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O UNIVERSO DO SKATE RELAÇÕES NO MERCADO E NA COMUNICAÇÃO

ANDRÉ PETRICK Roberto Gondo Macedo

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ANDRÉ PETRICK ROBERTO GONDO MACEDO

O UNIVERSO DO SKATE: Relações no mercado e na comunicação

1a edição

ISBN: 978-85-455196-0-7 São Paulo 2018

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André Petrick,

Roberto Gondo Macedo,

Skatista, formado em Publicidade e Propaganda pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e PósGraduando em Economia Criativa pela Universidade Belas Artes. Espera disseminar e instigar os leitores a conhecerem mais sobre a cultura do skate.

Co-autor do livro, responsável pela orientação, motivação e ensinamentos que resultaram na realização da obra. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, com Pós-Doutorado em Comunicação Política pela Escola de Comunicação e Artes / Universidade de São Paulo - USP, Mestre em Administração e MBA Executivo em Marketing. Pesquisador e docente do Centro de Comunicação e Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Coordena o Observatório de Marketing Político e Governamental na mesma. instituição.

FOTO DE CAPA Guilhermo Guillis REVISÃO Patrícia Murari PRODUÇÃO EDITORIAL André Petrick

Esta obra é fruto de uma pesquisa e NÃO POSSUÍ NENHUM OBJETIVO COMERCIAL OU RETORNO FINANCEIRO. Seu objetivo é apenas informar e enriquecer o conteúdo bibliográfico sobre o skate.Parte das fotografias utilizadas foram retiradas de domínio público. Todos esforços foram feitos para creditar devidamente os autores das imagens e textos utilizados neste livro. Se você for autor de alguma fotografia, e gostaria que seu nome fosse identificado, entre em contato com o editor pelo e-mail andrepetrick@gmail.com, na próxima edição faremos a atualização.

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AGRADECIMENTOS E DEDICATÓRIA Dedico este livro aos meus professores, Roberto Gondo Macedo e Maria de Lourdes Bacha. Agradeço aos amigos, skatistas, pesquisadores e profissionais que contribuíram de alguma forma, com esse trabalho, ao Rogério Mancha, Giancarlo Machado, Fabio Bolota, Leo Fagundes, Flavio Samelo, Guilhermo Guillis, Tobias Sklar, Eduardo Yndyo, Lucas Agostinho, Sandro Testinha. É necessário agradecer em especial à todas as mídias de skate, que já existiram ou que ainda cumprem o papel de fazer algo relevante para o skate brasileiro, levando informação e expandindo a cultura do skate.

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APRESENTAÇÃO O objetivo desta obra é lançar um olhar analítico sobre a trajetória constituída pelo skate no Brasil, o esporte que se desenvolveu ao longo dos últimos cinquenta anos, tornando-se popularmente conhecido, e influenciando muitos jovens. Trata-se de um relato de como aconteceram as evoluções que criaram características singulares dentro deste universo, resultando em um esporte que ocupou as grandes cidades. O principal foco é explicar como seu mercado, a comunicação e sua prática desenvolveram, além do esporte, um estilo de vida. Descrever a concepção de patrocínios, eventos e mídia, que são as maneiras organizacionais de completar o esporte, além das manobras. A partir desses mesmos recursos de organizações, houve o surgimento das marcas, que estruturaram o conceito do branding fortemente dentro das empresas, segmentando o skate dentro de si mesmo, e formando diferentes tribos, com características únicas e demandas de consumo distintas. Complementando tudo isso, o livro apresenta opiniões de skatista, videomarker e ativista social.

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SUMÁRIO apresentação......................................7 introdução........................................8 história do skate................................13 O INÍcio........................................13 crises..........................................19 Dias atuais......................................27 O SKATE E A INTERLOCUÇÃO COM A COMUNICAÇÃO E MARKETING...34 Patrocínio de Atletas...........................34 Eventos.........................................39 Canais midiáticos...............................45 Abordagens Sociais..............................49 O SKATE, A CONCEPÇÃO DE MARCA E CONSUMO..........54 Identidade......................................54 consumo.........................................61 Conceito de Brand/Marca.........................67 ENTREVISTAS......................................72 skate...........................................72 social..........................................73 mídia...........................................77 finalizando... ..................................81 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.......................83 glossáio.........................................88 apêndice.........................................89

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INTRODUÇÃO Este livro tem como objetivo analisar o universo do skate no Brasil, que vai muito além de um simples esporte, mas, acima de tudo, um estilo de vida para muitos. Descrevendo brevemente sua trajetória desde o início até os dias atuais, são levantadas questões de como foi desenvolvida sua história por meio da comunicação, mercado e consumo. São, aproximadamente, 50 anos de skate no país e diversas gerações já consolidaram o esporte, influenciando as novas gerações, que agora cumprem o papel de trazer novas e constantes transformações. Esse é um movimento muito expressivo, que já chegou a ser proibido em São Paulo no ano de 1988, pelo prefeito Jânio Quadros e promoveu eventos que pararam a Av. Paulista e a praia de Copacabana. O movimento conquistou uma data no calendário das cidades, reservada para comemorar o Dia Mundial do Skate, em que milhares de pessoas saem às ruas com seus “carrinhos”, seja para dar apenas uma voltinha ou ocupar espaços que servem para demonstrar suas habilidades e manobras. A grande popularização do skate criou um forte mercado, que vende peças necessárias para sua prática, além de roupas e acessórios de marcas exclusivamente voltadas para esse público-alvo. As marcas de skate possibilitaram aos atletas a profissionalização, transformando o que antes era hobby em trabalho, com direito a remuneração e patrocínio, fazendo com que muitos passassem a se dedicar apenas ao esporte. Skatistas e simpatizantes conseguiram encontrar meios de trabalhar em um mercado que ampliou oportunidades. Há quem trabalhe somente como atleta, mas também existem os que se dedicam às mídias impressas e digitais, gerando conteúdo para o público, como os que fotografam e

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filmam as manobras, documentando tudo o que já foi e está sendo feito. Por fim, os empresários e funcionários, pessoas que criam e trabalham em marcas para oferecer produtos essenciais ao esporte, com tecnologias e qualidade cada vez mais avançadas. Realizar um estudo sobre parte do universo do skate é de suma importância, afinal é uma maneira de compilar informações sobre os avanços dessa cultura e esporte no setor mercadológico. Um dos objetivos desse livro é resultante da dificuldade de se encontrar um referencial bibliográfico que reuna esse tipo de informação, não são muitos os livros e textos que abordem esse assunto como foco principal. Revistas e alguns poucos blogs e sites são um referencial interessante para quem quer entender do assunto, porém é necessário um pouco de paciência para se encontrar o que procura, pelo menos no que diz respeito a algumas informações muito específicas relacionadas ao mercado. Tribo Skate, Cemporcento Skate, Vista Skateboard Art, Black Media, Giancarlo Machado, Tony Honorato, Leonardo Brandão, Tiago Cambará Aguiar, Eduardo Britto, além, é claro, dos próprios skatistas, são autores de informações muito relevantes essenciais para qualquer um que queira saber e entender mais sobre skate. É claro que há muitos outros que fornecem informação, opinião e estudos sobre o skate, o interessante é procurar e tirar suas próprias conclusões, afinal cada um possui sua visão e muitas vezes elas acabam sendo contrastantes. A essência do skate mostra que não há caminho absolutamente certo ou errado de algo, o skate se mantém evoluindo, se transformando e expandindo. Não necessariamente segue um fluxo constante da maneira como alguns desejam, para mim, na sua trajetória houve sim interferência de pessoas e marcas que revolucionaram e conseguiram redesenhar e projetar o skate para novas perspectivas, independente dos skatistas

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gostarem ou não. O skate é democrático, cada um pode interpretá-lo da maneira que quiser, assim como fazer o que quiser com ele nos pés, o importante é achar um significado verdadeiro nele que o faça valer a pena para si mesmo. Nos capítulos seguintes veremos a influência da comunicação e do marketing no mercado do skate, e como isso se reflete nos skatistas e simpatizantes. A importância do Branding para os skatistas,uma estratégia que consegue definir personalidades e também criar fronteiras dentro desta cultura. Gostem ou não, o skate atingiu o mainstream, ampliando cada vez mais a forma como é visto, acredito que muito em particular graças ao marketing, que amplia sua visibilidade à procura de gerar mais lucros, sem entrar no debate de para onde vão estes recursos. Infelizemente, já passou da hora do skatista ser mais valorizado, independente se alguns poucos recebem salários, vamos se dizer, de jogadores de futebol. Ainda há muito a ser feito, minha opinião é formada com base no tempo que ando de skate, as pessoas que conheci e tudo que já li sobre as muitas marcas que conseguem enriquecer às custas do skate, mas não refletem isso nos principais protagonistas, os skatistas, e também não apoiam a cena produzindo bons eventos e ajudando a criar novos locais para a prática do skate. É interessante pensar no skate como algo rebelde e totalmente independente, esta foi minha opinião por muito tempo. Sei que neste universo há muitos que preferem o skate underground, usar as marcas core que não mudam tanto ao longo dos anos, a paixão por filmes em VHS e não por instastories, preferir uma VX1000 a uma super câmera high definition com slow motion, andar só para se divertir sem pensar em

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campeonatos, tudo isso são questões particulares, mas suponho que sem essas evoluções o skate não atrairia mais pessoas, não chegaria às grandes massas, as verdadeiras marcas não conseguiriam apoiar o skate como ele é hoje, consequentemente skatistas não conseguiriam se profissionalizar e viver sem competições, não haveria tantas skateparks e novas marcas originais nascendo a cada dia, mais vídeos sendo produzidos, eventos acontecendo a todo o momento. Tudo isso só acontece graças a receita fornecida pelos produtos vendidos, pela publicidade gerada dentro das mídias de skate. Se só a galera underground consumisse desse mercado seria impossível o skate crescer economicamente. É de se orgulhar que esse lifestyle conquiste muitos que nunca pisaram num skate, é a prova que ser skatista hoje é algo legal aos olhos do mundo, e os que se subintitulam “verdadeiros skatistas” deveriam ficar mais orgulhosos ainda. Se o skate não tivesse chegado à TV Globo, seus avós talvez nunca soubessem quem é Bob Burnquist e não te dariam um skate no natal. Há uma cultura de marca muito forte no skate, como, por exemplo, um culto a logotipos, que vai além de adesivos colados no shape, ou uma estampa nas roupas. E isso se torna uma maneira própria de se identificar com determinado estilo de skate, em que cada marca tem seu próprio estilo, algumas se caracterizam por representar um grupo de skatistas de rua, outras os que andam em piscinas e assim seguem até encontrarem quem melhor os representa, ou até criarem um novo estilo. Existem muitas perguntas sobre estratégias que fazem os skatistas serem fiéis consumidores de tudo o que determinada marca fabrica. Muitos skatistas influentes criavam suas próprias roupas e estampas, outros produziam em parceria com seus patrocinadores shapes, tênis e acessórios com sua assinatura. Idolatrados pelo seu talento e personalidade, são

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eternizados pelo legado que deixaram e pelos vídeos de skate, influenciando até as gerações mais recentes de skatistas. É interessante analisar a divisão dos skatistas, o que determinado grupo consome talvez não satisfaça o desejo de outro grupo, sem contar que, na prática do esporte, os materiais utilizados acabam sendo bem distintos. Rodas, eixos, tábuas e lixas possuem características específicas, tamanhos diferenciados, pois uns só funcionam bem em determinados terrenos, pistas de concreto ou de madeira, e outros facilitam determinadas manobras. Esses são fatores a serem pensados na hora de criar um produto e comunicar sua existência ao público, é necessário que se analise além da funcionalidade, o caráter de identidade a ser passado aos skatistas. A finalidade deste livro é analisar os pilares mercadológicos que sustentam o skate, auxiliando quem deseja gerir marcas de sucesso, ao expor questões totalmente necessárias de compreensão, seja por quem já pratica ou para quem apenas aprecia, servindo de base para iniciar a construção de uma carreira. O primeiro capítulo destina-se à história do skate no Brasil e contém comentários sobre os mais importantes acontecimentos, desde seu início até os dias atuais. Você vai conhecer como foi a trajetória do skate a partir da metade dos anos 60, quando o esporte chegou ao Brasil, bem como as décadas seguintes ao seu surgimento, sua evolução e modalidades que resultaram em uma explosão de popularidade. Também se discorre sobre os problemas políticos gerados pela prática de plágio às marcas americanas e a crise econômica causada pelo Plano Collor, que interferiram nos rumos do esporte. O segundo capítulo esclarecerá, através da interlocução entre skate e marketing, como funciona essa relação entre o esporte e os meios utilizados de fazer propaganda; a forma de patrocinar atletas, que carregam a imagem

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das marcas, os principais eventos e competições, os canais midiáticos, revistas e vídeos, e as abordagens sociais, ONGs que levam o skate como ferramenta de reconstrução social para jovens e adolescentes. O conceito de identidade, consumo e Branding, por sua vez, serão elucidados no terceiro capítulo. O objetivo de estudar as identidades na pós-modernidade é relacioná-las com o desenvolvimento das diferentes identidades dos skatistas, esclarecerndo parte da lógica de consumo no mundo do skate, que possui muitas particularidades. Além do mais, a abordagem tem como finalidade explicar a importância das marcas para o universo do skate. Finalizando, as entrevistas servem para complementar minhas opiniões, expondo o que o skatista e o videomaker têm a dizer sobre o mercado do skate, além do ativista social e fundador da ONG Social Skate, Sandro Testinha, que salienta a importância das causas sociais. A relevância em ter uma opinião externa de pessoas que fazem parte do universo do skate é obter uma visão distinta e enriquecedora sobre assuntos cotidianos dessa cultura.

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CAPÍTULO 1

HISTÓRIA DO SKATE O início Antes de apresentar a visão sobre as atuais relações do skate com a comunicação, mercado e consumo, é necessário apresentar o contexto histórico deste universo. Este capítulo tem o propósito de contextualizar o início do skate no Brasil, seguindo uma linha cronológica de acontecimentos, que seguem até os dias atuais. O skate chegou ao Brasil na década de 60, com pessoas que começavam a surfar no país, influenciadas pelos anúncios na revista Surfer. Na época,seu nome era “surfinho”, e era feito de patins pregados numa madeira qualquer, sendo as rodas de borracha ou de ferro.Apesar de recém-chegado em território nacional, como uma nova tendência, o skate perdeu muitos adeptos devido ao grande número de acidentes envolvendo os praticantes. Até que em 1974, o engenheiro químico Frank Nashworthy, acidentalmente, descobriu o uretano, material que são feitas as rodas de Skate e que viria a revolucionar todo o esporte. As novas rodas eram silenciosas e mais aderentes, fazendo assim com que os skates fossem mais velozes e seguros1. A evolução do skate veio através de uma explosão de popularidade e o que antes era feito artesanalmente passou a ser um objeto comercializável. O skate, feito anteriormente, de forma improvisada, passou a ser fabricado e vendido em larga escala. Foi um verdadeiro boom a sua utilização, o que atraiu cada vez mais a atenção de jovens, que estavam à procura de 1

Segundo Britto, 2000, pág. 17.

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uma atividade inovadora. Essa transformação, marcada pelo início de um novo mercado nos anos 70, originou as primeiras marcas de skate no país e, segundo a CBSK (2016), “no meio da década, muitas empresas brasileiras comercializavam skates como a Torlay, Benrose, Bandeirantes, Nakano, DM, Vortex, RK, Costa Norte etc.”2

Figura 1: Anúncio da empresa Torlay no jornal Folha de São Paulo, 1974. Fonte: blog Skate Curiosidade (2008, online). O skate aumentava sua popularidade, começando a ser visto com mais intensidade pelas cidades e chamando atenção de muitos, inclusive da mídia. A revista Pop, lançada pela editora Abril, abordava diferentes temas de interesse dos jovens, como as tendências da época, bandas, moda, surf, skate, fotografia, entre tantos outros. Em 1972 surgiu a primeira revista voltada para a juventude brasileira, notoriamente tendo o rock como assunto principal. A Revista POP teve 82 edições em seus quase sete anos de existência, entre novembro de 1972 e agosto de 1979. O interessante é notar que essa revista trouxe 2

Machado, 2011.

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o skate como um tema de destaque em diversas edições, chamando a atenção para campeonatos e skatistas de destaque na época, como Jun Hashimoto, Kao Tai, Marcelinho e Luis Roberto Rodrigues de Moraes (o ‘Formiga Atômica’).3

Figura 2: Capa da revista POP. Fonte: blog Ello Skate House (2010, online). Brandão é doutor em História e um importante estudioso sobre assuntos relacionados à história do skate. Segundo ele a revista Pop não era uma revista exclusivamente sobre skate, mas noticiava o esporte com certa regularidade, associando sua imagem a dos jovens da época. Na opinião de Brandão o skate foi se consolidando a partir da segunda metade da década de 70, quando se iniciou o processo de construção das primeiras pistas, criação de campeonatos, skatistas profissionais e revistas que dedicavam totalmente seu conteúdo ao skate. Ele citou que “além do crescimento no 3

Brandão, 2009.

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número de praticantes, os novos elementos que ajudaram a impulsionar essa atividade se deram através do aparecimento de lojas, indústrias, campeonatos e, principalmente com a construção das primeiras pistas específicas para a prática do skate em transições”. Na opinião de Britto, a história começou a ser constituída quando “o primeiro skatepark a ser construído no Brasil – e na América Latina – foi o de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, em 1976, com dois bowls”. No ano seguinte à inauguração, em 1977, o local seria a sede do primeiro campeonato de pista.

Figura 3: Skatepark Nova Iguaçu. Fonte: blog Skate Curiosidade (2010, online). Em 1977, foi lançada a primeira revista especificamente destinada ao skate, a ESQUEITE, com periodicidade mensal. Com uma tiragem de 30 mil exemplares, trazia conteúdos que abordavam manobras, segurança no esporte e entrevistas com os skatistas da época. A Revista deixou claro, em seu primeiro editorial, a missão para qual veio: “Trataremos de assuntos técnicos, de campeonatos, divulgação, de ‘points’, pistas e

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locais ideais para a prática do skate. Faremos campanhas positivas no intuito de aumentar o prestígio do nosso esporte, fazendo com isso, que também aumente o número de pistas verdadeiras [...]4.”

Figura 4: 1ª edição da Revista ESQUEITE, Setembro de 1977. Fonte: blog Skate Curiosidade (2008, online). Com o fim da revista ESQUEITE (apenas duas edições foram lançadas), surgiu, no ano seguinte, a revista Brasil Skate, também com distribuição nacional, mas igualmente de vida curta, somente três edições foram lançadas ao longo do ano de 1978. Neste período, os atletas já estavam sendo patrocinados por importantes marcas, não apenas do skate, mas também gigantes internacionais, como a Coca-Cola. Com o fenômeno das pistas e com elas o surgimento de marcas 4

REVISTA ESQUEITE, ed. 1, 1977, editorial.

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especializadas em roupas e demais acessórios que se relacionavam a prática do skate, essas revistas – em especial a POP – começaram a exibir em suas páginas os jovens que estavam se profissionalizando nessa atividade. Em suas páginas, elas comentavam seus patrocínios, divulgavam seus campeonatos, os prêmios e com isso, firmavam cada vez mais a ideia do skate ser uma prática esportiva.5

Figura 5: Atleta patrocinado pela marca Coca-Cola. Fonte: blog Skate Curiosidade (2009, online). No final da década de 70, “o skate decaiu devido aos fabricantes terem migrado para o patins e bmx, não havendo peças para comercialização, investimentos em skatistas e campeonatos, desestimulando a maioria dos praticantes” (CBSK,2016). Britto explica que os fabricantes que existiam 5

Brandão 2014, p. 99.

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nas diversas localidades do país mudavam de ramo gradativamente. No início dos anos 80, os poucos praticantes eram divididos entre as modalidades estilo livre, o freestyle e o vertical. O skate chegou à televisão no ano de 1986 e exibido pelo programa Vitória, da TV Cultura. Somente em 1987, o Grito da Rua, da TV Gazeta, foi criado, inteiramente dedicado ao esporte e direcionado ao público jovem, mas permanecendo apenas até o ano seguinte de seu início.

CRISES A década de 80 foi uma época marcada pelos plágios de importantes marcas norte-americanas. Uma edição da revista Overall (1989), a de número 17, foi dedicada a noticiar a versão brasileira da história e traduzir o descontentamento das marcas originais. Em entrevista sobre a indústria do skate, Hosoi (2010)6 afirma que muitas marcas até ignoravam a existência de suas homônimas brasileiras, desaprovando o fato de serem donas das ideias e vê-las traduzidas para tecidos, madeiras e metais que não eram seus. Incluíam-se nessa lista de plágios produtos assinados com nomes de famosos skatistas, incluindo o próprio Hosoi, um dos mais importantes ícones do esporte na época, que seguiu argumentando: “quando estive no Brasil pela primeira vez, eles já tinham trucks da Independent, skates da Powell... Todas aquelas marcas feitas por empresas brasileiras”.

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Hosoi – um dos mais importantes skatistas de todos os tempos.

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Figura 6: Revista Overall, edição 17 sobre a indústria do skate. Fonte: arquivo pessoal (1989). Para o skatista Magnusson, havia todo tipo de mistura e confusão de logos copiados, referindo-se às empresas brasileiras que não tinham uma regra a seguir em relação às cópias produzidas e criavam artes de shapes com desenhos de marcas registradas. Acontecia de uma empresa fabricar modelos de tênis e inserir logotipos de outras marcas, que nunca produziram esse tipo de produto.

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Figura 7: Plágio da marca Santa Cruz e Quicksilver pela empresa Torlay. Fonte: revista Overall (1989, edição 17) Márcio Tanabe, skatista e fundador da Mad Rats, com a produção de produtos explorando as estratégias de outras marcas, os brasileiros utilizavam-se de nomes já consolidados internacionalmente para beneficiarem a imagem de seus produtos, o que causava uma represália maior por parte de quem tivesse uma marca americana e visse essa mesma marca copiada no Brasil. Geralmente, eram essas mesmas marcas copiadas que patrocinavam os maiores eventos na época, o que acabava

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por gerar boicotes em relação aos brasileiros, com intuito de prejudicálos nas competições internacionais.

Figura 8: Plágio do tênis Vans. Fonte: blog Skate Curiosidade (2009, online). Outra crise enfrentada pelos skatistas aconteceu em São Paulo, mais exatamente no Parque do Ibirapuera, no ano de 1988, onde o skate sofreu sua primeira proibição de fato, por ser considerado um esporte marginalizado. De acordo com Brandão (2014), o prefeito Jânio Quadros, por ver com maus olhos a prática do esporte e por estar descontente com os rumos da utilização de espaços que o skate havia tomado, decidiu coibir

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sua prática.

Figura 9: Notícia de jornal retratando a manifestação de skatistas contra a medida de Jânio Quadros. Fonte: blog Skate Curiosidade (2008, online). A medida acarretou uma enorme mobilização por parte dos skatistas, que se organizaram para tentar dialogar com o prefeito, para que o mesmo revogasse a decisão. No entanto, não houve uma conversa, mas, sim, uma nova resposta, decorrente da irritação em relação à passeata promovida pelo movimento pró skate. O capítulo que se seguiu, pode ser compreendido pelas palavras de Olic, Doutorando em Ciências Sociais na Universidade Estadual Paulista (2014, p. 81): O veto levou a uma série de manifestações por parte dos skatistas, o prefeito, por sua vez, acabou ampliando a proibição a todos os espaços públicos da cidade. Frases como “skate não é crime!” e “skate, direito do cidadão, dever do Estado” passaram a ser estampadas em camisetas, shapes e revistas especializadas como lemas na luta por reconhecimento de sua prática na cidade. Na época da proibição, houve muita repressão policial, as autoridades

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tinham a ordem de recolher os skates de quem estivesse, simplesmente, com o objeto debaixo dos braços. Só com o fim da gestão de Jânio Quadros e a posse de Luiza Erundina, em 1989, a Lei 25871, que coibia a prática do skate, foi revogada. Na década de 90, o problema foi econômico, pois o Plano Collor desestabilizou completamente o esporte que vinha em ascensão. Muitas marcas pararam de fabricar seus produtos simplesmente por estarem quebradas, devido ao confisco do dinheiro da poupança dos brasileiros, incluindo dos empresários. O reflexo disso foi a demissão de muitos skatistas patrocinados e o fim dos investimentos em eventos e campeonatos. O Plano Collor interferiu diretamente nos rumos do skate, afundando o país em uma hiperinflação. Martone, doutor em Economia pela USP, (1991) explica que o pretexto de eliminar a inflação, através da ação de reter ativos e patrimônios individuais, foi má interpretada pelo governo, gerando efeito contrário, atingindo o setor produtivo da economia, o que acabou por estagná-la. Segundo Contador, Ph.D. em Economia pela University of Chicago, (1991), o Brasil no início dos anos 90 herdava a pior combinação de resultados macroeconômicos da última década, como a queda do PIB, retrocesso na renda per capita, inflação, aumento do desemprego, falta de investimentos. Todos esses fatores apresentados impediram que o skate fosse pra frente, pois o cenário econômico brasileiro da época fez com que a situação de ascensão dos skatistas se invertesse. Muitos atletas, e também os campeões da época, foram obrigados a procurar outros meios de sustento para ajudar suas famílias, ou simplesmente pararam de andar devido ao fechamento de pistas. Em meio à crise, alguns skatistas, que não se afastaram do esporte, migraram para a modalidade mais recente, o street, como forma de

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continuar evoluindo e levando adiante seu estilo de vida. O antropólogo Machado explica essa migração da seguinte maneira: “Os streeteiros, como se denominam os skatistas adeptos dessa modalidade, transitam pela cidade com um olhar apurado para certos equipamentos urbanos, que são vistos como obstáculos a serem superados. Desta forma, um corrimão não serve somente para dar segurança a quem utiliza uma escada, mas também para ser deslizado com o skate. Uma escada não é apenas para se passar de um nível ao outro, mas para ser pulada. Uma escultura não é só para ser olhada e apreciada, mas ao contrário, pode servir como uma inclinação propícia para manobras. Os exemplos se estendem aos bancos, às bordas, às placas de trânsito, etc.”

Figura 10: Mark Gonsalez utilizando corrimão para manobrar. Fonte: site Cvlt Nation (2012, online).

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O skate street foi a vertente que mais evoluiu no decorrer dos anos 90. Na época, não havia investimentos em skateparks, por conta da crise financeira, especulação imobiliária e da baixa popularidade do skate naquele período. A criação de novos espaços para a prática do esporte estagnou-se, além da extinção das mais importantes pistas, que não conseguiram se sustentar. A saída encontrada pelos amantes do skate, que não queriam abandonar o esporte, foi utilizar as ruas como forma de moldar-se a situação. A vontade dos skatistas, de continuar ativamente no esporte, logo se somou à inspiração trazida pelos vídeos de marcas americanas, em que skatistas como Mark Gonsalez e Natas Kaupas começavam a fazer manobras nunca antes vistas, pulando escadas e deslizando em corrimãos. Tornando-se cada vez mais um estilo de vida, o skate permitiu que seus praticantes desenvolvessem um olhar diferente para a cidade, enxergando obstáculos por onde passavam.

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CAPÍTULO 2

DIAS ATUAIS No cenário contemporâneo do esporte, o skate subdividiu-se em diferentes modalidades. Atualmente o skate é separado em diferentes categorias, são contabilizadas pela CBSK, ao todo, treze modalidades distintas utilizadas para campeonatos, sendo: Vertical, Bowl, Banks, Mini Ramp, Park, Pool, Mega Rampa, Sreet, Freestyle, Downhill Speed, Downhill Slide, Slalon e Pusch Race Apesar de haver este tipo de subdivisão, é díficil fazer comparações entre uma e outra categoria, há skatistas overalls (skatistas que andam em qualquer lugar, não necessariamente competidores de diferentes modalidades), como também quem só se identifique com uma delas, tanto quanto quem não dê nenhuma importância para a existência de regra alguma sobre modalidades. Discussões sobre diferenças entre categorias e skatistas podem ir muito longe e este não é o enfoque do livro, mas algo que deve ser ressaltado é que há diferenças entre todas elas, principalemente em relação a identidade dos seus praticantes. As modalidades street, bowl e vertical são as mais populares atualmente, recebendo mais atenção por parte das mídias, além de serem as mais praticadas. Um skatista pode comumente integrar mais de uma dessas divisões categóricas, porém, cada uma possui suas próprias singularidades, que ajudam a representar características específicas do lifestyle de cada um que anda de skate. Atualmente, o skate é praticado no Brasil por aproximadamente 8,5 milhões de pessoas, segundo dados contabilizados pelo Instituto Datafolha (2016), concebendo a segunda posição dos esportes mais praticados no Brasil,

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ficando apenas atrás do futebol. A entidade CBSK (2016), responsável pela encomenda da pesquisa, afirma que “da última pesquisa para cá, o aumento no número de praticantes foi mais de 100%, já que em Dezembro de 2009 eram aproximadamente 3.864.000 praticantes”. Para Olic (2014), a quantidade de skatistas no Brasil só é inferior à encontrada nos Estados Unidos, país onde o skate foi inventado e que até os dias de hoje é uma referência no desenvolvimento de produtos, estilos e eventos envolvendo sua prática. Sem dúvida, essa expressividade numérica corresponde ao fato do Brasil ser, numa escala mundial, o segundo maior produtor de pranchas, rodas e demais acessórios relativos ao skatismo. Essa pulsante presença social e mercadológica pode ser verificável tanto por sua constante exibição nos meios de comunicação de massa quanto através de uma variada gama de empresas e publicações especializadas nessa atividade (BRANDÃO, 2014, p.17).

Figura 11: Comemoração do Dia Mundial do Skate 2015. Fonte: site Black Media (2015, online). Os números refletem a importância do esporte para o cenário nacional, mas é necessário que o governo, a entidade que regula o esporte e a indústria, sejam capazes de suprir as demandas que ele exige. Apesar de

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o skate ser comumente praticado nas ruas, as modalidades bowl e vertical precisam de lugares específicos, sendo necessário um investimento em pistas adequadas e que atendam pré-requisitos. Em geral, os custos para a construção e até mesmo manutenção de pistas são muito elevados, sendo poucas as empresas que investem em skateparks, já que seus concorrentes diretos são as pistas públicas, que não cobram e estão evoluindo cada vez mais em qualidade. No ano de 2016, foi oficializado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) a participação do esporte nas Olímpiadas de 2020, em Tóquio. O skate, além de outros esportes, como o surf, caratê, beisebol e escalada, substituirão esportes que se tornaram menos populares. O objetivo é atrair a atenção de um número maior de jovens. Segundo o próprio COI (2016), as mudanças visam aumentar a audiência do evento e, consequentemente, atrair potenciais patrocinadores para o evento. A entidade revelou que o skate se tornou um esporte olímpico graças ao grande número de seguidores do esporte nas redes sociais, e que esse meio de comunicação será a ferramenta utilizada para divulgar o evento para os mais jovens. É necessário ressaltar o crescimento e a importância das mulheres no cenário do skate. Desde os primórdios, quando o skate se iniciou como prática esportiva, até os dias atuais, o número de mulheres é visivelmente inferior ao de homens. Figueira coloca em sua Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, (2008), o skate é representado como uma prática culturalmente associada ao universo masculino mais que o feminino, apesar de estar deixando este estereótipototalmente para trás, visto que estão surgindo skatistas influentes para seu gênero,cheias de personalidade, estilo e nível técnico cada vez mais elevado. Outro fator relevante sobre as mulheres é sua presença nas mídias, onde

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eram mais associadas ao caráter de beleza do que pela capacidade de executar manobras. Hoje, é possível ver nitidamente a evolução e conquista de novos espaços obtidos pelas mulheres, seja em campeonatos, revistas, vídeos ou simplesmente marcando presença nos anúncios publicitários de seus patrocinadores. Uvinha (2001, p.65) faz um paralelo com as conquistas femininas em outros esportes e ressalta: Seja como for, amadora ou profissional, a participação em torneios parece ser um interessante fator para a afirmação da mulher no skate, já que assim ela pode ir ganhando espaços na modalidade. Quem sabe, dessa maneira, ela “se arme” contra o preconceito, superando os obstáculos, como já o fez em outros esportes, objetivando a conquista de um lugar de destaque na modalidade.

Figura 12: Manobra da skatista Letícia Bufoni, uma das principais atletas brasileiras da atualidade. Fonte: rede social Facebook (2017, online). Letícia Bufoni é uma das skatistas mais influentes da sua geração, com uma carreira de sucesso conseguiu conquistar grandes patrocinadores e influenciar diversas garotas a andarem de skate. Além dela há muitas

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outras brasileiras que superaram barreiras e abriram caminhos antes, fazendo com que hoje possamos ver o surgimento de garotas jovens super talentosas e marcas dispostas a investirem nesse potencial. Letícia é a skatista mais vitoriosa da história, sendo possívelmente representante do país nos jogos olímpicos de 2020. Ela argumenta com entusiasmo sua visão sobre os próximos anos: “Acredito que neste ano (2018) vai mudar bastante e devemos ter mais etapas do Mundial. Estou vendo grandes marcas de carros, bebidas, sapatos e roupas investindo no skate e montando equipes já pensando na Olimpíada. É legal ver isso. Acho que só vai melhorar e os próximos anos prometem.” A partir dos anos 90, começaram a surgir no Brasil feiras de negócios para esportes radicais, englobando um pouco do universo do skate. Atualmente, essas feiras se difundiram, seguindo a tendência do segmento streetwaer e dando foco principal a marcas e produtos de skate. Mais desenvolvidos do que antes, as feiras de negócios ajudam a movimentar o mercado, como é o caso da URB Trade Show, que reúne marcas, empresários, profissionais do ramo e o público simpatizante. O evento traz palestras e workshops ministrados por especialistas e direcionados a assuntos relevantes que envolvem esse universo, a fim de comentar o que há de mais atual. Segundo dados divulgados pela CBSK (2016), estima-se que no ano de 2014, a feira tenha movimentado, aproximadamente, 100 milhões em vendas business-to-business. No mercado nacional, segundo dados levantados pela CBSK (2016), apontam que o Mercado do Skate no Brasil conta com mais de R$1 bilhão ao ano em venda de roupas e acessórios, com forte potencial de crescimento, segundo pesquisa realizada pela SGI Europe (Sports Good Intelligence) em parceria com a ASF (Adventure Sports Fair) e a promotora alemã de eventos esportivos ISPO.

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Figura 13: Estandes na feira URB Trade Show. Fonte: rede social Facebook (2015, online). Os eventos serão tratados nos próximos capítulos, entretanto, é relevante ressaltar que, no cenário das competições, o skate vem elevando seu nível, tanto nas manobras quanto no valor das premiações. O Street League Skateboarding (SLS) é o maior torneio de skate de rua da atualidade e será o formato de competição utilizado nas Olímpiadas. Considerando todas as etapas anuais, a premiação distribui milhões de dólares para os vencedores, obtendo recordes no número de telespectadores a cada edição. Segundo Melo Neto (2013), no marketing esportivo, a premiação é um fator promocional de relevância para muitos eventos.

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Figura 14: Ginásio lotado de espectadores assistindo ao Street League. Fonte: site Street League (2016, online). Concluindo o cenário do skate nos dias atuais, ressaltam-se questões levantadas por Melo Neto (2013) sobre o marketing esportivo e suas transformações ocorridas no esporte nos últimos anos. Assim, diversas ações podem servir como indicadores para explicar o crescimento do mercado de skate no país, como: o desenvolvimento de serviços de construção de pistas, escolinhas que ensinam o esporte e acampamentos; o crescimento da mídia esportiva com destaque para sites, blogs, canais das mídias sociais e programas em canais fechados de TV; os megaeventos esportivos; a ampliação no número de empresas que investem no esporte para difundir suas marcas. A história do skate e sua trajetória até os dias atuais é uma introdução para explicar conceitos que desenvolveram características de uma prática esportiva, que se transformou em estilo de vida e objeto cultural. Feita essa contextualização, inicia-se no próximo capítulo a investigação sobre as estratégias de marketing inseridas no mercado de skate.

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CAPÍTULO 3

O SKATE E A INTERLOCUÇÃO COM A COMUNICAÇÃO E MARKETING Patrocínio de SKATISTAS No universo do skate, tanto quanto em outros esportes, o patrocínio de atletas é uma importante estratégia de marketing. As marcas recorrem aos atletas como forma de propaganda, com o intuito de aumentar sua visibilidade e gerar lucros para a empresa. O conceito do patrocínio esportivo pode ser definido como uma relação contratual que envolve patrocinador e patrocinado. Outros o definem como uma estratégia ou instrumento de comunicação e marketing utilizado pelas empresas para maximizar seus retornos de exposição, imagem e de vendas (NETO, 2013, p.29). Por causa da imagem gerada pelo talento sobre o “carrinho”, em meio ao boom do skate, alguns skatistas se tornaram influentes para sua geração, atraindo olhares de muitos jovens, que se espelhavam no estilo das manobras e roupas, ou até mesmo na personalidade de seus ídolos. Os skatistas mais famosos acabaram despertando o interesse das marcas, que enxergavam na popularidade dos atletas uma maneira de fazer propaganda dos seus produtos. A empresa, em troca da associação da imagem do atleta com a da sua marca, oferecia auxílios que poderiam ser apenas os próprios produtos comercializados, ou até remuneração.

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Figura 15: Anúncio da marca LRG oficializando patrocínio ao skatista Lucas Rabelo. Fonte: site Matriz Skate Blog (2014, online). Por ser um esporte radical e cheio de emoção, o skate se tornou muito popular, principalmente nos últimos anos, atraindo o fascínio de jovens e adultos. É compreensível pensar que muitos jovens, que começam a praticar e pegam gosto pelo esporte, podem querer se tornar profissionais um dia. Em relação ao patrocínio de atletas no skate, uma carreira inicia-se quando o skatista torna-se flow de uma marca. Esse termo designa o momento em que um skatista passa a receber materiais fabricados por determinada marca. Durante o período que o atleta estiver como flow, ele deve produzir material para mídia, como vídeos e imagens. É importante também conquistar campeonatos, a fim de consolidar seu nome e garantir certa popularidade. Essa modalidade de patrocínio resume-se ao skatista vestir os produtos das marcas e declarar-se apoiado pela marca em competições e receber uma cota de material (mais ou menos explícita nos acordos, logo que

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nessa fase os contratos são raros) com maior ou menor frequência, de acordo com seus êxitos em competições ou presença junto ao apoiador. Não há instrução clara ao skatista, mas é esperado que ele movimente a marca, que apareça e faça a marca aparecer, que faça “o corre”, que cresça junto com a marca (BASTOS, 2006, p.106). A empresa patrocinadora é quem decidirá o momento em que o skatista passará a integrar seu time oficial de atletas amadores. O atleta amador é remunerado, além de receber os materiais produzidos pela marca. O último passo na carreira do skatista é a profissionalização, cuja etapa é alcançada apenas com significativo, porém, relativo tempo de contribuição ao esporte. No Brasil, o processo de profissionalização, a CBSK é responsável por analisar e julgar a carreira do skatista, observando se há um patrocinador que assegure o aumento de salário da sua categoria. Bastos e Stigger (2006, p.162) explicam: “Uma dessas peculiaridades do mundo do skate é o fato de que somente é possível ser profissional, viver de skate, tendo alcançado o patamar de “patrocinado”, ou seja, a fonte mais comum de provimento de recursos a skatistas profissionais é o patrocínio vindo de empresas privadas”. Com base em entrevistas lidas ao longo dos anos, conclui-se que o sonho de muitos skatistas é a busca pela profissionalização e o desejo de obtenção de parcerias com marcas, a fim de alcançarem seus objetivos. Um importante passo na carreira dos skatistas é a criação de um pro-model, produtos desenvolvidos numa parceria entre atleta e patrocinador, que podem ser realizados a partir do momento em que o atleta for profissional. Esse benefício permite ao skatista auxiliar no desenvolvimento de produtos fabricados com sua assinatura, seja em modelos de shapes, tênis, trucks, entre outros. Florio, na (Revista Tribo Skate Display (2010, p.22) explica: “Um pro-model na carreira profissional de um skatista é o carro chefe da

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sua imagem. Simplifica exatamente que tipo de skatista você é. Avaliza sua carreira oferecendo ao público a possibilidade de utilizar o mesmo que é utilizado por você que o desenvolveu. Cria-se uma possibilidade maior de produzir shapes com uma melhor qualidade seja visual, seja técnica”.

Figura 16: Shape assinado por Klaus Bohms, na época em que skatista era patrocinado pela marca Element. Fonte: site Cemporcento Skate (2016, online). Para Melo Neto (2000), a finalidade da marca é fortalecer sua imagem com a sua estreita veiculação ao desempenho superior e, consequentemente, com os atributos daquele que é patrocinado. O skatista precisa se destacar e apresentar um desempenho acima da média, difundindo sua imagem em canais midiáticos, eventos e campeonatos, para, assim, divulgar seus patrocinadores.

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É comum nos dias atuais, atletas possuírem perfis em mídias sociais, como Instagram, Facebook e YouTube. Esses veículos servem para promover seus patrocinadores, com publicações de fotos e vídeos que retratam suas manobras e o próprio cotidiano do atleta. Esse assunto será discorrido com maior enfoque no subcapítulo Canais Midiáticos. Machado (2011, p.185) explica a evolução do trabalho de comunicação dos atletas: “Poucos skatistas encontravam espaços na mídia especializada na época em que as fotos eram feitas com câmeras que usavam filmes, e os vídeos com filmadoras que usavam VHS. Afinal, além das dificuldades técnicas, não havia tantos profissionais capacitados para captar imagens de qualidade, passíveis de serem publicadas. Atualmente, ao contrário, a facilidade em fazer fotos e vídeos propicia aos skatistas obterem prestígio e buscarem o profissionalismo de diversas maneiras.”

Figura 17: Perfil do skatista profissional Ricardo Dexter, no qual divulga seus patrocinadores. Fonte: rede social Instagram (2017, online). O patrocínio de atletas está inserido no universo do skate desde o início

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do esporte, em sua evolução constante, geraram novas oportunidades para o skatista e para as marcas. Atualmente, os skatistas podem promover sua imagem e seu trabalho por meio das mídias, enquanto as empresas têm a possibilidade de encontrar mais facilmente novos talentos, que podem se enquadrar no perfil de suas marcas.

EVENTOS Os eventos são ações fundamentais a qualquer esporte, criados para entreter o público e despertar-lhe emoções. Para as empresas são uma maneira de promover sua marca, com objetivo de criar um vínculo com os espectadores. No skate, o público que visita os eventos quer encontrar seus ídolos, ter a possibilidade de assistir pessoalmente e registrar as incríveis manobras dos skatistas. O skate proporciona diversos tipos de eventos, desde competições até os mais específicos do seu universo, como demonstrações de atletas (famosas demos) e tours. O evento é uma ação promocional de grande impacto. Cria oportunidades para a divulgação da marca, aumenta a sua exposição, promove a interação com seu público-alvo, estreita relacionamentos, fideliza clientes, vende produtos, gera publicidade, atrai o público e, sobretudo, emociona as pessoas que dele participam. As entidades esportivas, as empresas, os governos e a mídia se beneficiam dos eventos como ferramentas de comunicação (NETO, 2013, p.115). As demos de atletas são eventos organizados, exclusivamente, pela marca que os patrocina, divulgando as equipes e realizando sessões de autógrafos, distribuição de brindes e, em alguns casos, demonstração de manobras. No caso das tours, a equipe de atletas da marca viaja para

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diversas localidades, visitando lojistas e produzindo imagens e vídeos institucionais.

Figura 18: Sessão de autógrafos da equipe Element. Fonte: rede social Facebook (2017, online). As competições são mais populares, pois têm a finalidade de atrair um grande número de público e skatistas, pessoas que se interessam pelo show que os atletas proporcionam, com manobras espetaculares, na busca pelo lugar mais alto no pódio. Esse tipo de evento é organizado, na maioria das vezes, com patrocínio de empresas privadas. Melo Neto (2013) explica que há eventos locais, regionais, nacionais e internacionais que traduzem uma forma específica de inovação, podendo

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ser etapas para eventos maiores. A entidade reguladora dos eventos de âmbito nacional é a CBSK, responsável por manter um padrão de exigência, para que a competição possa ser homologada e os resultados sejam contabilizados no ranking oficial de atletas. O Xgames foi criado em 1994 pela rede televisiva ESPN, sendo considerado o maior campeonato de esportes radicais do mundo. Vigente até os dias atuais, o evento evoluiu e ampliou sua rede de transmissão, inovando na criação de uma nova categoria, o Xgames Real Street, uma competição em que o público decide qual vídeo dos atletas participantes é o melhor. Uvinha (2001), entretanto, traz sua indagação sobre o patrocínio dos Xgames, que em seu início vinham, em grande parte, de empresas que não produziam artigos esportivos, mas queriam associar sua imagem ao evento, como a AT & T, GM e Advil. Em função do espetáculo proporcionado por essas e outras competições, os eventos contam com o apoio de inúmeros patrocinadores dos mais diversos segmentos – marcas de bebidas, roupas, calçados, automóveis, alimentos, etc. – que investem consideráveis quantias em um tipo de ação voltada a um público considerado jovem, obtendo, assim, não só lucros exorbitantes, como também a promoção de seus produtos. O skate, portanto, passou a ser visto com bons olhos por muitas empresas, que estrategicamente associam suas marcas a essa prática tendo em vista seus distintos interesses, (MACHADO, 2011, p.16).

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Figura 19: Xgames Barcelona. Fonte: retirada do site Street League (2016, online). No Brasil, existe a Lei de Incentivo ao Esporte – Lei 11.438/2006 – que “permite que empresas e pessoas físicas invistam parte do que pagariam de Imposto de Renda em projetos esportivos aprovados pelo Ministério do Esporte”. A competição Mega Rampa é um exemplo de evento realizado com o auxílio desta lei, e já ocorreram quatro edições entre 2012 e 2015. O evento foi produzido com patrocínio de recursos captados pela lei, mas possibilitava que outras empresas investissem na competição e a associassem à imagem de suas marcas.

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Figura 20: Bob Burnquist conquista a primeira colocação. Fonte: blog Inner Surf (2012, online). O Circuito Sampa Skate é um caso interessante de parceria entre empresa e poder público, no caso, entre a Skate Contest e a Prefeitura de São Paulo. Realizado entre os anos de 2005 a 2013, a competição foi idealizada pelo empresário da Skate Contest, que sentia no aumento do número de pistas públicas uma ameaça para sua skatepark privada. O evento é pensado, além de um negócio, como uma ferramenta de inclusão social e valores de cidadania. Circuito Sampa Skate - isto é, uma série de campeonatos que acontece ao longo de todo um ano - cuja formatação e mediações estabelecidas para sua realização podem ser vistas como uma forma de resposta do campo das políticas públicas à intensa propagação da modalidade street skate na cidade de São Paulo (MACHADO, 2012, p.173). A evolução dos

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campeonatos vem acontecendo gradativamente. O campeonato Oi Skate Total Urbe Open 2017, ocorrido no Rio de Janeiro e patrocinado pela própria empresa de comunicação, foi a competição com maior premiação na América Latina, distribuindo ao todo 400 mil reais. O evento recebeu também shows de importantes rappers nacionais.

Figura 21: Publicidade do evento Oi STU Open 2017. Fonte: site CBSK (2017, online). Atualmente, os eventos de skate evoluíram e estão se tornando mais constantes. Graças à popularização do esporte, o número de espectadores aumenta consecutivamente. Apesar da crise financeira pela qual o país está passando, o que resulta no corte de gastos exacerbados das empresas, é possível notar que as competições avançam em suas proporções e premiações, favorecendo o mercado de skate.

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CANAIS MIDIÁTICOS Os canais midiáticos representam os meios de comunicação do skate, a internet possui um papel muito forte atualmente, porém a mídia impressa sempre foi e ainda é muito presente no mercado nacional, noticiando os principais acontecimentos do universo do skate, abrindo espaço para as novas gerações e destacando o trabalho de skatistas profissionais. Para Oliveira (2012), o mercado atual é marcado por um alto nível de segmentação, os meios de comunicação são fragmentados e as mensagens veiculadas tornam-se saturadas. Para fazer uma comunicação eficaz, as empresas precisam utilizar ao mesmo tempo diferentes formas de comunicação, tais como a propaganda, o patrocínio e o marketing direto. Como já explanado no primeiro capítulo, o surgimento do skate na mídia aconteceu através da revista POP, nascida em 1972, abordando assuntos que despertavam o interesse da juventude brasileira. No final da décadade 70, surgiram as revistas especializadas em divulgar assuntos específicos sobre skate no Brasil, como a Esqueite, Brasil Skate e o Jornal do Skate, publicação que circulava no Rio de Janeiro. Posteriormente, a partir da metade da década de 80, surgiram as revistas Overall, Skatin’, Yeah! e Vital Skate. As revistas Tribo Skate e 100% Skate Magazine surgiram no início dos anos 90. A partir de 2000, houve o nascimento de diversas revistas, porém, as principais distribuídas em todo território nacional eram Tribo Skate, CemporcentoSKATE, SKT e Vista Skateboard Art. Essas revistas continuam a circular atualmente, no entanto, a SKT se fundiu, tornandose parte da CemporcentoSKATE e, no ano de 2017 a Vista Skateboard Art parou de produzir edições impressas. Para Brandão e Viegas (2012), além

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delas, as revistas de circulação local/regional, os inúmeros zines e sites, formam um panorama abrangente e significativo, um marco para o skate brasileiro, fruto do crescimento, profissionalização e estrutura do meio. A era digital trouxe transformações para o meio do skate, o que era antes noticiado apenas por revistas impressas, passou a ser gradativamente disseminado pela internet. A mídia impressa, que sofre atualmente uma crise, adaptou-se, compartilhando seu conteúdo na rede, dando uma importância muito maior à plataforma digital. O investimento nessa área foi imprescindível para sua sobrevivência, sendo comum ver a disponibilização das mesmas revistas impressas em meios digitais, como no caso das revistas Tribo Skate e Vista Skateboard Art. O YouTube serviu para popularizar os famosos ‘canais’, páginas dentro da plataforma com vídeos produzidos por empresas, videomakers, mídia impressa, skatistas profissionais. Os próprios praticantes de skate, com a facilidade de possuir uma câmera, mesmo vindos de uma condição de anonimato, têm a oportunidade de publicar seus próprios conteúdos. Rodrigo ‘K-b-ça’ fala sobre a marca Qix, que investiu no meio digital logo no início, produzindo vídeos que divulgavam os eventos e atletas patrocinados, além de tutoriais ensinando manobras. “É certo que a Qix não foi a primeira marca brasileira a ter uma página na internet. Porém foi a Qix que definiu como seria o padrão das webs do final dos anos 90 até hoje. Notícias e mais notícias. Sem se preocupar com marcas ou estilos. Não seria exagero afirmar que a página da Qix era a mais acessada na época e sempre era tida como referência quando se falava em jornalismo no skate. Anos depois o foco mudou e eram os vídeos que mandavam. Em ambos os casos, foram páginas sem precedentes no Brasil, movimentando colaboradores do Oiapoque ao Chuí e revelando talentos dos bastidores do skate” (REVISTA TRIBO SKATE, ed. 217,

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2013, p.57). Alguns canais do YouTube, por exemplo, alcançam hoje números que ultrapassam meio milhão de assinantes e visualizações por vídeo postado na rede. O volume de views atraiu os olhares do mercado,que passaram a investir nesse tipo de comunicação. É comum ver esses canais recebendo patrocínio de empresas que atuam no ramo do skate, seja para estampar sua marca ou para fazer publicidade direta de algum produto lançado. Um exemplo é o canal SobreSkate, idealizado e comandado por Guilherme Abe (2015), que fala sobre o apoio das marcas: “Já tive propostas de marcas que não são do mercado do skate inclusive, como a de um site de reserva de hotéis e residências, por exemplo, lojas multiesportes, entre outros. No momento estou optando por manter os apoiadores atuais justamente por acreditar que eles seguem a mesma linha de pensamento do canal em fomentar o skate. Tenho opinião claramente formada sobre marcas e ou lojas que estão no mercado para somar e ou subtrair do skate e sou fiel aos meus ideais em relação a isso”.

Figura 22: canal Sobre Skate apresentado por Guilherme Abe. Fonte: site YouTube (2017, online).

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Os ‘canais’ também criaram programas dentro das suas páginas, dividindo e diversificando o conteúdo dos vídeos produzidos. O ‘canal’ Black Media, idealizado por três profissionais da mídia e videomakers, optaram por criar sua própria rede de comunicação, expondo a visão deles sobre o universo do skate. Sua programação possui vídeos com manobras de skatistas, notícias, cobertura de eventos, entrevistas com atletas e profissionais do meio.

Figura 23: programas do canal Black Media; Fonte: site YouTube (2017, online). Machado (2011) reforça que a popularização da internet e os equipamentos digitais, como câmeras e filmadoras, trouxeram novas alternativas de conquistar visibilidade para o skatista inserido no universo do street skate. Muitos deles priorizam a captação de imagens nas ruas, as quais possivelmente serão publicadas em vídeos e revistas. Outra ferramenta criada recentemente são os ‘lives’, função das redes sociais que disponibiliza a transmissão ao vivo. O usuário faz uma filmagem e exibe para quem estiver on-line. O skatista profissional Alex

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Carolino (2017), um dos pioneiros na utilização de canais, comenta sobre os ‘lives’: “Os ‘lives’ estão sendo da hora. Tô gostando muito, acho legal. Tu abre um canal ali direto com o que está acontecendo na sua vida, onde você está. É ‘live’! No Youtube, Instagram, Facebook. Todas elas proporcionam esse live. E as redes sociais também acabam meio que se parecendo muito. Elas estão competindo tanto. Mas, com certeza, o Youtube ainda é diferente. Mas isso aí eu acho que é tendência. E mais e mais, quem é formador de opinião, influenciador, atleta, acho que a tendência é mais e mais a galera fazer isso. Antes a mídia saia de um lugar e era transmitida pra muitas pessoas, agora todo mundo é um canalzinho gerando conteúdo, gerando informação. Influenciando as pessoas. Acho que a tendência é essa”.

ABORDAGENS SOCIAIS As ONGs são entidades sem fins lucrativos, também conhecidas como empresas do Terceiro Setor. O Primeiro Setor é formado pelo Estado e por todos os órgãos ligados a ele, o Segundo Setor é constituído pelas empresas com fins lucrativos. As ONGs são criadas com o objetivo de suprir a ausência do Estado, auxiliando na prestação de serviços à sociedade, se enquadrando ao Terceiro Setor. “O que convencionamos denominar Terceiro Setor trata-se da constituição de diversos tipos de entidades ou associações não lucrativas de cidadãos, que tem como objetivo comum, defender interesses da sociedade de uma forma ampla, sem se limitar ao seu próprio universo, trabalhando em prol do bem comum, porém com focos definidos de atuação (meio ambiente, educação, saúde, cultura, assistência social a infância, terceira idade, etc.)” (VILLAS BÔAS, 2003, p.45).

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Para Carlini (2007), a ONG oferece serviços a uma comunidade carente de algo: a comunidade deseja e necessita do serviço prestado. Existem algumas ONGs com o importante trabalho de incluir socialmente crianças e jovens, através da formação esportiva, cultural e educacional. Utilizando o skate como a principal ferramenta de transformação, acabam por ensinar não apenas o esporte, mas os nobres valores associados a ele. “O que parece mudar na atualidade é o papel e a importância que o Terceiro Setor vem tendo em diferentes países. As organizações que atuam no campo social têm assumido ao mesmo tempo funções econômicas (pois geram empregos), políticas (pois constituem espaço de exercício da cidadania) e sociais (pois permitem que as pessoas atuem visando transformar a realidade em que vivem)”. (ANDION, apud VILLAS BÔAS, 2003). No Brasil há duas importantes ONGs que realizam esse tipo de trabalho através do skate, são elas a ONG Social Skate e Skate Solidário, respectivamente localizadas em Poá e São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. As duas têm a missão de desenvolver valores de ética e cidadania entre os jovens, preparando-os para a vida. A ONG Skate Solidário surgiu em 2006, idealizada e fundada por Marcelo Azevedo, junto a um grupo de pessoas atuantes em diferentes áreas, entre eles empresários de recursos humanos, paisagista, enfermeiros, fisioterapeuta, professores de educação física, pedagogos, atletas da atualidade entre outros parceiros profissionais. O grupo se uniu para formar uma entidade que transformasse a realidade de crianças e adolescentes, contribuindo na formação social, esportiva, educacional e cultural. Atualmente realizamos visitas em Creches, Lar Escolas e Escolas para apresentar o esporte e interagir com as comunidades, levando educação, respeito, amor e dignidade em nossas passagens. Contamos com a

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experiência aliada à juventude e coragem para novamente ampliar este esporte na Região, no Estado e no País (SOARES, 2016).

Figura 24: alunos do Projeto Skate Solidário. Fonte: site Facebook (2017, online). A ONG Social Skate é coordenada por Sandro Soares, o “Testinha”, importante nome no universo do skate que, antes de criar a ONG Social Skate, já estava envolvido em outras ações sociais utilizando o skate como parte desse trabalho. Sandro iniciou suas atividades em um projeto social da Fundação Casa, onde ensinava a cultura e a prática do skate para os internos. Sua saída do projeto, após dez anos de trabalho, deu início à ONG Social Skate, novamente dando aulas do esporte para a comunidade. Seu ativismo social lhe garantiu uma coluna na revista Tribo Skate, intitulada “manobra do bem”, onde escreveu por alguns anos sobre skate, valores e projetos sociais. Em suas próprias palavras, ele relata o início da ONG:

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“Quando começamos quase que somente por lazer a colocar uma rampinha de skate em frente a nossa casa para nossos filhos brincarem, foram chegando crianças e mais crianças querendo experimentar, porém chegaram aqui com alguns vícios que foram prontamente notados pela nossa pedagoga Leila Vieira. Eram crianças que não sabiam esperar sua vez de usar o skate, fazendo valer a lei do mais forte, utilizavam palavrões irreproduzíveis aqui neste texto, entre outros vícios que nem percebiam que possuíam”. Com base nos estudos de Carlini (2007), uma ONG segue os modelos de uma empresa com fins comerciais, que visa lucro, já que possui seus custos fixos, como funcionários, materiais e infraestrutura. Uma organização que visa inclusão social de pessoas desfavorecidas também precisa de “planejamento estratégico gerencial e aplicar ferramentas que são indispensáveis em qualquer empresa, como Plano de Marketing, o controle de qualidade, um departamento financeiro que faz um controle rígido das contas e uma logística eficiente”. Villas Bôas (2003) explica a grande dificuldade enfrentada pelas ONGs, pois “toda organização sem fins lucrativos para viabilizar sua missão e seus projetos precisa obter recursos. Assim, a captação de recursos é um dos maiores desafios que as organizações do Terceiro Setor enfrentam na atualidade”. Uma maneira de se obter recursos é a parceria com empresas privadas, há casos de marcas que patrocinam ONGs para associar sua imagem com a de responsabilidade social. Para Melo Neto (2013), “no campo social, o maior benefício e motivação para a empresa é o reconhecimento e a credibilidade obtidos. Todos admiram uma empresa-cidadã, que exerce plenamente a sua responsabilidade social”. A ONG Social Skate tem um histórico de colaboração com empresas do

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ramo de skate, e já foram produzidos modelos de tênis e shapes com o logotipo da entidade. Os shapes foram produzidos pela marca Drop Dead, já o tênis foi uma parceria realizada com a marca OUS, que reverteu a renda para manutenção da ONG.

Figura 25: Tênis da marca Ous, modelo ONG Social Skate. Fonte: site Ous (2016, online).

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CAPÍTULO 4

O SKATE E CONCEPÇÃO DE MARCA E CONSUMO IDENTIDADE Os skatistas possuem uma identidade única, formadores de uma expressiva tribo urbana, construíram um universo cultural em torno do esporte. O skate se distingue dos outros esportes pelo estilo de vida criado por seus praticantes e o modo particular de se vestirem, serve de identificação entre si. As referências trazidas dos diferentes gêneros musicais remetem também a suas personalidades. A própria maneira de interpretarem a cidade é algo muito singular, são transformadores, enxergam o cenário urbano como se fosse um grande parque de diversões para seus skates. Objetos rotineiros se transformam em obstáculos para suas manobras. Um movimento expressivo difícil de ser explicado para quem não compartilha deste universo, pois é cheio de signos próprios, capazes de serem entendidos apenas pelos integrantes dessa tribo. Os skatistas possuem um vocabulário particular repleto de gírias, sendo costume se identificarem, uns aos outros, pelos seus apelidos. Bento (2012) argumenta que apesar de os skatistas estarem unidos pela prática (e talvez até por um mesmo gosto por desafiar o que está estabelecido), eles não formam um grupo coeso e único, mas reúnemse sob esse nome diferentes subgrupos, cada um com características particulares. Hall (2005) explica que houve uma transformação no tempo pós-moderno, alterando as velhas identidades, que estão em declínio e

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fazendo surgir novas identidades, que caracterizam o indivíduo moderno como fragmentado, antes visto como um sujeito unificado. Para analisar as identidades dos skatitas, é necessário analisar seu surgimento. O surfe influenciou as primeiras gerações de skatistas e, segundo Brandão (2011), é possível notar no que pode ser o primeiro registro cinematográfico da prática do skate, o curta Skaterdater de 1965, responsável por introduzir o skate no mundo. O contexto se desenvolve ao redor do cenário central da trama, que acontece nas ladeiras de Venice Beach, na Califórnia, local onde nasceu o skate. Na trama, jovens andam descalços sobre seus skates, imitando os movimentos utilizados por surfistas nas ondas, acompanhados por uma trilha sonora surf-music. Brandão (2011, p.11) explica: No caso do skate, após seu desmembramento do surfe, seus praticantes passariam a ser social e culturalmente identificados, num processo de individualização social, como skatistas – fato que facilitará certa homogeneidade de representações sobre o grupo que pratica o skate para além das especificidades de cada praticante.

Figura 26: Woody Woodward, o membro mais jovem do Makaha e Hobie Skateboard Clubs. Fonte: site Skateboarding Hall of Fame (2013, online).

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Na década de 70, o skate foi fortemente influenciado pelo grupo de skatistas Z-boys, que faziam parte da equipe Zephyr, uma loja de surf e skate. Integrada por doze jovens, entre eles uma garota, o grupo era de uma região menos abastada, ao sul de Los Angeles, denominada “Dogtown”. Considerados os skatistas mais influentes da história, os Z-boys revolucionaram o esporte, por iniciarem o costume de invadir casas para andar de skate nas piscinas vazias. Aguiar (2008) esclarece que as piscinas ficavam vazias no período de seca e por possuir as paredes em curva possibilitavam manobras, dando início a categoria vertical que se desenvolveu posteriormente para os Half-pipes.

Figura 27: Integrante dos Z-boys, Tony Alva, andando de skate em uma piscina, 1978. Fonte: site Skateboarding Hall of Fame (2009, online). Baseado nas análises de Brandão (2009), que destaca traços da cultura de Dogtown, pode-se notar a contribuição desse local para o desenvolvimento

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da cultura do skate. O pesquisador traça características como os corpos tatuados, paredes grafitadas, cabelos compridos e roupas coloridas. A influência dos Z-boys é parte do universo do skate, sendo interessante destacar que características desse seleto grupo podem ser vistas na identidade de alguns skatistas atualmente. Podemos entender que o grafite está presente no universo do skate, pois, apesar de diferentes, juntos compõem parte da cultura urbana. É muito comum pistas de skate, públicas principalmente, possuírem grafites, pichações e assinatura dos ‘locais’. Os ‘locais’ são os skatistas que frequentam constantemente o lugar onde se encontra a pista, é lá que passam o maior tempo andando de skate e se divertindo com os amigos, resultando na criação de um vínculo emocional. A assinatura em forma de grafite ou pichação significa que determinado skatista ou grupo predomina naquele território, implicando que estrangeiros possam visitar o local naturalmente, desde que tenham respeito pelo mesmo. O skatista profissional Xaparral (2014), quando questionado sobre pichações feitas na Praça Roosevelt, respondeu, “não me incomodo com a pichação, porque é uma forma de expressão, mas o grafite é bem-vindo, ainda mais se retratar a cena da praça”.

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Figura 28: Skatista na pista de skate, André Hiena, na região da Saúde, SP. Fonte: site Cemporcento Skate (2017, online). Para Vianna (2010), desde seu início, o skate se mostrava mais como uma cultura urbana, um movimento social, do que simplesmente uma atividade física; na década de 60 era o surf do asfalto, na década de 70, tornou-se parte da contra cultura da juventude. Já nos anos 80, segundo Brandão (2008),a cultura punk, apesar de não ter nascido no Brasil, acabou sendo incorporada por diversos jovens que encontraram nela uma forma alternativa de se posicionar frente à vida. O fato é, entretanto, que o punk se colocou como mais um elemento identitário da cultura do skate, sendo absorvido por diversos praticantes dessa modalidade durante os anos de

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1980. Outro movimento importante no universo do skate foi a cultura hip-hop na década de 90, que cultuava grupos de rap. Ao longo dos anos, os skatistas foram conquistando seu espaço na sociedade, deixando de lado a imagem negativa que foram a eles associadas. Para Machado (2011), o skate foi proibido no Parque do Ibirapuera, pois sua prática carregava o rótulo de “marginal” e “transgressora”. Apesar de toda evolução, foram necessários anos para acabar com esse rótulo criado sobre o skatista, existindo até os dias atuais certo preconceito de uma minoria que enxerga a prática como vandalismo e depredação de patrimônio público. A identidade dos skatistas se fundamentou com base na associação da própria atividade física aos elementos externos, como a cultura jovem, urbana, musical e política. Aguiar (2008) explica que a sua prática incomum e perigosa, e a aproximação com outras culturas, ao lado da “má reputação” atribuída por outras pessoas, foram responsáveis pela formação do caráter dos skatistas, insólito se comparado aos de outros atletas. Ao utilizar a identidade cultural na pós-modernidade, pode-se explicar algumas questões sobre o desenvolvimento das identidades no universo do skate. Para Hall (2005), a globalização significa romper fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em uma reorganização das relações espaço-tempo. Hoje, skatistas do mundo todo se conectam por redes sociais e têm acesso a tudo que é colocado nas redes. É possível notar como isso ampliou e enriqueceu o universo do skate, por exemplo, um skatista brasileiro pode acompanhar as tendências dos skatistas de, basicamente, qualquer outro país, e com isso, descobrir novas identidades. A identidade plenamente unificada, completa, segura e

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coerente é uma fantasia. Ao invés disso, à medida que os sistemas de significação e representação cultural se multiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao menos temporariamente (HALL, 2005, p.13).

Figura 29: Skatistas da marca Plural, “uma marca de shapes inspirada na pluralidade do skate e na singularidade de todos aqueles que andam de Skate”. Fonte: site Cemporcento Skate (2016, online). É importante ressaltar que a identidade do skatista e sua imagem não podem ser generalizadas à determinada roupa, estilo musical ou qualquer outra característica. O universo do skate se expandiu e é atualmente composto por uma heterogeneidade muito grande de culturas, tornando impossível classificá-lo ou introduzi-lo a determinado estereótipo.

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CONSUMO Como visto anteriormente, foram apresentadas as identidades inseridas no universo do skate, com a finalidade de entender a diversidade de estilos e dessemelhanças entre skatistas. Vamos ver agora o que é consumo e como ele está inserido no mercado de skate. A questão de identidade serve para explicar que o consumo vai além do indivíduo satisfazer suas necessidades, ele busca uma complementação e algo que o classifique diante de uma posição social. Para McCracken (2012), os bens de consumo são um importante meio de nossa sociedade. É neles que depositamos nossos significados públicos e privados, que usamos para definir a nós mesmos. Para ele, os bens de consumo são alguns dos mais importantes moldes para a personalidade. Estamos sempre à procura de algo que nos satisfaça, por isso consumimos produtos que agreguem algo ao nosso íntimo. Perez (2004) explica o consumo através das marcas, uma vez que esta confere status diferenciado e ao passo que ao usarmos e consumirmos um determinado produto de certa marca, estamos nos posicionando socialmente e declarando quem somos, do que gostamos, o que valorizamos, e assim por diante. Porém, Bauman (2001) ressalta os perigos do consumismo presentes nas identidades pósmodernas, pois o que é uma atividade de prazer pode se tornar um vício, interferindo de maneira negativa na vida dos consumidores. Há em suma, razões mais que suficientes para “ir às compras”. Qualquer explicação da obsessão de comprar que se reduza a uma causa única está arriscada a ser um erro. As interpretações comuns do comprar compulsivo como manifestação da revolução pós-moderna dos valores, a tendência a representar o vício das compras como manifestação aberta de instintos materialistas

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e hedonistas adormecidos, ou como produto de uma “conspiração comercial” que é uma incitação artificial (e cheia de arte) à busca do prazer como propósito máximo da vida, capturam na melhor das hipóteses apenas parte da verdade. Outra parte, e necessário complemento de todas essas explicações, é que a compulsão-transformadaem-vício de compra é uma luta morro acima contra a incerteza aguda e enervante e contra um sentimento de insegurança incômodo e estupidificante (2001, p.95). Quando skatistas consomem determinado produto, eles estão à procura de algo que os diferencie, que transmita uma mensagem do que eles são para outras pessoas, inclusive outros skatistas. Geralmente, os skatistas escolhem os produtos de acordo com o que seu ídolo consome, por isso, o fato dos pro-models serem comercializados. O design gráfico estampado no skate transmite a mensagem que o atleta patrocinado deseja passar para o público consumidor, algo relacionado a sua identidade. Aguiar (2008) explica características de consumo de skatitas: Isso tudo pode despertar uma inventividade no praticante de skate que é refletida nas suas atitudes, naquilo que é consumido pela maior parte dos integrantes da tribo − geralmente opções diferentes daquelas escolhidas por outros esportistas ou pessoas de fora da comunidade: o tipo de música que ouvem, as roupas que vestem, os locais que frequentam (embora hoje em dia seja difícil falar em estereótipo, por conta da dimensão que o esporte tomou, ainda existem certas opiniões que são unânimes ou, pelo menos, adotadas pela maioria)... − e no design gráfico de sua indústria. Talvez devido a essa criatividade incomum e a tudo que envolve a sua cultura, os skatistas dêem tanto valor ao design e sejam exigentes em relação a ele a ponto de se atingir uma linguagem gráfica singular, compreendida apenas por quem faz parte do cenário. Por receber influências de diferentes fontes e ser um dos meios

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de expressão de um conjunto de valores identitários, o design deve conter referências suficientes para que os skatistas (os consumidores) distingam ali a sua realidade retratada e se identifiquem com o produto em questão, dando-lhe uma espécie de atestado de autenticidade (2008, p. 28).

Figura 30: Skatista, músico e artista, Sesper produziu uma linha de shapes em parceria com a marca Drop Dead. Fonte: site Drop Dead (2016, online). O skate é formado por um conjunto de diferentes peças, sendo algumas essenciais para sua utilização como: lixa, shape ou deck (tábua), trucks (eixos), parafusos, rodas e rolamentos. Além dessas, são comercializados no mercado muitos outros acessórios que estão associados à sua prática, como vestimentas skatewear, equipamentos de segurança, entre outros produtos. Para Aguiar (2008), o design gráfico desenvolvido na indústria do skate se estabelece em definitivo como um instrumento identitário do grupo que o utiliza, servindo tanto para caracterizar o skatista quanto para situar sua tribo como única perante outros grupos sociais. As características encontradas nas artes das pranchas foram adaptadas para as identidades visuais das empresas (logos, propaganda, etc.) e para os demais acessórios produzidos pela indústria.

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Figura 31: Shape Thronn com design gráfico produzido pelo renomado artista Billy Argel. Fonte: site Cemporcento Skate (2009, online). Outro ponto a ser destacado sobre consumo é a maneira como vemos a imagem do esporte sendo incorporada a publicidades de marcas externas ao universo do skate, tais como bebidas energéticas, achocolatados, desodorantes, entre outros. Isso afirma que a imagem do esporte movimenta o consumo de diversos produtos além de seu próprio contexto. Pode-se presumir o fato pela associação da imagem de prática esportiva radical à qualidade de vida. Essa estratégia serve para chamar a atenção do público que se identifica com o skate, e no caso de haver intenção de atingir o

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público jovem, pode ser uma forma eficiente, uma vez que a maioria dos praticantes está inserida nessa faixa etária. Durante minha pesquisa, fui reforçando a idéia de que existiria uma forte ligação do skate com a juventude, também por meio do consumo. Vou além: parece haver um forte indício de que exista também uma associação que liga os “produtos radicais” a temas famosos na sociedade brasileira (e por que não dizer mundial?) atual, como ecologia e qualidade de vida. Como ressalta Featherstone (1994, p. 68), “a vasta maioria das imagens, especialmente aquelas usadas para vender mercadorias por meio de anúncios, são imagens da juventude, saúde e beleza dos corpos” (UVINHA, 2001, p.87).

Figura 32: Skatista ilustra a caixa de cereal, que vende a imagem de gerar energia e disposição. Fonte: Instagram (2016, online). O skate tem um histórico de “faça você mesmo”. Os próprios skatistas iniciavam suas próprias marcas, e foi graças a eles que o mercado se desenvolveu, estando quase sempre a mercê de quem entendia do assunto. O fato de ser um mercado gerido também por skatistas, fortalece a imagem da marca, pois ele, melhor do que ninguém, sabe quais são as

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reais necessidades dos skatistas. A intransigência do “sistema” acabou fazendo com que surgisse um espírito de rebeldia e independência, culminando numa rejeição àquilo que não faça parte de seu universo ou ao que possa ser considerado establishment ou mainstream. Obviamente, devido ao crescimento do esporte − que atraiu pessoas de opiniões e origens distintas − essa rejeição não é mais a mesma se comparada a outras épocas, mas ainda se faz presente. A imagem de “maldito” ou “marginal” que se faz dos skatistas acaba sendo, portanto, assumida sem problemas, e isso inclusive é refletido na sua indústria. O skate tem um mercado voltado para um público específico e bem definido, e que busca alguma autonomia. Quem trabalha nesse mercado − incluindo os designers gráficos − geralmente também é skatista, fazendo com que os produtores sejam ao mesmo tempo consumidores. Não há a preocupação de “ceder a pressões externas” para chamar a atenção de um público diferente para o esporte e aumentar as vendas...” (AGUIAR, 2008, p.24). O consumo no universo do skate está diretamente ligado às identidades dos skatistas, o público consumidor deseja ser bem representado pelos produtos que utiliza e pelos designers gráficos presentes nos mesmos. Talvez por questão ideológica e representação, tais atletas optem por utilizar aquilo que é produzido por integrantes da sua tribo. Além de serem parte integrante do consumo de produtos e serviços presentes na sociedade, os skatistas são utilizados em campanhas publicitárias para associar a imagem de um esporte popularmente conhecido, mas alternativo.

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CONCEITO DE BRAND/MARCA O Branding é o trabalho realizado pela marca na busca de construir e consolidar sua imagem no mercado. Mais que um simples produto ou serviço, a marca deve representar algo para o consumidor, algo com que ele se identifica e consome, por suas qualidades intangíveis que proporciona. No universo do skate existem inúmeras marcas que vendem seus produtos para praticantes e simpatizantes, algumas estão há décadas nesse mercado e se consagraram, obtendo a capacidade de praticar um preço premium e gerando uma profunda lealdade de seus clientes. Kotler (2012) explica que o Branding existe há séculos como forma de distinguir produtos de diferentes fabricantes. Para ele, atualmente, as marcas possuem diversos papéis importantes, facilitando a vida dos consumidores e incrementando o valor financeiro da empresa. Um dos ativos intangíveis mais valiosos de uma empresa é sua marca, e compete ao marketing gerenciar adequadamente seu valor. Desenvolver uma marca forte é tanto uma arte quanto uma ciência. Requer planejamento cuidadoso e profundo comprometimento de longo prazo, além de um marketing planejado e executado com criatividade. Marcas fortes geram intensa fidelidade do consumidor – e sua essência é um excelente produto (2012, p.257). Além da definição de Branding citada, Melo Neto (2013) completa o conceito aplicado ao marketing esportivo ao abordar um sentido mais amplo da estratégia, afirmando que, no esporte, tudo se transforma em marcas, as entidades (federações e confederações), atletas, eventos, equipes, complexos esportivos e até estilos, tudo isso passa a ter uma identidade própria.

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A marca americana Vans é um exemplo interessante para explicar o conceito de Brand. Fundada em 1966, iniciou sua produção fabricando tênis com solado vulcanizado, e tempos depois acabou conquistando skatistas pelo fato do calçado possuir uma sola grossa de borracha que aderia nas lixas e facilitava as manobras. Na década de 70, a marca popularizou-se na Califórnia, tendo desenvolvido um modelo chamado “Era” ao lado dos skatistas mais populares da época, Tony Alva e Stacy Peralta, originais Z-boys. Posteriormente, na década de 80, tornou-se ícone das gerações Punk Rock e Hard Rock. Diversas bandas famosas da época aderiram aos tênis, além do ator Sean Penn, no filme Fast Times at Ridgemont High (Picardias Estudantis), gerando notoriedade internacional para a marca.

Figura 33: Modelos clássicos, slip-on e sk8-hi. Fonte: blog Mundo das Marcas (2012, online). Alguns dos skatistas mais influentes da história foram patrocinados e continuam fazendo parte da marca, hoje designados como Legend, é o caso de Tony Alva, Christian Hosoi, Steve Caballero, Jeff Grosso, John Cardiel, Ray Barbee e o brasileiro Daniel Kim. Atualmente, o time nacional é composto por importantes nomes como: Lucas Xaparral, Pedro Barros,

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Ricardo Dexter, Vi Kakinho, Marlon Silva, Danilo do Rosário, Giovanni Vianna, Yndiara Asp e Dora Varella.

Figura 34: Pro-model de tênis Pedro Barros. Fonte: site da Vans (2016, online). Uma série de modelos de tênis produzidos no início da marca continuam sendo comercializado sem maiores mudanças em seu design e apresentam uma identidade visual única e inconfundível, mas o mais impressionante é que continuam extremamente populares inclusive para quem não possui nenhum contato com o skate. A Vans é uma das poucas marcas que se enquadra em praticamente todos os conceitos de estratégia de Branding esportivo do autor Melo Neto, indo além do esporte, e se transformando em uma identidade. Patrocinando skatistas como Hosoi, cheio de personalidade e uma identidade única que influencia diversas gerações, a Vans associa sua marca a de grandes

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ícones. Não se restringindo apenas ao esporte, colabora com bandas como Metallica e o músico Henry Rollins. Possui sua própria skatepark na Califórnia, onde realiza o famoso campeonato anual Vans Combi Pool, além de produzir outros eventos como o Vans Park Series, competição com uma série de etapas realizada em diversos países, incluindo o Brasil.

Figura 35: Propaganda veiculada na revista Tribo Skate, edição 182, 2010. As marcas associadas ao universo do skate estão muito mais ligadas à representação de estilo de vida, do que simplesmente a produtos ou serviços. O fato das marcas divulgarem skatistas cheios de personalidade,

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produzindo seus famosos pro-models, marcou gerações que não se esquecem do design gráfico estampado no shape do seu atleta favorito. Criando uma relação identitária por parte dos consumidores com as marcas ao se sentirem mais representados socialmente. A partir de uma base comum, a cultura skate, há diversas possibilidades de posicionamentos para as marcas skatewear. Geralmente, as marcas buscam se diferenciar, mas sem se afastar dos valores do público consumidor, que é composto por indivíduos jovens com predomínio do gênero masculino. As características comuns são a juventude, irreverência e o gosto pela prática do skate, implicando também na aceitação de um estilo de vida e de comportamento, que vem se sedimentando nos últimos cinqüenta anos. Independente de suas estratégias e estilos de diferenciação, as marcas skatewear são normalmente situadas no campo das “dream brands”, pois os apelos de seus produtos são mais emocionais e simbólicos do que utilitários, caracterizando-se como setores típicos da indústria de bens culturais (TEIXEIRA E CASTILHO, 2010, p. 6).

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CAPÍTULO 5

ENTREVISTAS SKATE Léo Fagundes, skatista natural de Natal, RN, veio morar em São Paulo para seguir seu sonho de viver do mercado de skate. Foi flow da marca Zero, trazida por meio de uma distribuidora (quando a marca não atua diretamente no país), que o contratou de forma indireta, oferecendo apoio de produtos, como shapes, rodas e roupas da mesma marca. Segundo ele, ser flow é uma forma do empresário cortar facilmente os vínculos com os atletas, por não possuírem contrato.

Figura 36: Léo Fagundes andando de skate em uma mini-ramp. Fonte: Facebook (2016, online).

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O profissionalismo no Brasil é diferente do mercado americano. Nos Estados Unidos, os skatistas passam de amador para profissional quando as marcas desejam, sem a necessidade de serem aceitos por uma entidade como a CBSK. Em nosso país, a demora para a conquista do profissionalismo por parte dos skatistas faz com que muitos desistam da vida no skate, porém, alguns atletas conseguem realizar tal feito, conseguindo viver do esporte. As competições profissionais premiam os atletas em dinheiro, oferecendo para alguns uma renda extra de acordo com seu desempenho. Outro fator que gera lucros para os skatistas são os pro-models, pelo qual eles recebem royalties. Léo explica que desde que o esporte chegou ao Brasil, a influência americana é muito grande, pelo fato de os EUA ser o país original do skate. Segundo ele, nosso mercado está atrasado, os skatistas brasileiros não são valorizados e os produtos têm menos qualidade. São Paulo é a capital do skate, skatistas de outras regiões têm dificuldade em viver do esporte, pois não conseguem estar presentes constantemente nas principais mídias e o número de eventos é muito menor. Os skatistas divulgam seu trabalho por fotos e vídeos, é uma relação antiga que sempre esteve envolvida no meio do skate e se transformou em uma ferramenta para o profissionalismo do esporte. A maioria dos skatistas gosta de registrar suas manobras, porém alguns criticam a maneira de trabalhar com skate, afirmando que ele perde sua essência de diversão quando se torna um compromisso.

SOCIAL Antes de a ONG Social Skate existir, Sandro Soares “Testinha” já era

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famoso por suas atividades de reconstrução na vida de jovens. Foram anos ensinando skate para jovens da Fundação Casa, antes de iniciar o projeto da ONG. No período que permaneceu na instituição, Sandro escrevia uma coluna para a revista Tribo Skate, intitulada “Manobra do bem”, onde contava sobre seu trabalho, algumas histórias e divulgava outros projetos sociais interessantes, vindos de todo Brasil. Após ser demitido da Fundação Casa, iniciou as atividades da ONG Social Skate, com a ajuda de sua esposa Leila Soares. Sem muita pretensão, os dois começaram a dar aulas para crianças e jovens na porta da própria casa, na região de Calmom Vianna, Poá. Foi assim que a entidade evoluiu. Em 2014, a ONG participou da estreia do quadro ‘Um por todos e todos por um’, do programa Caldeirão do Huck. Na época a sede foi completamente reformada e preparada para receber os alunos com mais estrutura.

Figura 37: Sandro e Leila. Fonte: Facebook ONG Social Skate (2016, online).

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Compareci duas vezes ao local das atividades, a primeira em 2016 e outra no ínicio de 2017, nas duas ocasiões pude conversar abertamente com Sandro e Leila, figuras humildes e carismáticas, muito receptivos a visitas, recebem todos com o mesmo carinho que tratam seus alunos. Os visitantes podem acompanhar livremente as atividades, tanto em frente à ONG no local de reunião quanto nas quadras, onde ocorrem as atividades.

Figura 38: Sede da ONG. Fonte: Blog Skateholic (2015, online). Acompanhei a rotina de trabalho desde o início, a partir do momento em que é posta a mesa de café da manhã na rua à espera dos primeiros alunos. São servidas frutas e bebidas para quem estiver presente, seja aluno ou visitante, e próximo das 9h da manhã começa a concentração de pessoas em frente à sede da ONG. Um ambiente descontraído, cheio de crianças e jovens, todos ansiosos para começar as atividades, alguns não conseguem se conter e ficam brincando com seus skates. A reunião começa com Testinha e Leila tratando de assuntos rotineiros da ONG e dando lições de ética e valores para os presentes, em seguida, todos

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seguem para a quadra para início das aulas. Infelizmente, a quadra não é bem cuidada pela prefeitura, os jovens têm que se reunir para limpeza do local. Em seguida transportam as rampas, que ficam guardadas em um galpão próximo; em dias de chuva o local fica cheio de poças. Porém, nenhum menino reclama, na verdade, correm para começar a andar de skate. Os mais velhos que já sabem andar de skate, se organizam e ficam sem supervisão, já os pequenos se dividem. Leila fica em uma quadra sem cobertura, realizando atividades didáticas sem utilização do skate. Sandro divide o espaço da quadra coberta com os mais jovens, metade dos obstáculos atende às crianças que estão dando seus primeiros passos em cima do skate e necessitam de auxílio.

Figura 39: Quadra utilizada para as aulas. Fonte: Tribo Skate (2015, online). Próximo ao meio-dia, as atividades se encerram, os mais jovens ainda permanecem um pouco mais de tempo, onde se divertem e competem entre

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si para ver quem consegue realizar a melhor manobra em determinado obstáculo. Assim que finalizam, guardam novamente as rampas e se dirigem à sede da ONG, onde há frutas e água para se alimentarem. Nesse momento é distribuído material, que chega por meio de doações, infelizmente, além da escassez, alguns não atendem às necessidades do skate. Em conversa com Sandro, ele diz ajudar a todos, mas há prioridade para os alunos exemplares na escola, em família e dedicados ao skate. Apesar de a crise afetar as doações, sempre há amigos e até mesmo marcas que auxiliam a ONG, ele diz que não há contrato firmado e nem periodicidade para receber materiais. Sandro e Leila são exemplos de bons cidadãos, realizam um trabalho tão nobre com tão pouco. O otimismo de Testinha é algo enobrecedor, enxergar um futuro melhor na vida de crianças e jovens que se divertem com o skate e os ensinamentos passados para que um dia elas alcancem o sucesso em suas vidas.

MÍDIA Guilhermo Guillis, 27 anos, é skatista há 17 anos e videomaker há aproximadamente 11 anos. Integrante da revista Cemporcento Skate, ele é responsável por parte do material audiovisual e fotográfico divulgado nas revistas e rede, recentemente produziu o filme Duzento2, em comemoração a edição 200 da revista. As mídias impressas são para Guillis uma parte documental importante para a história do skate, afinal, é lá que estão arquivadas informações da era pré-internet. O avanço da internet permite que mais informações sejam compartilhadas, porém, com a oportunidade de qualquer um criar

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seu próprio conteúdo, a mídia especializada vem perdendo seu espaço, tendo mais concorrentes. Guillis expõe alguns problemas sofridos pelos skatistas, que na maioria das vezes não possuem contrato, e mesmo aqueles que recebem salários não conseguem manter um padrão de vida suficiente para obter uma casa própria. Infelizmente, as empresas lucram muito com vendas, mas o dinheiro não chega até alguns skatistas patrocinados pelas marcas.

Figura 40: Guilhermo Guillis. Fonte: Facebook. (2016, online) O mercado de skate está em evolução, até questões como o reconhecimento dos skatistas está evoluindo, com mais gente preparada trabalhando na área. Porém, continua recebendo forte influência das tendências internacionais em diversos setores do skate. Algumas marcas inseridas no mercado desejam manter e fortalecer a cultura do skate, enquanto outras estão apenas trabalhando pelo seu próprio negócio. Os eventos estão evoluindo, cada vez mais organizados e sempre à procura de algo melhor.

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Figura 41: Guilhermo Guillis filmando skatista. Fonte: Facebook. (2016, online) Para ele, a cultura do skate ĂŠ importante para os jovens conhecerem o sentimento de viver e conhecerem novos lugares e pessoas. Isso ĂŠ o que retratam os filmes de skate, a amizade dos skatistas, e a procura por novos lugares para manobrar. Para a marca, ĂŠ uma forma de expressar sua identidade e divulgar seus atletas utilizando seus produtos. Para o skatista e produtor, ĂŠ uma forma de deixar seu legado, sua obra-prima,

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algo que foram dedicados, às vezes, anos de trabalho contínuo. O filme Duzento2 retrata bem a identidade da Cemporcento Skate, filmando diversos skatistas que passaram pelas páginas das revistas, fazendo um paralelo com as antigas gerações que participaram dos primeiros vídeos da marca.

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FINALIZANDO... A história do skate nos mostra que este universo se difundiu com base no desenvolvimento das mídias e marcas que influenciavam o público skatista. O mercado brasileiro, que sofreu com os plágios, se desenvolveu, porém continua seguindo (talvez, sofrendo influência) as tendências internacionais, inclusive os produtos importados causam a percepção de qualidade mais elevada. O mercado de skate se utiliza de diversas estratégias de marketing, desde promoção de eventos, comunicação em mídias específicas e patrocínio de atletas. A identidade do skatista está relacionada a diferentes tribos inseridas neste universo, porém alguns padrões comportamentais os agregam a um grupo único, que partilha de uma cultura de rua e um estilo de vida. A comunicação está diretamente relacionada ao sucesso do mercado, através dela são divulgados os skatistas que influenciam e promovem as vendas. Os eventos de sucesso são noticiados por grandes transmissoras de notícia, e a explosão de popularidade levou o skate para canais de TV aberta, onde é frequentemente noticiado. O Branding é uma das principais estratégias de marketing utilizado pelas empresas. As marcas transmitem emoção e passam a fazer parte da cultura do skate, devido ao patrocínio de atletas, o que fortalece sua imagem, ao se associar a personalidades influentes e com bons desempenhos. O número de skatistas cresce de forma gradativa, o esporte chega à regiões mais distantes das grandes metrópoles do país e, consequentemente, seu mercado se desenvolve em paralelo. Apesar do crescimento do mercado, muitos skatistas ainda sofrem com a qualidade de trabalho, e por possuírem

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contratos frágeis e não oferecerem segurança para os atletas, alguns recebem baixos salários que não proporcionarão uma aposentadoria após o profissionalismo. A partir das entrevistas, foi possível concluir que o mercado de skate é um ambiente muito disputado e, apesar de São Paulo ter grande importância no cenário mercadológico, muitos skatistas passam dificuldades para se manterem dentro do esporte. Porém, o skate é uma cultura que também transmite mensagens, seja de superação no esporte, quando alguma manobra é alcançada, seja na vida, ao superarem os obstáculos que ela impõe. É possível perceber, através das entrevistas, que a cultura do skate prega a mensagem do “faça você mesmo”, muitas vezes sem as condições necessárias para realizar algum trabalho, prevalecendo, assim, o amor ao esporte. A autorrealização de conquistar algo sólido e deixar seu próprio legado é uma maneira de inspirar outras pessoas, servindo de motivação. Léo, Guillis e Sandro são excelentes exemplos para todos skatistas, pois muitas vezes, sem auxílio de marcas, continuam obtendo resultados incríveis em seus projetos pessoais. Léo Fagundes não para de andar de skate pelo simples fato de não possuir patrocínio, sua vídeo parte “Black Tapes” é um compilado de imagens, realizadas com muito suor e carregada de uma nobre mensagem para seus conterrâneos. Guilhermo Gullis produziu um importante filme que ficará eternizado na história do skate e suas fotografias são verdadeiras obras de arte, inclusive a que estampa a capa deste livro. Sandro “Testinha” e Leila Soares são outros exemplos de transformadores, ao mudarem o rumo da vida de jovens e crianças simplesmente com o amor e a vontade de ajudálos, sem esperar por auxílio externo ou reconhecimento.

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FILMES

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VIANNA, Alexandre. DIRTY MONEY – UMA GERAÇÃO QUE TRANSFORMOU O SKATE NO BRASIL. Direção: Alexandre Vianna e Ricardo Koraicho. Brasil. Visual Plasures, 2010, 48 min.

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GLOSSÁRIO Andar de skate: ato correspondente à prática do skate Banks: pista de skate em formato de cápsula Bowl: pista de skate similar a uma piscina americana Carrinho: skates Demos: evento com exibição de manobras realizadas por skatistas patrocinados Downhill Slide: categoria de descida de ladeiras com manobras de deslizar Downhill Speed: categoria de descida de ladeiras Drop: descer uma rampa com o skate Establishment: a ordem ideológica, econômica, política e legal que constitui uma sociedade ou um Estado. Freestyle: estilo livre Half-pipe: rampa em formato de U Lifestyle: modo de vida Mainstream: convencional Mini Ramp: rampa de pequenas proporções Quarter-Pipe: apenas uma das transições do half-pipe, ou seja, um quarto de círculo Remar: ato de dar impulso no skate Shape: tábua de madeira do skate Skateparks: pista de skate Skatevael: possível de se praticar skate Signo: “é alguma coisa que representa algo a alguém” - Charles Sanders Peirce Street: modalidade de skate praticada na rua Trucks: eixos de base Vertical: skate praticado em rampas com transições que vão do plano horizontal para o vertical Videomaker: responsável por fazer registros de skate Workshop:palestra

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APÊNDICE Entrevista realizada com Sandro Testinha Meu nome é Sando Soares Testinha, tenho 39 anos, skatista há 25 e há 17 anos envolvido com causas do skate. A ONG Social Skate existe há seis anos e está localizada no bairro de Calmon Viana, Poá. Ela atende de forma gratuita cerca de 150 crianças aos finais de semana com atividades de skate, acompanhamento escolar e familiar. O intuito da ONG, além de promover o esporte, o skate, também é orientar as crianças sobre a importância do praticante estar estudando, aprimorando o conhecimento dele cada vez mais, para que no futuro ele continue andando de skate e seja um apaixonado por skate, mas que ele possa cursar uma faculdade também, que ele possa ter uma profissão, se enquadrar no mercado de trabalho. A gente quer que no futuro tenham médicos skatistas, engenheiros skatistas, advogados skatistas e fazemos isso com poucos recursos, utilizando uma quadra que está abandonada pelo poder público, é um espaço ocioso que a gente ocupou. Todo final de semana, montamos uma pista com obstáculos de madeira, são obstáculos móveis, onde a molecada mesma limpa a quadra antes de usar, monta a pista e anda de skate. Aqui a gente trabalha com um público dividido, que a gente chama de público infantil, de 6 a 12 anos e o público adolescente, que vai de 14 a 17 anos, apesar de que hoje também temos maiores de idade. A gente promove as atividades de uma forma coletiva, em que eles utilizam o espaço, mas respeitando o espaço de cada um e o porte físico de cada um. Algumas características peculiares que a gente tenta implantar aqui são a não utilização de palavrão, bullying e contato físico, “brincadeira

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de mão”, conhecida popularmente, dessa forma a gente acha que está criando, através do skate, uma sociedade melhor. Tratando-se de mercado do skate, a gente coloca para eles que, seguindo esse caminho, eles com suas profissões, vão poder ter a sua remuneração no futuro, comprar na loja que quiser, o produto que quiser e puder, andar de skate no lugar que eles quiserem. É tentar, mesmo dentro de uma sociedade consumista, capitalista, que eles utilizem isso da melhor forma possível para eles e na prática do skate, que é a modalidade que eles escolheram praticar conosco aqui. Estamos muito felizes com o resultado que temos atingido ao longo desses 6 anos em que a ONG está oficializada aqui em Calmom Viana. Acho que o caminho é interessante, uma vertente dentro do skate em que acaba influenciando no contexto geral, tanto no mercado quanto na forma de praticar, na forma em que um skatista deve ser visto com um olhar mais social mesmo, dele ser integrado à sociedade, não ser mais um marginal. O skate foi por muitos anos considerado um esporte marginal, onde seus praticantes viviam à margem da sociedade, então é uma colaboração que nós tentamos dar e estamos felizes com a forma que ela está sendo dada. Como são arrecadados fundos? A Social Skate não recebe nem recursos públicos nem privados, ela basicamente é mantida através do meu trabalho, em particular, e da Leila, que é pedagoga, professora formada, também com doações que vêm de diversas áreas, do skatista que é nosso amigo, do empresário que faz doações esporádicas, mas não pontuais. Fazemos campanhas e temos alguns produtos, camiseta da ONG, boné da ONG, a gente vai vendendo e arrecadando recursos. A gente classifica nosso trabalho como autossustentável. É um trabalho independente, se uma das vertentes que

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nos ajuda hoje parar de ajudar, tem outra, se a outra parar, tem a terceira e assim nós vamos nos mantendo, de maneira autossustentável. Qual a importância de você escrever mensalmente para a revista Tribo Skate? Na verdade, enquanto estive com a coluna na revista Tribo Skate, a revista com mais tempo de atuação consecutiva no Brasil, percebi que foi antes da ONG que comecei a escrever, e foi bacana porque foi numa era préinternet. O único meio de divulgação do skate brasileiro era através das revistas especializadas, no caso uma delas, a Tribo Skate. Então ela foi importante para podermos passar a mensagem para o resto do Brasil. A gente recebia muito e-mail, muitas cartas das pessoas que queriam ter seu projeto social divulgado na revista, então foi um período importante que se encerrou de uma forma amigável, de uma forma bacana, até porque eu comecei outro trabalho e não dava para manter os dois. Quando começou a internet ficou mais fácil a comunicação entre todos, não necessitando tanto da revista escrita, que continua até hoje. Mas a coluna foi um meio importante durante um período para a comunicação, em geral, com todo Brasil e com alguns países do mundo, aonde a revista chega também. A crise econômica atual interfere em alguma coisa? Na forma de atender mais ou menos crianças? Eu acredito que não, apesar da gente ter recebido menos doações por causa da crise, não deixamos de receber, como nunca tivemos dependência do poder público e nem da iniciativa privada, que são setores que sofreram mais com a crise, então a crise não nos atingiu. Temos até uma

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brincadeira, uma frase que a gente fala aqui é “a crise somos nós que estamos aí no dia a dia”. Você poderia comentar qual seria o futuro do skate e da ONG? Do skate, por mais que haja mudanças, haja novidades, e essas novidades demoram a ser aceitas ou não, o skate tem essa origem, aquela coisa do “andar por diversão”, o que a gente preza muito. Não estamos muito preocupados com competição, então o que mais muda no skate, hoje em dia, são as competições. Agora ele está indo para as Olímpiadas, mas para nós é indiferente, porque mantemos a chama acesa, que é o andar para nos divertir. Colocando nosso intuito educativo nele, a gente acha que o futuro do skate não interfere no da ONG. Na ONG almejamos ter um lugar melhor, mais confortável, quem sabe um dia um galpão, onde nesse galpão, além da pista de skate, tenham salas de aula, salas de curso, sala de convivência. A gente está sempre buscando um pouco de melhoria, mas enquanto as melhorias não chegam, vamos continuar do jeito que estamos, é uma maneira bem interessante e é um exemplo, né? Para mostrarmos às pessoas que basta ter um lugar, um piso, um chão que o skate possa andar e o resto depende da gente, então vamos em frente com isso!

Entrevista realizada com Guilhermo Gullis Fale, por favor, um pouco de você e do seu trabalho: Eu sou Guilhermo Guillis, tenho 27 anos, há 17 anos ando de skate e há aproximadamente 11 anos trabalho fotografando e filmando skate.

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Por causa do skate, conheci a profissão que exerço hoje. Através do skate, tive contato com o mundo das imagens (fotografia, vídeo), no qual sempre me interessei muito. As revistas eram algo que eu gostava muito, eu vim do interior, então lá a informação era escassa e as poucas revistas que existiam eram passadas de mão em mão. Quando vim morar em São Paulo, tive a chance, depois de algum tempo, de trabalhar na revista CemporcentoSKATE, onde estou até hoje. Lá eu faço o audiovisual, gravo os vídeos de skate na rua, os eventos e entrevistas. Qual a importância do skate no Brasil? Depende muito do ponto de vista. O lado comercial é muito importante para o país, pois gera uma economia grande. Tem também o lado cultural e social, inserindo os jovens em um movimento que dá mais sentido ao viver, abre grandes oportunidades de conhecer novos lugares e pessoas a todo o momento. O skate brasileiro sofre influência internacional? As mídias e o mercado também? Acredito que sofra forte influência, afinal tudo começou lá (EUA). O mercado do Brasil está quase sempre seguindo as tendências internacionais. Acredito que afeta tudo, desde a mídia até o mercado no geral. Qual a importância da mídia para o skate nacional? É uma grande importância. Antes da internet estar em alta, as informações eram compartilhadas pelas mídias impressas, pelas revistas, e grande

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parte da história do skate está inserida nessas revistas. No começo do skate no Brasil, muitas informações foram retiradas de revistas e das pessoas que viveram naquela época. Hoje em dia, com a internet, acredito que tenha pouca mídia especializada e mais conteúdo de entretenimento. A mídia especializada vem perdendo bastante força. Como é licenciamento no universo do skate? Há contratos de imagem, tanto para quem produz, quanto para quem é retratado? Acredito que o universo do skate sempre foi algo “bagunçado”, na maioria das vezes não tem contrato de imagem e, ainda pior, na maioria das vezes não se tem nem contrato de trabalho. Os valores também variam muito de pessoa para pessoa. Acredito que o skate ainda está na transição das pessoas se profissionalizarem mais nos seus setores e se posicionarem melhor em diversas situações. Qual a importância de um filme para a marca? E para o skatista? O filme é como a apresentação da marca, a linguagem que ela possui. Onde é mostrado seus skatistas patrocinados usando suas roupas, tênis ou acessórios, e o estilo de vida que interage com a proposta do que é a marca. Para o skatista tem uma importância muito forte, é algo que ele dedica todas suas forças para ser bem feito, é sua história sendo perpetuada, e mostrar para o mundo quem você é e em que você acredita é relevante. Muitas vezes acontece de um skatista estar em uma marca que não condiz com o que ele realmente acredita, e às vezes ele está ali só pela necessidade financeira.

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Qual a relação das marcas com o consumo no skate? Acho que a marca tenta entender seu público, quem quer atingir, para vender seus produtos. Alguns querem vender e manter a cultura do skate forte, outros estão apenas pelo negócio. Qual sua opinião sobre o profissionalismo dos eventos (competição/ divulgação)? Acho está evoluindo a cada ano, vejo eventos cada vez mais bem organizados pelo pessoal do skate, que vem trabalhando há anos com isso e buscando fazer algo melhor. O que você espera para o futuro do skate no Brasil? O skate vem crescendo e sua popularização também. Hoje em dia você sai na rua e sempre vê alguém com skate. Com as Olímpiadas isso irá crescer ainda mais e acho que já está se dividindo um pouco entre o lado do skate core e o pessoal que gosta mais da cultura antiga de vídeos e expressão corporal, skate como arte e estilo de vida, além do pessoal que está mais afim da ‘pegada’ de campeonatos, ser campeão etc. Mas só tende a crescer. Como a crise está afetando o mercado de skate? Não estou dentro de uma marca, mas sei que tem afetado. Acredito que sempre esteve em crise, de certa forma, no sentido de que são poucos meus amigos que vi comprarem uma casa com o dinheiro do skate. O

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mercado cresceu muito, mas o dinheiro nunca chegou na grande maioria, e talvez continuará assim por muito tempo ainda.

Entrevista realizada com Léo Fagundes Como você conheceu o skate? Comecei a andar de skate em Natal, aos 13 anos de idade. Na época era professor de capoeira, moleque ainda, dava aulas, e um dia andando de ônibus, em uma avenida que estava sendo reformada, vi uns garotos andando, essa foi a primeira vez em que eu vi um skate. No dia seguinte, fui ao supermercado e comprei um skate, comecei e andar e nunca parei. Na época, com uma galera de 5 ou 6 pessoas, durante sete anos, andamos de skate juntos, mas depois a maioria começou a parar, nós éramos praticamente os únicos da cidade. Eu já estava andando em um nível que eu sentia a necessidade de expandir mais, foi quando surgiu a ideia de vir para São Paulo, então juntei uma grana e vim. Lá não havia condição de continuar pelo mercado ou você optou vir pelos lugares que são possíveis andar em São Paulo? Eu vim pelos dois motivos, mas mais pelo mercado. Eu nunca imaginei que andaria de skate em São Paulo, nem pensei em morar, foi tudo consequência, arranjei trabalho, estudos e fui ficando. A cidade tem muitas oportunidades, então minha vida pessoal caminhou em paralelo com a do skate, por isso estou aqui até hoje. Você foi patrocinado?

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Eu andei para algumas marcas aqui em São Paulo, já faz algum tempo, eu tinha uns 10 anos de skate e foi só apoio. O fato de eu ser flow, e não ser atleta direto, fazia com que eu recebesse shapes, roupas e rodas da mesma marca. Eu era um atleta indireto, para os empresários isso é uma maneira fácil de cortar vínculos, por não existir um contrato. Foram seis meses andando para a marca Zero, que atuava no país por meio de uma distribuidora, junto à marca Fallen. Já tive outros apoios, mas esse foi o mais forte. Você pensa em voltar para sua cidade? Como é o mercado de skate em Natal? Estou desde 2008 em São Paulo, e durante esse período, Natal ficou praticamente esgotado do skate, havia apenas um ou dois skatistas, mas de repente surgiu uma marca e aqueceu o mercado novamente, ampliando o movimento e elevando o número de praticantes, um ou outro amigo que andava comigo, antigamente, voltou a andar. Gostaria de voltar pela família e pelo ritmo de vida, mas lá não é que nem aqui, se eu quiser sair na rua remando igual um louco, não dá, na verdade dá, mas é bem diferente, as ruas não têm tanto asfalto, isso que me faz ficar aqui. Apesar do mercado de Natal estar crescendo, você acha que São Paulo é o centro do skate no Brasil? E como você, muitos skatistas vêm para a cidade em busca de um sonho? Muitos e muitos skatistas vêm para São Paulo. Apesar de o mercado ter se expandido bastante, por exemplo, no Rio de Janeiro, que é uma metrópole e é aqui do lado, sempre teve bons skatistas, inclusive presentes na cena, mas lá não havia mercado, eram pouquíssimas lojas que existiam.

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As lojas a que você se refere são as que patrocinam skatistas? Sim, lojas de skate mesmo. Natal é uma cidade grande, mas antes não tinha praticamente nada, somente agora que começou a melhorar. Com as reformas da Copa, a cidade ficou completamente skatavel, tem até grupos de pessoas se mudando para lá, para ficarem andando. Então, está mudando o mercado de skate, mas o foco principal continua sendo aqui em São Paulo, porque tudo é feito aqui, as pessoas vêm para a cidade andar nos picos famosos. Curitiba também é uma cidade que cresceu muito na cena do skate, assim como, Florianópolis, Vitória, Goiânia, mas São Paulo continua e vai continuar sendo a protagonista. Aqui em São Paulo é onde está a sede das revistas, a Cemporcento Skate, a Tribo Skate, os caras do Black Media. É interessante você vir para cá com o objetivo de ser patrocinado, como se fosse nos EUA, ir para Califórnia, conhecer o pessoal das marcas. O Brasil sofre muita influência internacional? E do mercado americano? Totalmente! Na verdade, o esporte nasceu lá. Sobre o mercado, nós somos muito atrasados em relação a eles, por isso a gente sofre tanta influência. Falando sobre marketing visual e roupas, algumas coisas são criadas aqui de forma ‘underground’, possuem a cultura do Brasil envolvida. O mercado, em geral, sofre influência total. O que representou para você fazer parte de vídeos como o Flanantes, Duzento2, entre outros?

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Eu tento ao máximo estar presente para ser sempre visto e eu sempre tenho manobras minhas em vídeos de amigos. O máximo que eu posso eu mando imagens ou chamo os caras para filmar. O mais recente em que participei foi do Murilo Romão (skatista, diretor e roteirista), a sequência de filmes: Flanantes, Situacionistas e Sob a aparente desordem, três filmes com contexto documentário que tratam do tema da cidade e como ela é utilizada. Também participei de vídeos do Guillis, videomaker da Cemporcento, ele produziu o Mistotape# e vários outros vídeos. Sempre tento ter o máximo de manobras em vídeos de amigos, é sempre legal. Para você, a cultura do skate é uma parceria entre amigos? E entre esses amigos todos se ajudam? Exatamente, quando você vai a um campeonato e reencontra seus amigos de outras cidades, que você só encontra uma vez por ano, é sempre a mesma energia boa. Existe uma união, uma energia interna, que é do mundo do skate, é a parceria de todos se ajudarem. No skate também tem o movimento das crews, como os Tropicalientes de Curitiba, a Ademafia do Rio, os caras se ajudam muito, esses grupos são normais no universo do skate, como nós os Flanantes do centro de São Paulo. Eu estou sempre em contato com meus amigos, tanto que eu trabalho com alguns deles, o Didi (Diego Wanks) e o Guga (Gustavo Dias “Guguinha”), é uma relação de família. Qual a importância de ter sua vídeo parte, só sua, para o canal Black Media? Eu estava preparando uma entrevista para a revista Tribo Skate, com o

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fotógrafo Marcelo “Mug” e todas as fotos que eu fazia consequentemente eram filmadas. Como nunca tive patrocínio, nem um videomaker fixo, eu filmava com várias pessoas diferentes e minhas imagens ficavam guardadas espalhadamente. A entrevista não deu certo, então a ideia do “Mug” foi juntar tudo, editar e lançar a vídeo parte no projeto futuro dele, no caso, o canal Black Media. Juntamos tudo, eu escolhi a trilha sonora, que foi autorizada pela banda gringa que sou muito fã. Quando eu descobri que estava realmente fazendo uma vídeo parte, que sairia no site, eu me puxei muito nas manobras, mas eu queria ter feito muito mais. Quando foi colocado no site, o vídeo ‘bombou’, foi muito ‘daora’ e muito bom para o site, muita gente viu e divulgou, só teve o lado positivo. Surgiu alguma oportunidade de patrocínio? Ou apenas uma vídeo parte não é suficiente? Não surgiu nenhuma oportunidade, mas não desanimei. O que vale no skate é você produzir o material e colocar para as pessoas verem, antes que as imagens se percam ou fiquem velhas. O fato também de as pessoas da minha cidade verem que eu sou um cara de Natal, em um site nacional, isso é o mais gratificante. É a possibilidade de representar uma cidade, de onde não saíram muitos skatistas. Eu me empenho em ser um exemplo para motivar as pessoas, especialmente, da minha cidade, a fazerem as coisas. Em todas as manobras que gravei, eu fui focado em mandar a manobra mais ‘cabreira’, para estimular a galera.

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Universo do Skate  

Livro O universo do skate, relações no mercado e na comunicação. Um estudo sobre o mercado de skate brasileiro.

Universo do Skate  

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