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Ăşltimas confissĂľes

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Sentenciar teu fim não cabe a mim bola de neve, não para de aumentar nunca fui poeta, pouco vi o mar. Lobo da estepe, qualquer hora a morte vai te encontrar, vai.. conto / fotos / e / diagramação_andré j. schmidt janeiro / 2014

Quando se entra num bar na Leal e Valerosa Ci-

dade de Porto Alegre na época de férias, vazia, quase inabitada, não há como prever o que se vai encontrar. Na ocasião que aqui relato, qualquer pessoa, mesmo não querendo ter olhares detalhistas, automaticamente faria uma varredura intrínseca do local. Não era um lugar muito grande, nem atraente. Tinha de certo modo “seu espaço”, mas não era nada que despertasse a curiosidade. Quem se encarregava disso eram os integrantes da cena naquela noite. No fundo, próximo a uma grande janela horizontal, sentava um homem negro, de cabelo raspado, com seus 34, 35 anos. Estava sozinho. Não parecia uma pessoa de muitos amigos. Mastigava vagarosamente os petiscos que jogava em pequenas proporções à boca. Vestia um traje esporte: jeans, camiseta e tênis. Sua atenção era restrita à parede que ficava do outro lado do estabelecimento, onde na TV passava um show da Maria Rita. Lembrava o típico homem que trabalha arduamente a semana inteira e só encontra no bar um lugar sossegado pra tomar sua cerveja e pensar na vida, sem a presença da mulher e filhos. Um tempo para si.


Mais à frente, outro homem, branco, consideravelmente gordo, de estatura mediana. Era perceptível a calvície em estágio avançado predominando no cume de sua cabeça. Vestia traje social. A clássica camisa branca atravessada por estreitas listras escuras e mangas dobradas até o antebraço. Junto dele estava um rapaz que não chamou a atenção. Talvez pelo estilo parecido com seu companheiro, ou por simples descuido meu. A dupla parecia recém-saída do escritório e improvisava um happy hour a dois, já que o resto do pessoal devia estar na praia. Conversavam sobre algo que parecia importante, de interesse mútuo. Seus semblantes estavam alterados, como quem presta muita atenção no assunto. O obeso gesticulava ininterruptamente com as mãos, fazia malabarismo com pinos invisíveis. À frente dele ficava o balcão de atendimento. Tradicional bancada de mármore. Nada grandioso, mas que já dava uma melhor impressão ao lugar, com bancos giratórios a sua volta. Em um dos bancos sentava um homem de meia idade, olhos claros, sem nenhum fio de cabelo na cabeça e com um tapa-olho no olho esquerdo. Foi o primeiro a chamar minha atenção. Olhar para ele logo inclinava a perguntas com impossíveis respostas dedutivas. O que ele fazia ali? Seria um excombatente de guerra? Ou teria se descuidado do prego que martelava? Quando passei por ele, vi escrito em sua camiseta: “CINQUENTÃO? QUEM? EU?” no canto superior direito, e completando a frente da blusa branca, cinco fotos. Da infância até o estado atual. Uma por década. Sim, eram dele. O rosto era inconfundível, mesmo sem o acessório da face. Aliás, em nenhuma das fotos ele usava-o. Será que o tal ocorrido foi há pouco tempo? Usava ele um olho de vidro para parecer mais sociável? Um cidadão instigante.


Ao lado direito, um casal jovem. Jovem, no caso, designa: pessoa de mais de 28 anos, mas não ainda nos 40. Via-se a simpatia que o rapaz tentava transparecer, e a animação, “não na mesma intensidade”, da participante feminina. Parecia algo como: a incansável tentativa de seduzi-la, e com a mesma satisfazer todos os desejos ninfomaníacos existentes em sua mente. A resposta já se mostrava evidente na face da moça, de que não tinha as mesmas ideias e muito menos as expectativas que ele tinha dela. Isso se evidenciava no olhar sorrateiro, quase tímido, que ela lançava, junto de um sorriso que não parecia muito sincero. Não era forçado, mas contido. Se a cena fosse retratada em quadrinhos, o balão de pensamento dela seria: “Não posso fazer com que esse cara pense que quero algo com ele. Mas também não devo ser deselegante, afinal, parece ser bem de vida. Poderá ser útil algum dia. Talvez pra uma carona em um dia de chuva”.


Sentado mais adiante, seguindo o formato semicírculo do balcão, estava eu. Ocupava o último banco, ao lado da parede. O garçom que me atendeu era moreno, alto, parecia não estar de uniforme, porém vestia-se inteiramente de preto. Era gay, isso ele deixava explícito, sem sombra de dúvidas. Mesmo não querendo ser escachado, demonstrava. E para maior certeza, não tinha atitude alguma de quem quisesse convencer alguém do contrário. Nunca tive nada contra os tais. Como estava fazendo certo “detalhamento” de cada ser que habitava o recinto por meio de uma observação rápida, isso foi perceptível e não haveria mal algum em pensar isso, não é?

CHEGA! Qual era a explicação pra tudo aquilo? O que quero dizer é: qual a lógica, teoria, objetivo de entra num bar e se acometer em detalhar as pessoas que estavam ali? Meu medo não era de tornar-me louco, mas acabar perdendo tempo com algo que não me levaria a lugar algum. E no momento, era exatamente isso. Sexta-feira, 22 horas. Estou sentado sozinho, apenas com uma dose de whisky como companheira. Já estava na sétima ou oitava companheira daquela noite. De ímpeto, resolvo deixar o lugar. Quando levantei, o “velhinho com o cajado” do whisky acertou minha cabeça. Ações bruscas não eram propícias.


A noite abafada havia dado lugar a uma chuva torrencial que parecia sem fim. Não seria ruim aceitar gentilmente os pingos pesados de água, mas ainda era cedo pra ficar encharcado e encerrar a noite. Saindo dali, o rumo a seguir era incerto. Aderi à filosofia popular de usar um jornal dobrado como proteção, pelo menos pra cabeça. Por sorte, ou destino, fosse o que fosse, o periódico do dia estava em cima do balcão. Há essa hora, poucos se interessariam em ler as velhas notícias. Quando me aproximei, li na contra capa a manchete: “Calor intenso e tempo sem chuvas até segunda-feira”. Peguei-o e saí rápido, como quem fugia de sua sombra. Relutante, avistei a placa de saída que ficava acima da porta. FUGIA DE QUÊ? Nada poderia ser mais confuso. De todos falava como se conhecesse há tempos, mas de mim mal sabia. E o que mais me instigava: se outros faziam o mesmo que eu, o que pensavam a meu respeito? Não sabia o que pensar, nem quais conclusões tirar. A passos largos fui seguindo, a caminho de lugar nenhum. Quadras logo se passaram. Já não tinha noção do que acontecia à minha volta e de imediato parei. Ainda confuso sobre o porquê de pensar assim, vi uma luz que se aproximava. Não era uma luz que vinha clarear meus pensamentos, nem uma luz que pedia que fosse ao seu encontro. Eram duas luzes, dois faróis de uma LAND ROVER que me acertou em cheio nas costelas. O impacto fez com que girasse em meu eixo e caísse a metros dali. Acho que foi esse o movimento, não pude ver do ângulo mais claro.


Quando abri os olhos, o carro estava parado em um poste, com os limpadores de vidro ligados. Duas crianças em seu interior, grudadas ao vidro, me fitavam com olhos arregalados. Ouvi uma voz longínqua que falava ao léu agoniada: “– O QUE EU FIZ? O QUE EU FIZ? OH DEUS!”. Consegui virar o rosto e ver a mulher que andava de um lado para o outro, com as mãos na cabeça, sem ter a quem recorrer.

Mesmo com a visão embaçada por culpa da chuva pude ver a placa e descobrir de onde era o carro. DESCANSO – SC. Quanta ironia! – pensei. E num momento de nostalgia, achei que talvez fosse disso que precisava. Minha última vontade foi de gargalhar. Nessa hora, soube o que diriam: - “Aquele cara estranho, que olhava fixo para todos no bar, saiu trôpego na chuva e acabou atropelado. Disseram que ficou parado no meio da rua”. Que morte besta.

A luz começava a ofuscar, e como no final de um filme, foi escurecendo das extremidades para o centro, até que o preto predominou. Tudo óbvio, demasiado óbvio.. tanto quanto a música que começava a tocar no rádio do carro. Era Doors, quase como um réquiem..


This is the end, t達n-d達nd達n beautiful friend.. this is the end .


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