferro de Petrópolis subs­ tituíam as estradas poeirentas (...). A vida noturna era outra desde que a Com panhia de Iluminação a Gás do Rio de Janeiro, que ele comandava, tro­ cara os velhos candelabros de óleo de peixe pela farta luminosidade dos lampiões. M esm o as velas que os pobres consum iam não se fabricavam em casa, mas na com panhia (...) da qual era acionista. A água para os habitantes não vinha mais dos aquedutos de pedra, mas dos canos de ferro insta­ lados por seus engenheiros. O mangue que cerca­ va a cidade, impedindo a sua expansão, começava a desaparecer: M auá tinha ganho a concorrência para fazer a primeira grande obra de drenagem da cidade. (...) O futuro, no Brasil, era dele. Quase todos os empreedim entos no país que não fos.sem uma fazenda com escravos — um negócio pelo qual 0 barão definitivamente não se interessava— acabavam passando por suas mãos. M auá con­ trolava oito de dez das maiores em presas brasi­ leiras. As outras duas (...), o Banco do Brasil e a Estrada de Ferro d. Pedro 2° (hoje Central do Bra­ sil), eram e.statais, e m esmo assim deviam muito a seu trabalho. O banco foi rapidamente para a frente porque nasceu pronto. Fundado pelo barão [havia falido sob d. João 6 "J, foi encam pado pelo govem o depois de um ataque bem dirigido do im ­ perador e dos conservadores. Já a estrada de ferro .só andou quando ele deu um aval ao govemo: o empreiteiro não suportava as confusões dos diri­ gentes estatais e queria largar tudo, mas mudou de

idéia depois que Mauá empenhou seus bens como garantia (...). Num m undo onde os grandes em ­ presários costum avam ter uma única empresa, Mauá apostou na diversificação. No país onde a agricultura parecia destino manifesto, montou uma indiístria atrás da outra. Enquanto os bra­ sileiros lam entavam a falta de escravos, M auá im ­ plementava administrações participativas e dis­ tribuição de lucros para empregados. Cercado de nobres em busca de feitores, ele contratava en­ genheiros para desenvolver a tecnologia de seus novos projetos. (...) O barão não tinha concor­ rentes, era um gigante em terra de anões. Mas um gigante desconfiado (...): amava a pátria, mas acreditava que não era amado com igual fervor (...). Certa vez. dis.se: ‘Desgraçadamente entre nós entende-se que empresários devem perder, para que 0 negócio seja bom para o Estado, quando é justam ente o contrário’ ” . Em 1875, o barão de M auá pediu m oratória por três anos. Passado o prazo, faliu. No final de 1883, apesar das dificuldades im postas pelos bu­ rocratas do Im pério, e após vender tudo que ti­ nha, M auá limpou seu nome. Sua fortuna — o equivalente hoje a USS 60 m ilhões— estava li­ quidada. Mas a honra perm anecia intacta, em bo­ ra o preço não fosse .só financeiro: M auá enve­ lheceu da noite para o dia. O barão morreu no dia 21 de outubro de 1889, 19 dias antes da derradeira festa do Im pé­ rio, o baile da ilha Fiscal (para o qual não seria convidado, se vivo fosse) e m enos de um m ês antes da República. Para a “Britannica”, era o “ ilustre hom em que levara a civilização até as selvas do Amazonas” . Para o viajante Phineas Fogg, de “ A Volta ao M undo em 80 Dias” , de Júlio Verne, era “o único banqueiro confiável do Hem isfério Sul” . Ao morrer, M auá era apenas um homem rico — não o construtor de uma nação.

0 Segundo Reinado 133


o explosão cultural do Segundo Reinado foi feita à imagem e sem elhança de seu mecenas. Tran­ quilizado pela bonança política resultante da "con­ ciliação” e entusiasm ado com a pujança econôm ica tra­ zida pelo café. d. Pedro 2° decidiu investir em cultura. Por florescer à som bra do imperador, porém , tal m ovim ento cultural se engajou no projeto de “redescoberta” da na­ ção idealizado pelo próprio monarca. Um a “m onum entalização” do Brasil — de seu passado (relido pela ótica do romantismo); de suas cores, de suas “coisas”— foi ar­ ticulada por hi.storiadores, pintores e literatos. Esse “na­ cionalism o conservador exprim iu-se de m odo orgânico nos anos de apogeu do Im pério escravagista: está nas pá­ ginas eruditas da “Revista do Instituto Histórico e G eo­ gráfico’; perm eia a rica m esse docum ental da ‘História Geral do B rasil' de Varnhagen e é o cim ento m ítico do rom ance indianista e colonial de José de A lencar”, es­ creveu 0 crítico A lfredo Bosi. De fato, em bora tenha sido fundado pelo regente Araújo Lim a, o Instituto Histórico e G eográfico contou com os auspícios do im perador — que presidiu mais de 500 de suas sessões. Dom Pedro 2° tam bém enviou bol­ sistas ao exterior — especialm ente para copiar docum en­ tos na Torre do Tombo, em Lisboa. Dentre eles, nenhum se destacou mais do que Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), autor da m onumental “História Geral do Brasil” (publicada em 1854). Eivada de preconceitos e esgares, a obra de Varnhagen é, ainda assim e até hoje, a mais com pleta crônica docum ental da colônia, e seu au­ tor, o pai da historiografia brasileira. Da obra de Vamhagen emerge a construção idealizada de uma nova nacio­ nalidade: o Brasil da civilização branca.

A

134

H is tó r ia d o B ra s il

I m pér io

das

Letras Uma outra face do processo de construção da “iden­ tidade” nacional se encontra na fase áurea da literatura romântica indianista — de 1837 até fins de 1869. Nem tan­ to na obra apocalíptica e fulgurante de G onçalves Dias (ò esquerda, no alto), na qual o destino atroz e a morte pavorosa de tribos e raças eventualm ente beiram a m or­ bidez. Filho^de português com cafuza. Dias (1823-1864) viu o pai abandonar a mãe assim que encontrou uma “branca de sociedade” com quem càsar. Escrevendo na época em que a Província do M aranhão ainda fervilhava na luta contra lusos renitentes, G onçalves Dias viu o m assacre dos índios com o m etáfora de uma sociedade ainda sufocada pelos tentáculos da m etrópole. Foi com José de A lencar (à esquerda) que o rom an­ ce indianista se pôs plenam ente a serviço de um a visão m itificadora da “nova” sociedade brasileira. Seus dois li­ vros clássicos, “O Guarani” e ‘Iracem a” — aliás, funda­ dores do rom ance nacional— , apresentam os índios com o bons selvagens, belos, fortes, livres e plenam ente sub­ servientes ao branco. C om o em G onçalves D ias, os ín­ dios morrem no fim — mas em Alencar essa morte se rea­ liza num a espécie de altar de sacrifícios e dela em erge o novo Brasil. Iracem a, “a virgem dos lábios de mel, cabe­ lo mais negro que a asa da graúna”, m orre de amor. Peri se deixa tragar pelo dilúvio, sem pre servil a sua senhora Ceei — em bora o destino desses dois não seja explícito. Em Alencar, não apenas os “autóctones” , mas a própria natureza brasileira são postos a serviço do nobre con­ quistador branco. Ou m elhor: existem só para servi-lo. José de A lencar (1829-1877), deputado conservador, fundou o nativism o servil e colonialista. Ao fazê-lo, in­ ventou novo passado para o Brasil. Passado a limpo.


As C ores Academia Imperial de BelasArtes desem penhou o papel de “braço pictórico“ no pro­ jeto de “m onum entalização" dos fa­ tos históricos do Brasil, concebido pe­ lo Instituto Histórico e Geográfico sob a batuta de d. Pedro 2°. Criada pela m issão francesa de 1816. a academ ia se caracterizou, desde o início, como berço de um certo n eoclassicism o tem porão; o baluarte seguro e feroz do academicismo, fechado às mudan­ ças artísticas cujos ventos já varriam a Europa. Dom Pedro 2° adorava a pintura neoclássica. De 18.50 a 1880, muitos dos principais pintores brasileiros ga­ nharam bolsas — em geral concedidas pelo próprio monarca— para estudar em Paris ou na Itália. A condição, po­ rém. parecia ser manter-se hostil às novas diretrizes da arte, afastando-se do realismo de Courbet, do romantis­ mo de Delacroix e do paisagismo de Corot. O resultado é que pintores co­ mo Pedro Américo e Vítor Meireles, especialistas em pinturas históricas e sacras, e os expoentes de sua época produziram obras clássicas e laborio­ sas, mas de um alheamento gélido, aprisionadas em disciplina e conven­ cionalismo, empapadas num roman­ tismo repleto de idealizações “europeizante.s” . Pedro Américo e Vítor Meireles fizeram escola e definiram as novas feições visuais da nação.

A

e os

Sons

do

M

Pedro A m érico de Figueiredo e Melo (1843-1905) foi descoberto, aos 9 anos de idade, pelo viajante fran­ cês Louis Brunet, em Areia, Paraíba. A com panhou, com o desenhista, a expedição do naturalista. Em 1859, já estava em Paris (com bolsa conce­ dida por d. Pedro 2°). Estudou filo.sofla e literatura na Sorbonne, dou­ torou-se em física em Bruxelas. Mas sua fama se fez em Florença, onde apresentou as telas “A Batalha do A vaf', em 1877, e “O G rito do Ipi­ ranga” , em 1888 — ambas feitas por encom enda do govem o do Brasil. Em 1889, Pedro Am érico foi eleito depu­ tado constituinte no Rio. Q uando estava na Sorbonne, conhecera V ítor M eireles de Lim a (1832-1903). Filho de fam íla pobre, M eireles entrou na A cadem ia em 1847, para estudar pintura histórica. Aos 21 anos, já ganhara bolsa e esta­ va em Paris. Pintou “A Primeira M is­ sa no Brasil” em 1861, exposta no Sa­ lão de Píiris. Depois, também a pedido do govemo, fez "A Batalha Naval do Riachuelo” e “Passagem de Hum ai­ tá” . Em 1875, foi acusado de plágio ao apresentar “ A Batalha dos G ua­ rarapes” , considerada cópia de “A Batalha do A vaf’, que Pedro Américo pintava desde 1872. Duramente criti­ cado, M eireles respondeu pelos jo r­ nais. A seguir, dedicou-se à cátedra. Lecionando na Academia, Vítor

onarca Meireles foi o mestre da geração que deu continuidade à grandiloquente re­ presentação visual da história do Brasil: Henrique Bemardelli (“Pro­ clam ação da República” ), Antônio Parreiras (“A Prisão de Tiradentes” ). José M aria de M edeiros (“ Iracem a”. na página anterior) e Rodolfo Amoêdo (“O Últim o Tam oio” ). A idealiza­ ção da realidade proposta por tais pintores fica clara em sua represen­ tação do índio: os nativos são meras projeções da visão eurocêntrica do ho­ mem natural, pintadas com pieguismo tal que só lhes res.salta a estranhe­ za quase alienígena. A lém do m ais, nesses quadros. índio bom é índio morto. Q uanto aos negros, perm ane­ cem banidos das artes brasileiras até 1892, quando o pintor espanhol. M o­ desto Brocos y Góm ez mostrou um no quadro “Engenho” . Ainda assim , entre os discípulos de M eireles surgiriam dois grandes inovadores da arte no Brasil: Elyseo Visconti (1866-1944), fundador de um pai.sagismo autenticam ente bra­ sileiro (um Frans Post reencam ado) e Alm eida Jr. (1850-1899), que fez eclodir o brasileirismo submerso nes­ se rom antism o pueril ao pintar os ho­ m ens do cam po {no alto da página, "C aipira P icando F u m o ”) com cer­ ta cor européia, mas um lirismo origi­ nal. Esses homens fabricaram a m e­ mória visual da hi.stória do Brasil.

O G U A R A N I S IN F O N IC O

Certa tarde de 1869, sentculo num café da Piazza del Duomo, em Milão, Carlos Gomes comprou de um livreiro ambulante o livro "II Guarani — Romanzo Brasiliano”. Nascia ali a inspiração para a mais fam osa ópera brasileira de todos os tempos. Em 19 de março de 1870, no Teatro Scala de Milão, com um cenário monumental (acim a à direita), estreava essa extravagante versão musical do romantismo indianista. Embora a mais famosa, "O Guarani" não é a melhor ópera de Carlos Gomes, que estava na Europa graças a uma bolsa concedida p or d. Pedro 2°. A "Fosca", de 1873, lhe é superior. Em 1889, Carlos Gomes recusou-se a atender ao pedido do marechal Deodoro da Fonseca de com por o Hino da República. Pagou caro a ousadia: ao morrer, em 1896 —já criticado na Europa — caíra no ostracismo também no Brasil.

0 Segundo Reinado

135


A D im perador sentia-se bem neste jubileu de 50, disse o h istoriador C apistrano de Abreu, referindo-se à época de ouro do Segundo Reinado, os 20 anos du­ rante os quais d. Pedro 2° viveu sem grandes atribulações. Em 1868, po­ rém, a paz política se despediria — e para sempre— do imperador. Tudo começou com a abrupta demissão do gabinete liberal de Zacarias de Góes e Vasconcelos. O estopim foi provo­ cado pela nomeação do duque de C axias — ferrenho conservador— para chefiar o Exército brasileiro na G uerra do Paraguai. O afastam ento de Zacarias e seus m inistros não apenas rom peu com os 15 anos de conciliação (de hom ens e de idéias) entre liberais e conservadores: tam bém desnudou a precariedade do sistem a partidá­ rio e a real im potência dos depu­ tados. O conselheiro José Saraiva partiu para o ataque: disse que Pe­ dro 2° tinha tanto poder quanto N apoleão 3°. “A Constituição fran­ cesa, porém , é a base do poder da­ quele m onarca, ao passo que o fal­ seam ento do voto é a origem do excessivo poder do im perador do Brasil (...). Com a escravidão, do hom em e do voto, não obstante a liberdade de nossa im prensa, con­ tinuarem os a ser, com o som os hoje, m enosprezados pelo m undo civi­ lizado, que não pode com preender se progrida tão pouco em natureza tão rica.” Os liberais se desvencilharam dos ranços conservadores e form a­ ram novas agrem iações — o Centro Liberal e a Reform a— , exigindo eleições diretas e reform as cons­ titucionais.

O

errocada do

Imperador Os 20 anos que se seguiram fo­ ram o oposto das duas décadas an­ teriores. “A R eform a abriu contra o im perador a guerra do ridículo, veio explorado incessantem ente pe­ los jornais ilustrados, a im prensa popular que surgiu em 1875 com a ‘G azeta de N otícias’”, conta C apis­ trano de Abreu. “O imperante tolerava que a crí­ tica e o insulto, a própria calúnia, tivessem livre curso e cam peassem im p u n es” , diz P andiá Calógeras. “N unca se defendeu, seguro com o estava em sua consciência de ho­ mem de bem de se achar acim a de tais m isérias.” Fosse ou não um homem de bem — e muito provavelmente era— , d. Pedro 2°, abatido com a morte da fi­ lha, Leopoldina, em 1871, e muito afetado pela diabetes a partir de 82, alheou-se do mundo. A volta dos li­ berais ao poder em 1878 não acal­ mou a nação. De um jorro, vieram a “questão religiosa” ; a “questão mili­ tar” (veja “A R epública”): as mortes de Caxias. Osório, Rio Branco, Nabuco, Alencar e Zacarias; o clamor abolicionista; e a fermentação repu­ blicana. “O edifício do prestígio ofi­ cial fendia-se de alto a baixo; uma atm osfera de chalaça deletéria en­ volvia tudo” , com enta ainda C apis­ trano. “Só o im perador não dava por isso, em bebido em seus estudos de sânscrito, persa, árabe, hebraico e tu p i.” Pode-se dizer que foi com certo alívio que, na tarde de 16 de novem bro de 1889, d. P edro 2° re­ cebeu do m ajor Sólon Ribeiro, co­ m andante da cavalaria, a com uni­ cação de que fora deposto e deveria deixar o país “no m ais breve prazo possível” .

oi no hotel Bedford, modesto estabelecimento em Paris, onde se hospedara no começo de 1890, que d. Pedro 2®passou os dois últimos anos de sua vida —enfim livre para os livros. No exílio, o imperador comportou-se com a dignidade sóbria e o retraimento erudito que o caracterizavam. Recusou-se a receber pensão do govemo, recusou-se a utilizar seu grande prestígio interna­ cional para levar uma vida faustuosa, embora quem lhe pagasse as contas fosse o barão de Penedo, provavelmente com dinheiro público. Dom Pedro 2° morreu solitário, em 6 de dezembro de 1891. O escritor Victor Hugo chamou-o de “neto de Marco Aurélio” e o go­ vemo francês o enterrou com honras de chefe de Estado, o que irritou os militares republi­ canos do Brasil. Dom Pedro 2° desceu ao túmulo levando seus mistérios. “É impossível co­ nhecer-lhe o pensamento íntimo, os terrores que lhe perseguiram a infância, tendo feito da dissimulação um instinto de sua natureza e dado ao seu olhar qualquer coisa de intranquilo”, es­ creveu um contemporâneo. Se sua vida não tivesse sido como foi, não teria sido d. Pedro 2° “o maior dos brasileiros”? A resposta é soprada no vento que sacode a floresta da Tijuca, que ele mandou plantar.

F

136

H

is t ó r ia

do

B

r a s il


A G uerra oi uma virada nos rumos da guerra. A esquadra brasileira — uma fragata, qua­ tro corvetas e quatro canhoneiras, com 2.287 homens e 59 canhões— estava na em­ bocadura dos rios Paraná e Paraguai, junto ao afluente Riachuelo, perto de Corrientes. Rei­ nava calma a bordo; os marinheiros prepa­ ravam-se para assistir à missa da festa da San­ tíssim a Trindade, quando, às 9 horas, em formação de batalha e com uma velocidade de 12 milhas por hora (a favor da correnteza), duas corvetas, sete vapores e seis chatas para­ guaias, com 2.500 homens e 44 canhões a bor­ do, surgiram a sua frente. Era domingo, 11 de junho de 1865, e uma das maiores batalhas na­ vais do continente ia começar. A esquadra bra­ sileira era comandada pelo chefe-de-divisão Francisco Manuel Barroso, que estava a bor­ do da fragata Amazonas, na qual mandou içar os letreiros: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever” e “Atacar o inimigo mais próximo que cada um puder”. Foi exatamente o que aconteceu ao longo de mais de dez ho­ ras de combate feroz, ao fmal do qual a sorte mudara de lado na Guerra do Paraguai.

F

do

P araguai

O maior conflito armado da história da América do Sul começara havia seis meses. Desde então, a iniciativa ofensiva pertencia ao Paraguai. Com o maior e mais poderoso exér­ cito do continente e sob o comando férreo do ditador Francisco Solano López, o Paraguai vinha se preparando há anos para deflagar um conflito armado. A ambição de López era tor­ nar seu país uma potência continental. Seus interesses bateram de frente com os do Im­ pério brasileiro — e, a seguir, com os da jo ­ vem nação argentina. Na conflituosa geopolítica da bacia do Prata, López desempenhou o papel do fósforo no paiol de pólvora. Ao longo dos quatro anos que se seguiram à Ba­ talha do Riachuelo, Brasil, Argentina e Uru­ guai — unidos pelo Tratado da Tríplice Alian­ ça— destroçaram o Paraguai. Passados quase 150 anos do fim do con­ flito, a Guerra do Paraguai ainda desperta pai­ xão e polêmica. A historiografia oficial de ca­ da um dos países envolvidos apresenta uma versão diferente, senão dos fatos ao menos de seus objetivos e motivações. A verdade é mais uma das vítimas da guerra.

Nos compêndios brasileiros, a guerra surge como fruto da megalomania e do expansionismo de López. O papel supostamente heróico de líderes militares — Caxias, Osório, Barroso, Tamandaré— e a descrição detalhada das bata­ lhas mais épicas (seguida pelas belas pinturas que d. Pedro 2° encomendou a pintores como Pedro Américo e Vítor Meireles, autor de “A Batalha Naval do Riachuelo”, acima) substi­ tuem qualquer análise mais profunda. Nos livros argentinos, são outros heróis e outras batalhas — mas o tom celebratório é o mesmo. Para os paraguaios, tudo começou devido à empáfia e truculência dos países vi­ zinhos, poderosos e invejosos. Na verdade, foi uma guerra suja, travada' em pântanos e alagadiços, lutada por escravos libertos, ín­ dios, mestiços, “voluntários” e até por mu­ lheres, crianças e velhos. Guerra na qual mui­ tos combatentes morreram de tifo, cólera ou malária antes do primeiro tiro. Guerra de in­ teresses expansionistas, travada entre excolônias emergentes sonhando em um dia ser metrópole. Guerra trágica, tola e sórdida — como todas.

A Guerra do Paraguai 137


A G uerra

contra

O

ribe e

R osas

esde 0 início, foi um território conflagrado — quase um a terra de

Na A rgentina, o poder pertencia aos “colorados” e essa seria sua fac­

ninguém . Ao longo dos três séculos e m eio durante os quais fo­ ram senhores da A m érica do Sul, Portugal e E spanha não conse­

ção no U ruguai, independentem ente de qualquer acontecim ento político.

guiram estabelecer os lim ites m eridionais de seus im périos coloniais. Por­

ra im posta ao país pelo caudilho Juan M anuel Rosas (acima, à direita), no

tugal tentou sem pre prolongá-los até a em bocadura do Prata. A Espanha,

poder desde dezem bro de 1829. A costum ado à rudeza dos pam pas, onde

em bora pareça ter desistido de lutar pelos direitos que lhe eram concedi­

fora criado, aplicou na adm inistração da nação os m esm os m étodos e a

dos pelo Tratado de Tordesilhas, jam ais se m ostrou disposta a ceder tanto

m esm a disciplina com os quais dirigia sua fazenda no interior. E nquanto

D

terreno para o avanço luso. E assim , desde a fundação da Colônia do Sa­ cram ento, em 1680, até a invasão brasileira da Banda Oriental (mais

N a verdade, o dom ínio “colorado” na A rgentina com eçou graças à ditadu­

isso, no U ruguai, Frutuoso Rivera, do partido “colorado” , tom ava-se o prim eiro presidente constitucional do Um guai. Num a grande manobra

Os política, nom eou seu m aior inim igo, o general M anuel Oribe (acipampa. Não seria m uito diferente depois que as colônias con­ ma, à esquerda), seu m inistro da G uerra. A seguir. Rivera ele­ confiitos seguiram se livrar das m etrópoles. O Paraguai, em 1810, geu O ribe seu sucessor. Estim ulado por Rosas, Oribe abriu da bacia do ^ a ta tom ou-se o prim eiro país independente da região — lim ão do cargo e, quando Rivera voltou ao poder, tom ouentre (Brasií, Slrgentina bertando-se não apenas da Espanha, m as tam bém de se seu opositor. Iniciou-se, então, a “G uerra G rande” : e Uruguai foram fierança das Buenos Aires (sede do Vice-Reinado do Prata, cria­ o dram ático cerco de dez anos a M ontevidéu — c i­ Cutas entre ‘Espanita do em 1777, englobando, além das províncias platinas, dade que, na d efinição de A lexandre Dum as, se tortam bém Tucum án, C uyo e o A lto Peru, hoje Bolívia). A naria a “nova Tróia” . A o longo de uma década, os horrores e ^ortußaCpeCa seguir, foi a A rgentina que, em 9 de ju lh o de 1816, tam bém vivenciados pela população sitiada na capital um guaia com o­ posse da conquistou sua soberania. Em 29 de agosto de 1828, seis anos veram o m undo — em bora nenhum país, nem Inglaterra, nem região tarde, U ruguai), em 1811-16, a paz nunca reinou na am plidão do

após a independência brasileira. A rgentina e Brasil assinavam , no

Rio de Janeiro, um tratado reconhecendo o Uruguai com o país indepen­

França, nem Brasil, tenha ousado intervir no conflito. Por flm, em

1851

— depois de batalhas nas quais a degola de até 800 hom ens se tor­

dente. A ex-B anda Oriental seria, na verdade, um a espécie de Estado-tam -

nara com um — , Oribe venceu seu rival. Em breve, incentivaria seus parti­

pão entre as duas jovens nações expansionistas. A fundação do U m guai

dários a atacar as estâncias de brasileiros, localizadas tanto em território

am enizaria mas não solucionaria os conflitos na bacia do Prata, cujo ter­

um guaio com o além da fronteira. Essas incursões, cham adas “cali-

m ôm etro geopolítico se m anteria em tem peraturas elevadas e em ritm o

fóm ias”, pois, segundo o historiador Pedro Calm on, “lem bravam as vio­

taquicárdico por quase um século. De 1830 ao fim do século 19, as coxi-

lentas cenas da expansão am ericana m m o ao O este”, custaram m uitas vi­

Ihas ondulantes do pam pa foram regadas de sangue num a série infindável de conflitos: guerras de caudilhos, guerra de guerrilhas, guerras a cavalo, guerras de degolas. O Brasil se envolveria em quase todas elas, em geral

das e 800 mil cabeças de gado ao Brasil. Em julho de 1851, o conde de C axias, presidente da Província do Rio G rande do Sul, foi autorizado a invadir o U m guai, com 16 mil hom ens. Após breve cam panha, derm bou

apoiando, em nom e dos próprios interesses, o govem o consfitucionalista

Oribe, em outubro. A seguir, aliado ao general argentino Urquiza, tramou a

do U m guai — estivesse ele em poder dos “colorados” ou dos “blancos” , os dois partidos que rachavam o país ao meio.

derm bada de Rosas, a qual se concretizou em fevereiro de 1852. Mas a paz não duraria m uito na conflagrada bacia do Prata.

138

H is tó r ia d o B ra s il


A T r íp l ic e A liança Vai G uerra do Paraguai com e­ çou no Uruguai. Pior: co­ m eçou com o Brasil inva­ dindo 0 Uruguai — supostam ente para apoiar o partido “colorado” e em represália ao partido “blanco” , cujos m em bros continuavam cru­ zando a fronteira para atacar es­ tâncias no Rio Grande do Sul. Para o ditador paraguaio Solano López — que chegara ao poder em 1862, substituindo o pai, C arlos A ntô­ nio— a ação brasileira seria apenas a ponta do iceberg da política expansionista do Brasil no Prata, em tudo nociva aos interesses para­ guaios. Se a em bocadura do rio da Prata fosse bloqueada, o Paraguai poderia ser m antido na clausura — econôm ica e política. López decidiu se defender ata­ cando: aprisionou um navio brasilei­ ro em Assunção e, a seguir, invadiu o vulnerável Mato Grosso, em dezem­ bro de 1864. Em seguida, pediu au­ torização à Argentina para passar com suas ü-opas pela Província de Corrientes a tlm de atacar o Rio Grande do Sul e o Exército brasileiro que invadira o Umguai. O pedido foi negado e Solano López cometeu a suprema audácia de declarar guerra também à Argentina. Supostamente, López julgava que poderia contar com o apoio das Províncias argenti­ nas adversárias do presidente Barto­ lomé Mitre e a ajuda dos “blancos” umguaios, além da possibilidade de negociar com o Brasil um acordo so­ bre Mato Grosso. Nada disso, po­ rém. se concretizou.

à

G uerra

A

O P A T R O N O D A M A R IN H A B R A S IL E IR A

O B ra sil c o m eç o u a ven ce r o P a ra g u a i n a s á g u a s cios rios d a b a cia d o Prata. O c o m a n d a n te < b e fe d a s fo r ç a s n a c a is b rasileiras era o a lm ir a n te T a m a n d a ré . V eterano d o s c o n flito s re g io n a is — c o m b a te u a C o n fed era çã o d o E q uador, a C a b a n a g em , a S a b in a d a , os F arrapos e a B a la ia d a — , T a m a n d a ré b lo q u e o u os p o rto s in im ig o s e c o m a n d o u a s operações d e tra n sp o rte n a in v a s ã o do P araguai. Seus desafetos, p o ré m , d iz e m q u e ele p re fe ria “os p r a z e r e s d e B u e n o s A ir e s ” à s a g ru ra s d o ca m p o d e b a talha.

Em bora o Paraguai fosse m e­ nor e menos rico do que Brasil e Ar­ gentina, estava, ao contrário de seus adversários, pronto para a guerra. Ti­ nha 64 mil hom ens em arm as (e 28 mil reservistas). O Brasil possuía 18 mil soldados efetivos, a Argentina 8.000 e o U ruguai, então govem ado pelos “colorados” , mil. Q uaren­ ta dias depois de assinado o Trata­ do da Tríplice A liança, a M arinha brasileira destroçou a paraguaia no Riachuelo. Até então, só o Paraguai atacara. Essa vitória praticam ente decidiu a guerra em favor da Trípli­ ce Aliança, e os exércitos aliados só não avançaram até Assunção devi­ do a heróica resistência da fortale­ za de H um aitá — e, segundo alguns historiadores, em decorrência do “de.sleixo” do alm irante Tam anda­ ré, que julgou o inim igo derrotado. M as os paraguaios ainda resis­ tiriam por cinco anos, auxiliados pelas condições geográficas de seu país — onde a guerra passou, então, a ser travada— e pela bravura de seus com batentes, que julgavam lu­ tar por uma causa justa. Depois de o E xército paraguaio ter sido destro­ çado em Tuiuti, em maio 1886, o conflito se tornou uma guerra de guerrilhas, com os aliados movendo incessante perseguição a um Sola­ no López cada vez mais acossado e paranóico. Em \° de março de 1870, o líder paraguaio foi m orto por tro­ pas brasileiras. “M uero con mi Patria” , foram suas últim as palavras. Pura verdade: o Paraguai foi arra­ sado no com bate.

oi o aprisionamento arbitrário do vapor "Marquês de Olinda ” (ã esquerdaj, em novembro de 1864, no porto de Assunção, o estopim da Guerra do Paraguai. Submetidos a condições seve­ ras na prisão, apenas dois homens da tripulação — os tenentes Coelho e Arouca — conseguiram sobreviver Um mês depois do episódio, contando com o maior exército do continente, Solano López declarou guerra ao Brasil. No fin a l de dezembro, invadiu M ato Grosso. O te­ nente brasileiro A ntônio João Ribeiro

F

Cà direita) comandou uma heróica re­

sistência em Dourados. Foi mais um már­ tir brasileiro no maior conflito armado do continente.

A Guerra do Paraguai

139


A B atalha

O S Ó R IO Embora tenha, certa vez, se perdido antes de chegar ao campo de batalha, ficando impedido de participar do combate, o marechal Manuel Luís Osório ( 1808-1879) foi. de fato, um dos heróis da Guerra do Paraguai —e o maior responsável pela vitória em Tuiuti, onde fo i ferido. Mais tarde, na batalha do Avaí, voltaria a sofrer um ferimento. Por estar ligado ao Partido Liberal, naquele momento no poder, tornou-se comandante-chefe do Exército brasileiro, pois Caxias, que o lançara na carreira militar, era do Partido Conservador “É fácil a missão de comandar homens livres”, diria Osório, embora muitos integrantes das tropas que ele chefiava tivessem sido recrutados à força.

140

H i s t ó r u DO B r . \ s i l

do

T u iu ti

contra os flancos e o centro das tro­ pas aliadas, com as alas flanqueantes encarregadas de fecharem tenazes pa­ 24 de maio de 1866. Foirao im si­ pedir a eventual fuga dos alia­ nal para o início da Batalha do Tuiuti dos e surpreendê-los pela retaguarda. — a maior e mais sangrenta da história Foi um ataque terrível e ruidoso, con­ do continente. De um lado. cercados form e fica evidente no texto escrito por pântanos, lagoas e mato, estavam pelo alferes Dionísio Cerqueira, do os exércitos aliados: 21 mil bra.sileiros. 4° Batalhão de Voluntários. “Novas 10 mil argentinos e 1.200 uruguaios. colunas de cor averm elhada e armas Do outro, 24 mil soldados paraguaios, cintilantes surgiam um as após as ou­ sob o comando direto de Solano Ló- tras; eram guerreiros acobreados, espez. Os aliados estavam sob a chefia padaiídos, m ontados em pequenos ca­ de Bartolomé Mitre, comandante-geral valos, com os estribos de rodela entre da Tríplice Aliança. À direita do cam ­ dois dedos dos pés e chiripás de lã po estavam os argentinos; no centro e vermelha; com boleadeiras nos tentos, na esquerda, bra.sileiros e uruguaios. empunhando lanças enormes, ou bran­ López investiu com 18 mil homens, di­ dindo espadas curvas e afiadas, avan­ vididos em três colunas, levando de çando a galope, em alarido infernal, roldão dois batalhões uruguaios e o 41° sobre os nossos batalhões, já meio de­ de voluntários brasileiros. sorientados, pelas cargas repetidas que Seu plano consistia em investir primeiro canhonaço estourou pouco depois do meio-dia de

O

davam, pelas linhas de atiradores que saíam, pelas fileiras que rareavam , pelos oficiais que morriam, pelos che­ fes que tombavam. Parecia uma tempe.stade. (...) Com etas tocavam à car­ ga; lanças se enristavam ; a artilharia rugia; cruzavam-se baionetas; rasga­ vam-se os corpos sadios dos heróis; espadas brandidas abriam crânios, cor­ tavam braços e decepavam cabeças.” Depois de duas horas de terrível batalha cam pal, as tropas do general O sório conseguiram conter o ataque ao centro da form ação brasileira e. em seguida, depois de auxiliarem as alas, passaram à ofensiva. Às 16h30, o E xército paraguaio batia em reti­ rada, deixando 6.000 m ortos, 7.000 feridos. Os aliados tiveram 3.913 baixas. Era o início do fim da guerra contra López.


A D pesar da vitória esm agadora em Tuiuti, em m aio de 1866 a situação da guerra perm a­ necia incerta. Foi quando o Partido Conservador, então na ofX)sição, con­ seguiu forçar o gabinete liberal a en­ tregar o comando-geral das forças bra­ sileiras ao então m arquês de Caxias. Em janeiro de 1868, o general Bartolomé M itre, presidente da Argentina, foi forçado a retom ar a Buenos Aires para enfrentar problem as políticos in­ ternos e 0 com ando dos exércitos ali­ ados passou, então, às m ãos de C a­ xias. O Brasil prosseguiria na guerra praticamente sozinho. Mas Caxias — que encontrara o Exército brasileiro mal armado, mal alimentado, indisci­ plinado e duramente atingido por do­ enças e epidemias— , reorganizou as tropas iniciando a ofensiva fmal.

A

ezembrada

Duas décadas antes, engenheiros m ilitares brasileiros tinham ajudado o govem o do Paraguai a erguer a for­ taleza de Humaitá, nas margens do rio Paraguai, quase na confluência com o Paraná. Em junho de 1867, o últi­ mo baluarte do exército de López era justam ente o forte erguido com a aju­ da de .seus inimigos de então. Com o E xército reequipado e rem otivado. Caxias deu início ao cerco a H um ai­ tá, contornando a fortaleza e atacan­ do-a pela retaguarda, em fevereiro de 1868. O forte, no entanto, só foi tomado em agosto. Estava aberto o cam inho para Assunção — em bora a guerra ainda fosse clam ar m ilhares de vidas e exigir m ais de uma dezena de batalhas épicas. DefX)is de tomar Pisiquiri — fazendo uma trilha com 6.000 troncos de palmeiras para poder

CAXIAS atravessar o charco. Caxias deu início ao ataque fmal, que entraria para a his­ tória com o nom e de D ezem brada. A cam panha começou em 4 de dezem ­ bro de 1868, com a batalha de Itororó. Depois, vieram os combates de An­ gostura e Lomas Valentinas — este úl­ timo com cinco dias de duração. Entre um e outro, no dia 11, foi travada a Batalha do Avaí, que Pedro Américo imortalizaria com um quadro de am­ plas dimensões (acima). A Dezembrada term inaria no dia 30, com a tomada de Angostura. Uma semana depois, a 5 de janeiro de 1869, os exércitos aliados marchavam sobre Assunção. A guerra, porém, ainda não estava terminada, já que Solano Ló­ pez abandonara a cidade, refugiandose no norte do Paraguai com seus 13 mil derradeiros .soldados.

Luís Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, seria o comandante natural do Exército brasileiro na Guerra do Paraguai. Quando o conflito rebentou, porém, o govemo do país era controlado pelos liberais —e o conservador Caxias fo i substituído pelo ex-discípulo Manuel Osório. Em julho de 1866, os conservadores chegaram ao poder e Caxias assumiu o comando geral das tropas brasileiras. Um ano mais tarde, tomou-se chefe dos exércitos aliados, imprimindo às operações o estilo ofensivo que sempre caracterizou suas campanhas. Venceu uma sucessão de batalhas e entrou em Assunção em janeiro de 1869. Doente, retirou-se em março, deixando a guerra praticamente ganha.

A Guerra do Paraguai

141


A R etira d a

da

Laguna L ançado em português dois anos depois de

ão foram apenas belos (e polêm icos) quadros de batalhas que a Guerra do Pa­ raguai legou às artes brasileiras. Há tam­ bém pelo menos um a obra-prima literária produzi­ da no cam po de batalha. Militarmente, a Retirada

N

“Inocência” ter consagrado Alfredo Taunay com o um escritor trem endam ente popular, “A Retirada da Laguna” chocou o público. Não é difícil enten­ der por quê: ‘T ín h a m o s m uito próxim o de nós o

da Laguna foi um fiasco e um fracasso. H istóri­ ca e literariam ente, foi um a vitória maior. Pri­ meiro, os fatos: em maio de 1867, o Brasil ainda não possuía comunicação por terra com o território de Mato Grosso, tomado pelo Paraguai. Um a pe­ quena coluna brasileira, form ada por 1.680 ho­ m ens, com andados pelo coronel Carlos de M o­ rais Cam isão, recebeu a incum bência de realizar

term o de tantas m isérias, quando outra novidade veio agravar a situação, além de qualquer previ­

um a incursão por trás das linhas inim igas e pe­ netrar em M ato G rosso. Foi um a m archa épica, iniciada a 8 de maio, que os levou do Rio de Ja­

tendo a m orte sob os olhos e no coração (...) A que causa devíam os atribuir esta irrupção de có­ lera ou, m elhor, a que causa não a atribuirm os? Seria a carne estragada que éram os obrigados a comer, ou a fome curtida quando as náuseas ven­ ciam o apetite, ou ainda, o insuportável ardor dos

são, por m ais sinistra que fosse: circulou de re­ pente pelo acam pam ento a notícia de que nele ha­ via cólera. Teve esse dia cruel um a tarde e um a noite, com o era de prever. Pela m anhã, o tem po, a princípio chuvoso, m elhorou; e logo tom ouse o sol ardente. O s hom ens mal se arrastavam ,

neiro a Coxim, em M ato G rosso (via M ogi, Fran­ ca e Uberaba). De Coxim , os expedicionários, já vitim ados pelo cansaço, pela fom e e pelas en­ chentes, entraram em Laguna, no Paraguai, sen­ do então atacados pelo inimigo. Forçados a bater

incêndios que nos escaldavam o sangue, quiçá a infecção oriunda das substâncias vegetais que

em retirada, foram acom etidos por epidem ias de cólera-m orbo e febres palustres. Toda a sorte de

devorávam os, brotos, frutos verdes e podres, ou,

perigos e privações, todos os atos de desespero e de heroísm o foram brilhante e m inuciosam ente descritos por A lfredo d ’Escragnolle Taunay, em seu livro “A Retirada da Laguna”, escrito origi­ nalmente em francês, em 1871 e, três anos mais tarde, traduzido para o português por seu filho,

pela água estagnada dos charcos e lodaçais que naquela região abundam ? (...) Era terrível ver os coléricos dilacerando os andrajos com os quais tentávam os cobri-los, rolando uns sobre os ou­

A fonso Taunay.

142

H is tó r ia d o B ra s il

tam bém , enfim , a insalubridade do ar viciado

Alfredo Maria Adriano d ’EscragnoUe Taunay (1843-1899) era fU bo do p in to r FéUx Émile e neto de Nicolas Taunay. Em 1872, escreveu o best seller “Inocência"

tros, a se torcerem com câim bras, vociferando: ‘Á gua!’, enquanto a chuva caía em seus corpos gélidos” .


o

T eatro

de

O

perações o m eçou no Pantanal e acabou no C haco. A in d a que p o r breve p eríodo tam bém tenha hav i­ do luta no p am pa, a G uerra do Paraguai foi trav ad a basi­ cam en te nos baixios alaga­ diços localizados na m esopotâm ia d o s rios P aran á e P a ra g u a i: z o n a in sa lu b re , selv ag e m e febril q u e v iti­ m o u m u ito s c o m b a te n te s , esp e c ia lm e n te b ra sile iro s e arg en tin o s. O nú m ero total de solda­ d os en v o lv id o s nos seis anos de guerra ja m a is será plen a­ m ente conhecido. A s e statís­ ticas m ais co n fiáv eis falam em 64 m il soldados para­ g u aio s m o b ilizad o s desde o início da guerra, além de um c orpo de 28 m il reservistas — do qual fariam p arte ve­

C

Concepcion'

i

PARAGUAI

• San Estanislao [ • Sanjooquín I T

A SSU N Ç A Q Y -ix • ' - y •Caacupú ^ •Poraguari

Temtono paraguaio anexado Argentina

Território

^um aifó Encornoción Curup<^ •Corrientes

anexado '

^

\ I

\

BRASIL

Argentino

Riachuelo São Bofjp PORTO ALEGRE

ARGENTINA

IAC'.jA, CK )S

X

•Salto

X

»Poysandu

Pelotas

Jaguarão •

Rio Grande

í ^ !-^Ní- ; Al LAN ( k c

URUGUAI :>^Coionia BUENOS AIRES

Invasão paraguaia 1864-1865)

lhos v eteran o s e até m u lh e ­ res e crianças. O B rasil m o b ilizo u um total de 144 m il c o m b a te n ­ tes, a A r g e n tin a c e rc a de 25 m il e o U ru g u a i, 3 .0 0 0 . A p ro x im ad a m e n te 95% dos sold ad o s parag u aio s m o rre­ ram em com bate, ou v itim a­ dos p or doenças. C erca de 33 m il aliados s u c u m b ira m so m e n te n o s a rre d o re s d a fo rta le z a de H u m aitá. A s b a ix a s e n tre os soldados da T ríplice A liança u ltra p a s sa ra m 4 0 m il h o ­ m en s — 7.000 deles m ortos p ela c ó lera ou p o r febres tropicais.

A G u e rra do P a ra g u ai pode ser d iv id id a e m q uatro fases distintas:

1. O ataque paraguaio a) In v a sã o de M a to G ro s so (em d e ze m b ro de 1864) b) Invasão d a A rg en tin a (em ja n e iro de 1865) c) T o m a d a de U ru g u a ia n a (início de ju n h o de 1865)

2. A reação dos aliados a) F orm ação da Tríplice A li­ ança (em m aio de 1865) b) B atalha do R iachuelo (em 11 de ju n h o de 1865) c) A invasão do Paraguai (em fins de 1865)

3. O comando de Caxias (a partir de fins de 1866) a) R e tira d a d a L ag u n a (em m aio de 1867) b) T o m a d a de H u m a itá (em agosto de 1868) c) D e ze m b rad a (em d e z e m ­ bro de 1868)

4) Sob o comando do con­ de D’Eu (a p artir de m arço de 1869) a) A c a m p a n h a d a s C o rd i­ lh eiras (em abril de 1869) b) P e rse g u iç ã o e m o rte de S o lan o L ópez. O c o m b a te d errad eiro da G u e n a do Paraguai se deu no dia 1° de m arço de 1870, em C e rro C o rá , na re g iã o n o rd e ste d o P a ra g u ai. F e ri­ d o p or u m a lançada do cab o L a c e rc a , a p e lid a d o de C h i­ co D ia b o , L ó p ez foi m orto p o r um tiro nas b a rra n c a s d o a rro io c h a m a d o A q u id a b a n ig u i.

A Guerra do Paraguai

143


A s C o n seq u ên cia s

A

da

G uerra

G u e rra d o P a ra g u ai foi um g ra n d e n e g ó cio . C e rta m e n te não

P ara q u e m a g u e rra d o P a ra g u a i foi, e n tã o , um g ra n d e n e g ó c io ?

p a ra o p ró p rio P a ra g u ai — d e stro ç a d o p e lo s e x é rc ito s d a

P a ra “ o ju d e u R o th sc h ild e seu c o le g a c ris tã o B a rin g s” — q u e , se ­

T ríp lic e A lia n ç a (e sp e c ia lm e n te p e lo E x é rc ito b ra sile iro ), o

g u n d o u m p o e m a de B y ro n , “ sã o o s se n h o re s d o m u n d o (...) / c u jo s

p a ís p e rd eu m ais d a m eta d e de sua p o p u la ç ã o m asc u lin a . S o b ra ra m

e m p ré stim o s (...) fu n d a m u m a n a ç ã o ou d e rru b a m um tro n o ” . A o

a p e n a s v e lh o s, m u lh e re s e c ria n ç a s. P ara m u ito s a n alistas, até ho je a

B ra sil, e sse s b a n c o s e m p re sta ra m 10 m ilh õ e s de lib ra s (e n tre 1871 e

n a çã o a in d a não se re c u p e ro u do terrív el g o lp e. A g u e rra c o m c e r­

18 89, a p ó s a g u e rra , e ssa q u a n tia c h e g o u a 45 m ilh õ e s). A A rg e n tin a

tez a ta m b é m não foi um b o m n e g ó c io p a ra o B rasil. A lé m de p e rd e r

re c e b e u 6 m ilh õ e s d e lib ra s (m a is 12 m ilh õ e s ao final d o c o n flito ).

33 m il h o m e n s, o p a ís c o n tra iu u m a e n o rm e d ív id a de g u e rra co m

O fato de os e x érc ito s d a T ríp lice A lian ç a serem tln a n c ia d o s p o r b a n ­

d o is b a n c o s in g le se s. O te rritó rio a n e x a d o ao P a ra g u a i n ã o foi su fic ie n te p a ra c o m p e n s a r a c rise m o n e tá ria q u e se seg u iu . A g u e rra tam b é m n ão foi um b o m n e g ó c io p a ra os m i­

c o s b ritâ n ic o s fez c o m q u e , n a s d é c a d a s de 6 0 e 7 0 d o sé c u lo 20, su rg isse na A m é ric a L atin a, e n tre h isto ria d o re s e j o r ­ n a lista s d e e sq u e rd a , u m a n o v a in te rp re ta ç ã o d a G u e rra

lh are s de e sc ra v o s lib erto s e e x -e sc ra v o s m an d a d o s p ara

d o P a ra g u a i, se g u n d o a qual o c o n flito fo ra in c e n tiv a d o

a lin h a d e fren te c o m a p ro m e s sa de g a n h a re m a li­

p e la In g la te rra , c o m o o b je tiv o n ão só de e n d iv id a r o

b e rd a d e d e p o is d o c o n flito . A s p io re s ta re fa s d a fren te

B rasil e a A rg e n tin a c o m o ta m b é m o de s u fo c a r o m o ­

de b a ta lh a e ra m .sem pre as d e le s. A g u e rra ta m b é m não

d e lo e c o n ô m ic o p a ra g u a io — s u s p o sta m e n te d e s v in c u ­

foi um b o m n e g ó c io p a ra o s m ilh a re s de ín d io s tere n as.

lad o d o “ im p e ria lis m o b ritâ n ic o ” . A tese n ão se su s te n ­

g u a ic u ru s e g u a ra n is e n v o lv id o s no c o n flito e tam b é m c o n v o c a d o s p a ra a lin h a de fren te — o tra b a lh o su jo da g u e rra de g u e rrilh a s ta m b é m ficou p a ra eles. O s tere n as lu ta ra m do lad o b ra sile iro . O s g u a ic u ru s lu ta ram p a ra a m b o s os p a ís e s , d e p e n d e n d o d e q u e lad o d a f ro n te ira fic a v a m su as ald e ia s. O g ro ss o d as tro p a s p a ra g u a ia s e ra fo rm a d o p o r g u a ra n is

ta em p ro v a s d o c u m e n ta is. E m b o ra o P a ra g u ai b u sc a sse fó rm u la s “ h e te ro d o x a s ” de d e se n v o lv im e n to e e n tre as c o n q u is ta s de L ó p ez (a o la d o ) e stiv e ss e a v irtu a l e rra d i­ c a ç ã o d o a n a lfa b e tis m o e n tre o s p a ra g u a io s, o p a ís não só n e ­ g o c ia v a c o m a In g la te rra c o m o e sta v a lo n g e de se r úm p a ra íso d e m o c rá tic o : o p o v o e ra m ise rá v e l e L ó p e z n ão se e n q u a d ra em n e ­

— d e s c e n d e n te s d a s trib o s q u e , no sé c u lo 17. fo ra m e s c ra v iz a d a s

n h u m a d e fin iç ã o q u e n ã o a de d itador. D e q u a lq u e r fo rm a, m u ita

p e lo s b a n d e ira n te s p a u lista s. A g u e rra tam b é m n ã o foi um b o m n e ­

g e n te c o m b a te u p o r e le, a c h a n d o q u e a c a u s a era ju s ta — e p o r isso

g ó c io p a ra os m á rtire s b ra sile iro s M a rc ílio D ias. Jo ã o R ib e iro e M e-

o fiz e ra m c o m ta n ta fú ria. M a s a g u e rra n ã o foi um b o m n e g ó c io

na B a rreto , q u e. p a ra e n tra re m p a ra a h istó ria , sa íram d a vida. A g u e rra não foi um bom n e g ó c io p a ra a A rg e n tin a , q u e n ã o a p e n a s

p a ra o p o v o p a ra g u a io — m a ssa c ra d o , lite ra lm e n te , até o ú ltim o h o ­ m em . M as a g u e rra aca b o u se n d o b o m n e g ó c io p a ra os m ilita re s b ra ­

n ã o con.seguiu se a p o d e ra r de v a sta s p o rç õ e s d o te rritó rio p a ra g u a io

sile iro s, q u e sa íram d e la fo rta le c id o s e p re p a ra d o s p a ra a R e p ú b lic a.

c o m o ta m b é m se e n d iv id o u c o m o s in g le se s. A g u e rra , p o r tlm , não

A in d a a ssim , c o m o d isse o b a rã o d e M a u á — q u e se o p u n h a ao c o n ­

foi um b o m n e g ó c io p a ra o U ru g u a i, q u e n ão c o n tra iu m u ita s d ív i­

flito — , “ a m a ld ita g u e rra se rá a ru ín a d o v e n c e d o r e a d e stru iç ã o do

d a s, m as p e rd e u m ais de m il h o m e n s e não lev o u nada.

v e n c id o ” . Foi u m a g u e rra trá g ic a , to la e só rd id a — c o m o todas.

144

H l s t ó r i . \ d o Br.-\.sil


A A bo liçã o Passados m ais de cem anos, a polêm i­

lei tinha apenas dois artigos. Fo­ ra redigida por um calígrafo fa­

ca em tom o da abolição persiste — com

m oso em um pergam inho finíssi­

certas teses tão sim plistas quanto a lei que

mo. A princesa assinou-a com uma pena de ouro cravejada de brilhantes, adquirida

das m onarquistas, a princesa Isabel e seu

A

a decretou. Para historiadores com recaí­

por subscrição popular e usada aquela

pai, d. Pedro 2°, foram heróis, quase m ár­

única vez. O artigo 1° dizia: “É declarada

tires, que aboliram a escravatura e perde­ ram o trono. Para os republicanos, a lei só

extinta a escravidão no B rasil” . O artigo

foi assinada por pressão de abolicionistas radicais (e republicanos), com o Luís G a­

2° estabelecia: “Revogam -se as disposi­ ções em contrário” . O despojam ento radi­ cal do texto não disfarçava — talvez ape­

ma e Silva Jardim . Para m ilitantes do m o­

nas reforçasse— a com plexidade brutal

vim ento negro, Isabel não é a “R edento­

que antecedera (e sucederia) a aprovação

ra”, mas a princesa que deixou os escravos

da Lei Áurea. A luta pela abolição da es­

na m iséria e no abandono. Para estudio­

cravatura no Brasil — única nação inde­

sos de esquerda, foram as insurreições es­ cravas e o “m edo branco diante da onda

pendente que, na aurora do século 20 , ain­ da possuía escravos— fora a mais longa,

negra” que precipitaram a lei. Para a cha­ m ada Escola Paulista, a pressão dos cafei­

com plexa e tortuosa de todas as cam pa­ nhas sociais jam ais realizadas no país.

cultores do oeste de São Paulo (dispostos

D urara 80 anos — ao longo do qual cerca

a usar trabalho livre nas fazendas) acele­

de 1,5 m ilhão de escravos entraram no

rou a libertação dos escravos. O papel de abolicionistas “legalistas”

país (sendo que 700 mil deles ilegalm en­

(e m onarquistas), com o Nabuco, Patrocí­ nio e Rebouças, é às vezes quase esqueci­

te)— e envolvera toda a nação, desvendando-lhe as incertezas, as om issões, os descam inhos, a ganância e a covardià.

do. O espelho da historiografia reflete ima­ gens côncavas e convexas. A imagem real em frente do espelho, porém, parece reve­

É evidente que a sim ples assinatura colocada pela princesa Isabel no rebusca­ do pergam inho, libertando, a partir daque­

lar um a nação rude, dividida, de alm a es-

la data, os 723.719 escravos ainda exis­

cravagista e antilegalista, que relutou ao

tentes no país, não poderia resolver a

m áxim o antes de alterar sua ordem eco­

questão. Três séculos de escravidão (du­

nôm ica e social baseada na exploração do

rante os quais 4,5 m ilhões de escravos haviam sido trazidos para o Brasil) não

trabalho escravo. Um a nação que, às 3 h l5 de um a tarde ensolarada de dom ingo, 13

seriam apagados com um sim ples rabisco

de maio de 1888, não apenas não se livra­

num papel — por mais sucinto, requintado

ria de seu passado escravagista como, ain­

e explícito que fosse.

da hoje, parece incapaz de lidar com ele.

A To dia 30 de junho de 1887, acossado pela diabetes e pelas

1 V pororocas

da política, d. Pedro 2° partiu para uma tempora­ da na Europa. Sua filha, a princesa Isabel, assumiu o comando do país como regente. A os 41 anos, Isabel não lembrava em nada a menina que, tran.sformada em herdeira da Coroa pela morte dos irmãos Pedw e Afon.so, assumira o cargo pela primeira vez em 1871, anotando no diário: "muito esquisito ver-me assim, uma espécie de imperador, sem barba e sem barriga ". A pesar disso, já na primeira regência Isabel assinaria a polêmica Lei do Ventre Livre. Em 1875, a princesa assumiu outra vez o posto e assinou novas leis. Mas aque­ les momentos não se comparavam ao país convulsionado com o qual ela se defrontava agora. 0 ministério, comandado pelo barão de Colejipe, .se opunha à iminente abolição da escravatura. Mas, em 13 de maio de 1888, interrompendo breve descan.so em Petrópolis, a prin­ cesa voltou ao Rio de Janeiro e assinou a Lei n° 3.353 —aprovada pelo Parlamento por 85 votos a nove. Embora José do Patrocínio, um dos abolicioni.stas mais combativos, tenha se ajoelhado aos pés da princesa, beijando-lhe as mãos, certos historiadores acham que a abolição fo i um engodo, e l.sabel. sua principal manipuladora. De qualquer forma, a assinatura lhe custaria o trono.

A Abolição

145


O M

TABELA DE PR EÇ O S

O preço dos escravos variou muito ao longo dos três séculos pelos quais a escravidão perdurou no Brasil —e não apenas por causa do passar dos anos, mas também devido às "flutuações” do mercado na América e na Africa. Em J622, um escravo valia 29 mil-réis; em 1635, 42 mil-réis, e, no ano de 1652, 55 mil-réis. Em 1835, o preço subira para 375 mil-réis, e, em 1875, chegou a 1.256 mil-réis —um aumento de 235%. Em moeda estrangeira, em 1831. um escravo custava 5 libras na África e 98 libras "colocado” no Brasil. Já no ano de 1846. o preço de 8 dólares na Africa chegava a 300 no Brasil.

I

146

os 80 anos durante os quais a luta pela abolição da escrava­ tura se desenrolou no Brasil, m etade foi dedicada a acabar com o tráfico entre a Á frica e o Brasil. Nada mais natural. E struturado ao longo de 3(X) anos, o tráfico era a parte mais ren­ tável do negócio. Um só exem plo (en­ tre m ilhares): em 1832, o paulista Jo.sé M aria Lisboa adquiriu 760 “peças” na África, pagando 20 m il-réis por cabe­ ça. Vendeu-as no Brasil por 250 mil-réis cada uma. Com o bloquear um negócio cujos lucros eram frequentem ente su­ periores a 1.000 %? E m bora sem pre tivesse sido extre­ m am ente vantajoso para os luso-brasi­ leiros, o tráfico de escravos jam ais fo­ ra tão lucrativo com o viria a se tom ar a partir da segunda década do século 19. Por um sim ples motivo: no alvorecer da Revolução Industrial, a escravidão deixara de .ser um bom negócio para a Inglaterra, até então um a das m aio­ res nações escravagistas do m undo — na qual, em outros tem pos, cada novo d esem barque de africanos inspirava os presbíteros a fazer longos serm ões, agradecendo a Deus pela possibilida­ de de “conduzir novas alm as” ao reba­ nho divino. Ao .se tom ar ilegal, o tráfico ficou mais arriscado — e im ensam ente mais rentável.

D

H is tó r ia d o B ra s il

ercado de

E scravos

Foi em 7 de julho de 1807, depois de sete anos de pendengas parlam enta­ res, que a Câmara dos Lordes enfim proibiu a escravidão na Inglaterra. Inte­ resses m eramente econôm icos tinham levado o govem o a ceder à pressão de grupos hum anitários, que contavam com o apoio inflam ado dos com ercian­ tes de Bristol e Liverpool (portos dos quais, noutras épocas, mais de 2.(XX) navios negreiros haviam zarpado). Sancionada a lei, a Inglaterra — e sua poderosa M arinha— passou a se em ­ penhar na difusão de sua “pwlítica moralizadora dos m ares” com a m esma paixão com que, antes, defendera a es­ cravidão e o tráfico dela decorrente. Qua.se um ano e meio depois, em novem bro de 1808, a arm ada britânica escoltava a com itiva de d. João 6° para o exílio no Brasil. O príncipe logo se­ ria forçado a assinar, a contragosto, em 19 de fevereiro de 1810. um tratado no qual se com prom etia a “cooperar com Sua Majestade britânica na causa da hu­ m anidade e justiça”, que era a “gradual abolição do com ércio de e.scravos”. Es­ tava com eçando um a luta que duraria quase 80 anos — durante os quais pri­ m eiro Portugal e. a seguir, o Brasil se em penhariam ao m áxim o em fraudar todos os tratados que se viram força­ dos a assinar.

Ein 22 de janeiro de 1815, em um congresso em Viena, a Inglaterra in­ duziu Portugal a fim iar um tratado com prom etendo-se a não mais traficar escravos ao norte do Equador. Rati­ ficada em 28 de junho de 1817, a lei teria efeito inverso: o tráfico entre o Brasil e os reinos de Daomé e Benin (ambos a 5 graus de latitude norte) au­ mentou bm talmente. O motivo era sim ­ ples: com a proibição, o preço dos es­ cravos caiu a m enos da metade nesses dois reinos de tradição escravagista. e isso com pensava o risco de o negreiro ser capturado por um navio inglês. Além do mais, no Brasil os escravos sudane.ses eram m uito mais “estim ados” que os bantos de Angola (localizada a 15 graus de latitude sul, zona ainda liberada). Em 23 de novem bro de 1826, no entanto, em troca do reconhecim ento da independência, a Inglaterra forçou o Brasil a assinar um novo tratado (ratifi­ cado em 13 de março de 1827). segun­ do o qual “três anos após a troca das ra­ tificações não .seria m ais lícito aos súditos do Império do Brasil fazer o trá­ fico de escravos da costa da África, sob qualquer pretexto ou maneira, sendo a continuação desse com ércio (...) tratada com o pirataria” . Portanto, em 13 de março de 1830, o tráfico foi proibido no país. N unca .se traficaria tanto.


O F im tratado de 1826 causou grande indignação no Brasil escravo­ crata. O deputado Cunha M a­ tos, de Goiás, foi a plenário deplorar que o país tivesse sido "forçado, obrigado, submetido e com pelido pelo govemo britânico a assinar um a convenção onerosa e degradante sobre assuntos in­ ternos, dom ésticos e puramente nacio­ nais” . Contudo, os escravos continua­ ram a chegar ao país — e em números cada vez maiores: 30 mil em 1827, 38 mil em 1828 e 45 mil no ano seguinte. Em novem bro de 1831, o padre Diogo Feijó, ministro da Justiça durante a Regência Trina, assinou uma lei de­ cretando que “todos os escravos que en­ trarem no território ou portos do Brasil vindos de fora ficam livres”. Mas em 1838 foram trazidos mais de 40 mil. Em 1843, o número chegou a 64 mil e ne­ nhum deles ficou livre, é evidente. Ex­ plica-se; a própria regência aumentara muito o píxier dos juizes locais. Vários deles eram donos de fazendas e de es­ cravos. Os que não eram, passaram a cobrar 10, 8 % do valor de cada africano desembarcado para fazer vista grossa. Os poucos juizes que tentaram impor a lei foram ameaçados de morte — como os juizes italianos que enfrentariam a m áfia e os m agistrados colom bianos inimigos do narcotráfico.

O

do

T r á f ic o

Em 1842, o desrespeito à lei era tal que o dram aturgo Míirtins Pena incluiu em um a de suas peças a fala: “ Há por aí uma costa tão larga e autoridades tão condescendentes...” Os escravos já não desembarcavam no Rio de Janeiro, nem iam direto para a alfândega (na pági­ na anterior), nem, após a quarentena na ilha de Jesus, para os m ercados da rua do Valongo (acima). Os novos portos da “costa tão larga” eram na ilha Grande, em Sernam petiba e M arambaia. Os ne­ gros eram desembarcados na praia e trocados no ato por sacas de café. Os traficantes criaram também uma companhia de seguros, que cobrava 10% do valor da carga e, no caso de apreen­ são do navio por cruzadores ingleses, pagava m etade de seu valor total. A proibição fizera o preço dos e.scravos despencar à quarta parte em Cabinda e Benguela. No Brasil, por outro lado, o boom do café (a partir de 1845) quin­ tuplicara o valor das “ peças” . Assim, os negreiros passaram a entupir seus navios com um a quantidade brutal de negros. As descrições do interior dos barcos — m uito propriam ente apelida­ dos “tum beiros”— suplanta qualquer horror im aginável. Houve — e ainda há— quem preferisse culpar por esses abusos as instituições hum anitárias e os “m alditos ingleses” .

R O B IN S O N C R U S O E

Os “m alditos ingleses” não podiam diminuir as costas largas do Brasil, mas podiam reduzir a “condescendência” . Foi o que fizeram. Depois que o diplo­ m ata lorde Brougham enviou um a car­ ta para L ondres dizendo que “ a h is­ tória toda da desfaçatez humana não apresenta passagem que possa rivali­ zar” com o desrespeito à lei contra a escravidão no Brasil, foi assinado, em 9 de agosto de 1845, o fam igerado “ BilI A berdeen” — um ato unilateral que perm itia aos britânicos abordar e inspecionar qualquer navio brasileiro em qualquer oceano. A inda assim , .se de 1841 a 45 entraram ilegalm ente no Brasil 97.742 negros, de 45 a 51 e.s.se núm ero chegaria a 243.496. Porém , em 4 de setem bro de 1850 o então m inistro da Justiça, Eusébio de Queirós, assinou uma lei rígida que, en­ fim, foi cum prida (em 1851, só 700 escravos entraram no país). Queirós la­ m entaria a própria atitude: para ele, com o toda a nação praticava o tráfico, era “im possível que fosse um crim e e haveria tem eridade em cham á-lo de erro” . De qualquer form a, após m eio século de luta, o tráfico findara. M as ainda havia 1,5 m ilhão de cativos no Brasil. Para libertá-los, iniciou-se vi­ gorosa cam panha abolicionista na qual .se destacaram Patrocínio e Nabuco.

O personagem mais famoso da literatura inglesa, o náufrago Rohin.son Crusoe, era traficante de escravos. Crusoe, na verdade, virara senhor de engenho na Bahia, onde chegara por acaso. “Vendo como os traficantes enriqueciam mais rápido do que os fazendeiros ", o personagem, criado por Daniel Defoe em 1719, decidiu partir para a África, com seu próprio capital e o de outros plantadores, para adquirir uma "partilha de escravos". Na viagem de ida, o navio afundou e Crusoe, único sobrevivente, viveria por 20 anos em uma ilha deserta.

A Abolição

147


J e toda a propriedade é roubo, a propriedade escrava é um roubo duplo, contrária aos princípios hum anos que qualquer ordem jurídica deve servir.” Não se tratava apenas de uma retórica in­ flam ada de nítida inspiração socia­ lista, nem de um m ero exercício de propagandism o desabusado que se poderia esperar de um dos jornalis­ tas m ais fam osos do país. Filho de um padre com uma escrava que ven­ dia frutas, José do Patrocínio (18531905) sabia do que estava falando; senhor por parte de pai, escravo por parte de mãe, vivera na pele todas as contradições da escravatura. N ascido em C am pos (RJ), um dos pólos escravagistas do país, m u­ dou-se para o Rio de Janeiro e co­ meçou a vida como servente de pe­ dreiro na Santa Casa de Misericórdia do Rio (abaixo, no centrv). Pagando 0 próprio estudo, formou-se em far­ mácia. Em 1875. porém, descobriu a verdadeira vocação ao fundar um jornal satírico cham ado "O s Fer­ rões”. Começava ali a carreira de um dos m ais brilhantes jornalistas bra­ sileiros de todos os tempos. Dono de um texto requintado e viril. José do Patrocínio — que de início assina­ va Proudhon— se tomou um articu­ lista famoso em tcxio o país. Conhe­ ceu a princesa Isabel, fundou seu diário, a "Gazeta da Tarde", virou o “Tigre do Abolicionism o” . Em maio de 1883. criou, ju n to com André Rebouças. um a confederação unin­ do todos os clubes abolicionistas do país. A revolução se iniciara. "E a revolução se chama Patrocínio”, di­ ria Joaquim Nabuco.

osé d o

P a t r o c ín io

S

148

H i s t ó r i .\ d o B r.\s il

\ Jo (lia 29 de janeiro de 1905. José do Patrocínio .sentou-se em frente da sua pequena escrivaninha no modesto barracão em que vivia no bairro de Inhaúma, no Rio de Janeiro. Começou a redigir: "Fala-se na organização definitiva de uma sociedade protetora dos animais. Tenho pelos animais um respeito egípcio. Pen.so que eles têm alma. ainda que rudimentar, e que têm címscientemente revoltas c<mtra a injustiça humana. Já vi burro suspirar, depois de brutalmente espancado por um carroceiro que atulhara a carroça com carga para uma quadriga, e que queria que o mísero animal a arrancasse do atoleir... " Não terminou a palavra nem a frase. Um jato de sangue jorrou-lhe da boca. O "Tigre do Aboiiciímismo" —pobre e desamparado — morria, imerso em dívidas e mergulhado no esquecimento.

1

V

Pouco depois de a princesa Isa­ bel assinar a Lei Áurea, sob uma chuva de rosas, no paço da cidade, a campanha que. por dez anos. Patro­ cínio liderara entlm parecia encerra­ da. "M inha alma sobe de joelhos nestes paços", diria ele. curvando-se para beijar as mãos da “loira mãe dos brasileiros” . Aos 35 anos in­ completos. era difícil supor que. a partir dali. Patrocínio veria sua car­ reira ir ladeira abaixo. M as foi o que aconteceu: seu novo jom al. “A Cidade do Rio" (fundado em 1887), virou porta-voz da monarquia — em tem pos republicanos. Patrocínio foi acusado de estimular a formação da “Guarda Negra", um bando de escra­ vos libertos que agiam com violên­ cia nos com ícios republicanos. Era um “isabelista". Em 1889. aderiu ao movimento republicano: tarde demais para agra­ dar aos adeptos do novo regime, mas ainda em tempo para ser abandona­ do pelos ex-aliados. Em 1892. de­ pois de atacar o ditador de plantão, m arechal Floriano. Patrocínio foi exilado na A m azônia. Rui Barbosa o defendeu, num texto vigoroso. “Que sociedade é essa. cuja cons­ ciência moral m ergulha em lama. ao m enor capricho da força, as es­ trelas de sua adm iração?” Em 93. Patrocínio voltou ao Rio. mas, como continuou atacando o “Marechal de Fem )”. seu jom al foi fechado. A m i­ séria bateu-lhe à porta e PatrcKÍnio m udou-se para um barracão no su­ búrbio. Por anos. dedicou-se a um projeto delirante: construir um diri­ gível de 45 metros de comprimento. A nave jam ais se ergueria do chão.


A n dré R ebouças orreu solitário, sobre uina grande pedra. em frente do rnar, na ilha da M adei­ ra. Não estava apenas só; eslava tam bém pobre e amargurado. O exí­ lio, porém, era voluntário. .André Re­ bouças ( 1838-1898) conseguira atin­ gir 0 m aior objetivo de sua vida: a e.scravidão fora, enfim , abolida do Brasil. Mas o custo lhe pareceu al­ to dem ais. Am igo do im perador d. Pedro 2°, que venerava, da princesa Isabel e do m arido dela. o conde D ’Eu. Rebouças sabia que a aboli­ ção fora uma das causas da procla­ m ação da República, e a República, é claro, destronara os monarcas. As­ sim, o mulato franzino que fora um dos maiores propagandistas e meticulo.so e.strategista do movimento pe­ la libertação dos escravos deixou o país no m esmo navio no qual a fa­ m ília real partiu para o exílio. A m orte dc d. Pedro 2°. em 1891, provocou-lhe distúrbios emo­ cionais. André Rebouças partiu pa­ ra a África, num a jornada louca que 0 levou a M oçam bique e Zanzibar. Foi-se m eter no Transvaal. onde ali­ m entou 0 plano delirante de vestir toda a população de 300 mil habi­ tantes. Detalhista como sempre, cal­ culou que seriam necessários "mais de 900 mil m etros [de lecido] a fornecer imediatam ente; e com o se­ rão indispensáveis seis m udas no verão, serão 5,4 m ilhões de m etros de pano de algtxlão por ano” . Acha­ va que 0 projeto salvaria as fábricas da Europa da bancarrota.

M

Ç ^e fosse americano, sua vida teria rendido inúmeros livros e uma dezena de O fdmes. Mas Luís Gama era um pobre negro brasileiro, nascido na Ba­ hia em 1830, e, embora sua biografia pareça um romance dramático, segue praticamente ignorada pelos brasileiros. Nes.^e sentido, Luís Gama foi, e continua sendo, o nome mais emblemático do movi­ mento abolicionista —além de um dos mais ativos e radicais. Filho de um fidalgo português empobrecido e de Luísa Mahin, “negra africana livre que sempre recusou o batismo e a dou­ trina cristã”. Gama fo i ilegalmente vendido como escravo aos 10 anos pelo próprio pai. Levado para o Rio de Janeiro e para Santos, fugiu da casa de seu “dono ”, fo i soldado, jornalista, poeta e, por fim, advogado. Iniciou, então, monumental batalha judicial, conseguindo a libertação de mais de 500 escravos, baseando-.se na lei de 1831. segundo a qual todos os negros entrados no país depois de 7 de novembro daquele ano eram livres. Também obteve a alforria de outros 500 cativos, aproveitando-se de outra bre­ cha da lei. Associou sua luta abolicionista a uma radical propaganda re­ publicana. Foi uma versão “esquerdista ” de Rebouças.

Em bora capaz de dedicar-se a planos tão utópicos quanto vestir toda a população de um país m ise­ rável. André Pinto Rebouças era tam­ bém um homem prático e ativo. Nas­ cido na Bahia, em janeiro de 1838. filho do advogado m ulato Antônio Pereira Rebouças (abaixo, à esquer­ da), era tão fraco e doente que nin­ guém supunha que sobrevivesse. Mas em 1842 o pai foi eleito depu­ tado e a família transferiu-se para o Rio de Janeiro. A m udança fez tão bem para André com o para seu ir­ mão. Antônio (abaixo). Am bos se form aram em engenharia e. com o diplom a na m ão. foram para a Eu­ ropa. visitaram pontes e obras, .so­ bre as quais produziram relatórios detalhados. Na volta, André não pôde traba­ lhar: foi convocado para a Guerra do Paraguai. Teve varíola e deu baixa em um ano. Percorreu o Brasil ten­ tando convencer o im perador a m odernizar portos e ferrovias. Não eram só as idéias m uito avançadas que o im pediam de concretizar seus projetos: a cor da pele não ajudava. Ainda assim. André, pioneiro da me­ cânica de solos no Brasil, fez as do­ cas do Rio e portos no N ordeste; e A ntônio fez a ferrovia ParanaguáCuritiba. A partir de 1872 André se dedicou integralmente ao abolicio­ nismo, influenciando toda a ação do m ovim ento. Era tím ido e mau ora­ dor. mas. segundo Nabuco, “teve o mais belo dos papéis, embora oculto: foi nosso motor e nossa inspiração” .

Luís Gama morreu aos 52 anos, em São Paulo, em 24 de agosto de 1882. Seu enterro, no cemitério da Consolação, transformou-se numa portentosa ma­ nifestação abolicionista (e republicana). Sua obra teria continuação —na verdade, se radicalizaria— nas ações desencadeadas pelo mais fiel e ativo de seus discípulos: Antônio Bento. Branco, rico e filho de fazendeiros, nascera em condições opostas ás de Gama. Mas ÍBl tornou-se um abolicionista fanático, não apenas libertatulo os escravos da fazenda de sua irmã, mas criando um grupo ra­ dical, os Caifazes, que passou a invadir fazendas e articular fugas em massa de centenas de escravos. Para completar os traços invulgares de sua singularíssima biografia, Antônio Ben­ to fà esquerda) era —e continuou sendo até a morte, em 1898— monarquista e conservador. Mas fo i também o mais subversivo de todos os abolicionistas, a ponto de ter sua morte tramada por escravocratas e sua mansão invadida várias vezes pela polícia. Bento fo i também o principal organizador do quilombo do Jabaquara, localizado em Santos, para onde foram levados mais de 10 mil escravos cuja fuga ele próprio ajudara a organizar

A Abolição

149


J

o a q u im

E

1 m 1883, Joaquim Aurélio Bar­ reto Nabuco de Araújo estava J em Londres. Vivia em Grosvenor Gardens, era o correspondente do “Jomal do Com mercio" e amigo pes­ soal do barão de Penedo, embaixador do Brasil na Inglaterra. Apesar do con­ forto de uma vida ü-anquila no bairro m ais aristocrático da capital do m un­ do, N abuco ainda não se recuperara da derrota eleitoral sofrida dois anos antes no Brasil. Deputado do Partido Liberal, eleito em 1878 por Pem am ­ buco, tomou-se “verdadeiro tormento na Câmara”. Em 1880, fundou a So­ ciedade Brasileira contra a Escravidão e se tomou o maior porta-voz do abo­ licionism o legalista e parlamentar. De form ação conservadora, filho de um a das mais tradicionais fam í­ lias do país, ligada à econom ia açu­ careira nordestina e à política im pe­ rial, o m onarquista N abuco (nascido em Recife em agosto de 1849) apre­ sentou, em agosto de 1880, m inucio­ so projeto de lei propondo a abolição da escravatura em 1890 e a indeniza­ ção de seus proprietários. O projeto se chocava com a proposta dos m ili­ tantes radicais, em geral republica­ nos, que queriam abolição im ediata e sem indenização. Pego entre dois fo­ gos, Nabuco não conseguiu reelegerse em 1881. No agridoce exílio londrino, es­ creveria então uma das mais densas e belas obras de combate já publicadas em português: “O Abolicionism o” — um livro fulgurante, m odem o, incisi­ vo, no qual Nabuco, livre do com ­ promisso com as manobras políticas, defende a abolição imediata e sem in­ denização — mas legalista.

T ^ r a um homem de natureza vulcânica. Tanto que, no início de 1888. de-

pois que sua proposta para desencadear uma “ação popular revolu­ cionária " para derrubar d. Pedro 2° e instaurar a República no Brasil não fo i aceita no Congresso Republicano, realizado em São Paulo, o professor, advogado e jomalista Antônio Silva Jardim (1860-1891) decidiu vender, por 500 mil-réis, sua parte num escritório de advo­ cacia. Edisse: “Com esse dinheiro, vou derrubara monarquia Com alguns níqueis e uma garganta, também se pode abrir caminho para a República". Silva Jardim não era apenas um republicano fanático: era também um abolicionista radical, disposto a burlar qualquer expediente jurídico que barrasse a libertação dos escra­ vos. Para ele, a lei da abolição deveria ter —como de fato teve— ape­ nas dois artigos. “A questão se resolveria assim: o primeiro artigo diria: fica abolida a escravidão no Brasil; e o segundo, pedimos perdão ao mundo por não tê-lo feito há mais tempo. "

150

H i s t ó r i a d o B r.\s il

N abuco Em 1884, Joaquim N abuco re­ tom ou ao Brasil e à Câm ara: foi ree­ leito com grande margem de votos. Com o permaneceu m onarquista e le­ galista, e achando que a abolição era "negócio de brancos” , alguns histo­ riadores o consideram “líder da ala direita do m ovim ento” . Nos anos se­ guintes, a abolição se concretizou, em bora logo ficasse claro que seria apenas um a m edida jurídica, e em seguida veio a República. Apesar de mais tarde ter sido m inistro dos pre­ sidentes Prudente de Morais e Cam ­ pos Sales, Joaquim Nabuco (que m or­ reria com o diplom ata em W ashington em janeiro de 1910) am argurou-se profundam ente. Em janeiro de 1893, escreveu para André R ebouças, o am igo que muito 0 influenciara e partira para o exílio voluntário na Africa: “Com que gente andam os m etidos! Hoje estou convencido de que não havia uma parcela de am or ao escravo, de desinteresse e de abnegação em três quartas partes dos que se diziam abolicionistas. Foi um a especulação a mais! A prova é que fizeram essa república e depois dela só advogam a causa dos bolsistas, dos ladrões da finança, piorando infinitam ente a condição dos pobres. Onde estariam os propagandistas da nova cruzada? (...) Estávam os m etidos com finan­ ceiros, e não com puritanos, com fâ­ m ulos de banqueiros falidos, m er­ cenários de agiotas etc.; tínham os de tudo. m enos sinceridade e am or pelo oprim ido. A transform ação do abo­ licionism o em republicanism o bol­ sista é tão vergonhosa pelo m enos com o a do escravagism o” .

Silva Jardim fo i responsável pela fuga de dezenas de escravos de fazendas paulistas. Mas, pouco após a abolição, quando iniciou sua pregação re­ publicana numa viagem pelo Vale do Paraíba, Rio de Janeiro e Minas Gerais, fazendo, em um mês, 30 comícios em 27 cidades, teve sérios problemas com a Guarda Negra, milícia de negros libertos encarre­ gada de dissolver a cacetadas as reuniões republicanas. Chegou a discursar de revólver em punho. Certa vez, quando seus compa­ nheiros quiseram escoltá-lo até em casa, ele fez que.uão de ir sozi­ nho. Disse: “Quero ver quem tem mais coragem: se eu para mor­ rer, se essa gente para matar”. Depois da Proclamação da República, o rebelde desiludiu-se com o movimento —e perdeu a eleição para senador. Partiu, então, para a Europa. No dia /" de julho de 1891, estava em Pompéia e resolveu escalar o Vesúvio. Foi tragado numa fenda. José do Patrocínio diria: "Bela sepultura o vulcão, extraordinário destino o do grande brasileiro: até para morrer, transformou-se em lava... ”


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As '' um país que inventou a prerrogativa ju ­ rídica segundo a qual as leis "pegam ” ou "não pegam ”, não é de estranhar que as im posições contra o tráfico de escravos e contra a própria escravidão tenham dem orado tanto para “pegar”. As pendengas judiciais, aos tortuo­ sos cam inhos legais da C âm ara e do Senado, aos entraves e recuos provcx:ados por infindáveis dis­ cussões partidárias; aos conflitos entre os libe­ rais e conservadores que antecediam a aprova­ ção de qualquer nova lei contra a escravidão, deve-se acrescentar o fato de que. depois de fi­ nalm ente aprovadas, tais leis se tornavam , no ato e na prática, letra morta. Esse processo sórdido explica por que a luta legal contra a e.scravidão se prolongou por 80 anos no Brasil. Foi som ente após a hum ilhação internacional resultante do "Bill A berdeen” que o Brasil, enfim, se dispôs a proibir o tráfico. A abolição se tom ou, então, uma questão interna, realm ente “ nacio­ nal” . Sem a pressão exterior, .seu processo se pro­ longaria por quase quatro décadas. A m aioria dos conservadores era. a priori, contra a libertação dos escravos. Se ela tivesse de ser feita, os pro­ prietários precisariam ser indenizados pelo E s­ tado e o processo deveria ser "lento, gradual e .seguro” . Em m aio de 1855, o conselheiro José Antônio Saraiva propôs que a e.scravidão fosse extinta em 14 anos e que o Estado pagasse 800 mil-réis por escravo entre 20 e 30 anos, 600 milréis pelos de 30 a 40, 400 m il-réis pelos de 40 a 50 e um conto (ou I m ilhão) de réis por e.scravo com m enos de 20 anos.

N

L e is d a A b o l i ç ã o

Entre os liberais, as posições variavam m ui­ to. Havia os que pensavam com o os conservado­ res; havia os republicanos radicais; havia os fa­ zendeiros de São Paulo interessados em solucionar logo a questão substituindo os escravos por im i­ grantes europeus — desde que recebessem incen­ tivos financeiros para o projeto. De qualquer form a, em 28 de setem bro de 1871, numa jogada política sagaz, o gabinete con­ servador, chefiado pelo visconde do Rio Branco (acima, à esquerda), conseguiu aprovar a cham a­ da Lei do Ventre Livre, segundo a qual seria livre qualquer filho de escrava na.scido no Brasil. Além de arrancar a bandeira abolicionista das mãos dos liberais, ainda bloquearia por anos a ação dos abo­ licionistas mais radicais, garantindo, assim , que a libertação dos escravos fosse um processo "lento, gradual e seguro” . Na prática, a lei seria burlada de.sde o início, com a alteração da data de nasci­ mento de inúmeros escravos. O Fundo de Emanci­ pação, criado pela mesma lei e oriundo da Receita Federal — para pagar pela alforria de certos es­ cravos— tam bém foi logo dilapidado, usado em grandes negociatas. M uitos proprietários arran­ cavam os filhos recém -nascidos de suas mães e os mandavam para instituições de caridade, onde as crianças eram vendidas por enfermeiras que faziam parte do esquem a arm ado para burlar a Lei Rio Branco. Em alguns m anuais escolares, o conservador visconde do Rio Branco ainda surge com a m esm a imagem que adquiriu aos olhos dos abolicionistas ultram oderados: a im agem de “A braham Lincoln brasileiro” .

Golpeada pela Lei do Ventre Livre, a cam pa­ nha abolicionista só recom eçaria em 1884. Um ano m ais tarde, porém , o Parlam ento jogou ou­ tra cartada em sua luta para retardar a abolição: em 28 de setem bro foi aprovada a Lei SaraivaCotejipe, ou Lei dos Sexagenários. Proposta pe­ lo gabinete liberal do conselheiro Jo.sé A ntônio Saraiva e aprovada no Senado, com andado pelo presidente do C onselho de M inistros, o barão de Cotejipe (acima, à direita), a lei concedia liber­ dade aos cativos m aiores de 60 anos e estabele­ cia norm as para a libertação gradual de todos os escravos, m ediante indenização. Na verdade, a Lei dos Sexagenários voltaria a beneficiar os se­ nhores de escravos, perm itindo que se livrassem de velhos “ im prestáveis” . No início de 1888, a impopularidade do che­ fe de polícia do Rio de Janeiro, Coelho Bastos, fez cair o m inistério de Cotejipe, que abertam en­ te afrontava a princesa Isabel. Os conservadores permaneceram no poder, com João A lfredo como presidente do mini.stério. Em abril de 1888, Alfre­ do chegou a pensar em propor a abolição im e­ diata da escravatura, porém obrigando os libertos a ficar por “dois anos junto a seus senhores, tra­ balhando mediante m ódica retribuição” . No mês seguinte, não foi mais possível retardar o pro­ cesso abolicionista — agora liderado pela própria princesa Isabel. Depois que a regente assinou a lei, Cotejipe estava entre os que foram cumprimentá-la. Ao beijar-lhe a mão, o barão teria dito: “Vossa M ajestade redimiu uma raça. mas acaba de perder o trono” . A frase se revelaria profética.

A Abolição

151


D

A

e p o is d a

A b o l iç ã o

lei sucinta e direta que a princesa Isabel as­

O govem o brasileiro não pagou indenização algu­

sinou em 13 de m aio de 1888 não concedia

m a aos senhores de escravos (“Indenização m onstruo­

indenização algum a aos senhores de escra­

sa, já que um a grande parte deles eram africanos ile­

vos. D e qualquer form a, ao longo dos 17 anos que se

galm ente escravizados, pois haviam aportado ao Brasil

estenderam da Lei do Ventre Livre à abolição efetiva,

depois da Lei Feijó, de 7 de novem bro de 1831”, c o ­

os escravocratas tinham encontrado m uitas fórm ulas

m o disse, em discurso na Câm ara, Joaquim Nabuco).

para ressarcir-se de supostas perdas, entre elas o tráfi­

O preço para que tal indenização absurda não fosse

co interprovincial de escravos, as fraudes ao fundo de

paga foi, porém , enorm e. Teria sido justam ente para

emancipação e à Lei do Ventre Livre. Mas se os escra­

evitar qualquer petição que pudesse vir a ser feita pe­

vocratas não atingiram um de seus objetivos, o fracasso

los escravocratas que Rui Barbosa {ao lado), m inistro

dos abolicionistas foi maior e mais amargo. Afinal, ho­

das Finanças do prim eiro govem o republicano, assi­

mens com o Nabuco, Patrocínio, Rebouças, Gama, Antô­

nou o despacho de 14 de dezem bro de 1890, determ i­

nio Bento e Rui Barbosa — apesar de suas divei^ências

nando que todos os livros e docum entos referentes à

ideológicas— acreditavam que a abolição era a medida

escravidão existentes no M inistério das Finanças fos­

mais urgente de um programa que só se cumpriria com

sem recolhidos e queim ados na sala das caldeiras da

a reforma agrária, a “dem ocracia rural” (a expressão é

A lfândega do Rio de Janeiro. Seis dias m ais tarde, em

de Rebouças) e a entrada dos trabalhadores num sis­

20 de dezem bro, a decisão foi aprovada com a seguin­

tem a de oportunidade plena e concorrência. Para eles,

te moção: “O C ongresso N acional felicita o G ovem o

com o expôs A lfredo Bosi, “o desafio social e ético

Provisório por ter ordenado a elim inação nos arquivos

que a sociedade brasileira teria de enfrentar era o de

nacionais dos vestígios da escravatura no Brasil” . Em 20

redim ir um passado de abjeção, fazer justiça aos ne­

de janeiro de 91, Rui Barbosa deixou de ser ministro das

gros, dar-lhes liberdade a curto prazo e integrá-los nu­

Finanças, mas a destm ição dos documentos pros.seguiu.

ma dem ocracia m oderna” .

De acordo com o historiador A m érico Lacom be,

M as nada disso se concretizou. Os negros libertos

“um a placa de bronze, existente nas oficinas do Loyde

— quase 800 m il— foram jogados na m ais terrível m i­

brasileiro, contém , de fato, esta inscrição assaz lacôni­

séria. O Brasil im perial — e, logo a seguir, o jovem

ca; ‘13 de m aio de 1891. Aqui foram incendiados os úl­

Brasil republicano— negou-lhes a posse de qualquer

tim os docum entos da escravidão no B rasil’” . Foi, por­

pedaço de terra para viver ou cultivar, de escolas, de

tanto, com essa espécie de auto-de-fé abolicionista

assistência social, de hospitais. D eu-lhes, só e sobeja­

que o Brasil com em orou os três anos da mais tardia

m ente, discrim inação e repressão. G rande parte dos

emancipação de escravos no hemisfério ocidental. Em­

libertos, depois de peram bular por estradas e baldios,

bora pragm ática — e m uito m ais verossím il do que a

dirigiu-se às grandes cidades: Rio de Janeiro, Salva­

versão oficialesca de que os docum entos foram quei­

dor e São Paulo. Lá, ergueram os cham ados bairros

m ados para “apagar qualquer lem brança do triste p e ­

africanos, origem das favelas m odernas. T rocaram a

ríodo escravocrata”— , a m edida foi torpe. E ajudou a

senzala {acima, à direita) pelos casebres (à esquerda).

fazer com que, passados m ais de cem anos da liber­

A pesar da im possibilidade de plantar, acharam ali um

tação dos escravos, o Brasil ainda não tenha acertado

m eio social m enos hostil, m esm o que ainda miserável.

as contas com seu negro passado.

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H is tó r ia d o B ra s il


A P ão houve um só tiro que pudesse re­ velar que se tratava de um golpe e não de um desfile. Se ecoas.sem dis­ paros (de fato, houve dois, mas ninguém os escutou), talvez aqueles 600 soldados per­ cebessem que não estavam ali para partici­ par de uma manobra, e sim para derrubar um regime. Na verdade, vários militares ali presentes sabiam que estavam participando de um a quartelada. M esm o os que pensa­ vam assim achavam que quem e.stava caindo era o primeiro-ministro, Ouro Preto. Jamais o imperador d. Pedro 2" — muito menos a monarquia que ele representava. Não é de estranhar a ignorância dos .sol­ dados do 1° e do 3° Regimento de Cavalaria e do 9° Batalhão. Afinal, até poucas horas antes, o próprio líder do golpe se mostrava indeciso. Mais: estava doente, de cama, e só chegou ao Campo de Santana quando os ca­ nhões já apontavam para o quartel. Talvez ele não tenha dado o “Viva o imperador” que al­ guns juraram tê-lo ouvido gritar. Mas com certeza impediu que pelo menos um cadete berrasse o “Viva a república”, que suposta­ mente estava entalado em muitas gargantas.

N

roclam ação da

R e p ú b l ic a

A cena foi bem estranha. Montado em seu belo cavalo, o marechal Deodoro da Fonse­ ca desfilou longa lista de queixas, pessoais e corporativas, contra o governo — o govemo do ministro Ouro Preto, não o do imperador. O imperador — isso ele fez questão de deixar claro— era seu amigo: “Devo-lhe favores” . O Exército, porém, fora maltratado. Por is­ so, derrubava-se o ministério. Difícil imagi­ nar que Deodoro estives.se dando um golpe, ainda mais golpe republicano — ele era mo­ narquista. Ao seu lado estava o tenente-coronel Benjamin Constant, mili­ tar que odiava andar fardado, não gostava de armas e tiros e, até cinco anos antes, também fa­ lava mal da república. Ambos, Deodoro e Constant, contavam ago­ ra com o apoio de republicanos civis. Mas não havia sinal de “paisanos” por perto — esses apenas tinham incentivado a aventura golpista dos dois militares (por coincidência ou não, dois militares ressentidos). , O fato é que naquela mes­

ma hora o ministro Ouro Preto foi preso e o gabinete derrubado. Mas ninguém teve cora­ gem de falar em república. Apenas à noite, quando golpistas civis e militares se reuniram, foi que proclamaram — em silêncio e proviso­ riamente— uma república federativa. “Provi­ soriamente” porque se aguardaria “o pro­ nunciamento definitivo da nação, livremente expressado pelo sufrágio popular”. E o povo a todas essas? Bem, o povo assistiu a tudo “bestializado, atônito, surpreso, sem conhe­ cer o que significava”, disse Aristides Lobo. Embora Lobo fosse republicano convicto e membro do primeiro ministério, seu depoi­ mento tem sido contestado por certos his­ toriadores (que citam as revoltas po­ pulares ocorridas naquela época). De qualquer forma, o segundo reinado, que começara com um golpe branco, ter­ minava agora com um golpe esmaecido. A monarquia, no Brasil, não caiu com um estrondo, mas com um suspiro. E o plebiscito para “referendar” a república foi convocado em 1993 — com 104 anos de atraso. O império já havia terminado.

A Proclamação da República

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o O caso ficialmente, a festa era para recepcionar os oficiais do cruzador chileno Cochrane, que estavam no Brasil havia duas semanas. Na verdade, o baile — o primeiro promovido pela fa­ mília imperial brasileira e o mais pomposo dos que se tivessem realizado— havia sido organizado para celebrar as bodas de prata da princesa Isabel e do conde D ’Eu. Era 9 de novembro de 1889 e tudo foi preparado para tom ar a festa inesquecível; milha­ res de velas iluminavam o palácio da ilha Fiscal, no Rio de Janeiro, ornamentado com balões e lanter­ nas venezianas. Três mil disputadíssimos convites foram enviados para o “melhor da sociedade” im­ perial. Cascatas de camarão, champanhe e vinho jorraram aos borbotões. A festança se prolongou até o raiar do dia. Por uma dessas ironias que parecem construir a história, no instante em que a monarquia, insuflada, fazia ecoar seu canto do cisne numa ilha de fantasia, não longe dali o tenente-coronel e professor Benja­ min Constant presidia uma reunião do Clube Mili­ tar. Lá, criticou o govemo imperial e sua “hostili­ dade” contra os militares. No fmal, fez um pedido; “M ais do que nunca preciso que me sejam dados plenos poderes para tirar a classe militar de um es­ tado de coisas incompatível com a honra e a dig­ nidade. Comprometo-me, sob palavra, se não en­ contrar dentro de oito dias uma solução honrosa para o Exército e a Pátria, resignar aos empregos públicos e quebrar minha espada” . Constant não

O

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H is tó r ia d o B ra s il

do

I m p é r io

precisou de oito dias. Uma semana após a festa e a reunião conspiratória, ele encontraria a solução hon­ rosa — na forma de um golpe militar. As ironias históricas que cercam o baile da ilha Fiscal são muitas. Pedro 2° passou a noite retraído. Era do seu feitio, mas, todos sabiam, o monarca estava doente. Quem o substituiria se ele viesse a “faltar”? Embora os chilenos fossem convidados de honra, os reais homenageados eram Isabel e o con­ de D ’Eu. E ninguém — talvez nem eles próprios— achava que teriam chances de assumir o trono. Além de “estrangeiro”, D ’Eu era um tipo estranho, vítima de acusações grosseiras — diziam que era homossexual. Fora ainda num encontro com os tais oficiais chilenos, na Escola Militar, dias antes, que Constant tivera seu primeiro grande espasmo pú­ blico a favor do republicanismo, ao fmal do qual, afrontando as autoridades presentes, seus alunos gritavam: “Viva a república... do Chile”. Mais; ao sair da reunião conspiratória do dia 9, Constant teve de ir até o cais Pharoux, por exigência de sua família, que queria ver a ilha iluminada. Tentou ir até lá no barco dos convidados, “sem desembarcar” . Mas não o deixaram ver o império bailando. Duas semanas depois, Constant e a família eram os con­ vidados de honra da festa que o govem o republi­ cano deu para se despedir dos chilenos. Muitos fatores ajudaram na queda do império, mas se pode dizer que a monarquia quase caiu por si — como fruta mais do que madura.

UM FIM M E L A N C O L lC O Uma semana depois do baile da ilha Fiscal, d. Pedro 2" fo i comunicado p o r um m ajor que deveria deixar o país. Antes de estender-lhe o papel, o militar gaguejou: “Vossa E xcelência”, disse; “Vossa A lteza ", corrigiu; “Vossa Majestade... ”, rendeu-se. Algum as horas m ais tarde, em nota oficial, d. Pedro anunciava que, “cedendo ao império das circunstâncias”, deixava, com a fam ília, o país ao qual dera “constantes testemunhos de entranhado am or e dedicação durante quase meio século ”. No dia 17 de novembro, a fam ília imperial seguiu para o exílio na Europa.


A Q

uestão

R e l ig io s a

quê: A chamada Questão Rehgiosa

Quando: O conflito, iniciado em março de

poderia ter se resumido ao conflito entre Igreja CatóHca e maçonaria. Como ambas as partes radicalizaram suas posições, a querela quase acabou se tom an­ do um confronto entre o próprio imperador e o papa Pio 9°. Na luta entre “o trono e o altar”, o primeiro saiu abalado — e logo cai­ ria. O segundo “se manteve em pé” . Onde: O conflito iniciou-se no Rio de Ja­ neiro, em 3 de março de 1872, quando o pa­ dre Almeida Martins pronunciou um sermão “em termos tirados da linguagem maçônica” para saudar a aprovação da Lei do Ventre Li­ vre, que fora proposta pelo presidente do Conselho dos Ministros, visconde do Rio Branco, que era grão-mestre da maçonaria. O bispo do Rio, Pedro Lacerda, decidiu sus­ pender o padre de suas funções. 0 que seria um mero exercício canônico de autoridade eclesiástica, tomou-se uma grave questão nacional porque, em Olinda, em maio do mesmo ano, tomara posse o bispo Vidal de Oliveira, um jovem e rígido capuchinho. In­ juriado com as “grosserias” publicadas na imprensa do Rio contra d. Lacerda, d. Vidal (ao lado, à direita) afastou de sua diocese dois sacerdotes que se recusaram a aban­ donar a maçonaria. Dom Vidal impediu ainda que monsenhor Pinto de Campos ce­ lebrasse o casamento de um maçom (alto da página, à direita). Para agravar a ques­ tão, o bispo do Pará, d. Antônio Costa, tam­ bém interditou os templos cujos padres eram maçons. A pendenga se generalizou.

1872, se estenderia até setembro de 1875, quando os bispos — depois de duramente punidos por Pedro 2°— foram anistiados. Por quê: A “questão religiosa” só ocorreu porque a “união entre o trono e o altar”, prevista na Constituição de 1824, era fonte potencial de conflito. O país herdara de Portugal o regime do “padroado” : o gover­ no indicava os principais sacerdotes e os padres eram pagos pelo Estado. Mas bulas papais só teriam aplicação no Brasil com o beneplácito do imperador. Em 1848, Pio 9” assumiu o Vaticano criticando as “liberda­ des modernas” e reafirmando a preponde­ rância da Igreja. Em 1870, o Vaticano apro­ vou o dogma da infalibilidade papal. Como a questão term inou: Os bispos de Olinda e do Pará foram presos por ordem de d. Pedro 2° e condenados a quatro anos de prisão com trabalhos forçados, em 1874. Porém, comutou-se a pena para prisão sim­ ples. O papa Pio 9°, que a princípio desa­ provara o procedimento dos bispos, inju­ riou-se e o problema se tornou intemacional. Resolveu-se a questão com um arranjo: os bispos foram anistiados e o gabinete de Rio Branco (à esquerda) acabou substituído pe­ lo gabinete chefiado pelo duque de Caxias. Consequências: O conflito desgastou o go­ vem o imperial aos olhos do povo. Mas não parece ter tido influência maior na queda do regime, já que o povo quase nada teve que ver com o golpe e a Igreja tinha pouca influência sobre militares e republicanos.

O

A Proclamação da República

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A Q quê: A Questão Militar se resume a uma série de eventos que colocou em confronto direto oficiais do Exército e políticos monarquistas e conservadores. O esto­ pim foi o fato de os militares estarem proibidos por lei de discutir assuntos políticos na impren­ sa. Mas o verdadeiro motivo estava no cres­ cente ressentimento dos militares — que tinham “se arriscado pelo país na Guerra do Paraguai”— com o “pavoroso egoísmo, fundamentalmente impatriótico, da classe política, no momento em que o sangue brasileiro corria em regatos”. Q u an d o : Os episódios principiaram em 1884 e se prolongaram até maio de 1887. Como: O primeiro incidente ocorreu com o tenente-coronel Senna Madureira. punido por ter apoiado publicamente o fim da escravatura. Em agosto de 1885. o coronel Cunha Matos, ligado ao Partido Liberal, apurou irregularidades em um quartel do Piauí e pediu o afastamento do comandante corrupto, ligado ao Partido Conser­ vador. Foi atacado, na Câmara, pelo deputado Simplício Rezende, que o acusou de covardia no Paraguai. Matos defendeu-se pelo jomal — o que era proibido— e ficou preso dois dias. No mesmo mês. no Rio Grande do Sul, outra vez Senna Madureira (à direita) se manifestou pu­ blicam ente. nos jornais, para “defender sua honra militar” . Escolheu o explosivo órgão re­ publicano "A Federação”, dirigido por Júlio de Castilhos. O rastilho de pólvora foi aceso.

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H i s t ó r i a d o B r.\s il

uestão

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il it a r

o tenente-coronel Antônio de Senna Madureira (1836-1889) não era um radical, m as se envolveu em três confrontos que precipitaram a “questão m ilitar”. Em 1883, ele se manifestou contra a lei de contribuição obrigatória ao montepio dos militares, apresentada no Senado pelo visconde de Paranaguá, e fo i punido. Em 1884, quando comandava a Escola de Tiro Campo Grande, ele organizou uma recepção festiva ao jangadeiro Francisco do Nascimento, que se recusara a transportar escravos em Fortaleza. Foi punido e transferido para a Escola Preparatória de Rio Pardo (RS). N o Sul, contestou a decisão do então ministro da Guerra, Franco de Sá, e deflagrou a polêmica.

Em 23 de setembro de 1886, o incendiário Castilhos escreveu, em seu próprio jom al, um artigo chamado “Arbítrio e inépcia”, atacando violentamente a Coroa e tomando a “questão militar” uma questão política e nacional. No texto, 0 Exército era apresentado como a única força que se mantinha “impoluta” em uma “na­ ção em ruínas” . Duas semanas antes, o ma­ rechal Deodoro, comandante em armas e pre­ sidente em exercício da Província do Rio Grande do Sul, decidira que não puniria Senna Madureira — mas o ministro da Guerra. Al­ fredo Chaves, que antes mandara prender Cu­ nha Matos, já o fizera. Em outubro, os alunos da Escola Militar da Praia Vermelha (acima) — conhecida como “Tabernáculo da Ciência” e berço da chamada “mocidade militar”— enga­ jaram-se na luta de apoio a Deodoro, que fora exonerado e transferido para o Rio de Janeiro, e a Madureira, que se demitiu. Ao chegarem ao Rio de Janeiro, em 26 de janeiro de 1887, am­ bos foram recebidos como heróis pelos cade­ tes. Após muitas tensões, em maio do mesmo ano. Chaves caiu, Deodoro, Madureira e Cunha Matos foram “perdoados” por d. Pedro e a questão militar se encerrou. Pela primeira vez na história do Brasil os militares revelavam, com vigor e clareza, a existência no país de uma “classe militar” — supostamente unida e coesa. Em breve, essa classe interferiria decisivamen­ te no jogo político.


o

R e p u b l ic a n is m o

l mbora o papel de golpistas tenha sido confiaI do aos militares e as fricções com a Igreja J nham ajudado a abalar a imagem pública do império — sem falar de todo o desgaste político decor­ rente da tortuosa luta pela abolição— , o fato é que o movimento de novembro de 1889 jam ais se concre­ tizaria sem a base social fornecida por um amplo setor da burguesia cafeeira de São Paulo, politicamente orga­ nizada em tomo do Partido Republicano Paulista (PRP). O ideal republicano no Brasil era, evidentemente, anterior à fundação do PRP. Tanto que não só a Inconfi­ dência Mineira como várias das revoltas internas do período regencial planejavam a queda da monarquia. Mas a tais movimentos faltava uma base legalista e eco­ nômica e o apoio dos conservadores. Em 1870 surgiu, no Rio de Janeiro, o Partido Republicano. Em 3 de dezembro do mesmo ano. foi lançado, também no Rio, o célebre “Manifesto Republicano” de 1870. redi­ gido por Quintino Bocaiúva e com 58 signatários. Era um movimento de moderados, ainda que muitos de seus integrantes viessem do “novo” Partido Liberal e. entre eles, houvesse gente como o tempestuoso Lopes Trovão (que, como Silva Jardim, achava que a repú­ blica deveria vir por meio de uma revolução popular). A base do republicanismo carioca era constituída de profissionais liberais e jornalistas. O partido era favo­ rável a uma transição pacífica entre a monarquia e a república, de preferência com a morte do imperador. Mais tarde, os radicais abandonariam o moderado PR.

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BOCAIÚVA

O republicanismo brasileiro, porém, só após a fun­ tedação do Partido Republicano Paulista adquiriria a solidez conservadora que as elites do país pareciam exigir para sacramentá-lo. O PRP foi criado cm 16 de abril de 1873, na convenção de Itu (acima). Formado para representar os interesses da oligarquia rural pau­ lista, de seus 133 delegados, 78 eram fazendeiros. En­ quanto os republicanos cariocas associavam o novo regime à maior representação política dos cidadãos, aos direitos individuais e ao fim da escravidão, o PRP estava quase inteiramente devotado à luta pelo regime federalista. Descentralização, maior autonomia pro­ vincial e uma nova política de empréstimos bancários eram palavras de ordem dos republicanos da grande lavoura, latifundiários do chamado “Oeste Novo” de São Paulo. Na questão abolicionista, o PRP agiu sempre com a mais radical cautela, só aderindo ao movimento na última hora. Para o partido, mais do que o destino dos escravos, interessava saber como substituí-los. Em 1884, o PRP detinha apenas um quarto do elei­ torado paulista. Aliado aos conservadores, elegeu dois deputados — Prudente de Morais e Campos Sales, que viriam a .ser os primeiros presidentes civis da repú­ blica. Embora nunca tenha havido grandes interesses comuns nem mesmo contato intenso entre os militares e o PRP, foi a burguesia cafeeira paulista que. impli­ citamente, deu aos militares a convicção de que sua aventura golpista contava com uma sólida base de apoio econômica e social.

Quintino Antônio Ferreira de Sou.ia assinava Quintino Bocaiúva nas páginas de "O País" —principal jomal republicano do Brasil—, de que era redator-chefe. Mas os artigos que ele escrevia caçoando da família imperial eram infinitamente mais á.<!peros do que o tom moderado que ele deu ao “Manifesto Republicano" de 1870, do qual foi o principal redator Quintino achava que os problemas de .saúde do imperador poderiam salvar a nação: se d. Pedro 2" morres.se, a república nasceria feliz-

A Proclamação da República

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B e n ja m in C o n sta n t 1 m março de 1867. do cam­ po de batalha no Paraguai, J Benjamin Constant enviou uma carta para sua mulher. “Espe­ ro que toda esta porcaria acabe o mais depressa possível”, dizia. “Nada mais tenho em vista, mes­ mo porque não posso, e não devo ser militar com a numerosa famí­ lia que tenho, e pelos nenhuns re­ cursos que dá esta desgraçada clas­ se em nos.so país”. O desabafo não poderia ser mais claro: Benjamin Constant não apenas não gostava de armas e batalhas como se jul­ gava mal pago. Benjamin Constant Botelho de Magalhães entrara para a carreira militar pela mais pura necessidade. Nascido em Niterói (RJ) no fim de 1836, era tllho de um tenente da Marinha portuguesa. Seu pai mor­ reu de tifo em 1849 e a mãe tinha problemas mentais. Aos 12 anos, Constant tentou o suicídio. O único emprego que lhe ofereceram an­ tes do quartel foi o de servente de pedreiro. Na caserna. Constant descobriria suas duas paixões: a matemática e o positivismo de Au­ guste Comte. Em 1872. entrou para o magistério da Escola Militar da Praia Vermelha e. quatro anos de­ pois, foi um dos fundadores da So­ ciedade Positivista do Brasil. Mas. numa doutrina marcada pela mais absoluta ortodoxia, Constant logo teve problemas e rompeu com o grupo que ajudara a fonnar —em­ bora continuasse até o fim de .seus dias um fiel e devotado discípulo de Auguste Comte.

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positivismo é a escola filosófica nascida das idéias do pen­ sador francês Auguste Comte (1798-1857). Em meio a uma série de teorias, baseadas em sua “filosofia da história e na sua “classificação das ciências". Comte criou o que chamou de “religião da humanidade culto não-teísta, no qual Deus seria substituído por uma humanidade racional e evoluída que atingiria e.'tse estágio “mais elevado" con­ duzida por “homens mais esclarecidos Para Comte, a me­ lhor forma de govemo era a ditadura republicana —um “govemo de salvação nacional exen:ido no interesse do po­ vo O ditador comtiano, em tese. deveria ser representativo, mas poderia “afastar-se " do povo etn nome do “bem da repú­ blica". Não é difícil entender por que os “militares científi­ cos" se apaixonaram tanto pela tese. Ao assumir o poder, depois do golpe de 1889. Deodoro —que não era positivista— e Constant

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is t ó r i .\ d o

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Graças ao seu desempenho na Escola da Praia Vermelha, Cons­ tant se tomou o líder da mocidade militar: jovens tenentes “científi­ cos”, a maioria deles adeptos da racionalíssima “religião da humani­ dade” fundada por Comte. Muitos desses alunos eram republicanos, e parece ter sido eles que influen­ ciaram o mestre. Afinal, ainda em 1879, Constant falara mal da re­ pública. Mas o fato é que, mal pa­ go, desprezado na cátedra como o fora no quartel (suas promoções eram frequentemente adiadas), o “doutor” Benjamin tomou-se um militante. A princípio, defendendo a “classe” na Questão Militar; a se­ guir atacando o império (que o mal­ tratara tanto, e aos seus colegas de farda, ainda que ele odiasse usá-la e a evitasse ao máximo). Quando suas “merecidas” pro­ moções vieram, o pacato profes­ sor, constantemente imerso num “sonambulismo matemático”, já se transformara num advista que fun­ dara o Clube Militar, em maio de 87, junto com Deodoro. No dia 23 de outubro de 1888, proferiu um surpreendente discurso de quase uma hora. durante a visita de ofi­ ciais chilenos à Escola da Praia Ver­ melha —era a senha pública para o golpe que nascia. A “mocidade militar” encontrara seu líder Ago­ ra faltava apenas unir-se aos mi­ litares mais velhos —os “tarimbeiros”— e sair de casa, na calada da noite, para dermbar o regime. Foi o que o dr. Benjamin fez na madragada de 15 de novembro. deram um tom comtiano ao novo regime, centralizador e autocrá­ tico. Com a ascensão dos oligarcas de São Paulo —Prudente de Morais e Campos Sales—, a influência positivista se arrefe­ ceu. Mas logo voltaria a fluir entre os tenentes dos anos 20, na Coluna Prestes e na Revolução de 30. Em outra vertente, os esquemas políticos comtianos se codificaram também no trabalhismo gaúcho de Lindolfo Collor, ministro do Trabalho do positivista Getúlio Vargas. A modernização conservadora proposta por Comte ainda fascina facções militares. E um de seus lemas —“o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim "— tremula na ban­ deira nacional, embora nela “o amor" tenha ficado de fora. Outro mote positivista eventualmente liberta fantasmas no es­ pectro político da nação: segundo Comte, “os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”.


O P s profundos ressentimentos de Ben­ jam in Constant e Deodoro da Fon­ seca (leia na página seguinte) tal­ vez estivessem fundamentados em entraves burocráticos, questiúnculas pessoais e, quem sabe, até numa certa mania de perseguição que, porventura, afetasse os dois oficiais que acabariam proclamando a república no Bra­ sil. De qualquer forma, o tratamento dispen­ sado a ambos pelo govem o imperial — cons­ tantes adiamentos das promoções anunciadas, baixos soldos, transferências e punições— era claro reflexo da situação de penúria que vivia o Exército brasileiro naquela época. Tanto que mesmo um monarquista convicto como o político e historiador Eduardo Prado admitiu, às vésperas do golpe, existir no Bra­ sil “um exército esquecido, mal organizado, mal instmído e mal pago”. Prado lamentava o fato de d. Pedro 2° estar “divorciado das ‘coi­ sas’ militares”. Embora o imperador tivesse de fato hor­ ror às armas, a situação de penúria do Exér­ cito começara antes de ele assumir o poder A participação de oficiais do Exército no go­ vemo fora significativa até a abdicação de d. Pedro 1° — o primeiro “golpe” da história do país a contar com participação m ilitar

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A presença da tropa em várias das agi­ tações populares após a Independência fez com que a instituição passasse a ser olhada com certa desconfiança. Tanto é que — te­ merosos de que um grande exército fizesse surgir “pequenos Napoleões”, como já acon­ tecera no M éxico e na Argentina — os li­ berais da regência, liderados por Feijó, re­ duziram os efetivos do Exército e criaram a Guarda Nacional. A partir de então, o quadro de oficiais do Exército perdeu suas características de gmpo de elite — ao contrário do que se deu na Marinha. Os jovens oficiais vinham, em maio­ ria, de famílias tradicionais do interior do Nordeste (agora em declínio) ou eram filhos de fazendeiros — também relativamente de­ cadentes— do Rio Grande do Sul. Foi essa a oficialidade mandada à Guerra do Paraguai. “Em minha vida, só tive um protetor: So­ lano López. Devo a ele, que provocou a Guer­ ra do Paraguai, a minha carreira”, desabafa­ va Deodoro, em agosto de 1889. Ele tinha razão: foi depois da guerra contra López que o Exército adquiriu uma identidade institu­ cional, um orgulho “classista” até então des­ conhecido. Depois de lutar no Chaco, estava pronto para o lodaçal político.

O centro da fermentação golpista foi a Escola M ilitar da Praia Vermelha — chama­ da o “Tabemáculo da Ciência”, já que ali se estudavam mais leis, filosofia e matemática do que logística. Seus cadetes, a “mocidade militar”, eram os “científicos” —jovens po­ sitivistas e republicanos. Eles nada tinham que ver com o marechal Deodoro, militar de carreira, “tarimbeiro” (termo depreciativo que vem de tarimba, o estrado de madeira onde os soldados dormiam nos quartéis, e designava oficiais ligados à tropa, sem estudos supe­ riores). O único elo entre “tarimbeiros” e “científicos” era a ligação entre Constant e Deodoro, por sua vez unidos pelo ressen­ timento. Foram os “científicos”, com a bên­ ção de D eodoro (cooptado por Constant), que encaminharam o golpe de 15 de novem­ bro. Não mais do que a quinta parte do Exército estava ciente da trama. Mas a abso­ luta maioria da ü-opa agiu como o próprio povo: “Ficou estranha ao acontecimento, que tomou como fato consumado” . “A história escrita pelos protagonistas do golpe de 89 deixou inscrita na história política do país a visão de que um grupo ‘esclarecido’ de m ili­ tares pode ‘salvar’ a Nação, em seu nome”, avaliou o historiador Celso Castro.

A Proclamação da República

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ilitar por vocação, verdadeira desgraça. Os brasi­ destino, herança e leiros estão e estarão muito necessidade, Manuel m al-educados para republi­ Deodoro da Fonseca foi oficial canos. O único sustentáculo do de carreira que ascendeu na nosso Brasil é a monarquia; se tropa brasileira graças à bravu­ mal com ela, pior sem ela” . ra em combate, à determinação e Faltavam 63 dias para o mare­ ao comportamento irrepreensí­ chal dar o golpe republicano. Deodoro estava doente; pas­ vel. Participou da repressão à Praieira, do cerco a Montevidéu sou quase todo o mês de outu­ e de uma dezena de batalhas na bro de cama. Apesar de amar­ Guerra do Paraguai. Sua ascen­ gurado com o govemo, gostava são foi tal que, em 1883, além do imperador e relutou antes de de com andante das Arm as do conspirar. Parece ter sido quase Rio Grande do Sul, ele se tor­ um bode expiatório às avessas, nou presidente provisório da um “inocente útil” , atraído à Província. Aí, então, ele se en­ rebelião por Benjamin Cons­ volveu na Q uestão M ilitar: tant — ^para fazer a ponte entre “Aliou-se” a Júlio de Castilhos a velha guarda e a “mocidade e desafiou a m onarquia. A in­ militar”. Talvez isso explique da assim, em tese, a Questão os seus vacilos em frente das tropas, no Campo de Santana, Militar acabou bem para to­ quando derrubou o midos — menos para Deodoro, que, apesar de O marecfud, nistro Ouro Preto, mas con tin u ar com anque ao procCamar »“ ^ou proclad an te das A r,,,. mar a república. a republica estava na . m as, perce^ A republica beu que, na cama, doente e de pijama, era

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verdade, fora um monarquista convicto, foi proclam adesterrado para que reíutou na hora ^ noite, na casa Mato G rosso. ^ constnrar Deodoro, com ele na cama. Alguém espa­ No entanto, em lhou o boato de que d. Pe­ agosto de 1889, o império, dro escolhera Gaspar Silveira sem se dar conta claramente, tomou Deodoro um inimigo. Martins para o lugar de Ouro Primeiro, o coronel Cunha M a­ Preto. As hesitações de D eo­ tos, o mesmo da Questão M ili­ doro acabaram . Ele chamou tar. foi feito presidente de M a­ Benjam in Constant, Q uintino to Grosso — seria um coronel Bocaiúva, Aristides Lobo e dis­ mandando num marechal. D e­ se; “Digam ao povo que a Re­ pois, Gaspar Silveira Martins pública está feita”. — que Deodoro odiava— virou Deodoro se tornou o pri­ presidente do Rio Grande do meiro presidente do novo regi­ Sul. Embora amigo de Casti­ me e Benjamin Constant, minis­ lhos, Assis Brasil, Ramiro Bar­ tro da Guerra. O convívio entre celos e dos outros republicanos ambos não foi pacífico — como gaúchos, Deodoro não era um não era o dos “tarimbeiros” com deles. Tanto que, logo ao che- os “científicos” . Numa reunião gor ao Rio, em 13 de setembro m inisterial, em 1890, am bos de 1889, depois de deixar M a­ quase se agrediram e Deodoro to Grosso sem mais explica­ desafiou Constant para um due­ ções ao govem o, Deodoro es­ lo. Mas dali a dois anos os dois creveu em carta a um sobrinho: estariam mortos. Deodoro, que “República no Brasil é coisa pedira baixa do Exército, exigiu impossível porque será uma ser enterrado em trajes civis.

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A R e p ú b l ic a ^ odos os velhos descam i­ nhos da poh^tica e da eco­ nomia brasileiras se mate­ rializaram plenam ente nos dez primeiros anos da república. Es­ cândalos financeiros, arrocho sa­ larial, clientelismo, aumento dos impostos, regime oligárquico, coronelism o, repressão aos m ovi­ mentos populares, desvio de ver­ bas, impunidade, fraude eleitoral, fechamento do Congresso, estado de sítio, crimes políticos, confron­ to entre governos civis e governos militares, alternância no poder na forma mais equivocada (o novo govem o devastando a obra do go­ vemo anterior) — houve de tudo na primeira década republicana. A vertigem econômica, política e so­ cial do período foi tal que, num estudo recente, o historiador Rena­ to Lessa escreveu: “Nem mesmo aqueles que acreditam ter a histó­ ria algum sentido podem hones­ tamente supor que havia ordem subjacente e invisível a regular o caos da prim eira década republi­ cana no Brasil” . Não bastassem as atribulações advindas do govemo central, durante a primeira déca­ da da república o país foi ainda sacudido por suas duas maiores guerras civis: a Revolução Federalista de 1893, que por dois anos ensanguentou o pampa gaúcho, e a “guerra do fim do mundo”, trava­ da nas lonjuras do sertão baiano, em Canudos. O Brasil ingressou no século 20 da maneira mais tur­ bulenta possível.

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confronto entre o.s militares “tarimbeiros” (oficiais de carreira em geral sem curso superior) e os “científicos” (jovens tenen­ tes da Escola Militar da Praia Vennelha, de formação positivista) mais as desavenças entre os civis republicanos —divididos em jacobinos (revolucionários exaltados, em geral de classe mé­ dia urbana), positivistas ortodoxos e liberais federalistas (en­ tre os quais se incluíam os cafeicultores paulistas, do PRP)— não se refletiram só nos choques políticos travados na lula pe­ lo poder. Houve conflito também na escolha dos símbolos, en­ tre os quais a bandeira e o hino, que representariam o novo go­ vemo. A batalha simbólica —na verdade, a outra face de um combate ideológico— foi vencida pelos positivistas.

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10 A nos Embora a frase de Lessa seja elucidativa, na verdade havia or­ dem “subjacente e invisível a re­ gular o caos da primeira década republicana”. E nem era tão in­ visível: o que houve nos dez pri­ meiros anos da república foi uma luta feroz pelo poder travada entre gmpos antagônicos. Durante o go­ vemo provisório de Deodoro da Fonseca (novembro de 1889 a fe­ vereiro de 91), explodiu o confron­ to entre os militares de carreira e os “científicos” , sim bolizado pelo choque entre Deodoro e Benjamin Constant — vencido pelo primeiro. Ao longo do breve governo de Deodoro (de fevereiro a novembro de 1891), ficou claro o conflito en­ tre a elite civil — favorável ao go­ vemo federalista e descentraliza­ do— e os militares de linha dura. Apesar de Floriano Peixoto ser a favor da centralização, os republi­ canos paulistas o apoiaram, para dividir ainda mais os militares e provocar a queda de Deodoro. Floriano governou inconstitucio­ nalmente, como “vice-presidente em exercício”, de fins de 1891 a novembro de 94. Os civis republi­ canos também estavam divididos: os jacobinos apoiavam Floriano, mas, com a eleição de Pmdente de Morais (presidente de 11/1894 a 11/98) e de Campos Sales (11/1898 a 11/1902), foram os cafeicultores paulistas que assumiram o poder, criando a “República dos Fazen­ deiros” e deixando a nação, de no­ vo, na mão dos latifundiários. No Brasil, como na França e nas antigas Grécia e Roma, a república passaria a ser representada pela imagem de uma mulher. Segundo Gilberto Freyre, a escolha foi favorecida, de um lado, pelo repú­ dio ao patriarcalismo de d. Pedro 2° e, de outro, pelo culto católico a Virgem Maria. O assunto foi bastante aprofundado pelo historiador José Murilo de Carvalho. No livro “A For­ mação das Almas”, Carvalho revela como, cedo, o Brasil “dessacralizou” a imagem feminina da república. Embora fossem pintados quadros como os de Manuel Lopes Rodrigues (acima) e de Décio Vilares (ao lado), certos políticos, jornalistas e cari­ caturistas logo se referiram à república ou a representaram como uma meretriz. A atitude não poderia ser mais reveladora.

A República de 10 A nos

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Os s governos do marechal Deodoro começaram e ter­ minaram no mesmo lugar: na cama. Deodoro eslava doente e. depois de derrubar o ministério de Ouro Preto, na confusa quartelada do alvorecer de 15 de novembro de 1889. proclamou a república na mesma noite, em sua casa. provavel­ mente de pijama, rodeado pelos gol­ pistas que emfX)ssou como membros do ministério do govemo provisó­ rio. que começou no dia seguinte (na gravura à direita, esse minis­ tério). Embora provisório, o novo govemo não perdeu tempo: já foi chamado de "fábrica de leis", tal o número de decisões que tomou em menos de um mês. Antes do final de 1889. o no­ vo aparelho político-administrativo do Estado estava montado. O país tornou-se “provisoriamente” uma república federativa; todos os bra­ sileiros homens e alfabetizados ga­ nharam direito a voto; surgiram a nova bandeira e o novo hino. e os militares golpistas foram promovi­ dos. Em 23 de dezembro nascia a primeira lei de imprensa do país: uma junta militar poderia julgar sumariamente quem "abusasse na manifestação do pensamento" —foi o chamado "Decreto-Rolha”. Ao longo de 1890. discutiu-se a nova Constituição do Brasil, aprovada em 24 de fevereiro de 1891. No dia seguinte. Deodoro foi eleito pre­ sidente. Mas estava i.solado: um mês antes, seu ministério se demitira.

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o ministério do governo provisório do marechal Deodoro fizeram parte os gol­ pistas civis e militares do movimento de 15 de novembro, entre os quais Benjamin Constant e Quintino Bocaiúva. Em 20 de janeiro de 1891, rompido com Deodoro, o ministério se demitiu coletivamente. À direita, o ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk, candidato a vice-presidente na chapa de Deodoro.

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O marechal Deodoro começou a cair no mesmo dia em que tomou po.sse. Em 25 de fevereiro de 1891, o Congresso o elegeu presidente com 129 votos, contra 97 de Pru­ dente de Morais. No entanto. Flo­ riano Peixoto, candidato a vice na chapa de Prudente, obteve 153 vo­ tos (24 a mais que Deodoro e qua­ se 0 triplo dos 57 votos dados a Eduardo Wandenkolk, vice de Deo­ doro). No dia da posse (gravura acima), o Congresso recebeu Deo­ doro com um silêncio constrange­ dor para. minutos depois, aclamar Floriano com urras ensurdecedores. Em 3 de novembro de 1891. in­ dignado com a aprovação de uma lei que permitiria o impeachment do presidente. Deodoro fechou o Congresso. No dia 23. o almirante Custódio de Melo. a bordo do encouraçado Riachuelo. ameaçou bom­ bardear 0 Rio. Doente e de cama. Deodoro renunciou em favor de Flo­ riano Peixoto. Teimoso, autoritário e sem experiência administrativa. Deodoro fez um govemo desastro­ so: a política financeira de seu mi­ nistro Rui Barbosa mergulhara o país no caos. O fechamento do Con­ gresso e a decretação do estado de sítio candidatam Deodoro ao posto de primeiro ditador brasileiro. Co­ mo ditadores não renunciam, o títu­ lo acabou ficando com seu sucessor. Floriano. Isolado. Deodoro morreu em agosto de 1892. Pediu que fosse enterrado em trajes civis, mas teve um funeral com honras militares.


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onsiderado o primeiro dita­ dor de fato da história do Brasil, 0 marechal Floriano Peixoto era figura misteriosa e eva­ siva —lido por certos historiadores como a maior “esfinge” da política brasileira. Um dia antes do golpe de 15 de novembro, Floriano. coman­ dante do Exército no Rio, assegura­ va ao primeiro-ministro Ouro Preto: “A esta hora, v. ex.“ deve ter conhe­ cimento que tramam algo por aí além: não dê importância (...) con­ fie na lealdade dos chefes que estão alertas”. Um dia antes, porém, ga­ rantira a Deodoro que estava pronto para o golpe: “Se a coisa é contra os casacas (monarquistas), tenho ainda minha espingarda velha”. Não .se sabe dc que lado Floriano realmente estava. O fato é que, quando os re­ beldes tomaram o campo de San­ tana e Ouro Preto ordenou a Floriano que os combate.sse, lembrando sua bravura no Paraguai, o futuro marechal re.spondeu: “Lá as bocas de fogo eram inimigas: essas que v. ex.“ está vendo são brasileiras...” E não mexeu uma só palha, cedendo ao império das circunstâncias —ou. talvez, à república dos fatos. Em abril dc 1890. Floriano tornou-.se ministro da Guerra do novo regime, no lugar de Benjamin Constant. Em 20 de janeiro de 1891. todos os mi­ nistros de Deodoro —Floriano en­ tre eles— demitiram-se, indignados com a teimosia do presidente. Em 25 de fevereiro, Floriano foi eleito pelo Congresso vice-presidente do Brasil, e uma espécie de “herdeiro presuntivo" da república. Nove me­ ses depois ele seria o presidente.

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F erro O que esperar da presidência de um homem que, durante a Questão Militar, em 1877, dissera que o ca­ so revelava "exuberantemente a po­ dridão que vai por este pobre país e, portanto, a necessidade de uma ditadura militar para expurgá-la”? “Como liberal, não posso querer o govemo da espada para meu país, mas não há quem desconheça que ela sabe purificar o sangue do cor­ po social que, como o nosso, está corrompido.” Nascido em Alagoas, em 1839, veterano do Paraguai, Flo­ riano assumiu o govemo como vicepresidente em exercício, em 23 de novembro de 1891. Restabeleceu o Congresso e suspendeu o estado de sítio. Ainda assim, seu govemo era inconstitucional: o artigo 42 dizia que, se o presidente não completas­ se metade do mandato, novas elei­ ções deveriam ser convocadas. Mas, com o apoio do PRP e da classe mé­ dia urbana, Floriano sentiu-se à von­ tade no papel de “consolidador da república" e lançou as bases de uma ditadura de “salvação nacio­ nal". Fez um governo nacionalista, austero e centralizador; enfrentou implacavelmente seus inimigos, de­ mitiu (contra a lei) os governadores que tinham apoiado Deodoro; ven­ ceu a queda-de-braço contra a Ma­ rinha, na segunda Revolta da Ar­ mada. No Sul, deu apoio a Júlio de Castilhos. Tomou-se o Marechal de Ferro. Queria a reeleição (que era inconstitucional), mas. ainda as­ sim, se recusou a dar um golpe —articulado por seus aliados jaco­ binos— contra a posse do civil Pru­ dente de Morais.

’ stá certo que o nome original —Desterro— não chegava a ser um elogio, nem uma idemonsü-ação de apreço ao lugar. Ma.s Florianópolis, o nome atual, veio na forma de um castigo muito pior. O principal problema que Roriano Peixoto enfrentou em seus três anos como “vice-presidente em exercício” (assim ele assinava seus atos) foi a Revolução Federalista. que estourou no Rio Grande do Sul em fevereiro de 1893 (leia em “Sangue no Pampa e no Sertão", página 169). Floriano tomou o partido de Júlio de Castilhos no con­ fronto com os federalistas, ou maragatos, unidos em tomo de Gaspar Silveira Martins (pres­ tigiosa figura do Partido Liberal nos tempos do império). Em fms de 1893, os integrantes da Revolta da Armada (leia na página .seguinte) se uniram aos maragatos de Silveira Martins e tomaram a cidade de Nossa Senhora do Desterro, capital de Santa Cataiina, proclamando-a sede do “govemo provisório do Brasil”. Em abril de 1894, as forças legalistas retomaram a cidade, deflagrando, sob o comando do coronel Moreira César, furiosa repressão aos re­ beldes. Em outubro de 1894, depois de muitos fuzilamentos sumários, veio o castigo final à cidade revoltosa: a troca de .seu antigo nome “pelo nome em homenagem a seu algoz”.

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A R evolta o momento em que o marechal Deo­ doro deu o golpe que resultou na Repiíblica, todas as vezes em que ele citava o Exército, ao seu lado Benjamin Cons­ tant observava: “E também a Arm ada” . Mas não era verdade: a Marinha — ou “Armada”— não participou do golpe: a instituição era mo­ narquista. Desde a independência, o govemo “fazia diferença” entre as duas armas: a M arinha— que tivera, desde 1822. oficiais in­ gleses, como o rom anesco lorde Cochrane e o impulsivo John Greenfell— era tida como corporação nobre, com soldos melhores. O Exército não era tão bem-visto pelo império. É evidente que, durante o tumulto que ca­ racterizou os primeiros anos da república, re­ beliões eclodiriam na Marinha. Três almiran­ tes eram os chefes mais influentes: Eduardo Wandenkolk, republicano e m inistro derru­ bado por Floriano; Custódio de Melo, m o­ narquista moderado; e Saldanha da Gama, também m onarquista, mas, acima de tudo, “legalista” . Wandenkolk foi preso e anistiado. Uniu-se aos federalistas gaúchos e foi preso outra vez. Depois, chefiou o Estado-M aior de Campos Sales. Custódio de Melo derrubara Deodoro na Primeira Revolta da Armada, em novembro de 1891. Junto com Gama, liderou a Segunda Revolta da Armada.

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A rmada O quê: A Segunda Revolta da Armada foi um

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Saldanha da Gama: morto em combate

movimento militar que pretendia depor o ma­ rechal Floriano. Mais tarde, os revoltosos — li­ derados pelo almirante Custódio de Melo e, depois, pelo almirante Saldanha da Gama— uniram-se aos federalistas, que travavam, no Rio Grande do Sul, a terrível guerra civil de 1893, contra Júlio de Castilhos e .seus aliados. Quando: A Segunda Revolta da Armada eclo­ diu às 11 horas da noite de 6 de setembro de 1893, quando Custódio de Melo fez içar. no encouraçado Aquidabã. o pavilhão rubro da rebelião. A ele .se uniram 16 vapores de guer­ ra e oito vapores mercantes — navios velhos e quase imprestáveis. Em 13 de março de 1895, depois de um ano e meio de revolta infrutífera na baía de G uanabara, os rebeldes desistiram da luta e pediram asilo em navios portugueses ancorados nas cercanias. Onde: Os confrontos se concentraram na baía de G uanabara, no Rio de Janeiro. Mas os re­ beldes não bombardearam a cidade: só troca­ ram tiros contra a fortaleza Santa Cmz (acima). Como a rebelião acabou: Incapazes de tomar o Rio, Custódio de Melo e Saldanha da Gama, que se odiavam, adotaram táticas diferentes; Melo partiu para o exílio na Europa e Gama se aliou aos rebeldes gaúchos. Morreu em combate, no Rio Grande do Sul, em junho de 1895.


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breve período do governo Deodoro não deixou sauda­ de nos círculos civis, espe­ cialmente para os cafeicultores pau­ listas. Por isso as oligarquias e elites rurais deram apoio à candidatura de Floriano, para den ubar Deodoro e di­ vidir os militares. Mas esse foi um acordo de curto prazo, e o govem o nacionalista do Marechal de FeiTO, de apoio à indústria e à classe m é­ dia urbana, logo desagradaria à cha­ mada “ Repiíblica dos Fazendeiros” —especialmente porque os jacobinos (republicanos exaltados e radicais, inimigos dos oligarcas) se uniram a Floriano de imediato. De qualquer modo, as atribula­ ções políticas do governo Floriano — ampliadas pela Revolução Fede­ ralista do Rio Grande do Sul— leva­ ram as elites civis ao consenso de que era preciso afastar os militares da po­ lítica e retomar o controle do país. A eleição de Prudente de Morais, em 15 de novembro de 1894, representou o retorno da classe latifundiária —que fora o sustentáculo do iinpcrio— ao comando da nação. Sob a vestimenta republicana, o federalismo conserva­ dor saiu vitorioso. Embora Pmdente tenha sido o primeiro presidente bra­ sileiro eleito pelo voto, o país não teria estabilidade durante os quatro anos de seu mandato; a revolta de Canudos, que eclodiu no interior da Bahia, tu­ multuou a nação. Desde o início Pru­ dente seria tido por pusilânime.

Prudente de Morais — chamado de Biriba pelo povo— foi submetido a humilhações desde o dia da posse; teve de ir para o Itamarati de carro alugado e, ao chegar lá, “não teve quem lhe segurasse o chapéu” . Isso não foi de todo mal; aliados de Flo­ riano haviam articulado um golpe para impedir sua posse. Mas o Ma­ rechal de Ferro preferiu ficar em ca­ sa, cultivando suas rosas, e frustrou a trama dos jacobinos. O fato de Prudente decidir anistiar os rebeldes gatjchos — acabando com a guerra civil no Sul— foi visto como ato de fraqueza pelos florianistas, e a cam ­ panha de desmoralização do presi­ dente começou. Em noveinbro de 1896, doente, Prudente teve de se afastar da Presi­ dência — e o vice, Manuel Vitorino Pereira, florianista. assutniu o cargo. Em março de 1897, o presidente re­ tomou ao posto. Em novembro, so­ freu um atentado {leia na página se­ guinte). Então, decretou estado de sítio, mandou fechar o Clube Militar, prendeu senadores e deputados, ten­ tou processar o vice Vitorino — e consolidou a República Oligárquica, ou “dos Fazendeiros”, que duraria até 1930. Mas, ao assinar novo acordo financeiro com a Inglaterra {leia na página 167) e manter a monocultura cafeeira como única opção econômi­ ca do Brasil, Prudente de Morais en­ tregou um país estabilizado mas mui­ to endividado ao seu sucessor.

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esde sua fundação, o Partido Republi­ cano Paulista (PRP) sempre se portou de modo ambíguo quanto à abolição da es­ cravatura, à maneira de derrubar o império e até mesmo com relação à melhor forma de govemo republicano —embora o ponto cen­ tral do programa partidário fosse a defesa da federação, com os Estados cada vez mais autônomos em relação ao govemo central— e com poderes para exercer uma política bancária própria. Dos 129 delegados que participaram da fundação do partido, 78 eram cafeicultores. Dos 51 restantes, mui­ tos eram advogados formados na Faculdade de Direito de São Paulo (vários deles, entre

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os quais Campos Sales, Francisco Glicério e Américo de Campos, aparecem na gravura ao lado). Em 1884, aliado ao Partido Con­ servador, o PRP conseguiu eleger como de­ putados Pmdente de Morais e Campos Sa­ les. Em fevereiro de 1891, o PRP escolheu Floriano Peixoto para vice de Pmdente de Morais, na eleição contra a chapa de Deo­ doro e Wandenkolk. Pmdente perdeu para Deodoro, mas Floriano foi eleito vice. A tomada do poder se configuraria na eleição .seguinte, quando Pmdente e o PRP fariam, enfim, o comando da nação voltar às mãos dos civis —que também eram con­ servadores, latifundiários e oligárquicos.

A República de 10 Anos

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A te n ta d o c o n tr a P r u d e n te d e M o ra is A morte do marechal Bit­ tencourt era o pretexto de que Pmdente de Morais precisava para endurecer seu govemo e iniciar uma vingança política. A partir do instante em que ficou claro que Marcelino es­ tava ligado ao jornal "O Ja­ cobino”. Prudente partiu para a retaliação. Pediu e obteve do Congresso permissão para instalar 30 dias de estado de sítio. Envolveu o vice Vitori­ no na conspiração e mandou prender e exilar seus rivais. Bittencourt tomou-se um mártir —e foi enterrado com a alcunha, reveladora, de Ma­ rechal de Ouro (gravura ao lado). Enquanto isso, em sua cela. Marcelino revelava si­ nais de “desarranjo mental”, escrevia um soneto chamado "Jesus Cristo e Floriano”, pe­ dia para ser fuzilado e, por fim, se enforcava na prisão. O atentado acabou resul­ tando no fechamento do Clu­ be Militar e no afastamento dos militares da política (que perduraria até o surgimento do tenentismo na década de 20). Ao encerrar seu govemo. em novembro de 1898, o ho­ mem que os jacobinos tinham apelidado de Pmdente Demais se tomara o Floriano civil e o consolidador da República Oligárquica.

1 m 4 de março de 1897, recuperado da doença. J Prudente de Morais re­ tomava à Presidência —para desalento do vice Manuel Vitorino. dos jacobinos e dos tlorianistas. Esses, exaltados, logo começaram a tramar con­ tra a vida de Prudente. Em 5 de novembro —quando fal­ tavam ainda 375 dias para o fmi de seu mandato— veio o atentado. O presidente fora ao embarcadouro do Arsenal de Guerra, no Rio de Janeiro, re­ cepcionar o navio Espírito Santo, que retornava da Bahia com a primeira tropa vitorio­ sa no combate contra os "fa­ náticos" de Canudos. À 1 hora da tarde, ao che­ gar ao cais. o presidente foi recebido com urras a Floria­ no e a Vitorino. No meio da multidão, um soldado. Marcelino Bispo de Melo. se apro­ ximou do presidente e sacou uma garrucha. Prudente afas­ tou a arma com a cartola —o que não lhe salvaria a vida caso houvesse o disparo. Mas a arma falhou cinco vezes e o soldado foi desarmado com uma pranchada desferida por um coronel. Antes de ser pre­ so. porém, o criminoso con­ seguiu esfaquear o ministro da Guerra. Carlos Bittencourt, que morreu.

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o assumir a Presidência, em 5 de novembro de A figura “impoluta” do austero, ditatorial e nacio­ 1896, o vice Manuel Vitorino Pereira decidiu nalista Floriano foi adotada como símbolo pelos jacobi­ substituir todo o ministério, trocando aliados de Pru­ nos. Estes derivaram o nome de uma das correntes pre­ dente de Morais por florianistas convictos. Ao con­ dominantes da Revolução Francesa. Seus membros eram trário de Prudente, Vitorino (à esquerda), baiano nascido propagandistas exaltados, em geral de classe média bai­ em 1853 e primeiro govemador de seu Estado depois xa —mais alguns operários e militares atingidos pela da república, era um jomalista cujos “dotes cintilantes carestia deflagrada pelo “Encilhamento” (leia na página de orador” o tomavam um “autêntico condutor de mas­ 168). Os jacobinos acreditavam numa república forte e sas” —e um jacobino potencial. centralista, capaz de enfi^entar os monarquistas, que eles, Uma vez no poder, Vitorino “escancarou todas as com paranóia, viam em cada esquina, mesmo nas lon­ janelas do novo palácio ao raído exterior”. O "novo juras do sertão baiano, entre os miseráveis de Canudos. palácio” era o do Catete, que ele comprou para ser sede Os jacobinos eram inimigos de morte da república do govemo, no lugar do Itamarati. E o “ruído exterior” liberal, descentralizada e federalista com a qual so­ eram os urras a Floriano, que adquiriram um tom ver­ nhavam os cafeicultores paulistas. Para os jacobinos dadeiramente messiânico ap)ós a morte do Marechal de —neste caso não de todo destituídos de razão—, a as­ Ferro, em junho de 1895. Muitos rezavam em seu tú­ censão ao poder da “República dos Fazendeiros”, re­ mulo e havia aqueles que distribuíam seu retrato como presentada por Prudente de Morais e por seu suces­ se fosse um santo. A sombra do marechal nacionalista sor, Campos Sales, era o retomo da nação às mãos dos pairava sobre a República Oligárquica. latifundiários.

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olítico mais habilidoso, orador mais inspirado e propagandista mais efi­ ciente, o paulista Manuel Ferraz de Campos Sales conseguiu consolidar ple­ namente a “República dos Fazendeiros", ideahzada por Prudente de Morais, pelos cafeicultores e pelo PRR O aaanjo políti­ co articulado por Campos Sales ao longo de seus quatro anos (1898-1902) de go­ verno foi brilhante: ele criou a chamada "política dos governadores", que perdu­ raria até a Revolução de 30. O jacobinis­ mo se esfacelara após o atentado a Pru­ dente; os militares voltaram aos quartéis e Campos Sales assumiu soberano. Apesar de a Constituição afirmar que o Executi­ vo e o Legislativo eram poderes “harmô­ nicos e independentes entre si", o fato é que frequentemente o Cougresso barrava as ações do governo. Campos Sales inventou então uma no­ va —e pouco ética— forma de presiden­ cialismo: ignorou os partidos para apoiar os governadores estaduais; escolheu mi­ nistros de fora da política, ou alheios a ela, bastando-lhe que lhe fossem fiéis; apagou os últimos vestígios de tradição parlamen­ tar e submeteu a formação do Congresso às conveniências do govemo. Criou a “de­ gola política”, institucionalizou a fraude eleitoral e converteu a federação em feu­ dos eleitorais. Criou a política do "café com leite” —a aliança entre São Paulo e Minas Gerais, que passaram a se alternar no poder. O "sucesso” do arranjo político de Campos Sales não ajudou a tomar seu govemo popular, principalmente por causa das medidas econômicas recessivas que foi forçado a tomar.

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Antes do final de seu governo. Pru­ dente de Morais fora obrigado a iniciar negociações com a Casa Rothschild, tra­ dicionais banqueiros ingleses que em­ prestavam dinheiro ao Brasil, mas preten­ diam cancelar os financiamentos. Já eleito, mas ainda não empossado. Campos Sales foi pessoalmente à Inglaterra negociar um “funding loan”. “Funding loan” nada mais é do que um empréstimo para pagar os ju­ ros das dívidas de um empréstimo anterior. Campos Sales foi bem-sucedido: obteve 10 milhões de libras, com os quais pagou, du­ rante três anos, os juros da dívida total, cu­ ja cobrança foi suspensa até 1911. Com a moratória, o país escapou da insolvência, mas o preço foi alto. Como garantia. Sales oferecera a renda da alfân­ dega do Rio e se comprometera a não fa­ zer novos empréstimos até 1901. Com o poder nas mãos. tocou adiante a política re­ cessiva idealizada pelo ministro da Fazen­ da. Joaquim Murtinho. Iniciou-.se um duro programa de dellação, com a incineração de boa parte do papel-moeda em circula­ ção no país, a elevação das taxas cambiais e o aumento brutal dos impostos (foi cria­ do até um "selo”, colocado nos alimentos). A agricultura, a indústria e o povo foram prejudicados. Uma onda de greves, pro­ testos e falências ocorreu durante o cha­ mado “pânico de 1900”. O esquema polí­ tico da República Oligárquica foi passado intacto às mãos de Rodrigues Alves. Po­ rém. isso não impediu Campos Sales de se tomar um dos presidentes mais impopu­ lares da história do Brasil. Ele foi vaiado desde o Catete até a estação, onde pegou o trem que o levou de volta para São Paulo.

De acordo com o historiador Bóris Fausto, os ob­ ampos Sales implodiu por quase cinco anos a política partidária no Brasil. Está certo que o Par­ jetivos da “política dos governadores” podem ser re­ tido Republicano Federal (PRF), fundado em 1893, em sumidos assim: “reduzir ao máximo as disputas políti­ São Paulo —com a fusão do PRP com clubes repu­ cas no âmbito de cada Estado, prestigiando os grupos blicanos de outros Estados—, já se tinha dissolvido mais fortes; chegar a um acordo básico entre a União e devido a crises internas. Afinal, o presidente do PRF, os Estados; pôr fim à hostilidade entre o Executivo e o Francisco Glicério (à direita), trombara de frente com Legislativo, domesücando a escolha dos deputados. O Prudente de Morais —e, de certa forma, viu-se envol­ govemo central sustentaria assim os grupos dominantes nos Estados, enquanto estes, em troca, apoiariam a vido até mesmo no atentado contra ele. Todavia, o golpe de morte, papel desempenhado política do presidente da república. Para ajustar a pelos partidos republicanos no Congresso, foi desferi­ Câmara dos Deputados a esses fins (...), o presidente do por Campos Sales, ele próprio um “republicano da Câmara, temporário e de confiança, garantia o man­ histórico” e fundador do PRP. Ao instaurar sua “políti­ dato de deputado a quem representasse os grupos do­ ca dos governadores”, Sales comandou o país even­ minantes nos Estados e fosse fiel ao govemo federal. tualmente afastado até mesmo do Partido Republicano Os não-merecedores desse tipo de confiança eram ex­ Mineiro (PRM), que, junto com o PRP, apoiara sua cluídos, ou “degolados’, como se dizia na época”. Era candidatura. Campos Sales não estava interessado em a República Oligárquica —ou “República de Poucos”, lealdade partidária, mas em fidelidade absoluta ao seu também chamada “República dos Coronéis” ou “Re­ pública Café-com-Leite”. programa de govemo.

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A República de 10 Anos

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e todas as lambanças da política eco­ nômica brasileira, poucas foram tão desastrosas quanto o “Encilhamento” — a série de decretos baixada por Rui Barbosa, ministro da Economia do govem o provisório de Deodoro. Rui era intelectual de primeira grandeza, dono de biblioteca for­ midável (a maior do país) e principal respon­ sável pela Constituição aprovada em 1891. Como economista, porém, revelou-se um tre­ mendo fracasso. Tudo começou com o Decreto n° 165 de 17 de janeiro de 1890. Com ele, o govem o permitiu que os bancos emitissem dinheiro, lastreado apenas por bônus governamentais, e não por fundos de reserva. Foram lançados no mercado 450 mil contos — o dobro da quantia então em circulação no país. Na verdade, o decreto foi baixado justamente para suprir a

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ausência crônica do “meio circulante” (quan­ tidade de moeda em circulação no país). Desde o império era evidente que não havia papel-moeda suficiente para suprir as necessidades impostas pelo trabalho assala­ riado, realizado por mais de 1 milhão de es­ cravos libertos e imigrantes recém-chegados. Em tese, portanto, a nova medida estava correta. Todavia, a questão é que o Decreto n° 165 incentivava também a criação de so­ ciedades anônimas e liberava o crédito. Sur­ giu, assim, a idéia de que a república seria o “reino dos negócios” . D esencadeou-se uma corrida desenfreada às bolsas de valores {gravura acima, à esquerda) e os bancos fa­ ziam “chover” dinheiro. Milhares de em pre­ sas — muitas delas fictícias— foram criadas da noite para o dia. A especulação atingiu níveis estratosféricos. A enlouquecida dispu­

ta pela preferência dos investidores nos pre­ gões foi logo identificada com o encilhamento dos cavalos antes da largada no hipó­ dromo — instante no qual a atividade dos apostadores se tom a frenética. E assim foi que o povo acabou batizando o “pacote” . Em menos de um ano, o balão estourou. Muitas ações não tinham lastro ou corres­ pondência monetária — eram títulos falsos de empresas fantasmas. No início de 1891, a cri­ se começou: o preço das ações despencou; a inflação e o custo de vida dispararam; a fa­ lência atingiu milhares de empresas e bancos; o desemprego veio em massa; o valor da moe­ da brasileira com relação à libra desabou. O projeto do industrialista Rui Barbosa gerara uma febre especulativa extremamente nociva à economia produtiva. Com o país mergulha­ do no caos, o ministro se demitiu.

princípio —e por princípio— o decreto de Rui Barbosa indignou os fazendeiros paulistas. Afinal, a medida era parte de uma política industrialista, que visava diminuir a dependência brasileira de produtos vindos do mercado externo. Para os cafei­ cultores, quanto mais importações, melhor. Houve euforia entre as oligarquias rurais quando Rui Barbosa se demitiu. A alegria durou pouco: o “Encilhamento” deixara o Brasil pesadamente endividado: o país, que devia 30 milhões de libras em 1890, passou a dever 44,2 milhões em 1900. Em 1913, a dívida chegara a 144,3 milhões. Os ministros da Fazenda do govemo de Prudente de Morais. Rodrigues Alves {à esquerda) e Bernardino de Campras {à direita), deram início a uma política deflacionista. No govemo seguinte, de Campos Sales, o ministro Joaquim Murtinho submeteria o país às agruras exigidas pelo “funding loan”.

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Sangue e a transfonnação do império em república foi quase um passeio —na verdade, não houve muito mais do que “uma parada mi­ litar liderada por Deodoro”, à qual, como disse Aristides Lobo, o povo assistiu “bestializado”—, a primeira década do novo regime seria marcada pelo caos político, econômico e social. Essa si­ tuação de instabilidade generalizada foi amplia­ da pela eclosão das duas maiores guerras civis da história do Brasil: a Revolução Federalista do Rio Grande do Sul, travada de fevereiro de 1893 a setembro de 1895, e a “guerra do fim do mun­ do”, ocorrida em Canudos, no sertão da Bahia, na qual milhares de sertanejos pobres, seguido­ res do beato Antônio Conselheiro, foram massa­ crados pelo exército republicano.

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Esses conflitos não tiveram nada em comum a não ser a brutalidade absurda: as batalhas sem prisioneiros, a crueldade dos vencedores e a de­ gola dos vencidos. A guerra civil de 1893 foi um conflito de caráter eminentemente político —re­ trato fiel das dissidências que, desde o Segundo Reinado, dividiam o Rio Grande do Sul. Foi uma das raras guerras civis na qual fatores econômi­ cos não tiveram importância, e o único conflito no pampa gaúcho a se equiparar, em violência e crueza, às guerras platinas do século 19. A Revo­ lução Federalista foi um confronto terrível que colocou frente a frente republicanos jacobinos e positivistas —liderados por Júlio de Castilhos— e os antigos liberais do regime monárquico, che­ fiados por Gaspar Silveira Martins.

Canudos, por seu turno, foi a guerra mais trá­ gica do Brasil —mais dramática e violenta que a derrocada de Palmares. Em Palmares travou-se uma luta pela liberdade. Já em Canudos lutou-se sem motivo ou razão. Só a existência de dois Brasis inteiramente distintos e incompatíveis —o Brasil das elites urbanas e o Brasil dos miseráveis olvidados— pode explicar a “guerra do fim do mundo”. Nesse sentido. Canudos foi exemplar, revelando ao país, ao fmal do século 19, a trági­ ca dicotomia com a qual ele haveria de conviver ao longo de todo o século 20. A república só se consolidou após o batismo com o sangue vertido pelas tropas legalistas, no pampa (acima) e nos cafundós do sertão, no arraial desgraçado de Canudos (abaixo).

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mbora houvesse outros teresses em jogo, a RevoluJ ção Federalista resumiu-se ao choque frontal entre os aliados de Gaspar Silveira Martins e os par­ tidários de Júlio de Castilhos: uma luta entre o antigo regime e a nova ordem. Alto, corpulento e rico; barba farta e nariz romano, retórica agres­ siva e oratória inflamada. Silveira Martins — liberal por convicção e autoritário por feitio— era “o este­ reótipo do caudilho gaúcho”. Com fama de imbatível, fora por 20 anos o dono do Rio Grande do Sul. Deo­ doro só decidiu proclamar a repú­ blica quando lhe disseram que d. Pedro 2° escolhera o “Tribuno” (apelido de Silveira Martins) para o lugar do ministro Ouro Preto, que o marechal derrubara no dia 15 de novembro. Um dos primeiros atos de Deodoro foi enviar Silveira Mar­ tins {acima, à direita) para o exílio. Era o que Júlio de Castilhos es­

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perava. Moreno, baixo e gago, com in­ o rosto marcado pela varíola, mau orador mas dono de vontade férrea e de um texto incandescente, Casti­ lhos {acitna, à esquerda) era um po­ sitivista convicto e advogado (for­ mado em São Paulo) que se revelara um jornalista ambicioso e brilhante, “dono da capacidade esp>ecial de ins­ pirar fanatismo em seus seguidores e ódio nos adversários”. Era ele quem envolvera o vai­ doso e ingênuo Deodoro na Questão Militar, publicando os artigos do ma­ rechal em seu jomal, “A Federação”. Embora Deodoro tivesse posto um liberal no govemo do Rio Grande do Sul, após a proclamação da repúbli­ ca, com o exílio do Tribuno, o Sul passou a ter novo senhor. Um mo­ vimento contra Júlio de Castilhos acabaria ajudando a derrubar o ma­ rechal Deodoro no Rio de Janeiro. E a queda de Deodoro também ar­ rastou Castilhos.

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1893

Não por muito tempo: saindo do poder em novembro de 1891, Casti­ lhos o retomaria com um golpe em junho de 1892. Entre um período e outro, dez governos dirigiram o Rio Grande do Sul. Em fevereiro de 1892, Gaspar Silveira Martins vol­ tou do exílio, transformando o Es­ tado em barril de pólvora. Assusta­ do com o parlamentarismo radical do Tribuno, Floriano Peixoto, o no­ vo presidente, pragmaticamente pre­ feriu apoiar Castilhos — apesar de ele ser antigo aliado de Deodoro. Com o aval — ou pelo menos a omissão— do govemo central, Cas­ tilhos, que redigira em julho de 1891 uma constituição estadual que era o elogio da monocracia (govemo de um homem só), tomou-se ainda mais autoritário, vingativo, faccio­ so, intolerante, tirânico, sectário e opressivo do que jamais fora. Aos seus adversários, só restava a rebe­ lião. E ela logo estourou.

CORES E NOMES No folclore e na tradição do Rio Grande do Sul, a guerra civil de 1893 fo i o combate feroz entre "maragatos ” e "pica-paus". Maragatos eram chamados os federalistas. O primeiro bando de rebeldes que invadiu o Estado sulista, em fevereiro de 1893, veio do Uruguai, de um departamento povoado por espanhóis oriundos de Maragataría. Os republicanos os apelidaram de “maragatos", insinuando que se tratava de um bando de invasores estrangeiros. Mas o pejorativo fo i adotado como distintivo de honra. Os legalistas, por sua vez, foram batizados de “pica-paus ”. A origem do termo é confusa: para alguns, deve-se ao estampido de suas armas; para outros, era devido ao quepe vermelho das tropas castilhistas. Pelo menos nas cores os dois grupos combinavam: os maragatos usavam um lenço “colorado ” ao redor do pescoço.


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R io G r a n d e I n su r r e t o

pós fraudes escandalosas em duas eleições e uma sucessão de assassinatos políticos, Júlio de Castilhos assumiu a presidência do Rio Grande do Sul em 25 de janeiro de 1893. Uma sema­ na depois, eni 2 de fevereiro, rebentava a guerra ci­ vil. Contra Castilhos se ergueram não só os federa­ listas de Silveira Martins, mas os monarquistas, os perseguidos e descontentes em geral e até republi­ canos (parlamentaristas ou presidencialistas) que o sectarismo do ditador afastara do partido. A força dos revoltosos acabou sendo sua fraqueza: além do ódio a Castilhos, nada mais em comum havia entre os re­ beldes. Positivistas de vontade férrea, os castilhistas fechavam colunas sólidas —além de contar com o apoio de Floriano e do Exército paulista. A guerra perduraria por 31 meses, estendendo-se pelos três Estados meridionais (quase chegando a São Paulo) e cobrando, como um sinistro tributo, a vida de pelo menos 10 mil homens —muitos mortos por degola {leia o quadro abaixo). Não foi um confronto lírico: a mortandade dos combates não encontra paralelo em nenhuma outra luta travada no Brasil.

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ápida, silenciosa e barata, a degola foi a forma favorita de execução ao lon­ go dos dois anos e meio durante os quais a guerra civil de 1893 sangrou o Rio Gran­ de do Sui. As vítimas eram mortas da mesma forma como se abatiam carneiros: forçadas a se ajoelhar ante seu algoz, ti­ nham a cabeça colocada entre as pernas do executor, que então lhes rasgava a ca­ rótida com um súbito golpe de faca. Os le­ galistas degolaram antes e mais do que os federalistas —mas, sempre que possível, houve vingança. Os dois episiídios mais infames foram os massacres do Rio Negro e do Boi Preto. O primeiro se deu em 27 de novem­

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UMA ESTRANHA COLIGAÇÃO

Já envelhecido. Silveira Martins foi omisso e va­ cilante. O verdadeiro chefe militar dos insurretos era o caudilho brasileiro-uruguaio Gumercindo Saraiva. Os exércitos rebeldes não passavam, em geral, de ban­ dos de peões comandados por estancieiros —alguns veteranos do Paraguai e outros, como Saraiva, das re­ voluções platinas. Sua tática era a guerrilha, que, vá­ rias vezes sufocada, renascia das cinzas. Em setem­ bro de 1893, os rebeldes ganharam novo fôlego graças à eclosão da Revolta da Armada, no Rio de Janeiro. Com a tomada de Desterro pelos revoltosos da Mari­ nha, deu-se o enlace de dois movimentos que nada tinham em comum a não ser o ódio ao "jacobinismo florianista". Ainda assim, com a derrota de Gumer­ cindo em julho de 94, em Passo Fundo —que foi a vi­ tória da arma de fogo contra a arma branca e do quadrado da infantaria contra as cargas de cavalaria—, a guerra virtualmente acabou. A sublevação persistiria na forma de um protesto inútil e sangrento até a posse de Prudente de Morais —o presidente conservador que aplacou o ódio de vencedores e vencidos. Mas o Rio Grande do Sul seguiu violento e dividido até 1930.

No dia 6 de setembro de 1893 estourou, no Rio de Janeiro, a Segunda Revolta da A nm da: o movimento liderado pelo almirante Custódio de Melo contra o govemo incon.ititucional de Floriano Peixoto (que Melo tinha esperança de substituir). Em fins de setembro, impossibilitados de tomar —ou mesmo de bombardear— o Rio. os rebeldes invadiram a cidade de Desterro, em Santa Catarina, Id instalando um “govemo provi.wrio ”. Com a retirada cortada para o sul do Paraná, que acabavam de invadir, as tropas de Gumercindo Saraiva foram para Santa Catarina e os dois movimentos rebeldes (sem quase nada em comum) se uniram. ciumeiras entre Custódio de Melo e Saldanha da Gama (líderes da Revolta da Armada mas inimigos pessoais), nutis as dissidências internas dos federalistas, fizeram com que es.-ia união tivesse poucos resultados.

bro de 93. Nesse dia, sob as ordens de Sil­ va Tavares, o negro uruguaio Adão Latorre degolou 180 federalistas que tinham se rendido sob a promessa de terem suas vi­ das poupadas. Em 5 de abril de 94, em Boi Preto, os federalistas se vingaram dego­ lando 250 homens da brigada do general Firmino de Paula. Os principais líderes dos maragatos, ou federalistas, foram os irmãos Gumercindo (à direita) e Aparício (à es­ querda) Saraiva, nascidos na fronteira en­ tre o Uruguai e o Brasil. Os dois falavam mais espanhol que português e eram típi­ cos caudilhos do pampa: contrabandistas de gado, guerrilheiros de vida tempestuosa e ideais supostamente libertários.

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G uerra ^ remeluzindo sob o sol inclemente do sertão, o arraial de Canudos se erguia onde antes havia apenas os arbustos espinhosos da caa­ tinga. Apesar de parecer uma favela, era um aglome­ rado impressionante; tinha 5.200 casas e cerca de 20 ou 25 mil habitantes. Eram números espantosos: em fms de 1896, Juazeiro, a maior cidade do norte da Bahia, tinha 3.000 moradores e a capital. Salvador, 200 mil. A maioria absoluta dos habitantes de Canu­ dos era de sertanejos indigentes, agrupados em tomo da figura misteriosa do beato Antônio Conselheiro. ' No território miserável do sertão. Conselheiro encontrara terreno fértil para sua pregação messiâni­ ca. A decadência dos engenhos, o fim da escravidão, a seca terrível de 1878 (durante a qual, só no Ceará, cerca de 100 mil pessoas morreram de fome), a li­ mitação do mercado de trabalho provocada pelo fluxo incessante de imigrantes europeus: tudo con­ duzira ao caos social no Nordeste. Nesse ambiente de vertigem e desespero, surgiu a figura magnética de Conselheiro. Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu no Cea­ rá em 1828. Filho de um comerciante, que pretendia fazer dele um padre, Antônio fora professor e am­ bulante, quando problemas financeiros e domésticos (a mulher o abandonara) o converteram em beato —uma espécie de nômade do sertão, um cangaceiro místico e asceta que por 17 anos perambulou pela caatinga, conclamando o povo a construir e recons­ truir igrejas, reerguer os muros dos cemitérios e le­ var uma vida de penitência e meditação. Em 1876, preocupados com o ajuntamento em tomo de Con­ selheiro, a Igreja e o govemo começaram a trans­ formá-lo em mártir.

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Canudos Falsamente acusado de ter matado a mulher e o filho. Conselheiro foi preso. Julgado inocente, foi liberado e retomou à deriva no mar arenoso do ser­ tão. Em 1893, depois de quase duas décadas de peregrinação e já com cerca de 8.000 seguidores. Conselheiro encontrou seu porto seguro em uma fazenda abandonada, às margens do rio Vaza-Barris, norte da Bahia. Lá surgiria o arraial de Belo Monte, mais tarde batizado de Canudos. Em pou­ cos meses. Conselheiro —ajudado por homens como João Abade, Pajeú, Joaquim Tranca-Pés, Raimundo Boca-Torta, Chico Ema, Antônio Beato e Manoel Quadrado— começou a materializar a utopia in­ verossímil de uma sociedade evangélica auto-suficiente. Em Canudos não havia propriedade privada: terra, rebanhos e lavouras pertenciam a todos. Milho, feijão, mandioca e cana cultivavam-se coletiva­ mente. Cabras fomeciam came, leite e queijo. Suas peles, curtidas, eram vendidas em Juazeiro e expor­ tadas até para os EUA. Canudos se toraou a Meca dos desvalidos. Um outro Brasil. A proclamação da república, em 1889, desagra­ dara Conselheiro —especialmente por ter separado Igreja e Estado, sacralizado o casamento civil e criado impostos municipais. Em 1893, em Bom Conselho, Conselheiro mandara arrancar e queimar as ordens de cobrança de impostos e se complicara com a lei. Seu culto era sebastianista —antiga seita messiânica que previa o retomo, do fundo do oceano, de d. Sebastião, o rei português morto no Marrocos em 1578. Conselheiro era, por isso, um monarquista. Nesse contexto, um episódio corri­ queiro de desonestidade comercial precipitou o iní­ cio da grande tragédia.


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m agosto de 1896, a comunidade de nudos comprara um carregamento de maJ deira de um comerciante de Juazeiro. A carga —já paga— não chegou ao destino. Injuria­ do, Conselheiro avisou que seus seguidores iriam à cidade retirar a madeira. Alarmado com o boa­ to de que o “bando de fanáticos” saquearia a ci­ dade, o juiz de Juazeiro (desafiado por Conselhei­ ro em Bom Conselho) pediu ajuda ao govemador. Em novembro, uma tropa de cem soldados foi enviada à região e concluiu que o ataque era a melhor defesa e decidiu invadir o arraial. Em Uauá, os soldados foram surpreendidos por 300 sertanejos armados de paus e pedras. Apesar de 150 homens de Conselheiro terem si­ do mortos, contra apenas dez mortos e 16 sol­ dados feridos, as forças legais fugiram e o Exér­ cito concluiu que o episódio de Uauá clamava por vingança. E ela cedo viria: antes do fim de novembro, 543 soldados, 14 oficiais, duas metra­ lhadoras e dois canhões foram enviados numa expedição punitiva. No dia 20 de janeiro, nova­ mente desmoralizados, famintos e de fardas ras­ gadas, essa segunda tropa batia em retirada, sob a vaia e o fogo cerrado dos sertanejos. A derrota da segunda expedição, comanda-

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Ca­ da pelo major Febrônio de Brito {no alto, à di­ reita), não só chocou as instituições estaduais e federais como deixou claro para o Exército, a Igreja e o govemo que Canudos era uma séria ameaça à ordem estabelecida. E assim, com apoio do govemo central, uma nova força mili­ tar foi reunida com o intuito de, agora sim, ar­ rasar o arraial rebelde a qualquer custo. Para chefiá-la foi escolhido o coronel Moreira César. Apesar de epilético, descontrolado e vingati­ vo —responsável pelo fuzilamento sumário de 49 . rebeldes em Desterro (SC), durante a Revolta da Armada—, Moreira César era um herói nacional, com um currículo repleto de vitórias. E, desta vez, com a ajuda de 1.300 soldados, vários ofi­ ciais, metralhadoras, fuzis, 15 milhões de car­ tuchos e quatro canhões, ele tinha tudo para vencer outra \ ez. A tropa partiu de trem de Sal­ vador no dia 3 de fevereiro. No dia 18, já acam­ pava em Monte Santo, a 60 km de Canudos. Dois ataques epiléticos do comandante atrasaram o assalto ao arraial. Mas em 2 de março, com seus homens já famintos e sedentos, Moreira César, exalando confiança, disse: “Vamos al­ moçar em Canudos”. E ordenou a investida. O impossível aconteceu de novo: os sertane­

jos repeliram o primeiro ataque. Cego de ódio, Moreira César (no alto, ao centro) ordenou ou­ tro assalto. Gritou: “Vamos tomar o arraial sem tiros. À baioneta!” Mas as mas de Canudos pareciam um labirinto e, ao entrarem na cida­ de, os soldados viraram alvo fácil para os fran­ co-atiradores postados no alto das torres da no­ va igreja. Moreira César tomou nova decisão equivocada ao ordenar o avanço da cavalaria, incapaz de manobras entre as melas e os case­ bres que serviam de abrigo aos nativos. Ao in­ vestir ele próprio contra o arraial, o arrogante Moreira César tombou morto. Vencidos e hu­ milhados, os soldados bateram em retirada deixando seu arsenal — inclusive os canhões— na mão dos inimigos. A repercussão da derrota e morte de Morei­ ra César foi retumbante. Setores da imprensa, do govemo e do Exército transformaram Ca­ nudos em símbolo das ameaças que rondariam a república. Os boatos mais delirantes circu­ lavam pelo Rio de Janeiro. Os jacobinos viam na revolta um levante monarquista. Pmdente de Morais foi chamado de “Prudente Demais”. Os republicanos radicais clamavam por sangue. Ele logo correria.

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O M a s s a c r e F in a l paranóia dos jacobinos —que viam em tudo o dedo oculto dos monarquistas—, o sensacionalismo irresponsável da im­ prensa, os frágeis alicerces da república, a crôni­ ca cegueira das elites brasileiras com relação aos problemas sociais do país: tudo contribuiria para tomar um episódio originado pelas centenárias desigualdades da vida no sertão não uma ino­ vadora possibilidade de convívio entre miserá­ veis e abonados, mas uma tragédia sem paralelo na história do país. Em abril de 1897, o general Arthur Oscar (página anterior, à direita, abaixo) começou a formar a tropa escalada para ex­ terminar 20 mil desgraçados. A expedição, minuciosamente planejada, foi dividida em duas colunas: a primeira, na qual se­ guiria Arthur O.scar, tinha 2.000 homens e partiria de Monte Santo, passando pela serra do Calumbi; a segunda, sob o comando do general Savaget, reunia 2.350 homens e sairia de Sergipe mmo a Jeremoabo, na Bahia (veja o mapa na página an­ terior). Os dois grupos levavam mais de 700 tone­ ladas de munição, metralhadoras e canhões Krupp, além do canhão Withworth 32, chamado de “Matadeira”. Era tão grande que necessitava 20 juntas de bois para movimentá-lo pelos morros agrestes e planícies áridas dos cafundós do sertão. Em junho de 1897, duas tropas estavam prontas para a luta.

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Mais uma vez, porém, a primeira vitória foi dos rebeldes. No dia 25 de junho, ao partir de Je­ remoabo mmo ao arraial, guerrilheiros no pla­ nalto de Cocorobó atacaram uma coluna coman­ dada pelo general Savaget. Depois de mais de oito horas de combate, 178 militares estavam mortos. Ao mesmo tempo, na frente sul, a tropa do co­ mandante-chefe Arthur Oscar também estava cer­ cada, no morro da Favela. Os dois acampamentos eram alvos constantes de ataques suicidas: ser­ tanejos cruzavam as linhas e atiravam contra os oficiais. Em fms de julho, o Exército não apenas não conseguira nenhuma vitória significativa como já dvera mil baixas. Conservando com dificul­ dade suas posições, as tropas aguardavam de­ sesperadamente por reforços. Eles chegaram em meados de agosto: 3.000 homens que haviam si­ do reunidos às pressas por todo o país. No dia 24, um disparo da “Matadeira” dermbou o sino da igreja de Canudos. Duas semanas depois, a própria igreja foi reduzida a escombros. Era um sinal claro: raiavam os últimos dias na cidade da utopia evan­ gélica. Quase um mês mais tarde. 22 de setembro, morria Conselheiro. Até hoje não se sabe o que o matou: estilhaços de granada, parada cardíaca, pro­ blemas gastrointestinais provocados pela má ali­ mentação, desgosto profundo, pura premonição?

Sem o líder, os sertanejos insurretos arrefece­ ram seu ânimo. Havia cerca de um ano viviam si­ tiados. Tinham acumulado dezenas de pequenas vitórias, infligindo muitas humilhações às ü-opas republicanas, aproveitando-se de todas as vanta­ gens estratégicas que a terra crestada do sertão e as agruras às quais estavam acostumados desde sempre podiam lhes oferecer. Mas agora não era possível resistir mais. No dia 3 de outubro de 1897, uma bandeira branca foi erguida entre as minas chamuscadas de Canudos. Dois jagunços —um deles era Antônio Beato, ex-“chefe de po­ lícia” do arraial— foram negociar com o Exército a rendição de 300 mulheres, velhos e crianças. No dia 3, os combates reiniciaram e, no dia 5, 0 Exército enfim entrou em Canudos: tinha mata­ do seus quatro últimos defensores —dois adul­ tos, um velho e um garoto. Do arraial restavam apenas escombros fumegantes. A batalha mais in­ glória do Exército brasileiro tinha sido vencida. Canudos estaria destinado a ser enterrado em co­ va rasa na vala comum da história, não fosse o fato de a expedição de Arthur Oscar ter sido acom­ panhada por um repórter do jomal “O Estado de S. Paulo”. Euclides da Cunha transformou Canu­ dos numa Tróia sertaneja e imortalizou Conse­ lheiro ao escrever “Os Sertões”, talvez o maior clássico da literatura brasileira.


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C o n s e l h e ir o UM CÉREBRO NORMAL

o chegar ao sertão, em agosto de 1897, Euclides da Cunha percebeu que estava diante de uma história épica. Todos os ingredientes de uma saga trágica e atávica desfilavam diante de seus olhos. Com o talento dos prosadores iluminados, ele redigiu um texto fulgurante, repleto de som e fú­ ria, que tomou aquela luta uma aventura literária com­ parável às sagas de Homero. Eis sua descrição de An­ tônio Conselheiro: “Surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstmoso, dentro de um hábito azul de brim americano: abordoado ao clás­ sico bastão, em que se apóia o passo tardo dos pere­ grinos (...) Sua entrada nos povoados, seguido pela multidão contrita, em silêncio, alevantando imagens, cm zes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora (...) Prenunciavam-se, em seus .sermões, anos sucessivos de desgraças: ‘Em 1896 há de reba­ nhos mil correr da praia para o sertão; então o ser­ tão virará praia e a praia virará sertão (...) Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações (...) das ondas do mar d. Sebastião sairá com todo o seu Exército’. (...) No seio de uma sociedade primitiva que pelas qualidades étnicas e influxo das santas mis­ sões malévolas com preendia melhor a vida pelo in­ compreendido dos milagres (...) aquele dominador foi um títere. Agiu passivo como uma sombra (...) E cresceu tanto que se projetou na História”.

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Em 1980, o escritor pem ano M ario Vargas Llosa cometeu a ousadia suprema de utilizar o episódio de Canudos como tema de seu romance “A Guerra do Fim do Mundo”. Sabia que, mais do que inevitáveis, as comparações com “Os Sertões” lhe seriam de to­ do desvantajosas. Mas Llosa não apenas enfrentou o desafio como produziu uma obra magnífica. Eis o re­ trato que ele traçou do enigmático Conselheiro: “O homem era tão alto e tão magro que parecia sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos pro­ eminentes e seus olhos ardiam como fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica azulão que lhe caía sobre o corpo lembrava o hábito dos missioná­ rios que, de quando em quando, visitavam os povoa­ dos do sertão, batizando multidões de crianças e ca­ sando os amancebados. Era impossível saber sua idade, sua procedência, sua história, mas algo havia em seu aspecto tranqüilo, em seus costumes frugais, em sua imperturbável seriedade què, mesmo antes de dar conselhos, atraía as pessoas. Aparecia de improviso, no princípio sozinho, sempre a pé, coberto pelo pó do caminho. Sua alta silhueta destacava-se na luz cre­ puscular ou nascente, enquanto atravessava a única m a do povoado, a grandes trancos, com uma espécie de urgência. Não comia nem bebia antes de chegar à igreja do povoado e comprovar, uma vez mais, uma e cem vezes, que estava em petição de miséria. Entristecia-se o seu rosto com uma dor de retirante a quem a seca matou filhos e animais”.

O corpo de Conselheiro fo i exumado em 6 de outubro de 1897. Devido ao adiantado estado de putrefação, não fo i possível precisar a causa da morte. No entanto, não havia perfurações de bala no cadáver A cabeça do beato fo i cortada e enviada para a Faculdade de Medicina da Bahia, para ser examinada por especialistas. Em tempos lombrosianos, acreditava-se que o estudo de seu cérebro certamente indicaria sim is de anormalidade —quando não as marcas da “criminalidade nata Mas o diagnóstico do diretor da faculdade. Pacífico Pereira, do psiquiatra Juliano Pereira e do consagrado antropólogo Nina Rodrigues fo i frustrante para a imprensa e para o povo. "O crânio de Antônio Conselheiro não apresenta nenhunm anormalidade que demonstre traços de degenerescência. É um crânio norm al", dizia o relatório de Nina Rodrigues, um cientista já acusado de ser racista.

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ngenheiro formado pela Escola Militar, sob forte influência positivista, Euclides J Pimenta da Cunha ( 1866-1909) era um re­ publicano convicto que acreditava que uma lite­ ratura engajada e de combate —elaborada com paciência, meticulosidade e ciência— poderia ajudar a construir um país melhor. Nesse sentido, e em vários outros, a obra literária desse matemá­ tico formado em ciências físicas e naturais que, paralelamente, decidira seguir também a carreira jornalística, não tinha nada a ver com a “Repúbli­ ca das Letras” da rua do Ouvidor —com seu pre­ ciosismo gramatical, seu dandismo, sua arrogân­ cia tipicamente “belle époque”. Talvez por isso Euclides passasse a noite anterior ao lançamento de seu primeiro livro, “Os Sertões”, corrigindo, com canivete e pena, um a um, nos mil exem­ plares da primeira edição, os 80 erros que encon­ trara na obra. Tanta meticulosidade talvez nem sequer fosse necessária: ao ser lançado, í>ela res­ peitada editora carioca Laemmert, em 11 de de­ zembro de 1902, “Os Sertões” tomou-se, literal­ mente da noite para o dia, um estrondoso sucesso. Embora cinco anos já houvessem passado desde os sangrentos e amedrontadores aconteci­ mentos de Canudos, o episódio tinha perma­ necido vivo na memória nacional. Além de ter todos os ingredientes necessários para um gran­ de romance —o caráter épico, as tensões dra­ máticas, as derrotas militares, uma insurreição de miseráveis—, o livro fora escrito em estilo inovador e marcante. Recendia a terra e sangue, era agreste e desconhecido como o próprio ser­ tão; era espantosamente real. Além disso, apre­ sentava aos brasileiros letrados um Brasil que eles jamais tinham visto, suposto ou tentado en­ tender. A sinceridade, o tom quase homérico, as peculiaridades verbais de Euclides —“ele es­ creve como com um cipó”, diria Joaquim Na­ buco—, tomaram sua prosa uma febre nacional. A primeira edição logo se esgotou. Noventa anos depois, “Os Sertões” permanece tão ad­ mirável quanto no primeiro dia.

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“9(ós,fUíws do mesmo soío, porque, etnoíogicamente indefinidos, sem tradições nacionais uniformes, vivendo parasitariamente à Beira do Í^tíântico dos princípios civiíizadores eíoBorados na ‘E uropa, e armados peía indústria

aíemã — tivemos na ação um papeC singuíar de mercenários inconscientes. Aíém disso, mai unidos àqueíes e?(traordinários patrícios peCo soío em parte desconhecido, deíes de todo nos separa uma coordenada fiistórica— 0 tempo. íAxjueía campanfia íemBra um refíu?io para o passado. X fo i, na significação integrai da paiavra, um crime. ‘D enunciemo-io. “ ‘Eucíides da Cunha

Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em novembro de 1866. Em mar­ ço de 1886, incapaz de continuar pagando a Es­ cola Politécnica, entrou na Escola Militar da Praia Vermelha, que era gratuita. Tomou-se aluno de Benjamin Constant e, como tantos de seus pupilos, virou positivista. No dia 4 de novembro de 1888, quando o ministro da Guerra, Tomás Coelho, visitava a escola, Euclides, abolicionista e republicano radical, saiu da formação e jogou o sabre no chão. Foi preso e expulso da escola, mas ficou tão famoso que foi contratado para escrever para o jomal “O Estado de S. Paulo”. Com a república, seria lembrado como o in­ trépido “esUidante da baioneta” e, por ordem do próprio Deodoro, voltou à escola, onde se formou em engenharia militar, matemática e ciências físi­ cas e naturais. Em agosto de 1896, Euclides já era capitão quando uma nova punição —provocada pelo radicalismo de seus artigos em “O Estado”— o levou a desistir da carreira militar e a se refor­ mar. Após um ano exato, Júlio Mesquita, diretor do jomal, decidiu enviá-lo como repórter para o “front”, em Canudos. No dia 14 de agosto, com a tropa do marechal Carlos Bittencourt, Euclides partiu para Salvador. Chegou a Canudos a 16 de setembro —seis dias antes da morte de Con­ selheiro. No dia 5 de outubro, tombaram os últi­ mos defensores do arraial. “Eram quatro apenas”, e.screveu Euclides. “Um velho, dois homens fei­ tos e uma criança, na frente dos quais rugiam 5.000 soldados.” Os ideais românticos de Euclides morriam junto com os quatro derradeiros sertanejos de Canudos. De volta a São Paulo, decidiu escrever seu “livro vingador”. Ele o fez à margem do rio Pardo (SP), onde passou três anos supervisionan­ do a construção de uma ponte. Lá, numa cabana de teto de zinco, à sombra de uma paineira, nasceria um dos mais extraordinários livros da literatura brasileira: um texto primoroso capaz de decifrar os mistérios e os horrores do país— que, passado mais de um século, o Brasil segue ignorando.


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ste é um país foijado por exilados. Foram Japoneses e árabes viriam a seguir, dando sua povos transplantados” —para usar a expres- contribuição. O caldeirão de raças foijou uma nova À são de Darcy Ribeiro— aqueles que construí­ nação. Não foi um processo tranquilo. Pelo contrário: ram a nação. Depois de longos anos de abandono, só os conflitos inerentes da adaptação desses povos ao em 1532, com a criação das capitanias hereditárias, “novo mundo dos trópicos” acabaram por constituir a Portugal começou a fincar as raízes da primeira própria alma contraditória da nação. “A tentativa de civilização européia a se estabelecer nos trópicos implantação da cultura européia em extenso território, —região que os europeus imaginavam, e até des­ dotado de condições naturais, senão adversas, larga­ creviam. ora como paraíso ora como inferno. Mas­ mente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens sacrados os índios, miscigenados os portugue.ses, procriados os mamelucos e cafuzos, a nação seria erguida pelo braço escravo: 4,5 milhões de negros foram trazidos da África para o Brasil ao longo de três séculos. Com o fim da escravatura —ou, antes, a partir da efervescência da campanha abolicionis­ ta—, o país daria início à “importação em massa” de imigrantes europeus. De 1886 a 1914, quase 3 milhões de estrangei­ ros vieram para o Brasil na tentativa de “fazer a América” —foram, mais exatamente, 2,74 milhões os imigrantes que chegaram ao país em 28 anos. “9{a América onde chegamos Eles fizeram do Brasil uma das três nações do mun­ íAíõo encontramos nem paíha nem feno do que mais .se abriram para o fluxo migratório —Es­ ‘D ormíamos no chão, ao sereno tados Unidos e Canadá são as outras duas. As causas Como as èestas irracionais dessa vertiginosa transmigração de povos são vá­ *E com o mgenfio dos nossos itaíianos rias e suas consequências, complexas e duradouras. Embora seja, em seu fundamento, uma nação luso- T, 0 esforço de nossos paisanos / Com o passar dos anos Construímos países e arraiais ” africana, o Brasil se tomaria também, especial­ Canção popuCar dos imigrantes itaíianos mente no Sul, um país altamente europeizado. 1

da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nos­ sas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterra­ dos em nossa terra. (...) O certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem”, escreveu Sérgio Buarque de Ho­ landa na abertura do seu clássico “Raízes do Brasil”. Depois de portugueses e africanos, foram italia­ nos os que chegaram em maior número ao Brasil: 1,6 milhão em mais de cem anos (921 mil apenas entre 1886 e 1900). O segundo grande contingente de imi­ grantes veio da Espanha: 694 mil em um século. Os alemães vêm a seguir, com 250 mil. Os japoneses ocupam o quarto lugar, com 229 mil imigrantes. Se não puderam mudar o clima, esses povos mudaram os hábitos, a língua, as formas de pensar, de agir e se alimentar; mudaram a própria imagem que o país fazia de si mesmo. E, sim, mudaram a paisagem: no Sul, o “imperialismo ecológico” dos “povos trans­ plantados” fez brotar um Brasil europeizado, com outras árvores, outros animais, outras raízes. E outras gentes: .se na planície litorânea os tupis foram mortos para dar lugar aos lusitanos, nas serrarias do Sul os caingangues seriam exterminados para “liberar” a terra para os teuto-italianos. No caldeirão brasileiro, algumas raças são mais iguais que outras.

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B raços vertiginosa expansão da la­ voura cafeeira pelo vale do rio Paraíba do Sul coincidiu com o início da campanha abolicionis­ ta no Rio de Janeiro e em São Pau­ lo. Por isso, os grandes cafeicultores da região logo se preocuparam com a questão da mão-de-obra. A própria fundação do Partido Republicano Pau­ lista, em, 1873, esteve diretamente liga­ da à questão. O destino dos e.scravos nunca foi tema relevante para os fa­ zendeiros filiados ao PRP. Em maio de 1885, quando se discutia a Lei dos Sexagenários, o então deputado Pru­ dente de Morais diria: “Em São Pau­ lo a questão principal não é a da li­ berdade do escravo. A questão séria é a da substituição do trabalho. E des­ de que o govemo cure seriamente de empregar meios que facilitem a aqui­ sição de braços livres, os paulistas estarão satisfeitos e podem abrir mão dos escravos, mesmo sem indeniza­ ção. porque a verdadeira indenização está na facilidade de obter trabalha­ dores livres”. O discurso era claro: em troca da adesão à campanha abolicio­ nista, o PRP exigia subsídios oficiais para a obtenção de braços livres —um programa governamental de incentivo à imigração.

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Tal desejo político não tardou em ser atendido. Entre 1887 e 1888, uma série de acordos e convênios assinados entre o Brasil e alguns países europeus deu início à “grande imigração”: em dois anos 150 mil trabalhadores chega­ ram ao Brasil, quase todos italianos embarcados em Gênova e desembar­ cados em Santos. Na maioria, eram camponeses pobres vindos da Lombardia e da Calábria. Partiam com toda a família, amontoados como bestas de carga em navios sujos. Che­ gavam ao porto santista e eram envia­ dos para a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo. O local funcionava como antes funcionara, no Rio de Janeiro, o mer­ cado do Valongo: os fazendeiros “exa­ minavam” os imigrantes; e os esco­ lhidos discutiam as condições sob as quais .seriam contratados —trato qua­ se nunca respeitado pelo empregador. Quando a mão-de-obra era escassa, os fazendeiros competiam entre si e en­ tão os preços subiam; quando havia braços excedentes, os contratos eram firmados em quantias irrisórias. En­ tre 1881 e 1890, 530 mil imigrantes entraram no Brasil —e os preços acor­ dados foram, portanto, muito vanta­ josos para os fazendeiros.

O PIO NEIRO DÚBIO

Uma vez contratados, os imigran­ tes seguiam para os cafezais do oeste paulista — um suposto “Eldorado”. A decepção era imediata: obrigava-se cada família a cuidar de cerca de 7.000 pés de café (anteriormente, a um escra­ vo eram “confiados” 6.000 pés, em jor­ nadas diárias de 14 horas), mais cinco ou seis carpas por ano (a limpeza da lavoura para eliminar as ervas dani­ nhas). Além disso, alojados em terras distantes, todos os imigrantes tinham de comprar seus víveres na venda do dono da fazenda, a preços extorsivos. Acabavam devendo mais do que re­ cebiam. Certos fazendeiros os chama­ vam de “escravos brancos” —e eram. Apesar de o trabalho ser assalariado, a mentalidade patriarcal dos donos das terras continuava escravocrata. De 1891 a 1900 cerca de 1,2 mi­ lhão de imigrantes vieram para o Bra­ sil. Não é de surpreender que 40% tenham retomado ao seu país de ori­ gem. Itália, Prússia e Espanha che­ garam a cancelar seus acordos com o Brasil —especialmente porque aos imigrantes era virtualmente vetada a possibilidade de permanecer nas ci­ dades: as articulações políticas dos fazendeiros os forçavam a ir para as lavouras.

O senador português radicado no Brasil Nicolau Vergueiro (1778-1859) fo i o primeiro fazendeiro a trazer imigrantes para trabalhar nos cafezais do Brasil — no caso, seus próprios cafezais. Em 1847, Vergueiro “im portou” 3.000 colonos alemães da Prússia para as lides na fazenda Ibicaha, em Limeira (SP). Inspirado na colonização dos EUA, Vergueiro estabeleceu o sistema de parceria. A pesar de abolicionista, o senador era autoritário. Em 1856, revoltados com a semi-escravidão, os colonos .se rebelaram. Uma comissão do govem o lhes deu ganho de causa. Em 1859, a Prússia decidiu proibir a imigração para o Brasil.


Os primeiros imigrantes italianos que vie­ ram para o Brasil chegaram ao país duas décadas antes do contingente que iria pe­ nar nos cafezais do oeste paulista. Apesar de menos cruel, sua saga também seria amarga e áspera. Ao contrário de seus sucessores, porém, esses primeiros “colonos”, por uma série de cir­ cunstâncias, foram capazes de construir seu “país” nas verdejantes serras do Brasil meridional. Na verdade, a vinda dos imigrantes italianos —e, an­ tes deles, dos alemães (veja o quadro abaixo)— revela a outra face da política governamental da introdução de mão-de-obra livre no Brasil, que se dividiu entre a colonização (voltada para o Sul) e a imigração (destinada aos cafezais de São Paulo). Os colonos italianos foram levados para o Sul a fim de ocupar terras devolutas.

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o cicio da colonização italiana no Rio Grande Se nas longínquas matas gaúchas os italianos do Sul se iniciou em 1875. Pequenos agriculto­ só se tomariam de fato brasileiros depois do ad­ res, procedentes em maioria do Tirol e do Vêneto, vento do Estado Novo, em São Paulo os vastos se estabeleceram em colônias na serra gaúcha, contingentes de imigrantes que se fixaram na ci­ sendo Caxias a mais importante delas. Foi a última dade logo se mesclariam ao novo país —modifase da colonização do Rio Grande do Sul, ainda ficando-lhe os costumes tanto quanto a própria uma fronteira em armas e com a agricultura devas­ nação modificava os .seus. Embora, em plena dé­ tada pela Guerra dos Farrapos. Supostamente, os cada de 20, Washington Luís dissesse que “diri­ colonos teriatn vantagens, como terras, .sementes e gir a corrente imigratória para outro lugar que equipamentos. Mesmo que, na prática, tais benefí­ não a fazenda eqüivale a destruir a riqueza na­ cios raramente tenham sido concedidos, a verdade cional e atrasar o Brasil”, a partir do século 20, é que 0 império —ba.seado na crença racista de cada vez mais italianos preferiam a grande ci­ que os trabalhadores europeus eram superiores— dade. Enquanto na serra gaúcha os primeiros imi­ proporcionou aos recém-chegados o que negara grantes produziam vinho, em São Paulo, alfaiates, a seus súditos. A “nação gaúcha” ficaria reduzi­ padeiros, sapateiros, donos de cantina criavam da ao pampa, enquanto, na serra, brotava um no­ novos bairros, como o Bexiga, a Mooca e o Brás, vo Brasil —refratário e exclusivista. mudando para sempre a face da nação. OS ALEMAES

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.S colonos alem ães foram os prim eiros im i­

grantes a chegar ao Brasil, exceto os ponugueses. evidentem ente. O fluxo m igratório se iniciou ainda no Prim eiro Reinado, quando Jo.sé Bonifácio e d. Pedro 1°. por razões militares, socioeconôm icas e psicossociais — entre as quais o projeto de “bran­ quear" o Sul do B rasil— , prom overam a vinda de colonos alem ães e suíços. A prim eira (e mais bemsucedida) colônia alem ã foi fundada cm São L eo­ poldo (RS), onde os im igrantes desem barcaram em 1824. A idéia era estabelecê-los longe das áreas on­ de im perava o latifúndio e incentivá-los a prom over novos plantios.

Embtira a em presa migratória se revelasse frau­ dulenta e quase nenhum a das prom essas feitas aos imigrantes fosse cum prida, os alemães dedicaram-se à criação de porcos, galinhas, gado leiteiro e ao c u l­ tivo de batatas, verduras e frutas até então inexis­ tentes no país, com o a maçã. O fracasso das colônias de Santo A m aro (SP). Florianópolis e Nova Friburgo (além da revolta dos colonos trazidos pelo .senador Vergueiro em 1847) fez ce.ssar o lluxo de alemães — de 93,5% do total de imigrantes entrados no Rio G rande do Sul entre 1824 e 1870, eles pas.saram a 15% entre 1889 e 1914. Ainda assim , fundaram al­ gumas das cidades mais progressistas do Brasil.

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As O 1

utras

nibora alemães, italianos e espanhóis nham chegado antes e em maior número. J vários outros povos e etnias contribuíram para forjar a Babel brasileira. Mujiques russos, mas­ cates turcos, comerciantes judeus, lavradores po­ loneses. chineses plantadores de chá. americanos rebeldes fugidos da Guerra da Secessão, agricul­ tores japoneses e ambulantes sírio-libane.ses não apenas modificaram os costumes, a língua, os hábi­ tos alimentares e as feições do país. como desem­ penharam um papel fundamental na industriali­ zação e na urbanização do Brasil. Mesmo que. desde o princípio, a fraude, a ga­ nância, o preconceito, a expoliação e mesmo a ma­ tança (não apenas a dos índios no sul do Brasil e no oeste de São Paulo) tenham marcado a saga dos imigrantes no Brasil, a imigração foi uma aven­ tura de dimensões épicas —repleta de vigor. suor. paixão, esperança e dignidade. Uma história gran­ diosa e comovente que inspirou escritores, ci­ neastas, pœtas e pintores brasileiros —como Lasar Segall, judeu russo radicado no Brasil a partir de 1932, autor do quadro “Navio de Emigrantes" {aci­ ma. à exquerda). Ao ver a pintura, o escritor Stefan Zweig considerou-a "uma síntese visionária da mi­ séria contemporânea", e o poeta Paulo Medeiros e Albuquerque, ao contemplá-lo, escreveu: "Emi­ grantes, emigrantes / gente que veio de longe, / que não sabe para onde vai / gente triste, gente estranha / estampada a dor na face, tristeza no coração / Eles

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H1STÓR1.\ DO BR.AS1L

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te­ não estão vendo o tombadilho / nem os mastros, nem mesmo o mar / Eles estão com os olhos volta­ dos para longe, / para suas terras perdidas". De todos os desacertos que marcaram a chega­ da dos imigrantes ao Brasil, os mais graves atin­ giram os orientais. Os japoneses começaram a che­ gar ao Brasil em 1908, a bordo do navio Kasato Maru, que atracou em Santos. Eram considerados "mais fracos do que fortes” e “capazes de produzir apenas dois terços do trabalho feito por um imigran­ te branco —sendo seus salários pagos nessa propor­ ção". Entre 1908 e 1914 chegaram 15 mil japone­ ses, levados para as fazendas de café do leste de São Paulo. Lá. além de trabalho árduo, tinham charque em vez de arroz, café em vez de chá. prato no lugar de tigela, calça e não quimono, gartb substituindo o "ohashi". A triste saga japonesa foi retratada no filme "Gaijin", de Tizuca Yamazaki. Na década de 50, já eram 250 mil os japoneses vivendo no Bra­ sil —quase todos em São Paulo, onde Anita Malfatti pintou, em 1917, a tela "O Japonês" (acima, á direita). Embora tenham criado seu próprio bairro, a Liberdade, em São Paulo, a grande contribuição dos japoneses estava na agricultura. O caso dos chineses talvez tenha sido muito grave: trazidos ao Brasil em 1812 por d. João 6° para plantar chá, al­ guns deles teriam sido soltos nas matas do Rio de Janeiro para ser perseguidos, por “esporte”, por caçadores de homens —entre os quais o príncipe d. Miguel. O episódio nunca foi esclarecido.

OS RETIRANTES A grande seca que assolou o Nordeste de 1877 a 1879 —provocando 220 mil mortes— forçou o êxodo de milhares de sertanejos. Com a produção de açúcar em decadência, muitos se dirigiram para os cafezais de São Paulo. A chegada de imensos contingentes de imigrantes italianos e espanhóis agravaria ainda mais a situação dos nordestinos, já que os fazendeiros preferiam os europeus. Seu flu.ro migratório, então, mudou de direção, conduzindo-os para a Amazônia, onde se tomaram seringueiros. Foram os retirantes nordestinos que invadiram o território boliviano que viria a ser o Acre.


o '" ão chega a ser exata­ mente unia surpresa o —fato de que, em 1891 —ano que registrou o maior número de imigrantes chega­ dos ao Brasil (215 mil)—, o superintendente do Serviço de Imigração na Europa, com se­ de em Paris, fosse o cônsul Jo­ sé Maria da Silva Paranhos, o barão do Rio Branco. Desde os tempos em que seu pai fora o principal responsável pela as­ sinatura da Lei do Ventre Li­ vre, em 1871. Rio Branco era favorável ao incentivo da imi­ gração para sub.stituir a mãode-obra escrava. Surpreenden­ te era o fato de um político tão leal ao império continuar na ativa. Como Rio Branco es­ capara do expurgo? Jomalista. geógrafo e his­ toriador. Rio Branco, na.scido no Rio de Janeiro em 1845. es­ tudara na Escola Militar. Lá conheceu o então tenente Flo­ riano Peixoto, com quem prati­ cava esgrima. O destino levou os amigos a trilhar caminhos distintos: enquanto Floriano foi lutar no Paraguai, Rio Branco se formava em direito em Re­ cife, fundando, ao retomar ao Rio de Janeiro, em 1868, o jor­ nal abolicionista “A Nação”. A seguir, apesar da fama de boê­ mio. mulherengo e inimigo da rotina, o garoto (então com 24 anos), conhecido pelo apelido de Juca. foi eleito deputado de Mato Grosso. Em 1875, quando quis .se­ guir a carreira diplomática, candidatando-se ao posto de cônsul do Brasil em Liverpool, seu nome foi vetado pelo rígido d. Pedro 2°— incomíxlado com o fato de Juca ter um caso com a atriz belga Marie Stevens, que ele conhecera no teatro Alcazar em 1872. A oposição do impe­ rador quase causou uma crise no ministério. O poderoso pri­ meiro-ministro João Maurício Wanderley Cotejipe ameaçou se demitir caso Juca não fosse nomeado. Em 1876. Rio Bran­ co foi feito cônsul. E ficaria 26 anos fora do país.

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L im it e s Quando foi proclamada a república, Juca já se tornara o barão de Rio Branco (a honraria lhe fora concedida pela princesa Isabel em maio de 1888). Pensou em abandonar a carreira diplomática por fidelidade ao imperador. Ao saber disso. d. Pedro 2°, que dificultara o início da carreira dele, comentou: “Di­ ga ao Rio Branco que ele é um bom servidor do país (...) que continue a trabalhar pelo Brasil. Eu passo e o Brasil tlca”. E Rio Branco ficou. Em 1890, 0 marechal Deo­ doro o nomeou superintendente do Serviço de Imigração, que a nova Constituição prometia in­ centivar. No cargo, como de hábito, o então ex-Juca foi eficientíssimo. Mas o auge de sua canteira estava por vir Em novembro de 1891. .seu antigo colega de esgrima chega­ va ao poder Foi Floriano Pei­ xoto quem fez Rio Branco de­ colar rumo à glória, ao nomeá-lo para defender o Brasil na espinhosa questão de limites com a Argentina. Com a vastidão enciclopé­ dica de seus conhecimentos his­ tóricos e geográficos, com a ajuda dc sua soberba biblioteca (além da incomparável bibliote­ ca de Rui Barbosa), o barão do Rio Branco, no conjunto de sua obra diplomática, obteve a so­ berania sobre 250 mil km- para o Brasil. A questão da Argentina foi apenas a primeira das muitas vitórias do homem que viria a .ser conhecido como "o guar­ dião das fronteiras do Brasil” (veja na página seguinte). Impondo seus argumentos em vários litígios fronteiriços. Rio Branco conquistou para o país um território quase do ta­ manho da França. Em 1902, quando eclodiu a questão do Acre (leia na página 183), o ba­ rão foi nomeado ministro das Relações Exteriores, pemianecendo no cargo por mais uma década e passando pelo govemo de quatro presidentes —Rodri­ gues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca.

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barão do Rio Branco conquistou, sozinho e sem disparar um tiro, 500 mil km^ para o Brasil —área equivalente a v^zu2a a 12 vezes o território da Suíça. O barão venceu em 1859 todas as “que.stões de limites” nas quais .seus serviços foram requisitados. A seguir, a lista das disputas diplomáticas vencidas por Rio Branco: em 1907 1) Questão das Missões: A soberania brasileira na zona de Palmas, no oeste do Paraná e Santa Catarina, (região que fora conquistada pelos bandeirantes, no séculp 16), seria contestada pela Argentina em 1878.0 presidente dos Estados Unidos, Grover Cleveland, seria mais tarde es­ colhido para arbitrar a questão. A minuciosa e erudita documentação apresentada pelo barão do Rio Branco convenceu Cleveland a dar ganho de causa ao Brasil, que recebeu o direito de posse da região em 1895. 2) Questão do Amapá: O confronto entre Brasil e „ V ' , , . . . . . , Bolívio por trotado „ C^ido pelo França pela pos.se do Amapa miciou-se em 1895 e em 1903 Brasil por tratado terminou em 1900. Outra vez, a tese brilhante de Rio Branco convenceu o presidente da Suíça, Walter Hau­ ser, árbitro do litígio, a dar a vitória ao Brasil. Rio Branco baseou-se no Tratado de Utrecht. 3) Questão do Acre: De longe a mais complexa questão de limites nas quais o barão se envolveu, e a única a deflagrar um confronto armado {leia na página ao lado). 4) Questão do P irará: Os limites com a Guiana Britânica foram arbitrados pelo rei da Itália, Vítor Emanuel 3°, em 1904. Nesse caso, como o rei italiano decidiu dar aos in­ gleses uma saída fluvial para o Amazonas, a vitória de Rio Branco não foi comple­ ta. Mas o barão conquistou metade da área litigiosa. 5) Limites com a Guiana Holandesa: Em 1906, o Brasil, representado por Rio Bran­ co, e a Holanda resolveram, pacificamente, os limites entre os dois países. Cedido pek) Uruguai 6) Limites com a Colômbia: Em 1907, o barão resolveu o litígio com a Colômbia, por tratado em 18^ pendente desde 1777, obtendo vitória total numa questão complexa. 7) Limites com o Peru: Em 1909, Rio Branco obteve nova vitória, fixando os limi­ tes entre Brasil e Peru. baseado no princípio do “uti possidetis”. 8) Condomínio da lagoa Mirim e do rio Jaguarão: A mais hábil e generosa das ações diplo­ máticas de Rio Branco estabeleceu, em 1909, que tanto o Brasil como o Uruguai poderiam utilizar as águas fluviais limítrofes entre os dois países.

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O trocar o pampa pela floresta ama­ zônica, o caudilho gaúcho José Plá­ cido de Castro (1873-1908) acabou se tornando, involuntariamente, o braço ar­ mado da eficiente política diplomática do ba­ rão do Rio Branco. Chefiando o bando de se­ ringueiros que invadiu o território boliviano em 1902, Castro criou uma situação de fato que, após vários conflitos armados, o barão re­ solveu de direito. Tudo começou com o boom da borracha e com a seca que assolou o Cea­ rá entre 1877 e 1879. Cerca de 30 mil retiran­ tes migraram para a Amazônia. Logo, já ocu­ pavam os então desconhecidos vales dos rios Juruá e Purus, em pleno tenritório boliviano. Era uma área de difícil demarcação e muita ri­ queza vegetal. Em 1900, insuflada pelos Esta­ dos Unidos, a Bolívia exigiu que os brasileiros saíssem do local. Em troca de um abatimento de 50% nos impostos sobre a exportação de sua borracha, a Bolívia cederia o Acre para a multinacional Anglo-Bolivian Syndicate. O gaúcho Rodrigo Carvalho, fiscal da fronteira, conclamou seu conterrâneo Plácido de Castro para liderar a revolta dos seringueiros. Conhecedor das táticas de guerrilha, maragato veterano da Revolução Federalista de 1893, Plácido de Castro (à direita), à frente de 2.(XX) sertanejos armados de fuzis, tomou Xa­ puri. Em 7 de agosto de 1902 proclamou a independência do Acre. Vários outros com­ bates sangrentos se seguiram, todos com a vi­ tória do bando de Plácido. O presidente boli­ viano ameaçou ir ao palco das operações e deflagrar guerra total. Começaram, então, ne­ gociações diplomáticas, com Rio Branco à frente da delegação brasileira. Por fim, em no­ vembro de 1903, foi assinado o Tratado de Petrópolis (foto na página anterior), segundo o qual a “parte meridional do Acre", reconheci­ damente boliviana, mas desbravada e povoa­ da por brasileiros, passava à posse do Brasil em troca de 2 milhões de libras e a promessa da construção da estrada de ferro MadeiraMamoré (jamais concluída). Foi uma vitória do barão dos limites.

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epois de escrever “Os Sertões”, ao longo de três anos, numa cabana de zinco ao lado da ponte so­ bre o rio Pardo (SP), cuja construção supervisionava, Euclides da Cunha (à esquerda) se consagrou como um dos maiores escritores de todos os tempos (leia na página 176). Apesar de eleito para a Academia Brasi­ leira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfi­ co Brasileiro, Euclides, que se demitira do cargo de en­ genheiro, teve de se sustentar apenas com os artigos que escrevia para o jomal “O Estado de S. Paulo”. A maior parte dos textos analisava a questão de limites entre o Brasil e o Fem e o abandono da Amazônia —cuja ocu­ pação imediata Euclides defendia entusiasticamente.

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Tais reportagens levaram Euclides a conhecer o barão do Rio Branco. E Rio Branco o nomeou chefe da missão exploratória que partiu para o Alto Purus. em abril de 1905, para traçar as fronteiras entre o Brasil e o Peru. Ao longo de seis meses, Euclides viveu todos os dramas da selva: naufrágios, doenças, motins, falta de víveres. Cumpriu a missão que Rio Branco lhe de­ signara e retornou à civilização em 1906. Pretendia escrever um novo épico, “O Paraíso Perdido”, mas o livro se resumiria a uma série de artigos esparsos. Neu­ roses e problemas pessoais arruinaram a vida de Eu­ clides. Em agosto de 1909, o escritor acabaria sendo morto pelo amante de sua mulher.

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SoB A S o m b ra d e R io B r a n c o s feitos do barão do Rio Bran­ co são tanto mais importantes e surpreendentes quando se sa­ be que foram obtidos durante um perío­ do em que a jovem república brasileira não se firmara por completo e vivia, domesticamente, sob o reino da turbu­ lência e da instabilidade. “Enfraqueci­ do pelas dissensões intemas e pela fmstração, o país estava ameaçado de todos os dissabores nos seus interesses estran­ geiros”, escreveu o historiador Pedro Calmon. Mas, vivendo na Europa ha­ via mais de 20 anos, quando começou a chefiar a diplomacia brasileira Rio Branco estava “distante dos conflitos nacionais” e, segundo Calmon, esse foi um dos principais motivos de seu su­ cesso e sua unanimidade. O desempenho reluzente do barão marcaria por anos a fio a política exter­ na brasileira, projetando internacional­ mente o nome do país. Rio Branco não apenas ajustou a obra diplomática em­ preendida pelo império às exigências econômicas e políticas da república, co­ mo foi o principal responsável pela tra­ dição pacifista e conciliatória do Itama­ rati. Por mais de uma década, o Brasil teria uma política exterior muito mais evoluída do que a política interna.

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barão do Rio Branco se tomou uma figura de tal forma alegórica na história do Brasil que alguns episódios de sua vida foram transformados em quadros grandiloquentes, repletos de simbolismo. No grande óleo de Pedro Américo “Pax et Concordia ”, que ornamenta o Ministério das Relações Exteriores, no Rio de Janeiro, Rio Branco é uma das figuras que representa a paz. Ainda mais revelador é o quadro “Barão do Rio Branco no Leito de Morte ”, de pintor anônimo, exposto no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Nele, o barão, já morto, é velado pela figura mitológica da república, resplandescente como um anjo. Em um país que não costuma cultuar seus heróis. Rio Branco fo i quase esquecido. Mas seu legado permanece.

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Como toda a unanimidade é burra. Rio Branco —ou, pelo menos, seu lega­ do— sofre contestações. Embora apai­ xonado pelas mulheres, o barão seria res­ ponsável pelo fato de que, por anos, a carreira diplomática no Brasil estivesse vetada a elas. O Itamarati já foi acusa­ do de ter sido reduto machista. O exclu­ sivismo não seria unicamente contra as mulheres: na prática, as portas do Itamarati permanecem fechadas aos negros. Nos mais de 170 anos de existência da instituição, jamais um negro foi seu mi­ nistro. E apenas um se tomou embaixa­ dor no exterior —durante o govemo Jâ­ nio Quadros, e sem ter vindo dos quadros do Itamarati. Mas teriam essas determinações de fato nascido do legado de Rio Branco? Seja qual for a resposta, ao fmal de sua vida 0 próprio barão se envolveria em duas polêmicas. Convidado a concorrer à Presidência, em 1909, o barão recusou a proposta. Mas não pôde esquivar-se de decidir entre o civil Rui Barbosa e o ma­ rechal Hermes da Fonseca. Rio Branco deu as costas ao “civilismo” de Rui. A se­ guir, foi favorável à punição aos mari­ nheiros na Revolta da Chibata. Ainda as­ sim, seria enterrado como herói. Mais de 300 mil pessoas o homenagearam.


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sinal mais evidente de que o Brasil estava de fato entran­ do no século 20 foi a cons­ trução, no Rio de Janeiro, da esplêndi­ da avenida Central. O amplo bulevar de dois quilômetros de comprimento e 33 metros de largura, com calçadas de sete metros ladeadas por prédios suntuosos, rasgou o coração da capi­ tal federal, marcando sua transforma­ ção de cidade malsã em cidade mara­ vilhosa. O termo “rasgou" deve ser tomado literalmente: agindo com po­ deres que os jornais definiam como “ditatoriais”, a equipe contratada pelo presidente Rodrigues Alves (eleito em março de 1902 e o terceiro paulista a ocupar sucessivamente o cargo), der­ rubou 614 imóveis em menos de um ano. A obra foi terminada no tempo recorde de 18 meses.

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Como as outras ações saneadoras e urbanizadoras do govemo Ro­ drigues Alves —entre as quais a re­ modelação do porto, a constmção da avenida Beira-Mar e o combate à fe­ bre amarela, à varíola e à peste bu­ bônica—, essa empreitada foi alta­ mente polêmica e gerou uma série de protestos. Mas, quando a avenida foi inaugurada, em 15 de novembro de 1905, o povo do Rio de Janeiro —e, por extensão, o do resto do Brasil— percebeu que uma nova era se inicia­ ra. O bulevar possuía imenso signifi­ cado metafórico: era uma vitrine da civilização; era o símbolo quase mira­ culoso da eficiência, saúde e beleza do país; era a materialização da pujan­ ça trazida pelo café. Era o fim da le­ targia tropical. Mais do que uma rua, era uma proclamação.

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Embora refinada e fascinante, a nova avenida recendia a nostalgia pa­ risiense. Em suas fachadas típicas do estilo batizado de “ecletismo fran­ cês”, em sua volúpia de vidro e ferro fundido, mais lembrava a via princi­ pal de uma metrópole européia des­ locada no espaço e no tempo. Mas seus cafés e lojas finas, os almofadi­ nhas que flanavam por suas calçadas e os automóveis que logo começa­ riam a circular por seu leito concede­ ram ao país uma ilusão de progresso, riqueza e modernidade. Ao caos ur­ bano seguiu-se o fausto burguês e o fetichismo consumista. E Rodrigues Alves —ex-monarquista e republica­ no de última hora— passaria à histó­ ria como o mais eficiente presidente da República Velha. Era o homem que “civilizara” o país.

o CRONISTA VISUAL A reurbanização do Rio teve um documentarista à altura da audácia do projeto. O fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923) era um gênio em sua arte. Filho de Zéphyrin Ferrez, que veio para o BrasU com a missão francesa, Marc já documentara muitos aspectos do Brasil quando foi contratado pela equipe do engenheiro Pereira Passos para registrar a construção da grande avenida. As fotos de Ferrez são quase tudo que resta do bulevar que foi o mais lindo do Brasil.

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onselheiro nos tempos do império, abolicionista, jor­ nalista e chefe de redação do jomal “ 16 de Junho" (do Clube Conservador), juiz de direito, de­ putado de 1872 a 1879. deputado constituinte, ministro da Fazenda de Floriano e de Prudente de Morais, ri­ co cafeicultor, liberal na economia e conservador na política, Francisco de Paula Rodrigues Alves (18481919) fora sempre o primeiro em tu­ do na vida. Tinha “caráter sisudo, in­ teligência cultivada e idéias sãs”, segundo seus aliados. Em 1900, as­ sumiu a presidência de São Paulo e reurbanizou toda a cidade, trocando lampiões de gás por luz elétrica, fazendo rede de esgotos e abrindo avenidas. Em 1902 foi eleito presi­ dente, com o apoio de São Paulo e de Minas Gerais. Uma vez no poder, revelou-se mais conservador do que republi­ cano, dirigindo o país com pulso forte e colocando-se acima dos par­ tidos. Para surpresa de seus aliados, Rodrigues Alves agia como um monarquista antioligárquico, igno­ rando tanto as oligarquias de opo­ sição (do Rio, Rio Grande do Sul e do Norte) quanto as situacionistas (de São Paulo e Minas), que o ti­ nham levado ao ptxler. Seu govemo foi marcado pela fantástica reurbanização do Rio —uma de suas pro­ messas de campanha— e por sua posição radical na eclosão da Re­ volta da Vacina, em 1904, quando enfrentou os militares rebeldes da Escola da Praia Vermelha e os ven­ ceu. O Conselheiro era durão.

Embora cafeicultor e levado ao poder px)r cafeicultores como ele, Rodrigues Alves se opôs às ar­ timanhas do Convênio de Taubaté —plano dos paulistas para fazer subir os preços internacionais do café (leia na página 190). A “trai­ ção” tinha explicação: o presiden­ te, além de apologista do liberalis­ mo econômico —portanto, contra a intervenção do Estado na econo­ mia, o protecionismo e a quebra do padrão monetário—, precisava ser fiel ao Banco Roth.schild, principal credor do Brasil e sustentáculo da política de contenção de emissões, equilíbrio orçamentário e valoriza­ ção da moeda posta em prática por Rodrigues Alves. Assim, 0 Conselheiro acabou fazendo um govemo criticado “por cima” (pelas elites oligárquicas) e “por baixo” (pelo povo, empobre­ cido depois da carestia no gover­ no Campos Sales e ainda expulso do centro do Rio f)ela especula­ ção imobiliária e o aumento dos aluguéis). Mas Alves se manteve firme até o fim —encarando a Revolta da Vacina (leia na página 188) e ainda tentando fazer de Bernardino de Campos seu sucessor. Porém, ele foi derrotado pelo se­ nador gaúcho Pinheiro Machado, que conseguiu indicar Afonso Pe­ na. Findo o mandato, seus minis­ tros publicaram uma nota nos jor­ nais: “A História dirá. apreciando os atos e acontecimentos desse pe­ ríodo de govemo, se o honrado sr. dr. Rodrigues Alves poderia ter cumprido melhor o seu dever”.

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o assumir o govemo, em novembro de 1902, Rodri­ gues Alves declarou ao Congresso e à nação que seu objetivo era “atrair mais imigrantes, remodelar o porto do Rio de Janeiro e reurbanizar a cidade”. Para tocar esse pro­ jeto —e de forma muito mais ousada do que se poderia su­ por—, o presidente montou uma equipe altamente capacita­ da e profissional. O time, liderado pelo general catarinense Lauro Müller, ministro de Viação e Obras Públicas, tinha como maior estrela o prefeito Francisco Pereira Passos, de quase 70 anos. Pereira Passos (1836-1913), filho de um barão cafeicultor, preferiu ser engenheiro em vez de cursar a faculdade de direito. Formado pela Escola Militar, Pereira Passos (à esquer­ da, posando para seu busto) foi para Paris em 1857 e pre­ senciou a grande reurbanização feita por Georges Haussmann. De volta ao Brasil em 1860, tomou-se engenheiro ferroviário e construiu as principais estradas de ferro do país, algumas em associação com o barão de Mauá.

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Como prefeito do Rio de Janeiro, de 1903 a 1906, vi­ rou a cidade de cabeça para baixo. Teve a ajuda de Paulo de Frontin, responsável pela mais notável das reformas —a abertura da avenida Central—, e de Francisco Bicalho, en­ carregado da modernização do porto (que ganhou 52 novos armazéns). Além de responsável pelo planejamento global das mudanças. Passos construiu a avenida Beira-Mar, fez ruas e calçadas, pavimentou estradas, abriu o túnel do Le­ me, iniciou a avenida Atlântica, uniu a cidade aos subúrbios do Flamengo e de Botafogo, embelezou as praças e proibiu a circulação de vacas, porcos e cães vadios pela cidade, a exposição de came na porta dos açougues, o ato de cuspir no assoalho dos bondes, o descuido com as fachadas e vários outros costumes “bárbaros e incultos”, como o “des­ file de blocos de Camaval sem autorização”. Foi apelidado de “prefeito bota-abaixo”. Seus métodos rígidos e sua “pi­ careta do progresso” foram instrumentos utilizados para “civilizar” —e “afrancesar”— o Rio de Janeiro.


o o alvorecer do século 20, o Rio de Janei­ ro continuava uma cidade de ruas sujas e estreitas, vielas tortuosas e epidemias mortíferas —conservava “o cunho desolador dos velhos tempos do rei e dos vice-reis”. Embora fos­ se tida mundialmente como uma cidade belíssima, era linda apenas vista de um navio. Tanto que mui­ tas linhas de navegação ofereciam “trânsito direto para Buenos Aires, sem passar pelo Brasil e pelos perigosos focos de febre amarela do Rio de Janei­ ro”. Ironicamente, fora através dos navios que as duas doenças mais graves que assolavam a popu­ lação haviam chegado à cidade. Um cargueiro norte-americano teria trazido a peste bubônica por volta de 1890. Com os navios dos imigrantes chegara a varíola, a partir de 1850. Era justamente para receber mais imigrantes —braços para o ca­ fé— que o cafeicultor Rodrigues Alves pretendia remodelar a cidade. “A capital da República não pode continuar a ser apontada como sede de vida difícil, quando tem fartos elementos para consti­ tuir o mais notável centro de atração de braços, de atividades e de capitais nesta parte do mundo”, dis-sera o presidente em seu discurso de posse. Em­ possado, partiu da teoria para a prática. Com um empréstimo de 8 milhões de libras tomado na Inglaterra e com uma equipe afinada com seus objetivos, Rodrigues Alves deflagrou a grande revolução urbana, cujo ponto focal era a construção da avenida Central (hoje, avenida Rio Branco). As obras começaram em 29 de fevereiro de 1904. Em nove meses, 614 imóveis foram pos­ tos abaixo “sob o hino jubiloso das picaretas re­ generadoras”. Muita gente perdeu suas proprie­ dades —inclusive o fotógrafo Marc Ferrez, cujo ateliê, na rua São José, foi derrubado. Os aluguéis dispararam e o “povaréu prosaico e mal-indumentado” foi expulso do centro.

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"íVp ^ paredes, no ruir das pedras, no csfarcíar do Sarro, havia um íongo gemido. "Era o gemido soturno e íamentoso do lassado, do Atraso, do Opróbrio. (...) Tvías o hino cíaro das picaretas abafava esse protesto impotente. Com que aCegria cantavam e(as — as picaretas regeneradoras! 9{p seu cíamor incessante e rítmico, ceíeSravam a vitória da higiene, do bom gosto e da arte! ” Oíavo ‘SiCac

O projeto era de tal forma exclusivista que, pa­ ra instalar-se na nova avenida, os prédios precisa­ vam ter as fachadas e projetos aprovados por uma comissão, da qual faziam parte Lauro Müller, Frontin. Pereira Passos e sete outros notáveis. Os “car­ tões-postais” da avenida eram o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional, o Palácio Monroe e o pré­ dio do “Jomal do Commercio”. Além da avenida Central, foi remodelada a ma do Ouvidor e constmída a avenida Beira-Mar (acima) —graças à qual os cariocas descobriram quão linda era a orla onde sua cidade .se erguia. As mas mais amplas permitiram também que a população vislumbrasse as montanhas, percebendo que a cidade ficava en­ tre dois monumentos naturais: a serra e o mar. O fascínio com o novo esplendor urbano era tanto que, no Carnaval de 1904, surgiu a marchinha que dizia: “Sem igual no mundo inteiro / Cidade Ma­ ravilhosa / Salve o Rio de Janeiro”. Um século de­ pois da missão francesa, o Rio de Janeiro “civilizava-se” —e outra vez pelo modelo francês. Mas nem tudo eram elogios. Enquanto as clas­ ses mais altas bebericavam café nas mesinhas na calçada da nova avenida, a insatisfação corroía as classes mais baixas. A fxslítica antiinflacionária ado­ tada no govemo Campos Sales deixara os pobres mais pobres e os ricos mais ricos. A avenida Cen­ tral custara mais 4.000 contos —e os trabalha­ dores, como sempre, pagaram a conta. Seria gra­ ças a outro braço da política reurbanizadora do governo Rodrigues Alves —o braço sanitarista, operado pelo jovem cientista Osvaldo Cruz— que uma revolta popular eclodiria em 1904, com o nome inusitado de Revolta da Vacina. Por trás de­ la, além da insatisfação do povo, escondiam-se as fmstrações dos jacobinos positivistas, dispostos a instaurar uma ditadura que restaurasse a “pureza” original dos ideais republicanos.

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uem é, afinal, esse Osvaldo Cruz?", queria saber Rodrigues Alves. Pai que chorava a morte de um filho pela febre amarela, o presidente estava de­ cidido a sanear o Rio de Janeiro. Por is.so, mandou chamar, no Instituto Pasteur, em Paris, o célebre sanitarista Émile Roux. Mas o diretor do instituto preferiu indicar um “brilhante discípulo seu”, o jovem Os­ valdo Cruz. Com menos de 30 anos. Cruz aceitaria a missão de combater a febre, que assolava a cidade no verão (causando mil mortes por ano); a varíola, que ataca­ va no inverno (4.(XX) óbitos anuais), e a peste bubônica. “Se eu não exterminar a febre amarela em três anos. pode me fuzi­ lar”, diria ele ao presidente. Cruz ganhou “liberdade de ação” e, em 3 de março de 1903, começou a trabalhar, “com métodos ditatoriais”. Primeiro, combateu a peste: criou um esquadrão que caçava ratos pela cidade, pagando 3(X) réis por roedor mor­ to pelo povo. Depois, convencido de que a febre era transmitida por mosquitos, de­ cretou a luta contra o inseto. Criou a “polí­ cia de focos”, que interditava mocambos e pulverizava casas e quintais. Batizado de “czar dos mosquitos”, o “dr. Cruz" virou o alvo favorito da imprensa caricata. Em­ bora o número de óbitos despencasse, o que era brincadeira virou caso de polícia quando, em 31 de outubro de 1904, por iniciativa de Cruz, o Congresso aprovou a lei que tomava obrigatória a vacina contra a varíola. A “impudente tirania” foi con­ testada até por Rui Barbosa, que se recu­ sou a ter seu “sangue envenenado por um vírus”. O tenente-coronel Lauro Sodré di­ ria que a lei era “um ato de força ao qual se poderia opor a própria força”. Em 10 de novembro, ele partiu para a prática. Eclo­ dia a Revolta da Vacina.

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O quê: A Revolta da Vacina foi um le­ vante popular que eclodiu no Rio de Ja­ neiro em função da lei que tomava obri­ gatória a vacinação contra a varíola. A revolta da px)pulação serviu de pretexto para que os militares positivistas da Es­ cola Militar da Praia Vermelha, partidá­ rios de Floriano Peixoto e afastados do poder desde a ascensão dc Prudente de Morais, tentassem um golpe contra Ro­ drigues Alves. O movimento “proclama­ ria ditador” o senador e tenente-coronel Lauro Sodré. Como começou: Num comício contra a vacina, no dia 10 de novembro, no cen­ tro do Rio de Janeiro, um orador foi preso. O povo revoltou-se e tentou sol­ tá-lo. As casas derrubadas pelo prefeito Pereira Passos forneciam muitas pedras para a multidão —empobrecida e pre­ disposta a acatar a pregação antigovernamental dos jacobinos. No dia 14, de­ pois de quatro dias de balbúrdia nas ruas. a Escola Militar sublevou-se con­ tra 0 governo e tentou dar um golpe. Como terminou: Na noite do dia 14, o govemo iniciou a dura repressão aos re­ beldes. Tropas leais a R(xirigues Alves —que, no dia anterior, afimiara que "só morto” sairia do Catete— enfrentaram os militares insurretos. Um general rebelde foi morto e o tenente-coronel Lauro So­ dré. ferido. O Congresso aceitou o pedi­ do de Rodrigues Alves e decretou estado de sítio por um mês. A polícia e as tropas leais ao govemo invadiram cortiços e fa­ velas, prendendo não apenas quem havia participado do motim, mas os desocupa­ dos em geral. Foram todos enfiados, sem perguntas, em porões de navios e envia­ dos para o longínquo Acre. A vacinação foi suspensa, mas a Escola Militar aca­ bou fechada. A ditadura positivista teria de esperar até 1930. ão foi Osvaldo Cruz quem descobriu que a peste bubônica era provocada pela pulga dos ratos nem que a febre amarela era transmitida por um mosquito. Mas ele sabia que as novas descobertas científicas es­ tavam corretas —especialmente a do médico cubano Carlos Finlay, que identificara, em 1881, o mosquito rajado Stegomyafasciatta (hoje Aedes aegyptí) como trans­ missor da febre. Osvaldo Cruz (à esquerda) era fascina­ do por um novo ramo da medicina a microbiologia, e, desde os tempos de estudante, ganhara destaque com a publicação de teses e trabalhos inovadores. Em 1899, de volta ao Brasil depois de estudar no In,stituto Pasteur, em Paris, Cmz combateu —e venceu— uma epidemia de peste bubônica no porto de Santos. Em 1902, assumiu a direção-geral do Instituto de Manguinhos (hoje, Osvaldo Cruz. no Rio). Em seguida começou a remodelação da instituição, por dentro e por fora. Por fora construiu um palácio em estilo mourisco. A

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obra, feita com verbas da Saúde Pública cau.sou polêmi­ ca. Por dentro, selecionou uma equipe de sanitaristas, jovens e brilhantes como ele. Dela faziam parte Adolfo Lutz, bacteriologista especializado em malária disenteria e febre tifóide; Emílio Ribas, que descobriu, junto com Vital Brasil, um soro antipestoso (estes dois não inte­ gravam a equipe, mas eram amigos e colaboradores do dr. Cmz); Carneiro de Mendonça que viria a ser o chefe da “brigada mata-mosquitos” (apelidado pela imprensa de “mosquiteiro-mor" e “fanático estegomicida”); e, acima de todos, Carlos Chagas, descobridor da moléstia que ho­ je se chama de doença de Chagas, transmitida pelo inse­ to “barbeiro” portador do protozoário Trypanosoma cruzi. Foram esses homens, trabalhadcHies incansáveis, que sanearam o Rio de Janeiro, enfrentando, altivos, to­ das as críticas e chacotas. O Brasil, que pas.sara a ter, com São Paulo, uma cidade fabril, graças à equipe do dr. Cmz deixaria de ter, no Rio de Janeiro, uma cidade febril.


o epois de três paulistas te­ rem ocupado sucessiva­ mente a Presidência da República, o mineiro Afonso Pena assumiu o cargo para dar conti­ nuidade à política do café-comleitc. Apesar de vir da terra do leite. Pena foi um presidente “ca­ feeiro". Na verdade, só obteve a vi­ tória contra o candidato paulista Bernardino de Campos porque dei­ xou claro que seria a favor da “po­ lítica da valorização do café" —es­ tabelecida em 19% pelo Convênio de Taubaté (leia na página 190). Menos oilodoxo em matéria fiscal e financeira do que Rcxlrigues Alves. Pena bancou um empréstimo de 15 milhões dc libras para custear a in­ tervenção do Estado no mercado do café. Incentivou a “internacionali­ zação” do mercado cafeeiro e esta­ beleceu a política de desvaloriza­ ção da moeda nacional. Entre 1906 e 1910. especula­ dores intemacionais retiveram 8.5 milhões de sacas para forçar o au­ mento do preço do produto. O es­ quema beneficiou os atravcssadores. mas vários prtxlutores ficaram ar­ ruinados e a dívida extema brasilei­ ra aumentou muito. O café não era a única precK-upação de Afonso Pena; ele promoveu a criação de parques industriais (embora não fosse indus­ trial), incentivou a construção de li­ nhas férreas, modernizou os portos de Recife. Vitória e Rio Grande do Sul. Promoveu a conquista do Oes­ te, a cargo dc Rondon, e organizou a Exposição Nacional de 1908, para mostrar que o Rio se civilizara.

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omo seu predecessor Rodrigues Alves, A fonso Pena (18471909) também fora conselheiro do império. Formado na Faculdade de Direito de São Paulo, foi deputado de Minas Gerais de 1874 a 1889. Três vezes ministro de d. Pedro 2 " — da Guerra (1882), da Agricultura (J883) e da Justiça (1885)—, ajudou a organizar o Código Civil Brasileiro. Depois da República, fo i presidente de Minas Gerais e incentivou a construção da nova capital. Belo Horizonte. Eleito em 1906, fe z longa viagem pelo Brasil, inaugurando o costume das viagens presidenciais.

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mbora o panorama político estivesse tumultua­ do peia luta sucessória e faltassem ainda 17 meses para o fim do mandato de Afonso Pena, o vice-presidente Nilo Peçanha assumiu a Presidência dentro da normalidade constitucional. Apesar de te­ rem sido as pretensões presidencialistas e centrali­ zadoras de Pena que abriram as primeiras fissuras na política do café-com-leite, os maiores estragos no e.squema montado por Campos Sales seriam provo­ cados pelo próprio Nilo Peçanha: ao apoiar aberta­ mente a candidatura de Hermes da Fonseca, Peçanha foi forçado a romper não só com o Partido Republi­ cano Paulista como também com o Partido Republi­ cano Fluminense, do qual fora um dos fundadores. Peçanha aproximou-se então do Partido Republica­ no Conservador, fundado pouco antes pelo senador gaúcho Pinheiro Machado.

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“Política faço eu”, declarou Afonso Pena pouco depois de assumir o cargo. A frase era uma resposta ao apelido que seu ministério —forma­ do por jovens com pouca experiên­ cia em cargos públicos— recebera da imprensa: “Jardim da Infância”. O objetivo de Pena era desvincular o governo das pressões articuladas pelas oligarquias estaduais e forta­ lecer o poder central. A exceção no ministério de Pena era o ministro da Guerra, Hermes da Fonseca, de 5 1 anos, modemizador do Exército. Seria justamente ele que desestabilizaria o processo sucessório. Para sua sucessão na Presidên­ cia, Pena queria indicar o presiden­ te de Minas Gerais, João Pinheiro, que morreu. Pena optou então por seu ministro da Fazenda, Davi Cam­ pista. Mas, diz a lenda, o marechal Hemies entrou no Catete e, “de mo­ do rude”, anunciou que pretendia concorrer à Presidência da Repú­ blica —enfatizando a proposta com um golpe de espada na mesa. Inconformado com o perfil mi­ litarista de Hermes, o eterno can­ didato ao “trono” presidencial. Rui Barbosa, lançou o próprio nome. Já doente. Afonso Pena não resistiu a três golpes: a briga com o ministro da Guerra, as críticas violentas de ex-aliados, como o oligarca minei­ ro Bias Fortes, por sua interferência no processo sucessório e, por fim, a morte do filho mais velho. Solitário e isolado —desafiado também por Rui Barbosa—, morreu em junho de 1909, um ano e meio antes do ténnino de seu mandato.

Apesar de ter aberto seu voto. Nilo Peçanha (à direita) procurou montar um ministério de concilia­ ção e fazer um governo moderado e pacifista. Ainda que vários comícios no Rio de Janeiro tenham ter­ minado com derramamento de sangue e o govemo si­ do forçado a intervir na Bahia, em Sergipe, no Mara­ nhão e no Amazonas, Peçanha alcançou seu objetivo e manteve o país sob relativo controle até o fim de seu mandato, em novembro de 1910. Deu prossegui­ mento à política fiscal e financeira de Afonso Pena, continuou a incentivar a construção de estradas de ferro (para escoar o café) e de frigoríficos. Além dis­ so, criou o Serviço de Proteção aos índios (entregue a Cândido Rondon) e formou o Ministério da Agri­ cultura. Em 1921, Nilo Peçanha lideraria a reação republicana em combate à candidatura presidencial de Artur Bemardes.

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A Sem ente A marga

o BRAÇO NEGRO O café é negro e o negro é o café, diziam os escravocratas antes da Abolição. Estavam certos: no início de sua implantação no Brasil, o café só era tocado p o r mãos negras. Mesmo depois da libertação dos escravos e da chegada dos imigrantes, boa parte da lavoura cafeeira do Brasil continuou sendo cultivada p or negros “libertos" fabaixo, em quadro de Portinari).

Por um prato de comida e uma cama na senzala, cada um deles cuidava de 6.000 pés de café.

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ra a droga ideal para o século que sastre: café de'mais, barato demais. na.scia. Ilegal até o século 16, esEm 1901, o Brasil produziu 16 mi­ ^ tav a agora não apenas plena­ lhões de sacas de café. O consumo mun­ mente liberada como virara coquelu­ dial era ligeiramente superior a 15 mi­ che mundial. Quente, estimulante e lhões de sacas. Na supersafra de 1906, negro; precedido da fama de “provocar 20 milhões de sacas foram colhidos, mas idéias” e sorvido de forma quase ri­ o consumo planetário mal chegava a 16 tual, o café —cada dia mais barato e milhões. Resultado: despencou o preço acessível— se tomara um hábito irre­ internacional do café. Para piorar, a que­ sistível para poetas em Paris, músicos da do preço de mercado se .seguiu ao em Viena, banqueiros de Berlim e, em plano do govemo de valorizar a moeda especial, para as multidões de Nova nacional, mantendo elevadas taxas de York e os caubóis do Velho Oeste. O câmbio. Os exportadores perdiam na Brasil alimentava esse vício mundial: venda (por preços mais baixos) e na con­ na virada do século, quatro quintos da versão da libra em mil-réis (por cota­ produção global provinham do país. Só ções artificialmente mais altas). O negó­ os ingleses continuavam preferindo o cio só era bom para firmas exportadoras chá. Mas e daí? Os 74 milhões de sacas (financiadas por capital inglês): aüavesproduzidas entre 1891 e 1900 e absorvi­ sadores compravam na época da colhei­ das de imediato pelo mercado transfor­ ta, estocavam o café e só o revendiam maram o café no “ouro verde” do Brasil na entressafra, obtendo lucros enormes. —era a “semente do progresso”. Muitos fazendeiros foram à falência. Como o que é bom dura pouco e tu­ Em fevereiro de 1906, dispostos a do o que sobe um dia desce, a febre ca­ reverter essa situação, os presidentes de feeira que incendiou o Brasil logo teria São Paulo, Jorge Tibiriçá, do Rio, Nilo seu reverso. Uma série de supersafras (a Peçanha, e de Minas, Francisco Sales, se primeira ocorrida já em 18%, seguida reuniram com os maiores cafeicultores pelas de 1901 e 1906), a profusão de do Brasil em Taubaté (SP) para exigir do braços trazida pelo aumento da imigra­ govemo uma “política de valorização do ção européia, a liberação franca de em­ café”. O plano consistia, primeiro, em préstimos para a abertura de novas áreas convencer o govemo a fazer um em­ de cultivo, a produtividade inicial das préstimo extemo para comprar a produ­ terras virgens e a elevação do preço do ção excedente; depois, forçá-lo a desva­ café em moeda nacional (devido à queda lorizar o mil-réis. Embora cafeicultor, do câmbio) acabariam causando um de­ Alves se recusou a executar tal projeto.

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Os cafeicultores de São Paulo deci­ diram então agir por conta própria. Fir­ mando o Convênio de Taubaté, tomaram um empréstimo de 15 milhões de libras com o qual, até fins de 1907, foram comprados 8,2 milhões de sacas. Mui­ tas ficaram armazenadas na Europa e nos EUA; outras foram queimadas. Em 1908, o novo presidente, Afonso Pena. convenceu o Congresso a tomar a união fiadora desse empréstimo. Apesar da po­ lêmica, a medida foi aprovada. Embora corretas em tese, as medidas do Convê­ nio de Taubaté acabaram por favorecer apenas grandes produtores, banqueiros intemacionais e ca.sas comissárias. Em 1909, quando o preço do café subiu, muitas fazendas já tinham sido vendidas —algumas -para estrangeiros, outras para grandes empresas, como a Prado Chaves, que adquiriu 14 proprie­ dades com cerca de 3,5 milhões de pés de café. Os desdobramentos do Convê­ nio de Taubaté formalizaram um fenô­ meno econômico-político-social bem brasileiro, batizado de “socialização das perdas” pelo economista Celso Furtado. Ou seja: ao desvalorizar a moeda para favorecer a cafeicultura, o govemo en­ carecia as importações, pagas pelo con­ junto da população. Assim, enquanto os lucros do café permaneciam privados —e cada vez mais concentrados—, seus prejuízos eram compartilhados com o país. Era o socialismo tupiniquim.


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epois de ocupar —e devastar— todo o vale do rio Paraíba do Sul, o café “deu um salto” so­ bre a área ocupada pela cidade de São Paulo (imprópria para o cultivo) e se ins­ talou nas férteis planícies do noroeste do Estado, onde se desenvolveria como nunca. Nada poderia ter sido melhor para a capital paulista: agora, em seu caminho rumo ao porto de Santos, o café precisava passar por ela. Não ape­ nas isso: por volta da década de 80 do século 19, entediados com a clausura pastoril e estimulados pelas obras de re­ urbanização feitas na capital, vários ca­ feicultores decidiram se mudar para São Paulo. Quando a pujança lhes bateu à porta —e o presidente da Província, Ro­ drigues Alves, saneou a cidade, ilumi­ nou-a e a embelezou, contando com o esforço e o vigor do prefeito Antônio Prado—, os barões do café se puseram em marcha, num tipo de “êxodo rural” diferente dos que o Brasil conhecia. Faltando 15 anos para o final do século 19, São Paulo era uma cidade modesta, com cerca de 200 mil habi­ tantes. A marca de seu desabrochar ur­ bano, iniciado em 1877, ironicamente se chamava viaduto do Chá. Quando a principal obra pública de São Paulo foi enfim inaugurada, em 1892, a cidade já havia se tomado a metrópole do café —e seu requintado viaduto apontava em direção a novos bairros.

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São Paulo estava orgulhosamente pronta para receber seus novos e ilustres habitantes: os magnatas do café. Gente tão fina não poderia, é evidente, insta­ lar-se nas áreas infectas do centro, do Brás ou da Mooca, fervilhando de tifo e peste e agitados pelo rebuliço f)ermanente de gente em busca de emprego. Transpondo os alagadiços do Vale do Anhangabaú, o viaduto do Chá aponta­ va para uma região recém-loteada, entre a ma da Consolação e o Pacaembu. Em 1890, era aberta a avenida Higienópolis — sadia e altiva como indicava o nome. Em 1892, no topo do espigão granítico do Caaguaçu (“graride mata”, em tupi) era inaugurada a avenida Paulista {aci­ ma) —um bulevar ladeado de plátanos e carvalhos (árvores européias, planta­ das para substituir a vegetação nativa, dermbada para abrir caminho ao pro­ gresso e tida por menos “nobre” que as exóticas vindas do Hemisfério Norte). Na virada do século, os barões do café tinham, à disposição de seu dinhei­ ro, um recanto urbano à sua altura: “re­ dutos de convívio quase exclusivo com gente de seu próprio nível”, como diria um cronista da cidade. Em breve, os amplos lotes de 5.000 metros quadrados que ladeavam a Paulista estavam todos vendidos —o mesmo acontecendo com os terrenos ao longo da avenida Higie­ nópolis. A seguir, começariam a surgir os palacetes do fausto e da fartura.

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DUAS TRAGÉDIAS

Nas primeiras décadas do século 20, São Paulo começou a se tomar não só a capital do café, mas também um pode­ roso pólo industrial. Os lucros exceden­ tes do café, a instabilidade dos preços do produto e a abundância de braços eu­ ropeus oferecida por imigrantes que se recusavam a ir para o campo fizeram com que a criação de indústrias se tor­ nasse opção óbvia para a aplicação dos capitais. E assim, além dos suntuosos casarões neoclássicos e “art nouveau”, a avenida Paulista começou a ser ocupa­ da também por palacetes em estilos “estrangeiros regionais”, como o florentino e o árabe, e por mansões de caráter arquitetônico francamente indefinível. Eram as casas de industrialistas “nou­ veaux riches”. A Paulista se tomaria o equivalente e o contraponto da avenida Central, no Rio: esta simbolizava a pu­ jança pública; a outra, o lucro privado. A partir dos anos 50 do século 20, os casarões da Paulista (e os prédios suntuosos da avenida Central) come­ çaram a ser dermbados, dando lugar aos espigões de grandes bancos, institui­ ções financeiras e edifícios residenciais —aos pés dos quais hoje dormem me­ ninos de rua. A avenida Paulista per­ manece, ainda assim e por isso mesmo, como símbolo das vertigens, das ob.sessões, do vigor e do exclusivismo das elites brasileiras e do processo socioeconômico que move a nação.

Quando o café chegou ao oeste de São Paulo, duas tragédias ocorreram: primeiro, amplas áreas de florestas virgens foram devastadas —por queimadas ou pelo desmatamento braçal, feito por imigrantes (abaixo, o quadro “O Derrubador”, de Pedro Américo). Mais tarde, quando foi construída a estrada de ferro que desbravou a região, os índios caingangues, que ocupavam a área, foram massacrados. Suas terras tribais se tomaram imensas fazendas de café.

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lendo ou não batido com a espada na mesa do gabinete presidencial de Afonso Pena, o fato é que, ao lançar sua candidatura ao Catete, o marechal Hermes da Fonseca foi de imediato identificado com a “espada providencial” que militares e jacobi­ nos aguardavam para. com ela, “purgar” os equívocos políticos da nação e “restaurar” os ideais de 1889. Mas nem tudo saiu como eles esperavam. A candidatura do gaúcho Hermes, tendo como vice o mineiro Venceslau Brás, teve o apoio do senador Pinheiro Machado, o “fazedor de reis” {leia na página 197). Ela in­ dicava uma aliança entre Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Mas. ao ver-.se fora da corrida presidencial, o Estado de São Paulo reagiu e, junto com a Bahia, apoiou a candidatura de Rui Barbosa. Iniciava-se “a luta da pena con­ tra a espada” —após duas décadas de regime republicano, o país enfim viveria sua primeira campanha eleitoral de verdade. As eleições anteriores haviam sido jogo de cartas marcadas. As fraudes eram descara­ das e, antes da apuração dos votos, já se sabia que o vencedor seria o nome referendado pe­ lo govemo —escolhido para dar continuidade à política do café-com-leite. É provável que Afonso Pena achasse que o esquema se repe­ tiria na sua sucessão. Não aprendera a lição da fracassada tentativa de Rodrigues Alves de fazer Bemardino de Campos seu sucessor. Para seu lugar na Presidência, Pena lançara o nome do ministro Davi Campista, mineiro como ele. Conseguiu desagradar a gregos e troianos: os paulistas se injuriaram, os mili­ tares se injuriaram, os gaúchos se injuriaram. Em 14 de maio de 1909, Hermes da Fonseca, ministro da Guerra, reuniu-se em particular com o presidente. Não se sabe ao certo o que se passou na clausura do gabinete de Pena. Sabe-se, isto sim, que no dia .seguinte Hermes saía do govemo e, uma .semana depois, se lançava como candidato. No início de junho. Rui Barbosa —que perdera o apoio de Pinhei­ ro— decidiu enfrentar o marechal. Na noite do dia 14, morria Afonso Pena.

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o n o de in telig ên cia privilegiada, oratória in fla m a d a e co­ ragem indóm ita. R ui B arb o sa (1849-1923) representava, p ara os brasileiros letrados, as m ais altas esperanças de um a d em o cracia liberal. A p esar de não ter sido propagandista re­ pu b lican o na décad a de 80, Rui p articipara da conspiração que d erru b o u o antigo regim e e dom inou o g o v e m o provisório de D eodoro, quando redigiu a nova C onstituição do país. C aiu e m desg raça p o r cau sa de su a d esastrada política do EnciIham ento, não escap an d o das acusações de ter-se locupletado com ela. M as se opôs ativam ente à ditadura de Floriano, am ar­ g an d o do is anos de exílio. E m 1907, chefiou a d elegação do B rasil na C o n ferên cia de Paz de H aia, revelando ser ju rista brilhante. A pesar de con sid erad o pelo chefe da delegação alem ã co m o o m em bro “ m ais e n fadonho” do encontro, para os

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F onseca A morte por desgosto do presidente que rompera com a política do café-com-leite re­ verteu a cena eleitoral: Hermes passou da oposição para a situação, já que o vice Nilo Peçanha, que substituiu o presidente falecido, decidiu dar apoio ao marechal. Rui Barbosa deflagrou então a “campanha civilista” {abai­ xo), reagindo contra o “militarismo iminen­ te”. Após uma campanha incendiária, em 15 de novembro de 1910 Hermes tomou posse como vencedor da eleição, tendo rece­ bido os célebres “400 mil votos redondos”. Era a volta dos militares ao poder, Hermes da Fonseca (1855-1923) era so­ brinho do marechal Deodoro. Militar desde a adolescência, durante o império fora ajudante-de-ordens do odiado conde D’Eu. Promo­ vido pelo tio após a Proclamação da Repúbli­ ca, foi ministro do Supremo Tribunal Militar e ministro da Guerra de Afonso Pena. Moder­ nizou e profissionalizou o Exército, apoiando militares “tarimbeiros” e desferindo o golpe de morte nos “científicos” —já abalados pelo fim da Escola Militar da Praia Vermelha. Uma vez na Presidência —à qual chegara com o apoio não só dos militares e de Pinheiro, mas também da classe média baixa e de radicais remanescentes do florianismo—, Hermes ini­ ciou a política das “salvações nacionais”. Embora representasse, em tese, a oposi­ ção às oligarquias regionais, o govemo de Hermes não apenas se beneficiara da máqui­ na eleitoral montada por elas como, ao de­ flagrar 0 “salvacionismo”, simplesmente substituiu um grupo oligárquico por outro, fa­ vorável à nova ordem. De qualquer forma, o govemo teve de enfrentar duas terríveis re­ voltas, a da Chibata e a do Contestado {veja em “A r Guerra e os Anos 20”, página 193). Venceu-as, mas se enfraqueceu. Em 1912, já tido como “uma nulidade”, Hermes se casou com a caricaturi.sta Nair de Tefifé. A “linda donzela, cujos dotes de espírito lhe inspira­ ram tão violenta paixão”, fez com que o pre­ sidente se esquecesse de govemar. O país caía nas mãos ardilosas de Pinheiro Machado. brasileiros R ui virou a “ Á guia de H aia” . E m 1909, preterido tanto po r Pinheiro M achado co m o p o r A fonso Pena. R ui d e ­ cidiu lançar sua candidatura. Percorreu o país inteiro fazendo conferências, tentando atrair o voto da classe m é d ia defendendo princípios dem ocrá­ ticos e o voto secreto, dando à cam panha um tom de reação contra a intervenção do E xército na política. “E m bora a base política m ais im portante de R ui fosse a oligarquia paulista, sua cam panha se apresentou com o a luta da inteligência pelas liberdades públicas, pela cultura, pelas tradições liberais, con­ tra o B rasil inculto, oligárquico e autoritário” , escreveu o his­ toriador B óris Fausto. Porém , em 15 de novem bro de 1910 H erm es da Fonseca recebeu 403.867 votos contra os 223.784 de Rui B arbosa — um a proporção de dois para um.


A l® G uerra epois de adiar a decisão por quase dois anos. o Brasil, enfim, resolveu entrar na !“ Guerra Mundial em 26 de outubro de 1917 —três anos após o início e um ano antes do fim do conflito. No mesmo dia em que o presidente Venceslau Brás assinou o decreto-lei n° 3.361, Lenin era eleito presidente dos sovietes, 48 horas após a vitória da Revolução Russa. O decreto de Brás reconhecia e proclamava "o estado de guerra, iniciado pelo im|>ério ale­ mão contra o Brasil”. O país só decidiu entrar na guer­ ra —tão tardiamente quanto os Es­ tados Unidos, que o fizeram em feve­ reiro de 1917— depois de três navios mercantes brasileiros terem sido afundados pelos alemães. O primei­ ro foi o Paraná, torpedeado no canal da Mancha, em 3 de abril de 1917. Oito dias depois, o Brasil rtimpia re­ lações diplomáticas com a Alema­ nha. O segundo foi o Tijuca, afun­ dado próximo a Brest, na França, em 22 de maio. Dois dias mais tarde, o Brasil abria mão de sua neutralida­ de e confiscava ttxlos os.navios mer­ cantes alemães ainda ancorados nos portos do país. No dia 25 de outu­

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GUERRA DA BORRACHA

As jovens equipes médicas bra­ bro, o Macau foi posto a pique em sileiras foram levadas para a Fran­ águas espanholas. Quando afundaram o Tijuca, no ça, onde tiveram algum trabalho. Os mês de maio, o ministro do Exterior, aviadores praticamente não saíram Lauro Müller, descendente de ale­ do chão. A divisão naval, encarrega­ mães e tido como germanófilo, .se da de patrulhar o oceano Atlântico demitiu do cargo. Com ele fora do em frente do Senegal, ancorou em govemo, Venceslau Brás sentiu-se à Dacar, onde a gripe espanhola dizi­ vontade para se reunir no Catete (aci­ mou quase metade da tripulação. ma) com o ex-presidente Rodrigues Enviada para Gibraltar, a esquadra Alves, com Rui Barbosa e com o no­ brasileira abriu fogo contra um car­ vo ministro do Exterior, Nilo Peça­ dume de toninhas, julgando se tratar nha, e declarar guerra formalmente à de submarinos alemães. O episódio entrou para a história com o nome Alemanha. Ainda assim, o país relutou em de “Batalha das Toninhas”. Um dia enviar reforços para os aliados. A depois de atracar em Gibraltar, em justificativa do ministro da Guerra, 10 de novembro de 1917, os brasi­ José Caetano de Faria, era a de que leiros foram informados de que a o Exército brasileiro contava com Alemanha capitulara. A “guerra pa­ poucos efetivos e eles eram neces­ ra acabar com todas as guerras” ti­ sários para assegurar “nossa própria nha terminado. Bem antes de enviar tropas pa­ integridade contra os alemães e germanófilos que temos no Sul”. No ra torpedear toninhas, contudo, o final do ano de 1917, porém, ceden­ governo brasileiro concluíra que de­ do às pressões internacionais, o Bra­ veria lutar contra supostos inimigos sil enviou uma divisão naval, uma internos. E, ao combater os mari­ missão médica e um contingente nheiros de João Cândido e os “fa­ de aviadores para a Europa. Sua náticos” do Contestado, agiu com participação na 1“ Guerra Mundial muito mais ferocidade e eficiência teria sido apenas patética .se não ti­ do que fizera nos campos de bata­ lha da Europa. vesse sido trágica.

O Brasil só rompeu sua neutralidade e entrou na 1° Guerra Mundial porque, se não o fizesse, não teria como nem para quem exportar seus produtos. A guerra, de qualquer modo, propiciou pequena sobrevida para o ciclo da borracha na Amazônia —emhora 80% do látex usado no conflito tenha vindo da Malásia. Finda a guerra, o sonho da borracha murchou no Brasil.

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A R evolta ntes do vexame da “Batalha das Toninhas”, em Gibraltar, a Marinha brasileira viveu, durante o turbulento govemo do marechal Hermes da Fonseca, uma séria rebelião interna, de consequências trági­ cas, que passou para a história com o nome de Revolta da Chibata. Resul­ tou num dos episódios mais infames da repressão a militares rebeldes. O quê: A Revolta da Chibata, como o próprio nome indica, foi um movi­ mento que eclodiu na Marinha brasileira em protesto contra os castigos cor­ porais a que eram submetidos os marinheiros. Contrastando com a “aristo­ cracia” dos oficiais, o recrutamento dos marinheiros era forçado e feito entre “indivíduos de má conduta” que deveriam “ser corrigidos” Embora um decreto assinado no primeiro dia da república tivesse banido o açoite, um novo decreto, firmado por Rui Barbosa em abril de 1890 por pressão dos oficiais, restabeleceu as “penas disciplinares”, que incluíam o “bolo” (palmatória) e a prisão a ferro, na solitária a pão e água. Quando: No dia 16 de novembro de 1910, um dia após a posse de Hermes da Fonseca, toda a tripulação do encouraçado Minas Ge­ rais foi convocada para assistir à punição ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, que ferira um cabo. As 250 chi­ batadas, aplicadas ao rufar de tambores, foram desferidas pelo comandante João Batista das Neves, conhecido pelo prazer com ’ que chicoteava seus subalternos. Seis dias mais tarde, sob a chefia do marinheiro João Cândido, a tripulação do Minas Gerais se rebelou. Os amotinados tomaram o navio e mataram o comandante Neves. Os encouraçados São Paulo, Deodoro e Bahia aderiram ao movimento e, neles, dois outros oficiais foram assassinados. Ameaçando bombardear o Rio de Janeiro, os amotinados —mais de 2.000 homens, sob a liderança de João Cândido, cha­ mado de Almirante Negro (nas três fotos desta página)— exigiam o fim dos castigos físicos, o aumento dos soldos e melhor alimentação a bordo. Como a crise foi contornada: Reunidos no Congresso e no Catete, o pre­ sidente, seus assessores e os influentes Pinheiro Machado e Rui Barbosa concordaram com as exigências dos revoltosos e prometeram anistiá-los.

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Quais os desdobramentos da crise: No dia 25 de novembro, os amotina­ dos arriaram as bandeiras rubras da revolta e o episódio parecia encerrado. Porém, em 28 de novembro, um decreto presidencial permitiu ao ministro da Marinha expulsar da corporação os principais envolvidos no movimen­ to. No dia 10 de dezembro, os fuzileiros navais alojados na ilha das Cobras se revoltaram. Para evitar a repressão, os marinheiros dos encouraçados Mi­ nas Gerais, Bahia e São Paulo bombardearam os próprios companheiros. Não foi suficiente: alarmado com a onda de conspirações, o govemo ini­ ciou uma repressão sangrenta ao levante. E aproveitou a oportunida­ de para prender 69 marinheiros já anistiados que haviam participa­ do da Revolta da Chibata —embora eles não uvessem nada que ver com a revolta da ilha das Cobras. Muitos foram fuzilados su­ mariamente. João Cândido foi posto numa cela minúscula, na B É qual 17 prisioneiros morreram asfixiados depois que cal virgem misturada a água foi jogada dentro do cubículo. Depois de m§ passar 18 meses numa masmorra subterrânea, o Almirante Negro foi intemado num hospício por três médicos da Marinha, ape­ sar de os psiquiatras do Hospital de Alienados afirmarem V que ele não era louco. Ainda assim, a sorte de João Cândido foi melhor que a de outros 250 marinheiros presos: junto com 250 ladrões, 180 desordeiros, 120 cafetões e 44 meretrizes, eles foram enfiados no cargueiro Satélite e man­ dados para o Acre. O “navio da morte” zarpou do Rio de Janeiro no dia 24 de dezembro de 1910. No dia 1° de janeiro de 1911, nove mari­ nheiros foram fuzilados a bordo e seus corpos jogados ao mar. Dos que chegaram ao Acre (onde, ironicamente, João Cândido lutara, em 1904, no bando do caudilho Plácido de Castro), 200 foram incorporados à Comissão Rondon, que instalava linhas telegráficas na região, e os demais tlcaram abandonados às margens do rio Madeira, para trabalhar junto com os se­ ringueiros. Eram quase todos negros e mulatos. Quanto a João Cândido Felisberto, libertado em 1914, morreu de câncer, na mais completa miséria, numa favela do Rio de Janeiro, em dezembro de 1969.


A G uerra

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revolta do Contestado foi a repetição, 15 anos mais tarde e em pleno Sul-Maravilha, do massacre ocorrido em Canudos. Os dois episódios se assemelham em tudo; no messianismo primitivo, no desespero dos “fanáticos”, na crueldade quase demente dos soldados que os combateram, nos interesses exclusivistas das elites, nos delírios apoca­ lípticos do “monge” João Maria, tão similares aos de Conselheiro. E, prin­ cipalmente, se parecem pelo desfecho trágico e sangrento. O quê: A Guerra do Contestado foi o conflito armado entre o Exército e os camponeses miseráveis da região sudoeste do Paraná e noroeste de Santa Catarina. Território de 48 mil km% disputado desde os tempos do im­ pério por Paraná e Santa Catarina, a área “contestada” era limitada pe­ los rios Uruguai, Iguaçu e do Peixe e pela fronteira com a Argentina. Essa remota “terra de ninguém”, rica em pinheirais e ervais, fora ocu­ pada por refugiados das revoluções gaúchas e desvalidos em ge­ ral. Em 1900, o govemo cedeu uma faixa de 30 quilômetros de largura para a Brazil Railway, no centro da qual seria construída a ferrovia São Paulo-Rio Grande do Sul. Posseiros que ocupa­ vam a área foram desalojados a força. A seguir, a madeireira Southem Brazil Lumber & Colonization se instalou na região e “contratou” milhares de camponeses, transformando-os em mão-de-obra semi-escrava. Ambas as empresas, a Brazil Railway e a Southem Lumber, pertenciam ao americano Percival W Farquhar, um dos “donos” do Brasil. Na região do Contestado, quem não trabalhava para Farquhar trabalhava para os “coronéis” da er\'a-mate, em ervais onde a semi-escravidão também imperava. Em 1906, com a suspensão das obras da ferrovia, 8.000 homens foram demitidos e dei­ xados ao léu pela região. O terreno para a revolta estava pronto. Quando: Em novembro de 1911 surgiu em Palmas (PR) um homem alto, cabeludo, desdentado e barbudo, um gaúcho mestiço de índio chamado Mi­ guel Lucena de Boaventura, desertor da Força Pública do Paraná. Citando a Bíblia e um livro para crianças sobre Carlos Magno, dizia-se “herdeiro es­ piritual” do monge João Maria {ao centro), líder messiânico que percorrera a mesma região na época da Revolução Federalista. Lucena logo mudou de nome, passou a se autodenominar monge José Maria e reuniu em tomo de si 2.000 seguidores.

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Como a guerra eclodiu: José Maria pregava a proximidade do fim dos tempos, afirmava que o comércio era coisa do demônio e que d. Sebastião voltaria para reinar sobre os homens. Dizendo-se eleito por Deus para er­ guer na Terra a “Monarquia Celestial”, o monge fundou seu primeiro “qua­ dro santo” no município de Curitibanos (SC). A área era delimitada por cru­ zes nos quatro cantos e uma tosca capela ao centro. Ali se instalaram seus 2.000 seguidores. Alertado pelos coronéis da região, o Exército foi chama­ do para expulsar os “fanáticos”, depois de José Maria se recusar a depor na delegacia de Palmas (PR). Em outubro de 1912, uma tropa de 400 homens, chefiada pelo capitão João Gualberto, atacou o “quadro santo” de Irani, onde os seguidores do monge tinham se refugiado. Quando a metra­ lhadora da tropa de Gualberto engasgou, os “fanáticos”, soprando berrantes, investiram contra os invasores. Embora José Maria tenha sido um dos primeiros a tombar, o capitão Gualberto e mais 13 soldados também foram mortos, e o restante da tropa fugiu, dei­ xando armas e munições para os rebeldes. Como a guerra acabou: Apesar de José Maria não ter ressusci­ tado, como anunciara, seus seguidores continuaram combaten­ do os “peludos”. Depois de alguns caboclos terem seus cabelos rapados pela polícia, os “fanáticos” do Contestado também cor­ taram os seus e decidiram se chamar de “pelados”. Os inimigos da ‘Monarquia Celestial” viraram “peludos”. Com outros líderes e adotando táticas de guerrilha, os “pelados” resistiam a todas as in­ vestidas dos “peludos”. A virgem de 15 anos Maria da Rosa tomouse chefe militar e o “menino-deus” Joaquim, de 11, era tido como porta-voz de José Maria, que, do além, comandava o exército de 5.000 sertanejos. Os rebeldes chegaram a dominar 25 mil km vencendo sete expedições enviadas contra eles. Em setembro de 1914, o general Setembrino de Carvalho chegou a Curitiba com ordens do ministro da Guerra para sufocar a rebelião. Com 7.000 homens (80% do total do Exército) bem-armados e os primeiros aviões usados para fins militares no país. Carvalho atacou os “fanáticos” implacavelmente, matando homens, mulheres e crianças. Ainda assim, a “guerra santa” perdurou até janeiro de 1916. Em cinco anos de luta, 9.000 casas haviam sido queimadas e 20 mil p>essoas mortas.

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o ido por seus adversários como um homem “de completa nulidade men­ tal". Hermes da Fonseca, ao sair da Presidência, deixou o país política e eco­ nomicamente em frangalhos. A batalha por sua sucessão se iniciara enquanto o mare­ chal ainda estava no poder —pelo menos formalmente (já que. na prática, quem man­ dava no Brasil era o senador Pinheiro Ma­ chado). Pinheiro bem que tentou “fazer" o novo presidente —indicando para o cargo, em mais uma de suas manobras divisionistas, o ex-presidente Campos Sales. Mas, dessa vez, paulistas e mineiros reagiram, tlrmando, em fms de 1913. o Pacto de Ouro Fino. depois do qual se uniram em tomo da candidatura do vice-presidente Vences­ lau Brás. Ironicamente, o mineiro Brás só chegara ao cargo graças às articulações do próprio Pinheiro, que. para obter o apoio do Partido Republicano Mineiro (PRM) à candidatura de Hermes, aceitara a indica­ ção do deputado. Durante o quatriênio de Hermes, po­ rém. Brás se revelou omisso e ausente, passando a maior parte do tempo em sua fazenda, em Itajubá (MG). Tanto que. quan­ do sua candidatura foi oficialmente lança­ da. o escritor Emílio Meneses ironizou; “É a primeira vez que vejo um funcionário promovido por abandono de emprego”. Ainda assim, para as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, a candidatura de Venceslau. batizada de “o retomo mineiro", foi de grande importância estratégica, pois marcou a volta da política do café-comleite e o início do fim do reinado republi­ cano de Pinheiro Machado, que seria as­ sassinado menos de dois anos depois (leia na próxima página). Ao assumir o cargo, em novembro de 1914. Venceslau anun­ ciou que govemaria “fora e acima dos par­ tidos”, o que. na verdade, significava dizer que o faria "fora" do Partido Republicano Conservador (PRC) e “acima” de Pinheiro.

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o contrário de Rodrigues Alves e de Afonso Pena, o mineiro Venceslau Brás (1868-1966) era um republicano de primeira hora. Deputado estadual em Minas Gerais em 1892 e deputado federal de 1903 a 1908, fo i eleito presidente de Minas Gerais no ano seguinte. Deixou o cargo em 1910, para se tornar vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca. Em novembro de 1914, tomou posse como presidente do Brasil. Uma vez no poder, revelou-se o típico político mineiro: reticente e ardiloso, afastou-se de Pinheiro. Com a ajuda de um empréstimo, tentou equilibrar as finanças do país.

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Revolução Russa —vitoriosa no mesmo dia em A carestia —consequência direta das perturbações que 0 Brasil decidiu entrar na 1*Guerra (e a Rús­ resultantes da 1‘ Guerra (que a partir de 1916 pratica­ sia, por conseguinte, dela saía)— teve grande repercus­ mente provocara a paralisação completa do comércio são no país. As elites se assustaram com a possibilidade marítimo)—, a especulação com gêneros alimentícios e de que, graças ao crescente movimento de reivindica­ as condições indignas de trabalho a que eram submeti­ ções operárias, os trabalhadores pudessem, um dia, che­ dos os operários foram o verdadeiro fermento das ma­ gar ao poder. Ainda mais que, havia cerca de três me­ nifestações. Embora manipuladas por militantes anarses, São Paulo fora paralisada por uma monumental qui,stas e comunistas, as três greves gerais ocorridas em greve geral, a primeira organizada no Brasil. Cerca de 1917 em São Paulo não significavam que os trabalha­ 70 mil trabalhadores cruzaram os braços no dia 12 de dores estivessem dispostos a fazer uma revolução so­ julho de 1917, enquanto 10 mil pessoas acompanhavam cialista: o que eles queriam de fato era uma vida e um o enterro de um operário morto pela polícia três dias salário mais decentes. De todo modo, os protestos fo­ antes, durante uma manifestação de protesto. ram duramente reprimidos pela polícia.

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Como se não bastassem os problemas políticos e econômicos que afligiam o Brasil ao fm al da segunda década do século 20, o país ainda fo i atingido, em 1918, por uma epidemia da chamada "gripe espanhola ”. O ciclo virótico recebeu esse nome porque irrompeu logo após a chegada ao Rio de Janeiro de um navio que trazia imigrantes da Espanha. Só na capital, 17 mil pessoas morreram em dois meses. As ruas ficaram coalhadas de cadáveres e presidiários foram obrigados a trabalhar como coveiros. A epidemia logo chegou a São Paulo, onde morreram mais de 8.000pessoas. A morte mais rumorosa fo i a de Rodrigues Alves. Eleito presidente pela segunda vez, para contornar a crise que cercara a sucessão de Venceslau Brás, o conselheiro não pôde tomar posse: alquebrado e envelhecido, sucumbiu à "espanhola" em 16 de janeiro de 1919. Em seu lugar, assumiu interinamente, por oito meses, o vice Delfim Moreira, que estava com sífilis terciária e morreria logo depois de ser obrigado a realizar novas eleições.


A scensão posse de Venceslau Brás deixou claro que a influên­ cia do senador José Go­ mes Pinheiro Machado na poh-tica brasileira estava em declínio. Ainda assim, talvez jamais tives­ se havido em toda a história do Brasil um homem com tanto po­ der —pelo menos não durante tan­ to tempo— quanto o que Pinhei­ ro desfrutara até aquele momento, novembro de 1914. Desde que afastara o paulista Franci.sco Gli­ cério e assumira, em 1905. a lide­ rança da facção majoritária do Se­ nado —batizada de "Bloco”—, Pinheiro Machado se tomara o ho­ mem mais influente da política brasileira. Como chefe das comi.ssões apuradoras do Congresso, ele simplesmente decidia quais polí­ ticos tomariam posse, quais não —independentemente do número de votos que tivessem recebido. Com muita propriedade, a im­ prensa passou a chamá-lo de “fa­ zedor de. reis", ou "o homem que governa o govemo”; e os carica­ turistas a representá-lo como um galo ("chefe do terreiro” ) ou uma raposa (“terror dos galinheiros po­ líticos"). Para boa parte da popu­ lação, Pinheiro era a encarnação de todos os males que afligiam a nação. Formado na Faculdade de Direito de São Paulo e veterano de duas guerras (a do Paraguai e a Revolução Federali.sta de 1893. na qual fora o chefe da poderosa divisão do Norte, que derrotara Gumercindo Saraiva), o gaúcho Pinheiro fora feito general por Floriano Peixoto e era um expe­ riente caudilho.

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7 ) inheiro M achado era uma figura imponente. Esguio, com um L alfinete de pérola na gravata de seda e uma l?engala com o cabo de marfim ( "de unicórnio ”, dizia ele), andava ereto, oferecia banquetes suntuosos, adorava galos de rinha, jogava pôquer e bilhar e utilizava um vocabulário floreado, posto a serviço da retórica agressiva. Poderoso e adulado, Pinheiro fez da política "um meio de se tornar mais rico ”, segundo o historiador Joseph Love. “Noutras palavras: pairava ao seu redor um ar inconfundível de corrupção. ”

A vertiginosa ascensão políti­ ca de Pinheiro Machado começou em 1902. quando ele se tomou o vice-presidente do Senado, cargo que manteve até 1905. De 1905 a 1915. não só se firmou como a fi­ gura mais pcxJerosa do Congresso como “fez" todos os presidentes, participando decisivamente das eleições de Rodrigues Alves e Afonso Pena (apesar de ambos não gostarem de seu estilo). Com a p(Wse de Hermes da Fonseca, o poder de Pinheiro se tornou quase abso­ luto. Ainda assim, não conseguiu lançar o próprio nome para a Pre­ sidência. No início de 1915, Pinheiro cometeu seu maior erro ao tentar impedir a posse de Nilo Peçanha. eleito presidente do Rio de Janei­ ro. Quando uma multidão cercou seu carro, com o objetivo de lin­ chá-lo na saída do Senado, Pi­ nheiro ordenou ao chofer: "Avan­ ce, nem tão devagar que pareça afronta, nem tão depressa que pa­ reça covardia". Homem de frases fabulosas, também diria: "É possí­ vel que o braço assassino, impelido pela ekxjuência delirante das mas. nos possa atingir”. Se o goljíe vies­ se. Pinheiro Machado garantia que não ocultaria, “como César, a face com a toga. e. de frente, olha­ remos (...) a ignóbil figura do ban­ dido". Essa promessa o caudilho não pôde cumprir: a 8 de setem­ bro de 1915, no saguão de um ho­ tel do Rio de Janeiro, Pinheiro foi assassinado com uma facada pe­ las costas. O "sicário" chamavase Francisco Manso de Paiva — e era um zé-ninguém.

De qualquer forma, ao desbancar Bahia e Pernambuco, ouve carnaval no Rio de Janeiro e em São Paulo quan­ do a notícia de que Pinheiro Machado fora assassinado Pinheiro mudara o mapa político do Brasil, tomando o Rio Grande do Sul o terceiro Estado mais importante da federação, se espalhou. O povo associava sua figura à carestia, aos des­ mandos políticos e à manutenção do poder nas mãos dos oli­ atrás de São Paulo e de Minas Gerais. Embora não tives.se si­ garcas. Embora todas as evidências apontassem em direção a do capaz de impor seu nome à Presidência, Pinheiro deixou o uma conspiração, nunca ficou provado que Francisco Manso Rio Grande nas mãos de Borges de Medeiros (à esquerda) — de Paiva —padeiro gaúcho desempregado e semi-analfabe- e Borges, além de se manter como presidente do Estado por to— estivesse agindo sob as ordens de alguns dos inúmeros quatro mandatos consecutivos, passaria a ser ouvido cada vez e podero.sos inimigos de Pinheiro. Ao ser preso, a poucas qua­ que paulistas e mineiros u-atavam da sucessão presidencial. dras do hotel, o assassino trazia um bilhete no qual pretendia Mesmo não tendo força para romper a aliança café-com-leite, justificar .sua atitude, caso fosse morto. A nota, que enfatizava e sendo forçado a apoiar a candidatura de Washington Luís, o .sofrimento do povo e o atribuía a Pinheiro, parecia redigi­ Borges conseguiu fazer de Getúlio Vargas o ministro da Fa­ da por alguém mais letrado do que Paiva. Mas o julgamento, zenda do presidente paulista que sucedeu ao mineiro Artur presidido por Flores da Cunha, aliado de Pinheiro, não con­ Bemardes. Pouco tempo depois, ao fazer a Revolução de 30, Getúlio exportaria o positivismo gaúcho para o resto do Bra,sil. seguiu incriminar ninguém além de Paiva.

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E p i t Ac i o P e Paris já não fosse uma festa, teria se transformado numa quando, em fevereiro de 1919. uma enorme delegação do Brasil desembarcou na capital francesa, com todas as despesas pagas pelo contribuinte brasileiro. Encerrada a P Guerra, após o pe­ dido de armistício feito pela Ale­ manha. as 32 nações envolvidas no conflito se reuniram para a Con­ ferência de Paz de Paris —na qual, em 28 de junho de 1919, no salão dos Espelhos, foi assinado o Tra­ tado de Versalhes. O Brasil, incluído com outros 23 países no grupo de "potências com interesses especiais” (do qual também faziam parte Libéria. Haiti e Sião), enviou à conferência dez delegados oficiais, sob a chefia de Epitácio Pessoa. Junto com os ju­ ristas e os representantes oficiais do país, porém, seguiram seus fa­ miliares, assessores, convidados e acompanhantes em tal número que 0 navio que zarpou do Rio de Ja­ neiro. no dia 2 de janeiro de 1919, partiu quase lotado. Menos mal que, nas negocia­ ções, o país se saísse bem: dos 440 artigos do tratado, dois deles se referiam especificamente a inte­ resses brasileiros. No primeiro, a Alemanha era obrigada a pagar 125 milhões de marcos pelas 1,85 mi­ lhão de sacas de café que tinha destruído ao atacar navios brasi­ leiros e a devolver as sacas que haviam sido estocadas em Berlim na “valorização” de 1906. No ou­ tro, foi concedido ao Brasil o di­ reito de pagar com preços “anti­ gos” —portanto, mais baixos— os 70 navios alemães que o país ha­ via confiscado em seus portos.

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lém do chefe da delegação, Epitácio Pessoa, os brasileiros de atuação mais incisiva em Versalhes foram o diplomata e historiador Pandiá Calógeras e os juristas Raul Fernandes e Rodrigo Otávio facima, assinando o tratadoj. Mas, na verdade, o Brasil não precisou fazer muita força para ter seus interesses favorecidos: a disposição geral da Conferência de Paz, comandada pelo presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, era punir o mais exemplarmente possível a Alemanha. E assim, a 2° Guerra Mundial começou a nascer no salão dos Espelhos do palácio de Versalhes.

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Ao retomar da França com o seu “navio da alegria”, em julho de 1919, Epitácio Pessoa, que deixa­ ra o país como senador, descobriu que era o novo presidente do Bra­ sil. Os fatos que o tinham condu­ zido ao cargo retrocediam à su­ cessão de Venceslau Brás. Apesar de Pinheiro Machado estar morto, a luta pela indicação do sucessor de Brás foi tão renhida quanto nos tempos do senador. Após várias reviravoltas, as oligarquias e feu­ dos políticos de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Gran­ de do Sul chegaram a um candida­ to de consenso: o velho conselheiro do império Rodrigues Alves, en­ tão com 70 anos. Concorrendo so­ zinho, Alves foi eleito em março de 1918, mas não pôde tomar po.sse em 15 de novembro. Acometido pela “gripe espanhola”, morreu em janeiro de 1919. Em seu lugar, as­ sumiu o vice Delfim Moreira. Como a Constituição previa novas eleições em caso de morte ou renúncia do presidente antes de completada a metade do man­ dato (e como, dessa vez, não ha­ via marechais de ferro por peno). Delfim Moreira ficou no poder até julho de 1919, quando se realiza­ ram novas eleições. Embora o eter­ no candidato Rui Barbosa lançasse mais uma vez sua candidatura, ata­ cando arranjos oligárquicos e mes­ quinharias políticas —, Minas Ge­ rais, São Paulo e Rio Grande do Sul decidiram apoiar o nome de Epitácio Pessoa. Apesar de estar ausente do país, seus aliados alar­ dearam os supostos “esplendores” de seu desempenho diplomático em Versalhes. E Pessoa ganhou fácil a “eleição”.

ma vez alçado ao poder, o paraibano Epitácio Lindolfo da A atitude “civilista” de Epitácio Pessoa teria amplas conse­ Silva Pessoa ( 1865-1942) —primeiro nordestino a coman­ quências —embora o desfecho delas só viesse a ocorrer no go­ dar a nação— revelou-se muito mais ousado e autoritário do que vemo seguinte, de Artur Bemardes. Além da con.stmção de mais seus aliados poderiam supor. Ainda assim, desde o início de seu de mil quilômetros de ferrovias no Sul do Brasil, a maior obra govemo, tentou assegurar o apoio dos três “grandes” Estados da do govemo Epitácio Pessoa foi o Programa de Combate à Seca federação (São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul). Tanto no Nordeste. Com investimento de 304 mil contos, o presidente é que seis dos sete ministros que nomeou eram paulistas, minei­ fez mais de 200 açudes na região. Injuriados com o que julga­ ros ou gaúchos. Para articular mais plenamente essa composi­ vam ser um “protecionismo ao Ndrdeste”, os paulistas exigiram ção, Epitácio Pessoa (à esquerda) nomeou dois civis para os que uma quantia similar fosse destinada para “valorizar” outra ministérios da Guerra e da Marinha (respectivamente Pandiá vez o café. Cedendo às pressões. Pessoa liberou 124 mil contos Calógeras, seu companheiro em Versalhes, e Raul Soares). e o govemo estocou 4,5 milhões de sacas, forçando novo au­ Civis comandando militares era algo que, no Brasil, não se via mento no preço do produto, que despencara de 50 centavos de desde o império. Houve grande indignação nos quartéis. dólar para 20 centavos por quilo.

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o pesar de não ter se envolvido diretamente ná dura campa­ nha desencadeada para a sua sucessão, Epitácio Pessoa foi o maior responsável pelos rumos que ela ad­ quiriu. Ao nomear dois civis para os ministérios da Guerra e da Marinha, o presidente gerara grande insatisfação nos quartéis. Embora Epitácio devesse muito de sua canditadura ao apoio da­ do pelo governador do Rio Grande do Sul. Borges de Medeiros, logo após o início de seu governo Borges pratica­ mente passara para a oposição. Quando, em fins de 1919, o governador de São Paulo, Washington Luís. e o de Minas Gerais. Artur Bernardes. fizeram um acordo para lançar Bernardes como o candidato do café-com-leite às eleições de 1922, Borges iniciou as articula­ ções que desembcx;ariam no movimen­ to “Reação Republicana", contráiio à candidatura de Bernardes e favorável àde Nilo Peçanha. governador do Rio de Janeiro. De imediato, os militares apoiaram Borges e Nilo. Em outubro de 1921. quando os jornais divulgaram cartas de Artur Ber­ nardes atacando o ex-presidente Her­ mes da Fonseca em particular e os mi­ litares em geral, faltou pouco para estourar um golpe militar. Ainda que as cartas fossem falsas {leia o quadro alxtixo), o clima político polarizou-se e o Brasil ,se encaminhou para as eleições mais disputadas desde o pleito de 1910. Em março de 1922. Artur Bernardes e Nilo Peçanha se enfrentaram nas umas. Findas as eleições, os dois lados can­ taram vitória. Após disputas ferozes, ameaças de guerra civil, conflitos de rua. tramóias de Kxios os tipos e fraudes descaradas. Artur Bernardes foi decla­ rado vencedor em julho de 1922.

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rtur da Silvo Bernardes (1875-1955) se tornou um dos personagens mais controversos da política brasileira. Governou o país .sob estado de sítio, enfrentando a rebelião tenenti.sta deflagrada logo após sua eleição. Em 1925, o então congressista Getúlio Vargas diria que, "mais do que um retrógrado, ele é quase um fanático, pela f é religiosa, pela missão presidencial de que se julga investido”. Cinco anos depois, Bernardes apoiaria Vargas na Revolução de 30. Mas, em 32, Vargas o enviaria para o exílio, do qual retornaria em 1934.

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Artur Bernardes tomou posse em novembro de 1922 sob estado de sítio, declarado desde a Revolução Tenentista de Copacabana (também chama­ da de Os 18 do Forte), que rebentara no dia 5 de julho {leia o capítulo “Dos 18 do Forte à Coluna Prestes”). Au­ toritário e vingativo, “envenenado pe­ la campanha difamatória que sofrerá”, Bernardes manteve a “su.spensão das garantias constitucionais” ao longo de todo o .seu govemo. Não concedeu anis­ tia aos rebeldes. cen.surou a imprensa, mandou prender seus adversários e, aci­ ma de tudo, aproveitando-se do recesso da Câmara, graças ao estado de sítio, decretou intervenção federal no Rio de Janeiro e na Bahia, que. junto com o Rio Grande do Sul e Pemambuco, faziam parte da "Reação Republicana”. Em Pemambuco, Bernardes não precisou intervir, pois .seu antecessor, Epitácio Pessoa, já o fizera (episódio que resultou na prisão de Hennes da Fonseca, que instigara os militares lo­ cais a não cumprir as ordens presiden­ ciais de reprimir as manifestações po­ pulares). No Rio Grande do Sul. a eclosão da Revolução de 1923 (leia o capítulo "Dos 18 do Forte à Coluna Pre.stes”) também ajudaria Bernardes. poupando-o do desgaste que uma inter­ venção no terceiro Estado mais impor­ tante da federação certamente provo­ caria. Em 1924.0 presidente enfrentaria nova revolta tenentista. desta vez em São Paulo —sem falar da Coluna Pres­ tes, que se pusera em marcha desde 1922. Por isso. Bemardes govemou o Brasil enclausurado no Catete, de onde quase não saía. Ainda assim, manteve intacta a aliança São Paulo-Minas Ge­ rais e con.seguiu entregar o país ao can­ didato café-com-leite Washington Luís.

m 4 de novembro de 1920, depois de passar cinco anos “sargentão sem compostura”, Nilo Peçanha de “pobre mu­ na Europa em companhia de sua jovem esposa, Her­ lato” e alguns generais de “anarquizadores”. A edição do teve o efeito de uma bomba. Bemardes de imediato mes da Fonseca (à direita) retomou ao Brasil. Embora jomal o país não tivesse esquecido seu desastro.so desempenho na negou a autoria da carta. No dia seguinte, o mesmo jomal Presidência, o marechal foi recebido como herói pelos ofi­ publicou nova missiva —tão ofensiva quanto a primeira. No ciais do Exército. Desagradados com o comportamento “ci­ dia 27 de dezembro, peritos declararam que as cartas eram vilista” de Epitácio Pessoa, os militares de.scontentes logo verdadeiras. O ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, infor­ vislumbraram em Hermes o líder ideal para dar início a mou Epitácio Pessoa que, caso fosse eleito. Bemardes “não uma reação. Em março de 1921, o marechal tomou posse aguentaria 24 horas no Catete”. Mas, em março de 1922. na presidência do Clube Militar e deu todo o apoio à candi­ Artur Bemardes recebeu 1.5 milhão de votos, contra 700 datura de Nilo Peçanha. adversário da chapa café-com-leite mil de Peçanha. Hermes da Fonseca foi preso e o Clube encabeçada por Artur Bemardes. Militar fechado em 2 de julho. Setenta e duas horas mais Na edição de 9 de outubro de 1921, o jomal “Correio tarde, explodiria a Revolução Tenentista (leia o capítulo da Manhã”, do Rio de Janeiro, publicou uma carta, aüibuí- “Dos 18 do Forte à Coluna Prestes”). Em maio de 1929, da a Bemardes, na qual Hennes da Fonseca era chamado de dois falsários confessaram ter foijado as cartas da discórdia.

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o G overno ashington Luís começou a se tomar presidente do país sete anos antes de ser “eleito” por aclamação em março de 1926. Em carta enviada a Borges de Medeiros, em 24 de novembro de 1919. um congressista gaú­ cho alertava o presidente do Rio Grande do Sul que Artur Bemardes (presidente de Minas) e Washington Luís (de São Paulo) já tinham articulado sua estratégia, na Câ­ mara e entre as lideranças do PRM e do PRP, para se tomarem os próximos presi­ dentes do Brasil. Com a eleição de Bemar­ des em 1922, ficou claro que assim seria. No entanto, a aliança café-com-leite poderia ter sido estremecida pelas revolu­ ções tenentistas de 1922, 1924e 1925, pe­ la Revolução de 1923 no Rio Grande do Sul e pela marcha épica da Coluna Pres­ tes. Não foi o que aconteceu: ao govemar o país com mão de ferro, enclausurado no Catete, Artur Bemardes conseguiu passar o cetro a seu sucessor paulista. As má­ quinas políticas da Reação Republicana —contrárias à aliança café-com-leite— tinham sido duramente punidas na Bahia, no Rio de Janeiro e em Pernambuco. No Sul, Borges de Medeiros —interessado em eleger-se pela quinta vez presidente do Estado e ainda ressabiado com as con­ sequências da Revolução de 1923 (veja o capítulo “Dos 18 do Forte à Coluna Prestes")— aceitou passivamente a fór­ mula paulista-mineira. Por “sugestão” de Bemardes, cada Estado reuniu uma con­ venção de líderes municipais; a essa se­ guiu-se, em setembro de 1925, a conven­ ção nacional na qual Washington Luís foi proclamado formalmente candidato único à Presidência. Em 1° de março de 1926, a chapa unânime recebeu 98% dos votos numa das eleições mais calmas da histó­ ria brasileira. Foi a consagração final de um sistema trapaceiro.

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pesar de nascido em Macaé (RJ), Washington Luís Pereira de Sousa (1870-1957) era paulista por adoção e opção. Desde 1906, ocupava cargos públicos em São Paulo, para onde se mudara quando jovem. De 1914 a 1919, fo i prefeito de São Paulo, modernizando a cidade e reestruturando o Museu Paulista. Além de político, Washington Luís era historiador, autor de vários livros, entre os quais o belo “Contribuições para a História da Capitania de São Paulo”. Quando era presidente de São Paulo, fo i um dos principais incentivadores e patrocinadores da Semana de Arte Moderna de 1922.

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o tomar posse em novembro de 1926, Washington Luís pretendia fazer da esta­ bilização cambial e dos preços a medida prioritária de sua administração. Ao estabele­ cer uma taxa fixa de câmbio, o presidente des­ valorizou o mil-réis (rompendo o padrão ofi­ cial —e artificial— que, desde 1846, equivalia a 27 dinheiros por mil-réis e passou a ser de seis dinheiros por mil-réis) e restabeleceu a conversibilidade do mil-réis pelo ouro, proi­ bindo a emissão de dinheiro sem lastro e man­ dando incinerar o saldo orçamentário do exer­ cício anterior. A medida agradou aos cafeicultores de São Paulo e aos pecuaristas gaúchos. Porém, a

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classe média, que consumia produtos importa­ dos. indignou-se com o “câmbio vil”. A outra marca da administração de Washington Luís se sintetizava no slogan “Govemar é abrir es­ tradas” . O presidente fez as rodovias Rio-São Paulo e Rio-Petrópolis. O país e a aliança cafécom-leite pareciam estar em paz. Só o fracasso da política financeira do govemo e o rompi­ mento do acordo São Paulo-Minas Gerais po­ deriam abalar o “reinado” de Washington Luís. A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, e a tentativa do presidente de fazer do paulista Júlio Prestes seu sucessor tomaram reais essas duas terríveis ameaças. E uma revolução aca­ baria derrubando o govemo.

Washington Luís tomou pos.se em 15 de novembro de 1926, desfilando em car­ ro aberto pela avenida Rio Branco, no cen­ tro do Rio de Janeiro, sem proteção poli­ cial, sendo entusiasticamente ovacionado pela população. A primeira ação prática do novo presidente foi a suspensão do es­ tado de sítio. Esperava-.se que o passo se­ guinte fosse a anistia aos rebeldes de 22, 23, 24 e 25, para que o país pudesse in­ gressar, pacificado, em uma nova era. Mas Washington Luís não foi capaz de fazê-lo: sua lealdade ao govemo anterior e a hos­ tilidade do Exército ao retomo dos re­ volucionários aos quartéis impediriam a aprovação da anistia “ampla, geral e ir­ restrita”. A seguir, novos focos de in.satisfação política levaram o govemo a refor­ çar a Lei de Imprensa e a aprovar a “Lei Celerada”, destinada a reprimir o comu­ nismo. O Partido Comunista (PC), na le­ galidade desde janeiro de 1927, foi outra vez jogado na clandestinidade. Reafirmando a aliança café-com-leite, Washington Luís montou um ministério de paulistas e mineiros. Mas para “premi­ ar” a lealdade do Rio Grande do Sul. que não se opusera à sua candidatura, nomeou o deputado Getúlio Vargas ministro da Fa­ zenda. ainda que o próprio Vargas não se achasse qualificado para o cargo. Dispos­ to a “pacificar” definitivamente o Sul, o presidente teve outro gesto de boa vontade após a pí-)sse: foi a Porto Alegre, tomandose o primeiro presidente a visitar o Rio Grande do Sul em 20 anos. Por ordem de Borges. Getúlio aceitou o cargo em de­ zembro de 1926 —saindo dele em janeiro de 1928 para se tomar govemador do Rio Grande, no lugar do próprio Borges. Os 13 meses de Getúlio como ministro da Fazenda foram, de qualquer forma, apenas figurativos: quem de fato mandava na economia era o presidente.


A C ultura: orria o ano 366 da deglutição do bispo Sardinha e os canibais estavam de volta. Queriam o fígado de Peri. Queriam devorar o Guarani —em prosa e verso. Planejavam trancafiar Castro Alves no navio ne­ greiro, crucificar Vítor Meireles na primeira cruz e esquar­ tejar Pedro Américo como este fizera com Tiradentes. E queriam incomodar a burguesia. A burguesia adormecera sobre sacos de café e dinheiro, como gato de armazém? Era preciso despertá-la, de preferência com barulho. Nem que fosse o de suas próprias vaias, “relinchos e miados”. E assim o poeta gritava: “Eu insulto o burguês! O burguêsníquel, / O burguês-burguês! / A digestão bem-feita de São Paulo! / O homem-curva! o homem-nádegas! / (...) Come­ te a ti mesmo, oh! gelatina pasma! / Oh, purê de batatas morais / Oh! cabelo nas ventas / oh! carecas! / Ódio aos temperamentos regulares / Ódio aos relógios musculares! / IVlorte e infâmia! / Ódio à soma! Ódio aos secos e molha­ dos! / (...) Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio! / Morte ao burguês de giolhos, / (...) Ódio fundamento, sem perdão! / Fora! Fu! Fora o bom burguês!...” Fora, sim. A platéia, enfim, ecoava o poeta. O poeta tímido e pacato, que desferia aquela bofetada no gosto do público. E 0 público pagara 20 mil-réis para ouvir aqueles poemas sem pé nem cabeça, escutar aquelas partituras dis­ sonantes, ver aquelas pinturas manchadas. Era quarta-feira, 15 de fevereiro de 1922. Palco? O Teatro Municipal de São Paulo. Poeta? Um tal de Mário de Andrade (acompanhado pela música de Villa-Lobos e pelas pinturas de Anita Malfatti). Evento? A Semana de Arte Moderna.

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O catálogo da Sem ana de A rte M oderna f o i fe ito p e lo p in to r Di Cavalcanti, que su g eriu a re a liza çã o da m ostra, N o alto da p ágina, a tu rm a q u e sa cu d iu o Teatro M u nicipal de São Paulo, com O sw ald de A n d ra d e à fr e n te

P a u - B r a s il O Brasil nunca mais seria o mesmo após aqueles três dias de vertigem e vaias no teatro mais refinado de São Paulo. A Semana de Arte Moderna que começara na segunda-feira, 13 de fevereiro, e se encerraria no dia 17, apresentou ao país seus “neotupis”: os poetas Mário e Os­ wald de Andrade, a pintora Anita Malfatti, o compositor Villa-Lobos. Logo, outros os seguiriam; todos dispostos a comer o bispo e a deixar a paulicéia desvairada. E pior: ti­ nham apoio de burgueses, como o cafeicultor Paulo Prado, que bancara a festa, e o diplomata Graça Aranha, que fize­ ra a conferência de abertura daquele bacanal cultural. A Semana seria só o começo. A seguir, vieram o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” e o “Manifesto Antro­ pófago”. O Brasil dos novos poetas queria ouvir novas ri­ mas e novos sons. Queria acabar com o padre Anchieta, com o padre Vieira, com Alencar e com Carlos Gomes. Queria redescobrir Pindorama na selva das cidades; queria que o novo mundo fosse admirável e industrial. Queria .ser índio e negro. Queria acabar com o “passadismo”; queria a vanguarda e a queria já. Para isso, era preciso borrar as velhas pinturas e amiinar a velha música; queimar os ve­ lhos livros e pisotear a República das Letras. Se a litera­ tura era “o sorriso da sociedade”, os novos canibais que­ riam transformá-la num esgar de escárnio. Queriam a revolução caraíba e queriam, é claro, “épater le bourgeois”. Conseguiram tudo, embora pagassem caro pela conquista. E à vista. A Semana de Arte Moderna rompeu com o pas­ sado e apresentou o Brasil das letras ao Brasil das cal­ çadas. Plantou o pau-brasil —e só poupou o Machado.

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loi uma vida marcada pela regulaI ridade burocrática, pela discrição, pelos silêncios repletos de signifi­ cado. pelo ceticismo e pela desilusão. Ho­ mem frio em relação às paixões políticas —ou qualquer outra paixão—. reservado, circunspecto e modesto. Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) passou 25 anos indo e vindo do Ministério da Agri­ cultura, Viação e Obras Públicas, na mes­ ma hora e pelo mesmo caminho. Ao chegar em casa, porém, esse fun­ cionário público de vida descolorida e mo­ nótona se transformava num Kafka dos trópicos. No silêncio de seu gabinete, rom­ pido apenas pelo tique-taque do relógio. Machado de Assis compôs aqueles que se­ riam não só os maiores romances de seu tempo, mas os maiores de todos os tempos da literatura brasileira. De 1881 a 1908, sempre na surdina, escreveu obras-primas como “Dom Casmurro". "Memórias Pós­ tumas de Brás Cubas". "Memorial de Aires", "Quincas Borba", “Esaú e Jacó”. Elaborou sua obra sobre os alicerces das duas gerações românticas que surgi­ ram e desapareceram durante sua juventu­ de. Depois, adaptou e reelaborou elemen­ tos de todas as escolas que passaram por sua vida, sem se filiar a nenhuma. Poeta, contista, repórter político, dramaturgo e crítico. Machado desenvolveu um estilo inimitável, destilado de suas próprias re­ flexões e desapontamentos, baseado numa "ílm dia começou a guerra do ‘Paraguai e durou cinco anos. profunda compreensão da natureza huma­ loão repicava e doèrava, dobrava e repicava peCos mortos e na. Sua obra é o triunfo de uma .sutil sensi­ peCas vitórias. Quando se decretou o ventre Civre dos escravos, bilidade psicológica, e o país soube per­ João é que repicou. Quando se fe z a aboCição compíeta, quem cebê-lo e os modernistas iconocla.stas nem repicou fo i foão. Um dia procíamou-se a ‘}{epúb[ica. João repicou ousaram atacá-lo. Mas Machado, mulato, gago e epilético, embora eleito primeiro por eía, e repicaria peio império, se o império retomasse. " presidente da Academia Brasileira de Le­ tras. continuou evitando o "alto mundo" e Machado de Jlssis criando, em silêncio, romances capazes de Crônica sobre a morte do escravo João, sineiro da igreja da Çíória, no romper o véu das aparências e desvendar a came viva da fragilidade humana. 'Rio, pubíicada em 1897 nojornaí “íA.Semana ”

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o exato instante em que Machado de Assis investigava as profundezas da alma huma­ na, no mesmo Rio de Janeiro do início do sécu­ lo dois outros escritores viviam o apogeu —lo­ go seguido pela decadência— do estilo batizado de “belle époque” carioca. O primeiro deles era Olavo Bilac (1865-1918), coroado Príncipe dos Poetas. Mas não foi sua poesia pamasiaiia fr conservadora, que o tomou favorito da elite ca­ rioca. Seria com sua prosa volumosa —eivada de racismo e eurocentrismo— que Bilac foijaria o estilo que, até 1922, era tido como sinônimo do bom gosto contemporâneo. Se a literatura era “o sorriso da sociedade”, ninguém apresentava dentes mais alvos do que Olavo Bilac. Seu úni­ co concorrente era seu amigo; Coelho Neto,

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A ss is Monarquista liberal. Machado sem­ pre expressou suas opiniões “pondo velu­ do na voz", com uma reserva crescente, fruto da doença, da desilusão e de uma amarga maturidade. No trabalho, era um burocrata que servia indiferentemente a liberais e a conservadores, a florianistas e a paulistas, embora, desde o advento da República, se tomasse ainda mais circuns­ pecto. Apesar disso, na alquimia que se processava no silêncio de sua ca,sa. nunca deixou de ser o mais astuto e malicioso cronista de seu tempo. Alguns o chamam de “o romancista do Segundo Reinado", já que Machado fez a crônica dos 66 anos da monarquia. “Brás Cuba.s" situa-se na época de d. Pedro 1°; "Quincas Borba" e “Dom Casmurro” se passam no tempo de d. Pedro 2“; e "Memorial de Aires" e "Esaú e Jacó” narram o ocaso do império, enquanto esse último fala também do de­ sabrochar da República. Com ceticismo e uma pitada de cinis­ mo, Machado fez a simbiose entre ficção e história, desnudando a mola que impulsio­ nava as vaidades e ambições aninhadas no seio da sociedade e na alma de seus prota­ gonistas. Como o próprio narrador, porém, os personagens machadianos se compor­ tam com um estoicismo e distanciamento que, de certa forma, os projetam para além da história, embora continuem sujeitos a todas suas vicissitudes. Machado faz uma sátira ferina e sem pretensões moralizantes, como Swift ou Steme. “Nenhum es­ critor brasileiro estava tão enraizado na realidade nacional quanto ele e, portanto, nenhum outro pxxieria realizar, tão magis­ tralmente, seu potencial universal", disse o historiador americano Jeffrey Needell, que, como Susan Sontag e Kurt Vonnegut Jr., é fã convicto de Machado. "A história não é um simples quadro de acontecimen­ tos; é mais, é o verbo feito livro", dis.se Machado de Assis. E foi o que ele fez.

apontado por Lima Barreto como “o mais ne­ fasto dos intelectuais brasileiros”. Nascido na periferia, Coelho Neto (1864-1934) lutou con­ tra a pobreza a vida inteira e o fez com um exército de palavras. Suas obras completas en­ chem 27 volumes. Com uma prosa franca­ mente francófila, combinando ecos de roman­ tismo com o florescimento do naturalismo, Coelho Neto pôs em movimento uma “linha de montagem” literária, na qual produzia mer­ cadorias verbosas com a maior rapidez possí­ vel. Talvez não configurassem a melhor prosa do mundo: o importante é que vendiam bem. Apesar dos méritos esparsos, a obra de Bilac e Coelho Neto era feita para entreter as senhoras da sociedade. E isso ela fazia.

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o obre e mulato como Machado de Assis —e como João do Rio—, Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) também vislumbrou na li­ teratura sua única possibilidade de ascen­ são social num país exclusivista e afrancesado como era o Brasil do alvorecer do século 20. Ao contrário de Machado, po­ rém. Lima Barreto teve a imortalidade em vida finne e permanentemente negada por seus contemporâneos. Apesar de ter es­ crito livros admiráveis —ainda que nspidos e eventualmente cruéis—, seu talento só seria reconhecido postumamente. E o pior é que Lima Barreto morreu devagar, acossado pela loucura e pela bebida, um boêmio prematuramente envelhecido, maltrapilho e amargo, que nunca sentiu o gosto do sucesso, indispensável para o senso pessoal de valor de um mestiço justificadamente paranóico como ele. Afonso Henriques de Lima Barreto —"nome de rei para um pobre mulato, hóspede acidental do hospício, dado à cachaça e frequentador habitual de bote­ quins”, como escreveu o crítico Nelson Wemeck Sodré— nasceu no Rio, de um casal de mulatos que, “apadrinhado” por uma família rica, conseguiu dar ao filho a oportunidade de não só ingressar na Escola Politécnica (uma cidadela positi­ vista) como de arrumar um “emprego decente”. Lima Barreto tomou-se um pequeno burocrata ministerial. Mas, para ele. esse emprego era uma espécie de morte mental lenta. Para libertar-se, iniciou a luta para virar um escritor reconhecido. A grandeza literária se tomou sua obsessão particular “e sua única esperança de vingança em uma sociedade cujas pretensões eurófilas, racismo e preconceitos de classe ele as­ similara e sofria diariamente”, como ob­ servou o historiador Jeffrey Needell no livro “Belle Époque Tropical”.

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"‘Muíato, desorganizado, incompreensiveíe incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! humanidade vive da inteligência e para a inteíigência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande Íhíumanidade de que quero fazer parte. (...) O homem, por intermédio da arte, não fica adstrito aos preconceitos e preceitos de seu tempo, de seu nascimento, de sua pátria, de sua raça; eCe vai aíém disso, mais longe do que pode, para alcançar a vida total do Universo. "

última vez em que Lima Barreto tentou entrar para a Academia Brasileira de Letras, em 1922. quis fazê-lo para ocupar a vaga aberta com a morte —como a dele pró­ prio, prematura— de João do Rio, em 1921. Também mu­ lato, como Lima Barreto e Machado de Assis, o cronista e jornalista João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, nascido em 1881, era homossexual e cocainômano. Tinha, portanto, ainda mais motivos para ser escor­ raçado pelo “alto mundo” literário da rua do Ouvidor e se tornar, como Lima Barreto, um marginal da República das Letras. Mas aconteceu justamente o oposto: junto com Olavo Bilac e Coelho Neto, João do Rio tornou-se um dos principais cronistas da “belle époque” carioca e seu princi­ pal jornalista. Dono de um estilo surpreendentemente ágil e bem-humorado. João do Rio seria um grande inovador do texto jornalístico.

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Se Machado de Assis dissecou o Se­ gundo Reinado, Lima Barreto fez a autóp­ sia da Primeira República. O que provo­ cou 0 mal-estar de seus contemporâneos não foi apenas a abordagem cínica, esco­ rada num “texto amargo, irônico, flexível e cortante como um florete", que Lima Barreto fez dos “temas nacionais". Num tempo em que o preciosismo gramatical era um bem sagrado, ele incorporou o lin­ guajar das ruas, a gíria, a “fala carioca" à sua prosa urbana e midosa. Jamais se im­ portou com "os erros da transcendente gramática dos importantes”. Em livros como “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (1909), “Triste Fim de Policarpo Quaresma” ( 1915 ) e “Vida e Mor­ te de M.J. Gonzaga de Sá" (1919). ele devastou a “república do Kaphet”, ridi­ cularizando a burocracia fardada, morna e estúpida, que se arrastava por trás dos jacobinos florianistas; atacou os “es­ cravocratas de quatro costados da admi­ nistração republicana, cujo objetivo é enriquecer a antiga nobreza agrícola e conservadora, por meio de tarifas, auxí­ lios à lavoura, imigração paga. etc.”. Transformou o Brasil em Bmzundanga, o reino dos corruptos, e percebeu que o país era govemado pelo "homem que sabia ja­ vanês”. Mas foi como se Lima Barreto falasse grego: ninguém quis entendê-lo. Por três vezes tentou entrar para a aca­ demia —por três vezes foi rejeitado. Morreu em 1922 e por pouco não foi en­ terrado como indigente. A Semana de Arte Modema de São Paulo passou sobre os escombros de seu anonimato. Nem os rebeldes paulistas ti­ nham sabido reconhecer o talento do mu­ lato que uma vez gritara: "Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a dos meus desejos e febre?”

Embora, no início de sua carreira. João do Rio (na ca­ ricatura à direita) escrevesse sobre as favelas, os morros e os prostíbulos, sobre o candomblé e os tipos soturnos que flanavam pelo "bas-fonds” carioca, ele logo mudou de e.stilo. Passou a assinar uma “coluna social”, na qual “alimenta­ va o narcisismo do ‘alto mundo’, com mexericos, reflexões elegantes, comentários de moda e ‘divertissements’ pican­ tes”. A razão de seu sucesso estrondoso foi, segundo Jeffrey Needell, o fato de ele “escrever sobre o mundo da elite ca­ rioca não como ele era, mas como a elite gostaria que fosse”. Gordo e glutão, dândi de temos bern-cortados, monócu­ lo e chapéu de bico, João do Rio foi plenamente aceito pela sociedade. Mas o advento da Semana de Arte Modema —na “distante” São Paulo, um ano após a morte de João do Rio— varreria como um tufão o bricabraque luxuriante e edulcora­ do da “belle époque” carioca.

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Os 1 oi um encontro que mudou a cara do Brasil

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—e o tomou mais esperto, mais ladino, mais tropical. Menos França e mais Brasil. No dia 21 de novembro de 1917, o e.scritor e jomalista Má­ rio de Andrade deu uma conferência no Conser­ vatório de Arte Dramática, em São Paulo. Finda a palestra, o repórter do "Jomal do Commercio" se estapeou com um colega de outra publicação pa­ ra obter as laudas originais. No dia seguinte, seu jomal publicou o texto completo. O repórter do "Jomal do Commercio” se chamava Oswald de Andrade. Estava iniciada a amizade que mudaria os rumos da arte no Brasil. Menos de um mês depois, em 12 de dezembro, os dois novos amigos foram a uma exposição de pintura. "Os rapazes chegaram numa chuvarada. Começaram a rir a toda e um deles não parava. Fiquei furiosa e pedi satisfação. Quanto mais eu zangava, mais o tal não se continha. Afmal. meio que sossegou e. ao sair. apresentou-se: ‘Sou o poe­ ta Mário Sobral'.” Mário Sobral era o pseudônimo

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de Mário de Andrade. Seu companheiro, claro, era Oswald. E a pintora, que registrou o episódio em seu diário, se chamava Anita Malfatti. Dias depois, "Sobral” enviava um poema a Anita. Mais tarde, o jomal "O Estado de S. Paulo” publicou uma crítica devastadora da exposição, assinada pelo respeitado Monteiro Lobato. Oswald logo rebateu as opiniões de Lobato —embora isso não tenha sido suficiente para impedir que vários quadros já vendidos fos­ sem devolvidos. Passados alguns meses, os amigos, agora in­ separáveis, foram procurar o escritor Menotti dei Picchia —redator-chefe do “Correio Paulistano” e autor do livro “Juca Mulato”— no hotel onde ele vivia, no Centro de São Paulo. O trio fez um pacto para "botar por terra toda a arte passadista e aca­ dêmica”. Mas a turma ainda não estava completa. No dia 14 de janeiro de 1920, Oswald e o pintor Di Cavalcanti descobrem que, no porão do inacabado Palácio das Indústrias, em São Paulo, trabalhava “um escultor, um tipo esquisitão, de pouca prosa, Teatro Municipal de São Paulo era o prédio O mais requintado da metrópole do café. Inau­ gurado em 11 de setembro de 1911, no mais puro estilo neoclássico, comportava mais de 1.600 es­ pectadores. Fora projetado pelo arquiteto Ramos Azevedo para ser o templo das artes mais refina­ das de seu tempo. Como esse santuário do conser­ vadorismo artístico (à esquerda), que simbolizava tudo que o modernismo jurara destruir, veio a se tomar o palco da manifestação artística mais ico­ noclasta e ruidosa já realizada na paroquial cena cultural de São Paulo?

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que faz umas estátuas enormes e estranhas". Era Vítor Brecheret. Só então o time —montado pelos “mariscadores de gênios", os Andrades Mário e Os­ wald— ficou pronto para o jogo decisivo. Em bre­ ve, o Brasil ouviria falar deles. A simbiose entre Mário (acima, à esquerda, pintado por Lasar Segall) e Oswald de Andrade (à direita, por Tarsila do Amaral) era de fato es­ pantosa. O primeiro era um intelectual tímido e comedido, dono de uma erudição sólida e sossega­ da; um jomalista de classe média, gênio gentil e generoso. Oswald, milionário excêntrico, boêmio desregrado e "clown”, dono de um Cadillac verde (comprado só porque tinha cinzeiro) e de escan­ dalosas luvas brancas com losangos pretos, era audacioso e revolto; um iconoclasta desabusado, perspicaz e bárbaro. Mário lia tudo e não conhecia ninguém. Oswald não lia nada e conhecia todo o mundo. Um completava o outro. Quando se torna­ ram "Oswaldário dos Andrades”, ou "Marioswald de Andrade”, o mundo tremeu. Em novembro de 1921, durante a inauguração de uma exposição de Di Cavalcanti, no Rio, o pin­ tor sugeriu à “mocidade artístíca de São Paulo” a organização de um evento “espetacular que aba­ lasse, pelo vulto e violência, o povo brasileiro”. A idéia contou com o apoio do cafeicultor Paulo Prado, milionário culto e homem do mundo, do riquíssimo deputado e empresário José Freitas e de Washington Luís, presidente de São Paulo e homem de letras. Por influência deles —e pela presença dos consagrados Villa-Lobos e Guiomar Novaes— o teatro foi emprestado.


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sugestão dada por Di Cavalcanti aos jovens rebeldes de São Paulo começou a se mate­ rializar quando os ricos e refinados Paulo e Marinette Prado —cafeicultores com a vida e a men­ te voltadas para a Paris dos modernistas— decidi­ ram apoiar o evento. Eles formaram um comitê patrocinador que contou com o apoio do “e.scol fi­ nanceiro e mundano da sociedade paulista”: Alfredo Pujol, Armando Penteado, José de Freitas e o pre­ feito Antônio Prado. O “Correio Paulistano", órgão do PRP cujo redator-chefe era Menotti dei Picchia. também "agasalhou os avanguardistas. com o con­ sentimento de Washington Luís. presidente do Estado”. Com tal apoio logístico, os novos canibais piuliram para a ofensiva. A Semana de Arte Modema durou três dias e reuniu poetas, escultores, pintores, músicos e intelectuais ligados à Nova Arte. Iniciouse calma e convencional em 13 de fevereiro, com a palestra "A emoção estética na arte modema", pro­ ferida por Graça Aranha, um dos padrinhos do even­ to iíeia o quadro abaixo).

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Sem ana

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A confusão começou dois dias depois, na palestra de Menotti dei Picchia ("Queremos luz. ar. ventilado­ res, aeroplanos, reivindicações obreiras, idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte", disse ele). Apesar de a confe­ rência ter claramente aberto a temporada de caça ao “passadismo". a platéia se conteve e não vaiou. Minu­ tos depois, porém, o que houve foi... Bem, ouçamos a versão da vítima. Oswald de Andrade: “Apenas Menotti se sentou e, quando me levan­ tei, o teatro estnigiu numa vaia irracional e infrene. Antes mesmo d’eu pronunciar uma só palavra. Es­ perei de pé, calmo, sorrindo como pude. que o baru­ lho serenasse. (...) Abri a boca. Ia começar a 1er, e nova pateada ,se elevou, imensa, proibitiva. Nova es­ pera. (...) Então pude começar. Devo ter lido baixo e comovido. O que me interessava era acabar depres­ sa e sair. Mário de Andrade me sucedeu, e vaia estrondou de novo. Com aquela santidade que o mar­ cava, Mário gritou: ‘Assim não recito mais'. Houve grossas gargalhadas".

oi na pequena livraria carioca onde .se deu a exposição de F Di Cavalcanti que “a mocidade artística e literária de São Paulo” teve o primeiro contato com o escritor e diplomata Gra­ ça Aranha. Sob a liderança do autor do “livro tabu” Canaã (pu­ blicado em 1902 e que, segundo Oswald de Andrade, “ninguém havia lido e todos admiravam”), a Semana adquiriria certo “prestígio oficial”. Aranha vivia em Paris e se achava herdeiro da posição olímpica do barão do Rio Branco. Os cafeicultores lhe deviam favores e alguns diziam que, na Europa, ele era vis­ to como “a maior glória do nome brasileiro e orgulho da raça latina”. Aranha (à direita) não tinha muito que ver com os modemistas. Mas em breve eles também lhe deveriam favores. O

B r a s il Anos depois, Mário de Andrade se questiona­ ria: “Como tive coragem pra dizer versos diante duma platéia tão bulhenta?" A seguir, as coisas se acalmaram graças às melodias tocadas pela “superstar" Guiomar Novaes, que atraíra o público até lá (leia na página 207). A terceira e última noite do evento, em 17 de fevereiro, foi inteiramente dedi­ cada a um recital de Villa-Lobos. Embora ele já fosse um pianista respeitado, quando entrou no pal­ co de fraque e chinelos o público voltou a se en­ raivecer. Os sons fabulosos do jovem maestro e compositor logo domaram a platéia, e a Semana terminaria com aplausos efusivos a Villa-Lobos. E preciso deixar claro que os modernistas vaia­ dos não foram vítimas imx;entes. O jogo perverso en­ tre palco e platéia, os apupos, achincalhes, "miados e relinchos” estavam no programa, faziam parte do espetáculo e talvez fossem até desejados —tanto é que, ainda hoje. há estudiosos que acham que os mo­ dernistas “contrataram” gente para uivar contra eles. A vaia era o mais caro sinal de reconhecimento.

próprio Oswald reconheceu que o apoio de Graça Aranha foi “um presente do céu”. Afinal, “com o endosso dele f)oderíamos ser tomados a sério. Do contrário, era difícil”. Por prudência e obviedade, o diplomata-filósofo foi escolhido para fazer a pa­ lestra da noite de abertura. Ela se chamou “A emoção estética na arte modema” —e até pode ter sido modema, mas não foi nem um pouco modernista. Tanto que seria uma das únicas manifes­ tações literárias a escapar das vaias furiosas dos almofadinhas da platéia. Graça Aranha era um “medalhão” inatacável, e pare­ ce não haver dúvidas de que foi estrategicamente escolhido para abrir o festim. Os canibais modernistas, ao fim e ao cabo, tam­ bém precisaram recorrer a padrinhos poderosos.

A Cultura: de Machado ao Pau-Brasil 205


o pintura teve importância fundamental não apenas no advento da Semana de Arte Moderna como na eclo­ são de todo o movimento mo­ dernista que veio a seguir. De início, é preci.so lembrar que o primeiro vislumbre que São Pau­ lo teve de arte moderna ocorreu na exposição do pintor Lasar Segai 1. em 1913 —mostra que causou espanto a ponto de a so­ ciedade preferir esquecer que havia acontecido. Depois, foi na visita à exposição de Anita Mal­ fatti que Mário de Andrade e Oswald de Andrade não só se­ laram sua amizade como parti­ ram dali para atitudes mais prá­ ticas. Oswald, mais combativo, saiu em defesa de Anita, dura­ mente atacada por Monteiro Lo­ bato {leia na página seguinte). Mário, mais introspectivo, escre­ veu um poema inspirado no qua­ dro "O Homem Amarelo”. Anos depois, disse: “Não posso falar pelos meus companheiros, mas eu. pessoalmente, devo a reve­ lação do novo e a convicção de revolta a Anita e à força dos .seus quadros". E preciso lembrar também que a idéia de deflagrar o movi­ mento que Oswald batizaria de "revolução sem sangue" nasceu durante uma mostra do pintor Di Cavalcanti. Mas isso seria ape­ nas o começo. Foi com a chegada da pintora Tarsila do Amaral ao Brasil (ela vivia em Paris e desembarcou em São Paulo em julho de 1922) que a efervescência passageira da Semana de Ane Moderna adqui­ riria os contornos mais pennanentes de uma revolução estética. A arte de Tarsila in.spirou e hipno­ tizou os modernistas.

M a n if e s t o A n t r o p ó f a g o

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^Manifesto Antropófago “Só a antropofagia nos une. Socialmente. 'Economicamente. Jiíosoficamente. (...) Tupy or not tupy, that is the question.{...)So me interessa o que não é meu. Lei do hotnem. Lei do antropófago. (...) Contra as elites vegetais. 'Em comunicação com o solo. (...) Antes dos portugueses descobrirem o ‘BrasÜ, o (BrasU tinha descoSerto a felicidade. A alegria é a prova dos nove. (...) peste dos chamados povos cultos e cristianiz.ados. T, contra eía que estamos agindo.” Oswald de Andrade J^no 374 da deglutição do 6ispoSardinha

Brasil nào seria o mesmo sem “O Homem O Amarelo”, sem “A Mulher de Cabelos Verdes”, sem "O Japonês”, sem “A Estudante Russa” (à esquerda). O Brasil não seria como é sem a pintura de Anita Malfatti, porque sem a pintura dela talvez não tivesse acontecido a Semana de Arte Moderna de 1922. Tudo começou em 1917, quando Anita, jovem paulista de classe média alta, que vivera na Europa e nos Estados Unidos (onde conhe­ cera Juan Gris, Marcel Duchamps, Isadora Duncan e Má­ ximo Górki), voltou ao Brasil e decidiu mostrar para al­ guns conhecidos as pinturas que fizera, inspirada pelo expressionismo e pelo cubismo nascente. “Todos acharam minhas telas feias, dantescas, e todos ficaram tristes; não eram santinhos do colégio.”

206

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is t ó r ia d o

B r.\ sil

Tarsila era linda, era rica. era chique, era talentosa, era exótica. Não bastasse, ainda era amiga de Femand Léger, de Jean Cocteau, de Blaise Cendrars, de Jean Giraudoux —turma que ela introduziu à feijoada, à caipiri­ nha, aos cigarros de palha de mi­ lho e ao café cheiroso, em seu ateliê em Paris. Ao retornar ao Brasil, depois de alguns anos na Europa, caiu nos braços dos “avanguardistas”. E o playboy intelectual Oswald (“Osváld”, como gostava de ser chamado) logo se apaixonou por ela. E foi correspondido. O primitivismo, a “simplici­ dade alcançada” e a crítica ao “nacionalismo postiço" presen­ tes na obra de Tarsila inspiraram 0 amante —logo marido— Os­ wald a lançar, ém março de 1924, o “Manifesto da Poesia PauBrasil”. Mas ainda não era tudo. Em 11 de janeiro de 1928, Tarsila deu de presente de ani­ versário a Oswald um quadro po­ deroso, perturbador, onírico, an­ cestral. Ele mostrava uma figura misteriosa, agigantada, pés e mãos enormes e cabeça minús­ cula; de cor terrosa, contrastando com 0 céu de um azul imaculado no qual um sol-laranja-flor tangenciava um cacto selvagem. Oswald, em companhia do poeta Raul Bopp, se transfigurou. “O que será isso?”, quis saber Bopp. Oswald achou que deveria se tra­ tar de um gigante e sugeriu que o batizassem com “um nome sel­ vagem”. Tarsila arranjou então um dicionário de tupi e, nele, os três encontram o nome: “aba” (homem) “poru” (que come). Nascia “Abaporu”, o Antropófa­ go (acima). Estava fundado um novo movimento.

Anita guardou os quadros. Mas “alguns jornalistas pediram para ver aquelas obras tão malfeitas —e acha­ ram que eu devia fazer uma exposição”. A exposição foi inaugurada em dezembro de 1917. Dez dos 53 quadros já tinham sido vendidos quando Monteiro Lobato publicou sua crítica devastadora no “Estadão”. As telas foram de­ volvidas. Mas Anita, sem saber, lançara um movimento. “Pode-se dizer que a pintura de vanguarda, no Brasil, en­ quanto luta e polêmica, tem o seu ponto de partida numa mulher e o de chegada em outra. A sua conquista de com­ preensão e a imposição de sua legitimidade, como ex­ pressão nova de arte, começam e terminam, respectiva­ mente, em Anita Malfatti e Tarsila do Amaral”, escreveu o cntico Mário da Silva Brito.


Os e a pintura ajudou a defla­ grar o movimento moder­ nista, foi graças à música que os ingressos postos à venda no Teatro Municipal, para as noi­ tes de 13. 15 e 17 de fevereiro, se esgotaram na hora. A maioria dos "burgueses’' presentes à cena inaugural do modernismo paubrasil não estava lá para ouvir poesia sem rima. ver borrões emoldurados ou assistir a pales­ tras sobre um futuro para eles distante e alheio. Estava lá para ouvir a pianista Guiomar Novaes e admirar o compositor Heitor Villa-Lobos. • Guiomar Novaes, a pequenaprodígio. desde cedo se revelara tão talentosa que, aos 13 anos. em 1909, foi mandada a Paris para estudar com Debussy. Aos 15 anos. ganhou o grande prêmio do Conservatório de Paris —e foi ovacionada de pé. Passou a per­ correr o mundo, num turbilhão de consagração e fama. Em março de 1921. bateu o recorde de lota­ ção do Camegie Hall. em Nova York. Era a artista brasileira mais conhecida no exterior. Cada apre­ sentação no Brasil era sinônimo de lotação esgotada, tumulto na porta, multidões ensandecidas. E Guiomar fora escalada para tocar na quarta-feira. 15 de fevereiro. De fato. tocou, foi aclamada co­ mo sempre e passaria ilesa pela polêmica Semana se não tivesse denunciado, cm carta aberta, “o caráter bastante exclusivista e in­ tolerante que assumiu a primeira festa da arte modema (...) em re­ lação às demais escolas de mú­ sica das quais sou intérprete e admiradora”. Guiomar Novaes estava indignada com o deboche a Chopin. Ou estaria com ciúme do sucesso de Villa-Lobos?

S o n s de V illa -L o b o s

S

“A música de Viíía-Lobos é uma das mais perfeitas e?(pressões da nossa cuítura. ‘Faípita neía a chama da nossa raça, do que Há de mais èeío e originai na raça brasiíeira. Tda não representa um estado parciaf da nossa psique. 9 ^ é a índoíe portuguesa, africana ou indyena, ou a simpCes simBiose dessas quantidades étnicas que perceèemos neía. 0 que eía nos mostra é uma entidade nova, o caráter especiaíde um povo que principia a se definir íimemente, num meio cósmico digno dos deuses e dos Heróis. ” ‘Jipnaíd de CarvaíHo 17 de fevereiro de 1922

Aos 35 anos. o maestro Hei­ tor Villa-Lobos era um fenômeno da arte modema brasileira. A pró­ pria programação da Semana fo­ ra feita para realçar esse fato: Villa-Lobos era o único artista com participação central durante os três dias do evento. Na primei­ ra noite, toda a parte musical do programa era composta por obras suas, interpretadas, entre outros, por sua mulher Lucília. Na se­ gunda noite, ele teria a honra de ver suas composições tocadas pela fabulosa Guiomar Novaes. Por fim. na terceira e última noi­ tada, o próprio maestro execu­ taria suas obras mais conhecidas. Apesar do início confu.so, a apresentação de Heitor VillaLobos foi consagradora. Ao en­ trar no palco, o compositor vestia casaca, conforme o figurino. Po­ rém. atacado por ácido úrico nos pés. calçava... chinelos. Supon­ do tratar-se de uma manifestação “futurista”, o público tentou ba­ gunçar 0 concerto. Mas VillaLobos foi impondo seu talento e terminou a noite sob aplausos es­ trondosos. Desde 1915. Villa-Lobos {à esquerda) deixava ousadias har­ mônicas. rítmicas e tímbricas in­ vadirem seu aprendizado tradi­ cional. Uma longa viagem pelo Brasil, realizada de 1905 a 1913. o levara a se apaixonar pelos vio­ leiros nordestinos e pelos sons populares do Brasil. A alquimia sonora que ele forjou imprimiria o conceito de “brasilidade” à mú­ sica emdita. Depois da semana. Villa-Lobos ganhou uma bolsa do governo de São Paulo e par­ tiu para a Europa. Lá. sua músi­ ca encantaria Stravinski, Varèse; Prokofiev e De Falla, consagran­ do-o definitivamente.

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onteiro Lobato ficara famoso em 1916 com sua célebre seu Jeca Tatu simbolizava o caipira até então esquecido ou ro­ carta ao jomal “O Estado de S. Paulo” protestando conü-a mantizado —tudo o tomava um apóstolo do espírito modemo. as queimadas feitas pelos cafeicultores no oeste de São Paulo. Além do mais, ao fundar, em 1920, a editora Monteiro Depois dela. além de se tomar uma figura pública respeitada, vi­ Lobato e Cia., ele inovaria a história da indústria editorial no rou articulista do jomal. Foi assim que, em dezembro de 17, pu­ Brasil, profissionalizando e sistematizando a produção de li­ blicou a resenha “Paranóia ou Mistificação?”, devastando a ex­ vros, traduzindo e publicando, inovando nas capas e lutando posição de Anita Malfatti. O respeito que sua opinião despertava para difundir o gosto pela literatura num país semi-analfabeto. era tal que vários quadros já vendidos foram devolvidos. Tanto que, entre as centenas de autores que sua casa editorial Até hoje os cnticos discutem o que teria levado Lobato a viria a publicar, estariam os modernistas (e ex-inimigos) Oster a recaída furibunda e conservadora. Afinal, com a publica­ wald de Andrade, Menotti dei Picchia e Guilherme de Almei­ ção de “Umpês”, em 1918, e, principalmente, de “Idéias de da. Como se não bastasse. Lobato foi também um dos únicos Jeca Tatu”, dois anos depois. Lobato (à direita) se alinharia aos intelectuais a descobrir o talento de Lima Barreto —e, nesse modernistas. Mais do que isso: seu estilo cáustico, seu pendor particular, ele .superou os modernistas. Anita Malfatti, porém, para a ironia e a caricatura, a mordacidade e o azedume com que jamais lhe perdoaria o deslize inicial.

A Cultura: de Machado ao Pau-Brasil 207


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B r a s il e ir o V o a d o r

uinze anos antes de os poetas “antropófagos” virarem o Brasil de Com seis metros de diâmetro e um invólucro de seda japonesa en­ pernas para o ar, um dândi brasileiro que vivia em Paris tinha ele­ vernizada. foi “o menor, o mais lindo e o único que teve nome. Brasil”, en­ vado o país às nuvens. Alberto Santos Dumont, “o brasileiro voa­ tre todos os balões que Santos Dumont viria a fazer E o único esférico, já dor”, era neto de um joalheiro francês que se mudara para Minas Gerais no que, baseado nas experiências que Henri Giffard fizera ainda em 1852, o início do século 19 e filho de um fazendeiro que, depois de ter ficado para­ jovem brasileiro decidiu projetar balões alongados, com a forma de um lítico devido a uma queda do cavalo, retomou para Paris em 1891. Alberto charuto —e impulsionados por um motor a gasolina. Vieram os balões de nascera na fazenda do pai, no interior de Minas, em 1873. Desde criança números 1, 2, 3,4 e 5. Com o número 6, Santos Dumont ganhou, em 12 de era obcecado pela idéia de fazer o homem voar. Por isso, a mudança para outubro de 1901, o Prêmio Deutsch de la Meurthe (de 125 mil francos), Paris foi uma bênção para o jovem estudante. Ele logo se matricu­ oferecido para o primeiro balonista que, partindo da periferia de lou nos cursos de física, mecânica e eletricidade. Todavia, Paris, circundasse a torre Eiffel e retomasse ao ponto de par­ antes de conseguir elevar-se nos ares, apaixonou-se pelo tida em menos de meia hora. De repente, em toda Paris só í motor de combustão interna, apresentado ao público na ' se falava no “monsieur Santôs” (como pronunciavam Exposição do Palácio das Indústrias, em Paris, em seu nome em francês). Não era para menos: não bas­ 1891. Apesar do barulho, do mau cheiro e dos en­ tassem seus feitos aéreos, Santos Dumont era uma guiços frequentes. Santos Dumont logo vislum­ figura notável. Baixinho, magro e bigodudo, “San­ brou o futuro dos transportes naqueles estranhos tôs ’ popularizara os temos com listras verticais veículos movidos a motor. Ao retornar a São (que usava para disfarçar a altura). Seu chapéu Paulo, em 1892, em companhia do pai, trouxe panamá, enterrado na cabeça e com as abas caí­ um automóvel Peugeot e o fez rodar pelas ruas das. também entrou na moda. Além do mais, ele da cidade. É provável que esse tenha sido o pri­ inventou o relógio de pulso (que havia projetado meiro carro a circular na América do Sul. Mas e encomendou à joalheria Cartier, sem se preo­ Alberto não estava satisfeito com o retomo aos cupar em patenteá-lo, embora fosse bafizado de tristes trópicos e pediu ao pai para voltar para ‘‘modelo Santôs”), o hangar (onde guardava suas Paris, onde pretendia dar continuidade ao estudo aeronaves) e um e.squi movido a motor. E isso era apenas o começo. A consagração definitiva estava de uma nova disciplina, a única que de fato o inte­ ressava: a aerostação. O velho Henrique Dumont de­ marcada para 23 de outubro de 1906. cidiu então doar dois terços de sua fortuna para os fi­ Nesse dia. Santos Dumont concretizou sua principal obsessão: fez voar um objeto mais pesado do que o ar. Era lhos, concedendo também a emancipação jurídica Alberto, que ainda não completara 18 anos. o lendário aeroplano 14-Bis, o pai de todos os aviões. O 14-Bis Naquele mesmo ano, o jovem Santos Dumont estava de volta a {no alto da página) tinha asas, um motor de 24 cavalos e foi. no início, Paris. Em breve, toda a cidade e, a seguir, o mundo ouviriam falar dele. erguido pelo balão número 14 —daí seu nome— e, a seguir, puxado por um Antes, porém, a elite parisiense .se deleitaria com as corridas de automóvel burrico, antes de voar de forma autônoma. Em 1909, os irmãos americanos que o jovem brasileiro promovia, vencendo-as frequentemente. Em 1898, Wright exibiram um modelo aperfeiçoado do avião e garantiram que em já tendo trocado seu Peugeot por um possante De Dion, ele bateu o recorde 1903 —antes de Santos Dumont, portanto— teriam realizado vôos curtos, de velocidade da época: chegou a de.senvolver espantosos 30 quilômetros em segredo. Como não puderam provar o que diziam. Santos Dumont foi por hora. Nesse mesmo ano, chegou a fazer mais de 30 passeios em balões, reconhecido pela Federação Aeronáutica Internacional como “Pai da Avia­ que alugava por 250 francos por “viagem”. Em 4 de julho de 1898, subiria ção”. Em julho de 1932, Santos Dumont suicidou-se no Guarujá (SP). Dizaos céus dentro do primeiro balão que ele mesmo projetara. se que estava deprimido com o uso bélico dado a .seu invento.

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208

H is tó r ia d o B ra s il


D os 18 '' os quartéis, a cada dia o comentário se tomava mais frequente e temerário: “A procissão vai sair”. O Clube Militar fo­ ra fechado —e, o que era mais ultrajante, a in­ terdição fora feita com base na lei de 1921, contra “associações nocivas à sociedade”. O ma­ rechal Hermes da Fonseca fora preso e, apesar de domiciliar e com duração de apenas um dia, a pena lhe fora imposta de forma “arbitrária e in­ justa”, .segundo os militares. Não era só: apesar de Artur Bemardes negar a autoria das cartas nas quais se achincalhava o marechal Hermes, em particular, e o Exército, em geral, grafólogos a.s.seguravam que a letra era realmente de Bemar­ des, presidente eleito, cuja p>osse estava marcada para dali a quatro meses. Mais: segundo seus ini­ migos de farda, Artur Bemardes fraudara as elei­ ções e só por isso tinha vencido o pleito contra Nilo Peçanha, o candidato que recebera o apoio dos quartéis. Era preciso fazer alguma coisa —e o mais rapidamente possível. Por esse motivo, “a procissão” ia sair. A conspiração militar para derrubar o gover­ no de Venceslau Brás e impedir a posse de Artur Bemardes deveria começar no forte de Copaca­ bana. Quem liderava a tropa era o capitão Eucli­ des Hermes, filho de Hermes da Fonseca —com o auxílio de vários tenentes, entre os quais Si­ queira Campos e Eiduardo Gomes. À 1 hora da manhã de 5 de julho de 1922, um dos canhões do forte foi disparado: era a senha para os demais fortes do Rio de Janeiro aderirem ao levante. Mas

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o tiro de pólvora seca ecoou solitário pela baía. As outras guarnições desistiram de juntar-se à conspiração. “Fomos traídos!”, gritou o tenente Siqueira Campos. “Perdemos a revolução. Só res­ ta nos entregarmos como covardes ou sairmos lutando por aí.” Ao amanhecer, o forte de Co­ pacabana {abaixo) foi bombardeado por dois encouraçados e cercado pelas tropas leais ao go­ verno. “Não queremos levar ninguém ao sui­

cídio”, voltou a dizer Siqueira Campos. “Esta­ mos cercados por 4.000 soldados. Quem qui.ser abandonar o forte, deve fazê-lo agora.” Dos 301 homens, 273 deixam a guamição. Os 28 restantes estão prontos para tudo. O capitão Euclides Hennes da Fonseca vai ao Catete nego­ ciar com o ministro da Guerra, o civil Pandiá Ca­ lógeras. Chegando lá, é pre.so. No forte, .seus com­ panheiros dividem a bandeira do Brasil em 28

restes pedaços e decidem sair às mas, .seguindo em di­ reção ao palácio do govemo. Começa a Marcha da Morte. Lentamente, amiados e de peito estufa­ do, eles caminham pela avenida Atlântica {acima). Na altura do hotel de Londres, restam apenas 18; os demais desertaram. A eles, junta-se um tran­ seunte civil, o engenheiro gaúcho Otávio Cor­ reia. Nas mas laterais, 4.000 .soldados aguardam as ordens para enfrentá-los. Ouvem-se alguns tiros e, agora, são apenas dez os homens que marcham para a morte —entre eles, Correia. Uma nova sa­ raivada de tiros e oito cadáveres jazem no chão da avenida. Sobrevivem apenas os tenentes Si­ queira Campos e Eduardo Gomes —justamente os dois líderes do movimento que entraria para a história com o nome de Os 18 do Forte. A quixotesca revolução dos 18 do Forte teria profundas consequências. Foi a primeira eclosão do movimento tenentista —a revolta dos quar­ téis em oposição ao regime oligárquico que em breve representaria a revolta da classe média contra os desmandos da elite café-com-leite. O dia 5 de julho se tornaria uma data marcante, na medida em que nessa data haveria, no futuro, outras insurreições militares. Por fim, oito anos mais tarde, em 1930, o tenentismo terminaria chegando ao poder, sob a liderança de Getúlio Vargas. E os tortuosos cami­ nhos da história acabariam por tomar Vargas ini­ migo número um do mais heróico dos “tenentes”: o capitão Luís Carlos Prestes, líder da épica mar­ cha tenentista conhecida como Coluna Prestes.

Dos 18 do Forte à Coluna Prestes 209


Político, jornalista, poeta e estancieiro. Joaquim Francisco de Assis Brasil (1858-1938) era o líder natural dos opositores ao govemo Borges de Medeiros. Eleito deputado em 1884, ainda nos tempos do Império, fo i ministro na Argentina em 1890 e embaixador na China em 1893. Dois anos antes, A.'isis Brasil rompera com o Partido Republicano e com Júlio de Castilhos. Depois dos trágicos acontecimentos da Guerra Civil de 1893, decidiu afastar-se da política. Mas. em 1922, não pôde recusar o convite dos federalistas e dos democratas e voltou à ativa para liderar a revolta de metade dos gaúchos contra Borges.

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is t ó r ia d o

A R e v o lu ç ã o d e eis meses após o episódio dos 18 do Forte e apenas 71 dias depois da posse do presidente Artur Ber­ nardes, uma nova revolução sacudiria o Brasil, dessa vez por mais tempo e com maior derramamento de sangue. Nesse caso, porém, tratava-se de um confronto local —embora, a partir dele, o movimen­ to tenentista adquirisse novo fôlego e se sentisse preparado para se disseminar por outras regiões do país. A Revolução de 1923 eclodiu a 25 de janeiro, dia da quarta posse consecu­ tiva de Borges de Medeiros no govemo do Rio Grande do Sul. A Constituição estadual gaúcha —feita por Júlio de Castilhos em 1891, à sua imagem e se­ melhança— era de cunho autocrático e positivista. Ainda assim, estabelecia que, para suceder a si mesmo, um governador teria de receber 75% dos votos. Com a certeza de que tal índice só seria obti­ do por meio da fraude mais descarada, federalistas, estancieiros e democratas —inimigos mortais dos castilhistas e de seu herdeiro político, Borges— deixaram momentaneamente de lado suas diver­ gências e se fundiram numa Aliança Li­ bertadora para extinguir o reinado do Chimango, como Borges fora apelidado. Sob a liderança de Assis Brasil, os

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B r a sil

1923

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rebeldes se intitularam “libertadores” e iniciaram o combate a Borges. Em ja­ neiro de 1923. quando o govemo anun­ ciou que “vencera” as eleições de no­ vembro de 1922 com a margem exigida pela Constituição, a guerra rebentou. Foi quase uma repetição do que ocorrera na Guerra Civil de 1893: os republicanos de Borges, que se denominavam “lega­ listas”, estavam mais bem armados e em maior número. Enfrentaram com moder­ nas metralhadoras os exércitos de lanceiros libertadores (que, como em 1893, usavam o lenço vermelho ao redor do pes­ coço). Além dos 3.500 homens da Bri­ gada Militar (fundada por Castilhos), Borges contava com os 8.500 soldados dos chamados “corpos provisórios”. Esses ferozes batalhões de peões eram liderados pelos caudilhos da nova geração: Flores da Cunha (primeiro à esquerda na foto acima), Osvaldo Ara­ nha (terceiro a partir da esquerda) e Ge­ túlio Vargas. Flores comandou a Briga­ da do Oeste e venceu os rebeldes em cada combate que conseguiu provocar. Os libertadores também tiveram seus he­ róis, entre eles. Batista Luzardo e Honório Lemes. A revolução durou dez meses e mais de mil homens morreram. Desde o começo do conflito, Assis

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Brasil tentou convencer Artur Bemar­ des a não reconhecer a “vitória” eleito­ ral de Borges e a intervir no Rio Grande do Sul, como fizera na Bahia e em Per­ nambuco e logo faria no Rio de Janeiro —punindo os Estados que formaram a Reação Republicana, contrária a sua can­ didatura. Apesar de ter sido justamente Borges o principal articulador da Rea­ ção, Bernardes sabia que intervir no Rio Grande do Sul seria muito arrisca­ do. E, de início, não envolveu o govemo central no conflito. Mais tarde, decidiu aliar-se ao próprio Borges, forçando a bancada gaúcha a apoiar, no Congresso, sua intervenção no Rio de Janeiro para derrubar Nilo Peçanha. Uma vez consolidado seu poder no Rio de Janeiro, Bernardes começou a forçar Borges a fazer certas concessões aos libertadores. Em 14 de dezembro de 1923, na estância de Assis Brasil, foi as­ sinada a paz entre legalistas e libertado­ res, conhecida como Pacto de Pedras Al­ tas. Borges continuou no poder, mas teve de mudar a Constituição: as reeleições ficaram proibidas e o govemador não po­ deria indicar o seu vice. Foi uma grande vitória de Bemardes. Nos quartéis da fronteira, porém, alguns tenentes acha­ vam que a luta estava só no começo.


A R e v o l u ç ã o P a u l ist a ara toda uma geração de jovens militares, o dia 5 de julho de 1922 marcou o início da história con­ temporânea. pois a sublevação “herói­ ca” dos 18 do Forte seria o estopim duma série de revoltas que acabaram destruindo a República Velha. A data se tomara tão simbólica que, no segundo aniversário do levante do Forte de Copacabana, a 5 de ju­ lho de 1924, in.surreições militares eclodi­ ram em São Paulo, Sergipe e Amazonas. Os movimentos do Norte foram domina­ dos e o govemo conseguiu manter os quar­ téis sob controle. Em São Paulo, porém, os rebeldes tomaram a capital do Estado e a ocuparam por três semanas. Es.se movimento foi comandado pe­ lo general gaúcho Isidoro Dias Lopes (veja texto à direita), pelo major Miguel Costa, comandante do Regimento de Ca­ valaria da Força Pública, e pelo tenente Joaquim Távora. Entre os combatentes mais destacados figuraram os tenentes Eduardo Gomes (líder dos 18 do Forte, que retornou do exílio para participar da luta), Juarez Távora (irmão de Joaquim), o feroz João Cabanas e o ardiloso Filinto Míiller. O objetivo do golpe era a depo­ sição do presidente Artur Bemardes —o inimigo número um dos militares. Embora planejada com antecedência.

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de

1924

a revolução começou caoticamente. Às gira de madrugada. Assim, os rebeldes 5 horas da manhã de 5 de julho, 2.600 tomaram o poder. Mas não por muito soldados rebelados tomaram com facili­ tempo: Artur Bemardes ordenou o bom­ dade os quartéis do Exército e da Força bardeamento aéreo de São Paulo, embo­ Pública, no bairro da Luz, em São Pau­ ra soubesse que isso provocaria a morte lo, mais as estações de trem da Luz e da de civis inocentes. As bombas deixaram Sorocabana. Ingenuamente, contudo, os a cidade entregue ao caos. Em meio ao revoltosos esqueceram-se de cortar as co­ desespero da população, inúmeros arma­ municações telegráficas e telefônicas, e zéns, mercados e depósitos foram saque­ a notícia da rebelião chegou à capital fe­ ados. A partir do dia 16 de julho, com 15 deral, onde Artur Bemardes se preparou mil soldados fiéis ao governo cercando para combatê-la. Antes da chegada das a cidade, iniciaram-se as negociações pa­ tropas legalistas, os rebeldes abriram fo­ ra o armistício. go contra o palácio dos Campos Elísios, A princípio, o general Isidoro con­ onde estava o presidente do Estado, Car­ dicionou a assinatura de um acordo à entrega do poder a um govemo provisó­ los de Campos. No dia 6, o primeiro contingente das rio e à convocação de uma Constituinte. tropas federais chegou a São Paulo, mas Bemardes recusou a proposta. A seguir, parte dele aderiu aos revoltosos. No in­ os revoltosos prometeram depor as ar­ terior do Estado, fazendeiros e comer­ mas se fossem anistiados. Quando es­ ciantes armaram voluntários para com­ sa reivindicação também foi negada, as bater o golpe, formando os chamados forças rebeldes decidiram abandonar a “pelotões patrióticos”. Ao anoitecer do capital, de trem, partindo no dia 27 de dia 8, impossibilitados de tomar a cida­ julho rumo a Foz do Iguaçu (PR). Em de com .seus blindados pesados demais outubro de 1924, alguns tenentes gaú­ (acima) e incapazes de expandir a luta chos, inconformados com o Pacto de Pe­ até Santos, os rebeldes enviaram um men­ dras Altas, se insurgiram e começaram a sageiro ao palácio bombardeado. Iam pro­ marcha para se unir aos paulistas no Pa­ por a rendição em troca de anistia. De­ raná. Em abril de 1925, os dois grupos pararam com o palácio vazio. se juntaram, formando o que viria a ser O presidente Carlos de Campos fu­ o embrião da Coluna Prestes.

Veteraiw da Revolução Federalista de 1893 e das lutas contra Floriano. o coronel gaúcho Isidoro Dias Lopes, um militar reformado, foi convidado pelos tenentes paulistas para assumir o comando da Revolução de 1924. Ele chegou à cidade de trem, vindo do Rio de Janeiro, na noite de 4 de junho. Logo .se de.sentendeu com o major Miguel Costa, o outro chefe do levante. Foi de h id tm a deci.ião de deixar a cidade e partir para o Paraná Apesar de sugerir que os rebeldes gaúdws se juntassem aos pauli.stas, Isidoiv se mostrou contra o início da marcha da Coluna Prestes. Ele queria depor as armas. Em 1932, participou do levante contra Vargas.

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A C oluna P partida das forças rebeldes de São Paulo, no dia 27 de ju­ lho de 1924. foi atribulada e dramática. O tenente João Cabanas, principal líder dos saques aos mercados públicos da cidade, ficou na retaguarda da marcha, combatendo com feroci­ dade as tropas legalistas que se lançaram em perseguição aos rebeldes. Em setembro, ainda sob o comando do general Isidoro Dias Lopes, os revoltosos conquistaram Guaíra, no Paraná, e lá estabeleceram seu quartel-general, enfrentando as tropas coman­ dadas pelo general Rondon em combates sangrentos que perdu­ raram até abril de 1925. Antes do início da campanha militar no Paraná, alguns tenentes —entre eles Juarez Távora e João Al­ berto— partiram para o Rio Grande do Sul a fim de insuflar a revol­ ta nos quartéis onde grassava a insatisfação com o Pacto de Pedras Altas, que dera fim à Revolução de 1923. Assim, em outubro de 1924. a insurreição foi deflagrada também no Sul. com o capitão Luís Carlos Prestes assumindo o comando do 1° Batalhão Ferroviário, com sede em Santo Ângelo. Logo em seguida, as guarnições de São Luís. São Borja e Uruguaiana. todas no oeste do Rio Grande do Sul, também se rebe­ laram. Em São Borja. o levante teve a ajuda do tenente Siqueira Campos, que retornara clandestinamente do exílio em Buenos Ai­ res. Em Alegrete, o caudilho Honório Lemes, veterano de 1893 e um dos líderes dos libertadores em 1923, juntou-se aos rebeldes, com seu exército "particular" de 800 homens. Ainda assim, Honó­ rio Lemes foi uma vez mais vencido pelas tropas de Flores da Cunha, no combate de Guaçu-Boi. Lemes e os tenentes Távora, João Alberto e Cordeiro de Farias se refugiaram, então, brevemente, na Argentina. Apenas São Luís Gonzaga permaneceu sob o controle de Prestes. Contando com cerca de 3.000 homens, Luís Carlos Prestes, cercado por 10 mil sol­ dados legalistas, passou cerca de dois meses imobilizado na cidade, em posição francamente defensiva.

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Em tins de dezembro de 24, obedecendo a instruções do gen­ eral Isidoro Lopes, os rebeldes gaúchos foram comunicados de que deveriam marchar para o Norte, atravessando Santa Catarina, para juntar-se GO aos rebeldes paulistas em Guaíra. Mais de mil gaú­ chos desertaram. Os 2.000 restantes, sob o comando de Prestes, romperam o cerco e se puseram em movimento. Depois de batalhas ferozes, chegaram ao Paraná em abril de 25. No dia 12, numa reunião entre os generais Isidoro e Bernardo Padilha, o major Miguel Costa e o tenente Prestes, decidiu-se prosse­ guir a marcha e invadir Mato Grosso. Clevelflndia'^ Formou-se então a P Divisão Revo­ 5ANTA catai ; lucionária, que passaria à história com o Palmeira floránópo iito Ângelo 'v___ nome de Coluna Miguel Costa-Prestes, Sõo B 0 t|0 < £ ^ V ^ .l,u h / ’••..^^TuparKiretS ou simplesmente Coluna Prestes. Costa ^ofto^legie Utuguaianj>-A..-> foi nomeado general revolucionário e N RIO GRANDE Prestes, coronel. Composta por quatro DO SUL / destacamentos —liderados por Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira Campos e Djalma Dutra (também promovidos a coronel pelo comando revolucionário)— , a Coluna protagonizaria, ao longo de dois anos, a marcha mais épica da história do Brasil.


A M a r c h a É p ic a o percorrer cerca de 25 mil quilômetros por praticamente todos os Estados do Brasil —mais alguns trechos do Paraguai e da Bolívia—, de abril de 1925 a junho de 1927, a Coluna Prestes serviria de mo­ delo para a grande marcha que Mao Tse-tung e seu exército revolucionário realizariam na China, 20 anos mais tarde. Seria também um dos episódios mais dramáticos e simbólicos da luta revolucionária no Brasil —com seu quixotismo, seus sonhos e seus equívocos; a imensa distância entre suas intenções e suas ações; a nulidade quase total de .seus resultados práticos; seu heroísmo vão e sua violência latente. O objetivo principal da Coluna Prestes, decidido na reunião de 12 de abril de 1925, era o de percorrer todo o interior do Brasil para propagar o ideal revolucionário e conscientizar a população rural, fazendo-a sublevarse contra o domínio exploratório exercido pelas elites “vegetais”. Os revo­ lucionários tinham também a esperança de despertar para si a atenção do governo —o que, supostamente, facilitaria o surgimento de novas revoltas nos centros urbanos. O contingente da Coluna Prestes nunca ultrapas.sou 1.500 pes­ soas, em média —apesar i/ S õ o Luis de ser praticamente ’ 'O (ortale zo Q lpu impossível calcular ceará' MARANHÃO / ’^Kl.fíRAN^DE números mais exatos, Ginjoú Maíõe' ^ DO NOftTE 0^ u e l Q N otol dado o fato de que ^....Miii houve sempre muitas deserções e novas ^ RA«A^A Recife adesões, além da fre­ RNAAmiCO quente entrada e saída AtAG^S de vários participantes ;«i|ioabo , transitórios. Di.s|X)sta a evi'R e r o 0anío4

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Botolhos mais importantes ------- ^ —

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Marcho do Coluna Prestes oté Foz do Iguaçu

► Marcho do Coluna Prestes (ido)

------- ► Retorno do Coluno Prestes

C^&^ahbeitos

------- Marcho de Cleto Campeb

O Soito Novo Montes Clofos

------- ► Périplo de Siqueira Campos

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........► Destacamento de Joflo Alberto

MINAS GERAIS

------- ► Oestocomenfo de Djolmo Dutro

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------- ► Potiulho de Aíi Freire ------- ► Destocomento de Cordeiro de Forios ....... ► Incursõo de Miguel Costo ........► Patrulho de Joflo Cobanos

^ R J (^ E (JANEIRO Distrito Federal

tar 0 choque frontal com as tropas legalistas do governo, a Coluna se deslocava rapidamente de um vilarejo para outro —e seu maior efeito parece ter sido Inspirar o mais profundo terror entre as populações rurais à simples menção da palavra "revolução”. A marcha da Coluna Prestes começou no final de abril de 1925, quan­ do os revolucionários cruzaram o rio Paraná, penetrando no Paraguai para seguir em direção a Mato Grosso {acompanhe a linha vermelha no mapa ao lado). Depois de passar por Dourados, Campo Grande e Baús. a Colu­ na cruzou Goiás, parte de Minas Gerais, novamente Goiás e pros.seguiu rumo ao Nordeste. Em novembro de 1925. a tropa alcançou o Maranhão, onde o tenente-coronel Paulo Krüger foi preso e enviado a São Luís. Em dezembro, os revolucionários chegaram ao Piauí, travando longo e san­ grento combate em Teresina contra as forças destacadas para defender a capital do Estado. Rumando em direção ao Ceará, em janeiro de 1926. a Coluna teria outra baixa importante: Juarez Távora foi capturado na serra de Ibiapina. A Coluna atravessou o Ceará, onde o deputado Floro Bartolomeu, com o apoio do padre Cícero Romão do Juazeiro, enviou um emissário ao sertão convidando o cangaceiro Lampião para combater a Coluna. Mas Lampião e o grupo de Prestes nunca chegaram a se encontrar {leia nas página.^ 215 e 216). Depois de cruzar o Ceará e o Rio Grande do Norte, o exército de Carlos Prestes invadiu a Paraíba em fevereiro, enfrentando, na vila de Piancó, a ferrenha resistência comandada pelo padre Aristides Ferreira da Cruz, que acabou preso e degolado pelos rebeldes. Pros.seguindo em direção ao sul, a Coluna atravessou Pernambuco e a Bahia, rumando para o norte de Minas Gerais. Na cidadezinha de Taiobeiras (MG), em face da grande concentração de tropas legalistas em Minas Gerais, o comando da Coluna decidiu inter­ romper o avanço para o sul e realizar a manobra chamada de "laço hún­ garo", iniciando uma contramarcha para a Bahia, o Piauí. Goiás e Mato Grosso, em direção ao exílio na Bolívia {acompanhe a linha azul no mapa ao lado). Em outubro de 1926, depois de uma jornada estafante, a Coluna esta­ va de volta a Mato Grosso. Em março de 1927, após a penosa travessia do Pantanal, parte dos integrantes da Coluna, comandados por Siqueira Cam­ pos, chegou ao Paraguai. O restante, sob a liderança de Prestes, ingressou na Bolívia. Após a Revolução de 30. todos os chefes revolucionários retornariam ao Brasil para ocupar cargos no governo Vargas —todos, me­ nos Luís Carlos Prestes. No exílio, ele se tornara marxista e logo iniciaria a luta pela Revo­ lução Comunista, dentro e fora do Brasil. Embora o apoio da população rural não passasse de ilusão e as possibilidades de êxito militar tivessem sempre sido nulas, a Coluna Prestes surtiu um efeito simbólico entre os setores da população urbana insatisfeitos com a elite dirigente. Para esses setores, havia esperanças de mudar os destinos da República, como pare­ cia mostrar a marcha heróica dos “cavaleiros da esperança”.

Coluna Prestes marchou por 674 dias, percorrendo mais de 24,5 mil km. O contingente bási­ co girava em tomo de 800 homens. Os revolucionários nunca ficaram mais de 48 horas em lugar algum. Cerca de 100 mil cavalos foram usados pelos rebeldes —a maior parte tomada de fazendas à beira do caminho. Mais de 30 mil reses foram abatidas para alimentar a tropa. Nos 53 combates travados com as forças do govemo, morreram 600 soldados e 70 oficiais da Coluna Prestes. Mais de 80% dos combatentes encerraram a marcha com pelo menos uma cicatriz de ba­ la. De todos os revoltosos, o mais violento era o tenente João Cabanas (à direita), chefe da chama­ da Coluna da Morte (título também do livro que redigiu em 1929, à esquerda). Cabanas não pôde seguir a marcha da Coluna Prestes porque adoeceu em fevereiro de 1925. Antes disso, porém, nos saques aos mercados de São Paulo, na cobertura que deu à fuga dos rebeldes e, sobretudo, ao tomar das tropas legalistas as cidades de Formigas e Catanduvas (PR), revelou-se o mais cruel dos revolucionários.

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ilho do oficial do Exército Antônio Pereira Prestes e Em maio de 1930, depois das épicas peripécias da co­ da professora primária dona Leocádia, Luís Carlos luna que adquiriu seu nome, Prestes, exilado na Argenti­ Prestes nasceu em Porto Alegre, em 3 de janeiro na, recusou-se a se envolver nas conspirações que resulta­ de 1898. Estava destinado a se tomar um dos persona­ ram na Revolução de 30. Ao lançar um manifesto no qual gens mais lendários da história do Brasil. Olhando-o, se declarava socialista revolucionário, condenou o apoio porém, seria impossível fazer a profecia. “Pequeno de esta­ dado por seus companheiros às oligarquias dissidentes e tura. o culote subindo-ihe pelos joelhos, montado a cava­ anunciou o início de um novo ciclo de luta armada. Mais lo com a .sela militar ladeada de alforjes cheios de mapas, tarde, Prestes se converteu ao comunismo, viajando para constitui um conjunto grotesco, incompatível com a tradi­ a União Soviética em novembro de 1931. Retomou ao ção de um chefe gaúcho, sempre vestido a caráter, temerá­ Brasil em abril de 1935, junto com a espiã Olga Benário, rio, desafiador, espetacular”, diria dele o tenente João Al­ que se tomaria sua mulher, para liderar, desastradamente, berto, um dos principais membros da Coluna. A despeito a Intentona Comunista de novembro de 35. do depoimento insuspeito. Prestes (ao centro, na foto da O movimento, mal-articulado, foi duramente reprimi­ esquerda) veio a se tornar um homem “temerário, desa­ do por Vargas (leia em “O Estado Novo”, página 225). fiador e espetacular”. Mesmo rompendo quase definitiva­ Perseguidos ao longo de três meses. Prestes e Olga foram mente com seus laços gaúchos, Prestes nunca deixaria de presos em março de 1936. Deportaram Olga, judia e co­ ser uma espécie de caudilho platino: era um sujeito indó­ munista, para a Alemanha nazista (quadro ao lado). Solto mito, autoritário, teimoso, decidido e controverso. Apesar em 1945, Prestes aliou-se a seu maior inimigo, Getúlio da figura quixotesca, quase chapliniana, ele se transforma­ Vargas e, como chefe do então legalizado Partido Comu­ ria no Cavaleiro da Esperança, projetando sua sombra e nista, elegeu-se senador, com a maior votação do país. Em sua presença sobre as quatro décadas mais agitadas da 48, com o PC de novo na clandestinidade, Prestes fugiu política brasileira. do Brasil e viveu anos na União Soviética, da qual .se tor­ Matriculado no Colégio Militar do Rio de Janeiro, nou vassalo leal. Em 57, Prestes obteve o direito de Prestes se formou tenente-engenheiro na Escola Militar voltar ao país por mandado judicial e apoiou João Gou­ do Realengo, na turma de 1920, da qual faziam parte lart em 1961. Com o golpe militar de 64, viu-se forçado a Siqueira Campos e Eduardo Gomes —os líderes dos 18 fugir outra vez —deixando para trás documentos que com­ do Forte. Em 29 de outubro de 1924, de volta ao Sul, ele prometeram vários companheiros. Retomou ao Brasil de­ forjaria um telegrama para sublevar o T Batalhão Ferro­ pois da anistia de 1978 e participou da campanha das Diviário de Santo Ângelo, para o qual fora destacado. Após retas-Já. Stalinista ferrenho, conspirador e conservador, liderar a revolta dos tenentes no Rio Grande do Sul, Pres­ disciplinado e disciplinador, doutrinário e doutrinador, tes conseguiu romper o cerco das tropas federais, seguin­ dúbio e drástico. Prestes morreu aos 92 anos, em 1990, do para o Paraná numa marcha audaciosa e se unindo aos mantendo segredo e alimentando o mito de suas várias e rebeldes paulistas. fracassadas “ações revolucionárias”. 1

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B r a sil

A BELA ESPIA Charmosa, inteligente, revolucionária e decidida, a alemã Olga Benário entrou para o Partido Comunista da Alemanha em 1923, aos 15 anos. Tentou alistar-se no Exército Vermelho em 1926. Mudou-se para Moscou em abril de 1928, depois de resgatar espetacularmente um companheiro da prisão, em Berlim. Em 1934, aos 27 anos, foi mandada ao Brasil para acompanhar e “controlar" Prestes. Os dois se apaixonaram. Olga estava grávida ao ser presa em março de 1936. O govemo Vargas a deportou para a Alemanha nazista. Na prisão, Olga deu à luz uma menina, em novembro de 1936. Morreu na câmara de gás, na Páscoa de 1942. A filha, Anita Leocádia, .sobreviveu.


F loro Bartolomeu uando a Coluna Prestes entrou no Ceará, no iní­ cio de 1926. o deputado Floro Bartolomeu Costa —após breve consulta ao seu “padrinho'’ político. 0 padre Cícero Romão — resolveu enviar um mensa­ geiro atrás do bando do famige­ rado cangaceiro Virgulino Fer­ reira da Silva, o Lampião. Em troca da patente de capitão do Exército, além de um suprimen­ to de modernos rifles Mauser, Floro Bartolomeu decidiu con­ vidar o rei do cangaço para en­ frentar os homens de Luís Carlos Prestes. Se pudesse abandonar suas funções políticas, Floro Bartolomeu Costa certamente partiria para o sertão disposto a enfrentar o inimigo. Afmal. uma década antes, ele mesmo fora capaz de vencer o próprio Exér­ cito nacional. Formado pela Faculdade de Medicina da Bahia, o dr. Floro Costa chegara ao Vale do Cariri, no Ceará, em 1908. Abriu um consultório e uma farmácia e lo­ go se tomou amigo de todos os homens influentes de Juazeiro —e 0 grande aliado do principal deles, o padre Cícero Romão. Graças a seus dotes militares e espírito de liderança, Floro Bar­ tolomeu Costa se tomou chefe de um bando de jagunços e se revelou capaz de vencer todos os combates nas muitas guerras travadas entre os coronéis lo­ cais. Seu exército particular lo­ go se tornaria o exército priva­ do do “Padim Ciço”. Em janeiro de 1912, quan­ do a "política das salvações", de­ flagrada pelo presidente Hermes da Fonseca, chegou ao Ceará com o objetivo de dermbar o oligarca Nogueiro Accioly da pre­ sidência do Estado, Floro, Padim Ciço e seu exército de jagunços concluíram que chegara a hora de o Brasil ouvir falar deles. Em março de 1914, depois de inúmeros combates no .sertão, Floro tomou Fortaleza, derru­ bou o presidente nomeado por Hermes da Fonseca e devolveu o poder ã oligarquia Accioly. Não houve reação.

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T J'Ioro Bartolomeii Costa e o padre Cícero facimaj se Â.

conheceram e se associaram em 1908, quando, disposto

a explorar as minas de cobre de Coxá (CE), o padre entrou em choque com o fazendeiro Antônio Pequeno e decidiu contratar os " se n ’iços" do dr. Floro. Os dois homens mais conhecidos de Juazeiro form aram um e.xército de jagunços e assumiram o controle da região. Em 1924, uma imensa estátua do Padim Ciço fo i erguida na cidade. O padre morreu em 1934, mas continua .sendo venerado como .santo no Nordeste.

Até fin.s do .século 19, o pa­ dre Cícero Romão Batista (18441934) era apenas um entre os vá­ rios beatos que perambulavam pelo Nordeste, solo fértil para o messianismo, especialmente em épocas de seca e miséria. Qua.se na virada do século, porém, já consagrado como “santo de Jua­ zeiro”, ele se tomaria não apenas "líder espiritual” de milhares de sertanejos dispostos a dar a vida por ele, mas também o "padre do coronel Accioly” (verdadei­ ro dono do Ceará). Por volta de 1908, apesar de não ousar rom­ per sua aliança com a oligarquia Accioly, o Padim Ciço virara, ele mesmo, um dos mais pode­ rosos “coronéis” do Nordeste e “dono” de Juazeiro. Padre Cícero chegara à principal cidade do Vale do Ca­ riri em 1872, com uma mão na frente e outra atrás. Fora orde­ nado presbítero dois anos antes, em 1870, apesar do voto con­ trário do reitor do .seminário em que se formara, que o consi­ derava "fantasioso”. Perto de 1889, as fantasias do Padim Ci­ ço começaram a virar “milagre”: ao receber a comunhão de suas mãos, as beatas "tombavam por terra e as hóstias tingiam-se de sangue”. Em 1892, o padre foi proi­ bido de pregar e receber confis■sões. No ano de 1894, Roma considerou os "milagres de Jua­ zeiro” nada além de “supersti­ ção". ameaçando o padre Cí­ cero de excomunhão ca.so não saísse da cidade. Três anos de­ pois, durante a campanha con­ tra Antônio Conselheiro, o Pa­ dim Ciço achou aconselhável exilar-se no sertão. No entanto, em 1898 ele re­ tornou a Juazeiro e a transfor­ mou na “cidade santa" do Nor­ deste. Quem ousaria enfrentar .seu exército de jagunços, co­ mandado pelo dr. Floro? Quan­ do o novo século raiou, o Padim Ciço tinha se transformado no senhor absoluto do Vale do Ca­ riri. Ainda hoje há uma campa­ nha em prol de sua beatificação. O Vaticano segue ignorando-a.

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e todos os cangaceiros que aterrorizaram o ser­ tão nordestino nas primeiras décadas do século 20, nenhum foi mais ousado, temido e famoso do que o capitão Virguiino Ferreira da Silva, que a histó­ ria consagrou com o nome de Lampião, o rei do cangaço. Virguiino (acima, à esquerda) entrou para o cangaço por volta de 1914, para vingar a morte de seu pai, envolvido na briga entre as famílias Carvalho e Pereira, que havia anos ensanguentava o sertão. Embora cedo tenha lavado em sangue a honra do pai assassinado, Virguiino tomou gosto pelas correrias armadas, pelos assaltos, pelos in­ cêndios e tiroteiros, jíelos estupros, que caracterizavam a vida bandida dos cangaceiros. E não precisou de muito tempo para se tornar o mais sanguinário de todos eles. No início da década de 20, já era chamado de Lam­ pião —apelido que ele mesmo criara ao dizer que, nos tiroteios, sua “espingarda nunca deixava de ter clarão, tal qual um lampião”. Por volta de 1922, quando os te­ nentes se rebelavam em Copacabana e os poetas antropofágicos surpreendiam São Paulo, Lampião já se tomara o braço direito do cangaceiro chamado Sinhô Pereira. Em fins de 22, Pereira decidiu seguir os conselhos do Padim Ciço —de quem, como a maioria dos cangaceiros, era devoto— e abandonou as estripulias do sertão. Lampião assumiu então a liderança do enorme bando de canga­ ceiros que vivia pelos sertões de Sergipe e da Bahia. Ex­ pandiu suas atividades fazendo incursões eventuais a Alagoas, Ceará, Pemambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Virou lenda. Em 12 de abril de 1926, depois de praticar os mais variados crimes e saques, atacando cidades em plena luz do dia, Lampião foi transformado em “capitão” legalista, recebendo, por ordem do deputado Floro Bartolomeu Costa e do padre Cícero, fuzis Mauser e 300 cartuchos para cada um de seus 300 homens. Tinha ordens de per­ seguir a Coluna Prestes. Quando descobriu que o go­ vemo não pretendia anistiá-lo e que o documento que o tomava capitão do Exército não tinha validade legal, de­ sistiu da caçada humana e —com as novas armas— re­ tomou aos saques, aos assaltos e aos crimes.

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H is tó r ia d o B ra s il

Cangaço Em 1928, Lampião encontrou, na fazenda Malhada, na Bahia, aquela que seria a mulher de sua vida. Encon­ trou, não: foi encontrado por ela. Embora casada, assim que o viu, a filha do fazendeiro, uma tal de Maria Boni­ ta, teria dito: “Esse é o homem que amo. Como é, quer me levar ou quer que eu te acompanhe?” Foi paixão à pri­ meira vista, e Lampião e Maria Bonita ficaram juntos até a morte. Lampião cercou-a sempre de atenções e ca­ rinho, agiu como bom marido e apelidou-a de “Santi­ nha”. A influência de Maria Bonita no grupo também foi benéfica. Graças a ela, os bandos de cangaceiros —an­ tes exclusivamente masculinos— se tomaram “mistos” e vários “tenentes” de Lampião também se casaram. A partir de então, a ferocidade e a frequência dos ataques diminuíram. Por três vezes, Lampião tentou abandonar o cangaço. Mas o chamado selvagem acabou sendo sem­ pre mais forte. Seu destino estava selado. No final de década de 30, com Vargas e o Estado No­ vo no comando da nação, o cangaço estava com os dias contados e a cabeça de Lampião, a prêmio. Em julho de 1938, o bando do rei do cangaço se instalara numa fa­ zenda em Angico, no interior de Sergipe, quase na frontei­ ra com Alagoas. Um comerciante local, com quem Lampião costumava negociar, delatou o grupo. A volante comanda­ da pelo tenente João Bezerra, da Força Pública de Ala­ goas, surpreendeu o bando e matou Lampião, Maria Bo­ nita e nove outros cangaceiros. Os corpos foram jogados num riacho seco e as cabeças, decepadas, postas em to­ néis de querosene, com sal grosso, e levadas para ser ex­ postas nas escadarias da igreja de Santana do Ipanema (acima, à direita), a cidade mais próxima. De lá, foram conduzidas para Maceió e depois para Salvador, onde, mumificadas, passaram a fazer companhia à cabeça de Conselheiro —o beato de Canudos— no tétrico acervo do museu Nina Rodrigues. Foi somente em fins da déca­ da de 60 que a filha e os netos de Lampião conseguiram permissão para retirá-las de lá e dar-lhes "um enterro cris­ tão”. Desde a morte de Corisco, o Diabo Louro (leia o quadro ao lado), em julho de 1940, os horrores do can­ gaço estavam definitivamente encerrados.

O DIABO LOURO

Depois de Lampião, o mais famoso e sanguinário cangaceiro foi seu companheiro Corisco, conhecido como Diabo Louro. Desertor do Exército e perseguido por um crime, juntou-se ao bando de Lampião em 1926. Em 1928. casou-se com Dadá, uma menina de 13 anos que raptou de uma fazenda. Em 1937, divergências táticas o levaram a separar-se de Lampião e formar o próprio grupo. Após a morte de Lampião, Corisco aterrorizou o sertão. “Se o negócio é de cabeças, vou mandar em quantidade ”, avisou —e cumpriu a promessa. Em julho de 1940, foi morto à traição. Com ele, acabou-se o cangaço.


A R evolução o último dia de outubro de 1930, Ge­ túlio Vargas fez sua entrada triunfal no Rio de Janeiro. Vestia uniform e militar, um lenço vermelho no pescoço e um chapéu gaúcho de aba larga. Apesar de o fu­ turo “chefe do govemo provisório” ter vindo do Rio Grande do Sul de trem — uma jorna­ da ruidosa e apoteótica— , muitos de seus aliados gaúchos cobriram o percurso de qua­ se 1.500 quilômetros a cavalo. Diversos desses milicianos, integrantes dos chamados “corpos provisórios” , tinham sido recrutados nas estâncias do pampa — al­ guns eram veteranos da Revolução de 1923. Eles cavalgaram pelas ruas da capital nacional com um misto de desprezo e admiração pelo esplendor urbano. Ao atingir o centro da ci­ dade, decidiram amarrar suas montarias ao pé do obelisco da avenida Rio Branco. Foi uma cena emblemática. Para muitos dos revoltosos, essa era uma forma de deixar claro que uma nova visão de mundo estava chegando ao poder. Para inúmeros moradores da capital nacional, era uma “vergonhosa pro­ fanação” de um requintado símbolo da cultu­ ra européia — tão venerada no refinado Rio de Janeiro.

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Embora Getúlio Vargas estivesse prepa­ rado para se tomar um político ardiloso e dis­ posto a fazer certas concessões para conso­ lidar-se no poder, sua vida e sua carreira o configuravam como o herdeiro de uma longa tradição caudilhista. Uma herança que, ao usar o lenço vennelho e o chapéu de aba larga, ele não apenas não se preocupava em esconder como fazia questão de honrar. Apesar de boa parte da população do Rio de Janeiro ter saído às ruas para saudar Var­ gas naquele 31 de outubro, os gaúchos ainda eram vistos com desconfiança na capital fe­ deral. Não haviam se passado duas décadas desde a declaração do crítico literário Sflvio Romero de que o Rio Grande do Sul era govemado por “almas semibárbaras de egressos do regime pastoril” . Seu colega José Veríssi­ mo o ecoara, insinuando que o Estado sulista era “um coipo estranho na Federação” . Foram protestos inócuos: em fms de 1930, depois de anos de revoltas sangrentas e capi­ tulações mais ou menos humilhantes, o Rio Grande do Sul estava maduro para exportar ao resto do país seu modelo político baseado no caudilhismo de influência artiguista e po­ sitivista. A fórmula perduraria por 25 anos.

Em 1930, dentre os grupos políticos do­ minantes, os gaúchos eram os menos depen­ dentes do sistema econômico intemacional e, portanto, os menos arruinados por seu colap­ so — configurado pela quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. O paulista Washington Luís cometera vários erros políticos, mas a crise econômica mundial bem poderia ter der­ rubado qualquer presidente num país tão de­ pendente dos mercados estrangeiros. Militarmente, a Revolução de 30 foi uma vitória das forças estaduais, aliadas aos con­ tingentes rebeldes do Exército, sobre as for­ ças federais legalistas do Rio de Janeiro. E se­ ria a última vez que os Estados poderiam enfrentar o govem o federal: 11 dias depois de seus correligionários amarrarem os cava­ los no obelisco, Getúlio Vargas — nomeado chefe do govemo provisório em 3 de novem­ bro— suspendeu a Constituição e designou in­ terventores para todos os Estados, exceto Mi­ nas Gerais, governado por seu aliado Olegário Maciel. Não era apenas o desfecho da revo­ lução: era o fim da aliança café-com-leite e da política dos governadores. O ocaso de uma época e a queda da República Velha. O Bra­ sil tinha um novo regime e um novo ditador.

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Mas em Minas Gerais a atitude de Washington Luís '' o início de 1929 era quase impossível prever que um governo relativamente tranquilo co- repercutiu tremendamente mal. O presidente do segun­ do Estado mais poderoso da federação, Antônio Carlos __ mo estava sendo o de Washington Luís (espe­ cialmente se comparado com o de seu antecessor, Ribeiro de Andrada —descendente do patriarca da In­ Artur Bemardes) fosse capaz de romper a aliança ca- dependência, José Bonifácio de Andrada e Silva—, ti­ fé-com-leite e ainda provocar a crise que levaria à der­ nha certeza de que seria indicado para ocupar o cargo rocada da Repiíblica Velha. Mas foi justamente o que de Washington Luís, dando continuidade à aliança aconteceu —e não apenas por causa da teimosia políti­ café-com-leite, que vinha funcionando sem percalços ca e dos equívocos de Washington Luís, mas também desde o Pacto de Ouro Fino (responsável pela eleição graças à crise da economia intemacional, provocada de todos os presidentes desde Venceslau Brás, em pelo “crack” da Bolsa de Nova York, em outubro de 1914). Dessa vez, porém, não haveria um novo “retor­ no mineiro”. Quando, na inauguração da estrada 1929 {leia-no quadro abaixo). As eleições presidenciais estavam marcadas para Rio-São Paulo (hoje via Dutra), um político paulista março de 1930 —e, supostamente, seria “a vez” de subiu ao palanque e saudou Júlio Prestes como "futuro Minas Gerais ocupar o Catete. A partir de janeiro de presidente da República”, o aveludado, sutil e refina­ 29, porém. Washington Luís começou a deixar claro do Antônio Carlos percebeu que seu tapete .seria pu­ que romperia o acordo com seus aliados mineiros. xado. Não deve, portanto, ter recebido com surpresa Disposto a dar continuidade a sua política econômico- o anúncio oficial da candidatura de Prestes, feito por financeira. o presidente estava decidido a lançar a can­ Washington Luís em junho de 1929. Por isso, ele lo­ didatura de Júlio Prestes. Então presidente de São Pau­ go partiria para a articulação de uma chapa de oposi­ lo. Prestes fora por cinco vezes o líder da maioria no ção —por mais traumático que esse rompimento com Congresso. Com a máquina política do PRP a apoiá- São Paulo pudesse vir a ser. lo. teria todas as condições de garantir a aprovação Em julho de 1929, Antônio Carlos enviou um de qualquer plano econômico do governo. emissário para uma reunião com João Neves, líder da Os cafeicultores não tinham muitos motivos para bancada gaúcha no Congresso, informando-o de que, apoiar fervorosamente a política econômica ortodoxa se São Paulo de fato vetasse um candidato mineiro, e de contenção de Washington Luís. Embora ele já ti­ Minas apoiaria Vargas ou Borges de Medeiros para a vesse baixado o padrão de conversão do mil-réis. os Presidência. No dia 17, o PRM e o PRR firmaram o pauli.stas queriam mais "proteção” ao café do que o pacto. No dia 19, porém, Getúlio enviou uma carta con­ presidente ou.sava lhes conceder. De todo modo, qual­ fidencial para Washington Luís comunicando-lhe a quer outro possível candidato à sucessão presidencial, proposta dos mineiros. Irritado, o presidente respon­ com exceção de Prestes, seria ainda mais avesso ao deu que 17 governadores estaduais —todos, salvo os protecionismo ao café. Além do mais. a história já de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba— já ha­ provara que era virtualmente inviável —além de ser viam dado seu apoio a Prestes. Diante dessa demons­ quase um suicídio político— apoiar um candidato tração de força, Vargas escreveu novamente para Wa­ que não fosse o indicado pelo presidente. Portanto, shington Luís, em 29 de julho, dizendo-lhe que não os barões do café decidiram dar seu aval ao jovem concorreria, “se o PRM assim o consentis.se”. Antônio Júlio Prestes de Albuquerque {à esquerda), então Carlos não consentiu, é claro. Em breve, a luta pela com 37 anos. Presidência .se iniciaria com todo o vigor.

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nquanto o Brasil se preparava para entrar a lodo o vapor na mais disputada corrida presidencial desde o confronto entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, ocorrido 20 anos antes, explodiu uma tragédia econô­ mica de proporções mundiais. No dia 29 de outubro de 1929 a Bol.sa de Nova York quebrou. O reflexo de uma crise tão monumental não demoraria a chegar ao Brasil —país em tudo dependente de mercados exteriores. An­ tes do final de 1929, já havia quase 2 milhões de de.sempregados no país: .579 fábricas fecharam as portas em São Paulo e no Rio de Janeiro por não haver quem com­ prasse 0 que elas produziam. Muitas indústrias demi­ tiram em massa, funcionando apenas dois ou três dias por semana. Nas cidades e no campo, o .salário dos trabalhadores caiu cerca de 40% a 50%. O preço intema­ cional do café despencou: de 200 mil-réis em agosto de 1929, o valor da saca caiu para 21 mil-réis em janeiro de 1930. E o pior: a safra fora ótima e o país havia estoca­ do cerca de 13 milhões de sacas.

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Dos seis Estados economicamente mais desenvol­ vidos no Brasil, o Rio Grande do Sul era o único que não dependia fundamentalmente dos mercados intemacio­ nais (uma vez que vendia charque e arroz principalmen­ te para os brasileiros). Ainda assim, embora tenha tarda­ do alguns meses, a crise acabou chegando ao Sul. Os bancos gaúchos —como acontecia em todo o Brasil e em boa parte do mundo— começaram a fechar. Em breve, as atividades agrícolas e pastoris sentiriam o arrocho da li­ quidação das hipotecas. A depressão estava destinada a fortalecer, no Rio Grande do Sul, a posição daqueles que eram favoráveis, num primeiro momento, à candidatura de Vargas e, a se­ guir —caso ela fracassasse—, à revolta armada contra o govemo central. Mesmo assim, os cautelosos Borges e Vargas ainda relutavam em enfrentar a máquina política e eleitoral de Washington Luís e a candidatura Prestes, mui­ to apropriadamente batizada de Concentração Con.servadora, apesar do cartaz modernista {ao lado).

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m fins de 1929. o Rio Grande do Sul estava quieto no seu canto. Depois de ter articulado J a Reação Republicana em 1922 e enfrentado a Revolução de 1923. o ressabiado Borges de Medei­ ros —e. por extensão, seu herdeiro político Getúlio Vargas— sabia das consequências de uma oposição ao candidato “oficial” à Presidência. Portanto, quan­ do começaram as negociações, Minas Gerais perce­ beu que a única forma de atrair o Rio Grande do Sul para um novo confronto com o govemo central era oferecendo-lhe a Presidência. Ainda assim, depois de Antônio Carlos ter formalizado a proposta, Vargas e Borges mantiveram-se reticentes. Só em agosto de 1929. depois de Washington Luís ter divulgado as cartas que Vargas lhe enviara sigilo.samente, o presidente gaúcho resolveu dar iní­ cio a sua campanha. Em setembro, Minas, Rio Grande do Sul e Paraíba formaram a Aliança Liberal, lançando Vargas para a Presidência e João Pessoa, da Paraíba, para a Vice. Sua platafomia eleitoral propunha a refor­ ma eleitoral (com a adoção do voto secreto), a anistia aos rebeldes de 22 e 24 e uma nova política trabalhista.

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pesar de criticar a “máquina eleitoral” do governo e os mecanismos por ela utilizados para fraudar os resultados das eleições, os integrantes da Aliança Liberal se serviram amplamente deles. Tanto que, no Rio Grande do Sul, a contagem “oficial” ajwntou 298.627 votos para Vargas contra 982 para Júlio Prestes. Nos Estados controlados pelo governo os resultados foram inversamente proporcionais. De qualquer forma, tanto Vargas quanto Borges se apressaram em declarar, mes­ mo antes do anúncio oficial, que reconheceriam a vi­ tória do adversário e que. embora ainda sustentassem 0 programa da Aliança Liberal, estavam "prontos para colaborar com o novo govemo”, ca.so fossem convida­ dos a fazê-lo. Ambos temiam que o govemo punisse du­ ramente o Rio Grande do Sul, não reconhecendo os gaúchos eleitos para o Congresso.

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Se "a questão social”, para Washington L.uís, era "questão de polícia", a chapa Vargas-João Pessoa decidira acenar com reformas "de base", que dariam mais apoio aos "desvalidos". Para confirmar os “vín­ culos populares" de sua plataforma, Vargas inovou na forma de apresentá-la à nação: em vez de 1er seu programa num banquete da elile política —ao modo de Júlio Prestes e de todos os demais candidatos an­ teriores—. Getúlio Vargas subiu num palanque e di­ rigiu suas palavras à multidão compacta que se agrupou para ouvi-lo, no Rio de Janeiro (embora ele tivesse se comprometido com o presidente a não sair do Rio Grande do Sul durante a campanha). Foi tudo inútil. A eleição .se deu em 1" de março de 1930, coincidindo com o primeiro dia de Caniaval. O resultado parecia tão evidente que o povo nem aguar­ dou os números oficiais. Uma marchinha cio .sambista Sinhô foi o sucesso daquele Caniaval. A letra dizia: "Eu ouço falar / Que para nosso bem / Jesus já designou / Que Seu Julinho é que vem”. E "seu Julinho" veio mes­ mo: em maio, o Congresso anunciou que ele recebe­ ra 1 milhão de votos contra 7(X) mil dc Getúlio Vargas. A posição de Borges e Vargas não era comparti­ lhada pela nova geração de políticos gaúchos. Flores da Cunha e João Neves da Fontoura {na foto à esquer­ da, em pé, atrás de Borges e Raul Pilla), mais Osvaldo Aranha e Lindolfo Collor —a chamada “geração de 1907” (ano em que eles se formaram em direito, na mesma turma que Vargas)—, já conspiravam aberta­ mente, e a palavra “revolução” era pronunciada cada vez mais frequentemente por todos eles. Apesar de Flores e Aranha terem combatido os tenentes em 1924, agora estavam preparados para unir-se a eles e derrubar o governo Washington Luís antes da posse de Júlio Prestes, prevista para novembro. Getúlio Vargas, po­ rém, aparentemente permanecia disposto a “enfiar a viola no saco”, como insinuavam as charges. Uma tra­ gédia na Paraíba o faria mudar de idéia.

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OS TIROS DA LARGADA A confeitaria Glória, na rua Nova, em Recife, era o ponto de encontro da elite nordestina. João Pessoa Albuquerque (1878-1930), sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa, era membro da elite nordestina, mas estava na cidade errada, na hora errada. Havia três meses, vivia em Recife o advogado João Dantas, que “fugira ” da Paraíba depois de se envolver no conflito entre Pessoa e o coronel José Pereira. Para vingar-se do apoio que Dantas dera ao coronel, aliados de Pessoa publicaram no “Diário Oficial" cartas que Dantas enviara para a sua amante, a professora primária Anaíde Beiriz (roubadas após uma invasão ao escritório de Dantas). Ambos eram solteiros, mas Anaíde caiu em desgraça e foi abandonada pela família. No dia 26 de junho de 1930, Pessoa sonia seu chá na confeitaria quando um homem que ele nunca vira se aproximou de sua mesa e disse: “Sou João Dantas, a quem tanto humilhastes e maltratastes ”, e disparou-lhe “nos peitos” três tiros à queima-roupa. A revolução tinha o cadáver que lhe faltava. João Pessoa —que aceitara concorrer a vice de Vargas depois que nenhum candidato do Rio de Janeiro, de Pernambuco ou do Ceará quisera desafiar a chapa de Washington Luís— virou o mártir em nome de quem foi deflagrado o golpe com o qual ele nunca concordara. Um pouco mais tarde. Dantas e Anaíde se suicidaram.

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s resultados ainda não haviam sido anun­ ciados oficialmente quando o presidente da Paraíba. João Pessoa, antecipando-se ao cli­ ma conspiratório que incendiaria seus correligio­ nários, disse: "Nunca contarão comigo para um mo­ vimento armado. Prefiro dez Júlio Prestes a uma revolução”. Na verdade, jamais se saberá com cer­ teza se a frase de fato foi pronunciada, já que só foi divulgada depois que João Pessoa estava morto —e a revolução consumada. De qualquer forma, o episódio é revelador da posição do líder da Paraí­ ba: como Borges, como Getúlio e como o presiden­ te de Minas Gerais. Antônio Carlos (a quem uma anedota também atribui uma frase memorável: "Fa­ çamos a revolução antes que o povo a faça”). João Pessoa era contra o golpe de Estado. Ironicamente, seu assassinato seria o pretexto que os jovens polí­ ticos gaúchos, a nova geração de políticos mineiros e os sempre conspiradores tenentes esperavam pa­ ra pegar em armas e seguir a trilha golpista. Mais ironicamente ainda, o assassinato de João Pessoa não estava tão ligado à campanha presidencial quan­ to a mazelas politiqueiras locais —e a questiúncu­ las pessoais, que incluíam até um complicado caso de amor (leia o quadro ao lado). Disposto a punir seu ex-aliado, o "coronel” Jo­ sé Pereira —chefe inconteste da cidade de Prince­ sa (hoje. Princesa Isabel, no sul da Paraíba)— . João Pessoa bloqueou a fronteira entre seu Estado e Pernambuco, proibindo os moradores da região de comercializar com Recife (a não ser que pa­ gassem um elevado imposto estadual). Pessoa de­ terminara que todo o comércio deveria ser feito através do porto paraibano de Cabedelos. Em fe­ vereiro de 1930, 0 “coronel” Pereira juntou 2.000 homens em armas e partiu para o confronto com o governador, declarando, desafiadoramente. a “in­ dependência” da cidade de Princesa.

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Quando os resultados oficiais do pleito de março foram anunciados, em maio, o Congresso puniu duramente a Paraíba: embora, nesse Estado, a Aliança Liberal tivesse vencido a chapa de Pres­ tes por uma média de três votos a um. nenhum aliado de Pessoa foi empossado pela comissão ve­ rificadora do Congresso —enquanto os candidatos paraibanos pró-Prestes conseguiam seis cadeiras (uma no Senado e cinco na Câmara). Ainda assim. Pessoa recusou-se a conspirar contra o governo central. Na guerra civil em Princesa, também pre­ feriu agir com cautela, uma vez que os. líderes da Aliança Liberal achavam que o Catete estava in­ centivando os rebeldes a tlm a ter uma desculpa para a intervenção militar na Paraíba. No dia 26 de junho, contrariando o conselho de todos os seus aliados, João Pessoa resolveu ir a Recife. Na confeitaria mais chique da cidade, en­ quanto tomava o chá das 5 com políticos e amigos, foi assassinado por João Dantas —membro de uma família tradicional paraibana, aliada do “coronel” Pereira (leia o quadro à esquerda). O crime pro­ vocou uma comoção nacional. Na Paraíba, seus aliados saíram às ruas saqueando e queimando pré­ dios dos adversários de Pessoa. Cerca de 200 pre­ sos foram soltos da cadeia pública, juntando-se à turba, enquanto os bombeiros se recusavam a com­ bater os incêndios. Quase instantaneamente, o Legislativo parai­ bano trocou o nome da capital do Estado para João Pessoa. À bandeira estadual logo seria acrescenta­ do o lema “Nego!” —a suposta resposta que Pes­ soa dera quando Washington Luís lhe pediu que apoiasse Prestes. No dia do crime, o deputado gaú­ cho Lindolfo Collor subiu à tribuna da Câmara e perguntou: “Caim, que fizeste de teu irmão? Pre­ sidente da República, que fizeste do presidente da Paraíba?” Faltava pouco para o golpe.


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pesar do discurso emocionado de Lindolfo Collor no Congresso, no Rio Grande do Sul nem Getúlio nem Borges fizeram declara­ ções bombásticas acerca do assassinato dc João Pes­ soa —embora dessem sinal verde para Osvaldo Ara­ nha retomar os preparativos para o golpe. Aranha, o mais inteligente e brilhante integrante da “geração de 1907" depois de Vargas, conspirava desde dezem­ bro de 29. convencido de que a revolução era “o úni­ co meio de conter o rolo compressor paulista". Usan­ do sua posição de secretário do interior do Rio Grande do Sul para encobri-lo. Aranha não apenas enco­ mendara armas da Tchecoslováquia como. no início de 1930. começou a manter contato com os tenentes revolto.sos de 22 e 24. exilados no Uruguai e na Argentina. Em maio de 30. essas negociações sofre­ ram um golpe rude cjuando Luís Carlos Prestes, con­ vertido ao “marxismo re\olucionário". anunciou que não participaria de uma "revolução burguesa", que ,só substituiria "uma oligarquia reacionária por outra". Aranha já havia dado 80 mil dólares para Pres­ tes —e. ironicamente, seria esse o dinheiro que Pres­ tes levaria para Moscou e lhe pertnitiria "comprar" sua entrada no PC soviético. O mesmo dinheiro fi­ nanciaria a Intentona Comunista de 35 —a fracas­ sada tentativa de Prestes de derrubar Vargas. Aranha havia combatido os tenentes na insur­ reição de 24. Seu companheiro nessa luta fora Flo­ res da Cunha. Caudilho franco e rude. Flores {acima, com os três filhos), então senador, era uma espécie de Pinheiro Machado com menos poder e o mais radical entusiasta do "golpe já". Ele apoiou Aranha quando este. declarando-se “farto" das vacilações de Borges e Vargas, decidiu abandonar seu cargo no governo do Rio Grande do Sul. em 28 de junho. Uma semana depois, no entanto. Aranha seria auto­ rizado a reiniciar os planos conspiratórios.

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Enquanto isso, em Minas Gerais, o presidente Antonio Carlos também ainda não se decidira a abra­ çar a revolução. Como logo sairia do governo, re­ solveu deixar o ônus da decisão para seu sucessor. Olegário Maciel. Em 6 de setembro de 1930. quan­ do Antônio Carlos passou a presidência do Estado para Maciel, por uma dessas coincidências signi­ ficativas tão frequentes na história, estourava um golpe na Argentina, também convulsionada pela cri­ se provocada pela quebra da Bolsa de Nova York. Era o primeiro em 40 anos —e aos analistas políticos não passou despercebido o fato de que os períodos de estabilidade no Brasil coincidiam com os do vizi­ nho (fenômeno mais tarde batizado de “efeito Orloff’: a Argentina era o Brasil no dia seguinte). Como Aranha e Flores. Olegário Maciel era a favor do golpe. No Nordeste, em chamas desde o as­ sassinato de João Pessoa, a situação também era de pré-insurreição. Lá. os conspiradores sulistas conta­ vam com o apoio de Juarez Távora. um dos tenen­ tes mais ativos desde 1922. que discordara do ma­ nifesto de Prestes {quadro ao lado). Embora em 24 de agosto de 1930 Vargas informasse a Borges que estava disposto a suspender as atividades conspiratórias. uma semana depois —aparentemente conven­ cido pelo argumento segundo o qual. em meio ao caos econômico, a revolução era inevitável— Borges abandonou sua posição "legalista" e deu sinal verde para o golpe. Getúlio. sempre obediente. conCordou e a trama se iniciou. O dia combinado para o início da revolução foi 3 de outubro. No Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, os governos estaduais comanda­ riam o golpe. No Nordeste, a responsabilidade seria de Távora. Ninguém .sabia ao certo o que acontece­ ria no Rio de Janeiro, enquanto a resistência legalis­ ta com certeza se daria em São Paulo e na Bahia. As­ sim foi. Três semanas depois, a luta já estava ganha.

O p r ín c ip e dos ten en tes Se Luís Carlos Prestes era o Cavaleiro da Esperança, seu companheiro Juaret Távorafoi "o D'Artagnan do tenentismo", como definiu a encicloitédia "Nosso Século". Aventureiro romântico, Távora revelou-se um herói revolucionário mais ligado à ação do que às teorizações. Tanto é que, ao contrário de Prestes, decidiu aderir à Revolução de 30, embora, de acordo com o líder da Coluna (da qual Távora participara), ela não passasse de “uma revolução burguesa". Preso em janeiro de 1930, Távora escapou da prisão em abril efoi para Pemambuco, de onde chefiou todas as operações militares que deram a vitória à revolução no Norte e no Noideste do país. Por pressão dos tenentes, tomou-se o chefe do govemo provisório nos Estados do Norte e virou “o vice-rei" do Brasil. Afastou-se do alto-comando da revolução em I93L rompeu com Vargas em 34, opôs-se ao Estado Novo em 37 e ajudou a derrubar o ditador em 45. No ano de 1954, participou ativamente dos episódios que culminaram com o suicídio de Vargas efoi chefe da Casa Militar do govemo Café Filho, que assumiu o poder após a nwrte de Getúlio. Concorreu à Presidência pela UDN, em 1955, sendo derrotado por Juscelino Kubit.schek. Em 1958, elegeu-se deputadofederal da Guanabara. Ainda que não tivesse participado do golpe de 1964, foi ministro da Viação de Castelo Branco. Morreu em 1975.

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o o contrário da proclamação da Repú­ blica. o golpe de 1930 não foi uma me­ ra passeata militar. Houve luta e resis­ tência —e os combates se prolongaram por qua.se um mês. Ainda assim, em termos gerais, a derrubada da Primeira República —embora te­ nha sido o mais complexo e sangrento golp>e a instaurar um novo governo no Brasil —foi uma operação relativamente rápida, razoavelmente fá­ cil e tremendamente bem-sucedida. Como na pro­ clamação da Independência e na derrubada do Im­ pério. a antiga ordem caiu como caem as frutas que estão mais que maduras. A Revolução de 30 começou às 17h30 dc 3 de outubro, horário em que terminava o expediente dos quartéis e facilitava a prisão dos oficiais em casa. O foco rebelde foi Porto Alegre, onde. no início da noite, todos os quartéis já haviam sido tomados por Aranha e pelo tenente coronel Góis Monteiro, chefe militar do golpe (leia página ao lado). Vinte pessoas morreram. Em Minas Ge­ rais. houve resistência do 12° Regimento c. em Belo Horizonte, os combates duraram cinco dias —até os soldados legalistas ficarem sem víveres. Na Paraíba, um erro de comunicação entre os rebeldes fez o movimento começar apenas na madrugada do dia 4, o que permitiu a articulação das forças do govemo. Mas Juarez Távora logo tomou a Paraíba e. a seguir. Recife, onde o povo saiu às ruas para saudá-lo. Os demais Estados nordestinos —menos a Bahia— aderiram aos golpistas. No dia 5. quando as tropas gaúchas se puseram cm marcha, logo conquistando .Santa Catarina e Paraná, apenas São Paulo. Bahia e Pa­ rá se mantinham fiéis ao govemo central. No Rio. a situação seguia indefinida.

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O golpe em marcha: Getúlio e suas tropas deixam o Rio Grande do Sul ffo to s d e cim a^, tomam Joinville (c e n tro ^ e chegam a Ponta Grossa (a cim a ^

As tropas gaúchas, partindo de trem e a ca­ valo de Porto Alegre, não conseguiram conquis­ tar Florianópolis (que .só se renderia em 24 de ou­ tubro). mas logo tomaram Joinville e. a seguir, Góis Monteiro instalou o quartel-general dos re­ beldes em Ponta Grossa (PR). Para lá —após o embarque apoteótico na estação ferroviária de Porto Alegre— partiu Vargas, no dia 12. A chega­ da a Ponta Grossa, em 17. também se transformou numa celebração. Mas a revolução ainda não esta­ va ganha: em Itararé (SP), na fronteira com o Pa­ raná. mais de 6.000 soldados legalistas, comanda­ dos por Pais de Andrade e com o apoio de aviões e quatro canhões, aguardavam a hora do choque contra os 8.000 rebeldes, que tinham 18 canhões. Andrade, aquartelado num penhasco à beira de um rio, recebera as ordens de "defender a cidade a todo o transe”. Previa-se um terrível combate. No dia 24. porém, ao serem informados de que Washington Luís fora deposto, no Rio, os legalis­ tas se renderam. Itararé entraria para a história como “a batalha que não aconteceu”. Se tivesse ocorrido, a revolução provavel­ mente seria, ainda assim, vitoriosa —e o custo da conquista com certeza seria elevado o suficiente para mudar os rumos da história do Brasil. Infor­ mado da deposição do presidente (leia na pági­ na seguinte). Getúlio partiu de Ponta Grossa pa­ ra São Paulo, onde chegou no dia 29. precedido por 3.000 soldados gaúchos. Foi aclamado com tal entusiasmo que chegou a se assustar. Getúlio ficou apenas 24 horas em São Paulo —tempo suficiente para colocar um interventor no go­ verno do Estado, desagradando aos paulistas. Na madrugada do dia 30, pegou o trem que o leva­ ria ao Rio de Janeiro e ao poder.


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^'o início da noite de 24 de outubro, os generais Tasso

— Fragoso e Mena Barreto e o almirante Isaias de Noronha depuse­ ram e prenderam o presidente Wa­ shington Luís. No dia seguinte, es­ sa "junta governativa" assumiu o comando da nação. A deposição do presidente (leia abaixo) evitou a ba­ talha de Itararé e deu aos rebeldes a convicção de que a revolução es­ lava ganha. Antes de se pôr em mo­ vimento. abandonando seu posto temporário no Paraná, Vargas sou­ be, por comentários e insinuações feitas no Rio de Janeiro pelo gene­ ral Bertoldo Klinger, que a junta linha planos de permanecer no po­ der. De imediato, telegrafou para o ministro do Exterior da junta. Mel­ lo Franco, alertando-o de que "os membros da junta serão aceitos co­ mo nossos colaboradores, porém não como dirigentes, uma vez que seus elementos participaram da re­ volução quando esta já estava vir­ tualmente vitoriosa”. A posição de Getúlio foi trans­ mitida à própria junta e. de forma ainda mais clara, pelo chefe militar do golpe, coronel Góis Monteiro: “O governo provisório deverá ter por chefe o sr. Getúlio Vargas”, dizia o telegrama enviado de São Paulo, de (índe Monteiro comandava cerca de .^0 mil homens. Um dia depois. 26. a junta anunciou que ficaria no po­ der apenas até a chegada de Vargas ao Rio de Janeiro. Na manhã do úl­ timo dia de outubro de 1930. o trem que trazia Vargas chegou ao Rio.

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De uniforme militar, chapéu de aba larga, lenço vermelho no pes­ coço —uma reveladora concessão aos libertadores (contra os quais ele mesmo lutara)—. Vargas fez sua entrada apoteótica no Rio de Janeiro. O povo lotava as ruas à sua passagem. Contudo, mesmo o mais desatento dos observadores não poderia deixar de notar que o homem que tomava o poder com o objetivo de incentivar a "‘unidade nacional" chegava à capital federal envolto pela mística caudilhista tão típica de seu Estado natal. O triun­ fo desse regionalismo de influên­ cia nitidamente platina ficaria ain­ da mais evidente no momento em que os cavalarianos que acompa­ nhavam Getúlio Vargas desafiadora­ mente amarraram seus cavalos no obelisco da avenida Rio Branco. Que tipo de "revolução” Vargas e seus aliados estavam fazendo? No dia 4 de outubro, ainda no Rio Grande do Sul, Getúlio declarara que o movimento pretendia "restaurar” a democracia liberal e recuperar a eco­ nomia. "Estamos ante uma contrarevolução para restaurar a pureza do regime republicano", disse ele, sem especificar outros objetivos sociais epois das trapalhadas que frustraram as quarteladas de 1922, e econômicos além da "reconstru­ no Rio de Janeiro, e de 1924, em São Paulo, os golpistas de 30 ção compreenderam que um mínimo de estratégia militar era neces.sário para o nacional”. Sua declaração, pu­ blicada no jornal "A Federação” sucesso da conspiração. O comando das operações militares foi (fundado por Castilhos nos tempos entregue ao general Miguel Costa isentado, à esquerdaj do império), terminava com o ape­ e ao tenente-coronel Góis Monteiro (de pé^ Costa fora um dos principais lo: "Rio Grande, de pé pelo Brasil! '‘tenentes" do movimento de 22 —e líder da coluna depois chamada de Não poderás faltar ao teu destino Coluna Prestes. Monteiro era nordestino, mas vivera quase toda a histórico". Que destino era esse o vida no Rio Grande do Sul: era membro do Bloco Castilhista e amigo íntimo de Aranha. Em 1937, coordenou o golpe do Estado Novo. Brasil logo saberia.

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o dia 3 de outubro, embora o único comentário a correr pela cidade do Rio de Janeiro fosse a eclosão de um golpe no Sul e no Nordeste, o presidente Washing­ ton Luís, instalado no Catete, se recusava a dar crédito ao “boato”. Ao longo da semana seguinte, apesar de os gol­ pistas conquistarem cada vez mais Estados, o ministro da Guerra, general Passos, continuava “tranquilizando” o presidente, assegurando-lhe que a rebelião logo seria con­ trolada. Portanto, foi com espanto —e indignação— que Washington Luís viu uma junta governativa, na manhã de 24 de outubro, apoderar-se de uma ala do palácio Catete contígua à que o presidente ocupava. Por mais de sete ho­ ras. Washington Luís recusou-se a receber a junta. Por fim, em tomo das 18h. por insistência do cardeal d. Leme, 0 presidente concordou em falar com o general Tasso Fragoso, seu amigo pessoal. Fragoso, então, pediu que Washington Luís renunciasse, "para evitar mais derra­ mamento de sangue”.

O presidente foi direto e desafiador; “Não renuncio. Do palácio só saio morto”. Uma hora mais tarde, W'ashington Luís —que o povo chamava de “dr. Barbado” e que tinha fama de “farrista e mulherengo”— saía do palá­ cio do Catete, vivo, mas preso e destituído. O presidente então foi levado para o forte de Copacabana, onde, oito anos antes, um grupo de tenentes tinha tentado derrubar o govemo que, mais tarde, daria posse ao autoritário e tei­ moso Washington Luís. Houve quem pretendesse “justiçá-lo” já no dia se­ guinte. Mas, dois dias depois, o ex-presidente (à esquer­ da) embarcava no navio Alcântara, que o levaria para a Europa. O exílio de Washington Luís se prolongaria por 17 anos: .só com o fim do Estado Novo, em 1947, é que o último presidente da República Velha retomaria ao Brasil. Júlio Prestes, o presidente que não tomou posse, também partiria para o exílio. Mas Prestes voltou para o país em 1934, embora não se envolvesse mais com política.

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o a tarde do dia 3 de novembro de 1930, com o palácio do Catete completamente lota­ do. Getúlio Vargas —envergando pela últi­ ma vez na vida seu uniforme militar— tomou posse “provisoriamente” no governo federal. O cargo lhe foi entregue pelo general Tasso Fragoso. Quarenta e um anos antes. Fragoso tomara parte, como ca­ dete de Benjamin Constant. do golpe que derruba­ ra a monarquia no Brasil. Por isso, no seu discurso, além de criticar o autoritarismo do ex-amigo Wa­ shington Luís. o general faria referência aos “heróis de 1889”. Para Fragoso, foram “o orgulho, a vai­ dade e a prepotência” do ex-presidente que “aca­ baram provocando o movimento revolucionário”. Afmal, “a violação dos princípios fundamentais do regime republicano e os atentados contra a liberdade” cometidos por Luís iam “aniquilando a obra meritória levada a cabo a 15 de novembro de 1889 em tomo de Deodoro da Fonseca e Benjamin Constant, na fundada esperança de proporcionar ao Brasil dias mais felize.s”. Embora a Revolução de 30 não fosse um mo­ vimento militar, tlcava claro que os militares po­ sitivistas e nacionalistas, ou seja, os jacobinos travestidos de tenentes, que vinham conspirando desde a queda de Floriano, retomavam o poder. Getúlio era seu novo patrono. E o gaúcho tomou posse, promovendo a anistia dos rebeldes de 22 e 24, modificando o sistema eleitoral e tributário e 0 Judiciário, incentivando a “policultura” e crian­ do 0 Ministério do Trabalho.

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árgas tomou posse na Presidência "provisoriamente ” em novembro de 1930. Somente com a promulgação da nova Constituição, em julho de 1934, ele receberia a faixa e .se tomaria presidente de fato, nomeado pela Assembléia, em eleições indiretas.

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Desde as primeiras ações, os revolucionários se preocuparam em definir, para a nação, o caráter do movimento. O próprio Getúlio o chamara de “con­ tra-revolução”. Seus aliados mineiros .se apressa­ vam em definir o golpe como “conservador” e, em fins de outubro, o arcebispo de Porto Alegre telegra­ fara ao papa Pio 12 assegurando que o movimento não era “de origem nem de caráter comunista". Co­ mo Luís Carlos Prestes previra, era “uma revolução burguesa". Em 11 de novembro, Getúlio suspendeu a Constituição e nomeou interventores em todos os Estados, menos Minas Gerais (reforçando seu con­ flito com São Paulo). Antes, nomeara o seu ministé­ rio, do qual faziam parte Osvaldo Aranha (Justiça), Assis Brasil (Agricultura), Juarez Távora (Viação e Obras) e, acima de todos, Lindolfo Collor (Traba­ lho —leia “O Estado Novo”, na página seguinte). No discurso de posse, Getúlio prometera “pro­ mover, sem violência, a extinção progressiva do latifúndio, desmontar a máquina do filhotismo pa­ rasitário e sanear o ambiente moral da pátria". Surgia um Estado forte, paternalista, centralizador e nacionalista. Acabava-se o federalismo da “repú­ blica dos fazendeiros”. A intervenção do Estado na economia crescia: os sindicatos e as relações tra­ balhistas passaram a ser controladas pelo govemo. Empresas estrangeiras eram obrigadas a ter dois terços de empregados brasileiros e a pagar um tri­ buto de 8% sobre os lucros enviados ao exterior. Em breve, Vargas se sentiria forte o bastante para tentar perpertuar-.se no poder.


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"1 rabalhadores carregando a efígie de Getúlio Vargas numa parada colegial organizada em moldes militares —como na foto acima— é uma cena que se tornaria comum no Brasil a partir de 10 de novembro de 1937. Nesse dia. Vargas instaurou o Estado Novo, que nada mais foi do que um golpe dentro do golpe que fora sua eleição indireta em 1934, dado após o golpe revolucionário de 1930. Ao assu­ mir “provisoriamente” o govemo, em novembro de 30, Vargas disse que a revolução fora feita para “res­ tituir a liberdade ao povo”. Mas a liberdade começou a ser suprimida oito dias de[X)is, com a suspensão da Constituição. Ao longo dos anos seguintes, embora abandonas.se para sempre o uniforme militar com o qual chegara ao Rio, Vargas assumiu progressivamente as facetas mais autoritárias de .sua personalidade —chegando ao ponto de romper com muitos aliados, entre os quais Osvaldo Aranha e Borges de Medeiros. Vargas romperia tam­ bém com os tenentes, embora colocasse em prática muitos preceitos do tenentismo. Ainda assim, apesar de todos os senões, para muitos historiadores foi só a par­ tir da Revolução de 30 que o Brasil entrou de fato no século 20. A questão social deixou de .ser “questão de polícia” depois que Lindolfo Collor criou a legislação trabalhi.sta. Mas era uma legislação tutelar e paternali.sta — l(K)% positivista (leia o quadro ao lado). Graças a ela, à medida que se tomava cada vez mais ditador, Vargas ganhava ainda mais popularidade. Virou o “pai do povo”. Em breve, .se iniciaria o culto a sua perso­ nalidade, nos moldes do fascismo.

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Mas seria um erro considerar um personagem complexo, contraditório e grandioso como Vargas um mero ditador positivista. Filho de uma família de es­ tancieiros gaúchos da fronteira com a Argentina, com raízes caudilhistas, Getúlio Domeles Vargas nasceu em abril de 1883. Após breve iniciação na carreira militar, destacou-.se na política estudantil. Baixo e atarracado, afável e eficiente, habilidoso e prudente, logo se tomou o favorito de Borges de Medeiros. Foi líder da maioria na Assembléia gaúcha, deputado fe­ deral em 1923, lutou contra os libertadores no mesmo ano e virou ministro da Fazenda em 1926. Di.sposto a govemar mais pela astúcia do que pela força, afastou-se progressivamente não só de Borges, mas da herança caudilhista de Júlio de Castilhos. Trans­ formou-se numa espécie de “revolucionário” de con­ senso em 30, assumindo o govemo provisório sem oposições. Antes de começar a se tomar o primeiro di­ tador briLsileiro com poderes totais, venceu a “guerra” contra São Paulo em 1932 e concordou em convocar uma Assembléia Constituinte em 34, quando foi eleito presidente por voto indireto. Influenciado pela a.scensão do nazi-fascismo na Europa, saudôu o surgimento do Integralismo no Brasil e depois o dizimou. Primei­ ro combateu e aniquilou a Intentona Comunista de 1935. Então, utilizou o pretexto dado pela “descoberta” do Plano Cohen (leia na páf^ina 227) para decretar o Estado Novo, que de novo mesmo só trouxe a inclu­ são do Brasil no rol de ditaduras nazi-fascistas. Até ser deposto em 45, Vargas mandou no Brasil. Cinco anos depois, voltaria ao poder —eleito pelo voto direto.

O S IN D IC A L IS M O P O S IT IV IS T A

Considerado o maior intelectual da geração de 1907, o protestante Lindolfo Collor (acima), na.icido em São Leopoldo (RS), fo i o primeiro ministro do Trabalho da Era Vargas. Graças a sua legislação trahalhisui de cunho positivista, o operariado . fo i organizado em sindicatos, manipulados pelo governo. O paternali.smo tornou-se a regra nas relações trabalho-i apital. Em compensação, a jornada de trabalho fo i regulamentada, as demissões sem justa causa ficaram proibidas e o trabalho infantil e feminino obtiveram uma legislação especial. A.v medidas de Collor, aprofundadas

nos anos seguintes, ajudaram a transfonnar Vargas no "pai dos pobres ".

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A R e v o l u ç ã o P a u l ist a o fazer uma breve parada em São Pau­ lo, em outubro de 1930, antes de par­ tir para o Rio de Janeiro e para o poder, Getúlio Vargas foi recebido com tal entusiasmo pelos paulistas que chegou a se assustar. “Pe­ quenino, de pernas curtas, de apelido ‘Petiço’, \Getúlio] voltou para o trem, pálido e trêmulo, temendo ser vítima dos agrados frenéticos da massa que entupia as plataformas”, escreveu uma testemunha da história. Getúlio permanece­ ria apenas 24 horas em São Paulo —tempo sufi­ ciente para, num de seus primeiros erros políti­ cos de 1930, nomear o coronel João Alberto de Baaos, “plebeu e forasteiro”, como interventor do Estado. Seria o começo das divergências en­ tre Vargas e os paulistas. Em março de 1932, embora Vargas tivesse substituído João Alberto por Pedro de Toledo, paulista e civil. Toledo —“hermista” na década de 10— não foi um nome bem-recebido em São Paulo. Além disso, comentava-se que Osvaldo Aranha (que acabara de assumir o lugar do pau­ lista José Maria Whitaker como ministro da Fa­ zenda) tentou “impor” todo o gabinete de Toledo. Não ba.stassem essas ofensas a São Paulo, o Ins­ tituto do Café fora “esvaziado” de poderes. Depois de quatro jovens paulistas serem mortos numa manifestação, vários setores da so­ ciedade de São Paulo se ergueram na campanha p>ela constitucionalização do Brasil (embora seu lema real fos.se “São Paulo livre, civil e paulis­ ta”). A clas.se média, os cafeicultores e os indus­ trialistas paulistas estavam unidos. E Vargas logo enfrentaria a primeira revolta contra seu govemo.

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“guerra paulista ” em favor da constitucionalização do país e por uma maior autonomia estadual despertou o orgulho de São Paulo. Segundo seus habitantes, que contribuíram com ouro e alianças para um “fundo revolucionário ”, São Paulo era “uma locomotiva que puxava 20 vagões vazios".

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1932 Alguns gaúchos notáveis também estavam descontentes com Vargas, entre eles o interven­ tor do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, e o “padrinho” político de Getúlio, Borges de Me­ deiros (injuriado por ter sido “alijado” do po­ der). Os paulistas rebeldes achavam que pode­ riam contar com o apoio de ambos, mais o auxílio do general Bertoldo Klinger, coman­ dante em Mato Grosso. No dia 9 de julho de 1932, a revolução reben­ tou em São Paulo. O plano dos revolucionários era realizar um ataque fulminante contra a capital federal. Mas nada saiu conforme planejado: Flo­ res decidiu mudar de lado e apoiar Getúlio, Klin­ ger .só con.seguiu uns poucos homens e os rebel­ des paulistas se viram sozinhos contra o resto do país. Getúlio enviou 18 mil homens para cercar os 8,5 mil soldados revolucionários. Apesar do de­ sequilíbrio de forças, a luta foi sangrenta e durou qua.se três meses. Quando a ameaça da œupaçâo da cidade de São Paulo tomou-.se real, os paulis­ tas decidiram se render às tropas chefiadas pelo general Góis Monteiro. Segundo o historiador Bóris Fausto, “a ‘guerra paulista’ teve um lado voltado para o passado e outro para o futuro. A bandeira da constitucionalização abrigou tanto os que esperavam retroceder às formas oligárquicas de poder como os que pretendiam estabelecer uma democracia liberal no país. O movimento ü-ouxe consequências importantes: embora vito­ rioso. o govemo percebeu claramente a impossi­ bilidade de ignorar a elite paulista. Os derrotados, por sua vez. compreenderam que precisariam fa­ zer alguns arranjos com o poder central”.


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etúlio Vargas foi às umas em março de Em 15 de novembro de 1933, os 254 de­ 1930 votíir em si mesmo (acima,putados à es­ começaram a trabalhar na nova Cons­ querda). Aquela seria a última vez, ao tituição. Menos de um ano depois, em 16 de julho longo de 15 anos, que a cena —um brasileiro de 1934, a nova Carta era promulgada. Ao esta­ colocando seu voto numa uma— se repetiria no belecer uma república federalista, a Constituição Brasil. Em 1932, muitos setores do país clama­ se inspirava na da República de Weimar —o vam pela volta da legalidade, não apenas os pau­ regime que governou a Alemanha entre o fim da listas. Vencida a revolução de São Paulo, Vargas 1* Guerra Mundial e a ascensão do nazismo. Era concluiu que, para permanecer no poder, deveria uma coincidência ironicamente profética; como convocar uma Assembléia Nacional Constituinte. Weimar, a Constituição de 1934 estava destinada Afinal, era preciso promulgar uma nova Consti­ a ser meramente transitória, vigorando por apenas tuição, já que, em 1930, o próprio Vargas dissol­ três anos, até o advento do Estado Novo. O tex­ vera a Câmara e o Senado, suspendera a Consti­ to era reticente e híbrido: dava novo fôlego aos tuição e assumira “provisoriamente” o govemo. oligarcas favoráveis à descentralização, mas, ao Em 3 de maio de 1933, quando o único par­ mesmo tempo, estabelecia as bases para a dou­ tido de projeção nacional era a Ação Integralis­ trina da “segurança nacional”; criava uma nova ta, 1,2 milhão de eleitores elegeram 214 consti­ legislação trabalhista, mas atrelava os sindicatos tuintes. A eles se juntaram 40 representantes de à máquina governamental. sindicatos de patrões e operários, já que, nos Ao longo de oito meses, discuti u-.se por tudo moldes do que ocorria na Itália e na Espanha e por nada. A expressão “Pondo nossa confiança fascistas, entidades de classe tinham lugar asse­ em Deus”, que abria a Constituição, irritou os gurado no Congresso. constituintes agnósticos. Em abril de 1931, a O pleito ocorreu de acordo com a nova Lei Academia Brasileira de Letras fizera uma re­ Eleitoral criada por Vargas: instituía o voto se­ forma ortográfica na língua escrita no Brasil: creto, a Justiça Eleitoral (para coibir fraudes) e o alguns constituintes se recusaram a segui-la. direito das mulheres ao voto —sendo que uma Mas, após muita confusão, a Carta de 1934 man­ delas, Carlota Pereira de Queirós, foi eleita por teve Deus no seu lugar e foi redigida com a mes­ São Paulo. ma ortografia da de 1891.

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No mesmo dia em que a nova Constituição foi aprovada — 15 de julho de 1934— os constituin­ tes elegeram Vargas presidente do Brasil. Vargas recebeu 175 votos. Em segundo lugar, com 59 vo­ tos, ficou Borges de Medeiros —homem que “in­ ventara” Getúlio e com quem já não se sentava à mesma mesa. Ficou também decidido que o man­ dato de Vargas, cuja reeleição era vetada f>ela própria Constituição, se prolongaria até 3 de maio de 1938, quando haveria novas eleições. Depois dos tumultos decorrentes da Inten­ tona Comunista (na página seguinte) e da apro­ vação da Lei de Segurança Nacional, em 1935, os candidatos à sucessão de Vargas se definiram em fins de 1936. O candidato “oficial” era o paraibano José Américo de Almeida (acima, à direita), um “tenente civil” que fora mini.stro de Vargas e tinha o apoio de Minas Gerais, do Nordeste e do Rio Grande do Sul. O outro can­ didato era Armando de Salles Oliveira, gover­ nador de São Paulo, apoiado por Flores da Cu­ nha — incompatibilizado com Vargas e disposto a “pegar em arma.s” se as eleições não se reali­ zassem. Em julho de 1937, o integralista Plínio Salgado também lançaria .sua candidatura, com aparente incentivo de Vargas. No entanto, ne­ nhum deles .se elegeria, simplesmente porque não haveria eleições.

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A QUEDA DE PRESTES No (lia 5 de março de 1936, em uma casinha no hairro do Méier (Rio), Luis Carias Prestes foi preso pela polícia política de Vargas; junto com ele, sua companheira, Olga —mais tarde deportada grávida para a Alemanha, onde morreria na câmara de gás (em “Dos 18 do Forte à Coluna Prestes”, veja o quadro da página 214). Em fevereiro de 37, Prestes depôs no Coruselho de Justiça Militar (foto). Foi condetuido, passou tu)ve anos rm solitária e só foi libertado com a anistia de 1945. Até a morte, em 1990, negou o evidente (e hoje documentado) apoio tático e financeiro que Moscou deu à fracassada Intentona Comunista de 1935.

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Constituição de 1934 concedeu um verniz de legalidade ao govemo Vargas. A carta cons­ titucional, porém, não era exatamente aquela que o presidente eleito pelo voto indireto desejava. Em breve, uma série de episódios daria a Vargas o pretexto para modificar as regras do jogo. Como o novo e frágil Estado liberal abrira brechas para o aparecimento de outros partidos, em março de 1935 surgiu, no Rio. a Aliança Nacional Libertadora. Se o programa da ANL. que defendia a suspensão unilateral da dívida externa e a reforma agrár