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BRdSIL 500 RNOS Geopolítica das rebeliões de 1831-1848

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C o n c e p ç ã o , T e x to , Im a g e n s B e rn a rd o J o ffily C o n s u lt o r P ro le s s o r d o u to r Istvá n J a n csó , livre do cente , p ro fe s s o r d o D e p a rta m e n to d e H istó ria d a F a c u ld a d e d e F iloso fia, L e tra s e C iê n cia s H u m a n a s d a U n iv e rs id a d e d e S ã o P aulo R e v is ã o d o s M a p a s e C r o n o lo g ia

Atlm Histórico

Á u re a R e g in a K a n a s h iro N a ir G a rc ia P e try P e s q u is a H is tó r ic a A n d ré a P a u la d o s S a n to s . A n d ré a S le m ia n , B ru n o B o n te m p i J ú n io r, C a ro lin a M a ria R uy, D é b o ra R e g in a P u p o , J o ã o P a u lo G a rrid o P im e n ta , J o s é C a rlo s V ila rd a g a , J o s é d e O liv e ira J ú n io r, M a n o e la L o p e s L o u re n ç o , M a ria n a R a n g e l J o ffily , O liv ia R a n g e l J o ffily , S te lla M a ris S c a te n a F ra n c o V ila rd a g a I lu s tr a ç õ e s d o P r e fá c io Jaym e Leão Ilu s tr a ç ã o d o A u t o r J ô F e v e re iro P R O J E T O S E S P E C IA IS D ir e to r d e R e d a ç ã o A rm a n d o G o n ç a lv e s R edação A n a C ris tin a C o c o lo A r te M ô n ic a B ia s i, C ic e ro C a s tilh o C u n h a e S a n d ro B e z e rra d e C a m a rg o R e v is ã o A le n c a r G e n til d e C a s tro , É lv io S e v e rg n in i, Iz ild in h a R o s a d e S o u s a e P re v iz R o d rig u e s L o p e s M a r k e tin g D ire to r: C a rlo s A lz u g a ra y G e re n te ; L u c ia n a Z a ro n i B o a v e n tu ra S u p e rv is o ra : P a u la P e s ta n a T. d e B a rro s P u b lic id a d e S ão P aulo - D iretor. Â n g e lo d e S á Jr. G e re n te s E xecutivos: A n d ré a M . Di Tom aso, J o ã o C láud io A bre u, M a rcelo S ilve ira e S and ra C haves. E xecutivo d e P ublicidade: G u e n d a G aleazzi A lves. A ssistente C om e rcial: Ivon ete M. Fe rna ndes. C o o rden ado ra: AkJa M . Reis. C oo rd e n a d o ra J ú n io r R osim eiri M aria D ias C ir c u la ç ã o D ire to r; G re g ó rio F ra n ç a G e re n te : N e id e A . S . L im a IS T O É B R A S IL , 5 0 0 A N O S é u m a p u b li­ c a ç ã o d o G ru p o d e C o m u n ic a ç ã o T rê s S /A . R e d a ç ã o , A d m in is tra ç ã o e C o rre s p o n d ê n c ia : R u a W illia m S p e e rs , n® 1 .0 8 8 , C E P 0 5 0 6 7 -9 0 0 , F o n e : (0 1 1 ) 8 3 5 8 4 3 3 , F a x: (0 1 1 ) 8 3 2 -1 6 0 6 , S ã o P a u lo , S P © C o p y rig h t 1 9 9 8 p a ra a L ín g u a P o rtu g u e s a - G ru p o d e C o m u n ic a ç ã o T rê s S /A - S ã o P a u lo - S P - B ra s il. C om posição, fotolitos, im pressão e aca bam e n­ to: E m presa d e C om unicação T rês Editorial Ltda., R odovia Anhangüena, km 32 ,5 - C ajam ar C E P 0 7750-000 - S P - Brasil.

Istof'. Bra.sil, 500 Anos é uma obra

elaborada pelo jornalista Bernardo Joffily, depois de muitos anos de pesquisas e estudos. Bernardo Joffily é também tradutor de vários idiomas e ilustrador. Ele nasceu no Rio de Janeiro e tem 47 anos. Antigo apaixonado por mapas em geral e mapas históricos em particular, acalentava o projeto deste Atlas desde OSanos 70, quando lecionou História em cursos de pré-vestibtdar.


I S T O E

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Atlas Histórico No dia 22 de abril do ano 2000 estaremos comemorando quinhentos anos da cliegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. E para festejar esse acontecimento, tão importante para todos nós, está sendo preparada uma série infindável de eventos oficiais, inclusive com a construção, em cçnjunto com os portugueses, de uma réplica da caravela de Pedro Álvares Cabral, que fará o mesmo percurso seguido por ele. A revista IstoÉ antecipa-se a esses eventos e sente-se honrada em poder oferecer aos seus leitores este Atlas Histórico, elaborado especialmente para comemorar essa data. IstoÉ Brasil, 500 Anos traz os fatos mais importantes acontecidos em nossa terra, desde o dia em que o navegante português desembarcou em Porto Seguro, em 1500; e vai ajudá-lo, leitor, a entender melhor os fatos que fizeram a história do nosso País. DOMINGO ALZUGARAY


Semana de Arte Moderna. Ela reuniu artistas e intelectuais, dos mais importantes, de diversas origens e projetos.


'stoÉ Brasil^ 5 0 0 A n o s traz compactamente, no espaço e no tempo, o máximo de elementos sobre a trajetória brasileira. Procuramos produzir uma obra de consulta, mas que também possa ser visitada por pura curiosidade ou prazer, além de torná-la acessível a um público diferenciado, de estudantes a estudiosos, ou simplesmente pessoas que desejam entender melhor o Brasil. Formatamos os fotos históricos em três dimensões, que se interligam e se apóiam entre si: imagens, textos e cronologia. As imagens ocupam 50% da obra e são a razão de ser desta obra. Procuramos situar os processos históricos em mapas nas mais diferentes escalas, gráficos, diagramas, organogramas, cronogramas, de forma visualmente compreensível e agradável, convidando o leitor o fazer sua própria investigação e o tirar suas próprias conclusões. Paro evitar uma excessiva poluição visual, representamos muitos dados apenas graficamente, mos o uso do computador permitiu apresentá-los com precisão de décimos de milímetro. Também com propósito antipoluente, partimos do princípio de que o leitor saberá identificar os Estados do Federação sem a necessidade de legendas. Os textos acompanham, explicam e complementam os imagens de cada capítulo. A compactação do maior volume possível de informações por página obrigou-nos o usar um texto sintético e algumas abreviaturas. As datas aparecem entre parênteses e o ano de nascimento e morte dos personagens, entre colchetes. Quando o mesmo tema consta em outro (s) capítulo (s), a referência aparece em azul, entre colchetes. A cronologia, que ocupa a coluna externa das páginas de texto, permite situar no tempo quase sete mil acontecimentos. Paro permitir uma visão mais abrangente, incluímos também datas marcantes do história mundial e fotos dos mais diferentes tipos, muitos deles não mencionados nos textos (grandes desastres naturais, sucessos musicais, o fabrico do último


Revolução de 32. Getúlio Vargas acusa a Frente Ünica Paulista de ser separatista. Forte campanha de opinião, no entanto, a apóia em nome da liberdade, do direito e da lei.


Pai dos pobres? Ditado Populista? Mártir? Afi^ r a de Vargas marca fundo o Brasil do século 20.

fusca ou o nascimento do primeiro bebê de proveta). IstoÉ Brasil, 500 Anos abarca desde a chegada dos primeiros seres humanos às terras que formariam o Brasil - em época ainda incerta e discutida - até o afastamento de Fernando Collor em 29 de setembro de 1992. Deixamos de lado os episódios mais recentes, que não permitiram uma análise com o necessário distanciamento histórico. Eventualmente os registramos, seja nas imagens ou nos textos, quando ajudam a compreensão dos temas em exame. Ao contrário do maior parte da obra historiográfica em nosso País, adotamos um sistema tipo "bola de neve": em princípio, quanto mais recente é o tema em exame, mais detalhada o sua exposição. Assim, o longo período até o Grito do Ipiranga mereceu apenas 18 capítulos. Do Grifo ò Proclamação da República o "ritmo" médio cai para três anos por capítulo; da República a 1964, para 21 meses e de 64 a 92 para pouco mais de seis meses por capítulo. Procuramos abrir espaço também para temas esquecidos ou tongenciados por historiadores tradicionais, do cangaço à emigração de brasileiros e dos movimentos feministas ò questão ecológica. Várias imagens e textos dizem respeito o acontecimentos mundiais ou latino-americanos, ou suas relações com nosso País. São apenas menções, muito resumidas, das conexões de um processo que não é autárquico, fechado, mas um pedaço da História Universal. Por isso, IstoÉ Brasih 5 0 0 Anos se propõe o ser um compêndio da história brasileira, e não do Brasil no sentido estrito, abordando somente o que aconteceu dentro do território nacional. A parte final, batizada Panorâmica, liberta-se do padrão cronológico paro abordar alguns temas numa perspectiva mais ampla. Bernardo Joffily

Conheça a História do Brasii!


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1 -PRELIMINARES

Cronologia

1.1 POVOS AMERICANOS / ERA PRE-COLOMBIANA

■ 0 povoamento do Novo Mundo parte da Ásia. há 50-80 milênios segundo a hipótese mais aceita. 0 perío­ do glacial rebaixa o nível do mar e une a Sibéria ao Alasca, pelo atual estreito de Bering. Sucessivas migrações terão cruzado essa ponte natural. Há ainda possíveis rotas marítimas: a das ilhas Aleútas (Pacífico Norte); e a da Polinésia (Pacífico Sul), (avorecida pelos ventos. 0 achado de indícios de presença humana (restos de fogueira) no sítio arqueológico de Pedra Furada, 8 . Raimundo Nonato, PI, se confirmado, deslo­ ca 0 povoamento para mais de 48 mil anos atrás. Ainda assim a América é o último continente pisado pelo homem, depois da África, berço da espécie humana, da Ásia, Europa e Oceania. ■ Contatos com outros continentes são fortuitos até o século 15. Os vikings noruegueses da Islândia chegam à Groenlândia (Erik, o Vemielho, 983 dC) e Canadá (s6u filho Leif Erikson, ano 1000), mas a colônia de Vinland não se consolida. ■ Os índios (nome genérico que Colombo usa por pen­ sar ter chegado à índia [1.2] ) fomiam de mil a 3 mil povos diferenciados: falam centenas de línguas e dialetos, agru­ pados em 133 famílias lingüísticas. Primitivamente vivem da caça e coleta, como, ainda hoje, as comunidades das extremidades geladas do Continente {Eskimó, no Norte, Fueguinos e Ona no Sul). Em longo aprendizado, domi­ nam a agricultura (milho, mandioca) e a cerâmica. No México e nos Andes, o plantio intensivo sobretudo do milho cria há mais de 2 mil anos a base para civilizações urbanas, cidades-estado e grandes impérios. ■ A cultura Mala de Yucatán tem seu auge em 300900 dC. 0 Império Asteca expande-se no planalto mexi­ cano de 1300 até sua destruição pelo espanhol Hemán Cortez. Na mesma época o Império Inca (ou do Tawantisuyo) conquista, desde o Equador, terras altas do Peru e Bolívia, até o norte do Chile e noroeste da Argentina; começa a descer à Amazônia (vale do Mamoré) quando é aniquilado pelo espanhol Francisco Pizarro [1.2]. Estes povos usam canais de irrigação, aquedutos, cultivo em terraços, adubam a terra com esterco de aves, trabalham o ouro, prata, cobre. Fomiam sociedades estratificadas: a aristocracia militar e sacer­ dotal domina os comerciantes e artesãos, servos e escravos. Possuem escrita hieroglífica (exceto os Inca). Erguem templos, palácios, pirâmides, grandes cidades com intenso artesanato e comércio (embora desconhe­ çam a roda e a cunhagem de moedas). 0 aparelho estatal, despótico, sofistica-se e evolui para a forma imperial. Os Maia têm um calendário mais exato que os europeus da Renascença. Os Inca, uma rede de es­ tradas desconhecida na Europa. 0 Império Asteca conta 25 milhões de habitantes em 1519 (toda a Europa. 50 milhões); sua capital, Tenochtitlán, 200 mil habitantes, é maior que Roma ou Constantinopla. ■ As terras do Brasil atual são povoadas há pelo menos 15 mil anos (ossos humanos em Lagoa Santa, cerâmica no baixo Amazonas). No litoral e nos rios, tribos de coletores acumulam os sambaquis (do tupi samba. marisco e W, monte), de até 30 m de altura. Entre 5 mil e 2 mil anos atrás, outros povos, do noroeste, entram pela Amazônia e forniam o mosaico étnico que chegará até o século 16. Há milênios eles combinam a caça e a coleta com a agricultura, baseada na mandioca e/ou milho. Usam a cerâmica, ferramentas e armas (arco, flecha, tacape, zarabatana) de pedra polida, madeira, ossos. A sociedade, tribal, desconhece as classes sociais, o Estado e o comércio (inclusive o escambo). Na divisão de trabalho por gênero, a mulher planta, cozinha, faz cerâmica; o homem den-uba a mata. caça, pesca, guer­ reia. A ascendência do cacique e do conselho de anciãos baseia-se no consentimento e não na coação. Cons­ tituem dezenas de grupos tribais, falando línguas dos

troncos Tupi, Macro-Jê, Aruak, Karib, Pano, Tukano e outras. Em 1500 somam perlo de 5 milhões (Portugal. 1,5 milhão).

■ Os povos Tupi saem da Amazônia penjana para o vale do Mamoré há 5 milênios. Em 500 aC Iniciam outra longa migração, impulsionada pela agricultura seminômade. apoiada na canoagem, na índole guerreira, e incitada pela crença na luy Maran Ei (Terra Sem Males, situada a leste). Um ramo desce o Madeira e ocupa a Amazônia. Outro sobe o Jipataná, passa à bacia do Prata, chega ao litoral, sobe por ele e é o 1' a enfrentar a colonização. É dele que os portugueses extraem o estereótipo simplifica(to do índio. 0 choque com os europeus [2. 1. 2.2] obriga os Tupi a seguirem seu êxodo, agora para oeste (invertem inclusive a localização da luy Maran Ei), até recontatarem, no século 17, seus parentes da Amazônia. A área lingüístico-cultural Tupi, que excede o Brasil atual e vai do Cari­ be ao Prata, é, com a árabe, a mais extensa da época. Lavradores, os Tupi plantam sobretudo mandioca (que tratam para tirar o veneno e comem assada, cozida, como farinha ou polvilho), batata-doce, cará, feijão, amendoim, pimenta, tabaco, legumes. Pratkam a coivara (até hoje usada no Brasil), queimando a mata antes do plantio; quando a terra se esgota deslocam suas roças. Povos aquáticos, exímios pescadores, canoeiros e nadadores, buscam os rios e o mar; legarão ao povo brasileiro a cul­ tura do banho diário. Possuem caminhos terrestres; o mais extenso e famoso, o Peabim [2.6], de Cananéia (litoral de SP) ao norte do atual Paraguai. A aldeia Tupi tem 300 a 2 mil e até 3 mil haí». A guerra constante cria 0 hábito (hoje em desuso) de cercá-la com uma dupla pa­ liçada. Dentro, de 4 a 7 grandes habitações (ocas) com até 200 moradores, que escolhem um líder. Os Tupi plan­ tam e tecem algodão para fazer redes (e trançam cestos de cipó) mas andam nus. Cultuam os espíritos dos mor­ tos. 0 maracá, instromento musical feito de cabaça, ga­ nha poderes sobrenaturais ao ser consagrado pelo pajé (xamã). Guerreiros, pratk^m o canibalismo ritual, principal argumento português para justificar a escravização, a "guerra justa" e o genocídio [2.2]. ■ Os povos Jê chegam ao sertão nordestino há 4 mil anos, vindos talvez da costa desértica do Pacífico. Espalham-se pelo Planalto Central, até a Serra Gaúcha e a borda da Amazônia; são povos do Cerrado. Trazem o milho e 0 feijão como cultivos principais e pescam com o timbó, cipó tóxico que entorpece os peixes. Usam pouca cerâmica e não tecem; dormem em estrados de madeira (jiraus). A atóeia Jê tem até mil moradores: divide-se em metades simétricas, que se revezam na chefia, uma na seca. outra nas chuvas. Muitos povos Jê adomam as orelhas e o lábio inferior com um batoque (rodela de madeira). Cultuam os mortos, a Lua (grande espírito do bem) e, entre os Xavante e Bororo, o milho. Fazem da pintura corporal uma veste e uma escrita, que exprime desde o estado civil até o estado de espírito. Para os Tupi, os Jê são tapuia, nome ofensivo (significa “língua travada", “bárbaro”) que passa aos portugueses. ■ A cultura marajoara, ainda envolta em mistério, flo­ resce em 450 dC na ilha de Marajó, habitada desde 3000 aC e cultivada (milho) desde 100 aC. É a sociedade mais avançada do Brasil pré-colombiano. Produz cerâmica so­ fisticada (figuras geométricas coloridas), cachimbos, estatuetas, tebentás para os lábios, fusos. Ergue enor­ mes atenos para moradia e cemitérios, alguns com 7 m de altura e 76.500 m3 de tera (iguais à carga de 15 mil caminhões). Sua cerâmica mostra parentesco com os povos do rio Napo (Equador). ■ A cultura Tapajó do baixo Amazonas (d. 1300 dC) alcança a conquista e impressiona os europeus pela compacta e populosa rede de aldeias, até ser dizimada no século 17. Cava grandes poços, alguns em uso até hoje. A cerâmica, requintada, reproduz animais. ■ A conquista dizima estes povos. A escravização [2.2), a desagregação da sociedade tribal e sobretudo as doenças européias (varíola, tuberculose) reduzem drasti­ camente a população indígena, para 100 mil habitantes em 1957 (12.12;. Centenas de povos são exterminados até 0 último homem.

46000 aC: indícios, contestados, de presença humana (restos de fogueira) em Pedra Furada, S, Raimundo Nonato, PI 15300 aC: Presença humana na Lapa Vermelha, Lagoa Santa, I^G 11000 aC: Cerâmica em Mte. Alegre, PA 11000 aC; Pontas de lança encontradas na caverna de Fort Rock, Oregon, EUA 10000 aC: Pinturas em cavernas de Serranópolis, GO, e Pedra Furada, PI 9000 aC; Cultivo do trigo e cevada no Oriente Médio 7083 aC (7): Sambaqui de Maratuá, SP, o mais antigo já encontrado no Brasil 7000 aC: Cultivo da abóbora e da pimenta, México 6000 aC: Civilização indígena na serra de Carajás (PA) 5000 aC: Cultivo da mandioca (vales da Colômbia), do milho e feijão (México) 3500 aC: Escrita piotográfica, Sumária (Iraque) 3000 aC: Provável chegada a RO dos formadores do tronco TupI 3000 aC: Os sumérios (Iraque) inventam a roda, desconhecida nas Américas antes de Colombo 2590 aC: Grande Pirâmide do Egito 2500 aC: Civilização de Huaca Prieta (Peru); construção de casas, tecelagem 2000 aC: Povos Jê chegam ao Nordeste 2000 aC: Metalurgia no Peai 1500 aC; Cultura Olmeca (México) ergue as 1“ cidades das Américas 1300 aC: Formação da família Karib, entre Venezuela e Guiana 1100 aC; A cultura Ananatuba introduz o milho na ilha de Marajó 1000 aC: Os Kaingang e Xokieng (PR, SC, RS) se separam do tronco Jê 753 aC: Fundação de Roma 500 aC; Dispersão dos Tupi rumo ao médio Amazonas e bacia do Paraguai 300 aC; Civilização Nazca (Peru): pirâmides, ourivesaria, classes sociais 300 aC; Os povos Macro-Jê chegam à região Centro-Oeste do Brasil 154 aC: Roma conquista a Lusitânia 1 dC: Ano 1 da Era Cristã 100 dC: Os Aruak chegam à Amazônia 400: A cultura Maia (Guatemala, México) Inventa escrita hieroglífica 450: Cultura Marajoara (Marajó, PA) 467: Oueda do Império Romano 600: Teotlhuacán (México) é a maior cidade do mundo: 100 mil habs. 700: Cultura de Tiwanaco (Bolívia) 711: Invasão árabe da Península Ibérica 929: Califado de Córdoba: auge da cultura árabe na Península Ibérica 1000: o navegador vlking Lsif Erikson chega à América do Norte 1089: Fundada a Universidade de Salerno (Itália) 1094: O rei Atonso VI de Leão e Castela dá a Henrique de Borgonha o Condado Portucalense, núcleo de Portugal 1099: A 1* Cruzada toma Jenjsalém 1139; Afonso Henriques de Portucalis proclama-se Afonso I. rei de Portugal 1147: Afonso I, com ajuda de cruzados Ingleses, conquista Lisboa aos mouros 1150: Fundação da Universidade de Paris 1185: Sancho I, o Povoador, rei de Portugal 1189: Paio Soares de Taveirós escreve a Canção da Ribeirinha, 1“ texto literário em português 1194: Intl Yupanqul funda o Império Inca (Peru) 1211: Afonso II, 0 Gordo, rei de Portugal 1223: Sancho II, o Capelo, rei de Portugal

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1.2 PORTUGAL / GRANDES NAVEGAÇÕES

Cronologia

■ A meta maior é o caminho marítimo para as Indias. Vasco da Gama [1469-1524], com 3 naus, atinge (1498) a cidade Indiana de Calicute; volta com uma carga de especiarias que cobre várias vezes o custo da expe­ dição. 0 comércio Europa-Oriente, cortado desde a conquista turca de Constantinopla, renasce, com feito­ rias e intenso tráfico com a índia. China, Japão, ilhas Molucas, Malásia. Navegantes lusos também chegam ã América do Norte. Alcançam a Terra do Bacalhau (Terra Nova?) em 1474, mais tarde a Groenlândia, Labrador, Nova Inglaterra.

1227; Morre Gengis Khan; seus 4 filhos partilham o Império Mongol, o mais extenso já criado

■ A Idade Moderna. A conquista do Brasil é paite da grande mudança que encerra a Idade Média européia e afeta todo o planeta. As cidades se libertam do jugo feu­ dal. A burguesia mercantil cresce. Surgem Estados na­ cionais. monarquias absolutistas com base na aliança comércio-casas reais, em freqüente conflito com a nobreza e o clero. As Grandes Navegações criam pela 1* vez um mercado mundial: especiarias e sedas do Oriente, açúcar, ouro e prata da América, escravos da África. Difundem-se inovações; pólvora, armas de fogo, bússola, caravela, papel e imprensa de tipos móveis. A Renascença, o Humanismo e a Reforma subvertem o mundo das idéias. ■ Portugal participa da mudança. 0 pequeno reino (1,5 milhão de tiabs. em 1500) nasce guerreando os áraties. o que reforça a autoridade do rei. É um Estado nacional precoce, o 1®da Europa. A dinastia de Borgonha defende e expande seus poderes combatendo ora os mouros infiéis, ora o reino vizinho de Castela ou sua própria nobreza. A burguesia ganha influência, embora o país continue mral e feudal. ■ A Revolução de Avis impulsiona Portugal. Na iminência de ser governado pela rainha de Castela, o país aclama rei (João I) o mestre de Avis, filho bastardo do último Borgonha. Castela, com apoio na nobreza lusa, cerca Lisboa por 7 meses. Uma mescla de revolta do povo miúdo, revolução burguesa, manobra dinástica e guerra de independência vence a batalha de Albujarrota. Comércio e cidades marítimas triunfam; nobreza e clero perdem espaço. Pelo padroado, o papa cede ao rei (tam­ bém Grão-Mestre da Ordem de Cristo) o poder de nomear bispos e aplicar excomunhões. 0 ideário medie­ val de combate ao Islã (com ajuda do lendário rei católico Preste João) mescla-se com interesses mercantis e a catequese dos gentios [2.5], ■ A expansão marítima dos séculos 15-16 vem de antiga familiaridade com o oceano; tradição de comércio (com Gênova, Países Baixos e sobretudo a Inglaterra) e pesca "de perto e de longo” (baleia, atum). Já no século 14 0 rei manda plantar pinheiros para a construção naval, nomeia um almirante, contrata um piloto genovês. A dinastia de Avis faz deste esforço um plano estratégico metodicamente perseguido. ■ A tecnologia naval responde aos desalios do ocea­ no. As galeotas e galés movidas a vela e remos dão lugar à caravela (a 1®é a de Nuno Tristão, 1441): maior, mais larga, com proa alta. castelo de popa, mortíferos canhões e um revolucionário duplo velame, Invenção lusa: velas latinas (triangulares), próprias para qualquer vento; e velas quadradas para aproveitar ao máximo o vento de popa. Seguem-se a nau, o galeão e no século 17 a catarra, que leva 2 mil pessoas. Avançam os instru­ mentos de navegação e a cartografia. Portugal cria a Escola de Sagres (1415), 1“ centro de estudos náuticos do mundo. Atrai os melhores cartógrafos, constnjtores de instrumentos navais e navegantes (o próprio Colom­ bo busca apoio para seu projeto em Lisboa antes de Ma­ dri). 0 infante D. Henrique [1394-1460], filho de João I, dirige a Escola. ■ Na costa d‘Áfrlca a tomada da cidade marroquina de Ceuta inicia a expansão colonial lusa. Gíl Eanes dobra o cabo Bojador. após 12 anos de tentativas, num barco de 2 5 1, um mastro e 14 tripulantes. Ao avançar para o sul, Portugal ergue fortes e feitorias para comerciar pimenta, marfim, ouro, escravos [2.4]. A partir de uma delas (S. Jorge da Mina), Diogo Cão alcança a foz do rio Congo e Bartolomeu Dias o cabo das Tormentas (rebatizado da Boa Esperança), no extremo sul africano.

■ 0 Tratado de Tordesilhas. Por todo o século 15 Portugal e Espanha disputam as novas terras. Roma intervém no conflito com dúzias de bulas papais, con­ fusas, contraditórias e até adulteradas, sempre excluindo outros países da partilha. Após a viagem de Colombo, a magnitude dos interesses em jogo leva à Capitulação da Partição do Mar Oceano ou Tratado de Tordesilhas (1494): 0 mundo é dividido “de pólo a pólo' por um meri­ diano a 370 léguas das ilhas de Cabo Verde; as ten-as a leste ficam com Lisboa, a oeste, com Madri [2.1]. ■ Precursores de Cabral. Já em 1325 lendas e mapas europeus falam da(s) ilha(s) Brasil, associados ao paubrasil e a virtudes paradisíacas. Portugal pode ter chega­ do aqui no fim do s. 15, pois para guiar-se na disputa com a Espanha pratica expedições de arcano (sigilosas). Entre elas a de João Coelho da Porta da Cruz (1493) e a de Duarte Pacheco Pereira (1498). Em 1488 Jean Cousin, da Escola Naval de Dieppe, França, teria estado no Amazonas com Vicente Pinzón (capitão da Nifia na frota de Colombo). Mais documentada a viagem (1499) do espanhol Alonso de Ojeda e do florentino Américo Vespúcio [1441-1512]. que teriam estado no RN. E é certo que Pinzón, meses antes de Cabral, atinge algum ponto do Nordeste, onde can-ega pau-brasil, e a foz do Amazonas, o Mar Dulce. ■ A viagem de Cabral. Logo que Vasco da Gama volta da índia (julho de 1499), a Coroa prepara a mais possan­ te frota da história de Portugal (13 navios). 0 capitão-mor, Pedro Álvares Cabral (1460-1526), obscuro fidalgo de Belmonte, chefia Diogo e Nicolau Coelho (parceiros de Vasco da Gama), Bartolomeu Dias, o escrivão designado para Calicute, Pero Vaz de Caminha (autor da célebre Carta ao rei. 1' documento sobre o Brasil, de 27 págs., extraviada até o século 19); no total, 1.500 homens. ■ Há 2 séculos questiona-se a versão oficial de que Cabral chega ao Brasil por acaso, ao afastar-se da África fugindo às calmarias. A expedição deixa Lisboa (8/3/1500) via Canárias e Cabo Verde; avista sinais de terra (21/4) e o monte Pascoal (22/4); lança âncoras e tem 0 1 ' contato com os índios (23/4), amistoso. Veleja até Porto Seguro (h. Cabrália); frei Henrique de Coimbra celebra a 1* missa, no ilhéu de Coroa Vermelha (26/4); uma grande cruz de madeira com as amias do rei preside a 2* missa, que batiza a Terra de Vera Cruz (1/5). Cabral envia uma nau a Lisboa com a noticia, deixa em terra 2 degredados, 2 desertores e parte (2/5) para a índia, onde tem duvidoso sucesso (só 5 navios retomam mas com muitas riquezas).

1235: Fundado o grande Império Mail, Africa Odd. 1241: O exército mongol chega às portas de Viena 1248: Afonso III, o Bolonhês, rei de Portugual 1250; Portugal toma o Algarve aos árabes e adquire seu contorno atual 1259; DInis, o Lavrador, rei de Portugal 1267; Castela reconhece o Algarve como domínio de Portugal 1267; Tomás de Aquino começa a escrever a Súmula Teológica 1275; O italiano Marco Polo chega a Pequim, China 1276: 0 português Pedro Julião torna-se papa João XXI 1300: Povos Tapajós chegam ao baixo Amazonas (cultura Santarém) 1307; Fundação do Estudo Geral, d. 1537 Universidade de Coimbra 1319: O papa João XXII cria em Portugal a Ordem de Cristo 1321: Dante conclui A Divina Comédia 1325: Fundação da cidade de Cuzco (Pem); Início da expansão Inca 1325; Afonso IV. o Bravo, rei de Portugal 1337: Inglaterra e França iniciam a Guerra dos 100 Anos 1348; A peste negra assola a Europa (pela Itália) 1353: Tratado de pesca Inicia cinco séculos de aliança luso-britânica 1357: Pedro I. o Cmel, rei de Portugal 1358: Começam na França as jacqueries, rebeliões camponesas 1367; Fernando I, o Formoso, rei de Portugal 1367; Inicio da dinastia Ming na China 1383: João I. de Avis, rei de Portugal 1383-1385; Revolução de Avis; dinastia de Avis: Castela invade Portugal; cerco de Lisboa 1385; Portugal vence Castela na batalha de Aljubarrota; vitória da revolução de Avis 1411: Paz entre Portugal e Castela 1415: Portugal cria a Escola de Sagres 1415; Portugal toma a cidade africana de Ceuta 1418; O papa Martlntio V confere caráter de cnjzada à expansão lusa na África 1419: Portugal ocupa a Ilha da Madeira 1426: Capitanias hereditárias na Madeira 1431: Ocupação lusitana dos Açores 1433: Duarte I, o Eloqüente, rei do Portugal 1434: Gll Eanes dobra o catio Bojador 1435: Afonso Baldala descobre o Rio do Ouro, Africa Ocid. 1436; Bula Rex Regum. do papa Eugênio IV, favorece os interesses portugueses 1438: Afonso V, o Africano, rei de Portugal 1438: Oinastla de Pachacutec Yupanqul; grande expansão do Império Inca 1441; Ctiega a Portugal a primeira carga de escravos trazidos da África

■ A conquista das ilhas do Atlântico inicia nos arqui­ pélagos desabitados da Madeira e de Açores. Seguemse as ilhas Canárias (que mais tarde passam ã Espanha). Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, já no GoKo da Guiné. Nas ilhas, a colonização precede o comércio. Portugal

■ Por algum tempo Portugal domina os mares. Auge sob Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal e Algaive, se­ nhor da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e índia (1495-1521). Prosperidade; apo­ geu cultural (convento de Belém, Gil Vicente, Camões). Mas a liderança passa ã Espanha (graças às riquezas do México e Peni) e daí à Holanda e Inglaterra (onde as transformações burguesas são mais sólidas). Portugal se despovoa e pouco ganha na aventura ultramarina; decai, sofre uma derrota histórica e perde seu jovem rei Sebas­ tião na batalha de Alcácer-Quibir Por fim (1580), Felipe II de Habsburgo, rei da Espanha, com apoio na nobreza lusa, vence 5 rivais e toma-se rei também de Portugal (como Felipe II). 0 domínio espanhol dura 60 anos (2.6J.

cria ali as 1“ capitanias hereditárias, plantações de cana e engenhos de açúcar baseados no braço escravo.

0 povo refugia-se no Sebastianismo (crença no mila­ groso retorno do rei Sebastião).

1468: Gutenberg imprime o 1* livro, uma bíblia, em prensa de tipos móveis metálicos

1441: Portugal lança ao mar a 1‘ caravela 1444: Nuno Tristão chega à foz do rio Senegal 1446; Ordenações Afonslnas, 1* código de leis português 9/5/1453: Turcos ocupam Constantinople: data convencional do Início da Idade Moderna 1454: Portugal toma as Ilhas de Cabo Verde 1456: Padroado: o papa Nicolau V dá ao rei de Portugal “jurisdição espiritual” sobre as terras descobertas 1460: 1* bolsa de comércio, em Antuérpia (Holanda)

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Cronologia

2 - COLONIA

1471: Ocupação lusa da Ilha de S. Tomé

■ Portugal só tem olhos para a índia. Até 1527 para lá vão 320 naus e 80 mil homens. A Terra de Vera Cruz fica semi-esquecida, tão freqüentada por portugueses [2.2. 2.6) como por franceses. Expedições guarda-costas (Cristóvão Jacques, 1516-1519 e 1526-1528), são raras e ineficazes. Algumas nem se sabe se existiram, como a 2* de Américo Vespúcio, 1503, cujo relato inspira A Utopia, de Thomas More.

1474: Joâo Vaz Corte alcança a Terra do Bacalhau" (América do Norte?) 1478: Construção do Grande Templo (México) 1481; Joâo II. o Perfeito, rei de Portugal 1481: Portugal cria alfândega especifica (Costa da Mina) para a Africa 1481 : Torquemada organiza a Inquisição espanhola 1482: Diogo Cão chega à foz do Congo 1483; Colombo procura (em vão) ajuda da Coroa Portuguesa para sua viagem 1486: Bartolomeu Dias dobra o cabo das Tormentas (d. da Boa Esperança) 12/10/1492; Colombo chega à América 1492: Os reis católicos tomam Granada, último reino mouro na Península Ibérica 1492-1S02; 2* a 4® viagens de Colombo 1493: Bula Inter Coetera do papa Alexandre VI (espanhol) favorece interesses da Espanha na América 7/6/1494: Tratado de Tordesilhas refoirnula a divisão da bula de 1493, equilibrando interesses 1495: Manuel I, o Venturoso, rei de Portugal. 1495; Pedro de Barcelos e João do Labrador, açorlanos, descobrem para a Inglaterra o Labrador (EUA) 1496: Dinastia dos Habsburgos na Espanha 1497: Conversão forçada de judeus e muçulmanos (cristàos-novos) em Portugal 1498: Vasco da Gama chega a Calicute, índia 1499; O italiano G. Caboto, sob bandeira Inglesa, chega à Terra Nova 26/1/1500; O espanhol Vicente Pinzón alcança o Nordeste do Brasil 8/3/1500: A frota de Cabral deixa a praia do Restelo (Lisboa) 22/4/1500: Cabral chega à costa baiana 1501 : Américo Vespúcio percorre a costa brasileira (S. Francisco, Guanabara) 1501: Concessão real para Fernando de Noronha explorar pau-brasil 1502: Pinzón alcança a foz do Amazonas 1 S 02:1" feitorias portuguesas no Brasil 1502; Fernando de Noronha chega à ilha que hoje leva seu nome 1502: 2* viagem de Vasco da Gama ãs Indias 1503: Gonçalo Coelho percorre a costa até a foz do rio da Prata 1504: Doação da 1* capitania, a Fernando de Noronha 1504: Binot Pauimier realiza a 1* incursão francesa no Brasil 1504: 1° bispado americano (ilha Espanhola) 1506:1“ engenho de açúcar das Américas, nas Antllhas 1506; O papa Júlio II ratifica Tordesilhas e reconhece o Brasil como domínio português 1507: Leonardo da Vinci conclui a tela A Gioconda 1509; Naufrágio de Caramuru na BA 1510: Naufrágio de portugueses (João Ramalho) e espanhóis em São Vicente 1510: Portugal conquista Goa (índia) 1511 ; Chegam às Antilhas os 50 1“ escravos africanos das Américas 1511 ; Nau Bretoa leva da BA para Portugal os l " 36 Indígenas escravos, pau-brasll e animais 1512: Ordenações Manuelinas 1512: Michelangelo começa a pintar a cúpula da Capela Sislina, Roma 1513: Vasco Nunez de Balboa chega ao oceano Pacífico 1513: N. Maquiavel escreve O Principe 1514; 0 Brasil se subordina ao recém-criado bispado de Funchal

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2.1 PRIMORDIOS DA CONQUISTA / PAU-BRASIL

■ A divergência sobre Tordesilhas atesta o descaso. 0 tratado fixa uma linha “de pólo a pólo*, dividindo tanto a América como a Ásia, do outro lado do globo. Mas é vago: situa a raia 370 léguas a leste das ilhas de Cabo Verde sem dizer qual. A cartografia da época é precária. E 0 interesse luso é puxar o limite para leste: perde terra no Brasil, mas ganha as ricas ilhas Molucas. A linha de Tordesilhas jamais é fixada no terreno. Peritos dos 2 países propõem em Badajoz um meridiano à altura da foz do Guaipi (deixando S. Paulo do lado espanhol). Quando Portugal compra o direito sobre as Molucas. a tendência se inverte: Pedro Nunes, 1® cosmógrafo-mor luso, chega a propor (1537) uma linha do Oiapoque atual “até além da baía de S. Marcos", incluindo o Uruguai, Paraguai e metade da Argentina atuais. Já Cabeza de Vaca, governador do Paraguai, toma Cananéia em nome da Espanha (1541). 0 conflito esfria com a união ibérica (1580-1640) mas renasce nas guerras platinas dos séculos 17-18 [2.7]. ■ 0 pau-brasil é o único atrativo da nova terra. Empresta-lhe até o nome. vencendo piedosas propostas de Cabral (Vera Cruz) e Manoel I (Santa Cruz); mau sinal segundo os 1® cronistas, em geral padres. 0 Caesalpinia echinata, pau-de-tinta, em tupi ibirapitanga, vale pelo ceme, vermelho vivo, usado já no século 9 para tin­ gir panos. Dá em toda a costa do RJ a PE. A Coroa impôe seu monopólio sobre o produto (1502) e arrenda 0 direito de extração a particulares (Fernando de Noronha é o 1'). Mas há a concorrência dos entrelopos (traficantes não autorizados), sobretudo franceses [2.2j. 0 pau-brasil dá bom lucro: 1 quintal (5 8 1<) custa 0,5 du­ cado e rende 3. Dispensa instalações. Os índios o der­ rubam. serram, racham e carregam em troca de facas, machados, quinquilharias, em regime de escambo. 0 monopólio da Coroa sobrevive à colônia (até 1859) mas a árvore escasseia; no século 19 é substituído pelas anilinas industriais. ■ A expedição colonizadora de Martim Afonso de Sousa (1530-1532) é a 1* a ir além do extrativismo. Seu chefe, fidalgo de sangue real, recebe poderes de vida e morte, inclusive de doar sesmarias a homens de quali­ dades (nobres) e de posses (negociantes enriquecidos) Traz 5 naves, 400 homens, sementes, mudas de cana Em PE envia Diogo Leite ao norte com 2 navios e se gue para o sul. Na BA encontra Diogo Álvares, o Cara muru, náufrago d. 1509. que vive com os Tupinambá. Na Guanabara. 4 homens fazem a 1* entrada pelo ser­ tão (760 km); a 2*. 80 homens: saí de Cananéia e não retorna. M. A. Sousa segue até a foz do Prata, onde nau­ fraga. Seu irmão Pero Lopes sobe o rio até a atual S. Pedro (Argentina) e toma posse da terra. Na volta, a frota aporta na ilha de S. Vicente (SP), já conhecida como Porto dos Escravos. Serra do Mar acima, vive ali (d. 1510) 0 náufrago Joáo Ramalho ;2.2], com os Goianá. M. A. Sousa funda na ilha a vila de S. Vicente, 1* do Brasil (22/1/1532), Cria o 1* engenho de açúcar (movido a água), distribui as 1“ sesmarias. nomeia os 1“ fun­ cionários. Ao voltar a Lisboa (1532), deixa um núcleo de povoamento que dura até hoje. ■ Com as capitanias hereditárias tenta-se a ocupação à base da iniciativa particular (como nas ilhas do Atlântico). João III entrega 14 delas a navegantes, sol­ dados do Oriente, fidalgos (1532-1534), com vastos poderes; doar sesmarias, condenar plebeus â morte e fidalgos ao degredo. 0 sistema é contido pela resistên­ cia indígena, a distância, o desinteresse. No MA, RN, CE, Tomé (hoje Campos, RJ), Sto. Amaro (SP),

s.

Santana e Ilha de Trindade, a ocupação é desprezível ou nula. Em Itamaracá (PE), BA. Ilhéus, Porto Seguro, ES, é rarefeita. deficitária, vegetativa. Em contraste, PE e S. Vicente prosperam. Pernambuco (ou Nova Lusitânia) toma-se o centro da cultura canavieira [2.3]. 0 donatário, Duarte Coelho, traz a família, ergue torre de pedra e cal, expulsa os índios, contém e organiza os colonos, funda a vila de Olinda. Seu cunhado, Jerónimo de Albuquer­ que, conquista e povoa (com 24 filhos) boa parte do Norte. Nos anos 80 a capitania exporta 40-50 navios-ano de açúcar, pau-brasil, algodão, tabaco. Em S. Vicente a serra limita as terras para cana e o donatário, A. Sousa, fica nas índias. Há choques com espanhóis, fran­ ceses, ingleses e sobretudo índios [2.2]. Serra acima fonnna-se o 1- núcleo interiorano, a vila de Sto. André da Borda do Campo (João Ramalho), baseado na escra­ vidão indígena, gado, lavoura de subsistência, intensa catequese jesuíta d. 1553 [2,51, fundação do colégio de S. Paulo do Campo de Piratininga. núcleo da cidade de S. Paulo (25/V1554). ■ Ao criar o governo geral do Brasil, a Coroa admite 0 fracasso da ocupação por particulares. Assume a ini­ ciativa nas capitanias reais do Rio Grande (d. RN), PB, BA e RJ. Elabora minucioso projeto colonizador (Re­ gimentos. 1548). 0 1^ governador, Tomé de Sousa, excombatente na África e índia, chega â BA (1549) com pedreiros, carpinteiros. 200 soldados. 300 colonos, 400 degredados. Funda Salvador, 1* cidade e 1®capital bra­ sileira, murada com taipa e rodeada de fortes, com casas do governo, da Câmara, dos Contos, Alfândega, Matriz e a Sé do futuro bispado. Cria um pequeno estaleiro, manda vir gado de Cabo Verde (na caravela Galga, da Coroa), viaja em inspeçáo pelo Sul. Só a próspera PE escapa à autoridade de Salvador. 0 im­ pulso estatal e o açúcar impulsionam a colônia. A ocupa­ ção é “de caranguejo”, apenas na costa, por política de Lisboa (tal como na África e Ásia); Tomé de Sousa re­ jeita até a idéia (padre Nóbrega) de criar um povoado em Piratininga. ■ A sociedade do Brasil quinhentista é bem distinta da européia. A imigração espontânea só virá no fim do século 17 [2.8!. Portugal, pouco populoso e fascinado pela índia, envia à colônia degredados (pena fartamente aplicada a dissidentes políticos e religiosos); e o degre­ do no Brasil é pior que na Guiné. Há muitos cristâosnovos (judeus forçados à conversão em 1497). Em 1583 há no Brasil 25 mil brancos e mestiços. 18 mil índios mansos e 14 mil negros. Mulheres brancas são raríssimas. As 1“ chegam em 1551; 3 meninas órfãs enviadas pela Coroa; só no século 19 haverá imigração significa­ tiva de européias. ■ Nas 1“ gerações, os mazombos (descendentes de europeus nascidos no Brasil) são quase sempre mamelucos (do árabe mamiuk, escravo), mestiços de por­ tuguês e índio. Os padres, que Nóbrega chama “escó­ ria', fecham os olhos aos amigamentos e à poligamia, quando não os praticam; o escritor holandês Gaspar Barlaeus Ilustra, citando um dito da época; "Ultram Equlnoctialem non peccari" ("Não há pecado além do Equador). A escravidão indígena [2.2), formalmente proibida, é comqueira. Na área do açúcar a escravidão negra [2.4] ganha terreno; prevalecerá em meados do século 17. ■ A base tecnológica, também mestiça, tem forte marca Tupi: agricultura da floresta tropical, estribada na mandioca, milho e coivara. em mescla com elementos europeus (armas e ferramentas de ferro, pólvora, monjo­ lo de pilar, animais domésticos, carro de boi, sal, sabão, couro curtido, aguardente, lamparina). Sofistica-se no engenho de açúcar, que usa tecnologia de ponta para a época ;2.3]. 0 contato intercapitanlas, desencorajado pela metrópole, é raro. S. Vicente liga-se mais fácil a Lisboa que à Bahia. 0 trajeto Salvador-S. Vicente leva 21 dias, a Lisboa 30-60 dias, a Luanda 40 dias: subir a serra, de S. Vicente a S. Paulo. 4 dias.


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Anhembi (Tietê)

( I 5^ f

V icente (litoral) P iratininga (planalto)

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M ata atlâ ntica ^

A barreira da Serra do Mar 15


Cronologia

2.2

1514; Femão de Magalhães cria a feitoría de Todos os Santos, BA

■ 0 1° contato com o$ indígertas é amistoso, “São mais nossos amigos que nós seus', diz Caminha. Mas em 1511 os 1=* 35 esaavos são levados na nau Bretoa. Com a ocupação, o cativeiro se alastra. Santos é o Porto dos Escravos, preados por Antônio Rodrigues (litoral) e Joâo Ramalho (sertão). A ima^m-padrão do gentío passa a ser de falso, covarde, preguiçoso, estiipido, sem lei, sem rei, sem Deus e sobretudo canibal. Duvida-se que tenha alma. A escravização é associada à civilização e catequese, como ato cristão e meritório.

1514: Os portugueses chegam à China 1516; Expedição guarda-costas de Cristóvão Jacques, até o rio da Prata, funda feitoria em PE 1516: Thomas l^ore escreve A Utopia, inspirado no relato de viagem sul-americana de Américo Vespúcio 1519: O português Femão de Magalhães, a serviço da Espanha, inicia a 1‘ viagem de circunavegação 1519; M. Lutero rompe com a Igreja de Roma. Início da Reforma Protestante 1519; Carlos I da Espanha toma-se Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico 1519: F. Cortez Inicia conquista do México 1521: João III, rei de Portugal 1521; Expedição lusitana (Aleixo Garcia), do porto de Patos, pelo sertão, até Potosi 1524; A Comédia do Viúvo, de Gll Vicente 1524: O espanhol F. Pizarro invade o Império Inca 1524: Conferência luso-espanhola de Badajós 1525; Introdução da batata na Europa 1526; João III nomeia governador do Brasil C. Jacques. Ele chefia 2° expedIçSo guarda-costas, que aprisiona na BA e executa 300 franceses 1526: Feitoria na ilha de Itamaracá 1526; Entrada de Aleixo Garcia, partindo de S. Vicente 1529; Espanha cede as Molucas a Portugal 1530: Franceses destroem feitoria de PE 1530: João III Institui no Brasil o sistema de capitanias hereditárias 1530; 1“ inglês (W. Hawkins) no Brasil 1531; Terremoto em Lisboa 1531; Expedição de Martim Afonso de Sousa; expedição de Diogo Leite até o MA 22/1/1532; M. A. de Sousa funda a vila de S. Vicente 1532:1“ engenhos em S, Vicente 1532; Pero Lopes de Sousa retoma dos franceses a feitoria de Igaraçu 1533; 1* imprensa das Américas (religiosa), no México 1533: Pizarro toma Cuzco, capital do Império Inca 1534; Introdução do gado, em S. Vicente 1534: O espanhol Inácio de Loyola cria em Paris a Companhia de Jesus (jesuíta) 1534: Implantação do sistema das capitanias hereditárias 12/3/1535: Fundação da vila de Olinda, PE 1535: 1° engenho que produz em escala comercial, em Olinda, PE 1535: Instituição do degredo no Brasil 1535: Fundados os povoados do Espirito Santo (d. Vitória) e Vila Velha, ES, Igaraçu e Olinda, PE 1536: Bula papal cna a Inquisição em Lisboa 1536: Fundação da vila de Santos, SP 1536: P. de Mendonza funda Buenos Aires 1537: Fundação de Iguape, SP 1537: Bula papal repudia a escravidão dos índios, "criaturas de Deus iguais a todos' 1538: 1 ' desembarque documentado de escravos africanos no Brasil 1B38: Ataque dos Tupinlkim no ES 1538; Bula papal cria Universidade de S. Tomás, em S. Domingo, a 1“ das Américas 1539: Duarte Coelho, de PE, pede licença ao rei para trazer escravos da Guiné 1539: Joâo III confia a catequese das colônias de Portugal à recém-fundada Companhia de Jesus 1540-1542: Francisco Orellana, oficial de Pizarro, desce a Amazonas 16

ín d io s /FRANCESES

NO RIO<

■ A preagem (captura) se apóia em tribos aliadas (em SP os (3oltacà do cacique Tfciriçá) e armas de fogo. Homens e mulheres são trazidos ‘como carneiros e ovelhas", em canoas ou por terra, atados pelo pescoço, às centenas, depois aos milhares. A oferta de escravos sotje brusca­ mente com os ataques paulistas às missões guaranis [2.6, 2.7). Em 130 anos, 2 milhões sâo mortos ou escravizados. ■ Escravidão negra e vermelha convivem. Uma do­ mina as áreas ricas [2.4], outra o sertão potire (SP, MA, PA). A abundância, o "vício' de recusar trabalho forçado, fugir e morrer à toa depreciam o “negro da tenra', face ao “da Guiné'. A lei em tese veda a escravidão indígena desde 1570, mas abre sempre exceções: para os Aimoré, os cap­ turados em "guerra justa', os “íncSos de corda” (vencidos por outra tribo e amarrados â espera do sacrifido). Seu hábil manuseb penmite o cativeiro em ampla escala. 0 testamen­ to do bandeirante A. Pedroso de Barros (1652) indui 500 cativos. A escravidão vermelha entra pelo século 19. Na Amazônia de 1866, compra-se um íncSo por um machado. ■ Os jesuítas condenam e combatem a escravidão ver­ melha (não a negra); são hostilizados e até expulsos por Isso. Mas sua posição é dtï)ia Nóbrega considera os índios trutos animais', 'cães’ , "porcos", feras bravas'; e apóia a posse de ‘escravos legítimos, tomados em guerra justa'. ■ Os indígenas resistem pela guerra à invasão e escra­ vidão. Vencidos, às vezes após gerações, seus sobrevi­ ventes caem no cativeiro ou se internam pelo sertão ■ Guerra (ou Confederação) dos Tamoios (15551567): conflagra o RJ e SP, de Cabo Frio a Itanhaém. Os Tupinambá se aliam aos Carijó (Guarulhos), Guayaná, parte dos Tupinikim e franceses. Tamoio em tupi é mais velho ; por extensão, nativo. A ngor não há confederação, mas unidade de ação Cunhambebe, cacique de Ubatuba (h. Angra dos Reis), pintado como um “monstro" de estatura e força, ‘ hediondo antropófago" capaz de recu­ sar outro alimento afora carne humana, é o 1' a revidar à preagem. morre numa epidemia de sarampo fatal aos Tamoios; assume Aimberè, de Uruçumirim (hoje morro da Glória, Rio). Jaguanharo, Tupinikim e sobrinho de Tibiriçá, tenta em vão a adesão do lio. Os rebeldes, esti­ mados em 10 mil, reúnem até 180 canoas com guer­ reiros. Fracassam num assalto a Piratininga mas vencem um combate em que matam Tibiriçá, Caiubi e Femão, filho de Mem de Sá. Nóbrega e Anchieta negociam em Iperoig (Ubatuba) um acordo de paz (1563), que inclui a libertação dos escravos. Um ano depois a preagem reco­ meça e com ela a guerra. ■ A França não acata a linha de Tordesilhas; o rei Francisco I diz (1517) que só a aceita após ver o testamen­ to de Adão. Os franceses carregam pau-brasil, em ótimas relações com os Tupi. (to RJ, fundam uma colônia que se imbtica com a Guerra dos Tamoios: é a França Antártida de Nicolas D. de Villegaignon, com patrocínio do aim. Coligny, simpatia do rei francês Henrique II, apok) de armadores e caMnistas, C^hegam ao RJ em 2 navios, 200 cokinos (10/11/1555). Erguem o forte Coligiy na ilha de Serigipe (h. Ville^ignon) e planejam uma cidade em terra limite, Hennville, Os índios apóiam os mair (franceses) contra os peró (portugueses); o govemo Duarte da Costa não reage. A Europa calvinista envia mais 3 naus, 300 colonos, mu­ lheres, 2 teólogos. Envolvido em doutas doutrinárias, Ville­ gaignon passa a chefia a seu sobrinho B. Le Compte e volta à Ftança (1559). 0 novo govemadof-gerai Mem de Sá, com 2 mil homens mais reforços de SP, destrói o forte e dispersa os franceses. Os remanescentes so confundem com os

Tamoios e alguns se integram com eles (Ernesto, ou Quaraciaba, genro de Aimberè morto em Uruçumirim). ■ Fundação do Rio de Janeiro. Lisboa envia tropas, tam­ bém a BA e ES (os Temiminó de Araribóia). No comando, Estácto de Sá (sobrinho de Mem de Sá) funda ao chegar (1»/3/l565) à cidade de 8 . Sebastião do Rio de Janeiro, mero acampamento na enseada de Botafogo. Ataques tannoios fazem Anchieta pedir a volta de Mem de Sá. Na batalha decisiva de Unjçumlrim (12 mil combatentes), Estácio de Sá é ferido de morte por uma flecha, mas vence. As cabeças de Aimberè e outros são fincadas em estacas. Anchieta narra os “gestos heróicos”: “160 aldeias incen­ diadas, passado tudo ao fio da espada”. Mem de Sá muda a cidade para o atual Castelo, ergue baluartes, muros; doa uma sesmaria (h. Niterói) a Araribóia. 0 RJ toma-se Capitania Real, entregue a uma dinastia da família Sá; em 1600 tem 750 europeus e 100 negros. ■ Guerra dos Aimoré (1555-1673); atinge Ilhéus, BA, Porto Seguro. Os Aimoré (botocudos), povo Jê (B/\, ES, MG) atacam até o Recôncavo. São sufocados 1 século depois (graças a guerreiros Tabajara trazidos da PB), mas em 1718-1780 assolam a área com guennlhas. Por seu valor militar, são comparados aos Araucano do Chile. Ainda em 1808 0 regente declara "guerra justa’ aos botocudos. ■ Guerra dos Potiguara (1586-1599): detém a conquista da PB até o final do século. Os chefes Tejucupapo e Penacama levantam 50 aldeias, com apoio francês. São venci­ dos pela varíola e pelo auxílio dos Tabajara aos portugue­ ses. Seus descendentes vivem hoje na baía da Traição, assim chamada devido à violação da paz pelo governo. ■ Levante Tupinambá (PA, 1617-1621): começa em Cumã, onde todos os brancos são mortos. Ataca Belém (1619) sob comando do chefe Guaimiaba (Cabelo de Ve­ lha), morto em combate. A repressão é auxiliada por uma epidemia de varíola. ■ Guerra do Açu, dos Bárbaros ou Confederação Cariri (sertão da PB, RN, CE, PE, 1686-1692): causada pelo gado solto que os índios caçam, envolve os Janduim e outros povos Jè liderados por Canindé (preso em 1690) e Caracará. Ataques à fortaleza do Açu, ameaça à dos Reis Magos (h. Natal). 0 bandeirante D. Jorge Velho [2.4] ataca os Cariri com 600 homens, sem êxito. Um acordo de “paz perpétua" entre “D. Pedro I, rei de Portugal e Algarves, e Canindé, rei dos Janduim”, assinado na pre­ sença de 70 caciques, é violado 2 anos depois. Em 1993 restam 29 Cariri no Nordeste. ■ Revolta de Manu U dino (PI, MA, CE, 1712-1719): o estopim é o fazendeiro A. C. Souto Maior (que violenta mu­ lheres e a seguir mata-as a machadadas), morto por seus índk». Estende-se (fazendas destmldas, portugueses mor­ tos) e projeta um líder, Manu Ladino, um Cariri educado por padres, por 7 anos o homem forte do Meio-Norte. Conflitos tribais dividem a revolta, afinal esmagada por uma expe­ dição punitiva dos fazendeiros. ■ Guen-a dos Manau (Afvl, 1723-1728): impede por 4 anos quak)uer barco luso de subir o rio Negro, densamente povoado. Seu líder, Ajuricaba, rompe com o pai^ cacique dos Manau, e lança o lema “Esta tena tem dono". E vencido por um navio que d. João V envia de Lisboa para bombardear as aldeias ribeirinhas. Ajuricaba, levado preso a Belém, segundo a lenda, atira-se no rio ao avistar a cidade. ■ A resistência Gualkuru (MT, 1725-1744) ataca várias vezes Cuiabá, V Bela, Assunção e as monções [2.7], Os exímios cavaleiros Mbayá-Gualkum aliam-se aos PayaguáGuaikutu, canoeiros, que se sen/em dos remos como lanças. Chegam a r^tu ra r e vender bandeirantes como escravos em Assunção. ■ Guerrilha Mura: dura 1 século nos vales do baixo Punis, Negro, Madeira. Grandes canoeiros, os Mura fustigam o inimi­ go e se refugiam em meandros fluviais onde ninguém ousa penetrar. Aldeados pelos carmeítas (1689), [)õem fim à re­ sistência e colaboram no massacre dos Mundurucu e Juma. ■ Guerra Guaranítica (RS, 1753-1756); [2.6],


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IS


Cronologia

2.3 ECONOMIA/SOCIEDADES DA CANA E DO COURO ■ A cana-de-açúcar é plantada já na antigüidade (In­ dia, China, Java); os árabes levam-na à Europa. Na Ida­ de Média açúcar é artigo de luxo, vendido em boticas. No século 15 as ilhas portuguesas lideram a produção (7,5 mil t/ano). A conquista das Américas faz explodir a produção e consumo; o açúcar toma-se a 1* monocultu­ ra, totalmente voltada para o mercado; a 1* agroindústria, praticada em grande escala; e a 1* commodity, comercia­ lizada em nível mundial.

paupérrima lavoura de subsistência. Quase não há pe­ quena propriedade. A reduzida população assalariada di­ minui, camadas métSas são escassas. A monocultura atro­ fia 0 cultivo de alimentos e, afora os mais abastados, a população cotonial uma subnutrição crônica. 0 campo do­ mina a cidade. Muitos comerciantes e funcionários são também senhores de engenho. 0 custeio, transporte e ven­ da do açúcar ficam a cargo de portugueses e holande­ ses. Nã base da pirâmide estão os escravos de eito [2.4],

■ 0 Início do cultivo no Brasil tem data incerta. Mar­ tim Afonso de Sousa ergue (1532) o 1' engenho [2.1). A energia hidráulica, o massapé (solo argiloso, negro e rico do litoral-Nordeste) e a técnica das ilhas favorecem a pro­ dução, que em 1560 passa às Antilhas, torna-se a mais rentável do planeta e faz do Brasil o maior exportador mundial. Em 1573 PE tem 23 engenhos; a BA, 18; o Bra­ sil, 60. Em 1600 eles já são 124; Itamaracá, Porto Segu­ ro, ES, SP mais tarde PB, AL e SE moem cana. Em 1652 0 açúcar nordestino atinge o pico. Mas d. 1641 a produ­ ção antilhana toma impulso: a oferta abundante derruba os preços a 50%. No século 18 o ouro das fainas [2.8] encarece o braço escravo e agrava a crise. Em 1749 PE tem 202 engenhos "moentes" (em uso) e 39 "de fogo mor­ to” (paralisados). A economia nordestina se atrofia (queda da renda per capita, lavoura de subsistência rudimentar).

■ Aguardente e rapadura são produzidas nos enge­ nhos ou em unidades escravistas menores (engenhocas, molinetes). Destinam-se ao consumo interno e também ao escambo para adquirir escravos na costa d'África,

■ 0 sistema produtivo é a plantation, inovação lusita­ na que tem no engenho de açúcar seu padrão: latifúndio, grande produção, escravagismo, monocultura, exporta­ ção, monopólio colonial. É um sistema contraditório. A ten'a farta gera relativo atraso na lavoura, itinerante, sem irrigação ou adubagem (ao contrário das ilhas); já o en­ genho é uma unidade produtiva sofisticada para a época: complexa divisão do trabalho, com 18 funções especiali­ zadas, 11 braçais, afora as de apoio. Mas a base latifundiário-escravista limita a formação de um mercado interno e a renovação tecnológica. 0 sistema não se altera por mais de 3 séculos. ■ 0 engenho tem fábrica e campo. 0 campo abarca uns mil ha: a cana não cobre 10%; o resto são pastos (o trans­ porte é em carro-de-boi), matas (as caldeiras queimam muita lenha), cultivos para consumo (mandioca, feijão, milho), áreas para deslocar a plantação quando a terra cansa. Os escravos de eilo (60% do total) plantam, limpam e cortam, vigiados por feitores. As escravas enfeixam a cana. A jornada de trabalho vai das 6 às 18 h. Na safra, de agosto a abril, há ainda um turno extra (kiningo) na fábrica. ■ A fábrica, 0 engenho propriamente, Inclui: 1)Amoenda, movida a água (rasteira ou copeira segundo a posi^o da roda) ou tração animal; nos Irapiches, 3 grossos cilin­ dros moem as canas. 2) A casa das caldeiras, onde se coze e bale o melado; trabalha dia e noite nos 7-8 meses da safra, sob as ordens do mestre de açúcar e do ban­ queiro; é 0 trabalho mais insalubre e perigoso (Vieira com­ para-o ao Infemo). 3) A casa de purgar, que decanta o açúcar por 40 dias em formas cônicas: 4) A caixaria, onde 0 produto vai para caixas de madeira de 500-600 kg, calafetadas com barro e forradas com folhas de bananeira. 0 engenho inclui ainda oficinas, casa-grande, senzala, enfermaria, capela, quase sempre cais e alambique. Em­ prega barqueiros, calafates, carapinas, alfaiates, carreiros, oleiros, vaqueiros. Assalariados, e mais tarde escravos, realizam as funções especializadas (inclusive a de feitormor). Um engenho real (de bom porte) fabrica 150-2501de açúcar (mil vezes menos que uma usina hoje) e tem 150200 escravos. Um pequeno, 50 escravos. Abaixo deste piso está 0 lavrador, que mói sua cana na fábrica alheia.

■ 0 tabaco, nativo, fumado pelos índios, é cultivado desde o fim do século 16, sobretudo no Recôncavo Baia­ no (Cachoeira), por pequenos produtores (até 3 escra­ vos) brancos e até mulatos. É lavoura exigente e na safra todos trabalham, escravos ou não. Conquista a Europa e é muito usado no escambo de escravos entre a Costa da l/ina e BA. ■ 0 algodão é plantado para consumo, de SP ao PA, e para exportação, nas áreas não-canavieiras do NE (MA), em fazendolas de 10 escravos, lavouras familiares, mais tarde em grandes fazendas de até 300 escravos. Escravidão vermelha e negra. Técnica rudimentar, no iní­ cio totalmente manual; após o século 18 usa primitivos descaroçadores de 2 cilindros. A cultura do couro ■ A expansão pecuária parte do engenho, que requer bois-de-carro em n® igual ao de escravos. Carta régia de 1701 reserva à cana as melhores terras e proíbe a cria­ ção até 10 léguas da costa. 0 gado ganha o sertão mar­ geando os rios: desbrava, por dentro, o PI, MA, MG, GO. Garcia D'Ávila em 1552 possui 200 cabeças; sua Casa da Torre chega a ter dúzias de fazendas, ao longo de 1.650 km do S. Francisco, o rio dos Currais. Após a Guerra do Açu [2.2], Jorge Velho e outros paulistas tomam ses­ marias no NE; Domingos Sertão funda 39 fazendas no Pl. Expulsão ou extinção dos índios, que caçam as reses. ■ A fazenda de gado dispensa o grande investimento do engenho. Pode começar com 25-30 cavalos, 200-300 reses, e chegar a 20 mil. Suas células são os currais, cada um com 200- 1.000 cabeças. É uma pecuária exten­ siva. seminômade, de baixíssima densidade econômica, quase autárquica, mas autopropulsada, capaz de expan­ são. No semi-árido a natureza reduz a estatura de bois e homens. 0 principal produto é o couro, fartamente con­ sumido na fazenda e exportado sob fomia de solas (feiras de gado). Também se toca boiadas de 100-300 cabeças até Salvador e Olinda, em viagens de até 3 meses (se não há seca) e com perda de metade das reses. A came de sol se difunde no século 18. ■ 0 vaqueiro com freqüência não é escravo (na pecuária 0 escravismo se mesda com formas de servidão). Ajudado pela fábrica (aprendiz), amansa, ferra, cura bicheiras (duran­ te a vaquejada anual), queima o pasto, m \a cobras, mor­ cegos, onças, abre cacimbas (p o ^ ). A paga é 1 cria em cada 4. 0 dono em geral mora b n ^ , às vezes em seu en^nho litorâneo. A cultura do couro é menos européia, mais pobre e nistica que a da cana. 0 sertanejo sofre influên­ cia Jé, desde o uso do aboto até o fenótipo docabeça-chata...

1540: Fuga de Indígenas para a Amazónia 1540: Rebelião dos Tupinambá em Ilhéus 1540: o papa Paulo III aprova a Companhia de Jesus: jesuítas chegam a Portugal 1540: A Inquisição portuguesa estabelece a censura e um tribunal (Porto); o cardeal d. Henrique é o inquisidor-geral 1541: Cabeza de Vaca toma Cananéia, 8. Francisco e Sta. Catarina para a Espanha 1541: Fundação de Santiago (Chile) 1541: Michelangelo conclui o Juízo Final na capela Sistina, Roma 1542: Navegadores portugueses chegam ao Japão 1543: Fundação da Sta. Casa de Misericórdia de Santos, a 1* do Brasil 1543: Copémico defende a teoria heliocêntrica em Das Revoluções dos Mundos Celestes 1545-1564: Concílio de Trento adapta a Igreja Católica à era pós-Reforma 1546: Campos Tourinho, donatário de Porto Seguro, é preso como herege e sacrílego 1547; Ataque dos Tupinambá a Sto. Amaro 1547: Ivan IV, oTerrível, proclama-se 1® tzar (césar) da Rússia 1548: A Coroa compra a capitania da BA 7/1/1549: Tomé de Sousa, a mando de Joáo III, instala na BA o 1® governo geral do Brasil 1V11/1549: Fundação de Salvador, 1* cidade do Brasil 1549: o jesuíta Francisco Xavier chega ao Japão 1549: Chegada ao Brasil dos seis 1“ jesuítas (pe. Manoel da Nóbrega) 1550: Lote de negros da Guiné chega à BA 1550: O pe. Nóbrega pede ao rei que envie mulheres, “até meretrizes", ao Brasil 1550: Chegam à BA, de Cabo Verde, as 1" cabeças de gado 1551: Construção da Casa da Torre, o castelo dos Garcia D'Avila na BA 1551: 1“ mulheres brancas (3 óriãs) no Brasil 1551: Criada a Universidade de S. Marcos, Peru 1552: João Ramalho, capitão-mor de SP 1553: Duarte da Costa, governador-geral 1553: Fundação de Sto. André da Borda do Campo, 1* vila brasileira longe da costa 1553: Criada a Província Jesuíta do Brasil 1553: Tomé de Sousa permite escravidão indígena em caso de “guerra justa" 1SS3: Executado Miguel Servet, médico e teólogo espanhol, descobridor da circulação sangüínea 1553: Anchieta chega ao Brasil 25/1/1554: Jesuítas fundam o colégio e povoado de S. Paulo de Piratininga 1554: 1® livro escrito no Brasil, Diálogos Sobro a Conversão dos Gentios (Nóbrega) 1554: Jesuítas espanhóis fundam o povoado de Ontiveros (atual PR) 1554: Espanhóis fundam a Cidade Real do Guairá (h. Guaíra, PR) 1555: Villegaignon funda a França Antártida, na Guanabara, RJ

■ A sociedade do açúcar tem no topo o senhor de en­ genho, que mesmo se for plebeu recebe privilégios de nobreza e impenhorabilidade. Seu poder mede-se pela escravaria e seu luxo rivaliza com o da corte (sedas, da­ mascos, vinhos, cavalos de raça). A sua roda circulam parentes, flâmulos, hóspedes, padres, agregados, escra­ vos domésticos (de 12 a 60, pajens, estribeiros, cozinhei­

■ 0 gado platino é o outro foco da expansão (em menor escala. S. Vicente, Marajó). As 1“ reses chegam a Assunção em 1556, “Vaca de Gaeta", se multiplicam soltas no pampa e atingem (1608) o atual RS [2.5^ 0 sis­ tema na estância também é extensivo: nas mangueiras o gado é manso; nas vacarias, bravo e sem dono. 0 gaú­ cho (tipo comum a todo o pampa platino) por bom tempo é mais um caçador que um criador Exporta-se o couro e, no século 18, reses e montarias para MQ (S.S). Após 1733, indústria de came de charque (invento cearense): a charqueada escravista do Brasil concorre em desvan­

ros, criados, amas, mutamas, crias fle estimação). Em sua terra vivem, de favor, moradores (agregados), com

tagem com 0 saiadero argeniino ou uruguaio, que empre­

1557; Mem de Sá, governador-geral

ga assalariados.

1558: Nóbrega autoriza as 1“ reduções jesuítas

1556: Juan de Salazar leva as 1“ cabeças de gado à bacia Platina ("Vaca do Gaeta") 1556: Naufraga a nau N. S* da Ajuda: os Caetés (AL) matam e devoram d. Fernando Sardinha, 1“ bispo do Brasil 1556: Filipe II, rei da Espanha 1557: Sebastião I, rei de Portugal (aos 3 anos): Catarina da Áustria, regente 1557: o alemão Hans Staden publica llvro sobre seu cativeiro pelos Tupinambá do RJ

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Cronologia

2.4 ESCRAVIDAO NEGRA / TRAFICO / QUILOMBOS

1558; Sâo Paulo ganha foro de vila

■ 0 escravismo colonial das Américas tem no Brasil seu modelo. Na Europa, acumula capital para a revolução burguesa. Na África, trunca, pewerte o desenvolvimento e trava por 3 séculos o aumento demográfico. Distinto do escravismo antigo, patriarcal, é o único sistema produtivo incapaz de reproduzir a mão-de-obra; depende do tráfico. Sua marca é o trabalho forçado até a morte por estafa. Portugal escraviza mouros na Idade ti^édia: Gil Eanes [1.2] traz a 1* leva de cativos da Guiné (1441). Na África da época há esaavidão patriarcal e algum tráfico, com o mundo árabe: o desenvolvimento é desigual (sociedades primitivas, patriarcais e avançadas): supera a Europa em áreas da metalurgia; Timtxictu tem universidade (1450) antes de Coimbra.

1558; Fernão de Sá combate com 200 homens os indígenas do ES 1559: Carta régia facilita o tráfico de escravos para o Brasil 1559: Armada portuguesa combate a França Antártida na Guanabara. RJ 1559; A Espanha vence a França e afirma sua hegemonia 1559: Os espanhóis Pedro de Ursua e Lope de Aguirre descem o Amazonas 1560: Fundação da Santa Casa de Olinda 1560; Extinção do povoado de Sto. André 1560; “Guerra justa" dizima os Caeté, PE 1560: Mem de Sá extermina os Tupinikim de Ilhéus 1560: SP descobre ouro de lavagem 1560: 1* vitória sobre os franceses no RJ 1562: “Guerra justa" contra os Caeté, BA 1562: Ataque Tupinikim a S. Paulo; início da Guerra dos Tamoios (SP, RJ) 1562; Início das guerras religiosas na França 1562-1563; Epidemia de varíola na BA; 70 mil mortos, sobretudo entre os Caeté 1562: Cardeal d. Henrique, regente de Portugal 1563: 2’ ataque luso aos franceses no RJ 1563; Paz de iperoig com os Tamoio 1564: Alvará régio cria a redízima, que carreia grandes recursos para os jesuítas 1V3/1565: Estácio de Sá funda a cidade do Rio de Janeiro 1566-1609; Guerra de Independência dos Países Baixos (Holanda) contra a Espanha 20/1/1567; Batalha de Uruçumirim; derrota final dos Tamoio 1567: Criação da capitania real do RJ 1568: Maioridade do rei Sebastião I (aos 14 anos) 1569: Peste Grande mata 60 mil em Lisboa 1569; Proibida a indústria têxtil na América espanhola 1570; 1• lel portuguesa proibindo a escravidão indígena (exceto dos Aimoré) 1570: Anchieta encena 1“ teatro no Brasil 1571: Delido o avanço furco-otomano na Europa 1571; Decreto real proíbe o transporle para o Brasil por naus não portuguesas 24/8/1572: Milhares de protestantes franceses massacrados na Noite de S. Bartolomeu 1572-1577; Efêmera divisão do Brasil em 2 governos com sedes em Salvador e RJ 1572: Camões conclui Os Lusíadas 1573: Brito de Almeida, governador (BA) 1574; Sebastião I invade o Marrocos 1574; Brás Cubas anuncia que achou ouro em SP 1574: Antonio Salerma. governador (RJ) 1575; Chacina de remanescentes franceses e Tamoio em Cabo Frio, RJ 1575; Expedição contra os Potiguara, PB 1575:1* engenho em AL (Porlo Calvo) 1576: Espanhóis fundam Vila Rica do Espirito Santo (atual Guairá, PR) 1576: Monopólio real sobre o sal 1576; Pero de Magalhães Gândavo publica em Lisboa o Tratado da Terra do Brasil 1578: Lourenço da Veiga, governador-geral 1578; Derrota lusitana em Alcácer-Quibir; desaparecimento de Sebastião I; o cardeal d. Henrique, rei de Portugal 1578: O corsário inglês Francis Drake extrai pau-brasil no MA 1578: O francês Jean de Léry escreve História de uma Viagem da Terra do Brasil

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■ 0 tráfico negreiro envolve recursos só superados pelo açúcar. Liderado por Portugal e, no século 18, In­ glaterra [4.6], utiliza asientos, grandes contratos, finan­ ciados por comerciantes, banqueiros, nobres, ordens religiosas, monarcas. 0 pumbeiro (traficante) penetra até 0 pumbo (mercado tocai) e troca sal, armas, ferro, panos e trigo, fumo, açúcar, cachaça e búzios por cati­ vos. No porto (Luanda, Benguela, Ajudá, Congo), o navio pumbeiro (negreiro) embarca 200-500 fôlegos vivos no porão. 15% a 20% morrem na viagem de pestes, escor­ buto, suicídio, banzo. No Recife. Salvador, Rio, os cati­ vos são vendidos: a unidade de venda é a peça da índia (= 1 negro sadio). 0 tráfico para o Brasil vai de data in­ certa (1532?) a 1850 (4.6). Traz no total 3-3,6 milhões (S. Buarque, R. Simonsen, A. Taunay), 4,8-8 milhões (R. Mendonça, C. Prado Jr., P Calmon), 12-15 milhões (Calógeras, R. Pombo). Os cativos pertencem a 2 grandes gnjpos; bantos (sobretudo de Angola): e oeste-africanos (Costa da Mina). ■ 0 eito na lavoura é a sina da maioria: jornada de tra­ balho, 12-18 horas; expectativa de vida. 10-15 anos; aloja­ mento na senzala, dieta de farinha, feijão, aipim, às vezes melaço, peixe, charque. Um negro se paga em 2,5 anos no engenho. 1 ano no cafá. Nas minas [2.8], o tempo de vida cai para 7 anos. A escravidão doméstica tem traços patri­ arcais. No século 19 aumenta o n* de negros de aluguel e de ganho (que vão do artesão à prostituta e ao mendigo). Muita família modesta vive da renda de 1-2 escravos. 0 sistema avilta lodo trabalho e atinge ofícios qualificados (marceneiro, pedreiro, calceteiro, impressor ourives, joa­ lheiro. lüógrafo, alfaiate, sapateiro, barbeiro, curtidor, fer­ reiro. pintor, escultor). ■ Lei e sociedade tratam o escravo como coisa: ele pode ser vendido, alugado, emprestado, herdado, hipo­ tecado. Há 4 vezes mais escravos que escravas. É comum 0 senhor engravidar uma negra e escravizar ou vender o filho (5.7). Há uma hierarquia entre o cativo boçal (recém-vindo da África), ladino (já aclimatado, fa­ lando português) e crioulo (nascido no Brasil); entre ne­ gros e pardos ou mulatos (termo ofensivo derivado de mula, híbrido). Negros e mestiços forros (libertos) não lèm todos os direitos dos brancos. ■ A justificativa do sistema é religiosa: o negro des­ cenderia de Cã, filho maldito de Noé; o cativeiro seria a chance de expiar seu pecado, resgatar-se e alcançar a salvação. A Igreja endossa e pratica a escravidão negra. Seguem-se (século 19) a suposta teoria científica da superioridade racial européia (Gobineau) e a do escravis­ mo benevolente (apoiada nos traços patriarcais da es­ cravidão doméstica). ■ Os castigos indicam a carga conflituosa do escravis­ mo brasileiro. Usa-se correntes, algemas, gonilha ou gar­ galheira (coleira de metal); peia, viramundo (grilhão) e tronco (Imobiliza punhos e pés) para captura e con­ tenção. Máscara, anjinho (anel de ferro que mutila o dedo), palmatória, chibata (bacalhau) para suplício; a lei (1808) prevê até 300 chibatadas/dia (600 para o reinci­ dente). No eito, chibatadas gratuitas, para dissuasão. Marca com ferro em brasa (em geral as iniciais do se­ nhor) para aviltamento. A Coroa cria (1741) a pena de

marcar um F nas costas do fujão; o reincidente perde a orelha; o govemador de MG sugere (1718) a amputação de uma perna e a Câmara de Mariana (1755), o corte do tendão de Aquiles. A lei não pemiite ao senhor matar seu escravo, mas o direito consuetudinário sim, ■ A luta dos escravos marca o Brasil em nível só superado no Haiti. Forma principal: a quilombagem: fuga e formação de comunidades livres. 0 nome quimbundo quilombo, em uso no século 18 (antes, mocambo), desig­ na a união de 5 ou mais fugitivos. Há milhares deles, do AM ao RS (e na Colômbia, Cuba, Haiti, Jamaica, Peru, Guianas). Formam toda uma periferia liberta da socie­ dade. Vivem da agricultura, às vezes garimpo, comércio, saques. SE tem 300 anos de guenilha quilombola en­ dêmica e invicta. Na BA. há mocambos até dentro da capital (Cabula, N. S* dos Mares, Buraco do Tatu). Com 0 ouro e o afluxo de escravos, surgem em MG enormes redutos; o do Ambrósio tem 12 mil habitantes, cria gado, fabrica açúcar, cachaça, farinha, azeite. No RJ o quilom­ bo (destniído com ajuda de Caxias) de Manoel Congo (enforcado em 1839) se apóia numa sociedade secreta. Em Santos, SP surge o grande quilombo do Jabaquara [5.7], em conexão com os abolicionistas. ■ A ordem escravista declara guerra aos quilombos. Cria (século 17) a força annada especial dos capitães-demato, emprega tropas de índios e bandeirantes. Um deles, B. Bueno do Prado, traz do rio das Mortes (1751) 3.900 pares de orelhas, como prova de seu feito. ■ Palmares, ou Angolajanga (pequena Angola) é o quilombo mais populoso, duradouro, presente no imagi­ nário popular. Fica entre Garanhuns (PE) e Viçosa (AL) atuais, em área acidentada, de mata, ten-a boa e caça. Nasce com 40 negros da Guiné fugidos de Porto Calvo em 1630 (ou no século 16?). Com a invasão holandesa, cresce rápido, em fugas coletivas; tem 6 mil negros em 1643,20-30 mil em 1677 (Salvador, 15 mil habs.. Recife 10 mil); inclui brancos e índios. A sociedade mescla tradições bantos, sincretismos brasileiros e exigências militares. Planta e irriga milho, feijão, mandioca, banana (pacova), cana: come melhor que a população colonial. A terra é coletiva mas cada casa tem uma gleba. Artesanato (tecelagem, cerâmica, metalurgia). Comér­ cio com mascates (compra armas e pólvora). Bando­ leirismo, rapto de mulheres, escravização dos negros trazidos à força. Confederação de 11 mocambos (al­ deias) maiores, capital Macaco (1.500 casas); área de 27 mil km'. Esboço de Estado calcado no modelo africano: o conselho de chefes de mocambo, fórum má­ ximo, elege Ganga-Zumba rei, por mérito de guerra. Sincretismo na religião e no dialeto dos Palmares, mis­ tura de banto. português e tupi. Intensa formação guer­ reira; paliçadas, fossos com estrepes, fabrico de armas, força amiada permanente sob comando de Ganga Muiça, instrução militar. Enfrenta 16 (25?) expedições inimigas entre 1645-1695, sendo 2 holandesas. A de Femão Carrilho (1677) destrói mocambos, mata Ganga Muiça, filhos e netos de Ganga-Zumba. Este, ferido, aceita um ultimato português e envia a Recife 3 filhos. 0 acordo de paz (1678) é recusado em Lisboa e em Macaco; Ganga-Zumba é executado. ■ Zumbi, “ negro de singular valor, grande ânimo e constância rara”, sobe à chefia; nascido quilombola, cria­ do pelo pe. A. Melo, com 15 anos foge para Palmares. Os paulistas de Jorge Velho [2.2] retomam a guerra (1687). 0 último ataque (1694-1697) toma o Macaco após 22 dias de cerco. Zumbi escapa, passa à guerrilha, mas é tocaiado, morto (20/11/1695) e mutilado (colocam seu pênis dentro da boca; a cabeça, salgada, é exibida no Recife). Adquire status de herói, sob pressão do movi­ mento negro em 95 [13.13]. ■ Outras formas de resistência: levantes organizados (BA, 1807-1835 [4.3]); participação em movimentos liber­ tários como a Revolta dos Alfaiates [2.11], Balaiada [4.2). Campanha Abolicionista [5.7].


Q u ilo m b < ^ insertsiçõ es

Desem barque de escravos no Brasil (m édia anual, em m ilhares)

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Cronologia

2.5 HOLANDESES NO NORDESTE

1579: 1“ beneditinos chegam a Salvador 1580: União das coroas ibéricas sob a dinastia de Castela; o Brasil passa a ser domínio espanhol

■ Portugal sob os Habsburgos (1580-1640 '1.2|). 0 império espanhol, que agora indui Portugal, é o malor do mtjndo, mas atrasado e frágil. Com o desastre da Inven­ cível Armada (1588), decai. Listioa resiste à política cen­ tralista de Madri (‘ anos de cativeiro'). Motins populares (Porto 1628-1634, Santarém 1629, Évora 1637) preparam a Restauração de 1640.

1580: Filipe I (II de Espanha), rei de Portugal 1580: Inicio do ciclo bandeirante paulista 1580: 0 espanhol Melgarejo funda Santiago de Xerez. MS 1581: Junta interina no govemo geral 1581: Jerônlmo Leitão retorna do Guairá com índios escravizados 1581:1“ convento dos beneditinos, BA 1582: Esquadra espanhola de Flores Valdez no RJ 1582; O papa Gregório XIII reforma o calendário 1583: Manuel Telles Barreto, governador-gerai 1583: S. Cori-eia de Sá, gov. do RJ, assina com J. G. Valério 1« assento de compra de cativos negros 1B 84:1= convento carmelita, Olinda, PE 1585-1591; 1® grande bandeira de caça ao índio; Jerônlmo Leitão destrói 300 aldeias no sertão dos Carijó 1585; Fundação da cidade de Fllipéla (hoje João Pessoa) e da Capitania Real da PB, tomada aos índios e franceses 1585: 1 ' convento franciscano em Olinda, PE 1586-1588: Viagem de circunavegação do corsário inglês Thomas Cavendish 1587; Junta interina no governo geral 1587; Nova lei reafinna que escravidão indígena só om caso de “guerra justa" 1587; Gabriel Soares de Sousa narra no Tratado Descritivo do Brasil sua viagem pelo S. Fremcisco 28/7/1588: Ingleses e temporal liquidam a “Invencível Annada” espanhola 1588: Cristóvão de Barros toma dos índios a costa ao sul do r. S. Francisco 1589; Capitania régia de Sergipe dei Rei; fundação da vila do S. Cristóvão 1590: 1° achado (e modesto) de ouro, nas serras de Jaraguá e Jaguamlmbaba, ao norte de SP 1591: O corsário inglês Cavendish saqueia Santos e Incendela engenhos em S. Vicente 1591: Francisco de Sousa, governador-geral 1591-1595; 1* visitação da Inquisição, na BA 1592; Bandeira de Sebastião Marinho, GO 1592: Bandeira de A. Sardinha caça índios no r. Grande, SP 1592: Entrada de Gabriel Soares de Sousa sobe

0 rio Paraguaçu, BA 1593; Expulsão dos jesuítas da PB 1594; Bandeira de Jorge Correia ataca índios em Mogi, SP 1594: Começa a colonização francesa no MA 1594:1“ frades capuchinhos, MA, e beneditinos, RJ, BA, PE 1595; Shakespeare escreve Romeu e Juliela 1595; O inglês J. Lancaster ocupa Recife 1595: Nova lel reafirma que escravidão Indígena só em caso de "guerra justa” 1595; Entrada de Belchior Dias Moréia sobe o rio Itapicuru, SE 1595; Bandeira de Sebastião de Freitas percorre

0 interior de S. Vicente 1595: Anchiota oscrovo gramática tupi 1595: 1" notícias de mocambos (quilombos) na região de Palmares 1596: Expulsão dos franciscanos da PB 1596: 1“ feitorias inglesas e holandesas na Amazônia 1596: Entrada de J. Botafogo pelo rio Paraíba 1596; Entrada capixaba de Diogo Martins Cão pelos rios Jequitinhonha e Doce 1596: Bandeiras paulistas chegam a MG 1596; Bandeira de Dominaos Rodríques pelo rio s. Francisco até GO

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■ A Holanda (Países Baixos) lidera, com a Inglaterra, a mutação burguesa que deixa a Espanha para trás: é urbana, manufatureira, livre de travas feudais, rica (me­ tade do comércio mundial), culta, protestante. Domi­ nada pela Espanha (1551), declara-se república inde­ pendente (1581) e combate Madri até 1648 (com uma trégua em 1609-1621). A Invasão do Brasil é parte da sua Guerra de Independência, travada também na Europa, Ásia e África. ■ No nível econômico essa Guerra do Açiícar visa dominar o item n® 1 do comércio mundial. A Holanda comercia açúcar do Brasil desde 1540. Quando este toma-se domínio do inimigo Habsburgo, ela passa a ataques corsários. Finda a trégua de 1609, nasce a Cia. das indias Ocidentais (West Indische Compagnie, WIC), com poder para criar colônias, erguer fortes, nomear autoridades, assinar tratados. ■ A expedição a Salvador (1624-1625) penetra com 26 naus, 509 canhões. 1.600 marujos e 1.700 soldados pela larga boca (9 km) da bala de Todos os Santos, que os ca­ nhões de Sto. /^tonlo e Itapagipe não cobrem. Só há luta na casa do govemador, preso. A população foge para além do r. Vemtelho, indea govemador o bispo Marcos Teixeira, mobiliza 2 mil guerrilheiros e cerca o ocupante por terra. Este domina as águas, ergue em armas 500-600 negros (antes de conduir que “sem escravos não se pode fazer coisa alguma no Brasir), constrói o dkjue da cidade. Madri envia a Jornada dos Vassalos, makjr annada que já cruzou 0 Equador (70 naves, 12 mil espanhóis, portugueses e napolitanos), bkx)ueia a barra, toma ou afunda as naus batavas. Sitiados, os holandeses se rendem. Lusitanos que fkaram na ckJade são presos e 4 deles enforcados, junto com 6 ‘ negros que se confederaram (com o ocupantef. A WIC compensa as perdas e custeia o próximo ataque quando o célet)re corsário Pieter Heyn captura (1628) uma rica frota espanhola. ■ A conquista de PE (1630-1654) utiliza 56 navios, 1.100 canhões, 3.800 tripulantes, 3.500 soldados, funcio­ nários, artesãos. Como uma corrente de ferro fecha a barra do Recife, a WIC desembarca ao norte: toma Olin­ da e Recife sem esforço (os fortes de S. Jorge e S. Fran­ cisco resistem) e funda a colônia de Nova Holanda. Ocu­ par 0 Interior é mais difícil. Matias de Albuquerque [15901647], capitão da guen^a em PE, fortifica-se no Arraial (ou Real) do Bom Jesus, que resiste 5 anos a 5 km de Olinda-Reclfe. Apóla-se nos engenhos, nos Indtos Po­ tiguar de Felipe Camarão [1601-1648], em 2.200 solda­ dos espanhóis e italianos trazidos (1631) pelo conde de Bagnuolo. d. 1633 no Corpo de Pretos minas do capitãode-mato ;2.4) Henrique Dias [16??-1663). Usa a guerra brasílica, oposta à guerra da Europa, variante da guerri­ lha, nascida no combate ao gentio e em boa parte apren­ dida dele: uso da mata, mobilidade, agilidade, ink;iativa pessoal, astúcia e manha. ■ 0 avanço holandês (1630-1641) busca apoio nos perseguidos o descontentes da colônia, crístãos-novos, indígenas, mestiços, sem tocar na ordem escravista. Ganha fôlego com a adesão de Domingos Calabar [16001635), ex-resistente, conhecedor da terra, influente entre os índios. Após incendiar Olinda, o ocupante toma Iga­ raçu. Itamaracá. Goiana. Conceição. R. f^ormoso, AL, Rf^ e PB. Caem também o An-aial (aí6/1635) e Nazaré. A guerrilha se Inviabiliza. M. Albuquerque se retira com 8 mil refugiados. Ao passar em Porto Cah/o, captura, enforca e esquarteja Calabar. Em AL, deixa o comando, é culpado

Bagnuolo assume, mas não consegue retomar a guerrilha; refugia-se na Casa da Torre, BA. A Nova Holanda transpõe 0 S. Francisco, assedia Salvador por 1 mês (1638), fustiga 0 ES, avança até SE; ao norte, ocupa o CE (1637) e o MA (1641); e, na África, S. Tomé (golfo da Guiné) e Luanda (Angola), 0 maior porto de escravos. Uma grande frota hispano-lusa (86 navios) é desbaratada. Pânico em Salvador; "Morto está 0 Brasil”, sentencia o pe. Vieira. ■ A Independência de Portugal (1640) subverte o quadro. A Espanha passa a Inimiga e a Holanda a aliada na Guen-a de Independência (1640-1668). Negociações luso-batavas levam à trégua na colônia (1641). 0 marquês de Montaivão, 1®vice-rei do Brasil, envia a Nassau embai­ xadas e cartas com etogios, acenos de paz e abominações da tirania espanhola. ■ 0 conde Johann Mauritius van Nassau-Siegen [1604-1679] realiza sua obra nessa trégua. Nomeado govemador, capitão e almirante-general pela WIC (23/1/1637), traz sábios, artistas, administradores. Busca apoio dos moradores e indígenas (é comparado a Sto. Antonio, a quem ninguém apela sem ser atenddo). Impõe a liberdade de culto (católico, judeu), antes violada. Recife (10 mil habs.) toma-se centro cosmopolita de brasileiros, portugueses, holandeses, judeus, franceses, alemães, ingleses. Nassau leiloa a crédito os engenhos abandona­ dos. Sonha povoar o S. Francisco. A retomada da pro­ dução de açúcar (1638-1645) custeia arrojado plano de saneamento básico, ambientalismo, combate a monocul­ tura, escolas, hospitais, orfanatos. Cada distrito elege sua Câmara de Escabinos (vereadores). Em 27/8/1640 reúnese uma assembléia consultiva de 55 deputados (nenhum holandês). A Nova Holanda tem a 1® tipografia (que não chega a funcionar), os 1“ cientistas e pintores do Brasil, o 1®obsen/atório astronômteo das Américas. ■ Recife. Nassau constrói diques, canais de drena­ gem e navegação, largas aias e praças de toda uma cidade nova, Mauritsstadt (destmída na reconquista), na ilha alagadiça de Antonio Vaz, em frente ao Recife. 0 palácio renascentista de Vrijburg tem jardins, pomares, hortas, lagos, 700 palmeiras, um zoológico. Pontes de madeira unem a ilha ao Recife (259 m) e ao continente (318 m). Nassau, acusado de esbanjador, desentende-se com a WIC e volta à Holanda (22/5/1644). Deixa um tes­ tamento político onde desaconselha “a tosquia do povo até a came”. Sem ele, a Nova Holanda decai: escassez, corrupção, queda do preço do açúcar; pela 1’ vez a WIC tem prejuízo. 0 senhor de engenho Moniz Barreto subleva com êxito o MA (1642-1644). Angola também é reto­ mada. Portugueses, judeus e holandeses começam a deixar o Recife. ■ A Insurreição Pernambucana (13/6/1645) catalisa o sentimento anti-holandês, em especial de senhores de engenho forçados a pagarem suas dívidas. Incitada pelo paraibano Vidai de Negreiros [1606-1681], chefiada pelo senhor de engenho português João Fernandes Vieira [1613-1681], rebela Ipojuca, Tabalinga, Goiana, Igaraçu, Nazaré, Porto Calvo, 5 mil homens em armas (3 mil dos terços de Henrique Dias e Camarão). Tem apoio do govemador-geral, embora o rei João IV o desminta. Vence o combate da Mata das Tabocas e funda o Arraial Novo. Avança célere, exceto na PB e RN, onde os índios apóiam os holandeses. ■ As Batalhas de Guararapes (19/4/1648 e 19/2/1649): 2 tocaias do mestre-de-campo Francisco Barreto, entre os montes Guararapes e um charco à beira-mar, rechaçam uma incursão do grosso do exército holandês. Segue-se longa guerra de desgaste e cerco terrestre do Recife. Só em 20/12/1653 Portugal auxilia os insurretos com 13 navios, que completam o cerco e obtêm (23/1/1654) uma rendição negociada. As conversações de Haia se arrastam até a paz de 1661. Portugal indeniza a Holanda com 600 mil libras, pagas em 16 anuidades (56% pelo Brasil). A

pela deíTota e pteso. 0 espanhol Rojas y Bofja, novo

guetra aos holandeses geia forte nativisnio pernainDu-

chefe, é venckJo e morto em Mala Redonda (1636).

cano, que eclodirá na Guerra dos Mascates [2.9].


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2.6 SOCIEDADE I IGREJA I MISSÕES

Cronologia

e 2 alcaides eleitos lèm o poder formal, tutelado pelos padres (2 por aldeia). A Ordem enfeixa a relação intermissões e o intenso comércio (erva-mate, tabaco, madeira). Vida disciplinada, regulada por toques de si­ nos; punição dos pecados com castigos corporais. Em 158 anos nenhum Guarani ordena-se padre (alega-se taras morais e baixo nível mental). Corpos de cavalana e infantaria adestram-se aos domingos. Fabnca-se fuzis e até canhões. Madri usa o exército Guarani contra índios rebeldes (Charma 1702, Guaicuru e Mocovi 1734-1736), levantes nativistas (Comuna de Assunção, 1734-1736) e invasões portuguesas (1680-1704). Em 1707 há 63 reduções, com 200-300 mil habs., afora os 46 mil das missões de Chiquilos (o Brasil na época tinha 120 mil brancos ou mestiços e 180 mil escravos). A próspera empresa missionária também é chamada Império, Re­ pública 6 Estado Jesuita, por seu caráter paraestatal.

1596r Monges beneditinos fundam mosteiro na PB

■ A ocupação do Novo Mundo coincide com a Reforma Protestante e as Guerras Religiosas na Europa. Lisboa e Madri, fiéis a Roma, impulsionam a Contra-Reforma e a Inquisição. A conquista e catequese das novas terras é tida como obra pia onde Igreja e Estado se mesclam (a Coroa paga os sacerdotes e mantém os templos). Até o século 19,0 ensino e quase toda atividade culta cabem a padres. Só o culto católico é Ifcito; o francês Jean Boufler é enforcado em S. Vicente, com apoio de Anchieta, por ser fierege calvinista. 0 Santo Ofício faz 3 visitações; PE­ BA 1591-1595; BA 1618; PA 1763-1769. Investiga sobre­ tudo cristâos-novos [1.2], levados a Lisboa e condena­ dos, alguns à morte. Ainda assim o catolicismo popular da colônia não é nada ortodoxo. ■ A Companhia de Jesus encarna com fervor a ContraReforma. Criada (Espanha, 1534) em bases militares, logo se engaja na catequese e ensino, do Japão à Califórnia. Os 1“ 6 jesuítas chegam à BA em 1549, com Manoel da Nóbrega [1517-1570] à frente; criam colégios em Salvador, S. Vicente (1550) e Piratininga (1554) [2.1], onde ficam 13 dos 26 missionários (183 em 1600). Os colégios, públicos, gratuitos, ensinam meninos brancos e índios a 1er, escrever e rezar; meninas, a fiar, tecer e re­ zar. Projeta-se aí o jovem José de Anchieta [1534-1597], 1* poeta e teatrólogo da colônia, autor de uma gramática tupi, místico e eloqüente. A Ordem lança-se à catequese do gentio, que defende da escravidão [2.2]. Ouando obtém (1639) a bula papal excomungando os escravis­ tas, uma multidão revoltada expulsa-a de SP. A cate­ quese, confrontada com o cativeiro, não vinga em Pira­ tininga (o colégio muda em 1566 para o Rio); prosperará no Paraguai e Amazônia. ■ As missões (reduções) do Paraguai surgem em terra espanhola: 51% de sua área no RS, SC e PR, 20% no Paraguai, 15% na Argentina e 13% no Uruguai atuais. A 1® missão, N. S® do Loreto (1610), fica no norte do PR atual. A conversão é trabalhosa e instável. Os Guarani, do tronco Tupi [1.1], são atraídos pela pregação (feita na sua língua), os presentes, o gado, o ferro e sobretudo a chance de fugir às encomiendas (trabalho forçado). Em 1623 há 13 reduções no Guairá (ou Guaíra, equivalente ao interior do PR atual); em 1630, 24, com 60-100 mil habs. Outras surgem no Paraguai atual, no Tape e Itatin (RS e MS atuais). ■ Os paulistas (mamelucos, bandeirantes) [2.7] des­ troem essas mlssões.''A vida desses bandidos é ir ao sertão trazendo [índios] presos para vendê-los como pombas", diz um jesuíta. “E Deus que nos dá a ordem, no Livro de Moisés: combatei as nações pagãs', revida Raposo Tavares. As bandeiras matam velhos e crianças (poupam os padres) e voltam a SP com até 4 mil homens e mulheres acorrentados pelo pescoço. As missões, proibidas de ter armas de fogo, não lèm defesa. Os ataques de 1618-1641 destroem 14 reduções no Guairá, 12 no Tape, 4 no Itatin e levam 300 mil escravos. 0 resto das aldeias do Guairá» (2.500 famílias) emigram em massa (1631), em 700 canoas. Nesse ano a Coroa auto­ riza 0 uso de armas e o exército Guarani (adestrado pe­ lo leigo Domingos Torres) obtém a 1* vitória, em Caazapaguaçu, Na grande batalha fluvial de M'Bororé (1640), 4 mil Guarani do capitâo-geral Inácio Abiaru vencem 800 paulistas, 6 mil índios e 900 canoas de Jerônimo Pedroso dos Santos. A partir de M'Bororé, as incursões paulistas rareiam. ■ A aldeia missionária é o único modelo colonizador que não destrói em bloco a cultura indígena. Mantém a propriedade coletiva do tupambae (terra de Deus, de Tupâ, divindade menor associada por equívxo ao Deus cristão), do gado, oficinas artesanais e manufaturas, que têm notável progresso. Adota e cultiva a língua Guarani. Absowe ou tolera tradições, lendas e costumes que não conflitem com a fé cristã, Tem 4-15 mil habs,, como as grandes cidades coloniais. Destribalizadora, marginaliza os caciques e persegue os pajés. Um cabido (conselho)

■ A Guerra Guaranítica (1750-1756) marca o ocaso das missões do Paraguai. Pelo Acordo de Madri [2.7], a Espanha cede a Portugal as terras a leste do r. Uruguai (7 missões, 30 mil habs.), que devem ser evacuadas. Os jesuítas aceitam, mas os Guarani se rebelam sob a lide­ rança de Sepé-Tiaraju, corregedor de S. Miguel, que une as aldeias e improvisa canhões de madeira dura de urundi envolta em couro. Tropas luso-espanholas, em cam­ panha conjunta (1754), matam Sepé. Nicolau Languriu, corregedor de Concepción, assume a liderança e recon'e à guerrilha, mas os luso-espanhóis forçam a batalha de Caybaté (10/2/1756), trágica para os Guarani: 1.200 mor­ tos, inclusive Languriu. Os índios ainda têm 14 mil homens em anrias. mas cedem à prédica jesuíta de re­ signação e obediência. Em fins de 1756 Portugal ocupa S. Nicolau, última redução rebelde. ■ No MA e Amazônia as missões são sobretudo jesuí­ tas mas também de outras ordens. A conquista, tardia e rarefeita, apóia-se no esforço missionário e militar (Belém e Manaus nascem de fortes), em guerra com índios [2.2], franceses (França Equinocial de D. Latouche S. Luís, MA, 1612-1615), holandeses [2.5], ingleses. ■ 0 jesuíta Antonio Vieira [1608-1697], munido de carta régia (1652) que lhe dá vasto poder, impulsiona as missões do Norte apesar do choque com os colonos, que 0 expulsam do MA (1684-1686). A redução é distinta da Paraguaia; os descimentos trazem índios de áreas remo­ tas (r. Negro), pela persuasão ou à força. Não há proprie­ dade coletiva; engenhos, fazendas de algodão e gado pertencem às ordens. Cada padre tem 25 índios a seu senriço. Os demais labutam para os colonos e as ordens em regime de servidão (ou escravidão incompleta): 6 meses-ano de trabalho obrigatório, em tese assalariado. No século 17 floresce na Amazônia a coleta de drogas do sertão (baunilha, salsaparilha, cacau, cravo, canela), também exploradas pelas ordens com mão-de-obra inati­ va. Em 1740,50 mil índios vivem em 19 missões jesuítas. 19 franciscanas. 15 carmelitas e 3 mercedárias. Falam o nheengaiu, língua-geral de base Tupi-Guarani, domi­ nante na Amazônia até o século 19 a falada até hoje [2.12], Sem a fartura e independência dos Guarani, ao menos escapam à destruição física, compondo o forte substrato caboclo da população amazônica. ■ A expulsão dos jesuítas põe fim ao maior pólo missioneiro. A monarquia absolutisla em ascenso ataca a Ordem de Jesus e suas missões como símbolo do poder temporal da Igreja. 0 govemo Pombal [2.9], andjesuíta militante, acusa as missões de formarem um Estado dentro do Estado. Em 1759 Pombal expulsa os jesuítas dos domínios de Portugal; leiloa os bens da Ordem, faz das missões vilas, entrega as igrejas ao clero secular e torna a língua portuguesa obrigatória [2.12]. Bibliote­ cas jesuítas são queimadas. França (1762) e Espanha (1767) seguem o exemplo: os 150 jesuítas do Paraguai

São levados presos â Europa. Em 1773 o breve Dominus ac Redemptor, de Clemente XIV, extingue a Ordem (até 1814).

20/8/1597: Denúncia ao rei: o governador-geral usa dinheiro público em seu engenho 1597: Feliciano Coelho ergue forte dos 3 Reis Magos e disputa o RN com franceses 1597; Ataque Aimoré a Ilhéus e Porto Seguro 1597: Martim de Sá sobe o rio Paraibuna 1597: Incursão de 13 naves francesas na PB 1598: Entrada de Afonso Sardinha de S. Vicente às nascentes do S. Francisco 1598: Filipe II (III de Espanha), rei de Portugal 1598: 1* Casa da Moeda (SP) 1598: O holandês O. van Noort ataca Santos 1598: Entrada de Francisco Sousa no ES e RJ 1599; J. Albuquerque expulsa franceses, “pacifica” índios e funda Natal, RN 1599; Ataques holandeses na BA. RJ e Santos 1600: A Inglaten'a cria Cia. das índias Orientais 1600; Os europeus já conhecem 49% do planeta: 56% dos oceanos e 32% das terras emersas 1601 : A Inquisição condena Giordano Bruno à nrorte 1601: Bandeira de André Leitão busca prata pelo Tietê e Mantiqueira até a nascente do S. Francisco 1601: Nova lei reafirma que escravidão indígena só em caso de “guerra justa” 1601: A Inglaterra vota a 1' Lei dos Pobres (Poor Law): trabalho forçado para os marginalizados 1602: Bandeira de Nicolau Barreto leva 300 homens para prender Indios no Tietê e baixo Paraná 1602; Alvaro de Can/alho, governador-interino 1602: Ministros e juizes castelhanos na administração portuguesa 1603: Publicação das Ordenações Filipinas 1603; 0 holandês P van Caarden ataca a BA 1603; Diogo Botelho, governador-geral 1603; Entrada de Pero Coelho pelo Jaguaribe, até a serra de Ibiapaba, CE, detida por índios e franceses 1603: Shakespeare escreve Hamlet 1604: O holandês Van Caarden ataca a BA 1604; Santas Casas em SE e PB 1604: Paz entre Espanha e Inglaterra 1605: Henrique IV, da França, autoriza Daniel de la Toucha a ocupar terras no Brasil 1605: Nova lel realirma que escravIdSo Indígena só em caso de “guerra justa' 1605; Proibida presença de estrangeiros em domínios de Portugal 1605: Insolvência de Portugal 1605: Cervantes conclui a 1* parte de Dom Quixote 1605: Shakespeare encena Mact^eth 1606; Convento (ranciscano em PE 1606: Manuel Preto e Diogo Ouadros prendem (ndios no Guairá, PR 1607: Fábrica do ferro em Sto. Amaro, SP 1608; 1* estância (?) na margem oriental do rio Uruguai 1608: Redivisão do Brasil em 2 governos 1608: Diogo de Meneses, governador do Norte 1608: Franceses fundam Quebec, Canadá 1609: Francisco de Sousa, governador do Sul 1609: Instala-se em Salvador o Tribunal da Relação do Brasil (suprimido em 1626) 1609; Vicente Paes combate indios de Porto Seguro 1609: Lei contra escravidão indígena gera protestos dos escravistas (RJ, SP) ■1609-1612: Trégua Espanha-Holanda 1609: Tratado de astronomia de J. Kepler 1610; Clemente Alvares e Brás Gonçalves prendem índios no Guairá. PR 1610: 1* redução jesuíta no Guairá, Sto. Inácio do Loreto

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Cronologia 1611: Nova lel revoga na prática a de 1609 ao permitir a escravidão Indígena em caso de "guerra justa" ou de "fndios de corda' 1611: Luís de Sousa sucede a seu pai Francisco no govemo do Sul do Brasil 1612: Reunificação dos governos do Brasil 1612: Gaspar de Sousa, govemador-geral 1612: Sebastião Preto preia (ndios no Guairá. PR 1612: Franceses de Latouche fundam a França Equinocial; cidade de S. Luís, MA 1613: Baltasar Aragão, govenador-geral interino 1613; Inicia guerra pela reconquista do MA 1613; Latouche envia à França 7 índios Tupinambá 1614; Fundação de Curitiba, PR 1614: 1® feira de gado da BA em Capuame 1614: Napier elabora a tábua de logaritmos 1615; Cabo Frio, RJ. elevada a cidade 1615; J. de Albuquerque reconquista o MA aos franceses: alguns deles ficam na terra 1615: Grande bandeira de Lázaro Costa preia (ndios em Patos © Guairá, PR 1616: Fundação de N. 8» do Belém, PA 1617: Luls de Sousa, governador-geral 1617: Levante dos Tupinambá, PA 1617: Carta régia incentiva lavra de minas 1618: Ordem régia cria o estado do MA 1618: 2- visitação do Sto. Ofício (BA) 1618; 300 colonos açorianos povoam o MA 1618: Diálogos das Grandezas do Brasil, de Brandônio 1618: Começa na Europa a Guerra dos 30 Anos 1618-1622; Bandeira de A. Castanho da Silva vai de SP ao Peru 1619; 1“ escravos africanos na Virgínia 1619: Manuel Preto ataca missão no Guairá 1619: Os Tupinambá atacam o forte de Belém 1620: Os 102 colonos do Ma/ffoiver chegam à Nova Inglaterra (EUA) 1621: Famílias de colonos dos Açores se Instalam no MA 1621: Reinicia a guerra Espanha/Holanda 1621: Holanda cria a Companhia das índias Ocidentais (WIC) 1621: Flllpe III (IV de Espanha), rei de Portugal 1621; Brasil 1622: 1622:

Carta régia divide a colônia: estados do e do Maranhão e Grâo-Pará D. Mendonça Furtado, governador-geral Colégios jesuítas em Belém e S. Luís

1623: Manuel Preto preia indios no Guairá 1624; Holandeses ocupam Salvador, BA 1624: D. F Moura Rollm, governador-geral 1624: Criada a Universidade de La Paz. Bolívia 1625: Holandeses de Salvador se rendem 1625; Combates com holandeses e ingleses no rio Xingu, PA, e costa de Macapá, AP 1626; Instalação do Estado do MA; F A Coelho de Carvalho, governador 1626: Mercadores holandeses fundam Nova Amsterdã (h. Nova York) 1626; O holandês Piet Heyn ataca a BA 1627: Diogo Luís de Oliveira, governador-geral

2.7 BANDEIRAS / EXPANSÃO TERRITORIAL ■ s. Paulo de Piratininga. na boca do sertão, longe do 0 achado é mar, da cana, das autoridades, é lerra pobríssima” •Nó­ brega'. Em 17(X) toda a capitania de SP (nome usado d. 1681), do RS ao MT, lem 15 mil habs.: a vila, 3 mil (como uma grande aldeia Tupi). Ao redor, 6 tabas de “gentio amigo’ , a tapera da antiga vila de Sto. André, fazendas; adiante, povoados menores ainda. Os paulistas são ma­ melucos [2.1), nascidos de mãe Tupi; como os Tupi, põem as mulheres para plantar mandioca e milho (trigo e vinha também), dormem em rede. andam descalços; falam tupi. Mas sobretudo vivem de prear (capturar) índios, enfren­ tando os jesuítas, que condenam a escravidão indígena [2.6). Seus clãs familiares lutam também entre si (Pires e Camargos. 1640-1660). É uma comunidade nistica, irre­ quieta, ciosa de sua autonomia, especializada na guerra. •Negros da terra’ são seu 1® artigo de exportação nos séculos 16-17. vindo a seguir a marmelada. ■ A bandeira é uma expedição guerreira de centenas e até milhares de homens: a de Manuel Preto, Raposo Tavares e outros (1629) conta 69 bandeirantes, 900 mamelucos, 2 mH índios flecheiros. Algumas mobilizam a maioria da vila, de crianças a velhos, às vezes mulheres. Varam o sertão durante alguns meses ou anos. Percorrem, quase sempre a pé. até 12 mil km (Raposo Tavares, 1648-1654, chega ao Peru e ao Amazonas). As mais demoradas param, erguem ranchos, plantam roças, colhem e seguem adiante: ou acampam um mês à margem de um rio para escavar canoas. ■ 0 bandeirante leva arcabuz, bacamarte ou espingar­ da de pederneira, pistolas, polvorinho e chumbo, espada, adaga; em geral vai descalço, mas veste o gibão de armas, de couro cru e forrado de algodão para aparar fle­ ctias; carrega ou faz carregar rede, cobertor, machados, enxós, foices, facões, anzol e linha, rede de pesca, quin­ quilharias, bateia e instmmentos de garimpagem. 0 índio carrega arco. flechas, umas poucas coisas suas e os trens do bandeirante. 0 alimento é farinha de guerra (cozida e compactada) e o que se acha no caminho. Correntes de ferro, cada uma com 5-30 gargalheiras [2.4] e respectivos cadeados são petrechos essenciais: pren­ dem os cativos, em fila, para a viagem até SR ■ A caça ao índio é a atividade bandeirante típica. Vem dos 1“ anos da ocupação [2.2); predomina nas bandeiras do século 16-17 e entra pelo 18. Embora pouco lucrativa (rende 1% do açúcar), é o modo de vida dos paulistas. Ni­ colau Ban-eto inicia (1602) o preamento organizado; traz 3 mil cativos Temiminó do PR. Manuel Preto inaugura (1619) 0 ciclo do ataque a reduções jesuítas (2.6|. Em 22 anos. 300 mil Guarani viram escravos: 30% são vendi­ dos, para 0 Nordeste, RJ e até Lisboa. Quando os Gua­ rani se armam e vencem as bandeiras (d. 1641 [2.6]), a preagem ganha o sertão baito de além-Mantiqueira (MG, GO, MT). Teoricamente ilegal e pecaminosa, ela é justlíicada e até louvada. Domingos Jorge Velho, em caita ao rei (1694), argumenta que os paulistas “vão adquirir o ta­ puia gentio-brabo e comedor de came humana para o re­ duzir para o conhecimento da urbana humanidade e da humana sociedade". E zomba dos jesui'tas: "Em vão traba­ lha quem os quer lazer anjos antes de os fazer homens". ■ 0 sertanismo de contrato, uma variante da preagem, consiste em guerrear índios rebeldes e quilombos por uma paga que inclui a escravização dos vencidos. Faz a fama de D. Jorge Velho, destnjidor de Palmares [2.4].

atribuído a A. Rodrigues Arzão, Duarte Lopes, B. Bueno de Siqueira ou (segundo Antonil) um anônimo mulato de Taubaté. Pascoal Moreira Leme, preador de índios, descobre (1719) ouro nos rios Coxipó e Cuiabá; B. Bueno da Silva, o 2® Anhangüera (1725), acha as jazidas do r. Vermelho, GO. ■ Fora de SP o sertanismo ganha outras feições: é o Estado que promove entradas, incluindo em seus obje­ tivos a conquista territorial. RJ, ES, BA, PE, CE e PA são núcleos de bandeirismo nâo-paulista. A partir de Cametá, PA, 47 canoas de 20 remos cada, com 70 soldados e 1.100 índios, sobem o Amazonas até Quito (1637-1640). No comando, Pedro Teixeira tenta estender os domínios de Portugal até o r. do Ouro (h. Napo, no Peru). ■ As monções de MT (como o comércio do gado sulino

12.8]) ocupam os andarilhos paulistas após a descoberta das minas. Cruzam os rios todo ano (de 1720 a 1838), com até 400 canoas de 10-13 m, cavadas em um só tron­ co, ã moda Tupi, e cobertas com um toldo. Pream índios: depois, povoam e abastecem MT (onde é proibido plan­ tar, pois todo escravo deve estar na mineração). A viagem dura 5 meses; no divisor entre as bacias do Paraná e Paraguai é preciso arrastar as canoas por terra. A expansão no Sul ■ A ocupação portuguesa do litoral pára em Para­ naguá até meados do século 17; a espanhola permanece ao sul do r. da Prata (em contraste com a densa presença missioneira[2.6] no interior). Pequenos núcleos paulistas formam os arraiais de S. Francisco do Sul (1658), Des­ terro (h. Florianópolis, 1675) e Laguna (1676). As colô­ nias avançam pouco, com base no gado solto deixado pela destruição de Guairá. ■ A Colônia de Sacramento, iniciativa da Coroa, visa levar o domínio luso até o r. da Prata, considerado um li­ mite natural, pois ninguém sabe ao certo onde passa a linha de Tordesilhas (2.1]. A bula papal criando o bispado do RJ (1676) reforça a pretensão ao dar-lhe jurisdição até 0 Prata. 0 regente d. Pedro confia a fundação de um posto avançado do império luso ao novo govemador do RJ, Manoel Lobo. Este parte com 5 naves, 200 soldados, muitos indígenas e ergue (1680) o forte de Sacramento (h. cidade de Colonia, Uruguai), em frente a Buenos Aires. Os espanhóis intimam Lobo a retirar-se, cercam, atacam e tomam a posição. 0 conflito passa à esfera diplomática e leva ao Tratado de Lisboa (1681), que entrega Sacramento a Portugal. Em 1704 d. Pedro II, por pressão inglesa, interfere na Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714); em represália, a Espanha volta a tomar a Colônia, após 5 meses de cerco. Pelo 2* trata­ do de Utrecht (1715) a (íolônia é portuguesa; mas, isola­ da do resto do Brasil, não prospera. Ao fundar Monte­ vidéu (1726), Madri se adianta; colonos de B u e ii^ Aires atacam de novo Sacramento (1735). Portugal coilclui que a situação é insustentável. Trata de colonizar as terras ao norte: em 1742 funda o Porto dos Casais (h. Porto Ale­ gre). com 50 famílias de colonos açorianos; Instala outras no litoral de SC. ■ No Tratado de Madri (1750, negociado pelo santísta Alexandre de Gusmão) prevalece o princípio do ut possidets (reconhecimento da posse efetiva): d. Joâo V de Portugal cede Sacramento, mas garante vastos territó­ rios na Amazônia, MT e ainda as 7 missões jesuítas da margem esquerda do Uruguai, provocando a Querra Guaranítica [2.6].

1627; História do Brasil 1500-1627. de frei Vicente do Salvador (publ. em 1889) 1627; Corsários da Holanda pilham e Incendeiam navios portugueses na BA 1626: Combates com indígenas em Jaguaripe, Paraguaçu e Maragogipe. BA 1628: Acelera-se a conquista da Amazônia 1629: Raposo Tavares e Manuel Preto atacam missões do Guairá, PR, e Tape, RS

■ A busca do ouro demora a dar (rutos. Modestos achados de ouro de lavagem (de Jaraguá a Paranaguá) levam à criação de uma Casa da Moeda (1641) sem enriquecer SP. Mas as minas do vizinho Peru, as lendas (serras da Prata, Sabarabuçu, dos Martírios, do Rei Bran­ co) e a função de acobertar o preamento impulsionam a busca. Femão Dias Pais. em busca da legendária serra das Esmeraldas, passa, sem saber, por ricas jazidas de

ouro (r. das Velhas) e diamantes (Serro Frio). 50 no fim

hoje a concentração iJos maiores efetivos militares do

1629: Censtnjção dos fortes do Brum, do Rio Tapado e de S. Jorge Novo, PE 26

do século 17 (1693?). surge o primeiro grande achado de

Brasil no RS vem da visão de que esta é uma frontei­ ra sensível.

ouro (2.8), no riactio Tripuí, onde fica a Ouro Preto atual.

■ A disputa continua com a denúncia do tratado de Madri pela Espanha (1761). os tratados de El Prado (1762). Santo Idelfonso (1777) e Badajoz (1801), entre­ meados de combates. Ao final, a fronteira sul assume o contorno atual. Voltará a se conflagrar com a anexação da Banda Oriental por d. Joâo VI e, após a independên­ cia, com as guerras Cisplatina [3.6] e Platinas [5.4], Até


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Cronologia

2.8 0 OURO DAS MINAS / TROPAS DE BURROS ■ 0 achado: Desde o início Coroa e colonos [2.7) bus­ cam pedras e metais preciosos que façam do Brasil um novo Peru. Os 1“ achados, em Jaraguá, Iguape e Cananéia (SP), Paranaguá e Curitiba (h. PR) são pobres faisqueiras de ouro de lavagem. Só no fim do século 17 os paulistas [2.7] acham ouro farto no setião do Cataguá (h. UG). Antonio Dias de Oliveira dá com as jazidas de Ouro Preto (1698), Colhe-se ouro nos vales do Tripuí, das Velhas e das Mortes (virada do século), mais tarde MT (1719) e GO (1725). Logo aílui gente; migração espon­ tânea de 300 mil portugueses (14% da população do reino), trabalhadores, aventureiros, mascates, padres, mulheres, prostitutas, venda em massa de escravos do Nordeste. Em 50 anos a região antes deserta é (até 1940) a capitania mais populosa: 94 mil escravos e 80 mil ho­ mens livres em 1742. No inicio há grandes fomes (1701, 1707): come-se raízes e répteis, uma galinha chega a valer seu peso em ouro. Ainda em 1750 os preços em MG são escorchantes. ■ Guerra dos Emboabas (1708-1709): Os paulistas reivindicam as concessões de lavra só para si (1700). Mas são apenas 1.500 nas Minas contra 30 mil emboabas (forasteiros: do tupi: ave de penas nas pernas, alusão ao uso de botas), sobretudo baianos e portugueses. Em meio a uma escalada de atritos, os emboabas aclamam gover­ nador a Manoel Nunes Viana, de Caeté. Os paulistas vão à guerra liderados por Valentim Pedroso e Barros e Borba Gato. Após vários combates (Capão da Traição, trucidamento de 300 paulistas em 15/2/1709, de veracidade dis­ cutida), a Câmara de S. Paulo envia 1.300 homens, que tentam em vão tomar a Ponta do Morro. 0 novo gover­ nador do RJ, Coelho de Carvalho, obtém a paz: indulto geral; criação da Capitania de SP e Minas do Ouro (17091720); elevaçào de S. Paulo a cidade. ■ Lisboa impõe rígido controle das minas. Envia pro­ vedores (1700) e um superintendente (1702) para cole­ tar impostos. Proíbe: o contato direto de MG-BA-PE (1701); a lavra perto do mar (1703); a entrada de es­ trangeiros e ordens religiosas (1707): a saída de mo­ radores (1711); 0 ofício de ourives, em MG (1751). BA. PE e RJ (1766). Tenta (1709, 1711, 1720) frear a emi­ gração do Portugal. Envia (1719) 2 companhlas de Dragões del-Rei a MG. Cria Casas da Moeda no RJ (1703) e MG (1720) e Casas de Fundição em Santos e Parati (1703) para quintar o ouro. Premia (1710) a delação de extravios. Regulamenta as concessões de lavra à base de 2.5 braças por escravo do requerente. Quando se descobre (1729) que os cristais de Vila do Príncipe (usados como fichas em jogos de cartas) são diamantes, o controle, ainda mais duro. leva à adminis­ tração estatal direta (1771). ■ Os tributos são o Quinto e a Capitação. Esta incida sobre todo escravo ou faiscador (minerador sem escra­ vos). 0 Quinto (20% de todo ouro) deve superar 100 arrobas (1,5 t); do contrário vem a derrama, taxa extra­ ordinária extorquida mediante prisões e violação de domicílios. Execrada, [2.9,2.11] a derrama cai em desuso embora d. 1762 o Quinto nunca atinja a quota. 0 contra­ bando, 1' gesto de rebeldia mineira, chega a sor pregado nas igrejas; imagens de santos-do-pau-oco ocultam ouro em seu interior A mineração furtiva cria toda uma econo­ mia informal envolvendo contrabandistas, garimpeiros, quilombos, rotas secretas. ■ A tecnologia é rústica. 0 mineiro bateia areias de aluvião no leito (ouro de medra) e na margem (de tabuleiro) dos rios, cata as pepitas e apura o ouro em pó. Após 1707, tem de buscar o mais trabalhoso ouro de gruplara, nas serras: desmonta a piçarra, tritura pedras, canalisa água para lavar a terra; inventa para isso uma roda de drenagem,atribuida ao pe. Bonina Suave, e engenhos de pilão. Por fim, cava minas, processo bem mais custoso. É

comum combinar mineração com plantio de milho e man­ dioca. produção de açúcar, queijos, toucinho, panos. A lavra usa aparelhagem, especialização e até 50 escravos.

0 faiscador, sem escravos, nômade, busca o ouro com

1630: Holandeses ocupam Olinda e Recife;

bateia e almocafre (espécie de enxada); pode ser um escravo que trabalha só e paga o jornal ao senhor. A faina estafante, com Ireqüénaa deniro d'âgua, no sol. no frio. em precárias galerias sob a terra, mata muitos por aci­ dente, afogamento, soterramento, asfixia, pneumonia. Nas lavras diamantinas a vigilância chega a 1 feitor por 8 escravos; ministra-se clisteres de pimenta-malagueta ao cativo suspeito de ter engolido uníia pedra.

0 gov. Matias de Albuquerque resiste no Arraial

■ Surgem fortes quilombos ^2.4] (é mais fácil fugir da lavra que do engenho). Levantes visando *a liberdade dos cativos" são abortados nas comarcas de Ouro Preto (1720.1756) e Serro (1764). Em 1820 o negro lorro Argoins lidera uma insurreição exigindo a vigência no Brasil da Nova Constituição Portuguesa, que extingue a escravi­ dão; reúne 15 mil escravos de Ouro Preto a Serro Frio; adota bandeira e distintivos, trava combates: dispersa-se após 1822, sem ter sido vencida.

1631: Ivlissões jesuítas no Itatin, MS

■ A sociedade mineira difere da restante, é urbana e plural. No seu pico, a lavra ocupa 1/3 da população. Outros são mercadores, artesãos, boticários, barbeiros, burocratas, mestres-escolas. padres, os 1* letrados lei­ gos do Brasil, tropeiros, contrabandistas, soldados, escravos com outra ocupação. Há certa mobilidade social (quase nula na cana). A sorte pode enriquecer um fais­ cador. Escravos de jomal e escravas compram às vezes a alforria, sobretudo quando a exaustão das minas derru­ ba 0 preço; em 1739 os libertos são 1,2®/ó dos cativos, em 1786, 35%. Correm relatos e lendas de negros ricos e poderosos (Chico-Rá. Chica da Silva). Com as ordens religiosas proibidas, prosperam as ordens terceiras (irmandades leigas); cada qual reúne uma camada social (inclusive escravos); tèm papel marcante na vida local e patrocinam o auge do barroco mineiro [2. 12!, 1“ expressão de uma curtura própria do Brasil. ■ Fortna-se um mercado Interno. Intenso comércio; gado e escravos do Nordeste, reses e mulas do RS e Argentina. Com o Caminho Novo (d. 1704). o Rio toma-se 0 porto de contato com as Minas; passa de 4 mil habs. em 1700 para 40 mil em 1763, quando substitui Salvador como capital da Cdõnla. ■ Findo o ouro vem a decadência; começa em MG (1750), passa a MT e GO. Empobrece e desurbaniza; Vila Rica cai de 20 mil habs. (1740) para 7 mil (1804). A área central de tvlG subsiste com base no latifúndio escravista não-monocultor outras regiões (GO) se arruinam e des­ povoam, 0 ouro, carreado para o reino, financia o fausto de João V (1706-1750); cobre o crônico déficit comercial luso e vai para a Inglaterra [2,9], onde joga papel funda­ mental na acumulação de capitais que prepara a Revolução Industnal. ■ Tropas. A mineração gera um sistema de comuni­ cação terrestre Antes, só seguem por terra mercadorias com pés; escravos e gado. As 1" cargas para MG vão nas costas de índios e negros, pois não há caminhos. Depois difunde-se a tropa de mulas, que chega até mea­ dos do século 20 em áreas retardatárias. 0 tropeiro é o mercador típico de MG. ao lado do comboieiro, que traz negros acorrentados em fila. 0 grande tropeiro paulista Cristóvão P. de Abreu desbrava (1733) o caminho (2 mil km) dos campos de Curitiba ao RS e Argentina. Surge um fluxo de boiadas e tropas até a feira anual de Sorocaba (SP). Esta, a maior do País, chega a vender 200 mil animais-ano (30 mil mulas) e a arrecadar mais impostos que S. Paulo: docairá com a ferrovia. Os vendedores sâo paulistas, curitibanos, gaúchos; os compradores, minei­ ros. As velhas trilhas dos Tupi e bandeirantes ficam mais povoadas e seguras, pontilhadas de estalagens (mas a Coroa proíbe estradas carroçáveis). Nos pontos estrat^ ic o s nascem povoados, em estreita simbiose estradacidade. Atropa tem 50-60 animais, cada um levando 100180 kg; vai do Rio a Vila Rica em 15 dias. Outras rotas levam a S, Paulo e ao porto de Parati, que vive seu auge no sécuk) 18.

do Bom Jesus 1630: Holandeses tomam Caracas e Suriname 1630; 1* referência ao quilombo de Palmares (AL-PE) 1631: Evacuação e incêndio de Olinda. PE 1631: Bandeiras destroem V. Rica e Guairá, PR, êxodo de 2.500 fannílias rumo ao sul 1632: Calabar passa para os holandeses 1632: Portugal toma dos ingleses o forte murado de Camaú, Macapá 1632: Rembrandt pinta Lição de Anatomia 1633: Holandeses tomam Itamaracá, PE, e o forte dos Reis Magos, RN 1633: A Inquisição obriga Gairleo Galilel a abjurar de joelhos a teoria heliocéntrica 1634: Holandeses tomam o forte de Cabedelo, PB 1635; Holandeses vencem o Arraial do Bom Jesus e dominam a zona canavieira de PE 1635: M, de Albuquerque prende e enforca Calabar. em Porto Calvo, AL 1635: Pedro da Silva, governador-geral 1636: Raposo Tavares, à frente de 120 paulistas e mil indios, destrói missões do Tape, RS 1636: Fundada a Universidade de Harvard, EUA 1637-1644: Nassau, governador em PE 1637: Fernão Dias Pais prende Indios nas reduções do Iblcui. RS 1637: Francisco Bueno ataca missões 1637: 0 Brasil holandês se estende ao CE e r. S. Francisco 1638: Ataque holandês à BA 1638: Expedição de Pedro Teixeira atinge Quito (h. Equador) após subir o Amazonas em 47 canoas de gueria 1638: Femão Dias Pais ataca missões jesuítas do Unjguai 1638: 0 shogunato fecha o Japão aos estrangeiros (até 1854) 1639; Conde da Ton'e. governador-geral 1639: Exército Guarani derrota bandeirantes em Caazapaguaçu, RS 1639: Recife torna-se Cidade Maurícia 1639: Bula do papa Urbano VIII pela liberdade dos indios gera protestos antijesuitas no RJ e SP (em SP os missionários são expulsos) 1640-1660; Conflito entre as lamilias Pires e Camargo, SP 1640: Portugal rompe com a Espanha; Guerra de Independência; dinastia de Bragonça; Joõo IV, rei dG Portugal

1640: Jesuítas expulsos de SP 1640: O holandês Gedeon Morris descobre as salinas de Mossoró, RN 1640: Marquês de Montaivão, 1° vico-re> 1640: Nassau proibe monocultura 1641; Governo interino colegiado (ilegal) 1641: Exército Guarani vence paulistas na batalha fluvial de M'Bororé. RS 1641 : Moradores de SP de Piratininga aclamam rei a Amador Bueno da Ribeira, que recusa 1641: Holandeses conquistam o MA e SE, dominando 7 das 14 capitanias brasileiras 1641: Aliança luso-holandesa na Europa 1642: Montaivão é afastado sob suspeita de pró-holandês; Antonio Telles da Silva, gov-geral 1642: 1® tratado de aliança luso-inglesa 1642; Obras linais de Mauritsstadt, PE 1642; 0 jesuíta paulista Manuel de Morais, por aderir ao domínio fiulandès, ë "queimado em efígie" pelo Santo Ofício

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2.9 ADMINISTRAÇÃO I MOVIMENTOS NATIVISTAS ■ A estrutura administrativa segue o padrão absolu­ tista. As capitanias hereditárias [2.1] dão lugar a capita­ nias reais, perdem privilégios e no governo Pombal se extinguem. Com o Conselho das índias (1604) e o Con­ selho Ullramarino (1642) a Coroa cria a máquina admi­ nistrativa colonial. 0 governador-geral, sempre português, às vezes chamado (d. 1640) vice-rei e capitão-geral de Mar e Terra do Estado do Brasil, lem funções executivas e judiciárias (preside o Tribunal da Relação). 0 gover­ nador manda na capitania. Um contrapeso, a Residência de 30 dias do Ouvidor, julga queixas contra o governador que deixa o cargo. 0 Brasil não tem assento nas Cortes, assembléia apenas consultiva, convocada pelo rei, repre­ sentando os súditos de Portugal. ■ A Câmara Municipal, ou Senado da Câmara, no ini­ cio tem razoável autonomia, sobretudo em SP e RJ: regu­ la a moeda, preços e salários; arrecada e chega a recu­ sar impostos; cria povoados: cuida da defesa, organiza o preamento; decreta a guerra e a paz; nomeia juizes e julga certos crimes; cuida das obras públicas (ruas e caminhos, pontes, chafarizes); faz e rompe alianças com outras Câmaras; desafia e até depõe o governador (RJ 1644, PB 1665, MA 1684. PE 1710). Algumas se rela­ cionam diretamente com a metrópole. ■ A Câmara ê a representação dos proprietários de ter­ ras e escravos, "homens bons” ou ‘ de qualidades”. Exclui náo proprietários, negros e mestiços (mesmo livres), cristãos-novos. hereges. Até os comerciantes ricos tèm que lutar (Recife) para romper o monopólio senhorial. A eleição dos vereadores, indireta e anual, inclui 2 juizes ordinários, que se revezam na presidência. ■ A centralização cresce. Um juiz de fora, nomeado, passa a presidir a Câmara (1692). Os próprios verea­ dores são indicados pelo juiz de fora, o govemador e o ouvidor 0 surto do ouro [2.8] agrava a tendência. Gomes Freire de Andrade governa por 30 anos (173^1763) as capitanias do sul, com poderes inéditos. Álvares da Cunha, 1° vice-rei sediado no Rio, assume (1763) com poderes de vida e morte, “sem apelação nem agravo e sem excetuar pessoa alguma”. ■ 0 governo Pombal tenta a todo custo modernizar Portugal. Sebastião José de Carvalho e Melo [16991782], neto de brasileira, ministro (1750) e 1' ministro (1755-1777) de d. José I é um déspota esclarecido. Reergue Lisboa após o terremoto de 1755; prende, tortu­ ra e mata conspiradores da not)reza (1756,1758); sub)uga 0 clero e expulsa os jesuítas [2.6]; pune com 30 mortes 0 motim popular do Porto (1757); fomenta o comércio, indústria e agricultura. Rompe o monopólio clerical da educação ao criar (1759-1772) um sistema de ensino laico. A Companhia de Comércio do Grão-Paré e Mara­ nhão (1755, seguida pela de PE-PB, 1759), com capitais privados e monopólio do comércio externo, auxilia o surto algodoeiro no MA [2.10]; importa 25 mil escravos em 20 anos. Mas abusa do monopólio, frauda pesos e preços, gera reações antilusitanas e é extinta com a queda de Pombal. A expulsão dos jesuítas agrada os escravistas. Mas Pombal também tenta (1757) abolir a escravidão in­ dígena, converte as aldeias em vilas, estimula casamen­ tos mistos, num esforço integracionista. Torna o português língua obrigatória (1759) [2.12], impondo uma das bases da futura unidade nacional. Nomeia filhos da colônia para altos cargos. Até hoje é visto, ora como tirano corrupto, ora como expoente avançado do Século das Luzes. Os movimentos nativistas ■ As contradições do sistema colonial afloram já no sé­ culo 17. Os movimentos nativistas não exigem ou reivin­ dicam independência ou autonomia. Fracionados, sequer vêem 0 Brasil como país único. Limitam-se a questões pontuais; mas na prática questionam a ordem colonial. ■ Conjuração do Nosso Pai (Recife, PE. 1666), assim

ctiamada porque os revoltosos se disfarçam num corte­ jo de extrema-unção. Prende (9/3) e remete a Lisboa o gov. Mendonça Furtado, tido como tirano. Ataca mari­

nheiros portugueses. Liderada por André de Barros Rego. ■ Revolta de Beckman (MA, 1684). Tem raízes no con­ flito colonos-jesuítas e na oposição à Companhia Geral do Comércio para o Estado do MA (1682, não confundir com sua sucessora pombalina). Sob chefia dos ricos fazendeiros Manuel e Tomás Beckman e de Manuel Sen^áo de Castro, prende (25/2) o gov. Baltazar Fernan­ des e toma os armazéns da Companhia. Reúne a Câ­ mara de S. Luís, forma um novo govemo. abole o mono­ pólio comercial, expulsa os jesuítas. Envia M. Beckman a Lisboa para expor os fatos, numa prova de cordura. A Coroa atwle o monopólio, mas nomeia outro govemador, que ocupa S. Luís, executa M. Beckman e Jorge Sam­ paio, condena outros â prisão ou degredo. Os inacianos retomam em seguida. ■ Guerra dos Mascates (PE, 1709-1710). Toma a forma de choque entra Olinda-Recife. Olinda é cidade (1675). sede da capitania, morada dos senhores de engenho, amjinados e endividados pela baixa do açúcar Recife, mera freguesia, desde os holandeses é centro comercial, com ricos mercadores, em boa parte lusos, que os olindenses chamam com desprezo mascates. Desde 1700 pede para se tomar vila, ter sua Câmara e sobretu­ do executar judicialmente as dívidas dos senhores de Olinda. Em 1709 0 rei atende ao pedido. A emancipação é azedada por rixas de limites. 0 gov. Castro e Caldas. prõ-Recife, ferido num atentado, reage com prisões, inclusive do ouvidor, José Inácio de Arouche pró-Olinda. Olindenses armados invadem Recife, expulsam o gover­ nador e derrubam o pelourinho, símbolo da autonomia municipal. Pedem que os bens dos senhores de engenho sejam impenhoráveis e os comerciantes não tenham direitos civis. Recife revida e afugenta o bispo d. Manuel Álvares da Costa, aclamado govemador em Olinda. Há combates em Boa Vista, Afogados, Ban-eta e Guara­ rapes. 0 gov. Machado de Mendonça, nomeado pelo rei (1711). serena os ânimos (reside 6 meses em Olinda e 6 em Recife). A oligarquia açucareira atrai simpatia e isola os mascates, exaltando um antilusitanismo que voltará com força em 1817 [3.3], ■ Revolta do Sal (SP 1710). Contesta a proibição de extrair no Brasil o produto, essencial à consenração de alimentos. A Câmara do Rio protesta que “os povos po­ bres e cativos comem muitas vezes sem saF; no PA e MA tempera-se a comida com açúcar; SP recorre â canjica. Bartolomeu Faria, de Jacareí, arma agregados e escra­ vos, ocupa os armazéns de Santos, vende o sal "a preço justo", carrega suas mulas e sobe a serra de volta, des­ truindo as pontes para deter a tropa que o persegue. ■ Motim do Maneta (BA. 1711). Deve-se ao aumento do sal (de 480 para 720 réis) e a um imposto extraordinário de 10% (a pretexto de custear o combate ao corsário francês Gay Trouin, que ocupou o Rio). Uma multidão cerca a casa do gov. Vasconcelos e Sousa, elege um Juiz do Povo para negociar e destrói a opulenta residên­ cia de Dias Figueira, contratador do sal. 0 motim cessa ao obter uma anistia e a revogação, por escrito, do au­ mento e do imposto. ■ Revolta de Vila Rica (MG, 1720). Combate a decisão de criar casas de fundição por orde todo o ouro deve passar (e ser taxado). 0 povo se reúne na Câmara (28/6), tendo à frente Pascoal da Silva Guimarães, vete­ rano emboaba, e o tropeiro português Filipe dos Santos Freire [1691-1720]; 2 mil homens marcham para Ribeirão do Carmo (Mariana), onde o odiado conde de Assumar, gov. de MG. conta apenas 40 dragões. Assumar negocia, code, perdoa os rebeldes, mas a seguir convoca reforços, invade Vila Rica com 1.500 homens (dragões e paulistas), queima casas, prende e deporta os cabeças. Filipe dos Santos, preso em Cachoeira, é enforcado sem julgamento e esquartejado em Vila Rica (para alguns, esquartejado vivo por 4 cavatos). Sua cabeça e quartos são pendurados “em postes nos lugares onde tumultuou" As casas de fundição, porém, só se instalam em 1725.

Cronologia 1643; Missão jesuíta naufraga em Marajó 1643: O MA se rebela contra o dominio holandês 1643-1690: Queda da moeda portuguesa 1644: Expedição militar, frustrada, do holandês Rudolf Baro contra o quilombo de Palmares 1644: Nassau deixa o governo e o Brasil 1644: Agostinho Bartalho, governador “eleilo pelo povo" no RJ 1645: lnsun'eição pernambucana anti-holandesa; vitória no monte das Tabocas: retomada de Pto. Calvo, AL 1646: Aboab da Fonseca escreve em Recife a 7* Obra Judaica das Américas 1646: Inicio da construção do Ta] Mahal (índia) 1647: A. Telles de Menezes, governador-geral 1647: Holandeses ocupam Itaparica, BA 19/4/1648: 2.500 pernambucanos derrotam 5 mil holandeses na 1* Batalha dos Guararapes 1648: Paz de Haia; a Espanha reconhece a independência da Holanda 1648: Portugal reconquista Luanda 1648: Fundada a vila de Paranaguá, PR 1648-1651: Raposo Tavares destrói missões do Itatin, MS, alcança os Andes, no Peru, e desce o Amazonas até Belém, em trajeto de 12 mil km 19/2/1649: 2« Batalha dos Guararapes: derrota holandesa 1649: Alvará cria a Companhia Geral do Comércio do Brasil, com monopólio sobre vários produtos 1649: Revolução Gloriosa de Cromwell na Inglaterra 1650: Vasconcelos e Sousa, governador-geral 1650: Construção da catedral de Cuzco, Peru 1651: Fracassa ataque de Domingos Barbosa a missões do Itatin, MS 1651: Bandeira de Raposo Tavares chega a Gurupá após transpor os Andes 1651: Thomas Hobbes escreve O Leviatã 1652: Carta régia permite aos jesuítas ampla ação missionária na Amazônia e MA 1652: Pico da exportação de açúcar na colônia 1652: A Câmara de Belém, PA, desafia ordem de Lisboa para acabar com a escravidão indígena 1652: Holanda e Inglaterra entram em guerra 1653: Reconhecido o direito de o Brasil ter representação nas Cortes de Portugal 1653: O pe. Vieira chega ao MA; inicio da ação jesuíta na Amazônia 26/1/1654: Holandeses se rendem om Recife, PE 1654: Jerônimo de Ataíde, govemador-geral 1654: Sermão da Sexagésima, de Vieira 1654: Expedição militar contra Palmares 1654: O MA volta a ser estado autônomo 1654: Fundação de Sorocaba, SP 1655: Decreto régio proíbe a extração de sal em qualquer parte do Brasil 1655: A Coroa concede aos jesuítas poder secular em suas missões 1655: A Inglaterra toma a Jamaica da Espanha 1656: Afonso VI, rei de Portugal 1656: A. Vidal de Negreiros explora o Pl 1657: F Barreto de Meneses, governador-geral 1657: Maciel Parente preia Indios Tarumã no r. Negro 1657: Jesuítas iniciam ''descimento" de indígenas da Amazônia 1657: C. Huygens, holandês, inventa o relógio de pêndulo 1658: índios da BA vencem bandeirantes 1659: Extinção da Companhia Geral de Comércio do Brasil 1860: Carta régia proíbe novos engenhos 1661: Paz de Haia ratifica a devolução da Nova Holanda a Portugal

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Cronologia

2.10 A CRISE DO SISTEMA COLONIAL

1861-1715: Luis XIV, o Roi Sol, reina na França

■ A decadência do domínio colonial ibérico se agra­ va no século 18. Espanha e Ponugal, apró liderarem a expansão mercantil ;i.2], perdem espaço. É a Inglaterra a 1- do mundo, em comércio, poder naval, produção fabril e até tráfico negreiro ;4 6!. Abre brechas nos monopólios coloniais, inclusive via contrabando. Boa parte do ouro e prata do México e Peru; açúcar, ouro e diamantes do Brasil temiina com a burguesia inglesa, que estimula discretamente o independentismo latino-americano. As convulsões revolucionárias do século repercutem sobre esse cenário.

1661 ; Carlos II. rei da Inglaterra, casa com Catarina, da Casa Real de Bragança 1661; Colonos expulsam jesuítas do MA 1662; Portugal vence a batalha do Ambuila e destrói o reino africano do Congo 1662; A Company of Royal Adventures of England lança-se ao tráfico negreiro 1662: D. Jorge Velho inicia conquista do PI 1663; Vasco Mascarenhas. 2 ' vice-rei 1663: Criação do Correio no Brasil 1663: Carta régia ordena que os senhores nâo deixem um escravo morrer sem extrema-unção 1665: Epidemia de bexiga; mortandade em PE, BA, RJ 1666; Conjuração de Nosso Pai. motim popular nativista em Recife. PE 1666; Grande incêndio devasta Londres 1667: O rei Afonso VI abdica: regência do príncipe Pedro II 1667: A. de Sousa Freire, governador-geral 1667: Foral de vila a Parati. RJ 1667: A Inquisição condena o pe. Vieira ao silêncio após 27 meses de prisão 1668: Fundação de Curitiba. PR 1668: Carta régia proíbe castigo “cnjel" de escravos 1668: Acordo de paz luso-espanhol; a Espanha reconhece a independência de Portugal 1669: “Guerra justa" contra os Aimoré de Ilhéus. Paraguaçu e BA 1669-1671 : Grande recessão em Portugal 1669; Construção do forte de S. José do Rio Negro, núcleo de Manaus, AM 1670; Bandeiras paulistas atingem GO 1671: 1» indústrias têxteis em Portugal 1671: Vise. de Barbacena, governador-geral 1671 ; Expedição militar do mestre-de-campo Francisco Barreto contra Palmares 1672: Pascoal Paes de Araújo explora o Tocantins 1672: Expediçáo de Domingos Gonçalo ataca Palmares 1673; “Regras humanitárias' para o transporte negreiro 1674; D. Afonso dizima os Indios do Pl 1674-1681: "Expedição das Esmeraldas" de F. Dias Pais Leme até o Serro Frio, MG 1675: Governo geral interino (junta) 1675: Vila de Olinda elevada a cidade 1675: Fundados Ibituruna, 1® arraial de MG, 0 Desterro (h, Florianópolis), SC 1675; Leibniz cria o cálculo Infinitesimal; Römer calcula a velocidade da luz 1675: PE envia expedição contra Palmares 1676: Arcebispado na BA; bispado no RJ 1676: Entrado do B. Bueno da Silva am GO 1676; Fundação de Laguna, SC 1677: Expedição de Fernão Carrilho destrói parcialmente Palmares 1677; Criado o bispado do MA 1678: Roque da Costa Barreto, governador-geral 1678; Acordo, fracassado. Ganga Zumba-govemo de PE; Zumbi passa a chefiar Palmares 1679: Vieira publica 1' tomo dos Sermões 1679: Domingos Jorge Velho extemnina índios no Pl 1679: A Inglaterra institui o habeas corpus 20/1/1680; M. Lobo, gov. do RJ, funda a Nova Colônia do Santíssimo Sacramento (h. Colonia, Uruguai), retomada pela Espanha em 7/8 1680-1682; O bandeirante Anhangüera chega ao r. Vermelho, sudeste de GO 1680: Criada em Paris a Comédie Frariçaise 7/5/1S81: Acordo luso-espanhol de Lisboa dá a Portugal a posse do Sacramento 32

■ A independência dos EUA (4/7/1776) é a 1' ruptura do sistema colonial. As 13 colônias inglesas, povoadas com atraso (século 17) por famílias de perseguidos reli­ giosos, reagem à centralização de Jorge III, contestam o jugo colonial, vencem a Guerra de Independência (17751781), proclamam a República Federativa constrtucional (1787), baseada na soberania popular e no sufrágio uni­ versal (exceto os escravos do Sul), ■ A Revolução Francesa (1789-1799) destrói a ordenn feudal-absolutista dos Bourbons. Leva à Assembléia Constituinte, à rebelião popular que toma a Bastilha, à monarquia constitucional, à vitória militar sofare a Austria e Pnjssla, a repúWlca radical-democrática jacobina. A seguir reflui, deságua na era napoleônica e na restau­ ração absolutista (1815). Mas antes destrói os alicerces do feudalismo e instala a burguesia como classe domi­ nante. que modela à sua maneira a ordem econômicosocial, a máquina estatal-adminlstrativa, o direito, a edu­ cação. Exerce notável iniluència intemadonal. ■ As idéias francesas ("Liberdade. Igualdade, fratemidadeT correm mundo e inspiram os independentistas lati­ no-americanos. Os iluministas (0 Espirito das Leis, Mon­ tesquieu, 1748; 0 Contrato Social, J. J. Rousseau, 1762) e 0 inglês Adam Smith {A Riqueza das Nações. 1776), proibidos pelas metrópoles, são lidos com avidez pela elite esclarecida criolla e ctiegam a setores popu'ares. A independência na América Latina ■ No Haiti 0 processo toma a feição de insurreição de escravos, a única vitoriosa da história. A colônia açu­ careira francesa tem 56 mil homens livres e 480 mil escravos. A revolução na França subleva as senzalas; quando Paris extingue a escravidão (1793), ela já acabou na prática. Em rápida sucessão, a luta passa dos colonos europeus aos mestiços e destes aos negros. François D. Toussaint Louverture [1743-1803). ex-escravo, proclama a autonomia e loma-se govemador-geral (1800), anexa a parte espanhola da ilha e faz aprovar uma Constituição (1801); vencido por Napoleào (1802), morre no cárcere. Outro ex-calivo, Jean-Jacques Dessalines [17487-1806I. retoma a luta. bate os franceses e alcança (1^/1/1804) a independência. A 1* nação soberana latino-americana se divide, entra em crise política, decai, mas influi em toda a América. No Brasil, inspira motins do Batalhão de Pardos, PE, e do Terço dos Henriques. SE (1824); os 1» abolic;onisias brasileiros sâo taxados de haitianos. A or­ dem escravista vive assombrada pelo 'horrido espetáculo da catástrofe da Rainha das Antilhas" ■ Na América ibérica, a oposição ã ordem colonial tem duas vertentes. A 1* é a dos colonos de origem européia (criollos na parle espanhola, mazombos no Brasil), com interesses cada vez mais opostos aos das metrópoles; manifesta-se em levantes comuneros (Assunção [2.6], Corrientes, Socorro), que a Espanha afoga em sangue A 2* parte das camadas subjugadas, inclusive índios e escravos. Seu ponto alto é a sublevaçào de TupacAmaru (1780-1783) no Peru: o cacique mestiço José Ga­ briel Condorcanqui, o Tupac-Amaru, forma um exército, ataca Cuzco, proclama o fim da senridão indígena e a restauração do império incaico. Termina derrotado, pre­ so, torturado, decapitado e esquartejado, com a família.

gressos, recrutam exércitos. Vencido Napoleào, iviadri contra-ataca (1814-1819) e restaura seu império, exceto no Prata. Mas a derrota temporária do absolutisme na Espanha (1820-1823) devolve a iniciativa aos movimen­ tos pela independência. ■ No México a luta começa por uma revolução social indígena: o Grito de Dolores. Levanta 80 mil homens em armas, sob o estandarte da virgem índia de Guadalupe e 0 comando dos pes. M. Hidalgo (decapitado em 1811) e J. M. Morelos (fuzilado em 1815). Vencido o levante, a aristocracia criolla toma a iniciativa (1820). opta pela monarquia parlamentar e coroa (1822) imperador Au­ gustin I 0 gen. A. Iturbide, logo derrubado por um movi­ mento republicano (1824). ■ Na América do Sul Simón Bolívar [1783-1830], Fran­ cisco Miranda [1750-1816] e outros patriotas enfrentam a contra-ofensiva espanhola e após 3 revoluções consecu­ tivas libertam a Colômbia, Venezuela e Equador. José Gervasio Artigas [1764-1850, 3.6] subleva o Umguai; José San Martin [1778-1850], a Argentina, Chile e Peai. Bolivar e San Martin encontram-se no Equador (1822); Bolivar, no comando do exér&to criollo, denota os realis­ tas na batalha decisiva de Ayacucho (19/12/1824). ■ 0 plano bolivarlano da Pátria Grande e o congresso pan-latino-americano do Panamá (1826) fracassam. Ten­ dências centrífugas e caudilhescas das oligarquias criollas fracionam a Grã-Colómbia (1819-1832), e a Re­ pública Unida de Centro-América (1823-1839). Mas os países da América hispânica adotam a República, apro­ vam constituições, acabam com a escravidão e a servi­ dão indígena (mita). Só o Brasil permanece monárquico e escravista até o fim do século. A crise no Brasil ■ Lisboa depende sempre mais de Londres. Os acor­ dos luso-britãnicos de 1642 e 1654 acentuam uma alian­ ça na dependência; Portugal cede domínios (Bombaim, Tanger) e parte da soberania. No tratado de Methuen (1703), abdica da proteção tarifária à sua nascente indús­ tria têxtil e toma-se vassalo comercial da Inglaterra, em Iroca de um mercado cativo para seu vinho. 0 govemo Pombal (1750-1777 ;2.9]) faz um último esforço industrializador e protecionista, também vencido. Até os escravos das minas vestem panos ingleses. Sob d. María I, a Louca, Pombal cai. A política da 'Vlradeira", reacionária e tacanha, agrava o jugo colonial; chega a proibir a criação de mulas no Brasil e a ordenar que as pessoas mais ricas deixem a colônia. ■ Alvará real proíbe fábricas no Brasil (5/1/1785), exceto as de “fazendas grossas para uso dos negros". A tropa envia a Lisboa ou incendeia as incipientes indús­ trias da terra, a pretexto de aplicar todos os braços nos “úteis e vantajosos trabalhos’ da mineração e lavoura. Mas 0 ouro se esgotou e o preço do açúcar recua. Me­ trópole e colônia empobrecem. No Brasil, muito maior, mais rico e já mais populoso que Portugal, a condição colonial aparece como um fardo. Propagam-se as “idéias francesas', a seguir as chamadas inconfidências [2.11], A mudança da Corte para o Rio [3.1] determina as especificidades do processo independentista. ■ Um surto de prosperidade no MA contrasta com o em­ pobrecimento geral. Apóia-se no algodão (que substitui o das ex-colônias norte-americanas nos teares ingleses) e na Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão [2.9]; e no arroz, vindo da Ásia, que entra tar­ diamente na dieta alimentar européia e brasileira. Em 1817 as exportações do MA (1 milhão de libras) ultrapas­ sam as de PE e igualam às da BA. A escravidão vermelha cede espaço à negra; em 1819 os escravos são 66% da população maranhense; chegam a 86% em Caxias (maior concentração do Brasil). A cidade de S. Luís chega a 25 mil habs. em 1810 (S. Paulo 15 mil, Rio 45 mil), tem

■ A invasão da Espanha por Napoleào (1808 [3.1])

sobrados cobertos de azulejos portugueses, densa vida

precipita as revoltas. Juntas americanas, representando os criollos. fazem exigências autonomistas, reúnem con­

cultural, requintes sociais. 0 cultivo do algodão chega tam­ bém ao CE (Icó), PB (Seridó) e a outras áreas do sertão.


Cronologia

2.11 INCONFIDÊNCIAS MINEIRA E BAIANA

1681: Grande expedição contra Palmares 1681: Fernão Dias Pais morre no sertão, sem saber que encontrou turmalinas e nâo esmeraldas 1682: A. Sousa de Meneses, governador-geral 1682-1704; Incorporação da Colônia do Sacramento ao estado do Brasil 1682-1685; Criada a Cia. Geral para o Comércio do estado do MA

■ 0 esgotamento do ouro acentua as contradições do sistema colonial em MG. 0 fluxo migratório se inverte. 0 alvará de 1785 [2.10] trunca a Industrialização. Mineiros de posses, contratadores (cdelores privados) de impos­ tos, se arruinam. Cottk) agravante, o impopular gov. Cu­ nha Meneses (1783-1788, o “Fanfarrão Minésio’ das Car­ tas Chilenas [2.12]) isola-se da elite local. Obcecado por seu projeto de prédio da Câmara e Cadeia, extorque di­ nheiro dos ricos para custeá-lo e prende os pobres como vadios para trabalharem na obra. A idéia republicana ga­ nha adeptos. A Constituição americana e os incendiários abades franceses Raynal e Mably tém leitores em MG.

1683; Pedro II, rei de Portugal 1683; Portugueses retomam o Sacramento 1683: Volta a Salvador o poeta Gregório de Matos. 0 "Boca do Inferno' 1683: SP passa a sede da capitania de S. Vicente 1684: Revolta de Beckman, no MA 1684: Por alvará real, todo navio saído do Brasil só pode aportar em Portugal 1684: A. L. S. Teles de Meneses, govemador-geral 1685: Criada a última capitania hereditária do Xingu 1685; M. Beckman enforcado no MA por sedição 1687; 1“ papel-moeda em Portugal 1687; Grande expedição contra Palmares 1687; Mathias da Cunha, govemador-geral 1687-1692: Confederação dos Cariri 1687: Jesuítas fundam os 7 Povos das Missões, RS 1687: Revolta dos soldados da infantaria na BA obtém soidos atrasados 1687: Newton formula teoria da gravitação universal 1688: Junta provisória de governo geral 1689: Guarapari, ES, elevada a vila 1690: A. G. da Câmara Coutinho, governador-geral 1690; Bandeira de Ferraz Araújo Campos Bicudo derrotada em Sta. Cruz (Bolívia) 1690; Guerra a índios do r. das Contas, BA 1690: Paulista fundam Sabarâ, MG 1691: J. Moraes Lobo preia índios, AM 1692: Câmaras municipais perdem autonomia nas mãos dos juizes de fora 1692: 1“ ataque de D. Jorge Velho a Palmares 1692; Curitiba recebe toro de vila 1693-1695; Achado de ouro abundante em MG 1694: João de Lencastre. governador-geral 1694: Bandeira de B. Bueno da Silva 1694: Ato régio garante posse das minas de ouro e prata a seus descobndores 1694: 1* Casa da Moeda, na BA 20/11/1695: Zumbi morre em combate; Dia da Consciência Negra 1695: Destruição do quilombo de Palmares 1695: 1’ povoado de Ouro Proto, MG 1695: S. Castro Caldas, gov. do RJ, envia a Lisboa amostras de ouro de MG 1 6 9 6 :1“ juizes de fora na BA, RJ, PE 1696; Carta rôgla permite aos colonos “administrar" índios no Brasil 1696; Regimento regulamenta as missões 1697: Frei Timóteo inicia série de processos e prisões por concubinato 1698; Carta régia transfere a Casa da Moeda de Salvador para o Rio de Janeiro 1698: A Câmara de SP pede â Coroa um governo independente do Rio 1699; D. Jorge Velho ataca índios no MA 1699; Criada 1* administração das minas 1700; 1“ pés de manga no Brasil, PE 1700: Economia cristã dos senhores no govemo dos escravos, de Jorge Benci 1700: Crise de escassez de sal 1701: Bandeirantes descobrem ouro e exterminam índios no rio das Volhas, MG 1701: Carta régia concede aos escravos o sábado livra para cuidarem de seu sustento ^702: Rodrigo da Costa, governador-geral

■ A ameaça da derrama [2.8] precipita os fatos. L. A. Furtado de Iviendonça, visconde de Bartjacena [17541830], chega ao govemo de MG (julho de 1788) com a missão de arrecadar com ela 5,71de ouro. A ala mais es­ clarecida (e também a mais endividada) da elite mineira decide passar á ação. Seu movimento, chamado na de­ vassa de Inconfidénda (felonia, deslealdade), é o 1° a propor a independência. ■ Os conjurados são gente rica. letrada e influente; Cláudio Manuel da Costa (1729-1789]. poeta, advogado, minerador e usuário; Tomás Antonio Gonzaga, [17441809], português, ex-juiz-de-fora e ouvidor, poeta; o fidal­ go Francisco de Paula Freire de Andrade comanda o Regimento dos Dragões; Carlos de Toledo e Melo, vigário de S. Joâo Del Rei, um dos maiores mineradores de MG: José Álvares Maciel, preceptor dos filhos do governador, dos pes. Vieira da Silva (dono de vasta biblioteca) e Oliveira Roilin. Barbacena descreve-os como “poderosos e magnatas do Pais’ . ■ Já Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, vem da camada média das minas; ex-tropeiro, mascate e den­ tista (origem do apelido), pequeno minerador (4 escra­ vos) malsucedido, senta praça no Regimento dos Dra­ gões (1781). onde chega a alferes e adere às idéias francesas. E o mais popular inconfidente. ■ 0 programa da revolta propõe Independência e Re­ pública (mas não o fim da escravidão, pregado por Tira­ dentes e outros); S. João Del Rei como capital; universi­ dade em Vila Rica; fábricas têxteis e de pólvora; forjas de ferro; liberdade para extrair diamantes. Os conjurados chegam a fazer sua bandeira, onde um triângulo simbo­ liza a Santíssima Trindade e o tema Libertas quae sera tamen é tomado de Virgílio. 0 plano é esperar a derrama, assaltar o palácio, prender o govemador. levantar a tropa, buscar apoio no RJ e SP ■ Joaquim Sllvério dos Reis [1756-1819], militar e con­ tratador, devedor tido pelo fisco como “doloso, fraudulante e falsificador', delata em detalhe a sedição (15/3/1789) ao govemador. Este vem de sustar a derra­ ma (14/3, data controversa), por temer reações; escreve ao vice-rei Vasconcelos e Sousa e, como a resposta tarda, envia o delator ao Rio. Tiradentes, que também está na capital, desconfia da traição mas não do Iraidor, a quem pede dinheiro para fugir para híG, via SP, é preso (10/5) e encarcerado na ilha das Cobras. Seguem-se ou­ tras delações. 0 alerta de um embuçado anónimo (17/5) não impede a onde de prisões. Como a cedia de Vila Rica está em obras, faz-se a Casa dos Contos de cárcere. Ali Cláudio amanhece morto (4/7). oficialmente por suicídio. ■ 0 vice-rei ordena uma devassa para apurar o crime: Barbacena outra, em MG. Conflitos de jurisdição arras­ tam 0 processo por 3 anos. Dos 34 presos, mantidos incomunicáveis no Rio, a maioria capitula; só Tiradentes assume toda a responsabilidade. A sentença (ia'4/1792) condena 11 réus à forca, para consternação do povo que cerca a sala do tribunal Mas Maria I, “em sua real cle­ mência’ , comuta 10 penas em degredo. 0 confisco dos bens aplica-se a todos. ■ Tiradentes é enforcado (21/4/1792, 11h) no Campo de S. Domingos, perante numeroso público. Esquarte­ jado, declarado infame até a 3* geração, tem a casa de­ molida, a terra salgada. Seus pedaços são expostos no

caminho de MG; a cabeça, em Vila rica, de onde desa­ parece por mistério. No Rio. coletas populares custeiam missas por sua alma. Sllvério dos Reis, feito fidalgo e condecorado, queixa-se em cartas de patrulhamento; por fim, muda para o MA sob nome falso. Outro delator, Basílio de Brito, diz ao morrer (1806) que "todo o povo de Minas, todo o Brasil, em verdade, alimenta um ódio implacável contra mim depois da Inconfidência". ■ Epílogo. 0 Império [3.4] destrói o "padrão de infâmia” onde fora a casa de Tiradentes, mas menospreza o epi­ sódio. Cabe â campanha republicana [5.8] erigir Tiradenles em herói e até dotá-lo do visual assemelhado a Jesus. 0 21/4 torna-se feriado nacional em 1889. A Conjuração Baiana ■ As revoluções na França e Haiti [2.10] causam Im­ pacto na BA. Já em 1992 a Coroa recomenda vigilância para com o navio Le Dllligent, para que não propague “o espírito de liberdade que renia na França”. Em 1798, quando o comandante Lercher, da fragata La Preneuse, passa 1 mês na cidade, o governador manda vigiá-lo; mas 0 tenente H. Aguilar Pantoja, incumbido da tarefa, adere às Idéias do francês, que contata vários baianos llusU’es em discretos saraus. ■ 0 proselitismo revolucionário antes de atingir o povo se difunde entre intelectuais como o médico e futuro jornalista [3.9] Cipriano Barata [1762-1838]. Uma versão hoje contestada fala de uma “sociedade secreta dos Cavaleiros da Luz" (1797), visando propagar os livros dos enciclopedistas e os êxitos da Revolução Francesa. ■ A marca popular distingue a conjuração baiana da mineira. Seus líderes e aderentes são artesãos, solda­ dos, muitos mestiços e negros, forros e escravos. In'adiase longe das elites. Por Isso ataca de frente a escravidão e a disseminação. Também por isso é chamada, com aristocrática ironia. Revolta dos Alfaiates. ■ 0 programa dos rebeldes está nos países manus­ critos que colaram nos muros de Salvador, na noite de 11-12/8/1798: uma “revolução" contra o “péssimo jugo" europeu; govemo republicano “democrático, livre comér­ cio e abertura dos portos, “mormente à nação francesa”, aumento dos soidos. “Todos serão Iguais, não haverá diferença, só liberdade, igualdade e fraternidade”. Assina "0 Povo, 0 poderoso e magnífico povo bahiense republi­ cano, tão sagrado e digno de ser livre". ■ A repressão pune a ousadia. 0 soldado Luís Gonzaga das Virgens [1763-1799], pardo livre, é preso (20/8) pela caligrafia igual á dos papéis. Nâo confessa, mas há 3 delatores no comando que tenta libertá-lo. A polícia, avi­ sada, ataca uma reunião (25/8) no campo do dique; os revoltosos percebem e se dispersam. Há centenas de presos, casas invadidas, torturas. 0 alfaiate Lucas Dan­ tas [1775-1799], pardo livre, resiste à prisão e é fendo. Há devassas no Rio das Contas. Engenho S. José, Co­ missão. Cachoeira, Jacobina. Maria I repudia a infecção dos "abomináveis princípios franceses". ■ A devassa indicia 34 réus: 1 negro escravo, 9 pardos escravos, 4 pardos forros, 10 pardos livres e 10 brancos (7 soldados e oficiais, 2 artesãos e o médico Cipriano Barata). A sentença condena 7 réus ao degredo na Áfri­ ca, longe das possessões portuguesas, para nâo conta­ miná-las com 0 “veneno de seus falsos princípios’ . A pena da forca atinge 6 conjurados e desta vez a real clemência é comedida: apenas Romão Pinheiro recebe a comutação para degredo. 0 pardo escravo Luís da Fran­ ça Pires consegue fugir, condenado à forca à revelia, a Justiça autoriza quem quer que o encontre a matá-lo. ■ Os 4 mártires são enforcados (8/11/1799) na Pça. da Piedade: Luís Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas, João de Deus Nascimento (1775-1799) e Manuel Faustino dos Santos Lira [1776-1799). Os corpos são esquartejados, OS pedaços exibidos ao público. Após 2 dias, o respon­ sável pela saúde pública da cidade pede, em vão. autori­ zação para renwvé-los. Os delatores recebem pensões.


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Cronologia

2.12 CULTURA / LÍNGUAS

1703: Tratados luso-britânicos de Methuen (nnililar e comercial) 1703: 1“ atritos entre paulistas e emboabas em MG

■ A cultura colonial (ao menos sua norma culta) é bem mais lusa que brasileira, ao menos até o século 18. “Abrasileira-se* passo a passo, de baixo para cima. ado­ tando elementos indígenas, africanos e os germens da brasilidade. A Igreja [2.6] hegemoniza o ensino (jesuítas), arquitetura, artes plásticas, literatura, música; forma e sustenta os intelectuais, artistas e artesãos da colônia. Ê uma cultura rarefeita. inartículada. Isolada em capitanias que se ligam à Europa mas não entre si.

1703: Pedro, o Grande, funda S. Petesburgo, nova capital da Rússia 1704: Portugal intervém na guerra da sucessão espanhola 1704: 50 escravos da BA tentam a fuga e a travessia do Atlântico de volta à África 1704: Ataque espanhol à Colônia de Sacramento 170S: Música do Parnaso, poema em 4 línguas do baiano M. Botelho de Oliveira 170S: L. César de Meneses, governador-geral 1706: João V de Bragança, rei de Portugal 1706: Ordem régia fecha tipografia em Recife, PE, a 1® do Brasil 1707: Constituições do Arcebispado da Bahia, do arcebispo d. Monteiro da Vide 1707: Os franciscanos assumem missões do baixo Amazonas 1708: Guerra dos Emboabas (MG) 1709: Lourenço de Almeida, governador-geral 1709: Extinta a capitania de S. Vicente: criada a capitania de SP e Minas do Ouro 1709: A Coroa lenta bloquear migração Portugai-Brasil 1709: Recife torna-se vila 1709: Carta régia proíbe escravas de usarem sedas e jóias de ouro

1709: 0 pe. Bartolomeu de Gusmão realiza em Lisboa experiências com balões 1710: Guerra dos Mascates, PE 1710: Corsários franceses de J. F. Duclerc atacam o RJ 1710: B. de Faria e seus homens assaltam armazéns de sal de Santos, SP 1711: Vasconcelos e Sousa, govemador-geral 1711: O francês Duguay-Trouin ocupa o RJ por 1 mês; retira-se com farto resgate 1711: Olinda vence a batalha de Guarapu, última da Guerra dos Mascates 1711: 1“ vilas em MG: Vila Rica. N S* do Carmo e Vila Real de Sabará 1711: São Paulo passa de vila a cidade 1711: Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas, de Antonil, logo apreendido 1711: Só em caso de temporal ou fome naus estrangeiras podem aportar no Brasil 1711: Motim do Maneta em Salvador contra o monopólio do sal 1713: 1« Tratado de Utrecht ratifica pretensões de Portugal na Amazônia 1714: Albuquerque e Sousa. 3° vice-rei 1714: Restabelecida a Casa da Moeda da BA 1714; Caoté e V. do Príncipe. MG. tornam-se vilas 1714: Fim do Processo das Formigas, movido pelos frades de Sto. Antonio. MA 6/2/1715: 0 2'Tratado de Utrecht restitui a Portugal a Colônia de Sacramento 1715: Os paulistas J. Magalhães e F. Brito saem de Laguna para povoarem o atual RS 1716: Começa a construção do Mosteiro de Mafra (Port.) graças ao ouro brasileiro 1717: Ponugal e Espanha retomam disputa pela Colônia de Sacramento 1718: O Imposto de mineração passa a 25 arrobas de ouro/ano 1718: S. de Faro e Sousa. 3- vice-rei 1719; O bandeirante P. Moreira Cabral descobre ouro no MT; fundação de Cuiabá 1719: Daniel D eloe publica R obinson Crusoe

1720: Junta interina no governo geral 1720; A Coroa decide criar casas de fundição em MG 36

■ A Bahia forma uma destas Ilhas culturais. 0 fran­ ciscano frei Vicente do Salvador [1564-1637] escreve (1627) uma História do Sras//pioneira, atilada, às ve­ zes irônica, só publicada em 1888. 0 jesuíta Antonio Vieira [1608-1697], missionário, professor, político, pre­ gador, ‘ artífice da palavra" à moda barroca, escreve os Sermões (1679). Gregório de Matos [1633-1696] alterna poemas devotos, obcecados pela morte, e profanos, des­ bocados e cáusticos, pondo Salvador a nu. Na Academia Brasílica dos Esquecidos, 1® círculo literário da colônia (1724), está Sebastião da Rocha P ia [1660-1738], autor da laudatária História da América Portuguesa. Em 1549 Salvador tem uma "Sé de palha’ ; em 1560 a Sé de 3 naves (destnjída em 1933) e o Colégio Jesuíta (com a maior biblioteca do Brasil colónia, 15 mil volumes ao ser fechada '2.6). As igrejas ganham ton^es no século 17 e até 0 18 vão num crescendo de majestade e luxo (S. Francisco, Conceição da Praia, com forro de José Joa­ quim da Rocha). As 1* sedes de engenhos e fazendas são fortificadas; a Casa da Torre (1551), autêntica forta­ leza. 0 adobe e a taipa imperam, como em todo o Brasil e em Portugal, até o século 18. ■ Pernambuco ergue a cidade de Olinda (Igreja de N. Sra. das Neves, convento de S. Francisco, mosteiro de S. Bento), semidestnjída no incêndio de 1631. A Nova Holanda de Nassau faz do Recife um pólo cultural: cria 0 1' observatório astronômico, o 1®jardim botânico, 0 1' jardim zoológico, o 1* museu, a 1* cidade com am­ plas praças e njas, pontes, canais. Zacarias Wagener [1614-1668] e Franz Post [1612-1680] pintam as 1* telas. Piso e George Marcgrav estudam pela 1* vez com olho de cientista a gente, bichos e plantas do Pais. Elias Herckmans escreve sobre o Brasil um clássico da poesia holandesa; o rabino Isaac Aboab da Fonseca, cabalista e platonista, compõe em hebraico. A reconquista trunca este ciclo, mas PE se mantém e irradia (AL, PB, RN) como centro arquitetônico (igreja Madre de Deus, 1715, e a elegante S. Pedro dos Clérigos, 1782). ■ São Paulo é onde se escreve o 1®livro (Diálogos So­ bre a Conversão dos Gentios, de Nóbrega. 1554), a 1* peça teatral (os Autos Catequétiœs. de Anchieta) e a 1‘ gramática tupi (1595, de Anchieta). A vitória do ban­ deirante sobre o jesuíta impõe outro padrão, funcional, despojado, rural, com forte marca Tupi. É a cultura cai­ pira (do Tupi, tímido, acanhado), que se expande pe­ lo interior. ■ 0 Rio de Janeiro tem vida cultural raquítica até o surto minerador e a onda migratóna vinda do reino, que marca do sotaque á arquitetura (igreja da Glória. 17141739). Inventa o sensual lundu; a modinha, sucesso até em Lisboa (1736); e a música sacra do pe. José Mau­ rício, filho de escrava. Tem casa de ópera (1747) e um dramaturgo famoso em Lisboa, Antonio José da Silva, o Judeu [1705-1739]. Começa a erguer a igreja da Can­ delária (1760). Ao virar capital, ganha obras públicas (chafarizes do mestre Valentim, aqueduto da Lapa, 1763, passeio público, 1779-1783). ■ A cultura das minas (século 18). a mais rica, articu­ lada e original da colônia, é chamada barroco mineiro (do francês barroque, inusitado, estranho), termo impre­ ciso quanto á arquitetura e inverdadelro quanto à lite­ ratura e música. Chega ao auge quando o ouro e o dia­ mante já rareiam. Passa da singeleza caipira (Igreja N. S* do Rosário dos Brancos, 1701) à sofisticação e luxo (N. S- do Pilar. 1736. com o interior em ouro). A rivali-

dâde entre irmandades leigas [2.8] cria igrejas de traço claro e simples, cada vez mais altas e ricas no omato das fachadas, altares, talhas e esculturas.Os mestres de risco (arquitetos) e artistas portugueses dão lugar aos da terra. Nas janelas das casas aparece o vidro. ■ 0 Aleijadinho [Antonio Francisco Lisboa. 1738-1814] é o gênio inconteste da escola mineira. Filho do mestre Manuel Lisboa com a escrava Isabel, alforriado na pia batismal, aprende a arte do pai. Tem as primeiras letras, mas mostra erudição, escreve bem, sabe latim, história da arte. Mestre do risco, talha, esculpe, revoluciona (1774) 0 projeto da igreja de S. Francisco de Vila Rica; encun/a as linhas das torres do coro, da grade da nave. Espalha templos claros, vigorosas portadas, altares e imagens pelas Minas. A partir dos anos 70, vai se defor­ mando com a doença (lepra?) que lhe vale a alcunha; perde os dentes, os dedos dos pés (anda de joelhos) e das mãos. Talha a pedra-sabão com cinzei e martelo atados aos punhos: assim lavra sua obra-prima, os 12 profetas (1795-1805) de Congonhas do Campo. ■ 0 Arcadismo é a escola literária das Minas, introduzi­ da (1768) por Cláudio Manuel da Costa [1729-1789], poeta e inconfidente [2. 11] tal como Inácio Alvarenga Peixoto [1744-1793] e Tomás Antonio Gonzaga [17441810], autor de Manlia de Dirceu e, tudo indica, das Cartas Chilenas, sátira política em versos. Também arcades de MG os poetas Basilio da Gama [1741-1795], de 0 Uruguai, e frei Santa Rita Durão [1722-1784], de Caramuru, precursores do indianismo [5.9]. ■ A música, sacra e profana, é um ponto forte do ciclo mineiro. Vila Rica tem Casa da Ópera (1770) e mais de 250 músicos profissionais; Mariana, um órgão alemão de 1701. Até 0 menor povoado conta 2 bandas rivais. Fazen­ das formam orquestras com escravos. Intérpretes e com­ positores mestiços predominam (“mulatismo musical”). José Emérico Lobo de Mesquita [7-1805], organista, da Irmandade das Mercês dos Crioulos, é considerado o maior compositor mineiro. Apenas uma fração desta obra chega aos nossos dias. ■ Portugal é uma metrópole cultural sufocante. 0 pe. Simão de Vasconcelos tem suas Notícias Curiosas e Ne­ cessárias das Coisas do Brasil apreendidas, por asse­ verar que 0 Jardim do Éden fica aqui. A Inquisição põe Vieira 2 anos a ferros e condena-o ao silêncio. Gregório de Matos é deportado para Angola por seus versos. Ordens régias confiscam os livros de Antonil e Jorge Benci. 0 Judeu é queimado (18/10/1739) pela Inquisição em Lisboa. As 1“ tipografias (PE 1707, RJ 1747) são fechadas. Santa Rita Durâo é preso (1760-1761). Basilio da Gama, preso e deportado (1768). Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, presos. A Sociedade Literária (Rio, 1786-1794) acaba com seus membros na cadeia. ■ As culturas Indígenas e africanas são oprimidas, reprimidas e em parte suprimidas pela escravidão, a destribalização e a catequese. Refugiam-se em nichos culturais (magia, culinária, música) e nas áreas onde são mais densas. Resistem pelo sincretismo e tenninam mar­ cando a nascente cultura brasileira, em especial sua ver­ tente popular. ■ Línguas. A princípio, a língua geral (variante do tupi modificada pelos jesuítas) se expande mais que o por­ tuguês. Ela e 0 guarani, no Prata, são a língua das mis­ sões, do Sul à Amazônia, a fala materna dos mamelu­ cos. usada nos lares paulistas até o século 19. Imposta a outros indígenas, chega onde os Tupi nunca foram. 0 nheengatu, derivado da língua geral, predomina no vale do rio Negro até 1940 e é usado até hoje, 0 português se afirma primeiro na área da cana e como língua oficial; triunfa quando Pombal torna seu uso obrigatório [2.9], enquanto o ouro atrai a 1' grande leva migratória. Sen­ zalas e quilombos falam línguas gerais de base qulcongo e quimbundo (banto), mina (Vila Rica. século 18) ou nagô (Salvador e Recife, século 19).


Línguas e falares do Brasil na prim eira m etade do século 18

Cidades e vilas

Línguas do tronco tupi-guarahi M issões do Paraguai M issões do G uairá M issões de C hiquitos M issões do G rão-P ará e M aranhão; língua geral am azônica (nheengatu no século 19) Á rea d e expansão paulista: tupi r— . até o séc. 17; língua geral paulista (uso coloquial) até o séc. 19 Á rea do S. Francisco e do gado: ocupação em parte paulista; M | | catequese por várias ordens usando a língua-geral e línguas do tronco Jê

Línguas européias O português dom ina desde o século 17 Forte im igração portuguesa no século 18 P tedom ínlo do espanhol ^ Colônias de fam ílias açorianas o

Línguas das senzalas e quilom bos: o quim bundo (povos bantos) do m ina |

|

O iorubá (povos oeste-africanos) dom ina N icho de uso do nagô até o século 2 0 1

T ribos arredias usando suas p ró p ria s i— w línguas; presença européia nula ou precária I 37


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Cronologia

3 - TRANSICAO PARA AINDEPENDENCIA 3.1 TRANSFERENCIA DA CORTE ■ As guerras napoleônicas (1799-1815) envolvem as monarquias ibéricas, influem na independência da América espanhola [2.10] e do Brasil. Lisboa entra na coligação contra a França revolucionária, mas é derro­ tada (Pireneus, 1794-1795). Quando a vizinha Espanha se alia a Napoleào (1804), passa a viver pressões opostas. Há 0 partido francês, de liberais e ex-adeptos de Pombal [2.9], 0 pró-inglês advoga a velha aliança com Londres. E há o partido da paz, a qualquer custo, que prevalece (1795-1807) graças ao príncipe regente João de Bragança [d. Joáo VI, 1757-1826). Este assu­ me a regência quando sua mãe, Maria I, é declarada louca (mania religiosa). Nada tolo mas inemie, pachor­ rento, hesitante, traído pela esposa, é alvo de incon­ táveis pilhérias. ■ Napoleào decreta (1806) o Bloqueio Conlinenial, para cortar o comércio inglês e conquistar o mar pela potência da terra. Cresce a pressão sobre LisDoa, um dos maiores portos europeus. Chega então a Portugal 0 embaixador Percy Clinton Smith, vise, de Stangford. incansável, implacável, hábil e bem-sucedido defensor do interesse britânico. Uma escalada de ultimatos fran­ ceses, respondida com dubiedade, deságua no tratado franco-espanhol de Fontainebleau (27/10/1807), que di­ vide Portugal em 3 reinos dependentes de Paris e Madri. 0 exército francês do gal. Junot (22/11) invade o país para aplicar a decisão. ■ A neutralidade já nâo é possível. 0 príncipe ainda vacila, chega a aderir ao bloqueio, declara guerra à Inglaterra (22/10/1808), chama Napoleào "meu irmão e primo", expulsa Stangford. Mas este insiste: tem ins­ truções de Londres para forçar, se preciso pela violência, a mudança da Corte para o Brasil. Desde o século 16 esta idéia vem à baila sempre que o reino está em apuros (1580,1640,1763); trocar Portugal, “uma orelha de tena" (Luís da Cunha), pela rica vastidão do Brasil. Com a tropa de Junot nos calcanhares e a armada ingle­ sa em Lisboa, o regente afinal se decide. ■ 15 mil pessoas embarcam escoltadas pela armada inglesa do aim. Sidney Smith. A família real (a rainha, o príncipe, sua esposa, os 9 filhos), o aparelho burocrático-administrativo e a elite cortesã lotam as 36 naves dis­ poníveis. Levam 80 mil contos de réis, metade do dinhei­ ro sm circulação no reino. Há pânico, nobres que se afo­ gam disputando uma vaga, choro e vaias do povo. D. João nem se despede dos súditos; sobe à nau Príncipe Real escondido, fugindo dos protestos. Stangford vai junto. Zarpam na manhã de 29/11. após 40 horas esperando bons ventos: 24 horas depois Junot. retido pela chuva, entra em Lisboa; ainda vê as velas da Irota. Portugal, sem rei, palco da guerra franco-britãnica, perde 100 mil vidas e se arruina. ■ A abertura dos portos é a 1* e cmcial reforma. 0 regente adota-a interina e provisoriamente (28/1/1808), ao aportar na BA, a pedido de comerciantes locais e de J. da Silva Lisboa (d. vise. de Cairu). 0 Brasil esca­ pa do monopólio colonial luso; passa a comerciar livre­ mente com as nações amigas, isto é. afora a França. Para a Inglaterra é ótimo: ela já comercia com o Brasil via contrabando, mas a guerra e o bloqueio privaram-na de mercados. Resultados: Inundação de artigos Ingle­ ses; reforço da hegemonia inglesa; inversão no comér­ cio Brasil-Portugal (antes, déficit brasileiro; depois, por­ tuguês); surto econômico no Brasil; empobrecimento de Portugal; seqüelas políticas (Revolução Liberal do Porto [3.3]).

(7/3) 0 govemo do vice-rei, conde dos Arcos: nomeia (10/3) novo gabinete (R. de Sousa Coutinho. F de Por­ tugal e Castro. J. de Sá e Meneses), filo-britãnico, sem um só brasileiro. Stangford, influente como nunca, con­ tinua na legação inglesa e adapta-se aos hábitos da terra. Mercadores britânicos acorrem à cidade e fundam 0 bairro de Laranjeiras.

1720: Revolta de Felipe dos Santos em Vila Rica. MG 1720: Conde de Sabugosa, 4^ vice-rei

■ 0 Rio passa a ser a Corte, com suas 46 ruas, 19 lar­ gos, 6 becos, 4 travessas. Tem 60 mil habs. (ao lado de Salvador é a 2« maior cidade do Império, depois de Lisboa). Em 1808 ganha museu real. Escola de Cinjrgia e Medicina do Hospital Militar (a 2* de nível superior no Brasil, depois de sua similar baiana, de 2/2/1808), aca­ demias da Marinha e Militar, imprensa régia, com a 1* tipografia permitida no País e o 1’ jomal aqui impresso, a Gazela do Rio de Janeiro (4 pgs.. oficial, sob censura) [3.9]. Aloja numerosas instituições e repartições esta­ tais, às vezes, de ostensiva inutilidade. Ergue palacetes, palácios (a residência da família real na Quinta da Boa Vista) e novos subúrbios; Botafogo, R. Comprido, a Ci­ dade Nova, sobre o aterro do mangue. Tem o Banco do Brasil [3.2], o Teatro S. João (h. João Caetano), o Real Horto (h. Jardim Botânico, no antigo engenho de Rodrigo de Freitas), a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios (h. Escola de Belas Artes), com artistas da missão fran­ cesa [3.9]. A crise em Portugal gera novas migrações. A cidade antes vedada a estrangeiros agora acolhe diplo­ matas. artesãos e comerciantes ingleses, franceses, alemães, suíços, dinamarqueses, italianos, holandeses, espanhóis, escoceses, iriandeses. suecos, norte-ameri­ canos. Uma inédita colônia de suíços [5.5], fartamente subsidiada, surge em Cantagalo (h. Nova Friburgo). 0 Rio assiste aos funerais de d. Maria I (1816), à chegada de uma arqulduquesa austríaca e seu casamento com o príncipe d. Pedro (1818), à aclamação do rei d. Joâo VI (1818), palestras filosóficas (1813) e excursões científi­ cas [3.9], impensáveis até 1808.

1721-1733: A varíola devasta a Amazônia

■ Subverte-se o antigo estatuto colonial. Como sede da Coroa, o Brasil vive uma metamorfose económicosocial, político-administrativa e cultural: inicia a transição para a independência, que passa por 1822 e vai até 1831 [3.8). E um processo contraditório. A condição de sede do reino lisonjeia: o rei toma apego à nova terra. Há progressos concretos: abertura dos portos, liberação das indústrias [3.2] e até estradas carroçáveis. antes proibidas. Mas a explosão dos gastos públicos pesa nos impostos. A guerra no Prata é especialmente impopular. 0 convívio atiça o conflito com os pés de chumbo ou marinheiros (designações depreciativas dos portugue­ ses). beneficiários de grandes e pequenos privilégios. Mesmo a oligarquia agrária da colônia sente-se preteri­ da e questiona o pacto colonial que antes integrou. Germina nos filhos da terra a noção de serem bra­ sileiros. um povo novo, e não mazombos [2.1]. Virá à luz na República pernambucana de 1817 e na crise de regi­ me p6s-1820 [3.3]. A presença da Corte delina o corélor da independência à brasileira, palaciano, ‘ em família', conciliador, avesso a rupturas, mantendo a monarquia e 0 escravismo colonial.

■ A Corte se Instala no Rio (7/3) e reproduz como pode a máquina de governo e a vida conesâ de ames. A família real se aloja no palácio dos vice-reis; o imen­ so séquito, nas casas de particulares, sumariamente despejados. As fachadas são marcadas com P.R.. de

■ 0 Brasil passa a Reino Unido (16/12/1815). Vencido Napoleào, o Congresso de Viena (8/4/1815; o conde de Palmela representa Portugal) restaura em seus tronos os monarcas destronados nas guerras napoleônicas. D. João. sem pressa de voltar a Lisboa, altera o estatuto político da Aménca portuguesa: cria o Reino do Brasil, unido a Portugal e Algarves. A medida traça pela pri­ meira vez 0 contorno de um Estado Brasileiro com pre­ cisa territorialidade, T»ndo fim ao sistema colonial e monopólio da melrópole’ . O regente acalenta o plano de fazer do Brasil um vasto império, expandido ao Prata, e de confiar Portugal a seu filho d. Pedro. Mais ambiciosa, Cariota Joaquina de Bourbon [1775-1830], princesa'

príncipe regente, que os fluminenses (assim se cha­ mam os cariocas da época) traduzem como “proprie­ dade roubada”, ou “ponha-se na rua’ . D. João recebe

espanhola casada com d. João. faz articulações visando reinar sobre o Prata. Os movimentos de independência fnjstram tanto um plano como o outro.

1720: Nova lei contra a migração 1720: Alvará régio separa MG de SP 1721: Irmandade musical da Boa Morte, MG 1721: Criada, na França, a 1* loja maçônica 1721: Bach compõe os 6 Concertos de Brandenburgo 1722: Gaceta de Mexico, 1®jornal da América Latina 1722-1728: Bandeira de Anhangüera 2° descobre ouro em GO; 1“ povoados goianos 1724: ! • sociedade literária, Academia Brasílica dos Esquecidos, em Salvador 1724: Espanhóis fundam Montevidéu, a 120 km de Sacramento 1725: Caminho tenestre liga RJ e SP 1725: l * povoado no Continente de Sâo Pedro (h. RS) 1725: Casas de fundição operam em MG 1726: Os espanhóis fundam Montevidéu 1726: Ataque dos Paiaguá às monções 1726: Anhangüera bateia ouro nas bacias do Araguaia-Tocantins e funda o arraial de Santana, GO 1726: J. Swift publica Viagens de Gulliver 1727: Taxação especial sobre o Brasil para o dote da infanta Maria Bárbara 1727: O paraense F. de Melo Palheta contrabandeia de Caiena 1“ mudas de café 1727: Francisco de Souza Faria abre caminho por terra de SP ao atual RS 1727: Grande êxodo despovoa Cuiabá; 1" bovinos chegam à vila, trazidos em canoas 1728: Soldados rebelados do Terço Velho da Praça, BA. são vencidos e enforcados 1729: Achado de diamantes em Serro Frio, MG 1730: Caminho por terra São Paulo-Curitiba 1730: Crise de fome em GO 1731: Carta régia cria monopólio estatal sobre extração de diamantes em Serro Frio, MG 1732: Carta régia proibe ida de mulheres portuguesas ao Brasil sem autorização 1732: Ataques dos Paiaguá ameaçam total despovoamento de Cuiabá, MT 1733: O tropeiro Cristóvão Pereira de Abreu traz as 1“ mulas do R. Grande a SP 1734: Demarcação do Distrito Diamantino: tnlendéncia dos Diamantes no Tejuco, MG 1735: Portaria impõe pena de morte a quem misture outro metal ao ouro em pó 1735: A. Melo e Castro, 5” vice-rei 1735: Ocupação de Viamão, RS 1 7 3 5 : A ta q u o o s p a n h o l è C o tô n iA d * S o c ro m o n to

1735: üneu elabora a classificação das espécies 1736-1737: Franceses tomam Fernando de Noronha, que chamam de Isle Delfine 1736: Caminho terrestre une Cuiabá a GO 1736: A modinha carioca se populariza 1737: J. da Silva Paes funda Rio Grande de S. Pedro, na barra da lagoa dos Patos, RS 1738: Ordem régia de prisão de sacerdotes desocupados de MG 18/10/1739: Antonio José. o Judeu, morre em Lisboa garroteado pela Inquisição 1739: Regime de contrato para diamantes 1740: Palácio dos Governadores em Vila Rica. MQ 1740: Frederico II. o Grande, rei da Pníssia 3/3/1741 : Alvará pelo qual o escravo fugido e recapturado lem um F marcado com ferro em brasa na espádua 1741: Bula papal aos bispos do Brasil condena à excomunhão a escravização de indígenas

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Cronologia 1742: M. Félix de Uma desce o Guaporé, Madeira e Amazonas, até Belém 1743: A varíola dizima índios na Amazônia 1744: Auto-de-fé condsna maçons pela 1* vez em Portugal 174S: Elevaçào de Mariana, MG a cidade 174S: Criados os bispados de Mariana e SP, as prelazias de Goiás e Cuiabá 1745: Apenas maranhenses natos podem compor a Câmara de S. Luís 1746: Descoberta de diamantes em GO 1747: O rei manda fechar a 1* tipografia a funcionar no Brasil. RJ 1747: Marggraf extrai açúcar da beterraba 1747: Descoberta de diamantes em MT 1748: O Espirito das Leis. de Montesquieu 1748: Criação das capitanias de GO s MT 1748: Ópera dos Vivos, 1" casa teatral, RJ 1749: Meneses e Ataíde, 6 ' vice-rei 1750: José I de Bragança, rei de Portugal 1750: José 1nomeia o marquês de Pombal secretário do Exterior e da Guerra 1750: Aqueduto da Carioca, RJ 1750: Tratado de Madri: a Espanha fica com a Colônia de Sacramento, Portugal com os 7 Povos 1751: A Enciclopédia, de Diderot-D AIembert 1751: Brasil proibido de exportar negros 1751: Cuiabá. MT. e Vila Boa. GO. ganham Casas dos Quintos 1751: Proibição do ofício de ourives em MG 1751: Portugal proíbe os autos-de-fé da Inquisição 1752: Isenção da penhora por dívidas dos possuidores de mais de 30 escravos em MG 1752: 1“ e única sessão da Academia dos Seletos, RJ 1752: B. Franklin inventa o pára-raios 1753-1756: Guerra Guaranítica no RS 1754: 6“ Conde dos Arcos, 7° vice-rei 1755: Fim do poder temporal das ordens religiosas nas missões 1755: Grande terremoto destrói Lisboa 1755: Criada a capitania de S. José do Rio Negro. AM. capital Barcelos 1755: Casa dos Quintos em Jacobina. BA 1756: Fundação da Arcádia Lusitana 1756: 1* frota da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão (fundada em 1755) 1756: Última batalha da Guerra Guaranítica; 1.200 índios mortos 1757: BA começa a produzir charutos 1757: O português torna-se língua obrigatória 1758: Pombal decreta fim da escravidão indígena e do poder temporal das missões e cria o Diretório dos (ndios 3/9/1759: Expulsão dos jesuítas, acusados de um 'laçanhoso projeto" clandestino de "usurpação de todo 0 Estado do Brasil" 1759: Candida, do Voltaire 1759: Reforma pombalina do ensino em Portugal 1759: Fim das capitanias hereditárias 1759: Academia dos Renascidos. BA 1760: Marquês de Lavradio, 8° vice-rei 1760: Pico da exportação na era colonial: 4,8 milhões de libras (ouro, 2,2 milhões, 50% da produçào mundial) 1760-1770: Suspensão das relações Portugal-Roma 1761: Fim do tráfico negreiro em Portugal 1761: Escravos presos por feitiçaria, BA 1761: Tratado luso-espanhol de El Prado 1761: Oribe Seráfico Novo Brasílico, de frei Antonio Jaboatâo 40

3.2 ECONOMIA / FRONTEIRAS ■ A abertura dos portos [3.V detona o pacto colonial. Aos olhos portugueses é mais que o Grito do Ipiranga, o marco da independência. Para o inglês R. SouUey {His­ tória do Brasil, 1810), ela “fecha os anais cotoniais do Brasil’ . Juntamente com a guerra, arruina Portugal. Aqui, expande e diversifica o comércio externo; d. 1815 os navios estrangeiros aportados superam os portugueses em tonelagem. Já se importa cerveja da Holanda, pianos da Áustria, brinquedos da Alemanha, cereais dos EUA. Mas a Inglaterra é a grande beneficiária. ■ A influência inglesa se impõe pela diplomacia de Stangford '3.1], a ocupação militar de Portugal (18071820) e sobretudo o poderio mercantil. Panos ingleses (linho, lâ, muito algodão) vestem da elite aos escravos. Representantes de 100 firnias britânicas se estabele­ cem no Rio (tomam-se senhores da alfândega), outros na BA, PE, CE, MA, PA. Rompem o velho monopólio luso no comércio; vendem de panelas e carruagens a patins de gelo e espartilhos (que as brasileiras não usam). Nas tabuletas, anunciam: 'supertino, de Lon­ dres". Fomnam na Inglaterra (1808) a poderosa Asso­ ciação dos Comerciantes que traficam para o Brasil. Influem no govemo (gabinete filo-britânico de Sousa Coutinho. 1808-1813) e na opinião pública. Introduzem hábitos exóticos: garfo e faca, dentaduras, pão, cerveja, publicidade em jornais. ■ Os acordos de 1810 (26/2). negociados por Stangford e Sousa Coutinho. estendem essa hegemonia. Consis­ tem num tratado de aliança (13 artigos. 2 deles secretos) e um de comércio (34 artigos) com validade ilimitada (vigora por 40 anos). A taxa alfandegária sobre produtos ingleses cai de 24% para 15% (artigos de outros países pagam 24%; os lusos, 16%). A ilha de Sta. Catarina toma-se porto franco para o comércio inglês com o Prata. Fala-se em sistema liberal de comércio, mas Portugal é proibido de vender na Inglaterra produtos coloniais (açúcar, tabaco). Os ingleses residentes no Brasil adquirem privilégio de extraterritorialidade (só podem ser julgados pelo Juiz Conservador da Nação Inglesa) e. contra a fen^enha oposição do núnck) apos­ tólico, 0 direito de prattearem a religião anglicana. 0 art. 10 fala em limitar e gradualmente abolir o tráfico de escravos i-;.?;. D. João justifica o acordo para "sustentar 0 esplendor do trono" e "assegurar a sua defesa”. Advc^a 0 "sistema liberar da liberdade e franqueza de comércio e diminuição dos direitos das alfândegas", con­ tra 0 velho 'sistema restritivo', “sobremaneira danoso'. Já 0 Correio Brasiiiense [3.9; denuncia uma "absoluta falta de genuína reciprocidade". ■ A conversão liberal é sinal dos tempos. 0 mundo entra na Revolução Industrial. 0 mercantilismo da 1* fase da expansão européia | 1.2 ; dá lugar ao liberalismo. A Inglaterra, grande potência emergente, combate pri­ vilégios e monopólkjs em nome do livre comércio. Nas Américas, instiga a independência das colônias 12.10) e controla seus mercados. Os EUA seguem com èxitq outra via: aplicam o protecionismo, aproveitam as guer­ ras na Europa, indusirializam-se, elevam rapidamente as exportações, inferiores às brasileiras até 1770. ■ 0 Brasil já pode ter Indústrias (em 1W 1808 d. Joáo revoga o alvará de 178512.10]), mas não enfrentar a concorrência britânica: sofre um déficit comercial crôni­ co. Há algum avanço na metalurgia. Em Ipanema (So­ rocaba, SP) uma fábrica de ferro às expensas da fazen­ da real fracassa (1799), outra é deficitária (1810); a 3*, com 32 contos de réis de capital (50% estatal) e 100 escravos, sob direção do alemão R L. Varnhagen [3.9], é a 1* a fundir ferro em escala industrial (1818-1895). Várias pequenas ferrarías privadas usam o processo africano, aprendido com escravos. ■ A fundação do 1> Banco do Brasil (12/ia'1808), quando Portugal nâo lem uma só casa bancária) visa sustentar a Coroa em crise, facilitar pagamentos, pro­ mover 0 comércio e custear a dispendiosa guerra pela

Banda Oriental. 0 banco nasce privado mas por iniciati­ va do regente: com o tempo, assume caráter para-estatal. Atua em depósitos, descontos e emissões. Só ao fim de 13 meses consegue reunir o capital mínimo; a praça resiste e demora a investir. Em 1821. como o banco con­ tinua em déficit, d. João VI deposita nele as jóias da Coroa e convoca todos a fazerem o mesmo. Mas, em seguida, ao voltar a Lisboa [3.4], saca o que depositou, esvazia o banco, o Tesouro e até o museu de tudo que tem valor. A Instituição nunca se recupera; desacreditada e deficitária, termina liquidada (1829). Tentativas de expansão ■ A invasão da Banda Oriental. A casa de Bragança, em guerra com a Espanha e França, decide revidar na América o golpe sofrido na Europa e realizar o antigo plano estratégico de se estender até o "limite natural" do Prata. 0 atual território uruguaio é disputado pelas armas desde 1680 [2.7). Faz parte do vice-reinado do Prata (sede Buenos Aires), na época agitado por levan­ tes libertadores, tentativas de invasão inglesa, tensões centrífugas. D. João envia um ultimato a Buenos Aires e invade a Banda Oriental (1808). Sua esposa Cartota Joaquina [3.1], absolutista feroz, irmã de Fernando VII (rei da Espanha deposto por Napoleão), conspira para chegar a regente do Prata. Stangford usa todo o seu poder de pressão para deter a invasão e impor um armistício (1811), pois a Espanha mudou de lado e ago­ ra combate Napoleào. Contingências das lutas plati­ nas levam o governador espanhol Javier Elio a pedir ajuda militar portuguesa; nova intervenção inglesa conduz (1812) a novo armistício. Mas com a morte de Sousa Coutinho sobe no Rio (1815) o gabinete do con­ de da Barca, que tem terras no RS e interesse na ex­ pansão pelo Prata. Stangford perde influência e deixa 0 Brasil (1815). 0 partido da guerra toma a ofensiva; 2 regimentos com 4.850 voluntários de elite são trazidos de Portugal. ■ A luta dos uruguaios de José Artigas [1774-1850], anticolonial e antioligárquica, enfrenta alternadamente espanhóis, portugueses, ingleses e, às vezes, Buenos Aires. Quando as Províncias Unidas do Rio da Prata proclamam a independência (9/7/1818) e passam a hos­ tilizar Artigas, d. João VI aproveita. A pretexto de distúr­ bios na fronteira, lança sobre a Banda Oriental a tropa de elite sob comando do gal. C. F Lecor. Ela toma Mon­ tevidéu (20/1/1817) após duros combates, mas Artigas se refugia além do Uruguai, passa à guerrilha e à guer­ ra de corso (em âgeis galetas). Seu filho adotivo, o guarani Andrecito Tacuary. notabiliza-se como guerri­ lheiro; é atacado nas missões de Corrientes, queimadas, destruídas, pilhadas e despovoadas. A guerrilha cessa em 1820. Artigas, amargurado, asila-se no Paraguai. A Banda Oriental é anexada ao Brasil (1821) com o nome de provincia Cisplatina. 0 conflito ressurge na Guerra Cisplatina, ou Guerra de Independência do Uruguai (1825-1828) 13.7J. ■ A ocupação de Caiena visa golpear Napoleão, arre­ batar sua pequena colônia (1.300 brancos, 400 mestiços e 10 mil escravos em 1788) e eliminar um vizinho incôntodo, que cobiça o Amapá. Após uma tardia declaração de guerra á França (10/6/1808), 470 soldados portugue­ ses (com ajuda de 1 corveta inglesa) tomam facilmente Caiena (12/1/1809). Entregue ao govemador H/laciel da Costa, esta permanece a mesma modesta produtora de açtjcar. café. rum e algodão. Vencido Napoleão (1816), Portugal promete devolver a colônia à França (que a mantém até hoje), mas só cumpre em 8/11/1817. 0 Con­ gresso de Viena fixa no rio Oiapoque a fronteira BrasilGuiana, mas continua incerto (até 1900) qual rio concre­ to é o Oiapoque. Várias plantas trazidas do Jardim Gabrielle de Caiena, lembranças da ocupação, aclima­ tam-se no Brasil, entre elas o abacateiro, o chá, a canela, a ffuta-pão, a palmeira imperial (João VI planta algumas no Jardim Botânico do Rio) e a variedade da cana-deaçúcar chamada de caiena, ou caiana.


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3.3 MAÇONARIA/ REVOLUÇÃO DE 1817 ■ A Maçonaria sinaliza a emergência de novas fomias de sociabilidade política na colônia. Sociedade secreta de origem incerta, ativa na Europa já na Renascença, cresce como porta-voz da burguesia no combate aos liranos e privilégios”. Nas Américas prega a independên­ cia e inicia (filia) B. Franklin, T. Jefferson, San Martin, 0'Higgins, F. Miranda. Em Portugal, Pombal [2.10) é maçom; já a "Viradeira" atira contra a Maçonaria a polícia do temido Pina Marique. Os 1" maçons do Brasil (1788?) são filhos da elite, educados na Europa, em geral sob influência do ramo francês (franco-maçonaria), radical e libertário. Em 1802 há lojas em PE, RJ, BA. ■ 0 Areópago (fórum de sábios) de Itambé, PE. criado (1798) pelo pe. Araida Câmara [1752-1810], visa difundir a instrução e as idéias liberais: é reprimido (1802). Em 1817 a bandeira da República usa símbolos maçônicos e a devassa acusa de maçons 62 dos 317 réus. Em segui­ da (3/5/1818) d. João VI proíbe sob pena de morte as so­ ciedades secretas, em especial a Maçonaria. ■ As lojas crescem ainda assim; iniciam oficiais, padres (contra o veto de Roma), intelectuais. Combatem o do­ mínio colonial-absolutista, mas dividem-se quanto à autonomia ou independência, monarquia ou república, escravidão. Uma ala é moderada, palaciana, outra radical-democrática. A Revolução do Porto (com influência maçom), revoga a proibição de 1818. ■ Os maçons têm papel crucial na Independência (Gonçalves Ledo, Clemente Pereira. Alves Branco). José Bonifácio de Andrada e Silva [1763-1838], cientista viaja­ do, Patriarca da Independência, elege-se grão-mestre (28/5/1822) do Grande Oriente do Brasil. A seguir funda uma dissidência, o Apostolado da Ordem dos Cavaleiros de Sta. Cmz. oposta '1anto ao despotismo como à anar­ quia". 0 próprio príncipe d. Pedro entra na Maçonaria (13/7/1822). sob 0 pseudônimo de Guatemozim. Após o 7 de Setembro este papel político reflui. A Revolução de 1817 ■ É a 1 ' da longa seqüência de revoltas, da Amazônia ao RS, encerrada também em PE, 1848 [4.6], Nascem numa capitania castigada pela baixa cotação da cana e algodão os novos impostos; a seca de 1816. Tira partido do fraco governo de Caetano Pinto Montenegro (18041817). Segue a versão maçônica das idéias francesas [2.10], Herda a tradição rebelde de PE, avivada no Areópago e na Conspiração dos Suassunas (1801). ■ A base da revolução é: a oficialidade; o clero (é cha­ mada Revolução dos Padres), em especial do Seminário de Olinda, fundado em 1800, modelo de ensino e “ninho de idéias liberais": a Academia maçônica do Paraíso e a elite nordestina esclarecida (clãs dos Cavalcantis, dos Albuquerques). Não há ampla adesão popular, apesar da participação de elementos não pertencentes às elites. ■ Os ânimos se exaltam. R. Francisco Cabral, alteres negro do Regimento dos Hennques, bate num português que fala mal dos brasileiros na festa de N. S* de França (26/1/1817). Troca-se brindes de “Morra Portugal!" em janiares onde só há comes e bebes da terra. 0 gover­ nador, após denúncia do português Carvalho Medeiros, manda prender vários civis e militares, que de fato plane­ jam um levante para a Páscoa. ■ A Revolução se precipita (6/3/1817). Na fortaleza de 5 Pontas o cap. José de Barros Lima, o Leão Coroado, resiste à prisão e mata com a espada o brig. 6 artx)sa de Castro. No quartel do Paraíso, morre o ajudante de ordens do go-vernador. Oficiais e soldados an’ancam de suas fardas o brasão do rei. Libertam os prisioneiros. No mes­ mo dia Recife está tomada, aos gritos de "viva a pátria" e “morra marinheiro" (apelido depreciativo dos portugueses). 0 pe. Miguelinho [M. J. de Almeida e Castro, 1761-1817] redige inflamada proclamação (7/3). 0 governador refugiase na fortaleza do Brum, capitula e embarca para o Rio. ■ 0 governo provisório (8/3/1817) lem 5 membros (como 0 diretório francês de 1795), representando lavoura.

clero, comércio, magistratura e Exército. Um Conselho também de 5 membros inclui Antonio Carios de Andrada (1773-1845], a Academia Ambulante, imião de José Bo­ nifácio. Uma Lei Orgânica orienta o govemo até a plane­ jada Constituinte; garante liberdade de imprensa, cons­ ciência e religião (mantém a católica como oficial). 0 1° ato substitui 0 tratamento vossa mercê, considerado de sujeição, por vós ou patriota. Outros revogam impostos “de manifesta injustiça e opressão', elevam os soidos, propõem o comércio com os EUA. ■ A 1* tipografia a funcionar em PE imprime os textos da revolução. 0 1® (10/3) é o manifesto Precisa conclui com “Viva a pátria, vivam os patriotas e acabe para sem­ pre a tirania real'. ■ Expansão. Recife envia emissários ao RN. BA, CE, EUA (0 comercíanle mestiço A. Gonçalves da Cruz. o Cabugá). Argentina, Inglaterra. 0 pe. Roma [J. Abreu e Lima, 17681817] subleva AL. segue para a BA numa jangada com o filho menor, mas é delatado, preso em Itapuã e fuzilado sem julgamento (29/3). A PB logo adere à República (11/3). No RN 0 cel. Albuquerque Maranhão, senhor de Cunhaú. à frente de 200 soldados e 600 sertanejos, prende o gover­ nador. A região do Crato. CE, apóia a República (3/5), graças ao seminarista Martíniano de Alencar e ao pe. M. Silva Saldanha, mas em 11/5 se entrega sem combate. ■ Divergências internas debilitam o novo poder. 0 co­ merciante D. José Martins e o mestiço Pedro Pedroso encarnam a ala jacobina, radical. 0 magistrado José Luís de Mendonça lidera os moderados. A proposta de libertar os escravos e engajá-los no combate é rejeitada em nome do direito de propriedade. A República declara-se pelo fim da escravatura, mas gradual e negociado. ■ A repressão parte da BA (29/3) e do RJ (a frota do aim. Rodrigo Lobo; outra, maior, se atrasa). Enfrenta re­ sistência, até um início de guerrilha, mas vence todos os combates graças ao despreparo e divisão dos revolucio­ nários. Estes ainda lonnam uma 'ditadura' (govemo de emergência), mas em 19/5 se retiram com 2 mil homens para Paulista (onde o pe. Ribeiro se suicida): em 20/5 os marinheiros entram no Recife. A revanche se abate com mais força sobre os rebeldes do estrato popular, “mula­ tos, forros e crioulos"; os praças que a República fez ofi­ ciais levam de 300 a 500 chibatadas: 104 presos “de qualidade" são levados à BA. Há 14 execuções, mais 72 decretadas quando vem o indulto real (6/8). As cabeças e mãos dos rebeldes Teotônio Jorge. J. Barros Lima e pe. Pedro de Sousa são cortadas e expostas. AL é separada de PE (16/9) para debilitar a capitania insubmissa; o Correio Brasiiiense. proibido, a Maçonaria idem. A Revolução Liberal de 1820 ■ Portugal pós-Guerras Napoleônicas [3.1] vive em crise profunda, econômica (abertura dos portos do Brasil, más vindimas). social (mortandade, emigração) polílk» (au­ sência do rei), ideológica (idéias francesas), militar (ingle­ ses comandam o Exército). 0 Sinédrio. grupo de letrados, militares e burgueses do Porto, decide seguir o exemplo da Revolução Constitucíonalista Espanhola de 9/3/1820. ■ Pronunciamento do Porto (24/8/1820). Após a missa,

0 regimento de artilhana anuncia com 21 tiros a revolução por uma Constituição, “cuja falta é a origem de todos os

nossos males". A guarnição de Lisboa adere (17/9) e o mo­ vimento vence sem resistência. É um eco tardio da vaga revolucionária européia de 1789-1815. A Junta Provisional revolucionária liberta os presos (inclusive os de 1817), convoca as 1“ eleições de Portugal, para a Constituinte (Cortes), proclama a soberania da nação sobre o rei e Intima-o a retornar incontinenti a Lisboa. A Revolução do Por­ to desafia a ordem reacionária da Santa Aliança na Europa e abre uma (ase de convulsões que vão até 1849 [3.8]. ■ No Brasil a Revolução tem conseqüências contraditó­

rias mas decisivas [3.4], Inaugura a profunda crise polltico-instiluclonal que desembocará no Grito do Ipiranga.

Cronologia 1762: Junta interina no governo geral 1762: ijltim a “derrama” em MG 1762; Espanhóis tomam Sacramento e a seguir a vila do Rio Grande, RS 1762: O Comrato Social, de J. J. Rousseau 27/1/1763: O Brasil toma-se vice-reinado 1763: Conde da Cunha. 9° vice-rei 1763: Transferência da capital para o RJ 1763: Destruído o quilombo Buraco do Tatu, situado deniro de Salvador 1764: Hargreaves Inventa a máquina de fiar 1765: Alvará cria Junta de Justiça no RJ 1766: Proibidos os ourives na BA, PE, RJ 1767: Conde de Azambuja, 10“ vice-rei 1768: Obras Poéticas, de C. Manuel da Costa 1768-1779: Expedição de J. Cook pelo Pacífico 1769: J. Watt inventa a máquina a vapor 1769: Marquês de Lavradio, 11° vice-rei 1769; Oficio do capltào-geral de SP repudia a criação de eqüinos em MG 1769: O Uruguay, de José Basilio da Gama 1769: Reforma pombalina da educação 1770; Introdução do café no RJ 1771: Regimento Diamantino 1771: Cnada a Academia Cientifica do RJ 1772: 1® sessão da Academia Científica do Rio de Janeiro 1772: 0 govemo colonial cria o Subsídio Literário, imposto visando financiar o ensino público 1773: Proibido abnr caminhos para MG 1773: Porto dos Casais (h. Porto Alegre) passa a sediar a capitania de S. Pedro do Rio Grande 1773: O papa Clemente XIV extingue a Companhia de Jesus 1774: Proibida migração Portugai-Brasil 1774: Silva Alvarenga escreve O Desertor 1775: Guerra de independência dos EUA 1775: Ataques dos Guaikuru a Cuiabá. MT 4/7/1776: EUA proclamam sua independência e os direitos do homem 1776: A Riqueza das Nações, de A. Smith 1776: Curso superior de filosofia no Convento de Sto. Antonio. PE 1777: Maria I. a Louca, rainha de Portugal 1777: Demissão do marquês de Pombal 1777: Tratado luso-hispáníco de Sto. Ildefonso redefine fronteira platina 1778: Extinção da Cia. de Comércio do Grão-Pará e Maranhão: passa a vigorar a liberdade de comércio 1779; Vasconcelos e Sousa, 12° vice-rei 1779; Criada a Academia de Ciências de Lisboa 1779: Caramuru, de Santa Rita Durâo 1780; Levante de Tupac Amaru no Peru 1780: Lisboa ganha iluminação pública 1780: Ato régio extingue Companhia de Comércio ds Pernambuco e Paraíba 1780: 1" charqueada do RS, no rio Pelotas 1780: Pombal condenado ao desterro 1781: Os Kaiapós, GO, são subjugados 1781: Comissão luso-brasileira de limites reúne-se em Tabatinga. AM 1783: Inaugurado passeio público no lugar de antigo mangue, no RJ 1783: Os Xavantes, GO, são subjugados 1783: Exportações caem a 62% das de 1760 1784: Cartw/right inventa o tear mecânico 1785: Prisão de negros por feitiçaria, BA 1785: Maria I manda extinguir toda indústria no Brasil, afora a de pano grosso para sacarlas ou roupas dos escravos 1786: Criada a Sociedade Literaria do RJ 1787: Inicio da pecuária no R. Branco, RR

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Cronologia

3.4 RETORNO DE JOAO V II AS CORTES 10 GRITO m A Revolução de 1820 [3.3] expõe a crise do regime em Portugal 13.8) e no Brasil. "Prega-se urn novo credo no salão dourado, na humilde biboca e mesmo na praça pública”, diz um viajante francês. 0 rei vacila, entre ir e ficar e entre o grupo palaciano liberaiizante, de Palmela, e 0 absolutista, de Cariota Joaquina [3.1, 3.2]. A tropa, reunida no Rossio, força-o (26/2/1821) a jurar a Consti­ tuição ainda não escrita. Ele volta a Lisboa (25/3) com os fundos do Banco do Brasil; deixa como regente o 1® filho, Pedro de Bragança e Bourtjon [1798-1834] e teria dito (conforme a tradição): "Pedro, se o Brasil se sepa­ rar de Portugal, antes seja para li, que me hás de res­ peitar. que para um desses aventureiros'. ■ Em Portugal a crise se aprofunda. A Constituição liberal, proclamada (25/9/1822) sem o voto de 7 deputa­ dos do Brasil, tem vida curta. Instigado por Cariota Joa­ quina, 0 Infante d. Miguel encabeça (27/5/1823) a rea­ ção absolutista (Vlla-Francada). dissolve as Cortes, sus­ pende a Carta de 1822. 0 absolutisme retoma, mitigado por uma Carta outorgada (1826-1829) [3.8]. ■ As contradições se aguçam. A linha da revolução é 0 "vintismo” democrático-burguês avançado, fruto tem­ porão das idéias francesas. Liberta os presos e a im­ prensa. convoca as 1“ eleições de Portugal, institui o Pariamento e o voto universal (exceto mulheres, anal­ fabetos, frades), suprime o Santo Oficio e a escravidão (no reino). Sob esta ótica, a luta é entre liberais e con­ servadores. Mas a burguesia liberal lusa tem planos de recolonizar o Brasil, que, para o deputado Borges Carneiro, ‘ precisa de um cão de fila que o meta em ordem”. Isto cria outra oposição, entre o partido por­ tuguês e 0 brasileiro. Assim, liberalismo e independên­ cia parecem mais conflitantes que complemenlares. A ala radical do partido brasileiro é liberal (Ledo) e até republicana (Barata). fi<as predomina a ala conservado­ ra (Andradas). dos senhores de terras e escravos, monarquista-autoritária. ■ A eleição para as Cortes se dá com atraso no Brasil. 0 sistema prevê 1 deputado por 30 mil habitantes (ex­ ceto escravos) e é indirsto. em 3 estágios: paróquia, comarca e provincia. Dos 250 deputados o Brasil elege 69; destes, 23 não vão a Lisboa; dos que vão, há vários portugueses, por nascimento ou opção, e brasileiros conservadores; os brasileiros liberais incluem Barata [3.12] e 5 ex-presos de 1817 (3.3]. A bancada de SP se unifica pelos Apontamentos de J. Bonifácio. Os 1» de­ putados do Brasil só chegam a Lisboa 7 meses após instaladas as Cortes. Nestas a maioria é liberal, mas pró-recolonização do Brasil; o povo que assiste às ses­ sões vaia os brasileiros. ■ D. Pedro (d. 7/3/1821) sofre influência liberal (d. Leopoldina escreve ao pai: "Meu esposo, valha-nos Deus. ama as novas idéias"). Suprime impostos abusivos, pro­ clama liberdades e garantias Mas reprime o protesto na pça. do Comércio (21/4/1821), convertida em “açougue dos Braganças" (1 morto). Frente ao boato de que se coroará imperador no seu aniversário (12/ 10), indaga: ■Que delírio é o vosso?”. ■ 0 "Fico" (9/1/1822) assinala a virada. As Cortes exi­ gem a volta do príncipe a Portugal. Este vacila, escreve ao pai que irá, mas petições do RJ, SP, IvlG e RS pres­ sionam para que não vá. Ele se impressiona com a repre­ sentação da Junta de SP, escrita por J. Bonifácio: em segredo, manda divulgá-la. Ouve J. Clemente Pereira, presidente da junta do RJ. sobre o perigo de “um partido republicano que existe semeado em muitas províncias" Recebe uma petição com 8 mil assinaturas. Após 1 mês, decide: "Como é para bem de todos, diga ao povo que fico”. Logo após a “ficada" (como se diz entâo), J. Bo­ nifácio encabeça um novo ministério, brasileiro. ■ José Bonifácio de Andrada e Silva [1763-183S]. o mais célebre Andrada, Patriarca da Independência, tem influência decisiva sobre d. Pedro nessa fase. Paulista de Santos formado em Coimbra, cientista, viajado, culto,

irreverente e ambicioso, de volta ao Brasil 0819), faz-se membro da Junta de SP e a 16/1/1822 ministro do reino. Tem Idéias arejadas que não tenta implantar (sistema métrico. 1813, fim gradual da escravatura. 1821) e uma visão autoritária que põe a serviço do projeto de um império brasileiro autocrático-constitucional, avesso à "anarquia". Cria um conselho apenas consultivo de Procuradores das Províncias, uma polícia política e tri­ bunais para os crimes de imprensa. Traz (3/6) para o Ministério da Fazenda seu irmão fviartim Francisco, o 2r Andrada; Antonio Carios, ex-republicano de 1817 [3.3], é deputado às Cortes.

1787: Lavoisier enuncia lei da conservação da matéria

■ Após 0 “ Fico" tudo conduz ã independência. A tro­ pa lusa no Rio se amotina (11/1) em apoio às Cortes contra os cabras (brasileiros), mas, isolada, recua para Niterói. 0 regente a expulsa e proíbe (17/2) a vinda de outras. Vai a MG (23/3). condena "os ferros do despo­ tismo’ e faz sucesso. Ordena (4/5) que os decretos de Lisboa só sejam aplicados com seu aval. Indica côn­ sules brasileiros em Buenos Aires. Londres, Washington e Paris. Recebe (13/5) o título de Defensor Perpétuo do Brasil (iniciativa de Ledo). Convoca (3/6) uma As­ sembléia Constituinte e Legislativa do Brasil. Apóia os baianos na guerra (3.5] à tropa portuguesa. Declara inimiga p / 8) toda tropa que tente desembarcar. A Maçonaria proclama a independência (20/8), já então um fato consumado no discurso oficial, apenas segui­ da da fórmula (que sobrevive ao 7/9) “em irmandade com Portugal".

1791: Condenados os conjurados de MG

■ 0 Grito do Ipiranga. A estratégia de J. Bonifácio exige o apoio do eixo RJ-SP-MG, pois a BA está em guerra e as províncias do Norte são duvidosas [3.5]. Após MG, 0 regente vai a SP, onde uma bernarda (re­ volta) derrubou (2 Ï5 ) o govemo provincial fiel- aos Andradas. A viagem de 11 dias a cavalo (14-25/8) é outro sucesso: todos aclamam o príncipe jovem, estouvado e brasileiro. Este devolve o govemo aos Andradas. recebe em beija-máo (26/8) os rebeldes de ontem, conhece (29/8) e apaixona-se por Domitila de Castro Canto e Melo [d. marquesa de Santos. 1797-1867]. Viaja a San­ tos (5/9), formalmente para visitar os Andradas. Volta a S. Paulo com a guarda de honra (recém-formada por vo­ luntários paulistas); pára ã beira do riacho do Ipiranga (7/9, 16 h). Ai recebe, de 2 estafetas, decretos das Cortes que anulam suas ordens e exigem que vá à Europa em viagem de estudos (para as Cortes a rebel­ dia do príncipe é uma afronta absolutista á soberania popular que elas encarnam). Irritado, ordena que a guarda arranque dos uniformes os laços com as cores de Portugal e anuncia a célebre divisa “Independência ou M orte". ■ A historiografia oficial procura adequar o episódio ao papel simbólico que lhe atribui. 0 vale do Ipiranga vira colina (quadro de Pedro Américo, museu); a mula gateada de d. Pedro, um cavalo zaino; o modesto pequeno uniforme da guarda se engalana; a escala, de­ vida a uma diarréia do príncipe, passa a ser para com­ por seu traje. Já é o regente e não o pe. Belchior de Oliveira quem lê os papéis. 0 significado do 7/9 sobres­ sai no mesmo dia. Em S. Paulo d. Pedro compõe o atual Hino da Independência, executado â noite na Ópera (350 lugares, lotada), quando o cônego Xavier Ferreira puxa vivas ao "1® rei do Brasil*. Este cavalga em apenas 5 dias os 576 km até o Rio. que o aclama (14/9) no teatro de S. Joáo: a 1/12. vestindo um manto de plumas de papo de tucano, é sagrado e coroado como Pedro I, imperador do Brasil ■ 0 7/9 não é uma ruptura. É parte de uma transição negociada que vem de 1808 (3.1) e irá até 1831 [3.8]. liderada pelo herdeiro do trono português. Este. em carta de 22/9 ao pai. ainda se diz “príncipe regente", “súdito" de Portugal: só ataca os “vis cart>onários dessas facciosas, horrorosas, maquiavélicas, hediondas e pestíferas Cortes'. A dupla polarização (liberais-absolutistas e brasileiros-portugueses), perdura.

1788: 1“ reuniões da Conjuração Mineira 1788: Cartas Chilenas, de T. A. Gonzaga 1788: Kant publica a Crítica da Razão Pura 14/7/1789: Tomada da Bastilha em Paris; início da Ftevolução Francesa, com repercussão mundial 1789: Repressão à Conjuração Mineira 1789: Inicio da revolução antiescravísta no Haiti 1790: Conde de Resende, 13' vice-rei 1790-1793: Grande seca no Nordeste 1791: Calçada de Lorena facilita a descida da serra para Santos 1791-1793: A “Seca Grande” faz milhares de m ortes no Nordeste

21/4/1792: Tiradentes enforcado e esquartejado 1792: Regência do príncipe João (d. João VI) em Portugal por loucura de Maria I 1792: MaríHa de Dirceu. de T. A. Gonzaga 1792: A França proclama a República 1793: Portugal alia-se à Inglaten'a na guerra contra a França revolucionária 1794: 0 govemador da BA expulsa frei J. de Bolonha por pregar contra a escravidão 1794: Devassa na Sociedade Literária do RJ (extinta em 1795); 10 presos até 1797 1795: Introdução do café em SP 1797: Parker desenvolve o cimento 1797: Frei Gaspar da Madre de Deus publica em Lisboa Memórias para a História de S. Vicente 1798: Abortada e esmagada a Conjuração Baiana 1798: Nasce Pedro de Bragança, futuro Pedro I 1798: Abolido o monopólio real da pesca da baleia 1798: Alvará régio cria sen^iço de correio na BA 1799: Enforcamento de 4 líderes da Conjuração Baiana 1799: Carta régia desmembra da PE o CE e PB 1799: Napoleão sobe ao poder na França 1799: Joâo VI, rei de Portugal 1800: Fundação do seminário de Olinda. PE. centro liberal e republicano 1800: Revolta dos presos na ilha de Fernando de Noronha 1801: Marqués de Aguiar, 14” vice-rei 1801 : Repressão ao Aerópago de Itambé, sociedade secreta nativista em PE 1801: Tratado luso-francês de Badajoz 1801: Alvará real extingue 150 anos de monopólio do sal, “por vexatório e cruel” 1801: 1* loja maçônica (Reunião), no RJ 1801: A França exige que Portugal feche seus portos à Inglaterra 1802-1805: Pico da exportação de algodão no período colonial 1803: Fundação do Colégio da Luz, antecessor do Colégio Militar 1803: Alvará régio estimula a mineração no Brasil 1804: Introdução no Brasil da 1* vacina contra varíola, aplicada em 7 escravos 1804: Proclamação da República do Haiti 1804: Napoleão é coroado Imperador da França 1805: A. Francisco Lisboa, o Aleijadinho, conclui seus 12 profetas em Congonhas, MG 1806: Bloqueio continental francês contra a Inglaterra 1806: 8° Conde dos Arcos é o último vice-rei 1806: O vlce-rel fecha lojas maçónicas 1806: Napoleão invade a Espanha 1807 29/5: Insurreição de escravos delatada e abortada na BA; 2 condenados à morte

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Cronologia

3.5 GUERRA DA INDEPENDÊNCIA / REPERCUSSÕES DE 1822

2/9: Ultimato francês exige o rompimento de Portugal com a Inglaterra 22/10: Acordo secreto com Londres prevê mudança da Corte Lusitana para o Brasil 27/10: Tratado de Fontainebleau: França e Espantia partilfiam Portugal entre sl 29/11 : A famflia real embarca rumo ao Brasil em 16 naves britânicas 30/11: O Exército francês ocupa Lisboa

■ A independência baseia-se no eixo l^-MG-SP [3.4] Em outras províncias, mais ligadas a Lisboa que ao Rio e com forte presença portuguesa, inclusive militar, ela exi­ ge luta; na BA, a Guerra da Independência começa antes (25/6/1822) e finda bem depois (2/7/1823) do 7/9.

1807-1814: Guerra entre Inglaterra e França devasta Portugal: 100 mil mortos • A capitania do Rio Grande de S. Pedro torna-se capitania real de S. Pedro do Rio Grande do Sul 1808 22/1: 0 príncipe regente chega à BA 28/1 : Carta régia decreta a abertura dos portos brasileiros às nações amigas 18/2: Fundada a Escola de Cirurgia do Hospital Militar, BA, 1 ' de nível universitário no Pais, com 2 professores 24/2: Autorizada a Cia. de Seguros Boa Fé, 1- do Brasil, em Salvador, BA 7/3: A Corte chega ao Rio de Janeiro 10/3: Novo ministério, filo-britânico; F. J. Portugal e Castro, Negócios do Reino; R, Sousa Coutinho, Negócios Estrangeiros 17/3: Ultimato luso a Buenos Aires inicia o conflito pela Banda Oriental (Uruguai) 1/4: Abolido o alvará de 1785 que proíbe as Indústrias no Brasil 5/5: Criada a Academia da fvlarinha, RJ 10/5: Criada a Intendència Geral de Polícia (com funções que vâo dos serviços de âgua e iluminação até construir ruas e pontes) 10/5: Casa de Suplicação (em lugar do Tribunal da Relação) no RJ 13/5: Decreto regulamenta fábrica de pólvora, RJ Maio: Lei britânica proíbe tráfico negreiro 1/6: Hipólito J. da Costa lança em Londres (até 12/12/1822 o Correio Brasiiiense) 1“ órgão de imprensa brasileiro 10/6: Declaração formal de guen-a à França: autorização para o corso Junho: John Princep cria a influente Associação dos Comerciantes (ingleses) que Traficam para o Brasil. 113 membros 13/8: Fundação da Imprensa régia; estabelecimento da censura prévia 22/8: Criada a Real Junta de Comércio. Agricultura, Fábricas e Navegação, 1■ autarquia brasileira 30/8: Os franceses capitulam em Cintra e deixam Portugal 1/9: Proibida a circulação de ouro em pó 10/9: A Gazeta do Rio de Janeiro, 1 ' jomal impresso no Brasil, oficial, 4 páginas, sob censura 12/10: Alvará real cria o Banco do Brasil 25/11 : Acaba a proibição da posse de terras por estrangeiros 1809 12/1: Com a capitulação de Caiena, Portugal ocupa a Guiana Francesa 21/1 : Alvará permite que proprietários em divida não tenham executados seus engenhos e fazendas 28/1 : Isenção fiscal para mercadorias estrangeiras vindas de portos lusitanos 28/2: Acordo comercial luso-britânico prepara o de 1810 18/4: Alvará padroniza moedas de prata e cobre em todo o Brasil 28/4: Isenção fiscal para importação de matériasprimas destinadas a indústrias 13/5: Nasce a Polícia Militar (1 companhia de ca­ valaria, 3 de infantaria), que usa chibatas conira quilombolas e a capoeiragem do RJ • Gueffa contra os “botocudos" (/^moré) do sul da BA • fii cafezal em Campinas. SP 46

■ Antecedentes - A Revolução Liberal 3.3] conflagra a BA: um levante militar (10/2/1821) e choques de rua der­ rubam o governador Portugueses e brasileiros combatem juntos 0 absolutismo, mas logo se separam e se opõem. Lisboa nomeia o cel. português Inácio Luís fviadeira de fvielo [1775-1833] govemador das armas, no lugar do tencel. brasileiro Freitas Guimarães, empossado pelo levante de 1821. A Câmara de Salvador questiona a mudança. 0 3’ e 0 4° Regimentos de Milícias se sublevam. Marujos portugueses armados tomam a cidade; invadem o con­ vento da Lapa (refúgio de alguns baianos) e ferem de morte com baioneta a abadessa Joana Angélica de Jesus (19/2/1822). Madeira toma (21/2) o forte S. Pedro, último reduto rebelde, mas comenta que o êxodo de milhares de cidadãos (até as freiras da Lapa e das Mercês) fez da ci­ dade "um lúgubre deserto’ ; um contrafluxo de lusitanos toma a ela. A Legião Constitucional de Madeira, com re­ forços de Lisboa e da Divisão Auxiliadora (recém-expulsa do Rio ;3.4;), com 8 mil homens, domina Salvador. Os brasileiros preparam a sublevação no interior. ■ A aclamação de Cacfioelra (25/6), seguida por Sto. Amaro. S. Francisco. Maragogipe. Inhambupe, abre o conflito. Não pretende a independência, apenas a redra­ da da tropa européia e que o Brasil tenha seu centro executivo. Exército, marinha, tribunal superior, universi­ dade e tesouro próprios, como Reino Unido. Aclama o regente. Nas condições da BA isso vale por uma declara­ ção de guerra: tropas voluntárias desfilam em Cachoeira no dia da decisão, enquanto uma escuna de guerra por­ tuguesa dispara tiros sobre a vila. ■ Os combatentes abarcam todo o arco social exceto os escravos '4.3;. A elite recusa-se a annar cativos; mas alista seus filhos, futuros barões de S. Francisco, Maragogipe. Itapicuru de Cima, Belém, Itaporofocas. Os intelectuais combatem nos jomais 0 Constitucional e 0 Independente Constitucional Afora as milícias e a tropa de linha (batalhão negro dos Henriques), o Exército Pacificador de Cacfioeira conta 9 mil voluntários. Sua twroína é Maria Quitéria de Jesus Medeiros [1792-1853], alistada no batalhão Volun­ tários do Príncipe D. Pedro (pronwvida a cadete, conde­ corada no Rio. morte pobre e esquecida). Os periquitos, de farda verde, rebelam-se em 25/10/1825. Do sertão vêm os encourados do Pedrão. vaqueiros-trajando couro. A Casa da Torre [2.3) forma guerrilhas de índios Cariri com flechas e bordunas. Um caixa militar recebe doações, paga soldos, ergue fortes, cava trincheiras, anna barcos. Republicanos e monarquistas lutam juntos. 0 Rio envia (29/10) alguma arti­ lharia. 300 homens e o brig, francês Labatut; este rompe com 0 Govemo Civil das Vilas Federadas, é preso e subs­ tituído (25/5/1823) por José Joaquim de Lima e Silva. ■ A guerra assume a forma de um longo sítio de Sal­ vador 0 partido brasileiro controla do início ao fim vilas, engenhos e fontes de alimentos do Recôncavo. Corta a estrada Real. que dá acesso a Feira de Santana e ao ser­ tão. Com a frota de saveiros e canoas de João das Botas, bloqueia o porto da cidade. Em vão. Madeira tenta furar 0 cerco a Oeste (Itaparica e a "região das farinhas") e ao sul (Maraú). Em setembro o cerco vai de Itapuã a Matoim. A tentativa de rompé-lo pelo Nordeste leva às bata­ lhas decisivas e simultâneas (8/11/1822) de Pirajá e Cabrito: quando o comando brasileiro julga-se perdido e ordena o toque de retirar, o corneteiro Lopes troca-o pelo de “cavalaria avançar e degotar'; quem se retira são os portugueses. Em fins de 1822 o cerco já passa por Con­ ceição, Brotas. Rio Vemtelho e Graça; Madeira de Melo só dispõe da área urbana, ainda assim fustigada por guerrilhas, recebe reforços, que apenas agravam a escassez de víveres; tenta sem èxito desembarcar em Itaparica ou no Recôncavo. Quando o almirante inglés Thomas A. Cochrane [1775-1860] cruza a barra com 7

naves (2S/4), Salvador mal resiste, esfomeada e com o partido português cindido entre partidários da junta de governo e de Madeira de Melo. Este retira-se com sua tropa (madrugada de 2/7), perseguido até Lisboa por Cochrane. No mesmo dia, 9.500 homens do Exército Pacificador entram na cidade. ■ Esta “ luta das águias e do abutre” (Castro Alves. Ode ao 2 de Julho, 1868), cruenta, cabocla, popular, foge do padrão elitista e conservador da Independência. Já antes da vitória a Câmara de Sto. Amaro, em nome dos estratos dominantes locais, vè "perigo iminente” de ‘ excessos anárquicos". Vários levantes liberais, até a República Bahiense [4.3] de 1837-38, apóiam-se no lega­ do do 2 de Julho. Este é festejado desde 1824 num des­ file sincrético onde as imagens do caboclo e da cabocla exaltam (d. 1826) a marca popular. ■ Piauí e Maranhão. S. Luís (maior colônia lusa no Bra­ sil) forma govemo pró-üsboa (15/2/1822) e pede ajuda militar. No Pl. Pamaíba, Campo Maior e Piracuruca ade­ rem ao Império; a reação lusa parte de Oeiras, capital até 1852, com mil soldados do brigadeiro Joâo José da Cu­ nha Fidié. Este toma Parnaíba facilmente e Caxias após dura luta, mas na sua ausência Oeiras muda de lado (24/1/1823). 0 Crato, CE, apóia d. Pedro (19/11/1822) e envia contra o MA e o Pl o exército sertanejo de José Pereira Filgueiras, Este, vencido no Jenipapo, volta com 6 mil encourados; sitia os portugueses em Caxias, obtém a rendição de Rdié após 100 dias de cerco e segue para S. Luís. 0 tenente-coronel português José Coelho entrega-se em Itapicuru-Mirim. A frota de Cochrane bloqueia S. Luís e depõe (28/7/1823) a junta pró-Lisboa. ■ No Pará a adesão à Revolução Liberal é obra de brasileiros radicais. Felipe Alberto Patroni [1798-1866], enviado a Lisboa, afirma perante d. João VI (22/11/1821) que “os povos não são bestas, que sofrem em silêncio” e “o Brasil em pouco tempo proclamará sua independên­ cia”. Os lusos tomam o governo e mantêm (1°/3/1823) o vínculo com Lisboa, mas brasileiros proclamam a inde­ pendência na vila de Muaná, Marajó (28/5/1823). 0 inglês Paschoe Grenfell, enviado por Cochrane no brigue Maranhão (10/8/1823) usa um ardil, obtém a adesão e empossa um governo de portugueses convertidos à inde­ pendência. Os brasileiros sublevam o 2* Regimento, o povo e levam ao poder (por 1 dia) o cônego revolu­ cionário Batista Campos [4.2], Grenfell vence o levante, fuzila 5 militares, prende 256 liberais no porão do brigue Palhaço: destes, 252, sufocados com cal virgem (ou envenenados?). 0 “Massacre do Palhaço" acirra o confli­ to brasileiros-portugueses, que levará à cabanagem [4.2] ■ Província Cisplatina (Uruguai) [3.7] Reconhecimento internacional ■ 0 reconhecimento pela Inglaterra é crucial para o Império. Já em 6/8/1822, F. Caldeira Brant é nomeado cônsul do Brasil em Londres. Mas a Inglaterra impôe con­ dições: manter o acordo de 1810 [3,2] e nada de arestas com Lisboa. Seu ministro do Exterior, George Canning, empenha-se em obter este resultado. ■ 0 reconhecimento de Lisboa (Rio. 29/8/1825), após 14 meses de penosa negociação em Londres, dá a d. João VI 0 título de imperador do Brasil e indenização de 2 milhões de libras (paga com empréstimos ingleses). Em 5/1/1826 Londres e Rio trocam embaixadores, negociam uma con­ venção sobre 0 tráfico negreiro (23/11) e um acordo co­ mercial (18/&'1827) em tudo similar ao de 1810. Seguese 0 reconhecimento por outras nações européias, inclu­ sive as da Santa Aliança (Rússia, Austria e Prússia [3.1]. ferrenhas adversárias da descolonização. ■ Nas Américas, os EUA logo reconhecem o Império (26/6/1824), conforme a recém-formulada linha de “a América para os americanos". Já as nações hispanoamericanas desconfiam que d. Pedro I seja um homem da Santa Aliança. Só o México reconhece o novo Estado, em 1825. A Argentina, após um reconhecimento informal e vago (28/8/1823), entra em guen-a com o Brasil [3.7].


0 Recôncavú^ Baiat^o.eo 2,ííe Julho Ê^cfclo de brasileiros Êxodo de portugueses^ V ilas que aclam am o p rín c ip e ^ O S ede do p o der antiportuguôs

1' a ca m pam ento brasileiro '

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Cronologia

3.6 CONSTITUINTE DE 1823 / CONSTITUIÇÃO DE 1824'

• Fábrica de ferro em Morro do Pilar, MG

■ A monarquia constitucional nasce ambígua. Adota 0 norre Império (como Napoleão), moderno, porém muito

• Criação do 2“ observatório astronômico do País (após 0 da ocupação holandesa) • Criação do Corpo de Artilfiaria a Cavalo • Reorganização dos Correios 1810 30/1: Liberdade de comércio de artigos com impostos pagos, exceto os estancados 4/2: Carta régia autoriza tipografia em Salvador, BA, sob censura do govemador e do arcebispo 26/2: Portugal e Inglaterra concluem tratados comerciais facilitando o Ingresso de mercadorias inglesas no Brasil 27/3: Alvará libera comércio ambulante 14/5; Começa a circular Idade do Ouro do Brasil. 1“ jornal na BA, 2° no País, oficioso 3-15/6: Alvarás criam novos impostos 22/9: O rei proíbe o uso do rebuço (manto envolvendo o rosto das mulheres) em SP 4/12: Carla régia ordena criação de usina de ferro de Ipanema, SP 4/12: Criada a Academia Militar, RJ • História do Brasil, do inglês R. Souttiey • Introduzida em PE a cana caiena (caiana) • Chegam ao RJ os 1“ colonos chineses • Início das Guerras de Independência em quase toda a América Espanfiola • Praga da ferrugem ataca trigais do RS 1811 1/3: Criaçào da Junta da Fazenda, RJ 1/3: Criação do Jardim Botânico do RJ 13/5: Instalada a Real Biblioteca do RJ 14/5: Independência do Paraguai 3/8; Aberta a Biblioteca Pública da BA 8/9: Sagração da igreja da Candelária. RJ 20/10; Armistício mediado pela Inglaterra (lord Stangford) prevê retirada das tropas portuguesas da Banda Oriental • Olinda. PE. Inaugura seu Jardim Botânico • Autonomia da capitania do Pl 1812 25/1: Laboratório quimico-prático no RJ 27/5: 2“ armistício de Stangford detém novo ataque português à Banda Oriental 6/6: Fábrica de lapidação de diamantes 25/6: Curso de agricultura, BA Junho: Napoleão invade a Rússia 20/10: Imposto extraordinário e subscrição adicional dos acionistas para capitalizar o recém-nascido Banco do Brasil 16/12: Porto Alegre, RS. toma-se vila • Transferência da sede da Ouvidoria paranaense de Paranaguá para Curitiba • Inaugurado o Teatro S. Joâo, BA 1813 1/4: Criada a Academia Médico-Cinirgica do Rio de Janeiro 31/8: Derrota decisiva da França em San Marcial:

0 exército francês abandona a Espanha 12/10: Inaugurado o Real Teatro de S. João, RJ, 1° palco llrico de padrão europeu • 1* máquina a vapor do Pais, instalada na moenda de um engenho em Itaparica, BA • Chegam ao Brasil colonos açorianos destinados ao ES e MG • Há no Rio 2 livrarias, ambas de franceses 1814 18/7: Derrotado Napoleão, a abertura dos portos estende-se a qualquer nação 19/11: Morre em Vila Rica, MG, o escultor e arquiteto A. Francisco Lisboa, o Aleijadinho • C o rr> «9 a a p a v im e n ta ç ã o d o c a m in h o d a o o rra ,

do RJ a MG 48

caro aos Bragança. Separa-se de Lisboa mas deixa o ce­ tro. 0 poder político, militar e econômico em mãos lusas. Na coroação 13.4], Pedro I jura defender a futura Carta “se for digna do Brasil e de mim’ Ao instalar-se a Assem bléia (3/5/1823). repete a ressalva e ataca “o despotismo quer real, quer aristocrático, quer democrático”. A Cons tituinte convive desde o 1' dia com um poder que a pre cede e limita, e com boatos de fechamento. ■ A eleição segue o decreto de 3/6/1822 [3.4]: é In direta, por paróquia e a seguir por distrito; exclui mu lheres, cativos, solteiros menores de 20 anos, assalaria dos, religiosos regulares, praças, estrangeiros (exceto portugueses), detentos. 0 voto é aberto, nas igrejas, num domingo não fixado {no Rio. set/1822). A Assem' bléia é também legislativa. Há 100 cadeiras, mas no PA, IVIA, Pl e Cisplatina, onde governa o partido portu­ guês [3.5]. não há votação. A bancada da BA só assume após 2/7. Os cerca de 90 eleitos são quase todos da elite aljastada. fonnados em Coimbra (45 deles em Direito), liberais cautelosos e flexíveis. Há um diminuto bloco das camadas médias e do baixo clero. A ala liberal-radical (Gonçalves Ledo. José Clemente Pereira) não participa: Barata, eleito, não assume por julgar a Assembléia "cercada de mais de 7 mil baionetas de nossos inimigos". ■ 0 centro do debate é a natureza da soberania, im­ perial ou popular, e a forma do seu exercício. J. Bonifá­ cio, ministro e deputado, advoga o primado do poder pessoal do imperador, em nome da unidade nacional e de um Executivo poderoso. Jornais oficiosos e setores militares defendem o poder de veto absoluto do monar­ ca, até sobre a Constituição. A Assembléia, ciosa de suas prerrogativas, isenta seus atos da sanção imperial (29/6). Uma comissão de 7 deputados redige o projeto da Carta, presidida por Antonio Carios de Andrada. ir­ mão de J. Bonifácio, notável orador e polemista, enquan­ to a Assembléia trata das leis ordinárias (examina 38 projetos, sanciona 6). ■ Pedro I afasta o gabinete dos Andradas (16/7), por motivos não esclarecidos. A. Cartos revida no projeto da Carta (1^/9), de teor liberaiizante e contenção do poder do monarca. Os jomais 0 Tamoio e Serttinela à Beira da Praia Grande, ligados aos Andradas, iniciam campanha nativista e de oposição. Condenam o alistamento no Exército de oficiais portugueses aprisionados na BA; a outorga do lítulo de marquês ao aim. Cochrane [3.5]; a tibieza no trato de uma delegação da ex-metrópole. ■ 0 projeto de Constituição, da lavra de A. Carios (272 artigos. 23 votados), propõe a monarquia constítucional-conservadora em voga no mundo desde 1815: divisão em 3 poderes; Executivo a cargo do monarca; Pariamento eleito por voto distrital censitário (vota quem tem renda superior a 5,4 t/ano de farinha de mandioca; daí a alcunha Constituição da Mandioca). Não prevê a dissolução da Câmara pelo imperador, mas sim a renún­ cia deste caso assuma a coroa de outro reino (hipótese nada remota, pois d. Pedro I é herdeiro de Portugal). Acena com a “emancipação lenta dos negros"; prevê o ensino pijblico nos 3 graus. ■ Um incidente precipita a crise e expõe o vezo abso­ lutista de d. Pedro. A Sentinela, em artigo assinado sob o pseudônimo um brasileiro resoluto, tacha de Iraidores" 2 oficiais portugueses alistados no Exército brasileiro. Estes revidam sunando o boticário D. Corte Real. supos­ to autor do texto, aliás português e de todo inocente. 0 Tamoio e a Sentinela exigem vingança. 0 boticário apela á Assembléia, que se esquiva. Mas o nervoso debate vai até 10/ 11, quando entra em pauta a liberdade de impren­ sa. 0 povo lota as galerias, ocupa o plenário, ovaciona o inflamado A. Canos, leva-o nos ombros. Pedro I assiste à cena da janela do Paço Imperial e afasta do gabinete Carneiro de Campos, consârvador-esclarecldo. Ã noit«. a tropa patailha o Rio.

■ A Noite da Agonia. A Assembléia declara-se em sessão permanente e pede explicações sobre o movi­ mento da tropa. Em tensa e exaustiva troca de men­ sagens, é informada que a oficialidade não tolera “certos redatores de periódicos e seu incendiário partido", em especial 0 Tamoio. a Sentinela e os Andradas. A sessão, conhecida como Noite da Agonia, vara a madrugada (A. Carios: “Nunca se delibera debaixo de punhais assassi­ nos”: Carneiro da Cunha: “0 que eu vejo nisto é o go­ verno a querer dar-nos a Lei”). ■ A dissolução. 0 novo ministro do Império, Villela Barbosa, convocado pela Assembléia, comparece ( 12/ 11.11 h) sem deixar a espada no vestíbulo, como é praxe. Exige limites ã liberdade de imprensa, o expurgo dos Andradas; diz recear que ocorra no Brasil o mesmo que em Portugal (o golpe absolutista da Vilafrancada, 27/5/1823). Às 13:40 h a tropa cerca o prédio com 2 ca­ nhões de estopim aceso e d. Pedro à frente; e vem o decreto dissolvendo a Constituinte por perjúrio; pro­ mete “convocar já uma outra": e apresentar um proje­ to de Constituição ‘ duplicadamente mais liberal do que 0 que a extinta Assembléia acabou de fazer". Os Andradas e outros deputados são presos no mesmo dia e desterrados (A. Carios ao deixar o prédio tira o chapéu com ironia para “Sua majestade, o canhão"), À tarde o imperador passeia com grande séquito, aclamado por lusitanos e moleques. Mas em vez das ruas em festa, damascos e cetins nas janelas do dia da instalação, há tristeza e mágoa. Na BA há 3 dias de tumultuosos protestos. ■ 0 projeto imperial é escrito em prazo recorde ( 11/ 12), por um conselho de 10 “homens probos e amantes da dignidade imperial e da liberdade dos povos", brasileiros natos, tendo à frente Carneiro de Campos e o próprio monarca. Consultadas as Câma­ ras Municipais, quase todas o aprovam. Algumas (Rio) pedem que seja jurado sem delongas nem Cons­ tituinte. Há exceções. Em Itu, SP, o pe. Feijó faz re­ paros. As Câmaras de Olinda e Recife, PE, recusam o texto. Frei Caneca [3.3-7] critica-o “por ser inteiramen­ te mau. pois nâo garante a independência do Brasil, ameaça a sua integridade, oprime a liberdade dos povos, ataca a soberania da nação e nos arrasta ao perjúrio". Mas o monarca sente-se apoiado; desiste da Constituinte. (26/12) e faz do seu projeto a 1* Consti­ tuição brasileira. ■ A Carta outorgada jurada em 25/3/1824 (169 artigos) acompanha o projeto de A. Carlos. Até fixa um voto cen­ sitário menos seletivo (renda mínima de 100 mil réis/ano para eleitores. 400 para deputados, 800 para senado­ res). Amplia direitos individuais (liberdade de pensamen­ to, de imprensa, sigilo da con^espondência, fim dos açoites, da tortura, do ferro em brasa "e todas as penas cruéis"). Mas o regime político é a constitucionalização do absolutismo, em especial ao cnar o poder moderador. Inovação brasileira, remotamente inspirado no pensador francês Benjamin Constant, “o poder moderador é a chave de toda a organização política” (para frei Caneca, "a chave-mestra da opressão da nação"). Privativo do imperador, permite-lhe nomear senadores, convocar a Assembléia Geral, sancionar ou vetar leis, aprovar ou não decisões das províncias, dissolver a Câmara dos Deputados, nomear e demitir ministros, suspender jui­ zes, perdoar penas e conceder anistia. 0 poder executi­ vo também é enfeixado pelo monarca. 0 Senado no­ meado (com base em listas tríplices eleitas) é vitalício. A Constituição silencia sobre a escravidão. ■ Epílogo. A outorga acelera a Confederação do Equa­ dor (3.7). 0 Pais fica sem Legislativo até 1826. A Cons­ tituição de 1824 vigora por 65 anos e sofre apenas uma emenda (o Ato Adicional de 1834 [4.1]). Mas com ela o 1®reinado entra em sua fase descendente, dando razão ao presságio de J. Bonifácio ao monarca, logo após a díeeolução; ^Salve o iro n o para sou hordeíro, poÍ8 para ei

ele já está perdido".


Distritos eleitorais na votação para a C onstituinte imperial (estão assinaladas as “cabeças de distrito” ) Q Cidade o Vila «Povoaçào Província que não elege deputados

1. Cactioeira 2. Humaitá 3. Açu 4. João Pessoa 5. S. Joâo do Cariri^ — 6. Área da represa ^ de Sobradinho 'r' 7. Maceió \ - 8. Aracaju à , Condeúba 10. ’llhéu§ 11. ParacállL, J 12. Minas Nova; 13. Serro '■ 14. Itapecirica 15. Ouro Preto /■ 16. Campanha \ 17. Itatjapoana i, 18. Cachoeiras fis Macacu ; — Área da reiiresa 'Rib.dasljàges 20.R9rianóp9fi$ 21. S.l^uís @ónzaga 22. Diamantino

^ “ ■“■"^íiíSdõnãdõ

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Cronologia

' 3.7 CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR I GUERRA CISPLATINA ■ A crise pós-dissolução da Constituinte reacende o processo revolucionário em PE. Os republicanos de 1817 [3,31 libertados em 1818-1821. prestigiados (vários se elegem deputados), retomam o combate liberal-radical, republicano e federalista. Tensões nas elites trazem à ação revolucionária camadas populares antes ausentes, como a tropa de negros e pardos. ■ Uma longa crise de governo afeta a ordem imperial. A vila de Goiana forma uma Junta Constitucíonalista, cerca Recife, expulsa a tropa lusitana e o presidente Luis do Rego Pais Barreto (chefe da repressão em 1817); ele­ ge Gervásio Pires Ferreira, comerciante e rebelde de 1817 (out/1821). 0 recém-chegado agitador C.Barata cria o jor­ nal revolucionário Sentinela da Liberdade [2.11, 3.6-9} A Junta Democrática e Independente é deposta sobe a Junta dos Matutos, formada por senhores de engenho e chefiada por Francisco Pais Barreto. Barata é preso. Neste clima PE adere á Independência e elege seus constituintes. ■ 0 golpe de d. Pedro na Constitulnle [3.6] gera revol­ ta; 8 ex-constituintes nordestinos assinam um apelo à rebelião. Cai a Junta Matuta; sobe ao governo Manuel de Carvalho Pais de Andrade [1785-18551, lider de 1817, exi­ lado nos EUA. As Câmaras do Recife e Olinda, sob influência de frei Caneca [3.61 rejeitam a Constituição ou­ torgada. Surge, no lugar do Sentinela, o jomal Tífis Per­ nambucano (do nome do gigante mitológico que tenta a tomada do Olimpo). Seu autor é Frei Caneca. ■ Joaquim do Amor DIvIno Caneca [1799-1825], frade camnelita, ex-seminarista em Olinda [3.31 filho de artesão, professor de geometria, filósofo e erudito, lutador de 1817 punido com 4 anos de prisão (ensina matemática aos pre­ sos). No Tífis, Caneca continua o trabalho de Arruda Câ­ mara [3.3] e Barata. É a cabeça da revolução. ■ A rebelião. A Corte restaura (23/2/1824) o govemo Pais Baneto. As Câmaras das cidades e vilas não aceitam. 0 cel. Falcão de Lacerda, herói de Pirajá [3.5; lidera um levante militar-popular e repõe o govemo libe­ ral. Pais Barreto recua para AL, onde nucleia a reação. Recife, bloqueada por 2 naves do inglés John Taylor, responde:' Mon’amos todos, arrase-se Pemambuco, arda a guerra, mas conservemos o nosso presidente". Taylor, chamado ao Rio, levanta o cerco. ■ Pais de Andrade proclama a Confederação do Equador (2/7/1824): "República e só república, e mon-a para sempre a tirania real!". Prevê a república federativa como nos EUA; anuncia adesões e convida os brasileiros a imitarem o exemplo. Chefia o governo provisório; o poeta, advogado e jornalista mestiço José da Natividade Saldanha é o secretário. Convoca uma Constituinte para 17/8/1824 e adota projeto baseado na Carta colombiana de Bolívar. Extingue o tráfico negreiro. por convir "não so­ mente aos interesses da humanidade porém ainda mais aos desta província". Institui o recrutamento geral. 0 ma­ ior do Regimento dos Pretos, Agostinho Bezerra Ca­ valcanti, policia 0 Recife. ■ As adesões começam pela PB (14/7), onde cai o go­ vemo Néri Ferreira. 0 presidente do RN, T. Araújo Perei­ ra, adere (3/8) com vacilações. No CE o presidente Tristão de Alencar Araripe (morto em combate, 31/10) e o comandante J. Filgueiras [3,3-5] levantam tropas. No Pl aderem as vilas de Pamai'ba (Simplíclo Dias da Silva, rico senhor de 1.800 escravos) e Campo Maior (pe. Mororó). 0 movimento chega ao PA. sem tomar o poder. R Sousa Rangel e o revolucionário português Guilherme Ratcliff dirigem-se a AL e BA, sem sucesso. A adesão popular é explosiva: o Regimento dos Pardos (22/6), do major Emiliano Mundurucu, lança poema-manifesto por uma revo­ lução do Upo haitiano [2. 10); há perseguições a comer­ ciantes lusos ("mata-marinheiro"). ■ 0 Império reage: tira de PE a comarca de S.Francisco (7/7); suspende direitos e garantias individuais (25/7); envia (2/8) o Exército Cooperador da Boa Ordem, com 1.200 homons sob comando do brig. F. Lima e Silva (pai

do futuro duque de Caxias, também alistado) e o aim. Cochrane [3.5]com 5 navios, A frota bloqueia e canhoneia Recife (19/8). 0 Exército recebe em Barra Grande reforços de Pais de Barros e da aristocracia agrária, temerosa da adesão de esaavos e populares à re­ volução; 3.500 homens seguem para o Norte e. após 5 dias (17/9). tomam, incendeiam e saqueiam Recife. Pais de Andrade busca asilo numa nave inglesa; frei Caneca e outros tentam a resistência em Olinda e entram pelo sertão com a Divisão Constitucional, em busca dos rebeldes do CE. Após combates, estes se rendem em 8/11 e a divisão de Caneca em 29/11. Lord Cochrane, temendo não receber o que o Império lhe deve, toma 106 contos de réis do tesouro do CE e volta á Inglatena. ■ A punição, em processos sumários, é obra de uma comissão militar: 8 fuzilados em PE, 5 no CE, 3 no RJ. Frei Caneca é condenado à forca, mas não se acha no Recife carrasco, preso ou escravo que aceite executar a sentença; é fuzilado (13/1/1825) no largo das 5 Pontas, envolto numa áurea de heroísmo e lenda. A Independência da Banda Oriental ■ Antecedentes. Disputada por espanhóis e portugueses desde 1680 [2.71 ocupada por d. João VI e anexada ao Brasil como Província Cisplatina. a Banda Oriental do Uoiguai mantém-se fiel a Lisboa após o 7/9. devido ao empenho do pres. Álvaro da Costa e à presença da tropa portuguesa (Voluntários Reais). Um ano depois (Dochrane, com 5 navios, toma de Montevidéu (18/11/1823), expulsa os Voluntários e força a adesão ao Império. ■ 0 desembarque dos 33 Orientais (19/4/1825), lidera­ do por Juan Antonio Lavalleja [1786-1853, ex-preso políti­ co no Rio], apoiado por Rivera, retoma os objetivos de Artigas. Os 33 em breve são 2 mil. 0 congresso de Florida (25/8) elege um govemo provisório, declara nula a ane­ xação ao Brasil e incorpora a Banda Oriental às Provin­ das Unidas do Rio da Prata (h. Argentina), que aiMiam a decisão. Os rebeldes batem as tropas do Império em Galifias (24/9) e Sarandi (12/10). Em Buenos Aires uma multidão arranca as armas imperiais do consulado bra­ sileiro. D. Pedro I declara guerra (10/12) às Províncias Unidas e envia tropas ao Sul. ■ A guerra se Impopulariza, pelos impostos que cria e

0 "imposto de sangue", recnjtamento forçado de solda dos, de pais de família a meninos de 10 anos (embarca dos em condições que matam mais que os combates) Dezenas de reputilicanos do RS (A. L. Queirós Vascon celos, 0 Quebra) combatem do lado uruguaio, antecipan do a Farroupilha [4.4)0 Império alista mercenários irian deses e alemães (corpos de caçadores e granadeiros que se rebelam no Rio em 12/6/1828). D. Pedro, empe nhado no conflito, chega a ir ao RS mas retoma devido à morte da imperatriz [3.9], ■ No plano militar a possante frota imperial sob chefia do inglés James Norton bloqueia Buenos Aires; os platinos revidam com a guerra de corso, que chega até PE. Em terra, batalhas e escaramuças com amplo uso da ca­ valaria. típico das guerras platinas, favorecem os uru­ guaios (Lavalleja) e argentinos, (gen. Alvear). que pas­ sam a incursionar pelo RS. Na principal batalha. Passo do Rosário (20/2/1827, Ituzaingó para os platinos), o Exército brasileiro do marqués de Barbacena se retira, sem ser perseguido. 0 Império mantém Montevidéu até o fim, mas Rivera fustiga a Zona Míssioneira, numa "quase marcha triunfar favorecida pelo ambiente francamente subversivo entre os gaúchos. ■ A Inglaterra media a paz. para garantir seu comércio e impedir o domínio do Prata pelo Brasil ou pelas Pro­ víncias Unidas. Sob os auspícios de lord Ponsonby, mi­ nistro Inglés no Rio, as 2 panes, exauridas, chegam a um acordo conveniente para Londres (27/8/1828): a Banda Oriental deixa o Império mas nào integra as Províncias

• A Biblioteca real é aberta ao público, RJ • Fundação da loja maçônica Patriotismo, PE • Criado o Banco da Bafiia (h. Nacional) • 0 inglês G. Stepfienson constrói a 1* locomotiva a vapor 1815 15/4: Lord Stangford retoma á Inglaterra 9/6: Conclui-se o Congresso de Viena, que fixa o perfil da Europa pós-napoleõnica 18/6: Batalha de Waterloo; derrota definitiva de Napoleão A gosto; Revogada a proibição dos ourives 26/9: Os monarcas da Rússia, Áustria e Prússia finnam a Santa Aliança, pacto de intervenção antiliberal e antinacionalista 1S/12: Carta régia eleva o Brasil a Reino Unido a Portugal e Algarve • Proibição do tráfico negreiro ao norte do Equador 1816 16/2: Alvará autoriza filiais do Banco do Brasil na BAeSP 19/3: Monre Maria I, aos 81 anos de idade e 25 de loucura 26/3: Chega ao RJ a missão artística francesa de Lebreton; funda (12/8) a Academia de Belas Artes 4/4: Alvará passa Araxá e Desemboque (Triângulo fvlineiro) de GO para MG 12/6: Nova investida militar portuguesa (gal. C. F. Lecor) contra a Banda Oriental 9/7: Independência das Províncias Unidas do Rio da Prata (h. Argentina) 29/7: Decreto proít» navegação de catiotagem no Brasil a navios estrangeiros 17/11: 0 marq. de Marialva. em Viena, procura uma noiva para o principe Pedro 4/12: Carta régia permite estradas para o Interior de MG e ES 1816-1822: Viagens do cientista A. Saint-Hilaire, autor da frase “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil" • Alvará concede novo fardamento e distintivos ao Exército brasileiro • Proibido 0 folheto O Preto e o Bugio do Mato (PE), por “nocivo à ordem pública” • Início das exportações de café em escala 1817 20/1: Tropas de Lecor tomam Montevidéu; ocupação portuguesa do Unjguai 6/3: Início da Revolução de 1817, PE 8/3: 1* tipografia em Recife, PE, publica (10/3) o manifesto republicano Preciso 29/3: Fuzilamento do pe. Roma, Salvador 9/4: Casam-se, por procuração, em Viena, o príncipe Pedro de Bragança e a arqulduquesa austríaca Maria Leopoldina 12/6: Fuzilados em Salvador 3 chefes da Revolução Pernambucana 21/6: Morre no RJ o conde da Barca, 1* ministro 25/6: 3* proibição, sob pesadas penas, da circulação do Correio Brasiiiense 10/7: Executados em Recife 4 líderes da insurreição Pernambucana 16/7: Chegam ao RJ os cientistas alemães B. von Splx e R F. von Martius 16/9: Separada de PE a capitania de AL 24/9: ünha de correio entre RS e SP 8/11: Portugal devolve a Guiana Francesa; o limite com o Brasil permanece impreciso • 1“ motores a vapor em engenhos de PE

Unidas: forma a República Oriental do Umguai, “indeoen-

• Achados diamantes na Chapada Diamantina, BA

dente de toda e qualquer nação* 0 desgaste causado pela guerra acelera o fim do 1® reinado [3.8]

• Achada e publicada. 317 anos depois, a carta de Pero Vaz de Caminha

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3.8 CRISE DE 1831 /ABDICAÇÃO DE D. PEDRO I

Cronologia 1818 8/2: João VI aclamado com grande festa rei de Portugal e do Brasil e Algarve 25/4: Alvará libera Importação (sobretaxada) de

vinhos nâo portugueses 3/5: Joâo VI proíbe sob pena de morte a fy/laçonaria e sociedades secretas no Brasil 6/6: Decreto cria o Museu Real, em prédio do Campo de Santana, RJ 3/8: Decreto autoriza empresa de navegação a vapor na BA 1/11: Varnhagen inicia fundição de ferro em escala industrial, em Ipanema, Sorocaba,SP 12/11: No 1= aniversário da batalha de Chacabuco, 0'Higgins proclama a independência do Chile 19/11: Decreto suspende por 8 meses a saída de moeda do RJ • Fim das devassas da Revolução de 1817

• Cuiabá e Goiás elevadas a cidades • Fundada a Escola Pijblica de Música, BA • A Inglaterra vence o Estado Maratha e domina a índia • Forma-se o reino zuiu de Shaka no Sudeste da África 1819 14/1: isenção de impostos sobre importação de livros 29/3: Carta régia dá à Cia. de Mineração de Cuiabá monopólio do ferro no MT 11/5: Decreto de criaçào do Horto Real (Jardim Botânico), RJ 22/5: Morre, louca e pobre, em S. Gonçalo, MG, Bárbara Heliodora, viúva do poeta e conjurado José de Alvarenga Peixoto 4/6: l * colonos suíços chegam ao RJ, a pedido da Suíça, devido à fome de 1817 (80 morrem na viagem), para fundar Nova Friburgo 4/10:1® linha de navegação a vapor, de Salvador a Cachoeira, BA 27/10: Decreto cria laboratório de química, RJ 17/12: O Congresso de Angostura cria a Rep. de Qrà-Col6mbla; Bolívar presidente • As terras indígenas são declaradas Inalienáveis • 1 ' templo anglicano (rua Barbonos, RJ) • Os EUA compram a Flórida da Espanha 1820 12/2: Criados serviços de vacinação antivaríola nas províncias 9/3: Triunfa na Espanha a Revolução Constitucíonalista (até 1823) 6/4: Decreto cria os Correios do Brasil 8/7: Emancipação da capitania de SE 24/8: Revolução Liberal, pela Constituição, estoura no Porto, secundada (15/9) por Lisboa; 1* eleição em Portugal 5/9: Artigas e seus homens se refugiam no Paraguai; Portugal Incorpora o Uruguai ao Brasil. com 0 nome de Banda Oriental do Uruguai 17/10: A notícia da Revolução chega ao RJ 11-17/11: Martinhada; o povo de Lisboa sal âs ruas para salvar a R evoluçfio Liberal

Nov: Levante popular em Bonito, PE, apóia a Revolução Liberal Portuguesa Nov: Nasce o Colégio do Caraça, em Sta. Bárbara, MG • 0 pintor J. M. Rugendas chega ao Brasil • Filosofia do Direito, de Hegei 1821 1/1: Agitação na tropa em Belém. PA; adesão ã Revolução Liberal Portuguesa 21/1: instalam-se as Cortes em Portugal 10/2: A tropa sediada na BA, em armas, derruba 0 govemador e aclama uma junta 26/2: A tropa reunida no RJ obriga João VI a jurar a Constituição ainda por fazer

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■ Pedro I isola-se rapidamente após o fechamento da Constituinte [3 5), a repressão ã Confederação do Equador ’3.6] e em especial a Guerra Cisplatina [3.7]. Afasta-se do partido brasileiro, apóla-se na camada burocrático-mercantil de portugueses remanescentes (base das Colunas do Trono, organizações secretas ultraconservadoras) e cerca-se de figuras incompatíveis com a dignidade do cargo. Seu caso com Domitila de Castro Canto e (»ilelo [3.4i, que ele faz marquesa de Santos, intervém nos negócios de Estado a ponto de derrubar um ministério (15/1/1827). F. Gomes da Silva. 0 Clialaça [1791-1852], espécie de criado alcoviteiro, para escândalo das elites, ctiega a secretário particu­ lar, membro da Guarda de Honra, conselfieiro oficial do imperador, eminência do “gabinete secreto" (até ser afastado, como representante diplomático em Nápo­ les). As finanças vão mal. o Banco do Brasil é liquida­ do (1829) e cresce a dívida junto a bancos ingleses (casa Rotscfiild). ■ A oposição liberal, batida no Nordeste em 1824, perseguida, aos poucos acumula forças (sobretudo sua ala moderada, monarquista-constitucional). Ivtanifestase na Câmara dos Deputados (instalada em 3/5/1826) e aumenta a bancada na eleição de 1829 (é tiegemônica em MG). Inspira a maioria dos jomais do País (31 em 1822, 65 em 1830), em boa parte pasquins, efêmeros e inflamados. ■ A imprensa, finda a censura (1827), passa a criticar até a pessoa do imperador trata-o de “caríssimo” (no sentido de custoso) ou ataca o poder, anagrama de Pedro. A Astréia (RJ 1826) e A Aurora Fluminense (RJ 1827), de Evaristo da Veiga, são liberal-moderadas: (“Queremos a Constituição, não a revolução!- À esquer­ da. 0 jovem paraibano Borges da Fonseca [1808-1872, 4.6] funda a Gazeta Paraibana (1828-1829), a Abelha Pernambucana (1829-1830) e o Repúblico (RJ 1830). 0 refugiado político italiano João Batista Libero Badaró [1798-1830] inflama S. Paulo com 0 Observador Constitucional (1829-1830). Barata, recém-saído de 7 anos de cárcere '2.11.3.9]. relança a Sentinela da Liberdade (BA. 1830) e volta a ser preso. D. Pedro reclama na Fala do trono (1830) “a necessidade de reprimir, por meios legais, o abuso que continua a fazer-se da liberdade de imprensa’ . Em vâo; avolumam-se as denúncias de cor­ rupção e desmandos. ■ Os acontecimentos em Portugal são outro fator de crise. Morto d. João VI (1826). d. Pedro herda o trono lu­ so. como d. Pedro IV; suspeita-se que deseje reatar a união pré-1822. Ele outorga uma Constituição aos portu­ gueses (com poder moderador); sob presUo brasileira, abdica da Coroa lusa em favor da filha d*. Maria da Glória (7 anos) e confia a regência a seu irmâo d. Miguel, com a condição de que ele case com a infanta e respeite a Cons­ tituição. D. Miguel assume mas viola as condições; no golpe absolutista de 1828. faz-se coroar rei (d. Miguel I). D. Pedro I. com apoio inglés. faz do Rio a capital da re­ sistência liberal portuguesa, o que mantém a dúvida sobre suas ambições européias. ■ A Revolução de Julho de 1830 na França, que marca o fim da Restauração, toma-se bandeira opo­ sicionista no Brasil. Para A Aurora Fluminense, faz da 1830 “0 ano da liberdade, não já na Europa, mas no mundo'. Os estudantes de S. Paulo a festejam com uma passeata, reprimida. ■ 0 assassinato de Libero Badaró precipita a crise. 0 redator do Observador Constitucional, mortalmente ferido a tiros numa emboscada, por embuçados a soldo de um juiz (SP 20/11/1830), comove a opinião pública. Sua frase ao agonizar (“Morre um liberal mas nâo morre a liber­ dade') realça o nexo político do crime. Não há prova de envolvimento do imperador, mas a nâo punição dos assassinos reforça a suspeita. D. Pedro viaja a MG (30/12/1830) 8 encontra tarjas de luto e dobres de fina­

dos pelo jornalista. Há Indícios de que (»meça aí a cogi­ tar da abdicação.

■ A Noite das Garrafadas (13/3/1831). Ao voltar de MG,

0 monarca é recebido com frieza pelos brasileiros mas com festa e fogueiras pelos portugueses do Rio. No 2® dia estes interpelam na rua alguns brasileiros, com vivas ao imperador; estes relrucam 'Viva o imperador enquan­ to constitucional"; sâo alvejados por ovos e garrafas. 0 3° dia repete o duelo de vivas. Grandes grupos de brasilei­ ros invadem as ruas onde moram os marinheiros (apelido pejorativo dos portugueses), apagam as fogueiras e lan­ çam tições como projéteis. 0 adversário armou uma ara­ puca; a um sinal, lança das janelas e telhados uma cfiuva de garrafas, cacos de vidro, alguns tiros. Apedrejam a casa de Evaristo da Veiga. Comenta-se que d. Pedro teria participado, atirando de pistola da casa do comer­ ciante português Domingos Guimarães. Os brasileiros protestam no Campo de Santana. À noite, brasileiros e portugueses só andam em grupos. 0 incidente é a pá de cal no prestígio do herói do Ipiranga. ■ Últimos dias. Uma representação a d. Pedro, escrita por Evaristo da Veiga, assinada por 24 parlamentares, pede refomnas em tom alarmado: “A ordem pública, o repouso do Estado, o trono mesmo, tudo está ameaça­ do'. 0 monarca recua e forma (19/3) um Ministério Brasileiro, liberaiizante. com o vise. de Goiana ã frente, Mas a rebelião chega aos soldados e comandantes, entre eles os 3 irmãos Uma e Silva [3.5-6j. 0 Ministério Brasileiro recusa-se a reprimi-la e é substituído (5/4) pelo Ministério dos Marqueses (marq. de Inhambupe). próportuguês. No dia seguinte, milhares de pessoas (entre elas gnjpos amiados de estudantes e outros) exigem que d. Pedro volte atrás e patnilham a cidade. À noite, praças e oficiais confraternizam com a multidão; o imperador perde seus últimos trunfos. ■ 0 fim (7/4). 0 monarca nâo cede; 'Tudo farei para o povo. mas nada pelo povo', diz. À meia-noite, o Batalhão do Imperador adere ã rebelião. D. Pedro ainda manobra, propõe um ministério com o sen. Vergueiro, que não é achado. Às 2 h entrega ao maj, Miguel de Frias lacônica carta: “Usando o direito que a Constituição me concede, declaro que hei mui voluntariamente abdicado na pessoa do meu muito amado e prezado filho, o sr. d. Pedro de Alcântara" (que tem 5 anos). Refugia-se na nau inglesa Warspite e zarpa (13/7) para a Europa na fragata Volage. Os brasileiros festejam nas ruas a “queda do tirano". Os deputados e senadores presentes no Rio (pois o Legis­ lativo está em recesso) elegem uma regência trina. con­ forme a Constituição, porém provisória [4.1]. ■ A queda de Pedro I conclui a transição iniciada em 1808 !3.1]. Taxada pelo liberal de esquerda Teófilo Otoni [4.1] de “journée des dupes" (“Dia dos bobos"), por mo­ derada em demasia, ainda assim marca a existência de um Estado brasileiro separado do português, escra­ vista, monárquico, centralizado, com traços autocráti­ cos mas em mãos de uma elite nativa, Estes traços, contestados num sem-número de revoltas e revoluções [4.1 a 6], sobrevivem, com concessões, até o fim do Império ;5.7-8), ■ Epílogo: Portugal sem o Brasil. D, Pedro deixa o País levando d* Mana da Glória, rainha destronada de Portugal. Com apoio inglês, chefia a oposição liberal a seu irmão d. Miguel II; forma nos Açores um ministério constitucional. Desembarca em Portugal com um exército. Toma sem dificuldade o Porto (jul/1831); su­ prime os privilégios feudais; apresentando-se como ho­ mem dos novos tempos pós-Revolução de 1830, con­ quista terreno político e militar sobre o retrógrado d. Mi­ guel. Com apoio da armada inglesa, comandada por Napier, vence os miguelistas na batalha naval do Gabo de S. Vicente. Toma Lisboa e obtém (26/5/1834) a Capitulação de Évora. Passa o trono ã filha de 15 anos, coroada d® Maria II. Morre em Queluz (24/9/1834), aos 36 anos, de tuberculose, deixando 7 filhos dos 2 casa­ mentos e 6 fora deles. Portugal, privado para sempre de sua mais rica colônia, conclui a longa decadência ini­ ciada em 1580 [1.2. 2.5],


0 Rio durante a crise final do I Im pério

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Cronologia

3.9 CULTURA / VIAJANTES ESTRANGEIROS

2/3: Abolida a censura prévia da imprensa 7/3; O príncipe Pedro, regente do Brasil 9/3: Decreto das bases da Constituição de Portugal 27/3-10/9: Circula em Recife o jomal Aurora Pernam bucana, 1° da província Março; Começa a Guerra de Independência da Grécia contra o Império Turco-otomano 21/4: Consulta sobre o futuro ministério do regente; agitação popular, repressão 26/4: João VI volta a Portugal, sob pressão da Revolução Liberal 1/5: Começa a circular o D iário do R io de Janeiro, 1- diário do País 5/5: Morre Napoleão Bonaparte, prisioneiro na Ilha de Sta. Helena 5/6: Agitação na tropa. RJ, exige que o regente Jure já a futura Constituição 24/6: Libertado da Venezuela; após vencer a batalfia decisiva de Carabobo, Bolívar entra em Caracas 28/7; San Martin proclama em Lima a independência do Peru 28/7; De cofre limpo pelo rei em retirada, o Banco do Brasil suspende os pagamentos 31/7; Tratado incorpora o Uruguai ao Brasil, com o nome de Província Cisplatina 12/8: Criada a Universidade de B, Aires 29/8: Chegam a Lisboa os 1“ deputados do Brasil às Cortes (de PE) 13/9: Fim da escravidão no México 15/9: Gonçalves Ledo e Cunha Bartxjsa lançam o jornal R evérbero C onstitucional Flum inense, "clarim das liberdades” 16/9: Independência do México 26/10: Rebelião em Goiana põe no govemo de PE um ex-republicano de 1817 3/11; Sublevaçào ‘lerrorista” pré-independència fracassada. BA 10/12; Eleição para as Cortes no PA Dez; Eleição para as Cortes Constituintes em Portugal e seus domínios • Fim do Santo Ofício, da censura prévia e da escravidão em Portugal • Escravos do engenho Santana, Ilhéus, depõem ferramentas e ocupam as terras • Proliferação de jornais de várias tendências, no RJ e nas províncias • Seignor Plancher funda o Alm anaque. Continuado pelos irmãos Laemmert, passa a 1er 0 nome destes (até 1930) • 0 inglês M. Faraday inventa o motor elétrico e o gerador

■ Até 1808 a Coroa controla com rigor a entrada de estrangeiros no Brasil. Ainda em 18(X), ordena severa vigilância para impedir o ingresso de “um certo barão de Humboldt". 0 governo do CE chega a prometer recom­ pensa de 2(X) mil réis a quem o prender. A. Hfumboldt [1769-1859], 0 famoso cientista alemão e entusiasta das Américas, nào consegue explorar o Amazonas. 0 mundo pouco conhece do Brasil afora o que Laet, Piso e t^arcgrave escreveram (1648) durante a ocupação holandesa 13.5].

1822 9/1 ; Dia do "Fico"; desafiando as Cortes, o príncipe Pedro permanece no Brasil 11/1: Motim da tropa portuguesa no RJ contra o "Fico" e os cabras (brasileiros) 16/1; José Bonifácio, ministro do Reino 17/2; 0 principe proibe o desembarque de tropas portuguesas no Brasil e expulsa a Divisão Auxiliadora, recém-amotinada 19/2; Os partidos brasileiro e português combatem em Salvador, BA; soldados lusos matam soror Joana Angélica 7/3; Eleições no Brasil para as Cortes 23/3-25/4: Viagem do regente a MG 1/4: Entra em circulação o jornal 0 Paraense. de Felipe Patroni 4/5: Nenhuma lel de Portugal tem valor no Brasil sem 0 aval do regente 23/5-19/6; Bemarda (rebelião) de Francisco Inácio em SP 24/5: Batalha de Pichincha liberta o Equador do domínio espanhol 25/5; Prisão do liberal F Patroni no PA

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■ A mudança da Corte e a abertura dos portos inver­ tem a situação: a Coroa até incentiva a presença de estrangeiros. Além dos diplomatas, comerciantes e arte­ sãos ;3.1.3.2;, dezenas de cientistas e artistas palmilham 0 Brasil, que no imaginário europeu seria uma terra de mistérios e maravilhas. ■ Os alemães G. W. Freyreiss, zoólogo (1813), e R Sellow, botânico (1814), atraídos por von Langsdortf, for­ mam a 1* expedido científica pelo Brasil (fvlG). Freyreiss morre em 1825, na colônia Leopoidina. que funda com outros alemães no sul da BA. Sellow envia vasto material ao museu de Berlim (12 mil plantas. 5 mil aves, 110 mil insetos. 2 mil amostras geológicas). É autor do 1' guia do Brasil para imigrantes; morre afogado (1831), no rio Doce. MG. ■ M. von Neuwled. principe renano. percorre com Freyreiss e Sellow o litoral ao norte do Rio e o sertão baiano (1815). Estuda povos indígenas: Camacã. Puri, Pataxó e sobretudo os temidos botocudos (Aimoré) das ainda indevassadas matas entre MG. BA e ES [2.2]. Descreve a viagem em várias obras. ■ A. P. Saint-Hilaire viaja (1816-1818) com Langsdorff e 0 jovem A. Ildefonso Gomes [1794-1859], rarissimo exem­ plar de botânico brasileiro da época. Viaja pelo sertão mi­ neiro até a região dos botocudos e, ao sul. até Montevidéu. ■ Os ingleses W. Swainson e C. Waterlon estudam o Interior de PE (1816-1817), em separado, e tèm probfemas com a Revolução de 1817 [3.3]. Ambos publicam livros. A também inglesa Mary Graham deixa trabalhos de botâni­ ca e descreve o impacto da Revolução de 1820 em PE. ■ A arquiduquesa Maria Leopoidina [1796-1826], ao casar ;3.1;, traz um cortejo de naturalistas bávaros e aus­ tríacos. J. E. Pohl estuda plantas, minérios e índios do Centro-Oeste. J. Natterer envia ao museu de Viena (1817-1835) 12.293 exemplares de aves. 146 mamiferos. 3.349 anfibios e peixes. 1.942 peças etnográficas de 72 tribos, vocabulários de 70 línguas (quase tudo perde-se no incêndio do museu em 1848). Até a princesa, estudio­ sa e curiosa, faz pesquisas. ■ J. B. von Spix [1781-1826] e P. von Martius [17941868], os mais célebres estudiosos, bávaros, realizam a maior e mais fecunda expedição (1817-1820): 10 mil km. por lodo 0 sertáo mineiro, baiano e nordestino e a Amazônia. Splx falece na Europa; Martius expõe a 1* classificação sistemática dos Indígenas brasileiros e escreve a monumental Flora brasiliensis. com 40 vo­ lumes, 3.811 gravuras e 22 mil vanedades descritas. ■ H. von Langsdorff, barão gerniãnico, médico, cônsul da Rússia no Rio (d. 1813), coleciona objetos históricos e naturais. Atrai Freyreiss e Sellow. Acompanha Saint Hilai­ re (1816) e organiza (1825) uma grande expedição, finan­ ciada pelo tzar Alexandre II, incluindo o astrônomo russo Rubzoff. 0 pintor M. Rugendas (substituído pelo francês A. Taunay). os naturalistas alemães C. Hasse e L. RIedel. Brigas, doenças, mortes por afogamento e a loucura de Langsdorff levam a expedição a dissolver-se no PA. 0 francês H. Florence descreve em livro a trágica aventura. ■ A casa de A. Varnhagen [3.2j em Ipanema, Soro­ caba. SP, é parada quase obrigatória e ponto de re­ ferência de toda essa geração de redescobridores do Brasil. A fazenda da Mandioca, de Langsdorff, na sena da Estrela, RJ, também. ■ Desenhistas e pintores sâo essenciais para docu­ mentar as expedições (a fotografia só surge em 1839).

Funcionam a um só tempo como artistas e retratistas da natureza e da sociedade. ■ A missão artística francesa vem ao Rio (1816) para lecionar na Escola Real de Artes e Ofícios, chefiada por J. Lebreton. Boa parte de seus membros sâo liberais de­ siludidos com a derrota de Napoleão. Inicia uma fase de maior influência européia na arquitetura e artes plásticas. ■ J. B. Debret [1768-1848]. parisiense vindo com a mis­ são francesa, passa 15 anos ensinando pintura e viajan­ do pelo País. Retratista da Corte, mais tarde (1834-1839) publica sua Viagem Pitoresca e Histórica, com 134 gra­ vuras documentando a vida brasileira. ■ 0 pintor alemão J. M. Rugendas [1802-1858] afasta-se da expedição Langsdortf, percorre sozinho (1825) as pro­ víncias centrais e retoma (RJ, PE) em 1846-1847, Deixa 3.339 aquarelas, desenhos e esboços sobre o Brasil; retra­ ta com finura a sociedade e os tipos humanos da época. ■ Charles Dan«in [1809-1882] aporta em Salvador. Rio e Recife, durante seu célebre cmzeiro a bordo do Beagle (1831-1836). Deixa registrados na Viagem de um Natura­ lista ao Redor do Mundo apontamentos científicos e co­ mentários sociais, inclusive sua ojeriza à escravidão. Nasce a imprensa ■ No Brasil-coiônia toda imprensa é proibida ao con­ trário da América hispânica e inglesa. Publicar jornais, livros, qualquer coisa é crime. Uma tipografia é fechada em Recife. 1706, outra no Rio. 1747. Também isso muda em 1808. ■ 0 Correio Brasiiiense, 1’ jomal brasileiro, é impresso em Londres. Seu autor, Hipólito José da Costa [17741823], estuda em Coimbra e EUA. Liberal, maçom, preso 36 meses em Portugal, foge (1805), asila-se na Inglaterra e dedica-se ao comércio. 0 Correio sai de IWISOS a 1822; mensal (com variações), tem de 72 a 140 pgs. (for­ mato pequeno) por edição. Várias vezes proibido em Por­ tugal e Brasil (1809,1811,1817), circula ainda assim; o próprio d. João VI confessa ser assíduo leitor. Hipólito faz sozinho toda a redação, edição e correspondência, como é comum na época, É doutrináno, caro (1.280 réis), liberal-moderado. Quer a monarquia constitucional e maior autonomia mas nào a independência; critica a escravidão mas também a Revolução de 1817. “Desejamos as refor­ mas. diz. mas feitas pelo governo, e urgimos que o gover­ no as deve fazer enquanto é tempo, para que se evite sejam feitas pelo povo." Em geral coincide com os inte­ resses ingleses. É superado pela crise pós-1820. ■ A Gazeta do Rio de Janeiro, lançada no Rio (1808), é oficialista. Impressa na Imprensa Régia (única do Rio até 1821, sob rígida censura prévia das autoridades civis e religiosas), 2 vezes por semana, tem 4 pgs, e fala mais do estado de saúde dos soberanos europeus que da rea­ lidade brasileira. Deixa de circular em 1821, sob o im­ pacto da Revolução do Porto, Com o mesmo caráter, sai em Salvador (d. 1810) A Idade dVuro do Brasil. ■ A proliferação dos jornais vem com a Revolução de 1820. A censura desmorona temporariamente, até que o príncipe a reestabelece em nome do combate às "doutri­ nas incendiárias e subversivas". Há órgãos apoliticos; o Diário do Rio de Janeiro (1° diário do País, 1821-1878) nem noticia o Grito do Ipiranga. Mas a regra é a imprensa engajada, doutrinária. Cada corrente tem seu porta-voz. (Donsta que o próprio imperador escreve anonimamente em 0 Espelho. J. Bonifácio, quando deixa o poder, lança 0 Tamoio. Ledo e Cunha Barbosa fazem soar o Revérbero Constitucional Ruminense. 0 Correio do Rio de Janeiro, de Soares Lisboa [3.7], ousa falar em república. Na BA, 0 Constitucionalse engaja na Guerra de Independência [3,5;. ■ A Sentinela da Liberdade, de Cipriano Barata [2.11. 3.3. 4], inicia sua saga no Recife (9/4/1823). Patriota e liberal extremada, quase libertária, acompanha seu autor pelos presídios do Império (PE, RJ, BA) até 1835, e faz dos cárceres sua redação “de onde generosamente brada: Alerta!" (seu bordão). Gera outras Sentinelas, do RS Farroupilha ;4.4] à Amazônia dos cabanos [4.2],


Imprensa e ensino superior Jornal [ 3 Jornal diário [3 Jornal oficialista Q J 200 , 400km/Escola superior

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Cronologia 28/5; J. Bonifácio, grâo-mesire do recém-criado Grande Oriente IVIaçom do Brasil 2/6: Surge a Ordem dos Cavaleiros da Santa Caiz, de J. Bonifácio, rival pró-monárquica da Maçonaria 15/6: 0 gen. (»/ladeira de Melo, govemador das armas da BA, rompe com o regente 3/6; O regente convoca a Assembléia Constituinte Luso-Brasileira 25/6: A Câmara da vila de Cacfioeira rompe com Lisboa; começa a Guerra de independência na BA 13/7: O regente é Iniciado na Maçonaria (eleito grâo-mestre em 5/8) 1/8: 0 regente declara inimiga qualquer tropa portuguesa que desembarque no Brasil 14/8-14/9: Viagem do príncipe a São Paulo 7/9: "Grito do Ipiranga” proclama a independência do Brasil 7/9: O regente é saudado em SP como “1® rei do Brasil" e executa pela 1®vez o Hino da Independência 7/9: Presos no Rio por “demagogia" (subversão) os membros da loja maçônica Comércio e Aries 10-14/9: Retorno do soberano, a cavalo, de SP ao RJ (576 km) 14/9; 1* apresentação de Pedro 1ao povo. no teatro de S. João. Rio 18/9: Decreto cria os símbolos nacionais 18/9: Levante da tropa de negros e pardos no Recife; líder, o mestiço Pedro da Silva Pedroso 22/9: Carta de Pedro a João VI narra os acontecimentos no Brasil; assina ainda como súdito de Portugal 25/9; As cortes de Portugal proclamam e João VI jura a Constituição liberal 5/10: 7 deputados brasileiros às Cortes repudiam a Constituição portuguesa e fogem para a Inglaterra 29/10: O gen. francês Labatut assume o comando brasileiro na Guerra do independência da BA 8/11: Vitória brasileira em Pirajá e Cabrito decide a Guerra de Independência, BA 11/11: Devassas contra o chamado "partido dos demagogos" 1/12: Pedro I, sagrado e coroado imperador 20/12: J. Bonifácio manda exilar J. Clemente e outros liberais 21/12; Cipriano Barata ctiega a Recife. PE. vindo da Ingiaten-a 28/12: Ofensiva geral brasileira na Guerra de Independência, BA •A Maçonaria cria Grande Oriente do Brasil • Fim das corporações de offcio no Pais • Escolha do Rio de Janeiro como capital do Império • Criada a Libéria, colônia africana de escravos libertos dos EUA • O francês J. N. Niepce produz a 1* imagem fotográfica 1823 8/1 : Pedro I cria o Corpo de Estrangeiros (mercenários, na maioria alemães) 13/1:0 governo do PA. só de portugueses, jura a Constituição lusa de 1822 1 8/1:0 inglês T. Cochrane deixa o comando da Marinha chilena para ser 1“ almirante da brasileira 14/3: Levante do 2® Regimento de Infantaria, PA, sufocado

20/3: Vila Rica, capitai de MG, torna-se cidade com 0 nome de Ouro Preto K/larço: 0 inglês J. Pascoe Grenfell ê contratado pela Armada brasileira 7/4: Intervenção militar da Santa Aliança põe fim ao Triênio Constitucional na Espanha 9/4; Nasce no Recife, PE. o jomal Sentinela da Liberdade, de Cipriano Barata 25/4: Pedro I fecha a Maçonaria 56

4.1 PERÍODO DAS REGÊNCIAS / REVOLTAS ■ 0 cenário pós-1831 [3.8] é precário e Inquieto. Fezse a separação Brasil-Portugal. mas perdura o conflito com 0 partido português. 0 Império autoritário com tra­ ços autocráticos (poder moderador. Senado vitalício) é fragilizado pela queda do seu criador e pela idade do herdeiro. 0 Estado centralizado sofre forte oposição federalista (comum a toda América Latina). Já o escravis­ mo só entra em pauta por pressão inglesa (4.8) ou ini­ ciativa das camadas populares. Três partidos (no senti­ do fluido 8 Inorgânico da época), os 3 com raiz social nas elites, se batem no Parlamento, na imprensa e não raro nos campos de batalha.

Justiça (6/7) 0 pe. Feijó, em plena Crise de Julho. 0 povo e a tropa voltam às ruas do Rio: exigem medidas contra os consen/adores e portugueses, e fim da chiba­ ta nos quartéis (a Câmara rejeita a petição, por “incons­ titucional e absurda’ ), 0 Batalhão Sagrado (ou Bravos da Pátria), só de oficiais, sob comando do então major Lima e Silva, reprime os levantes. Feijó proibe ajunta­ mentos ã noite, prende Miguel Frias, suspende as liber­ dades constitucionais, arma 3 mil cidadãos abastados e convida os comerciantes estrangeiros (“todos os garrafeiros de março", diz o Clarim da Liberdade) a se armarem também.

■ Os liberais moderados ou puros, mais moderados que liberais, são chamados chimangos (uma ave. caça njim, que não merece chumbo), a partir do RS de 1835 [4.4]. Detêm uma hegemonia instável. Querem a monar­ quia consfitucional-autoritária. sem "excessos de liber­ dade', mas não o despotismo à moda de d. Pedro I. Admitem certa descentralização. Lideres: Evaristo da Veiga [1799-1837], deputado, jornalista da Aurora Fluminense-, Bernardo Vasconcelos [1795-1650], depu­ tado, senador, ministro, mais tarde conservador; Nicolau Vergueiro [1778-1859], deputado, senador, ministro, rico cafeicultor, abolicionista [4.7]. Dispersam-se em 1835 entre os partidos Consen/ador e Liberal.

■ Feijó cria (18/8/1831) a Guarda Nacional para con­ ter 0 jovem e irrequieto Exército com seus negros, mestiços e oficiais infectados de jacobinismo. A Guarda inspira-se no Batalfião Sagrado; alista “6 mil cidadãos armados, proprietários e industriais, que representam cada um uma família e bens", contra “os anarquistas”. Fonnna-se também na província, sempre de elite, volun­ tária, descentralizada, com chefes a princípio eleitos e subordinados ao juiz de paz da comarca. Até a República seus coronéis (maior patente [7.6]) serão a peça-chave do poder local.

■ Os restauradores (ou caramurus, nome do jornal de Davi Fonseca Pinto) querem a volta de d. Pedro I. Con­ tatam 0 ex-monarca, buscam apoio inglés. Líderes: os 3 imnãos Andradas (J. Bonifácio, tutor do príncipeherdeiro, é afastado sob pressão popular, preso e con­ finado). Bases na burocracia pré-1831, ala direita do Exército e partido português remanescente. Em de­ clínio, tentam levantes militares no RJ, MG, CE. (1831-1833). Morto d. Pedro I (1834), entram no Partido Conservador. ■ Os liberais patriotas são chamados exaltados, jururubas (de uma praia do RJ), farroupilhas (nome usado para mofar de Barata nas Cortes de Lisboa [3.3]; o chapéu de palha vira símbolo da facção), d. 1842 luzias (da batalha de Sta. Luzia, [4.5]). Pregam o fim do poder moderador, do Senado vitalício e do Conselho de Esta­ do, extensão do direito de voto. federalismo (ou auto­ nomia provincial), liberdade de imprensa. Lideres; Teó­ filo Ottoni [1807-1869]. jornalista, deputado, rebelde de 1842. serlanista. 6 vezes vetado na lista para senador; Ezequiel Correia dos Santos; Balbino José dos Santos. Sua ala radical é republicana: Borges da Fonseca [4.6], Barata [2.11], major Miguel de Frias [RJ 1805-1859,3.8]. Pegam em armas em vários episódios. ■ As revoltas e revoluções [4.2-3-4-5-6], marcas da época, tèm similitudes: inspiração liberal ou republicana. Origem em disputas intra-elites, que envolvem o povo e às vezes a escravaria (a Cabanagem [4.2] e a Balaiada [4.3] ganham feição popular). Federalismo e tendências separatistas. /Vpesar disso não se articulam e. isoladas, sâo esmagadas uma a uma. 0 Império segue um pa­ drão: usa um misto de repressão e conciliado com os rebeldes das elites (paz de 1845 no RS) e só repressão com os de extração popular (cabanos, balaios). A ação imperial projeta Luis Alves de Lima e Silva [1803-1880]. 0 Pacificador, aos 37 anos brigadeiro e barão (futuro duque) de Caxias [4.-3-4-5, 5.4-5]. ■ A regência trina provisória [3.8], que assume no 7/4 (a Assembléia Legislativa está em recesso) é hetero­ gênea: 0 bríg. F. Lima e Silva representa o Exército; o sen. Vergueiro, o liberalismo triunfante; o marquês de Caravelas, a tradição consen/adora. Reintegra o Mi­ nistério Brasileiro de 20/3 (meta imediata da rebelião de abril), anistia os perseguidos, restringe o poder modera­ dor, afasta os estrangeiros do Exército, pede ordem ao povo e à tropa, que tomam as mas. ■ A regência trina permanente Indicada (17/&'1831) pela Assembléia inclui Uma e Silva, o marquês de Monte

Alegre e o dep. Brãulio Muniz. Nomeia ministro da

■ 0 Ato Adicional [6/8/1834] refomia (pela 1* e única vez) a Carta de 1824. Cede em parte à pressão libera­ iizante. Sob oposição conservadora do Grupo da Ma­ romba, é puxado pelos chimangos e aceito pelos exalta­ dos. Dá às províncias mais autonomia. Legislativo próprio, mas não constituição ou governo eleito. Suprime (até 1841) 0 Conselho de Estado, foco de conserva­ dorismo. Mantém o Senado vitalício e, com restrições, o poder moderador. Toma a regência una, com regente eleito por 4 anos. 0 esquema, que alguns chamam experiência republicana, prova ser liberal demais para o gosto das elites. B. Vasconcelos, relator do Ato, ao apre­ sentá-lo diz: "Entrego-vos o código da anarquia’ . ■ Diogo Feijó [1784-1843] elege-se regente uno (7/49/7/1835) com 2.826 votos para 2.251 do conservador Cavalcanti de Albuquerque (PE); votam 6 mil eleitores. Monarquista-liberal de Itu, SP (diz ser “do maio'), filho natural, padre secular, deputado brasileiro às Cortes [3.4], combate o Senado vitalício e o celibato clerical. Figura contraditória, governa em meio a revoluções (concilia com os farrapos, não com os cabanos), sob ataque conservador (B. Vasconcelos), acusado de autoritário, “ministro de Satanás", ‘sedutor e alcoviteiro". Isola-se. é forçado à renúncia (apoiará a Revolução Liberal de 1842 [4.5], sendo preso, desterrado, e absolvi­ do). Com sua queda, esval-se o impulso liberaiizante do 7/4 e começa a fase reacionária que vai até 1849. ■ Pedro de Araújo Lima, d. marquês de Olinda [17931870] elege-se regente com folga (4.308 votos, 1.981 para Holanda). Oligarca de PE, deputado às Cortes, constituinte de 1823, expoente conservador, 8 vezes ministro (1823-1865), forma (19/9/1837) o Ministério das Capacidades, com 8. Vasconcelos na pasta do Império. Toma forma a divisão liberais-conservadores e um pariamentarismo sem povo, onde mal se distingue um liberal no poder de um conservador. A Lei Interpretativa (12/5/1840) restringe as liberalizações de 34, limita a autonomia municipal e revoga leis provinciais. Na oposição, os liberais se engajam pela antecipação da maioridade de d. Pedro II. José de Alencar [1794-1860], pai do romancista, funda em sua casa a Sociedade Promotora (ou Clube) da Maioridade. ■ A maioridade de d. Pedro II (23/7/1840) aos 14 anos é. para alguns, um golpe, pois viola a Constituição; é uma iniciativa liberal que cinde os conservadores e se impõe no Parlamento. 0 povo acorre à Câmara, aplau­ de. canta versos cívicos. 0 próprio príncipe, menino si­ sudo, aplicado e triste, ao lhe indagarem quando quer ser proclamado, diz; "Quero já". I^o poder, nomeia o Gabinete Maiorista (24/7/1840), liberal, e, após as Eleições do Cacete (13/10/1840), o Gabinete Palaciano (23/3/1841), conservador


Geopolítica das rebeliões de 1831-1848

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------- 4.2 NORTE I: CABANAGEM ■ “ 0 mais notável movimento popular no Brasil, o único em que as camadas pobres conseguiram ocupar o poder de toda uma provincia” (C. Prado Jr.), a Cabana­ gem (nome ofensivo, alude às moradias dos rebeldes) sofre também a mais dura repressão, ainda viva na memória popular amazônica.

Vinagre morre em combate. A armada imperial, sob co­ mando do oficial inglés John Taylor, bombardeia Belém pela 3* vez. No 9* dia o govemador foge para a fragata Campista, iniciando um êxodo de 9 mil pessoas, entre elas toda a elite. Os cabanos não interferem e ficam com a capital, "reduzida a um montão de ruínas" (Angelim).

■ A provincia do Grão-Pará (toda a Fiegíão Norte atual) é habitada na maior parte por tapuios, indios destribalizados pelas missões. Fala nheengatu [2.12], Planta cacau, cravo, salsa, algodão, arroz, tabaco, café; coleta drogas do senáo, borracha. Decaí com a expulsão dos jesuítas [2.5]. A adesão à Independência é penosa, com resistências, levantes do povo e a traumática chaci­ na de 252 prisioneiros do brigue Palhaço [3.5], A chefia do Partido Brasileiro cabe ao carismático cônego Joâo Batista Campos [1782-1834], jornalista, advogado, vá­ rias vezes preso, torturado, espancado, desterrado. A Amazônia vive permanente instabilidade política. 0 gov. Bernardo Lobo de Sousa (4/12/1833), o Malhado (tem uma mancha grisalha), despótico e impopular, atira o clero na oposição ao ameaçar o bispo d. Romualdo Coelho (72 anos) de prisão a ferros.

■ 0 3° governo cabano (23/8/1835) é o de Angelim [1814-1882). cearense, ex-seringueiro, foreiro, jornalista, com 21 anos. É a fase mais radical. Há represálias con­ tra os ricos e tentativas de linchamento que Angelim con­ tém a custo. Os escravos combatentes são libertados (alguns passam a comandantes, como Joâo do Espirito Santo, 0 Diamante); outros se rebelam nas lazendas. Joaquim Antonio, com 500 homens, proclama uma liber­ dade extensiva aos escravos em geral. Tapuios e povos Indígenas (Mawé, Mundunicu, Mura) se engajam na revolução. Esta atinge os confins da Amazônia, mas carece de um programa claro. A carta do primaz e uma hábil política legalista afastam o clero dos cabanos; padres-coronéis passam a cfiefiar a luta armada lega­ lista (Cametá, Acará, Alenquer). Rodngues monta um governo paralelo na ilha de Tacuoca, estratégica para o controle de Marajó e o bloqueio de Belém. Mantém como refém o irmão de Angelim. Francisco Nogueira (12 anos de idade, futuro revolucionário farrapo, morto em conv bate na Guerra do Paraguai).

■ A Instabilidade se converte em revolução com a 1* tomada de Belém (7/1/1835). 8. Campos, membro do Conselho Provincial perseguido pelo govemo, foge de Belém e reúne mais descontentes: Clemente iWalcher, Eduardo Angellm, os Irmãos Francisco e Antonio Vina­ gre. Perseguidos, estes apelam à rebelião (27/10/1834). Malcher é preso; o cônego morre. Seus seguidores for­ mam um exército voluntário e tomam a capital. Lobo de Sousa e o govemador das armas, ten.-cel. J. S. Santia­ go, são mortos e os corpos arrastados pela cidade. Fuzi­ lamento de oficiais portugueses; libertação dos presos. Os cabanos hasteiam no palácio sua bandeira vermelha tingida de uruoum. ■ 0 1- governo cabano é o de K^alcher. respeitado pela perseguição que sofreu (sai do cárcere direto para a posse), mas abastado fazendeiro e não um cabano. Já no 5' dia, perde prestígio ao pedir que os rebeldes aban­ donem as armas (o exército voluntário permanece na capital). Diverge dos cabanos e manda prender Angeiim, 2 irmãos deste e F. Vinagre. A tropa não aceita; Malcher recorre à armada e ordena 3 dias de bom­ bardeio à cidade. Derrotado, capitula e é mono a cami­ nho da prisão. ■ 0 2« governo cabano (21/2/1835) cabe a F Vinagre (também governador das amias). 0 presidente lavrador, típico cabano, lança um manilesto político amazônida, com enloque social e tom separatista: *0 país do Amazonas será feliz e livre; mostrará ao mundo que nâo ama nem teme a escravidão". 0 Impéno envia 3 naves de guerra (17/4) sob comando do cap.-ten. Pedro da Cunha, para quem Vinagre está “rodeado da mais ínfima plebs. a quem apelida de povo". A annada e os legalis­ tas articulam um governo de A. Custódio Correia (que vè nos cabanos “hordas de bebedores de sangue”), blo­ queiam e bombardeiam Belém. F Vinagre aceita entre­ gar 0 governo ao mal. Jorge Rodrigues, português, no­ meado presidente por carta régia e reforçado por uma pastoral (d. Romualdo de Seixas, primaz do Brasil e filho do PA). Muitos cabanos discordam; o conselho revolu­ cionário chega a votar pela resistência; A. Vinagre e ou­ tros mantêm a luta no Interior. ■ Belém com os legalistas. 0 novo presidente pro­ mete a paz mas lorma o corpo militar Voluntários de Pe­ dro 11e faz 200 prisões, inclusivef. Vinagre. A. Vinagre e Angelim reúnem os cabanos em armas contra o “mal­ vado e perverso português" e pela "causa santa do po­ vo". Um exército de 4 mil homens (muitos ex-escravos se alistam em troca da liberdade) ataca Belém em batelões e canoas. ■ 2* tomada de Belém (14-23/8/1835). Os cabanos avançam em 3 colunas: A. Vinagre, Angelim e Geraldo Gavião. Combatem casa por casa. No 2®dia dominam a cidad« exceto o palácio do govemo e o arsenal real A

■ A contra-ofensiva legalista se apóia em reforços vindos do RJ, PE, CE. Isola Belém, onde o povo vive de ervas agrestes, raizes, couro seco e morre em massa de varíola (inclusive o pe. Casimiro de Sousa, secretário do govemo). Angelim e seus ‘chefes de pé no chão’ rejeitam a insinuação, do comandante de 3 navios de guerra ingleses (17/3/1836). de ‘ proteção’ britânica a um estado amazônico independente do Brasil. Mas. sem objetivos nítidos, os cabanos divergem entre si, perdem terreno político e militar. Luta-se em toda a província. Bragança, Viseu, Acará, Moju, Abaeté e Macapá trocam de mãos mais de uma vez; Cametá, Vigia e Abaeté são baluartes legalistas. Feijó envia (9/4) reforços, o inglés J. F Mariath (que subslitui Taylor) e o brig. português Francisco J o ^ de Sousa Tavares Andréa, futuro barão de Caçapava. que assume também o comando das amias. Belém, cercada, exausta, faminta, tenta em vâo uma paz negociada pelo bispo d. Romualdo Coelho. Por fim, Angelim e seus cabanos abandonam a capital em canoas, rompendo o cerco naval debaixo de balas e deixando com o bispo 95 contos dos cofres públicos. Andréia entra (14/5) na cidade. ■ Extermínio (1836-1840). Para Andréia, todos os ho­ mens de cor nascidos aqui estão ligados, em pacto se­ creto, a darem cabo de tudo que for branco’ . Por isso, ele militariza o PA, suspende liberdades, dissolve a tropa infectada pela revolução ("Esta província nâo deve ter soldados filhos dela*) e move uma guerra de extermínio. Ou isso, diz, ou "esta província há de pertencer aos ta­ puios. e 0 resto do Brasil a negros'. Expedições de ani­ quilamento percorrem os rios. Os suspeitos de rebeldia são metidos em troncos {2.4] (e às vezes atirados assim das canoas), presos em navios, enviados à Corte como recnjtas compulsórios. Há repressores que ostentam colares de orelhas secas de cabanos. Estes passam à guerrilha e ainda incorporam muilos escravos fugidos, mas já nào têm um comando único. 0 sucessor de Andréia (d. 8/4/1838), Sousa Franco, ainda encontra fo­ cos de rebeldia. Os últimos grandes grupos, de até mil guerrilheiros, se rendem após a anistia de 4/11/1839. Outros, menores, nunca se entregam (quilombos do Trombetas ;2.4]). Os mortos na repressão superam 30 mil (o PA tem pouco mais de ICO mil habitantes). ■ Angellm, ferido na perna, acolhido com a mulher por indios do Alto Acará, caçado por 1.130 soldados; delata­ do, preso e levado a Andréia (30/10/1836), passa (com F. Vinagre) 15 anos nos cárceres do Rio e Fernando de Noronha. De volla ao PA, vive retirado e escreve um livro sobre a Cabanagem; o manuscrito desaparece no dia de sua morte

Cronologia 3/5: Aberta a 1* Assembléia Constituinte, com advertência de Pedro I: só aceita a Carta se “for digna de mim" 3/5: 1“ combates em subúrbios de Salvador; conquista de Itapuã. BA 4/5: Chega à 6A pequena frota do almirante inglês Cochrane; escaram uça naval no Recôncavo 5/5: A C onstituinte elege com issão de 7 para

redigir o Projeto de Constituição 20/5: Cerco brasileiro de Salvador, BA 21/5: O Partido Brasileiro da BA destitui e prende o gen. Labatut 27/5: Vila-Francada, golpe absolutista do infante Miguel em Portugal 28/5: Muaná, PA, proclama a independência do Brasil; o movimento é esmagado 24/6: Assembléia Constituinte cria as Repúblicas Unidas da América Central 29/6: A Constituinte aprova lei isentando seus atos de sanção imperial 2/7: Tomada de Salvador; vitória brasileira conclui a Guerra de Independência da BA 16/7: Pedro I fecha a Ordem da Sta. Cm z

16/7: Cai o gabinete dos Andradas; novo ministério, de J. Carneiro de Campos 28/7: Fim da Guerra de Independência no MA; incorporação ao Império 10/8: 0 brigue de Grenfell chega a Belém e força o PA a aderir (15/8) ao Império 12/8: Surge no RJ (até 11/11) o jornal O Tamoio, semanário pró-Andradas 15/8: Adesão do PA à independência 20/S; Pedro I condecora Maria Quitéria, herofna da Guerra da BA 1/9: A. Carlos apresenta à Constituinte o projeto da Constituição da Mandioca 13/10: Começa a circular em Ouro Prelo o C om p ila d o r M ineiro, 1® (?) jomal de MG 15/10: Levante do povo e tropa em Belém; pe. Batista Campos, govemador por 1 dia 22/10: “Massacre do Palhaço" em Belém; 252 liberais mortos com cal no porão do navio 10/11: Ministério de Vilela Barbosa, pró-português. antecipa 0 golpe de 12/11 11-12/11: "Noite da Agonia": a Constituinte tenta resistir ao imperador 12/11: Pedro I dissolve a Constituinte, prisão e deportação de deputados 13/11: Pedro I cria conselho encarregado de elaborar a C onstituição

18/11: Sob bloqueio da armada de Cochrane, a Provincia Cisplatina (h. Uruguai) adere à independência 21/11: 1* lei de imprensa, com rígidos dispositivos de censura 1/12: Pedro I nomeia F. Gomes da Silva, o Chalaça. seu ajudante e alcoviteiro, para a Secretaria do Paço (“Gabinete Secreto”) 2/12: Os EUA aprovam a Doutrina Monroe: “A América para os americanos" 12-15/12: Protestos em Salvador contra a dissolução da Constituinte 13/12: Ex-constituintes de PE, PB e CE assinam protesto contra a dissolução 25/12: Frei Caneca lança o jornal Tiíis Pernam bucano 30/12: Decreto equipara as taxas de importação, exceto dos artigos ingleses, que mantêm taxa preferencial 1823-1865: O marquês de Olinda integra sucessivos gabinetes, conservadores e liberais ■ P rim eiro D icionário Brasileiro da Língua P ortuguesa, de A. Morais Silva 1824 9/1: A Câmara Municipal do RJ apóia o projeto de Constituição e apela às outras para que façam o mesmo 59


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4.3 BAHIA; INSURREIÇÕES DE ESCRAVOS / SABINADA m A Instabilidade política e social agita a BA desde a Guerra da Independência [3.5). Desborda na Sabinada e, por outro lado, num longo ciclo de insurreições de es­ cravos, conn predomínio dos males. ■ Os malês são muçulmanos das etnias oesteafricanas (fiassuá, nagô, jeje, tapa, mandinga) [2.4]. Uma rota especifica do tráfico concentra-os em Salva­ dor e Recôncavo (onde subsistem remanescentes). Cultos, alfabetizados, com influência árabe, vanguardeiam a luta dos cativos. Afora a quilombagem, tentam derrubar a ordem escravista em insurreições tenaz­ mente planejadas. ■ 0 ciclo insurrecional vai de 1807 a 1835. com epi­ centro na BA. Estende-se também a AL e em especial SE. Em Laranjeiras, panfletos proclamam (1824): “Vivam os mulatos e negros e moram os marotos (portugueses) e caiporas (brancos)!'. Uma grande rebelião nagô (set/1827) atinge ao menos 10 engenfios de SE; até 1837 todo Natal traz agitações (que usam as festas como fator de diversão), Na BA vários levantes nascem nos enge­ nhos, porém os maiores se apóiam na escravaria urbana, engajando também forros das armações de caça à baleia e tripulantes dos saveiros. ■ A 1^ tentativa (1607), Iniciativa hassuá, já é plane­ jada: escolfie um cttefe (“capitão’ ) em cada bairro, um agente que cfiamam embaixador e um secretário, patdo livre; possui 2 esconderijos de armas (arcos e flecfias, facas, pistolas). 0 levante é marcado para o dia de Corpus Cfiristi. Denunciado, gera uma devassa, 2 penas de morte e várias de açoite. A organização secreta Ogboni dirige o 2' movimento, articulado em Salvador. Nazaré e Jaguaripe; tenta tomar Nazaré e permite várias fugas. 0 govemador da BA se queixa dos negros, “revo­ lucionários e inconfidentes", que mostram “total desconfiecimento e resistência às leis da escravidão". ■ A delação e as divisões étnicas são pontos fracos do movimento. Diferenças de origem, língua, cultura e religião da escravaria são. dizem os escravistas, a "maior garantia para as cidades do Brasil". As insurreições de uma só etnia (hassuá, mais tarde nagô) se expandem menos que as de várias nações coligadas (em 1835. nagôs, hassuás, jejes, sobretudo os 1“ ). As delações abor­ tam ou precipitam a maioria dos levantes, apesar do rigor na disciplina e nos métodos conspirativos. ■ 0 sistema repressivo golpeia tudo que unifique e articule os cativos. Em 1814 há aceso debate sobre a conveniência de proibir (como em 1807) os batuques da Graça e Barbalho. Alguns escravagistas suspeitam que eles servem para tramar revoltas. Outros os defendem como fatores de divisão étnica. A polícia, em suas bus­ cas. confisca como material subversivo instrumentos mu­ sicais, adereços, objetos de culto religioso e sobretudo papéis. Após 1835. a posse de um papel escrito em ára­ be, mesmo amuleto ou reza, implica a pena de morte. ■ A insurreição malé de 1835 é a maior e melhor preparada. Forma uma rede de pontos de reuniões clandestinas em vários pontos de Salvador (Clube da Barra). Contata o Interior, via saveireiros (Nazaré, ita­ parica). e possivelmente PE. Cria uma caixa de con­ tribuições (a polícia acha 79.480 réis na casa dos negros Belchior e Gaspar). Seus líderes; Pacífico Licutã, alufá (sacerdote muçulmano), ausente da insurreição por estar na cadeia, como penhor de uma dívida de seu pro­ prietário; Luis Sanim, já idoso, falando tapa e nagô, autor da proposta da caixa; Manuel Calafate, morador da loja (porão) onde começam os combates; o mestre Tomás alfabetiza os demais; as proclamações sâo assi­ nadas por Mala Abubaker. 0 plano é reunir uma coluna na Vitória, na festa de N. S* da Ajuda (igreja do Bonfim), rumar para Água de Meninos e (Cabrito e fazer a junção com a escravaria dos engenhos. A negra Guilhermina delata-o ao juiz de paz. 0 chefe de policia F. Gonçalves Martins vai pessoalmente ao Bonfim cortar a ligação com os escravos do eito. Privado do fator surpresa, o levante se precipita.

■ A luta começa com o ataque policial à casa de Calafate (noite de 24/1/1835). Aos gritos de ‘mata solda­ do*. 60 negros contra-atacam com espadas, lanças, pis­ tolas, espingardas. Passam à cadeia, onde tentam em vào libertar Licutã. Vencem um combate no Igo. do Tea­ tro, juntam-se a outra coluna que vem da Vitória e abrem caminho até Água de Meninos. Aí são contidos e esma­ gados (madrugada de 25/1) pela cavalaria e infantaria sob comando de Gonçalves Martins. Deixam 40 mortos em combate, afora os que se afogam na baía ao tentarem a fuga. ■ A polícia prende 281 escravos e libertos, frisando que “nenhum deles goza direito de cidadão nem privilé­ gio de estrangeiro” (Gonçalves Martins). Patrulhas vas­ culham a cidade. Cativos só saem com ordem escrita do senhor. Os escravos Gonçalo. Joaquim e Pedro e os liber­ tos Jorge da Cunha Bartjosa e José Francisco Gonçalves são fuzilados (14/5/1835). Sanim e Licutã levam 600 açoites; o hassuá Antonio e Tomp, 500: mestre Tomás, 300; 0 nagô Luís. 200. Outros são deportados. Os mortos chegam a 100 (2 policiais). Muitos resistem à tortura; o nagô Henrique, agonizando de tétano, afirma não ser de dizer duas coisas; ‘0 que disse está dito até monrer". ■ Conseqüências. 0 temor das insurreições contém o fluxo de escravos oeste-africanos para a BA. Com o fim do tráfico [4.8], cessam as insurreições. Uma última ten­ tativa (1844) tem como líder o pardo fon^o Francisco Lisboa, veterano de 1835. Outra participante, a escrava jeje Luísa Mahim, é mâe do jomalista e poeta aboli­ cionista Luís Gama [5.7] com seu senhor (que vende o filho adolescente como escravo). A Sabinada ■ A República Bahiense de 1837 é parte dos levantes militares, conspirações de letrados e agitações popula­ res endêmicas em Salvador e no Recôncavo (motins mata-marotos de 1831-1832). 0 estopim é a fuga de Bento Gonçalves, chefe da Revolução Farroupilha ;4.4: preso no forte do Mar jS. Marcelo). Toma o nome do chefe insurreto Sabino Alvares da Rocha Vieira [1797-1846], cirur­ gião militar na Guen-a de Independência, professor da Fac. de Medicina, jornalista. Triunfa (7/11/183^ com a su­ blevação do 1‘ ciorpo de Artilharia, de tradição nativista. seguido pela Guarda Civil e a policia. Tem apoio maçom. ■ Os objetivos são imprecisos. A República (presi­ dente Barreto Pedroso) diz-se provisória, até a maio­ ridade de d. Pedro II. Sua penetração nas camadas po­ pulares é objeto de debate, mas cria um corpo de tropa negro, o batalhão dos Leais à Pátria, sob comando do major Santa Eufrásia. Proclama como objetivo “procurar a liberdade e igualdade sociais”. Promete leis justas e úteis, igualmente com o pobre, o pequeno, desvalido, como podem ser para com os ricos, grandes e podero­ sos". Ataca a ‘ récua de desprezíveis e fofos aristocratas, que, à custa do vosso sangue e da vossa liberdade, só tém em vista a defesa dos seus lucros". ■ A Sabinada fica isolada de Salvador. A coalizão da Guerra de Independência [3.5] se cinde; os senhores de engenho agora são ferrenhos legalistas. Francisco Gonçalves Martins, futuro vise. de S. Lourenço, foge para 0 Recôncavo e lidera a reação. 0 cel. A Argolo Ferrão, senhor do engenho de Cajaita, é o comandante militar. Derrotados em Cabrito e Campina (30/11/1837), acos­ sados pelas tropas do brig. Crisóstomo Calado (d. 21/2/1838). os republicanos tentam até o fim furar o cer­ co. mas só Higino Pires Gomes consegue (8/3) desem­ barcar uma coluna no Recôncavo, de onde ruma para Feira de Santana (dispersa suas guerrilhas ao saber da queda da capital). 0 ataque imperial a Salvador (13^) é duro (prisioneiros são lançados vivos dentro de prédios em chamas). Os sabinos resistem até 15/3, quando se rendem cs 597 defensores do forte S. Pedro. Tèm 1.091 mortos e 2.989 presos, o que dá uma idéia da dimensão do movimento. Sabino. condenado à forca, tem a pena comutada para confinamenlo em GO e MT. onde morre ao tentar a fuga.

Cronologia 28/1: Ensaio de pacificação e aldeamento dos Botocudo do rio Doce. ES; frustrado 23/2: Sobe o governo Pais Barreto em PE, contestado pelo partido brasileiro 25/3: Pedro I outorga sua Constituição, a 1* a vigorar no Brasil (até 1869) 25/3:1* incêndio do Teatro S. Pedro, RJ, ao fim de drama sacro que Pedro I assiste 1/4: Começa a circular o Diário do Governo do Ceará. 1“ jornal da provincia 26/5: EUA reconhecem o Estado brasileiro 22/6: Emiliano Mundurucu. sob influência do Haiti, levanta o regimento dos pardos, PE 2/7: Pais de Andrade proclama em Recife, PE, a Confederação do Equador 7/7: Pedro I desmembra de PE e integra a MG (d. BA) a Comarca de S. Francisco 14/7: A Confederação do Equador assume o poder na PB 25/7: Pedro I suspende as garantias individuais nas províncias do Nordeste 3/8: O RN adere à Confederação do Equador 19/8; Bombardeio naval de Recife, capital da Confederação do Equador 7/9:1* empréstimo ao Brasil, de 3 milhões de libras, junto a bancos ingleses, com a renda das alfândegas como garantia 17/9: 0 exército legalista toma o último reduto republicano em Recife 25/10: Levante do Batalhão dos Periquitos em Salvador. BA: 2 condenados à morte 29/11: O chefe de poifcla, Teixeira Aragão, censura peças, poesias e pasquins no RJ 19/12: Batalha de Ayacucho; independência da Bolívia; fim do Império hispano-americano • 1“ colonos alemães em S. Leopoldo, RS • Decreto pennite que estrangeiros explorem ouro • Diário de uma Viagem ao Brasil em 1821, 1822 e 1823, de Maria Graham • 1“ sindicatos, na Inglaterra 1825 3/1: Inslitufdo no RJ o "Toque do Aragão" (espécie de toque de recolher), às 22 h 13/1: Frei Caneca é fuzilado no Recife por nào se achar carrasco que aceite enforcá-lo 27/2: A Santa Sé reconhece o império 7/3: Executados no Rio 3 Kderes da Confederação do Equador: anistia dos não pronunciados 9/3: O México reconhece o Império do Brasil 4/4: O Chalaça. com poder em alta. torna-se secretário particular do imperador 19/4: Os 33 orientais desembarcam em Colônia; guerra de libertação do Uaiguai 30/4: Fuzilado em Recife o pe. Mororó. revolucionário cearense de 1817 e 1824 27/6: 1* sessão de júri julga crime de Imprensa 25/8: O Congresso de Flórida (Uruguai) decide reincorporar a Cisplatina à Argentina 29/8: Portugal reconhece a independência do Brasil, a partir de esboço (12/7/1824) do ministro inglês G. Canning 4/10: A Roda dos Expostos de São Paulo recebie sua 1* criança 26/10: A França reconhece a independência 7/11: Começa a circular O Diário de Pemambuco, 0 mais antigo jornal da América Latina atual 2/12: Nasce e é apresentado à Corte (pelo vereador) o futuro imperador Pedro II 10/12: Guerra Brasil x Províncias Unidas do Prata (Argentina) pela Banda Oriental 30/12: A Áustria reconhece o Império • Forte seca na PB, PE, RN, CE • A BA começa a exportar cacau • Expedição científica de Langsdortf •Tnjcrdados 28 índios Votoron-Cané, SP 61


Cronologia

4.4 GUERRA DOS FARRAPOS —

• 1° trem de passageiros, na Inglaterra 1826

■ São Pedro do Rio Grande decupllca sua popu­ lação em 1780-1830. A ocupação, recente, em disputa com os castelhanos, basela-se no gado [2.7]. A província exporta charque. couros e gado para o mercado brasi­ leiro. As charqueadas utilizam o braço escravo. Na cam­ panha domina o trabalho livre ou semllivre do gaúcho, misto de vaqueiro, caçador de gado brabo e guerreiro, de paulista, castelhano e bugre (índio). 0 estandeiro é senhor de terras e gado. contrabandista, patriarca e caudilho militar, nas pelejas aquém e além-fronteira. A economia rarefeita, periférica, rústica, relativamente próspera, reclama proteção fiscal face à concorrência platina. Portugueses dominam o comércio. No litoral (também de SC), desde a Colônia o Estado, por razões de estratégia, instala famílias açorianas.

5/1: Inglaterra reconhece a Independência 22/1: Instala-se o 1° Senado do Império (50 senadores nomeados e vitalícios), logo tido como baluarte conservador 17/2-18/3: Pedro I viaja à BA 10/3: Morre João VI, rei de Portugal 29/4: Pedro I outorga Constituição (calcada na brasileira) a Portugal 2/5: O imperador renuncia à Coroa portuguesa em favor de sua filha Maria da Glória, de 5 anos 3/5: Instala-se a Assembléia Geral; pela 1* vez em 30 meses o Brasil tem Parlamento (deputados eleitos em julho/1824) 15/7: Criação das Dioceses de Cuiabá, MT, e Goiás 23/11: Convenção Brasil-Inglaterra pela extinção do tráfico negreiro em 3 anos 11/12: Morre de parto aos 30 anos. no RJ, a imperatriz Maria Leopoidina: cresce a influência da marquesa de Santos sobre Pedro I 15/12: Quilombolas do Cabula fazem incursões no Recôncavo baiano • A comarca de S. Francisco é anexada à BA • Congresso do Panamá; fracassa a idéia de Bolívar de unificação das Américas 1827 1 5 / 1 :0 M inistério, intrigado pela marquesa de Santos e destratado por Pedro I, dem ite-se coletivam ente

7/2: Começa a circular (até 1833) O Farol Paulistano, 1“ periódico de SP 17/2: Estrada Santos-Cubatão, SP 20/2: 0 Império perde para os uruguaios a batalha de Passo do Rosário (Ituzaingó) 22-24/4: Sublevaçào dos escravos do engenho (h. usina) de Vitória. BA 24/5: Convenção (recusada pela Argentina) cede a Banda Oriental ao Brasil 30/6: Nasce a Sociedade (d. Academia Imperial) de Medicina do Rio de Janeiro 9/8: Os ministros passam a comparecer ã Câmara para prestar informações 11/8: Criação de cursos jurídicos em São Paulo e Olinda 18/8: Tratado comercial com a Inglaterra renova por 15 anos os termos do Tratado de 1810 1/10: Começa a circular no RJ o Jo rn a l do C om m ércio 15/10: Observatório astronômico no RJ 15/10: Criado em cada comarca (até 1841) 0 posto de juiz de paz, com função judicial, administrativa e de polícia 19/10: Inaugurada no Rio a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional 20/11: 1° gabinete a incluir 2 deputados (Araújo Lima e Miguel Calmon) 21/12: Começa a circular no RJ (até 1835) o jornal A urora Flum inense (E. da Veiga) 1827-1833: Surto de moeda falsa, conhecida pelo ruído, o xenxém • Chegam a SP os 1“ colonos alemães; 417; destino; Sto. Amaro. Itanhaém. Cubatão • 1" engenho a vapor em Campos. RJ • 1* exportação de borracha em escala • L. Beethoven compõe a 9* Sinfonia 1828 1/3: Aula Inaugural do Curso Jurídico (Fac. de Direito) em SP 11/3: Escravos de Cabrito e Salvador preparam insurreição, esmagada em Pirajá 17-22/4: Sublevaçào de escravos em Cachoeira, Recôncavo Baiano 21/4: Guerrilheiros uruguaios de F. Rivera penetram na Zona das Missões, RS 6S

■ 0 choque entre liberais e conservadores, dentro do padrão da época, de centralização imperial e descen­ tralização federalista ^ .i], é especialmente acirrado no RS; 0 centro liberal-moderado (chimango [4.11) é débil: predominam os extremos. Os conservadores {caramu­ rus). com bases nos comerciantes, charqueadores e aris­ tocratas. são tachados de escravos da Corte. Os liberais, da campanha pastoril e camadas médias urbanas, de anarquistas, pobretões, proletários e farrapos ou farrou­ pilhas Federalistas, sofrem influência revolucio­ nária das repúblicas platinas e da Europa, em especial via refugiados políticos italianos como o jornalista Tito Lívio Zambecari. Saúdam a posse do presidente provin­ cial A. Rodrigues Fernandes Braga (2/&'1834), mas este os desaponta com um govemo centralizador e repres­ sivo. que enche as prisões. A alteração da relação de forças entre liberais e conservadores sob a regência do pe. Feijó traduz-se no avanço liberal no RS. ■ A Tomada de Porto Alegre (19-20/9/1835). é chefia­ da por Bento Gonçalves da Silva [1788-1847], rico estancieiro. maçom. veterano das guerras platinas. Braga e o retrógrado comandante das armas mal. Bar­ reto fogem para Rio Grande numa canhoneira. Os re­ beldes empossam o vice Marciano Pereira Ribeiro no govemo e Bento Ivianuel Ribeiro [7-1855] no comando das armas. Proclamam a "Pátria livre", fidelidade à Constituição, à integridade do Império, ao 7 de Abril e ao jovem monarca. Parte do Exército desertor adere. 0 movimento se expande a todo o RS. ■ 0 regente Feijó contemporiza [4.1;: nomeia pre­ sidente do RS José de Araújo Ribeiro, hábil deputado, amigo de Bento Manuel, que negocia com Bento Gon­ çalves e promete paz. Porém a Assembléia Provincial, radicalizada, recusa-se a empossá-lo (9/12/1835). Ribei­ ro resiste e forma um núcleo contra-revolucionário em Rio Grande. Pelotas. S. José do Norte. Logo obtém a adesão de Bento li^anuel. que alega o desvirtuamento da revolução e assume o comando militar legalista. Os farrapos nomeiam João Manuel de Lima e Silva (tio do futuro duque de Caxias) seu comandante das armas.

Vasconcelos Jardim. 0 novo regime se Implanta de fato, com capital em Piratini (mais tarde Caçapava e Alegrete), fomia um ministério, libera o charque e os couros da carga fiscal e, apesar da guerra, eleva as exportações. ■ Bento Gonçalves foge da prisão (10/9/1837 [4.3]): atira-se à baía de Todos os Santos, alcança uma canoa, chega a Itaparica, dribla uma perseguição de vários dias, embarca para Buenos Aires e volta ao RS, onde reassu­ me 0 comando rebelde. Atribui-se a fuga à ajuda da Maçonaria e do próprio regente, o que contribui para a queda de Feijó ;4.1j. ■ A reação conservadora pós-Feijó atiça a Farrou­ pilha. Empenhada na vitória militar, a Regência nomeia sucessivos presidentes e comandantes reacionários que isolam os imperiais. 0 marinheiro plemontês Giuseppe Garibaldi. Herói de 2 Mundos [1807-1882]. refugiado no RS d. 1834, fustiga os imperiais na lagoa dos Patos com uma frota de lanchões artilhados. 0 ponto débil da República é o isolamento; não tem saída para o mar. ■ A Conquista de Laguna, SC (24,7/1839) tenta romper o cerco. Garibaldi transporta por terra os lanchões Seival e Rio Pardo, sobre rodas (92 km), dri­ blando 0 bloqueio naval legalista, e sai ao mar; perde o Rio Pardo, captura outro barco e chega a Laguna pouco antes dos 1.200 homens de Davi Canabarro [17961867], Os farrapos rendem 2 barcos de guerra, 14 mer­ cantes e tomam a vila. Surge em SC a República Juliana, confederada à RIo-Grandense e presidida pelo pe. Vicente. Ali, Garibaldi conhece Ana Ribeiro da Silva, Anita Garibaldi [1819-1849], sua companheira (casamse em 1842). 0 gal. Andréa, vencedor da Cabanagem ;4.2], nomeado presidente de SC. reúne os legalistas e ataca Laguna junto com a frota do inglês R Mariath. Canabarro se retira por terra; Garibaldi rompe o cerco naval (15/11/1839) com um só barco, após perder todos os oficiais e 2/3 da tripulação. Anita tem aí seu batismo de fogo, manejando um canhão. ■ A Constituinte farroupilha, eleita em votação ampla (mas não universal; exclui escravos, mulheres, criados, monges), reúne 36 deputados (29/11/42). A República, vencido certo vezo separatista (Netto), adota a linha de Bento Gonçalves; “Banida a realeza da Terra de Santa Cruz, nos haveremos de unir por estreitos laços federais à magnânima nação brasileira”. Mantém o domínio da campanha, mas sofre com o revés dos liberais de SPMG ;4.5i e perde terreno.

■ Na guerra civil a cavalaria guerrilheira farroupilha controla a campanha e engaja muitos escravos liber­ tos (o movimento é francamente abolicionista). Os im­ periais dominam o litoral com a frota do almirante in­ glês Grenfell. que já possui vapores. Perdem Pelotas (6/4/1836) mas logo a retomam. Ousado golpe de mão conservador apoiado na colônia portuguesa toma Porto Alegre (14-15/6/1836) e prende o presidente rebelde. Até 1840 a capital sofre longo cerco, ataques, fome e epidemias.

■ A Corte nomeia Caxias [4.1-3-5. 5.4-5] presidente e chefe militar do RS (8/8/1842). 0 barão, vencedor dos balaios e de Sta. Luzia [4.5], reorganiza o Exército, tri­ unfa em Ponche Verde (26/5/1843), toma Piratini. Caçapava, Jaguarâo, mas busca em vâo uma batalha decisiva. 0 exército farrapo, ainda senhor do pampa, negaceia, fustiga, cruza a fronteira e reaparece adiante. No Uruguai, tem cobertura dos blancos de Fructuoso Rivera, que combatem os colorados na Guerra Grande (1843-1852). Caxias faz um acordo com o gen. blanco Manuel Oribe abrindo a fronteira uruguaia aos imperiais. Ao mesmo tempo propõe a paz aos farrapos (17/3/1843) em nome do perigo externo (a Argentina de Rosas). Privada dos refúgios uruguaios, da artilharia e de todas as vilas do RS, a República faz uma guerra de partidas (guerrilhas); após Canabarro ser surpreendido e vencido em Porongos (14/11/1844). envia Vicente de Fontoura ao Rio para negociar a paz.

■ A República Rio-Grandense é proclamada (11/9/1836) pelo cel. farroupilha Antonio Netto em Jaguarâo. após a vitória de Seival. Bento Gonçalves e mil de seus homens, colhidos entre 2 fogos na ilha fluvial de Fanfa. caem presos. 0 chefe farrapo é levado à Corte (fortaleza de Sta Cruz) e BA (forte do fvlar). onde ten­ tam envenená-lo Em Piratini, a Câmara Municipal e o exército farroupilha endossam a República (6/11). pro­ metem uma Constituinte, elege presidente Bento Gonçalves e, na sua ausência, José Gomes de

■ A proposta de paz do Império (12 concessões) inclui; anistia geral; isenção do serviço militar para os farrapos; liberdade para os escravos combatentes; inte­ gração dos oficiais rebeldes no exército imperial com suas patentes (exceto generais): taxação sobre o char­ que importado; indicação pelos farrapos do pres. do RS (Caxias). Aceita pelos rebeldes em Ponche Verde e por Caxias em Sta. Maria (1W1845), celebra-se a paz. Pedro II visita o RS, recebe Bento Gonçalves (10/12). E 0 Império volta os olhos para além-fronteiras [5.4],


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4.5 NORTE II: BALAIADA / OUTROS MOVIMENTOS ■ A economia do MA gira em torno do algodão, base da riqueza da elite local. A provincia tem a maior porcenta­ gem de escravos: 67%. 0 forte movimento quilombola contrasta com uma elite portuguesa que resiste à Indepen­ dência [3.5], As agitações militares se sucedem (18311832). A criação da Polícia Rural e do Corpo de Polícia res­ ponde à tensão social em alta. Aí e no vizinho Pl a agita­ ção regencial tem sua expressão mais radicalmente po­ pular: a Balaiada (do apelido de um de seus líderes), revol­ ta da plelie contra os potentados, mescla o conflito liberaisconservadores com uma insun-eição de escravos, índios e pobres livres mestiços, ofensivamente chamados bodes. ■ Os liberais do MA.chamados bem-te-vis (do pequeno e efêmero semanário irregular de Estêvão Rafael de Car­ valho, que anuncia as edições com um foguetório). Com­ batem 0 govemo conservador. A prepotência cabana infla­ ma os ânimos, sobretudo após o assassínio (25/11/1837), impune, do ten.-cel. e líder liberal caxiense Raimundo Tei­ xeira Mendes. Uma lei do presidente provincial Vicente Ca­ margo (25/7/1838), que dá poderes discricionários a pre­ feitos 0 subprefeitos, encontra forte oposição bem-te-vi. 0 fim das levas de recrutamento forçado para o Exército e a Marinha (3.7) é a maior reivindicação dos pobres livres. ■ A tomada de Manga (13/12/1838) dá início à fase ar­ mada da rebelião. Os insurretos tèm como líder Raimun­ do Gomes Vieira, o Jutaí ou Cara Preta, mestiço piauien­ se, vaqueiro na fazenda do liberal pe. Inácio Mendes, cu­ jo irmão está preso, acusado de homicídio. A guarda da cadeia local adere. Os presos são soltos, inclusive recnh tas forçados. Em S. Luís a Crônica Maranherjse noticia (23/12): "Consta que há poucos dias uma partida de pro­ letários (ao muito 15 homens) atacou o quartel da vila de Manga, do qual se apossaram". 0 grupo se arma e con­ quista adesões. Combatido pela tropa de Itapicuru-Mirim e jagunços dos fazendeiros, fomia uma coluna móvel. ■ Ao entrarem no Pl os rebeldes enfrentam o 2‘ go­ verno do barão de Parnafba(1824-1828 e 1831-1843), conservador e violento. Afora escravos e populares, o jornalista Lívio Lopes Castelo Branco (1813-1869), único intelectual a aderir, acompanha os rebeldes por quase um ano, depois oculta-se em PE e volta ao MA com a anistia de 1840, Lança 8 jomais no MAe Pl entre 18441864 {A Malagueta Maranhense, 0 Liberal Piauiense,

Ancapura, Argos Piauiense, Correio Piauiense, 0 Patuléia, 0 Conciliador Piauiense, 0 Propagado/), todos libe­ rais avançados. Mas a Balaiada não lem imprensa. ■ Os revoltosos em armas chegam a 11 mil. Outros lí­ deres se unem a Jutaí. Manoel Francisco dos Anjos Ferrei­ ra [1784-1840], “tenente dos pretos”, empresta ao movimen­ to seu apelido. Balaio (por ser cesteiro de ofício); deseja vingar sua filha, estuprada pelo cap. Antonio Raimundo Guimarães. Cosme Bento das Chagas, escravo, cftefe qui­ lombola, preso, condenado ã forca em S. Luís, foge para liderar um quilombo de 3 mil negros na cabeceira do r. Preto, dotado de escola, sistema de piquetes guerrilheiros e patentes militares; os imperiais não perdoam ao “infame Cosme" (L. A. Uma e Silva) o hábito de intilular-se “tutor e imperador das liberdades bem-te-vis". Outros lideres, Tigre, Raio, Caninana, Corisco, Sete Estrelas, Teteú, Cafuso, Mulungueta, Jitirana, Riachinho, Andorinha, Relâmpago, Ruivo, Teixeira, Silveira, Coque, Pedro de Moura, Vwlete, Miloni. Os conseTOdores tentam (em vão) mostrar rela­ ções orgânicas entre os insurretos e o partido bem-te-vi. ■ A tomada de Caxias (1°/8/1839), 2> cidade do f^A. 40 mil habitantes, marca o apogeu da Balaiada. Os rebeldes aclamam uma junta de govemo, um conselho militar (che­ fiado pelo Balaio), promovem saques, fuzilamentos sumá­ rios e se retiram da cidade (voltam a ocupá-la com 2 mil homens em 9/10). A esta altura tèm domínio intermitente de todo 0 leste do MAe noroeste do Pl. Enviam delegação a S. Luls propondo condições para a paz; revogação da lei dos prefeitos e da que organiza a Guarda Nacional, anistia, garantia de processo regular para os presos, con­ firmação dos postos militares que se concederam, expul­ são dos súditos portugueses. 0 govemo desconhece-as. Recebe reforços do PA. BA, AL, PE, PB, CE e Pl, sob o

mando do ten,-cel. Francisco Sércio de Oliveira (vetera­ no da repressão ã Cabanagem [4.2]). 0 Rio envia a frota do cap.-ten. Joaquim Marques Lisboa (d. marquês de Tamandaré 15.5]). A revolução, porêm. continua. ■ 0 ten.-cel. Luís Alves de Lima e Silva [4.1-3-4.5.4-5] acumula (7/2/1839) presidência e comando militar do MA, com 8 mil soldados sob suas ordens. Trata de unir bem-tevis e cabanos (“Quero até ignorar os nomes dos partidos que por c a ra ç a entre vós existam") e isolar os "bandi­ dos' em armas. Por motivo da Maioridade, oferece anistia, desde c/jo os anistiados combatam os esaavos (2.500 acei­ tam). Fecha as fronteiras, fomia 3 colunas móveis e move uma guerra sem quartel: recusa-se mesmo a examinar as condições que Jutaí pede para render-se. A armada patru­ lha os rios. 0 bispo d. Marcos A. de Sousa apela ã rendi­ ção em pastoral. Acuados, os balaios passam a sofrer de­ serções, rendições e cisões internas. 0 negro Cosme che­ ga a prender Julai, que foge; prossegue a luta, se entrega (15/1/1841), é banido para SP e morre a caminho. Balaio é ferido de morte no combate de Caxias. Por fim, os últimos redutos sâo atacados. (íosme mantém a resistência, até ser preso e enforcado (set/1842) em Itapicum-Mirim. Cal­ cula-se em 5 mil o total de mortos. 0 barão de Pamaíba ordena execuções em massa no Pl: “Sejam estuporados [mortos] esses tratantes, nâo tenho onde guardá-los". Lima e Silva passa a brigadeiro e nobre (barão de Caxias). Revolução Liberal de 1842 ■ Com objetivo mais restrito, definido e institu­ cional, 0 movimento dos liberais de SP e MG visa der­ rubar 0 ministério conservador de Bernardo da Veiga. 0 Gabinete Palaciano (23/3/1841) que A. Carios chama "oligarquia* reverte o avanço liberal da Maioridade [4.1]. Faz votar as 'Leis Reacionárias' (retomo do Conselho de Estado, reforma do Código Civil, reforço da polícia) e dissolve a Câmara dos Deputados (1®/5/184t). Os libe­ rais retornam às associações semi-secretas (Clube dos Patriarcas Invisíveis), articulam protestos da Assembléia Provincial de SP e de Câmaras Municipais de filG. 0 governo suspende os vereadores de Barbacena por da­ rem feição política a uma Câmara que deve ser apenas administrativa. Os liberais do RS já estão em armas com razoável êxito [4.4;; os de SP e MG, mesmo sem o arrou­ bo dos gaúchos, decidem seguir-lhes o exemplo. ■ A Revolução começa em Sorocaba. SP (11/5/1842): proclama presidente provincial interino ao brig. Rafael Tobias de Aguiar |1795-1857), o Reizinho. forma grupos, publica manifestos, realiza marchas e contramarchas; chega até a ponte do i. Pinheiros, mas não ousa atacar a capital; recebe a adesão de várias Câmaras e do exregente pe. Feijó ;411. A Corte reage rápido: envia a Santos 0 vapor Ipiranga, com tropas sob comando de Caxias. Estas vencem a Coluna Libertadora no combate de Venda Grande (6/6) e a 21/6 Caxias entra em Soroca­ ba. Tobias de Aguiar foge para o RS, onde se une aos far­ rapos. Permanece em armas o vale do Paraita, aié as vitórias legalistas em Areias (21-24/6) e Silveiras (12/7). ■ 0 levante de Barbacena. MG (10/6/1842) apóia o mo­ vimento paulista sem saber da derrota decisiva de 4 dias antes. A Câmara e o batalhão da Guarda Nacional acla­ mam presidente interino a José Felidano Coelho da Cu­ nha, que tende à moderação. Já Teófilo Ottoni [4.1], após arriscada viagem do RJ a MG, defende maior radlcalidade. 0 govemo interino se transfere para S. Joâo Del Rei e Queluz, mas também reluta em atacar a capital; 3.300 liberais se fortificam em Sta. Luzia, onde são derrotados por 2 mil soldados do barão de Caxias (20/8). Os mortos, em SP e MG, não chegam a 200 de cada um dos lados. ■ Conseqüências. 0 governo não trata os vencidos como a "infame horda de anarquistas e canibais seden­ tos de sangue’ que sua propaganda descreve. Eles são julgados, postos em liberdade e incluídos numa anistia Imperial (14/3/1844). Caxias toma-se herói do Impéno, conde, festejado por 3 dias. Oe volta ao ministério, 5 meses depois, os liberais não revogam as leis rea­ cionárias' que combatiam

Cronologia 15/5; Fundada a Academia de Ciências Jurídicas e Sociais de Olinda (h. Fac. de Direito do Recife) 16/5: Levante da tropa no Porto (Portugal) contra o golpe absolutista do rei Miguel I 12/6: Levante dos mercenários alemães e irlandeses, esmagado ao fim do dia, no RJ 27/8: Acordo Brasil-Argentina reconhece a República do Uruguai como estado-tampão independente e fixa limites do RS 18/9: Criado o Supremo Tribunal de Justiça 1/10: Lei despolitiza e submete as Câmaras Municipais 10/12: A polícia da BA aprova estratégia de repressão a rebeliões de escravos • Repressão a escravos e quilombos em Ilhéus. BA

1829 5/3: Organizado o serviço dos Correios 23/4: As tropas brasileiras deixam Montevidéu 2/8: Pedro I casa-se (por procuração) com a princesa Amélia de Leuchtenberg, 17 anos, e rompe com a marquesa de Santos 15/8:1“ litografia, de L. Boulanger. RJ 23/9: Liquidação do 1“ Banco do Brasil, por inadimplência 1/10: Reorganização, descentralizadora, dos municípios 17/10: Festa das bodas do imperador, RJ 3/12:1® exposição de Belas Artes. RJ 4/12: Novo gabinete, montado por Bartjacena • Eleições parlamentares • 1' antologia de poetas brasileiros • Martius publica a Flora Brasiliensis • 0 socialista utópico R. Owen funda a colônia de New Harmony • 0 Novo Mundo Industrial e Societário, de Charies Fourier 1830 30/1: A administração da cidade do RJ passa da Intendència de Polícia à Câmara 28/2: Um desconhecido a cavalo mata o vise. de Camamu. presidente da BA 10/4: Sublevaçào de escravos em Salvador; 50 mortos. 41 presos, fugas em massa 27-29/7: Revolução Liberal na França; fim da Restauração: Luís Filipe é o rei burguês 14/9: A noHcia da Revolução de Julho na França chega ao Brasil 2/10: Começa a circular no RJ o jornal Repúblico, de Borges da Fonseca 2/10: Bartjacena. demitido do gabinete, adere aos liberais 12/10: Professores de Direito de SP se negam a festejar o aniversário de Pedro I 20/11: Lítiero Badaró mortalmente ferido a tiros e pauladas em atentado em SP: seu enterro tem 5 mil pessoas 27/11: 1“ governo de F. S. Andréa no PA 16/12:1« Código Criminal do Império, de Bernardo P. de Vasconcelos, prevê penas de morte e galés 30/12: Pedro I viaja a MG ao som de dobres de finados pela morte de Libero Badaró 1830-1842: Curso de Filosofia Positiva de Auguste Comte França • Dízimo de exportação aumenta para 12% • Viagem pelas Províncias, de A. Saint-Hilaire • 0 Brasil tem 65 jomais; auge da imprensa política (até 1850) • 1* ferrovia. Liverpool-Manchester. Inglaterra • Insurreição de Varsóvia (Polônia) contra o dominio russo • Sain-Hilaire Inicia a publicação de Viagem petas

Províncias do RJ e MG • Começa a conquista francesa da Argélia

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------ 4.6 REVOLUÇÃO PRAIEIRA ■ PE em meados do século é um baluarte da orientação reacionária iniciada pela regência de Araújo Lima [4.1], per­ nambucano e senhor de engenho. 0 clã açucareiro dos Cavalcanii-Rego Barros possui mais de 1/3 dos engenhos; uma quadra popular da época diz: “Quem viver em PE ! Deve es­ tar desenganado / Que ou há de ser Cavalcanti / Ou há de ser cavalgado". 0 comércio está na mão de estrangeiros, em es­ pecial portugueses (marotos, marinheiros), também especu­ ladores e usurários. 0 longo govemo de Francisco Rego Bar­ ros (1837-1844), barão (d. vise. e conde) de Boa Vista, conso­ lida este domínio. Os Cavalcanti-Rego Barros tomiam "uma espécie de Bastilha que foi preciso a Revolta Praieira para de­ molir (Q. Freyre); controla tanto o Partido Conservador (baronista, adepto do barâo de Boa Vista) como do liberal (luzia [4.1]). ■ 0 Diário Novo. A massa crescente de pobres livres (molambistas, esfari^ados, proletários, no dizer da época), arte­ sãos, padres, militares e intelectuais passa à contestação pa lítica e também social da elite agrário-mercantii. Tem como principal porta-voz, após 1842, o Déiio Novo (em oposição ao velho, O Dério de Pemambuco, conservador). Seu redalor, Jo-

Sé Inádo de Abreu e Lima jl 796-1869], filho do pe. Roma [3.3], oficial de Bdivar na Guerra de Independência [2.10], historia­ dor e polemista. Seguenvse periódicos ainda mais ousados: 0 Guarda Nacional, 0 Nazareno. A Voz do Brasil. Situado na rua da Praia. 55. o Diário Novoinspira adeptos, os praieiros, e uma dissidência antibaronista do Partido Liberal, a Praia. ■ A Praia radicaliza a tradição liberai de PE [3.3-6], for­ mando um quase-partido de forte apelo popular. Elege (1844) uma sólida maioria na Assembléia de PE. Seu líder. dep. Joaquim Nunes Mactiado [1809-1849], tem forte prestigio. Uma cisão à direita cria (1847) a Praia ftova. de Sousa Teixeira (d. barão de Capibaribe). A ala esquerda, os 5 mil, do frade João Capistrano de Mendonça e do jornalista Inácio Bento de Loiola. reúne a massa popular da “esfan^pados e molambos'. 0 advogado e jomalista Antonio Borges da Fonseca [18081862). 0 Repúblico [3.9]. alega só ter compromissos com o povo para criar, com Barros Vulcão. A. Albuquerque Melo. Inácio Bento de Loiola, uma força independente que disputa com a Praia o comando da revolução. ■ As concepções praieiras vão bem além do usual entre os liberais de esquerda do Império. ‘Pregou-se o comunis­ mo. a lei agrária; fez-se acreditar que os bens de certa clas­ se de proprietários deviam ser repartidos pelo povo", diz o barão de Itamaracá, seu oponente. Antonio Pedro de Figuei­ redo (1814-1859). fusco (mestiço), erudito, denuncia na re­ vista Progresso (pseudônimo Abdalah-el-Kratif) os latifun­ diários, “estes novos barões feudais': "IVIaiai o despotismo na pessoa da grande propriedade territorial". E Indaga: Xlue são as reformas políticas sem as refonnas sociais? Uma máscara e nada mais". A l^lssáo Francesa de L. L, Vauthier (engenheiro, constoilor do teatro Sta. Isabel) traz da Europa 0 socialismo de Fourier e outros. Os praieiros também são federalistas (“Esta centralização no Rio de Janeiro é uma máquina de revoluções". Abreu e Uma). Pregam o fim do mo­ nopólio português sobre o comércio (Nunes Machado apre­ senta uma lei neste sentido) e do recrutamento forçado. A in­ fluência republicana é forte e crescente, mas não absoluta. ■ A Praia sobe ao governo ao arrarvar do gabinete liberal de 1844 a indicação de Antonio P. Chichorro da Gama [18001887] para presidir PE (1845-1848), Chichorro desmonta a máquina baronisla, agora chamada guabiru (um tipo de rato, ou ladrão): a polícia devassa engenhos com escravos rouba­ dos como 0 Pindobinha, de um chefe consen/ador Agitações anti-lusas ("fecha-fecha”, “nwta-marinheiro" ou “mata-mata"). 0 Diário Novochega a 2 mil exemplares. Aluta recrudesce sob 0 Impacto da Revolução de 1848 na França. Mas a derrota das barricadas de junho pelo gen. Cavaignac reverte a tendência; no Brasil, ajuda a queda os liberais e a volta ao govemo do ccnsen/ador e pernambucano vise. (d. marquês) de Olinda. ■ A queda de Chichorro (19/4/1848), exonerado pelo novo gabinete conservador, provoca a revolta. Seguem-se 6 presi­ dentes provinciais em 7 meses, todos denubados pela agita­ ção em alta. 0 último deles, H. Ferreira Pena, inicia substitui­ ções em massa na máquina de govemo. Surgem grupos ar­ mados em várias cidades; em Olinda, um deles, integrado pe­ lo cel. e espoleta (agente provocador) Almeida Guedes, inicia a luta annada no aniversário da Sabinada (7/11 [4,3]). Há ade-

sões em PE inteiro, até o sertão (Floresta. Pajeú das Flores). Fomia-se forte núcteo de guerrilha nas malas do Catucá. 0 foco rebelde de Água Preta tem por líder o cap. de artilharia Pedro Ivo Veloso da Silveira [1811-1852], neto de um republi­ cano de 1817 [3.3], ex-combatente contra a Cíabanagem [4.2]. ■ A rebelião surpreende os dirigentes da Praia, que gos­ tariam de “responder às provocações com a legalidade" e só em fins de 1848 decidem "acompanhar" o povo em armas. Sem plano ou comando, é uma explosão espontânea. Eficaz na guennlha (guerra brasílica [2.5]). comete erros militares por carénda de direção estratégica e rejeita várias propostas de seu mais talentoso comandante, Pedro Ivo. A direção po­ lítica, cada vez mais enfeixada por Borges da Fonseca, bus­ ca consolidar um tipo de frente democrática (incluindo mo­ narquistas liberais) com sentido social e base popular. Em 22/1/1849 a revolução fomna seu diretório (com os deps. praieiros Peixoto de Brito e Antonio /«onso, o ten.-cel. Moreira de Moraes e Borges da Fonseca) e seu exército, com ± 2 mil combatentes, sob comando de Félix Peixoto de Brito e Melo. ■ 0 Manifesto ao Mundo (3(V12/1848). redigido por Borges da Fonseca e assinado por vários chefes rebeldes, sintetiza a platafomia do movimento: “Protestamos só largar as amoas quando virmos instalada uma Assembléia Constituinte" para realizar: 1) voto livre e universal; 2) plena liberdade de im­ prensa; 3) *0 trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro"; 4) resenra do comércio a varejo para os brasilei­ ros; 5) independência dos poderes; 6) extinção do Poder Mo­ derador 7) federação; 8) reforma do Judiciário, direitos indivi­ duais garantidos; 9) extinção da lei do juro convencional; 10) fim do sistema vigente de recnjiamento. A direção da Praia considera o texto "uma farsa' dos guabinis e opóe-lhe uma série de artigos no Diário Novo. semelhante à platafomia do Manifesto mas com o caráter de reivindicações ao Império. ■ A reação guabiru tem apoio do Rio e ajuda militar de AL, PB, CE e BA. De Salvador vêm o novo comandante das ar­ mas, brig. J. Joaquim Coelho (português, d. barão da Vitória, célebre pela repressão à Sabinada, onde consta que atirou prisioneiros às chamas) e o novo presidente, Manuel Vieira Tosta (d. marq. de Muritiba). o Cavaignac Brasileiro. Após a posse deste (25/12), o DiáiwAtovo comenta que ele "não veio para concSiar, veio como capanga'. p M fazer de PE "unra presiganga (navio-prisão) ou um cemitério". Os legalistas di­ vulgam um aviso pondo a cabeça dos ctwfes "anarquistas" a prêmio (3 contos de réis e o perdão de qualquer crime). Man­ tém controle do Recife e vencem algumas batalhas (Muçupinho, 14/11/1848); porém não conseguem dominar o Interior. ■ 0 ataque ao Recife (2/2/1849). confomte um plano nniStarmente controvertido, é a mais ousada iniciativa da Praia. Duas colunas avançam sobre a capital; sâo formadas por Tiomens do campo, descalços, matutos, maltrapilhos, de ceroulas e ca­ misolas. cofda e machadinhí'. A do Sul (Pedro Ivo coman­ dante, Borges da Fonseca secretário) drWa a expedição lega­ lista de Joaquim Coelho, entra pelos Afogados, chega a amea­ çar 0 palácio do Govemo mas é detida na travessia da ponte da Boa Vista. A do Norte (Féfa Peixoto) se detém no combate ao quartel da Soledade, onde Nunes Machado morre, e nào permite a junção dos atacantes. Ao Itmde todo umc6ade com­ bate, ambas recuam, com pesadas baixas, muitas por afoga­ mento. Após a derrota, aumentam as deserções e cisões entre os rebeldes, em especial os praieiros moderados; os republi­ canos ganham espaço, mas num movimento já em dedlmo. ■ A Coluna do Norte segue com Borges da Fonseca até Areia, PB. onde é detida, retoma e se dispersa. 0 Repúblico tenta reorganizá-la no Catucá. mas é preso (30/2) no paiol da fragata Constituição; condenado à prisão perpétua com 36 companheiros (17/8/1849) pelo juiz Nabuco de Araújo (pai de Joaquim Nabuco [5.7]), todos levados a Fernando de No­ ronha (que Inicia sua saga de llha-presídu) e anistiados em 28/11/1851. Mais de 2 mil praieiros são recnjtados à força. ■ Pedro ivo mantém a Guerra das Matas nas serras do Jacuipe (onde antes foi Palmares [2.4]), de onde realiza incur­ sões. Só em 1850, aconselhado pelo pai e com promessa de anistia plena, entrega-se na BA Atraiçoado, preso, levado à fortaleza da laje (RJ), foge num escaler e embarca para a Eu­ ropa num navk) italiano. Morto do coração (seu corpo é joga­ do ao mar ao passar pela costa da PB), a poesia culta e popu­ lar nordestina o consagra como o mais célebre chefe praieiro.

Cronologia 1831 1/1: Entra em circulação o jomal C orreio ConsUtucionai Cam pista

11/3: Pedro I volta de MG. recebido com frieza pelos brasileiros e com festa pelos portugueses 14/3: "Noite das Garrafadas"; choque portugueses-brasileiros no RJ 19/3: Gabinete Brasileiro do vise. de Goiana. liberaiizante S/4: “Gabinete dos marqueses" (marq. de Inhambupe). autocrático 6/4: Protesto público exige a volta do gabinete liberal 7/4: Pedro I abdica ao trono do Brasil; Pedro II herda o trono, aos 5 anos; retorno do Gabinete brasileiro 7/4: Deputados e senadores escolhem a Regência Trina Provisória e pedem moderação ao povo que se manifesta 7/4: Volta ao governo o tvlinistério Brasileiro (de 20/3-5/4) 7/4: 1* execução do Hino Nacional, oficializado em 20/1/1890 13/4; O ex-imperador deixa o Brasil rumo à França na fragata inglesa Volage 3/5: Instala-se a Assembléia Geral 19/5: B. Medeiros funda no RJ a Sociedade Defensora da Liberdade e Independência 2/6: Levante liberal no 24® Batalhão, PA 5/6: Lei repressiva permite formar milícias com cidadãos-eleitores (abastados) 14/6: Lei retira da Regência o poder de dissolver a Câmara e suspender garantias constitucionais 11/6: Batista Campos funda a Sociedade Filantrópica, partido dos cabanos no PA 17/6: Deputados e senadores elegem a Regência Trina Permanente 6/7: Diogo Feijó ministro da Justiça 12/7: Revolta do 26» Batalhão, RJ. deflagra a Crise de Julho 14/7: Tropa e povo do RJ sublevam-se por maior radlcalldade na liberalização (novo governo. Constituinte) 22/7: Feijó anuncia o restabelecimento da ordem no RJ após a Crise de Julho 27/7: Projeto de J. Bonifácio e Alves (nào aprovado) Branco concede direito de voto a mulheres viúvas e separadas 17/8: 0 Batalhão Sagrado (só de oficiais) de L. A. Lima e Silva reprime o levante 17/8: Começa a circular em Maceió o jornal íris Aiagoense. 1» de AL 18/8: Lei cria a Guarda Nacional; extintas as Milícias e Ordenanças 30/8: Feijó reduz de 30 mil para 10 mil os eletivos militares na Corte, por temer novas sublevações da tropa 7/9: Levante do Batalhão de Artilharia da Marinha no RJ 14/9: Levante da tropa no Recife, PE, sufocado às custas de 300 praças mortos 28/9: Revolta dos Tiros no Teatro, RJ 6/10: C. Barata, prisioneiro, subleva a tropa do forte da Ilha das Cobras, RJ 27/10: Lel de “abolição definitiva" da escravidão e servidão de indígenas 27/10: A Faculdade de Direito de São Paulo forma seus 51“ bacharéis 7/11 : Lei que proibe o tráfico de escravos. totalmente desrespeitada • Surge no RJ a Sociedade Gregoriana (do abade revolucionário francês H. Grégoire) para revoltar a escravaria • Revolta dos operários tecelões toma por 10 dias a cidade de Lyon, França • Revoluções liberais no norte da Itália, esmagadas pela Austria-Hungria

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Cronologia

4.7 ECONOMIA; PRIMORDIOS DO CAFE ■ 0 coffea arabica, arbusto natural da Etiópia, é levado à Arábia nos séculos 13-14. Sua semente torrada e moída produz uma infusão estimulante e muito apreciada. Meca tem casas de café desde o século 16; na Europa, a 1* sur­ ge em Londres, 1652. Holanda e França introduzem o cul­ tivo em suas colônias americanas no início do século 18. ■ As 1" mudas e sementes ctiegam ao Brasil (1723) con­ trabandeadas pelo sarg.-mor Francisco de Meto Palheta, que as recebe da esposa do ^vemador da Guiana France­ sa (versão controvertida). Cultivado e exportado no PAe MA, passa ao RJ (1760) e se expande paulatinamente pelas fa­ zendas (é plantado nos engenhos de açúcar do litoral, e até na atual floresta da Tijuca). Toma conta em especial do vale do Paraíba, antes de ocupação caipira rarefeita e precária, expulsa com a valorização da terra. Gera um fluxo migrató­ rio vindo do Rio, SP, antigas catas de ouro de MG; e novos centros urtanos (Barra Mansa, Vassouras. Paraíba do Sul). Atinge terras vizinhas de MG, ES, SP Em 1822, já justifica a inclusão de um ramo de café nas Armas do Império. A ex­ pansão ganha impulso ao atingir SP (1830), já toda vottada para a exportação e nâo para o consumo direto. Na década de 1840 0 café entra com 40% de todas as exportações e o Brasil toma-se o maior produtor mundial. É ele que supera longa crise que reduzira a renda per capita dos brasileiros em ao menos 14% na 1®metade do s. 19 (Celso Furtado). ■ A primitiva fazenda de café adapta o modelo do enge­ nho de açúcar [2.3]. A mata atlântica é destruída em vastas derrubadas e queimadas. 0 cultivo é mais exigente que o da cana, embora o beneficiamento seja mais simples e o investi­ mento menor As mudas, plantadas em filas, exigem freqüen­ tes carpas e demoram 4-5 anos até a 1- colheita; alcançam seu auge aos 12-15 anos (até 1 alqueire, ou 36 Its, por safra) e depois declinam. A coleta é manual, com um lençol de pano estendido sob cada pé; o café é peneirado (para retirar impu­ rezas), selecionado, levado à sede em cestos, seco em terrei­ ros de terra batida, lavado, despolpado, classificado, ensaca­ do e transportado até os portos em tropas de burros. A fazen­ da tem senaria, carpintaria, marcenaria, olaria, fotja, ferraria de animais, fiação e tecelagem de algodão e lã, alfaiataria, sapa­ taria, lavanderia, cozinhas, cocheira, enfennaria, currais, pas­ tagens. criai^o de bois, porcos, ovelhas, aves. canavial, miIharal. mandiocal. arrazal. plantações de feijão, amendoim, anil, mamona (para óleo de iluminação). Quase autárquica (até os anos 1850). seu senhor se orgulha de produzir tudo que precisa exceto sal, ferro, pólvora, chumbo. 0 sistema é típioo da pfaniafoncotonial [2.3]: latifúndio, monocultura, escravidão. ■ 0 trabalho escravo domina por inteiro esta 1* fase. Uma fazenda de café pode ter 400,500 e até 2 mil escravos (08 maiores engenhos mal passam de 200 escravos), que constituem 50 a 73% do investimento, e bem mais que isto após 0 fim do tráfico. É de cativos a maior parte da população de Vassouras. Cantagalo. S. João do Principe. Valença. Piraí. Bananal. Areias. Campinas (Censo de 1872). Os enxadeiros do eito trabalham 14 a 18 hs. na safra; trabalhadores espe­ cializados e dométicos são de 33 a 50% da escravaria adul­ ta; 0 transporte sena abaixo no lombo de burros ocupa 20% da mão^e-obra. Em 1841-1850 a região do café importa 371 mil escravos, da África e do Nordeste e MG. onde as crises do açúcar, algodão e ouro criam excedente de braços; nesta época um cativo se paga em um ano de trabalho. A venda em massa de cativos contribui para encerrar o dclo das insur­ reições da escravaria no Recôncavo Baiano [4.3]. ■ A oligarquia do café concorre com os sentiores de en­ genho em opulência, poder político e prestigio na Corte (o imperador concede títulos de nobreza a inúmeros barões do café). 0 cafeicultor Joaquim José de Sousa Breves che­ ga a 1er 6 mil escravos que lhe sustentam o fausto (cons­ trói na fazenda de Olaria uma cópia em mámiore de Garra­ ra do palácio italiano do Podestá; e seleciona escravas brancas e alouradas num criatóno na Marambaia). ■ SP às vésperas do surto cafeeiro é a 5° província em po­ pulação (após MG, BA, RJ. PE). Sua capital, com 9,4 mil ha­ bitantes (1836), é menor que Niterói, Fortaleza, Cuiabá ou S. Luis, Um incipiente progresso económico se apóia tanto no comércio de bois e mulas do Sul [2.8] como na cana que ga­ nha impulso ao galgar o planalto e instalar-se no “quadrilátero do açúcar (Itu-Porto feliz-PiracicaDa-Sorocaba-Jundíaí-Can;)-

pinas) Mas até a chegada do trem de ferro [5.3] a lavoura do planalto arca com o ônus das impraticáveis comunicações por terra A mais de 40 léguas (264 km) dos portos, os ^stos com transporte inviabilizam a agricultura para exportação. ■ Os 1“ cafezais paulistas surgem no vale do Paraíba, como protongamento da área cafeeira fluminense (Bananal é 0 maiof produtor da provincia até 1854). 0 processo produti­ vo é o mesmo e as exportações escoam pelo porto do Rio. Em 1852-1857 o Rio exporta 92% do café btasüeifo; Santos, 6% (a primazia só se inverte em 1890). ftes os cafezais che­ gam a novas áreas que dão a SP um peso crescente. ■ Surgem 3 áreas cafeicultoras distintas em SP. 0 “Norte' (vale do Paraíba), semelhante ao RJ, decai com o esgotamen­ to da terra, erosão, desertificação, fazendas em ruínas, ‘ddades mortas’ (M. Lobato). 0 tteste Velho’ (Campinas. Jiíidiai'. üníieira. Rio Claro) troca a cana petocafé na década de 1840; racícaliza a monocultura (o feçãoencarece 2.500%e SP em 1850 passa a importar açúcar, antes seu prindpal artigo de expor­ tação); apóia-se notrabalho escravo, que defenderá opondo-se ao fim do tráfico ;i.8; e à áaolição [5.7], mas também importa as 1” levas de colooos europeus [5.6], 0 “Oeste Novo' (ao norte de Casa Branca), imensa mancha viigem de 3.200 krrf de terra roxa [5.4j, ao ser desbravado produz um novo fipo de fazen­ deiro, livre da tradição dos engenhos, sem-empresarial, adep­ to da mecanização, morando na cidade e usando colonos eu­ ropeus no lugar de escravos. fAjítos não tân tradição agricda, aplicam no café o dinheiro que acumularam no conwrao. trafi­ co negreiro ou tnopa de burros. Em 1855 SP tem 55 nfi escra­ vos e 62 mil coloris e outros trabalhadores Svres em 2.618 cafezais. 0 que hoje se conhece como Oeste Pauísta será até 0 século 20 terra incóçfirta, “habitada por índios bravios". ■ Os contratos de parceria, engajando imigrantes, ga­ nham ímpeto com a alta do preço dos escravos, em especial após 0 fim do tráfico;4.8], Seu pioneiro é o senador e ex-ministro Nicolau Vergueiro [4.1], ftieral, preso em 1823 [3.6] e 1842 [4.5], repiilicano, abdiconista Financiado pelo govemo, ele instala (d. 1847) 206 famílias alemãs, suíças e portuguesas em suas fazendas Ibicaba e Angélica (em Limeira). 0 contrato se­ gue 0 sistema do indenture (endividamento), multo usado na América do Norte: o colono se compromete a trabaíiar para o empregador até pagar as despesas da imigração. A relação é de parceria ou meia: o colono dMde ao meio com o fazendei­ ro a produção que otjtivef. Recebe também uma casa de paua-pique e uma gleba para cultiwjs de subsistência. As despe­ sas contraídas no barracão da fazenda são anotadas na ca­ dernetas e debitadas na dívida 0 sistema permite trazer uma família inleira da Europa peto preço de um único escravo; e re­ duz em 75% a mão^JeK)bra usada na vigilância da plantação. A Cia. Vergueiro passa a fornecer imigrantes a dezenas de cafeioultores, Há tegistio de cotonos venddos no mercado me­ diante o pagamento de suas dívidas ao antigo empregador. ■ A revolta dos colonos de Ibicaba (24/12/1856) expõe o lado conflituoso da parcena. Os 93 cotonos suíços e alemães da fazenda-modeto de Vergueiro queixam-se de que “uma no­ va escravidão nos submergiu", da violação ou detuipaçào do contrato, multas abusivas, censura á correspondência, pri­ sões artxtrárias. Fazem um abaixo-assmado e chegam a pe­ gar em atmas para que o govemo e o consitódo suíço averi­ gúem suas denúncias. Granjeiam apoto de outros colonos, conseguem a investigação e a satistação de algumas das rei­ vindicações (9/3/1857). 0 epsódto é tema do livro Memórias de um Colono no Brasil, do mestre-escola suiço e líder da re­ volta Thomas Davatz. 0 livro de Davatz e outras denúncias alimentam uma campanha na imprensa européia que leva a reclamações diplomáticas e chega a intenomper a migração de alemães (1859). No Brasil, o sistema de Vergueiro em pou­ cos anos é substituído, nâo peto retomo à escravidão, mas por um pagamento fixo, de 500 a 600 réis por alqueire (36 Its.) de café colhido, ou peto salariato. ■ A prosperidade cafeeira cria a base para a estabiMade do regime imperial, centralizado o escravisa [4.1]. 0 açúcar e o algodão, em crise frente à concorrência com as Antilhas e Sul dos EUA, atiçam rebeldias; já o café em expansão ampara o regime: o RJ assiste impassível às revoltas e revoluções regenciais. Formará, com SP e MG (tambémprovíncias cafeicul­ toras). a base política cb fastígio e da relativa calma interna que vai até o fim da Guerra do Paraguai [55].

• V. Hugo publica Noire Dame de Paris 1832 10/2; O duque de Bragança (ex-Pedro I) ataca seu irmão Miguel I, rei de Portugal 12/2: A Guarda Nacional (2 mil peões, 400 cavaleiros) desfila no RJ 16/2: Motim militar liberal em Salvador, BA 19/2: Insurreição federalista toma o poder em Cachoeira. BA 3/4-17/4: Revoltas restauradoras nos fortes de Villegaignon e Sta. Cruz, RJ 4/4-S/7: O jovem Charles Danwin aporta no RJ a bordo do Beagle e se horroriza com a escravidão 14/4: Abrilada, rebelião liberal em PE 30/6: Crise de govemo: ensaios de renúncia do gabinete e da regência; queda de Feijó 13/9: Gabinete Honório H. Carneiro Leão Setembro: Circula em Estância o R ecopilador Sergipano, 1®jornal de SE 12/10: Lei liberaiizante aprovada com apoio moderado prenuncia o Ato de 1834 23/10: Soldados da capital da PB se rebelam contra os baixos soidos 14/11:1* linha de bonde, ligando o Hariem ao centro de Nova York, EUA 29/11: Publicado o Código do Processo Criminal; juiz de paz eleito: tiabeas-corpus • Maria Josefina Durocher, i- mulher brasileira formada em medicina (obstetrícia) • A Inglaterra se apossa das ilhas lulalvinas (Falkiands), pertencenies à Argentina • Circula O Piauiense, 1®jornal do Pl • J. W. Goethe conclui seu Fausto Princípios; Tem início a Guerra dos Cabanos de AL-PE. revolta dos índios do Jacuípe contra o recrutamento forçado 1833 22/3; Revolta militar consen/adora em Ouro Preto. MG 22/3: Eusébio de Queirós, chefe de polícia 24/7: O ex-imperador Pedro I toma Lisboa de seu irmão Miguel I 11/8: Os caramurus fundam no RJ a Sociedade Militar, pró-retom o do Podro I

Agosto; Abolida a escravatura em colônias britânicas, mediante indenização de 20 milhões de libras aos proprietários 12/10; Lei liberaiizante com apoio moderado prenuncia Ato Adicional de 1834 4/12; Govemo de Lobo de Sousa no PA 5/12: Manifestantes exaltados promovem quebra-quebra na Sociedade Militar e prendem o restaurador José Bonifácio • Seca no Nordeste • Os estados alemães criam a uniâo aduaneira Zollverein • 1“ lei sobre o trabalho nas fábricas inglesas 1834 16/1: 1* Carneirada, rebelião popular chefiada peloa irmSos C arneiro em Recife

3/2; Basílio Torreão, retielde de 17 e 24, funda O A teneu, 1®jomal Impresso no RN 26/5; Capitulação de Évora em Portugal; vitória final do ex-imperador Pedro I sobre seu inmão Miguel 1 30/5; Movimento mata-marinheiro (português) em Cuiabá. MT 11/6; Proibido o trânsito de veículos (afora seges) perto da Câmara dos Deputados durante as sessões 6/8: Ato Adicional estabelece a regência una de 4 anos: eleita, suprime o Conselho de Estado e cria o M unicípio Neutro da Corte

9/9: Surge a Sociedade Assinantes da Praça (h. Associação Comercial) do RJ 24/9: Pedro I (IV de Portugal) morre tuberculoso no palácio de Queluz, Lisboa 27/10: Conselho de Acará-Açu faz apelo às armas: início da Cabanagem

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4.8 ESCRAVIDÃO TARDIA / FIM DO TRAFICO NEGREIRO ■ A Inglaterra converte-se ao antiescravismo. Até fins do século 18, domina o tráfico negreiro [2.5] e possui o monopó­ lio do comércio de escravos para a América espantiola. Er­ gue com 0 tráfico o porto da Liverpool e emprega nele 132 navios (1792). A busca de mercados pós-Revoluçào Indus­ trial leva-a a inverter sua atitude. 0 1'-ministro W. Pitt II esti­ mula 0 Comitê Antiescravidâo (1787). Ao abdir a escravidão, 0 Império Britânico (1833) indeniza os sentiores com 20 mi­ lhões de libras. Mas. desde a lei antitráfico (1808), pressiona em especial o Brasil (1- importador mundial de escravos) pa­ ra que siga sua orientação. Após 1837, emprega a armada de guerra para policiar os mates e reprimir os tumbeiros. ■ A condenação formal do tráfico, sob pressão inglesa, vem da fase colonial: att. 10 do tratado luso-brítãnico de 1810 (3.21; padrão “tiumanitário’' nos navios (1813); novos acordos com a Inglaterra (1815-1817); multa e degredo para trafican­ tes ao norte do Equador (1818): decreto imperial (1827) de extinção do comércio em 4 anos. Puras formalidades. A lá da Regência (7/11/1831) proibindo importar cativos é ignorada por completo (excoto em SE do presidente Ribeiro da Silva) e quase revogada. 0 avanço do café [4.7] traz 1,7 miltião de cativos na 1* metade do século 19, no ritmo recorde de 34 mil por ano. Os escravos p a s ^ de 1,1 miltião em 1823 para 2,5 miltiòes em 1850. Na iminência da proibição o tráfico se inten­ sifica ainda mais (257 mil escravos em 1846-1850,81% deles para o Sul-Sudeste). “Quase toda a população do Império’ (Cotegipe) apóia o contrabando de fò le ^ (conno se chama aos cativos). Asociedade escravista julga o trabalho indigno de um homem livre: aluga-se um negro até para levar "1 lápis de cera para lacrar e 2 penas” (J-B. IDebret). ■ Os traficantes amealham fortunas no Brasil e África. Domingos Martins tem casas montadas na Costa dos Escra­ vos, Recife e Salvador. No Rio, o português Manoel Pinto da Fonseca de tão rico torna-se conhecido como novo MonteCristo (do Romance de Dumas); será expulso em rumoroso episódio. Francisco Félix de Sousa [1754-1849], piloto baiano mestiço, aportado na África em 1803, forma a maior fortuna do Daomé; intimo do rei Ghezo; recebe titulo de nobreza (xaxá) e govema Uidah (Ajudá). Toda uma parte da costa afrh cana (inclusive Lagos) se baianiza, sobretudo após o retomo (1845) de várias famílias de ex-escravos alforriados na BA. ■ 0 decreto (ou tarifa) Alves Branco (17/5/1843, toma o no­ me do vise. de Caravelas, min. da Fazenda na época) eleva a taxação dos importados para elevar a arrecadação, incentivar à embrionária indústria e ao trabalho livre no Brasil (Um povo sem manufatura fica sempre na dependência de outros po­ vos”, diz seu autor). Para isso, eleva para 30% o imposto so­ bre importados, chegando a tarifas maiores quando o artigo tem similar nacional: panos finos ingleses pagam 40-50%: te­ cidos grosseiros, 60%: mas isenta matérias-primas e bens de produção (a isenção para máquinas a vapor é total). A tarifa alimenta a polémica (em curso até hoje) entre protecionistas e liberais (12.1); estimula embriões de indústrias [5.3]; porém seu efeito mais sensível é a não renovação (9/11/1844) do velho tratado comercial com a Inglaterra [32]. Dez meses de­ pois 0 Parlamento londrino aprova a Lei Aberdeen. ■ A Lei (Bill) inglesa Aberdeen (8/a'1845) dá fomia final ã radicalização de Londres no combate ao tráfico: visa sobretu­ do ao Brakl, em parto como revide às tarifas. Pelo biU. a arma­ da britânica arroga-se “o diroHo e o dever” d« apresar qualquer embarcação que conduza escravos, sem considerar águas terntoriais ou nomias do direito internacional. Capitão, contra­ mestre e comissário (às vezes outros tripulantes) são enforca­ dos por pirataria. Em 1837-1850 a Inglaterra apresa 634 embarcações acusadas de tráfico (para o sul dos EUA, Cuba e sobretudo Brasil); só o xaxá de Uidah perde mais de 30. ■ No incidente de Paranaguá (1/7/1850), o ouzador Cormo­ rant, que reprime o tráfico no litoral do RJ-SP-PR, viola este por­ to e apresa mais 3 ^re iro s (1850). Jovens da cidade, embo­ ra condenando o tráfico, tentam reagir e disparam os canhões do velho forte da ilha do Mel. 0 embaixador inglês James Hud­ son adverte o governo brasileiro e acena com represálias, A “questão senÁl" (como é então chamada) ganha urgénda. ■ A Lei Eusébio de Queirós (4/9/1850) toma o nome do min. da Justiça do gabinete Olinda, conservador. Em 10 artigos, re­ ferenda a de 1831: considera o tráfico pirataria (art. 4); prevê a apreensão e leilão de navios negreiros e proveito dos apresa-

dores e denunciantes, e a devolução dos cativos ã África ou seu uso peto governo (“escravos da nação"). 0 debate da lei enche as galerias da Câmara. Boa parte da opinião pObSca se opõe a ela Autoridades do Judidátio coosidetarrHia irregular. Mas desta vez a lei não é para inglês ver (expressão nascida de um episó(ío da vmda da familia real (3.1)). Apoiada pela In­ glaterra, maior parceiro comercial, credor e aliado míSar do Brasil, é cumprida apesar oa resistência de boa parte das elites. A lei Nabuco de Araújo (1854) estaoelece penas ainda mais severas. 0 tráfico, peiíeguido, usa estratagemas (troca de escravos velhos por africanos de 12 anos, idade própria para se adaptar ao eito). mas dedina. 0 último desembarque conhecido (13/10/1855), com 209 cativos de um barco p o i^ gués em Serinhaém, PE, é reprimido sob a fiscalização pes­ soal e in toco do cônsul inglês Cowper ■ 0 "africano livre" tomado dos oontrabancSstas pela poli­ da, não volta ã África. Empregado em obras pútjlicas, k)^ é requerido de empréstimo pof fazendeiros. Ai, nada o distin­ gue do cativo comum afora uma plaqueta de lata no pescoço. ■ Cónseqüências 0 lim do tráfico decreta a morte lenta do escravistix): sem ele, 0 rigor do eito e dos castigos reduz a po­ pulação cativa em 8-10% ao ano. 0 imenso capital investido no ramo (15 a 20 oontos de réis-ano) em boa parte pertence a portugueses e se evade. mas também fmancia cafezais, in­ dústrias, bancos, agiotas, obras públicas [5.6]. A cafeicuitura importa negros em massa do Nordeste [4.7], inflacionando seu preço e desarticulando pela dispersæ suas insurreições [4.3]. As fazendas do vale do Paraiba (RJ, "Norte' pauBsta), retardatárias, em terras cansadas, decaem. Banana), maior produtor de café (importa sua estação de trem da Bélgica, to­ da em ferro) e maior concentração de escravos de SP perde 97,1% de sua produção (1854-1920) e metade de seus 16mil habitantes de 1874 (hoje, 12 mil), dos quais 53% são caüvos. 0 “Oeste Velho” de SP, grande comprador de cativos, tanv bém recorre à parceria e sistemas afins [4.7]. ■ 0 escravismo tardio (C. Moura) ou desescravizaçâo (D. Freitas) (^-lei Eusébio de Queirós representa modfficações consideráveis. Antes, 0 escravismo colonial é a relação de tra­ balho amplamente dominante, embora conviva com fomiações periféricas (agregados, quilombos, comunidades indíge­ nas, os 1“ núdeos de colooos europeus independentes, pos­ seiros e outras explorações famiíares). Na 2* metade do sé­ culo 19 as relações escravistas entram em declínio relativo e absoluto, embora gradual; cedem terreno a outras, livros ou semilivres (colonato em SP, produção familiar independen­ te sobretudo nos núcleos europeus do Sul, trabalho assa­ lariado agricola e industrial), 0 assalariamento se impõe em áreas decadentes como a Zona da Mala nordestina por razões econômicas: ter escravos sai mais caro que pagar salários, imobilizando recursos necessários ao senhor de engenho em crise. Em contraste, modernas empresas ca­ pitalistas usam escravos, como a St. John d'EI Rey Mining Limited, instalada em 1830, na grande mina de ouro de Morro Velho (ainda hoje em exploração). ■ Mudam as atktudes frente à escravidão. Passam a ocor­ rer coisas inconcebíveis pelo velho padrão ético escravocrata: fazendeiros assalariam escravos fugidos de outras fazendas; na ala mais esdaredda da eíte e nas nascentes camadas mé­ dias urt»nas. forma-se a convicção de que a escravidão é um mal. A grande imigração de europeus [5.6], a Guena do Pa­ raguai [5.5] e 0 inído da industriaízação (5.^ comutarão as premissas para a campanha abolicionista e sua vitória (5.7). ■ A Lei de Terras, 2 semanas após a Eusébo de Queirós (iawi850. ao fim de 7 anos de debate pariamentar) tira do estado 0 direito de doar terras devdutas. A única forra de acesso á tena passa a ser a compra. Cai a antiga relação de ti­ po senhorial que marcara por 3 séculos a concessão das sesmarias. A tena toma-se acessível a quem quer que tenha dnheiro pata compra-la (indusive plebeus enriquecidos e imi­ grantes abastados); e fora do alcance de quem não o possui (“europeus pobres, ináos. mulatos e n e ^ fomDs', nas pala­ vras de J. Bonifácio em proposta disíributivista de 1821. jamais adotada). 0 objetivo explícito é canrear braços para as grandes fazendas, cortando o acesso ã pequena propriedade cam­ ponesa. Quem se aposse de terras devolutas é d e s p ^ , preso, multado e penje as benfeitorias. É o caminho mverso da colonização distributivista (EUA).

Cronologia 28/11: Fuzilado o cel J. Pinto Madeirai caudilho conservador do Carirl, CE 31/12; Morre em Barcarena, PA, o cônego Batista Campos, precursor da Cabanagem • H. de Balzac publica a novela O P ai G oriot 1835 7/1: Exército de rebeldes voluntários toma Belém, PA; 1“ governo cabano (C. Malcher) 16/1: Novo ministério 21/1: 2“ Carneirada, rebelião popular chefiada pelos irmãos Carneiro em Recife 24-25/1: Insurreição male em Salvador, BA; 100 mortos, 281 presos 19/2:1® bombardeio naval de Belém, PA, capital da Cabanagem 21/2: 2° governo cabano no PA (F. Vinagre) 21/2: Surge a Sociedade Filarmônica, RJ 17/3: 3- Carneirada, rebelião popular chefiada pelos irmãos Carneiro em Recife 26/3: A Vila da Praia Grande (h. Niterói) torna-se cidade e capital do RJ 7/4: Pe. Diogo Feijó eleito regente único por 2.826 votos contra 2.251 de Holanda Cavalcanti de Albuquerque 12/5: 2® t)ombardeio naval de Belém (PA) 14/5: Fuzilados em Salvador 5 líderes da rebelião de escravos malè de 24/1 10/6: Pena de morte ao escravo que mate ou moleste seu senhor, (eitor ou familiar 14/8: 2®ataque dos cabanos; Belém (PA) tomada após 9 dias de combates casa por casa; 3 ' bombardeio naval da cidade 23/8: 3“ governo cabano no PA (E. Angelim) 7/9: Nasce o Banco Provincial do CE, 2° estabelecimento de crédito do Brasil 19/9: Início da Guen-a dos Farrapos; tomada de Porto Alegre; derrubada do pres. do RS, Fernandes Braga 12/10: Diogo Feijó toma posse como regente uno 14/10:1“ barcas a vapor Rio-NIterói; a passagem custa 100 réis, escravo paga 80 14/12: A regência substitui J. Bonifácio (preso e processado) por A. S. M. Pinto Coelho (marquês de Itanhaem) como tutor do príncipe herdeiro 31/12: Tropas francesas ocupam fortim na margem direita do Oiapoque (AP) • Inaugurada a 1“ livraria de Salvador, do italiano Pongetti • Início do domínio de J. M. Rosas na Argentina 1836 9/4: Início da ofensiva militar imperial contra a Cabanagem no PA 13/5: Os cabanos rompem o cerco imperial, deixam Belém e se refugiam no interior da Amazônia; 2° governo de F. Andréa no PA 15/6: Retomada de Porto Alegre pelos legalistas; Bento Manuel, presidente do RS 10/9: Vitória farroupilha na batalha de Seival, RS 11/9: Farroupilhas de Jaguarão proclamam a República Independente do RS 4/10: Pnsào do líder fan-oupilha Bento Gonçalves no Combate do Fanfa, RS 30/10: O líder cabano E. Angelim, preso no interior, é levado a Belém 1/11: Novo ministério 6/11: Os farroupilhas proclamam na vila de Piratini, RS, a República do Rio Grande • 1« missão metodista (reverendos J. Spaulding e D. P. Kidder) • S uspiros P oéticos e Saudades, de Gonçalves Magalhães, 1’ obra romântica no Brasil • The N e w M ora l World, periódico do socialista britânico Richard Owen • Lovet cria na Inglaterra a Associação dos Trabalhadores; nasce o cartismo, 1« mov. político operário pelo voto universal

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5. IMPÉRIO II (1850-1889 I] 5.1 ESTABILIZAÇÃO DO IMPÉRIO ■ 0 Império em 1849 (ano da derrota da Praieira |4.6]) tem 27 anos de independência [3.4] e 25 de Constituição outorgada [3.6); o imperador, 24 anos de idade e 9 de trono. A monarquia constilucional-autoritária e cen­ tralizada triunfa pela força e estabiliza-se. após longo período de convulsões políticas e sociais. Perdeu a Provinda Cisplatina, de posse sempre contestada e problemática [3.7], mas interiormente assegura relativa tranqüilidade. ■ 0 regime político é em essência o de d. Pedro I, sem 0 agravante de sua índole despótica. Não há monar­ ca absoluto do tipo do século 18, pois vigora a Carta de 1824. Mas esta (e a “Constituição nâo escrita", ou "espíri­ to do regime") nâo leva à monarquia parlamentar e sim ao “Imperialismo”, termo usado de 1865 à 1* República, no sentido de concentração excessiva de poder 0 voto indireto e censitário [3.6] toma a cidadania um privilégio, pois 0 eleitorado “para escoltier bem deve ser t>em esco­ lhido". Em 1868, 0 pais tem 20 mil eleitores, eleitos por uma camada um pouco mais vasta. A reforma eleitoral (Lei Saraiva) de 1881 permite o voto de libertos e nãocatólicos, mas reduz o n® de eleitores primários; exclui escravos, mulheres, praças, mendigos, estrangeiros, reli­ giosos em regime de claustro e todos com renda abaixo de 200 mil-réis anuais. Na eleição de 1886 votam 117 mil, 1,8% da população adulta. 0 recadastramento do mesmo ano conta 145 mil eleitores. 0 voto é a descoberto, na igreja, após a missa. ■ 0 'Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo pela graça de Deus e unânime aclamação dos povos, inviolável e sagrado' chefia o Executivo e encama o poder moderador, chave de todas as instituições [3.6]: reina, governa e administra. Após 1847, d. Pedro II em tese já nâo nomeia os ministros, apenas o chefe do gabi­ nete, espécie de 1®ministro; na prática, propõe e veta nomes. Indica o Conselho de Estado (12 membros, cria­ do em 1823, extinto em 1834, restaurado em 1841), Orgâo consultivo, ao qual recorre por mera formalidade, quanto a atos do poder moderador, guerra e paz, tratados internacionais e as freqüentes dissoluções da Câmara. Indica presidentes e vice-presidentes provinciais, muitas vezes transplantados sem nenhum vinculo com a reali­ dade local (o recordista Herculano Pena [?-1867] gover­ na sucessivamente o ES, PA, PE. AM, MG, BA E MT). Escolhe os senadores. Nomeia e suspende magistrados, perdoa e modera penas, concede anistia. Indica também os bispos: 0 sistema do padroado [1.2] subordina a Cúria Episcopal e a hierarquia católica (única religiào oficial) ao Ministério dos Negócios do Império. ■ A pessoa de d. Pedro II, somando tamanhos poderes, tem influência decisiva. Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Miguel Gabriel Rafael Gonzaga reina por meio século [1840-1889]. Órfão de mãe com 1 ano, separado do pai com 5, é fechado, impessoal, paciente. Para Mitre (5.2), é “homem um tanto ingênuo e de espírito limitado. É um menino grande, sem experiência e sem talento, embora com alguma leitura, que pode dar a impressão de ciência". Mesmo cioso da imagem de Rei Filósofo acima das ríxas de partido, em tudo dá a palavra final, em geral conserva­ dora. Pessoalmente contra a escravidão (d. 1865), conduz a "questão servil" com o máximo vagar Condena, mas acata as eleições viciadas. É tolerante: choca-se com a crítica de um Teófilo Ottoni (veta-o por 6 vezes para o Senado), mas evita repressões. Admite a liberdade de imprensa. Nos súditos não desperta maiores paixões, exceto durante a Questão Christie (1862-1863), auge do seu prestigio. ■ 0 Parlamento é dominado por fazendeiros e seus filhos, na maioria bacharéis em direito (72% dos 111 de­ putados de 1852). No Senado (apelidado Sibéria) só en­ tram brancos com renda maior que 1.600 mil-réis, indica­ dos por toda vida pelo impera dor a partir de listas trí­ plices dos mais votados. É o foco do conservadorismo. A Câmara dos Deputados tem o dobro das cadeiras; renda

minima de 800 mil-réis. membros eleitos (por via indireta até 1881). 0 imperador tem o poder de dissolvê-la e o emprega 9 vezes. Ao contrário do regime pariamentar, a responsabilidade pelo govemo não cabe ao Pariamento. "0 poder moderador (ou seja, o monarca) pode chamar a quem quiser para organizar ministérios; esta pessoa faz a eleição, esta eleição faz a maioria. Eis ai o sistema representativo do nosso país’ (Nabuco de Araújo, sena­ dor conservador). Eleições viciadas chegam a produzir uma Câmara com um deputado de oposição (1850) e outra sem nenhum (1852). Os partidos Conservador e Liberal desde o fim das Regências [4.1] se alternam ou associam no govemo conforme a vontade imperial. ■ Os liberais ou luzias (da batalha de Sta. Luzia [4.5]) não são mais os rebeldes de 1835,1842 e 1848. Venci­ dos na fase anterior [4.1] e desmoralizados pelo exercí­ cio do poder de 1844 a 1848 (qüinqüênio liberal), exaus­ tos ou arrependidos, amornam; acatam a Constituição, o “espírito do regime' e tendem à conciliação. “Creio mes­ mo que nâo há nesta casa uma oposição no sentido atri­ buído geralmente á esta palavra', diz (27/5/1859) o depu­ tado Francisco Otaviano. ■ Os conservadores, ou saquaremas (da vila de Saquarema, RJ, onde fica a fazenda do líder conservador J. Rodrigues Torres, viso. de Itaboraí [1802-1872]), também São chamados emperrados e consistório (assembléia de cardeais). Afora Itaborai, têm por chefes P. J. Soares de Sousa, vise. do Uruguai [1807-1866] e em especial C. M. C. Eusébio de Queirós [1812-1868], considerado o papa do consistório. Incluem ex-liberais, até extremados como S. Torres Homem [1811-1876], d. vise. de Inhomirim. ■ A conciliação, defendida d. 1844, apóia-se na seme­ lhança de fato entre liberais e conservadores. É vista tam­ bém como “conciliação entre o principio noonárquico e o democrático" (Olinda). Após o qüinqúénio liberal e outro conservador, surge o Gabinete de Conciliação (6/9/1853), com gente dos 2 partidos, presidido pelo saquarema vise. do Paraná (e após sua morte pelo lambém consen/ador marq. de Caxias). A parceria fracassa, vitima de lutas por cargos, mas os conservadores sofrem uma cisão (1862), chefiada pelo marq. de Olinda [4.1], apelidado vice-rei por seu grande poder. Conservadores dissidentes e libe­ rais se compõem na Liga, que forma 5 gabinetes su­ cessivos. Os conservadores remanescentes passam a ser chamados puritanos, em oposição aos ligueiros, que formam (1864) o efêmero Partido Progressista. A essa altura, os 2 partidos já são considerados ‘extintos" (José de Alencar, 1865). ■ 0 golpe de 1868 (16/7); Pedro II, em parte para pres­ tigiar Caxias no esforço de guerra, leva ao govemo os consen/adores puritanos (Itaborai), embora estes sejam franca minoria na Assembléia, que é dissolvida. 0 que muitos chamam golpe imperialista provoca um manifesto liberal (Refomia ou revolução?) pela reforma do regime: poder moderador exercido pelos ministros, descentraliza­ ção, ensino livre, judiciário independente e separado da policia, Senado eleito e temporário. Sua ala esquerda (Saldanha Marinho. Quintino Bocaiúva, Aristides Lobo, Salvador Mendonça) lança no Rio (3/12/1870) o Manifes­ to Republicano [5.8): ataca a "carta outorgada de 1824". a corrupção, a centralização, "a única vontade que sobre todos impera”; propõe a federação, separação IgrejaEstado; opta pela via institucional, *as armas da dis­ cussão, os instnimentos pacíficos da liberdade’ . ■ A estabilidade é relativa, até no fastigio de 18501864. Os 36 gabinetes e as 9 dissoluções da Assembléia 0 provam (o gabinete de 1871 é chamado o Grande por durar 4 anos). A Guerra do Paraguai (1864-1870 [5.3]). traumática apesar da vitória, e o gabinete saquarema de 1868 anunciam o ocaso do Império. A imprensa satírica (Charivari, 1862) já se ocupa da corte e até do monarca, cuja 'cabeça de caju" faz a delícia dos chargistas. No fim, 0 hábito de dissolver a Assembléia provoca ácidas críti­ cas (“César caricato', ‘principe conspirador"), erodindo a imagem do monarca.

Cronologia 1837 18/3: Decreto de Feijó sobre crimes da liberdade de imprensa 20/6; Coroação da rainha Vitória (reina até 1901); apogeu do Império britânico 23/6: Surge em Buenos Aires a Asoclaciún de Mayo, socialista 10/9: 0 líder farroupilha Bento Gonçalves foge da prisão no forte do Mar, BA 19/9: Feijó renuncia; o regente P. Araújo Lima (d. marquês de Olinda), oligarca de PE, inicia fase de reação que vai até 1849 19/9: Ministério das Capacidades; B. Vasconcelos acumula Império e Justiça 11/10: 1* lei sobre o trabaltio imigrante 16/10: Assume a presidência de PE F. Rego Barros, barão de Boa Vista (fica 7 anos) 7/11: Proclamação da República Batiiense dá início à Sabinada em Salvador, BA 30/11: Den-ota militar dos sabinos em Cabrito e em Campina, BA • A polícia destrói a comunidade mística de Serra Talhada, PE, que mata crianças na Pedra Bonita para ressuscitar d. Sebastião 1838 26/1: Funda-se o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. RJ 13/3: Estréia no RJ a tragédia O Poeta e a Inquisição. 1* peça teatral brasileira, de Gonçalves de Magalhães 13/3: Ataque imperial a Salvador, BA 16/3: Capitula em Salvador o último forte a defender a República Bahiense (Sabinada) 25/3: Inaugurado no RJ o Imperial Colégio de D.P0 dro II (h. Pedro II), antigo seminário 1/4: Criada escola de agricultura na fazenda da Lagoa Rodrigo de Freitas, RJ 5/4: Morre J. Bonifácio de Andrada, auto-exilado d. 1633 em Paquetá e em Niterói, RJ 30/4: Os farroupilhas tomam Rio Pardo; mais de mil soldados legalistas mortos 30/7: E. Rafael de Can/alho lança em S. Luís o jornal Bentevi. precursor da Balaiada 5/9: Manifesto do presidente farroupilha expõe os motivos da revolução 17/10: Os franceses Martin & C. têm por 10 anos 0 monopólio do serviço de gôndolas fluminenses (coches) no Rio de Janeiro 1/11: Sotie no Uruguai o governo de F. Rivera, aliado dos farroupilhas do RS 11/12: 0 major L. Alves de Lima e Silva destrói o quilombo de Manuel Congo. RJ 13/12: Raimundo Gomes inicia a Balaiada. ao tomar a vila da Manga Iguarà. MA 13/12: Tomada da cadoia da vila da Manga Iguará dá início á Balaiada. MA • 1“ telégrafo elétrico, na Inglaterra 1839 16/4: Novo ministério 24/7: Giusepe Garibaldi toma Laguna e proclama em SC a República Juliana 1/8: Os rebeldes balaios tomam Caxias, 2* maior cidade do MA 6/9: Enforcado o chefe quilombola Manuel Congo, RJ 4/11: Anistia excepcional para os remanescentes da Cabanagem. PA 15/11: Os legalistas retomam Laguna, SC; fim da ofensiva farroupilha: G. Garibaldi a custo rompe o cerco em 3 barcos 9/12: A capital de Alagoas é transferida para Maceió 12/12:0 coronel Luís Alves de Lima e Silva é nomeado presidente do MA e chefe militar da repressão aos rebeldes balaios 20/12: Os legalistas retomam Rio Pardo, RS, dos farroupilhas 21/12: Os farroupilhas instalam seu Conselho Geral dos Procuradores dos Municípios

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5.2 GUERRAS PLATINAS---------

Cronologia 1840 3/3: Vltária legalista na batalha de Taquari. RS 15/3: José de Alencar (pai) funda em sua casa a Sociedade Promotora da Maioridade, presidida por Antonio Carlos 25/3: O último grande grupo de cabanos (980) rende-se em Luzéia (fi. Maués). AM 6/5: 1® selo postal, na Inglaten-a 12/5: Lei Interpretativa, conservadora, restringe a autonomia dos municípios 13/5: O Senado rejeita (por 18 a 16 votos) a antecipação da maiondade de Pedro II 23/5: Mudança, conservadora, do gabinete 12/7: Soc. Portuguesa de Beneficência, RJ 17/7: 0 deputado liberal T. Ottoni encabeça nova ofensiva pró-maioridade de Pedro II 23/7: Decretada a maioridade de Pedro II. imperador aos 14 anos 24/7: Gabinete Maiorista. 1®de Pedro II; Antonio Carlos, ministro do Império 15/8: 1» Salão Nacional de Belas-Artes. RJ 22/8: Anistia gcral. condicionada à aceitação do desterro no caso dos líderes 20/9: Morre Francia, ditador perpétuo do Paraguai; Carlos Antonio López. presidente 13/10: Eleições do Cacete fraudadas pela violência em todo o país 10/11: O pai de Luiz Gama, fidalgo baiano, vende como escravo o filfio de 10 anos ao comandante do patacho Saraiva 1840-1848: Forma-se a facçáo áulica ou seit.-i palaciana, que reúne conservadores e liberais comprometidos com o imperador • Provável 1* mesquita do Brasil, fomnada por negros forros no RJ • O que é a P ropriedade? do francês Pierre J. Proudhon (“A propriedade é um roubo”) • Sistema nacional de economia política, do alemão F. List, defende o protecionismo 1841 19/1: Lima e Silva anuncia o fim da Balaiada no MA, após ± 5 mil mortes 23/3: Gabinete Palaciano, conservador, de Bernardo Jacinto da Veiga; Antonio Carlos chama-o "Oligarquia" 18/7: Sagração e coroação de Pedro II 7/10: Inaugurada a 1* Escola Normal do País. em Niterói, RJ 23/11: Retorno do Conselho de Estado (abolido pelo Ato Adicional de 1834) 3/12: Reforma do Código de Processo (de 29/11/1832); mais poderes à polícia 10/12: Gabinete da "Oligarquia" suspende os vereadores de Barbacena. MG. por se oporem à dissolução da Câmara Municipal • 1‘ lel francesa sobre o trabalho nas fábncas • Goodyear (EUA) desenvolve a técnica de vulcanização da borracha 1842 27/4: 8, Paulo passa a ter iluminação pública a aceite 1/5: Decreto dissolve pela 1* vez a Câmara dos Deputados 17/5: Começa em Sorocaba, SP, a Revolução Liberal 10/7: Revolução Liberal em Barbacena, MG 7/8: Instala-se, no RJ. a Ordem dos Advogados Brasileiros 8/8: O Império nomeia Caxias presidente e governador das armas do RS, com a missão de debelar a Revolução dos Fan-apos 20/8: Batalha de Sta. Luzia, MG; vitória de Caxias marca o fim da Revolução Liberal 29/8: Tratado de Nankin; a China, derrotada na 1- Guerra do Ópio. cede à Inglaterra Hong Kong 6 privilégios com erciais

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■ A planície do Prata alvo de antiga disputa [2.6-7, 3.2-7], volla a conflagrar-se após a estabilização do Império [5.1]. Em 1851-1870, o Brasil guerreia com o Unjguai. a Argentina e aniquila o Paraguai no mais mortífero conflito da fiistóría das Américas. ■ 0 Paraguai segue um rumo próprio desde a in­ dependência (14/5/1811). Herdeiro do império jesuita [2.6], sem saída para o mar, liga-se ao mundo pelo rio Paraná, Quando a Argentina corta-lhe a saída (1813), isola-se. Seu 1' governante, José R. Francia [17661840], El Supremo, ditador perpétuo, tirano igualitarista. adepto de Rousseau e Voltaire, sob os lemas “Independência ou morte” e “Ordem e progresso” limita o comércio, recusa relações diplomálicas, proíbe a riqueza, castiga as elites, faz a reforma agrária das Estâncias da Pátria, fomenta o ensino público, erradica 0 analfabetismo. Seu sucessor, Carlos Antonio López [1790-1862], moderniza o país. abre o comércio e embaixadas, firma (1850) um acordo de defesa mútua com 0 Uruguai. 0 pais prospera (fumo, mate. arroz, cana. gado): é o mais provido de ferrovias, telégrafos e linhas de vapores na América do Sul. Cria o sistema defensivo de Humaitá e o serviço militar obrigatório. 0 filho de Carios López, Solano [1827-1870], general aos 18 anos. educado em Paris (onde conftece a iriandesa Elisa Alice Lynch, sua companheira até a morte), sucede0 em 1862. Descrito pelos inimigos como monstro, louco, bárbaro, sátiro, alia despotismo e ardor patriótico, fascina e galvaniza o povo. ■ A Argentina tem 1,9 milhão de habitantes em 1869 (Buenos Aires, 180 mil), 3,5 milhões de bois e 20 mi­ lhões de ovelhas; exporta couros, charque. lã, sebo. Da Independência à prosperidade do final do século, vive longa era de convulsões, revoluções e montoneras (guerrilhas gaúchas), cindida entre os caudilhos (chefes politico-militares de base njral). Juan Manuel Orfiz Ro­ sas [1793-1877], estancieiro, líder unitário, govemador de Buenos Aires (1829), ditador (1835-1852), é um caudilho clássico. ■ A República da Banda Oriental do Uruguai, ex-provincia Cisplatina [3.7]. tem economia similar à argentina. 300 mil habitantes e também vive sua fase caudilhesca (Guerra Grande, entre blancos e colorados. 1843-1852). Na fronteira norte, só fixada (12/10/1851) sob ocupação militar imperial, vivem 40 mil brasileiros. Na geopolítica do Rio (até a República) o Uruguai é um 'prolongamen­ to geográfico” do Brasil. Há forte nexo entre os proble­ mas da Argentina. Uruguai e RS [5.4]. E o Império não vacila em intervir neles, para impedir a formação de ou­ tro Estado poderoso na bacia do Prata. ■ A 1* intervenção brasileira (Guerra de Oribe e Ro­ sas) visa põr no poder os colorados de Rivera no Uru­ guai e os federalistas na Argentina (com apoio dos go­ vernadores de Corrientes. Urquiza, e Entre-Ríos, Virasoro). 0 inimigo é o argentino Rosas e seu aliado. Ma­ nuel Oribe. presidente uruguaio. 0 Império teme que Rosas reunlfique o antigo vice-reinado do Prata (Argen­ tina. Uruguai, Paraguai, Bolívia). As califómias, ataques de milícias do RS ao Unjguai (idênticas a outras no sen­ tido inverso) pressionam pela intervenção imperial. 0 caudilho Chico Pedro de Abreu, barão de Jacui (Bagé), lidera o duelo de incêndios, saques, degolas e roubo de gado. A invasão começa com um manifesto de Urquiza pela demjbada de Rosas e Onbe (1/5/1851) e uma ali­ ança com 0 Brasil. 0 Uruguai é invadido pelo RS (Ca­ xias), Argentina (Urquiza) e por mar (Grenfell). Oribe capitula e o país fica 2 anos ocupado pelo Brasil. Os vencedores (20 mil correntinos e entrerrianos. 4 mil brasileiros, 1.700 uruguaios) passam à Argentina e, na batalha de Monte Caseros (ou Morón), decidem a sorte de Rosas. Este se asila na Inglaterra, onde morre pobre e esquecido.

brasileiros. Os blancos voltam ao governo e o presi­ dente Bernardo Berro tenta nacionalizar a fronteira: reprime a escravidão, eleva os impostos. Volta a pressão por uma interferência do Império, sobretudo quando o blanco radical Atanazio Aguirre substitui Berro e 0 colorado Venâncio Flores [1800-1868] chefia novo levante. 0 general Antonio Netto [4.4], que mantém um exército privado de mil gaúchos, vai ao Rio dizer que “ou 0 Império protege seus súditos, ou eles se armam e defendem a si próprios". ■ A 2^ intervenção brasileira começa com a Missão Saraiva (6/5/1864), por via diplomática. Em acordo com 0 ministro inglês Edward Thornton, o conselheiro José Antonio Saraiva exige punição de todos os “criminosos" do exército e policia do Uruguai, indenização dos bra­ sileiros expropriados, libertação dos que tomaram arnias. Aguirre recusa. Saraiva combina a invasão com 0 presidente argentino Bartolomé Mitre [1821-1906] e Thornton. Arrogam ao Brasil e Argentina o direito de art)itrar o conflito umguaio. A armada do barão (d, vise. e marquês) de Tamandaré [1807-1897] já está no Prata e 0 Exército brasileiro na fronteira. As alianças de 1851 se recompõem, com uma diferença crucial: o Paraguai notifica ao Brasil (30/8/1864) que “nâo pode se conser­ var indiferente” face a uma invasão do Uruguai, “pois ela destrói o equilíbrio político no Prata”. Não há res­ posta; ao que parece, d. Pedro, como López, julga che­ gada a hora da guerra. A Prússia paraguaia tem um exército de 50 mil homens (Brasil 18 mil. Argentina 8 mil); mas a Marinha (14 vapores, nâo construídos para a guen-a) não se compara aos 23 vapores e 8 canho­ neiras do Império. ■ A invasão do Uruguai é mais dura que a de 1851.0 povo hostiliza os invasores. A frota de Tamandaré aju­ da Flores a tomar Salto, bombardeia Paissandu (5/12/1864), mas não ousa tomar a cidade, defendida com bravura. Com a chegada de reforços e após violen­ ta luta, Paissandu cai. o que define a campanha. Frente a 11 navios e 8 mil soldados, Aguin-e capitula (20/2/1865) e entrega a capital a Flores. Este inicia seu mandato fuzilando o gal, blanco L. Gomez, cuja cabeça é exibida na ponta de uma lança. 0 Império conta outra vez com um govemo amigo na ex-província Cisplatina. ■ A ofensiva guarani é rápida. López apresa em Assun­ ção 0 vapor brasileiro Marquês de Olinda (11/11/1864), faz da sua bandeira um tapete e põe a ferros o cel. Car­ neiro de Campos, presidente de MT, seu passageiro (que morre no cárcere). A seguir (13/11) declara guerra ao Brasil. Envia (24-29/11) 5 barcos de guerra e uma coluna terrestre que ocupam todo o sul do MT até 1868. Outra expedição segue para o sul, toma a provincia argentina de Corrientes e S. Borja, Itaqui e Uruguaiana (5/8/1865), no RS, Por onde passa liberta os escravos, que chegam a se rebelar, A ofensiva, porém, nâo altera o deslecho do conflito no Uruguai, ■ A Tríplice Aliança (1/5/1865), pacto secreto BrasilArgentina-Uruguai (19 Itens), é divulgada em 1866 na Inglaterra. Aliança, “ofensiva e defensiva", prevé o uso de “todos os meios de guerra” até a derrubada de López; veda conversações, tratados de paz, trégua ou armistício em separado; garante a independência e soberania do Paraguai, mas nâo sobre as áreas reivindicadas pelo Brasil e Argentina. 0 comando geral fica com Mitre sem­ pre que 0 front esteja na Argentina e na zona paraguaia limítrofe; o da Marinha é exclusivo do Brasil. Um proto­ colo anexo prevê a demolição de Humaitá e a divisão das armas e equipamentos do Paraguai entre os aliados. As tropas dos 3 países retomam o RS (Uruguaiana, 19/9), mas a viragem do conflito não se decide em terra.

■ A invasão reforça a presença brasileira no Uru­ guai. 0 barão de Mauá [5.6] torna-se o maior banqueiro

■ Batalha naval de Riachuelo (25/6). A frota guarani, mesmo reforçada por 6 chatas (grandes jangadas mu­ nidas de canhão), sucumbe frente ã annada imperial (sob comando do aim. Francisco Manuel Barroso [18041882]). após duro combate. Salvam-se 4 navios para-

e pecuarista do pais: 30% das terras uruguaias são de

guaios, alguns avariados.


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------ 5.3 GUERRA DO PARAGUAI ■ A maior guerra da história do Brasil, que forma seu Exército e Marinha, é também a mais mortífera das Amé­ ricas. Mata 158 mil brasileiros. 32 mil argentinos e uru­ guaios. 606 mil militares e civis paraguaios (mais que a Guen'a Civil dos EUA. da qual toma os fuzis de repetição, canhões de cano raiado e couraçados). Vive 4 fases: 1) A ofensiva guarani, rechaçada em Riachuelo [5.2]; 2) A árdua guerra de posições em torno de Humaitá; 3) A rá­ pida ofensiva imperial até Assunção: e 4) A caçada a López, ou campanha da cordilheira. ■ É uma luta desigual. 0 Brasil tem nilida vantagem em territõrio, população, recursos, marinha. Toma emprés­ timos na Inglaterra, compra armas, Mas seu exército (no início) é relativamente pequeno e improvisado. 0 regime escravisla-monárquico se desgasta no esforço de guerra. As finanças, idem. Argentina e Uruguai, mais frágeis, vivem em convulsão interna. A Argentina vive em 18621868 117 revoluções, com 4.728 mortes. A união com o Brasil é impopular; a Triplice Aliança serve ao Império mais para neutralizar adversários potenciais que como ajuda efetiva. Quando a guerra se prolonga o esforço mi­ litar recai quase todo sobre o Brasil. Já o Paraguai tem população e território diminutos. Carece de reservas e está sob cerco total: não recebe um centavo, uma bala de fora. Conta a seu favor certa prosperidade, um exército maior (no início), aguerrido. E unidade interna, graças ao despotismo e carisma de López, mas sobretudo à cren­ ça, apoiada em fatos do passado [2.6] e da própria guer­ ra (venda de prisioneiros de guerra em Uruguaiana), de que os brasileiros querem escravizá-los. ■ A guerra de posições. Sem navios, López recua e entrincheira-se no vértice entre os rios Paraná e Para­ guai. cheio de lagos, pântanos, matas e fortalezas (a inexpugnável Humaitá, ladeada por Curuzu, Curupaiti, Itapiru). Após 10 meses (16/4/1866) os aliados, tendo à frente Manuel Luís Osório [1808-1879], fixam uma cabeça-de-ponle em solo guarani. Segue-se estafante guen^a de trincheiras, com vitórias aliadas (Tulutl, 24/6) ou paraguaias (Cunjpaltl, 22/9) e baixas brutais. A mor­ tandade em combate e principalmente de cólera, disen­ teria. febres palustres, tifo, escariatlna e bexiga aniquila 2/3 do efetivo dos 2 lados, López propõe conversações (12/9) mas 0 Brasil rejeila. ■ 0 esforço de recrutamento redobra. 0 eletivo do exército em 1864 é menor que em 1831 (foi reduzido de­ vido a agitações [4.1]). A grande força é a Guarda Nacional, proibida por lei de lutar no exterior Surge (jan/1865) o corpo de Voluntários da Pátria, com soldo maior e promessa de terra após a paz. Muitos se alistam tomados de ardor patriótico, mas a guerra se an-asta, perde o brilho e os voluntários, 0 Império compra então milhares de escravos-soldados (a lel de 6/11/1866 os alforria). Os ricos fogem do alistamento enviando à tropa de 1 a 10 cativos, em aplaudido gesto patriótico. Alistase a força forros, capoeiras, desocupados. Caricaturas guaranis retratam os brasileiros como macacos, explo­ rando preconceitos. Estima-se que 90 mil negros mor­ rem no front. ■ 0 õnus financeiro também cresce. As pastas mili­ tares devoram 60% do orçamento de 66-68, provocando um déficit crónico, emissões, empréstimos ingleses em condições desvantajosas puros anuais de 5%). 0 Brasil financia ainda o esforço militar argentino e uruguaio. Mas a guerra faz a fortuna dos fornecedores e burocratas (casacas) ligados á intendência. Alguns atribuem a eles certas atitudes que dilatam o conflito e a recusa de qual­ quer paz com López. ■ Pedro II confia o comando a Caxias (10/10/ 1866) com ordem de jamais tratar com López e seguir sozinho a guerra caso os aliados a deixem. Tamandaré é afas­ tado. Osório é enviado ao RS para formar o 3“ Corpo de Exército. Caxias tem 40 mil brasileiros no front; recebe mais 20 mil, 2 balões de reconhecimento, couraçados e monitores (tjarcos de pouco calado e alto poder de fogo). Assume o comando também dos aliados. Mas

não se move por mais de um ano. Mesmo acusado de passivo, covarde, senil, dedlca-se à reforma do exército: no lugar do velho capitão-estancieiro e sua tropa irre­ gular de soldados-peões, cria uma disciplinada máquina de guerra ("Prefiro cometer uma injustiça a permitir uma desordem."). ■ 0 exército guarani, após alistar todo homem adulto, passa (1867) aos rapazes de 15 anos e mulheres (que combatem em Lomas Valentinas). Não recebe soldo; allmenta-se de carne, às vezes sem mate ou sal. Marcha e luta seminu e descalço. Sem cavalos, põe homens a puxar canhões e carretas. Fabrica navios, pólvora, ar­ mas. funde canhões com sinos de Igreja (el Cristiano); se nâo há balas, usa cocos, pedras, cacos de vidro. Recorre á tocaia e à guenálha em canoas. Confomie o uso gua­ rani. as residentas. mulheres e mães de soldados, seguem a tropa e enterram os mortos. ■ A retirada da Laguna. Para romper o impasse, o Bra­ sil planeja um ataque de 12 mil homens à erma reta­ guarda norte do inimigo, via MT, mas apenas 2.500 (vin­ dos de SP e MG) se reúnem em Cuiabá. Até Miranda, cheias e febres já fizeram 900 baixas, inclusive o co­ mandante. cel. Manuel Pedro Drago. Seu substituto, cel. Carlos Morais Camisão (vítima de rumores de covardia), segue avante com o vaqueiro Francisco Lopez como gula. A coluna cruza o rio Apa (21/4/1867) sem cavalos (os homens arrastam os 2 canhões), faminta, fustigada pelo Inimigo. Chega a Laguna, deserta. Incendiada, e retrocede, ao ritmo de 5 km/dia, atacada também pelo cólera, que mala Camisão e Lopez. Abandona 122 doentes no caminho: 700 homens chegam ao porto de Canuto (11/6). ■ A cidadela de Humaitá é afinal sitiada (18/2/ 1868; só se comunica por uma trilha no Chaco) e cai 5 meses depois (27/7). Seus 1.200 últimos defensores, vencidos pela fome, retlram-se em segredo; perseguidos, sem co­ mer a 50 horas, rendem-se após o combate de Isla Poi (López se vinga fuzilando a esposa do comte., cel. Martinez, que revida passando-se para o inimigo). Após Humaitá. a invasão só encontra resistência, ferrenha, desesperada, nas batalhas de Itororó (1/12/1868), Avaí (11/12), Lomas Valentinas (21/12) e Angostura (3tt'12), às portas de Assunção. 0 Brasil perde aí 12.500 comba­ tentes; Argentina-Uruguai, mil; o Paraguai 23 mil. pra­ ticamente todo seu exército regular. Em 5/1/1869. os alia­ dos entram triunfalmente na capital. Caxias, enfemio. volta ao Rio onde d. Pedro o faz duque. Em seu lugar assume o conde d’Eu, consorte da princesa Isabel. A guerra acabou. Resta a caçada a López.3 ■ A campanha da cordilheira. López manda executar um irmão, um cunhado, um bispo e outros, por conspi­ ração; faz seu testamento; responde a um ultimato que cumprirá seu dever ‘ até a última extremidade’ e galga a cordilheira de Ascurra. Ai forma um exército de 13 mil mutilados, velhos, mulheres e sobretudo meninos, com 18 canhões. Escapa ao cerco brasileiro na batalha de Acosta Nu (Campo Grande, 16/8/1870) e chega às serras do Amambai. Tem 100 homens consigo ao ser alcan­ çado. em Cerro Corá. Recusa a rendição; morre (1/3) a golpes de lança, sabre e tiro. ao vadear o rio Aquldabannigui. 0 corpo é mutilado, pisado, cuspido e entregue a Elisa Lynch, que perde no mesmo dia o filho Pancho. con>nel. 18 anos. Um mês depois, em Bela Vista, MT, rende-se o último núcleo de resistência guarani, 54 ho­ mens do gal. Bernardino Caballero, presidente paraguaio em 1882. ■ 0 Paraguai perde 140 km' para Argentina e Brasil e quase todos os homens adultos; a população só se recupera no século 20. As Estâncias da Pátria e a ferro­ via sáo vendidas a estrangeiros. 0 ouro inglês gasto pe­ lo Império no conflito acelera o progresso arger^tino e umgualo. No Brasil, o Exército pós-guerra toma-se um foco republicano [6.8]. Cunha Matos conta que, morto López, 0 major Floriano comenta: ‘ De um homem como aquele é que nós carecemos no Brasil’.

Cronologia Agosto: 1‘ greve geral na Inglaterra Setembro: O chefe quilombola Cosme Bento das Chagas, líder da Balaiada. é enforcado em Ilapicuru-Mirim. MA • Falansiérto do médico Irancès Bento Mure em Sa(. SC • 1* edição do Dicionário de Medicina Popular. bem mais conhecido pelo nome de seu autor, o polonês P. Chernoviz 1843 20/1; Gabinete de Carneiro Leáo 5/3: Acordo da República Farroupilha com Francisco Rivera, presidente do Uruguai 16/3: Lançados os fundamentos de Peirópolis. RJ, e seu palácio imperial 17/3: Mensagem de Caxias conclama os farroupilhas a deparem as armas 15/5: O pe. Feijó, julgado pelo Senado como rebelde de 1842, diz “não ser crime pegar em armas para restaurar a Constituição” 17/5: Tarifa Alves Branco, protecionista; as tarifas de importação, de 15% d. 1810, passam a 30-60%; impulso industrial 24/5: Dissolução da Câmara; espancamento de conservadores em Saquarema dá origem ao seu apelido 26/5: Caxias vence os farroupilhas em Ponche Verde, RS 30/5: Pedro II casa aos 16 anos com Teresa Cristina de Bourbon, napolitana, de 20; o casal se conhece 3 meses depois, no RJ 1/8: 1* selo postal brasileiro, o Olho-de-Boi • O Filho do Pescador, 1” romance brasileiro, folhetinesco, do escritor mestiço e pré-indianista A. G. Teixeira e Sousa 1844 2/2: Caem os conservadores: gabinete liberal de Almeida Torres, d. vise. de Macaé 27/2; Bento Gonçalves, líder farroupilha, mata em duelo de sabres o cel. Onofre Pires 14/3: Anistia imperial aos liberais de 1842 24/5: S. Morse instala a 1* linha de telégrafo, de Baltimore a Washington, EUA 7/8: Começa a circular a Lanterna M ágica. 1' jomal de caricaturas, RJ 14/9: O Brasil reconhece a independência do Paraguai 7/10: Tratado paraguaio-brasileiro de comércio e navegação (que o Brasil nâo ratifica devido a pendências de fronteira) 9/11: Extingue-se, ao nâo ser renovado, o acordo comercial de 1810 com a Inglaterra 14/11: Batalha de Porongos: grave derrota dos farrapos, que perdem sua última peça de artilharia 15/11: Os chefes farrapos enviam A. V. Fontoura à Corte para negociar a paz • Começa a Cabanagem alagoana • A M oreninha, de Joaquim Manuel de Macedo. 1° best-seller brasileiro • O monge Joào Maria (o 1’ ) Inicia sua pregação pelo sortão de SP. SC. RS 1845 28/2: Acordo de Ponche Verde: os farrapos aceitam os termos da paz negociada com o govemo imperial 1/3: Fim da Guerra dos Farrapos; paz assinada por Caxias e Canabarro 8/8: A Inglaterra aprova a lei (Bill) Aberdeen, permitindo o apresamento de qualquer navio negreiro, esteja onde estiver • Anexação do Texas aos EUA • Ação, reação, transfonnação, do jornalista consen/ador Justiniano José da Rocha • Grande tome na Irianda mata 1 milhão; emigração em massa para os EUA • Seca no Nordeste; levas de retirantes para as terras úmidas do litoral e do Cariri; agitações no senão do RN

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5.4 ECONOMIA: APOGEU DO CAFÉ / FERROVIAS

Cronologia

quistadas na República [6.1] para impor políticas em seu proveito (Convénio de Taubaté, 1906 [6.2], grandes quei­ mas de 1931-40 [7.3]); o Brasil se mantém como 1- pro­ dutor, mas seu peso relativo decai: 85 milhões de sacas em 1890, 25,6% da safra mundial.

• 1* impressora rotativa, do francês Jacob Worms

■ Nos anos 1880 o café forma 61% das exportações do país [4.7]. Passa de 300 mil sacas/ano na década de 1820 para 1,7 milhão na de 1840, 2,9 milhões na de 1860, 5,3 milhões na de 1880 e 7,2 milfiões na de 1890. 0 consumo mundial cresce verticalmente, sobretudo nos EUA, que compram metade da produção, 0 Brasil acu­ mula superavits comerciais crescentes a pailir de 1860. Volta a deter, como no século 17 com o açúcar, uma po­ sição dominante como exportador do principal produto primário da época. “0 Brasil é o café", diz-se no paria­ mento. I^as desde os anos 1870 é SP que lidera o cul­ tivo, com 59 milhões de pés em 1859, 106 milfiões em 1870,220 milhões em 1889. Só a fazenda São Martinho, dos Silva Prado de Ribeirão Preto, tem 3 milhões de pés. ■ A fazenda de café do fim do século difere de sua antecessora, que agoniza no vale do Paraíba e parte do Oeste Velho. 0 braço escravo [4.8] e a parceria do sena­ dor Vergueiro [4.7] cedem lugar ao pagamento por pro­ dução ou 0 salariato. Perdura o sistema do ban-acão e entre as filas dos cafeeiros planta-se mandioca, milho e feijão para consumo próprio, mas o sistema logo se in­ sere em relações tipicamente mercantis. Como o café exige 4-5 anos até começar a produzir, inviabiliza a pe­ quena exploração: 90% das fazendas têm mais de 60 ha: a de Henrique (pai de Santos) Dumont em Ribeirão Pre­ to (h. Dumont) tem 31.400 ha e milhares de colonos. A escassez de braços leva à mecanização parcial. A colô­ nia de fazendeiros vindos do Sul dos EUA para Sta Bárbara (h. Americana), após a Guerra Civil, toma-se pólo mecanizador. Os cafeicultores Taunay e Silva Telles produzem secadeiras mecânicas logo adotadas, assim como os classificadores a vapor LIdgemood (EUA). 0 café de máquina (beneficiado por esle método) alcança preço 33% superior. ■ A Onda Verde ganha ímpeto ao atingir a terra roxa (alteração do italiano rossa, vemnelha; decomposição de diabásios e basaltitos). Aí o exigente cultivo encontra condições excepcionais: temperatura de 5 a 33'C. sem geadas nem sol em excesso, chuvas regulares e bem distribuídas, ventos fracos, solo fértil. Cada mancha de terra roxa é plantada até o último palmo. Campinas (exvila de S. Carlos), com bancos e ferrovia, toma-se a próspera boca do sertão, a seguir é a vez de Ribeirão Preto, centro típico do Oeste cafeeiro. E segue a marcha para o oeste, chacinando os índios Kaingáng do vale do Paraná (1908-10), alé as últimas manchas de terra roxa, no norte do PR. A expropriação de posseiros caipiras se generaliza e ganha o nome de grilagem, devido à técnica de “envelhecer* documentos forjados guardando-os em gavetas cheias de grilos. ■ Os cafeicultores de SP formam nova e opulenta elite, mas são preteridos na cúpula do governo: dos 18 gabinetes imperiais desde 1862, apenas 1 tem à frente um paulista (9 nordestinos, 5 fluminenses). Até no paria­ mento estão sub-representados. Mas seu poder eco­ nómico cresce sem parar. Só permanecem na fazenda durante a safra (maio-agosto); mudam-se para a cidade, abrem novos negócios (comércio, importação e expor­ tação, ferrovias, bancos, indústrias), com versatilidade inédita em outras estirpes ollgárquicas. Fundam sua im­ prensa (Gazeta de Campinas, 1869-1889) e associa­ ções de classe (Ciube da Lavoura de Campinas). Pressionam a Corte, em busca de créditos e mão-deobra. Fomentam a imigração e um abolicionismo mo­ derado (5.7). Frente a um regime imperial que não lhes abre espaço, inscrevem-se no Partido Republicano [5.1; e fornecem alguns de seus expoentes (Paidente de Morais, Campos Sales). ■ 0 pico da prosperidade cafeeira é 1882 Depois, a produção mundial (53.5% brasileira) supera o consumo. Uma crise nos EUA, principal consumidor (1893) dermba os preços: a saca de 60 kg cai de 4,09 libras em 1893 pa­ ra 1,48 em 1899. As safras-récorde de 1901-02 (16 mil­ hões de sacas) e 1906-07 (20 milhões) só aguçam o problema. A elite cafeeira passa a usar as posições con­

■ Outros cultivos sofrem mudanças de vulto. A cana, passa a concorrer com o açúcar de beterraba. 0 Brasil cai de 1® para 5® produtor mundial, após Cuba. Egito. Java, Ilhas Maurício. Troca o trabalho escravo pelo assa­ lariado. E sofre 0 impacto da usina a vapor, que logo se impôe ao secular engenho de banguê. [2.3], A 1* é a de Quasimã. Macaé, RJ. Em 1887 operam em PE 6 usinas da The Central Sugar e 7 da The North Brazilian Sugar Factories. Em 1907 46 usinas móem 64% da cana do estado. 0 senhor de engenho é rebaixado a fornecedor, perde riqueza, poder e prestígio. 0 algodão prospera durante a Guerra Civil nos EUA (1861-1865). Passa de "lavoura de pobre’ a "ouro branco do Brasil”; adota o descaroçador de serra, mecânico. A seguir, abastece a jovem indústria têxtil nacional [5.6]. 0 tabaco do Recôn­ cavo Baiano eleva sua cota no mercado mundial, tam­ bém graças ã Guerra de Secessão. 0 cacau, coletado Amazônia colonial, é levado (1825) para as matas do sul da BA. Graças às coniíçôes naturais, mão-de-obra abun­ dante e crescente procura internacional, garante a tardia conquista da terra dos temidos botocudos [2.2], As ferrovias ■ 0 trem de ferro é (ao lado da tecelagem) o símbolo e 0 dínamo da Revolução Industrial, desde que Stephenson constrói (Inglaten-a, 1814) a 1^ locomotiva. Tem papel cmcial na criação de um mercado mundial único e densamente interiigado. Concentra os principais investimentos europeus, em 1- lugar ingleses [5.6], nos territórios coloniais e dependentes que incluem a América Latina. No Brasil, implanta-se em estreita associação com 0 café e com SP ■ A 1* via férrea é iniciativa de Irineu Evangelista de Sousa, barão de Mauá [5.6]. No início (30/4/1854) tem apenas 14,5 km, do porto de Mauá ã Raiz da Serra, RJ; depois sobe a serra do Mar. chega a Petrópolís e (1858) Barra do Piraí, já em plena zona cafeeira. Seguem-se as ligações Recife-Cabo. PE (1858) e Salvador-São Fran­ cisco. BA (1860). Os projetos e a construção ficam a car­ go de estrangeiros. Em 1860 começa a formação de engenheiros ferroviários brasileiros, alguns deles auto­ res de obras ousadas, como os túneis e viadutos de Antonio Rebouças na Paranaguã-Curitiba, PR (18801884). Em 1890,80% dos engenheiros do País ocupamse de ferrovias. ■ A Santos-Jundiaí, SP, é obra da S. Paulo Railway, a Inglesa, de capital inglés em associação com Mauá [5.6], com isenção fiscal e 90 anos de monopólio. Iniciada em 24/11/1860, vence a serra do Mar com o maior siste­ ma de planos inclinados do mundo da época e abre-se ao público (16/2/1868). Está superado um histórico obstácu­ lo ao progresso de SP A travessia da serra, perigosíssíma no início, melhora com a calçada de Lorena (1791) mas quando chove ainda pôe a perder mulas e cargas. Eslrada carroçável, só a da Maioridade, nos anos 1840. e nâo tão carroçável, pois o grosso da carga segue no lombo das tropas. Com o Irem. o planalto ganha vida nova. A capital confimia seu papel chave na geoeconomia da abastança paulista. E Santos torna-se (até hoje) o maior porto do pais. ■ A Cia. Paulista de Estradas de Ferro surge em 1868-1872. com capitais de cafeicultores paulistas: em 1908 tem 1.100 km. Seguem-se a Sorocabana (18721879.1.090 km em 1908) e a Mogiana (1872-1874.1.046 km em 1908). com seus respectivos “ramais cata-café”. Todas pertencem aos fazendeiros do café. E todas con­ vergem para a Inglesa a partir de Jundiaí, pois a S. Paulo Railway, já livre da sociedade com Mauá, mantém seu monopólio alé 1930. Com esta respeitável rede fer­ roviária (62% do total do país em 1900), o café já pode chegar, e chega, até as barrancas do Paraná.

1846 Fev: Surge no carnaval do RJ o grupo Zé Pereira, com seus bombos e tambores 5/5; Novo gabinete liberal, o da pequena conciliação 29/7: Nasce a princesa Isabel de Bragança e Bourbon

12/10: fiipós os ônibus e as gôndolas puxadas por mulas, o RJ ganha tílburis (carros de 2 rodas e 1 cavalo) de aluguel 19/11: Embarca de volta à Europa o eng. francês L. L. Vauthier, introdutor de idéias socialistas entre os praieiros de PE • Mauá adquire o estaleiro da Ponta da Areia • Inglaterra elimina barreiras protecionistas (C om law s} em nome do livre comércio • Morton, EUA, emprega o éter como anestésico cinjrgico • Descoberta do planeta Netuno • P rim eiros Cantos, de Gonçalves Dias 1847 22/5: Gabinete do vise. de Caravelas 25/5: Explode a caldeira da barca a vapor Especuladora, com 200 passageiros, no RJ 20/7: Pedro II cria o cargo de presidente do Conselho de Ministros (1- ministro), que indica os demais (no lugar do monarca) 31/7: Fundação do Liceu de SE 26/10: As ruas do RJ passam a ter subida e descida (mão e contramão) • Chegam os 1“ colonos alemães, para a fazenda de café de Nicolau C. Vergueiro em Limeira. SP • A Inglaten-a reduz para 10 horas a jornada de trabalho de mulheres e crianças 1848

2/2: O México, vencido na guerra de 1846, cede aos EUA 2 milhões de km" ao norte do rio Grande 22-24/2: Revolução democrática na França: II República: onda revolucionária em toda a Europa (Primavera dos Povos) Fevereiro: M anifesto do Partido Comunista, de K. Marx e F. Engels 8/3: Gabinete de Almeida Torres, visconde de Macaó 1/5: Criação da Diocese de S. Pedro (RS) 31/5: Gabinete Paula Sousa e Melo, último do "qüinqüênio liberal" 23-26/6: Barricadas operárias do Paris, vencidas por Cavaignac (10 mil mortos); 1“ choque político proletários-burgueses 20/7: Criado o cargo de presidente do Conselho de Ministros (serão 32 até 1889, um a cada 16 meses, 23 deles nordestinos) 10/8: Fundado o Conservatório de Música do Rio de Janeiro 8-9/9: Agitação brasileira no RJ durante as eleições 29/9: Fim do “qüinqüênio liberal"; gabinete conservador do visconde de Olinda 14/10; Joaquim Gomes de Sousa torna-se doutor em física e matemática aos 19 anos 7/11: Início da R ovoluçâo Praieira om Recife, PE

• Abolição da escravatura nas colônias francesas 1849 1/1: O M anifesto ao M undo, de Borges da Fonseca, expõe os fins da Revolução Praieira, PE 2/2: Os praieiros tentam, sem ôxito, tomar Recife, PE; Pedro Ivo continua a guerrilha 19/2: Pedro II autoriza a dissolução da Câmara dos Deputados 30/2: Prisão do líder praieiro Borges de Medeiros, nas matas do Cabu, RE 19/3: Levante de escravos em S. José dos Queimados. ES; 5 condenados à morte

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5.5 OCUPAÇÃO I DEMOGRAFIA I A GRANDE IMIGRAÇÃO ■ 3,6 milhões de trabalhadores migram para o Brasil em 1820-1921 (2,7 milhões no pico de 1884-1913). Par­ ticipam do movimento mundial que joga legiões de eu­ ropeus e asiáticos, de áreas superpovoadas e/ou atingi­ das pela Revolução Industrial [2.10] para as Américas, Oceania, Sibéria. 0 Brasil é o 3' maior receptor de mi­ grantes, após EUA (33 milhões) e Argentina (4 milhões). Na Colônia, o assentamento de açorianos visa a con­ quista e defesa territorial (SC, RS). Iniciativas de 1810 (chineses, em torno do Rio) e 1819 (suíços, Nova Friburgo) nâo prosperam; a escravidão inibe o trabalho livre. Mas em meados do s. 19 o fim do tráfico negreiro [4.81 a crise do escravismo e o surto do café (4.7, 5.4] exigem novas levas de mão-de-obra. ■ Quem imigra são minifundiários arruinados (Véneto, norte de Portugal), camponeses sem terra (sul da Itá­ lia, Andaluzia) e também gente da cidade, artesãos, pequeno-burgueses. Poucos têm posses. 0 Brasil surgelhes como aventura e esperança. Os poloneses (1900) crêem que a virgem Maria reservou-lhes o PR, revelando-o após séculos oculto na névoa. ■ A viagem em vapores (d. 1880-1890) leva 16 dias de Lisboa a Santos, 18 de Gênova, 23 de Hamburgo. 0 via­ jante traz até 100 kg de bagagem; vai na 3® classe (pas­ sageiros de 1* e 2* não são oficialmente imigrantes), em porões adaptados e insalubres. Mortes e partos a bordo são comuns. No porto de destino, o viajante passa pela Inspeforia de Imigração. Há Hospedarias dos Imigrantes no Rio, Juiz de Fora e S. Paulo (esta tem 500 vagas; é substituída em 1887 pela do Brás, 4 mil vagas, que após 63 abriga indigentes). ■ A parceria é o 1° sistema que se generaliza (1847 [4.7]), entre alemães, suíços, portugueses, belgas. 0 imi­ grante trabalha à meia e reembolsa o fazendeiro, após a 1- colheita, pela viagem e outras despesas. A prática traz as marcas do escravismo: coação, maus-tralos, venda de imigrantes via pagamento da dívida. Conflitos entre co­ lonos e fazendeiros geram revoltas (Ibicaba 1856) e o abandono do sistema. Geram ainda uma literatura (Me­ mórias de um colono no Brasil [4.7J e uma campanha de denúncias da “escravidão disfarçada'. 0 governo da Prússia proibe (1859) seus súditos de emigrarem para o Brasil; o Parlamento suiço protesta; cônsules fazem visi­ tas de inspeção. ■ 0 governo de SP, atento aos Interesses do café. assume (d. 1870) a importação de braços: paga viagens, cria um órgão para dirigir o fluxo migratório, agências de propaganda e recnjtamento em vários países europeus. Até 1930 SP dita a política migratória nacional. Antonio de Queiroz Telles, conde de Pamalba. cafeicultor e sena­ dor. cria a Associação Auxiliadora de Colonização e Imi­ gração e a Sociedade promotora da Imigração, privadas. Em 1884 0 governo central assume o subsídio á imigra­ ção, coberto por um Imposto sobre cada escravo agríco­ la, cobrado em dobro sobre outros cativos. ■ 0 contrato-padrão (1870), de 1 ano, revogável, engaja toda a família. 0 migrante ganha salário-base proporcional ao pés de café a seu cargo, prémios, suplementos pela carpa (limpeza) e colheita, um lote para plantar milho, madioca. feijão, ou licença para o plantio intercalar [5.4], Em casa e com os conterrâneos, usa a língua matema, A lei veda 0 trabalho con)unto de colonos e escravos. Toda organização de trabalhadores é punida e o governo exige certificado de que o imigrante não é anarquista, comunista ou vagabundo. Mas ocorrem greves (1913), motins por fazenda, mortes de fazendeiros e capatazes. “Deveras nômades”, muitos colonos fogem para outras fazendas, a cidade ou a Argentina; 37% voltam à pátria. ■ As colônias de pequenos proprietários (20-25 ha), um modelo migratório divergente, prevalecem no RS, SC, PR, ES. pontos do RJ e SR São pregadas pela Sociedade Central de Imigração, criada (Rio, 1883) por Taunay e Raphael de Barros. 0 Império incentiva-as no Sul, com fins estratégicos. Também as províncias, e empresas privadas (Brazil Development and Colonization Co., Sociedade

Hamburguesa de Colonização, que loteia a área de Blu­ menau). Em 1875 há no RS 6 nudeos estatais e 4 privados, com 10 mil habs.; em SC, 3 estatais e 1 particular, 20 mil habs.; no PR, 5 estalais, e 2 privados, 3 mil habs. São quase todos alemães; após 1875, também italianos e poloneses, alguns ucranianos, húngaros, romenos, letões. Concentram-se na serra gaúcha (RS) e vale do Itajaí (SC). Entram em choque com indígenas (Xokieng), exterminados por bugreiros a soldo dos governos locais. Em geral da mesma origem, preseivam seus costumes e língua até a ofensiva nadonalizante do Estado Novo. ■ Uma Ideologia do branqueamento compõe o esforço de imigração. Teses racistas levam à convicção de que só 0 branco, europeu, convém para ‘melhorar’ o sangue ‘corrompido’ por negros e índios. Uma campanha enga­ jando gente ilustre obtém em 1890 a proibição legal da imigração asiática e africana. ■ A imigração espontânea cresce nas cidades e Ama­ zônia [6.31 SP acolhe 897 mil imigrantes espontâneos e 932 mil subsidiados em 1889-1915; em sua capital (1893). os estrangeiros são 83% da mão-de-obra na indústria. 71% no comércio, 85% no artesanato, 81% nos transportes. 0 cen­ so de 1920 conta ali 207 mil estrangeiros. 33,7% da popula­ ção total e a maioria dos adultos. De 44 líderes sindicais da ddade (1890-1920), 36 são europeus (22 italianos), o que enseja leis de deportação (1904,1911). Surgem jomais em italiano, espanhol, alemão, árabe. A parcela que traz posses da terra natal, ou logra enriquecer, fomia a nraior parte da burguesia industrial e comercial de SP, RS, SC e PR. ■ Novos costumes e técnicas mudam a vida do país. Vão do consumo de verduras ã arquitetura, da agitação social [6.11] à troca do carro de boi pela carroça, revolução comparável às do trem de ferro e do navio a vapor. Maiores contingentes de Imigrantes ■ Italianos: migração típica da época, começa em 1870, supera os portugueses em 1873 e sobe a 2/3 do total em 1900. Vai para o café, as cidades (S. Paulo), núcleos coloniais (RS, SC. em menor número SP). São italianos que formam (1891) a Colônia Cecília, ulopia anarquista no norte do PR. ■ Portugueses: no total é a maior migração, pois vem do s. 18 e continua forte até a década de 1950. Vem do norte de Portugal e se concentra nas cidades (Rio, S. Paulo, Santos). ■ Espanhóis: 3®maior contingente, vem da Galícia. An­ daluzia, Extremadura, para SP e RJ. Trabalha no café (Al­ ta Araraquarense). indústria, artesanato. ■ Alemães: Após a pioneira S. Leopoldo (RS. 1824), criam colónias em Peirópolis (RJ, 1844), Blumenau e Joinville (SC. 1850 e 1851) e outras (RS, SC, PR, ES). Austríacos migram para SP Suíços alemães fundam No­ va Friburgo (RJ, 1819). ■ Eslavos (poloneses, russos, ucranianos, sén/ios): conceniram-se no PR. Forte migração política de russos após as revoluções de 1905 e 1917; outros retornam; a colônia se reduz de 48 mil em 1913 para 8 mil em 23. ■ Árabes (sirios, libaneses, palestinos, ditos turcos de­ vido ao domínio otomano até a I Guerra): migração es­ pontânea, domina o comércio ambulante dos mascates (do porto de Mascat, Arábia) na Amazônia e a seguir em todo 0 país. ■ Japoneses: iniciada em 1908, fornece a última leva de imigrantes do café. Concenira-se no Oeste de SP (Marília, Tupà, Lins) e chega a 25% da população de Pereira Bar­ reto em 1940. Depois volta-se para a capital paulista. ■ Imigração tardia. 0 regime de 30 limila a imigração; o fluxo se reduz, mas diversifica-se: Judeus, perseguidos pe­ los pogroms e o nazifasdsmo, buscam S. Paulo e Rio. Chi­ neses, a partir dos anos 40, fixam-se em S. Paulo, assim como a leva de coreanos após 58 (quando os EUA cortam subsídios ã Coréia do Sul). Chilenos, argentinos, uruguaios e outros latino-americanos migram nos anos 70, forçados por crises econômicas e perseguições polidcas.

Cronologia 4/4: Rondem-so 454 praielros em Água Preta, PE S/S: Colonos alemães (undam a cidade do Joinville, SC 23/8: Decidida a mudança da capital do PI para o município de Poti (Teresina) 6/10: Gabinete Iviont'Alegre Dezembro: A febre amarela se Instala no RJ (até 1905). vinda do golfo do México num navio dos EUA; até 200 mortos por dia 1849-1852: Eusébio de Queirós Câmara no Ministério da Justiça 1850 1/1: Apenas 1 liberal (Sousa Franco, PA) chega à Câmara, após uma eleição que Teófilo Ottoni chama de “saturnal indecente" 22/3: O poeta-deputado Pedro Pereira apresenta o 1® projeto de atiollçào da escravatura no Brasil 3/5: Anistia dos praielros de PE, 1848 17/5: Inaugurado o Teatro Sta. Isabel, Recife, PE (incendiado em 19/9/1869) 30/7: Populares atiram do velho forte da lltia do Mel, PR, sobre a fragata inglesa Cormorant, que apresa navios negreiros 4/9: Lei Eusébio de Queirós, sob pressão inglesa, passa a reprimir o tráfico negreiro como pirataria 5/9: A comarca do Rio Negro separa-se do PA como província do Amazonas 18/9: Lei de Terras; limita a aquisição de ten-as devolutas á compra • O RJ (em seu 1“ ano de forte mortalidade (3.827 em 270 mil habitantes) por febre amarela, vinda do Golfo do México • Rebelião dos Tai-ping na China • Lançamento do 1° cabo de telégrafo submarino, no passo de Calais, França 1851 9/1-7/4: O navio Teviot inaugura 1* linha de vapores Brasll-Europa (Inglaterra) 20/4: Rocambolesca fuga do líder militar praieiro Pedro Ivo, da fortaleza de Lajes, RJ 1/5: Urquíza e outros lançam manifesto pela den^jbada dos caudilhos Rosas (Argentina) e Oribe (Uruguai) 3/5: Começa a circular o 5 do Setem bro (d. B sirela do Am azonas). 1®jornal do AM 16/5: Toma posse a nova Câmara, onde todos os 113 deputados são conservadores 18/6: Decreto que obriga o registro de nascimentos e óbitos ("Lei do Cativeiro") 12/10: Derrotado em Montevidéu, Oribe se rende ã aliança Brasil-colorados 12/10: Acordo de limites Brasil-Uruguai (com o Uruguai sob ocupação brasileira) 23/10: Acordo de limites Brasll-Peru abre navegação a vapor de Belém a Iquitos 28/11: A coroa anistia os rebeldes da Pralelra 2/12: Golpo de Luls Bonaparte, que fecha o Parlamento e faz-se coroar imperador da França • Entra em vigor o Código Comercial • Jacinto Rebelo constrói o palácio do Itamarati, RJ • 1' fogão de cozinha a gás • A Mala Real (correio) da Inglaterra chega à América do Sul e ao Brasil • Fundação da agência inglesa Reuler • Últimos Cantos, de Gonçalves Dias 1852 1/1: Sublevaçáo dos Marimbondos em Paudalho, PE (esmagado em 22/1) 3/2: Batalha de Monte Caseros, Buenos Aires: derrota de Rosas para Caxias 2/3: Pedro Ivo, após fugir da prisão, morre a caminho do exílio, em frente à costa da PB 11/5: Novo gabinete conservador, continuação do anterior 11/5: 1* linha de telégrafo une o Palácio Imperial ao Quartel-General do Exército; Pedro II e E. Queirós trocam telegramas

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Cronologia

5.6 ECONOMIA / PRIMÓRDIOS DA INDUSTRIALIZAÇÃO

21/7; Efetiva-se a mudança da capital do PI de Oelras para Teresina 29/8: Começam as obras da 1* ferrovia 7/9: Teófilo Olloni, desbravador do nordeste de MG, Pogirum para os índios, funda Nova Filadélfia, hoje Teófilo Otoni • Inaugurado o Hospício Pedro II, 1“ hospital psiquiátrico do país • A. Comte publica o C atecism o Positivisla

■ 0 Brasil ingressa na Revolução industrial com dé­ cadas de atraso. É o preço do escravismo e do acordo de 1810 com a Inglaterra [3.2]. Mas em meados do sé­ culo 19 vários fatores ensejam uma incipiente moderni­ zação: a tarifa Alves Branco [4.8] supera os acordos de 1810 6 protege o produto nacional; a grande imigração [5.5] alarga o mercado de trabalho e de consumo; o surto do café (4.7, 5.4] e o fim do tráfico negreiro [4.8] geram capitais disponíveis; investidores estrangeiros (quase todos ingleses) são atraídos. Nos anos 1840 surgem 62 empresas industriais, 14 bancos, 3 caixas econômicas, 20 companhias de navegação a vapor, 23 de seguros, 4 de colonização, 8 de mineração, 3 de transporte urisano, 2 de gás e 8 ferroviárias. Uma crise financeira ("Quebra do Souto”, 9/10/1864: o banco Souto & Cia suspende seus pagamentos), multiplicada pela Guerra do Paraguai (5.3], atrofia estes brotos, mas com a paz eles se revigoram. Os anos 1880 são de franca industrialização.

canos fabricados na Ponta da Praia) a iluminação a gás no Rio (25/3/1854). Inaugura (30/4) a 1* ferrovia do país, de Mauá à Raiz da Serra (Pedro II no mesmo dia o faz barão). Obtém (1853) o monopólio da navegação a vapor pelo Amazonas, com 5.100 km de linhas, até a fronteira (na época com o Equador); cria (1857) a Companhia de Rebocadores da lagoa dos Patos (RS), tudo com barcos de seu estaleiro. Na Guerra do Paraguai, vende à Mari­ nha 15 vapores. Associa-se à S. Paulo Railway (SantosJundiaí) e outras ferrovias; financia a linha férrea da Tijuca. Cria uma firma de diques flutuantes (1852), um cur­ tume (1865), uma mineradora (1857), a 1- linha de bon­ des (do inglês bond, bonus), puxados por burros, até o Jardim Botânico (1866). Funda seu banco, a Casa Mauá (1854), com liliais na Argentina e Uruguai, onde tem grandes interesses [5.2]. Canaliza água para o Rio (1864) e inicia o cabo telegráfico submarino até a Europa (1872). Capitão-de-indústria de tino e descortino inéditos no país, acumula a maior fortuna da América Latina.

■ A manufatura de algodão é a fábrica típica da épo­ ca. no mundo e no Brasil. Rnda a Guerra Civil nos EUA (1861-1865), 0 algodão brasileiro [5.4] perde espaço no mercado extemo e está à disposição da indústria na­ cional. Em 1866 há 9 grandes fábricas, em média com 38 teares; em 1885, as 30 maiores têm 67 teares em média. Especializam-se em tecidos grosseiros, ‘adequados para roupas de escravos e colonos e para ensacamento” (prospecto da época), que substituem o tradicional pano de liíinas, artesanal. grosso e resistente. E desalojam em parte os tecidos estrangeiros de algodão, que são 34% das importações rws anos 1840,29% nos anos 1870 e 13% em 1900.

■ A vida se moderniza. 0 Rio com o gás deixa de vi­ ver no escuro, com raros lampiões de azeite acesos (exceto em noite de lua) por escravos que dormem ao relento. 0 telégrafo, no início com fins militares (a 1® linha liga o palácio imperial ao QG do Exército), agiliza os negócios. Surgem as 1“ estradas (União e Indústria, 146 km do Rio a Juiz de Fora, 1861) transitáveis por ou­ tros meios afora o carro de boi e a mula.

1853 7/5: As Escolas de Medicina do RJ e BA passam a se chamar Faculdades (o curso médico dura 6 anos) 4/7: Começa a Guerra da Criméia (Rússia X Turquia + Inglaterra e França) 5/7: Reforma bancária; refundação do Banco do Brasil, sob o impulso do café 25/7; Tratado de limites Brasil-Colômbia, rejeitado pelo Senado colombiano 6/9: Gabinete de conciliação liberais-conservadores, presidido pelo conservador vise. do Paraná • O navio a vapor trafega pelo Amazonas • Nasce a Sociedade Brasileira de Estatística • 0 C orreio M ercantil publica em folhetim M em órias de um Sargento de M ilícias, de Manuel Antonio de Almeida • Publicação, póstuma, da U ra dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo 1854 28/2; Desfile carnavalesco com carros alegóricos substitui o popular e violento Entrudo no RJ 25/3: Iluminação a gás (ejfperimental) em algumas ruas do centro do RJ 31/3: Forçado pela armada dos EUA, o Japão retoma o contato com o Ocidente 28/4: O Curso de Direito de SP passa a se chamar Faculdade 30/4; Irineu E. de Sousa inaugura a 1® estrada de ferro, 14,5 km, do porto de Mauá à Raiz da Serra, RJ 6/6: Criação das dioceses de Diamantina (MG) e Ceará 25/6: Começa a circular em São Paulo o jomal C orreio Paulistano 5/7; Lel Nabuco de Araújo reforça repressão ao tráfico negreiro 29/8; A comarca paulista de Curitiba (50 mil habs.) toma-s0 província do Paraná 12/9: Criado no RJ o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (h. Benjamin Constant) 19/9: Petrópolis, RJ, passa de vila a cidade Novembro: A Faculdade de Direito de Olinda se transfere para Recife. PE • É criado 0 Banco Mauá. Mac Gregor & Company, no RJ 1855 12/1; Publicado o 1’ texto de Machado de Assis, 16 anos 19/1; 0 Império autoriza sua legação em Londres a contratar a importação de chins 20/2: Expedição naval do Brasil para pressionar o Paraguai detida na (romeira

17/3; SE muda a capital de S. Cristóvão para o Aracaju, 1* cidade planejada do país 27/4; Tratado de amizade Brasil-Paraguai, não ratificado pelo Brasil 19/5: 0 ministro da Justiça proíbe o ingresso de noviços nas ordens religiosas 11/6: Começam as obras da Estrada de Ferro D. Pedro II (h. Central do Brasil) 24/6: Morre em Salvador. BA, aos 22 anos, o poeta Junqueira Freire 28/8; O dep. Pereira da Silva julga excessivo 95

funcionários para uma Câmara de 103 deputados 19/9: Nova lei eleitoral divide as províncias em círculos (distrilos) de 1 deputado; o ministério passa 0 recesso deHnlndo-os

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■ Os 1” industriais são fazendeiros que formam em­ presas familiares ou pequenas sociedades (a lei dificulta as SAs). Várias fábricas ficam dentro de fazendas. Ber­ nardo fi^ascarenhas [1847-1849], pioneiro da eletrifica­ ção (usina Mamielos Zero. MG, 1888), transporta o maquinário de uma tecelagem do Rio para a fazenda do Cedro, Juiz de Fora (1871) em 200 carros de boi. Algu­ mas fábricas se instalam na BA, perto da matéria-prima. A maioria fica no Rio, devido ao porto (o carvão mineral que move os teares é importado da Inglaterra). Com as estradas de fen-o, há certa dispersão. SP adianta-se nos anos 1880 como 2> centro, depois do Rio. ■ A mão-de-obra a princípio é majoritarlamente es­ crava. A fundição de ferro de Ipanema [3.2] emprega 85 cativos e 24 trabalhadores livres. A alta do preço dos escravos impõe formas de transição. Alguns alugam escravos de ganho [2.4], às vezes pagando um salário suplementar. A Brazil Industrial (uma das maiores fábri­ cas do pais em 1870-1900, com 400 teares ingleses, na fazenda dos Macacos. RJ) arregimenta em orfanatos 100meninos, que aloja na antiga senzala. 0 braço imi­ grante é esmagadora maioria nas indústrias de SI’ [5.5]. Ê há no campo e na cidade fartura de gente livre mas despossuída. ■ 0 barão de Mauá [Irineu Evangelista de Sousa. d. vise., 1813-1889] é o paradigma e símbolo dessa fase. Órtâo no RS, cabceiro de um comerciante português no Rio, empregado e depois sócio da firma inglesa Carruthers & Cia., enviado à Inglaterra (1840), conhece a modema indústria metalúrgica Compra (em 1846, 2 anos após a tarifa Alves Branco) um estaleiro de barcos a vela em dificuldades, na Ponta da Praia, Niterói. Investe 4 vezes o preço de compra em fazer dele uma fábrica com mil operários, fundição dc ferro e bronze, galvanização, fen-aria, serralheria, caldeiraria. Obtém do estado uma encomenda de canos de ferro, produz caldeiras, engenhos de açúcar, guindastes, prensas e em especial navios; 72 em 11 anos. ■ Diversifica os negócios sobretudo quando o ‘Ilícito comércio’ (de escravos) é proibido, permitindo, a seu ver, "alimentar as forças produtivas do país". /Vssocia-se a capitais ingleses e brasileiros. Instala (com 80 Km de

■ Contra a Industrialização estão os liberais (o termo assume então seu sentido atual: já nâo designa os adep­ tos das idéias francesas [2.10] mas os livre-cambistas). Para eles, o país tem vocação agrícola e é ilógico fabricar caro 0 que se pode importar barato, “deixar a larga estra­ da da liberdade do comércio para esgueirar-se pelos es­ curos, tortuosos e íngremes caminhos do protecionismo”. Já os protecionistas, fundadores (6/9/1880) da Associa­ ção Industrial, criticam os "códigos metafísicos extraídos do arteiro livre-cambismo”, na verdade "protecionistas... do estrangeiro!'. ■ 0 fim do império de Mauá deve muito ao livre-cam­ bismo. A reforma Cotegipe (1857) isenta de impostos de importação máquinas e bens de consumo. A reforma Sil­ va Ferraz (I860) estende a isenção aos navios. Ponta de Areia tem de parar a construção naval (retomada em 1905, mantém-se até hoje, mas em crise). A Cia. de Na­ vegação do Amazonas se armína com a abertura do rio a navios estrangeiros (1867). Mauá perde a participação na S. Paulo Railway em ruidoso processo que. por cláu­ sula contratual, corre no foro de Londres. Acusado de negociatas na Guerra do Paraguai, tem de renunciar (1873) ao mandato de deputado que detém desde 1856. Por fim, 0 banco pede concordata (1875) e falência (1878). 0 visconde se defende (Exposição aos cre­ dores), pede ajuda ao govemo, em vão; tem de vender até objetos de uso pessoal. A Cia. do Amazonas tornase Amazon Stean Navigation; a ferrovia de Petrópolis, Leopoldina Railway; a empresa de gás, The Rio de Janewiro Gas Co. Ltd., todas inglesas; a Cia. de Bondes do Jardim Botânico vira Botanical Garden Rail Road, 1" empresa dos EUA no Brasil. ■ 0 capital inglês aumenta sua presença Não apli­ ca em indústrias, mas faz os maiores investimentos em ferrovias (a Santos-Jundiaí, da São Paulo Railway, a inglesa, é talvez a mais lucrativa do mundo: dividendos anuais de 20-22% [5.2]). telégrafo, portos, serviços urbanos (transporte, iluminação). Para financiar negó­ cios com 0 café funda (1862) o London and Brazilian Bank, 0 Banco Britânico para a América do Sul (1863), 0 Lazard Bank (1877). 0 capital inglês (em especial a Casa Rothschild) é também único credor da divida externa pública. 0 1’ empréstimo (1824) é chamado Português, pois visa pagar contas da ex-metrópole. Se­ guem-se (1829) 0 Empréstimo Ruinoso (do qual 42% amortizam o Português) e'o de 1843. As Guen-as Pla­ tinas [5.2-3] acarretam sucessivos pedidos de créditos em Londres.


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o Brasil durante o movimento pelo fim da escravidão

Províncias negreiras (54% dos escravos em 1887)

Província com campanha forte P Cidade/vila (tamanho relativo) o Liberta antes da Lei Áurea o

Clube abolicionista « (antes de 1871) Clube abolicionista 83 (de 1871 a 1883) Im p re n s a ra abolicionista Movimento extralegal de libertação

^

Quilombo ligado ^ aos abolicionistas Fuga em massa das fazendas (d. 1886)

o

Clube cfa Lavoura • escravocrata (1884)

400 km

A campanha no parlamento e na rua Principais votações na Câmara / ^ S i m

C XN ão

Ritmo da Campanha Abolicionista

Retirada (fuga em massa) de escravos l,ei Aurea Projeto Nabuco / 77 (abolição em 1890)

1872

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tffil'

1874

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1876

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5.7 CAMPANHA ABOLICIONISTA / LEI ÁUREA ■ A crise do escravismo, Imolada com o fim do tráfico [4.8j, cresce com a Guerra do Paraguai [5.31, a imigração [5.5] e a industrialização [5.6]. Os cativos passam de 2,5 milhões para 1,5 milhão em 1850-1872 (a mortalidade é 0 triplo da dos livres; a natalidade, interior), a maioria (54%) nas provindas negreiras cafeicultoras: RJ. MG. SP. Mas 0 Parlamento nem examina os 1“ projetos de lei abolidonistas (1850). Em 1865 a Junta Francesa de Emancipação (Intelectuais) faz um apelo respeitoso e até reverente a d. Pedro. Lisonjeado, este diz que a questão é só “de forma e oportunidade" (o Pais está em guerra). Na Fala do Trono de 1866. toca pela 1* vez nos “proble­ mas do escravo'. ■ 0 tema cinde o Conselho de Estado. Pimenta Bue­ no pede (1/2/1867) a libertação gradual até 1900. Olinda [5.1] se opõe, pois teme um “terremoto social"; Muritiba [4.6] quer a escravidão até 1930. Só o vise. de Jequi­ tinhonha [1794-1870], filho de negra, advoga a abolição já. Com 0 golpe conservador de 1868 [5.1). o tema sai das Falas do Trono. Em 1870 o gabinete Rio Branco [5.1] (conservador-moderado que em 1867 julga o assunto “inoportuno” e ‘perigoso’ ) encontra uma solução contemporlzadora. ■ A Lei do Ventre Livre, Rio Branco ou do Nascituro, liberia o filho de escrava (que fica sob “tutela’ do senhor até os 21 anos) e cria um fundo de emancipação (que em 12 anos alforria 0,7% dos cativos). Após o mais duro de­ bate parlamentar do Império, a lei passa na Câmara (61 votos a 35), Senado (32 a 4) e é sancionada (28/9/1871) pela princesa Isabel. Para o abolidonismo, é "falha e manca, triste e arrastadamente executada" (A. Rebouças). Já os escravistas exigem; ‘ Não se agite de novo tão grave questão”: ligam-na à paz doméstica, ao direito de propriedade, à organização do trabalho, à riqueza públi­ ca e privada. Muitos senhores abandonam na rua as crias de suas negras. Segue o comérdo de ingênuos (filhos de escrava, em tese livres). ■ 0 movimento pró-abollção forja, aos poucos, no ini­ cio, suas entidades (BA, 1852,1869; Campos, RJ, 1870) e arautos: o jornalista Luis Gama [1830-1882, 4.3], o poeta romântico e agitador Castro Alves [1847-1871, 5.9], Arrefece face à solução a conta-gotas de 1871, mas a seguir se revigora. ■ Très correntes se definem. A escravocrata, na de­ fensiva, nâo almeja eternizar o sistema, mas um fim suave, via lei de 1871 ou libertação com indenização. A emandpaclonista (que inclui d. Pedro) quer reformas graduais, moderadas, sem afetar a lavoura. A abolicio­ nista exige libertação já, sem indenização. Há ainda atitudes intermediárias, nuances e muitas mudanças de posição. ■ A Campanha Abolicionista, pioneira das campanhas nadonais brasileiras, começa (5/3/1879) com o discurso do dep. Jerônimo Sodré, da BA. Um projeto de emandpaçào em 10 anos, vencido na Câmara por 77 votos a 16 (30/8/1880), projeta o dep. Joaquim Nabuco [1849-1910]. Nasce a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, lide­ rada por Nabuco e 2 negros, o engenheiro André Rebouças [1838-1898], crítico da economia escravista, e o ar­ dente jornalista José do Patrocínio [1853-1905], o Zé do Pato, filho de uma quitandeira de Campos. A entidade lança o jornal OAbolicionisla e um dclo de conferèndas no teatro S. Luis. ■ 0 movimento Inclui poesia, música, teatro, con­ certos, livros de ouro, bazares, quermesses, clube femi­ nino, caravanas, multa imprensa. Trava uma luta de idéias inédita no Pais; Patrocínio (assinando Proudhomme) destroça o argumento do direito ã propriedade: “A escravidão é um roubo”. 0 Banquete Abolldonista atrai o embaixador dos EUA. 0 dr João Marques inida uma ação que liberta milhares, com base na necessidade de 0 senhor provar a filiação do escravo. Luís Gama, em SP liberta mais 500 nos tribunais. A Confederação Abolidonlsta (12/5/1883) luta por aqueles que não chama "escravos", mas "escravizados". No CE, os jangadeiros

(Francisco Nascimento, o Dragão do Mar) boicotam o trá­ fico. Começam as alforrias espontâneas (20 mil só no RJ. 1873-1885), em atos públicos; passeatas; meetings (co­ midos); ações concentradas para emancipar todos os escravos de uma rua (Ouvidor e Uruguaiana, Rio; Lgo. de S. Frandsco. S. Paulo), vila (Acarape, CE), cidade (Porto Alegre), provínda (CE. AM). ■ Há forte reação. 0 Centro da Lavoura e Comérdo reúne (1/7/1884) em assembléia os Clubes da Lavoura, que criam Centros, Ligas e Núcleos de Defesa Agricola (milícias) contra o ‘movimento anárquico (da abolição), a loucura do governo e os caprichos do Imperador". A Câmara abre a sessão de 1884 dizendo nâo aceitar abolição sem indenização. ■ A Lei do Sexagenário é idéia do liberal-emandpacionlsta Manuel P S. Dantas, que sobe ao governo sob 0 lema ‘nem retroceder, nem parar, nem precipitar'. 0 projeto inicial liberta sem indenização o cativo de mais de 60 anos. A Câmara recusa-o e derruba Dantas. Assume 0 liberal-escravocrata moderado José A. Sarai­ va, que limita o projeto, mas também cai. A lei sai no govemo do conservador barão de Cotegipe, escravocra­ ta (28/9/1885), com mais limitações: liberdade só aos 65 anos; e penas mais severas para quem ‘seduza ou açoite" escravos fugidos. ■ A campanha passa à ação extralegal; ajuda fugas e quilombos, ataca capitâes-do-mato. Em SP são os Caifazes de /Vntonio Bento, intelectuais, estudantes, fer­ roviários. gráficos, muitos cocheiros; em Campos, as Bastilhas de Luís Carios de Lacerda incendeiam canavi­ ais e an-ancam escravos do tronco. 0 Clube do Cupim (PE), os grupos de Cesário Mendes (Cachoeira, BA) e Francisco Alves (Buquim, SE) dizem usar "todos os meios". A massa de escravos adere ao movimento pela fuga em massa (1/3 dos 173 mil cativos de SP). São as retiradas, que não deixam um só escravo em Rio Claro, SP Nasce um quilombo de novo tipo, abolldonista: o do Leblon (Rio); o do Jabaquara (Cubatão. SP), com 10 mil habitantes, mil homens em armas, liderado pelo sergi­ pano Quintino de Lacerda. Santos. SP vira território livre. Mata-se senhores, capatazes e capitães-de-mato (estes já têm que ocultar as algemas ao conduzirem cativos), no que Luís Gama considera "atos de legífima defesa'. ■ 0 governo apela ao Exército, o último recurso. Co­ tegipe manda a tropa agir contra o Jabaquara; mas o Clube Militar, sob a direção do mal. Deodoro, apela â Coroa (26/10/1877) por julgar humilhante o ofício de capitão-de-mato. ■ A Frente Abolicionista se amplia. 0 rico cafeicultor Antonio Prado [5.4] deixa 0 gabinete Cotegipe, acu­ sando-o de enfrentar um rio caudaloso com açudes. João Alfredo de Oliveira o acompanha. 0 ex-escravocrata con­ victo Moreira Barros (Taubaté. SP) proclama-se abolidonista e liberta seus cativos. A hierarquia católica, antes omissa, engaja-se e traz o estratégico apoio da devota princesa Isabel. Esta entra na campanha e. ao cair o gabinete Cotejipe, chama João Alfredo. Um projeto, ain­ da gradualista, de abolição com 2 anos de serviço obriga­ tório (20/4) naufraga. Quando começa a sessão legis­ lativa (3/5), com 0 povo na galeria e na rua, já é ‘ im­ possível e impraticável a resistência" (João Alfredo). ■ A lei (“ Art. 1°; É declarada extinta a escravidão no Brasil; 2*: Revogam-se as disposições em contrário”) passa na Câmara (12/5.9 votos contra), Senado (13/5,1 voto contra) e é sandonada no mesmo dia pela regente, com a caneta de ouro que inspira o nome Lei Áurea; 5 mil pessoas festejam diante do paço. Patrocínio, para sur­ presa geral, cria com ex-escravos (22/9) a Guarda Negra, que jura dar seu sangue pelo Império e ataca atos repu­ blicanos. Outros negros, como o caifaz Artur Carlos, lutam pela República. A massa de ex-escravos deixa as fazendas; sem opção, forma comunidades rurais de

subsistência e os bairros africanos como a Pequena África (Saúde. Rio). Marginalizada, vigiada, perseguida, miserável, seu número se reduz bruscamente.

Cronologia 13/10: A (provável) úlllma leva de escravos africanos (209) chega a Serinhaém, PE 1855-1856: 1* aparição do cólera no País mata cerca de 200 mil pessoas 1855-1875; Caxias, ministro do Exército • 0 gen. Abreu e Lima (filho do pe. Roma) publica em Recife. PE, o livro O S ocialism o • E nsaio S obre a D esigualdade das R aças H um anas, do conde francês do Gobineau 1856 1/1: Epidemia de cólera em Santos 26/1 : Incêndio do teatro S. Pedro, RJ 6/4: Acordo de navegação Brasil-Paraguai 2/7: Nasce o Corpo de Bombeiros da Corte 3/9: Morre, no auge do poder, o marquês do Paraná, presid. do Gabinete de Conciliação; Caxias assume a presidência 24/12: Revolta dos colonos germano-suiços da Fazenda Ibicaba, SP. contra o que chamam “uma nova escravidão” • A Faculdade de Medicina da BA recusa, por considerar materialista, a tese Funções do C érebro, de Guedes Cabral • G. Flaubert publica M adam e B ovary 1857 8/3: Greve das tecelâs da Cotton, Nova York, pela jornada de 10 horas; o patrão provoca incêndio que mata 129; origem do Dia Internacional da Mulher 9/3: Vitória parcial dos colonos da Fazenda Ibicaba (Limeira, SP) sobre a Cia. Vergueiro 3/5: Instala-se a 1" legislatura eleita nos círculos, grandemente renovada e com 1/3 de liberais 4/5: Gabineie do conservador marquês de Olinda, 0 último da Conciliação 10/5: A Revolta dos Cipaios toma Delhi e contesta o domínio britânico na India 31/8: O Banco do Brasil perde o monopólio das emissões 20/9: 1“ navio movido a hélice no RJ • José de Alencar publica 0 G uarani • H istória G eral do Brasil, de F. A. Varnhagen, paradigma da historiografia oficial • C. Baudelaire publica A s Flores do M al 1858 9/1 : Criado no RJ o Liceu de Artes e Ofícios, 1* escola noturna para adultos no Brasil 10/2: Inaugurada a ferrovia de Salvador a Alagoinhas. BA. 2* do Brasil 12/2: Tratado de navegação Brasil-Paraguai. negociado por Rio Branco 18/3: 1' trecho (Petrópolis-Pedro do Rio) da 1* estrada pavimentada do Pais. a Uniâo e Indústria 29/3:1» trecho (RIo-Queimados) da Estrada de Ferro de D. Pedro II (d. Central do Brasil) Maio: O Brasil contrai empréstimo junto ao Banco Rothschild, inglês 12/12: Gabinete do conservador (ex-liberal) A. Limpo de Abreu, vise. de Abaelé • M em órias de um C olono no Brasil, do suiço Thomas Davatz. lider da revolta de Ibicaba 1859 30/1: 1* linha de bondes, puxados a burro, para 0 Alto da Boa Vista, RJ S/5: Acordo de limites Brasil-Venezuela Maio: A Câmara discute lei permitindo casamentos entre religiões diferentes 10/8: Gabinete conservador de A. M. da Silva Ferraz 25/8: Concerto de piano do menino prodígio Artur Napoleão. RJ • A Prússia proibe a emigração de seus súditos para o Brasil, devido a denúncias de maus-tratos • 1* missão presbiteriana, RJ (rev. Abel Qreen Simonton)

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Cronologia

5.8 ÚLTIMAS CRISES E FIM DO IMPÉRIO ■ A República de 18B3 chega 70 anos depois de suas irmâs latino-amencanas [2.10], 30 anos antes das repú­ blicas européias pós-l Guerra. Enterra um Innpério deca­ dente que, todos dizem, nâo sobreviveria a d. Pedro II. A Abolição [5.81 é o maior, mas não o único catalisador da queda. ■ Movimentos populares de vários tipos indicam o tim da calmaria social dos anos 1850-1860. Na BA a pre­ gação do Conselheiro já atrai fiéis [6.3], Em S. Leopoldo, RS. a seita dos mucker (beatos), de Joâo Jorge e Ja­ cobina Maurer (mortos na repressão), reúne fiéis de origem alemã; atacada, resiste 1 ano (até 2/8/1874). Em Campina Grande. PB, começa (14/10/1874) a Revolta do Quebra-Quilo. contra os impostos e o recrutamento força­ do, que atinge a PB. PE. AL; grupos correm às feiras que­ brando medidas do recém-adotado sistema métrico. No Rio, um aumento do bonde gera protesto de 4 mil diante do palácio imperial. Não atendido, insuflado por Lopes Trovão. 0 povo apelida o monarca de Pedro Banana e rompe 1880 com a Revolta do Vintém, 4 dias de quebraquebra e barricadas. ■ A Questão Religiosa (1872-1875). 0 bispo do Rio suspende o pe. Almeida f/artins por oficiar (3/3/1872) em homenagem do Grande Oriente do Lavradio à Lei do Ventre Livre e a Rio Branco. Os bispos de Olinda (d. Vital Gonçalves de Oliveira) e PA (d. Antonio de Macedo Cos­ ta) interditam aos maçons o culto católico. Abala-se a longa coexistência igreja-Maçonaria. D. Pedro, maçom e autoridade eclesiástica pelo poder do padroado, ordena o fim da interdição. Os bispos negam, são presos, conde­ nados a trabalhos forçados. 0 caso divide o País. Repu­ blicanos defendem o cetro contra o báculo; teatros ridi­ cularizam 0 clero; o bispo do Rio é apedrejado no púlpi­ to. Uma missão de paz em Roma fracassa. Ao fim, d. Pe­ dro anistia os bispos (17/9/1875) e abafa o caso. mas a Igreja não o perdoa. ■ 0 movimento republicano atua desde o f^anifesto de 3/12/1870 [5.1). Em SP seduz a elite cafeeira. adepta do federalismo e de mais poder para si. Existe também em MG, RS, RJ, na Corte. É quase nulo no Nordeste, onde o baianismo imperial privilegia as elites locais. Em 1884 elege apenas 3 dos 122 deputados gerais; na última eleição do Império (31/8/1889), tem 14% dos votos. ■ 0 positivismo, fllosofia-rellglão do francês Auguste Comte. [1798-1857], inspira boa parte dos republicanos. Prega a redenção da sociedade pela ciência, com "o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim'. Tem um Apostolado diminuto (53 fiéis em 1889), automarginalizado, republicano, mas hostil a revoluções (Miguel Lemos [1854-1917], Teixeira Mendes [1855-1927]). Aspectos de sua doutrina ganham expressão política no tribuno popular Lopes Trovão [1848-1925] e no ten.-cel. Benjamin Constant [1836-1891]. positivista heterodoxo (deixa 0 Apostolado em 1881), ídolo de seus alunos na Academia Militar que. em pactos de sangue, juram seguir 0 mestre a todo custo. ■ A Questão Militar (1883-1889), longa série de Inci­ dentes, gira em tomo do veto ao envolvimento de oficiais em polêmicas públicas. 0 cel. Sena Madureira home­ nageia, na Escola de Tiro. o jangadeiro-abolicionista F. Nascimento [5.7] e publica artigo sobre o projeto Paranaguá de montepio militar; é exonerado. Outro arti­ go leva a 2 dias de prisão o cel. Cunha Matos. A oficiali­ dade indignada hostiliza o min. da Guerra, autor das punições. No RS, faz assembléia com aval do mal. Deodoro da Fonseca [1827-1892]. herói do Paraguai. Su­ cedem-se as insubordinações, artigos, punições. Deo­ doro, cada vez mais envolvido, é exonerado, o que só eleva sau prestígio; 200 oficiais reunidos no Teatro Re­ creio Dramático, Rio (2/21887), elegem-no porta-voz de moção a d. Pedro contra as punições. Sitiado, o governo cede, demite o ministro (12/2), cancela as punições (20/5), mas nâo cai, o que cria no Exército o temor de “uma pérfida vingança’ . 0 gen. Floriano Peixoto [18391895], em carta a um amigo, prega a ditadura militar face

à “podridão que vai por esse pobre País". A crise ressurge com a punição de Benjamin Constant por um discurso (23/10/1889) na Escola Militar.

• Compêndio de Filosofia, de frei Mont’Alverne • C. Darwin publica A O rigsm das E spécies

■ 0 prestigio do Império se desvanece. D. Pedro, enfermo desde 1887 (correm boatos de que está louco ou senil), apaga-se. A herdeira, apesar da Lei Áurea, é tida como uma beala manipulável por seu consorte, conde D'Eu [1842-1922], o Francês. Este tem (ama de cruel, na Guerra do Paraguai [5.3] e na gestão de seu imenso cortiço, o Cabeça de Porco, morada de 4 mil famílias do Rio. A Câmara de S. Botja, RS, propõe (31/1IV1887) plebiscito sobre a República, face a pers­ pectiva de ter no trono "uma mulher obcecada por uma educação jesuítica e casada com um príncipe estrangeiro".

20/1 ; Criado o Ministério da Agricultura. Indústria, Comércio e Obras Públicas 29/7: A princesa Isabel presta juramento ao Senado como herdeira presuntiva do trono 18/8: Nova lei eleitoral; os distritos passam de 1 para 3 deputados 22/8: Lei reforma o sistema bancário 24/11; A Sâo Paulo Railway inicia a construção da ferrovia de Santos a Jundiaí 16/12; Começa a circular (até 1876) a revista S em ana Ilustrada, com gravuras e charges • O Rio de Janeiro conta 30 tipografias

■ 0 Baile da Ilha Fiscal (9/11/1889), ofertado pelo im­ perador, absorve em refinados preparativos toda atenção da corte imperial, que nem suspeita do que está por vir. Consome 800 kg de camarão. Criticado e caricaturado à farta, toma-se o símbolo do esbanjamento e imprevidên­ cia de um regime em agonia. Finda a festa, os últimos dos 5 mil convivas cnjzam com a tropa do 22® RI, que embarca para o AM. punido por apoiar Benjamin Cons­ tant. Em 10/11,0 Clube Militar (pela 1* vez com a presen­ ça de civis) indina-se pela causa antimonárquica. ■ Deodoro só adere à República em 11/11/1889. Indisposto com o gabinete Ouro Preto devido às novas punições, recebe em casa os republicanos Quintino Bo­ caiúva, Sdon Ribeiro. Aristides Lobo, Francisco Glicério e 0 não-republícano Rui Barbosa. Ainda reluta (em 1888 via na República "uma desgraça"); alega ser amigo do monarca. Deixa-se convencer pela necessidade de salvar a honra do Exército. Enquanto isso oficiais do l» e 9Reginentos de Cavalaria, 2®de Artilharia de Campanha e Escola Superior de Guerra comprometem-se a seguir Benjamin Constant ‘até a resistência armada". ■ Marca*se o levante para 17/11, mas Bocaiúva e o cel. Solon Ribeiro o adiantam (Deodoro, muito doente, pode morrer e privá-los de um trunfo decisivo). Solon espalha (14/11) 0 boato das prisões de Deodoro e Constant. Falase em substituição do Exército pela Guarda Nacional. ■ 0 golpe republicano. Na madaigada de 14-15/11, as unidades fiéis a Constant (20% do total) se rebelam e marcham para o campo da Aclamação (h. pça. da Re­ pública), com Deodoro no comando. No QG do Exército, 0 govemo tenta organizar a resistência, travada pelo mal. Floriano. ajudante-geral do Exército. 0 min. da Marinha, barão de Ladário. troca tiros diante do prédio, no único episódio sangrento de 15/11. Deodoro diz aos ministros que 0 gabinete está dissolvido; podem todos ir para casa. exceto Ouro Preto e o titular da Justiça, que ficam presos. Depois, desfila a tropa pela cidade. Até aí não se fala em República. "0 povo assistiu àquilo bestializado, sem sa­ ber 0 que significava, julgando tratar-se de uma parada" (Aristides Lobo. 18/11). ■ A proclamação da República Federativa ocorre à tarde na Câmara Municipal. As províncias passam a esta­ dos federais. Exército e Armada, “em nome da nação", fomiam o govemo provisório com Deodoro à frente. No paço, 0 monarca deposto nomeia em vão um novo go­ vemo imperial. Intimado a deixar o País, à noite, reclama que não é “negro fugido" para escapar às escondidas. Recusa subsídio de 5 mil contos e embarca (17/n) para 0 exílio na França, onde morre em 1891.

1860

1861 2/3: Gabinete conservador de Caxias, após visível avanço liberal nas eleições 12/4: Guerra Civil entre Norte industrial e Sul escravista dos EUA: 600 mil mortos em 4 anos; escassez mundial de aigodão 23/6: Aberta a Estrada União e Indústria (Petrópolis-Juiz de Fora, 146 l<m), de Mariano Procópio, com técnicos franceses 4/9: Cartos Gomes estréia no RJ A Noite do Castelo, sua 1‘ ópera 2/12; Aberta a Exposição Nacional, no RJ. com críticas ao trabalho escravo 25/12: Naufraga no RS o navio inglês Prince of Wales, cuja pilhagem serve de 1® pretexto para a Questão Christie 1862 17/3: Douglas Christie, embaixador inglês, faz ultimato ao Brasil, abrindo a Questão Christie 30/3; Inaugurada, 37 anos após a decisão de erguê-la, estátua eqüestre de Pedro I na pça. da Constituição (h. Tiradentes) 11/5.; Iluminação a gás em Salvador. BA 24/5: Ministério dos Anjinhos, coalísâo de conservadores moderados e liberais 30/S; Ministério dos Velhos, presidido pelo conservador moderado marquês de Olinda 17/6: A polícia do RJ prende 3 oficiais ingleses; a exigência de reparação pelo embaixador inicia 0 segundo incidente da Questão Christie 2S/6: Lei adota o sistema métrico decimal 29/6: Três 1" barcas a vapor Rio-NIteróI 2/8: O dep. Ferreira da Veiga propõe a criação da província de MG do Sul 7/9: Reforma do Passeio Público. RJ, no cun/ilíneo estilo “inglês", trazido da China 23/9: O. Bismarck. 1' ministro da Prússia 16/10: O Congresso paraguaio indica F. Solano López presidente (no lugar de seu pai. Carlos Antonio. morto em 10/9) 31/12; Frota de guerra inglesa bloqueia o porto do RJ e apresa 5 naves brasileiras, no quadro da Questão Christie • A Estrada de Ferro Central do Brasil transporta 300 mil passageiros no ano • V. Hugo publica Os Miseráveis 1863

■ Revolução dentro da ordem, feita por um mo­ narquista em nome da honra militar, o 15/11 tem algo de fortuito. Ainda se discute se seus autores falam pelas jovens camadas médias urbanas. Toma do positivismo a separação Igreja-Estado e o lema 'Ordem e progresso' na nova bandeira (19/11). Como o Império, tem sua ‘consti­ tuição não escrita", que entrega ao Exército o poder moderador de fato.

1/1: A. Lincoln proclama a abolição da escravatura nos EUA 12/5: Dissolução da Câmara; convocada nova Câmara para 1»/1/1864 23/9: 0 rei Leopoldo I da Bélgica arbitra em favor do Brasil a Questão Christie Outubro: Fundada, em Genebra, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha • Ilegitim idade da Propriedade Sobre o Escravo, de Perdigão Malheiro 1864

■ 0 plebiscito de 21/4/93, fixado pela Constituição de 88 (11.3), ainda conta 10.2% de adeptos da monarquia.

6/5: Chega a Montevidéu a Missão Saraiva, que fracassa em suas exigências ao Uruguai

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Cronologia

--------- 5.9 CULTURA / EDUCAÇÃO ■ A procura de uma Identidade brasileira marca a evolução cultural r>o império; busca obstinada, de para­ digmas e valores que caracterizem o específico brasileiro. 0 acervo cultural erudito da época resulta da síntese entre a realidade local e sua percepção pelos padrões em voga na Europa.

a se europeizar, abandonando a varanda colonial (redescoberta no s. 20). Petrópolis, constoiída (d. 1843) a par­ tir do palácio de verão do imperador e refúgio da elite cortesã, é uma cidade européia. Até os trajes, antes de tropical exuberância colorida, enegrecem ou acinzentam sob influência anglo-francesa.

■ 0 romantismo, bandeira literária do ascenso bur­ guês, tarda uma geraçáo para chegar ao Brasil, so­ bretudo via França, com a revista Niterói e o poema Suspiros Poétiœs e Saudades (1836), de Gonçalves Magalhães (1811-1882). Assume o nacionalismo e lança as bases de uma literatura nacional A preocupação histórica romântica toma a forma do indianlsmo (culto do índio como paradigma da virtude) com Nêmia (1837). de Rodrigues Silva. São indianistas alguns dos principais poemas (Os Timbiras. 1857, de Gonçalves Dias [18231864)) e romances da época (0 Guarar)i, 1857, e Iracema, 1865, de José de Alencar [1827-1877]). Já o tema da escravidão é evitado (Alencar, como deputado, se opõe à Lei do Ventre Livre); surge na última safra romântica, engajada e abolicionista {A Escrava Isaura. 1875, romance de Bernardo Guimarães [1825-1884] e em especial os poemas Navio Negreiro, Vozes d'Àlrica e outros de Castro Alves [1848-1871]). Num país que mal começa a imprimir livros, o romantismo produz os 1” sucessos de vendas (A Moreninha. 1844. de Manuel de Macedo [1820-1882]), criando um (relativamente) ‘gran­ de público' antes inexistente.

■ A arte popular, já em adiantado estágio de caldeamento, alia-se aos inventores cultos da cultura nacional. Na música, o lundu (do quimbundo kilundu, nostálguo ente mitoiógk»), tido em 1780 como ‘dança licenciosa e indecente", invade os salões nos anos 1830, e dali não sai até 0 s. 20; é talvez o 1®da longa série dos sucessos da músk:a afro pelo mundo. Rlho do lundu com a polca, nasce nos anos 1870 o maxixe (apelido do boêmio que c teria inventado), já bem brasileiro, cheio de requebros e improvisos. Ernesto Nazaré [1863-1934], pianista de pro­ fissão, fixa 0 maxixe. Chiquinha Gonzaga (Francisca Edwiges Neves, [1847-1933]), professora de piano, boé­ mia, decana das brasileiras emancipadas, militante aboli­ cionista e republicana, presa polítka em 1893. produz 87 partituras teatrais e 2 mil composições, entre elas Só no Choro (1889) e a antológica Õ Abre Alas, 1* música de carnaval com autor conhecido, feita (1899) para o cordão Rosas de Ouro. Na 2* metade do século, a alegre mas violenta brincadeira lusitana do entnjdo se civiliza, africaniza e origina o carnaval brasileiro. Os 1" chorões cariocas produzem (anos 1880) seus improvisos na flau­ ta, vk)lão e cavaquinho. Na Pequena Africa da Saúde, Rio [5.7], no Recôncavo Baiano, áreas rurais de SP e MA, a umbigada e outras danças da cultura bantu [2.4], em convivência com os lundus e maxixes, seus deriva­ dos aculturados, vão gestando o samba.

■ 0 reaiismo-naturaiismo (no Brasil é difícil distinguilos), prenunciado (1853) por Memórias de um Sargento de Milícias (Manuel Antônio de Almeida [1831-1861]), surge com 0 Coronel Sangrado (1877), de Inglês de Sou­ sa [1853-1918], mas principalmente com 0 Mulato (1881), Casa de Pensão (1883) e 0 Cortiço (1890), de Aluísio Azevedo [1857-1913], maranhense como Gon­ çalves Dias. A busca da Identidade nacional sofistica-se. Em lugar do ingênuo idealismo indianista. os realistas tra­ tam 0 Brasil concreto de seu tempo (a questão racial e a social), 0 seu estilo e psicologia próprios. ■ Joaquim Maria IVIachado de Assis [1839-1908]. No início influenciado pelo romantismo {Ressurreição, 1872, A Mão e a Luva, 1874, Helena, 1876), Memórias Póstu­ mas de Brás Cubas (1880) torna-o expoente maior de um realismo de feição própria, machadiano. e para muitos de toda literatura brasileira. Mestiço, filho de lavadeira e pin­ tor, órfão, epilético, gago, aprendiz de tipógrafo, jomalista, funcionário público, autodidata, estréia com poemas (Crisálida, 1864). Faz-se autor teatral, crítico, cronista, ro­ mancista e contista. Brás Cubas, Ouincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) pintam o Rio do fim-de-século e a alma humana com ironia, acrimónia e desencanto feitos de dubiedades e subintendidos. Fundador (1897) e 1* presidente da Academia Brasileira de Letras, morre con­ sagrado como sumidade literária. ■ A poesia parnasiana, também trazida da França, rea­ ge ao engajamento e sentimentalismo românticos com a defesa da arte pela arte e o culto da fornia. Seus ex­ poentes (a tríade: Alberto de Oliveira [1857-1937), Raimundo Correia [1860-19111 e Olavo Bilac [1865-1918]) dominam as preferências estéticas da virada do século. ■ Na música erudita, até o 1° reinado, o pe. José Mau­ rício Nunes Garcia [1767-1830] desenvolve o mulatismo e 0 estilo da escola das Minas [2.12]. Na fase romântica, Carios Gomes [1836-1896] faz furor no Rio, obtém do imperador uma bolsa de estudos na Itália, onde vive 31 anos. Tem èxito no Teatro Scala de (líilão com a ópera 0 Guarani (1870) mas nâo o repete. Seu nacionalismo é apenas temático; musicalmente, segue da escola italiana para a wagnenana. Coisa semelhante xorre na pintura; Pedro Américo [1843-1905], menino-prodígio na PB, ga­ nha uma bolsa, instala-se na Europa e produz por encomenda grandes telas (Grilo do Ipiranga. 1880, COtn 6,5 X 4 m), onde o tema nacional se expressa com euro­ peu (e conservador) rigor acadêmico. A arquitetura chega

Educação ■ 0 Brasil se atrasa na área do ensino. Cursos supe­ riores só surgem em 1808 [3.1], com sentido restrito e pragmático: cursos militares (Academias da Marinha e Militar. 1810) e médteos formando cinirgiões para a tropa (BA 1808). Iniciativas particulares são vetadas. Os cursos de direito de S. Paulo e Olinda (Recife d. 1854), datam de 1827; viveiros de políticos, formam a limitada elite bacharelesca: S. Paulo 264 alunos em 1854 e 385 em 1879; Recife, 320 e 466 nas mesmas datas. Os 49 anos do 2' reinado produzem as Escolas Politécnica (h. Engenharia da UFRJ) do Rio, 1874. e de Minas de Ouro Preto, 1876. Some-se a Academia Imperial de Belas-Artes (Rio, 1826), as Escolas Militares da Corte. RS e CE, 2 seminários de nível superior. E só. ■ Planos de universidades se repetem: do conde da Barca (1816); da Constituinte (1823): da Universidade D. Pedro II (1848); de Paulino de Sousa (1870); do ba­ rão Homem de Melo (1881); de Antonio José Ribas (1883). A última, Fala do Trono (1889). ainda fala em fundá-las. Mas nenhum plano é aplicado, quando no resto do hemisfério as universidades datam de 1538 em S. Domingos, 1551 no Peni e México, 1613 na Argen­ tina, 1638 na América do Norte. 1721 na Venezuela, 1876 no Uruguai. ■ 0 Imperial Colégio de 0. Pedro II, inaugurado na presença do regente e todos os ministros (25/3/1838), é 0 modelo para o ensino médio. 0 próprio imperador cos­ tuma examinar seus alunos (299 em 1879), filhos da elite. C^m a República, muda de nome (até 1909). Na província faltam liceus (de 2^ grau), embora alguns gran­ jeiem reputai^o (Caraça, Sta. Báriíara, MG, 1820; Salesiano de Niterói, RJ). E em 1854 3,7% da população de 6 a 14 anos freqüentam a escola primária, ‘gratuita a todos os cidadãos" segundo a Constituição [3.6]. Em conseqüência, a taxa de alfabetização cai, de 15,8 para 14,8% entre o 1* e o 2^ censos (1872-1890), apesar de a imigração favorecer o aumento dos alfabetizados (taxas de alfat>etização: espanhóis 35%. portugueses

48%, Italianos 68%). Os imigrantes criam colégios nas colónias com aulas em suas línguas de origem (Sto. Antonio, Blumenau).

6/6: 0 sen. Silveira da Mota lè o programa do novo Partklo Progressista, fusâo dos conservadores moderados e liberais 10/8: Acordo secreto Brasil-Argenlina prepara intervenção militar contra o governo blanco do Uruguai 10/9: “Quebra do Souto"; o grande banco Souto & Cia., RJ. suspende os pagamentos de quase 10 mil depositantes 28/9: Marx funda em Londres a 1* Associação Internacional dos Trabalhadores 15/10: Casamento da princesa Isabel com o francês Gastão d'Orleans, conde d'Eu 3/11:0 poeta indianista Gonçalves Dias morre em naufrágio quando retoma ao MA 11/11: Aprisionamento do vapor Marquês de Olinda, estopim da Guerra do Paraguai 5/12: A frota brasileira de Tamandaré bombardeia Paissandu 13/12: O govemo paraguaio comunica a proibição do tráfego de navios brasileiros por seu território 26/12: Tropas paraguaias penetram no MT; início da Guerra do Paraguai, ou da Trfpllce Aliança 29/12: Tropas paraguaias tomam o Forte Coimbra (IvIT), abandonado pela guarnição 31/12: Brasileiros e argentinos iniciam ataque a Paissandu • Após 6 vetos do imperador, o liberal Teófilo Ottoni toma-se senador, por I^G • Casamentos de não católicos, ou mistos, já podem obter registro • Legalização dos sindicatos na França • Gregor Mendel expõe as Leis da Hereditariedade 1865 2/1: Tropas tirasileiras e argentinas tomam Paissandu 7/1: Criação dos 'Voluntários da pátria” 20/2: Rendição de Montevidéu, sitiada e twmbardeada por brasileiros e colorados; Venancio Flores, presidente do Uruguai 9/4: Rendição do general Lee em Appomatox; fim à Guerra Civil nos EUA; 617 mH mortos 1/5: Tratado da Trfpllce Aliança: Brasil. Argentina e Uruguai, de Flores, se comprometem a nâo depor armas até vencerem o Paraguai 10/5: A população de S. Borja (RS) abandona a cidade ante o avanço guarani 12/5: Novo gabinete de Olinda, o Gabinete das Águias; programa: “Debelar a guerra" 11/6: Batalha naval de Riachuelo (Arg,); o Paraguai fica reduzido a 4 navios 25/6: A annada de Barroso retoma Corrientes (Arg.) aos paraguaios 26/6: Lançado ao mar o enoouraçado Tamandaré. 1* construído no Brasil 19/7: Pedro II chega a Porto Alegre, RS, para Inspecionar o Iront 3/8: O CE é o 1’ a adotar o sistema decimal 5/8: Paraguaios tomam Uruguaiana (RS) 13/8: Ana Nérl se alista como enfermeira voluntária na Guerra do Paraguai, onde fica conhecida como a Mãe dos BraslleinDS 22/8: Pedro II responde à Junta Francesa de Emancipação que o fim da escravidão é questão “de forma e oportunidade" 19/9: 5 mH paraguaios rendem-se em Uruguaiana perante Pedro II e o gen. MItre 23/9: Brasil e Inglaterra reatam relações, rompidas com a Questão Christie 3/12: José de Alencar, nas C artas Políticas de Erasm o, considera “extintos" os partidos Liberal e Conservador • A Escravatura no Brasil, do positivista maranhense F. Brandão Júnior • Iracema, clássico do Indianlsmo de José de Alencar 1866 16/4: Osório é 01® a desembarcar na invasâo do Paraguai (Passo da Pátria)

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6 REPUBLICA VELHA

6.1 REPÚBLICA DA ESPADA/ CONSTITUINTE DE 1891

Cronologia

proletariado", Lauro Sodré considera ‘um esbulho’ tentar “ferir todos os que não sabem 1er, ainda que trabalhem tanto^. E também as defesas do voto feminino (Lopes Trovão, Saldanha Marinho). Barbosa Lima, CE, alega que a mulher deve se devotar “a esse grande problema, para o qual todos os momentos são poucos, a educação dos filhos"; Lacerda Coutinho,SC, que “a mulher não tem capacidade’ de votar; e Coelho e Campos. SE. mais dire­ to: "Minha mulher não irá votar".

24/6; Batalha de Tuiuti, maior combate campal da Guerra do Paraguai (33 mil soldados da Aliança, 24 mil paraguaios) 10/7: Começa a circular a G azeta M édica da Bahia, divulgadora da Escola Tropicalista 20/7: O Império cria seu 2® corpo de exército, no RS 3/8: 3° gabinete Zacarias, progressista: programa: a guerra e a crise financeira 3/9: Tropas brasileiras tomam o forte paraguaio de Curuzu 12/9: Conversações propostas por López e recusadas pelo Brasil 22/9; Vitória paraguaia em Curupaiti, atacada por 19 mil brasileiros e argentinos 10/10: O marquês de Caxias assume o comando brasileiro na guerra do Paraguai 6/11: Decreto alforria todo “escravo da nação" em condições de lutar no Paraguai

■ Regime quase militar, a República da Espada, de Deodoro e Floriano (1889-1894), precede a fase da hegemonia da oligarquia cafeeira [6.8] na República Velha. As camadas médias, militares e civis, participam do governo em nível sem igual. Até a Constituinte de 1891 tém intensa ação modemizadora. embora conflituo­ sa e confusa. ■ 0 1° decreto (15/11/1889) do governo provisório [5.8] proclama a República federativa “provisoriamente" (até a Constituinte), com o nome (tomado dos EUA e vigente até 1967) Estados Unidos do Brasil. Faz das províncias estados; confia-ilies a elaboração de constitui­ ções, a eleição de governos e legislativos, a manutenção da ordem, segurança pública (guardas civis), liberdades e direitos, mas faculta a intervenção federal. ■ 0 governo provisório centraliza as forças arma­ das, os órgãos do antigo regime, a administração do Município Neutro. Decreta o fim do açoite na Armada [6,5] e 0 sufrágio universal (exceto analfabetos); baixa a Lei-Rolha de censura e fecha jomais; convoca a Constituinte; extingue o padroado [1.2], institui a liberda­ de de culto, separa Igreja e Estado; cria o casamento e o registro civis obrigatórios; baixa uma lei de falências, uma reforma educacional, toda uma constituição pro­ visória; e pôe a economia em polvorosa com o enciIhamento [6,2], ■ A convocação da Constituinte (21/12/1889) prevê uma assembléia unicameral exclusiva (apenas para redi­ gir a Carla), mas o decreto de 22/6/1890 toma-a congressual (composta pela Câmara e o Senado). Uma Comis­ são dos 5 redige o anteprojeto, revisado por Rui Barbosa, que atribui-se a (discutível) autoria do texto. Deodoro, ao assiná-lo. indaga: “Onde está o artigo que autoriza o pre­ sidente a dissolver o Pariamento?" Rui explica que tal dispositivo não cabe no presidencialismo; e o marechal: “Pois bem. Mas o senhor há de sair um dia do Congres­ so, como Antonio Carlos, em 1823 [3.6], tirando seu chapéu à magestade do canhão”. ■ A Assembléia, eleita em 15/9/1890 (205 deputados. 63 senadores; nem todos assumem), presidida pelo senador por SP, Prudente de Morais [1841-1902], leva 101 dias para fazer a Carta. Representa uma renovação de 85% ante o Pariamento Imperial. 0 republicanismo revolucionário, hostil a uma “monarquia sem imperador", é marginalizado: Silva Jardim [1860-1891], seu líder, nâo se elege. Predomina o republicanismo evolucionista, com uma ala jacobina [2.10], de civis e militares saídos das camadas médias urbanas, e outra realista (Prudente de Morais, Campos Sales), ligada à grande lavoura, A ban­ cada positivista é diminuta mas ativa (Demétrio Ribeiro, João Pinheiro. Júlio de Castilhos). Há os “republicanos de 16/11". E até o cons. Saraiva [5,1-2-7], esteio do Impé­ rio, elege-se senador pela BA. ■ 0 federalismo gera a maior polêmica. A centraliza­ ção Imperial, odiosa aos republicanos, é descartada, mas discute-se o alcance da autonomia estadual. Rui Barbosa lidera o bloco unionist. Os federalistas tèm seus redutos no rico Estado de SP (Campos Sales) e sobretudo no emergente RS. Júlio de Castilhos diz que só se deve dar à União "0 que for estritamente necessário à sua vida". Os positivistas, ultrafederalistas. falam em “21 pátrias bra­ sileiras”. Chega-se a antever um leque partidário definido pela luta entrefederalistas unionistas e federalistas. ■ A Igreja articula forte bloco conservador contra o estado laico, 0 arcebispo da BA e primaz do Brasil, d. Antonio, queixa-se, “em nome da Igreja Católica, a que pertence toda essa nação", das leridas feitas à religião no projeto constitucional". Condena a cnação de “uma nação separada oficialmente de Deus", o casamento civil ("uma afronta à boa ordem”), a secularização dos cemi­ térios e a suposta proibição de novos conventos. Outro debate trata do direito de voto. Fracassa a tentativa de estendé-lo aos analfabetos (Em nome da “elevação do

■ A Constituição visa corresponder na América do Sul ao seu modelo na América do Norte (Prudente de Morais, no dia da promulgação, 24/2/1891). Opta por um federalismo radicai: dá aos Estados ampla autonomia, competência exclusiva para taxar a produção e as exportai^es. organizar sua policia e aparelho judiciário; e à união, poderes definidos e limitados. Faz do Município Neutro Distrito Federal e prevé a mudan^ da capital para o Planalto Central [8.7]. Adota o presidencialismo, depois lamentado por Rui; o presidente, eleito diretamen­ te por 4 anos sem reeleição, chefia o govemo e o esta­ do, nomeia livremente os ministros, tem poder de veto. Extingue a união Igreja-Estado. o poder moderador [3.6. 5.1] (substituído pelo papel das forças armadas da ‘defe­ sa das instituições") e o voto censitário (vota todo cida­ dão maior de 21 anos. exceto analfabetos, mulheres, pra­ ças de pré, mendigos e religiosos em regime de claus­ tro), os privilégios de berço, a pena de morte. Mantém o voto distrital [5.1] e o sistema bicameral (Câmara eleita por 3 anos, Senado por 9). Cria o Supremo Tribunal Fe­ deral (instalado em 26/2/1891), com poder para julgar a constitucionalidade de atos do legislativo e executivo. ■ A eleição de Deodoro como presidente constitu­ cional, 24 h após votada a Carta, inicia uma fase agitada. Sai a duras penas (129 votos a 97 para Pnjdente de Morais, candidato da lavoura), sob ameaça de ‘ pôr a pro­ cissão (a tropa) na oia"; para vice vence o mal. Floriano, da chapa anti-Deodoro. Isolado da bancada do café. incapaz de criar uma base de apoio alternativa sem mi­ nistros de prestígio d. 21/1/1991. Deodoro nâo cede. A conselho do min. da Fazenda, barão de Lucena. decreta a dissolução do Congresso e o estado de sítio (3/11), violando a Constituído. Há resistência, civil (Prudente, Campos Sales) e militar (Armada, unidades do Exército no RS). Acuado (pelos canhões do alm. Custódio de Melo), doente, intransigente, o velho marechal renuncia e deixa a Presidência ‘ nas mãos do funcionário a quem incumbe substituir-me". ■ Floriano Peixoto [1839-1895], o Marechal de Ferro, veterano do Paraguai e alagoano como Deodoro. com­ bate-o, ajuda a depô-lo mas encarna o mesmo espírito. Prende e deporta 13 generais que contestam em mani­ festo a legalidade de seu mandato (a Constituição é dúbia). Rui requer habeas-corpus (depois negado) ao STF; Floriano ironiza: “Não sei amanhã quem vai dar habeas-corpus aos ministros do Supremo". E quando o Congresso debate a legalidade das medidas: “Vào dis­ cutindo que eu vou mandando prender". Meio caudilho, meio asceta, republicano jacobino mas matreiro, joga com 0 apoio da patuléia e dos cafeicultores para chegar ao fim do mandato apesar da Revolta da Armada e da guerra civil no Sul [6.2]. Consolida a República. Mas per­ de 0 controle da sucessão: é o PRP que improvisa (25/10/1893) um efêmero Partido Republicano Federal (dura 3 anos), lança Prudente de Morais e vence a 1* eleição presidencial direta (1/3/1894), com 276.583 votos (84,3% do total). Floriano nem comparece à posse. ■ Prudente de Morais é o ‘ pretendente natural" da aris­ tocracia cafeeira: paulista, republicano histónco mas conservador, imbuído dos ‘interesses da lavoura", livre de sonhos industnalistas. As velhas e novas elites, fartas de jacobinos fardados, suspiram aliviadas. Eis, afinai, o governante que até pelo nome augura-lhes a volta da paz e tranqüilidade tão úteis aos bons negócios.

1867 1/2: Pimenta Bueno entrega ao Conselho de Estado projetos de abolição gradual da escravatura (até 31/12/1899) 2/2; Batalha naval de Curupaiti 27/3: Tratado de Ayacucho; o Brasil reconhece a posse do Acre pela Bolívia 8/5: Retirada da Laguna reduz a coluna Camisão de 2,500 para 700 homens 18/6; Fuzilado o imperador Maximiliano: o México volta à República com o presidente B.Juárez 24/6: Balão de reconhecimento faz seu 1* vôo (100 m) na Guerra do Paraguai 7/9: Decreto abre a navios estrangeiros de cabotagem a Amazônia e o S. Francisco 7/9: Castro Alves encena na BA o drama Gonzaga 17/9: Fortaleza. CE, ganha iluminação a gás 3/11: 2* batalha de Tuiuti; os brasileiros fazem 155 prisioneiros e enterram 2.734 cadáveres paraguaios • 1“ ano de operação da ferrovia Santos-Jundiaí. SP 1868

3/1: Caxias assume o comando geral da Tríplice Aliança contra o Paraguai 23/1: Cafeicultores fundam a Companhia Paulista de Estradas de Ferro 16/2; Aberta ao público a ferrovia Santos-Jundiaí; até 1930 a ligação litoral-planalto é monopólio da São Paulo Railway 18/2; Completa-se o carco por terra da fortaleza guarani de Humaitá 16/7: Gabinete do vise. de Itaboraí; retorno dos saquaremas (conservadores) 18/7: Pedro 11dissolve a Câmara 25/7: Caxias entra em Humaitá. evacuada em segredo pelos paraguaios 26/9: Sobem os impostos de Importação 9/10: A Botanical Garden Rail Road instala bondes (puxados por buros) no RJ 1/12: Começa a circular em PE o lornal Kossuth (nome do herói húngaro), "republicano, federativo e universal" 6/12: Batalha de Itororó: brasileiros tomam ponte estratégica: seguem-se Aval (11). Lomas Valentinas (21), Angostura (30) 11/12: 0 gen. Osório, ferido no rosto em Ava(. retira-se da Guerra do Paraguai 1869 1/1:1* Brigada da Tríplice Aliança entra em Assunção, sem encontrar resistência 22/3; Conde d'Eu. comandante em chefe da tropa brasileira na Guerra do Paraguai 23/3: Caxias torna-se o 1“ (e últim o) duque do Império

11/5: A Fala do Trono não fala da "questão sen/il", ao contrário das 3 anteriores 16/5: Macaco vence a 1* corrida do Jockey Club Fluminense (h. Brasileiro), no RJ

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Cronologia

6.2 REVOLTAS FEDERALISTA E DA ARMADA / ECONOMIA

2/6: Gottschalk rege superconcerto sinlónico no RJ; 650 músicos, 28 pianos 12/8; Batalha de Períbebui, o Paraguai perde seus 18 derradeiros canhões 16/8: Batalha de Acosta Nu; 4 mil paraguaios enfrentam 20 mil brasileiros 7/9: Fundada em Salvador a Sociedade /Abolicionista 7 de Setembro 15/9: Lei proíbe leilão público de escravos, separação de casais e de pais e filhos 31/10; Começa a circular a Gazeta de Caminhas. órgão dos cafeicultores 17/11: 0 Canal de Suez, primitivamente com 8 m X 22 m X 162 km, liga os mares ti/lediterrâneo 8 0 Vermelho • A Estrada de Ferro D. Pedro II chega a Ouro Preto, capital de IVIG • A célebre Chlqulnha Gonzaga larga o 1“ marido; seu pai declara-a morta • A s A venturas de N hô Quim, 1“ história em quadrinhos brasileira • 1« censo argentino: 1,9 milhão de habitantes • Leon Tolstói conclui G uerra e P az

■ Passados 3 anos do 15/11 (tâo pacífico que o povo o confunde com uma parada [5.8]). a República da Espada enfrenta utna contestação militar que deixa 10 mil mortos: a Revolta da Armada, no Rio, e a Revolução Federallsta, no Sul. Sem objetivarem a restauração do trono, elas partem de forças ligadas ao regime deposto.

750 soldados e 13 canhões), em nome dos interesses do comércio e residentes de seus países. Declaram o Rio cidade aberta (que nâo pode atacar nem ser ata­ cada), impedem o desembarque de munição para Floriano, pressionam contra o bombardeio da cidade pela Armada.

■ A Revolução Federallsta visa restaurar no RS o domínio dos liberais da elite rural, absoluto no fim do Império (com Gaspar Silveira Martins). São os maragatos (apelido depreciativo, de Maragatería, antigo nome da província uruguaia de S. José, tida como terra de desor­ deiros, onde têm estâncias e apoios), fortes desde a Regência [4.4]. 0 novo regime projeta os republicanos. São os chimangos (antigo apelido, adaptado (4,4j) ou pica-paus (do barrete vermelfio dos unifomies militares). Seu caudilfio é o jornalista Júlio de Castiltios [18601903]. que traz dos estudos em SP para o jomal A Fe­ deração (1884) 0 abolicionismo, o positivismo e o repu­ blicanismo. /Vliado a Castilhos, cresce o poder (mais tarde nacional) de Pinheiro Machado [1852-1915], coronel dos coronéis da República Velha [6.7].

■ Floriano, indagado pelo representante inglês, sobre co­ mo receberia forças destinadas a defender o interesse britânkx), responde apenas: “A bala”. Silencioso, inflexível e implacável, resiste no Sul e no Rio e espera os navios que encomendou (é retratado em 0 Triste Fm de Poiicarpo Quaresma, ácida crítica de Lima Barreto). Quando estes chegam, faz (11/3/1893) um ultimato de 48 h aos navtos sublevados. Saldanha da Gama, sem condições de re­ sistir, asila-se na corveta portuguesa Mindelo.

1870 1/3: Solano López morre em combate em Cerro Corá; fim da Guerra do Paraguai 19/3; A ópera O Guarani, de Cartos Gomes, faz sucesso no teatro Scala de fiíllào. Itália 31/3: Fundada a Sociedade Emancipadora (dos escravos) Campista, RJ 8/4: Rende-se em Bela Vista, MT. a coluna de Bernardino Caballero, último reduto de resistência paraguaia 24/5: Pedro II alforria 70 filhos de escravas da fazenda imperial 19/7: Começa a Guerra Franco-Prussiana 15/8: Comissão da Câmara propõe medidas graduallstas para a “questão servil” 23/8: 0 impopular conde d'Eu viaja um ano pela Europa, por ordem do sogro, Pedro II 4/9; 3* República na França, derrotada na guerra 12/9; A Câmara rejeita por 54 votos a 21 projeto abolicionista de Teixeira Júnior 20/9: O senador Nabuco de Araújo propõe, sem êxito, fundo público de mil contos de réis para alforriar escravos 29/9: Gabinete conservador de J. A. Pimenta Bueno, vise. de S. Vicente 2/10: A Itália se unifica, com Roma por capital: o papa Pio IX considera-se prisioneiro no Vaticano 3/11: José Maria Paranhos (pai) torna-se vise, do Rio Branco 3/12: Quintino Bocaiúva redigo o IVIanIfesto dos Republicanos de SP • As E spum as Flutuantes, de Castro Alves 1871 18/1:0 Bismarck unifica a Alemanha; Quilhormo I coroado kaiser 7/3; Grande Ministério (por durar 51 meses) do conservador José Maria da Silva Paranhos, vise. do Rio Branco 15/3: O A b o licio n isla começa a circular em Salvador, BA 18/3-28/5; Comuna de Paris, 1“ ensaio de regime socialista, esmagado: o Brasil dá asilo a alguns de seus lideres 25/5-30/3/1872: 1® viagem de Pedro II à Europa; 1* regência da princesa Isabel 27/6; l^orre aos 32 anos de idade e 7 de loucura 0 poeta e dramaturgo Paulo Elró 29/8: A Câmara vota (61 votos a 35) a Lei do Vontre Livre 20/9; Sancionada a reforma judiciária, após 26 anos de delongas 28/9; Lei do Ventre Livre; filho de cativa não é escravo, mas fica sob tutela do senhor até os 21 anos (ou seja, após 28/9/1892) 92

■ A disputa pelo governo mergulha o RS numa ver­ tigem de golpes e contragolpes: 19 presidentes esta­ duais se sucedem (e às vezes se superpõem) em 3 anos. 0 RS se divide de alto a baixo, da vida cotidiana ã doutrina (os maragatos são parlamentaristas, o que aju­ da a identiffcá-los com o Império). Os 2 lados recorrem à força, montam exércitos à moda caudilliesca platina [5.2], assassinam adversários: "Dantes os homens polí­ ticos se separavam por idéias, ou interesses. Hoje se­ param-se por crimes (Rui): ‘Quando fiá boa vontade, até a cacete se briga (Joca Tavares, chefe maragato). 0 govemo Floríano dá todo apoio aos pica-paus. Os ma­ ragatos reagem defendendo mais autonomia para o RS (federalismo); reúnem-se no Uruguai e entram pelo RS (2/2/1893). ■ Gumercíndo Saraiva [1848-1894], o Napoleão (ou Leão) dos Pampas, é o grande caudilho militar federalista: aide, fala o dialeto espanholado da fronteira. Génio tático, recorre a golpes de audácia e à guenilha. Sua co­ luna de cavalarianos cruza todo o RS, combatendo repu­ blicanos e federais, passa a SC e PR (aparentemente em direção ao Rio). Vence o combate casa por casa em Lapa, PR, incorpora restos da Revolta da Armada, mas retrocede em Ponta Grossa diante do forte contingente fionanista acantonado em Irararé, SP É reconhecido e morto com um tiro no peito, em Carovi, RS (KV8/1894), num golpe de azar que consterna os maragatos. ■ A Marinha, arma predileta de d. Pedro II, com oficiais vindos da elite agrária e fidalga, não participa do 15/11. Aceita a República (sem entusiasmo), mas nào o jacobi­ nismo de seus 1” governos. Tem papei decisivo na de­ missão de Deodoro (levante do aim. Custódio de Melo. no couraçado Riachuelo) e questiona o mandato de Floriano [5.8] (por isso o aim. E. Wandenkolk, ex-ministro da Marinha, é detido e desterrado). A partir daí. marcha pa­ ra a insubordinação, fiada na supremacia da Arniada (que na época possui os mais modernos meios de guerra). ■ A Revolta da Armada (noite de 6/9/1893) tem à frente seu comandante, aim. Custódio de Melo [1840-1902]. Es­ te subleva a maioria dos navios de guerra ancorados no Rio com um manifesto onde, entre vivas à Repúblk:a e à Constituição, solidariza-se com os rebekJes do RS e acu­ sa Roriano de pretender uma ferrenha ditadura. 0 aim. Saldanha da Gama [1846-1695], conhecido monarquista, adere ao movimento com mais navios. 0 govemo Roriano fica sem marinha, mas, contrariando a expectativa, resis­ te e nem abandona a capital, ameaçada de bombardeio naval. Custódio, no couraçado Aquidabã, força (1/12/1893) a saída pela barra, navega para o Sul e instala um gover­ no rebelde (o govemk;ho para os florianistas) em Des­ terro (h. Rorianópolis, SC).

■ Navios de guerra estrangeiros fundeados na Guanabara (da França, Inglaterra, Itália e Portugal), sem tomar propriamente partido, ameaçam intervir (somam

■ Revoltosos e governistas rivalizam em selvagerla. inédita em conflitos intra-elites. De 10 mil mortos nos con­ flitos, mil são degolados, sobretudo em Rio Negro (pelos federalistas) e Boi Preto (florianistas). Estes desenterram 0 cadáver de G. Saraiva e decepam-lhe a cabeça para levar ao presidente do estado. Em Desterro (que muda o nome para Florianópolis em 1895, numa homenagem a seu conquistador), o gen. Moreira César [1850-1897 6.4] ordena o fuzilamento sumário de 185 expoentes da cidade envolvidos na revolta (o filho de um deles é fuzi­ lado, embora não esteja preso, por demorar-se ao abraçar o pai). ■ Quando Prudente assume [6.1], a revolta já acabou no RJ e agoniza no RS. No último combate, em Campo Osório, Saldanha, á frente de 400 marinheiros e rema­ nescentes federalistas, morre lanceado (24/6/1895): 2 meses depois os grupos rivais gaúchos firmam um acor­ do de paz. Economia ■ A política de encilhamento (o nome vem do turfe; designa o momento cmcial e frenético que precede uma corrida) convulsiona tanto o novo regime quanto os gol­ pes e revoltas. É criação (17/1/1890) de Rui Bartwsa, min. da Fazenda [6.1], e inspira-se nos EUA de Lincoln. Rui é Industrialista, avesso ao livre-cambismo; defende que ‘a República se consolidará quando repousar sobre a democracia do trabalho industrial": e condena a condu­ ta do Império, de 'iratar eclusivamente do café, ainda que tenha de comprar tudo o mais”. 0 encilhamento consiste em copiosas emissões de papel-moeda (em poucos me­ ses, 166% do total em circulação em 1889) e no incenti­ vo a sociedades por ações, que captam dinheiro dos ban­ cos. autorizados a emitirem, com base em títulos da dí­ vida pública federal Em 1 ano surgem 313 sociedades, na maioria fictícias. As especulações e fraudes compronnetem o impulso desenvolvimentista, geram inflação, falências e por fim a queda de Rui e dos demais ministros (21/1/1891). 0 fracasso serve de pretexto para o retomo ao livre-cambismo assim que os cafeicultores assumem a Presidência [6.1]. ■ Prudente de Morais e Campos Sales (com Rodri­ gues Alves, Bernardino de Campos e Duarte Murtinho na Fazenda) comandam a reação: cortam fundo os gastos públk»s, enxugam o meio circulante, equilibram o orça­ mento, reduzem impostos de Importação desprotegendo a indústria nativa. Campos Sales, antes mesmo de em­ possado, vai a Londres e contrai (15/6/1898) um fundin loan (reescalonamento da dívida externa) garantido pela hipoteca da alfândega do Rio, o compromisso de uma política de austeridade e a proibição de novas dívidas extemas ou internas até 1901.0 funding loan recupera a imagem do pais junto aos banqueiros internacionais, que consideram ‘indispensável condenar" as emissões do encilhamento "como muito danosas para o crédito do Brasil” (Rothschild, 1891). Indica também que a nascente indús­ tria brasileira só conta com proteção (cota-ouro, 1898) desde que não contrarie os credores estrangeiros e a grande lavoura exportadora; no fundamental, fica entre­ gue à própria sorte [6.10].


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Cronologia

6.3 CANUDOS E SEU EXTERMÍNIO

29/9; A Ordem de S. Bento liberta seus escravos 1872

■ Revolta sertaneja de inspiração mistk», o arraial de Belo Monte (Canudos), BA. é massacrado, sem se ren­ der, na maior ação de guerra da história republicana.

4/1; Brasil (divergindo da Argentina) e Paraguai iniciam negociações em separado 9/1; Acordos (i-lmites, Paz e Amizade) com o Paraguai, que renuncia ao Itatin (ti. IvIT) e permanece sob ocupação militar brasileira 17/1: Fundação do Partido Republicano Paulista 3/3; Oração em festa maçônica no RJ leva à sus­ pensão do pe. Almeida lulartins e inicia a Questão Religiosa 27/3; “Nota Ituzaingó"; o pres. Sarmiento azeda as relações Brasil-Argenlina 31/3; A catedral e o palácio de govemo de São Paulo passam a ter iluminação a gás 4/4; Criada a Compantila Mogiana de Estradas de Ferro, SP 22/5; A Câmara é dissolvida: dá lugar a outra quase unânime: 7 oposicionistas 1/8; 1° censo: o Brasil conta 9.930.478 habitantes (48% mulheres), 1.510.806 escravos 11/8: Inaugurada a Estrada de Ferro JundiaiCampinas, com capitais paulistas 1/12; Deputados fogem da febre amarela no RJ e negam quórum à nova Câmara 27/12; Tratado negociado por Mitre em 6 meses; trégua nas rixas Brasil-Argentina • Desafogo econômico: boas safras, alta do café e, finalmente, su p e rá vit no orçamento • R essurreição. 1® romance de Machado de Assis 1873 10/1; Incidente com navio brasileiro da linha para Assunção, detido em Buenos Aires: canhoneiras do Império na costa argentina 26/1; Fundado o Clube Republicano Federal 16/2; A ópera Fosca, de Carlos Gomes, mal recebida no teatro Scala de Milão, Itália 18/4; Convenção de Itu (moderada) une os clubes republicanos de SP num só partido

28/4; Negociações no RJ, malogradas, entre Brasil-Argentina-Paraguai 28/6; Os muc/ter (beatos) de S. Leopoldo, RS. rechaçam ataque de 100 policiais 3/7; Congresso do Partido Republicano Paulista; posição dúbia sobre a escravidão 28/8; Acórdão da Relação da Cotie decide: filho de escrava com seu senhor é escravo 7/9; Começa a circular O S exo Fem inino, semanário feminista 13/12; Tratado de paz Urugual-Paraguai • Rodrigues Alves propõe o ensino primáno obrigatório em SP. rejeitado como medida socialista • Bakunin publica O E stado e a A narquia 1874 2/1; Preso D. Antonio M. Costa, bispo do PA, implicado na Questão Religiosa Janeiro; Fundado o Clube Republicano Federal 3/2: Instalados Tribunais da Relação em Ouro Preto. MG. e em São Paulo 25/3; Surge a 1* Escola Normal do RJ 15/4-15/5; Exposição Impressionista em Paris. marco zero da arte moderna 25/4; A antiga Escola Militar (1B10) transforma-se em Escola Politécnica do RJ 22/6; Telégrafo submarino RJ-Europa 2/8: Expedição de guerra (600 praças) destrói o reduto dos m ucke r (beatos) de S. Leopoldo, RS, e mata seus lideres 26/9; Lel da conscrição militar, acusada de pretender mililarizar o pafs S ete m b ro: Começa a Grande Depressão nos EUA 31/10; Estoura em Campina Grande, PB, a Revolta do Quebra-Quilo, contra os impostos e o recrutamento forçado

• Concluída a ferrovia Paranaguá-Curitlba. ousada oDia 00 engenheiro Daíano Antonio Pereira Rebouças 94

■ 0 Conselheiro Antônio Vicente Mendes Maciel (18301897], ex-boticário em Ouixeramobim, CE, rábula, pro­ fessor, passa a pregar em 1870. Barba e cabelos longos, batina típica de penitente, cajado, em 1874 já reúne fiéis. Ergue e reforma igrejas, cemitérios, jejua, não toca em di­ nheiro. Em 1877 é citado no Almanaque Laemmert (Rio). Preso em Itapicuni de Cima (1876), espancado, levado ao CE. liberto por improcedència da denúncia, volta à BA. Já tem aí centenas de fiéis, “malvados munidos de cace­ tes, facas, facões, ciavinotes, que adoram-no como se fosse um Deus vivo* (ofício do delegado de Itapicum, 1886). 0 arcebispo da BA escreve (1882) aos padres: “Não consinta em sua freguesia semelhante abuso". 0 pregador é sebastíanista M-Zj, fiel à ortodoxia católica, elogia a pobreza e a abolição, ataca a República e seus impostos. Manda queimar editais do fisco em Soure. Bom Conselho e Amparo (1893): Uauá e Cumbe seguem o exemplo. Salvador envia 30 praças na 1* ação repressi­ va, denrotada em Macete. ■ Os beatos vão para a tapera da fazenda Canudos, no vale do quase sempre seco rio Vaz Barris. Ali fundam sua cidade santa. Belo Monte, que ao cair tem 5,2 mil casas (30 mil habs.. mais que 3 das 9 capitais nordesti­ nas). Senhores de terras (barão de Jeremoabo) lamen­ tam 0 “aluvião de famílias” que ruma para Canudos. Ali forma-se uma comunidade mística com produção semicomunitária, comércio (de couros), escola. 0 Con­ selheiro faz a lel, proíbe o álcool, distritiui a comida, pu­ xa rezas, jejuns e a construção da grande igreja nova. 0 vigário do (Dumbe oficia missas quinzenais. 0 chefe do povo, João Abade, administra a comunidade, ajudado pelos irmãos Vilanova (Antonio e Honório), comerciantes de certas posses; há um tipo de sacristão, Antonio Beato; o curandeiro Manuel Quadrado; a professora, Maria Francisca Vasconcelos; e chefes militares; José Venâncio, Pajeú, João Grande. Pedrão. A Igreja envia 2 frades capuchinhos (1895), que nâo logram enquadrar os beatos. ■ 1* expedição (4/11/1696); A autoridade civf e religiosa sente que perde o controle sobre os sertanejos. A pedi­ do do juiz de Juazeiro, o govemo da BA envia a Canudos 3 oficiais, 104 praças e 1 médico, sob comando do ten. Manuel da Silva Pires Ferreira. Atacada em Uauá, a tropa enirincheira-se nas casas e tira vantagem das armas de repetição. Os beatos perdem 150 homens e recuam. Mas a expedição volta a Juazeiro, com 10 mor­ tos e 16 feridos. ■ 2* expedição (25/11/1896): segue de Salvador força mista, com efetivos federais e policiais da BA (543 pra­ ças. 14 oficiais, 3 médicos, 2 canhões krupp), sob co­ mando do maj. Febrònio de Brito. Este recomenda ‘des­ confiar do todos" na região. Já sem víveres, a tropa é ata­ cada por João Grande na serra do Camt}alo, aos gntos de “avança, fraqueza do govemo!" (sertanejos, 115 mor­ tos; tropa, 4 mortos, 20 feridos). 0 2* combate é corpo a corpo, em Tabulelrinho (sertanejos, 300 mortos; tropa, 4 mortos, 70 feridos). 0 invasor recua. Vaia, assovios, e um 3' ataque, à noite, em Bendegó de Baixo. Pajeú, o mais célebre líder militar de Canudos, inaugura nesta campanha uma tática de guerrilhas, amparado pelos mon-os e a caatinga (as "selvas Infelizes" de que fala o gen. Artur Oscar). ■ 3® expedição (3/2/1897): o gen. Moreira César, herói da guerra de 1893, o Corta Cabeças, autor da matança de SC [6.2], embarca no Rio, à frente da 1* expedição re­ gular (1.261 homens). A tropa chega a Queimadas (6/2), acampa em Monte Santo (20-21/2), segue subitamente para Canudos e troca tiros em Pitombas (2/3). 0 arraial cresceu, recebe reforços, víveres, cava trincheiras, fabri(a pólvora, tem sentinelas. Domina um raio de S léguas (33 km). E reza. A tropa chega ao alto da favela (2/3,13 h)

e can-ega sobre o arraial. Combate-se casa por casa e uma carga de cavalaria investe sobre a Tróia de Taipa. Moreira César, ferido no ventre (por Pajeú, dizem), morre. 0 invasor recua para a Fazenda Velha. Fustigados por tiros e vaias, os 800 sobreviventes válidos debandam lar­ gando os feridos e o cadáver do general, cujo sucessor, cel. Tamarindo, morre também. 0 arraial toma farto arma­ mento, decapita os cadáveres (hábito tomado do atacan­ te) e finca as cabeças pela estrada. ■ Um clima de Indignação republicana contagia o pais após 0 fiasco da 3* expedição: missas, luto, atos contra a "caudilhagem monárquica", boatos, jornais monarquistas empastelados. Alunos da Escola Militar do Rio recusamse a ajudar a campanha e sâo reprimidos por 2 navios de guerra; estudantes de Direito da BA acusam em mani­ festo 0 “cmel massacre”. Mas são vozes isoladas. Bata­ lhões são recompostos, ou fundados às pressas; a 4« expedição conta 9,5 mil soldados, maioria absoluta dos efetivos do Exército. Já Canudos, cada vez maior, tem 10 mil homens em annas na estimativa (talvez exagera­ da) de oficiais. ■ 4* expedição. 0 gen. Artur Oscar de Andrade Guima­ rães chefia 2 colunas (6 brigadas, vindas do RS, PB, RN, PI, MA, PA, SE, PE, DF, BA) sob comando dos galis João da Silva Barbosa e Cláudio Savaget. A 1* coluna sai de Monte Santo (17/6/1897) com 3 mil homens e farta arti­ lharia um canhão Winthworth 32, de 1.700 kg, é puxado por 20 juntas de bois ã média de 6 km-dia). Fustigada pe­ la guerrilha de Pajeú, atacada no Anjico e no Alto da Fa­ vela, canhoneia dali o arraial. Uma chuva de balas das trincheiras sertanejas causa-lhe 599 baixas. A 2> coluna (2.350 homens) sai de Jeremoabo (16/6). Tocaiada em Cocorobó, revida a baioneta, combate em Macambira e chega a Canudos com 327 baixas. As 2 colunas, a rigor, fi­ cam 22 dias cercadas na Favela: a cada minuto, um tiro. Faltam víveres; abate-se os bois de carga; só restam fari­ nha e sal (2/7); caça ao gado na caatinga; cessa a ração dos doentes (7/7); deserções. Em 13/7 chegam manti­ mentos. Pedro Macambira (18 anos) e 11 sertanejos ata­ cam a Matadeira (alcunha do canhão Winthworth ); só 1 atacante sobrevive. Mas os sertanejos só empregam da guerrilha a tática: sua estratégia, ditada pela convicção religiosa, obriga-os a defender seu santuário a todo custo, sem cogitar uma retirada. ■ 01« assalto ao arraial (18/7/1897) é contido nos fun­ dos da igreja velha; 3.349 atacantes conquistam nova posição, a linha negra. Pajeú é ferido de morte. As baixas oficiais (1.542 feridos. 868 mortos) continuam à razão diária de 8-10). A brigada Girard (1.100 homens) deixa Monte Santo (10/8); atacada no Rancho do Vigário, perde 91 bois em 102. A Divisão Auxiliar (2 brigadas, 2.914 homens, no co.mando o cel. Carios Eugênio Andrade Magalhães) e o próprio ministro da Guerra, mal. Carios Bittencourt, aportam na BA e rumam (13/9) para Monte Santo. Os comboios se regularizam. Agora é Canudos que passa fome. A Matadeira derruba o sino da igreja ve­ lha. Caem as torres da igreja nova. 0 Conselheiro morre (22/9) na igreja, apôs longo jejum. 0 cerco se completa (24/9). Surgem os 1“ prisioneiros, degolados, inclusive mulheres: ‘Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada" (Euclides). Os sitiados fazem (26-29/7) violentos contra-ataques noturnos. ■ 0 assalto tinal (1/10/1897) dinamita e incendeia o que resta de Belo Monte. Uma tenaz resistência causa 567 baixas. Antonio Beato se rende com 300 mulheres, crian­ ças e velhos. Os últimos defensores da última trincheira morrem em 5/10:1 velho, 2 homens, 1 menino. 0 corpo de Conselheiro é exumado, fotografado e degolado). Passados 82 anos (1979), uma represa inunda Canudos; 0 povo do lugar é levado para Cocorobó. ■ Euclides da Cunha [1866-1909], ex-oficial do Exér­ cito, acompanha a expedição como correspondente de 0 Estado de S. Paulo e reporta-a no ClâSSiCO llvro OS Sertões (1902).


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6.4 BORRACHA / GUERRA DO ACRE I FRONTEIRAS ■ A borracha, extraída da seiva da seringueira {hevea brasiliensis] e outras árvores amazônicas, já é usada por indígenas pré-colomblanos. Divulgada na Europa por La Condamine (1736), tem pouco emprego alé a des­ coberta da vulcanização (Goodyear, EUA 1839) e seu uso em pneus. Em 1853, figura nas exportações da Amazônia abaixo do pirarucu, manteiga de tartaruga e óleo de copaiba. A partir dai a explosão da demanda eleva seu preço de 38 (1843) para 639 (1910) libras esterlinas/ton. 0 Brasil tem um virtual monopólio, por ter acesso à floresta graças à rede fluvial. No início abatese árvores de caucho (de kautchuk, em idioma do alto Amazonas) para extrair borracha. A ocupação, nômade, superficial, dizima os cauchais (e muitos povos nativos) até meados do s. 19. Começa então a extração do látex da seringueira, e a ocupação efetiva da maior parte da Amazônia, ao longo dos rios (longe deles, a região até hoje não foi devassada). ■ A Seca Grande de 1877-1880 no sertão libera braços abundantes para os seringais. Mais de 500 mil nordesti­ nos (em especial do CE) vão para a Amazônia até 1910. Ao desembarcar em Belém ou Manaus, o nordestino bra­ bo (não aclimatado) encontra o seringalista à sua espera e assina seu contrato. Equipado com arma, munição, roupas e instrumental, segue para o seringal já devendo ao patrão. A prosperidade estimula imigrantes da Europa e Oriente Médio: o português Ferreira de Castro narra a saga da borracha no romance autobiográfico A Selva. ■ 0 método extrativo é usado até hoje; na barranca de um rio, furo ou igarapé, o seringueiro tem sua barraca de palha, com teto cônico encimado por uma abertura para sair a fumaça da defumação. Al começa e tennina a estra­ da, trilha de 10-15 km. com até 200 seringueiras. De ma­ drugada, rifle ao ombro, o seringueiro sangra as árvores com cortes verticais e oblíquos, e finca embaixo uma ca­ neca para recolher o látex. À tarde. recolhe o látex num galão e defuma-o formando as bolas, levadas de canoa até a sede do seringal. Nos intervalos, caça e pesca. A ro­ tina só se detém na estação das chuvas, ton-enciais. 0 choque com indígenas é permanente e mortífero. Os po­ pulosos povos Pano, Aruak e Katukína do Juruá-Puais sâo dizimados. Os fviundukuru (PA) sâo 18 mil em 1877 e 1.250 em 1960. ■ 0 seringal tem muitas estradas, sempre ao longo de um curso d'âgua. A ten'a nada vale. tudo depende do rio. A sede do seringal possui porto, depósito de bolas e o barracão, (amiazém) onde o seringueiro compra, se en­ divida e fk;a preso ao seringalista. numa relação com traços escravistas. 0 regatão. mascate fluvial, comercia até as cabeceiras além do último seringal, em escambo com os indios. Prospera também o tráfico de mulheres, mercadoria rara e cara, remetida com fatura e comissão como qualquer outra. 0 Censo de 20,1® a incluir o AC, ainda conta ali 17 homens para cada 10 mulheres. ■ A prosperidade transforma a região (a borracha for­ ma até 40% do valor das exportações do país). Belém toma-se a 4» cidade, depois do Rio, S. Paulo. Salvador, e junto com Recife. I^anaus salta de 29 mil para 65 mil habs. em 1872-1910. Com ricos sobrados e obras públi­ cas, aterros, canalizações, pontes, é a 2* cidade do pais a ter iluminação elétrica (1906): seu suntuoso teatro Amazonas (1896) simbolisa o boom da borracha. ■ A decadência vem quando a borracha cultivada na Ásia (Malásia, Indonésia, Ceilão) den'uba o preço. 0 cul­ tivo começa nos anos 1870 sob estímulo da procura cres­ cente e sustentada. Nos anos 1910, supre a demanda. A primitiva aventura seringalista amazônica se inviabiliza, exceto como atividade marginal, subvencionada, que não supre sequer o consumo interno, A Amazônia volta pela 2* vez ã estagnação [4.2). A população que vivia da bor­ racha se concentra nos rios maiores, entregue à lavoura de subsistência e ã fome endêmica, pior que no Nordes­ te: aprende a caçar com arco e flecha para poupar mu­ nição e lavrar a terra com paus. ■ Na II Guerra [7.11), o Exército da Borracha reaviva os

seringais, subitamente rentáveis devido à ocupação das áreas produtoras pelo Japão. 0 governo leva à Amazônia (e abandona) 30 a 50 mil nordestinos. A Guerra da Bor­ racha mata mais brasileiros que a Campanha da Itália. A Guerra do Acre ■ 0 Acre, rto da borracha, e outros afluentes do Purus, têm os melhores seringais, os únicos produtivos até hoje. A área é da Bolívia (o Brasil o reconhece no tratado de Ayacucho. 27/3/1867), mas separada de La Paz por mon­ tanhas e selvas indevassáveis. e unida ao Brasil pelo Punjs. de navegação fácil embora demorada. A bonacha fi­ xa milhares de brasileiros no Acre: a escassa ocupação boliviana se concentra ao sul do rio Orton. Em 1898 La Paz envia ao AC (via território brasileiro) o delegado na­ cional José Paravicini. Este funda Puerto Alonso (h. Porto Acre) 0 cria um posto alfandegário que em 45 dias reco­ lhe 1 milhão de pesos bolivianos. 0 govemo brasileiro aca­ ta a medida: mas há reações no PA. AM e sobretudo nos seringais acreanos. ■ A República Independente do Acre (14/7/1899). proclamada pelo espanhol Luís Gálvez. tem apoio dos residentes brasileiros e armas do govemo do AM, Gálvez togo é deposto e preso. A Bolívia recupera sua soberania após 3 expedições militares (que seguem via AM), com apoio fonnal do Brasil, que promete enviar um consul a Puerto Alonso, Novo levante brasileiro, a Expedição dos Poetas, tenta em vão tomar o porto. ■ The Bolivian Syndicate. Alegando dificuldades para manté-k), a Bolívia arrenda o AC (11/6/1901) a The Bolivian syndkate of New Yor1(, uma charter company (empresa de arrendamento) de tipo cokinial, com um filho do pre­ sidente Roosevelt e o rei da Bélgica entre seus acionistas. A concessão, vista como “uma completa espoliação feita aos acreanos” (Pláckio de Castro), reaviva a guenB. ■ Plácido de Castro [1873-1908] lidera o levante de 1903. Militar gaúcho, major maragaio [6.2], agrimensor, improvisa e disciplina um exército: 4 batalhões. 850 ho­ mens. enviados pelos seringais e armados de rifles. To­ ma Xapuri (6Æ/1902). Volta da Empresa (h. Rio Branco, 14/10) e incursiona pelo sul, onde seringalistas bolivianos amiam índios para revidar. Sera a corrente de ferro que bloqueia o rio e toma Puerto Atonso (24/1/1903). 0 pró­ prio presidente boliviano, gen. M. Pando, chefia nova ex­ pedição mas se detém após o acordo preliminar (21/3) que suspende os combates.

Cronologia 1875 4/1: Começa a circular o jornal A Provincia de Sào Paulo (h. O Estado de S. Paulo) 25/1; Unha de vapores Liverpool-Manaus 8/3: 0 Regulamento Disciplinar do Exército proibe aos ollclais debates pela Imprensa 12/5; Grave crise monetária: o Banco do Brasil suspende seus pagamentos 15/5: O Banco Alemão fecha suas portas; seu diretor se suicida, no RJ 17/5: Concordata do banco de Mauá (filiais em Londres, Montevidéu e Buenos Aires) 29/5: Lei autoriza o Banco do Brasil a emitir até 25 mil contos de réis para conter a quebradeira dos bancos 25/6: Gabinete conservador de Luis Alves de Lima e Silva, duque de Caxias 2/8: Começa a circular no RJ a Gazela de Notícias, que introduzirá a foto. a charge e a reportagem no jornalismo 4/8: O sen. Tomás Pompeu denuncia que em 1871-75 o país gastou com o exército e a armada 34,1% de sua renda 7/9: Chegam à PB 600 soldados que a Corte envia contra os quebra-quilos 17/9: Pedro II anistia os bispos de Olinda e do PA. abafando a Questão Religiosa 20/10: Reforma eleitoral com a Lei do Terço, mas ainda não com o voto direto 6/11: Lei de crédito com prazos de até 30 anos para os cafeicultores (nâo aplicada) • Tobias Barreto publica em Escada, PE, o jornal em alemão Deutscher Kaempfer 1876 Fevereiro; Tratados Brasil-Argentina-Paraguai 10/3: G. Bell testa com êxito sua invenção, o telefone 26/3-26/9/1877: Pedro II visita a Exposição de Filadélfia. EUA, a Europa e o Oriente Médio; 2* regência da princesa Isabel 10/4: Nasce o Clube da Lavoura de Campinas. porta-voz dos cafeicultores • Instala-se a Escola de Minas de Ouro Preto, MG, dirigida pelo francês H. Gorceix • /\s tropas brasileiras deixam o Paraguai, após 10 anos de ocupação e “protetorado" cada vez mais impopular nos 2 palses 1877

■ 0 tratado de Petrópolís passa o AC ao Brasil, por 2,5 milhões de libras e a construção da ferrovia Ma15/2: Inaugurada a Escola Agrícola de S. Bento deira-Mamoré. vencendo as cachoeiras que truncam a das Lajes, BA ligação fluvial Bolívia-Atiántico. A estrada, obra do ame­ 15/8: A colônia alemã de SC funda o Colégio Sto. ricano P Farquhar [6.9], custa 6 mil vidas. Ao ficar pron­ Antonio, Blumenau (aulas em alemão) ta (1912), já está obsoleta devido ao canal do Panamá 12/9: Engenho Central (usina de açúcar) de e é fechada. Quissamã. Macaé, RJ, 1* do gênero no pais Outras questões de fronteira 29/11: 1* estação telefônica do pais. no RJ ■ 0 Brasil toma seu perfil atual no Início do s. 20, em 1877-1880; A Grande Seca no NE mata mais sucessivos acordos de limites. Seu artífice é José M. da que a Guerra do Paraguai (67 mil mortos só em Fortaleza); migração maciça Silva Paranhos [1845-1912], barão do Rio Branco (man­ tém 0 tituto após 1889), filho de um grande do Império, • Tobias Barreto, protomarxista. funda o Clube Popular, pela dignidade dos oprimidos ministro do Exterior (1902-12), bdo como símbolo da (Escada. PE) diptomacia nacional, que garante ao Brasil a posse de • O romance O Coronel Sangrado, de Inglês de 260 mil km’ (inclusive o AC). Sousa. Inaugura o naturalismo no Brasil ■ Palmas, área de 30 mil km’ disputada com a Ar­ 1878 gentina (h. SC-PR), é 0 1’ èxito de Rio Branco 5/1; Os liberais formam gabinete, com João Luís (6/1/1898), obtido por artjitragem de G. Cleveland, pres. Vieira Cansaçào, vise. de Sinimbu dos EUA. Pesa ai a presença de 4.763 brasileiros emre 11/4: Pedro II dissolve a Câmara seus 5.793 habitantes 9/7: O Congresso Agrícola, no RJ. pede crédito e ■ Amapá; a França reclama metade do atual estado mào-de-obra. “tentando salvar a sorte da grande [3.2] e desembarca 300 soldados, repelidos (1895). 0 ár­ lavoura" (Sinimbu) bitro, W. Hauser, pres. do Conselho Suíço, acata a copio­ 6/9: Criados os 1“ cursos para educação de adultos sa (5 vols.) defesa de Rio Branco em 1/12/1900. 12/11: Arbitragem dos EUA confere ao Paraguai ■ Pirara: a disputa de parte do atual RR com a a área entre o Picolomayo e o Verde, reivindicada Inglaterra. art>itrada peto rei Victor Manuel III da Itália, pela Argentina termina (6/6/1904) numa partilha considerada a única 24/12:0 vise. de Indalatuba queixa-se de infiltração derrota de Rio Branco. 0 Brasil fica com 13 mil km* e a “comunista" em sua fazenda de Amparo. SP: Inglaterra com 20 mil. greves e deserção de colonos

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Cronologia

6.5 URBANIZAÇÃO / REVOLTAS DA VACINA E DA CHIBATA

’ Thomas Edison Inventa a lâmpada elétrica • Filosofia do Brasil, de Silvio Romero

■ A capital da República tem 706 rnll hal}s. em 1904. A elite vive em Botafogo e Laranjeiras; o povo na Cidade Ve­ lha, Saúde, Estáclo. Cidade Nova. A 1«(avela anuncia uma nova face da cidade; são 100 barracos em 1904, no morro da Providência, rebatizado da Favela em alusão a Canudos [6.3].

Silveira, 300 cadetes ocupam a escola da Praia Vermelha e marcham sobre o Catete para deporem o presidente, Vencem a guarda do palácio (2 mil homens), em confusa batalha notuma, mas, com os chefes feridos, voltam à es­ cola; rendem-se (15/11) sob ameaça da Marinha.

■ As epidemias fazem estragos. Diplomata inglés que serve no RJ ganha adicional de insalubridade. Todo verão os ricos fogem da febre amarela ou vômito regro para Petrópolis 5.8], Mas a tuberculose mata 5 vezes mais; afora a varíola, o impaludismo, a gripe. Cheia de man­ gues, com pouca água, sem esgoto, a cidade impres­ siona viajantes pela sujeira.

■ Conseqüências; a rebelião popular deixa 30 mortos, 110 feridos (7 mortos e 43 feridos da tropa), 945 presos, 454 deportados para o AC e 7, estrangeiros, para o ex­ terior A vacinação, ê suspensa, retomada e termina se impondo. Cruz extingue a febre amarela, controla a peste bubônica e a varíola. Seu Instituto de Mafiguinhos sobressai em meio ao pauperismo científico do Brasil da época.

1879 21/2: A luz elétrica chega ao RJ 5/3: Discurso de Jerõnimo Sodré (BA) na Câmara propõe abolição já da escravatura e deflagra a campanha abolicionista 15/3: 0 decreto 2.827 regulamenta os contratos de trabalho dos imigrantes 23/3: Conferência abolicionista do intelectual mestiço Vicente de Souza no RJ 19/4: Reforma do ensino cria a muito criticada livre frequência no nível superior 28/4: O dep. José Bonifácio, o Moço, ataca em memorável discurso a proposta de reforma eleitoral do governo 3/5: Sinimbu, pres. do gabinete, envolvido na falência fraudulenta do Banco Nacional 29/12: 4 mil pessoas vão a S. Cristóvão protestar contra o imposto do vintém (aumento de 20 réis nos bondes); são barradas pela policia • L. Pasteur descobre o princípio das vacinas 1880 1M /1: O povo do RJ faz quebra-quebra e barricadas contra o imposto do vintém; 4 mortos 6/3: Criada no RJ a Escola Normal, mista por falta de verbas para erguer 2 prédios 7/3: Fundação da Associação dos Empregados do Comércio do RJ 28/3: Gabinete liberal de José A. Saraiva 28/4: Saraiva apresenta novo projeto de reforma eleitoral 25/7: 1“ conferência atiolicionista no teatro S. Luís, RJ: presente Carlos Gomes 3,15, 22/8: Conferências de Patrocínio no teatro S. Luís, RJ 30/8: A Câmara rejeita (77 votos a 16) projeto de Nabuco (PE) que iil3erta os escravos até 1890 6/9: 1* reunião da Associação Industrial, com 21 presentes 7/9: Jardins do Cpo de Santana, RJ 20/9: Cafeicultores de SP exigem da Câmara medidas pró-crédito à lavoura 28/9: Boletim n' 1 da Associação Central Emanclpadora, de Nicolau Moreira 30/10: Começa a circular O Abolicionista, jomal da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, no RJ 20/11; Banquete abolicionista, no aristocrático Hotel dos Estrangeiros, Rio 17/12; Lei provincial do RJ veda tráfico interprovincial de escravos • A Revista Brasileira puWica as Memórias Póstumas de B rás Cubas, de Machado de Assis • Fome mata 12 milhões na (ndia 1881 8/1: Nabuco homenageado no partamento português 9/1 ; Lel Saraiva; voto distrital direto para deputado, 0 eleitor tem que saber 1er e ter renda mínima de 200 mil/réis/ano 23/1 : Lel provincial taxa em 2 contos cada escravo introduzido em SP 27/1: Os jangadelros do CE (liderados por Francisco Nascimento, o Dragão do Mar) se recusam a embarcar escravos para o Sul 30/6: 0 monarca dissolve a Câmara 6/7; Festa abolicionista na BA nos 10 anos da morte de Castro Alves: a imprensa local decide não mais anunciar fugas do escravos 31/10: 1* eleição pós-Lei Saraiva: 117 mil votos elegem 68 deputados liberais e 54 consen/adores • Aluísio /Azevedo publica O M ulato • O francês L. Couty escreve que "o Brasil não tem povo”: aconselha que se importe um 1882 21/1 ; Gabinete liberal de t\^urtlnho da Silva Campos, cafeicultor escravocrata no RJ 90

■ 0 prefeito Pereira Passos [1803-1913], nomeado (como todos do DF até 1988 (11.3)) por R. Alves (1/3/1903), muda o Rio: Eleva impostos. Proibe ordenhar vacas leiteiras na rua, vender loterias, mendigar, atirar pol­ vilho no carnaval, cuspir no bonde. Derruba quiosques e cortiços, como o imenso Cabeça de Porco [5.8]. É o “tx)ta abaixo”. Das minas da cidade colonial, surge o moder­ no centro das avenidas, como a Central (h. Rio Branco), com 2 km, canteiros; um bulevar, lugar do footing e das lojas elegantes; só ali, 1.800 operários demolem 640 pré­ dios; seus moradores povoam as 1“ favelas e os subúr­ bios da Central. ■ 0 médico Osvaldo Cruz [1872-1917], aluno do Ins­ tituto Pasteur, é nomeado diretor da Saúde Pública (23/3/1903). Sua campanha de saneamento (28/3) Inspi­ rada em Cuba vira, junto com o ‘ bota abaixo", o centro das mudanças e polémicas cariocas: 85 mata-mosquitos, invadem as casas, de uniforme amarelo, lata de creolina em punho, sob a chefia de Carneiro de Mendonça, o mosquiteiro-mor. Por insistência de Cruz, o Congresso vota (31/10/1904) a Lei da Vacina Obrigatória (não é a 1*; mas as outras não “pegam”), estopim da rebelião, A Revolta da Vacina ■ Uma campaniia antivacina toma a cidade. Partici­ pam 0 Correio da Manhã, o Commerdo do 6raa/(monar­ quista), os positivistas, florianistas, o movimento operário vindo da greve de 1903 [6.10], Dizem que a vacina causa convulsões, diarréia, gangrena, otite, epilepsia, difteria, sífilis, meningite, tísica. Outros destacam o ataque ao 'govemo dos fazendeiros e da oligarquia". Papel de peso cabe ao Centro das Classes Operárias, liderado pelo ten.-cel. Lauro Sodré [1858-1944], senador, positivista e florianista. Este funda também (5/11/1904) a Liga Contra a Vacinação Obrigatória e chama à reação 'até a bala*. 0 projeto que regulamenta a lei vaza para os jornais (9/11) e exalia os ânimos. ■ As causas da revolta combinam motivos econômicos, reação ao “bota abaixo”, protesto libertário anti-repressâo, cons^rai^o militar, preconceitos e rejeição ao "despo­ tismo sanitário". No jomal A Tribuna um capoeira dá suas razões: ‘ Isso é para não andarem dizendo que o povo é carneiro. De vez em quando é bom a negrada mostrar que sabe morrer como homem”. Rebelam-se "os mais bai­ xos elementos do populacho’ , conforme o embaixador in­ glês; os operários sâo 70í'o dos mortos e 85% dos feridos, ■ Um Incidente provoca os confrontos (11/11); na ci­ dade fortemente policiada, jovens proletários, à espera de um meeting (comicio) do Centro das Classes Ope­ rárias, improvisam um teatro satirizando a policia. Come­ çam as prisões, cargas de cavalaria, tiros, respondidos com pedras, bombas juninas, vaias, assobios, "vivas" à liberdade e "morras' à policia. ■ A luta de rua dura 6 dias e se estende do Encantado ao Jardim Botânico. Os rebeldes atacam delegacias, pos­ tos de bombeiros, fábricas; derrubam a cavalaria com ro­ lhas; fazem barricadas com paralelepípedos, colchões, carroças, bondes (17 deles só na r Senhor dos Passos). 0 principal redulo, na Saúde, é Porto Artur (alusão ã recente Guerra Russo-Japonesa), vencido (16/11) em ata­ que combinado da Marinha e Exército. ■ 0 levante da Escola Militar (14/11) corre paralelo. Sob Chefia dos gens, florianistas Silva Travassos e Olímpio

A Revolta da Chibata ■ A Marinha de Guerra renova toda sua frota d. 1904 e compra 3 couraçados {dreadnoughts. a mais possante arma da época) com canhões de 30 cm, blindagem de aço de 18 cm, os maiores, melhores, mais bem armados e defendidos do mundo. Mas o recrutamento e tratamen­ to não mudam desde Cochrane [3.5]; a oficialidade, toda branca, subalimenta, estafa e humilha a marujada, em geral negra. 0 castigo da chibata, revogado no 2» dia da República, é restaurado 6 meses depois. ■ Os marinheiros criam um Comitê Geral clandestino. Têm apoio em terra e influência social-democrata trazida de estágios técnicos na Europa. Planejam o levante, pre­ cipitado pelas 250 chibatadas (21/11) que deixam Mar­ celine Rodrigues em carne viva. ■ 0 levante Inicia no couraçado Minas Gerais (22/11), sob a liderança de João Cândido Felisberto [1880-1969], Em minutos toma todos os navios, após breve combate (3 Oficiais e 20 marinheiros mortos); 2.379 marujos se coriceritram no cruzador Bahia, nos couraçados Minas Gerais, S. Paulo e Deodoro, os mais poderosos. E radiotelegrafam: ‘ Não queremos a volta da chibata. Queremos resposta já e já. Caso não tenhamos, bombardearemos cidade”. E, em mensagem ao pres, Hermes da Fonseca; “Nós, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão", pedem “que a Marinha Bra­ sileira seja uma armada de cidadãos e não uma fazenda de escravos". 0 texto é de Francisco Dias, o Mão Negra; exige o fim da chibata, do trabalho estafante, aumento de soldo e anistia, ■ A reação da cidade vai do pânico ao entusiasmo; uns fogem para Petrópolis; outros assistem das praias e moffos as elegantes manobras dos navios, que valem a João Cândido o título de Almirante Negro (dado por Gil­ berto Amado). Parte da imprensa não esconde sua admi­ ração. 0 ministro da Marinha planeja um contra-ataque de destróieres (que nâo se revoltaram) guarnecidos apenas por oficiais; o presidente o detém a tempo. 0 decreto de anistia é debatido, votado e sancionado em 24 h, ■ Vitoriosos, os marinheiros cumprem a palavra e entregam a Annada (26/11), sob protesto de José Alves de Sousa, que comanda o Deodoro. João Cândido arria a bandeira vermelha, hasteia nacional a meio-pau (em preito aos mortos), guarda o lenço vermelho. 0 povo lota 0 cais e sobe aos morros para ver. ■ A revanche, 0 govemo já em 28/11 avalisa a baixa de todo marujo “inconveniente à disciplina”; 4 deles são pre­ sos (4/12), acusados de conspiração. Em meio a fortes boatos, isolados, desorganizados, os fuzileiros navais da ilha das Cobras se sublevam (9/12); são bombardeados por um dia inteiro, mesmo quando agitam a bandeira branca; de 600, sobram 60. Os 600 presos são quase todos anistiados da Marinha e civis; 441 são embarcados para o AC no cargueiro Satélite (24/12), com uma lista de 11 líderes e serem fuzilados em alto mar. Na Ilha das Cobras, 18 marujos são presos na solitária n® 5, escava­ da na rocha, onde atiram cal virgem, na véspera de Natal; após 24 hs, só João Cândido e o soldado naval Pau de Lira estão vivos, 0 Almirante Negro é levado a um hospí­ cio, volta à ilha das Cobras, é julgado com 10 compa­ nheiros e absolvido 2 anos depois (1/12/1912). Sobrevive a tudo; morre aos 89 anos.


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- 6.6 GUERRA DO CONTESTADO'

Cronologia

■ A área do Contestado (45 mil km') é disputada desde a Colônia por SC, PR (antes, SP) e Argentina (6.2). Iso­ lada, montanhosa, fria, fértil, alterna densas matas, pinheirais e campos. A ocupação é do tipo caipira [2.12], escassa, 58 mil tiabitantes em 1908, afora os Guarani e Kaingang [2.6]. É terra de posseiros e coronéis [6.7], gran­ des fazendas de gado e mate, onde o camarada (peão) trabalha em troca de um lote para lavrar e criar vacas.

cisco Pais de Farias (Chkx> Ventura), o antigo fazendeiro e juiz de i : ^ Elias de Ivloraís, a virgem Maria Rosa (15 anos). A frágil d ire to não im i^ e as adesões em massa e a eficaz formação guerrilheira. Certos da proximidade do Dia do Juízo, os irmãos abatem e consomem seu gado e a seguir o dos peludos (embora não toquem no di­ nheiro republicano, que julgam maldito). É por tomarem gado que o governo volta a guerreá-los.

■ A en/a-mate ('ouro verde"), usada pelos Guarani desde tempos Imemoriais, encontra mercado no Uruguai 6 Argentina, que vivem uma era próspera. Forma 3,6% das exportações brasileiras de 1913 e se expande até os anos 20. Faz a fortuna dos coronéis da erva-mate na área em litígio. É beneficiada no PR, depois em Joinville, SC, 0 que acirra a disputa de limites. A valo­ rização leva à expulsão de posseiros e acirra as lutas entre coronéis.

■ 0 combate na mata tolhe a tropa e a artilharia; favo­ rece os sertanejos, mestres da surpresa, da tocaia e da arma branca, sobretudo o facão. Taquaruçu rechaça (29/12/13) 370 praças do Exército, policiais de SC e vaqueanos (irregulares contratados por coronéis). 0 V ataque, com 750 praças e forte bombardeio, arrasa Taquaruçu (8/2/14), mas a irmandade já está no reduto de Caraguatá. Este chega a 5 mil habs., repele o ataque de 9/3, mas utna epidemia de tifo o esvazia. Surgem vá­ rios redutos (Perdizinhas, Tamanduá. Pinheiros, Caça­ dor) e redutinhos. A expedição do gen. C. Frederico de Mesquita (veterano de Canudos). 1.500 homens do RS, SC e PR e 80 vaqueanos. percorre áreas semi-abandonadas, sem chegar aos redutos principais. Retira-se dei­ xando 0 cap. Mattos Costa (morto em 6/9) para guardar a fen'ovia.

29/3: J. C. Ribeiro de Sousa eleva-se 120 m nos cóus do RJ, num balão 17/4: Lançado ao mar no Rio o cruzador Aim. Barroso, totalmente feito no Brasil 17/5: A Fala do Trono se omite, pela 5* vez seguida, sobre o problema da escravidão 3/7: Gabinete liberal de João Lustosa da Cunha, vise., depois marq. de Paranaguá 30/7: A Gazeta de Campinasr. "Os deputados entregues à mais criminosa vadiagem desertam de seus postos..." 25/8: Morre Luís Gama, ex-escravo, pioneiro do abolicionismo em SP 9/10; O min. da Guerra reitera a proibição de debates pela Imprensa entre militares • A produção mundial de café ultrapassa o consumo pela 1* vez

■ A Brazilian Railway, firma do americano P Farquhar [6.10], Obtém (1900) concessão para levar ao RS a fer­ rovia que só chega a União da Vitória, PR. 0 govemo cede a ela uma faixa de 30 km ao longo dos trilhos, gerando mais expulsões. Os 8 mil construtores da estra­ da, recrutados à força no Rio, Santos, Salvador, Recife, insurgem-se contra atrasos de pagamento e desmandos de feitores. Ao fim da obra, são largados na região. A madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization, do mesmo gnjpo, adquire 180 mil ha, forma um corpo arma­ do a desaloja centenas de famílias. Demitidos da ferrovia e posseiros expulsos formam explosiva massa privada de tudo. ■ Os monges (similares aos beatos nordestinos) correm a serra dando voz ao sentimento popular. 0 1® monge João li/laria vaga d. 1844 de Sorocaba, SP, a Sta. Maria, RS (em Lapa, PR, até hoje tem devotos). Perseguido, expulso do RS, mantém sua pregação no plano místico. 0 2- João Maria (que a memória popular confunde com o 1«) surge na Guerra Federalists [6.2] e é maragato con­ victo: após a derrota, profetiza a ressurreição de Gumercindo Saraiva, à frente de um exército de anjos: faz do branco maragato a cor sagrada e do vermelho a cor da­ nada; cria em Entre-Rios, SC (1897), a 1* irmandade, que a polícia dissolve a mando do cel. H. Rupp; desa­ parece em 1908. Para os fiéis, está encantado no morro do Taió e voltará. Sucede-o seu suposto innâo, também José Maria, receitador de ervas medicinais, que prega a rebelião aberta e acha milhares seguidores. ■ 0 1° reduto (comunidade) rebelde nasce em Taquaruçu, com 700 fiéis que seguem José Maria após a festa do Bom Jesus (12/8/12) em Curitibanos. 0 monge prega a igualdade (“Quem tem, mói; quem nâo tem mói tam­ bém") e um monarquismo rústico, místico e popular, lem­ brando Canudos [6.3]; enfatiza a iminência do Apoca­ lipse. Lê aos fiéis trechos de Carios Magno e os 12 pares de França (texto medieval, popular no Brasil desde a Co­ lônia). Inspirado neles cria o corpo dos Pares de França, 24 sertanejos afeitos ao manejo das armas. Instado pelo cel. Francisco Albuquerque, potentado da região, o go­ vemo de SC ameaça os irmãos, que fogem para os cam­ pos do Irani, lugar ermo então sob controle do PR. Ali passam a rapar a cabeça e se chamarem pelados, em oposição aos peludos infiéis. 0 PR, temendo uma inva­ são de SC, envia 500 homens da Força Pública. Em fe­ roz combate corpo a corpo, o cel. João Gualberto de Sá mata a tiros o monge José Maria e é morto a machada­ das (22/11/12). A tropa foge deixando 1 metralhadora e 40 fuzis. Os irmãos se dispersam. ■ A Santa religião renasce com força invulgar, um ano depois, no sertão de Perdizes Grandes. Incorpora a crença na ressureição de José Maria, também liderando um exército encantado, na Guerra de S. Sebastião [1.2], que levará ao fim do mundo. 0 reduto de Taquamçu ressurge. Desta voz não há monge; sucsdem-se na lide­ rança a menina-vidente Teodora, seu avô Eusébio dos Santos, seu tio Manuel (derrubado por abusar das vir­ gens que 0 auxiliam), um primo de apenas 12 anos, Fran-

■ 0 movimento atinge o auge: 25 mil Irmãos, vários redutos, espalhados por 20 mil km*. Os céls. Aleixo Gonçalves,Bonifáclo Papudo e Antonio Tavares Jr., ven­ cidos por oligarcas mais fortes, aderem à Santa Religião. Vários chefes guerrilheiros se destacam: Chiquinho Alonso, Venuto Baiano, Agostinho Saraiva, Henrique Wolland (o Alemãozinho, fotógrafo, desertor da canhoneira alemã Panther). Os rebeldes entram em Papanduva, Itaópolis, a serraria da Lumber em Calnron, a estação de S. João (cortam o tráfego de trens), Salseiro, as colônias de R. das Antas, Moema, Iracema. Tomam até (26/9/14) Curi­ tibanos, 0 pólo urtwno da região: aos gritos de ‘Chega de pobreza!', incendeiam prédios públicos e o casarão do cel. Albuquerque. Deixam escrito: “Nós estava em Taqua­ ruçu tratando da nossa devoção, não matava nem rouba­ va. 0 Hermes (da Fonseca) mandou suas forças covar­ demente nos bombardear, onde mataram mulheres e Crianças. 0 govemo da República toca os filhos brasi­ leiros do terreno que pertence à nação e vende para o estrangeiro; nós agora estamos dispostos a fazer pre­ valecer os nossos direitos". ■ A Grande Expedição do gen. Setembrino de Carvalho (11/9/14) tem 6 mil praças (a maior parte do Exército Nacional) e mil vaqueanos armados por coronéis. 0 ge­ neral faz um ultimato, cerca toda a área. restabelece (14/9) 0 tráfico de trens e inkiia implacável ofensiva. 0 maj. Paiva arrasa pela 3* vez Taquaruçu, onde se erguia a Nova Jerusalém. Os vaqueanos se esmeram em cruel­ dades. Os redutos vão caindo: outros surgem serra aci­ ma, mas a crença no fim do mundo leva ao abandono das lavouras e à fome extrema. Começam as deserções; Wolland rende-se com 200 homens e passa a ajudar a repressão. 0 Exército usa pela 1‘ vez no pais aviões em missões de reconhecimento e bombardeio. ■ 0 ataque ao reduto de Sta. Maria começa em 8/2/15, mas não vence a barreira de desfiladeiros, matas e to­ caias. No reduto, mastiga-se couros e ervas; o comando passa a Adeodato, que começa a mandar matar fugitivos e possíveis rivais. A tropa passa 1 mês demjbando a selva para privar a rebelião de seu tnalor aliado. Ao fim de 10 dias de marcha e 8 de combate, 200 regulares e 500 vaqueanos do cap. Potiguara tomam o último gran­ de reduto pelado (3/4); 2 mil casas são destruídas. Adeodato foge. ■ A guerra aos últimos redutos (S. Miguel, PediBS Bran­ cas e S. Pedro) toma feição de caçada conduzkla pelos vaqueanos até a destruição tetal (17/12/15). Adeodato volta a fugir e é preso 6 meses depois. A guerra mata no total 20 oficiais, 300 praças e um n° de dvís estimado entre 3 mil e 20 mil. Logo após (20/10/16), SC e PR assi­ nam um acordo de limites.

1883 1/1: A vila de Acarape, CE, é a 1* a lllsertar todos os seus escravos (116) 11/2: Fortaleza, CE, passa a ter telefones 3/5: A Fala do Trono pede a "gradual extinção do elemento servil" 12/5: Fmdada no FU a Confederação Atwlkáonista, de caráter nacional 24/5: Gabinete liberal de Lafayette Rodrigues Pereira 14/6:1° colégio salesiano do país, proTissnnalizante, em Niterói, RJ 23/7: 1» Iluminação elétrica, Campos, RJ 26/8: A Confederação Abolldonista lança seu manifesto, no teatro D. Pedro II, RJ 25/10: Morto o jornalista (marrom) Apulcro de Castro, por oficiais de cavalaria 14/12: Polícia e Exército reprimem grande revolta na Casa de Detenção do RJ, com ajuda de mais de cem escravos presos • O ten.-cel. Sena Madureira é exonerado do comando da Escola de Tiro, no RJ • Joaquim Nabuco escreve O Abolicionismo • 1®frigorífico na Argentina • F. Nietzsche publica Assim Falou Zaratustra • E. Zola lança o Germinal 1884 1/1: Começa a circular A Federação (Júlio de Castilhos), jomal republicano, RS 25/3: Libertação dos escravos no CE; Victor Hugo, em Paris, comenta: “A barbárie recua, a civilização avança" 25/3: Executada no teatro Politeama, RJ, a

Marselhesa dos Escravos 26/3: Resgate de 3 escravos postos no tronco em fazenda de S. Gonçalo, RJ 12/4: Fundação do Clube Naval, no RJ 1/5: Luiz Carios de Lacerda funda o jornal abolicionista 25 de Março, em Campos, RJ 24/5: Manaus, AM, deixa de ter escravos 616: Gabinete liberal de Manuel P. de Sousa Dantas; seu lema sobre a escravidão: "Nem retroceder, nem parar, nem precipitar" 1/7: O Centro da Lavoura e do Comércio reúne no Rio Grande assembléia nacional de Clubes da Lavoura, escravocratas 1/7: A Biblioteca Nacional, RJ, passa a contar com luz elétrica 10/7: Abolição da escravatura no Atui 15/7:0 governo apresenta à Câmara o projeto de Lei do Sexagenário 3/9: Pedro II dissolve a Câmara devido ao Impasse entre abolicionistas e escravistas 7/9: Já nâo fiá escravos em Porto Alegre, RS; antes eram 3 mil

• 1“ curso de odontologia 1885 8/3: A Fala do Trono julga “útir a "extinção gradual da escravidão’ 101


Cronologia

6.7 CORONELISMO / JUAZEIRO DO PADRE CICERO

18/4: “O Partido Republicano Paulista nunca pôde esconder ben:^ a sua tendência escravocrática" (Júlio Ribeiro, SP) 6/5: Gabinete liberal de José Antonio Saraiva 23/5: Mal. Deodoro, quartel-mestre general do Exército, no RJ 7/6: Célebre discurso abolicionista de Rui Barbosa no teatro Politeama, RJ 26/6: 0 min. da Guerra prende por 2 dias o cel. Cunha Matos; aguça-se a Questão Militar 20/8: O gabinete volta aos conservadores: João Maurício Vanderlei, barão de Cotejipe 23/9: Artigo de Júlio de Castilhos vincula a Questão Militar à propaganda republicana 26/9: Dissolvida a Câmara dos Deputados 26/9: Mal. Deodoro chefia o Exército no RS 28/9: Lei do Sexagenário, ou Saraiva-Cotejipe, liberta os (pouquíssimos) escravos com mais

■ As raízes do coronelismo vêm do início da conquista. 0 grande dono de terras e escravos, senhof de baraço e cutelo, exerce um poder privado e quase ilimitado em seu domínio. Após 1831 a Guarda Nadonal [4.1] confere-lhe patente de oficial, até o posto máximo de coronel. Ao ser extinta (1918), a Guarda tem 44 mil oficiais no país. Os ollgarcas locais conservam a patente como titulo lnfom:>al.

de 65 anos

27/10: Filogônio Utinguaçu enuncia a hipótese da transmissão da febre amarela pelo mosquito • Estrada de ferro do Corcovado, RJ • L. Pasteur descobre a vacina anti-rábica 1886 12/2: Flagrada e processada senhora torturadora de mucamas, em Botafogo, RJ (absolvida) 1/5: Greve geral em Chicago. EUA: sangrento choque em 4/5 (38 mortos): origem do 1« de Maio 15/S: Eleição da nova Câmara; 103 conservadores, 22 liberais, 3 republicanos, entre eles os futuros presidentes Prudente de Morais e Campos Sales 30/5: A Fala do Trono pede que a abolição, além de gradual, “tranqüilize nossa lavoura" 31/5: Manifesto do Clube Republicano do PA; Inspiração positivista e revolucionária 1/6: Projeto do sen. Dantas extingue a escravidão no prazo de 5 anos 3/6: Adesão liberal à emancipação; 14 senadores propõem prazo até 31/12/1889 30/6-5/7: Congresso Republicano Federal 2/7: Antonio Prado e os cafeicultores do Oeste Novo de SP criam a Sociedade Promotora de imigração 3/7: Nabuco volta à Câmara, afinal, eleito no 5- distrito de PE (votação complementar) 10/7: Ouro Preto, MG. passa a ter telefone 29/9: 29 advogados de Ouro Preto declaram: não aceitarão causas escravistas 30/9: Assembléia da oficialidade do RS em desagravo ao len.-cel. Sena Madureira. com aval de Deodoro 15/10: Lei que proíbe açoilar escravos 22/12: 0 mal. Deodoro é afastado do comando do RS por apoiar oficiais na Questão Militar • 1* tumé da atriz Sara Bernhardt, RJ • Libertação dos escravos em Cuba: o Brasil Jorna-se o único país escravista das Américas • O Problem a da M isàrla (ensaio), de Clóvis Bevilacqua 1887 3/1: Cotejipe pede repressão aos incêndios de canaviais em protesto contra a escravidão em Campos, RJ 30/1: Atentado em Campos, RJ, contra o abolicionista Luís Carlos de Lacerda 2/2: 200 militares (inclusive o mal. Deodoro) contestam as punições de oficiais 12/2: Cai 0 ministro da Guerra, Fernandes Chaves, pivô da Questão Militar 1/3: O Imperador cai enfermo; correm boatos de que está louco ou senil 4/5: Projeto de Afonso Celso: abolição imediata com 2 anos de serviços gratuitos ao senhor, arquivado por 41 votos a 33 10/5: A. Prado deixa o ministério por discordar do e s c r a v o c r a ta C o te jip e

102

■ A República modifica o poder dos coronéis e gera 0 fenôineno específico do coronelismo. 0 centralismo imperial dá lugar a uma federação relativamente frouxa [6.8). A máquina estatal (polícia, juizes, umas) chega ao interior (embora os domínios de um grande senhor de ter­ ras pemnaneçam indevassáveis). Os coronéis mantém o comando total de seus municípios; Indicam as autori­ dades locais; coligados em partidos estaduais ou pactos, ditam a politica nos estados e, por tat)ela, no Pafs. ■ 0 coronel típico é latifundiário, mas pode ser tam­ bém comerciante ou profissional llberail. Chefia um dã familiar, às vezes ramificado em vários municípios e esta­ dos, mediante verdadeira política de casamentos. 0 dã possui um batalhão ou regimento na Guarda Nacional, e a rede de agregados, parceiros, cabos eleitorais, afilha­ dos, sua gente, que fomece votos, serviços, informações, lealdade e, se preciso, combatentes, a troco de favores e proteção. Mantém um exército privado jagunços ou ca­ bras [6.9] que pode exceder um milhar de homens. Ba­ seia sua força numa barganha de lealdades que inclui o voto; este não exprime opção política, mas a contraparti­ da da barganha, muito consciente, à sua moda. Em 1915, todos os 549 eleitores de Princesa, PB (cel. José Perei­ ra), votam no senador Epitácio Pessoa. Unanimidades assim são comuns. ■ A violência, camuflada na relação do coronel com sua gente, no conflito interoligarquias gera autênticas guerras cMs: engajamento de todo homem válido, contratação de jagunços e cangaceiros [6.9], tocaias, ataques a fazen­ das, sedes de municípios e capitais estaduais (Cuiabá 1900-1906, Fortaleza 1914). Com o tempo, os exércitos privados cedem espaço ao controle da máquina local de poder, em especial a polícia. ■ 0 clã típico do coronelismo, de base familiar, pre­ valece ao norte de MG. Aí, é comum uma família chefiar por gerações a política do município ou estado: os Pessoa (PB), Malta (AL), Calado (GO). Os Acióli, senhores do CE desde o Império, chegam a ter o governador, 2 senadores, 2 deputados federais. 8 estaduais, o intendente (prefeito) e 2 vereadores da capital, várias secretarias, o comando do Batalhão de Segurança, a direção da Academia de Direito 0 da Escola Nomial. No Sul-Su<ieste, a urtjanização e o peso menor do latifúndio geram oligarquias mais com­ plexas e plurais, multi-clãs, coligadas em legendas esta­ duais (em especial os PRs, Partidos Republicanos [5.8, 6.1D, sem fugirem as padrão básico. ■ 0 senador José Gomes Pinheiro Machado [18521915], domina o RS em 1893 [6.2) e torna-se o coronel dos coronéis (título atribuído também a outros). Sua influência pessoal domina o Congresso Nacional, abarca todo 0 pais, decide a eleição de Hermes da Fonseca (1910) e Venceslau Brás (14). Morre apunhalado no Rio (8/9/15), no auge do poder, candidato imbatível à sucessão presidencial.

Matos, e Frankiln de Albuquerque, destacam-se também no combate à Coluna Prestes [6.15), ■ A Revolução de 30 [7.1] é um duro golpe para os co­ ronéis. Vários ensaiam uma resistência, frustrada pela rápida vitória de Vargas. Desarmados, negociam uma acomodação. Reunidos em Juazeiro, BA (33), coronéis de 21 municípios fomnam a Coligação Sertaneja e juram lealdade ao hábil Interventor Juracy Magalhães. A partir daí 0 coronelismo decai, vítima da urbanização, in­ dustrialização, crescente hegemonia burguesa e maior autonomia dos trabalhadores. A pregação anfilatifundiária iniciada por André Rebouças e Sílvio Romero gera o movimento pela reforma agrária [8.12], Mas ainda em 62 Arraes se elege em PE (8.13) com ajuda de coronéis como Chico Heráclito de Limoeiro. Em 64 os Penedos de Tucano e Carvalho de Sá de Jeremoabo, BA, se armam em apoio ao golpe, e não são casos isolados. Ainda hoje traços do coronelismo (clientelismo, voto de cabresto, nepotismo) se mantêm quase intactos em áreas retar­ datárias e legendas consen/adoras. Juazeiro do padre Cícero ■ 0 Cariri, sul do CE, contrasta com o semi-árido nor­ destino pela fertilidade e relativa fartura de chuvas. Já no Império forma um próspero oásis. Seu centro, Crato, 70 mil habs., na 1- década do s. 20 tem iluminação elétrica, cine­ ma, imprensa. Mas a região traz forte marca do coronelis­ mo, agravada por sangrentas lutas entre chefes locais. ■ 0 pe. Cícero Romão Batista [1844-1934], ordenado (1870) já com fama de “fantasioso", é vigário de Juazeiro do Norte, povoado de 32 casebres e 1 capela, a 13 km de Crato, sua terra natal. Ali tem visões de Jesus e dos apóstolos, e inicia fen/orosa pregação bem ao gosto da religiosidade sertaneja. Fugindo á praxe, não cobra por casamentos, batizados, missas, o que enche Juazeiro de fiéis pobres. Sua ação beneficente imita a do pe. Ibiapina [1806-1883]. Ganha fama de mllagrelro ao ministrar a comunhão à beata Maria de Araújo (6/3/1889) e, segun­ do crê 0 povo, converter a hóstia no sangue de Cristo. A Igreja contesta o milagre, remove o padre para Salgueiro (PE), envia-o a Roma (1897) para explicar-se ao papa, suspende-o das ordens religiosas por herege, acusa-o (sem base) de apoiar Canudos. Mas Juazeiro o recebe como novo santo (1898). Ali ele continua sua prédica e ergue uma réplica da igreja do Horto de Jerusalém. ■ 0 misticismo de Juazeiro aproxima-se de Canudos e do Contestado pelas raízes sociais, mllenarismo e desafio à hierarquia católica, mas não pela vocação sub­ versiva. Pe. Cícero prega o respeito â ordem e às autori­ dades. Com ajuda (d. 1908) de Floro Bartolomeu, seu conselheiro em coisas profanas, alia-se a coronéis, amealha bens, toma-se ele mesmo latifundiário (tem 5 fazendas, 30 sítios), coronel, 1' prefeito de Juazeiro (emancipada em 11), unificador dos oligarcas do Cariri no Pacto de 17 coronéis (4/10/11), de apoio ao governo Acióli e paz Interna (art. 2*: “Nenhum chefe procurará de­ por outro chefe'). À sua roda cresce a população pobre, enferma e crente de Juazeiro: 24 mil habs. em 1912,2* cidade do CE em 30.

■ Horácio de Matos [1882-1931], senhor de S. João do Paraguaçu (h. Mucujé) e das Lavras Diamantinas, BA, é 0 modelo de coronel. Herda a chefia dos Matos (1913) de seu tio Clementino ligado ao poderoso clã dos Medrado. Vence seu rival, cel. Fabrício de Oliveira, e o govemo do estado (1915), cerca Campestre, cerca e toma Brotas (1919), do cel. Milltão. Integra a rebelião de coronéis que obstnjl a navegação no S. Francisco, ameaça Salvador e só finda com o tratado de paz de 3/3/20. Este garante-lhe suas armas, a posse de 12 a 14 municípios, afasta seus inimigos em Campestre. Lençóis e Macaúbas A vitória

■ A revolta dos coronéis do Cariri combate o governo do ten.-cel. Franco Rabelo, que dermba Acióli (23/1/12) com ajuda de setores urbanos e ousa destituir o pe. Cí­ cero da Prefeitura. Floro reúne os deputados estaduais, proclama-se presidente temporário do CE (12/12). 0 po­ vo cerca Juazeiro com uma trincheira de 2 m e vence a Força Pública do cel. Alípio de Uma (20/12); 5 mil volun­ tários avançam até as portas da capital; só se detém com a intervenção federal (cel. Setembrino de Carvalho [6.6], 14/3/13) que leva a um acordo. Pe. Cícero não se envol­ ve ostensivamente, fi/lorre rico, semi-reconciliado com a Igreja, ainda alvo de veneração e romarias, mas já com o prestígio em declínio. Juazeiro ergue-lhe uma estátua de 27 m e até hoje. no dia de Finados, recebe mais de 200

assinala o auge do coronelísmo baiano. Horácio de

mil romeiros devotos do Padim Ciço.


1 Franklin Uns Albuquerque 2 Francisco Leóbas tte-EraÍEÍa - Rio Ptel 3 Abilk) Feira de Santí f'BemäWino da Silva Bahia '5 Olímpio Antonio Barbosa - Bansirt 6 Antonio Balbino Carvalho 7 M. Alcântara Caivalho •; 8 José Kruschevsky - Remanso 9 Franéfeco Dias Cijalho - Brotai^ 10 Cterner^tede^újocaSfro-lIné^us 11 fíãmiro Idejlmso de Araüjõ^JlhffiK \ß A.HonoratodeCaslro-S“ ■ t3 PsdroLevino Catalão-f%íadO ' Dias Coelho ■Morrô^ífoChapeu 3 Abraham Cohim v^abàdor lugu^o Ftpdrigues.Cosíã'- Juazeiro 17\Apfiÿo Duatie Filhé - Carinhanha 18 (João Coireia Ouqué^ Macaúbas 1â-.t. BorgesEigueiredrf- Santana dos Brejos 20 Ranciscò JoaquimFieres-Areia /2 1 ManbeU=^nao4^^-Andaraí 22 Aufáiano dBjBrito Gordin • Itatiuna 23 (^itófio Casfeto Branèo ■Caâa 24 t . José-í^neiaVetóféefdgjiBantânso 25 Jpsê Pedçlia LapW-Macaúbas 26 Hermelino'Marque^de Leão - Salvador 27 Çlodolfo Martins di^Soúsa-ChapadaJ^ha 28 ^lementiiTc Pereira de Maios - Lençi 2 ^ Horáciéfee Máfcs - S. João do Parac 30 A. landulío.dà Rocha MedraiJo -Salfesfcr 31 AKredo Queii^ Monteiro 32 Agostoò Fróes da Mota - »qij^Xique 33 José oe Sousa r

As m aiores cidades (1910): 30 a 50 mil o õ Oa l OOmi l G 109 mil O 319 mil habs.í

41 42 43 44 45 46 47 48 49 50

Tranquilino José Nogueira ■Salvador Aristides Novis - Salvador Manuel Duarte Oliveira - Campestre Manuel Fabricio de Oliveira • Lençóis Otávio Passos - Ilhéus A. Pessoa da Costa e Silva - Salvador Carlos Pinto - Itabuna Henrique Alvos dos Reis - Barreiras Francisco Joaquim da Rocha - Ilhéus Domingos Adami de Sá - Lençóis César de Andrade Sá - Lençóis Felisberto Aiigusio de Sá - Lençóis João Nunes de Sento Sé - Sento Sé A. Pereira da Silva Moacir - Lapa M.Miisael da Silva Tavares-Ilhéus Abílio Woiney - Barreiras Marcionüio Antonio Sousa - Maracás 0

m

100

150

2<y)l(m

103


Cronologia

6.8 SISTEMA POLÍTICO / ELEIÇÕES A BICO-DE-PENA

2015: 0 govemo Cotejipe, a pedido do Senado,

■ 0 modelo político da República Velha surge d. 1894 com base no coronelismo [6.7], É um poder oligárquioo como no Império, mas com a jovem oligarquia do café [5.4] em lugar da velha oligarquia da cana [2.3]. Continua elitista: o direito ao voto é restrito a 5% da população adulta: só na eleição presidencial de 30 [6.15] chega aos 10%. 0 processo eleitoral mantém e aprimora os vícios antigos: mas, no lugar da centralização, vigora unta fede­ ração mais frouxa que em qualquer outra época.

recua na Questão Militar e revoga as punições de oficiais 31/5: Surge o 1®clube republicano em Belóm, PA 1/6: Novo projeto do sen. Dantas extingue a escravidão no prazo até 31/12/1889 3/6: Adesáo dos liberais ao abolicionismo; 14 senadores propõem.o fim da escravidão em 31/12/1889 26/6: Fundação do Clube Militar, no RJ 30/6: Pedro II viaja à Europa para cuidar da saúde; 3* regência da princesa Isabel 30/6-5/7: Reúne-se no RJ o Congresso Republicano Federal 5/7: Fazendeiros de Araraquara fixam prazo até 1889 para libertar seus escravos 27/7: Criada a Imperial Estação (h. Instituto Agronômico de Campinas, SP) 8/8: A polícia de Coelho Bastos dissolve ato atiolicionista na rua do Ouvidor. RJ 28/8: Rui Barbosa, no Politeama, RJ, pede Intervenção do Exército contra a escravidão 28/9: Começa a circular a C idade do Rio, moderno jornal abolicionista de Patrocínio 5/10: Nabuco volta à Câmara após vencer nas urnas, para min. do Império, Portela Jr. 26/10: Clube Militar “suplica' à Coroa que não use exército na caça a escravos fugidos 31/10: A Câmara de S. Borja propõe plebiscito sobre a República 11/11: 4 anarquistas condenados à forca nos EUA. devido à greve do dia 1«/05/1886 19/11: Rodrigues Alves, presidente de SP 20/11: Carga de cavalaria contra ato abolicionista em Campos, RJ 28/11: Inauguração da estátua da Liberdade, EUA 15/12:207 fazendeiros de SP fomoam a Associação Libertadora e Organizadora do Trabalho; proposta: emancipação até 1891 • Constnjída a Hospedaria dos Imigrantes, Bom Retiro, SP, com 500 vagas • Ao morrer o barão de Itapetininga, começa o arruamento do morro do Chá, SP • Há em PE 13 concessões para usinas de açúcar, 6 para a The Central Sugar, 7 para a The North Brazilian Sugar Factories • A Pátria Paulista, de Alberto Sales 1888 10/2: O papa Leào XIII promete a Nabuco condenar a escravidão na próxima encíclica (que só sai após 13/5) 12/2: Batalha de flores no Carnaval de Petrópoiis marca a adesão da princesa Isabel ao abolicionismo 25/2: A Santa Casa do RJ cria o Instituto Pasteur 25/2: Já nâo há escravos na capital de SP 28/2: Espancamento de oficial da Marinha envolve o chefe de policia e dernjba o último gabinete escravocrata do Império 10/3: Gabinete emancipaclonista de João Alfredo Correia de Oliveira (conservador) 11/3: Nilo PeMnha, no 25 de Março, Campos, RJ; “A libertação imediata (dos escravos) é a única solução hoje possível" 1/4: Libertação coletiva dos escravos de Petrópoiis. RJ: a princesa participa 20/4: O govemo ensaia uma última tentativa (fracassada) de emancipação gradual dos escravos 3/5: Abre-se o Parlamento, cheio e cercado de povo (até 13/5); em pauta, a abolição 4/5: 4 escravos fugidos almoçam no palácio imperial de Petrópoiis, RJ 8/5: O govemo apresenta ã Câmara o projeto

de abolição imediata da escravatura, sem Indenização 12/S: A Câmara aprova a Lei Áurea, com 9 votos contrários 104

■ A autonomia se materializa nas Forças Públicas dos estados, autênticos exércitos locais: a de SP. a maior e melhor equipada: chega a 14 mil homens (25-26), mais que 0 Exército nacional: tem artilharia, força aérea e (d. 1906) assessoria militar estrangeira. Os partidos políticos são estaduais (é a era dos PRs, Partidos Republicanos). Até a designação dos cargos varia. 0 governador chamase presidente, exceto no MA, PA, PI, RN, PE, AL, BA, PR e SC. 0 prefeito já tem este nome em PE e PR; no AM chama-se superiritendente, nos demais estados inten­ dente. Os impostos de circulação interestadual de mer­ cadorias, em tese abolidos em 1904, na prática se man­ têm (em MG até 42). ■ A política dos governadores de Campos Sales (1900) encarna e acentua o federalismo. É um pacto en­ tre 0 presidente da República e os dos estados: a Comis­ são de Verificação de Poderes da Câmara Federal, sem­ pre submissa ao govemo da União, acata e sanciona as eleições estaduais por mais manipuladas que sejam, eternizando o status quo. Para Campos Sales, “é de lá [dos estados] que se governa a República, por cima das multidões que tumultuam a capitar. Esta conduta só tem um hiato na gestão Hennes da Fonseca (1910-14), que interfere em PE, CE e bombardeia Salvador (10/1/12), dentro da política de salvações nacionais. ■ SP é 0 estado mais rico: em 1907 colhe metade do café do planeta. Nos anos 10 supera o DF em produção industrial [6.10]. Em 33 ultrapassa MG em eleitorado. Na política, mantém a coesão oligárquica do PRP (Partido Republicano Paulista), que reabsorve cisões ocasionais (1891,1907,15,24). é partido único até 26 e largamente hegemônico até 30. 0 PRP faz todos os 14 governos es­ taduais de 1889-1930 e 6 dos 12 presidentes da Repú­ blica de 1894-1930. Controla as políticas federais de inte­ resse direto do café: dívida externa, câmbio, emissões, diplomacia. A elite de SP vê-se como uma ilha de pro­ gresso e civilização em um país semi-selvagem; auge do bandeirismo (exaltação dos bandeirantes [2.7]). ■MG é o 1* estado em população (até o censo de 40), eleitores e representação pariamentar (37 deps. federais, para 22 de SP e BA, 16 do RS). Ocupa o 2®lu ^ r na agri­ cultura e 0 4® na indústria. Firma um estilo político próprio, feito de transigéncias. conciliações e manobras intra-oligárquicas. A elite imperial (Cesário /Mm) rapida­ mente adere à República, afasta os débeis republicanos históricos e restaura seu domínio, em tomo do PRM (Par­ tido Republicano Mineiro), que faz os 11 presidentes es­ taduais de 1897-1930. Todo coronel mineiro tem como norma jamais se opor ao govemo: a bancada federal de MG é conhecida como carneirada por sua monolítica unidade situacionista. Internamente, a oUgan^uia local transfere sem abalos a capital, de Ouro Preto para Belo Horizonte, e o eixo do poder, da velha área mineradora para a cafeelra. ■ A República Café-com-Lelte, aliança SP-MG com base nos interesses da grande lavoura do café, dá as cartas até 30. num federalismo desigual. Só é contrariada em breves intervalos: morto Afonso Pena (1909), Nilo Peçanha [RJ 1867-1924] assume a Presidência: em 1910 0 mal. Hermes da Fonseca (RS 1855-1923] e seu mentor Pinheiro Machado [6.7] vencem a Campanha Civilista de Rui Bartxjsa, apoiada pelo PRP; em 26 Washington Luís [1870-1957] tenta, em vão, govemar sem MG. ■ 0 RS é em 20 0 4^ em população, o 3^ em eleitores e indústria, o 1* em alfabetização e rebanho. Tem (desde

0 Império) 1/3 do efetivo do Exército, sedia (d. 19) a 3® Região Militar e é um viveiro de generais. A margem da aliança café-com-leite, mantém autonomia e faz política nacional. Ao inverso de SP e MG, vive feroz bipartidarismo. 0 PRR (Partido Republicano Rio-grandense) gover­ na sem interrupção em 1892-1930: seu caudilho Borges de Medeiros [1864-1961] é 5 vezes presidente estadual. Porém é acossado pelo PF (Patlido Federallsta), vencido pelas armas em 1895 [6.2], mas forte na área rural. A 5® eleição de Borges de Medeiros (22), contestada por frau­ dulenta, leva a mais 12 meses de guerra civil, até a paz de Pedras Altas (14/12/23). ■ Bahia e Pernambuco ocupam o 4° e 5° lugares em produção e votos, e acentuam uma decadência que vem da colônia. Não fomnam um pólo; orbitam em tomo de SP-MG. Afora os 2 generais da República da Espada, há apenas um presidente nordestino até 30, Epitácio Pessoa [1865-1942], da pequena PB, eleito por conveniência de SP, MG e RS. As eleições ■ 0 sistema eleitoral herda os vícios do Império [5.1], a despeito da intenção moralizante dos republicanos históricos. A abolição fomial do voto censitário não leva ao sufrágio universal. Mulheres, analfabetos e praças não votam [6.1]. 0 sistema pemiite e estimula a fraude. Os resultados são sistematicamente contestados, mas as Comissões de Verificação de Poderes os ratificam sem­ pre. Euclides da Cunha se refere “às mazorcas que a lei marca, denominando-as 'eleições', eufemismo que é entre nós o mais vivo traço das ousadias da linguagem". ■ 0 voto a descoberto é o aspecto mais contestado. Vem do Império. A Constituinte de 1891 [6.1] o mantém a pretexto de que la z de cada cidadão um fiscal”, imbuído de ‘função cívica”. Em 15/11/1904, uma refomia eleitoral consagra em princípio o voto secreto, mas mantém como opção 0 voto a dè^scoberto. que continua a prevalecer. A 22/12/16, nova lei o restringe, porém mantendo exceções que lhe permitem larga sobrevida. Para seus defensores, é a única obrigação digna de um cidadão honrado que nada tem a esconder. 0 voto secreto só se afirmará com a Revolução de 30 [7.1]; e ainda assim com o contrapeso das cédulas eleitorais distribuídas com antecedência, em geral já preenchidas, sistema que só cessará em 45, ao se adotar a cédula única entregue ao eleitor no momento do voto. Já 0 uso de capoeiras e capangas, herdado do Império, chega até hoje: visa intimidar eleitores e tumul­ tuar pleitos onde a oposição pode se sair bem. ■ 8 ico-de-pena é a gíria para o voto Imaginário, Ins­ crito nas atas eleitorais por funcionários especializados na fraude. Por analogia, passa a designar todo o sistema eleitoral da época. 0 fósforo (eleitor-fantasma) compare­ ce e vota sem falta mesmo muitos anos depois de morto. Alguns municípios, de coronéis mais ambiciosos e menos versados em aritmética, contam mais votos que habitan­ tes. Mas a pior fraude ocorre no processo de sanção dos resultados, a cargo dos legislativos, dos estados ou da federação, instruídos pelos respectivos presidentes. Na BA, 0 governador Severino Vieira se desentende com o intendente de Ilhéus e ordena ao Senado estadual (11/4/1901) que invalide sua eleição, aprovada pelo mes­ mo órgão 2 anos antes. A prática, chamada degola, é ge­ neralizada. Na eleição de 1/3/30 (6.15], Júlio Prestes fica com inacreditáveis 0,3% dos votos no RS; em contrapar­ tida, 0 Senado Federal, obediente ao pres. Washington Luís, nega-se a empossar toda a bancada da PB, fiel ao oposicionista João Pessoa, ■ A contestação destas práticas, do filhotismo e do genroísmo (nomes da época para o nepotismo), é a gran­ de bandeira dos tenentes [6.12], assumida pela Aliança

DemocrâtKa [6.15], e triunfa com o movimento de 30. Mas fraude e manipubção eleitorais só cedem terreno lentamente, com o avanço da urbanização; ainda hoje têm forte presença, e não só nos grotões do interior


Diretas para presidente na República Velha (resultados oficiais, reconhecidamente fraudados) Candidato vencedor Oposição expressiva n* do votos % do total de votantes

Deodoro Floriano (eleição Indireta) (vice)

>N”

d e votantes \ % d a po p u la ç ã o m a io r d e 18 an os Prudente de Morais -.276 mil )80,9%

Campos Sales ~ 420 mil 90,9%

4 6 2 m il 5,66%

341 m il 4,45%

República da Espada LIB89 il 1890 Í g a i; 1892 .1893 r894 ilBSS 1896 1897 1898 1899 11900 1901

Venceslau Brás 406 mil 70,2%

Rui Bartiosa 223 mil 31,2%

Rodrigues Alves 592 mil i93,1%

Hermes da Fonseca 403 mil 56,7%

ifonso Pena i288 mil 97,6%

6 3 6 m il 7,26%

''295 m ii 3,10%

710 m il 8, 86 %

1902 1903 1904 1905:. Í 9 0 6 '19071 1908 .18091 f910 M j ;

Epltácio Pessoa 286 mil Rui Barbosa 7 116 mil Júlio restes 1.091 mil 57,1%

'1.909 m il 10,76% f914 ! Í91S'. 1916 19.17 r918

11920 .1951 1922 1923 1924 1925 1926 1927

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Cronologia

6.9 CANGAÇO / LAMPIÃO-------------

13/5 (domingo): O Senado aprova e a princesa Isabel sanciona a Lei Aurea; estão livros os 600 mil escravos restantes no pafs 22/8: 0 Imperador retorna da Europa; acolhida triunfal na Corte 2/12: No aniversário de Pedro II. é preso o principe Obá, que se Intitula rei africano 11/12: Manifesto do Partido Republicano de PE 30/12: A Guarda Negra interrompe pela violência conferência de Silva Jardim no RJ 1888-1889: Safra recorde de café; 6,8 milhões de sacas 1888-1883: Anos de seca no Nordeste • Dunlop inventa o pneumático

■ 0 cangaço designa no Início a jagunçagem de alu­ guel e só nos anos 1870 o salteador nômade indepen­ dente do Nordeste. 0 nome vem talvez de canga, a trava que sujeita o boi de carro, análoga à carga do canga­ ceiro (40 l< de armas, munição e víveres). É típico do semi-árido nordestino. Ai, latifúndio, coronelísmo [6.71, seca, caatinga inóspita, um rígido código de fionra e vendetas se aliam para gestar esse ‘ rebelde primitivo“ (E. Hobsbawm)

1689 1/2: Criado o Colégio fwlilitar do CE 6/3: Anunciado o 1® milagre do pe. Clcero de Juazeiro; a hóstia que se tinge de vermelho 9/3: Criado o Imperial Colégio Militar, RJ. gratuito só para filhos de oficiais 21/3: Republicanos do RS juram lutar pelo novo regime por todos os meios 23/3: O engenheiro Paulo de Frontin vence em 6 dias a falta d’água no RJ Março: Rui Barbosa toma-se redator-chefe do D iário de Notícias, RJ 3/5: Na última Fala do Trono, Pedro II cita o ingresso de 131 mil imigrantes em 1888 1/6: Cai o gabinete João Alfredo, envolvido num escândalo com a firma dos Loyos 7/6: Último gabinete monarquista. liberal, de Afonso Celso de A. Figueiredo, vise. de Ouro Preto 11/6: No seu 1* discurso perante a Câmara, o Visconde Ouro de Preto anuncia a dissolução desta 14/7: Passeata no RJ exige a República e canta a M arselítesa nos 100 anos da Oueda da Bastilha 15/7: Cidadão português dispara tiro contra Pedro II à saída de um teatro 17/7: Portaria do chefe de policia do RJ com severas sanções contra os republicanos 31/8: ijitimas eleições do Império; como de hábito o govemo (liberal) faz ampla maioria; os republicanos têm 14% dos votos 22/9: Criada a Quarda Negra; ex-escravos juram dar seu sangue pela monarquia 21/10: Morre o vise. de Mauá. aos 76 anos 23/10: O ten.-cel. Benjamin Constant faz discurso na Escola Militar que lha custa a demissão. reacendendo a Questão Militar 9/11: Reunião republicana no Clube Militar (com participação da civis). RJ 9/11: Baila da Ilha Fiscal, RJ, oferecido por Pedro II a oficiais chilenos, afronta a opinião pública por seus gastos e ostentação 11/11: O mal. Deodoro recebe em casa lideres republicanos e adere à sua causa 14/11: Boato da prisão de Deodoro deflagra o golpe republicano 15/11: 0 mal. Deodoro. à frente da tropa, proclama a República e preside novo govemo, provisório 16/11: Deodoro pede que o ex-monarca deixe o Brasil 16/11: Decreto extingue os castigos corporais na Armada (não obedecido). 17/11: Pedro II (reclamando que não é “negro fugido") e lamilia embarcam na corveta Paraíba rumo à França 17/11: B. Constant lidera passeata pró-Repúbllca do "apostolado positivista" 18/11: Antonio Prado (conservador) e Augusto de Queiroz (liberal) anunciam a dissolução dos partidos monarquistas 19/11: Decreto cria a Bandeira Nacional: Dia da Bandeira 20/11: Argentina e Uruguai são os 1“ Estados a reconhecerem a República 106

■ 0 cangaceiro vem do povo. Muito jovem (às vezes com 10 anos), choca-se com o coronel local ou a polícia em questões de terra, honra, justiça, vinga-se e caí no cangaço. Forma bandos, de 3 a 100 cabras (do tupi kabu’ré, pequena coruja). Enfeita com metais o traje de couro e as armas (rifle winchester papo-amarelo, depois 0 fuzil mauser, privativo do Exército, pistola parabellum, longos punhais). Ataca fazendas, povoados, cidades, se­ qüestra gente de posses e divide o butim com os pobres, mas também entra no jogo de alianças da elite sertaneja. Pune sem dó os traidores. Pratica a guerra sertaneja â moda de Canudos [6.31 potenciada pela mobilidade. Desloca-se quase sempre a pé. A maioria morre cedo (entre 18-30 anos). ■ 0 coito é a fazenda ou sítio que abriga, alimenta, mu­ nicia e informa o bando, |» r simpatia, parentesco, medo, interesse, lutuito coiteiro é coronel, o que às vezes con­ funde cangaço e jagunçagem. 0 olheiro informa sobre o inimigo. 0 cangaceiro manso entra esporadicamente no bando. Essa teia de vínculos é vital para o cangaço. ■ As volantes são o Inimigo. Contam 20-60 soldados (macacos) da Força Pública dos estados, metralhadora, guia, rastejador, apoiados por ponteiros (delatores) e ca­ chimbos (jagunços). Reúnem até 300 homens em ações conjuntas (combate da Serra Grande, PE, 26/11/26). As do litoral, disciplinadas, mas pés-de-banha, não supor­ tam a luta na caatin^. As sertanejas (como os famosos cabras de Nazaré) são quase cangaceiros pró-govemo: vestem, combatem e saqueiam como eles; degolam prisioneiros e lambem o punhal, pois sangue de Inimigo valente dá sustança e coragem. ■ 0 1 ’ cangaceiro célebre é Jesuíno Brilhante de Melo Calado [1844-1879]. Cai no cangaço numa vendeta (1871), ataca Martins (RN) e Pombal (PB), oculta-se na fortaleza natural da Casa de Pedra, serra do Cajueiro. Ganha fama ao ajudar os flagelados da seca de 1877. Morre lutando com a polícia no riacho dos Porcos. PB. ■ A seca de 1877 difunde o cangaço: vários gnjpos atacam fazendas e feiras. Para o jomal 0 Cearense (24/2/1878), "os pobres declararam uma guerra sem mer­ cê contra os ricos*. Afora Brilhante, surgem os bandos dos Viriatos, Quirinos. Calangros. Joâo Calangro, chefe de jagunços, na seca guarda as fazendas do Cariri: com as chuvas, toma-se indesejável: rebela-se (1879); acua­ do (diz a lenda), ilude o inimigo subindo a serra do Ara­ ripe com alpercatas calçadas ao revés. A seca de 1915 encontra os sertanejos annados pela guerra do Cariri [6.7]: os cangaceiros passam de 5 mil. ■ Antonio Sllvino (Manuel Batista de Morais. PE. [1875-44]), chefe de bando em 1898, é o govemador do Sertão. Com 5-6 cabras, ataca fazendas, cidades, postos do correio e as obras da ferrovia Great Western. Por 18 anos zomba da polícia de PE, PB, RN e CE. Ferido, entrega-se (1914) e passa 28 anos na prisão. ■ Virgulino Ferreira da Silva [1898-38] é vaqueiro e al­ mocreve (tropeiro) em Vila Bela (h. Serra Talhada), Pa­ jeú, PE. A família se envolve na vendeta dos Pereiras e Nogueiras-Can/alhos; gado roubado e nrorto, surras, pri­ sões, tiros. Muda para Nazaré (h. Carqueja, PE), Pedra (Delmlro Gouveia, AL), sempre perseguida. Os filhos aju­ dam (19) 0 bando de Sinhô Pereira [1896-75], que os ba­ tiza: Antonio é o Esperança, Livino, o Vassoura. Virgulino inventa a peia (dispositivo que toma o winchester 44 semi-automático) e. pelo clarão dos tiros, vira Lampião. 0 pai é morto (29/6/20) pelo delegado de Viçosa e os 3

entram de vez no bando. Sinhô (5/7/20) se retira para e o e deixa Lampião na chefia (4/7/22). Começa a saga do Rei do Cangaço. ■ Misto de bandido e herói, Virgulino fascina o Serião. é debatido no Pariamento. noticiado no exterior. Passa de vingador a justiceiro intuitivo. Escreve (Capela, SE, 30); "Bandido é vocês (volantes) que andam roubando e deflorando as famílhas alheia. Eu não tenho este costu­ me". E em 36: “Quero virar esse mundo do avesso". Leva ao auge a mobilidade do cangaço: marcha até 130 l<m em 24 h, divide e dispersa o bando, simula estar em vários sítios, a ponto de se supor o uso de sósias, ou um pacto com o capeta. Sempre bem amiado e municiado, oculta material e dinheiro na caatinga. Usa despistes, fintas, negaças, tocaias (usando trincheiras, os santoslenhos), complexas manobras militares. Cria imensa rede de coiteiros e olheiros, sistema de sentinela e vigi­ lância, inclusive contra envenenamento. Vários inimigos atestam seu gênio militar. 0 cel. Optato Gueiros (PMPE) julga-o “o maior guerrilheiro das Américas”. Sagaz, criativo, vaidoso, elegante à sertaneja, carismático, nunca falta à palavra. Violeiro, sanfoneiro, repentista, é 0 autor presumido de músicas como Mulher Rendeira (22), hino do cangaço. Difunde a dança do xaxado, origi­ nal do Pajeú. Lê muito e mantém um diário de guerra, destruído pela polícia. ■ Quando a Coluna Prestes [6.15] entra no CE, Floro Bartolomeu [6.7] chama Lampião a combatê-la. 0 pres. Artur Bemardes aprova. Virgulino é aclamado em Juazeiro (4/3/26), abençoado e chamado “enviado de Deus” pelo pe. Cícero. Recebe patente de capitão do Exército (de duvi­ dosa validade), amiamento, uniformes. Mas pouco comba­ te a Coluna (pela qual já teve simpatia): após 3 escaramu­ ças sem mortes, volta ao cangaço. Os governos de PE-PBAL-BA-SE-RN-CE revidam com o Convênio dos 7 Estados, conjugando a ação das volantes. ■ 0 ataque a Mossoró. 2* cidade do RN (13/6/27), em­ prega 57 cabras. Sem contar com o fator surpresa, ou com 0 planejado apoio de ferroviários e cangaceiros infil­ trados, é detido em feroz tiroteio por 150-300 civis entrin­ cheirados. A cidade festeja com passeata e até hoje a data é feriado municipal. Lampião recua, fustigado pelas volantes: chega a AL com 13 homens. Em 30.'8/28, cruza 0 S. Francisco. ■ Na BA, Virgulino se acolta junto ao rico cel. Petro (Petronildo Reis). Este o trai, tenta envenená-lo. Lampião Incendeia 14 das suas fazendas, mata o gado e dá a came aos pobres. Já com 100 cabras, palmilha o sertão da BA­ SE. 0 inten/entor Juraci Magalhães [7.1] evacua em vâo 12 mil sertanejos na tentativa de isolar o bando. Fracassa também a campanha conjunta BA-SE-PE-AL-Exército (1S/1/32) que engaja 2 mil soldados e até aviões. ■ Maria Bonita (Ivlaria Alina da Silva, [11-38]), esposa do sapateiro José Miguel, de Sta. Brígida, apaixona-se por Lampião, conquista-o (fev/30) e segue-o até a morte (o casal tem 6 filhos, dos quais só se conhece Expedita). 0 bando inova ao incorporar 38 mulheres, inclusive nos combates. A 1* em 27, é Dadá (Sérgia Ribeilva, [14-]), companheira de Corisco. 0 próprio Lampião faz os par­ tos; as crianças sâo entregues para criar. ■ A tocaia de Angicos (28/7/38), obra do delator Pedro Cândido e da volante do ten. João Bezerra (48 homens, 3 metralhadoras), destrói Lampião no auge de seu reinado. Pelo relato de sobreviventes, o café dos 17 cangaceiros é envenenado: a tropa chega sem ser vista ao coito e quase não há combate. Lampião, Maria Bonita e 9 cabras são mortos, degolados; as cabeças, levadas a Salvador, ficam expostas no Instituto Nina Rodrigues até 6/2/69. ■ Corisco, 0 Diabo Louro (Cristiano Gomes da Silva, [13-40]) escapa com alguns cabras por náo estar em

Angicos. Vinga-se matando toda a família do delator. Mantém um pequeno bando até ser ferido de morte pela volante de José Rufino (25/5/40). Dadá tem uma perna amputada. 0 episódio encerra a saga do cangaço.


O sertão dos cangaceiros (1877-1940) C idade / vila / povoação d o « O cupada sem com bate a o o Invadida/tom ada e o * A taque repelido i

Á rea inicial de Lam pião (19-21) “R eino" de Lampião, po r ele m esm o ' R efúgio serra do Pau Ferrado (22) a Morte de Livino Ferreira (25) ^ M orte de A ntonio Ferreira (26) \ Trajeto da C oluna P restes (26) C onvênio dos 7 E stados (26) d ] R efúgio na s erra N egra (27) T esouro do bando T ravessia para a B ahia (28) 4 *

o C ^ á Mirim - - 'O ' i^TNatal

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Cronologia

6.10 ECONOMIA: INDUSTRIAS —

3/12: Deodoro nomeia Prudente de Morais 1* governador do estado de SP

■ A Industrialização retardatária [5.6] se acelera na Repiiblica. Ainda é precária e instável: 1917,19,23,24 e 28 são anos de recessão, às vezes drástica. Mas em 29 a produção é 6,4 vezes superior à de 1907 (ano do 1®e Impreciso inquérito industrial). Os bens de consumo náoduráveis ainda predominam (80% em 20), mas a fatia do ramo têxtil cai dos 60% de 1889 para 27% em 2 0 .0 caro carvão importado da Inglaterra dá lugar às hidrelétricas. As 2 1», em Campos, RJ (1883) e Rio Claro, SP (1884) geram 10 mil hp; em 25 são 343, e 475 mil hp.

3/12: Comissào dos 5 encarregada do anteprojeto da nova Constituição 17/12: Representante dos EUA diz em carta que atitudes do governo do Brasil pouco têm de democrático e republicano 18/12: Motim de praças, severamente reprimido, no Rio 20/12: Manifesto do vise. de Ouro Preto expõe a visão monarquista do 15/11 21/12: Decreto banindo a famflia imperial 21/12: tiflarcadas as eleições (15/9/1890) e a Instalação (15/11) da Constituinte 23/12: Decreto-roltia; fechamento do jornal monarquista A Tribuna Liberal • Construída em Juiz de Fora, MG, a 1® hidrelétrica sul-americana • Fixado em 13.500 homens o efetivo das Forças Armadas • A Biblioteca Nacional publica (162 anos depois) a História do Brasil, de frei Vicente do Salvador 1890 4/1: O jomal A Província de S. Paulo troca seu nome para O Estado de S. Paulo 7/1: Decreto extingue o padroado, proclama a liberdade de culto e a separação Igreja-Estado 15/1: Deodoro promovido a marechal do Exército, ápice da hierarquia militar 15/1; Benjamin Constant é promovido a general, por aclamação 17/1: RuI Barbosa dá início à política do Endlhamento 20/1: Oficializado o Hino Nacional de Francisco Manuel da Silva 24/1: O casamento civil torna-se obrigatório 29/1: Os EUA reconhecem o novo regime 29/3: Decreto repressivo contra subversão e "desprestígio da autoridade" 19/4: Benjamin C onstant briga com D eodoro e deixa o M inistério da Ouerra; 6 substituído por Floriano Peixoto

21/4: O Dia de Tiradentes ó pela 1* vez feriado nacional 1/5: Deportadas para Fernando de Noronha as vítimas da açâo de extermínio dos capoeiras no Rio de Jabelro 14/5: Alunos da Esc. Militar depõem o 3® presidente pós-República do RS 22/6: Constituição Provisória republicana; decreto 510 converte a Constituinte de exclusiva em congressual (bicameral) 28/6: Decreto proíbe admissão nos portos de africanos e asiáticos sem aprovação do Congresso 5/8: Cariocas homenageiam Deodoro por seu aniversário 15/9: Eleições para a Constituinte, Câmara e Senado; eleição constituinte no RS 22/9: Floriano exonerado do Ministério da Guerra 8/11: Reforma educacional do Benjamin Constant, com influência positivista 15/11-24/2/1891: Instala-se o Congresso Constituinte, no Palácio da Boa Vista, RJ (presidido por Prudente de Morais) 5/12: A Guarda Nacional toma-se milícia federal 12/12: A greve deixa de ser crime previsto no Código Penal 14/12; A Constituinte, por proposta do Rui

Barbosa, ordena a destruição de todos os arquivos da escravidão 31/12: o oenso de 1890 conta 14.333.915 habitantes no Brasil • 0 mexicano Ximénez introduz no Rio de Janeiro o Jogo do bicho

• O Cortiço, de Aluísio de /Azevedo • Introdução de biífalos de Trinidad na ilha de Marajó, onde voltam ao estado selvagem

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■ A I Guerra serve de involuntária, mas eficaz bar­ reira protecionista. A tonelagem das importações de 14-18 cai a 55% do qüinqüênio anterior. Sem concor­ rência, a indústria nacional decola: nos anos 20 supre mais de 50% da demanda em tecidos, sapatos, artigos de alumínio, esmalte, porcelana e vidro, lâmpadas elé­ tricas, dentifrícios, lâminas de bartjear, discos de vitrola, baterias para carros, pianos. Chegada a paz, um livro de Roberto Capri, custeado por industriais de SP, prediz “a guerra que vai começar no campo dos interesses do comércio'. ■ 0 foco da indústria se desloca. Em 1907, o DF de­ tém 33% da produção industrial, e SP 16,5%; em 20 SP já é 0 is em capital, produção, n ' de empresas e ope­ rários. Sáo os fnjtos do café, das ferrovias, porto, cidades e mercados que ele cria. Seguem-se o D F e o flS .A con­ centração em SP se acentua até os anos 70, quando reflui lentamente. ■ 0 café [4.7.5.4] gera o grosso do capital das fábri­ cas. Os investidores são fazendeiros (Alvares Pentea­ do, Almeida Prado [5.4-8}, mas principalmente a cama­ da enriquecida dos imigrantes [5.5f os italianos Matarazzo, Rodolfo Crospi, Francisco e Nicolau Scarpa, Alexandre Siciliano: o português Pereira Inácio; os ir­ mãos libaneses Jafet; os judeus lituanos Klabin. Muitos deles se afimiam. Ainda em 64, 84% dos empresários de SP sâo estrangeiros, filhos ou netos de imigrantes, sobretudo italianos (34,8%), alemães (12,8%), por­ tugueses (11,7%). ■ Francisco Matarazzo [1854-37], comerciante cala­ brês, chega ao Brasil com 25 anos, negocia porcos em S. Paulo e, no boom industrialista do encilhamento [6.2]. abre com os imiãos a Compantiia Matarazzo. Ins­ tala 0 1® moinho de trigo de SP (1900. financiamento inglês). A seguir o gnjpo se verticaliza; cotonifícios pro­ duzem sacos para farinha; uma descaroçadora de algo­ dão os abastece; fábricas de sabão, óleo de algodão, latas e rótulos para embalagens, navios, docas, banco (que monopoliza as remessas de imigrantes para a Itália). As Indústrias Reunidas Matarazzo (58% lèxteis) chegam a ser o maior complexo industrial sul-america­ no. Fascista (financia Mussolini), Matarazzo torna-se o protótipo do grande burguês brasileiro. Com sua morte. 0 gmpo decai e d. 77 se esfacela numa niidosa disputa entre herdeiros. ■ 0 Grupo Votorantim. António Pereira Inácio [187425). português do Porto, filho de um sapateiro que imigra (1884) para Sorocaba, SP, associa-se a um importador e fabrica descaroçadoras; trabalha como operário nos EUA para dominar a técnica de extrair óleo do algodão. Compra (1916) a fábrica Cimento Rodovalho e (1918) a enorme tecelagem Votorantim (1.300 teares, 2 mil operários). Seu genro, o pernambucano José Ennírio de Morais [1900-73], assume o gnjpo (24), expande-o à siderurgia, metalurgia, alumínio, hidrelétricas. ■ Delmiro Gouveia [1863-17], negociante cearense, toma-se no Recife o rei dos couros do Nordeste. Hos­ tilizado pelo governo de PE, sua usina é boicotada, o mercado do Derby incendiado (2/1/1900) e ele, acusado de seduzir uma menor Abre falência e foge para AL. No povoado de Pedra (h. Delmiro Gouveia), miserável, mas colado à ferrovia e à cactioeira de Paulo Afonso, reerguese, monta uma hidrelétrica de 1.500 hp e (6/6/14) uma fábrica de linhas. Durante a I Guena salta de 800 para

3.500 operários e conquista parte do mercado sul-ameri­ cano. Misto de pioneiro industriai e coronel, põe diante da fábrica 2 postes onde manda amarrar e surrar seus desa­ fetos. Assediado pela rival inglesa Machine Cotton (h. Li­ nhas Corrente), recusa-se a vender a fábrica e é assas­ sinado (10/10/17) em circunstâncias suspeitas. Após 12 anos de dumping, os herdeiros aceitam a venda (2/11/29); a Machine Cotton demole a fábrica e joga as máquinas na cachoeira. ■ 0 capital estrangeiro já não vem só da Inglaterra nem se limita às fenovias, sen/iços urbanos e bancos. Investimentos e financiamentos ingleses continuam a crescer (30,9 milhões de libras em 1875, 254,8 milhões em 1913). Porém na virada do século a maior potência econômica já são os EUA, que instalam no Brasil a Sin­ ger Sewing Machinea Otis Elevator Company, a Pulman Export Car Corporation; os frigoríficos Wilson & Compa­ ny, Amiour. Swift. Continental. ■ Percival Farquhar [1864-53], o último titã, milionário e temerário investidor americano, chega ao Brasil em 1905. Com a Light and Power controla o transporte urbano, ilu­ minação e telefones do Rio. Via Brazil Railway Company constrói a mortífera Madeira-Mamoré [6.3] e projeta a ligação ferroviária com a Amazônia, onde cria as firmas Port of Pará, The Amazon River Stean Navigation, Amazon Land and Colonization Company. Esse império naufraga d. 1914; mas em 1918 Farquhar compra da inglesa Itabira Iron Company a Megajazida de ferro de Itabira, MG e a ferrovia \fltória-Minas; obtém do govemo concessões e isenções até o ano 2010 para um porto livre é uma sidenjrgica no ES. Sob pressão dos indus­ trialistes de MG, 0 Congresso anula o contrato, tido como "de rapina". A empresa sofre ataques nacionalistas e apu­ ros econômicos, até ser desapropriada (42) e entregue à Companhia Vale do Rio Doce [7.11]. ■ 0 conflito Industriallstas-agraristas marca todo o período [6.2], A República da Espada [6.1] protege a in­ dústria nacional. Já a República Café-com-Leite [6.8] favorece a grande lavoura de exportação, partidária do livre comércio. Para Campos Sales [6.2], “a indústria nâo é viável no Brasil, devido à inferioridade racial de seus habitantes". Seu min. da Fazenda, Joaquim Murtinho [1848-11], ironiza: "Política curiosa; importamos caro aquilo que podíamos produzir barato e produzimos caro aquilo que podíamos importar barato'. Os industriais criam entidades próprias. 0 Centro Industrial de Fiação e Tecelagem de Algodão deixa (28) a velha Associação Co­ mercial, após tentar eleger Jorge Street [1863-39] seu presidente. Nasce o Ciesp, Centro das indústrias do Estado de SP. precursor da Fissp. com Matarazzo presi­ dente, Ennírio de Morais e R. Simonsen diretores. Na posse. Simonsen enaltece a indústria como essencial á independência econômica e ataca os que desejam a ‘ condição de colônia de produtos estrangeiros'. ■ A mão-de-obra é composta na maioria por Imi­ grantes [5.5]. As condições de trabalho lembram a re­ volução industrial européia. A fábrica não tem janelas, para haver concentração total no trabalho. A jornada vai de 9-9:30 h (metalúrgicos, gráficos) a 16 h (costureiras, comerciários, padeiros), 6 dias por semana: o salário mensal, de 120 mil-réis até 300 mil-réis (para operários de alta qualificação). Má intenso uso do trabalho temíníno e infantil, mais barato. Os alimentos básicos sâo fari­ nha de mandioca, arroz, feijão, carne-seca, café com açúcar mascavo. Pão, leite e legumes são luxos. A mo­ radia é em loteamentos, cortiços, pensões, depois vilas, operárias como a Maria Zélia, S. Paulo (do ‘ industrial socialista" Jorge Street, autor de outras iniciativas de as­ sistência ao trabalhador). Inexistem férias, aposentado­ ria, auxílio a acidentados e enfermos, aviso prévio aos demitidos. 0 1° embrião de Previdência Social, para os ferroviários, data de 24/1/23. As condições de vida e tra­ balho, denunciadas pelos 1“ sindicatos e jornais operá­ rios. trazem a “questão social” para o centro das atenções [6.11].


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Cronologia

6.11 OPERÁRIOS I SINDICATOS I ANARQUISMO I PCB ■ A fase heróica do movimento operário brasileiro é a de 1906-22, mas a 1* greve, dos tipógrafos de 3 jomais do Rio, é de 9/1/1858. Em 1863-1867 trabalhadores param tw DF, RJ, SP. Ferroviários, cocheiros e outros atuam na Cam­ panha Abolicionista (5.7). Surgem as 1" sociedades de ajuda mútua e efêmeros embriões de partido socialista em 1892,1895,1899,1902. ■ Os imigrantes, maioria nas fábricas do Sul-Sudeste [5.6], marcam o jovem movimento, sobretudo em S. Paulo, onde a classe operária cresce 350% em 1907-2016.10], Vencendo as barreiras de lingua e cultura, criam ai um pólo de agitação social, sindicatos, jomais, ramificado por Santos, Sorocaba, Sto. André, Campinas, Jundiai, Ribei­ rão Preto, Franca. ■ 0 anarco-sindicalismo é a tendência mais forte, vinda da Itália, Espanha, Portugal. Combativo, radical, rejeita em nome da liberdade a centralização orgânica e a luta políti­ ca (‘Varrei a política de vossas associações de classe!"). Prega a greve geral revolucionária, o fim da propriedade privada e da opressão estatal-centralista. Outras alas (anarquista proudhoniana, bakuninista e stirneriana, socialista maraista e cristã) tém menos peso. Prevalece entre elas a cooperação e até certa confusão. ■ 0 sindicalismo amarelo (moderado, dientelista, atre­ lado) tem seu pólo na área estatal do Rio: marítimos, por­ tuários, ferroviários da Central, Uga-se a interesses político-eleitorais, elege o ten. Vinhaes constituinte de 1891 [6.1], faz greve em 1891 para depor Deodoro. É a base dos poucos deputados ligados à questão social (Maurício de Lacerda, Nicanor Nascimento). E também explode em barricadas (Revolta da Vacina [6.5]). ■ As greves por salário e pela jornada de 8 h vivem o 1' ascenso em 1903-1908 (greves gerais no Rio, 1903, e S. Paulo, 1907), reanimam-se em 1910-1911 e têm um auge em 1917-1919. São reprimidas com cargas de cavalaria, ti­ ros, fechamento de sindicatos e jomais, prisão e deportado de líderes para o exterior (se estrangeiros) ou a Amazônia. ■ 01« de Maio, frustrado pela polícia em 1893, S. Paulo, comemorado em recinto fechado nos anos seguintes, ganha as mas d. 1906. Alcança 50 mil participantes no Rio, 1919. Vira feriado oficial em 25. ■ A imprensa operária tem notável vigor. Entre 187527 surgem 343 jornais no país, 149 em SP, 95 no Rio: 60 são em italiano e outras línguas. Vários têm gráfica própria graças a coletas. Entre eles. o socialista Avanti! (Vicente Vacirca, 1900), os anarquistas La Balaglia (Oreste Risatori, 1901)ey4P/efce(EdgardLeuenroth, 1 9 1 7 ) , l/oz do Trabalhador {COB, 1908). Inflamados, muitos anticlericais e antialcoólicos, perseguidos, proibidos, sufocados por dívidas, em geral tèm vida curta: A Plebe é a exceção: dura até 35. ■ 0 1 ° Congresso Operário Brasileiro (15/4/1906,50 de­ legados), sob a ^ id e anarquista, debate se é lícito operário fazer política e sindicato ter funcionários remunerados. Cria a Confederação Operária Brasileira (COB). Em 7/11/12, o ten. Mário Hermes, filho do pres. Hermes da Fonseca, finan­ cia 0 4* Congresso Operáno Brasileiro (numeração contro­ versa), com 187 dele^dos, pró jornada de 8 horas, mas contra o socialismo e a ação direta, que funda a Confe­ deração Brasileira do Trabalho, ativa até 1914. Em revide à esquerda relança a COB, no 2®Congresso (117 delegados. 8/9/13). 0 Congresso Internacional da Paz (14/10/15) de­ nuncia as ‘quadrilhas de potentados" culpadas pela 1Guer­ ra. 0 3® e último Congresso da COB (135 delegados, 25/4/20) já vive a fase de refluxo. ■ A greve geral de S. Paulo começa (10/6/1917), espon­ tânea, no grande Cotonifício Crespi, Mooca, por aumento de 25%. 0 patrão, Rodolfo Crespi, ameaça fechar a fábri­ ca. A carestia de vida e certa pujança industrial devido ã guerra [6.10] estimulam o movimento (o salário real caiu 16,4% desde 1914). Uma passeata reprimida (15/6) leva às 1“ adesões: em 3/7 são 5 mil grevistas; a polícia es­ panca crianças e mulheres num ato público. Em 7-9/7 a

greve se alastra. 0 Comitê de Defesa Proletária (CDP) assume o comando. Seu secretário é Edgard Leuenroth [1881-681. de A Plebe. ■ Barricadas. A cavalaria mata o jovem operário Antonio I. Martinez (11/7). 0 imenso enterro, pontilhado de discur­ sos, inaugura a fase insurreicional da greve. Barricadas e tiroteios agitam os bairros operários (Mooca, Brás, Pari, Barra Funda, Lapa). Quase não há krumiros (fura-greves) e a adesão atinge 70 mil, virtualnwnte toda a classe ope­ rária de S. Paulo (na época com 500 mil hab.). Multidões saqueiam annazéns e o comércio cerra as portas, 0 go­ verno perde o controle da cidade apesar dos 10 mil ho­ mens da F o r^ Pública: o 2® Batalháo esboça um levante; 0 1® e 0 4- nâo inspiram confiança. Lorena e Rio enviam reforços: os grevistas escrevem: “Soldados! Nâo deveis persegui' os vossos imiãos de miséria!'. As autoridades temem adesões fora de S. Paulo. ■ A vitória. Um comitê de jornalistas de grandes jomais publica carta (14/7) oferecendo-se como mediador e no mesmo dia se reúne com o Ciesp 16.10]. Presentes Crespi, Matarazzo, Street e outros industriais: ausentes as firmas estrangeiras (Light, S. Paulo Railway). 0 CDP expõe as reivindicações: libertar os presos, direito de associação, nâo demitir os grevistas, fim do trabalho de menores de 14, do trabalho noturno de adolescentes e mulheres, aumento de 25%, jornada de 8 h, semana inglesa, medi­ das contra a carestia, a especulação, a adulteração de produtos. Govemo e patrões decidem ceder (aumento de 20%, libertação dos presos). Mais de 80 mil pessoas (Everardo Dias) aprovam o acordo (17/7) em comício (assembléia) e voltam ao trabalho. ■ A repressão vai à forra em set/1917; 20 deportações, prisão de Leuenroth por 6 meses, sindicatos perseguidos. 0 ascenso grevista perdura. Em São Paulo a greve geral de 2-10/5/19 atinge 50 mil. Estouram paredes em Salva­ dor, Porto Alegre. Recife, Curitiba. A greve da Cantareira (Rio-Niterói, 6-9/18) beira a insurreição. A direção anar­ quista planeja (jun/19) um levante geral a partir do Rio, frustrado por delação e precipitação. Em 1919, mais de 100 militantes são expulsos do país; em 21, nova lei enri­ jece a repressão. 0 movimento entra em descenso. 0 Partido Comunista do Brasil ■ A Revolução de Outubro (7/11/17) tem forte eco no Brasil em melo ao auge grevista no Brasil. Até os anar­ quistas defendem a 'epopéia heróica’ da URSS. 0 1® ensaio de Partido Comunista (21/6/19) é anarquista por origem, militância e linha. Após 20. o movimento se cinde. Parte, fiel á anarquia, ataca a “tirania bolchevista’ . Outros, pró-URSS, imputam ao anarquismo *20 anos de organiza­ ção, desorganização, reorganização e desmantelamento’ (Astrojildo Pereira). ■ Os grupos comunistas nascem 1® no RS, sob estí­ mulo argentino e uruguaio: Liga Comunista de Livramen­ to (1918): União Maximalista de P. Alegre (1919). Surgem depois 0 Clarté (Rio 20): Círculo de Estudos Marxistas (Recife, 20), Grupo Comunista Zumbi (Rio, 21); Gnjpo Comunista do RJ (21), quo edita a revista Movimertto

Comunista. ■ 0 congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB) reúne-se no Rio. depois Niterói, em 2527/3/22. Os 9 delegados representam 70 militantes do Rio, S. Pauk), Niterói, Cruzeiro, Recife, Porto Alegre, Santos e Juiz de Fora. São quase todos ex-anarquistas fascinados pelo exemplo soviético. Aprovam as 21 condições de in­ gresso na III Internacional e o estatuto. 0 partido nasce legal {Diário Oficial da União, 7/4/22), mas é proscrite pelo estado de sitio de 5ÍI [6.13] e, até 85, só conhece alguns meses de legalidade em 27 e 2 anos em 45-47. Em 27, conta 700 aderentes. 400 deles no Rio. Mas vence a dis­ puta com 0 anarquismo: em 29. há 60 mil filiados à Con­ federação Geral dos Trabalhadores (fundada pelos comu­ nistas em 1®/5); os sindicatos anarquistas tèm 2 mil, os amarelos, 20 mil.

1891 19/1: Levante nas fortalezas de Lages e Santa Cruz. RJ 21/1: Renúncia coletiva do ministério; o barão de Lucena organiza outro 22/1: futorre Benjamin Constant, artífice do 15/11; no RJ, aos 54 anos 24/2: Promulgada a Constituição 25/2: A Constituinte elege (por 129 votos a 97 para Prudente) Deodoro presidente, com os quartéis de prontidão 26/2: Instala-se o Supremo Tribunal Federal (STF), criado pela nova Constituição 9/4: Rodolfo Dantas funda no RJ o Jorr)al do Brasil 1/7: l\íorr8 o republicano revolucionário Silva Jardim, aos 31 anos, numa erupção do vulcão italiano Vesúvio 14/7:1* Constituição do RS, ditada por Júlio de Castilhos, presidente estadual 3/11: "Golpe do Lucena”: Deodoro, violando a Constituição, dissolve o Congresso 4/11: Campos Sales e Prudente de Ivlorals lançam manifesto contra o golpe 11/11: Lauro Múlier, presidente de SC 22/11; Greve na Estrada de Ferro Central do Brasil, em oposição a Deodoro 23/11: Começa a Revolta da Armada no RJ e nos estados do Sul 23/11: Deodoro da Fonseca renuncia; o vice, gen. Floriano Peixoto, assume a Presidência 5/12: O ex-imperador Pedro II morre no exilio em Paris, de pneumonia 13/12: Sublevação deodorista da guamlçáo do navio 1° de Março, no RJ • Pico da migração européia para o Brasil: 216 mil imigrantes em um ano • Dupla epidemia no RJ, de varíola e febre amarela; a mortalidade sobe a 52/1.000 • Júlio de Mesquita substitui Rangel Pestana na direção de O Estado de S. Paulo • Gonan Doyle publica /ts Aventuras de Sherioclt Holmes 1892 19/1: Levante pró-Deodoro de marinheiros presos na fortaleza de Sta. Cruz. RJ 22/1: O Congresso se declara em recesso e concede plenos poderes a Floriano 15/2: Começa a Revolução Federallsta. RS 31/3: Fundado em Bagé, RS, o Partido Federallsta Brasileiro, dos maragatos 6/4: Manifesto de 13 generais contestando o governo Floriano, que retruca com prisões 10/4: 72 h de estado de sítio no RJ 27/4: O STF nega habeas-corpus pedido por RuI Barbosa para 46 presos por homenagearem 0 agonizante Deodoro 13/5: Reunião de republicanos do RS em Caseros, Argentina, opta pela luta armada 8/6: Anistia aos punidos na crise de abril 25/6: 0 Museu Nacional Instala-se no ex-palácio imperial. Quinta da Boa Vista, RJ 8/7: O visc. de Pelotas assume o govemo do RS e transfere sua capital para Bagé 1/8: Militantes operários realizam no RJ o 1» Congresso Socialista Brasileiro 23/8: Morre Deodoro, aos 65 anos: o funeral é dos maiores que já se viu no RJ 1/10: O Jomal do 8ras//fechado por 1 ano 8/10: 1“ bonde elétrico no RJ; trafega pelo Flamengo com Floriano como passageiro e no lugar do cocheiro tem um motomeiro 2/11: Criado o Ministério da Indústria (sutxirdlnado ao da Agricultura em 1906) 6/11: S. Paulo abre o viaduto do Chá ou dos 3 Vinténs (a estrutura vem da Alemanha); o pedágio gera 4 anos de reclamações • Inaugurada no morro Caaguaçu a av. Paulista, moradia da nova elite de São Paulo

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Cronologia

6.12 CULTURA/SEMANA DE ARTE MODERNA ■ A literatura brasileira do início do século tem a expressão maior de sua maturidade na obra de Macha­ do de Assis [5.9]. Mas o formalismo conservador das artes cultas contrasta com a verve da nascente cultura popular urbana: afirmação do choro,com Pixinguinha (Aliredo Viana Filho, [1898-73]); vitórias do samba e do carnaval de rua carioca sobre a policia; difusão do frevo (de ferver) e dos forrós (de forrobodó, ou do inglês for all) no Nordeste; popularização do antes aris­ tocrático futebol. 0 formalisrrio tem sua expressão maior no parnasiano Olavo Bilac [5.9]; desdobra-se num nacionalismo ufanista (Afonso Celso) ou num as­ sumido racismo (Oliveira Viana). À margem, surgem os 1“ modernos. Euclides da Cunha, consagra-se em em Os Sertões [6.3], um marco literário, pelo pioneirismo na investigação da sociedade brasileira, o vigor do es­ tilo e da denúncia. Lima Barreto [1681-22] denuncia a República oligárquica em romances tipicamente urba­ nos de um estilo rebelde (Triste tim úe Policarpo Qua­ resma, 1915). Monteiro Lobato [1882-48] busca os ma­ les do país no Jeca Tatu, e em Reinações de Narizinho (21) inicia a série clássica de nossa literatura infantil. Mas 0 modernismo, no sentido estrito, traz de fora suas matrizes. ■ 0 mundo vive uma revolução cultural nas 1* dé­ cadas do século, sob o impacto da urbanização, da industrialização, da Grande Guerra e da Revolução de 1917. Velhos cânones tombam, nascem novas escolas: impressionismo, primitivismo (estas de fins do s. 19), fu­ turismo, cubismo, expressionismo, surrealismo, dadaísmo. Afirma-se a arte moderna, tendo por denominador comum a ruptura com a academia, a liberdade e ousadia formais. Da literatura às artes plásticas, a música e a ar­ quitetura, todas as musas se agitam. ■ S. Paulo é a porta de entrada desta Influência re­ novadora no Brasil. Sua elite, em boa parte com frescas raízes rurais, ou estrangeiras, busca uma expressão cul­ tural própria. Se a intelectualidade é mais reduzida, nào tem a “estupidez letrada de semicolônia", típica do Rio segundo Oswald de Andrade, para quem o modernismo é ‘0 conúbio de uma alta burguesia paulistana com uma inteligência viajeira, curiosa e critica'. ■ 0 grupo modernista une artistas e intelectuais de diversas origens e projetos, fascinados pelas novidades européias e perplexos com as mudanças em curso. Entre eles, os escritores: Graça Aranha [1868-31], fun­ dador da Academia, autor de Canaã (1902), único artista consagrado a avalizar o movimento. Oswald de Andrade [1890-54], introdutor do futurismo e do cu­ bismo em S. Paulo (1912), autor de Memórias Sen­ timentais de João Mrámar (poesia, 23) e 0 Rei da Vela (teatro, 37). Mário de Andrade, autor do pioneiro Paulicáia Desvairada (22) e do clássico Macunaima (28). 0 jornalista e poeta Menotti dei Picchia [1892-88], de Juca Mulato (17). Plínio Salgado [1895-75], do ro­ mance 0 Estrangeiro (26), mais tarde chefe do integralismo [7.7]. E Manuel Bandeira |l886-68), cujo poema 0 Sapo (22) vira uma espécie de hino mo­ dernista. Artistas plásticos: Di Cavalcanti (Emiliano Augusto Cavalcanti, [1897-76]), das telas exuberantes e mulatas sensuais. Anita Malfatti [1896-64]. cuja po­ lêmica exposição (1917) é atacada por Lobato no arti­ go Paranóia ou mistiíicação?. Tarsila do Amaral [188673], autora das telas-simbolo modernistas (,4 Negra. 23, Abaporu, 28). E Vítor Brecheret [1894-55], escultor do Monumento às Bandeiras (36-53). 0 compositor Heitor Vilia-Lobos [1887-56], que toca com chorões aos 14 anos (versão contestada), nacionalista, autor dos Choros (20-28) e das Bachianas Brasileiras (30-45). E mecenas: em especial Paulo da Silva Prado, de rica família cafeicultora, autor de Retrato do Brasil (28). ■ 0 perfil do modernismo brasileiro amadurece na produção e no debate do grupo. Eclético, mutante, tem

3 referenciais: a rejeição dos códigos artísticos da Academia; e o esforço de peneirar a fundo a realidade

brasileira.

■ A Semana de Arte Moderna é proposta de Di Ca­ valcanti. Pretende ‘ assustar essa burguesia que cochila na glória de seus lucros’ , mas tem apoio do escol finan­ ceiro e mundano da cidade. 0 Correio Paulistano, do PRP [6.8] divulga-a com autorização de Washington Luís. Ocone no teatro (Municipal, em 13-15-17/2/22 e cobra caro os ingressos. Graça Aranha abre o programa: ‘ Estas pinturas extravagantes, estas esculturas absurdas, esta música alucinada, esta poesia aérea e desarticulada' são “os primeiros anúncios' da ‘ libertação do nosso espirito'. Vilia-Lobos rege, de casaca e chinelo (lem um pé doente), usando uma folha de zinco como instrumento. Há textos de Mário de Andrade. Plínio Salgado, quadros de Anita Malfatti, Di Cavalcanti, estátuas de Brecheret. Na 2* e de­ cisiva noite, dei Picchia provoca: 'A nossa estética é guer­ reira. Ao nosso individualismo estético, repugna a jaula de uma escola. Queremos luz, ar. ventiladores, aeroplanos, rehrindicações obreiras, idealismos. motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa Arte'; e "uma arie genuinamente brasileira, filha do céu e da ter­ ra, do Homem e do mistério’ . ■ 0 público, após 0 reverente silêncio inicial, explode em vaias, assovios e caçoadas. Na imprensa, propõese cadeia para esses ‘ doidos varridos'. Os modernistas tudo aturam com estóico bom humor. Sua estética de fato sacode a pasmaceira acadêmica. ‘ Em toda parte, com uma alegria iconoclasta e juvenil se quebram os velhos moldes' (Paulo Prado). Na história da arte brasileira não há evento que crie um marco divisório tão cortante. ■ As revistas de cultura mantêm aceso o debate e espalham a influência do grupo. A 1* delas é Klaxon (do nome da buzina externa dos carros, ruidoso símbolo de dinamismo e progresso). Feita e financiada por Má­ rio, Oswald, Sérgio Miliet, Guilherme de Almeida, sai em 15/5/22 e dura 9 anos. Mas aí o modernismo já tem adeptos pelo Brasil. Em Belo Horizonte, Carios Drummond de Andrade [1902-87] dirige os 3 anos de A Revista. Do RS (Dionéiio Machado) a PE (Gilberto Freyre [7.12]) e PA (Grupo Flaminiaçu) o movimento faz escola. ■ As divisões do grupo da Semana de Arte Moderna ao longo dos anos 20 tèm referenciais estéticos e tam­ bém políticos, num país que se radicaliza [6.11-13-14151 Em março de 24. surge o Manifesto da Poesia PauBrasil, de Oswald. Tarsila. Paulo Prado. Alcântara Ma­ chado, Raul Bopp e Mário (que depois segue um njmo à parte): prega a 'simplicidade alcançada', ataca o ‘ nacionalismo postiço', posiciona-se à esquerda. Nasce dele 0 Movimento Antropofágico (mai/28). idéia de Oswald, inspirada no Abapomde Tarsila. Seu manifesto propõe 0 célebre dilema "Tupi or not tupi. that is the question" (paráfrase do ser ou não ser. eis a questão, de Ham/eÒ. Advoga a ‘ devoraçào cultural das técnicas importadas para reelaborá-las com autonomia’ . Ousa­ do. propõe uma nova relação estética entre nacional e universal. Lança a Revista de Arttropotagia (28-29) e faz a crítica do próprio modernismo; "Pensamento novo não criamos. Continuou o pensamento velho de impor­ tação'. Outra vertente modernisla, de Plínio Salgado, dei Picchia. Cândido Mota Filho. Cassiano Ricardo, transita para um nacionalismo consen/ador. acusando os antropófagos de infemacionalismo. Cria o Movimen­ to Verdamarelo (26), o Grupo Anta e a estética do futuro iniegralismo [7.71 ■ Mesmo após a diáspora, a influência modernista é notável A arquitetura integra estrutura e ornamento, redescobre o barroco mineiro e o Aleijadinho (2.121 A 1* casa modernista (S. Paulo. 27), projeto do russo Warchavchik [1896-72], busca a racionalidade de uma “máquina de morar' (conceito de Le Corbusier). 0 teatro, ausente da Semana de Arte Moderna, se atrasa. Já o ci­ nema afirma uma linguagem brasileira; o roteirista e dire­ tor Humberto Mauro [1897-83! inicia com Valadião, o Cratera (25), o Ciclo de Cataguazes, que influenciará o Cinema Novo [S .iei

• o prefeito Barata Ribeiro derruba o cortiço Cabeça de Porco, o maior do RJ • Superprodução derruba o preço do café • Guineas Borba, de Machado de Assis 1893 17/1; Instala-se no RJ o Tribunal de Contas (da União) 2/2: Federalistas de Gumercindo Saraiva invadem 0 RS vindos do Uruguai 11/2: 1° combate da Revolução Federalista. em Salsinho, RS 15/3: Manifesto rebelde de Joca Tavares e 46 líderes federalistas 28/4: O alm. Custódio de Melo demite-se do Ministério da Marinha, em protesto 31/5: Surge a Associação Cristã de Moços 17/7: O gen. Salgado passa do Uruguai ao RS com 180 homens, une-se a G. Saraiva: 2° campanha da Revolução Federalista 14/8: 1® decreto de Floriano expulsando estrangeiros; em 15 meses serão 76 expulsos, 36 por crime político 5/9: O couraçado Aquidabã Inicia no RJ a Revolta da Armada, de índole monarquista 25/10: Francisco Glicério funda o efêmero Partido Republicano Federal (até 1898) 19/12: C. Barata Ribeiro, destruidor de cortiços, toma posse como prefeito do RJ • Antonio Conselheiro manda queimar editais do fisco em Bom Conselho, BA • Cruz e Souza publica Broquéis • Crise nos EUA derruba o preço do café e o Brasil, que colhe 58% da safra mundial • A Nova Zelândia é o 1" pais a aprovar o voto feminino • C, Benz (Alemanha) e H. Ford (EUA) constroem os 1“ automóveis eficazes 1894 9/2: Os revoltosos da Armada tentam tomar Niterói, no Combate da Armação 11/2: Derrota dos revoltosos da Armada na Capitulação da Lapa. PR 1/3: Prudente de Morais, com 276 mil votos (84,3% do total), vence Quintino Bocaiúva (250 mil votos) na 1“ eleição direta para presidente da República 1/3: Inicio das obras de Cidade de Minas (h. Belo Horizonte), projeto de /Varão Reis 13/3: Os revoltosos da Armada, vencidos no RJ. se asilam em fragatas portuguesas; Floriano rompe relações com Portugal 15/4: A polícia de SP prende por 8 meses 9 trabalhadores que preparam o 1“ de Maio 10/8: O general-guerrilheiro federalista Gumercindo Saraiva morre emboscado em Camacuà. RS 17/9: Abena no RJ a Confeitaria Colombo, ponto de encontro de intelectuais 15/11: Posse de Prudente de Morais, sem a presença de seu antecessor Floriano, inicia 12 anos de presidentes do PRP • Fundada a Escola Politécnica de SP • Charles Miller, filho de ingleses. Introduz o football em SP 1895 5/2: Arbitragem dos EUA favorece o Brasil na disputa com a Argentina pelo território de Palmas (ou das Missões) 13/3: Revolta na Escola Militar do RJ 16/3: Reatadas as relações com Portugal 14/4: Charles Miller promove em SP o 1®jogo de futebol no pais 1* de Maio: É com em orado pela 1* vez no Brasil, por iniciativa do Centro Socialista, em Santos, SP 15/5: Tentativa de ocupação francesa do Amapá, rechaçada pelo população local

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Cronologia

6.13 TENENTISMO I: OS 5 DE JULHO DE 22 E 24

19/5: O poeta e patriota José Marti morre em combate pela independência de Cuba 24/6: Último combate da Revolução Federalista. em Campo Osório, RS

■ As origens do movimento tenentista vèm da do fbrianismo jacobino [6.1J Setores médios, em especial mi­ litares. alijados do poder em 1894. se chocam com o domínio oligárquico. Tentam o golpe em 1905 |6.5| Com Hermes da Fonseca [6.5-8] retomam posições, mas são de novo alijados. Formam seu ideário a partir dos jovens turcos, oficiais treinados na Alemanha (1906-1910); com­ bate à oligarquia corrupta e seu sistema político, patrio­ tismo. espírito corporativo, apologia do soldado-cidadão, politicamente ativo. Julgam o povo ignorante, amorfo, incapaz de vencer a oligarquia, tarefa que cabe ao Exército, “síntese desse mesmo povo” São na maioria te­ nentes e capitães.

29/6: Morre Floriano Peixoto, aos 56 anos 23/8: Acordo entre republicanos e lederalistas

pacifica o RS 9/9: Inaugurado o Museu Paulista, no Parque do Ipiranga, SP 1*/10: Começa a circular em Porto Alegre o jomal

Correio do Povo 21/10: Anistia aos federalistas de 1893 17/11: Fundado no Rio de Janeiro o C. R. Ramengo 2S/12: O jornalista, escritor e abolicionista Raul Pompéia suicida-se aos 32 anos

■ Na eleição presidencial de 1/3/22, Nilo Peçanha, da Reação Republicana, atrai simpatia nos quartéis. 0 Correio da Manhã publica (9-12/10/21) cartas forjadas, atribuídas ao candidato da situação, /\rtur Bemardes. 0 Clube Militar, presidido pelo mal. Hermes, por 439 votos a 112 declara os textos autênticos e ofensivos ao Exército (29/12). Eleito Bemardes, com as fraudes de praxe (6.8) os tenentes se opõem à posse (marcada para 15/11).

28/12: Os irmãos Lumière realizam a 1’ exibição pública do cinema, na França • 0 médico Silvério Fontes, marxista, funda Centro Socialista de Santos, SP 1896 21/3: Reunião no Clube Militar conspira contra Prudente

Rio: 0 5 de Julho de 22

18/4: A União compra, por 3 mil contos, o Palácio de Nova Friburgo (h. Catete), RJ

■ 0 estopim do levante é a prisão do maL Hermes ea suspensão do Clube Militar (2/7/22) com base na lei de repressão ao anarquismo [6.11J Fala-se nos quartéis que “a procissão (a tropa) vai sair". 0 cap. Euclides (filho do mal. Hemies da Fonseca), os tens.Eduardo Gomes [189681), Siqueira Campos [1898-30, 6.14 é Celso Mendes marcam a revolta para 5/7/22. Mas ninguém adere ao si­ nal do forte de Copacabana, comandado por Euclides; 10 mil legalistas sufocam em breve luta os levantes na Vila Militar (1® RI) e Escola do Realengo. “Covardes, cadê vocês? Mas nós já começamos e vamos até o fim!", excla­ ma Siqueira.

21/8: 30 atletas concorrem à 1* prova de ciclismo do Velódromo Paulistano 8 /7: 1* sessão do om niógrafo (cinema)

24/10: Criado o Estado-Maior do Exército 4/11: 1* expedição militar contra Canudos 10/11-4/3/1897: 0 presidente adoece; assume o vice Manuel Vitorino, florianista 25/11: 2* expedição militar contra Canudos 15/12: Fundação da Academia Brasileira de Letras, RJ; Machado de Assis, presidente 31/12: Manaus inaugura o teatro Amazonas, símbolo do boom da borracha

■ 0 forte de Copacabana Instala minas, cava trincheiras, bombardeia o palácio do Catete (sede do govemo), navios e posições legalistas, e é bombardeado, inclusive por um hidroavião naval. Na madnjgada de 6/7, frustrada toda esperança. Euclides permite que saiam 272 oficiais e praças que nâo querem combater (apenas 29 ficam). Ele próprio deixa o forte pata tentar negociar, mas é lo­ calizado, preso e, por telefone, inlorma os camaradas da intransigência do govemo; 3 mil soldados legalistas ocu­ pam 0 bairro.

• A Inglaterra reconhece a soberania do Brasil sobre a Ilha de Trindade, ES • 8 mil poloneses e ucranianos formam a colônia de Prudentópolis, no alto Ivaí, PR • O colégio Mackenzie. SP. introduz o basquete no Brasil

• 1° jardim de infância de SP. anexo ao colégio Caetano de Campos • T. HerzI publica O Estado Judeu

■ Os rebeldes decidem morrer lutando. Siqueira corta uma bandeira do Brasil em 29 pedaços, um para cada insuníto (inclusive o cap. Euclides). 0 grupo deixa o forte, armado de luzís e revólveres. Marcha pela av. Atlântica, ainda em obras, entre vivas ao Exército e ao mal. Hermes, seguido pelo povo que agita lenços e chora. Alguns rebel­ des desistem; o eng. dvil Otávio Correia adere. Foto publi­ cada em 0 Malho (que nâo mostra Siqueira) (ixa a versão dos 18 do Forte; consagrada pelo uso. mas apenas 10 en­ frentam a tropa legalista, na altura da r. Barroso (h. Si­ queira Campos).

1897 16/1: Criada no RJ a Sociedade Nacional de Agricultura 2/3: A expedição Moreira César (1.200 homens) inicia o 3° ataque a Canudos

Março: Olavo Bilac substitui Machado de Assis nas crônicas da Gazeta de Noticias 1/5: Fundado o Partido Socialista do RS 26/5: Levante, florianista. dos alunos da Escola Militar do RJ; 165 alunos expulsos 17/6: A República m obiliza a m aior parte do seu

■ 0 combate dura 1 hora. Varridos pela metralha, os rebeldes lutam até o fim. A carga das baionetas legalistas já não acha um em condições de combate: só Siqueira e Eduardo Gomes sobrevivem aos ferimentos. Impõe-se o estado de sítio, por 4 anos. A imprensa, sob censura, abafa o episódio. São presos o mal. Hermes e vários tenentes. 0 levante da guarnição de Campo Grande, MT (5/7) rende-se após 7 dias. Mas a revolta prossegue.

Exército na 4* e última campanha contra os sertanejos de Canudos. BA 20/7: Instala-se, no ed. Pedagoglum. RJ, a Academ ia Brasileira de Letras, presidida por Machado de Assis

22/9: Antônio Conselheiro morre, após longo jejum, em Canudos. BA 5/10: Morrem os últinnos defensores de Canudos, 1 velho. 2 homens e 1 criança 5/11: Marcélino Bispo de Carvalho, ex-combatente de Canudos, mata o min. da Guerra em atentado contra o presidente, no RJ 12/12: A capital de MG transfere-se de Ouro Preto para Belo Horizonte, cidade planejada. quadriculada, com o Washington 21/12: Reorganizado o PRM (P. Republicano Mineiro) • José do Patrocínio e Olavo Bilac inauguram carro a vapor, no RJ

• Sâo Paulo ultrapassa Salvador como 2" maior cidado (210 mil habs.)

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S. Paulo: 5 de Julho de 24

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■ Rebeldes de 22 (os irmãos Joaquim e Juarez Távora, Otávio Muniz, Eduardo Gomes, Henrique Hall) se lixam em S. Paulo e planejam clandestina e minuciosamente novo levante no aniversário dos 18 do Forte. Buscando um chefe de patente e prestígio elevados, escolhem pelo Almanaque do Exército o gen. da reserva Isidoro Dias Lopes [1865-49]. Contam com o c ^ . Miguel Costa [187459. 6.l4]e um nijcleo na Força Pública de SP [6.8] ■ 0 objetivo, desta vez mais claro, embora superficial, é “republicanizar a República", retoinando os Ideais de

1889: Constituinte, lederalismo sem excessos, separação Igreja-Estado, voto secreto, proibição de reeleições, fim da corrupção eleitoral e dos impostos interestaduais, liber­ dade de ensino, refomias tributária e aduaneira. Uma ala esquerda (Joaquim Távora, socialista) convive com outra nraderada (Isidoro). 0 plano é um assalto fulminante a quartéis, secretarias, palácio do govemo de SP, seguido de rápida ofensiva sobre o Rio. ■ 0 levante começa na madrugada de 5/7/24, no 4“ Batalhão de Caçadores, Santana. Estende-se aos quar­ téis da Força Pública na Luz, à artilharia de Quitaúna, Osasco; toma as estações de trem. Ás 6 h Isidoro instala seu QG no 1® Batalhão da Força Pública. Uma série de imprevistos atrasa a ofensiva. Os legalistas resistem no palácio dos Campos Elíseos e outros pontos da cidade. Bemardes envia a Santos o couraçado Minas Gerais, os destróieres Bahia e Alagoas, 4 aviões, 2 mil fuzileiros e, por trem, tropas do Exército do DF, RS, MF, PR, MT; no total. 15 mil homens. Os rebeldes cercam os bolsões legalistas na cidade, mas estão por sua vez cercados. ■ A tomada de S. Paulo, concluída em 8/7, dura 15 dias. 0 pres. estadual Carios Campos foge para o QG legalista em Guaiaúna, Penha. Isidoro atende ao hábil pres. da Associação Comercial, Macedo Soares, e nâo forma um governo rebelde; mantém o prefeito Firmiano Pinto, cuja 1’ medida é formar uma Guarda Municipal para impedir ‘ atentados à ordem*. Rejeita ajuda do líder anarquista João da Costa Pimenta e não recebe outros sindicalistas que (com apoio de Joaquim Távora e Miguel Costa) que­ rem criar batalhões “verdadeiramente populares”. Invo­ cando a França de 1789 e a Rússia de 1917, Juarez re­ pele “a subversão popular criada pelo predomínio incontrolável do populacho'. Este apenas assiste. ■ Os saques, porém, são Inevitáveis face à escassez e ã carestia. 0 povo invade moinhos, armazéns, depósi­ tos, lojas, e leva o que pode em sacos, carroças, car­ rinhos de mão, caminhões. Os tenentes tentam a repressão, depois fecham os olhos; o ten. João Cabanas Chega a arrombar o Mercado Municipal para que todos se sin/am. ■ 0 bombardeio legalista, com canhões de montanha, de campanha e obuses, inicia no Brás-BelenzinhoMooca e vai de 11 a 27/7. Os legalistas só julgam pos­ sível vencer arrasando boa parte da cidade. D. Duarte, arcebispo de SP, e Macedo Soares pedem a Bernardes que cesse a destruição; Fimiiano Pinto chega a ir ao Rio; em vão. 0 bombardeio “brutal, intenso, mortífero para a população civil, mas inócuo para as tropas revo­ lucionárias" (Juarez), deixa 503 mortos, 4.864 feridos e afugenta a maior parte da população (só de trem, 212 mil pessoas). ■ A ofensiva legalista avança em pinça, do sul (San­ tos) e leste (E. F. Central). Em duros embates toma a Li­ berdade (15/7), as estações do Brás e Norte (24/7). Em­ prega 18 mil soldados, carros de assalto, aviões, farta munição. Os rebeldes, 2 mil no 5/7, chegam a 7 mil com as adesões do Interior (Jundial. Rio Claro, Itu) e alistando imigrantes veteranos da I Guerra. Joaquim Távora, ferido em combate, morre a 19/7. Tardiamente, os rebeldes criam pequenas unidades para levar a luta ao Interior; uma delas é a celebre Coluna da Morte de João Cabanas. ■ Os tenentes usam aviões, civis, em vôos de reco­ nhecimento (d. 13/7). Quando a derrota sa aproxima, en­ viam 0 ten. Eduardo Gomes e o piloto alemão C. Herdier, num avião com 50 mil panfletos para serem jogados sobre 0 Rio e 3 k de dinamite destinado ao palácio do Catete; o avião tem uma pane e não chega ao Rio. ■ 0 abandono da cidade se impõe. Isidoro propõe (26/7) a rendição em troca da anistia dos rebeldes de 2224; 0 governo exige rendição incondicional. Com ajuda de fen-oviários; 3.500 homens so retiram (27/7, às 22 h), dis­ postos a seguirem lutando [6.14J Os legalistas só se dão conta na manhã seguinte. As prisões somam 10 mil, de Jú­ lio de Mesquita, diretor de 0 Estado de S. Paulo, a anar­ quistas e comunistas.


A vanço rebelde (5-8/7) ^ A rtilharia r e b e l d e ^ “ Artilharia legalista 7 «: Joaquim Távora ferido de T io r t e '^ B om bardeio legalista (11-27^7) / • Avanço legalista (11-27/7) < r R etirada rebelde (27/7) <)r S aques *

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UUHH. hAbU 7

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6.14 TENENTISMOII: A COLUNA PRESTES

Cronologia 1898 1/3: Campos Sales, candidato único, elege-se presidente com 420 mil votos 15/6: Campos Sales, antes de empossado, contrai em Londres o 1® Funding Loan (renegociação da d(vlda externa) 4/7: Santos Dumont voa em Paris no balão Brasil, 6 m de diâmetro e 32,8 kg no total 15/11: Posse de Campos Sales 10/12: Derrotada na guerra, a Espanha cede aos EUA: Porto Rico, as Filipinas e, de fato. Cuba • J'acuse (Eu acuso); E. Zofa ataca a discriminação no Caso Dreyfus, França • Ano de seca no Nordeste • 0 Vaticano condena os milagres do pe. Cícero de Juazeiro • Vital Brasil anuncia soro contra veneno de cobra •Afonso Segreto faz a 1“ filmagem de uma cena brasileira, a baía da Guanabara • IVIarie e Pierre Curie descobrem o radium 1899 9/1 : O recém-fundado Centro Socialista lança f^anifesto aos Operários e Operárias 14/7: Brasileiros proclamam a República do Acre, terrilório pertencente à Bolívia 14/8: Tropas das grandes potências esmagam a Revolução dos Boxers na China 7/9: Delmiro Gouveia inaugura em Recife, PE, o mercado do Derby, com 3.812 m' 11/10: Início da Guerra dos Boêres na África do Sul 5/12: Rio Branco defende em Berna, Suíça, o direito do Brasil ao Amapá • Vital Brasil assume o recém-criado Instituto Soroterápico (h. Bufantâ) • 0 conselheiro Antonio Prado assume a Prefeitura de São Paulo • Osvaldo Cruz, à frente do recém-criado Instituto Pasteur, combate a pesto bubônica em Sanlos,SP • ô Abre Alas, 1• música de carnaval de autor conhecido (Chiquinha Gonzaga) • Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco, sobre a trajetória de seu pai • S. Freud publica A Interpretação dos Sonhos 1900 2/1 : Incêndio (possivelmente criminoso) do mercado-modelo do Dertjy, Recife, PE Janeiro: 3 dias de greve dos cocheiros do RJ e violentos choques com a polícia 10-15/3: Os Murtinhos tomam Cuiabá dos Ponces, após 5 dias de combate 15/3: Francisco Matarazzo Inaugura seu grande moinho, no Brás, SP fMarço: Plano golpista (ten. Vinhaes) apoiado em onda de greves: delatado, aborta 4/4: Lutas entre coronéis dernjbam o presidente do MT, A. P. Alves de Barros 14/4: Rodrigues Alves, presidente de SP, reúne a bancada federal paulista em apoio à política dos governadores de Campos Sales 7/5: 1* linha de bondes elétricos de SP (da Light) une 0 Centro à Barra Funda 20/5: Surge a Revista da Semana, RJ, 1* a publicar fotos e clichés em tricromia 6/6; A Light dá início à usina elétrica de Santana do Pamaíba; potência: 2 mil KW 19/7: 1" clube dedicado só ao futebol, o Sport Club Rio Grande, RS; Dia Nacional do Futebol

■ Os tenentes de 24 continuam a luta após deixarem 8. Paulo (6.13); seu piano inicial fracassou, mas recuam em boa ordem, com 3.500 homens em anuas, víveres, munição, montarias e muito prestígio. Esperam adesões, como os levantes tenentistas em Aracaju, SE (13/7-2/8) e Manaus, Al\í (23/7-28/8). Este, com fotte sentido social, derruba a oligarquia dos Rego Monteiro, impõe o pesado Tributo de Redenção sobre os ricos, prende especu­ ladores, confisca capitais ingleses. ■ 0 novo plano é criar um Estado livre revolucionárío, a República de Brasilándia, no oeste de SP e sul de MT, com sede em Porto Pres. Epitácio, rebatizada Porto Joaquim Távora. 0 fracasso do ataque a Três Lagoas (18/8), com pesadas baixas, obriga o deslocamento para o sul, até o PR; ali sofrem nova derrota de vulto em Catanduvas (2730/3Í25), antes de se unirem com os rebeldes do RS. ■ A repressão bernardista (do pres. Artur Bemardes) se acirra. Os presos políticos sobem a 10 mil, de tenentes a anarquistas, comunistas, suspeitos, simpatizantes. As ilhas de Trindade, Fernando de f^ronha e Grande viram presí­ dios. Os prisioneiros de Catanduvas, sindicalistas e outros (no total, 900) são deportados para a Colônia Clevelándia, no Oíapoque (h. AP), onde a mortalidade, chega a 43%. ■ 0 levante no RS é obra do ten. Siqueira Campos [6.13], um dos 18 do Forte, exilado na Argentina: do cap. de engenharia Luís Carios Prestes [1898-90,7,1-6,8-1-2], removido para Sto, Ângelo por denunciar desvios de ver­ bas: do ten. Joáo Alberto Lins de Barros [1899-55,7.1-2]. Rebela unidades de Sto. Ângelo (24/10/24), S. Borja e Uruguaiana (29/7), no total 1.500 homens, com 800 ar­ mas, Atrai a adesão de caudilhos (Horácio Lemes, o Leão de Caverá). em especial maragatos da Serra egressos da guerra civil gaúcha de 23. Os rebeldes se concentram em Uruguaiana e a seguir S. Luís Gonzaga. Acossados por 14 mil legalistas, rompem o cerco (27/12) sob a chefia de Prestes. Entram pelas matas cerradas do Uruguai e Iguaçu, sempre combatendo, emboscando ou driblando o inimigo, até se unirem à coluna de SP. ■ A reunião de Foz do Iguaçu entre os rebetóes de SP-RS (12/4/25) confronta 2 propostas, Isidoro, chefe nominal do tnovimento até o fim, quer cessar a luta armada; vinga porém a Idéia de Prestes e Miguel Costa: formar uma coluna móvel. *A guerra no Brasil, qualquer que seja o terreno, é a guerra de movimento. Para nós. revolucionários, o movimento é a vitória" (Prestes). Decide-se que Isidoro se exilará em Paso de k>s Libres. Argentina. Nasce a Coluna Prestes-Miguel Costa, ou com mais freqüência Coluna Prestes, reduzkla por baixas e deserções a 800 homens de SP e 700 do RS. ■ A estratégia político-mllitar é prolongar no tempo e estender no espa^ a luta desigual, à espera de novos le­ vantes nos quartéis. Pouco numerosa, mal armada, a colu­ na tira 0 máximo proveito da mobilidade; evita um combate decisivo (que Miguel Costa chega a propor); e tem éxito, atribuído ao talento militar de Prestes em manobras como o laço húngaro", na divisa BA-MG. A Coluna Invicta é citada pelo Pentágono como um dos feitos mais expressivos da história contemporânea da guerra de guerrilha. No Rio, ela conta com um semanário clandestino, o 5 de Julho, e um porta-voz oficioso, o dep. federal Batista Luzardo. Mas os novos levantes tardam, em parte devido a certa abastança que precede a crise econômica de 29 [7.3]. E perdura a relutância tenentista em mobilizar o ‘populacho’ , para não falar em armá-k>. As adesões à Coluna são raras e limitadas (250 no IkW, 160 no PI); sua tendência geral é definhar.

imigração

■ 0 itinerário principia com uma rápida incursão de 120 km por território paraguaio (27-30/4/25); entra pelo sertão do Cemro-Oeste, Nordeste, chega ao norte de MG e a seguir retoma; percorre 15 estados (atuais) antes de se internar na Bolívia. Miguel Costa estima o percurso em 25,5 mü km; Prestes fala em 36 mil; com mais rigor, Moreira Uma contabiliza 24.948 km no livro A Coluna

20/10: Começa a circular em SP o lornal socialista AvantU, em itaiiano

■ Os rebeldes evitam o litoral e os grandes centros; a

A gosto: 2“ clube de futebol, a Associação Atlética Ponte Preta, Campinas, SP 7/10-8/11: 0 presidente Campos Sales visita a Argentina 15/10: Decreto federal suprime subvenções à

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Prestes (Vi).

mator cidade atacada é Teresina, PI. Por onde passam, queimam livros de impostos e destróem instrumentos de tortura da polícia (troncos, gargalheiras, correntes |2,4]), Moreira Lima. o Bacharel Feroz, ouve as queixas de cam­ poneses sobre questões de terras, estuda os processos e põe-lhes fogo. ■ As potreadas, pequenas unidades de 5-15 combaten­ tes. Fustigam e desorientam o inimigo; ao mesmo tempo, ■requisitam’ o gado e os cavalos necessários à Coluna (“requisições' que pesam fortemente contra os rebeldes, e não só na opinião dos latifundiários). Percorrem às vezes mais de mil km. ■ A perseguição legalista atravessa os governos Bernardes e Washington Luís; engaja o grosso do Exército (gens. Cândido Rondon, Guilherme Mariante), as Forças Públicas estaduais e batalhões irregulares de jagunços armados por coronéis. 0 govemo se acautela ao usar o Exército, temendo o contágio tenentista. “Dir-se-ia que (nossos adversários) adivinham sempre onde não esta­ mos e para ali marcham’ (Isidoro). Já os batalhões patrióticos de jagunços não dão trégua à Coluna, desde seu início no PR. Vários coronéis se engajam no com­ bate: Floro Bartolomeu, pe. Cícero [6.7]; os mais tenazes sâo os da BA: Franklin Albuquerque (Remanso, 400 ho­ mens), Abílio Volney (Barreiras, 400 homens) e sobretudo Horácio de Matos (Lavras Diamantinas [6.7]). Investido da patente de cel. do Exército, Horácio levanta em amias e comanda 613 jagunços-garimpeiros quando a Coluna invade seu domínio (5/7/26). 0 Batalhão Patriótico das Lavras Diamantinas, armado, municiado e aprovisionado pek) Ministério do Exército, afeito à guerra sertaneja e implacável, acossa os rebeldes na BA, GO, MT, entra na Bolívia no seu encalço e só retorna ao ser detido por mi­ litares bolivianos. ■ A marcha de Siqueira Campos é uma epopéia dentro da epopéia. Ao desvanecer-se o sonho das adesões, o comando da Coluna envia Djalma Dutra e Moreira Lima à Argentina, para consultar Isidoro sobre a conveniência de encerrar a longa marcha (25/10/26). Siqueira Campos, com 80 cavalarianos, dá cobertura aos emissários, mas se perde do grosso da tropa. Atacado por jagunços, cobre em 150 dias 9 mil km de MT, GO e MG (onde toma Paracatu), sempre lutando. Só se refugia no Paraguai, com 65 cama­ radas, em 24/3/27. ■ Pouco antes a Coluna se interna na Bolívia (4/2/27). Seu inventário final apura 90 fuzis Mauser, 4 metralhado­ ras pesadas. 2 fuzis-metralhadoras, entregues às autori­ dades do país. Prestes se fixa em La Guaíba., ■ A legenda da Coluna continua após seu fim. No sertão diz-se que a princesa Isabel a acompanha, que vadeia rios sem se molhar, seus soldados tém o corpo fechado e seu chefe é adivinho. As camadas médias urtianas sâo quem mais admiram o feito máximo dos tenentes. Prestes, alcu­ nhado Cavaleiro da Esperança por Siqueira Campos, ganha status de herói. ■ 0 tenentlsmo reflui após a Coluna, mas dá um Im­ pulso decisivo para desagregar a República Velha. Em SP, surge o PD (Partido Democrático, 24/2/26), dissidên­ cia do PRP que entra em contato com os tenentes. Em 29-30. a explosiva combinação de depressão econômica com sucessão presidencial cria as condições para dermbaro regime [6.15, 7.1). ■ Fora dos quartéis, os tenentes se diferenciam. Pres­ tes, procurado na Bolívia (dez/27) por Astrojildo Pereira [6.11]. começa a 1er Mani; 7 anos depois [1/8/34] entra no PCB. Siqueira Campos, sempre ativo, visita o Brasil sob nome falso, ajuda a preparar a Revolução de 30 [7.1], tenta atrair Prestes; mon-e na queda do avião que o traz à pátria (10/5/30). Outros (Joâo Alberto, JuarezTávora, Cor­ deiro de Farias) tém papel decisivo em 30. Quadros for­ mados no tenentismo atuaráo num amplo leque politicoideológkx), que vai do comunismo ao integralismo e à sus­ tentação do golpe de 64 [8.16]


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Cronologia

6.15 ALIANÇA DEMOCRÁTICA / ELEIÇÃO DE 1930 ■ 0 governo de Washington Luís Pereira de Sousa (1869-57) assiste ao arrefecimento da ebulição revolu­ cionária. A Coluna Prestes ainda corre o sertão,;6.14|, mas a eleição de 26 é calma; o candidato único tem 88% dos votos [6.8]. Há prosperidade e até euforia, graças ao café (70% da produção mundial 15.4]): no 200® aniversário de cultivo (out/27), o perito Augusto Ramos proclama-o iulcro do Brasil, sustentador e construtor da nação". Os preços sobem. A safra de 27-28 é de 28 milhões de sacas, 0 dobro dos anos anteriores; após leve queda em 28-29, bate recordes em 29-30. Washington Luís é confiecido por 2 lemas: "Governar é abrir estradas" (inaugura em 28 a Rio-S. Paulo e a Rio-Petró|»!is): e "A questão social é um caso de polícia” (versão não textual mas con­ sagrada). Em moderada distensão, levanta o estado de sítio, desativa o presídio de Trindade, liberta presos, mas resiste à anistia e. com a Lei Celerada, joga o PCB de volta à liegalldade [6.11]. ■ A crise sucessória se instala quando Washington Luís se fixa como substituto em Júlio Prestes [1882-46], presi­ dente de SP, desde 28 tido como o Príncipe De Gales, violando o acordo tácito café-com-leite [6.8], que daria o Catete a um mineiro. 0 pres. de IklG, Antonio Carlos Ri­ beiro de Andrada [1870-46), autor da célebre frase “Fa­ çamos a revolução antes que o povo a faça", sente-se preterido e veta Júlio Prestes. 0 deslocamento de MG, maior colégio eleitoral do país (até 33), desestabilíza o esquema vigente desde 1894 [6.1], ■ Chega a vez do Rio Grande. Antonio Carios, rompido com 0 candidato oficial, mas sem força para viabilizar uma alternativa com base só em MG, corteja o RS ofertando a Presidência a um Gaúcho, Borges de Medeiros (6.8) ou Getúlio Vargas. ■ Getúlio Dornelies Vargas [1882-54; 7.1 a 8.5] descen­ de de estancieiros e chefes do PRR na zona missioneira (S. Borja). Advogado, dep. estadual (1909-13, 17-23) e federal (23-26), líder da bancada do PRR, 1® ministro da Fazenda de Washington Luís (15/11/26), candidato único e presidente do RS (25/1/28) com apoio de Borges, do Catete e simpatia da oposição, que não lança concorrente. Um acordo com os maragatos abre-lhes o govemo e con­ clui 30 anos de rixas [6.2-8). Vargas cria o Banco do RS. estatiza portos (Pelotas, Torres), estimula e controla as­ sociações, fomenta a produção de charque e arroz. Quando MG opta por um candidato gaúcho, surge como 0 nome natural. ■ A Aliança Liberal nasce de longa tratativa de gaúchos (Joào Neves) com mineiros (Francisco Campos [7.7], José Bonifácio), selada no secreto Pacto do Hotel Glória (17/6/29). 0 PRM lança Vargas candidato (30/7) e, na vice, 0 pres. da PB, Joâo Pessoa [1878-30). que na véspera re­ cusa apoio a Júlio Prestes, no episódio do “Nego". Em 12/9 a situação, com apoio de 17 dos 20 governos estaduais, lança a chapa Júlio Presles-Vital Soares (pres. da BA). ■ 0 programa da AL. escrito pelo dep. gaúcho Lindolfo Collor [7.1-5;, mescla aspirações de vasta gama de setores, das oligarquias não-cafeeiras às camadas médias e operários: Reforma política, voto secreto, justiça elei­ toral, Judiciário independente. Legislativo moralizado, refornws administrativa e educacional, liberdade de pensa­ mento e imprensa, anistia para os rebeldes de 22-24. Incentivos à produção nacional e uma vaga industrializa­ ção (mantendo a distinção entre indústrias "naturais* e "artificiais" [6.10]). Extensão do direito ã aposentadoria, aplicação da lei de férias, regulamentação do trabalho feminino e infantil. ■ A base da AL é restrita. No RS ela tem tudo: o gover­ no, 0 poderoso PRR de Borges e o oposicionista PL de Assis Brasil e Batista Luzardo, aliados (ago/29) na Frente única Gaúcha. Em MG tem o governo e o hegemônico PRM, mas sem F. de Melo Viana, vice de Washington Luís, que forma a Concentração Conservadora Mineira para apoiar Júlio Prestes. Na pequena PB. tem o govemo e o PRP local, mas não a totalidade dos coronéis sertanejos.

Em SP conta com o Partido Democrático (PD), de Antonio da Silva Prado, dissidente do PRP d. 26 ;S Este forma d. 27 um PD Nacional, junto com o PL do RS e os PDs do DF. RJ e, mais rarefeitos, SC, MA, CE, PE. ■ Os tenentes'6.13-14] na maioria apóiam a A L É o caso de Juarez Távora, Joào Alberto e Siqueira Campos, que retonnam do exílio em segredo, de Eduardo Gomes e Cordeiro de Farias, libertos após cumprirem pena. Porém Luís Carios Prestes, após reuniões secretas com Vargas, recusa seu apoio: a caminho do PCB. julga o movimento mera disputa entre facções oligárquicas. ■ A crise de 29 7.3] põe fim à prosperidade e atira o mundo na depressão, a partir do cracli da Bolsa de Nova Yori< (Sexta-Feira Negra), com fulminante contágio: só em 36 a indústria mundial retorna à produção de 13. A reper­ cussão política não é menor; troca do liberalismo pelo New Deal nos EUA. onda nazifascísta na Europa. Na América Latina de 30 a 32.12 países trocam de govemo. 10 deles via golpes de estado. ■ Montanhas de café invendável. Incendiadas na tenta­ tiva de conter a queda livre dos preços ;7.3j, criam um dos símbolos da Grande depressão mundial. Já antes do crash, os cafeicultores se inquietam com o fantasma da superprodução; desde meados de 29 a cotação cai; não há compradores: o vater da safra baixa 16,3% em 30 e 67,2% em 31. Fazendas são abandonadas, fábricas fe­ cham, os salários caem 40-50^i, há demissões em massa e saques de amiazéns. ■ A cafeicultura de SP reúne o Congresso dos Lavradores (jan/30) em dima de pânico. ‘ Sou um encalacrado que fala a um congresso de encalacrados”, ironiza Oswald de An­ drade (6 J 0 congresso exige remédios heróicos (mo­ ratória, emissão). E como o Catete resiste, fiei à austeri­ dade ortodoxa, ameaça: *A lavoura hoje com o govemo. Se nâo for atendida, amanhã será a lavoura sem o gover­ no. E. depois, a lavoura contra o govemo". ■ Vargas negaceia. Em estilo peculiaríssimo, que se tomará proverbial e fará escola, esquiva-se. protela com­ promissos, esboça uma desistência, fimna (dez/29) pacto secreto com Washington Luís, à revelia da AL. visando a recomposição em caso de derrota. Mas a propaganda govemista pinta-o como um misto de serpente e demônio. A campanha se radicaliza, há violéndas. Tanto a ala radi­ cal da AL (João Neves, Osvaldo Aranha, Virgílio de Melo Franco) como o jomal do PD paulista aventam a hipótese da luta armada. 0 próprio Vargas viaja do RS ao Rio, onde lê sua plataforma para a multidão reunida na esplanada do Castelo (1/1/30). ■ A Guerra de Princesa, auge da violência pré-eleitoral, edode em 242/30.0 coronel José Pereira [6.9’. chefe do município, paraibano mas lindeiro com PE, alrlta-se com João Pessoa por questões fiscais e de montagem da cha­ pa de deputados; arma 2 mil jagunços e proclama Prin­ cesa tenitório livre, com apoio de Recife, do Catete e boa parle da oligarquia paraibana (os Suassuna, os Dantas). Tropa estadual, chefiada por José Américo (7.7), cerca o município rebelde. A luta. equilibrada, finda após a morte de Joào Pessoa, com a ocupação de Princesa pelo Exér­ cito (11/8/30), na prática uma intervenção branca na PB. ■ A eleição de 1/3/30 mantém a rotina da República Ve­ lha [6.8]; *A fraude (praticada pelos 2 lados) imperou uni­ versalmente*, diz João Neves. Na contagem oficial Júlio Prestes tem 1,1 mühâo de votos. Na maioria dos estados supera os 90%. Em Osasco, SP, 3.095 eleitores, apura 6.018 votos. Vargas tem 737 mil votos, 74% deles no RS e MG: no RS, tem escandalosos 298 mil sufrágios e Pres­ tes apenas 982. A eleição legislativa também é viciada: as juntas de apuração barram a bancada paraibana pró-João Pessoa e 14 deputados aliancistas de MG. Na aparência, a República Velha triunfou; V ar^s julga qualquer resistên­ cia ‘quixotesca": Borges admite de público o resultado; Mas a crise se reacende após o assassinato de João Pessoa [7.1], denubando pelas annas o regime que pare­ cia consagrado pelas umas.

1/12: Artiitragem da Suíça garante ao Brasil o Amapá, disputado pela França 31/12: O 3° censo conta 17.318.556 habitantes (7,5% estrangeiros) • Grande quebra de bancos • Ano de seca no Nordeste • Dom Casmurro. de Machado de Assis • Porque mg Ufano do Meu País, do conde Afonso Celso • F. Figner funda a Casa Edison, a 1“ gravadora de discos do país 1901 24/2: Promulgada a 1* Constituição republicana 23/5; A Light começa a dotar de luz elétrica alguns bairros de SP 3/6; Criada em Piracicaba, SP, a Escola Supenor de Agricultura Luís de Queirós (nome do fazendeiro que lhe doou 319 ha) 11/6; A Bolívia arrenda o Acre, então seu território, ao Bolivian Syndicate, dos EUA 14-19/6; Quebra-quebra destrói 26 bondes e derruba aumento da tarifa no RJ 15/6; Começa a circular no RJ o jornal Correio da Manhã 1/7: A Cidade de Minas passa a se chamar Belo Horizonte 10/8; Reaberto por sentença do Judiciário o Clube Militar, fechado desde 1887 sob suspeita de florianlsmo 20/9; Rodrigues Alves lançado candidato da situação à Presidência 21/10: Santos Dumont contorna a Torre Eiffel, Paris, no balão dirigível Dumont n® 6 1/12: Fundada a Academia Rio-Grandense de Letras • Começa a funcionar em São Paulo a 1” usina hidrelétrica, da Light and Power • 1* obra de concreto armado no Brasil, revestindo um túnel ten-oviário em MG • São Paulo tem 108 indústrias; 70 sâo de estrangeiros 1902 1/3; Eleição presidencial; Rodrigues Alves vence com 595 mil votos 12/5; Augusto Severo morre na explosão de seu balão dirigível, em Paris 28/5; Fundado em São Paulo o 1® Partido Socialista Brasileiro 1/6; Começa a circular em SP o jornal anarquista O Amigo do Povo 21/7; Fundação do Fluminense F. C., no RJ 6/8; Plácido de Castro toma Xapuri e reinicia a Guerra do Acre 24/8: Golpe monarquista no interior de SP, sufocado após 3 dias 15/11 : Posse de Rodrigues Alves; seu antecessor, Campos Sales, leva vaia na estação da Central ao deixar o RJ • O govemo Italiano proíbe (decreto Prlnetti) a emigração gratuita para SP • O Sâo Paulo Athletic Club vence o 1“ Campeonato Paulista de Futebol • 1® campeonato brasileiro de remo • Começa a circular a revista O Malho • Euclides da Cunha publica Os Sertões, com base em seus artigos para O Estado de S. Paulo • Canaã, o “romance de idéias" de Graça Aranha 1903 3/1 ; Posse do prefeito do DF, Pereira Passos, com amplos poderes; criada a Guarda Civil do RJ 24/1 ; Rebeldes acreanos de Plácido de Castro tomam Puerto Alonso da Bolívia 26/3; O médico Osvaldo Cmz assume a direção da Saúde Pública do RJ; seu plano: atacar a febre amarela pelos mosquitos, a exemplo de Cuba

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7. ERA VARGAS (1930-1945) 7.1 A REVOLUÇÃO DE 30

Cronologia

■ No Nordeste o levante inicia com a invasão do 22° Batalhão de Caçadores. João Pessoa, por 22 homens (4/10). liderados pelos ten. Agildo Barata. Juracy Maga­ lhães, Jurandir Mamede e Paulo Cordeiro. Juarez Távora é 0 lider. A policia, os 24«, 25' e 28« BCs e o navio Muniz Freire, enviados ã PB para prevenir distijrbios, aderem. 0 interior, Idem. Apenas em Sousa o 23° BC resiste, até a morte de seu comandante, cel. Ângelo Correia. Juarez envia Juracy a PE e Café Filho ao RN. No RN quase não há lula: em PE é um levante popular que dermba o velho poder, ao custo de 38 mortos e 120 feridos. No sertão alguns coronéis tentam resistir os baianos Franklin Albu­ querque e Horácio de Matos [6.7] chegam a formar 6 ba­ talhões de jagunços na BA.

1° de Maio: No Rio de Janeiro, a passeata conta, segundo a polícia, com 20 mil participantes

■ Itararé, a batalha que não houve. Espera-se uma luta feroz em SR terra de Júlio Prestes e Washington Luís. cuja Força Pública que rivaliza com o Exército. Os governistas se concentram na cidade de Itararé (7 mil habs.), espécie de porta de entrada para o estado, dominando a ferrovia e as barrancas do rio no limite com o PR: são 5.600 homens, sobretudo da Força Pública, sob coman­ do do cel. Pais de Andrade. Os 7.800 rebeldes de Miguel Costa chegam de trem. acantonam em Sengés e, após 20 dias de escaramuças, poucas baixas e muita expec­ tativa. tomam a fazenda Monjngava. a 8 km de Itararé. A imprensa notk;ia iminente e sangrenta batalha, impedida na última hora pela notícia da deposição de Washington Luís. 0 cáustico jomalista Aparício Torelli [1895-71], d'/\ Manhã, adota o pseudónimo de Barão de Itararé em alusão ã grande batalha não havida.

13/12: Nos EUA os irmãos Wright fazem voar um aeroplano com o auxilio de uma catapulta • Início das obras do prédio mourisco do Instituto Manguinhos, RJ; projeto de Morales de los Rios

■ A opção da luta armada, caso a via eleitoral se invia­ bilize, é cogitada desde 29 em setores da Aliança Liberal (Joâo Neves e Osvaldo Aranha, no RS, Virgílio de Melo Franco, MG, editoriais do Diário Nacional, do PD-SP). Os lideres principais, porém, a rejeitam. Joâo Pessoa diz: “Nunca contarão comigo para um movimento armado. Prefiro dez Júlios Prestes a uma revolução". Lindolfo Collor lembra a Vargas (12/8/29) a tradição conservado­ ra do castilhismo e indaga quem colherá os frutos de uma “desordem”: “Tu, ou Luís Carios Prestes?". ■ Perdida a eleição de 1/3/30 [6.15), a maioria da AL se inclina para a conciliação ou compromisso com Júlio Prestes. Borges de Medeiros, em entrevista ao jornal A Noite (19/3), aceita a derrota. Vargas, em telegrama a 0. Aranha (11/3), julga toda resistência quixotesca. Mas. no seu estilo ambivalente, aposta algumas lichas na mi­ noria pró-revoluçâo (Aranha, João Neves, Flores da Cunha). Neves formula os 7 itens do Heptálogo de Irapuazinho, plataforma dos oposicionistas. ■ Os tenentes [6.13-14] também conspiram. Juarez Távora foge da prisão de Sta. Cruz, RJ e atua clandes­ tinamente no Nordeste. Siqueira Campos faz o mesmo no RS e SP. até morrer em acidente de avião (10/5/30); também Djalma Dutra em MG, Cordeiro de Farias e Eduardo Gomes no RJ. No RS, (oco da oposição, atuam Estilac Leal. Hercolino Cascardo. Nelson e Alcides Etchegoyen. Augusto Amaral Peixoto. 0 ten.-cel. legalista Góis Monteiro adere em abril. Já Prestes, exilado na Ar­ gentina, nega-se a integrar (e chefiar) o movimento, que qualifica de "simples luta entre as oligarquias dominan­ tes” (Manifesto de Maio). Concorda com o PCB, que vê em tudo mera "luta entre 2 facções da burguesia nacio­ nal, luta entre 2 bandos do Exército". ■ A PB, agitada pela Guerra de Princesa [6.15] e a impugnação de seus deputados, atrai as atenções. Seu pres.. Joâo Pessoa, resiste como pode à ameaça de intervenção federal, conectada com o exército-jagunço de Princesa e boa parte da oligarquia local. Manda a polícia invadir em busca de armas as casas de adver­ sários, entre elas a de Joâo Dantas (do clã DantasSuassuna). Encontra al a correspondência, escandalosa para a época, entre Dantas e a bela professora, poetisa e feminista Anaíde Beiriz [1905-31 ]. 0 jomal A União pu­ blica as “cartas eróticas" (22/7/30): as “impublicáveis" podem ser consultadas na redação. Dantas se vinga matando Joâo Pessoa a tiros, numa confeitaria do Recife (26/7). ■ 0 assassinato de João Pessoa precipita a crise. Na PB os protestos mobilizam populares e militares: o nome da capital do estado muda para João Pessoa e sua ban­ deira incorpora o "Nego" [6.15]. A agitação se repete no Rio, para onde o corpo é levado. Vargas insiste na mode­ ração, mas a conspiração ganha corpo. Osvaldo Aranha [1894-60], secr da Justiça do RS, atrai Getúlio, e através dele Borges, desde que haja apoio das Forças Armadas. 0 dep. Lindolfo Collor obtém a adesão do gen. Tasso Fragoso [1869-45]. chofo do Estado-Maior do Exército. ■ A Revolução de 30 (nome consagrado pelo uso. em­ bora muitos questionem sua natureza revolucionária) eclode em 3/10, logo antes da posse de Júlio Prestes. Levantes nos quartéis do RS, MG e PB são secundados por alguma mobilização popular, sobretudo no Nordeste. No RS os rebeldes dominam as principais unidades mili­ tares, sob 0 comando do cel. Góis Monteiro. Várias guar­ nições do interior aderem. No dia 5 toda resistência está vencida e a tropa começa a seguir para o norte, de trem. sob 0 comando de Miguel Costa [6.13], Os governos legalistas de SC e PR são depostos. Em MG o ex-pres. Antonio Carios [6.15] chefia do movimento, com apoio do ten. Eduardo Gomes. [6.13], da Força Pública e civis armados. 0 cel. José J. Andrade, comandante da peque­ na guarnição local do Exército, é preso (3/10) e o 12® RI se rende 5 dias depois em Belo Horizonte. A resistência no interior é débil.

■ No Rio, manifestações populares, barricadas e com­ bates de rua apóiam a rebelião: o 3“ RI e o Regimento da Praia Vermelha se insubordinam. Por fim, até altas patentes militares afirmam que "a salvação pública, a integridade da nação, o decoro do Brasir exigem o afas­ tamento de Washington Luis. Os gen. Tasso Fragoso. Mena Barreto e o alm. Isaías de Noronha formam uma Junta Governativa. 0 presidente, porém, só a recebe por mediação do cardeal d. Leme, e nega-se a renunciar Preso e embarcado para 17 anos de exilio, já a bordo despede-se do Brasil com desenhoso assovio. J. Prestes asila-se no consulado da Inglaterra em S. Paulo. ■ Vargas recebe as noticias em Ponta Grossa, PR, e ruma para o Rio no Trem da Vitória. Em SP, aclamado pelo povo. nomeia interventor (29/10) ao ten. João Alberto [6.14.7.2]. plebeu e pernambucano, afrontando a elite paulista, inclusive o PD. No Rio. a maior manifes­ tação popular já havida o aplaude: soklados gaúchos efe­ tivam uma bravata atribuída a Flores da Cunha e amar­ ram seus cavalos no obelisco da av. Rio Branco A 3/11. vencida uma tendência continuista na Junta. Getúlio toma posse como chefe do govemo provisório (que dura até 17/7/34). ■ 0 1® governo Vargas assume com um programa de 17 pontos, vagamente reformista: anistia: “saneamento moral e físico" ; ensino públkx) (que passa a contar com Ministéno): Conselho Consultivo: auditona da corrupção; reforma das Forças Armadas: reforma eleitoral; reforma do Judiciário: Constituinte: reforma administrativa (redu­ ção do funcionalismo): austeridade: reforma do Min. da Agricultura; fomento da polk;ultura; reforma tributária, “abandonando o protecwnismo"; criação do Min. do Tra­ balho, para ‘ o amparo e defesa do operariado"; 'extinção progressiva (e pacifica) do latifúndio": plano geral fer­ roviário e rodoviário. 0 ministério tem Osvakio Aranha na Justiça, Lindolfo Collor no Trabalho. Francisco Campos na Educação e Saúde. Leite de Castro na Guerra e Luzardo na Chefia de Policia. Todos os estados sofrem intervenção, exceto MG, em atenção ao apoio do pres. Olegário Maciel ao 3/10. Juarez Távora toma-se (12/12) 0 vice-rei do Norte (Delegado do Gov. Provisório para os Estados do Norte), com poderes que vão do AC à BA. 0 Congresso Nacional, os legislativos estaduais e munkiipais são dissolvidos.

15/8-2/9; Greve geral no RJ (1* do pa(s) por salário e jornada de 8 horas; inicia na tecelagem Cruzeiro 29/8: Licenciado o 1® automóvel do RJ, de F. L. Bittencourt Sampaio 15/9: Greve dos bondes e cocheiros no RJ; 1* lei de expulsão de estrangeiros 24/10; Morre Júlio de Castilhos; com apoio de Pinheiro Machado, Augusto Borges de Medeiros assume, até 28. o comando do RS 17/11: Tratado de Petrópolis encerra o conflito acreano: a Bolívia perde 190 mil km", contra 3 mil km' e uma indenização

• Morre o vice-presidente, Silviano Brandão; Afonso Pena o substitui • 3^ visita da atriz Sara Bernhardt ao Brasil; apresenta-se no Polytheama • Ano de seca no Nordeste • O ano registra 31 greves no RJ. contra 3 em 1902 e 3 em 1904 • São Paulo já tem 6 carros, importados; o limite de velocidade pemnitida é 30 km/h 1904 3/1 : Revolta de 72 recrutados a força para a Marinha gera massacre; Fortaleza, CE Janeiro; Greve na marinha mercante contra recnjtamento forçado para a Armada 8/2: Começa a Guerra Russo-Japonosa 8/3: Começam as obras da av. Central (h. Rio Branco), RJ 17/4: Surge no subúrbio do RJ o Bangu. 1« clube de futebol proletário, formado por trabalhadores da tecelagem homônima 1/5: Os EUA ocupam a zona do canal do Panamá 6/6: Arbitragem do rei da Itália partilha a área do Pirara (33 km’ ), disputada entre Brasil e Inglaterra 27-29/6: Coligação de coronéis toma Crato. CE, e derruba o coronel Belém 7/9: Grande festa Inaugura a av. Central (h. Rio Branco), RJ, após 640 demolições 31/10: Lei da vacina obrigatória 11/11: Começa no RJ a Revolta da Vacina 14/11: Motim dos alunos da Escola Militar Cquebra-lampiões"). Praia Vermelha. RJ 15/11: Reforma eleitoral estabelece em tese o voto secreto, mas não poga 16/11: Estado de sítio (até 14/3/1905); cal o último bolsào da Revolta da Vacina no RJ 18/11: Levante do 19» BI, Salvador. BA. em apoio aos cadetes do RJ 14/12: o Congresso autoriza a completa renovação da frota de guerra brasileira • Apontamentos de Direito Operário, de Evaristo de Morais • O RS cria um imposto lerritorlal rural. Inexistente no país 1905 2/1 : Porto Artur se rende aos japoneses 22/1 : Domingo Sangrento; multidão fuzilada na Rússia: iníolo da Revolução de 1905; 1“ soviets 30/1 : Iviorre o abolicionista José do Patrocínio 5/2: Grande passeata contra a repressão, fuzilamentos e deportações na Rússia 7/2: 1» grande greve em São Bemardo. SP. de 500 operários da Ipiranguinha tecidos 1* de Maio: Pela 1* vez em Franca. SP Juntio: Greve nos portos do RJ e Santos. SP

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----------------7.2 REVOLUÇÃO DE 32 ■ A elite perrepista (do PRP) de SP, senhora do café e da República Velha [6.8], é a maior derrotada de 30 [7.1]. 0 PO [6.15], cisão do PRP em 26, que se alia ao RS. apoia 0 candidato Vargas e o 3/10 (sobretudo após a vitória). Mas o novo regime não confia nos esquives re­ volucionários do PD, quase ausentes na conspiração e no levante. SP. antes hegemônico, isola-se.

■ A interventorla (govemo estadual nomeado pelo Catete) humilha SP. No calor do levante, a Junta Militar [7.1] indica interventor a Francisco Morato, cMI, paulista, presidente do PD. Mas ele não assume: e Vargas nomeia 0 ten. pernambucano João Alberto Lins de Barros [189755, 6.14, 7.1] delegado militar (28/10/30) e depois inter­ ventor (25/11), com carta branca. Joâo Alberto forma o Governo dos 40 Dias com o PD. Mas logo é hostilizado como pró-comunista (quer a jornada de trabalho de 40 h semanais, aumento salarial de 5%, legalização do PCB). 0 Congresso do PD (2/2/31) já cogita o rompimento, consumado com a queda do secretariado (14^). após denúncia de favoreclmento do PD pelo chefe de polícia Vicente Rao (Miguel Costa [6.14] o substitui). A sede do partido é invadida, Rao, preso.

■ A oposição aproxima o PD do PRP, rearticulado em 19/1/32. E tem apoio: das classes conservadoras, a As­ sociação Comercial a Sociedade Rural e a Fiesp (Fede­ ração das Indústrias do Estado de SP, presidida por Roberto Simonsen [7.3]); do grosso dos Intelectuais, ju­ ristas, profissionais liberais, estudantes (em especial da Fac. de Direito); dos jornais 0 Estado de S. Paulo.

Folha da Manhã, Folha da Noite, Diário Popular, A Platéia, A Gazeta, 0 Libertador (da colônia italiana). Século (católico), Diário Nacional (do PD). Diário de S. Paulo e Diário da Noite (dos Diários Associados); das rá­ dios Record. Educadora, Cruzeiro: e da Força Pública, hostil a Miguel Costa. Este e João Alberto se apóiam em frágeis entidades (Legião Revolucionária, Clube 3 de Outubro) recém-criadas para defenderem os "ideais de 30”. Mesmo com o parlamento fechado, a oposição cresce, derruba João Alberto (13/7/31) e institui o bloco PD-PRP na Frente Única Paulista. FUP Após as fugazes interventorias de Plínio Barreto, Laudo de Camargo e cel. Manuel Rebelo, assume (7/3) Pedro de Toledo [1860-35], civil, paulista, ministro na República Velha, apoiado pela FUP. ■ Uma forte campanha de opinião sustenta a FUP em nome da liberdade, direito, lei e sobretudo de SP A reconstitucionalização do país age como elo de união com os descontentes de outros estados (no RS PR e PL criam também sua Frente Única, a FUG). Mas toda énfaso vai para a “tradição do povo de SP", a “união sagrada dos paulistas" (nao só naturais do estado, mas todos que têm “coração paulista"), ricos e pobres, pelo “esplendor de SP”. 0 bandeirismo [6.8] vive seu auge.

matam os jovens Martins. Miragaia, Dráusio (14 anos) e Camargo (outros 8 a 9 mortos permanecem anônimos). De suas iniciais surge a sigla MMDC, no início uma liga secreta que coleta fundos para comprar amias. Ofictalizado a 10/8, o MMDC é a alma de 32, com voluntários para as finanças, correio militar, saúde, engenharia, pro­ paganda, mobilização. Só o movimento operário, em bai­ xa [6.11], frustrado em 24 [6.13] e desconfiado da colabo­ ração com a burguesia, pemianece arredio. ■ 0 levante se precipita com a insubordinação (8/7/32) do gen. Bertoldo Klinger [1884-69], com. da Região Militar do MT, contra o novo min. da Guerra, gen. Espírito Santo Cardoso. Em SP o gen. Isidoro Dias Lopes (até abril com. da 2* Região Militar) e outros oficiais (como o cel. Euclides de Figueiredo, pai do futuro gen. Joào Baptista Figueiredo [10.8]) antecipam a rebelião para a noite de 9/7. Com apoio civil (MMDC). tomam as rádios, a telefônica, os correios, a sede da 2® RM. Pedro de To­ ledo. desinformado de tudo. ameaça renunciar mas é dis­ suadido e aclamado governador. SP conta com a adesão do RS, MG e MT. e armas compradas às pressas nos EUA. para tomar o Rio em 10 dias.

11/10: Surge O Tico-Tico, 1' revista brasileira de quadrinhos para crianças 8/11; Soldados da fortaleza de Sta. Cruz, RJ, se rebelam: matam 1 major. 1 ten. e 1 sarg. 15/11; Inauguração da luz elétrica no RJ 11/12; Pio X ordena em Roma o 1' cardeal brasileiro, J. A. de Albuquerque Cavalcanti 30/12; Criação do 4 ' (e atual) Banco do Brasil • O governo de SP compra a Estrada de Ferro Sorocabana • Queda no preço Internacional do café • Olavo Bilac e Guimarães Passos publicam o Tratado de Versificação Parnasiano • Surge em SP o jomal anarquista A Terra Uvre • A. Einstein subverte a física newtonlana com a Teoria da Relatividade restrita 1906 21/1: Reabilitação de A. Dreyfus na França

■ 0 plano fracassa. No RS, Borges de Medeiros tenta depor Rores da Cunha, mas é preso: sem apoio, o le­ vante apenas retarda a marcha das tropas contra SP. Klinger, que comandava 6 mil homens no MT. chega a SP (12/7) com apenas 200: sem ^ l o do MT frustra-se o intento de manter as exportações e relações exteriores via Prata. Em MG o gen. Dutra, pró-Vargas. aborta os levantes em Itajubá e Pouso Alegre. Fracassam ensaios menores no PA, AM e BA. SP fica cercado, sob bloqueio naval e um ataque convergente nas fronteiras com o RJ. MG e PR.

21/1; O encouraçado Aquldabã explode e naufraga na Ilha Grande: 200 mortos

■ A resistência, ao falhar o plano de vitória rápida, improvisa com base na pujança industrial e no maciço apoio civil. A Fiesp cria comissões (defesa social, com­ bustíveis, explosivos, annamentos), fabrica carros blinda­ dos, lança-chamas. bombardas (bazucas). A campanha Ouro para o Bem de SP coleta 7 mil contos para o esforço de guerra. Quase 200 mil voluntários se alistam para o combate, embora a falta de annas só permita engajar 30 mil (Exército nacional: 50 mil). Um batalhão só de negros, a Legião Negra, é aniquilado sem que sequer se saiba o nome dos mortos. As colônias italiana e síria fomecem médicos. Jornais, rádios, folhetos e atos cívicos Incitam o ardor guerreiro paulista.

1® de Maio festejado pela 1* vez nas ruas de SP; só em Jundiaf participam 5 mil

■ 0 combate se concentra na frente Sul ou do PR (Buri, 13-15/8)) e sobretudo na Norte ou do Vale do Paraíba (setor do túnel 16/7-8/9). Os constitucionalistas pagam caro pelo isolamento, o despreparo do comando e tropa, as armas e comunicações precárias. Logo perdem a Ini­ ciativa e vão recuando. 0 front se aproxima da capital.

■ Vargas acusa a FUP de separatista, forçando a nota para isolar SP. Mas a FUP abriga federalistas, adeptos da volta do status pré-30, e confederalistas, pró-autonomia total. Já no Império, com o boom do café [5.4]. Ferreira Menezes escreve (1877): Todo ano somam os paulistas 0 que receberam do governo geral e comparam com o que deram ao mesmo: ora, como dão mais do que rece­ bem, murmuram: por que não havemos de ser indepen­ dentes?". Alberto Sales, irmão de Campos Salas [6.2], publica 0 livro A Pátria Paulista, com o mesmo teor. Em 32, Monteiro Lobato [6.12] lança o lema "Hegemonia ou Separação"; e conclama; “Sejamos lobos contra lobos. Lobos gordos contra lobos famintos".

■ A derrota é questão de tempo. Klinger sugere um armistício em carta a Vargas (14/9). que só chega em 27/9. No mesmo dia a poderosa Força Pública acerta um cessar-fogo em separado. Klinger volta a propor o armistício (29/9,1/10), enquanto recuos e deserções se sucedem. A rendição se consuma em 2/10. A Força Pública aceita recuar para S. Paulo e acata a autoridade do Catete, mantondo o status pré 9/7. sem punições; o govemo de SP passa para o cel. Herculano e, d. 6/10. o gen. Valdomiro Lima. 0 cel. Euclides se opõe à rendição; tenta passar ao MT com uma coluna de 2 mil homens; ao ver a rota do recuo cortada, foge rumo ao RS num barco de pesca; preso em SC, exila-se em Lisboa.

■ A campanha tem eco. 0 comício que lança a FUP

■ Vargas, vencedor, estende a mão a SP. Dá a Interventoria (21/8/33) ao civil paulista Armando Sales de Oliveira [1887-45, 7.7] e subsidia os cafeicultores em crise [7.3]. A elite estadual volta-se para a economia, combalida pela guerra, e prospera mesmo sem a hege­ monia política irremediavelmente perdida em 30-32. Perderá também a chance seguinte de chegar ao gover­ no central, na fugaz gestão Jânio Quadros [8.10].

(25/1/32) reúne 100 mil na pça. da Sé. Osvaldo Aranha [7.1], emissário de Vargas, é recebido (23/5) por enomie ato de protesto na pça. do Patriarca, passeatas, o comér­ cio fechado, apelos à rebelião, empastelamento de jor­ nais. À noite, uma multidão ataca a sede do Partido Popular Progressista (PPP, ex-Legiào revolucionária) na pça. da República. Os legionários reagem com tiros, que

20/9: A Tramway Light and Power Company ganha concessão para fornecer eletricidade ao DF e RJ; usina de Lagos Setembro: Greve dos carroceiros de Santos, SP

Janeiro: Pacto policial Argentina-Uruguai-Brasil contra o movimento anarquista 26/2: Convênio de Taubaté; governos de SP, RJ e MG fixam política de valorização do café (só SP irá garantir o acertado) Fevereiro: O maxixe Venn Cá Muiata. criticado por ser obsceno, faz sucesso no Carnaval 1/3; Afonso Pena se elege presidente (288 mil votos) 15/4; 1 ' Congresso Operário Brasileiro, no RJ; 50 delegados, predomínio anarquista

15-30/5: Greve geral na E. F. Paulista sufocada a bala: vários mortos e feridos 6/6: Greve de colonos na fazenda Sto. Antonio, Piracicaba, SP 16/6; Começa a circular em SP o jomal A Gazeta 23/6: 3“ Conferência Pan-Americana, no RJ Jun lio ; Fechada a Faculdade de Direito de SP por solidarizar-se com uma greve 6/7; O coronel Totó Paes vence a guerra com Generoso Ponce pelo controle do MT 23/10; Santos Dumont pilota seu 14 Bis no 1 « vôo público (de 60 m) em aeroplano. em Paris 15/11: Posse do presidente Afonso Pena; Nilo Peçanha, vice 15/11: Com 27 anos, M iguel C alm on ó o ministro (Vlaçâo) mais jovem até então 15/12; C riado o Conservatório Dram ático e M usical de Sâo Paulo

29/12; C Ministério da IndUstna é absorvido pelo da Agricultura • Das 102 escolas da regiáo de Blumenau, SC, 81 ensinam apenas em alemão. 17 em Italiano e só 4 exclusivamente em português • Construída a ostação de trem de Mairínque, projeto de V. Dubugras, marco do Art Nouveau 1907 1/1; Jornada de trabalho de 8 h para os ferroviários da Mojlana. SP 5/1 : Lel Adolfo Gordo, a Celerada, de deportação dos ativistas estrangeiros; há 132 banimentos durante o ano 17/2: SlnhÔ cria no RJ o Rancho-Escola Ameno Resedá

313: Greve na mina de ouro de Morro Velho, Nova üma, MG 13/4: Começa a circular a revista Fon-Fon. célebre por suas caricaturas 21/4; Tratado de limites Brasil-Colômbia não supera litígio entre os 2 países

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Cronologia

7.3 ECONOMIA / CRISE DE 30 / INDUSTRIALIZAÇÃO

4/S-15/6: Greve geral em SP; várias categorias conquistam jornadas de 8 h

■ A Grande Depressão marca a economia mundial dos anos 30. Acaba o sonho de abastança geral que emba­ lou os felizes anos 20". A crise eclode justo a partir dos EUA, maior potência económica do mundo desde a vira­ da do século, e seu foco nen/oso, a Bolsa de Nova York, tomada pela febre especulativa. Com a 5* Feira Negra (24/10/29, njína dos pequenos investidores) e a 3* Feira Negra (29/10, quebra dos grandes), começa o pânico. As ações caem 40% em 1 mês. A produção industrial recua 54% em 28-32, enquanto os desempregados sobem de 4 milhões para 13,5 milhões. A depressão contagia todos os países centrais e periféricos, Inclusive a América Latina: poupa apenas a URSS socialista,

15/6-8/10: Conferência de Paz de Haia, Holanda; RuI Barbosa (a Águia de Haia), delegado do Brasil, defende a Igualdade entre as nações 21/8: Nasce no RJ o Clube de Regatas Vasco da Gama, 1 ' a Incluir negros na sua equipe de futebol A gosto: Os anarquistas participam do Congresso Internacional da Liga Esperantista, no RJ 26/11: O coronel Gustavo Uma ataca Lavras, CE, e derruba seu irmão Honório 27/11: O maj. Rondon conclui a ligação telegráfica do AM (997 km pela selva) Dezembro: Getúlio Vargas, 24 anos, forma-se em Direito, no Grupo de 1907, que terá grande influência no RS • 46 usinas produzem 64% do açúcar de PE • A política de “valorização do café" gera protestos no mundo • 0 1° Censo Industrial conta 3.120 fábricas no Brasil, 662 no DF, 529 em MG, 326 em SP • 18 cinematógrafos inaugurados no RJ • Pablo Picasso, 26 anos, revoluciona a pintura com a tela cubista Demoiselles d ’A vignon 1908 6/1: Construção do Forte de Copacabana, RJ, sobre as ruínas de antiga fortaleza 1/2: Fundada no RJ a COB (Confederação Operária Brasileira) 212: Fundado em Fortaleza, CE, o Clube Socialista Máximo Gorkl 6/3: O conde Lasdain faz (em 26 dias) a 1* viagem automobilística do RJ a SP 19/3: O Instituto de Manguinhos recebe o nome de seu fundador, Osvaldo Cruz 7/4: Gustavo de Lacerda funda no RJ a Associação (h. Brasileira) de Imprensa tVIaio: Lei do serviço militar obrigatório 28/6: O navio Kasafo Maru traz ao Brasil os 1" 781 imigrantes japoneses 14/7: Assassinado Plácido de Castro, comandante da Guerra do Acre 26/7: 1* corrida de automóveis em SP 11/8: Aberta no RJ a Exposição Nacional 1/9: 0 "Crime da Mala" agita São Paulo 22/9: Morre Machado de Assis. 69 anos 19/11: Instituído o Dia da Bandeira 5/12: Fundada no RJ a Cruz Vennelha Brasileira 5/12: Comício anarquista de 5 mil no lgo. de Sâo Francisco. SP • Conflitos interoligárquicos na BA e GO • Fundada a Esc. Sup. de Agricultura de Lavras. MG • Antonio Leal filma Os Estranguladores, um dos pioneiros do cinema nacional • Lançada a revista Careta, forte em charges 1909 7/4: O coronel Gustavo Lima resiste em Lavras. CE. a forte ataque adversário 12/S: Lançada a candidatura do mal. Hermes Maio: O escritor francês Anatole France visita o RJ 14/6: Fundado o Banco Hipotecário e Agrícola de SP, embrião do Banespa 14/6: Mnrfe de Afonso Pena: o vice, Nilo Peçanha, assume a Presidência 25/6: Morre em SP a feminista italiana Emestina Lésina, da revista Anima e Vita Junho: Greve dos operários da Light, RJ 14/7: Inaugurado o luxuoso teatro Municipal do Rio de Janeiro, 2.375 lugares 27/7: Semana Trágica (greve Insurrecional em Barcelona): atos de solidariedade no RJ Julho: Greve em Santos sufocada com 200 prisões 15/8: 0 escritor Euclides da Cunha morre em duelo com o aspirante Dilermando de Assis, por “questões de honra”

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■ A crise traz seqüelas políticas. Nos EUA, o puro e duro liberalismo republicano dá lugar ao New Deal do democrata F. D. Roosevelt [1882-45, pres. em 33-45]: o Estado passa a intervir com força na economia, contra a depressão, a deflação e o desemprego. Triunfa a linha do economista inglês J. M. Keynes [1883-46], contestador da tendência natural do capitalismo á auto-regulação, adepto da Intervenção estatal para criar um contraciclo que anule ou minimize as crises. Na Europa, o colapso económico, a herança da guena e o medo do comunismo levam a ditaduras, em especial de tipo nazifascista [7.7]. Na América Latina há 12 mudanças de govemo em 30-32, apenas 2 delas via eleições. 0 cau­ dilhismo do s. 19 (2.10. 5.2] transita para o militarismo [9.1-2, 13.4], A ação estatal e o nacionalismo surgem como opção para superar a economia primário-exportadora e o atraso, seja no Brasil (Vargas), Peru (Haya de La Torre), Bolívia (Gemián Busch), Venezuela (Lopez Contreras), Nicarágua (Sandino) ou México (Cárdenas). ■ No Brasil, a Grande Depressão afeta sobretudo o café, produto primário e supérfluo responsável por 60% a 75% das exportações (os EUA são o grande com­ prador). Em 28-31 preço do café exportado cai de 5 para 1.9 libra por saca: o valor total, de 70 milhões para 34 milhões de libras. Washington Luís, liberal ortodoxo, recusa-se a intenrir para salvar a lavoura cafeeira, o que contribui para sua queda [7.1]. 0 algodão e o açtkar, voltados total ou parcialmente para o mercado intemo, sofrem menos. ■ Getúlio ampara a lavoura cafeeira com benevo­ lência impensável na República Velha. Para forçar a alta dos preços começa (jun/31) a queimar montanhas do produto, um total de 78 milhões de sacas (iguais a toda a salra atual de 4 anos). Decreta também 3 moratórias sucessivas das dividas dos cafeicultores, caricela meta­ de das suas hipotecas e limita os juros sobre elas. Investe dinheiro público na estocagem do café. antes financiada por empréstimos externos. Assim, mantém os cafeicultores á tona, ao menos nas áreas de expansão cafeeira. É ao examinar essa politka, em Formação Econômica do Brasil (1959), que Celso Furtado [8.9-13] fomiula 0 conceito de socialização das perdas. Ao mes­ mo tempo, Vargas desencoraja o plantio de novos cafe­ zais, taxa as exportações e, através do Conselho (d. 33 Departamento) Nacional do Café, impõe pela 1* vez o controle federal sobre a política cafeeira, antes afeta aos governos de SP e outros estados produtores. ■ A indústria nacional tira partido da depressão. Re­ pete-se 0 que ocorreu na I Guerra [6.10] e ocorrerá na II: a crise na economia mundial alivia a concorrência das potências centrais, imbatível em tempos normais, e aju­ da a indústria nacional. 0 Brasil ê dos países que supe­ ram mais depressa a depressão: já em 33 a p ro d u to ultrapassa a marca de 29; a Inglaterra só o faz em 34, a Alemanha em 35, Itália em 35, EUA e França em 39. ■ Segue-se uma fase de franca Industrialização, em ritmo médio de 10% ao ano em 32-39. Nos anos 30 sur­ gem 12 mil indústrias, contra 4.700 na década anterior; 0 Censo de 40 registra 49 mil estabelecimentos, com 781 mil empregados. 0 perfil industrial se diversifica: se

0 fabrico de alimentos cresce 41 % e o têxtil 136% em 2839, no mesmo período o de papel cresce 348%, siderur­ gia 369%, cimento 694%. Começa a produção de pneus e câmaras de ar. Porém o perlil geral permanece atrasado: a pequena empresa familiar-artesanal, os ramos têxtil e de alimentos predominam. ■ 0 regime pós-30 rompe o monopólio da oligarquia agrário-exportadora sobre o poder político central. 0 poder passa a abrigar um leque mais amplo de forças sociais e económicas, com presença de setores agrá­ rios, industriais e comerciais interessados no desenvolvi­ mento do mercado intemo, além de militares sensíveis ao papel estratégico do poderio industrial. ■ A velha polêmica sobre a industrialização [5.6], ain­ da hoje não superada, se acirra nas novas condições, 0 Brasil tem vocação essencialmente agrícola ou deve criar sua própria indústria? Abertura livre-cambista ou proteção do produto nacional? Planejamento econômi­ co estatal ou livre atuação da “mão invisível do merca­ do" de que fala Adam Smith? Os protecionistas, mar­ ginalizados na República Velha, passam à ofensiva. 0 empresário Jorge Street [6.10-11] refuta (33) com “fatos, preços e algarismos” a “classificação das nossas indús­ trias em legítimas e artificiais’ . 0 também empresário e historiador Roberto Simonsen [7.2] advoga (37) ”um programa de fortalecimento intensivo de nossos merca­ dos internos” para superar a “atrasada economia em que nos debatemos, praticamente ainda em fase coloniar. Não é só o novo regime que lhes dá alento; é igualmente a cena mundial pós-crack de 29, que des­ mente e desmoraliza os axiomas liberais. A plataforma pró-industrial se fixa na defesa da implantação de uma grande sidenjrgica [7.11], da auto-suficiência petrolífera [8.4], da proteção alfandegária, do subsídio e do plane­ jamento estatal. ■ 0 Industrialismo de Vargas não surge como projeto premeditado e nítido. Compõe uma política pragmática, em constante negociação ao sabor de complexo jogo de pressões e contrapressões. Em nov/30, Gelúlio ainda recusa o protecionismo e as indústrias artificiais (termo caro aos agraristas). Acata o relatório (jul/31) da Missão Niemeyer enviada pelo Banco da Inglaterra, um receituá­ rio liberal-ortodoxo (Banco Central independente, favorecimento do capital estrangeiro) não aplicado devido ao colapso financeiro internacional. Assume o industrialis­ mo com 0 passar dos anos, sob o impulso de fatores diversos e às vezes fortuitos: adota medidas de proteção e fomento da produção nacional, créditos, barreiras al­ fandegárias. subsídios, alegando apenas a necessidade de cobrir o rombo que a crise do café abriu no balanço de pagamentos. Pelo mesmo motivo, suspende parcial­ mente (31) 0 pagamento da dívida externa. ■ A formação do mercado interno exige: 1) que a lar­ ga fatia da população ainda presa ã agricultura de sub­ sistência entre no sistema mercantil; e 2) que uma rede de transportes integre o país. A maré urbanizante [8.9] atende á 1* exigência; as rodovias [8.7], à 2*. Se a rede ferroviária liga as áreas agroprodutoras aos portos, a malha rodoviária (que salta de 114 mil para 258 mil km em 28-39) une o pais a si mesmo. Com custo por tonela­ da transportada muito superior ao trem, mas de implan­ tação barata, rápida e flexível, o transporte por caminhão nos anos 40 já figura em 1® lugar. ■ 0 perfil do getulismo só aparece a distância, no con­ junto da trajetória de 30-45 e 50-54. Aí se enxerga, para além das sinuosidades pragmáticas, a constmçâo de um modelo econômico, nacional-desenvolvimentista (forte presença estatal, valorização do mercado interno, subs­ tituição de importações). Bem ou mal, apesar dos per­ calços, vk;issitudes e até contra a vontade de muitos go­ vernantes posteriores, esse modelo se mantém por meio século. Só se esgota em meio â crise dos anos 80, a Década Perdida (11.15.12.1].


1 m ilhão de sacas de café exportadas « 1 m ilhão de sacas de café queim adas »

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19R


Cronologia

7.4 CONSTITUINTE DE 3 4 1VOTO FEMININO ■ A reconstitucíonallzação do país num 1° momento é rejeitada pelos tenentes mais empenhados em mudan­ ças de vulto (manifesto do Clut» 3 de Outubro. 26/12/31) e almejada pelos vencidos de 30. 0 constitucíonalismo visa então enquadrar o novo regime e por isso motiva a Revolução de 32 (7.2). Esta fracassa {e, para alguns, retarda a volta à legalidade), mas muda o cenário; a Constituinte toma-se um imperativo. ■ As preliminares da Constituinte antecedem a guerra paulista. Em 24/2/32 Vargas baixa novo Código Eleitoral; com 0 voto secreto, ponto de honra da oposição ao velho regime, e outras inovações: sistema proporcional em lugar dos antigos distritos [5.1]; voto obrigatório; Justiça Eleitoral no lugar da desgastada Comissão de Verificação de Poderes [6.8]; direito de voto às mulheres. Outro de­ creto marca a eleição para 3/5/33 e cria uma comissão para redigir o anteprojeto da Constituição. ■ Os deputados classistas (ou profissionais, ou cor­ porativos) são outra novidade; 18 representam os traba­ lhadores, 17 os empregadores. 3 os profissionais liberais e 2 os funcionários públicos. Votações secretas, nos sindicatos oficiais, escolhem 1 delegado eleitor por enti­ dade; estes indicam em convenção os constituintes de seu setor. 0 sislema é suprimido no anteprojeto da Co­ missão Constitucional, condenado sob o prisma liberal nos debates da Assembléia, mas reintroduzido na Carta de 34 por pressão dos tenentes. Inspirado no modelo fascista em voga (lei eleitoral italiana de 28, Constituição portuguesa de 33), exprime também o peso da "questão social", que Getúlio trata a seu modo i7,5] mas nâo subestima. Os deputados proporcionais sâo 214; não sâo eleitos senadores. ■ A eleição devido ao recadastramento tem 1.285.000 votantes, menos que o pleito anterior. Proliferam os par­ tidos, sempre estaduais: liberais, constitucionalistas, economistas ou econômicos, social-democratas, sociais, socialistas, nacionais, progressistas, proletários; uma minoria vive para ser fechada em 10/11/37 [7.7]. As oli­ garquias, recompostas, elegem gordas bancadas. Em MG 0 PRM ocupa 31 das 37 vagas. Em SP a coligação por SP Unido (PRP, PD, Associação Comercial) faz 17 dos 22 deputados. No RS domina o PRL de Flores da Cunha: na BA. o PSD. fruto do pacto dos coronéis '6.8;. À esquerda há alguns tenentes (João Alberto |7.2]), alguns classistas (defendem, em vâo, o direito de greve), 2 mandatos do Partido Socialista (de SP). A Constituinte se instala em 15/11/33; em 9/7/34 vota a nova Carta, pro­ mulgada em 16/7; em 17/7, elege Vargas presidente constitucional, por 175 votos contra 59 para Borges de iJledeiros [6.8, 7.2). ■ A Constituição de 34 tem 91 artigos (a de 1891.187). Traz a marca das cartas de pós-guerra, calcadas no “sen­ tido social do direito'': é a 1' no Brasil a tratar da ordem econômica e social. Institui o salário mínimo, a jornada de 8 h, 0 repouso semanal, férias remuneradas e Inde­ nização por dispensa imotivada; proibe o trabalho de menores de 14 anos. Reconhece os sindicatos. Incumbe 0 Estado de "socorrer as famílias de prole numerosa’ , li­ mita a imigração estrangeira. Dá à União o poder de impor seu monopólio sobre indústrias “por motivo de interesse público”. Reserva à empresa nacional a lavra de minérios. Prevé a gradual nacionalização de bancos de depósitos e seguradoras. Estende o direito de voto (proporcional e obrigatório) a mulheres, jovens de 18 a 21 anos, religiosos em regime de claustro e sargentos (anal­ fabetos, cabos e soldados continuam de fora). Introduz a eleição direta dos prefeitos das capitais. Prevê a eleição direta do presidente, com mandato de 4 anos, sem ree­ leição. Reserva 1/8 da Câmara a deputados classistas (50 em 300). 0 Senado perde poderes, 1/3 de suas cadeiras e por pouco nâo é extinto. 0 federalismo, obje­ to de aceso debate, se mantém, mas com perda de força dos estados. A Carta de 34 sanciona a Justiça Eleitoral e cria a do Trabalho. Sob forte pressão da Igreja (d. Se­ bastião Leme), recua dos princípios laicos de 1891:

voltam 0 catolicismo como religião oficial, o casamento religioso oficialmente reconhecido, o ensino religioso nas escolas públicas. 0 voto das mulheres ■ 0 sufragismo, movimento pelo direito das mulheres ao voto, se afirma no mundo desde meados do s. 19, a partir da Inglaterra e dos EUA. É fruto da revolução industrial e do ingresso maciço da mão-de-obra feminina no mercado de trabalho. Na virada do século alcança os 1“ êxitos, que se multiplicam após a I Guerra e a Revolução de 17. ■ Já no Império há brasileiras em luta pelo voto. A dentista Isabel de Matos Dillon, fundadora do jomal 0 Sexo Feminino (Campanha de Princesa. MG. 7/9/1873), alista-se como eleitora graças ao diploma universitário, candidata-se ã Constituinte de 1891 [6.1], mas é vetada pelo regulamento eleitoral. A Constituição da República Velha é dúbia e cada juiz a interpreta a seu modo. Em MG. 1905. há 3 mulheres alistadas e votando. Já a advo­ gada Myrtes de Campos e a prof* Leolinda Daltro (inicia­ dora do movimento sufragista rto Brasil) requerem em vâo 0 alistamento. Outra vertente feminista nasce com o movimento operário [6 .1 1 mas devido à influência anar­ quista não abraça a causa do voto. ■ Berta Lutz [1894-76], paulista, filha de ingleses, for­ mada em biologia pela Sortxjnne, 2* brasileira a entrar no serviço público, põe o movimento em novo patamar. Defende o sufragismo em carta à revista A Semana (28/12/18), estabelece laços internacionais, funda a Liga peia Emancipação Intelectual da Mulher (19) e a Federa­ ção Brasileira pelo Progresso Feminino (aB/22). Moderada, ligada à Nawsa (Associação Nacional Sufragista da Mu­ lher Americana, EUA), condena a linha das sulfragettes inglesas e americanas, mas desenvolve ativa militância. Em 28 viaja ao RN de avião (na época uma ousadia), soltando panfletos sobre 8 capitais. Em 30 já existem (poucas) eleitoras em 10 estados. Um projeto sufragista é votado na Câmara em 1* discussão (10/10/22). mas emperra no Senado (27). ■ 0 RN tem um papel à parte na conquista do voto feminino. Na refomia da Constituição estadual (27), seu pres.. Juvenal Lamartine, inclui o direito de voto "sem dis­ tinção de sexo". Alistam-se 20 eleitoras, e Alzira Soriano de Souza elege-se prefeita de Lajes, porém a Comissão de Poderes do Senado, após longo debate, vota (30) a "depuração’ (exclusão) das eleitoras do RN. ■ A Revolução de 30 cinde o sufragismo. A paulista Berta Lutz, discretamente legalista, espera que J, Prestes aprove o voto feminino. Já a gaúcha Nathaércia Lacerda de Moura se engaja na AL ;6.l5j e cria (31) a Aliança Nacional de Mulheres, mais popular (presta assistência jurídica a operárias), que chega a 3 mil filiadas em 32. 0 novo regime e a perspectiva da Constituinte impulsionam 0 movimento. 0 anti-sufragismo recua para a defesa do voto qualificado, apenas para mulheres formadas e/ou economicamente independentes. Mas o sufragismo che­ ga ao Catete com Alzira Vargas, filha e assessora de Getúlio. 0 decreto de 24/3/32 institui o voto feminino amplo, sem exigência de qualificação. ■ Cariota Pereira de Queirós é a única mulher eleita para a Constituinte, pela União por SP (Berta, candidata pelo DF, fica na 1* suplència e assume em 36). Cariota. porém, declara-se antifeminista e até assina uma emen­ da que subordina o direito de voto á prestação do serviço militar. As sufragistas reagem, fazem caravanas, acom­ panham 0 debate com palmas e vaias (que a própria Ber­ ta admite, dada a emergência) e viram a votação. ■ Conquistado o direito de voto. o movimento refluí. Boa parte das eleitoras se orienta pela Liga Eleitoral Católica, fundada por d. Leme. de cunho conservador. As umas de 14/10/34 elegem 5 deputadas estaduais no AM. AL. SE. BA e SR mas esta presença permanece margi­ nal 6 estacionária até o fim da ditadura de 64.

16/8: Greve na fábrica São Bento, Jundiaí, SP, que emprega meninos de 7 anos Agosto: Quebra-quebra de bondes e postes de luz contra sen/iços da Light no RJ e em SP 19/9: 1* corrida de automóveis no Circuito de S. Gonçalo. RJ; o vencedor faz 50 km/h 22/9; Primavera de Sangue; a polícia mata 2 estudantes em passeata no RJ 30/10: Convenção das Municipalidades lança a Campanha Cívilista de Rui Bartjosa à Presidência, com apoio do PRP • Cartos Chagas descobre o trypanossoma cmzi, causador da doença de Chagas • Começa a circular a revista Ilustração Brazileira • 25 imigrantes expulsos no ano pela Lei Celerada • Lima Barreto publica Recordações do Escrivão Isaias Caminha 1910 1/3: 0 mal. Hermes vence Rui Barbosa para presidente (por 403 mil votos a 223 mil) 1’ de Maio em Franca, SP, encena a peça Gaspar, o Serralheiro, pró-greves 20/7: Criado por proposta de Rondon o SPI Serviço de Proteção ao índio (h. Funai) 1/10: Fundado em SP o S.C. Corinthians Paulista 4/10: Levante militar e popular triunfa em Portugal após 36 h e proclama a República 8/10: Manaus bombardeada por militares que derrubam o presidente do AM 15/11: Posse do mal. Hermes da Fonseca 22/11: Revolta da Chibata liderada por João Cândido; os marinheiros controlam a Armada na baía de Guanabara, RJ 24-25/11: O Congresso aprova e o presidente sanciona às pressas a anistia para os marinheiros revoltosos 26/11: Os marinheiros entregam a esquadra em troca do fim da chibata e da anistia 29/11: Pinheiro Machado funda o Partido Republicano Consen/ador 9/12: Levante dos fuzileiros da Ilha das Cobras, RJ, esmagado em 24 h 24/12: Prisão de Joâo Cândido com 17 marinheiros rebeldes na Ilha das Cobras 24/12: O navio Satélite embarca 441 prisioneiros para a Amazônia • Criada a Inspetoria de Obras contra as Secas • Concluída a ligação fen’oviéria SP-RS • Manaus chega a 65 mil habitantes 1911 Fevereiro: Surge no Carnaval de Recife, PE, o frevo Vassourinhas, de Matias Rocha e Joana Batista 11/3: Cariocas vaiam e agridem mulher que sal à rua de jupe-culolte (saia-calça) 25/5: A Revolução Mexicana derruba o presidente Porflrlo DIaz 1/6: Começa a circular em Santos, SP, o jornal O Proletário 18/7: Começa a circular no RJ o jornal A Noite 22/8: Roubada do Louvre a Gioconda de Da Vinci (recuperada em 12/12/13) 11/9: Hamlet inaugura o teatro Municipal de São Paulo, projetado por Ramos de /^eve do com metais e mármores europeus 4/10: Pacto político de 17 coronéis do Cariri, CE, patrocinado pelo pe. Cícero 19/10: 0 Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, é publicado como folhetim em O Jomal do Comércio, RJ 5 /1 1:0 gen. Dantas toma o gov. de PE com apoio do mal. Hernies, inaugurando a Política de Salvações 5/11: Eleição, contestada, põe fim a 22 anos de hegemonia de Rosa e Silva em PE 28/11: Lei 2.416 estabelece a deportação de e s tra n g e iro s p o r m o tiv o s políU cos

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Cronologia

7.5 QUESTÃO TRABALHISTA / SINDICATOS / CLT ■

19/12; Intervenção do Exército empossa o gen. Dantas em PE • A Califórnia é o 1“ estado dos EUA a admitir o voto feminino

■ 0 trabalhísmo acompanha Vargas já na campanha presidencial de 30 [6.15). Volta-se para a concessão de algumas reivindcações de salários, condições de traba­ lho, direitos previdenclários; a criação da mística do pai dos pobres, de notável Impacto nos segmentos urbanos menos organizados; a pregação da harmonia entre as classes: o atrelamento do sindicalismo ao Estado; e o emprego do operariado como base eleitoral e política, contra a oposição à direita e contra o segmento mais politizado e rebelde dos próprios operários.

1912 10/1: Disputa pelo poder na BA leva ao bombardeio de Salvador pelo Exército 10/1-22/6: Greve de 5 meses dos sapateiros de São Paulo pela jornada de 8 h 17/1: Robert Scolt chega ao Pólo Sul 22-24/1: A oposição (com apoio de Hermes) derruba pela força o pres. do CE, A. N. Acióli 10/2: Morre o barão do Rio Branco, 67 anos; 300 mil pessoas comparecem ao enterro no RJ 12/2: O último imperador manchu abdica: a China torna-se República: Sun Yat-sen. presidente 25/2: Eleição de J. Seabra, na BA, sob intervenção militar 6-20/3: Greve dos ferroviários da E, F. de Baturité, CE 14-15/4: Naufrágio do Titanic: 1.517 mortos 30/4: Inauguração da ferrovia Madeira-Mamoré (RO), que custa 6 mil mortes 17/5: Mais de 10 mil grevistas em São Paulo 10/7: O cel. Ciodoaldo da Fonseca, primo do pres., é eleito para o governo de AL Setembro: Greve geral em Juiz de Fora, MG, pela jornada de 8 h 3/10: José Oiticica adere ao anarquismo 25/10: Inauguração do ttondinho do Pão de Açúcar, RJ 7-15/11: “4®" (n' contestado) Congresso Operário Brasileiro: 187 delegados, com apoio e ajuda do pres. Hermes da Fonseca, no RJ 22/11: Combate de Irani Inicia a repressão ao movimento místico do Contestado, SC: morre o monge José Maria 1/12: João Cândido, da Revolta da Chibata, é julgado e absolvido 19/12: Cnada a Universidade do PR, privada, com 3 faculdades: dura até 1915 • SP cria (18 anos antes do ministério) seu Depto. Estadual do Trabalho, dedicado exclusivamente ao trabalhador rural • Oswald de Andrade traz da Europa o Manifesto Futurista de Marinetti • Kandinsky defende em livro a pintura abstrata 1913 21/1: Reorganizada a Confederação Operária Brasileira 23/2: Assassinato do pres. F. Madero impulsiona a Revolução Mexicana 16/3: Manifestação de 10 mil no RJ contra a deportação de sindicalistas e a carestia 29/5: O 1' balé moderno, de Stravinsky-Nijinsky. gera escândalo e valos om Paris 9/7: Venceslau Brás lançado candidato a preskíente 9/7: Consolidação das leis sobre imigração 18/7: Lei 2.784 fixa a hora legal e divide o Brasil em 4 fusos horários 26/7: Rui Barbosa candidata-se pela 2‘ vez à Presidência pelo movimento civilista 8/9:2" Congresso Operário, no RJ (117 delegados); pela jornada de 8 h e salário mfnlmo 29/11: Aberta a loja de departamentos Mappin Stores, a 1* de Sâo Paulo 8/12: Casamento do mal. Hermes com a bela, boêmia e talentosa Nair de Teffé 9/12-1/3/1914: Floro Bartolomeu e coronéis do Cariri rebelam o sul do CE 29/12: Rebeldes do Contestado rechaçam ataque do Exército ao reduto de Taquaruçu 31/12: Rui 6art)osa retira sua candidatura presidencial • Henry Ford cria a 1* linha de montagem, iniciando a 2* Revolução Industrial 128

■ A criação do Ministério do Trabalho (26/11/30) é das 1“ medidas definidoras do governo Getúlio (até en­ tão a questão trabalhista compete ao Min. da Agri­ cultura). A pasta toca a seu idealizador, o jomalista gaú­ cho, deputado e tenente civil ündolfo Collor [1890-42]. Este forma a Comissão Collor, com intelectuais, políticos e advogados, alguns vindos de lutas sindicais (Evaristo de Morais. Agripino Na2areth, Deodato Maia, o empre­ sário Jorge Street [6.10]). Em 32, Collor se demite, apóia a Revolução de 32 [7.2] e se exila: mas aí já está de pé a estaitura corporativa que até hoje marca o sindica­ lismo brasileiro. 0 ministério monta um onipresente sis­ tema de controle: Inspetorias Regionais nos estados (32), um Conselho Nacional do Trabalho (33) e um De­ partamento Nacional do Trabalho (34). ■ 0 dec. 19.770 (19/3/31). segundo Collor, incorpora o sindicato “ao Estado e às leis' Regula sua fundação e funcionamento, proil» a propaganda social, política e religiosa, impõe o reconhecimento e controle ministeriais; veda a sindicalização de estrangeiros no Brasil a menos de 20 anos, ou trabalhadores associados a organizadas internacionais. Institui a unicidade sindical (um só sindi­ cato em cada base), suspensa na Constituinte de 34 [3.3], mas retomada na de 37. Sofre influência da Carta dei Lavoro (21/4/27) da Itália fascista. ■ Os direitos trabalhistas do programa da Aliança Liberal [6.15] se efetivam. Nascem as Caixas de Aposen­ tadoria e Perisões (17/12/30). depois institutos (os lAPs). a começar pelo lAPTEC. dos comerciários (22/5/34). Em 21/3/32 surge a Carteira Profissional, visando controlar o trabalhador mas também garantir seus direitos. Em tese obrigatória, a carteira só nos anos 70 se difunde no cam­ po; jamais se universaliza; e recua nos anos 80-90 [11,15, 12.2]. A regulamentação do trabalho da mulher (17/5/32) proíbe o trabalho noturno, perigoso ou insalu­ bre. em minas e subterrâneos, dá estabilidade à ges­ tante, licença-matemidade de 12 semanas, direito de amamentar, direito a salário igual para trabalho igual. A lei passa a garantir 15 dias de férias anuais, indenização de demissões sem justa causa, estabilidade durante o serviço militar. ■ 0 salário mínimo, previsto nas Constituições de 34 e 37, se efetiva no 1®de Maio/40 (1* pagamentos em 2/7). Visa atender às necessidades básicas de alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte. É obrigatório para todo trabalhador e varia conforme o estado (o n* de faixas reduz gradualmente, até a unificação, em 26/4/84). Antiga reivindicação, multiplica o prestígio de Getúlio.

impõem um profundo recuo; as greves são proibidas e chega-se a cogitar a simples nomeação das direções sindicais pelo Min. do Trabalho. 0 PCB, seguindo dire­ tiva da III Internacional para atuação nos sindicatos fascistas, passa a atuar e conquistar espaços dentro da estrutura oficial. ■ 0 imposto sindical (18/1/40) cristaliza as mudanças. Equivale a 1 dia de salário/ano, pago compulsoriamente por todo trabalhador, sindicalizado ou nâo. Converte em relativa abastança a heróica penúria do sindicalismo, mas fomenta a corrupção e acomodação das direções. Nasce nessa época o termo pelego (na origem, pele de carneiro que 0 gaúcho põe enlre a sela e o lombo do cavalo), sinô­ nimo de sindicalista avesso à luta, submisso ao patronato e ao governo. 0 sindicalismo patronal, com periil similar, evolui depressa sobretudo em SP, ã medida que o regime granjeia a boa-vontade dos empresários, ■ 0 conflito capital-trabalho passa a ser questão de Estado, através das Juntas de Conciliação e Julgamento (32) que a Carta de 34 converte em Justiça do Trabalho (instalada em 1/5/41). Esta inclui representantes (vogais ou juizes classistas) dos empregados e patrões; julga tanto processos trabalhistas ordinários como dissídios, conflitos, greves, com autonomia desconhecida em ou­ tras áreas do direito: tem poder normativo, que lhe permi­ te fixar salários e condições de trabalho. 0 Estado se interpõe entre o capital e o trabalho como mediador e ár­ bitro, cabendo-lhe sempre a palavra final. ■ A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) enfeixa em 922 artigos toda a legislação sobre organização sindical, previdência, relações trabalhistas e justiça do trabalho, cri­ ada em copiosa sucessão de decretos, regulamentos, por­ tarias e instnjções. Assinada no 1- de Maio/43, entra em vigor a 10/11, aniversário do Estado Novo. Sofre acrésci­ mos e modificações, em e s j^ a l pós-64, mas mantém seu conteúdo e estrutura, através das Constituições de 37,46, 67,69 e 88, dos ascensos, auges, crises e descensos do sindicalismo, exibindo notável longevidade. Forma a moldura legal do corporativismo que ainda hoje marca a vida sindical brasileira. ■ A CLT trata em minúcia a legislação sindical (arts. 511 a 610). Fixa até o n ' de membros das diretorias e o modo de elegê-los (Estatuto-Padrão). Limita também as rela­ ções intersindicals; só admite a relação vertical, do sindi­ cato com sua federação (estadual) e desta com sua con­ federação naciorial (há as da indústria, comércio, trans­ portes marítimos, fluviais e aéreos, transportes terrestres, comunicação e publicidade, crédito, educação e cultura, profissões liberais; o trabalhador rural é excluído); proi­ be a relação horizontal entre trabalhadores, sindicatos e categorias, para nào falar de centrais sindicais. 0 Estado arroga-se o privilégio exclusivo de falar em nome do conjunto dos trabalhadores.

■ As conquistas sociais da época refletem mudanças no mundo do trabalho do pós-guerra, causadas pela Re­ volução de 17, os governos social-democratas na Euro­ pa, 0 recuo do liberalismo, a crise de 2 9 .0 fenômeno é comum à América Latina e outras áreas de industrializa­ ção retardatária.

■ 0 regime desenvolve Intensa propaganda da "pro­ teção" dos assalariados, sobretudo no Estado Novo. 0 1 “ de Maio, despido do antigo tom contestatório [6.11), coriverte-se em festa oficial. Grandes desfiles e comícios, em parte convocados via coação patronal (têxteis de Bangu, Rio) 8 institucional (operários de estatais, seividores pú­ blicos), ouvem e aplaudem o governante, cujo discurso inicia pelo bordão: ‘ Trabalhadores do Brasil!". Getúlio cria assim a imagem de pai dos pobres (diz-se nos meios operários mais Irreverentes e rebeldes que ele é também a mãe dos ricos).

■ 0 movimento sindical de tradição libertária e co­ munista [6.10] tenta opor ao novo sistema sindicatos ver­ melhos. livres e independentes. A Federação Operária de SP é um pólo da resistência. Esta, porém, se isola e fracassa. Em 34 a estrutura ministerialista já se impôs. A luta mostra vitalidade (grandes greves ferroviárias,

■ 0 prestígio de massas de Getúlio, porém, não pode ser imputado à mera propaganda ou carisma; inclusive porque sobrevive à queda de 45 [8.1], à “autópsia do Estado Novo" [8.2], à morte trágica em 54 [8.5], e marca gerações inteiras. Tem base também nos reais avanços dos direitos sociais dos trabalhadores; no perfil nacional-

portuárias, têxteis, marchas da fome, propaganda anti­ fascista e anti-integralista), mas a organização capi­ tula. A repressão pós-35 (7.6) e o golpe de 37 [7.7)

desenvolvimentista; na demarcação de campos com as oligarquias internas e estrangeiras, em parte pura retóri­ ca, mas em parte confirmada pela vida.


Cronograma das medidas de Vargas na área do trabalho 30

R evolução de 30

C riação d o Ministério do T rabalho “ 'C r ia ç ã o das caixas Lei dos 2/3 N acional ^ ^ d e aposentadoria ^ L e g a liz a ç ã o e do Trabalho enquadram ento . dos sindicatos '^ R e g u la m e n ta ç ã o das caixas de aposentadoria A C ria ç â o da C arteira de Trabalho

32 A P roteção ao trabalho fem inino A Inspetorias Regionais ^ do Min. do Trabalho ^ P roibição do C riação das trabalho Infantil Juntas de C onciliação /^ B a n c á rio s e com erciários ganham direito de férias (15 dias/ano) /^In d u s triã rio s e outros ganham direito de férias (15 dias/ano) O C riação do lAP P lurisindicalism o 34 dos C om ercianos M (até 37); Justiça do A Nova lel sobre Trabalho acidentes a D elegacias de T rabalho de trabalho iviaritim o nos portos

Aindenlzação aos demitidos sem justa causa a C om issões (patrões, govem o,sindicatos) “ para fix a r os valores do salário m ínim o 36 O C riação do lAP dos Industriários

Í

G olpe do ^ s ta d o Novol ^

A C onstituição d e 37 reforça o controle dos sindicatos pelo estado

38

E stabilidade durante serviço m ilitar

N D ecreto-lei sobre o enquadram ento sindical

M Lei do im posto sindical A t e i do salário mínimo 40

^ D e c re to -le i cria m odelo padrão de contabilidade sindical * Instala-se a J ustiça do T rabalho

C riada a com issão

^ 0 im posto sindical Portaria regulam enta ^ as eleições sindicais

42

C riada a C om issão T écnica

Mde O rientação S indical

AT&H O C LT (C onsolidação das Leis do Trabalho)

è

M udança na estrutura do aparelho de

A D ireito trabalhista adquirido ▼ Lel trabalhista de outra natureza õ

D ireito previdenciário adquirido

M M edida na área da legislação sindical


Cronologia

7.6 ANL/LEVANTE DE 3 5 -------------

• 1* exposição de arte moderna em São Paulo, do pintor expressionista lituano Lasar Segall • Inaugurado o viaduto Sta. Ifigênia, SP, em ferro fundido na Bélgica • O sanfoneiro Moisés tviondadori grava disco com 0 Boi Barrpso em Porto Alegre, RS • No Caminho üe Swann, de Marcel Proust

■ A Revolução de 30 gera frustrações. As greves cres­ cem. Camadas médias urbanas passam à oposição. A ala esquerda dos tenertes dos anos 20 (6.13-14) se dispõe a insistir na luta revolucionária. Soldados, cabos e sargentos se agitam. Os baixos sokJos provocam até um ensaio de golpe na Vila Militar, Rio.

• Freud publica Totem e Tabu 1914 1/1 : Aberto à navegação o Canal do Panamá (80 km), construído, e ocupado, pelos EUA 17/2: 0 industrial Jorge Street obtém fim da greve de 2 mil da Fábrica de Juta, SP 1/3: Venceslau Brás eleito presidente (532 mil votos) 8/3: Comício contra a carestia no Bom Retiro. São Paulo 14/3: Intervenção federai no CE com 5 mil rebeldes do Cariri às portas de Fortaleza 14/4: Greve geral no PA pela jornada de 8 h; a policia empastela o jornal O Imparcial 15-20/5: Reportagem policial da 1' jomalista mulher do país. Eugênia Brandão 6/6: Delmiro Gouveia funda a fábrica têxtil de Pedra, AL 28/6: Atentado em Sarajevo, Bósnia, mata o tierdeiro da Áustria e fornece pretexto para o início da 1" Guerra Mundial 5/7: O paulista Edú Ctiaves voa de SP ao RJ em 4:39 tis. sem escalas 10/7: Fundada a Liga Operária de Poços de Caldas, MG 19/7: Criada a Federação Brasileira de Sports (h. CBF) 23/7: Juazeiro do Norle. CE. elevada a cidade 2/8: Comício na Sé. SP, protesta contra a recéminiciada Grande Guerra 15/8: Comício e saques no RJ contra a carestia: a polícia mostra-se impotente 26/8: Fundado o clube Palestra Itália (h. Palmeiras) 28/9: Inaugurado o forte de Copacabana. RJ 29/9: Guerra do Contestado: rebeldes atacam e incendeiam Curitibanos. SC 8/10: Estado de sítio no Rio de Janeiro contra movimentos operários 30/10: Greve dos têxteis em Sorocaba, SP, impede corte de 25% nos salários 15/11: Posse de Venceslau Brás 15/11: Com o gal Caetano de Faria ministro da Guerra, oticializa-se a reforma do Exército 24/11: Preso em Lagoa da Lage, PE, o célebre cangaceiro Antonio Silvino • Queda do café leva à recessão: demissões, aumento das jornadas, redução dos salários • Surge a Revista Feminina • Carlilos num Cabaré, 1 ' filme de Chaplin 1915 6/1 : Lei da reforma agrária no México, pioneira na partilha dos latifijndios 8 /1 :1 “ emprego militar da aviação no Brasil, contra os rebeldes do Contestado: acidente mata 0 cap. Ricardo Kirl< 19/2-3/3: Greve dos estivadores do RJ 17/3: Greve dos construtores da E. F. Noroeste, SP, reprimida com vários mortos 3/4: Após 54 dias de ataque, cai Sta. Maria, maior reduto da Guerra do Contestado 1° de Maio: Grandes manifestações operárias declaram "guerra à guerra” 31/5: Pandiá Calógeras ministro da Fazenda 2/6: A batalha de Ypres (Bélgica) inaugura o uso militar de gases tóxicos 1 9 /7 :0 escritor Gilberto Amado mata em público 0 poeta Aníbal Teófilo; é absolvido 28/8: Lei de emergência frente à desmoralização financeira criada com a inundação do mercado pelos Dônus sabinos 130

■ A ascensão do fascismo, d. 33 também na Alemanha, gera forle polarização com os comunistas. A ill intemacional adota a linha de frente popular antifascista, testada na Espanha e na França e incluída no informe de 6. Dimitrof ao seu 7* Congresso (25/7-20/8/35). Em países '‘coloniais e semicoloniaís”, como o Brasil, a frente toma feição nacional-antlimperiaiista. Dimltrof cita e elogia o caso brasi­ leiro, embora recomende mais trabalho "para atrair sobre­ tudo os milhões de camponeses’ . ■ Prestes [6.14], expressão maior da esquerda tenentista, entra no PCB (1/8/34) em fA)scou, através da IC. Volta ao Brasil em 11/4/25, com sua companheira alemã, Olga Benário (Maria Bergner (1908-38)), usando passa­ porte falso. Desde 6/3 quadros da IC apóiam o trabalho clandestino do PCB; entre eles Harty Berger (Artur Ewert (1890-59)), dirigente do PC da Alemanha que lutou na Re­ volução Chinesa. AIlan Barron, dos EUA, Rodolfo Ghioldí [1897-j, d. secretário-geral do PC argentino. ■ 0 PCB deixa de ser a seita fechada dos 1“ anos [6-11], após superar a omissão frente à crise de 30 e o obreirista movimento de proletarização (30-32). Multiplica seus efe­ tivos e mais ainda sua influência graças a um triplo impul­ so: 1) a adesão de Prestes, o prestigioso Cavaleiro da Es­ perança: 2) a polarização com a fascístlzante Ação Inte­ gralista [7.7], levando a violentos choques de rua (pça. da Sé, S. Paulo, 7/10/34); e 3) a linha da frente popular, adaptada à realidade brasileira. ■ A Aliança Nacional Libertadora (ANL) encarna e po­ tência a mudança. Gesta-se em fins de 34 e realiza uma sessão preparatória a 12/3/35. Participam o PSB (Parti­ do Socialista Brasileiro de 32-37), elementos do PL-RS, trotskistas, socialistas e democratas sem partido, setores cristãos e muitos tenentes. 0 PCB predomina graças a Prestes, aclamado presidente de honra no lançamento público (teatro João Caetano, Rio. 30/3). por proposta do estudante Carlos Lacerda (8.5-12-15). 0 presidente é Herculino Cascardo, líder do levante do couraçado S. Pauk) (6.14). ■ 0 programa da ANL combate ‘ o fascismo, o impe­ rialismo. 0 latifúndio e as leis de opressão às liberdades democráticas” Prega a suspensão da dívida extema. nacionalização das empresas imperialistas, entrega das grandes propriedades rurais aos que a cultivam, gozo das mais amplas liberdades, um govemo popular. É sintetiza­ do no lema "Pão, terra e liberdade". ■ A expansão da Aliança é rápida. No Rio, ela inclui o interventor (d. prefeito) Pedro Ernesto; em S. Paulo, Mi­ guel Costa [6.13] e Caio Prado Jr. (7.12); no RS, o jovem cap. e revolucionário de 30 Agildo Barata [7.1]. Em maio conta 1.600 núcleos e 70 mil a 400 mil inscritos. Volta a enfrentar os integralistas, em Petrópolis (9/6), onde a morte de um operário causa greve geral de protesto. A radicalização da ANL tem o aval do PCB, seu secretáriogeral, Miranda (Antonio Bonfim), e Prestes. Uma carta deste, lida em 517, situa a Aliança conoo herdeira de 22 e condama: “Abaixo o govemo odioso de Vargas! Todo poder à ANL!’ . Advertências de Berger sobre a débil adesão do campesinato sâo ignoradas. A idéia do assalto ao poder se impõe.

■ A opção pelas armas se consuma por inexperiência do PCB, tradição blanquista dos tenentes e Isolamento cau­ sado pela proibição. A ANL passa a propor um governo nacional-revolucionário com Prestes à frente e preparar a ação militar. ■ 0 levante de Natal precipita tudo. Inicia (23/11) no 21® Batalhão de Caçadores, removido do Recife após outra rebelião, em 31. Tem causas locais (punição de praças, lutas entre clãs políticos). 0 PCB-RN decide assumir a ebulição espontânea. Só o Quartel da PM resiste, ren­ dendo-se após 20 h e uma morte. 0 sapateiro José Praxedes [1900-84], o cabo Giocondo Dias [15-87] e outros formam um govemo provisório, o Comitê Re­ volucionário Popular. 0 povo adere em clima de festa (“pura farra’ , depõe Joâo Gaivão). Colunas rebeldes tomam cidades do interior e enfrentam a milícia serta­ neja de Oinarte Mariz. No 4“ dia, sufocado o levante no Recife, tropas legalistas de PE e PB retomam o RN, sem combate. ■ No Recife, o Comitê Revolucionário (PCB) do Nor­ deste adianta o plano insurreicional em apoio ao RN. Na manhã de 24/11, o ten. Lamartine Coutinho e o sarg. Ma­ nuel Elpídio rebelam o 23® Batalhão de Caçadores, abrem 0 arsenal e armam 6 mil populares. Uma coluna segue para Recife, a 18 km, mas não logra atravessar a ponte de Afogados e atingir o Centro. Milícias atacam delega­ cias de polícia na Torre e Casa Amarela, tomam a dele­ gacia, a ponte e outras posições em Olinda. A luta mais feroz é pela ponte de Afogados. 0 sarg. e futuro consti­ tuinte de 46 Gregorio Bezerra [1901-83, 9.1] domina praticamente sozinho o CPOR e parte do QQ da 7* Região Militar, mas é ferido e preso. A reação legalista se apóia na Guarda Civil até chegarem reforços da PB e do Sul. Recife vive os mais sangrentos combates de 35. ■ No Rio, Prestes e a direção do PCB sabem desses reveses mas jogam tudo no levante simultâneo de vários quartéis (27/11). Sem o fator surpresa, só o 3’ Regimento de Infantaria e a Escola de Aviação Militar se rebelam. A EAM, pegada à Vila Militar, é dominada em breve com­ bate. Na praia Vermelha. Agildo Barata (detido por sua ação no RS) e 30 aliancistas rebelam o 3” RI (1.600 pra­ ças. 100 oficiais) e prendem os legalistas no cassino dos oficiais. Uma resistência localizada dá tempo para as tropas do gen. Dutra [7.7-9,8.1-2) cortarem a única saída dos rebeldes (o 3° RI ocupa antigo pavilhão de exposi­ ções, imprensado entre o mar e 2 morros a pique). Dutra bombardeia o quartel por terra, mar e ar, até destruí-lo e forçar a rendição. ■ A repressão varre o país. Só em Natal, 48 mil habs., 613 são Indiciados no processo. Em PE há denúncias de fuzilamento sumário. A Comissão de Repressão ao Co­ munismo coordena a ação d. 2/12/36. Filinto Muller usa a tortura para chegar aos chefes. Prestes e Olga sâo pre­ sos no Rio a 5/3/36. Ele fica 1 ano incomunicável; con­ denado a 16 e 30 anos de prisão, é anistiado em 45 [8.1]; ela, grávida, é entregue à Gestapo, tem a (ilha Anita Leocádia numa prisão alemã e morre (38) num campo de concentração. Berger sofre brutal tortura; preso 18 me­ ses num vão de escada sem luz, ar, cama ou cadeira, en­ louquece para sempre. 0 advogado Sobral Pinto (defen­ sor também de Prestes) invoca em seu favor a Lei de Proteção dos Animais. Barron morre na prisão, assassi­ nado, segundo o advogado Joseph Brodsky.

■ A reação do governo inicia com a Lel de Segurança Nacional (4/4/35 [7.8, 9.3]). Após 1er relatório especial do chefe de polícia Filinto Muller [7.8], ex-ten. expulso da Coluna Prestes. Getúlio proíbe a ANL [11.7] e fecha seus núcleos com base na Lei de Segurança. Em vão, Cascardo impetra mandato de segurança. Com poderes

■ 0 juízo sobre 35 permanece apaixonado. Os co­ munistas reconhecem erros militaristas mas mantém a avaliação positiva da ANL. Prestes chega a falar em golpismo, mas refuta que tenha sido um erro pegar em armas. Já o Exército faz da intentona de 35 a pedra de toque de um engajamento anticomunista reforçado em 37 e 64. Todo ano, até 90, recorda o 27/11 em cerimônias na presença do pres. da República e ordens-do-dia lidas

ampliados e assessoria do Intelligence Service inglês, Fi­ linto Muller inicia a ação policial antí-ANL. Um abono aos militares (26/6) contém a insatisfação nos quartéis.

em todas as unidades. Sustenta a versão inverdadeira ("velha calúnia do DIP", segundo Agildo), de que os re­ beldes assassinaram oficiais adormecidos.


Praia Verm elha, 27/11/35 Bombardeio naval

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Cronologia

7.7 INTEGRALISMO / PLANO COHEN / GOLPE DE 37

8/9: F, Manso de Paiva mata o senador e caudilho gaúcho Pinheiro Machado, no RJ 14/10: A COB promove Congresso Internacional da Paz O utubro: Viagem de Olavo Bilac a SP Intensifica a campanha pró-serviço militar obrigatório

■ Uma escalada ditatorial varre o mundo a partir da Marcha Sobre Roma (27/10/22) dos fascistas. Em 30/1/33. 0 partido nazista de Adolf Hitler [1889-45] do­ mina 0 govemo alemão por meios constitucionais. Na Polônia, 0 mal. Plisudski impõe a ditadura (26) e a Cons­ tituição autoritária (35), que suprime o Pariamento. Após 3 anos de guerra civil (500 mil mortos), o gen. Francisco Franco domina a Espanha (28/3/39): 40 brasileiros com­ batem Franco nas Brigadas Internacionais. 0 império militarista japonês ocupa (31-36) a parte mais rica da China. 0 Pacto anti-Comintem (contra a Internacional Comunista) cria em 36 o Eixo Roma-Beriim-Tóquio.

17/12: Cai o último reduto da Guerra do Contestado: Adeodato, lider rebelde, foge 18/12: Sufocado levante de praças contra os baixos soidos na Vila Militar, RJ;'256 presos 26/12: O Congresso aprova o novo Código Civil, de Clóvis Bevilacqua (entra em vigor em 1/1/16) • Forte seca no Nordeste • D. W. Griffth leva o cinema à r)aioridade com O Nascimento de uma Naçào 1916 Janeiro: Preso Adeodato, último chefe da Guerra do Contestado 9/2: Prisão de mais 20 praças da artilharia que conspiram pela reforma constitucional 21/2: Início da Batalha de Verdun, a mais violenta da I Guerra: 700 mil mortos, alemães e franceses

Fevereiro: A polícia Invade a COB, em represália contra greves e protestos contra a oarestla 9/3: A polícia ataca reunião de ferroviários demitidos em Catalão, GO: 9 mortos Maio; Os EUA ocupam (até 22) a República Dominicana 2/8: Lei eleitoral cria opção de voto secreto (que nâo “pega”) ou a descoberto 2/10: Instituído o Dia da Criança 20/10: Acordo de limites entre PR e SC põe fim à Questão do Contestado 6/11: Donga requer o registro de Pelo Telefone (1 ' samba conhecido, gravado pela Odeon) 10/12: Implantado, com sorteio em todas as regiões, o serviço militar obrigatório • Nlemeyer abre no RJ a av. Nlemeyer • 0 tenor Enrico Caruso se apresenta em SP • Começa a circular no RJ a Hevista do Brasil 1917 1/1: Sancionado o novo Código Civil, de autoria de CIúvis Bevilacqua 12/3 (27/2 - pelo calendário ortodoxo): Revolução popular derruba o czar na Rússia 3/4: Submarino alemão afunda na costa da França 0 navio brasileiro Paraná e envolve o Brasil na guerra 13/4; Em represália contra o 3/4, o Brasil confisca navios alemães ancorados em seus portos 10/6: Operárias da tecelagem Crespi iniciam a greve geral de 1917 Junho: Queima de 3 milhões de sacas de café, para elevar o preço deprimido pela guerra 12/7: A greve geral toma SP e ganha porte de Insurreição: barricadas, tiroteios 17/7: Assembléia de 80 mil vota acordo com governo e patrões: fim da greve geral em SP 26/7: Surge em SP a Liga Nacionalista, antlaiemã e pró-entrada do Brasil na guerra 1/8: Greve geral em Porto Alegre, RS 28/8: Lel de auxílio à lavoura cafeeira 5/9: Ferroviários do Recife Iniciam greve que se expande 30/9: Sào Paulo abre a Exposição Industrial da Cidade, no Palácio das Indústrias 10/10: Assassinado Delmlro Gouveia, pioneiro da fábrica da Pedra. AL 25/10: A Marinha alemã afunda o navio brasileiro Macau 26/10: 0 Brasil é o único pais sul-americano a entrar na I Querra, contra a Alemanha, que torpedeou navios brasileiros 26/10: Estado de sítio, alegando a guerra 7/11: Revolução socialista na Rússia; poder soviético operário-camponês sob a direçáo do Partido Bolchevique de V. I. Lenin 132

■ 0 fascismo Italiano serve, com nuances, de modelo à exfrema-direlta. Cresce na esteira da I Guerra, da crise econômica de 29 [6.15.7.1;, do temor ao comunismo na burguesia e camadas médias. “Reacionário, antiparlamentar. antidemoliberal, anti-socialista" (Mussolini), cul­ tua 0 Estado, a violência (milícias, terrorismo estatal, apologia da guerra), o chauvinismo (nacionalismo de di­ reita: “tiíinha pátria, certa ou erradai. o anticomunismo. 0 racismo (arianisme e anti-semitismo na Alemanha). ■ No Brasil a Ação Integralista Brasileira encarna essa tendência. Surge da união-incorporação de grupos de direita, fascistas, nazistas e monarquistas (clubes e ligas pró-Mussolini da colônia italiana no Sul; ação políti­ ca ds d. Joâo Becker. arcebispo de Porto Alegre em 1246), a partir da Sociedade de Estudos Políticos, de SP Aí atua 0 jomalista Plínio Salgado [1895-75]. escritor mo­ dernista ;6.12; e ex-deputado estadual do PRP pré-30 i6.8). Ele inicia seu “apostolado’ sob o fascínio de Mus­ solini, a quem encontra na Europa. 0 integralismo vem a público no Manifesto de Outubro (7/m'32): combate o socialismo e a liberal-democrada em nome da tríade “Deus, pátria e família". ■ A organização integralista é hierárquica e autoritá­ ria, à moda fascista. Plínio Salgado toma-se “chefe na­ cional” inconteste já no 1®Congresso (Vitória, ES, fev/34). Pelo estatuto, o chefe é “intangível". Todo integralista jura-lhe obediência “sem disculir". Toda sede ostenta seu retrato. E cabe a ele indicar todos os membros das dire­ ções nacional e “provinciais". A estrutura é para-estatal: a Câmara dos 40C e a dos 40 correspondem è Câmara e Senado, e há uma milícia armada. AAIB adota o sím­ bolo do sigma (Z), um uniforme (que lhe vale a alcunha de camisas-verdes. ou, jocosamente, galinhas verdes), uma saudação em tupi (Anauè) e um complexo de rituais que regula a educação e até o batismo dos filhos. ■ 0 crescimento da AIB, modesto em 32-33, se ace­ lera em 34, sobretudo nas colônias italianas e alemãs do Sul, na pequena-burguesia, parte do clero e da oficialida­ de (Marinha). A AIB diz ser o 'único inimigo do comunis­ mo". Desde a Batalha da Sé (7/10/34) enfrenta o PCB e outros em batalhas de rua. Em 35. segundo Salgado, tem 1.123 núcleos e 400 mil adeptos (alguns serão expo­ entes da direita brasileira: Miguel Reale, Alfredo Buzaid, Mourão Filho, Raimundo Padilha; outros optaiào pela esquerda: Gofredo da Silva Telles, Hélder Câmara, Alceu de Amoroso Lima). Proscrita a ANL e vencido o levante de 35 [7 6], a AIB cresce ainda mais; 36 é o Ano Verde. Em 37 Salgado reúne-se em segredo com Francisco Campos e Getúlio. conhece e aprova o plano do golpe: 17 mil camisas-verdes desfilam diante do Catete (1/11). em apoio a Vargas "na luta contra o comunismo e a de­ mocracia anárquica“. ■ A tendência fascistizante vai muito além da AIB e sua área de influência. 0 núcleo mais forte, embora difu­ so. está na cúpula do regime. Os gens. Góis Monteiro (chefe do Estado-Maior do Exército, que visita a Alemanha em 39 a convite da Wehrmacht) e sobretudo Dutra (min. da Guerra, por indicação de Góis) simpati­ zam com 0 3‘ Reich. 0 chefe de polícia Filinto Muller á, vai a Beriim estudar a ação anticomunista da Ges­ tapo (dez/37) e se entrevista com Himmier Vargas, se não lidera o reacionarismo, ajusta-se a ele.

■ A campanha sucessória, que ganha vulto em fins de 36. parece a essas forças um fator de conturbação. 0 ex-líder de 32 [7 2] e gov. de SP Armando Sales de Oli­ veira [1897-45] lança-se pelo Partido Constitucíonalista, com apoio de SP e RS (gov. Flores da Cunha). A 10/6/37 os armandistas formam a coligação União De­ mocrática Brasileira. Mesmo sem maior ímpeto oposi­ cionista, são vistos como uma ameaça ao status quo. A situação, após cogitar outros nomes, lança (25/5) o escritor, ex-interventor na PB, min. da Viação e sena­ dor José Américo de Almeida. Mas também ele usa um discurso com tons de oposição, esquerdizante; visita favelas e cria o bordão “Eu sei onde está o dinheiro” . A ABI lança Plínio Salgado (12/6), para marcar posição. Para complicar, a poderosa Força Pública do RS man­ tém farto armamento entregue pelo Exército em 30 e 32, 0 regime corre uma dupla ameaça, das urnas e das armas. ■ A conspiração golpista tem por centro o Exército de Góis e Dutra. Na área civil inclui Benedito Valadares (1892-73). gov. de MG. e Francisco Campos [1891-69, 9.1], min. da Educação e (d. 8/11/37) da Justiça, incum­ bido de escrever uma nova Constituição. 0 dep. Negrão de Lima, enviado ao Norte, sonda a reação dos gover­ nadores. Getúlio articula tudo, picado pela tentação continuista que é um segredo de polichinelo (inspira até marchas carnavalescas). 0 plano inclui: a antecipação, para 22/9. da homenagem aos mortos legalistas de 35, fortemente anticomunista: a volta do estado de guerra, aprovado na Câmara (por 138 votos a 52) e no Senado (23 a 5): intemenções no DF e vários estados, inclusive 0 RS (f^lores da Cunha se asila no Uruguai). ■ 0 Plano Cohen serve de estopim do golpe. É uma pe­ ça de ficção política, simulando sangrenta conspiração judaico-comunista, escrita pelo cap. integralista Mourão Filho [9.11, inicialmente para uso no trabalho de for­ mação da AIB. Por vias travessas chega ao QG golpista, que 0 apresenta como um plano real descoberto pelos órgãos de segurança. Circula reservadamente nas elites em setembro; a 30/9 tem estridente divulgação no rádio e jomais. Em vão José Américo dá entrevistas de adver­ tência e Armando Sales dirige um manifesto aos chefes militares. 0 clima do golpe está criado. Seus artífices apenas o antecipam em 5 dias. ■ Vargas Instaura o Estado Novo (10/11/37) ao ou­ torgar a Constituição de Francisco Campos. Todo o mi­ nistério endossa o golpe, exceto Odilon Braga, da Agricultura. 0 Exército cerca e fecha o Congresso. 0 govemo dissolve todos os partidos, intervém em todos os estados, exceto MG, e, naturalmente, cancela a eleição presidencial. ■ A Constituição de 37, a Polaca, inspira-se na Carta polonesa de 23/4,'35. Confere poderes discricionários ao presidente, cria um Conselho de Economia Nacional, nomeado por este e. de tipo corporativo, esvazia o Legis­ lativo, 0 Judiciário e os estados. Limita o voto direto às Câmaras Municipais. Prevé, para legitimar-se, um ple­ biscito nunca realizado. A rigor, toda a Carta de 37 é descumprida, a pretexto do estado de guen-a; Vargas gover­ na por decreto e sem limitações até 45 [8.1]. ■ A repressão aos Integralistas tem início a seguir. Vargas passa a atacar os “desvarios ideológicos” dos lalsos profetas", manda fechar jornais, prende líderes. A AIB, que aplaudiu o golpe e acatou sua dissolução, reage. Tenta, em vão, rebelar a Marinha no DF (11/3/38). Na madrugada de 11/5,50 homens atacam o Catete, sob o comando do ten. Severo Foumier, com ajuda do cel. Euclides Figueiredo [7.2] e do chefe da guarda; recuam após 5 h de combate. E o canto do cisne do integralismo, mas seus remanescentes perdu­ ram; Plínio Salgado aslia-se em Lisboa; concorre à presidência em 55. elege-se deputado em 58, pelo PRP, e 66, pela Arena; no fim da vida, vê no regime de 64 a realização dos ideais integralistas.


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Cronologia

■7.8 ESTADO NOVO / REPRESSÃO / CENSURA ■ A ditadura do Estado Novo coroa uma escalada repressiva que vem de 35-36, impulsionada pelo cenário mundial (3.7], A rigor, a normalidade constitucional pós34 vigora apenas 17 meses, pois o estado de guerra suspende d, 25/11/35 várias liberdades e direitos [7.6].

■ A lei de Segurança Nacional (4/4/35) tem um papelchave no endurecimento pré-golpe. É a 1* a concentrar seu ataque contra os “inimigos internos" do regime, inau­ gurando uma concepção que se exacerbará em 64 [9.2]. Seu autor, o min. da Justiça, Vicente Rao, justifica-a em 36 na Câmara, condenando "o doloroso anacronismo da liberal-democracla, que desarmava o Estado na luta con­ tra seus inimigos". Saudada pela AIB. contestada por ofi­ ciais em veemente manifesto do Clube Militar (24/3/35), provoca até greves de protesto, mas se afirma e é farta­ mente empregada. Endurecida na reforma de 14/12/35, dá amparo legal à repressão estadonovista. ■ As Forças Armadas alcançam proeminência inédita desde a República da Espada [6.1]. 0 Estado Novo é uma ditadura semimilitar. Os gens. Gaspar Dutra e Góis Monteiro são os fiadores do regime. Os efetivos do Exército passam de 38 mil, em 27, para 75 mil, em 37, e 93 mil, em 40. A fatia das pastas militares no orça­ mento cresce de 19,4% em 31 para 30,4% em 38. Fin­ da a efervescência rebelde de 22-35, os quartéis sâo enquadrados.

■ A figura de Vargas é o fulcro do regime. Getúlio con­ centra todos os poderes, indica todas as autoridades, encarna e simboliza o Estado Novo. A máquina estatal cultua seu nome em comícios, desfiles, cartilhas, carta­ zes, livros, músicas. Seu aniversário torna-se festa ofi­ cial, 0 “Dia do Presidente'.Nas escolas primárias os alu­ nos entoam hinos de louvor; "Salve Getúlio Vargas/O Brasil deposita sua fé/sua esperança/e seu orgulha'no chefe da nação”, ■ A ditadura fecha o Congresso, proíbe todos os par­ tidos, acusados de fomentarem a divisão nacional. Suprime a federação e queima as bandeiras dos estados em solenidade oficial. Os sindicatos vivem sob a tutela e manipulação do Ministério do Trabalho [7.5].

■ 0 DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), criado em 38, formalmente tem funçáo buro­ crática e subordina-se ao min. da Justiça; na prática, vira um supenninistério da centralização estatal. 0 sistema se reproduz nos estados: a maioria dos interventores permanece até 45: os Daspinhos (departamentos esta­ duais) se ocupam da máquina administrativa, fiscalizam os interventores (têm o poder de vetar decretos) e prefei­ tos, assumem parte das funções legislativas. ■ Filinto Muller 11900-73), chefe de Polícia do DF, co­ manda a repressão. Desde 10/1/33 a Chefatura de Po­ lícia da capital se subordina não ao prefeito mas ao min. da Justiça e diretamente ao presidente. Em abril Vargas indica para o cargo o cap do Exército Filinto Muller, extenente expulso da Coluna Prestes por covardia em 25/4/25. Cabe a ele chefiar a parle policial da ação con­ tra a ANL e o PCB 17.6], As prisões se enchem: começa as denúncias de torturas e de motivação anti-semita na deportação de Olga Benário e Elise Saborowski para a Alemanha, Em Jun-set/37 o min. da Justiça, José Mace­ do Soares, manda soltar 408 presos; é a macedada; Fi­ linto diz que só presta contas a Vargas: Macedo cai e o chefe de Polícia fica 9 anos no cargo. Sobrevive a 6 mins. da Justiça e ganha o status de uma espécie de ministro da Polícia. Cai no incidente provocado pela passeata antifascista da UNE em 4/7/42 (passa a chefe de gabinete de Dutra no Min. da Guerra; deputado e senador pelo PSD, no regime de 64 lidera a bancada da Arena no Senado e integra o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, criado pela ditadura em 71).

■ A máquina repressiva do Estado Novo celebriza policiais como Miranda Correa, Emílio Romano, Batista Teixeira e Serafim Braga. Tem assessoria do Intelilgen-

ce Service inglês e da Gestapo alemã [7.7], Policiais brasileiros e alemães torturam Harry Berger (enfiam um arame em sua uretra e esquentam com maçarico). Pres­ tes não é torturado por ser oficiai do Exército, mas fica 550 dias Incomunicável (não pode nem escrever ou ler). Carios Marighela [9.9-13], preso em 11/5/37, resiste a suplícbs como a aplicação de maçarico na planta dos pés. Também prisioneiros do levante integralista são tor­ turados: 0 ten. Severo Fournier [7.7] monre em virtude dos maus-tratos. Um sistema de classificação estimula a fidelidade e eficácia dos policiais. A Polícia Especial, tropa de choque de elite recrutaoa nos clubes espor­ tivos, é especialmente temida. A 1* e maior onda repres­ siva (35-36) atinge os comunistas e aliancistas com quase 17 mil prisões. A 2* (38) leva ao cárcere 1.500 In­ tegralistas. Em 40. a 3- Investida prende toda a direção nacional do PCB: Filinto Muller anuncia o fim do partido. ■ Memórias do Cárcere (55). livro de Graciliano Ra­ mos. expõe as entranhas da repressão (o autor é preso em 36-37). Falia Alguém em Nurenberg (47), de David Nasser, elenca as formas de tortura: “esmagavam testí­ culos com uma espwie de alicate, a que chamavam pe­ lo diminutivo de 'anjinho', corruptela de Higino, nome do escrevente da polícia que o inventou. Apertavam o crâ­ nio dos presos até que morressem ou enlouqueces­ sem". Outros: arrancar unhas e dentes com alicate, en­ fiar alfinetes sob as unhas, espancar a esposa ou filha do preso, introduzir duchas de mostarda na vagina de mulheres, queimar testículos com maçarico, seios com chanjtos e cigarros, enfiar arame nos ouvidos, a cadeira americana, a máscara de couro que impede a respi­ ração... A floresta da Tijuca serve à desova de ca­ dáveres. Só os torturadores do regime de 64 superarão 0 Estado Novo. ■ 0 DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), criado em 27/12/37 para “elucidar a opinião nacional so­ bre diretrizes doutrinárias do regime, em defesa da cul­ tura, da unidade espiritual e da civilização brasileiras’ , cuida da censura. Ocupa o Palácio Tiradentes (onde era a Câmara Federal) e monta os DIPs nos estados. 0 art. 122 da Constituição de 37 autoriza a censura prévia. Os censores pennanecem nas redações, liberando ou nâo as matérias. Uma equipe de rádio-escutas controla as rádios. 0 Diário Oficial lista os filmes, peças teatrais e programas de rádio proibidos. Boletins do DIP instmem sobre os assuntos proibidos. 0 jomal 0 Estado de S. Paulo, que se insurge contra o regime após apoiá-lo, é invadido e ocupado de 25/3/40 a 6í12/45; continua a cir­ cular sob orientação do DIP: seu diretor, Júlio de Mes­ quita Filho, se exila em 39. Cabe ainda ao DIP liberar as isenções fiscais para importação de papel de imprensa. 0 que assegura a docilidade da maioria dos jornais. ■ Compete ao DIP a propaganda do regime e seu che­ fe. concentrando serviços antes dispersos por ministé­ rios e autarquias. 0 rádio, cada vez mais presente no cotidiano da população 17.12], merece atenção especial. A Divisão de Radiodifusão do DIP produz dianamente vários noticiários, com destaque para a Hora do Brasil. E é 0 DIP que promove os grandes eventos oficiais de massa, comícios no estádio do Vasco da Gama, desfiles de trabalhadores e crianças, festividades do "Dia do Pre­ sidente’ . A tTKinocórdia propaganda de exaltação patriótico-varguista marca todo o período. ■ Uma ala da intelectualidade adere ao Estado Novo. Vllla-Lobos [6.12] compõe e rege nas cerimônias oficiais imensos corais de até 30 mil vozes e mil instnjmentos (35-37). Gilberto Amado escreve o laudatório Perfil do Presidente Vargas (36). Cassiano Ricardo e Menotti dei Pichia passam pela direção do DEIP-SP e dos jornais A Manhã e A Noite, pertencentes ao Estado. Cândido Portinarí, a despeito do engajamento de esquerda, é con­ vertido em pintor nacional oficial e recebe a encomenda de grandes painéis murais em cbras públicas. Já Ra­ quel de Queirós e Monteiro Lobato passam pela prisão.

29/12: Lei estadual (SP) pós-greve de 17 proíbe

0 trabalho de menores de 12 anos e o trabalho noturno feminino e infantil • Exposição pré-modernista de Anita Malfatti causa escândalo em São Paulo • 1’ frigorífico no Brasil, o Armour, de capitais norte-americanos, no RS • Manuel Bandeira publica A Cinza das Horas • Menotti dei PIcchia publica Juca Mutato 1918 15/3: Eleição presidencial; Rodrigues Alves ganha (386 mil votos) mas não leva; morre (16/3/19) de gripe espanhola 1/5: Lima Barreto defende a Revolução de 17 no artigo “O Ajuste de Contas" 9/8: Greve nas barcas da Cantareira, RJ, termina em repressão e derrota Outubro: Auge da gripe espanhola em SP; 8 mil mortos em 4 dias 11/11: Rendição da Alemanha, fim da I Guerra Mundial 15/11 : A gripe espanhola ataca 44% da população do RJ; 14.459 mortos 15/11: Delfim Moreira, vice, assume a Presidência no lugar do presidente eleito Rodrigues Alves 18/11: Greve geral no Rio-NIterói; choques 18/11: Revolução na Alemanha derrotada; o Kaiser foge: República: agitação operária 18/11: Insurreição anarquista delatada e abortada no RJ; Oiticica e Astrojlldo presos 22/11: O pres. Delfim Moreira fecha sindicatos em greve no RJ; 200 presos 10/12: O líder anarquista José Oiticica é deportado para AL 28/12: Berta Lutz. bióloga formada na Sorbonne, publica artigo pró-díreitos da mulher 1918-19: Reforma do vale do Anhangabaú, São Paulo • A gripe espanhola mata 20 milhões no mundo, 300 mil no Brasil, 18 mil no RJ • Extinta a Guarda Nacional • Fortes geadas queimam cafezais em SP • Urupés, de Monteiro Lobato • Estréia de Francisco Alves, futuro Rei da Voz 1919 2/1 : Confer6ncia de Versalhes fixa regras do pósguerra; o Brasil envia delegação 7/1: Semana Trágica na Argentina; 2 mil operários mortos 23/2: Intervenção federal na BA conflagrada por guerra de coronéis 2-6/3: 1» Congresso da III Internacional, em Moscou; 52 delegados, nenhum do Brasil 16/3:0 presidente eleito (mas ainda não empossado) Rodrigues Alves morre de gripe espanhola, no RJ 13/4; Nova eleição presidencial: Epitácio Pessoa vence Rui Barbosa (294 mil votos a 118 mil) 1* de Maio no RJ com 50 mil participantes, sob influência da Revolução Russa 4/5: Rebelião patriótica estudantil na China 17/5: Greve nas docas de Santos. SP, consegue a jornada de 8 h de trabalho 20/5: Fundada em São Paulo a Sociedade Rural Brasileira. SRB IMalo-junho: Greves em São Paulo, Porto Alegre, Recife, Salvador, Niterói, Curitiba 10/6: Greve geral em Salvador conquista a jornada de 8 h nas oficinas estatais da BA 17/6: Começa a circular no RJ O Jornat 21/6: Fundado o 1® Partido Comunista do Brasil, semi-anarquista e de vida curta 28/7: Posse de Epitácio Pessoa 11/8: A jovem república alemã aprova a Repúblk» de Weimar 31/8-11/9: Greve geral em Porto Alegre, a partir da Light, reprimida a tiros

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Cronologia

7.9 ENGAJAMENTO NA II GUERRA / UNE

7/9: A Plebe passa de semanário a diário próanarquista 20/10: Grande greve em São Paulo: estudantes conduzem os bondes: a policia fecha A Plebe e deporta seus redatores 26/10: Banidos do país como anarquistas mais de 100 Ifderes sindicais de São Paulo. Rio de Janeiro, Niterói, Sâo Bernardo, Santos

■ A II Guerra Mundial (1/9/39-2/9/45), a maior da his­ tória, mobiliza 92 milhões de homens, custa 55 milhões de vidas, estende seu iront por todos os continentes exceto as Américas e muda o cenário mundial. Opõe o Eixo (Alemanha. Japão. Itália) aos Aliados (Inglaterra, França, China, União Soviética. EUA). Afora o con­ tencioso deixado pela I Guerra, a disputa de territórios e áreas de Influência envolve o conflito ideológico entre nazifascistas [7.7] e seus adversários (liberais, socialis­ tas, comunistas).

29/12; Horácio de Matos e outros coronéis iniciam guerra na BA • Ano de seca no Nordeste • Pela 1® vez 0 Brasil é campeão sul-americano de futebol • Espectros, 1' livro de Cecília Meireles 1920 10/1: Criada a Liga das Nações 20/2: Eleições parlamentares 3/3: Acordo de paz entre o govemo da BA e Horácio de Matos, poderoso coronel das Lavras Diamantinas, põe fim à guerra no estado 7/3: Greve dos ferroviários da Leopoldina, RJ; 1.600 presos num só dia 27/3: O pres. Epitácio Pessoa recebe 27 líderes sindicais "amarelos” do RJ 31/3: Greve na Mojiana: 4 mortos e vários feridos na estação de Casa Branca, SP 25-30/4: 3° Congresso Operário, no RJ; 135 delegados 12/5: A Ford é autorizada a montar automóveis em SP (na r. Florôncio de Abreu) 29/6: Para vingar a morte de seu pai, Lampião entra no cangaço 1/8: Gandhi lança campanha anticolonialista na India 18/8: As mulheres dos EUA conquistam o direito de voto 1/9; 0 4» censo conta 30.635.605 habitantes (5.2% estrangeiros): na verdade, exagera em mais de 3 milhões 7/9: Criada a 1* universidade do país, a do RJ. mera colagem de faculdades para fazer o rei da Bélgica doutor honoris causa 12/10: Paz de Riga; os soviets vencem a Guerra Civil na Rússia • O 1" autom óvel chega ao Carin. CE

• Vllla-Lobos inicia a composição de seus M Choros • Epitácio Pessoa veta a participação de negros na seleção brasileira de futebol 1921 9/1 : O RJ recebe os restos de Pedro II 17/1: Lei de Repressão ao Anarquismo (nova Lei Adolfo Gordo) 1/2:1» transporte postal aéreo 4/2: Greve dos marítimos no RJ: choques, vários mortos e feridos a bala e baioneta 19/2: Começo o circular om Sào Paulo o jornol

Folha da Noite 13/4: Polêmica sobro os <t0 mil guardas brancos do general anti-soviético russo P. N, Wrangol que emigram para o Brasil 1/5: O Brasil está ausente no Congresso da Internacional Sindical Vermelha, em Moscou Maio: Hermes da Fonseca eleito presidente do Clube Militar 9/10: Episódio das cartas falsas: o Correio da Manhã publica carta atribuídaja Artur Bemardes. julgada ofensiva à alta hierarquia militar 17/10: Epitácio Pessoa anuncia política da defesa permanente do café 7/11: Fundação do Grupo Comunista do RJ (Astrojildo Pereira) 28/12: O Clube Militar, por 439 votos a 112. julga autênticas as cartas de Bernardos ® exige

a renúncia deste 1921-24: Construção dos grandes açudes de Orós e Poço dos Paus, CE, Pilões, Sâo Gonçalo e Curema, PB 136

Numa 1‘ fase o Eixo se expande com rapidez

[blitzkrieg, guerra-relámbago): Hitler domina a Europa da Polônia aos Pirineus, invade a URSS e chega às portas de Moscou: 0 Japão avança pela China, ocupa o Sudeste Asiático e ataca os EUA em Peart Harbor. Ao entrarem na guerra, a UlíSS e os EUA invertem o balanço de forças. A batalha de Stalingrado (2/2/43, 200 mil alemães mortos, 90 mil presos) marca a contra-ofensiva dos Aliados, refor­ çada pelo desembarque da Normandia (6/6/44). Em 22/4/45,0 Exército Vermelho entra em Beriim; a Alemanha capitula; a guerra continua no Pacifico até a rendição japonesa (2/9). sob o impacto das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki (6-9/8). ■ Na América Latina, a Alemanha nazi já nos anos 30 busca aliados e mercados. Tem adeptos sobretudo na imi­ gração alemã e nos quartéis (Argentina, Brasil. Chile). Porém a economia, a história e a geografia alinham o con­ tinente aos EUA. Estes ampliam sua presença com a Política de Boa Vizinhança: aumentam seus assessores militares na América Latina, de 6. em 37, para 100, em 41 ; hegemonizam as linhas aéreas: na área cultural e ideoló­ gica, investem no rádio; seus programas em ondas curtas cobrem 24 h por dia em 41.

defendem o rompimento de Iodos os participantes com o Eixo (só 0 obtém em parte, devido à resistência da Argen­ tina e Chile). 0 Brasil estreita a colaboração militar com os EUA e, no último dia da Conferência (28/1), corta relações com a Alemanha e a Itália, contrariando os gens. Góis Monteiro e Dutra. ■ A Alemanha retalia afundando navios brasileiros, 0 1'’ é 0 cargueiro Buarque. posto a pique por um submarino alemào na Costa dos EUA; em 7 meses são 19 navios, 75 mil f., 740 mortes. Os ataques são parte da guerra su^)marina da Alemanha; visam bloquear o abastecimento dos Aliados através do Atlântico (só em 42, EUA e Inglaterra perdem 8,2 milhões de t.). ■ A pressão interna para o Brasil entrar na guerra aumenta após os afundamentos. A UNE convoca um grande ato no Rio em 4/7, dia da Independência dos EUA, com apoio de Osvaldo Aranha (2 de seus filhos partici­ pam). Rlinto Muller promete repressão, mas termina força­ do a demitir-se após 9 anos como chefe de Polícia [7.8]. Na passeata, liberada, mil estudantes apóíam a demissão e exigem o engajamento do Brasil no conflito. ■ A declaração de guerra. Em 15-17/8aAlemanha afun­ da mais 5 navios brasileiros (610 mortos); grandes protestos nas capitais (18'8) exigem a declaração de guer­ ra; no Rio a passeata vai até o Catete: Getúlio se soli­ dariza mas não se compromete. A 21/8 sai o estado de beligerância e a 31/8 a declaração de guerra, propria­ mente, à Alemanha e à Itália; 6 dias antes, o gen. Góis Monteiro [7.7] afasta-se do Estado-Maior do Exército ale­ gando razões de saúde. A pressão popular se amplia, agora visando o envio de combatentes, que se efetiva 2 anos depois [7.10]. A União Nacional dos Estudantes

■ 0 governo Vargas nos anos 30 se aproxima de Ber­ lim. Um acordo comercial (34), pelo sistema de claring (exportações pagas com marcos de compensação, váli­ dos apenas para comprar produtos alemães), expande o comércio bilateral; em 36-38. a Alemanha supera os EUA como maior exportador para o Brasil. Em 38, o Min. da Guerra encomenda armas à Krupp (em 20/11/40 a Ingla­ terra apresa o navio Siqueira Campos, que transporta es­ sa carga, gerando um atrito diplomático Rio-Londres). 0 govemo abriga germanófilos (gens. Outra e Góis Mon­ teiro, Francisco Campos. Filinto Muller [7.8]) e americanistas (Osvaldo Aranha). 0 próprio Getúlio faz a bordo do encouraçado Minas Gerais (11/6/40) um discurso de vir­ tual adesão ao Eixo (“Os países fortes tém direito de bus­ car um lugar ao sof; Mussolini telegrafa seu aplauso). Mas proíbe o ensino em alemão, a atuação política de Imigrantes e envia aos EUA a Missão Aranha (fevmar/39). Sinalizações contraditórias e neutralidade obe­ decem a um cálculo: em conversações simultâneas com a Alemanha e os EUA, o Brasil barganha condições para equipar as Forças Armadas e sobretudo implantar sua siderurgia (7.10). ■ A opção pelos Aliados só ocorre quando os EUA deci­ dem fnanciar a Companhia Sidenjrgica Nacional (set/40). em troca de exclusividade na compra da bauxita. berilo, cromila, ferro-níquel. manganês, diamantes industriais, cristais de quartzo, titânio, zircõnio e borracha do Brasil. Em ouV40 é Criada a comissão militar mista Brasil-EUA. Washington deseja bases militares na cosia nordestina, escala estratégica na rota aérea do Atlântico Sul. via Natal e Dakar obtém permissão para usar os aeroportos entre Belém e Salvador patrulhar a costa nordestina: e manter marines (fuzileiros navais) em Belém, Natal e Recife ■ Os EUA entram na guerra após o ataque japonês a Peari Harbor, Havaí (7/12/41); abandonam a linha de neu­ tralidade formal e aliança não-escrita com a Inglaterra; declaram guerra ao Japào (8/12), Alemanha e Itália (11/12), seguidos, no mesmo dia. por todos os países centro-americanos; antecipam a Conferência do Rio de Janeiro (3* Reunião de consulta dos mins. de Relações Exteriores das repúblicas americanas) para 15/1/42; e

■ 0 movimento estudantil tem uma história antiga, ain­ da que descontínua. No Império, integra a Campanha Abolicionista; defende a República e Floriano, combate a Revolta da Armada; participa da Revolta da Vacina; atua na Campanha Civilista; repudia a greve geral de 17 e chega a se oferecer para conduzir os bondes paralisa­ dos; alista-se em massa na Revolução de 32; em 34-35, adere em parte à ANL [7.6] e ã Juventude Comunista, em parte à Integralista; na campanha de 37 tende a apoiar José Américo. ■ As organizações pré-UNE são locais, na maioria com vida curta, algumas secretas (a Bucha, na Fac. de Direito de S. Paulo); poucas se afirmam, como o CA 11 de Agosto (Direito S, Paulo) e o Caco (Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, da Fac. de Direito do Rio). Em 13/8/29 é criada no Rio a Casa do Estudante do Brasil, presidida por Ana Amé­ lia Carneiro de Mendonça, subvencionada pelo govemo. ■ A fundação da UNE (11/&'37) é decisão do 1« Con­ selho (Congresso) Nacional de Estudantes, instalado no Rio pelo min. da Educação. Gustavo Capanema. 0 estatu­ to prevê um conselho nacional, com representantes de todas as entidades, uma executiva nacional e secretanas estaduais: a discussão de temas políticos é proibida. 0 1“ presidente é Valter de Sá Cavalcanti, do CE. No 2° Con­ gresso da UNE (5-22/12/38, teatro Municipal, Rio) já par­ ticipam 80 associações, universitárias e secundaristas (a Ubes surge como entidade autônoma em 47); Capanema anuncia seu reconhecimento oficial. 0 batismo de fogo da entidade é a passeata de 4/7/42. Rompido o apoliticismo. a UNE lança o lema da União Sagrada dos Brasileiros, uma campanha pró-bonus de guerra e uma secretaria de defesa nacional, incumbida do combate à “quinta-coluna” (partidários do Eixo). ■ A sede da UNE no início é na Casa do Estudante; di­ vergências provocam um despejo (39) e ela se instala no DCE da Universidade do Brasil. Ouando Vargas fecha o Clube Gennãnia, acusado de filonazista, os estudantes pe­ dem a sede do clube, na praia do Flamengo. Rio, para ssdiar a entidade. Como a resposta oficial tarda, ocupam o prédio (18/4/42), incendiado e fechado no golpe de 64 [10.1].


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Cronologia

7.10 A FEB NA II GUERRA------------

• Fundação da Companhia Belgo-MInelra

■ A pressão para o Brasil entrar na guerra parie da frente interna. Os EUA. que apadrinham a presença brasileira no œ nfito. estão mais interessados no que já obtiveram; material estratégico (minérios, borracfia), bases aéreas e navais no Nordeste [7.9]. Não se empen­ ham no envio de soldados brasileiros. Mas dentro do pais há quem se empenhe; os estudantes da UNE; forças antifascistas como o PCB (que se rearticula em 43 sob a bandeira da União Nacional Para a Guenci [8.2]); áreas militares, interessadas em equipar as Forças Ar­ madas, adquirir experiência de combate e prestígio. A opinião pública simpatiza com a Idéia.

• Reinações de Narizinho. de Monteiro Lobato • Di Cavalcanti expõe no RJ 1922

13-17/2: Semana de Arte Moderna escandaliza e fascina São Paulo 22/2: Virgulino Ferreira, Lampião, oferece sua música Mulher Rendeira à tia Jacosa 1/3: Eleição presidencial: Artur Bemardes vence Nilo Peçanha, da oposicionista Reação Republicana; suspeita de fraude, protestos 2273-19/4; Gago Coutinho e Sacadura Cabral (portugueses) sobrevoam pela 1* vez o Atlântico Sul, de Lisboa ao RJ, com escalas 25/3; Congresso de fundação do Partido Comunista do Brasil (PCB), no Rio-NIterói 2/4: Stalin eleito secretàrio-gerai do PCUS 15/5; Entra em circulação a revista Klaxon, porta-voz dos modernistas, SP 26/5: Tropa federal ocupa Recife, cindida por disputa entre oligarquias 2/7: Epitácio Pessoa m anda fechar o Clube tvtilitar e prende seu presidente, mal. Hermes

5/7: Sublevações militares no RJ (forte Copacabana) e Campo Qrande, MT 5/7-31/12/23; Estado de sítio no país 6/7; Episódio dos “18” do Forte que combatem até a morte em Copacabana, RJ 13/7; Os tenentes rebeldes de Campo Grande se rendem em Três Lagoas. MT 23/7; Fundado o PC da China, entâo com 57 filiados 9/8: Berta Lutz funda a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, empenhada no direito de voto 6/9: Oficializada a letra (de 1909) de 0 . Duque Estrada para o Hino Nacional 7/9: Abre-se a Exposição do C entenário, SP:

E. Pessoa discursa na 1* transmissão radiofônica 27/10: A Marcha Sobre Roma leva a Itália a 20 anos de regime fascista 15/11: Posse de Artur Bemardes, cercado por tropas e baionetas 25/11: 1* eleição disputada no RS; pela 5* vez Borges de Medeiros vence, com 106 mll votos para 32 mil de Assis Brasil 30/12: Congresso dos SoWefscria a Uniâo Soviética (URSS) • Paullcéia Desvairada, de Mário de Andrade • Excursão de Pixinguinha e seus Oito Batutas, financiada por A. Guinie; faz o sucesso do samba por 6 meses na Europa • Aplainado o morro do Castelo. RJ

• James Joyce publica Ulisses 1923 10/1: Intervenção federal no RJ devido a manifestações oposicionistas 24/1; Lei Elói Chaves cria caixas de aposentadoria e pensões para ferroviários. 1° embrião de previdência social no país 25/1: Borges de Medeiros assume pela 5* vez

o governo do RS; a oposição contesta o resultado e Inicia a guerra civil 7/2-21/4: Gráficos de Sâo Paulo vencem greve de 42 dias; o 7/2 vira Dia do Gráfico 1/3: Rui Barbosa morre em Petrópolis, RJ, aos 74 anos; luto oficial, povo ausente 20/6: São Paulo ganha sua lei de zoneamento Agosto: Nova Lei de Imprensa 3/9: Acordo entre o coronel Zé Pereira de Princesa.

PC. e Lampião (rompido depois) 7/9: Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, de Roquete Pinto. 1* do país, com 100 watts 27/9: Surge o Automóvel Clube do Brasil 12/11: Hifler é preso após golpe frustrado 14/12: Borges de Medeiros e Assis Brasil assinam Convênio de Pedras Altas; cessa a guerra de maragatos e republicanos no RS 138

■ A decisão de enviar combatentes é de 9/a'43,1 ano após a declaração de guen-a e com exame prévio na co­ missão mista Brasll-EUA; o Min. da Guerra estrutura a 1* Divisão de Infantaria Expedicionária (1® DIE), com 3 regi­ mentos de infantaria, 4 grupos de artilharia, 1 esquadrão de cavalaria mecanizada. 1 batalhão de engenharia e forças auxiliares (saúde, intendérwia. manutenção, polí­ cia). A recém-criada Força Aérea Brasileira forma um gnjpo de pilotos de caça. 0 plano é criar todo um corpo de exército com 3 divisões, mas só a 1* se efetiva. A di­ visa da DIE é ‘ A cobra está fumando' (de origem des­ conhecida, segundo alguns é uma resposta aos céticos que diziam ser mais fácil uma cobra fumar que o Brasil entrar em combate); a do grupo da FAB é "Senta a pua". ■ A FEB (Força Expedicionária Brasileira, nome só usado no pós-guerra, d. jul/45) reúne 25.267 homens e 67 mulheres (enfermeiras), dos quais 15.069 formam a tropa em ação de combate. Parte dos oficiais superiores é adestrada nos EUA. Já os pracinhas (designação usa­ da no masculino, podendo se referir também aos com­ batentes da FEB em geral) são mobilizados de dez/42 a jul/44. tanto em unidades militares como entre voluntá­ rios reservistas de 1* e 2 ' categorias, com 20-30 anos; em geral vèm do campo e da massa trabalhadora; mui­ tos são casados, alguns com família numerosa. 0 1 * es­ calão (5 mil homens) desfila pelo Rio sob aplausos em 21/3 e 24/5/44; parte para a Itália em 2/7 e tem seu ba­ tismo de fogo a 15/9. em Vada-Ospedaletto. 0 5* escalão, que completa a divisão brasileira, deixa o Rio em 8/2/45.

■ 0 comando é do general Mascarenhas de Moraes (1883-68). A chefia do 1' escalão cabe ao gen. Zenóbio da Costa; o do 2'. ao general Cordeiro de Farias. Entre os oficiais da FEB figuram os então tenente-coronel Cas­ telo Branco. Amaury Kmel. Henrique Lott. Golberi do Couto e Silva. ■ 0 quadro militar quando a FEB chega à Itália é de recuo do Eixo em toda linha. Na frente européia oriental 0 Exército Vermelho expulsa os alemães da URSS (exceto um bolsão no Báltico), avança pela Polônia e Hungria. 0 desembarque da Normandia (Dia D, 6/6/44) abre a frente européia ocidental; 1 milhão de soldados anglo-americanos tomam o norte da França; uma insur­ reição guerrilheira liberta Paris (19/8). Nos Balcâs, os nazistas evacuam a Grécia (25/8) e recuam ante as tropas soviéticas e guerrilhas. A frente norte-africana de­ saparece após a capitulação ítalo-alemã de 13'5/43 (que elimina o perigo de uma Invasão do Brasil). Na frente do Pacífico a ofensiva aliada salta de ilha em ilha. ■ A campanha da Itália Inicia pela Sicília (10/7/43) e sul da bota latina (9/9); vence os alemães em monte Cassino e Anzio. ocupa Roma (4/6). A pedido da cúpula fascista. 0 rei demite e manda prender Mussolini; insta­ la-se em Brindisi o govemo Badoglio. que assina (8/9) um armistício com os Aliados. Mussolini, libertado por um comando da SS, cria no norte a República de Saló, fantoche da Alemanha. A campanha está a cargo do 5 ' Exército, comandado pelo general Mari( Clarit (EUA); 10 das suas divisões lutam desde 15/8/43 no sul da Fran­ ça (Operação Dragão). Outras 10 ficam na Itália para romper a Linha Gótica, sistema defensivo erguido pelos alemães nos montes Apeninos; formam 3 corpos de

exército; o 8* (Inglês), o 2° e o 4«. A 1• DIE se integra ao 4’ corpo, tendo o celoronel Vernon Walters (8.25] como oficial de ligação com o comando do gen. Clark. 0 4° corpo conta ainda com 1 divisão sul-africana e 2 ameri­ canas. a 92* (integrada só por soldados negros) e a 10* de Montanha. Em seu apoio atuam perto de 100 mil partigiani (guerrilheiros) da resistência italiana.

■ Uma vez no cenário da guerra, a FEB enfrenta inúmeras dificuldades. Os métodos, processos, sis­ temas e técnicas, armas, fardas, provisões tudo é ame­ ricano e novo para os brasileiros, formados na escola militar francesa. A tropa, despreparada, precisa receber treinamento elementar em Vada antes de seguir para o Ironl. 0 rigoroso inverno dos Apeninos triplica as baixas por doença. Surgem divergências entre o general Mascarenhas e outros oficiais e questionamentos do desrespeito, pelos americanos, do acordo que garante o não-desmembramento e o comando brasileiro da FEB. Já os americanos se queixam acidamente dos bra­ sileiros; dizem que quase toda a oficialidade precisaria passar por um curso de comando e estado-maior; que os soldados seriam carentes de instrução, adestramen­ to, preparo físico, Iniciativa e interesse pela guerra, embora resistentes. ■ Os combates da FEB passam por 4 fases; 1) a do 1° escalão, em que o destacamento Zenóbio atua no vale do Amo, conquistando as posições de Camaiore e monte Prano; 2) a da margem oeste do Reno, buscando o conJrole da rodovia 64, que dá acesso a Bolonha; 3) a san­ grenta ofensiva sobre as defesas alemãs dos Apeninos, que inclui monte Castelo; e 4) a ofensiva final, pelo vale do Pó. com as vitórias de Montese, Collechio e Fomovo. ■ Monte Gastello é uma das posições fortificadas da 232* divisão alemã na Linha Gótica; protege monte Castelnuovo, a cavaleiro sobre a rodovia 64, que leva a Bo­ lonha e ao vale do Pó. Os alemães rechaçam um ata­ que direto a Casteinuovo (30/10/44); além do bombar­ deio. lançam panfletos em português ridicularizando a tutela americana sobre a FEB. Fracassam também, com pesadas baixas, as investidas de 24-25/11 sobre monte Gastello a cargo da Task Force 45, integrando unidades dos EUA, Brasil, Inglaterra e guerrilheiros italianos. A FEB, sob 0 comando do general Zenóbio. volta a atacar 0 monte em 29/11 e 12/12; o mau tempo, a lama e o ne­ voeiro castigam os pracinhas e impedem o apoio aéreo; os alemães se mantêm; suas baixas são 24. as brasi­ leiras. 330. A 21/2/45, o 4® e último ataque da FEB. com apoio de 2 pelotões de tanques dos EUA. toma afinal o monte Castello, enquanto a 10* divisão dos EUA con­ quista 0 vizinho monte Belvedere. 0 combate começa às 5:30 h; às 17:30, os 1" pracinhas do Regimento Sampaio chegam ao topo do monte. Os brasileiros têm 87 baixas, os alemães 23. A tomada da “inexpugnável fortaleza germânica” (gen. Mascarenhas) é festejada no Brasil e entra na crônica militar brasileira como o prin­ cipal feito da FEB. Casteinuovo é tomado em 5/3. ■ Vencida a Linha Gótica, o avanço aliado se acelera. A FEB enfrenta a dura batalha de Montese (426 baixas), ainda nos contrafortes dos Apeninos. a 14/4. Em Fornovo. 28/4. a divisão brasileira corta a retirada da 148* DIE. fazendo 14.779 prisioneiros, entre eles 2 generais. A 2/5. em Susa. faz a junção com as tropas francesas; 6 dias depois a Alemanha capitula. ■ No total a FEB luta por 239 dias; enfrenta 10 divi­ sões alemãs e 3 italianas; faz 20.573 prisioneiros e tem 35 aprisionados; 1.577 pracinhas são feridos em ação e 443 mortos (a maioria am monte Castelo e Montese), que repousam no cemitério de Pistoia até seu traslado para o monumento da praia do Flamengo, Rio (5/10/60). 0 Brasil é a única nação latino-americana a combater na II Querra. Sua contribuição, embora modesta se comparada a outros países, alinha-o no campo do antifascismo e determina, no plano interno, a democratiza­ ção de 45 [8.1].


Avanço aliado 5® Exército antes do engajam ento da FEB

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Cronologia

7.11 ECONOMIA / VOLTA REDONDA / NOVO MODELO

20/12; Decreto cria o Juizo de Menores 26/12; Sai a sentença dos rebeldes de 22; 50 oficiais condenados, 11 deies à revelia 28/12; Em Ponta Grossa, PR. tenentes tentam prender o ministro da Guerra • A FIFA reconhece a CBD • Hiperinflaçào na Alemanha; 1 dólar = 4.2 trilhões de marcos

■ A implantação da grande siderurgia é compromisso do regime de 30 p .i]. Vargas já em fev/31 afirma em Belo Horizonte: “0 problema máximo de nossa econo­ mia é 0 sidenlrgico. Para o Brasil, a idade do ferro mar­ cará 0 período da sua opulência. Nacionalizando a indústria sidenjrgica. daremos um grande passo na escalada ao alto destino que nos aguarda*. 0 padrão industrial da época se baseia no ferro-aço, pet'oleo e eletrificação. Esta avança explorada por grupos estran­ geiros (Light, Amforp); em 27 entra em operação a gran­ de hidrelétrica de Cubatão. SP. original projeto do eng^ Kenney Billings [1876-49], que desvia as águas do Tieté para a serra do Mar. 0 petróleo só é achado em 38 e ga­ nha impulso após 53 [8.4]. Mas desde 1908 o Serviço Geológico e Mineralógico faz o levantamento das imen­ sas jazidas fem'feras de MG; na época o país importa quase todo o ferro e aço que consome (a auto-suficléncia em ferro-gusa é alcançada em 30; lingotes de aço, 45. laminados, nos anos 60). Os industriaiistas indicam a sidenirgia como chave do progresso nacional.

1924 21/1: Morre Lenin; 1 milhão vai ao velório; o corpo, embaisamado, continua exposto mesmo após 0 fim da URSS 24/3: O Correio da Mantiã publica o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, do modernista Oswald de Andrade 29/3: Góis Calmon empossado no govemo da BA. a força de intervenção federal 16/4: 1“ máquinas de franquear no Correio 1 ' de Maio cindido e fraco: no RJ 1.500 vão à pça Mauá, 500 à 11 de Junho; em SP há ataques à URSS, os comunistas se retiram 19/6: Conferência de Graça Aranha leva ao RJ o espírito da Semana de Arte Moderna 5/7: Sublevaçâo tenentista ocupa São Paulo (até 28/7); legalistas bombardeiam a cidade, populares saqueiam armazéns 5/7: Estado de sítio em SP, DF, RJ. estendido (14/7) ao AM. PA, SE, BA, PR. SC. RS. MT e prolongado até 31/12/26 8/7: 0 governo de SP abandona a cidade nas mãos dos tenentes revoltosos 12/7; O arcebispo d. Duarte pede em vão a Bemardes o fim do bombardeio de SP 12/7; Tentativa de levante tenentista em Bela Vista. MT 13/7: Levante tenentista em Aracaju. SE (mantém-se até 2/8) 23/7: Levante tenentista em Manaus. AM. com forte marca social (dura até 28/8) 27/7: 0 bando de Lampião toma Sousa. PB 27/7: 3.500 rebeldes de Isidoro-Miguel Costa abandonam SP. aimo ao Oeste 28/10; O cap. Prestes lidera levante tenentista no RS. com centro em Sto. Ângelo 4/11: O ten. H. Cascardo rebela no RJ o encouraçado SP e a torpedeira Goiás 26/12: Zarpa do Rio o 1» navio com presos políticos (250) para a colônia-presidio de Clevelãndia. AP; 43% morrem 27/12: A coluna de revoltosos do RS rompe o cerco e marcha para o PR • Thomas Mann publica A Montanha Mágica • Mein KampI (Minha Luta), de A. Hitler; despreza os brasileiros, por "mestiços" 1925 20/1 : Vitória da Coluna da Morte do ten. Joâo C abanas em Formioas. PR

26/1 ; Inaugurada a fâbnca da General Motors em Sâo Paulo: monta 25 carros/dia 27-30/3; Derrota dos tenentistas em Catanduvas. PR 11/4: Uniâo dos tenentes rebeldes de SP e RS forma, no PR, a Coluna Prestes 1« de Maio: É feriado pela 1* vez no Brasil (Bemardes o decreta em 26/9/24) 1/5: Começa a circular o jomal A Classe Operária. órgão do PCB; tiragem. 5 mil 2/5: Levante tenentista. fnjstrado. no 3° Regimento de Infantaria. RJ 10/6; Reestruturação da Coluna; Prestes assume a chefia do seu Estado-Maior ^r^: Começa a circular em Sâo Paulo o jomal Foiha da Manhã 29/10; G. Warchavchik defende a arquitetura moderna em artigo no Correio da Manhã 24/12: A lei já garante férias, de 15 dias/ano. a Industriários. comerciários e bancários 140

■ Antecedentes. 0 Brasil fabrica ferro desde 1597; fin­ da a proibição das indústrias em 1808 [3.2], começam as tentativas de implantar altos-fomos (Varnhagen, SP, Eschwege e Monlevade, MG), mas a tecnologia precá­ ria e o recurso ao braço escravo não têm como en­ frentar a concorrência dos importados ingleses. Só em 1888 afimia-se a 1« usina, a Esperança (Queirós Jr.), em Itabirito, MG, com minério de Itabira e carvão vege­ tal. Nilo Peçanha tenta atrair capitais estrangeiros ofe­ recendo subsídios e concessões com direito de mono­ pólio (1909); grandes empresas (Itabira Iron Ore Com­ pany, dona do pico Cauê, MG, a montanha de ferro;The Saint John Del rey Gold Mining. Brazilian Iron and Steel, Deutsch Luxemburguich Beuarek in Huten Ackitiengeseilschft, Société Civil des Mines de Fer, Bracfiy Falls) compram terras, o que até a Constituição de 34 confere a propriedade do subsolo [7.4]; mas em geral não exploram o minérios, nem muito menos insta­ lam sidenjrgicas. ■ Percival Farquhar, investidor dos EUA com muitos negócios no Brasil [6.10], adquire as terras de itabira (1911) e propõe a Epitácio Pessoa (1919) um megaprojeto integrado: nova ferrovia, porto de minérios no ES. exportação maciça e uma siderúrgica. 0 contrato passa no Congresso (20) apesar da oposição naciona­ lista de MG (Artur Bemardes). A Itabira Iron passa a exportar minérios, mas não constrói a sidenjrgica e renegocia o contrato sem ela (28). Em 42 Vargas a nacionaliza e suas jazidas passam à Companhia Vaie do Rio D x e , criada em 1/7/42. ■ A Belgo-MInelra forma-se em 21 com a incorporação da Cia. Siderúrgica Mineira pela Acieries Réunies de Burbach-Eich-Dudelang, de capital belga e luxemburgués; reforma a usina exisiente em Sabará, ergue um alto-forpo em Monlevade (1* corrida de aço. abr/38) e monopolisa a sidenjrgia brasileira: em 40, produz 62,5% do fero-gusa, 60.6% do aço em lingotes. 70.6% dos laminados do pais. ■ Vargas cria uma Comissão Siderúrgica Nacional (31), ligada ao Min. da Guerra, e mantém o discurso de que 0 Brasil deve ingressar na era do aço. Passam os anos, e os planos: só sob o Estado Novo [7.7] o gover­ no assume a iniciativa, sob pressão inclusive de setores militares procupados com a auto-suficiência Industrial do pais. num mundo que marcha para a guerra. A decisão de implantar a siderurgia pesada se consolida; resta escolher o seu modelo; empresa estatal com financiamento estrangeiro, empresa mista, com partici­ pação privada, ou empresa privada, com participação estrangeira e supervisão estatal. A Du Pont, dos EUA, envia uma equipe ao Brasil (37) mas a seguir se de­ sinteressa; a US Steel propõe (39) uma grande usina em Sepetiba, RJ, com participação minoritária nacional, mas impõe como condição que o governo modifique certas leis nacionalistas, e por fim desiste também.

■ A concorrência EUA-Alemanha e a II Guerra [7.9] tém papel decisivo na viabilização do projeto siderúrgico. Vargas, pragmático, envia o tenente-coronel Macedo Soares a Beriim e o min. do Exterior Osvaldo Aranha a Washington (38), usando uma missão como argumento nas negociações da outra. Quando as empresas ameri­ canas se desinteressam do projeto, faz o célebre pro­ nunciamento fascistizante de 40 a bordo do Minas Gerais [7.9]; o secretário de Estado dos EUA registra em carta o risco de uma “imediata aceitação peio Brasil de uma oferta alemã para a construção da usina”. Interes­ sado nas matérias-primas brasileiras e no papel estra­ tégico da costa nordestina do Atlântico Sul, o govemo de Washington decide bancar o projeto siderúrgico. Em set/40 sal 0 acordo para a constnjção da grande usina, financiada por um crédito de US$ 20 milhões de dólares do Eximbank, depois aumentada para 45 milhões. 0 Brasil se compromete a manter engenheiros e adminis­ tradores americanos na empresa. ■ 0 projeto de Volta Redonda fica a cargo da Com­ panhia Siderúrgica Nacional, fundada em 9/4/41 e dirigida pelo industrial Guilherme Gulnle. Após tentar atrair investimentos privados, sem muito êxito, a CSN forma seu capital com recursos do estado, das caixas econômicas e institutos de previdência. 0 local escolhido é Volta Redonda, mera fazenda e parada de trem às margens do Paraíba do Sul (deve seu nome a uma curva do rio): fica entre o Rio e S. Paulo, os dois pólos urbanos e industriais do país. equidistante do minério de MG e do carvão de SC; já é servida pela ferrovia, tem água doce abundante,mão-de-obra bara­ ta, a altitude (418 m) é julgada mais salubre, e a distân­ cia do litoral, conveniente por razões militares (Vitória, ES, e Sta. Cruz, DF, seriam vulneráveis a um ataque inimigo). Decide-se usar pela 1* vez no país coque siderúrgico e não carvão vegetal; o carvão mineral de SC, embora com problemas de qualidade é considera­ do satisfatório. ■ A usina começa a ser construída em 41, pela firma Arthur G. McKee & Co: em 45 esta já concluiu 80% da obra: em abr/46 o setor de coque começa a funcionar, em junho, a aceria e o alto-forno; em 48. a área de laminação (Getúlio. derrubado em 45. não é convidado para a Inauguração). Volta Redonda logo suplanta a BelgoMineira; em 49 responde por 40% da produção nacional de gusa. 50,9% da de lingotes de aço, 45,3% da de laminados. Sofre sucessivas ampliações (53, 60, 65), elevando sua capacidade para 2 milhões de tons/ano e serve de matriz para outras grandes sidenjrgicas estatais (Usiminas, 62, Cosipa, 63, Açominas, 85). ■ 0 debate sobre o modelo econômico tem um pon­ to alto na época com polêmica de 43-44 entre Roberto Simonsen [1889-48], presidente da Fiesp. industrialista. e Eugenio Gudin [1886-86], expoente da escola monetarista liberal. Numa série de artigos. Simonsen advoga a intervenção estatal na economia, o planejamento econômico e barreiras alfandegárias para proteger a jovem indústria nacional; já Gudin considera que a prio­ ridade é debelar a inflação com uma política de aus­ teridade e corte de gastos públicos, advoga a abertura sem restrições para o capital estrangeiro, combate o protecionaismo e retoma as idéias agraristas, consi­ derando a agricultura ‘ a única atividade econômica em que demonstramos capacidade para produzir vantajo­ samente, isto é, capacidade para exportar". ■ A visão econômica de Vargas, na prática, inclina-se para as teses de Simonsen. Com Volta Redonda, a Vale do Rio Doce e d. 53 a Petrobrás, ele lança as bases de um modelo industrialista, com forte presença estatal na Indústria pesada. 0 novo modelo revela notável eficiên­ cia na alavancagem do crescimento econômico, ao par da propensão perversa para a hiperconcentraçáo da renda; de uma forma ou de outra marca o perfil da eco­ nomia brasileira até entrar em crise a partir dos anos 80 (11.12-13, 12.1],


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Cronologia

■7.12 UNIVERSIDADES / IDEIAS / RADIO ■ 0 Brasil chega ao século 20 sem uma só univer­ sidade [5.9], A 1' tentativa, privada, no PR, (racassa em 3 anos (1912-1915), A 2*, a Universidade do Rio de Ja­ neiro, reúne apenas formalmente as faculdades da ca­ pital, visando agraciar com o título de doutor honoris causa 0 rei belga Alberto I, que visita o Brasil em 1920; nâo altera a situação anterior, exceto por provocar o debate do tema. Com a Revolução de 30, Francisco Campos [1891-68] assume a pasta da Educação e pro­ move ampla reforma educacional. Na área do 3- grau, edita 0 Estatuto das Universidades Brasileiras (31) e re­ organiza a Universidade do Rio de Janeiro (do Brasil d. 31), fixando um modelo federal. A reorganização é criti­ cada por se deter mais na arquitetura do campus que nas questões de conteúdo. Mas o debate de um projeto universitário ganha espaço, na 4- Conferência Nacional de Educação (31) e no Manifesto dos pioneiros da edu­ cação (32) defendendo o ensino público, gratuito, obri­ gatório e laico. ■ A USP, criada em 25/1/34, é a rigor a 1* do país. Sua origem liga-se à situação específica de SP den-otado pelas armas em 32, mas com uma elite próspera, ascen­ dente e decidida a jogar um papel nacional. Coincide com a exaltação do bandeirantismo [2.7], das figuras de José Bonifácio [3.4], do pe. Feijó [4.1], dos republicanos de itu [5.8]. 0 projeto da Universidade tem apoio do interventor Armando Sales de Oliveira [7.2]; seu autor, Femando de Azevedo (1894-74] (redator do Manifesto dos pioneiros); Júlio Mesquita Rlho [1892-69] e seu jornal 0 Estado de S. Paulo sustentam a idéia; atribuem a SP o direito e o dever de pensar as questões do Brasil. ■ 0 modelo paulista da USP, assim como o federal, agrupa escolas existentes: Faculdades de Direito (já com 104 anos) e Medicina, Escolas Politécnica, Luiz de Quei­ roz, Institutos de Educação. Butantã, Biológico, Geoló­ gico, Astronômico. Museu do Ipiranga. Mas sua espinha dorsal é a Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas e Letras, nova, concebida para articular a partir da filosofia ' a universalidade do conhecimento humano. Outra ousa­ dia é a contratação de 6 célebres professores franceses (Etienne Borne, Claude Lévi-Strauss, Roger Bastide. Femand Braudel), 4 italianos e 3 alemães, quebrando uma tradição provinciana, acanhada e até familiar. A con­ cepção geral é elitista, com diminuta presença de pen­ sadores de extração popular (Fiorestan Fernandes) ou mesmo das classes médias. As escolas pré-existentes mantêm pela Inércia sua autonomia, oposta ao projeto original. Ainda assim a USP cria um padrão novo de qua­ lidade de ensino e logo alcança a dianteira da produção acadêmica do pais (que ainda mantém). ■ A Universidade do Distrito Federal é criada em 35 por Anísio Teixeira [1900-71] junto com suas 5 faculdades (caminho só retomado nas Universidades de Brasília, 61, e Estadual de Campinas,66). Também com professores de fora, e uma visão arrojada, empolga a Intelectualidade avançada do Rio. Sucumbe ao clima repressivo pós 35: seu criador é afastado, acusado de simpatias pela ANL [7.6); em 38 o projeto é extinto e sua estnjtura absorvida pela Universidade do Brasil. 0 Brasil repensado ■ A interpretação da sociedade brasileira soire uma ruptura nos anos 30, na esteira da contestação iniciada em 22 com a Semana de Arte Moderna Í6.12]. Três obras, em especial, contestam a visâo oficial e consagra­ da de autores como Varnhagen, Capistrano de Abreu, Euclides da Cunha, Oliveira Viana. ■ Casa Grande e Senzala (33), de Gilberto Freire [190087], a obra de maior Impacto imediato, troca o racismo eurocêntrlco dominante por uma ousada apologia da mestiçagem, operando noções como eugenia, branquidão e morenidade. Debruça-se sobre o quadro racial, sexual, familiar e cultural do nordeste açucareiro. Toma elementos da antropologia cultural dos EUA (onde o autor estudou), usa fontes antes desprezadas e um estilo suculento. Ao

mesmo tempo seu autor, filho da oligarquia de PE, politi­ camente ligado à República Velha, vè com indulgência o escravismo, as relações sociais e raciais dele resultantes; cunha a idéia da "democracia raciaT brasileira.

28/12: Coluna Prestes ataca Teresina, PI 31/12: 1* Corrida de S. Silvestre, SP

■ Raizes do Brasil (36), de Sérgio Buarque de Holanda [1902-82], aplica noções da nova história social francesa e da sociologia da cultura alemã para reinterpretar a his­ tória da colonização ibérica. Critico (seu autor filiar-se-á ao PSB em 47 e ao PT em 80). afirma que “a democra­ cia no Brasil sempre foi um lamentável mal-entendido’ e questiona os movimentos “aparentemente reformadores', impostos de cima pelas elites; aponta a urtjanização co­ mo propulsora da ‘ nossa revolução”; e entra no debate político de seu tempo, combatendo a vaga autoritária que levará ao Estado Novo.

• Publicado, post mortem, O Processo, de F. Kafka

■ Evolução Política do Brasil (33), de Caio Prado Jr [1907-1 é 0 1® ensaio de enfoque mancista da realidade brasileira (seu autor preso por 2 anos e exilado após 35. em 47 elege-se deputado estadual pelo PCB-SP). Intro­ duz 0 método materialista e dialético, enfoca a formação brasileira sob a ótica das estruturas econômicas e lutas de classe. É o 1- a valorizar os movimentos de massas e contestar o pavilhão de heróis individuais consagrado pela historiografia oficial. Tem influência duradoura, em­ bora não imediata. A era do rádio ■ 01® veículo de comunicação de massas e matriz da indústria cultural chega ao Brasil em 22 e em 23 ganha sua 1‘ emissora, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. As sociedades e clubes radiofônicos dos 1“ anos têm uma programação improvisada, irregular e de elite (músi­ ca erudita, palestras, recitativos), sem publicidade, para um público restrito. Em 31, o govemo define o rádio co­ mo “de interesse nacional" e o regulamenta, passando a outorgar concessões, ■ 0 rádio se populariza nos anos 30, sob o Impulso do decreto 21.111, que autoriza a veiculação de propa­ ganda. Convertido em empreendimento lucrativo, profis­ sionaliza-se e troca o tom didático pelo entretenimento de massas. Os receptores logo ocupam o lugar de honra nos lares das camadas médias urbanas, expandem-se para os meios populares e o interior. 0 rádio dita uma nova moda, cria novos hábitos, consagra um novo vocabulário. Veicula, e em seguida projeta, os astros da música popular e os grandes speakers (locutores), em geral recrutados em SP. 0 programa de Ademar Casé pela Rádio Transmissora do Rio de Janeiro e patrocina­ do por um purgante (32), lança Carmem Miranda, Mário Reis, Francisco Alves, Noel Rosa. Em 34 a Record de S. Paulo introduz o cast de artistas profissional e exclu­ sivo. Em 37 começa a transmissão de jogos de futebol. Meses depois surge a Rádio Tupi. em S. Paulo, e a se­ guir no Rio; vinculada aos Diários Associados de Assis Chateaubriand (jomais, revistas), forma a 1* rede de co­ municações do país; e inaugura a fase dos programas de auditório, com Intensa participação do público e torci­ das organizadas dos fãs.

• Valadião, 0 Cratera, de Humberto Mauro • 0 Encouraçado Potemkin, de Sergel Eisenstein 1926 26/1: Eleições legislativas; Getúlio Vargas, dep. federal 17-22/2; Revolta operária-tenentista de Cleto Campeio em Jaboatão-Gravatá. PE 24 «; 1* grande cisão do PI^P-SP; A. Silva Prado cria 0 Partido Democrático. PD 1/3: E leiçio de Washington Luís, candidato único, com 689 mli votos, 88% do total 14/4: Grande cheia do São Francisco deixa milhares desabrigados, impaludismo, tifo 4-12/5: Greve geral na Inglaterra 28/5: 0 16° golpe de estado em 16 anos leva A, O. Salazar ao poder, até a morte em 1970 10/6: O Brasil deixa a Liga das Nações, após tentar uma cadeira permanente em seu Conselho Geral 11/6: Ataque, rechaçado, de homens do coronel José Gonçalves a Ingazeira, CE 5/7: Batalhão de 613 jagunços de Horácio de Matos parte de Lençóis, BA, em perseguição à Coluna Prestes 15/7; Bidu Sayão é Rosina no Barbeiro de Sevilha do teatro Municipal do RJ 7/9: Reforma (a única) da Constituição de 1891, aprovada sob estado de sítio 4/11 ; A Coluna Relâmpago contesta, no RS, a posse de Wastiington Luís 12-18/11: Ataques dos jagunços do coronel Alexandre de Sá a Santana do Cariri, CE 15/11: Posse de Washington Luís, último presidente da República Velha 1/12: Código de Menores 18/12: Lei de reforma financeira 28/12: Convênio dos 7 Estados (PE-BA-AL-PB-SE-RN-CE) contra Lampião 31/12: Suspenso o estado de sítio • Fundação do Banco do Estado de SP (hoje Banespa) 1927 1/1: O PCB volta a atuar na legalidade (até 12/8) 6/1: Tropa dos EUA ocupa a Nicarágua 26/1 : O governador de PE vai a Vila Bela inspecionar tropas que combatem Lampião 4/2: Após centenas de combates, nenhuma derrota grave e 25 mil km de marcha pelo Brasil, a Coluna Prestes se asila na Bolívia 14/2: O ten. Siqueira Campos, desgarrado da Coluna Prestes, toma Paracatu, MG 24/3: O ten. Siqueira Campos se asila no Paraguai com 65 remanescentes da Coluna 21/4: Aprovada na Itália a Carta dei Lavoro, fascista, modelo da legislação sindical brasileira

■ 0 potencial político do veículo, evidenciado nos EUA por Roosevelt, estréia no Brasil durante a Revoluçâo de 32: estudantes Invadem a Rádio Record de S. Paulo para divulgar um manifesto. Iniciando a mobili­ zação radiofônica que projeta César Ladeira. Vargas per­ cebe as possibilidades do rádio como formador e direcionador da opinião pública. Em 3/1/34 o govemo lança o programa A Hora do Brasil, incluindo noticiário oficial e música popular 0 DIP [7.7] dá especial atenção à censu­ ra e enquadramento do veículo. Em 40 o govemo encam­ pa a Rádio Nacional (criada em 36, líder de audiência no Rio) e faz dela seu porta-voz: dota-a de um potente trans­ missor, contrata para seu casr exclusivo os artistas mais famosos (Oriando Silva, Francisco Alves, Silvio Caldas,

27/4: Congresso Operário Sindical, no RJ. a CGT (Confederação Geral do Trabalho)

Emilinha Borba, Vicente Celestino, Carlos Galhardo), pa­ ga os melhores salários, transmite a 1* radionovela (42) e toma-a imbatível líder de audiência.

O utubro: SP festeja 200 anos do café no Brasil

5/6: Júlio Prestes, candidato único, eleito pres. de SP por 134 mil votos. 13/6: A E. F. Sorocabana passa a dar férias a seus empregados 5/7: O avião Jaú chega a Natal. RN, após sobrevoar o Atlântico 14/7: Começa a circular em SP o Diário Nacional, jornal do PD 12/8: Lei Ceierada, contra o movimento operário, põe fim à curta fase de legalidade do PCB 23/8: Sacco e Vanzetti executados nos EUA, apesar dos muitos protestos, Inclusive no Brasil Dezembro; Astrojildo Pereira visita Prestes na Bolívia

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B, período CONSTITUCIONAL (1945-1964) 8.1 DEMOCRATIZAÇÃO / QUEDA DE VARGAS / PARTIDOS I ■ A derrota do nazismo, com ajuda da FEB [7.10], tem fone eco no Brasil. Previsível desde a vitória soviética em Stalingrado (2/2/43), é lambém o triunfo da democracia. Os protestos contra a ditadura crescem em 43, ano em que a Constituição de 37 [7.71 P^vé a sucessão de Getú­ lio e um plebiscito. Os pracintias pressionam pela demo­ cracia; mesmo Dutra, de volta da Itália, manifesta a Var­ gas (1/11/44) a necessidade de flexibilizar o regime.

■ 0 Manifesto dos fWIneiros (24/10/43) é o protesto mais célebre. Ii/loderado e tímido, lançado no aniversário da Revolução, invoca os ideais de 30 para pedir demo­ cracia, liberdade de imprensa e garantias fundamentais. Traz 78 assinaturas, entre elas as de Artur Bemardes, Afonso Arinos, Virgílio de Melo Franco, Pedro Aleixo.

■ 0 1 ° Congresso Brasileiro de Escritores (S. Paulo. 28/1/45), em outro clima (o Exército da URSS já está na Alemanfia), prega liberdade de expressão e culto, segurança contra a violência, govemo eleito por voto uni­ versal, direto e secreto, cooperação internacional, inde­ pendência económica. E que o regime político se adapte a tais princípios, "que são aqueles pelos quais se batem as Forças Armadas do Brasil e das Nações Unidas". 0 texto, de Astrojildo Pereira [6.11], Caio Prado p .l2 ], La­ cerda [8.5], José Augusto e Hermes Lima [8.11], é censu­ rado e não sai nos jornais. ■ Uma entrevista com José Américo [7.7], de teor simi­ lar, é publicada sem censura no Correio da Mar^hã (22/2/45). Para muitos é o sinal de que a ditadura agoni­ za. 0 Giobo entrevista (27/2) o udenista Prado Kelly. A oposição já se expressa livremente. ■ Vargas percebe a mudança. Antes, seu discurso é esperar a paz para consultar o povo em plebiscito, t^as em 26/2 promulga a Lei Constitucional n“ 9 (ou Ato Adi­ cional), emendando a Constituição (recurso admitido na Carta outorgada de 37); pela lei. em 90 dias serão mar­ cadas eleições para presidente. Congresso, governos e Assembléias estaduais. ■ A anistia (decreto-lei 7474, 18/4/45) vem geral e Ir­ restrita, após curta campanha de massas com o empe­ nho da UNE. Os adversários do Estado Novo deixam o exílio (Armando Sales, Plínio Salgado), o confinamento (JúlIo de í^^esquita) e o cárcere (Prestes. f\^arighela. Agildo Barata). ■ 0 PCB (Partido Comunista do Brasil [6.11, 7.6]) se le­ galiza e cresce. Muito reprimido pela ditadura, rearticulase na clandestina Conferência da Mantiqueira (43): tem entào 1.800 militantes soltos: aprova a linha de união na­ cional para a guerra ao nazifascismo e elege Prestes secretário-geral. 0 avanço democratizante, o prestígio da URSS e de Prestes, a àurea da resistência e a aliança com Getúlio favorecem o boom do PCB. Ele reúne enor­ me comício (23/4) no estádio do Vasco, o maior do Rio; em 45 atinge 50 mil filiados, em 46,180 mil. ■ A UDN (União Democrática Nacional), no pólo oposto, agrupa (d. 44) heterogéneo leque anti-Getúlio: homens da República Velha (Artur Bernardes, Júlio Prestes), oligar­ quias dissidentes (PB), militares, imprensa {Diários Asso­ ciados, 0 Estado de S. Paulo), setores de esquerda mais tarde alijados (Esquerda Democrática, d. 47 PSB). Ataca em Vargas o passado (ditadura, flerte com o fascismo), a política (lei antitruste) e os planos continuístas. Em políti­ ca econômica, abraça o liberalismo. Para a sucessão, lança o brigadeiro Eduardo Gomes, tenente de 22 e um dos 18do Forte [6.13], criador do Correio Aéreo Nacional, contrário ao golpe de 37, tido como imbatível. ■ 0 esquema partidário de Getúlio tem o engenho e a manha de seu criador, sobrevive a ele e vai até 64. Vargas cria e preside ao mesmo tempo 2 partidos complemen­ tares; 0 PSD (Partido Social-Democrático) e o PTB (Par­ tido Trabalhista Brasileiro). ■ 0 PSD apóla>se na máquina estatal, nos inten/entores estaduais (Benedito Valadares. MG, Amaral Peixoto, RJ) e no Dasp [7.8]. É uma federação das oligarquias

estaduais majoritárias, reconciliadas com o poder central após 30. Nasce no poder e do poder, apoiado em forte esquema dientelista (e nele permane até 64). Em 17/7 lança a candidatura Dutra. ■ 0 gen. Eurico Gaspar Outra é min. da Guerra há 10 anos, um recorde histórico (de 5/12/36 a 9/8/451. Com­ bate em 22, 24, 25, 30, 32, 35, 38, sempre do lado governista; é o mentor do Plano Cohen e o “condestávei do Estado Novo"; embora germanófilo, comanda a FEB em 44 [7.9-10]. Seu papel na ditadura de 37 não gera um ataque cerrado da oposição, até porque a UDN corteja os quartéis. Tímido, sem carisma, mau orador, depende da máquina do PSD e do prestígio de Vargas. ■ 0 PTB surge da convicção de Getúlio de que no pósguerra 0 trabalhador rejeita os políScos tradicionais. Tem duplo papel estratég co: Ireio contra o comunismo e aci­ cate para o PSD" (Alzira Vargas). Nasce (15,'5) do Min. do Trabalho e dos sindicatos [7.5], liderado pelo próprio min. Marcondes Filho (no RS um núcleo mais independente tem A. Pasqualini como líder e teórico). Ainda assim só consegue se legalizar tomando “emprestadas" do PSD 7 a 8 mil assinaturas. Apóia-se no carisma de Vargas e da legislação social pós-30. ■ 0 Movimento Queremlsta (do lema ‘ Queremos Getú­ lio"), de base popular urtjana. visa manter Vargas na Pre­ sidência. Lançado por Valdir Rodrigues, com apoio no PTB e no Min. do Tratialho, propõe uma Constituinte com Getúlio. 0 PCB assume a palavra-de-ordem e se alia aos queremistas. Estes montam comitês em várias capitais; no Rio, fazem sucessivas e enormes passeatas até o Ca­ tete. Getúlio discursa nelas, sem desautoriza-las, embora repita que quer apenas presidir as eleições de 2/12. ■ A articulação nos quartéis contra Vargas vem do iní­ cio de 45. Oposicionistas e dissidentes (José Américo, Francisco Campos, Artur Bemardes) sugerem a Dutra que deponha Getúlio, assuma o poder e convoque a eleição. Para muitos, a candidatura Dutra não passa de esperta manobra getulísta para neutralizar esse risco. A UDN repu­ dia eleições com Vargas na Presidência e em abril lança o slogan Todo poder ao judiciário", propondo que José Li­ nhares, pres. do STF assuma o executivo. IJma fala do embaixador dos EUA Adolf Berle Jr. a jornalistas (29/9) jo­ ga lenha na fogueira ao condenar o queremismo, numa para Vargas inaceitável interferência. ■ Em outubro eclode a crise final. A 3/10 queremistas e PCB fazem imensa passeata no Rio. A 10/10 Getúlio antecipa a eleição dos governos e deputados estaduais, de 46 para 2/12/45: a UDN radica iza sua oposição e o próprio Dutra nâo gosta da idéia de conviver com gover­ nantes eleitos sob Getúlio. A 20/10 corre o njmor de que Benjamin (Bejo) Vargas será chefe de Polícia e seu irmão Getúlio mandará prender os militares que conspiram. A 22/10, vários généras se reúnem com o min. da Guerra, Góis Monteiro. A 29/10 Vargas de fato nomeia Bejo. Góis põe 0 Exército de prontidão e diz que vai nomar uma ati­ tude". Ao cair da noite a tropa cerca o pal. da Guanabara. Getúlio nâo resiste; renuncia e embarca (31/10) para o exílio em S. Botja, RS. José Linhares, do STF, assume a Presidência interina em 30/10; mantém Góis no Min. da Guerra, revoga a Lei Antitruste e a antecipação das elei­ ções. Membros do PCB e PTB são presos; Prestes chega a se asilar na embaixada do México. ■ A eleição de 2/12/45, a 1* em 10 anos, dá a Dutra uma vitória folgada e para muitos surpreendente, graças á máquina, â clientela, ao PSD. à igreia e ao apoio Vargas. 0 general faz 3.251.000 votos, 55,4% do total válido; chega em 1® em todas as unidades exceto Pl, CE, PB e DF. 0 brigadeiro tem 2.039.000 votos, 34.7%. 0 PCB. após cogitar o apoio a Eduardo Gomes, lança tar­ diamente (17/11) ledo Fiúza, ex-prefeito de Petrópolis, sem partido e sem projeção; tem 570 mil votos, 9,7% (no DF, 27,5%). A vice-presidência fica vaga até a e le ito indireta de Nereu Ramos (47). ■ A Constituinte é eleita também em 2/12 [8.2]

Cronologia • Criada a Escola Federal de Viçosa, voltada para a pesquisa agropecuária • Casa modernista de G. Warchavchik, na r. Sta. Cruz, São Paulo • Aberto 0 1“ centro de umbanda, em Niterói. RJ • A Varlg entra em operação, no RS • Humberto Mauro filma Tesouro Perdido, que dá início ao Ciclo de Cataguases • A Warner Brothers produz O Cantor de Jazz, 1° (ilme talado 1928 16/1: L. Trotsky, já em desgraça, banido da URSS 25/1 ; Getúlio Vargas, presidente do RS 1/2; O PCB lança o BOC (Bloco Operáno e Camponês), que elege 2 vereadores no RJ 24/2; Eleições em SP 2/3: Fundado o Partido Libertador do RS Março: Começa a circular em Beto Horizonte o jomal O Estado de Minas 28/4: Fundada a Escola de Samba da Mangueira 5/5: Inaugurada a rodovia Rio-Sâo Paulo (h. Presidente Dutra)

Maio: Revista de Antropofagia, manifesto antoprofágico. de Oswald de Andrade 12/6: 0 Congresso Nacional inicia o debate sucessório 30/6: O PRM lança Vargas para presidente e João Pessoa para vice Junho: Macunaima, o herói sem nenhum caráter, de Mário de Andrade 27/8: Inaugurada a rodovia Rio-Petrópolls 12/9:17 governos estaduais apóiam o paulista Júlio Prestes para presidente 20/9: Lançamento da Aliança Liberal 25/9: O PDN tenta se implantar no Norte 22/10: Joâo Pessoa assume o governo da PB 10/11: O Cruzeiro, revista semanal. Inova ao valorizar grandes fotos 15/11: Acordo de limites Brasil-Colõmbla (RJ) traça a reta Tabatinga-Apaporis 21/12: H. Hoover, pres. eleito dos EUA, visita o RJ • Gravado o Carinhoso, de Pixinguinha • A Bagaceira, de José Américo • Tarsila do Amaral esboça a tela Abaporu 1929 11/2: Mussolini e Pio XI assinam o Tratado de Latrâo; criação do Estado do Vaticano 23/3: Greve de 72 dias dos gráficos de SP. contra o trabalho Infantil; a poifcla fecha o sindicato Março: 1* grande enchente em Sâo Paulo 24/5: Revelada a falsificação das cartas atribuídas a Artur Bernardes 17/6: Pacto do Hotel Glória, do PRR, RS, com o PRM-MG. sela a Aliança Liberal 17/8: 1* apresentação om público de Noel Rosa {Minha Viola), no Tijuca Tenis Club, RJ 30/7: 0 Partido Republicano Mineiro lança Vargas, RS, candidato a presidente 2/8: João Pessoa lançado para vice de Vargas na chapa da Aliança Liberal 30/9: A BBC realiza a 1* emissão (experimental) de TV 10/10: Começa a circular o Diário da Paraíba 12/10: Lançada a chapa presidencial situacionista: Júlio Prestes (SP) e Vital Soares (BA) O utubro: Começa a "derrubada’ de funcionários estaduais e federais ligados ã oposição 29/10: 3* Feira Negra; o crasti da Bolsa de N. Yori< deflagra a grande depressão 19/12: Júlio Prestes apresenta sua plataforma, no Automóvel Club, SP 21/12: Em seu 50= aniversário, Stalin é proclamado líder absoluto do PCUS e da URSS 26/12: O dep. I. Simões Lopes (RS) mata com tiro o dep. M. Sousa Filho (PE)

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8.2 CONSTITUINTE DE 4 6 1PARTIDOS II I GOVERNO DUTRA ■ As urnas de 2/12/45 elegem tanto o pres. Dutra [8 t; como a Assembléia, com caráter congressual. Incumbida de substituir a Constituição de 37, '1. Os 286 deputa­ dos e 42 senadores pertencem, pela 1* vez na República, a partidos de âmbito nacional, até porque a lel eleitoral de 28/5/45 (Lei Agamenon) exige 10 mil assinaturas distri­ buídas por 5 estados para o registro de um partido. ■ A Assembléia instala-se em 2/2/46 e elege a comis­ são constitucional, que se baseia na Carta de 34 pois o governo, empossado 2 dias antes, não apresenta um an­ teprojeto. A comissão trabalha até 27/5, o projeto vai para votação a 13/8. a Constituição é promulgada a 18/9, quando Câmara e Senado voltam a funcionar. Nesses 229 dias vigora a Carta de 37. o executivo assume as funções legislativas e governa por decreto-lei. ■ A essa altura o mundo já vive a Guerra Fria. A aliança EUA-Inglaten-a-URSS, formada na II Guen-a. dá lugar a 2 blocos hostis: o Ocidente capitalista, com os EUA à frente, e o Leste socialista, em formação em torno da URSS. A bipolarização leva à crise de Berlim, às guer­ ras da Coréia e do Vietnã, à corrida nuclear. A América Latina, área de influência de Washington, é pressionada a alinhar-se com os EUA, o anticomunismo e a política econômica do Ftiíl (Fundo Monetário Internacional ;8 6 10.12,12.3], criado em Bretton Woods, 1/7/44). Tudo isso repercute com força no Brasil. ■ 0 PSD [81], partido de Getúlio e Dutra, elege cômoda maioria de 151 deputados e 26 senadores, 54% da Consti­ tuinte. É 0 único que elege em todos os estados e o mais votado em 16 deles. Um ardil da lei, que repassa à legenda majoritária as “sobras" da partilha das vagas, aumenta ain­ da mais a preponderância: para a Câmara, ele tem 42,7% dos votos 6 52,8% das cadeiras. Faz o pres. da Assembléia, sen. Melo Viana, e o da Comissão Constitucional, Nereu Ramos. Detém do início ao fim a hegemonia dos trabalhos. 0 pertil médio de sua bancada é liberal-conservador. ■ A UDN [8 Ij tem a 2« bancada: 77 deputados e 10 se­ nadores, 30,4% do total. Empenha-se na "autópsia” do Estado Novo e em geral é o mais pró-EUA nos embates da Guerra Fria. Porém divide-se em votações importan­ tes (direito de greve, autonomia sindical). Dois de seus deputados integram a Esquerda Democrática, que em 47 funda 0 PSB (Partido Socialista Brasileiro). ■ Em torno da UDN gravitam legendas menores, que se organizam à parte por tradição ou conveniência: 0 PR (Partido Republicano), criado (14/8/45) por Artur Bernardes em MG. onde elege 6 de seus 7 deputados. E o PL (Partido Libertador), fundado (10/11/45) por Raul Pila dentro da tradição pariamentarisla maragata do RS (G2], onde elege seu único deputado. ■ 0 PTB [61), 3" bancada, tem 22 deputados e 2 sena­ dores. Entre eles, Getúlio. eleito por SP e também pelo RS (a legislação o permite; ele deixa vaga a cadeira pau­ lista e assume a gaúcha), mas pouco interfere. Ainda as­ sim sua participação, ao lado da máquina sindical, é decisiva para o PTB; dos 603 mil votos que o partido tem para deputado. 318 mil são para Getúlio. ■ 0 PCB 18.11,4^ bancada, faz 14 deputados e Prestes senador (com 157 mil votos no DF). Forma com alguns deputados do PTB e UDN a diminuta esquerda do plená­ rio. Sob fogo da maioria conservadora, da imprensa e de Dutra, tropeça ainda na afirmação de Prestes (16/3/46), de que em caso de guerra Brasil-URSS fica com a URSS. Mantém a linha de união nacional, chama a classe ope­ rária a “apertar o cinto". Mas também apóia sua ação constituinte em mobilizações de massas. ■ 0 PSP (Partido Soclal-Progressista), de Ademar de Barros [8.3] nasce da fusão do PRP (Paiído Republicano Progressista, 2 deputados), PPS (Partido Popular Sindi­ calista, 4 deputados, 1 senador) e Partido Agrário Nacional. ■ 0 PDC, com apenas 2 deputados, é um dos partidos

democratas-cristãos que a Igreja Católica cria no pós-guer­ ra. Segue a linha conseivadora de d. Sebastião Leme

■ A Constituição é democratizante, liberalizante e restauradora. Volta a independência dos 3 poderes. Volta a eleição direta do presidente, por 5 anos sem reeleição. Idem para governadores dos estados, que recobram a autonomia. Mas prefeitos de capitais e estâncias balnea­ rias podem ser nomeados; Santos, Sto. André e Jaboatão viram balneários para evitar prefeitos do PCB; S. Paulo será a 1* capital a eleger o prefeito, em 53 [8.10], 0 Legislativo renasce, com Câmara (proporcional) e Se­ nado. 0 Judiciário recobra pren^ogativas. As liberdades retomam, mas com contrapesos. A imprensa escapa à censura, o teatro não. 0 “direito de desfile" (manifesta­ ção) é condicional. A liberdade partidária esbarra no § 13 do Art. 141. usado para cassar o PCB. A greve precisa de licença da Justiça do Trabalho. A liberdade sindical de­ pende de regulamentação que termina sendo a velha CLT [7 b] da ditadura. Desaparecem ousadias de 34 e 37 como a limitação de trustes e cartéis, a nacionalização de bancos de depósitos e seguradoras, minas e jazidas mi­ nerais. Mas lá estão as conquistas trabalhistas pós-30: descanso semanal, férias, aposentadoria, estabilidade após 10 anos na empresa, indenização do demitido.

Cronologia 30/12; Vargas inicia, em São Paulo, sua campanha eleitoral Dezembro; L. C. Prestes visita Vargas secretamente em Porto Alegre, RS • Inaugurado em São Paulo o ed. Martinelli. 30 andares, maior arranha-céu sul-americano • Máno de Andrade publica Compêndio de Históría da Música • Acabaram-se os Otários, 1® filme falado brasileiro, de Luís de Barros 1930 2/1 : Vargas lè sua plataforma para multidão na Esplanada do Castelo. RJ Janeiro: A crise derruba o preço da saca de café de 200 para 21 mil-réis a saca 24/2; 2 mil jagunços do coronel José Pereira iniciam a Revolta de Princesa. PB 1/3; Eleição presidencial, marcada por fraudes dos 2 lados; em lese, Júlio Prestes derrota Vargas por 1.092 mil votos a 737 mil 19/3; Borges de Medeiros considera Júlio Prestes presidente eleito, apesar das acusações de fraude 19/3:1.500 homens da Força Pública da PB cercam

0 município rebelde de Princesa

21/3: Degola da bancada getulista de MG 22/5: 0 dirigível Zeppelin, em seu 1“ vôo (128 km/fi). ■ Dutra exibe anedótico respeito pela Constituição; chega ao Recife, vindo da Alemanha que chama lívrinho e a traz sempre consigo. Mas, dentro 29/5; Prestes divulga manifesto de adesão ao da lei, faz um govemo autoritário. Em face do ascenso comunismo e repúdio à Aliança Liberal operário - aumento de 68% nas sindicalizações em 4546, criação do MUT (Movimento de Unificação dos Tra­ 9/6; O coronel José Pereira proclama a independência de Princesa, PB balhadores) e da CGTB (Confederação dos Trabalhado­ 9/B; Estima-se em 40 mil os operários desempregados res do Brasil), greves, comissões de fábrica - limita o no RJ direito de greve (15/3/46), fecha a CGTB e em 46-47 in­ 12/6: Começa a circular no RJ o Diário de Notícias tervém em 143 dos 944 sindicatos do país. ■ 0 avanço autoritário culmina na cassação do PCB. 0 comício do 1’ aniversário da legalidade já acaba em morte 23/4/46); a polícia invade a sede e as casas de comunistas (31/8); 0 TRE-DF afirma (30/9) que o partido tem um estatuto clandestino. Na eleição de 19/1/47 o PCB elege 46 deps. estaduais. 36% da Câmara do DF e. por outras legendas, mais 3 deps. federais: em 7/5 o TSE vota por 3 a 2 a cassação de seu re ^tro ; alega que até o nome, do Brasil e não Brasileiro, indica um partido estrangeiro; a polícia fecha centenas de células. 0 legislativo conclui a obra cassando os mandatos comunistas no Senado (27/10) e na Câmara (7/1/48.169 votos a 74). Acaba aí a curta (989 dias) vida legal do partido. ■ A base política do governo muda. Em fev/46 Dutra dá 10 ministros ao PSD (entre eles o gen. Góis. da Guer­ ra) e 1 ao PTB. o do Trabalho (0. Negrão de Lima), como prometera a Vargas. Mas em maio oferece 2 pastas à UDN. Em o u i põe no Min. da Guenra o gen. Canrobert da Costa, anticomunista e anti-Var^s; na pasta do Trabalho tira 0 PTB e põe Morvan Rguelredo. vice-pres. da Fiesp e sócio da Standard Oil. Em dez. os udenistas Raul Fer­ nandes e Clemente Mariani ganham Ministérios. A UDN deixa a "oposição cordiar pela situação; e o govemo unifica 0 bloco conservador. Getúlio reage rompendo a aliança e até a amizade com Dutra.

■ A política externa se alinha com os EUA. Quando o gen. Eisenhower visita o Rio (13/8/46). o líder da UDN 0. Mangabeira beija-lhe a mão. Outra hospeda em Petró­ polis. RJ, a Conferência Interamericana de Segurança (15/8/47), que pelo Pacto do Rio autoriza intervenções militares dos EUA no continente. Um mês depois o Brasil rompe relações diplomáticas com a URSS. ■ A política econômica é rtwnetarista. Às voltas com uma inflação anual de 2 dígitos, Dutra congela o salário mínimo mas libera o câmbio e a importação. Com isso o país gasta em bens de consumo as reservas de divisas acumuladas durante a guerra. Mas Dutra é o 1' presi­ dente a propor um plano de conjunto, o Plano Salte (de Saúde, Alimentação, Transportes e Energia), do qual só se condul a rodovia Rio-S.Paulo, batizada Pres. Dutra.

13-30/7; O Uruguai vence, em casa, a 1* Copa do Mundo de Futebol 16/7; Pio XI. a pedidos, declara N. Sra. de Aparecida padroeira do Brasil 26/7; João Pessoa, ex-candidato a vice de Vargas, assassinado no Recife; os protestos populares deflagrarão a Revolução de 30 Agosto; Yolanda Pereira, RS, é eleita MIss Universo 4/9; Paraíba, capital da PB. muda de nome para Joào Pessoa 3/10; Início da Revolução de 30. no RS 6/10; João Dantas, assassino de João Pessoa, suicida-se (?) na cadela, no Recife 24/10: Vitória da Revolução de 30 3/11: Posse de Vargas como chefe do governo provisório 4/11: O governo de PE proíbe a qualquer prefeito intitular-se “ctiefe político" 11/11; Dissolvido o Congresso Nacional; intervenção em todos os estados exceto MG 12/11; Miguel Costa, João Alberto e outros lançam no Rio a Legião Revolucionária 14/11: Decreto cria o Ministério da Educação e Saúde Pública; Francisco Campos, ministro 14/11: Com as aulas suspensas pela Revolução, os estudantes passam de ano por decreto 21/11: 0 pres. deposto Washington Luís embarca para o exílio na Europa 26/11; Criado o IVtinistério do Trabalho: Lindolfo Collor é seu 1° titular 25/12; Manifestação da Legião Revolucionária com 7 mil pessoas em São Paulo 30/12: Noel Rosa grava pela Phono-Arte Com que Roupa?, estrondoso sucesso (15 mil cópias): “É Sobre o Brasil. O Brasil de Tanga" • Derrubados os governos da Guatemala, Colômbia, Peru e Argentina • O Quinze, de Rachel de Queiroz • Mário Peixoto filma Limite 1931 1/1: Soldados trocam tiros com a Força Pública em Niterói. RJ

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8.3 VOLTA DE VARGAS /ADHEMARISMO / POPULISMO ■ No exílio de sua estância de S. Borja. RS. Getúlio al­ terna incursões pela política (discreta presença na Cons­ tituinte [8.2], tentativa de eleger o gov, de SP em 47) e longos silêncios eníi que só se abre com o vizinho e ami­ go João Goulart j8.l0-11). Rompido com Dutra, sequer o convidam para a inauguração da usina de Volta Redon­ da, seu grande sonho realizado. Mas a 26/2/49 anuncia em entrevista a Samuel Walner (Diários Associados): "Eu voltarei, não como lider político, mas como líder de mas­ sas’ . Alia-se a Adhemar de Barros. que lança (15/6/50) a chapa presidencial Getúlio-Café Filho (PSP-RN). Em 53 dias de campanha visita todos os estados e faz 80 dis­ cursos. de teor trabalhista e nacionalista. ■ A situação (PSD-UDN) busca um nome de união na­ cional (Nereu Ramos. gen. Canrobert. W. Jobim), não o acha e se divide. 0 PSD de Dutra, com apoio do PST. opta pela “fórmula mineira”: o ex-prefeito e deputado Cristiano Machado [1894-53]. A UDN relança Eduardo Gomes (8.2), com apoio do PR, PL e grandes jomais. Acampanha é tensa. Lacerda adverte na Tribuna da Imprensa (1/6/50): "Getúlio Vargas não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer á revolução para impedi-lo de governar'. ■ A eleição (3/10/50) dá a Getúlio 3.8 milhões de votos, em especial da massa trabalhadora urbana. A revista Anhembi vê no Rio “meio milhão de miseráveis, analfa­ betos. mendigos, famintos e andrajosos, que desceram os morros embalados pela demagogia para votar naque­ le que se proclamava o pai dos pobres". 0 brigadeiro, bem cotado nas camadas médias, soma 2,3 milhões de votos. Cristiano tem 1,6 milhão, um vexatório 3® lugar. Na reta final os caciques do PSD deixam-no por Vargas: é a cnstianização, hoje sinônimo de traição eleitoral. Mas o PSD faz maioria na Câmara e 11 dos 20 govemadores. 0 PCB prega o voto em branco e o PSB lança um candida­ to de protesto, ambos com magro retomo. A UDN tenta impedir a posse de Getúlio; alega a necessidade de maioria absoluta; o TSE e os militares não concordam. A 31/1/51 Dutra passa a faixa ■ 0 governo Vargas inicia com o Ministério da Expe­ riência, buscando uma vasta conciliação. 0 PSD predo­ mina: a UDN-PE ganha a pasta da Agricultura, o PTB a do Trabalho: na da Guerra fica o gen. Estilac Leal. nacio­ nalista recém-eleito para o Clube Mllllar [8.4]; Ademar indica 0 min. da Viação e o pres. do Banco do Brasil. A linha de govemo é pragmática: na luta entre nacionalis­ tas e entreguistas [7.11], fica com o discurso dos 1», mas endossa as conclusões da comissão mista Brasil-EUA Não envolve o Brasil na Guerra da Coréia, mas firma o acordo militar de 15/3/52 com os EUA. Encen'a 8 anos de congelamento do salário mínimo em CrS 380, elevando-o 215% (24/12/51), Atravessa a 1* fase do govemo em re­ lativa calma, apesar da inflação. ■ A oposição tem por núcleo a UDN, e dentro dela a Banda de Música, grupo parlamentar (A. Arinos, Bilac Pinto, A. Baleeiro) assim chamado pela estridência das denúncias. Também anti-Vargas é a grande imprensa; 0 Estado de S. Paulo. 0 Globo, mais tarde os Diários Asso­ ciados e em especial a Tribuna da Imprensa, do talentoso e virulento Carlos Lacerda. Em busca de apoio. Getúlio ajuda Samuel Wainer a criar o diário Última Hora. (12/6/51), com projeto editorial e gráfico revolucionário, que logo bate recordes de tiragem. A UDN revida com uma CPI da tJltima Hora.

mento de 45 e apela à "responsabilidade das Forças Ar­ madas". A reforma ministerial que toma Goulart min. do Trabalho (15/6) agrava antagonismos. Pipocam mais greves. Jango é demjbado (22/2/54) pelo veto de 82 coronéis a seu plano de dobrar o salário mínimo, tacha­ do de “aberração comunista’ . Assim mesmo Vargas dá o aumento, no de Maio. e prediz aos trabalhadores: “Hoje estais com o governo. Amanhã sereis o governo’ . 0 Adhemarlsmo ■ Adhemar de Barros [1901-69], deputado estadual (35), nomeado por Vargas interventor de SP (27/4/38-4/6/41), logo monta um esquema político própno e imbatível. Apóla-se na administração (obras públicas, empreguismo, clientela), no contato direto com o povo (programa diário de rádio), nos prefeitos que nomeia, entre eles Prestes Maia. cuja gestão 38-45 marca época em São Paulo. Findo o Estado Novo. Adhemar cria o PSP (Par­ tido Social Progressista. PRP até 46). uma máquina alta­ mente capilarizada e eficaz. Já então a oposição o acusa de comjpto. ■ A eleição para governador em 19.'1/47 projeta Adhe­ mar nacionalmente. Com 394 mil votos, ele derrota a UDN |93 mil votos) que lança um dos tradicionais Almei­ da Prado (5.4), o PSD (Mário Tavares. 290 mil votos), que em 45 tivera 46% dos votos paulistas, e o PTB (H. Borghi, 340 mil votos) com todo o prestigio de Getúlio. Para ven­ cer collga-se ao PCB, promete apoiar sua legalização e cede a sigla do PSP para eleger os deps. federais comu­ nistas. Logo esquece a promessa e tenta arrefecer opo­ sição de direita que quer cassá-lo. Faz seu sucessor (Lu­ cas Garcez, que lhe volta as costas) e em 50 é o grande eleitor de Vargas. ■ A hegemonia adhemarista não se consolida em SP nem se expande. Na eleição de 25/2/53 Adhemar. can­ didato a prefeito de S. Paulo, perde (por 642 mil votos a 660 mil) para outro outsider. Jânio Quadros [8.101. Adhe­ mar ainda se candidata a presidente em 55 [8.5] e 60 [8.10], com votação dedinante. e ao govemo de SP em 58 (perde para o candidato de Jânio, Carvalho Pinto) e 62, quando vence Jânio (então desgastado pela renún­ cia) por 1.249.000 a 1.126.000 votos. Nesse percurso pende para a direita, o anticomunismo e o culto da or­ dem. visando ocupar o espaço deixado por Jânio. Apóia 0 golpe de 64 [9.1], entra na Arena, mas é marginalizado e cassado (5/6/66). Após sua morte (69), a VPR [9.13] “desapropria" um célebre cofre do Adhemar. com USS 2.5 milhões em divisas de origem suspeita. ■ São chamados com freqüência populistas Vargas, Goulart, Adhemar, às vezes também Jânio e outros. 0 termo se presta a controvérsia, pois descreve nào uma corrente política, mas uma "sindrome", e foi batizado não por seus protagonistas mas por seus criticos. A tipifi­ cação do populisme pode incluir regimes tão díspares como os de Ghandi, Castro, Nasser e Mussolini.

■ Os fatores de crise se avolumam em 53. A linha de fartos investimentos públicos cede a outra de impopular ortodoxia antiinflacionária. Os trabalhadores fogem ao controle e fazem em S. Paulo uma greve geral de 300 mil (10/3), vitoriosa após 30 dias. A Campanha do Petróleo é Nosso [8 4] triunfa no Congresso e reforça o caudal nacionalista. De outro lado a Cruzada Democrática do

■ Os populismes latino-americanos. mais identificá­ veis, surgem em tomo dos anos 30. em situações de que­ bra do velho poder de elites agrárias, urbanização, indus­ trialização retardatária, crise social, crise institucional, emergência de movimentos de massas, ausência de um projeto de classe capaz de empalmar o poder e impor sua alternativa. Sâo regimes que se dizem políclassislas, referenciados num “povo" idealizado e homogêneo, em oposição ao “nâo povo", as oligarquias e dominado­ res estrangeiros. Dai a ênfase na cooperação entre classes e na harmonia social, a valorização do estado e do governante, as tendências ao autoritarismo, dema­ gogia. corporativismo e criação de aparatos de controle do movimento de massas. Daí também as limitações e contradições das experiências populistas, sua crise e esgotamento, com freqüência em meio a golpes, regi­ mes de arbítrio e repressão. 0 peronismo argentino e o

gen. A. Etchegoyen, anti-Vargas, conquista em 52 o Clu­ be Militar. Sentindo-se apoiada, a UDN radicaliza; A. Annos. seu lider na Câmara, elogia em 29/10 o pronuncia­

geluilsmo brasileiro são os modelos mais citados pelos teóricos do populisme latino-americano (no Brasil, F, Weffort, 0. lanni).

Cronologia 17/1; Marcha da Fome, no RJ, convocada pelo PCB, mas proibida e reprimida 24/1 : Manifestação pró-Vargas de 15 mil operários, no RJ 21/2; Comício pró-Constituinte em SP 26/2: Gustavo Capanema, Milton Campos e outros fundam em MQ a Legião de Outubro Fevereiro; Criado no RJ o Clube 3 de Outubro 11/3; O governo passa a comprar café para sustentar os preços internacionais 19/3; Lei da Sindicalização submete os sindicatos a delegados do Min. do Trabalho, que assistem às assembléias e proítiem "ideologias sectárias" 19/3; Subordinação dos sindicatos ao Ministério do Trabalho 28/3; Tentativa de golpe do PD contra João Alberto, interventor em SP 15/4; Oswald de Andrade e Patrícia Gaivão, a Pagu, presos em São Paulo 21/4; Desfilam em Belo Horizonte as milícias da Legião de Outubro, de Francisco Campos 28/4; Revolta de 3 batalhões da Força Pública em São Paulo contra João Alberto 16/5: Criado o Conselho Nacional do Café 24/5; Marcha de 15 mil operários pró-Vargas, no RJ, em resposta à Marcha da Fome 27/S; Decreto arroga ao governo a concessão de canais de rádio 2/6; Motim dos soldados do 25“ BC, Teresina, Pl, chefiado por um cabo Junho; O governo Inicia a queima de estoques de café; 2,8 milhões de sacas queimadas no ano Junho: 2° Congresso Feminino, no RJ: presentes 15 estados e o DF Junho: Greve dos têxteis do RJ contra redução salarial (de 25%) 2/7; Criado o Departamento Oficial de Propaganda (DOP). antecessor do DIP 13/7; O interventor de SP, João Alberto, isolado, demite-se 19/8; Nacionalização da Marinha Mercante 4/9; Jorge Soares chefia soldados em ataque ã Central de Policia e Corpo de Bombeiros, RJ 30/9: Pedro Ernesto é nomeado prefeito do RJ Setembro: Suspenso o pagamento da dívida externa 12/10; Inauguração da estátua do Cristo Redentor, no morro do Corcovado, RJ 29-30/10; Revolta do 21® BC, Recife: o interventor de PE foge: choques: 50 mortos 16/11; J M. Whitaker deixa o Min. da Fazenda, por divergir da queima de café; 0 . Aranha 0 substitui 7/12; Criada a Comissão do Defesa da Produção de Açúcar • Derrubados os governos do, Chile (24/7), Paraguai (26/10), El Salvador (3/12) • Estréia de Jorge Amado, com O Pais do Carnaval • Fundada a Livraria José Olympio. editora dos maiores escritores brasileiros do século • C. Chaplin filma Luzes da Cidade 1932 3/1; Extinta a Delegacia do Norte, onde Juarez Távora era o vice-rei 13/1; O Partido Democrático do SP rompe com o governo Vargas 19/1; Renasce o PRP (Partido Republicano Paulista), na oposição a Vargas 25/1 : Comício pró-Constituinte em São Paulo lança a FUP (Frente Llnica Paulista) Fevereiro: 1 “ Concurso de Escolas de Samba na Praça 11, RJ; a Mangueira é a campeã; Lamartine Babo lança O Teu Cabelo Não Nega Novo Código Eleitoral: voto secreto e obrigatório, votam mulheres e jovens de 18 a 20 anos: Justiça Eleitoral: recenseamento

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8.4 CAMPANHA DO PETROLEO I NACIONALISMO ■ 0 padrão de Industrialização vigente no mundo em meados do século se apóia em dois pilares: aço e petróleo. 0 Brasil implanta a grande siderurgia em 40 [7.11]; mas chega aos anos 50 praticamente sem indús­ tria petrolífera. ■ No plano mundial a indústria do petróleo se afimia em 1870 e na era do automóvel [8.8) loma-se um dos maiores negócios do planeta. Já nos anos 20 é um oligopólio das chamadas 7 Irmãs: Standart Oil, Royal Dulch-Shell. British Petroleum. Gul Oil. Texaco. Esso e Mobil Oil. ■ As 1“ notícias de petróleo no país são de 1864, quando Denny Sargent e Pellevi' Wilson, ingleses, oblém concessões do governo imperial (em Camamu-Ilhéus e no rio Maraú, ambas na BA) para explorar possíveis jazi­ das. Eugênio Ferreira Camargo é o 1® brasileiro a procu­ rar óleo, na fazenda Bofete. SP (1892). Os 1“ e débeis sinais de interesse oficial são de 19. Mas o tenentismo le­ vanta 0 debate. A Constituinte de 34 tem em mente o pe­ tróleo ao nacionalizar as riquezas do subsolo. No mesmo ano a 1* refinaria do país, privada, em Uaiguaiana, RS, começa a processar óleo argentino. ■ Monteiro Lobato [6.12], entusiasta do petróleo, cria a Cia. de Petróleo Nacional para explorar possíveis jazidas em Riacho Doce, AL. Esbarra em entraves burocráticos, entra em choque com o CNR acusa o govemo de “não tirar petróleo e não deixar que o tirem”; termina processado com base na Lei de Segurança Nacional (41). Aborda o tema, sob a ótica nacionalista, nos livros 0 Escândalo do Petró­ leo (36) e 0 infantil 0 Poço do Visconde (37). ■ 0 1- poço. em Lobato, BA, é descoberta do comer­ ciante e geólogo amador Oscar Cordeiro, que já em 31 envia amostras ao Serviço Geológico. Taxado de loucura e fraude. Cordeiro insiste e em 35 convence um geólogo do Instituto Nacional de Tecnologia, que confimia o acha­ do. Em 22/1/39 jorra petróleo pela 1' vez em Lobato e no país. Durante 2 décadas o Recôncavo Baiano produz quase todo o petróleo brasileiro. ■ 0 CNP. Nos anos que precedem a II Guerra, o gen. Horta Barbosa [1881-651 enfatiza o papel estratégico do petróleo e defende o controle estatal. A Constituição de 37 acata a idéia. Em 29/4/38 Getúlio cria o CNP (Con­ selho Nacional do Petróleo), confiado a Horta Barbosa. Este imprime ao órgão uma linha nacionalista, mas se debilita com o magro resultado das prospecções. Nos anos 40 a aliança Brasll-EUA [7.9] facilita pressões das 7 Irmãs. Horta Barbosa cai (30/7/43); o CNP passa ao cel. Carios Barreto e recomenda (45) que se abra a pes­ quisa. lavra e refino ao capital estrangeiro. 0 art. 153 da Carta de 46 [8.2] derruba as barreiras à obtenção de concessões por capitais privados, inclusive estrangeiros. ■ 0 Estatuto do Petróleo, enviado por Dutra ao Con­ gresso (lev/48), regulamenta a questão com base em pareceres do CNP, Departamento de Estado e empresas dos EUA. Abre a exploração, produção e refino ao capi­ tal privado, nacional e estrangeiro, exigindo participação nacional de 60% para o refino e transporte. Vive-se o clima do govemo Dutra, de alinhamento com os EUA. Guerra Fria, cassação do PCB |8.2j. ■ A polêmica entre entregulstas e nacionalistas ga­ nha vulto em tomo do projeto. Em debate no Clube Militar, Juarez Távora defende a linha privalista, alegando falta de capitais e tecnologia. Horta Bartjosa prega o con­ trole estatal, em especial do refino. Na Câmara, um bloco suprapartidário de 70 deputados (Eusébio Rocha, Artur Bernardes, Hermes Lima) combate o Estatuto. A oficiali­ dade se divide: um grupo, ligado à ESG [9.2], advoga a privatização: outro distribui 30 mil cópias da palestra de Horta Barijosa. A grande Imprensa (Correio da Manhã. 0 Estado de S. Paulo) é pró-Estatuto. ■ 0 lema " 0 Petróleo é Nosso” é cunhado pela UNE. Esta engaja na corrente nacionalista as uniões estadu­ ais, diretórios e centros acadêmicos; faz passeatas, debates, comícios, forma a Comissão Estudantil de Defesa do Petróleo, equipes de estudantes-propa-

gandistas e até uma tropa de choque para enfrentar a polícia nas manifestações. ■ A campanha começa com a criação (21/4/48) do Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional. 0 Cepden une amplo leque de partidários da opçáo nacionalista. Elege presidentes de honra o expres. Artur Bemardes. os gen. Horta Bart)osa e Estevão Leitão de Caivalho, o cel. Artur Carnaúba, o cap.-de-corveta Alfredo de Morais Rlho e o pres. da UNE. Roberto Gusmão. Ramifica-se por estados, cidades, bairros, empresas, sindicatos e associações. Ao ser criado rea­ liza a Semana do Petróleo e em jun/48 o Mês do Petróleo, com seminários, debates, comícios: em set. promove a 1* Convenção Nacional de Defesa do Petró­ leo, que começa na ABI e termina na Cinelãndia, apa­ nhando da polícia (a constante violência policial produz algumas mortes durante a campanha). 0 Jomal. o Diá­ rio de Noticias e o Jomal de Debates apóiam o Cepden. A mobilização ganha dimensões imprevistas, influi no Congresso e força um recuo do govemo Dutra; o Plano Salte |8.2] (cujo E vem de "energia”) prevé o reforço do CNP, a construção de refinarias estatais, a participação privada mas não estrangeira: é aprovado com o voto dos nacionalistas. ■ 0 Clube Militar, na época com grande peso político, é um centro nevrálgico do debate sobre petróleo e da luta entre nacionalistas e entregulstas. A eleição de sua direção (15/5,'50) opõe o gen. Cordeiro de Fanas [8.15], com apoio do min. da Guerra, gen. Canrobert, ao nacio­ nalista gen. Estilac Leal. Este vence (por 3.929 a 2.707), engajando o Clube e sua revista na campanha. 0 predo­ mínio nacionalista é curto (em 21/5/52 Leal é derrotado pela Cruzada democrática do gen. Alcides Etchegoyen) mas decisivo: ajuda Vargas a decidir lançar sua candi­ datura e impulsiona o “Petróleo é Nosso". ■ A volta de Getúlio em 31/1/51 [8.3] abre nova fase na campanha. Em 6'12/51 o novo govemo envia ao Con­ gresso 0 projeto que cria a Petrobrás (Petróleo Brasileiro •SA), na versão inicial uma empresa de capital misto, estatal e privado, nacional e estrangeiro, com o formato de uma holding, as empresas já existentes mantêm suas concessões. 0 Cepden ataca duramente o projeto, dizen­ do ser a oportunidade que a Standart Gil esperava. 0 Clube Militar considera-o nocivo à soberania e à se­ gurança nacionais. ■ 0 dep. Eusébio Rocha [17-95], do PTB. apresenta substitutivo prevendo uma Petrobrás 100% estatal, com 0 monopólio integral exceto da distribuição. A 2* Con­ venção do Cepden (5/7/52) reúne 600 delegados de todo 0 país. As novas mobilizações repercutem no Congresso: a própria UDN, tradicionalmente entreguista mas muito ligada às forças armadas, apresenta um projeto ainda mais radical que o de Eusébio Rocha. 0 governo recua e negocia mudanças no projeto original: a Petrobrás perde 0 caráter de holdings a participação estrangeira, manten­ do 0 caráter misto; passa a deter o monopólio do refino, mas uma fómiula de transição mantém as concessões concedidas às refinarias de Manguinhos (DF) e União (SP), na época em construção. ■ A Lel 2.004. instituindo o monopólio da Petrobrás sobre a pesquisa, lavra, refino e transporte do petróleo e deriva­ dos, é votada na Câmara em set/'52. Submetida a um bom­ bardeio privatista no Senado (Assis Chateaubriand, Plínio Pompeu, Othon Mader), sofre diversas emendas, denrut«das na Câmara. Ao todo. tramita por 23 e sofre mais de 150 emendas. Vargas a sanciona em 3''10'53. ■ A Petrobrás Impulsiona a indústria petrolífera, toma-se a maior empresa do país. uma das 50 maiores do mundo, mas nunca atinge a auto-suficiência. Atacada e defendida com igual paixão, passa a simbolizar um modelo econô­ mico. 0 monopólio do petróleo é induído na Constituição de 88 [11.8], mas retirado nas reformas constitucionais do governo FHC (ago/95). sob protesto dos petroleiros, que realizam uma greve nacional de 30 dias.

Cronologia 26/2: Tenentes" do RJ empastelam o jornal conservador Diário Carioca 2/3: L. Collor, B. Luzardo. João Neves e outros gaúchos se demitem do governo Vargas em protesto contra o ataque ao Diário Carioca 5/3:1« Festa da Uva de Caxias do Sul. RS 7/3: Pedro de Toledo torna-se interventor de SP 20/3: Freud publica Lições de Introdução à Psicanálise 21/3: Getúlio cria a Carteira de Trabalho 4/5: Decreto 20.402 fixa a jornada de 8 h na indústria 14/5: Marcada para 3/5/33 eleição da Constituinte 17/5: Decreto cria licença-maternidade (2 meses) e salário igual para trabalho igual 23/5: Choque entre manifesianfes-Legião Revolucionária mata 4 jovens (com as iniciais MMDG) em Sâo Paulo 9/7: São Paulo inicia revolução contra Vargas em nome da reconstitucionalização 12/7: O gen. Euclides de Figueiredo instala QG da Revolução de 32 em Cruzeiro. SP 23/7: Santos Dumont, deprimido com o uso militar do avião, suicida-se em Guarujá, SP 31/7: Após 2 anos de escaramuças, começa a Guerra do Chaco (Paraguai-Bolívia) 22/8:1’ combate aéreo no Brasil, no front do túnel, SP: 4 aviões, nenhuma baixa 9/9: Tropas legalistas cruzam os limites de SP 13/9: Prisão do ex-presidente Artur Bernardes 20/9: Levante em Cerro Alegre. RS. pró-movimento de SP. rapidamente vencido 2/10: O gen. 8. Klinger, chefe militar do movimento de 32, assina a rendição de SP 6/10: Góis Monteiro promovido a general-de-divisão, aos 42 anos de idade 7/10: Plínio Salgado cria a Ação Integralista 15/11: Congresso Revolucionário, reunindo tensntistas, decide fundar o Partido Socialista Brasileiro. PSB • Parnaso de Além-Túmulo, 1® livro psicografado por Chico Xavier • Menino de Engenho, de José Lins do Rego • Seca no Nordeste; retirantes, saques 1933 9/1: Pacto de 21 coronéis da BA com o interventor Juraci Magalhães 30/1: Hitler torna-se 1* ministro da Alemanha 10/2: 0 Conselho Nacional do Café passa a Departamento: subordinado ao govemo 27/2: O Incêndio do Reicritag inaugura a escalada ditatorial de Hitler na Alemanha 19/3: Constituição fascistizante om Portugal 23/4: Marcha de 40 integralistas em São Paulo, de camisas verdes com o sigma, lança Miguel Reale (não eleito) para a Constituinte 3/5: Eleita á Constituinte, por 1,3 milhão de votos; Cariota P. Queirós é a 1* deputada mulher 21/5: Anistia aos revolucionários de 32 6/6: Criado o Instituto do Açúcar e do Álcool 6/7: Criação do Instituto Brasileiro de Estatística 14/7: Armando Sales de Oliveira. Interventor em SP 24/10: Começa a constnjção de Goiânia. GO 15/11: Começam os trabalhos da Constituinte 1/12: O govemo assume metade da divida bancária dos cafeicultores 7/12: O gen. 0. Barcelos propóe â Constituinte a mudança da capital para o Planalto Central 12/12: Vargas nomeia Benedito Valadares govemador-substituto de MG • Fundada a Escola Paulista de Medicma • Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre • Caelés. 1“ romance de Graciliano Ramos • Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Jr • Humberto Mauro filma Ganga Bruta

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Cronologia

8.5 CRISE DE 5 4 1MORTE DE GETÚLIO ■ 0 último ano de Getúlio é uma escalada de crises que a astúcia presidencial já não tem como superar 0 arranjo contido na refomia ministerial de 53 [8.3] desmo­ rona. Em 22/2/54 Goulart cai do Min. do Trabalho, sob o ataque da UDN. patronato e Exército, devido a um au­ mento do salário mínimo. No mesmo dia o gen. Zenóbio da Gosta (7.10] assume a pasta da Guerra no lugar do gen. Ciro Cardoso, que já nâo controla a oficialidade. ■ A oposição passa à conspiração, tendo como focos a UDN, sua Banda de Música [8.3], a oficialidade da Aeronáutica (base aérea do Galeão, Rio) e a Tribuna de Imprensa. Vencido o braço-de-ferro com Goulart, o ata­ que se concentra em Vargas. Aliomar Baleeiro, prócer da Banda de Música, admite em discurso o golpe militar como solução válida (22/3). 0 presidente confirma o au­ mento do salário mínimo no 1® de Maio, chamando os trabalhadores à mobilização; boa parte do empresariado reage aderindo ã idéia do golpe. ■ Carlos Lacerda [14-77] encabeça e espicaça a esca­ lada oposicionista. Simpatizante do PCB quando estu­ dante [7.6], renega as idéias da juventude em artigo en­ comendado pelo DIP (39). Em 45 ajuda a fundar a UDN [8.1]. Jornalista talentoso, polemista de rara virulência, escreve nos principais jornais cariocas e em 27/12/49 funda seu próprio diário, a Tnbuna da Imprensa. Esta não dá trégua a Vargas, indo até os apelos pró-golpe. ■ A denúncia do Pacto ABC alimenta o bombardeio oposicionista. Feila por Lacerda, refere-se a contatos entre Argentina, Brasil e Chile visando fazer trente à influência dos EUA no hemisfério sul. Para a Tribuna da Imprensa, é a prova do intento de criar no país uma república sindicalista de tipo peronista. 0 govemo natu­ ralmente nega. mas o ex-min. do Exterior João Neves (convertido à UDN) confirma tudo. Afonso Arinos, da Banda de Música, requer o impeachment de Getúlio, votado a 16/6 e rejeitado por 136 votos a 35. Mais tarde Arinos admitirá que agiu. a pedido de Eduardo Gomes, visando o movimento nos quartéis. ■ Os fatores de crise se acumulam. Lacerda lança a Aliança Popular contra o Roubo e o Golpe, visando uma chapa única das oposições na eleição de 3/10. Os EUA decretam um boicote ao café brasileiro em retaliação à politica de preço mínimo, 0 PCB acentua suas críticas. Getúlio é vaiado no Jóquei Clube, durante o Grande Prêmio Brasil (1/8). Baleeiro diz na tribuna da Câmara que a saída só pode ser a renúncia ou uma emenda pariamentarisla, que o egoísmo de Vargas não permite, ou ainda o golpe militar. 0 mandato presidencial se apro­ xima do fim, mas a oposição quer que Getúlio e o getulismo deixem o Catete corridos, sem volta possível. ■ 0 atentado da rua Tonelelros. Na madrugada de 5/8, Lacerda, seu filho Sérgio e seu guarda-costas, major da Aeronáutica Rubens Vaz, chegam à casa do jomalista na r. Toneleiros, Copacabana. Ao deixarem o carro, são al­ vejados com tiros por 2 homens; o major morre; Lacerda é ferido no pé. 0 guarda do distrito policial vizinho anota a chapa de um táxi que foge. Seu motorista incrimina Climério Eurides de Almeida, que trabalha na guarda pessoal de Getúlio. Climério escapa, é caçado pela poli­ cia e Aeronáutica, e é preso (10/8). ■ A República do Galeão é como passa a ser cha­ mada a base aérea, onde o cel.-aviador João Adil de Oliveira conduz o IPM (Inquérito Policial Militar) sobre o crime. Uma cadeia das denúncias e prisões leva ao chefe da guarda presidencial, Gregório Fortunato [190063]. A imprensa apresenta Gregório como eminência negra do Catete e anjo negro de Getúlio. Os papéis do preso revelam casos de corrupção, propinas, tráfico de influência. Gregório decide falar induzido por uma edição falsa da Tribuna da Imprensa. E incrimina vários nomes do círculo mais intimo de Getúlio: Bejo [8.1], os deps. Euvaldo Lodi e Danton Coelho, Vitor Costa, Arquimedes Manhães, Roberto Alves, Lutero Vargas, filho do presidente: por fim aponta o gen. Ângelo Mendes de Mo­

raes como mandante do crime (suspeita-se que as dela­ ções são obtidas sob tortura). 0 julgamento só ocorre em 56; 0 general é retirado do processo; Gregório morre ao fim de 25 anos na penitenciária Lemos de Brito. ■ “ Tenho a Impressão de estar sobre um mar de la­ ma” , é a frase, atribuída a Getúlio (15/8) As vaias se repetem durante uma visita a MG. Lacerda clama todos os dias pela renúncia: Afonso Arinos, idem. A 22/8 o Manifesto dos Brigadeiros da Aeronáutica, encabeçado por Eduardo Gomes, exige a renúncia, reforçado por um Manifesto dos Generais, com 27 signatários, dos antígetulistas históricos (Canrobert, Juarez Távora) aos tidos como apolificos (Lott). Vargas contesta: ‘ Daqui só sairei morto".

■ Na última reunião do ministério (madrugada de 24/8), todos se dispõem a apoiar qualquer decisão de Vargas, mas vários (José Américo, Osvaldo Aranha) defendem um licenciamento provisório do cargo como re­ curso menos humilhante. Getúlio aparentemente concor­ da. Às 5 h um comunicado dos ministros divulga a notí­ cia. 0 vice. Café Filho, começa a receber cumprimentos. Lacenja comemora com outros oposicionislas. As 7 h che­ ga ao Catete um ultimato dos generais de oposição, ago­ ra também com o apoio do min. da Guen^a: a licença" tem que ser definitiva. Às 8:30 h Getúlio. em seu quarto, mata-se com um tiro no coração. ■ A Carta-Testamento está ao lado do cadáver. Acusa “gmpos financeiros intemacionaís' e nacionais. Cita o salário mínimo, a Petrobrás, a Eletrobrás, a lei de lucros extraordinários: ‘ Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente'. Propõe-se como “bandeira de luta": ‘ Esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”. ■ 0 impacto do suicídio é imediato e tremendo. Multi­ dões se reúnem espontaneamente nas principais cida­ des, convocadas pela Carta-Testamento; choram, dis­ cursam, tomam as was e atacam as “aves de rapina” sedes dos partidos, jornais e estações de rádio de oposição, representações diplomáticas dos EUA, empre­ sas e bancos estrangeiros. 0 Exército entra em alerta e ocupa as ruas de todas as capitais, mas só após 2 dias a revolta reflui. Lacerda se refugia na embaixada dos EUA e, quando esta é atacada, escapa de helicóptero para 0 cruzador Barroso. Uma multidão estimada entre 500 mil e 1 milhão comparece ao Catete e acompanha o corpo até o aeroporto Santos Dumont. A oposição, te­ merosa, passa a defender o adiamento da eleição de 3/10. 0 getulísmo. que parecia agonizante, faz extra­ ordinária exibição de força. No sepultamento em S. Bor­ ja, RS. Goulart, virtual herdeiro do PTB gelulísla, fala da carta de Vargas como "a bandeira, o lema e o catecismo de todos os trabalhadores". ■ 0 vice João Café Filho [1899-70) assume a pre­ sidência em pleno motim popular de 24/8, prometendo honrar os compromissos de Getúlio, em especial as eleições estaduais de 3/10/54 e presidencial de 3/10/55. Filiado ao pequeno PSP de Adhemar [8.3], forma um mi­ nistério conservador, com base no PSD e na UDN. A Aeronáutica fica com Eduardo Gomes, líder antigetulista da República do Galeão e encabeçador do Manifesto dos Brigadeiros. 0 Min. da Guerra toca ao gen. Henrique Teixeira Lott, legalista disciplinado, tido como apolítico mas participante (tardio) do movimento anti-Vargas. A Fazenda cabe ao tecnocrata Eugênio Gudin [1886-86], expoente do monetarismo neoliberal extremado, ligado ã empresa Light and Power [7.11]. 0 governo-tampão, com mandato de 17 meses, vive des­ de 0 início 0 clima da sucessão [8.6], Na eleição de 54 0 PTB cresce de 51 para 56 deputados federais: a UDN diminui de 84 para 74; mas Lacerda é o deputado mais votado do DF e Goulart não se elege senador pelo RS.

• 0 futebol brasileiro se profissionaliza 1934 3/1 : A Hora (h. Voz) do Brasil passa a ser irradiada em cadeia nacional de rádio 1 2 /1 :0 governo Sales de Oliveira cria a USP, Universidade (estadual) de São Paulo 18/1 : Góis Monteiro, ministro da Guerra 1/2; O compositor Emesto Nazaré. 71 anos. foge de um hospício no RJ (morre em 4/2) 10/4; O Clube 3 de Outubro lança Góis Monteiro para presidente 16/4; Criada a Viação Aérea de SP (Vasp) 17/5: Começa a circular o jonnal integralista A Ofensiva, de Plínio Salgado 9/7; Votado o texto final da Constituição 16/7; Promulgada a nova Constituição 17/7; A Constituinte elege Vargas presidente, por 175 volos contra 59 para Borges de Medeiros 20/7; Morre aos 90 anos, venerado, o pe. Cícero Romão Batista, de Juazeiro, CE 1/8: Prestes, exilado na URSS, filia-se ao PCB 7/10; Violento ctioque entre integralistas e comunistas na pça. da Sé. SP; 5 mortos 14/10: Eleição da Câmara Federal ordinária (com uma aguerrida oposição), do Senado e das Assembléias Constituintes estaduais Outubro: Começa na China a Grande Marctia 26/11: 1* refinaria brasileira, em Uruguaiana, RS; emprega petróleo argentino 24/12; 1« greve dos Correios e Telégrafos • Graciliano Ramos publica São Bernardo • Bangüê, de José Lins do Rego 1935 2/2: Acordo comercial Brasil-EUA rebaixa tarifas alfandegárias Fevereiro: Cidade Maravilhosa, de André Filho, faz sucesso no Carnaval carioca 30/3; Lançada a ANL (Aliança Nacional Libertadora), no Teatro João Caetano, RJ 4/4: Lel de Segurança Nacional, de Vicente Rao, a 1" lei especial sobre o tema; desperta greves de protesto nos jornais do RJ 10/4: Na Constituinte de SP. Armando Sales vence Altino Arantes para governador 11/4: Prestes e Olga Benário chegam ao Brasil. com passaportes falsos 21/4: Apreensão do jomal A Pátria, no RJ 26/4: P. Mota Lima lança no Rio o diário A Manhã, pró-ANL 7/5: No aniversário dos levantes de 22 e 24, Cartos Lacerda, 20 anos, lè no RJ manifesto de Prestes: "Todo o poder à ANLl" 7/5: Góis Monteiro deixa o Min. da Guerra 13/5: Comício da ANL reúne 6 mil pessoas 11/7: Vargas, a conselho de Góis Monteiro, põe a ANL na ilegalidade 13/7: A polícia invade sedes da ANL e da União Feminina do Brasil; várias prisões 21/7: Conferência em Buenos Aires põe fim à Guerra do Chaco entre Paraguai e Bolívia 25/7-20/8; 7“ Congresso da Internacional Comunista aprova linha de frentes populares antifascistas, do tipo da ANL, no Brasil Agosto: Greve geral no RN 3/10: A Itália fascista invade a Etiópia 11-28/11: Greve de 28 mil metalúrgicos no RJ 24/11: Levante militar da ANL (dirigida pelo PCB) toma o poder por 3 dias em Natal, RN 24/11 : Levante da ANL no Recife, PE 25/11: Estado de sitio no pais (até junho/37) 14/12: A Lei de Segurança Nacional é modificada para facilitar a repressão 16/12: Fundado em SP, o São Paulo RC. 31/12; Decreto pune oficiais rebeldes da ANL • Jubiabá, de Jorge Amado

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Cronologia

--------- 8.6 GOVERNO JUSCELINO ■ A eleição presidencial de 55 ocorre à sombra da morte de Vargas [8 “il. Por iniciativa mililar, o govemo Café Fillio tenta viabilizar um candidato único de paci­ ficação nacional, com apoio dos grandes partidos. Etelvino Lins 11908-80], do PSD-PE. 0 PSD, porém. pos­ sui um candidato natural, Juscelino Kubitschek de Oliveira [1902-76], o Nonô (apelido de infância), ou JK (fórmula consagrada na imprensa). Ex-prefeito de Belo Horizonte, no governo de MG (51-55). JK triplica a pro­ dução estadual de energia elétrica, cria estatais de ener­ gia (Cemig), fertilizantes (Fertisa) e frigoríficos (Frimisa), traz para Contagem o grupo alemão Mannesman. For­ mado na escola política pessedista mineira de Benedito Valadares, atrai outros apoios, impondo-se como can­ didato de uma coligação de 6 legendas nucleada pelo PSD e PTB. João Goulart, do PTB [P seu vice, e o apoio do clandestino PCB buscam o voto das massas trabalhadoras. A UDN lança Etelvino Lins; quando este perde o apoio dos pedessistas pró-pacificação, troca-o por Juarez Távora [613. 7.1], com Milton Campos na vice, apoio do gov. de SP, Jânio Quadros [8 101 Adhe­ mar de Barros (8.3] é candidato do PSP com apoio de dissidentes do PTB, o que reforça sua força nos traba­ lhadores e ameaça a chapa JK-Jango, Plínio Salgado [7,7; candidata-se pelo PRP para marcar posição. ■ A campanha é tensa, A UDN tenta impugnar JK por corrupto. Lacerda acusa-o de “condensador da ca­ nalhice nacional” e exige providências dos militares: a escolha do vice e o apoio comunista exacerbam os ataques. Em 5/a/55. 1' aniversário do Atentado da wa Toneleiros [8 4], o gen. Canrobert Pereira da Costa in­ veste contra a “pseudolegalidade” reinante. Em 11/8 o Manifesto eleitoral do Partido Comunista do Brasil, aler­ tando contra o perigo de uma “ditadura militar fascista" (Juarez é general). A UDN diz temer fraudes. Lacerda defende (19/8) o adiamento do pleito, o parlamentarismo e divulga a Carta Brandi (16/9), apontando supostas articulações de Jango com o recém-derrubado pres. ar­ gentino Perón, em tavor de uma “república sindicalista". JK, impassível, prossegue sua estafante campanha: per­ corre 0 país de avião e divulgando o Plano de Metas [8.7], cuja "meta-símese” é a construção de Brasília [8 7i; seu slogan é "50 anos em 5”. ■ As urnas dão a JK vitória apertada; 3 milhões de votos (Juarez. 2,6 milhões; Ademar, 2,2 milhões), dos quais 713 mil em MG; Juarez tem seu melhor de­ sempenho em PE, CE, PB: Ademar é o mais votado em SP e DF, os maiores centros urbanos. Goulart tem 3,6 milhões de votos, Milton Campos. 3,4 milhões, A UDN de imediato entra em campanha contra a posse dos eleitos; alega fraudes, a votação dos comunistas em Juscelino Kubitschek e em especial a tese de que a eleição exige maioria absoluta, Lacerda e seu Clube da Lanterna pregam abertamente o golpe. ■ 0 contragolpe do gen. Lott. No enterro do gen. Can­ robert (1/11), 0 cel. Biüarria Mamede incita o Exército a impedir a posse, que chama “vitória da minoria” e “indis­ cutível mentira democrática". 0 gen. Lott, min, da Guerra [8,10], ouve 0 discurso, considera-o afrontoso â lega­ lidade e solicita ao presidente a punição de Mamede. Mas Café Filho sofre súbita enfermidade cardiovascular e se licencia (3/11); conforme a Constituição, assume o pres. da Câmara, Carlos Luz, do PSD mas ligado à UDN e hostil à posse dos eleitos. Lott insiste na punição de Mamede; ao vê-la negada, demite-se do ministério, arti­ cula 0 gen. Odilio Denis e, na madrugada de 11/11. aciona os tanques da Vila Militar, que tomam os pontos nevrálgicos da capital e cercam o Catete, no movimento conhecido como contragolpe ou golpe preventivo. Carios Luz e Lacerda se refugiam no cruzador Tamandaré (a Marinha é golpista) e ensaiam uma resistência. Mas no mesmo dia o Congresso (por 228 votos a 81) empossa na presidência a Nereu Ramos. pres. do Senado, o pró­ ximo da linha sucessória. Este, com apoio de Lott, impõe 0 estado de sítio (23/11). Em 7/1/56 o TSE confirma ofi­

cialmente a eleição de JK e Jango, empossados a 31/1. ■ 0 governo JK começa pondo fim ao estado de sítio e à censura da imprensa. Anistia dos envolvidos nos episódios de 55. Monta o ministério dando 2 pastas ao PTB (Trabalho e Agricultura), 1 ao PR (Educação) e 1 para cooptar o PSP (Saúde); o PSD fica com os outros 4 ministérios civis. Lott se mantém no Min. da Guerra, com poderes expandidos para áreas afetas a outras pastas e â própria presidência. ■ A base de sustentação do governo repete e amplia a vasta frente que o elegeu. Vai da ala-PSD das oligar­ quias rurais aos trabalhadores sob direção do PTB e PCB, inclui 0 grosso da burguesia, sobretudo industrial, e 0 capital estrangeiro. No Congresso, as bancadas do PSD e PTB (78% da Câmara), mas não só elas, garan­ tem-lhe uma maioria confortável e estável. Jango man­ tém relativa calma na área sindical apesar do custo de vida em alta. Juscelino Kubitschek corteja o Exército e forma, a partir de Lott e Odilio Denis. o Grupo 11 de Novembro, contrapeso do Grupo 24 de Agosto [5 3'. Militares passam a dirigir a Petrobrás e a Sudene. A Ma­ rinha e a Aeronáutica, redutos do antigetulismo, são aplacadas com a compra do porta-aviões Minas Gerais. A UDN se mantém na oposição, com sua estridente Banda de Música, mas o presidente neutraliza seus ataques e foge de confrontos. Um inicio de crise surge em 11/11/56: a Frente de Novembro, nacionalista e de esquerda, homenageia Lott com uma espada de ouro; os militares do 24 de Agosto reagem e o gen. Juarez é preso (por 24 h) por indisciplina. JK actia uma solução salomônica: manda fechar a Frente de Novembro, mas também seu antípoda de direita, o Clube da Lanterna. De outra feita, a UNE chefia um grande protesto no Rio contra o aumento dos bondes; JK aciona o Exército, mas no dia seguinte chama os lideres estudantis para uma afável conversa no Catete. ■ Os levantes de Jacareacanga e Aragarças mostram a persistência de um foco contestatório na Aeronáutica. No 1’ , 0 maj.-aviadcr Haroldo Veloso toma um caça no Rio (10/2/56) e leva-o até Jacareacanga, PA; rebela o lugar, improvisa um sistema de defesa e toma Santarém. Desperta simpatias em sua Arma, mas não a esperada adesão. Atacado pela FAB e pelo navio Presidente Var­ gas, é rendido e preso en 29/2. JK, no seu estilo, logo encaminha a anistia. Mas o maj. Veloso continua a cons­ pirar, agora com o ten -cel.-aviador João Paulo Moreira Bumier (implicado em 68 no Caso Parasar |9.9;). Em 2/12/59. perante a renúncia de Jânio Quadros â candi­ datura presidencial |8 10], e uma suposta ameaça de golpe brizolista, Veloso, Bumier e mais 12 rebeldes se­ qüestram alguns aviões e se dingem para Aragarças, GO, na fronteira com o MT. As adesões não chegam e após 24 h. na iminência de um ataque legalista, os rebeldes fogem para países vizinhos nos aviões toma­ dos. Em S'12 Jânio recua da renúncia e Bumier procla­ ma. em La Paz, que o movimento foi vitorioso. Dessa vez JK não anistia os rebeldes, que retomam no gover­ no Jânio. ■ A relativa estabilidade política faz de JK o 1’ pre­ sidente civil desde 30 (e até hoje) que logra eleger-se. tomar posse, cumprir na íntegra o mandato e passá-k) ao sucessor. Mas tensões sociais e políticas, alimen­ tadas pela inflação [8.71, afloram já nas eleições de 3/10/58 para 11 govemos estaduais, 362 deputados fe­ derais e 1/3 dos senadores. A aliança PSD-PTB rompese na maioria dos estados. No RS. Leonel de Moura Brizola [22-], do PTB mais aguerrido, vence uma aliança PSD-UDN-PL e elege-se governador. Os partidos se es­ garçam e a vida pública se polariza em blocos suprapar­ tidários: a Ação Democrátk:a Parlamentar (ADP) tem por núcleo os caciques conservadores da UDN e do PSD: a Frente Pariamentar Nacionalista (FPN) agrupa a maioria do PTB, PSB. Ala Moça do PSD e Bossa Nova da UDN. Arma-se o cenário de novo ciclo de turbulên­ cias, que viriam a agitar os meios políticos brasileiros.

• Carmen Miranda estrela o filme Alô-alô. Brasil! 1936 10/1 : Vicente Rao, min. da Justiça, forma a Comissão de Repressão ao Comunismo Fevereiro: Pierró Apaixonado, de Heitor dos Prazeres-Noel Rosa, e Mamãe Eu Quero. de Jararaca e Vicente Paiva, fazem sucesso no Carnaval 5/3: Presos Prestes (anistiado em 45) e Olga Benário (entregue à Gestapo) 15/3: Graciliano Ramos e 115 oulros presos politicos do Nordeste sâo trazidos ao RJ 21/3: O Congresso, sob pressão militar, aprova o estado de guerra; suspensão de direitos civis 30/3: O Senado aprova o uso do estado de guerra Março; Eleições parciais: os integralistas fazem 24 prefeitos e 500 vereadores 3/4; Pedro Ernesto, prefeito do RJ, é preso por apoiar a ANL 13/4; O gen. Dutra, min. da Guen-a. nega conspiração e reitera apoio a Vargas 17/6: O gen. Franco inicia a Guena Civil Espanhola (500 mil mortos) 8/9; Criado o Tribunal de Segurança Nacional 12/9: Inaugurada a Rádio Nacional do RJ. estatizada em 40 e campeã de audiência 9/11: A polícia do CE expulsa do sítio do Caldeirão, Juazeiro, 2 mil fiéis do beato José Lourenço: destrói casas e roças 27/11; Nasce numa prisão alemã Anita Leocádia, filha de Prestes: a mãe, Olga Benário, é executada. 28/12: O Superior Tribunal Militar nega habeas corpus à Ação Integralista • Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda • 1" transmissão regular de TV, na Inglatena • Palpite Infeliz, de Noel Rosa e Vadico • Vicente Celestino grava O Ébrio • Lúcio Costa apresenta o moderno projeto do prédio do min. da Educação e Saúde • 1 ° disco da dupla Alvarenga e Ranctiinho • Chartes Chaplin filma Tempos Modernos 1937 1/1: Lançada a candidatura presidencial de Amiando Sales, ex-interventor em SP, pelo Partido Constitucionalista 8/3; Vargas depôe o governo do MT, Mário Correa 15/3; Intervenção no DF; fechada a Câmara dos Vereadores 27/4; Bombardeio alemào massacra Guernica: nos dias seguintes. Picasso pinta Guernica. painel-símbolo da Espanha republicana 4/5; Morre em Vila Isabel, RJ, o sambista Noel Rosa, de tuberculose, aos 26 anos 7/5: Julgamento principal dos reboldes de 35; Prestes, defendido por Sobral Pinto, é condenado a 16 anos do prisão 25/5: ConvonçSo Nacional lança José Américo de Almeida candidato a presidente 10/6: Criada a União Democrática Brasileira, bloco do apoio á candidatura Armando Sales 12/6; Desfile de 25 mil Integralistas no RJ lança o chefe Plínio Salgado para a Presidência 27/6: Cai o cônego Olímpio de Melo. inten/entor federal do DF 10/7; 1* ferrovia eletrificada, da Estação Pedro II a Madureira, no RJ 13-16/8; Congresso nacional dos Estudantes; fundação da UNE 3/9: Entra no ar a Rádio Tupy, SP; os Diários Associados tornam-se a 1• rede de comunicações 30/9: Vargas e o gen. Dutra divulgam o Plano Cohen. supostamente comunista, tor]ado pelo cap. integralista Olímpio Mourão Filho 1/10; 0 gen. Dutra solicita a volta do estado de guerra, a pretexto do Plano Cohen 15/10: Inten/enção do Exército nas Forças Públicas estaduais

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8.7 ECONOMIA / DESENVOLVIMENTISMO / BRASILIA

28/10; Presa a escritora Rachel de Queiroz, CE

■ 0 Plano de Metas de Kubltschek. lançado na campantia eleitoral com o lema *50 anos em 5', pretende fazer do Brasil um país industrial desenvolvido. Inspirase em boa parte nas propostas da Cepal (Comissão Económica para a América Latina), organismo criado (48) pela ONU, com sede em Santiago do Cfiile; com­ bate ao subdesenvolvimento via industrialização, diver­ sificação da estrutura produtiva, reforma agrária, dis­ tribuição da renda, planejamento econômico, reforma administrativa e fiscal.

posse". 0 arquiteto Oscar Nlemeyer [1907-] projeta os principais edifícios (praça dos Três Poderes, palácio da Alvorada, ministérios, universidade, catedral, mais tarde os palácios dos Arcos e da Justiça). Buscam, segundo Niemeyer, “uma forma clara e bela, simplicidade e no­ breza”. 0 projeto fica pronto em 2/12, mas JK tem pres­ sa; em 2/10 visita as obras, dorme no Catetinho (a residência presidencial temporária, de madeira) e no­ meia 0 min. da Agricultura, no 1° ato administrativo na nova capital.

■ Os instrumentos da política econômica incluem o Conselfio de Desenvolvimento, criado em um dos primeiros atos do govemo. 0 BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), criado em 52 sob direção de Roberto Campos [9.5], por recomendação de uma comissão mista Brasil-EUA, propõe-se a fomentar os investimentos das áreas pública e privada. 0 Iseb (ins­ tituto Superior de Estudos Brasileiros), vinculado ao Mi­ nistério de Educação e Cultura e agregando intelectuais (Hélio Jaguaribe, Álvaro Vieira Pinto, Nelson Wemeck Sodré), com autonomia administrativa, liberdade de pes­ quisa e opinião, vários departamentos, visa embasar a política governamental; inclina-se para uma linha de de­ senvolvimento capitalista com feição nacional e presença ativa do Estado; criado em 55 e extinto pelo golpe de 64. cinde-se d. 58 em uma ala radical e outra moderada no enfoque do capital estrangeiro.

■ 0 debate sobre Brasília agrega aos antigos argu­ mentos outros, desenvolvimentistas; a necessidade de interiorizar o desenvolvimento e os fluxos migratórios, deter o inchaço do Rio e S. Paulo. Alguns alegam a con­ veniência de afastar a capital da pressão de massas, tida como subversiva e tradicionalmente forte no Rio. A opo­ sição denuncia gastos excessivos e o favorecimento político de empreiteiras. 0 dep. Pedro Aleixo [9.8], da UDN-MG, 0 ex-min. Gudin e o ex-gov. Ademar de Barros salientam-se nas críticas. Mas não combatem fronlalmente o projeto, dada sua popularidade.

17/10: Flores da Cunha renuncia ao govemo do RS e busca asilo no Uruguai 5/11: Censura da imprensa e rádio a cargo do chefe de policia, Filinto Müller 10/11: Golpo do Estado Novo; tropa cerca e fecha

0 Congresso; outorga da Constituição Polaca 10/11: i-anduifo Alves, interventor na BA 20/11-1/7/39: Suspensos os pagamentos da dívida externa 24/11: Intervenção nos estados, exceto IVIG 2/12: Decreto extingue todos os partidos, transformados (30/12) em sociedades culturais 3/12: Agamenon Magalhães, interventor em PE; ofensiva contra o cangaço • O Rei da Vela. peça de Oswald de Andrade • História Econômica do Brasil, de Roberto Simonsen • Le Corbusier projeta o edifício do Ministério da Educação e Cultura no RJ 1938 3/1: Data prevista para a eleição presidencial, cancelada pelo golpe de 10/11/37 19/1: Ataque da polícia baiana aos remanescentes dos fiéis do Caldeirão em Pau de Colher; ± 400 mortos 26/1: Criado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 20/2: Fuzilados pela policia do Pl os últimos 35 fiéis do beato Lourenço, do Caldeirão, CE; na maioria, mulheres e crianças feridas Fevereiro: O sucesso do Carnaval é /Is Pastorinhas. de João de Barro-Noel Rosa 11/3: Tentativa de golpe integralista frustrada 27/3: A embaixada alemã se queixa de hostilidade aos nazistas germânicos no Brasil 29/4: Criado o Conselho Nacional do Petróleo 11/5: Tentativa de levante integralista chega a tentar a tomada do palácio Guanabara 18/5: A Lei de Segurança Nacional é adaptada ao regime do Estado Novo 28/7: Lampião, Maria Bonita e 11 cangaceiros emboscados, mortos e degolados na fazenda Angicos, BA 21/9: H. Cossel. adido cultural da Alemanha, é declarado persona non grata 5/12:

Congresso aprova o estatuto da UNE;

80 ontidados participam • Olhai os Unos do Campo, de Érico Verissimo • O Que ó Que a Baiana Tem?, Dorival Caymmi • Vidas Secas, de Graciliano Ramos • Pascoal Carios Magno cria o Teatro do Estudante • Perto do Coração Selvagem, 1* romance do Clarice Lispector 1939 9/1: Carta de Roosevelt cortejando Getúlio 22/1: Obtida nos EUA a fissão do urânio 22/1: Jon-a petróleo pela 1* vez no Brasil, no poço de Lobato, BA 26/1: Plínio Salgado é detido por 3 dias em SP Fev: 0 gen. Góis Monteiro é convidado a participar de manobras do Exército alemão 9/3: O. Aranha conclui acordo econômico com os EUA, que emprestam US$ 50 milhões ao Brasil 28/3: Franco, vitorioso, entra em Madri, para permanecer no poder até a mone em 75 A bril: Inaugurada a rodovia Rio-Bahia 1® de Maio: Regulamentada a Justiça do Trabalho 25/5: O gen. dos EUA G. Marshall visita o Brasil 3/6: 1‘ demonstração de TV, no RJ 1/7: Reinicio dos pagamentos da dívida externa 22/7: Plínio Salgado exíia-se em Portugal 27/8: Pacto germano-soviético de não-agressão 156

■ 0 desenvolvimentismo de JK distingue-se do de Vargas. Enfatiza a área de tiens de consumo duráveis, e não mais a de bens de produção. Mantém a Instnjção 113 da Sumoc (Superintendência de Moeda e Crédito), herdada do govemo Café Filfio e seu min. da Fazenda, Eugênio Gudin, isentando as empresas estrangeiras (mas não as nacionais) de taxas de importação de máquinas e equipamentos, mesmo quando existe simi­ lar nacional. Concede às multinacionais prazos de isen­ ção fiscal, terrenos, infra-estrutura, crédito oficial. Mui­ tas delas se instalam com menos de 20% de investi­ mento efetivo de capitais. Ocorre assim forte fluxo de capitais, sobretudo dos EUA (também da Alemanha, França, Japão). 0 PIB cresce em média 7% ao ano, contra 5,2% em 45-55. A produção industrial aumenta 60% em 55-61, a siderurgia 100%. a indústria mecânica 125%, a elétrica e de comunicações 300% e o recor­ dista setor dos transportes 600% (8.8). Mas JK é cri­ ticado pela esquerda, inclusive na base governista, por fomentar a desnacionalização e um "desenvolvimento associado", dependente. ■ Brasília é a 'meta-síntese' do Plano de Metas. Sua constnjção. em 41 meses, é a grande marca do govemo JK. 0 plano de transferir a capital é antigo, baseado em razões estratégicas (o litoral é mais vulnerável a ataques estrangeiros), de salubridade (o Rio, até 1904, é um foco de febre amarela), de integração nacional. A idéia foi defendida pelos conjurados de Vila Rica em 1789 (2.11], 0 Correio Brasiiiense de Hipólito José da Costa em 1813 [3.9] e José Bonifácio de Andrada em 1823(3.4], motivou uma profecia do bispo d. Joáo Bosco em 1833, um proje­ to de lei em 1852, uma viagem ao Planalto Central do tiistonador Francisco Varnhagen em 1877. A localização da nova capital, no divisor de águas das bacias do Amazonas, Prata e S. Francisco, e até o nome Brasília aparecem desde 1822. A Constituição de 1891 [6.1] endossa 0 projeto, reafinnado nas de 34 17.4) e 46 [8.2]. Uma comissão exploradora oficial (1892), chefiada pelo geógrafo Luís Cruis, delimita a área do futuro DF (Re­ tângulo Cruls). Mas é JK que faz da mudança da capital uma meta de govemo e uma bandeira de mobilização. ■ 0 projeto da mudança passa no Congresso (19/9/56) em clima de ceticismo. A Novacap (Companhia Urtwnizadora da Nova Capital), lançada por JK na Men­ sagem de Anápolis, é aprovada e entregue a Israel Pinheiro [1896-73], 0 projeto urbanístico vencedor, de Lúcio Costa [1902-], inspira-se em uma cmz, “gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma

■ As obras marcham em ritmo frenético, graças às fartas vert)as especiais e à autonomia da Novacap. Em jan/57 há 2.500 operários trabalhando, no final 30 mil. A ligação rodoviária com Anápolis, GO, fica pronta em 16/10/56; 0 aeroporto em 3/2/57. Em 1/8 sai a lei fixando 0 dia da mudança da capital; 21/4/60. Em 1/9/58, JK inaugura as 1“ residências definitivas do Plano Piloto. Durante algum tempo operários e funcionários habitam acampamentos de madeira; os maiores, na Cidade Livre e na Asa Sul, em 17/5/59 têm 11 mil moradores cada. ■ Candangos (do quimbundo hangundu, ruim, ordinário) é como se chamam os operários das obras da capital, mais tarde qualquer dos 1“ moradores de Brasília. A maio­ ria vem de MG e do Nordeste. Trabalham até 18 h,'dia, muitas vezes sem receberem horas-extras ou férias, de­ mitidos sem justa causa nem indenização, agredidos por seguranças das empresas, em geral sem equipamento de segurança, o que provoca muitos acidentes. Após a inau­ guração. 0 orçamento da Novacap e o ritmo das obras se reduzem, gerando desemprego. Os operários moram nos acampamentos da Cidade Livre (em oposição ao Plano Piloto); em 61 são ameaçados de expulsão; resistem, movimentam-se e conseguem consolidar o chamado Nú­ cleo Bandeirante. ■ A Inauguração de Brasília e a mudança oficial da capital ocorrem de tato em 21/4/60. Apenas uma parte dos prédios públicos e pouquíssimos residenciais estâo prontos. No mais. a cidade ainda é um canteiro de obras, ou nem isso. A própria máquina de governo transfere-se vagarosamente. Os funcionários, civis e militares, resis­ tem a deixar o Rio pela poeirenta nova capital, apesar do incentivo da dobradinha (salário em dobro para os que se transferem). Só no fim dos anos 60, quando as embai­ xadas se transferem, a mudança se completa no funda­ mental (assim mesmo vários órgãos federais, empresas e autarquias conservam no Rio suas sedes ou o grosso do seu funcionamento). ■ 0 antigo Distrito Federal com a transferência conver­ te-se em Estado da Guanabara (até a fusão com o RJ em 74) e entra em processo de prolongada decadência [8.12]. ■ Brasília cresce em ritmo ainda mais acelerado que as outras grandes cidades. No Censo de 60 o novo DF conta 141 mil habitantes (0,2% da população total do pais); em 70, 537 mil (0,5%); em 80. 1,147 milhão (1%); em 91. 1,596 milhão (1,1%). Pelo projeto original, deve­ ria chegar aos 500 mil por volta do ano 2000... Nos anos 70 0 Plano Piloto assume em linhas gerais seu formato definitivo, preenchendo claros antes numerosos. Mas é nas cidades-satélites que a explosão demográfica é mais forte. Em 60 e 70 elas ainda têm menos habitantes que o Plano Piloto; no Censo de 91, concentram 3/4 da popu­ lação do DF; em especial Ceilándia (surgida nos anos 70) e Taguatinga.


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Cronologia

8.8 ECONOMIA / ESTRADAS / AUTOMOVEIS / FMI

1/9: A Alemanha invade a Polônia; começa a II Guerra Mundial (o Brasil participa d. 2/7/44)

■ 0 automóvel marca a fundo o século 20, como IndCistria, veiculo e símbolo. Os 1” veículos eficazes usan­ do motor de explosão datam de 1893 (Dalmier e Benz, Alemanha, Ford, EUA). Em 1913 Henry f^ord inicia o fa­ brico do modelo T em linhas de produção, dando um salto na produtividade, derrubando os preços e fixando o pa­ drão tecnológico da 2* Revolução Industrial (taylorisme, fordismo [12.3)). No período entre-guen-as o fabrico de automóveis se afirma como carro-chefe da industrializa­ ção no mundo. Exigindo produção em vasta escala, gran­ des investimentos e tecnologia avançada, logo se con­ centra em cerca de 20 imensas empresas, sobretudo a General Motors, a Ford e a Chrysler, Iodas dos EUA (ultrapassados, nos anos 80, pelo Japão).

2/9: Vargas diz que Brasil fica neutro na guerra 3/10: Países americanos assinam a Declaração do Panamá, neutrallsta 27/12; Criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), encarregado da censura • Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, na voz de Francisco Alves

• O maestro H. J. Koelireuter lidera o grupo Música Viva; o dodecafonismo chega ao Brasil • Bertold Brecht publica a peça Mãe Coragem 1940 14/1: Instala-se no RJ a Comissão Inletamericana de Neutralidade 25/3: A polícia invade O Estado de S. Paulo, que lica sob intervenção até 45 15/4: Juscelino Kubitschek, prefeito (nomeado) de Belo Horizonte 1 9 /4 :0 aniversário de Vargas vira festa oficial, com desfiles públicos e programas de rádio 29/4: Inaugurado o estádio do Pacaembu, SP A bril: Presa a direção remanescente do PCB 1® de Maio: Vargas anuncia a lei do salário mínimo em comicio para trabalhadores no Vasco. RJ 12/5: Inaugurado em São Paulo o autódromo de Interlagos 11/6: Discurso pró-nazista de Vargas a bordo do encouraçado Minas Gerais 14/6: O Exército alem ão desfila em Paris

2/7: O salário mínimo entra em vigor 8/7: Decreto cria o imposto sindical 19/7: Eleita por 248 votos a 4 a nova diretoria da UNE; Ulysses Guimarães é o vice 21/8: Leon Trotsky é assassinado no México

1/9: O 5“ Censo conta 41.165.289 habs. e mede pela 1» vez a taxa de urbanização; 31.1% 27/9: Formação do Eixo Roma-Beriim-Tóquio Setembro: Os EUA emprestam US$ 20 milhões para as obras da siderúrgica de Volta Redonda 20/11: A Armada inglesa apresa em Lisboa o navio brasileiro Siqueira Campos, que leva armas alemãs; Dutra sugere declarar guerra à Inglaterra 28/11: 14 países produtores e 1 consumidor firmam o Convênio de Washington sobre o café 31/12: Vargas reafirma a neutralidade do Brasil 1941 8/1 ; Volta ao RJ o navio Siqueira Campos, lit>crado pela Marinha inglesa 16/1: Restrições à atuação no Brasil de cidadãos de países beligerantes 18/1: Cruzador inglês captura em águas brasileiras

0 navio francês Mendoza 20/1 : Surgem o Ministério da Aeronáutica e a FAB (Força Aérea Brasileira) 24/1 : O poeta Cassiano Ricardo assume a direção do jornal estatal e governista A Manhã Janeiro: Começam as obras da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda, RJ 20/2: Os Correios Aéreos Militar e Naval fundem-se no Correio Aéreo Nacional 22/3: Aviões alemães metraiham no Mediterrâneo 0 navio Taubaté 18/4: 0 embaixador Caffery obtém para os EUA acesso aos portos de Salvador e Recife 25/4: Washington oferece instrução para pilotos br.-isiloiros nos EUA 1” de Maio: Vargas cria a Justiça do Trabalho, criticada pelo em presariado

22/6: Operação Barbarossa; Hitler Invade a URSS, sem declaração de guerra

27/6: 0 embaixador dos EUA considera Vargas definitivamente pró-Aliados 10/7: Carta de Roosevelt a Vargas pede participação do Brasil na defesa do Hemisfério 158

■ No Brasil, o 1* automóvel, a vapor, chega em 1897 e pertence a José do Patrocínio (5.7). Em 20 a Ford implan­ ta em S. Paulo uma linha de montagem do modelo T, com 12 operários. A General Motors instala-se em S. Paulo em 24 e em S. Caetano em 29. Estas 1“ unidades limitam-se montar veículos fabricados nos EUA. Em 29 o Brasil monta 2 mil caminhões leves: em 42, 7 mil. Em 52, pos­ sui 7 montadoras e 250 fábricas de autopeças. 0 gover­ no restringe (19/8/52) a importação de autopeças àque­ las não produzidas no país e até 55 mais 300 indústrias se instalam. ■ A Fábrica Nacional de Motores surge (42) para pro­ duzir motores de aviões no RJ. dentro do esforço de guena, com apoio dos EUA. em moldes semelhantes aos da CSN [7 11). Findo o conflilo. o plano original é aban­ donado, assim como outro, de fabrico de tratores. Uma associado com a empresa italiana Isotta, para produzir caminhões, malogra devido ã falência da Isotta. Novo acordo, com a também italiana Alfa Romeo, permite (d. 24/2'51) a produção de caminhões pesados, com índice de nacionalização de 35%, que em 55 sobe para 54% e em 58 supera 70%. Lento, mas robusto, o caminhão Fenemê (“Feio, Nojento e Mole”, para os críticos) povoa as precárias estradas brasileiras dos anos 50 e 60. Em 55, a indústria de máquinas agricolas Romi, de Sta. Bárbara d Oeste. SP, inicia o fabrico da Romi-lsetta, minicompacto (300 k, 30 km com 1 litro de gasolina) projeta­ do na Europa. ■ Juscelino Inclui no Plano de Metas [8.7| o desen­ volvimento da indiistria automobilística, prioridade de Getülio congelada por Café Filho e Gudin. Põe o cap. da Marinha Liicio Melra, entusiasta da Idéia, à frente do Min. da Viaçáo e do Gela (Grupo Executivo da Indústria Automobilística), criado em 16/7/56. No inicio as empre­ sas automobilísticas resistem, em especial americanas (a Ford chega a alegar que é impossível fundir bkx»s de motor em dima tropical). JK convence-as com facilidades excepcionais baseadas na Instrução 113 (8 7), e uma po­ litica que reserva o setor ao capital estrangeiro. Das 11 empresas que o Geia seleciona, 2 são nacionais (a Vemag, privada, e a FNM, estatal) e 9 estrangeiras (Ford, General Motors, Harvester, Volkswagen, Mercedes-Benz, Scania Vanis, Willys Overtand, Chrysler, Toyota). Os ca­ pitais nacionais controlam 22% do setor. A Romi. sufoca­ da. suspende a produção. Na área de autopeças, a prin­ cípio resen/ada ao empresariado nacional, este se reduz para 38% do total. 0 govemo incentiva a nacionalização apenas no sentido de fabricar no pais os componentes; esta salta de 30% em 55 para 70% em 58 e 98% em 60. A importação de veículos, penalizada por alíquotas de 150%, cai bruscamente, para menos de mil unida­ des/ano d. 60. ■ As montadoras de automóveis se implantam no ABC paulista, favorecido por ficar perto do porto de Santos e do centro consumidor de S. Pauk). ser cortado pela ro­ dovia Anchieta (d. 47) e a ferrovia Santos-Jundiai. A GM já está em S. Caetano. A Willys instala-se (52) em S. Bernardo (nas Instalações que mais tarde passam à Ford), assim como a Volkswagen e a Mercedes (S3), a Toyota e a Simca (58). A Vemag situa-se no bain-o do Ipiranga, bairro de S. Paulo vizinho ao ABC. Apenas a

FNM, no Rio (e uma unidade da Sinnca em Santa Luzia, MG) fogem à lógica da concentração. 0 ABC se converte num tipico pólo da grande mdústna fordista, com centro em S. Bernardo: o n= de empresas da cidade sobe de 133 em 50 e 175 em 55 para 284 em 60: o n® de operários, de 4.800 para 11 mil e 29 mil. As fornecedoras de auto­ peças agnjpam-se em tomo das montadoras. ■ Os automóveis nacionais substituem em poucos anos a geração anterior, de carros importados. Na faixa dos populares há o Dauphine, da Willys, de patente francesa, o DKW-Wemag e o imbatível Volks (mais tarde Fusca), um sedan de 1.200 cc, consagrado na Alemanha com 0 nome de Besouro), recordista de vendas até os anos 80. Há carros de luxo, como o Simca Chambord, o Aero-Willys e o Alfa Romeo, da FNM. Entre os utilitários, a Rural Willys, com tração nas 4 rodas, enfrenta buracos e atoleiros: o mais vendido é a perua Kombi, da Volks­ wagen, único veículo da época produzido sem intermpção até 97. A GM, a Ford e a Mercedes-Benz pro­ duzem caminhões médios e ônibus. ■ A malha rodoviária do país, recente, reduzida e precária, acompanha o boom automobilístico, a mudança da capital e o esforço de interiorização. As rodovias fede­ rais em 55 somam 22 mil km; em 61 chegam a 35 mil; a parcela pavimentada sobe de 2,3 mil para 9,6 mil km. Os críticos apontam o dedo das multinacionais do automóvel na prioridade oficial para as rodovias, em detrimento das ferrovias e hidrovias, que permitiriam um sistema de transporte muito mais racional e barato. ■ A Belém-Brasília (a rigor. Belém-Anápolis), com 1.964 km, simboliza o empenho rodoviário de JK. As obras engajam 400 máquinas pesadas e milhares de trabalha­ dores, dirigidos pelo engenheiro Bernardo Saião, que morre num acidente durante a construção. Políticos e jor­ nalistas [wrcorrem a estrada, na Caravana da Integração, para assistirem à inauguração de Brasília (8.7). 0 conflito com o FMI ■ Os custos do desenvolvimentismo se acentuam ao longo do govemo JK. 0 déficit público federal passa de 1% do PIB em 55 para 4% em 57. As contas externas se ressentem com a elevação da divida extema para USS 3 bilhões, a baixa dos preços das exportações e as remes­ sas de lucros de empresas estrangeiras (que em 55-58 superam os investimentos externos na proporção de US$ 2 bilhões para US$ 1 bilhão, segundo uma comissão mis­ ta Brasil-EUA). A taxa de inflação salta de 12% em 57 para 38% em 58. ■ Um programa de estabilização é anunciado (out/58) pelo novo pres. do BNDE, Roberto Campos e o min. da Fazenda Lucas Lopes; prevê o controlo da expansão monetária, corte nos gastos públicos, redução dos subsí­ dios à gasolina e ao trigo, contenção salarial, arrocho do crédito às indústrias. As medidas descontentam desde os industriais até as camadas populares (vítimas de um brusco aumento nos transportes públicos, pão e farinha de trigo, devido à redução dos subsídios). Roberto Cam­ pos passa a sofrer forte critica da esquerda, como sím­ bolo do 'entreguismo", recebe o apelido de Bob Fields, é enterrado simbolicamente pela Uf^E. Por sua vez, o FMI (Fundo Monetário Internacional) exige uma contenção ainda mais drástica, uma reforma cambial abrindo o mer­ cado brasileiro às importações e o fim da politica de de­ fesa dos preços internacionais do café, como condições para avalizar o um crédito stand-by do Eximbank dos EUA, no valor de USS 300 milhões. ■ A suspensão das negociações com o FMI (28/6/59) visa salvar os objetivos Plano de Metas e o próprio prestí­ gio do presidente, postos em xeque peto receituário recessivo do Fundo. Juscelino chama de volta os nego­ ciadores brasileiros, afasta Roberto Campos, Lucas Lo­ pes e outros expoentes "entreguistas". 0 programa de austeridade é engavetado, para reaparecer no fugaz governo de Jânio (S.10| e ser afinal implementado, pelo mesmo Roberto Campos, após o golpe de 64 [9.4|.


159


■8.9 URBANIZAÇÃO / MIGRAÇÕES INTERNAS

Cronologia 24/7: Acordo cria a Comissào Mista (militar) Brasil-EUA 7/12: Tropas japonesas atacam bases dos EUA em Pearl Harbor (Havaf) e nas (8/12) Filipinas; os EUA declaram guerra ao Japão Dezembro: México, Colômbia, Venezuela e mais 9 países latino-americanos rompem relações com ou declaram guerra ao Eixo • A Rádio Nacional leva ao ar a 1* novela, Em Busca da Felicidade, cubana, e o Repórter Esso • Fundada a Atlântica Cinematográfica • Orson Welles filma Cidadão Kane 1942

7/1: Roosevelt agradece a Vargas pelo acesso aos portos e aeroportos do Nordeste 15/1:3* Conferência Pan-Americana, no RJ: Osvaldo Aranfia é o presidente 22/1: Criada a pena de morte para sabotadores 28/1: O Brasil corta relações com a Alemanha e Itália 9/2: Criado o território de Fernando de Noronha 14/2: Submarino alemão afunda o navio Buarque (54 mortos), iniciando uma escalada de ataques 23/2: Stephan Zweig e esposa se suicidam em Petrópoiis, RJ 11/3: O govem o encam pa as em presas aéreas Lati (italiana) e C ondor (alemã)

22/5:1® avião da FAB ataca submarino alemão 26/6: Filinto Muller. Leitão da Cunha, Francisco Campos e Lorival Campos deixam o Ministério 1/7: Fundada a Companhia Vale do Rio Doce; herda a rica jazida de ferro de Itabira, MG 5/7: Inauguração de Goiânia, capital planejada de GO 18/8: Manifestações populares em várias cidades exigem que o Brasil declare guerra ao Eixo 18/8; Estudantes ocupam o Clube Germânia (alemão), no RJ, e o transformam em sede da UNE 22/8: Declaração de guerra à Alemanha e Itália; estado de guerra em todo o Brasil 25/8; Góis Monteiro deixa a chefia do Estado-Maior do Exército A gosto; Instala-se a base militar de Natal, RN 14/9; O 5’ Congresso da UNE exige que o Brasil enlre na guerra contra Hitler 5/10; Reforma monetária; o cruzeiro torna-se rtx)eda nacional no lugar do mil-réis 31/12; Vargas justifica a declaração de guerra em almoço com a cijpula das Forças Armadas • Ano de seca no Nordeste • A i que Saudades da Amélia, samba de Ataulfo Alves e Mário Lago • 0 prefeito de Belo Horizonte, JK, inicia obras da Pampulha, ousado projeto de Oscar Niemeyer 1943

1/1: Instala-se no RJ a Sociedade dos Amigos da América 29/1: Roosevelt e Vargas se reúnem em Natal, RN 2/2: A URSS vence a estratégica batalha de Stalingrado e passa à ofensiva contra a Alemanha 12/2; Os EUA fornecem 3 caças ao Brasil 1* de Maio: O governo Institui a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) 31/7; Avião da FAB põe a pique submanno alemão U-199; recolhe 12 sobreviventes 28-30/8: 0 PCB, abalado pela repressão, se rearticula na Conferência da Mantiqueira 13/9: Criação dos ten^itórios federais de Ponta Porã e Iguaçu (extintos em 46) (AP), Rio Branco (RR) e Guaporé (RS) 10/11: Passeata ostudaniil do silêncio, SP, no dia em quo deveria haver eleição presidoncial; há repressão, 2 m ortos e 25 feridos

23/11; Criada a Força Expedicionária Brasileira 6/12: O gen. Mascarenhas de Moraes acerta na Itália a participação da FEB ao lado dos Aliados 160

■ 0 quadro migratório brasileiro se modifica por volta dos anos 30. A grande imigração européia, em retração desde 1914, e o mais recente fluxo de japoneses, em as­ censo até 34 [5.5], caem sensivelmente. A política oficial, antes de fomento, inverte-se. Os subsídios migratórios são suspensos já em 27. Vargas fixa um teto para o ingresso de cada nacionalidade (2% do total dos últimos 50 anos). ■ As migrações internas, em contraste, se intensifi­ cam Antes, são fenômenos localizados (Huxo para MG, e o e IvlT no auge minerador do século 18 [2.8], para a Amazônia na era de ouro da borracha [6.4). Os brasilei­ ros são apenas 5,5% dos imigrantes chegados a SP em 1908-17. Sobem para 23,4% em 18-27, vindos de MG e sobretudo BA. Em 31-35, superam pela 1* vez os estran­ geiros, chegando a 57%. Por essa época, as áreas po­ bres e retardatárias do país assumem o papel que antes pertenceu á África e em seguida aos excluídos da Eu­ ropa, fornecendo braços para o próspero Sudeste, em especial SP e o Rio. 0 fenômeno se entrelaça e se con­ funde com a marcha da urbanização.

■ Os caminhões pau-de-arara levam legiões de nor­ destinos para o Centro-Sul (o nome deriva dos paus roliços, similares aos usados na criação de aves, onde se agarram os viajantes, na carroceria nem sempre coberta; 0 termo termina designando os retirantes que viajam nesses caminhões e por fim os nordestinos em geral). Antes da ligação rodoviária com o Nordeste (Rio-Bahia, inaugurada em 39), a migração usa os barcos da Cia. de Navegação Costeira, os itas (Itaguatiara, Itanajé, etc.). S. Paulo, 0 Rio e suas regiões metropolitanas sâo o prin­ cipal desaguadouro dos migrantes.

■ S. Paulo é 0 exemplo clássico de urbanização ace­ lerada. Em 1872 é a W cidade do país em população; toma a 2^ colocação, de Salvador, em 1898 e a 1®, do Rio, em 62. A taxa anual de crescimento demográfico, que chega ao pico de 14% na virada do século e cai para 4% em 40, volta a crescen 5% em 50, 5,5% em 60. A cidade sofre uma remodelação urt3anística radical nos anos 40 (viadutos, avenidas radiais e perimetrais, retifi­ cação do t. Tietê, verticalizaçâo), que vai até fins dos anos 60 (obras do metrô d. 68, marginais do Tietê e Pi­ nheiros. avenidas 23 de Maio, Rubem Berta, Sumaré). E ■ A febre urbanizante conclui em 40 anos no Brasil um integra toda a região à sua volta em uma única região processo que na Europa e EUA levou 1 a 2 séculos. Não metropolitana. Nos anos 50, 788 mil pessoas migram de é fenômeno apenas brasileiro, ocorre simultaneamente outros estados para a Grande S. Paulo; nos anos 60, em grande parte do 3® (/undo (México, Argentina, África são 1.318 mil; nos anos 70, nada menos que 2.870 mil. do Sul, Egito, Irã, Iraque, Coréia), fvias o Brasil é talvez o Em 40 a região metropolitana responde por 25% da pro­ caso mais típico, pela dimensão e rapidez do éxodo mral. dução industrial brasileira: em 50, 35%; em 60 e em 70 ■ 0 Censo demográfico de 40, 1- a registrar a popu­ chega a 41%. Perto de 1/4 desse desempenho corres­ lação urbana e niral, coincide com os 1” passos da ponde ã indústria do ABC, sobretudo o setor automotivo. urbanização acelerada da sociedade brasileira. Até fins Já em 80 a participação da Grande S. Paulo na pro­ do século 19, a taxa de brasileiros que moram em cida­ dução industrial do país declina para 31,3%, começando des nâo atinge 10%; em 1920 gira em tomo de 26%. 0 a perder terreno para pólos emergentes dentro e fora do Censo de 40 já registra uma urbanização de 31,2%. 0 de Estado de SR 60. 44,7%. No Censo de 70 a população urbana (52 mi­ ■ 0 Rio e sua região metropolitana fonnam o outro lhões) supera pela 1* vez a mral (41 milhões), chegando pólo de atração de migrantes. Espremido entre o mar e a à taxa de 55,9%. Em 80 o processo já está virtualmente montanha (só mais tarde vazada pelos grandes túneis), concluído, com 67,6% de urbanização [13.6], superando expande-se ao longo das linhas férreas (subúrtjios da a Áustria (52%), Suíça (58%), Itália (67%). Central e Leopoldina). As cidades-dormitórios de Caxias, ■ As médias e grandes cidades concentram a urtiaNiiópolis, Nova Iguaçu e S. João de Meriti, assim como nização. Os municípios com menos de 20 mil habs, tém S. Gonçalo, do outro lado da baía, crescem bem mais crescimento végétative, quando nào negativo. Já aqueles que a antiga capital. Nesta, as favelas já em 50 contam com mais de 100 mil habs. passam de 23, em 40, para 64 169 mil habs. [12.7], dos quais 29% nasceram no RJ, em 60 e 143 em 80. Em 40 apenas o Rio e 8. Paulo 17% em MG, 6% no ES, 6,5% do Nordeste. superam 1 milhão de habs. e possuem características de ■ A migração para as áreas de fronteira agrícola, de metrópoles, somam 2.9 milhões de habs. urt)anos, 7,2% proporções mais modestas, dirige-se para a larga laixa da população do país. Já em 70, as 10 regiões metropo­ que vai do oeste do MA, o Bico do Papagaio e o Mato litanas existentes chegam a 23,4 milhões, ou 25,2% do Grosso de GO, o sul do MT, até oeste do PR e SC. Nos total; e em 80 a 34.5 milhões. 29% do total. anos 70 e 80 a Irente pioneira alcança com maior impacto ■ Nos 2 pólos do fenômeno acumulam-se fatores que 0 sul do PA (ao longo do Araguaia e Tocantins [9.11]). RO 0 estimulam. Vastas regiões airais começam a expulsar e norte de MT 0 PR, antes uma área de imigração, em massa excedenies demográficos. E os centros urba­ passa a viver forte êxodo rural, à medida que a soja me­ nos demandam mão-de-obra de fora para alimentar a canizada toma 0 lugar dos cultivos com emprego intensi­ expansão Industrial e/ou de serviços. vo de mão-deobra [11.4]. ■ 0 êxodo rural ocon'e em especial no Nordeste. MG, ■ A Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do parte do RJ, ES, RS. 0 latifúndio, improdutivo e retró­ Nordeste) surge no governo JK (15/11/59), sob o impacto grado, assim como os minifúndios, cada vez mais reta­ da seca de 58, propõe-se a ser um verdadeiro ministério lhados, sáo incapazes de absorver o acréscimo popu­ do Nordeste, empenhado em superar o prolongado atra­ lacional, alimentado por elevadas taxas de natalidade. so da região. Seu idealizador e superiritendente (até o No Polígono das Secas {delimitado por lei em 51), as golpe de 64) é 0 economista paraibano Celso Furtado periódicas estiagens aguçam ao extremo as já grandes [20-], ligado à Cepal [8.7], A área de atuação vai do MA à carências da população pobre, provocando grandes BA, e a parte de MG incluída no Polígono das Secas; levas de retirantes. Em 20 anos (60-80), 29 milhões dei­ com sede no Recife. 0 objetivo é estudar e sugerir dire­ xam 0 campo. trizes para o desenvolvimento regional, supen/isar e con­ trolar ou implementar diretamente os projetos do governo ■ As cidades, por sua vez. precisam de gente. 0 pa­ federal no Nordeste. 0 órgão não enfrenta a tarefa da re­ drão de industnalização da época é extensivo, ao contrá­ forma agrária, apesar da ebulição camponesa da época rio do que prevalece a partir dos anos 80: baseia-se na [8.14], enfatiza os incentivos fiscais a empresas, visando contratação de mais e mais trabalhadores. A expansão urt^ana alimenta a construção civil, em especial na cons­ criar pólos iridustriais (Recife, Salvador), os transportes, trução de Brasília (8.7), de rodovias [8.8], hidrelétricas e energia, açudes, colonização. Passados 35 anos, a ren­ na edificação vertical. Muitos dos migrantes recém-che­ da per capita do Nordeste registra ligeira evoluído, de gados encontram seu 1* emprego como 'peões de obra". 43% para 50,5% da média nacional; para os críticos da Sudene, o fato reflete sobretudo os benefícios auferidos 0 setor de comércio e serviços também se expande. Além pelos capitais ali investidos, com subsídios da ordem de disso, as cidades a ^ r a são mais acessíveis, pela expan­ 37% do total. são da rede rodoviária, e conhecidas, através do rádio.


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8.10 GOVERNO JANIO I CRISE DA RENUNCIA ■ A eleição de 60 é a 1' desde 30 (e até hoje a última) que conclui um ciclo presidencial de normalidade democrática: um presidente eleito, que termina o manda­ to e passa o cargo ao sucessor também eleito. Três can­ didatos disputam o cargo. ■ Jánio da Silva Quadros [1917-92] vem de meteórica ascensão política. Professor de português, candidato a vereador de S. Paulo (47), fica na suplència mas assume em 48 com a cassação dos mandatos comunistas [8.2]. Com oratória peculiar, vestes em desalinho, cabelos lon­ gos, projeta-se na oposição ao ademarismo; deputado estadual em 50, em 53 ganha a eleição para prefeito de S. Paulo (a 1* desde 30), atropelando as maiores máqui­ nas políticas locais na Campanha do Tostão contra o Milhão, com um discurso moralista e a vassoura como símbolo. Em 54 repete a façanha ao vencer o próprio Ademar de Barros para o govemo de SR Em 58 faz seu sucessor {Carvalho Pinto). Sem “sujeitar-se" a partidos, aparece em especial para as camadas médias como uma esperança de moralização. A UDN, por proposta de Lacerda, adota-o como candidato presidencial. Tem o apoio de pequenas legendas à direita, de uma ala do próprio PSD, do emergente Movimento Popular Jânio Quadros, da Fiesp e de 2 candidatos a vice (a lei o per­ mite): Milton Campos (UDN-MG) e Fernando Ferrari (dis­ sidente do PTB). ■ 0 mal. Henrique Teixeira Lott [1894-84], herói lega­ lista da crise de 55 [8.6] e min. da Guerra de JK, é o can­ didato ÿo PSD-PTB. Defensor do voto dos analfabetos, crítico das remessas de lucros para o exterior, atrai apoios nacionalistas e de esquerda, inclusive do clan­ destino PCB (embora seja um anticomunista declarado). Enfrenta problemas com a escolha do candidato a vice: 0 PTB apresenta o nome de João Goulart [8.3-51 vice de JK, com forte apoio trabalhista mas hostilizado pelos conservadores do PSD como filo comunista. Ademar de Barros [8.3] corre por fora, por razões ligadas a inte­ resses de SP ■ Jânio vence o pleito de 3/10/60 com 44,8% dos vo­ tos, contra 30,6% para Lott e 17,4% para Ademar. Goulart é eleito vice (a votação para os 2 cargos é em separado), com 38,1% dos votos (Milton Campos 33,7%, Ferran 17%). em parte graças ao voto "Jan-Jan" (Jánio-Jango), pregado por comitês locais com acei­ tação tácita de Jânio, apesar das queixas da UDN. Na eleição para governos estaduais, os udenistas Carios Lacerda e Magalhães Pinto vencem as estratégicas dis­ putas da GB e MG (onde Tancredo Neves [10.17,11-1] é derrotado). ■ 0 governo Jânio dura 7 meses (31/1-25/8/61). No ministério figuram nomes antigetulistas da UDN e pequenos partidos: apenas o titular dos Transportes é do PSD. 0 min. da Fazenda, Clemente Mariani (ban­ queiro e industrial, UDN-BA) adota uma linha de con­ tenção financeira, corto de gastos públicos e subsídios (trigo, petróleo), desvalorização da moeda em mais de 100% e fomento das exportações. Agrada o FMI [8.9], que avaliza empréstimos externos de US$ 726 milhões. Mas perde popularidade devido â oarestla (pão, trans­ portes coletivos, produtos dependentes de importa­ ções). 0 presidente, fiel ao seu estilo, governa por meio de bilhetes, faz visitas de surpresa a repartições e audi­ torias em clima de cruzada moralizadora, que se esten­ de aos usos e costumes (proíbe o biquíni, as brigas de galo, corridas de cavalo em dia de semana). Em con­ traste com a inclinação geral conservadora, a política externa independente guarda distância dos EUA, con­ dena a tentativa de invasão de Cuba patrocinada pelos EUA (17/3), tenta formar um bloco latino-americano, ini­ cia gestões para restabelecer relações diplomáticas com a URSS, condecora o Che Guevara (19/8) com a Ordem do Cruzeiro do Sul. ■ A renúncia ocorre num clima de Isolamento do pre­ sidente, frente ao vice, o pariamento, a sociedade civil, a opinião pública, à esquerda e à direita. "0 Jânio acha

que é impossível governar com o Congresso", diz em meados de agosto o min. da Justiça, Pedroso Morta. Na noite de 24/8 Lacerda denuncia na TV que Horta convi­ dou-o a participar de um golpe, uma “trama palaciana’ , com apoio militar. Jânio toma conhecimento da denún­ cia às 6 h de 25/8; discursa numa cerimônia militar às 8 h. De volta ao palácio, comunica a seus colaboradores decisão de renunciar, convoca os ministros militares, para pedir que ‘ mantenham a ordem', deixa o gabinete às 10h25, toma um avião para S. Paulo e a 27,'8 um navio para Londres. Ao sair entrega a Horta a carta de renúncia, ordenando que seja entregue ao Congresso às 15h. 0 breve texto diz que “forças terríveis se levan­ tam contra mim e me intrigam ou difamam' e conclui elogiando as forças armadas. Em 2 outras ocasiões, nas campanhas de 54 e 60, Jânio ensaiara renúncias para se fortalecer politicamente; suspeita-se que o gesto de 25/8, nunca explicado, pretende provocar um vazio sucessório e uma volta triunfal, em novas condi­ ções, com poderes autoritários nas mãos do presidente. Mas 0 tom peremptório da carta e o desgaste de seu autor inibem reações de apoio. 0 Congresso, reunido ás 16h45, declara vaga a presidência e às 17h15 empossa como presidente interino o pres. da Câmara, Ranieri Mazzilll, já que o vice, João Goulart, está fora do país. em viagem â China. ■ Os ministros militares (Odílio Denys, Sihrio Heck e Grum Moss) vetam a posse de Jango: acusam-no de entregar os sindicatos a "agentes do comunismo inter­ nacional' e querer reduzir as Forças Armadas a ‘ simples milícias comunistas’ . (Mazzilll envia manifesto do velo ao Congresso (28/8) e este fomia uma comissão mista (6 senadores e 6 deputados) para buscar uma saída. Lott anuncia que tudo fará para que se cumpra a Consti­ tuição, e é preso. Na GB, Lacerda censura a imprensa e a IJNE é invadida. Em MG há faculdades invadidas, jor­ nais censurados, estudantes e sindicalistas presos. ■ A Campanha da Legalidade resiste ao golpe, com apoio do 3^ Exército (a mais poderosa unidade militar do país), cujo comandante, gen. Machado Lopes, diz só rece­ ber ordens do chefe constitucional das Forças Annadas, João Goulart. 0 gov. do RS, Leonel Brizola [22-], assume a liderança civil da resistência. Forma a Cadeia da Le­ galidade (104 emissoras de rádio tendo à frente a Guailia e a Fan-oupilha). Ocupa a central telefônica, controla os voos no estado, cava trincheiras em torno do palácio de govemo e requisita da fábrica Taurus 3 mil revólveres, que distribui a voluntários convocados para a av. Borges de Medeiros. A população gaúcha mobiliza-se pela lega­ lidade. Também em GO. o gov. Mauro Borges articula civis e militares em apoio a Jango. Adere lambém o gov. Nei Braga, do PR (sede da 5* Região Militar, pró-legalidade). Os ferroviários da Leopoidina entram em greve já em 25/8 e os da Central aderem, parando os trens no RJ, SP e MG. A UNE decreta greve nacional e seu pres., Aldo Arantes [8.111 soma-se à resistência em Porto Alegre. Mesmo no Rio, foco da ação anti-Goulart, há protestos populares, ameaças de invasão da embai­ xada dos EUA e empaslelamento dos jomais 0 Globo e Tribuna da Imprensa, que apóiam os ministros militares. Há movimentos de tropas de ambos os lados, prenun­ ciando enfrentamentos. ■ A alternativa parlamentarista, conciliatória, é obra da comissão mista. Garante o mandato constitucional de Goulart, até 31/1/66. mas num regime de gabinete e por­ tanto com poderes reduzidos; prevê ainda um plebiscito em abril/65 sobre o novo sistema. Proposta em 30/8, a fórmula logo ganha a adesão das forças de centro. Em 31/8 os ministros militares admitem o recuo parcial. Brizola e o dep. Almino Affonso. líder do PTB na Câmara, consideram a solução um golpe branco. Mas Jango, de volta ao país via Porto Alegre em 1/9, aceita o acordo dizendo nâo querer uma guerra civil. A emenda par­ lamentarista é votada em 2 e promulgada em 3/9. Goulart é empossado em Brasília dia 7/9.

Cronologia 18/12: Criado o 1“ Grupo de Aviaçào de Caça Dezembro: Vargas fixa o salário mínimo em Cr$ 240 a 360 (vigentes até o fim do gov. Dutra) • Estréia de Grande Otelo. em Moleque Tião • Carmen Costa grava Chamego, o 1» sucesso de Luís Gonzaga • Estréia de Néison Rodrigues, com Vestido de Noive, direção de Ziembinskl, cenários de Santa Rosa 1944 3/1: O 1* Grupo de Aviação de Caça parte para treinamento na Flórida. EUA A bril: Lançado em SP o jonnal clandestino Resistência-, defende “um Brasil democrático”, anistia e constituinte 10/5: Forma-se o 1« escalão da FEB (Força Expedicionária Brasileira) 16/6: Oficiais da FEB chegam a Nápoles, Itália 1-22/7: A Conf. de Bretton Woods dita a ordem financeira do pós-guerra, cria o Banco Mundial (Bird) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) 2/7: O 1* contingente da FEB (5.379 homens) parte do RJ; chega a Nápoles, Itália, em 16/7; incorpora-se ao 5® Exército dos EUA em 5/8 7/9: Inauguração da av. Pres. Vargas, no RJ; Getúlio acena com eleições mas adia para o pós-guerra o debate sobre a rsdemocratização 15/9: Batismo de fogo da FEB, em VadaOstedaletto 16/9: A FEB ocupa Massarosa. Monte Canunale e II Monte 18/9: A FEB ocupa Camaiore 22/9: O 2= e 3 ' escalões da FEB (total, 11 mil homens) partem para a Itália Setembro: O gen. Dutra, na Itália em viagem de inspeção, ouve dos oficiais da FEB pedidos de democracia no Brasil O ulubro: Oposicionistas começam, em segredo, a articular a candidatura do brig. Eduardo Gomes Outubro: 0 gen. Góis deixa o Uruguai, onde atuou com oficiais dos EUA. pregando a democracia 23/11: O 4s escalão da FEB (4.976 homens) parte para a Itália 28/11-1/12: Conferência de Teerã, a 1® entre os "3 grandes" (Stalin. Roosevelt e Churchill) 25/12: Os oposicionistas Virgílio de Melo Franco, Adauto Lúcio Cardoso e Austregésilo de Ataíde passam Natal e Ano-Novo na prisão • Atire a 1’ Pedra, de Ataulfo Alves-Mário Lago • Péricles Maranhão cria o Amigo da Onça • Wemeck Sodré publica Formação da Sociedade Brasileira 1945 22-26/1: O 1“ Congresso Brasileiro de Escritores, RJ. pede “completa liberdade de expressão” e diretas para presidente 30/1 : Adolfo Berie Jr. assume a embaixada dos EUA no Brasil 1/2: 0 gen. Góis Monteiro surpreende o país ao defender a anistia e eleições 7/2: O Estado de S. Paulo, sob intervenção d. 40, volta às mãos de Júlio Mesquita 8/2: O 5° escalão da FEB (5.329 homens) parte para a Itália 20/2: AvIôes da FAB bombardeiam Mazzancana 21/2: A FEB vence a batalha de Monte Castelo 22/2: Entrevista de José Américo a Carios Lacerda no Correio da Manhã marca o fim da censura à imprensa 28/2: Ato Adicional de Vargas anuncia eleições para presidente. Constituinte, governadores e Assembléias Estaduais 3/3: Comício pró-Anlstla no Recife; a repressão mata Demócrito de Sousa Filho, da Uniáo dos Estudantes de PE, o o operário Manoel Elias 5/3: A FEB ocupa Casteinuovo 10/3: Manifesto dos jornalistas pró-democracla

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8.11 JANGO SOB 0 PARLAMENTARISMO I PLEBISCITO

Cronologia

de Moura Andrade e "por um Conselho de Ministros democrático e nacionalista, pelas Reformas de Base e contra qualquer tentativa de golpe”. Tem relativo êxito: destaca-se a paralisação na área estatal (contando com 0 apoio tácito de áreas do govemo) e em centros como o Rio (adesão total dos metalúrgicos, carris, rodoviários, fer­ roviários da Central, aeroviários. aeronautas, maridmos, bancários, sapateiros, cortumes; significativa dos eletricitários. telefonistas, têxteis, gráficos, alfaiates, marce­ neiros, trabalhadores da construção, do gás). No mesmo dia, a carestia e a escassez de gêneros provoca gigan­ tesco quebra-quebra e saques nos subúrbios cariocas e Baixada Fluminense, sufocados ao custo de 42 mortes.

11/3: Artistas plásticos se solidarizam com decisões do Congresso dos Escritores

■ 0 sistema parlamentarista [8.10] atribui ao presi­ dente a chefia do Estado, mas não a do governo, a cargo do Conselho de Ministros (gabinete). 0 chefe do Con­ selho (l®-minlstro) é indicado pelo presidente, mas pre­ cisa passar por votação na Câmara de Deputados; é ele e não 0 presidente quem escolhe os demais membros do Conselho. Nas circunstâncias de 61-63. o parlamentaris­ mo é basicamente uma fórmula improvisada para enfraquecer Goulart. ■ 0 1 ' Conselho de Ministros assume em &W61. Re­ flete 0 compromisso que contorna a crise de agosto: um amplo leque de forças, com predomínio conservador, do banqueiro V. Moreira Sales (Fazenda), ligado ao capital estrangeiro, ao dep. Gabriel Passos (Minas e Energia), da UDN, mas membro da Frente Pariamentar Nacionalis­ ta. 0 PSD tem 4 nomes (entre eles Ulysses Guimarães), a UDN 2,0 PTB 2. ■ 0 1«-minlstro Tancredo Neves [1910-85, 10.15-17. 11.1), expoente do PSD mineiro, ex-ministro de Vargas 18.5], tenta conciliar o heterogêneo governo. Propõe um plano de 4 pontos: desenvolvimento, estabilidade, inte­ gração, justiça. 0 governo propõe pela 1» vez a reforma agrária para mudar a estrutura airal arcaica. 0 min. do Exterior, Santiago Dantas [1887-64, PTB, desenvolve a politica externa Independente [8.10, reata relações com a URSS (23/11). opõe-se à linha anti-Cuba dos EUA (conferência de Punta dei Este, jan/62). busca a unidade latino-americana. As medidas nacionalistas geram repre­ sálias de Washington e uma aliança da oposição conser­ vadora (gov. Magalhães Pinto, MG, Cid Sampaio, PE, Juraci Magalhães, BA, Carvalho Pinto, SP). Cresce também a insatisfação popular: mobilizações contra a carestia em alta. efervescência no campo [8.13-14], ■ 0 contencioso com os EUA vai da questão cubana ao tratamento do capital estrangeiro. 0 Brasil cancela a concessão (considerada Ilegal) para a Hanna Corpo­ ration explorar jazidas de ferro. No RS a desapropriação das subsidiárias da ITT e da Bond & Share pelo gov. Brizola (59) gera um conflito que se arrasta por anos. Goulart viaja aos EUA, dialoga com J. Kennedy (4/4/62), admite o pagamento de uma “justa compensação" pelos bens nacionalizados. Mas ao voltar cria a Conesp (Co­ missão de Nacionalização das Empresas Concessioná­ rias de Sen/iço Público), a Eletrobrás e o Contei (Con­ selho Nacional de Telecomunicações); acompanha a ten­ dência mundial, acentuada no pós-guerra, à nacionali­ zação e estatizaçâo dos serviços públicos.

■ 0 clima polarizado inviabiliza o gabinete de compro­ misso. 0 próprio Goulart marca distância do ministério; no discurso de 1* de Maio (Volta Redonda), lança a tese das Reformas de Base, com ênfase na reforma agrária: mas pede a antecipação do plebiscito sobre o sistema de govemo [8.10], alegando que as reformas sâo impos­ síveis sem a restauração dos poderes presidenciais. Após 290 dias o gabinete Tancredo se inviabiliza e renun­ cia coletivamente (26/6), a pretexto da necessidade de seus membros se desincompatibilizarem para concorre­ rem às eleições pariamentares de 62. ■ Goulart Indica Santiago Dantas para 1‘ -ministro. mas a maioria conservadora da UDN-PSD julga-o de­ masiado à esquerda, seja por sua conduta nas relações exteriores, seja pelo apoio às Reformas de Base. A Câmara veta-o por 174 votos a 110. Jango indica Auro de Moura Andrade (PSD); o nome passa no Congresso, mas 0 veto dessa vez vem da área sindical, que convo­ ca uma greve geral de protesto, mantida mesmo depois que Moura Andrade vè seu gabinete recusado e desiste da chefia do governo.

■ 0 2« gabinete parlamentarista passa na Câmara em 9.7. liderado por Francisco Brochado da Rocha [191062], aliado de Jango no PSD-RS. Também heterogêneo, mantém Moreira Sales, inclui o prócer da UDN Afonso Arinos de Melo Franco [8.5,11.7), o nacionalista José Ermirio de Moraes (PTB-PE) e o socialista Hermes Uma, que assina a lei do 13* salário. Funciona como gabinete de transição para a volta ao presidencialismo; em 13/9 propõe que o Congresso antecipe o plebiscito para 7/10/62 e conceda ao govemo poderes para viabilizar as Reformas de Base. Derrotado pela cúpula do PSD e UDN. renuncia no 63* dia de govemo (14/9). ■ A greve geral de 15/9, nos mesmos ternios da de 5/7, tem à frente o recém-formado CGT (Comando Geral dos Trabalhadores [8.13]) e visa pressionar pela antecipação do plebiscito. No mesmo dia. o Congresso vota (por 169 votos contra 83, basicamente da UDN) a antecipação para 6/1/63; aprova lei restringindo as remessas de lucros; e autoriza Goulart a indicar um gabinete sem con­ sulta ao Legislativo. ■ 0 3® e último gabinete parlamentarista, chefiado por Hermes Lima [1902-78]. do PSB-GB, assume a 18'9, como gabinete-tampão, até o plebiscito. Cria o Ministério Extraordinário do Planejamento (27/9/61), en-jegue a Celso Furtado [8.9], que em 31/12 apresenta um Plano Trienal de Desenvolvimento Econômico e Social. 0 gen. Amauri Kruel [9.1], tido como fiel a Goulart, assume o Min. da Guerra no lugar de Néison de Melo. hostilizado pelo CGT. 0 min. do Trabalho. João Pinheiro Neto, co­ meça a reconhecer os sindicatos de trabalhadores rurais [8.13], uma bandeira da greve de 15/9. ■ 0 plebiscito de 6/1/63 ocorre em clima de nítida ofen­ siva presidencialista, sobretudo depois que a eleição de 7/10/62 [8.12] aguça a polarização politica. Jango lidera a campanha, em nome da necessidade de um Executivo forte que faça as Reformas de Base. Também sâo presi­ dencialistas Magahães Pinto, Adhemar de Barros, Nei Braga, JK. Arraes. Brizola. os ministros militares (que se pronunciam de público), os intelectuais do Iseb. os sindi­ catos e os nacionalistas. Apenas o núcleo anti-Goulart ex­ tremado (Lacerda) defende o parlamentarismo e denuncia a antecipação do plebiscito como um golpe comuno-janguista. Numa votação sem surpresas, o presidencialismo vence em todos os estados, com 82% dos votos válidos (0 plebiscito de 21/4/'93 reafimia a opção, por 69,2%).

13/3: Em SP Benedito Valadares, interventor de MG, lança a m ando de Getúlio Vargas a

candidatura Eurico Gaspar Dutra 1/4: O Brasil estabelece relações com a URSS; a

cerimônia realiza-se em Washington 6/4: A UNE inicia no RJ a Semana Pró-Anistla 7/4: Oficializada no RJ a União Democrática Nacional (UDN) 8/4: Fundado o PSD (Partido Social-Democrata) 11/4: O STF concede habeas corpus aos exilados políticos 12/4: Morre Roosevelt: H. Truman, presidente dos EUA 18/4: Anistia aos presos políticos: Prestes é liijertado após 9 anos de prisão 21/4: A FEB ajuda na tomada de Montese 21/4: Eduardo G om es candidata-se a presidente

22/4: Tropas soviéticas entram em Berlim 28/4: Benito Mussolini é preso e enforcado pela guerrilha comunista ao tentar fugir da Itália 1» de Maio: Vargas considera sua “missào cumprida” e apóia a candidatura Dutra 2/5: Pracinhas ajudam na tomada de Turim 7/5: Rendição incondicional da Alemanha nazista; o Japão continua na guerra 15/5: Fundação do Partido Trabalhista Brasileiro, PTB, sob estímulo de Vargas 23/5: O PCB e Prestes reúnem 100 mil no estádio do Vasco da Gama, RJ 25/5: Extinção do DIP (órgão de propaganda e censura do Estado Novo) 28/5: Lel Agamenon, eleitoral, marca a eleição para 2/12 e fixa suas regras 26/6: A Conferência de S. Francisco, EUA, funda a ONU (com 50 países-membros); o min. P. Leão Veloso chefia a delegação brasileira 15/7: Comicio do PCB com Prestes no estádio do Pacaembu. SP 17/7: A 1* convenção do PSD. no teatro Municipal, Rio, homologa a candidatura Dutra 18A7: Volta ao RJ o 1" escalão da FEB 6-9/8: EUA lançam bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki: 120 mil mortos 9/8: Góis Monteiro substitui Dutra no Ministério da Guerra 17/8: A UDN apóia Eduardo Gomes para presidente 1/9: Eurico Gaspar Dutra Inicia a campanha, em Belo Horizonte 3/9: O PCB solicita seu registro ao TSE 10/10: Decreto de Vargas (d. retirado), criticado pela oposição, antecipa as eleições estaduais 17/10: Mobilização popular vence golpe anti-Perón na Argentina 24/10: Fundação efetiva da ONU 29/10: Vargas nomeia João Alberto prefeito do DF e Benjamin Bejo Vargas chefe de Policia 29/10: Movimento militar depõe Vargas: José Linhares, presidente do STF, assume provisoriamente a Presidência

■ A greve geral de 5/7/62 é a 1- na história do pais com caráter nacional (6.11,11.3], Convocada por Dante Pelacani, da CNTi (Conf. Nacional dos Trabalhadores na

■ Jango monta seu Ministério com nomes do PSD centrista e da esquerda moderada: Santiago Dantas na Fazenda, Joâo Mangabeira (PSB) na Justiça, José Ermirio na Agricultura, Hermes Lima nas Relações Exterio­ res: 0 nâo tâo moderado dep. Almino Afonso (do Grupo Compacto do PTB) assume a pasta do Trabalho; o gen. Kruel se mantém no Min. da Guerra, à frente de um dis­ positivo militar [9.1] de sustentação do gove.mo e da Constituição, com os gens. Osvino Alves e Jair Dantas Ribeiro no 1’ e 3* Exércitos. Prossegue porém a pola­ rização politica. 0 govemo é fustigado à esquerda peto CGT e pela UNE, Brizola e o recém-criado Movimento de • Mobilização Popular. Após o fracasso do Plano Trienal

Indústria), Oswaldo Pacheco, do PUA (Pacto de Unidade

[8.13], Jango votta a pender para a esquerda e reforma o

• Filme Nâo Adianta Ctiorar consagra a dupla

e Ação), e os líderes das principais articulações intersindicais, dirige-se contra o veto a Santiago, a indicação

Ministério. A UDN e a ala direita dos militares recorrem ao impeachment e. em seguida, à conspiração [8.15].

• B. Brecht escreve a peça A Vida de Galileu

31/10: Vargas se auto-exila em S. Borja, RS 8/11: Revogada a lei antitruste 1 0 /1 1 :0 TSE legaliza o PCB 1 7 /1 1 :0 PCB lança ledo Fluza para presidente 25/11: Manifesto de Vargas em apoio a Dutra 2/12: Eleições quase gerais: Outra se elege presidente (3,2 milhões de votos); o PSD tem maioria na Constituinte; o PCB elege 14 deps. • A Rosa do Povo, de Drummond • Geografia da Fome, de Josué de Castro • P o rtin a ri p in ta E n te rro na R e d e

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8.12 LEGISLATIVO I ESTADOS I UNE m As eleições de 7/10/62 renovam a Câmara Federal, 2/3 do Senado, 10 dos 21 governos estaduais (nos ou­ tros a eleição é em 60), as Assembléias Legislativas. A antes usual aliança PSD-PTB, em crise terminal, não ocorre em nenhum dos pleitos para governador. Em SP Ademar de Barros (8.3-11], pelo PSP vence por pouco o ex-pres. Jânio Quadros [8.10], Lacerda, com apenas 36% dos votos, arrebata para a UDN o novo Estado da GB, uma vitória estratégica, realçada pela tradição es­ querdista e nacionalista do Rio. No RS. o pessedista lido Meneghetti derrota o brizolismo. á frente de uma coli­ gação conservadora de 5 partidos (UDN-PSD-PL-PDCPRP). Mas em PE uma frente de esquerda, com apoio do PCB e das Ligas Camponesas (8.13], vence a pode­ rosa máquina do udenista João Cleofas e põe no gover­ no 0 ex-prefeito do Recife Miguel Arraes. Na Câmara, o PTB sobe de 66 para 116 cadeiras, supera a UDN (91 deputados) e quase alcança o PSD (118 cadeiras); a hegemonia dos 2 grandes partidos conservadores, que já fora de 81.8% da casa [8.2]. cai para precários 53,7%. Brizola elege-se deputado pelo PTB-GB com 269 mil vo­ tos, 6 vezes 0 quociente eleitoral da época. Também no Senado o PTB torna-se o 2* partido, com 18 cadeiras (PSD 21, UDN 15). 0 grande número de mandatos obti­ dos por alianças indica um esgarçamento dos partidos, evidenciado pela polanzaçâo do Legislativo em blocos politico-ideológicos informais, nâo coincidentes com as fronteiras partidárias, ■ A Frente Parlamentar Nacionalista (FPN) soma 5070 deputados: congrega a maioria (mas nâo a totali­ dade) das bancadas do PTB e PSB, mais a Ala Moça do PSD e a Bossa Nova da UDN (grupos minoritários, dis­ sidentes da linha oficial desses partidos). Formada des­ de os anos 50, apóia também as Reformas de Base de Goulart. Com o prestígio do nacionalismo em alta, termi­ na por inflar e diluir-se. ■ A Ação Democrática Parlamentar (ADP). liderada por Joâo Mendes (UDN-BA). tem 200 deputados (quase 50% da Câmara) em fins de 62: sâo os caciques conservado­ res do PSD, a Banda de Música [8.3-5] e outros da UDN. mais os pequenos partidos de direita (PDC. PR. PRP). parte do PSP e do próprio PTB. Nucleia o veto a Santiago Dantas [8.11] e as resistências às Reformas de Base. ■ 0 Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), cria­ do em 59 por empresários, porta-vozes do capital estran­ geiro, intelectuais e políticos de direita, ajuda Jânio em 60 e forma a ADR Celebriza-se na eleição de 62 por finan­ ciar candidatos consen/adores com USS 5 milhões vin­ dos do Exterior: fornece material impresso, veículos, apoio operacional, dinheiro a 8 candidatos a governador, 15 a senador, 250 a dep. estadual. 500 a dep. estadual; elege Lacerda, Ademar, 110 dep. federais. A CPI do Ibad. for­ mada em 63, apura que 152 empresas estrangeiras (Te­ xaco. Esso. Shell. Coca-Cola, GE, Giba, Bayer, IBM) fi­ nanciam 0 Ibad. que é fechado (20/12/63) por atividade ilícita. Em 62 o complexo Ibad-lpes forma, com outras en­ tidades, a ramificação civil da conspiração pré-64 [8.15]. ■ Os governadores dos principais esiados são hostis a Jango. Na GB Carios Lacerda [8.5] provoca atritos com 0 governo federal, usa a policia contra as greves [8.13], projeta-se como alternativa da direita no pleito presiden­ cial de 65. Cria os prefeitinhos (pioneiros das adminis­ trações regionais), com funçào também política e repres­ siva; abre os 1” grandes túneis (Rebouças, Maj. Vaz, Sta. Bárbara), ergue a grande adutora do Guandu, urt>aniza 0 pque. do Flamengo: remove os moradores das fa­ velas do Pasmado, Catacumba. Escueleto, morro do Pinto (vítima de incêndio nào elucidado) para as dis­ tantes vilas Kennedy e Aliança (da Aliança para o Pro­ gresso). Magalhães Pinto [1909-96], outra alternativa da UDN para a sucessão presidencial, governa MG sob o lema "Minas trabalha em silêncio". Mais confiável que Lacerda aos olhos dos militares, tem papel crucial na conspiração e no desfecho do golpe [8.15,9.1]. Em SP,

Adhemar tamtjém reprime greves, lança-se candidato â

presidência, hostiliza Goulart (dá todo a i^io à Marcha com Deus pela Liberdade [8.15)), mas é considerado corrupto e pouco confiável pelos conspiradores de 64. ■ Miguel Arraes lidera em PE a maior vitória eleitoral das esquerdas em 62. Cria a Frente Unida dos Gover­ nadores do Nordeste, estimula a sindicalização rural, evita a repressão, mas procura neutralizar as radicaliza­ das Ligas Camponesas. Disputa com Brizola o papel de candidato da esquerda em 65. 0 ascenso do movimento estudantil ■ A UNE vive em 61-64 uma de suas grandes fases. Após seu papel decisivo na deflagração da Campanha do Petróleo [8.4], a entidade passa uma fase de predo­ mínio da direita, ou ministerialista, em 50-53 e 55-56. Com os choques no Rio contra o aumento do bonde (30,'5/56). a esquerda retoma a iniciativa; 2 meses de­ pois, a direção da UNE passa a uma aliança entre o PCB e a esquerda católica. Esta. organizada na JUC (Juven­ tude Universitária Católica), sofre o influxo da polariza­ ção política nacional, da ampliação do acesso ã univer­ sidade nos anos 50 e 60, da política do papa João XXIII; a seguir, radicaliza-se e leva à criação da AP [9.13]. ■ A gestão Aldo Arantes (€1-62) marca a chegada da JUC ã presidência e um momento de excepcional ativi­ dade da UNE. Durante a crise da renúncia (8.10], ela transfere sua direção para o RS e assume a Campanha da Legalidade. Apóia as Reformas de Base mas mantém ciosa independência face ao govemo. ora apoiando-o, ora criticando-o pela esquerda (o que não a impede de receber vert)as oficiais, previstas no Orçamento federal). Em 62 comparece ao congresso dos trabalhadores rurais em Belo Horizonte [8.13], solidarza-se com as greves operárias e a Revolução Cubana, promove um congres­ so latino-americano de estudantes no RN. ■ No plano da universidade, a UNE participa do de­ bate da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em tramitação na época; promove um seminário sobre o te­ ma e firma posição na Carta do Paranã. Propõe a extin­ ção do sistema de cátedra vitalícia e do vestibular elimi­ natório. a participação estudantil nos órgãos colegiados e na elaboração dos programas, a autonomia financeira das universidades. ■ A Greve do 1/3 (1/6-15-8/62) visa obter representa­ ção estudantil de 33% dos votos nos conselhos universi; tários. remodelados na época para atenderem ã LDB. É preparada pela UNE Volante, que divulga a Carta do Pa­ raná por todo 0 Brasil. Atinge a maior parte das 40 uni­ versidades do país. incluindo assembléias, seminários, manifestações e até uma ocupação do Ministério da Educação, no Rio. reprimida pela Polícia do Exército. Esvazia-se com o tempo e é suspensa apenas com con­ quistas parciais (a Universidade de GO concede o 1/3, outras elevam a representação estudantil). ■ 0 CPC (Centro Popular de Cultura), da UNE. produz de dez/61 até o golpe uma arte enfaticamente engajada. Ajuda a difundir a entidade e sua proposta dentro e fora da universidade, enquanto projeta um conjunto de expo­ entes do teatro, música popular e outros gêneros, vários deles com influência duradoura na cena cultural dos anos 60 (8.16). ■ As gestões Caldeira Brandt e José Serra (62-63 e 63-64) mantém intensa mobilização. As forças conserva­ doras na Câmara cnegam a instaurar uma CPI da UNE, para apurar denúncias de corrupção e subversão, veicu­ ladas pela grande imprensa. A entidade é uma das que convocam e falam no comício de U '3/64 [8.15]. Obtém afinal uma cadeira no Conselho Nacional de Educação, que não chega a ocupar devido ao golpe. Ouando este é desfechado, tem no movimento estudantil um de seus alvos imediatos [9.7]. Ainda em 1.M/64 escolas do Rio e S. Paulo são metralhadas, a sede da UNE e da Ubes no Rio [7.11] é incendada e saqueada, o acervo do CPC, destruído. Em 27/4 o regime militar instaura um IPM da UNE [9.3], com 75C indiciados.

Cronologia 1946 10/1; 1* Assembléia Gerai da ONU (Londres) 31/1: O gen. Eurico Gaspar Dutra é o 1® presidente a tomar posse fardado 2/2: Instala-se a Assembléia Constituinte 20/2: 100 mil grevistas em São Paulo, contra a carestia e o arrocho do esforço de guerra 24/2: Perón é eleito presidente da Argentina Fevereiro: Sucessos carnavalescos Trabalhar, Eu Não. de Almeídinha; Cordão dos Puxa-saco. de R. Martins e Frazão 5/3: Discurso do ex-1«-min. britânico W. Churchill em Fulton contra a "cortina de ferro” marca início da Guerra Fria 15/3: Decreto-lei 9070, que, para o dep. Hermes Lima, visa “suprimir o direito de greve" 15/3: A Constituinte elege comissào de 37 para elaborar o anteprojeto da Constituição 23/3: Pedida no TSE a cassação do PCB, acusado de “organização a serviço de Moscou" 23/4: A polícia dispersa comício no lgo. da Carioca, RJ (1 morte), invade e fecha sedes do PCB 30/4: Dutra proíbe o jogo; cassinos fechados A bril: Criado o Estado-Maior Geral (h. EstadoMaior das Forças Armadas) 1® de Maio: 0 govemo proíbe manifestações de ma no RJ; tanques na pça. Mauá e lgo. da Carioca 27/5: A Comissão Constitucional (pres. Nereu Ramos) apresenta o projeto da Constituição 6/6: 1* reunião do FMI 26/6: Decreto-lei cria o Serviço Social da Indústria (Sesi) Junho; A siderúrgica de Volta Redonda começa a produzir aço 13/8; A Constituinte Inicia votações em plenário 13/8; O gen. Eisenhow/er (EUA), ex-oomandante dos Aliados, visita o RJ 13/8; Fundada a Universidade Católica de São Paulo (Pontifícia, ou PUC, d. 47) 15/8: Cartos Luz. min. da Justiça, apreende e suspende o jomal Tribuna Popular; proibidos comícios em todo o país 9/9: Congresso sindical cria a Confederação Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB): dissidência parte para a Confederação Nacional do Trabalho 18/9: Promulgada a Constituição de 46 19/9; O Congresso elege Nereu Ramos vice de Dutra (178 votos a 139 para José Américo) 28/9: Começa reforma constitucional que alija o PTB s dá à UDN o Ministério da Agricultura 30/9: O Tribunal de Nuremberg julga 22 criminosos de guen-a nazistas Setembro/dezembro; Refonna ministerial; Dutra alija o PTB e abre espaço para a UDN 4/11 ; Fundada a Unesco; o educador Anísio Teixeira representa o Brasil em seu conselho • Sagarana. 1‘ livro de Guimarães Rosa 1947 5/1: Comício no Anhangabaú sela apoio do PCB a Adhemar para governador de SP 19/1: Eleição para governadores e deputados estaduais, prefeitos e vereadores: o PSD confirma sua hegemonia; novo crescimento do PCB 12/3; A Doutnna Tnjman consolida a Guerra Fria 14/3; Posse de Adhemar de Barros, gov. de SP, e (vlilton Campos. MG, entre outros 22/4: Inauguração da via Anchieta (SP-Santos) A bril: Exposição do grupo dos 19 relança em São Paulo a pintura moderna 7/5: Por 3 votos a 2 o TSE cassa o registro do PCB: inten/enção em 14 sindicatos; fechamento da CGTB 6/8: A Esquerda Democrática torna-se Partido Socialista Brasileiro, PSB 15/8: Fim do domínio colonial britânico na índia e no Paquistão 1/9; 0 presidente Truman, dos EUA, visita o Brasil 167


Cronologia

8.13 LIGAS CAMPONESAS / SINDICATOS / CGT

2/10: Inaugurado o Museu de Ane de SP, com Chateaubriand por mecenas e Bardí diretor 20/10: O Brasil rompe relações com a URSS

■ Os conflitos no campo se acentuam na fase cons­ titucional de 45-64. Ali onde o salariado se impós (SP Zona da Mata de PE) surgem greves, l^as os ma;ores cfioques provém do problema da terra, em màos do lati­ fúndio em geral improdutivo [9.5,13.4].

29/11: Osvaldo Aranha preside em N. York a assembléia da ONU que partilha a Palestina 2/12: Greve de 20 mil férroviártos da Sorocabana, SP < Em 47 0 governo Intervém em 143 sindicatos 1948 5/1 : Decretada a prisão preventiva de Prestes 10/1: A Câmara cassa os deputados do PCB; Gregório Bezen-a faz (12/1) o último discurso da bancada comunista 22/1 ; PSD, UDN e PR assinam no Catete pacto de sustentação do governo Dutra 30/1 : Assassinato de Gandhi, 1®-ministro da índia 21/2: O físico brasileiro César Lattes, nos EUA. isola 0 méson, uma nova partícula do átomo 5/3: A UNE crIa a Comissão Estudantil de Defesa do Petróleo, autora do lema “O Petróleo é Nosso” 30/4: A Conferência de Bogotá (21 países, inclusive 0 Brasil) cria a Organização dos Estados Americanos, OEA, em clima de Guerra Fria 8/5: Jorra petróleo do campo de Mataripe, BA 14/5: Criado o Estado de Israel: expulsão de palestinos 19/5: Dutra envia ao Congresso o plano Salte (Saúde, Alimento, Transporte e Energia) de desenvolvimento para 49-50 20/5: O brasileiro Chico Landi vence o circuito automobilístico de F-2 em Bari, Itália 1/6: 0 mês nacional do petróleo inicia com ato da UNE na Praia do Russell 8/6: Fundada em São Paulo a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) 15/7: Passeata do Petróleo é Nosso no RJ; participa o ex-presidente Artur Bernardes Julho: 0 FMI fixa a paridade cruzeiro-dólar em US$1 para Cr$ 18,5 A gosto: 0 basquete masculino brasileiro traz o bronze das Olimpíadas de Londres 9/9-12/5/49: Crise de Beriim; cristaliza-se a divisão da Alemanha em 2 estados hostis 23-24/9: Congresso do DF em Defesa do Petróleo termina com repressão policial Setembro: Greve de 23 dias nas minas de manganês da US Steel em Lafaiete, MG 11/10: Estréia do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), no Bexiga. SP. com A Voz Humana 18-21/10: 1* Convenção Nacional de Defesa do Petróleo 22/10: A ONU aprova a Declaração Universal dos Direitos do Homem 22/10: Criada a Escola Superior de Guerra; ligada ã Presidência, Imita o National War College dos EUA 31/12: Reservas de ouro do pais caem de 322 mil para 281 mll toneladas de ouro desde 31/1/46 • Coronelismo. Enxada e Voto. de Vítor Nunes Leal • Inaugurado o ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), om Sâo José dos Campos, SP • Exposição no RJ revela a cerâmica popular de mestre Vitalino de Caruaru, PE 1949 Fevereiro: Chiquila Bacana domina o Carnaval; a Império Serrano é a campeã no RJ 8/3; Inaugurado o Museu do Arte Moderna, no prédio dos Diários Associados. SP 4/4: Criado em Washington o bloco militar da OTAN 7/5: George Orwell publica 1984 17-27/5: Dutra visita os EUA Maio: Brasil campeão sul-americano de futebol 14/7: 1° explosão nuclear da URSS

31/7: A II Conferência das Classes Produtoras (patronais) aprova a Cana de Araxâ 30/9: A policia dispersa ato pró-Petrobrás em Santos; morre o ponuário Deoclécio Santana 168

■ No Paraná ocorrem 2 episódios de resistência arma­ da, em Porecatu (norte), 50-51. e Francisco Belirâo. Pato Branco e Capanema (sudoeste), 57. Ambos envolvem di­ retamente 0 gov. Iiíoisés Lupion (47-51 e 56-61), proprie­ tário da Cipia, empresa que grila e revende áreas devo­ lutas cultivadas por posseiros. No 2« episódio milhares de camponeses chegam a ocupar as cidades, estações de rádio e a sede da Cipla, elegendo juntas governativas; a solução, negociada, só se efetiva em 62. ■ Em Trompas e Formoso, GO. 3 mil posseiros nor­ destinos desbravam uma área de 10 mil km®, mas em 4852 têm suas posses griladas. Sob a liderança de José Portírio e d. 54 sob or;entação do PCB, criam conselhos de córrego, a Associação dos Lavradores de Fomioso e Trompas; piquetes armados impedem a entrada de gri­ leiros, jagunços e policiais. Esse dpo de território livre é sacramentado em 57. num acordo com o chefe do PSDGO, Pedro Ludovico; em 62 elege Porfirio dep. estadual e mantém-se até a repressão pós-golpe de 64. ■ A Ultab (União de Lavradores e Trabalhadores Agrí­ colas do Brasil), criada em 54 por iniciativa comunista, visa fomentar os sindicatos no campo. No entanto, embo­ ra em tese estes sejam legais desde 44. até 55 apenas 5 sindicatos de trabalhadores rurais são reconhecidos. ■ A 1* Uga Camponesa nasce em 1/1/55, no Engenho de Fogo f^orto, Galiléia, em Vitória de Sto. Antão, com a So­ ciedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de PE. que agrupa com fins beneficentes 140 foreiros (arrendatários); 0 dono da terra é convidado para presidente de honra. Ameaçadas de expulsão devido ao preço do foro, os camponeses fazem da SAPP um órgão de resistência e chamam para defendê-los o advogado e dep. estadual do PSB Francisco Julião [1915-]. A saga dos gaüleus dura 4 anos de lutas jurídicas, políticas, legislativas e policiais, até a sentença judicial que entrega-lhes a terra No inter­ valo, a SAPP organiza delegacias em outros municípios e estados. 0 Diário de Pemambuco passa a chamá-las de ligas, buscando identificá-las com as ligas formadas pelo PCB em 45-47 [8.2]. ■ As Ligas se expandem em 60-62; atingem sobretudo foreiros, meeiros e minifundiários, e poucos assalariados. Em 59 têm 25 delegacias em PE' 13 na zona da mala, 11 no agreste, apenas 1 no sertão. Com a vitóna dos galileus, disseminam-se pelo Nordeste; na PB surge a Liga de Sapé, 10 mil filiados, a mais forte do país. Em 6 i já têm certa implantação nacional. José dos Pra2eres. da Galiléia. João Pedro Teixeira, de Sapé, e em especial Ju­ lião são seus líderes. Organizações de massas, apartidárias, tém participação de militantes do PCB, PCdoB. AP, trotskistas [9.13]. Desde a vitória da guerrilha castrista, mantém estreita relação com Cuba. A pressão do latifún­ dio dificulta as filiações, mas a massa de simpatizantes é grande. Os ativistas se apóiam nas feiras, empregam versos de cordel, citações bíblicas (para neutralizar a oposição da Igreja), textos de Julião (Carta de alforria do camponês). Na PB, desmoralizam os jagunços obrigando-os a andarem com um badalo no pescoço.

co dos latifúndios pela ênfase em reivindicações traba­ lhistas e numa reforma agrária dentro da lei. Já a banca­ da das Ligas, mesmo em minoria (215 delegados), obtém apoio do Master e empolga o plenário com a pregação de uma reforma agrária “na lei ou na marra", A resolução do Congresso reflete a radicalização e leva á ruptura entre as Ligas e o PCB. ■ As Ligas se radicalizam. Ocupam engenhos (Jaboatão e Cabo, PE), enfrentam ataques policiais (Miri, PB; 10 mortos, 15 feridos). Pregam a abstenção no plebiscito de 63 [8.11]. Sua direção adere à idéia de uma revolução agrária armada (influência de Cuba) e instala campos de treinamento guerrilheiro no norte de GO; evolui no senti­ do de um partido camponês radical, mas com isso se isola; as Ligas entram em crise. ■ 0 sindicalismo rural ganha ímpeto quando uma por­ taria do govemo facilita sua implantação (20/11/62), inclu­ sive para fazer face às Ligàs. 0 PCB-Ultab, AP (pe. Alípio). PCdoB, as próprias Ligas e a Igreja (pe. Melo. PE) se empenham em criar "seus” sindicatos. Em 31/12/63 eles somam 557 (270 reconhecidos), concentrados no Sul (37,9%) e Nordeste (34,6%). A lel, porém, só permite uma organização nacional, e a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) nasce em 20/12/63 com uma diretoria de composição (pres. Lindol­ fo Silva. PCB), para logo depois sofrer a intervenção dos go'pistas de 64 [9.3]. 0 sindicalismo urbano ■ 0 CGT (Central Geral dos Trabalhadores) nasce no 4* Congresso Sindical Nacional (17/8/62, 2.566 delegados, S. Paulo) sucedendo o Comando Geral de Greve de 5/7 [8.11]. Reúne as articulações intersindicais da época, previstas na lei (federações, confederações) ou criadas ã margem da CLT (em S. Paulo o PUA, Pacto de Uni­ dade e Ação; no Rio, a CPOS, Comissão Permanente de Organização Sindical; em Santos, o Fómm Sindical de Debates, ou ainda o PUA, Pacto de Unidade e Ação, dos ferroviários, marítimos e portuários). Seu presiden­ te é Dante Pelacani [23-], mais tarde Clodsmith Riani, ambos da CNTI; secretário-geral, Oswaldo Pacheco, do PUA e PCB. ■ A linha sindical do CGT é de apoio ao governo. Com Almino Afonso (esquerda do PTB) min. do Trabalho, a aliança se reforça e alimenta as denúncias da direita so­ bre projetos de uma república sindical. Embora a central não seja legalmente reconhecida, ocupa amplo espaço político, convoca a greve geral de 15/9 pela antecipação do plebiscito e engaja-se na campanha do Não [8.11], Evita 0 questionamento da estrutura sindicai corporativa herdada de Vargas [7.5]. Mas reflete também a lula ope­ rária autônoma, reforçada nas greves gerais de S. Paulo em 53 e 57. e uma crescente influência comunista: quan­ do 0 governo propõe a contenção dos salários, dentro do Plano Trienal [8.14], o CGT anuncia que mantém a luta por melhores salários, apóia a revolta dos sargentos [8.15] e repudia (assim como a UNE) o pedido de esta­ do de sítio encaminhado por Jango. Apóia o auge gre­ vista de 62-63, sobretudo na área das estatais. Durante a greve dos 700 mil em S. Paulo (out/63), pede aumen­ to de 100% no salário mínimo. Tem papel destacado no comick) de 13/3/64(8.15].

■ 0 Master (f^flovimento dos Agncultores Sem Terra), do RS. surge em 60 e em 62 lança (em Sarandi) a forma de luta dos acampamentos na periferia dos latifúndios. Com apoio do gov. Brizola e do recém-formado Igra (Instituto Gaúcho de Reforma Agrária), chega a 100 mll associa­ dos, conquista desapropriações e assentamentos.

■ 0 CGT adverte para o risco de golpe militar (30/3/64), conclamando os trabalhadores a se prepararem para uma greve geral de protesto. Mas quando vem o golpe a greve nâo acontece, com exceção dos ferroviários, por­ tuários do Rio e Santos [9.1 ]; os golpistas fecham o CGT, prendem e cassam seus líderes, intervém nas principais entidades sindicais que lhes servem de apoio.

■ 0 1 - Congresso Nacional de Trabalhadores Rurais (Belo Horizonte, MG, 15/11/61) reúne 1.600 delegados (e 5 mil pessoas, no ato de encerramento), de várias ten­ dências. 0 gov, Magalhães Pinto subsidia o evento; Goulart comparece, com Tancredo, e defende a reforma agrária. 0 PCB-Ultab, d. 58 [9.13]. abandona a defesa do confis-

■ Um sindicalismo de dlreila contesta em bloco a linha do CGT, articuia-se com o complexo Ipes-lbad e a cons­ piração pré-64 [8.15]. Seu líder é Antonio Magaldi, pres, da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Comér­ cio. É porém uma conrente em franco descenso, em par­ ticular depois que perde o controle da CNTI, em dez/61.


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Cronologia

8.14 REFORMAS DE BASE/ECONOMIA/INFLAÇÃO

1/10: Vitória da revolução chinesa, Mao Tsetung proclama a República Popular; em Taiwan, o regime anticomunista se mantém (1/3/50)

■ Jango anuncia as Reformas de Base (agrária, ur­ bana, bancária, educacional) já em 61 (8,11), como alter­ nativa pacifica, em oposição à via cubana. Reafirma-as na posse do govemo presidencialista. A idéia, de Inspi­ ração cepalina (8.7], visa superar os entraves ao pro­ gresso econômico-soc,al, identificados na concentração da terra e na dependência extema. Busca apoio num leque de interesses que vai dos trabalhadores à burgue­ sia nacional.

11-15/10:1« Congresso da SBPC (Sociedade Bras, para o Progresso da Ciência), Campinas, SP 14/10: Comicio pró-Eduardo Gomes presidente, no RJ 4/11: F, Zampari e C. Matarazzo fundam a Cia, Cinematográfica Vera Caiz, em S. Bernardo, SP 14/11: 0 PTB-PB é o 1' a lançar a candidatura presidencial de Vargas 27/12: Carlos Lacerda funda no RJ o jornal Tribuna da Imprensa 27/12: Inaugurado o viaduto do Gasômetro. SP • Florestan Fernandes publica seu 1® livro, -4 Organização Social dos Tupinambá • O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo • 0 TBC encena Nick Bar, com Cacilda BecKer 1950 30/1 : Pablo Neruda publica Canto Geral Fevereiro: No Carnaval, General da Banda, de Sátiro e José Alcides, faz sucesso e Elvira Pagã é eleita rainha do baile do Municipal, RJ 19/4: Convenção da UDN homologa a candidatura presidencial de Eduardo Gomes 19/4: Vargas discursa, em mais uma homenagem de aniversário 15/5: Eleição no Clube Militar dá vitória ao gen. Estilac Leal, nacionalista pró-Petrobrás 17/5: O PSD lança fomialmente a candidatura presidencial de Cristiano Machado (MG) 3/6: Dutra declara que empossa quem for eleito 10/6: Vitória de 4 a 0 do Brasil sobre o México, na Copa do Mundo de futebol, inaugura o Maracanã, maior estádio do mundo 15/6: Grande comício em São Paulo: Adhemar lança a candidatura Vargas à Presidência 26/6: Começa a Guerra da Coréia 1/7:0 6= Censo conta 51.941,767 habitantes no país e 2 milhões de nordestinos fora de seus estados

■ A aplicação do Plano Trienal (8.12), no 1® semestre de 63. lenta conciliar metas reformistas com medidas ortodoxas (Plano Trienal [8.12]): combate à inflação (vi­ sando alcançar o índice de 10% em 65), à dfvida pública e ao déficit nas contas externas, via arrocho de salários e gastos públicos, corte de subsídios, desvalorização cambial de 30%. Santiago Dantas viaja aos EUA e obtém 0 aval do FMI. a troco de uma solução negocída para as subsidiárias nacionalizadas da ITT e da Bond & Share Mas o Plano trienal fracassa: a inflação atinge 25% em jan-mal' 63 (só em março 9%) e as reivindi­ cações salariais atropelam a pretendida austeridade. A politica de conciliação de Jango é atacada à esquerda e à direita. ■ Uma crise econômica se caracteriza no Rm co pe­ ríodo Goulart (e estende-se pela fase inicial da ditadura). 0 ímpeto de crescimento econômico dos anos JK se esgota em 62. 0 aumento do PIB em 63 é de apenas 0,6% (o menor desde a crise de 29): a meta era 7%. A escalada da inflação alimenta a insatisfação popular e a Insegurança empresarial (amiúde aliada à hostilidade ao govemo). A evasão de divisas, para a Suíça ou os EUA, chega a cerca de USS 2 bilhões.

12/7: A Editora Abril lança O Pato Donald, de V\/alt Disney, no Brasil 16/7: O Brasil perde a Copa do Mundo de futebol para o Uruguai (2 a 1), no Maracanã 26/7: Convenção do PTB homologa a candidatura Vargas 28/7: O PSB lança a candidatura presidencial de João Mangabeira Julho: Fundada a JUC (Juventude Universitária Católica)

■ Tensões com os EUA agravam o quadro: vão da questão cubana (o Brasil não adere à política de Kennedy, de uso da força militar) à questão das nacionalizações e à relutância de Goulart em levar às últimas conseqüên­ cias uma política monetarista. 0 FMI pressiona bloquean­ do créditos, Washington suspende o envio dos recursos da Aliança para o Progresso (mas firma acordos com go­ vernadores hostis a Goulart). A dívida extema (USS 3,2 bilhões) consome em juros 15% da receita das exporta­ ções, porém os credores, na maioria americanos, recu­ sam-se a renegociá-la. Santiago Dantas chega a cogitar uma moratória. A regulamentação da Lei 4.131 (23/1/64) limita as remessas anuais de lucros a 10% do capital trazido do exterior, enquanto obriga a permanência no pais do capital aqui formado, mesmo que pertença a empresas estrangeiras. Os investimentos diretos estran­ geiros caem 36% em 62 e 56,5*ii em 63.

5/8: O PCB dá guinada à esquerda com o Manifesto de Agosto 6/8: Adhemar de Barros. em Natal. RN, lança Café Filho para vice na chapa de Vargas 19/8-30/9: Vargas, em campanha, faz 65 discursos em comícios por todo o país 18/9: No ar a PRF 3 TV Tupi, 1' TV da Aménca Latina, em Sâo Paulo; transmite das 18 às 23 h

■ A reforma ministerial de 23/6 mantém o espírito conciliador, apoiado na escolha de Aberiardo Jurema (PSD-PB) para a pasta da Justiça. A Fazenda, com Car­ valho Pinto |8.10], busca o apoio da área empresarial e conservadora. 0 antropólogo Darci Ribeiro [22-97], na Casa Civil, e Paulo de Tarso (indicado pela UNE), na Educação, representam a ala esquerda da equipe de governo.

3/10: Eleição presidencial: Vargas tem 49% dos votos, Eduardo Gomes 30%. Cristiano Machado 22% 3/10: Juscelino, governador de MG; vence Gabriel Passos por 714 mil votos a 544 mil 8/11; Dutra proclama a soberania do Brasil sobre sua plataforma submarina • Forma-se a radical Banda de Música da UDN • Portinari inicia a série Cangaceiros • O Cão sem Plumas, de João Cabral de Melo Neto • Rashomon revela ao ocidente o cinema japonês de Akira Kurosawa 1951 1 8 /1 :0 TSE proclama Vargas eleito (a UDN contesta, por náo ter havido maioria absoluta) 20/1 : A TV Tupi se instala no RJ 27/1 : O PSD anuncia apoio ao governo Vargas 31/1 : Vargas toma posse e anuncia Ministério

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■ A pressão pró-Reformas de Base provém da área popular e progressista: a parte mais expressiva e atuan­ te do movimento sindical, unificada no CGT as diversas alas do movimento camponês, desde as Ligas, a Ultab e 0 sindicalismo de inspiração católica (este sem maior entusiasmo) até a Contag: o movimento estudantil en­ cabeçado pela UNE e a Ubes: a intelectualidade de esquerda, que chega a ensaiar (out/63) a criação de um Comando dos Trabalhadores Intelectuais: os movimen­ tos de sargentos e marinheiros, que ganham vulto na fa­ se final, assim como uma parte, diminuta, da hierarquia militar: as forças polarizadas por Arraes e por Brizola, a esquerda do PTB. PSB e outras pequenas legendas, assim como, fora do espectro institucional, o PCB, PCdoB, AP. Esse leque de forças nâo chega a se estnjturar num movimento único. A Frente de Mobilização Popular, formada por Brizola em 62 com esse objetivo, não 0 alcança.

■ A reforma agrária, carro-chefe das Reformas de Base, é para Goulart “uma idéia-força irresistível, que já nâo pode ser protelada", Ainda na fase pariamentarisla (11/10/62), ele cria a Supra (Superintendência da Politica Agrária), autarquia que unifica diversos órgãos e apóiase em experiências do RS, PR e GO. Propõe um plano de desapropriação dos latifúndios improdutivos acima de 500 ha, por interesse social, indenizando-os com títulos da divida pública, o que exige uma reforma da Consti­ tuição de 46 (os arts, 141 e 146 prevêem a indenização em dinheiro). Argumenta com a concentração da proprie­ dade agrícola (74 mil estabelecimentos com mais de 500 ha detêm 58% da área ocupada) e seu baixo aproveita­ mento (as lavouras ocupam apenas 3,5% da área do país). Na mesma ocasião, facilita a criação de sindicatos no campo [8.13]. Em mar/63 encaminha, junto com o Estatuto do Trabalhador Rural (estendendo direitos tra­ balhistas e associativos já obtidos pelos assalariados urt)anos), um projeto de lei de refomia agrária (de autoria de Milton Campos) e outro de refomia constitucional, eli­ minando os obstáculos dos arts. 141 e 146. ■ As reações favoráveis ou contrárias são igualmente apaixonadas. A denúncia da grande propriedade fundiá­ ria assume vigor inédito; ela é acusada de sobrevivência feudal, arcaica, decadente, o maior problema brasileiro, resfwnsável pela monocultura, o atraso, miséria e obscu­ rantismo tanto no campo como na cidade. Inspira livros como Quatro Séculos de Latifúndio (Passos Guimarães), ou Cangaceiros e Fanáticos (Rui Facó), que reexamina sob esta ótica o cangaço e o misticismo nordestino. Já as forças contrárias proclamam que "não precisamos de reforma agrária aíguma" (Malta Cardozo); julgam-na uma violação do direito de propriedade e uma tentativa de cubanização. A hierarquia do PSD, eminentemente ruralista, afasta-se de Goulart. ■ 0 debate no Congresso sobre o tema esbarra numa ainda sólida maioria consen/adora. Esta impede que o projeto de refomia agrária vá a votação (11/7/63), rejeita 0 estatuto do Trabalhador Rural (4/8) e aprova um proje­ to alternativo de Aniz Badra (PDC-SP), condicionando a reforma agrária à indenização prévia e em dinheiro. Goulart passa a direcionar esforços para uma medida de impacto, que mobilize a opinião pública e reverta a má vontade do Legislativo: um decreto presidencial, desa­ propriando para fins de reforma agrária as terras impro­ dutivas acima de 500 ha numa faixa de 30 km (depois reduzida para 10 km) à margem das rodovias federais, ferrovias e açudes, com indenização em títulos públicos. 0 decreto é anunciado no comício de 13/3/64 (8.15) e enviado ao Congresso em 15/3. ■ Os outros Itens das reformas também provocam intensa polêmica. A reforma urbana propõe um teto para 0 número de imóveis pertencentes a um mesmo proprie­ tários, com a venda subsidiada dos excedentes aos sem-teto das cidades. A reforma bancária visa estender 0 crédito e financiamento, combater a usura e até nacio­ nalizar os bancos estrangeiros. A reforma educacional encampa propostas da UNE (8.12j: fim da cátedra vitalí­ cia, democratização do acesso ao ensino, do primário à universidade, maior presença estudantil nos órgãos colegiados universitários, A reforma tributária concebe os impostos como instrumentos de distribuição de renda. Por fim, a reforma politica implanta o sufrágio universal, estendendo o direito de votar e ser votado aos analfa­ betos e praças. ■ 0 auge da campanha pró-reformas ê o comício de 13/3/64 [8.15], 0 comicio das reformas (ou de sexta-feira 13. para os adversários). Jango anuncia o decreto da reforma agrária, a encampação das refinarias petrolíferas privadas, o tabelamento dos aluguéis de imóveis vazios. Os oradores denunciam o conservadorismo da maioria do Congresso, insistem na necessidade de reformar a Constituição, dar poderes legislativos ao presidente e aprovar as Refomias de Base através da consulta direta ao povo, via plebiscito ou referendo.


iaboatão fcabo

Desempenho da economia

PIB (Produto Interno Bruto) PIB per capita

60

61

62

9,4%

8,6%

6,6%

0^6% 1 3,4%

3.6%

-2.2%

6,2%

-----Indústria de transformação

5,6%

10.6% 11.1% 8,1%

63

64 1

1

-0,2% 5,0% 1

Investimentos estrangeiros (em milhões de USS)

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-------8.15 CRISE/CONSPIRAÇÃO ■ 0 ponto de partida da conspiração pré-64 é a posse de Jango em 7/9/61 [8.10], Os tocos de descontentamen­ to civil e militar se mobilizam. 0 gen. Golberi do Couto e Silva [9.2], conspirador de 54. 55 e 61, deixa o serviço ativo do Exército para dedicar-se ao Ipes. ■ 0 Ipes (Instituto de Pesquisas Sociais) nasce no go­ verno Jânio, a partir de empresários do Rio e SP, adeptos de uma modernização conservadora, como agremiação apartldária com fins educacionais e cívicos. Desde a crise de agosto visa "defender a liberdade pessoal e de empre­ sa, ameaçada pelo plano de socialização dormente no seio do governo João Goulart". Pouco numeroso (500 fi­ liados no fim de 63), obtém notável influência em áreas militares e patronais tiostís a Jango e às Reformas de Base [8.14], Cria 5 grupos: GAP (Assessoria Parlamen­ tar, a cargo do banqueiro Melo Flores), GOP ^pinião Pública, com Júlio de Mesquita Filho), GPE (PublicaçõesEditorial, publica 2,5 milhões de panfletos em 63), GED (Estudo e Doutrina) e GLC (Levantamento de Conjun­ tura). Este, dirigido por Golberi, divulga relatórios sema­ nais, especialmente entre oficiais, grampeia (segundo Glycon de Paiva) 3 mil telefones e forma o embrião do futuro SNI [9.2], Uma cisão opõe d. 62 o Ipes paulista ao carioca, mais próximo dos militares e influente no pós-64. ■ As doações ao órgão, vindas de 100 empresas na­ cionais e 300 estrangeiras, financiam uma rede de orga­ nizações conservadoras nas áreas feminina, juvenil, sin­ dical, camponesa e outras. 0 Ipes atua junto com o Ibad [8.12], custeia candidatos (em especial João Cleofas. para gov. de PE) e envolve-se no IPM que apura abusos do poder econômico nas eleições de 62. mas nâo é fechado. Mantém estreito vínculo com os principais jor­ nais, emissoras de rádio e TV (a mais notável exceção é 0 diário Última Hora [8.3]), orquestrando o ataque da mídia a Goulart e, principalmente, Brizola e Arraes. ■ A ESG (Escola Superior de Guerra [9.2]) fornece a ba­ se doutrinária do Ipes-lbad: alinhada aos EUA, anticomu­ nista, antiestatista, conservadora e adepta da intervenção militar. Nudeia o grupo de generàis apelidado Sorijonne (Geisel. Cordeiro de Farias, Golberi, tendo à frente Cas­ telo Branco, chefe do Estado-Maior do Exército), principal estado-maior revolucionário (paralelo) que prepara 64. Age em contato com outros focos de conspiração militar, em especial o dos gens. Costa e Silva, Sizeno Sarmento e Muniz Aragão, embrião da futura Unha Dura [9.3J. ■ Os EUA desde 61 guardam distância de Goulart. Seu embaixador, Lincoln Gordon, questiona a política externa independente e a presença de "comunistas" no governo, estimula as doações â rede do ipes-lbad, recomenda o não-reescalonamento da dívida externa brasileira e a concessão de créditos apenas a governos estaduais anti-Jango. Acompanha e instiga a ação conspiratóna. pessoalmente e através de seu adido militar, cel. Vernon Wallers [7.10], agente do DIA (serviço de inteligência do Pentágono) que visita diariamente Castelo. Morto Kennedy (22/11/63), o pres. Lyndon Johnson adota a Doutrina Mann (nome do subsecretário de negócios mteramericanos), de ofensiva antinacionalista e boas rela­ ções com regimes militares. A nova lei de remessas de lucros [8.14] azeda de vez as relações. Os EUA optam pelo apoio inclusive militar ao golpe, com a Operação Brother Sam [9.1]

federal (PTB-GB) e 1 estadual (PTB-RS), mas o STF ne­ ga-lhes (11/9) 0 mandato. Perto de 600 sargentos da Aeronáutica e Marinha rebelam-se espontaneamente no DF, tomam prédios públicos, cortam as ligações telefôni­ cas com a capital, prendem oficiais, um ministro do Supremo, alguns oficiais. Atacados pelo Exército no Min. da Marinha, resistem, mas se entregam após algumas horas de combate, que deixam 2 mortos. Presos, só se­ rão julgados após o golpe [9.3]. Jango evita tomar po­ sição. Mas 0 episódio alarma a oficialidade; o gen. Be­ viláqua tacha 0 CGT e o PUA. que apóiam a revotta, de “malfeitores sindicais'. ■ Lacerda, na oposição extremada, afirma ao jomal Los Angeles Times que o govemo pode cair ainda em 63. Por sugestão dos ministros militares. Goulart reage solici­ tando (4/10) 30 dias de estado de sítio. Mas o pedido nâo passa no Congresso: a pópria esquerda o ataca (CGT, UNE), temendo que a suspensão dos direitos constitucio­ nais vitme não só Lacerda, mas também Arraes e as lu­ tas sociais em ebulição (greve nacional nos bancos, gre­ ve de 700 mil em S. Paulo, conflitos armados no campo). Goulart recua, desgastado (“Nesta madrugada começou a minha deposição"). ■ 0 comício de 13/3/64 propõe-se a iniciar uma série de demonstrações de apoio de massas ao govemo e ãs Refonnas de Base [8.14]. Convocado pelo CGT UNE, FPN, FMP, reúne 203 mil na Central do Brasil. Rio, em clima já tensionado por lumores de golpe, mais de con­ fiança no legalismo das Forças Annadas. proclamado em discursos e faixas. Brizola e Arraes participam. Goulart comparece, reafinna a opção reformista, sinali­ za uma flexão na sua conduta em geral conciliadora. "Optei pelo combate aos privilégios", afirma na mensa­ gem de 15/3 ao Congresso. Uma seqüência de outros comícios pretende culminar reunindo 1 milhão fie pes­ soas no 1 - de Maio. ■ A Marcha com Deus pela Liberdade (19.'3) retnjca com uma multidão de 500 mil pesscas em S. Paulo. Con­ vocada em desagravo ao Santo Rosário, supostamente ofendido no comício de 13/3. tem o apoio da igreja e do gov. Ademar de Barros. As camadas médias castigadas pela inflação, temerosas do comunismo e trabalhadas pela campanha de opinião pública da rede do Ipes. acor­ rem em massa. A conspiração adquire a certeza de con­ tar com a simpatia de boa parte da opinião pública. Ou­ tras marchas sâo agendadas [9.1]. Em 20/3 Castelo Branco faz circular na oficialidade a Circular Reservada, cautelosa, mas condicionando o respeito ao presidente aos limites da lei" Paralelamente, o lexio apócrifo Leer (Lealdade ao Exército) indaga se os oficiais 'estanam dis­ postos a reagir' em face da ameaça de "um regime de tipo comunista", vinda de “setores do governo".

■ Na fase parlamentarista a oposição é ostensiva, mas dentro da lei. Com a queda do gabinete Tancredo. a relativa derrota nas eleições de 62 e sobretudo o ple­ biscito [8.11], a conspiração passa ao chamado estágio revolucionário. Aciona o golpe quando a polarização deságua em crise aberta e surgem condições políticas e militares propícias.

■ 0 Levante dos Marinheiros (25/3). Centenas de pra­ ças da Mannha de Guerra festejam, no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio. o aniversário de sua associação, proibida. Reivindicam comida melhor a bordo, direito de casar e não usar farda fora do serviço: tém à frente o cabo Anselmo, depois identificado como agente provo­ cador. 0 min. da Marinha, alm. Sílvio Mota. ordena que os fuzileiros navais reprimam o ato. mas estes aderem aos rebeldes, com apoio de seu comandante, vee-alm. Cândido Aragão, da ala nacionalista da oficialidade. Mota demite-se. Em acordo negociado, os rebeldes sâo anistiados após poucas horas de prisão: festejam condu­ zindo Aragão em triunfo pelas ruas. 0 Clube Naval pro­ testa. hasteando a bandeira do Brasil a meio pau. A nova quebra da hierarquia engrossa as hostes da conspiração militar. Castelo marca o dia da deposição de Goulart: 2/4; espera apenas a adesão do gen. Kruel, comandante do 2 ' Exército [9.1].

■ A Revolta dos Sargentos (12/9/63) evidencia a crise e põe em causa a sensível questão da hierarquia militar. Cabos, sargentos e suboficiais pleiteiam desde os anos 50 0 direito à elegibilidade, vedado pela interpretação corrente da Carta de 46. No pleito de 62. elegem 1 dep.

■ 0 discurso de Goulart no Automóvel Clube (Rio, 30/3) precipita tudo. Jango fala a sargentos da PM; em vez de repreendè-los. enaltece seu papel como elo entre as Forças Armadas e o povo. Na mesma madrugada começa o golpe [9 1].

Cronologia 10/2; Definido em lei o Polígono das Secas, com 936 mil km= (= Alemanha + França) 12/2; Góis Monteiro torna-se chefe do EMFA 18/2: Vargas discursa no Maracanã Fevereiro: 0 sucesso carnavalesco é Retrato do Velho, em tributo a Getúlio, de M. Pinto e H .Lobo 5/4: Os EUA condenam à morte o casal Rosenberg, acusado de espionagem pró-URSS 1« de Maio; Vargas incentiva os trabalhadores a se sindicalizarem, no estádio do Vasco, RJ, 12/6: Samuel Wainer funda no RJ o jornal Ú/í/ma Hora, que logo vende mais que O Globo 19/6: O governo envia ao Congresso projeto que cria 0 Serviço Social Rural 27/6: O secretário-geral da ONU solicita do Brasil (mas não obtém) tropas para lutar na Coréia 28-30/7: 1” Congresso da Federação de Mulheres do Brasil, em São Paulo Julho: A direita vence o 14® congresso da UNE: P. Egídio Martins, de SP.^é o presidente 8/8: Vargas propõe Plano Nacional do Carvão 8/9: Grande comício de Getúlio em vitória, ES ’24/9: Negrão de Lima. min. da Justiça, pacifica a contestação ao gov. Eugênio de Barros, MA 20/10: 1* Bienal de Artes Plásticas, no MAM. SP; 1.800 obras de 21 países Outubro: A visita de Max Bill ao país estimula os movimentos artísticos còncretistas 11/11: Perón é reeleito presidente da Argentina 6/12: Vargas envia ao Congresso projeto que cria a Petróleo Brasileiro SA (Petrobrás) 21/12: Começa Sua Vida Me Pertence. 1* telenovela, na Tupi: SP tem 375 televisores 24/12: Aumento do salário minimo, congelado há 8 anos em Cr$ 380, para Cr$ 1.200 (215%) 51-53; Anos de seca no Nordeste 51-54: Guerra de preços do café; os EUA vencem • A Rádio Nacional in-adia com enorme sucesso a novela cubana O Direito de Nascer • Dalva de Oliveira é a Rainha do Rádio • Jorge Amado recebe em Moscou o Prêmio Stalin • Gilberto Freyre publica Sobrados e Mocambos • Aperteiçoa-se a pílula anticoncepcional 1952 3/1; O Itamaraty examina com o embaixador dos EUA um plano de defesa do Continente 4/1: Decreto de Vargas restringe as remessas de lucros de empresas estrangeiras 28/1: Criada a Comissão Federal de Abastecimento e de Preços (Cofap) Fevereiro: Sucesso do Carnaval: Lata DÁgua. de L. Antonio e J. Júnior 15/3; Acordo militar Brasil-EUA. questionado pelos nacionalistas (denunciado em 11 /3/77) 26/4; Os irmáos Bloch lançam a revista Manchete 21/S; O anticomunista gen. Etchegoyen vonce o nacionalista gen. Estilac Leal no Clubo Militar 20/6; Rebelião no presidio da Ilha Anchieta: 100 mortos 20/6; Criado o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, d. 82); diretor: Roberto Campos 3/7; Entrevista de Vargas com Dean Acheson, secretário de Estado dos EUA, no Catete 11/7; D. Eisenhower elege-se presidente dos EUA 19/7-3/8: Olimpíadas de Helsinque: o Brasil traz 1 ouro; Ademar Ferreira da Silva, no salto triplo 20/7: Maus-tratos causam molim no presidio da ilha Anchieta. SP; 100 mortos 4/9; Emest Hemingway publica O Velho e o Mar 29/9: Morre Francisco Alves, o Rei da Voz; seu Buicl<, a 130 km/h. bate num caminhão, na Via Dutra 3/10; Decreto cria o lAPI (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários)

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Cronologia

8.16 TV I CINEMA NOVO I BOSSA NOVA/ UNIVERSIDADES Televisão ■ 0 1 ' canal brasileiro vai ao ar em ia/9/50; é a TV Tupi (S, Paulo), ligada à cadeia de imprensa Diários Associa­ dos de Assis Chateaubriand [1891-68). A seguir surge a Tupi do Rio; em 60 há 13 canais em S. Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Porto Alegre e Brasilia. No Ini­ cio a programação vai em regra das 18 às 22 h: teatro, no­ velas, jomalismo {Repórter Esso). filmes, progtamas de au­ ditório ( 0 Céu é 0 Limite. Discoteca do Chacnntia). Em 60, a Excelsior (S, Paulo), revoluciona a produçào da TV, com novo padrão de profissionalismo e telenovelas diárias (63). ■ A popularização da TV começa já nos anos 50, com a produçào nacional barateando os aparelhos. Em 56, há 260 mil aparelhos e 1,5 milhão os telespectadores; a arrecadação total das 3 TVs de S. Paulo com publicidade supera pela 1- vez a das 13 emissoras de rádio (mas este mantém folgada vantagem em audiência nacional). 0 Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública), inicia em 54 as pesquisas de audiência, orientando a publicidade televisiva. Avança também a técnica. Em 56. a TV Tupi transmite ao vivo por cabos retransmissores, do Mara­ canã para S. Paulo, o jogo entre as seleções de futebol do Brasil e Itália. Com a introdução do video tape (57) pela TV Rio (dirigida por Walter Clark e José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni [9.15]), os programas já nào precisam ser ao vivo, podem ser retransmitidos: começa a veiculação de enlatados (seriados produzidos nos EÜA especialmente para a TV). Em 59, o Ministério da Justiça regulamenta pela 1* vez a censura de televisão. Cultura e política ■ 0 engajamento político marca a produção cultural e artística brasileira na virada dos anos 60. Refletindo a ebulição social e política da época, busca o encontro en­ tre uma intelectualidade que marcha para a esquerda e um povo que ela lenta (e às vezes consegue) atingir. A tendência sobrevive até a onda repressiva pós-AI-5 [9.151 ■ 0 CPC (Centro Popular de Cultura [8.12) criado pela UNE (61), alia projeto politico-cultural ousado e indigência de recursos. Reúne entre seus fundadores Leon Hirszman. Arnaldo Jabor, Carlos Lyra e Oduvaldo Viana Filho; incor­ pora Astrojildo Pereira, Rui Facó. Ferreira Gullar, Dias Gomes: divulga talentos populares como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Cartola. Eduardo Escorei, Chico de Assis. Até ser (echado e ter seu acewo destaiído pelo golpe, lança o filme Cinco Vezes Favela, a coleção de livros Ca­ dernos do Povo Brasileiro (junto com a ed. Civilização Brasileira, de Ènio Silveira), o disco Subdesenvolvido, várias peças teatrais {Eles Não Usam Black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri [34-]), festivais de cultura popular. ■ 0 MCP (Movimento de Cultura Popular) do governo Arrais (8.12] adota em PE o lema "Educar para libertar". Destaca-se pelo programa de alfabetização de adultos, que projeta o método de Paulo Freire [21-97], chamado por Goulart, às vésperas do golpe, para elaborar o Plano Nacional de Alfabetização. ■ 0 teatro engaja-se a fundo. A fase anterior é marca­ do pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), fundado em 8, Paulo, em 48, pelo italiano Franco Zampari |1898-66]. Mas em 58 o TBC vive uma crise e a evasão de talentos que criam companhias independentes. Enquanto o Tea­ tro de Arena, criado em 55 (com José Renato, Eva Wiima. John Herbert, Sérgio Cardoso) renova a dramaturgia ao incorporar Augusto Boal [31 •] e com ele as concepções do teatrólogo soviético Sanislavski. Em 58, nasce também em S. Paulo o Grupo Oficina, que sob a direção de José Celso Martinez Correa (37-) caminha do existencialismo para o compromisso “com a luta contra o imperialismo estrangeiro" e aproxima-se do Arena. Cinema ■ 0 cinema torna-se bem de consumo de massas nos anos 40-50, abastecido sobretudo pelos EUA (83% dos bilhetes vendidos em 58). 0 cinema nacional passa da fase pioneira (Humberto Mauro [1897-83]) á dos estú­ dios. Em 41, surge no Rio a Atlântida, rodando em média

3 longas-metragens por ano; cria o gênero chanchada, comédias muscais que levam à tela ídolos do rádio (Car­ men filirarKla [1909-55]), projetam Oscarito [1906-70] e Grande Otelo (1915-93). Em 49, Franco Zampari cria a Vera Cruz. que investe na qualidade e na técnica, roda o 1 ' filme brasileiro de projeção internacional ( 0 Car^gacei10. 53). mas vai à falência em 54. ■ 0 Cinema Novo sofre influência do neo-realismo ita­ liano e da efen/escència político-social brasileira. Valori­ za a funçào do diretor, o conteúdo engajado, a forma des­ pojada e inovadora. A partir de Rio AO Graus (55), de Nelson Pereira dos Santos (28-). projeta Paulo César Sarraceni. Roberto Farias, João Pedro de Andrade, Rui Guerra e Gláuber Rocha [38-81], diretor de Deus e o Diabo na Terra do Sof (64) e autor da frase-símbolo "uma Câmera na mão e uma idéia na cabeça" Mesmo sem sucessos de bilheteria e acossado pela censura pós-64. marca época e projeta-se no exterior A Bossa Nova ■ Afonnação da parceria Tom Jobim-VInícius de Morais [1913-80 e 27-94], em 56, é um dos pontos de partida des­ se movimento muskai. Juntos musicam a peça Orteu da CoTKeição e nucleiam o grupo de compositores, intérpre­ tes e intelectuais que se reúne no Bar Vilarino, Leblon, Rio. ■ A batida do violão de João Gilberto [31-], acompa­ nhando Elisete Cardoso em 2 faixas do LP Canção do Amor Demais (músicas de Tom-Vinicius), lança em 58 a harmonia repleta de acordes alterados, saltos melódicos inesperados, freqüentes modulações, logo batizada bos­ sa nova. Em 59, Joâo Gilberto grava Desafinado, de Tom e Newton Mendonça, cuja letra defende o movimento e serve-lhe de hino. ■ A Influência do jazz (gêneros cool, beôop) impregna a Bossa Nova, a começar por conjuntos formados de piano-contrabaixo-violão. Ájuda-a a consagrar-se no Carnegie Hall de Nova York (62) e fazer sucesso mundial {Garota de Ipanema. 63). No Brasil, em pleno auge nacionalista, suscita acusações de americanismo. Outras polêmicas derivam dos temas líricos e tom intimista. ligados à clas­ se média abastada da Zona Sul caiioca. A conflituosa in­ teração com os gêneros populares, sobretudo o samba, produz sínteses nâo menos polêmicas como o iropicalismo [9.15J fia s a obra dos expoentes da Bossa Nova (Tom. Joâo Gilberto), vista em perspectiva, revela uma teimosa brasilidade e apego às raizes populares. Idéias, universidade ■ A expansão do ensino superior se acelera ao longo do pós-guerra. Na década de 50, o n ' de matrículas sobe 78%: entre 61-64,44% (de 99 mil para 142.4 mil), Pela 1' vez uma boa parte dos filhos das camadas médias urba­ nas chega às faculdades Essa relativa democratização é uma das razões do fervilhar de idéias inovadoras e do au­ ge do movimento estudantil [8.12} ■ As PUCs (Pontifícias Universidades Católicas). 1“ uni­ versidades privadas brasileiras, surgem anos 40 (Rio, Campinas. S. Paulo. Porto Alegre), sob orientação de Ro­ ma, com um forte conteúdo confessional, que o tempo relativiza. Na área estatal, a tendência é a federalizaçào de universidades esladuais (M6, PE. BA. PR. RS), com a notável exceção da USP. Nos anos 50 começa o íwom das escolas privadas e isoladas, de duvidosa qualidade. Ao mesmo tempo generaliza-se o clamor pela reforma universitária, democrática-radical como quer a UNE ou, no pólo oposto, privatizante e pró-ensino pago. ■ A Universidade de Brasília (UnB) criada em 61 sob a inspiração de Anísk) Teixeira [7.l2]e Darci Ribeiro [8.14] é concebida como espaço de pesquisa, fomtiaçào de pro­ fissionais para a industrialização e afirmação nacional. Abancona a estrutura tradicional de faculdades isoladas e cátedras autárquicas, por outra integrada: Institutos centrais de ensino e pesquisa, faculdades dedicadas á formação: inova também ao criar os departamentos. Che­ ga a produzir um ensino de qualidade antes de ser des­ troçada pela repressão em 65 [9.3(

16/10; Criada a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), no RJ. Iniciativa de d. Hélder Câmara 17/10: Vargas, sob pressão de uma greve em Criciúma. SC. eleva o preço do carvão nacional 29/11: 0 sertanista Aires da Cunha e a índia Kaiapalo Diacuí casam-se na Candelária, RJ 22/12: Criado o Instituto Brasileiro do Café (IBC) • Estréia de Mazzaroppl, em S ai da Frente 1953 5/1: Lei de defesa da ordem política e social (de segurança nacional), aplicada pela justiça comum; comício não autorizado vira crime 12/1: Ricardo Jafet demite-se do Banco do Brasil 25/2; Campanha “do tostão contra o milhão" elege Jânio Quadros prefeito de São Paulo 5/3: Morre Stalin, secretário-geral do PGUS 10/3: Passeata de 8 mil têxteis inicia greve geral em SP; com adesão de 300 mil, ela dura 1 mês, triunfa e renova o quadro sindical 22/3: Posse de Jânio na Prefeitura 1S/6: Reforma ministerial; Tancredo na Justiça. Osvaldo Aranha. Fazenda, João Goulart, Trabalho 25/7; Surge o Ministéno da Saúde Pública 27/7: Armistício de Panmunjon; fim da Guerra da Coréia; divisão do país em 2 estados 25/8: Um liro vara o chapéu do deputado-pistoleiro Tenório Cavalcanti, em Caxias. RJ 3/10: Vitória do “Petróleo é Nosso": sancionada a Lei 2.004 (Eusébio Rocha), que cria o monopólio estatal do petróleo, confiado à Petrobrás 9/10: Instrução 70 da Sumoc (Superintendência da Moeda e do Crédito) taxa os bens de produção importados para estimular os similares nacionais 16/12: Miguel Couto Filho assume o recêm-criado Ministério da Saúde 20/12: Vargas, em discurso no PR, questiona as remessas de lucros do capital estrangeiro

Dezembro: A 2- Bienal de SP expõe 4 mil obras, inclusive a Guemica de Picasso, vinda de Paris • Sâo Paulo, 2.7 m ilhões de habitantes, torna-se a cidadc m ais populosa do Brasil

• O Cangacoiro, de Lima Barroto-Cia. Vera Cruz, 1’ filme nacional de sucesso no exterior, Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes • Vâo ao ar a TV RJ e, em SP, a Record • Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles 1954 5/1; Decreto 34.859 faz restrições ao capital estrangeiro 25/1: SP faz 400 anos inaugurando o parque do Ibirapuera. a catedral da Sé (desde 13 em obras) e 0 Monumento às Bandeiras, de Brecheret 6/2: 0 Corinthians empata com o Palmeiras e é campeão do 4“ Centenário 8/2; 87 coronéis do Exército escrevem ao ministro

da Guerra contra o aumento do saláno minimo proposto por Jango

22/2; Goulart cai do Ministéno do Trabalho

Fevereiro: Greves de bancários e portuários do RJ. mineiros de Morro Velho e Nova Lima, MG 10/4: Getúlio propõe Plano Nacional de Eletrificação (Eletrobrás) 1» de Maio: Vargas, em Petrópoiis, RJ, eleva em 100% o salário mínimo; "Hoje estais com o govemo. Amanhã sereis o govemo” 7/5: Decisiva vitória do Vietnã de Ho Chi-Min em Dien Bien-Phu sobre a França colonialista 27/6: A seleção brasileira perde para a Hungna (4 a 2) e sai da Copa do Mundo da Suiça 11/7: SIroessner chega à Presidência do Paraguai (fica 35 anos, graças a sucessivas reeleições) 24/7: A baiana Marta Rocha perde o titulo de Miss Universo por 2 polegadas de quadris a mais 2/8; Manchete da Tribuna da Imprensa: “Somos um povo honrado governado por ladrões"

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Cronologia

9 -DITADURA I 1964-1974 19.1 GOLPE MILITAR/REPRESSÃO I'

5/8: Atentado da rua Toneleiros, Copacabana, RJ; tiros ferem o oposicionista Cartos Lacerda e maiam o major-aviador Rubens Vaz

■ 0 golpe começa em MG. 0 gen. Mourào Filho [190072], autor do Plano Cohen [7.7] e comandante da 4* Re­ gião Militar, 0 gov. Magalhães Pinto e outros decidem deflagrá-lo (2a®64) sem consultar os companheiros de conspiração. Apóiam-se em informação do mal. Odilio Denis sobre o ânimo no Exército após o ato dos mari­ nheiros no Rio [8.15], Avaliam que MG. por seu peso político e localização, deve se adiantar. 0 plano tem 3 parles: Operação Silêncio, controle da midia: Operação Gaiola, prisão dos líderes estudantis e sindicais: e Ope­ ração Popeye, o deslocamento de tropas.

6/8: l^cerda, na Tribuna da Imprensa, responsabitiza Vargas pelo alentado de 5/8 9/8: 0 dep. Afonso Arinos, Kder da UDN, exige a renúncia de Vargas 12/8: Inauguração da sidenjrgica Mannesmann, em Belo Horizonte. MG 13/8: Encontro entre Café Filho e Lacerda 15/8: Circula frase, atribuída a Vargas: "Tenho a impressão de estar sobre um mar de lama" 15/8: A investigação do atentado de 5/8 chega a Gregório Fortunato, guarda-costas de Vargas 16/8: 0 brig. Nero Moura se demite do Ministério da Aeronáutica 22/8: No Clube da Aeronáutica, brigadeiros exigem a renúncia: Vargas responde: “Daqui só saio morto” 23/8: A cúpula da lularinha e manifesto de 27 generais do Exército se somam aos brigadeiros 24/8, 3 h: Reunião ministerial de emergência aconselha um pedido de licença do presidente 24/8, 8 h: Vargas se suicida com um tiro de revólver no peito, no Palácio do Catete, RJ 24/8, 9 h: O rádio irradia a Carta-Testamento em que Vargas denuncia "forças ocultas": “Saio da vida para entrar na História’’ 24/8: Posse de Café Filho, o vice, que promete manter a normalidade constitucional 24-25/8: Protestos populares espontâneos culpam a UDN e os EUA pela morte de Getúlio; ataque às sedes da Tribuna da Imprensa e de O Globo 25/8: O monetarista Eugênio Gudin é o ministro da Fazenda; Gouveia de Bulhões na Sumoc

■ Nas 1" horas de 31/3 os gens. Mourão Filho. Luis Guedes e Muricy ordenam às unidades de Juiz de Fora, sede da 4* RM, e da PM-MG a marcha sobre o Rio. Ma­ galhães Pinto lê um Manifesto à Nação: "/te forças sedia­ das em Minas, responsáveis pela segurança das institui­ ções, consideram do seu dever entrar em ação. a fim de assegurar a legalidade ameaçada pelo próprio presidente da República'. Acusa Jango de subverter a legalidade, a disciplina e hierarquia militares. ■ A ação surpreende até o gen. Castelo Branco [6.15], que trabalha com a data de 2/4, à espera da adesão do gen. Kruel (2® Exército). Castelo telefona a Magalhães: ao saber que a tropa já está na divisa IvIG-RJ. antecipa o plano. Confia que a fala de Jango no Automóvel Clube [6.15] quebrou os escnipulos dos oficiais vacilantes. Ele e 0 gen. Costa e Silva [9.4-6], chefe do Depto. de Produção e Obras do Exército, passam o dia organizando o golpe.

26/8: Sepultamento de Vargas em S. Borja, RS; discursam Goulart, Tancredo. Osvaldo Aranha

■ A Revolução de 31/3 (termo adotado pelo regime de 64) apóia seu discurso no combate à subversão e à cor­ rupção. Justifica-se como ação preventiva ante a um “pla­ no comunista de conquista do poder'. Assume em bloco os lemas dos EUA na Guerra Fria [8.2]: defesa do mundo livre, da civilização ocidental e cristã, anticomunismo.

25/11: A direção do PSD indica Juscelino Kubitschek candidato à Presidência e João Goulart, do PTB, para vice 26/11: Comício em Belo Horizonte inicia campanha presidencial de JK

■ Goulart, no Rio. ao saber do golpe manda prender Castelo (o comte. do 1" Exército alega constrangimento pessoal e desobedece). Instado pelo gen. Kruel a fechar 0 CGT para salvar o governo, recusa. Kruel adere ao golpe e põe os tanques do 2* Exército a caminho do Rio.

30/11: Prado Kelly diz em SP que a UDN não aceita a candidatura JK 29/12: 0 gen, Lott, min. da Guerra, anuncia que o Exército não interfere na sucessão Dezembro: Carmen Miranda volta ao Brasil após 14 anos nos EUA • Ângela María é a Rainha do Rádio • O Ibope faz sua 1* pesquisa de TV • Os Parceiros do Rio Bonito, de Antonio Cândido • O gen. Viana Moog publica Bandeirantes e Pioneiros • Os 7 Samurais, de Akira Kurosawa 1955 1/1: Criada a 1* Liga Camponesa, no engenho Galiléia, Vitória de Sto. Antão, PE 15/1: Começa a funcionar a hidrelétrica de Paulo Afonso, no S. Francisco 17/1: Gudin baixa a Instrução 113 da Sumoc, mantida sob JK, criticada pelos nacionalistas como privilégio ao capital estrangeiro 27/1: Café Filho afirma que não Influirá na sucessão presidencial 31/1: Jânio Quadros torna-se governador de SP. eleito com 660 mil votos contra 642 mil para Adhemar de Barros Fevereiro: A Voz do Morro, de Zé Keti, é o sucesso do Carnaval 4/4: Juscelino propõe em Jatai, GO, a mudança da capital para o Planalto Central 15/4: Prado Kelly substitui Marcondes Filho no Ministério da Justiça 24/4: Conferência de Bandung; países do 3“ Mundo formam movimento dos não-alinhados 10/5: Juarez Távora se decide a disputar a Presidência, pela UDN 14/5; Os países do bloco socialista formam o Pacto Militar de Varaóvia, oposto à Otan 176

■ 0 embaixador dos EUA, Lincoln Gordon [13-], e o adi­ do militar Vemon Wallers [17-], engajados na conspiração, monitoram seu desfecho. Em Washington, o Dep. de Es­ tado aciona a Operação Brother Sam (ravelada em 76) de apoio ao golpe em caso de guerra civil: 4 petroleiros e a força naval com o porta-aviões Forrestal à frente ru­ mam para o Brasil. ■ A correlação de forças ao fim de 31/3 já sorri aos golpistas. Eles têm todo o 2* Exército (SP, MT) e o 4* (Nordeste, comando do gen. Jusiino Alves Bastos). Na área do 1*, dominam a 4* RM (MG) e dividem a 1* (GB, RJ. ES). No possante 3“ Exército (RS. SC. PR) o comte., gen. Ladário Pereira Teles, legalista, não controla as tro­ pas ca fronteira, que marcham sobre Porto Alegre. Focos legalistas sâo vencidos. Marinha e Aeronáutica aderem. ■ Na área política, embora sem amparo legal, o golpe tem apoio da UDN, dos governos de MG, GB, SP, PR, AL, com suas PMs e Dops (Departamentos de Ordem Poli­ tica e Social); outros governadores (Samey, MA) aderem depois. Na GB, Lacerda [8.5-12] monta esquema políticomilitar e de rádio, fecha sindicatos, prende líderes, dis­ tribui armas a voluntários; de metralhadora em punho no palácio do govemo. protege-se com um cinturão policial. A sede da UNE [7.9, 8.11] é incendiada, o jomal Última Hora [8.3] empastelado. ■ Em PE, 0 4 ' Exército e a tropa naval do aim Dias Fer­ nandes cercam o palácio do govemo e exigem a renúncia de Arraes [812]. Este recusa e é preso em Fernando de Noronha (até 21/4, quando se exila na Argélia); na noite de 31/3 a Assembléia vota seu impeachment (45 votos a 17). Tropas de AL e PB ocupam os redutos das Ligas Camponesas [8.i4j, ■ 0 rádio ioga papel-chave. Os legalistas formam a Rede da Legalidade (nome usado em 61 [8.10]), com

base nas rádios Nacional e Mairynk Veiga, GB: através dela 0 min. da Justiça Abelardo Jurema convoca o país a resistir. Os golpistas formam a Rede da Liberdade, sedia­ da na Rádio Industrial, de Juiz de Fora, “capital revolu­ cionária do Brasil’ . ■ A resistência é esmagada com rapidez que nem os golpistas esperam. 0 dispositivo militar que asseguraria a Jango a lealdade do 1“ , 2 ' e 3® Exércitos, desmorona, abandonado petos generais centristas (Kruel, Âncora, o min. da Guen-a Dantas Ribeiro). A tropa enviada contra Mourão Filho em boa parte adere a ele (1/4). 0 dispositi­ vo sindical não efetiva o apelo do CGT à greve geral (31/3): a greve é pontual (ferroviários da 6B, mineiros de SC). As esquerdas, em geral confiantes na legalidade e no espírito democrático das forças armadas, são colhidas de surpresa e desbaratadas. ■ Os golpistas têm expressivo apoio civil na impren­ sa. igreja e camadas médias urbanas. A Marcha da Famí­ lia com Deus pela Liberdade reúne 300 mil em S. Paulo (19/3). Após 0 golpe, a Marcha da Vitória, no Rio, leva 1 milhão às ruas, articulada p^r entidades como a Camde (Campanha da Mulher pela'Democracia), com apoio do clero, de Lacerda e do jornal 0 Globo. ■ Em 1« de abril o golpe triunfa, afora Porto Alegre. Costa e Silva, alegando ser o mais antigo gen. da ativa no Rio, se autonomeia min. da Guerra e cria o Comando Revolucionário, com o vice-alm. Rademaker [9.8] e o brig. Correia de Melo pela Marinha e Aeronáutica. Jango vai a Brasilia e ao RS, recusa a renuncia ou uma guinada à direita (fechar a UNE e o CGT); adverte ao Congresso que está “em pleno exercício dos poderes constitucionais", prevenindo um impeachment. Mas recusa a resistência defendida por Brizola e Ladário: "Não desejo derrama­ mento de sangue”, diz. Asila-se no Uruguai (4/4), numa estância da fronteira, amargurado, doente; até a morte (76) pede. em vão, para voltar ao Brasil. ■ Goulart é formalmente derrubado na madrugada de 2/4, sem amparo na Constituição, pois está no pais, não renunciou nem sofreu impeachment. 0 sen. Auro de Moura Andrade [15-82], pres. do Congresso, declara a presidência vacante e empossa como pres. em exercício 0 pres, da Câmara. Ranieri Mazilli [10-75]. Começa ai a esquisofrenia do regime, poder militar, arbitrário, mas que busca cena formalidade legal. ■ 0 Ato Institucional n ' 1. Políticos conservadores pro­ põem um Ato Constitucional (7/4) de normalidade sem Jango, mas dessa vez os generais vêm para ficar, 0 Co­ mando Revolucionário baixa o Ato Institucional (na época nào numerado), escrito por Francisco Campos [7.7], que chama o Congresso a eleger em 48 h o novo pres. da Re­ pública, com poderes muito ampliados; autoriza a cassa­ ção de mandatos e a suspensão de direitos políticos; sus­ pende a estabilidade do funcionalismo; limita sua validade até 13/1/66, quando prevê eleição presidencial direta. ■ Castelo Branco [1900-67] é eleito (11/4) com 361 vo­ tos (72 abstenções, 37 ausências, 5 votos em outros ge­ nerais) pelo Congresso mutilado. Cearense, filho de mi­ litar, com cursos na França e EUA, veterano da FEB (710], é um general (mal d. 13/4) calado, introspectivo, intelectualizado, tido como correto e apolitico. Chefia o Estado-Maior do Exército, d. 63 o informal Estado-Maior da conspiração, e ainda a Sorbonne, goipo ligado à Es­ cola Superior de Guerra que inclui os gens, Golberi, Geisel. Cordeiro de Farias, Bizarria Mamede [8.15], ■ A Operação Limpeza (repressão) dura até 90 dias, prende milhares, tortura centenas e causa as 1“ mortes. No Rio, improvisa 2 navios-prisão. Em PE amarra e ar­ rasta pelas ruas o líder camponês e ex-deputado do PCB Gregório Bezerra [1901-83]. Até maio os cassados che­ gam a 441, entre eles Juscelino, Jânio e Jango; 55 con­ gressistas, sobretudo do PTB, diplomatas, militares, sin­

dicalistas, intelectuais. Há 2.985 funcionários civis e 2.757 militares demitidos ou forçados à aposentadoria. A Linha Dura elabora lista de 5 mil "inimigos".


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9.2 DOUTRINA DE SEGURANÇA / SNI ■ Os generals de 64, em boa parte a ala direita dos an­ tigos tenentes [6.13], formam-se sob influência dos EUA, em especial após a participação conjunta na II Guerra [7.10]: Castelo, Geisel, Cordeira de Farias, Golberi. Este considera a visita da FEB aos EUA mais importante que a campanha da Itália. ■ A Escola Superior de Guerra (junto com a Adesg, As­ sociação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra) é 0 centro elaborador da doutrina do golpe e da ditadura. Criada por Dutra [8.2] em 22/10/48, implanta-se até 52, num prédio do forte S. João, Rio (onde funciona até hoje). Ministra cursos a oficiais das 3 armas (patente mínima, ten-cel.) e civis convidados, com duração de 1 ano em período integral. Segue o modelo dos War Colleges dos EUA, que mantêm nela uma missão em 48-60 e um ofi­ cial de ligação até os anos 70. ■ 0 conceito de segurança nacional surge no Pen­ tágono (Depto. de Defesa dos EUA), desenvolvido pelo cel. G. Lincoln, de West Point, dentro da política de res­ posta flexível e contra insurreição do início dos anos 60. É exportado para toda a área de influência dos EUA. em especial a América Latina, ante o acirramento da Guerra Fria [8.2], a escalada militar no Vietnã, a Revolução Cubana (59), a crise dos mísseis (62) e a multiplicação de guerrilhas de esquerda [9.13-14]. Um de seus com­ ponentes é a teoria do dominó, segundo a qual cada avanço do comunismo prepara o passo seguinte, numa reação em cadeia que é preciso debelar no nascedouro. ■ A onda de golpes e ditaduras militares na América Latina dos anos 60-70 baseia-se, com adaptações, na segurança nacional. E em nome dela recebe dos EUA apoio político-diplomático, econômico e em alguns casos militar, conduta que não se altera até a política de direitos humanos de Jimmy Carter (77). Entre o golpe de 64 no Brasil e 0 de 73 no Chile, a maior parte do continente cai sob regimes impostos pelas Forças Armadas. Embora com peculiaridades nacionais significativas, o fenômeno tem traços comuns. 0 militarismo, endêmico na região desde o s. 19, assume nova feição: o velho caudilhismo dá lugar a ditaduras impessoais onde as instituições mili­ tares detém o poder; a tortura e “desaparecimento" de opositores [9.9] se difundem. ■ A doutrina de segurança nacional define objetivos nacionais permanentes sob a ótica de uma guerra per­ manente entre o Ocidente cristão e o Leste comunista. Divide 0 mundo não tanto em estados nacionais mas em fronteiras ideológicas. Extrai dai a noção de inimigo in­ terno (0 comunismo, entendido de fonna abrangente) e com ela justifica o novo papel dos militares. Torna-se a filosofia oficial do regime. Golberi fala no "novo dilema, o do bem-estar e o da segurança, apontado por Goering sob a forma 'Inflais canhões, menos manteiga'. E na ver­ dade, não há como fugir à necessidade de sacrificar o bem-estar em proveito da segurança". ■ A Constituição de 67 responsabiliza "toda pessoa na­ tural ou jurídica" pela segurança nacional. A rigor, o termo é usado já na Carta de 34 [7.4], que Institui o Conselho de Segurança Nacional, mas com outro conteúdo. Após 64,0 CSI^ toma-se o forum, consultivo apenas na forma, das principais deliberações do regime. ■ 0 SN! (Serviço Nacional de Informações) enfeixa a atividade de Informação e contra-informação. É criado em 13/'6/64 pelo general Golberi do Couto e Silva [191187). ideólogo da ESG, que realiza ações afins no Ipes [8.15] e leva para o novo órgão 100 mil fichas pessoais. Tem a prerrogativa de manter em segredo sua organiza­ ção, efetivos e funcionamento. Chega a ter 3 mil fun­ cionários; segundo o general Newton Cruz, em 80 a agência central tem 400 homens,- as estaduais, de 60 a 200; 62% sâo CIVIS, 26% militares da ativa, 12% da reser­

va: em 71 cria sua escola, a Esni. Centraliza os serviços de inforttiações militares (Ciex no Exército. Cenimar na Marinha, Cisa na Aeronáutica, 2* seção do EMFA). os dos ministérios, Dops e Secretarias de Segurança esta­

duais. estatais [9.9]. Usa recortes de jornal e vasta rede de informantes (fala-se em 300 mil, entre eles Romeu Tuma). Ficha mais de 250 mil cidadãos em LDBs (Listas de Dados Biográficos) que ditam a atitude do regime ante ao fichado. Sem função repressiva direta, integra a máqui­ na de repressão. Seu chefe tem status de ministro (oficia­ lizado em 1/5/75), despacha todo dia com o presidente e é sempre general do Exército; Mediei substitui Golberi (67); seguem-se C. A. Fontoura (69), J. B. Rgueiredo (74) e Otávio Medeiros (78); 2 deles chegam à Presidência da República. ■ A Lei de Segurança Nacional tem raizes mais anti­ gas. Descende da Lei de Segurança de 4/4,'35. 1- lei especial a suprimir ga'antias processuais no julgamento de crimes políticos. É usada contra a ALN, endurecida em 14/12, após o levante de 35 [7.6] e aplicada aos adversários do Estado Novo, inclusive os integralistas, que a apóiam [7.7]. Com a demoaatização de 45, outra lei (5/1/53) confia á justiça comum o julgamento de atos contra 0 estado e a ordem político-social. Mas com o regime de 64, o Ato Institucional n’ 2 [9.3] remete todo crime político á Justiça Militar. A Lei de Segurança nacional (decreto-lei 314. 13/3/67) substitui a noção de crime contra a segurança do estado pela de crime con­ tra a segurança nacional, mais imprecisa e portanto mais abrangente (atinge greves e manifestações do pensa­ mento). A LSN endurece drasticamente em 20/3.'69. e 18/9, quando inclui as penas de morte (nunca aplicada), prisão perpétua (aplicada 2 vezes) e banimento [9.9). Outras alterações, no ocaso do regime (27/11/78. 14/12/83). a atenuam, enquanto cresce o clamor da OAB e outros por sua revogação. A intervenção militar em S. Domingos ■ A República Dominicana, com 48 mil km' (igual ao ES) e 4 mil habs. em 65 (como PE), ocupa metade da ilha Hispaniola, no Caribe. Após 8 anos (16-24) de ocu­ pação americana e 3 décadas de ditadura pró-EUA do gen R. Tnjjillo. seu filho e sucessor é deposto e a 1* eleição presidencial (62) elege o escritor oposicionista J. Bosch. Este. porém, é acusado de simpatia por Cuba e deposto por uma junta militar. A 25/5/65 ocorre o levante pró-Bosh na guarnição militar de San IsMro; os rebeldes constitucionalistas entram na capital, distribuem armas ao povo. criam milícias. A vitória parece iminente; ape­ nas a Marinha e a Aeronáutica resistem; a junta pede nova intervenção dos EUA. Estes desembarcam 400 ma­ rines (fuzileiros navais) e. na 10* reunião da OEA, fazem aprovar (6/5) a formação da Força Interamericana para intervir no pais. ■ A força de Intervenção é composta por 22 mil ho­ mens dos EUA. 1.450 do Brasil e <40 de outros países (Costa Rica, Honduras. Nicarágua, d. Paraguai). 0 co­ mando geral toca ao general brasileiro Hugo Panasco Alvim: o do coniingeme brasileiro ao general C. Meira Matos. Castelo nào tem dificuldades em votar na Câmara 0 envio de tropas ao Caribe (por 190 votos a 99), embo­ ra a missão não encontre paralelo na diplomacia anterior ou posterior do Brasil republicano. ■ A tropa brasileira participa da ocupação do palá­ cio do governo (2/6), vigilância e controle da população da Cidade Nova, escaramuças com os rebeldes (1516/6,19/8), contenção de protestos na posse do govemo provisório (3/9). repressão de greves e manifestações, dispersão de uma passeata estudantil pela retirada dos marines das escolas secundárias (set), ocupação da Cidade Nova (out), reduto dos rebeldes de Francisco Caamano (que prossegue a luta até ser morto pelo Exér­ cito em 73). A intervenção estrangeira obriga os rebeldes a negociarem, em condições desfavoráveis, um acordo de pacificação. A 1/&'66, eleições sob virtual controle es­ trangeiro são vencidas por J. Balaguer, ex-braço direito de Trujillo, empossado a 1/7 (fica 12 anos no poder). 0 contingente brasileiro retoma entre 31/8 e 20/9. Os EUA. contudo, mantém 12.500 marines no país.

Cronologia 25/6: Lei 2.550, de reforma eleitoral, institui a cédula única 14/7: Decreto cria o ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), que reúne a nata dos intelectuais nacionalistas 4/8: Morre Carmen Miranda, 46 anos, do coração, em Beverly Hills. Califórnia, EUA 16/9: Estoura em Córdoba o golpe militar que derruba Perón da Presidência da Argentina 16/9: Lacerda, na TV. acusa Goulart de visar a a uma república sindicalista; baseia-se na Carta Brandi (foqada) 3/10: Juscelino elege-se presidente com 3,1 milhões de votos;Juarez Távora, 2.6 milhões; Ademar, 2,2 milhões; Goulart vence para vice 3/10: Leonel Brizola elege-se prefeito de Porto Alegre. RS 21/10: Manifesto do PSD, PSR PRP, PTN e PST (com adesão do PTB, PSB e PDC) faz apelo pela ordem democrática 5/11: Boletim n° 12 do Movimento Militar Constitucíonalista denuncia perigo de golpe 9/11 ; Lacerda ameaça na Tribuna da Imprensa: "Esses homens não podem tomar posse" 9/11: Café Filfio se licencia por doença: Carlos Coimbra da Luz (PSD-MG). pres. da Câmara, assume a Presidência 11/11 : Golpe da legalidade: o gen. Lott, min. da Guerra, toma o RJ com 25 mil soldados para garantir a posse de Juscelino e Goulart 11/11: O Congresso declara Café Filho e Carlos Coimbra impedidos: Nereu Ramos, vice do Senado, assume a Presidência 25/11: Nereu Ramos, presidente em exercício, decreta o estado de sítio (que vigora até a posse de JK) 22/12: Fundação do Dieese (Depto. Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos) • Rio. 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, inicia-se o Cinema Novo • Saudosa Maloca e Samba do Arnesto, de Adoniran Barbosa (João Rubinato) • Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles • Lévi-Strauss publica Tristes Trópicos, calcado na sua experiência no Brasil (pela USP) em 34 1956 3/1 : JK parte em viagem ao exterior 7/1 : O TSE confirma a eleição de JK e Jango 31/1: Posse de JK; “Foi cumprida a vontade do povo", comenta Nereu Ramos: fim do estado de sítio 1/2: JK expõe ao Ministéno seu Plano de Metas (“50 anos em 5") e cria o Conselho de Desenvolvimento 11-29/2: Revolta de Jacareacanga; 2 oficiais da Aeronáutica desviam avião em ensaio de golpe 24-25/2: N. Knjschev denuncia Stalin em informe secreto ao 20* Congresso do PCUS 6/3: Anistia aos militares do 11/11/55 e 12/2/56 15/4: Cnada a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) 30-31/5: Rebelião estudantil-popular chefiada pela UNE contra o aumento do bonde; JK negocia com OS líderes uma solução 16/7: Nasser nacionaliza o Canal de Suez; guerra de Israel-França-Inglaterra com o Egito 18-24/7: Greve nacional dos aeroviários 21/7: Encontro de presidentes americanos, no Panamá: JK participa 7/9: Pelé estréia no Santos Futebol Clube 15/9: Começam as obras da hidrelétrica de Três Marias, no rio S. Francisco, MG 19/9: Lel 2.874 autoriza JK a transferir a capital para Brasília e cria a Novacap; a UDN se opõe 25/9: A peça Orfeu da Conceição lança a parceira musical Vinicius-Jobim 2/10: JK nomeia o min. da Agricultura, Mário Meneghetti, no enno cerrado onde será construída a nova capital

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9.3 GOVERNO CASTELO / REPRESSÃO II

Cronologia

ex-presidentes Jango, Juscelino e Jânio, 6 govema­ dores, 76 membros do Congresso Nacional (destes, os 40 1“ são expurgados do colégio eleitoral que escolhe Castelo. A repressão aposenta compulsoriamente ou põe em disponibilidade 49 membros do Judiciário; afas­ ta no total 10 mil funcionários civis e militares.

24/10; Levante anti-sovIético na Hungria 11/11: Sindicalistas presenteiam o gen. Lott com espada de ouro por sua postura no 11/11/55 23/11: JK manda fechar a Frente de Novembro, getulista. e o Clube da Lanterna, de direita; prisão domiciliar do gen. Juarez Távora por 48 h 2/12: Fidel Castro desembarca com 72 homens em Cuba e inicia a guerrilha de Sierra Maestra 14/12: O país compra o porta-aviões inglés. em 2® mão, Minas Gerais, Aeronáutk;a e Marinha disputam até 64 quem controla os aviões embarcados 17/12: O Brasil aceita, sob condições, base militar dos EUA em Fernando de Noronha • Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa • João Cabral de Melo Neto compõe o auto Morte

■ Castelo monta seu Ministério com as forças motri­ zes e auxiliares do golpe. Não consegue tirar Costa e Silva da pasta da Guerra, mas na da Marinha substitui o radical de direita A. Rademaker [9.8). 0 gen. Golberi, castelista, chefia o estratégico SNI (9.2]. Juarez Távora e Cordeiro de Farias, oficiais da reserva vindos do tenentismo [6.13] e com prestigio próprio, ocupam pas­ tas civis. A hegemonia militar atinge um nível nunca visto. Os partidos que apoiam o golpe estão modes­ tamente representados. 0 gov. Lacerda. GB, indica o min. da Saúde; Ademar, SP. o da Agricultura; Maga­ lhães, MG, 0 da Justiça. A área econômica [9.5] cabe aos tecnocratas Roberlo Campos (Planejamento) e Otá­ vio Gouveia de Bulhões (Fazenda), ligados aos EUA desde os anos 40 e monetaristas da escola de Eugèmo Gudin [7.11]. ■ As 1<* medidas revertem as refomnas de Goulart [8.13-15]: revogam as leis de nacionalização das refina­ rias de petróleo e desapropriação de terras para reforma agrária, mais tarde (29/8/64) a de remessa de lucros. Ao lado do combate à subversão e à corrupção, Castelo propõe-se uma modernização conservadora; não nega as reformas, redireciona-as; em vez das reformas de base. propõe as do Plano de Ação Econômica do Go­ verno (Paeg), nos moldes da Aliança para o Progresso dos EUA (13/3/61 ). A dupla Roberto Campos-Bulhôes faz um combate ortodoxo e frontal à inflação, an-ocho sa­ larial (expressão cunhada na época), supressão de con­ quistas trabalhistas (estabilidade no emprego). 0 polê­ mico Estatuto da Terra (30/11/64) prevê a desapropria­ ção de latifúndios com pagamento em títulos da divida pública [9.5]. 0 fluxo de empréstimos e investimentos estrangeiros é retomado e a dívida externa reescalonada com 0 aval do FMI [9.5], ■ A proposta inicial é de um regime de exceção tran­ sitório. Castelo diz que, se os militares tomam o poder pela força, nele pela força permanecem e dele a força sairão. No poder, propõe-se a "restaurar a legalidade; restabelecer a federação: eliminar o desenvolvimento do plano comunista de posse do poder; defender as institui­ ções militares que começam a ser destruídas; estabele­ cer a ordem para o advento de reformas legais". Consta que resiste à dilatação do mandato, que considera a es­ sência da ilegalidade; em privado, desabafa: "Não tenho vocação para ditador". ■ A linha dura militar resiste à transitoriedade em no­ me da “revolução irreversivel”. Seu reduto é a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais do Exército; seu líder, o gen. Costa e Silva. min. da Guerra. Força a cassação do ex-pres. JK [8,6); a pron'ogaçào do mandato de Caste­ lo, a continuidade das cassações após a data-limite (9/6/64) fixada no A l-l. JK é cassado em 8/6, o que dis­ tancia 0 PSD do bloco govemista e desperta reações nos EUA. A emenda n» 9 (22/7/64) estende o mandato de Castelo e a volta à normalidade de 20/1/66 para 15/3/67, a pretexto de garantir as reformas político-eco­ nômicas; frustrado, o presidenciável Lacerda se afasta do governo. 0 4 ' Exército (sob comando do gen. Lira Tavares [9.8]) prende 4 deps. estaduais do PSD-CE e impõe 0 reinicio das cassações através do AI-2 (27/10). Assim, a linha dura predomina em tudo e lança Costa e Silva como sucessor natural de Castelo [9.6]. 0 grupo castelista (Sorbonne [9.1 ]), vencido, mantém-se no con­ domínio do poder (voltará à presidência com Geisel [10.1]) e elabora (Golberi, Geisel) a teoria dos ciclos de sístoie (centralização) e diastole (descentralização) pa­ ra justificar a longevidade da ditadura. ■ A onda repressiva pós-64 apóla-se nos A l' 1 e 2. Visa no 1' momento as esquerdas, os partidários do govemo deposto, áreas militares contrárias ao golpe, militantes sindicais e estudantis, as ligas camponesas. A seguir, atinge também boa parte das bases civis do movimento de 64.

■ Acassação de mandatos e a suspensão de direitos políticos por 10 anos atingem 378 pessoas, inclusive os

■ Os IPMs (Inquéritos Policial-Militares), previstos no AI-1 (9-4), orientam a repressão. Ficam a cargo de qua­ dros das 3 Armas, Dops e polícias estaduais, em geral da linha dura. Devassam órgãos públicos federais, esta­ duais e municipais, empresas estatais e para estatais, sindicatos, entidades, igrejas. Seu número sobe a cen­ tenas; há 0 IPM do Trigo, o da Literatura Subversiva... 0 IPM do Partido Comunista (publicado em 3 vols. pela Biblioteca do Exército) indicia 889 pessoas, entre eles JK, interrogado durante dias pelo cel. Ferdinando Car­ valho. Maior ainda é o IPM da Associação dos Mari­ nheiros e Fuzileiros Navais [8.15]: 1.123 indiciados, 250 deles condenados a um total de 1.280 anos de prisão. ■ A repressão aos sindicatos (agitando o espectro da “república sindical"), não precisa irravar; usa a velha e sempre eficaz CLT do Estado Novo [7.5]. Já em 64, o Min. do Trabalho intervém em 3 das 7 confederações de trabalhadores, 43 das 107 federações e 452 dos 1.948 sindicatos urtianos. Isto significa 19% dos sindk^tos pe­ quenos, 38% dos médios e 70% dos grandes. Prisões golpeiam as principais entidades de SP. Tropas ocupam sedes sindicais no Rio. Os 17 líderes do CGT [8.14] são condenados no total a 184 anos de prisão. A lei de 1/7/64 impossibilita na prática a greve legal. ■ Os interventores são escolhidos entre as oposições sindicais anticomunistas pré-64 [6.15], como o MSD (Movimento Sindical Democrático) de Antonio Magaldi. Magaldi indica os interventores; Bemardino Testa no Sindicato dos Metalúrgicos de S. Paulo; Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão [26-97]. no de Guarulhos (em 65 passa para o de S. Paulo): Clemiltre Guedes da Silva, no de S. Bernardo. Ari Campista, na ativa desde 0 Estado Novo, assume em maio de 64 a CNTI (Con­ federação Nacional dos Trabalhadores na Indústria), de onde só sai em 10/12/83, por corrupção. Forma-se assim a geração de pelegos [7.5], que domina o sindrealismo até a 2* metade dos anos 70 [10/7]. ■ A UNE e a Ubes [7.9, 8.11] tèm sua sede no Rio sa­ queada e Incendiada em 1/4/64; seus lideres se exilam. 0 IPM da UNE ouve 750 pessoas. A 9/11/64 a Lei Suplicy (do nome do min. da Educação, Suplicy de La­ cerda) proíbe as entidades estudantis pré-64; no lugar dos Centros Acadêmicos, cria os DAs (Diretórios Aca­ dêmicos). que se agrupam em DCEs (Diretórios Centrais Estudantis) por universidade. DEEs, por estado, e um DNE (Diretório Nacional), que só pode se reunir nas férias. Os estudantes rejeitam a lei; algumas con-entes (AR PCdoB) mantém os CAs (Centros Acadêmicos) livres, outras (PCB) atuam nos DAs; mas todas partici­ pam do clandestino 27* congresso (8. Paulo, julho/65), que reorganiza a UNE; apenas o RS cria um DEE. Em 66 a Ubes se rearticula. Mesmo perseguidas, as enti­ dades atuam abertamente. ■ A repressão à Intelectualidade é intensa. Em 1/4/64 metralha as Faculdades de Filosofia da UFRJ e USR Demite centenas de professores universitários, entre eles 0 arquiteto Oscar Niemeyer. o sociólogo Josué de Castro. 0 economista Celso Furtado, os educadores Anísio Teixeira e Paulo Freire; a Universidade de Bra­ sília, a mais atingida, invadida pela PM em 18/10/65, perde 210 professores. Samuel Wainer [8.3] se exila e 1.500 jornalistas são demitidos. Herivelto Martins, Mário Lago. Jorge Goulart. Wanda Lacerda, Dias Gomes. Nora Ney, Oduvaldo Viana, Paulo Gracindo e Jorge Veiga são alguns dos artistas perseguidos. ■ A tortura de presos políticos faz suas 1“ vítimas, al­ gumas fatais. Mas só se converterá em sistema na 2* e mais feroz onda repressiva, pós-AI-5 [9.9).

e Vida Severina • Elvls Presley inicia a era do rock com Heartbreak Hotel

1957 12/1: Cientistas da USP confirmam existência de urânio em Águas da Prata, SP 14/1: Tropas brasileiras seguem para Suez, onde integram Batalhão da ONU 1/2: Inaugurada a rodovia Rio-Bsio Horizonte 16/2: Jânio Quadros, gov. de SP, proíbe o rock and roll em bailes 28/2: Criada a Companhia de Furnas, com participação decisiva da Light Fevereiro; Início, febril, das obras de Brasília 23/3: Éder Jofre estréia no boxe profissional 25/3: Tratado de Roma; 6 países criam a Comunidade Econômica Européia Março: Júri com Niemeyer à frente escolhe o projeto urbanístico de Lúcio Costa para Brasília Março: Reforma gráfica e editorial no Jomal do Brasil 3/5: Rezada a 1* missa de Brasília Maio: 0 gen. Lott põe tanques nas estradas contra a Marcha da Produção, planejada pelos cafeicultores 7/6: Chega ao Brasil Craveiro Lopes, pres. de Portugal, sob protestos dos anti-salazaristas 7/7: 1“ jogo de Pelé pela Seleção Brasileira 22-30/7: Greve dos metalúrgicos do RJ 1/10: Fixada a data da mudança da capital: 21/4/61 4/10: A URSS lança em órbita o 1’ satélite artificial, o Sputnik 15-25/10: 400 mil grevistas de 6 categorias conquistam aumento salarial de 25% em SP 10/11: Criada a Comissão Nacional de Energia Nuclear

28/12: Deixa de circular o jornal A Noite, no RJ 31/12: 0 arw fecha com détk^ de US$ 286 milhões no balanço de pagamentos • Surgem no país os 1" supermercados • Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna • Educação Não É Privilégio, de Anfsio Teixeira 1958

19/1: Morre o Marechal Rondon 21-28/1: Greve nacional dos marítimos 21/1-13/3: Greve dos têxteis de Recife, PE 25/1: A USP Instala o 1’ reator nuclear da América Latina 29/1: Início das obras da refinaria Duque de Caxias, RJ 22/2; Estréia no Teatro de Arena, SP, Eles Não Usam Black-tie. de Gianfrancesco Guarnieri 13/3: Greve gerai no Recife

16/3: Missão do FMI chega ao RJ e estabelece condições para empréstimo pedido por JK 29/3: Brasil e Bolívia assinam a Ata de Roboré, sobre exploração de petróleo Março: Declaração de março do PCB propõe "caminho pacífico para a revolução brasileira" 17/4: JK visita o CE castigado pela seca; lei de socorro aos flagelados 20/4: inaugurado o açudo do Araras, CE

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Cronologia

9.4 ELEIÇÕES DE 65 / ARENA E MDB I CONSTITUIÇÃO DE 67 ■ A eleição de 3/10/65 para os governos de 11 estados 6 0 1® grande teste de prestigio do novo regime. Com a Emenda Constitucional n® 9 (22/7/64), Castelo tem o mandato prorrogado por 14 meses, o que evita o teste mais decisivo de eleições para presidente. Mas, meses depois (22/3/65), 0 brig. Faria üma elege-se prefeito de S. Paulo com apoio do cassado Jânio Quadros, o que afronta a liniia dura. A campanha de 65 ocorre sob ameaça de setores militares que vetam candidatos, condicionam o acatamento dos resultados ou simples­ mente acham que não deve haver eleição. A Uder (Liga Democrática Radical), organização de direita recém-fundada, porta-voz da linha dura, fala em guerra civil no caso do retomo de elementos do regime deposto. Já os líderes civis do golpe se afastam de Castelo (Lacerda, às claras, Magalhães Pinto, discretamente). ■ A disputa eleitoral gira em torno de 64 e também da eleição presidencial, direta, prevista para 66. 0 PSD, afastado do govemo federal pela 1^ vez desde 45 e com seu principal expoente cassado, busca coligações com o PTB e outros para enfrentar a UDN, tida como legenda do regime. Na GB, lança Negrão de Lima, ex-ministro de Dutra e JK; em MG, Sebastião Pais de Aimeida, outro ex-ministro de JK. A linha dura julga a candidatura Pais de Almeida “uma afronta à revolução”; líderes da UDNMG logram impugná-la com base na lei de inelegibilidades da 9/7; o PSD lança então Israel Pinheiro. ■ 0 resultado favorece a UDN no PR, PA, MA, GO e PB. Em AL nenhum candidato tem maioria absoluta, con­ dição exigida pelas regras pós-64, e o govemo federal nomeia interventor o gen. Batista Tubino. Mas a oposição vence em SC, RN e MT e em especial na GB e MG. que têm população, peso económico e político superiores à soma dos outros 9 estados em disputa. ■ A crise se precipita. Em 4/10. o povo do Rio recebe com festa a volta de JK do exilio na França. Em 5/5, ofi­ ciais ligados ao gen. Albuquerque Lima [9.8], de pronti­ dão, falam em queimar os votos; desistem por interferên­ cia pessoal do min. Costa e Silva. Em 6/10 Castelo e os ministros militares debatem medidas para apaziguar a linha dura; Milton Campos, min. da Justiça, diverge e demile-se (7/10). Em 8/10 Lacerda, na TV, retira sua can­ didatura presidencial e responsabiliza Castelo, "este ser feio por lora e horrível por dentro", pela derrota da UDN na GB. Juraci Magalhães [7.1], o novo min. da Justiça, nâo obtém um acordo que faça o Congresso votar as medidas de fechamento, A linha dura faz um ultimato: ou Castelo veta os governadores da GB e MG ou sai da Presidência. Em longa negociação, o regime a fórmula doAI-2. ■ Castelo baixa o Ato Institucional N» 2 (27/10), unilateralmente, como chefe do governo revolucionário e co­ mandante supremo das Forças Annadas. em nome do poder constituinte intrínseco que atribui à Revolução. 0 ato torna indireta a eleição presidencial: extingue todos os partidos; ratoma as cassações e suspensões de direi­ tos políticos; eleva de 11 para 16 as vagas no STF (garan­ tindo maioria govemista num órgão acusado de exces­ siva auionomia): transfere para a Justiça Militar o julga­ mento de civis com base na Lei de Segurança; e alarga os poderes do presidente, permitindo-lhe emitir atos com­ plementares e baixar decretos-leis, impor o estado de si­ tio e intervir nos estados sem ouvir o Congresso, ou mesmo colocar este em recesso. ■ A Arena e o MDB nascem do AI-2. 0 Ato Comple­ mentar n* 4 (20/11) fixa as exigências para a formação de partidos, com o objetivo de só pennitir 2 legendas. A Arena (Aliança Renovadora Nacional) aglutina parla­ mentares conservadores (sobretudo da UDN e do PSD); tem folgada maioria na Câmara e Senado. 0 MDB (Movimento Domocrático Brasileiro) reúne sobretudo ex-integrantes do PSD e PTB. Cabe-lhe o papel de oposição responsável, que interessa ao regime para criar uma imagem de normalidade. Num clima de cas­ sações. tutela militar e inlimidação, por pouco não

atinge a cota exigida, de 120 deputados e 20 senado­ res. Alcança-a graças a Castelo, que estimula alguns parlamentares a integrarem a agremiação, enquanto se empenha pessoalmente na formação da Arena e afasta alguns oficiais da linha dura. 0 antigo leque partidário formado em 45 [8.2] se desmancha sem maiores resistências.

15/5: Criada a Rodobrás, com Bernardo 3aiâo à trente, para (azer a rodovia Belém-Brasília

■ 0 AI-3 (5/2/66) fixa o calendário eleitoral e elimina as eleições diretas também para governador. No RS. onde a Assembléia tem maioria do MDB e a Arena está dividida. 4 cassações e uma norma de fidelidade partidária garan­ tem a escolha do agrado do regime. Todos os 12 gover­ nadores indicados a 3Í9 pertencem à Arena. Em 15.'11 há eleições parlamentares nacionais e o partido govemista expande sua hegemonia; faz 18 dos 22 senadores, 277 dos 409 deputados federais e 731 dos 1.076 estaduais (tem maioria em todas as Assembléias exceto as do RS. GBeRJ).

29/8: Inaugurado em Brasilia o palácio da Alvorada

■ A sucessão presidencial é decidida pelos generais. A linha dura, fortalecida após o AI-2, sustenta o nome do gen. Costa e Silva [9.1-5-8]. Castelo reluta, mas seu grupo nâo teme pôr em risco a unidade das Forças Armadas. Opta por um compromisso, que inclui a ofi­ cialização da candidatura pela Arena, a renúncia a novos atos institucionais e a revogação dos já emitidos. Costa e Silva concorda. A convenção da Arena (26/5) homologa a candidatura Costa e Silva por 329 votos em 361; 0 vice é o ex-dep. da UDN e min. da Educação Pedro Aleixo [6.8]. ■ A Constituição de 67 tenta instinjcionalizar e conso­ lidar 0 regime de 64, pondo fim ao estado de inconstitucionalidade mais ou menos aberta criado pelos atos institucionais. Não se cogita a convocação de uma constituinte, bandeira da oposi^o e de alguns dis­ sidentes do sistema. 0 anteprojeto da nova Carta é obra de 4 juristas, reelaborada pelo min. da Justiça Car­ los Medeiros Silva, que recebe e às vezes acata pro­ postas de parlamentares arenistas coordenadas pelo sen. Filinto Múlier [7.9]. A 7/12 o AI-4 (que pretende ser 0 último dos atos institucionais) convoca extraordina­ riamente 0 Congresso, durante o recesso de fim de ano. para homologar a nova Carta em 33 dias (de 12/12 a 24/1/67). A comissão constitucional, com 11 deputados e 11 senadores, examina o texto e dá seu parecer em 7 dias. 0 plenário primeiro aprova o projeto em globo e só depois apresenta emendas, em 5 dias, e as debate, em 12. Ainda assim surgem 1.681 propostas de emenda. 274 delas aprovadas no todo ou em parte, inclusive algumas da oposição. 0 texto final é votado em 21/1 e promulgado em 24/1, estritamente dentro do calendário ditado pelo Al-4. ■ 0 novo texto incorpora as inovações autoritárias dos atos institucionais: eleição indireta (com voto a desco­ berto) do presidente pelo Congresso e dos governa­ dores pelas Assembléias estaduais: os governadores nomeiam os prefeitos das capitais. Só o Executivo pos­ sui iniciativa legislativa no que toca à segurança nacio­ nal e finanças públicas: cabe ao Congresso votar os projetos, mas nâo emendá-los. Os decretos-leis têm 60 dias para tramitar no Legislativo (ou 45 dias, quando urgentes); vencido o limite, são considerados aprova­ dos por decurso de prazo. A Cana incorpora a doutrina de segurança nacional [9.2], com o Conselho de Segu­ rança Nacional como instância máxima. Mantém as restrições dos Al* 1 e 2 às liberdades políticas e indivi­ duais, mas garante os direitos de reunião, associação, expressão, habeas corpus e a imunidade parlamentar, vedando as cassações sumárias. Extingue a autonomia econômica e tributária dos estados e municípios. ■ A "Carta Liberticida” (segundo o MDB, que passa a defender sua refonr.a) vive menos de 2 anos. 0 AI-5 a revoga na prática em 13/12/68 [9.5); e a Emenda Cons­ titucional n' 1 a substitui em 17/10/67 [9.8). Mas é sob sua vigência que o mal. Castelo passa a Presidência ao gen. Costa e Silva em 15067.

25/6: Lucas Lopes. min. da Fazenda; Roberto Campos preside o BNDE (nacionalistas o apelidam Bob Fields) 29/6: A seleção brasileira vence a Suécia por 5 a 2 e ganha a Copa do Mundo de Futebol; Pelé, Garrincha e Didi. heróis nacionais Agosto: Foster Dulles, seer, de Estado dos EUA, visita o Brasil sob protestos da UNE 10/9: A Confederação Nacional da Indústria condecora JK com medalha do mérito industrial 3/10: Eleições; no Congresso, mantêm-se as posições; Carvalho Pinto vence Adhemar em SP; Brizola tem 55% dos votos no RS 21/11: Inaugurada a fábrica da Ford era São Bernardo, SP: JK comparece 18/12: O Diário de Noticias é enquadrado na Lei de Defesa do Estado por divulgar carta de brigadeiros contra o gen. Lott 23-25/12: Greve nos transportes coletivos de SP • Forte seca no Nordeste (CE, PB, RN); 536 mil alistados nas frentes de trabalho; êxodo para SP • A Volkswagen de São Bernardo, SP. começa a produção do Fusca (Sedan 1.200) • Com Canção do Amor Demais e Chega de Saudade. João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Morais iançam a Bossa Nova • Jorge Amado publica Gabriela. Cravo e Canela • Raimundo Faoro publica Os Donos do Poder • Maria Esther Bueno vence o torneio de tênis de Wimbledon 1959 1/1: Rebeldes de Fidel Castro tomam Havana; vitória da Revolução Cubana 8/1: De Gaulle elege-se presidente da França 4/2: O Brasil leva pela 1= vez o Mundial de Basquete Fevereiro: Lançado o semanário Novos Rumos, órgão oficioso do PCB. vendido nas bancas 20/4: Castilho Cabral funda, na ABI. RJ. o Movimento Popular Jânio Quadros 1’ de iWaio: O PTB aprova a chapa presidencial Lott-Jango 12/5: Fundação do Sindicato dos Metalúrgicos de Sâo Bernardo, SP 21/5: Demolida a favela da Catacumba, RJ 21-22/5: Greve dos empregados e grande quebra-quebra nas barcas Rio-NIterói; 1 estudante e 1 soldado mortos. 112 feridos 26/S: JK p ro p õ o a Eisenhower programa de desenvolvimento a longo prazo no continente Maio: Fidel Castro visita o Brasil Maio: Brizola encampa, por Cr$ 1,00, a empresa elétnca do RS, da Amforp, amencana 4/6: Lançada a candidatura Lott, na ABI. RJ 28/6: Discurso de JK no Clube Militar marca rompimento do Brasil com o FMI em nome da soberania nacional 22/8: Lucas Lopes e Roberto Campos caem do Min. da Fazenda e BNDE: assumem Pais de Almeida e Lúcio Melra 25/9: Kruschev viaja aos EUA 3/10: Na eleição municipal em São Paulo o rinoceronte Cacareco recebe 100 mil votos 8/11: A UDN lança Jânio para presidente 17/11: Morre Vllla-Lobos 18/11: A Orquestra Sinfônica homenageia o maestro Vilia-Lobos, morto no RJ aos 72 anos 25/11: Jânio ensaia renúncia à sua candidalura 3-6/12: Tentativa golpista de 13 oficiais em Aragarças. GO; 1“ seqüestro de avião no país 12/12: 0 PSD assume a candidatura de Lott 15/12: JK sanciona a lei que cria a Sudene 15-31/12: Greve na constnjção civil de SP

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9.5 p o lít ic a e c o n o m ic a I QUESTÃO AGRARIA

Cronologia

Tuthil, “em quase todos os gabinetes brasileiros envolvi­ dos em decisões impopulares sobre impostos, salários ou preços, havia também a indefectível presença de um assessor amencano’ .

• Mais de 30 mil candangos trabalham na constnjção de Brasilia • Celso Furtado publica Formação Econômica do Brasil • História da Literatura Brasileira, de Antonio Cândido • Clóvls Moura publica Rebeliões nas Senzalas • A Revolução na América Latina, peça de Augusto Boal • O Homem do Sputnik, chanchada da Atlântida com Oscarito e a estreante Norma Benguel • A Invictus fabrica o 1’ rádio transistor brasileiro

■ Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, nas pastas do Planejamento e Fazenda, chefiam a equipe econômica de Castelo. Campos [1917-], ex-seminarista e diplomata fomiado em economica nos EUA, integrante da Conferência de Bretton Woods que criou o FMI, é o mais célebre e polêmico potia-voz do liberalismo desde o conflito com o Fundo que deraibou-o da presidência do BNOE em 59 ’8,8]. Bulhões [1906-90j, também presente em Bretton Woods e na ti/lissão Abbink de 49, na direção da Sumoc em 54-62, é com E. Gudin o autor da Instrução 113 [8.7-8]. Os 2 representam a opção por uma linha monetarista ortodoxa. A equipe inclui ainda muitos membros do lpes-GB;8,151. ■ 0 programa de estabilização guia-se pelo Paeg (Pla­ no de Ação Econômica do Govemo, 13/8/64, 240 pgs.). Vê no "crônico e violento processo inflacionário" o inimigo n - 1, causado por excesso de demanda e crédito, déficits públicos, aumentos artificiais de salários. Sem aderir de todo à opção ainda mais drástica do FMI, fixa um projeto “quase ortodoxo" de austeridade: combate radical ao déficit público; política de lucratividade das estatais, con­ trolando gastos e elevando preços; câmbio realista, com agressivas desvalorizações do caizeiro (5 em 64); corte de subsídios, gerando “encarecimento con-etivo” do pão 6 transporte público. ■ A indexação (correção monetária), apenas mencio­ nada no Paeg, nasce com a Lei 4357 (17/7/64), que cria as ORTNs (Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacio­ nal), apesar da ortodoxia de seus autores e da oposição do FMI. Com a Lei 4728 (jul/65), estende-se a lodo o mercado de capitais, instituindo um mecanismo que per­ mite conviver com uma inflação elevada, mas ao preço de realimentá-la. ■ A política de arrocho salarial vê nos salários uma fonte de inflação. 0 governo adota uma fórmula de engessamento salarial, primeiro no setor público e d. a9a'65 também no privado; reajustes só a cada 12 meses, com base no valor real médio dos últimos 24 meses, na pro­ dutividade e na expectativa da inflação nos próximos 12 meses. Esta é arbitrada pelo govemo sempre aquém da realidade: o salário mínimo tem reajuste de 57,1% em 65 (Rio e SP) para uma inflação de 72,4% nos 12 meses anteriores; o reajuste de 66 é de 27,3%, a inflação. 32,9%. A nova fórmula vigora, com mudanças menores, até 79(10.7], ■ 0 custo político do Paeg é alto; segundo Campos (em 69), nenhum governo eleito poderia aplicá-lo. La­ cerda diz (17/5/65) que “ou se acaba com esse 'plano' ou esse 'plano' acaba com a revolução”. 0 sen. José Emiírio combate-o em nome do capital produtivo. 0 sindicalismo remanescente, inclusive pelegos e inter­ ventores, reage criando o MA (Movimento Antiarrocho), incipiente tentativa de rearticulação pós-64. A insatisfa­ ção ajuda a derrotar o govemo nas eleições de 65 (9.4) e preparar o surto oposicionista de 68 [9.6-7]. Mas o regime, apoiado nos quartéis, na repressão e num Con­ gresso expurgado, leva o reajuste até o fim e sem maiores concessões. ■ Na área externa a equipe econômica satisfaz os re­ clamos dos credores, investidores e governos estran­ geiros. com os EUA à frente: revoga a Lei de Remessas de Lucros [8.141; aprova as condições de pagamento das filiais da Amforp; abre a capitais de fora a explo­ ração de minérios; firma acordo com os EUA garantindo Inversões estrangeiras contra desapropriações. Em contrapartida, obtém um programa de empréstimo de US$ 50 milhões dos EUA ()un/64), o reescalonamento da divida externa junto ao Clube de Haia (jul/64) e aos bancos privados dos EUA (out) e um crédito de USS 125 milhões do FMI. A Usaid (órgão do govemo dos EUA) torna-se o principal financiador externo do pais (USS 488 milhões em 64-67); a liberação dos recursos é rápi­ da e não vinculada a projetos específicos: a contraparti­ da é o monitoramento, via relatórios trimestrais e direta­ mente. Segundo o embaixador dos EUA (d. 66), John

■ 0 resultado do programa de austeridade é o aumen­ to da arrecadação federal (7,8% do PIB em 63,11,1% em 66) e a drástica redução do défícit público (4,2% do PIB em 63,1,1% em 66). Já a inflação ainda em 66 fica em 38,3%, muito além da meta de 10%. A estagnação do PIB percapila se mantém até o fim do govemo, com a indijsIria chegando a ter um desempenho negativo de 4,7% em 65. Mas a política salarial, os aportes de créditos e in­ vestimentos estrangeiros liberam os recursos que finan­ ciam. em seguida, a fase de rápido crescimento conheci­ da como milagre econômico [9.10]. ■ A política fundiária de Castelo adota a linha de Punta dei Este: “Impulsionar programas de reforma agrária integral, modificação dos injustos sistemas de posse e uso da terra, a fim de substituir o regime de latifúndios e minifijndios”. Fomentada pelos EUA de Kennedy, esta gera vários ensaios de retomba agrária sob égide conser­ vadora e em resposta às pressões dos movimentos de massas no campo (Venezuela. Costa Rica, Colômbia, Chile, Guatemala, Panamá, Rep. Dominicana, Nicará­ gua, Peru, Equador). ■ Com o Estatuto da Terra (Lei 4.504), Castelo assume a bandeira que foi de Goulart e do movimento reformista pré-64; a revogação do Art. 141 da Constituição, permi­ tindo pagar as terras desapropriadas em títulos da dívida pública e não em dinheiro. Classifica os imóveis rurais em 4 tipos: 0 minifijndio, com área insuficiente, sem acesso a créditos e ã mecanização; o latifúndio, por exploração (improdutivos) ou por extensão, também visto como uma “distorção fundiária’ ; e a empresa rural, que. indepen­ dente de sua área, aplica capitais, créditos e tecnologia avançada na produção agricola. Propõe-se restringir e no limite eliminar o laHfúndio e o minifúndio através de desa­ propriações. mecanismos fiscais e creditícios, enquanto incentiva a empresa rural. ■ 0 projeto do Estatuto gera resistências de entidades mralistas, do pres. da UDN. Bilac Pinto e governadores (Magalhães Pinto. Lacerda. Adhemar); fala-se até em uma marcha sobre Brasília. Mas em geral as forças con­ servadoras apoiam as medidas, que combateram sem trégua sob Goulart. A Emenda Constitucional n'’ 10 pas­ sa no Congresso em 9/11/64 (por 273 votos a 35); a Lei 4.504, em 30/11. Desaparecem assim (até a Constituinte de 88 jl 1.8: os principais obstáculos jurídicos ã reforma agrária no país. 0 Al-9 (25/4/69) facilita ainda mais a desaprofjriaçâo. ao refirar da Constituição a exigência de indenização prévia. ■ 0 Ibra (Instituto Brasileiro de Refomia Agrária), criado pela Lei 4.504, cadastra em 67 os imóveis rurais: o lati­ fúndio por exploração soma 21,8% dos imóveis e 76.5% da área ocupada; o lafifúndio por extensão, 0.01% dos imóveis e 6,4% da área; o minifúndio, 75,8% dos imóveis e 12,5% da área; a empresa airal, 2,4% dos imóveis e 4,6% da área. ■ A prática da reforma agrária não justifica os temores iniciais dos críticos do Estatuto da Tenra: entre 65-81 o governo federal baixa apenas 124 decretos desapro­ priando terras. 0 movimento de trabalhadores rurais, parte mais diretamente interessada, duramente atingido em 64 [9.3!, só se recupera 2 décadas depois '10.13. 11.5]. Já os grandes proprietários fundiários são um es­ teio social e político indispensável ao regime. Os EUA. d. 67 (e por razões da mesma ordem) deixam de fomentar ’ a reforma agrária na América Latina. No mesmo ano, o regime brasileiro desloca sua ênfase para a moderniza­ ção (“revolução tecnológíca'1 da agricultura e, na área fundiária, para a colonização. 0 Ibra, ligado diretamente á Presidência; em 71 dá lugar ao Incra (Instituto Nacio­ nal de Colonização e Reforma Agrária), subordinado ao Min. da Agricultura. A concentração de terras perdura e se agrava [12.4],

1960 1/1: Lançamento do jomal Folha de S. Paulo, que substitui a Folha da Manhã 29/1: Eisenhower, pres. dos EUA, visita Brasilia; recebido com festa por JK e protestos pela UNE 2/2: JK promove a Caravana de Integração Nacional; carros vindos do RS, PA, filT, RJ, encontram-se em Brasília 20/4: Jânio é lançado presidente 21/4: Inauguração de Brasília (141 mil hab,); transferência da capital; criado o estado da GB 21/4: Começa a circular o jornal Correio Brasiliense, DF 21/5: O embaixador nos EUA, Walter Moreira Salles, retoma a relação do Brasil com o FMI e obtém empréstimo de USS 47 milhões 14/7: Assalto ao trem pagador; o bando de Tiâo Medonho leva CrS 27 milhões mas é preso, RJ 22/7: Ressurge o Ministério da Indústria e Comércio e surge o das Minas e Energia A gosto: 5’ Congresso do PCB na sede da ABI, RJ; apóia a linha de Kruschev 1/9: 0 7» Censo conta 70.070.457 hab.; 54,9% vivem no campo 5/9: Criada em Bagdá a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) 3/10: Jânio eleito presidente, com 48% dos votos úteis para 32% de Lott e 20% de Adhemar; Goulart é o vice, com 4,5 milhões de votos 3/10: Eleição de 11 govs. de ostado; Lacerda vonce na GB. Magalhães Pinto derrota Tancredo em MG Outubro: Ziraldo lança Perorê. 1' revista brasileira em quadrinhos; dura até abril de 1964 e chega a 120 mil exemplares 9/11: John Kennedy elege-se presidente dos EUA 10/11-1/12: Reunião dos 81 PCs em Moscou expõe as fraturas no movimento comunista 14-21/11: Greve da Paridade (com os soidos militares) de ferroviários, portuários e marítimos, nacional; o Exército intervém; diversas prisões 18/11: Éder Jofro nocautela o mexicano Eloy Sanchez e é campeão mundial dos pesos-galos 23/11: O Congresso aprova a Lei da Paridade Dezembro: Brizola cria no RS a empresa Mista Aços Finos Piratini • PKnio Conrela de Oliveira funda a TFP (Sociedade em Defesa da Tradição, Famflia e Propriedade) • 1 ' vol. da História da Civilização Brasileira, organizada por Sérgio Buarque de Holanda • Clarice Lispector publica Laços de Familia • Vào ao ar em Brasília as TVs Alvorada (Rede Record) o Brasília (Diários Associados) • O TBC encena e Flávio Rangel dirige O Pagador do Promessas, do Dias Gomes • Carolina de Jesus publica Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, editado em 17 palses • J. P. Sartre e Simone de Beauvoir visitam o Brasil • Ataulfo Alves compõe Õ Mulata Assanhada 1961 17/1: Morre na prisão (assassinado?) o líder da Independência do Zaire, Patrice Lumumba 20/1: John Kennedy toma posse nos EUA 31/1: Posse de Jânio Quadros 31/1: Clemente Mariani, monetarista, na Fazenda; abertura cambial; desvalorização do cruzeiro; corte de subsídios<